segunda-feira, fevereiro 15, 2010

BRASIL S/A

Chineses no topo

CORREIO BRAZILIENSE - 15/02/10


Nos campos político e institucional, a China não tem nada a ensinar. A lista de malfeitos, passados e atuais, é grande

Ninguém aguenta mais ouvir falar na China. Como as celebridades de ocasião, o país passa por uma superexposição. Deveria se retirar do palco por um tempo, senão acaba reduzido a uma espécie de Geisy Arruda recauchutada. Mas o assunto é obrigatório. A revista Foreign Policy abriu um debate sobre o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) chinês em 30 anos e seu peso no mundo. A polêmica começou com um artigo do acadêmico Robert Fogel, que dividiu o Prêmio Nobel de 1993 com Douglass North por tentar explicar a evolução econômica e institucional por meio de métodos matemáticos. Fogel fez os cálculos e concluiu que, em 2040, a China vai gerar riquezas no estrondoso valor de US$ 123 trilhões.

Isso representaria três vezes mais do que o produto mundial em 2000 e levaria o país a ser responsável por 40% da economia global, já bem longe dos Estados Unidos, que minguariam para 14% e da União Europeia, com 5%. O cidadão chinês teria uma renda per capita de US$ 85 mil, mais do dobro da europeia, mas ainda abaixo da norte-americana. “É assim que o futuro será em uma geração. Isso vai acontecer mais cedo do que imaginamos”, garantiu. Neste ano, o PIB chinês pode chegar a US$ 5,5 trilhões, empurrando o Japão para o terceiro lugar no ranking. Segundo Fogel, os analistas não entendem direito o que ocorre no país. Ele cita cinco fatores que o levarão a esse salto.

1º. O enorme investimento feito em educação e capacitação profissional vai adicionar 6 pontos percentuais na taxa de crescimento anual do país, que deve fechar este ano em 9,5%. 2º. Os analistas costumam olhar só para as fábricas e o mercado financeiro, mas o setor rural, onde ainda moram 700 milhões de pessoas, é responsável por um terço da expansão atual e continuará ganhando produtividade. 3º. As estatísticas do governo subestimam o tamanho da economia, pois não capta direito o faturamento de pequenas e médias empresas, especialmente no setor de serviços. 4º. Embora a maioria pense que a política econômica é dirigida com mãos de aço pelo governo central, há um razoável nível de debate na sociedade e a maior parte das reformas é gerida localmente. 5º. A tendência consumista chinesa, reprimida por décadas, vai explodir.

O mundo está pronto?
A resposta veio nas páginas da própria FP e ficou a cargo de Nicholas Consonery, especialista em China da consultoria Eurasia Group. Segundo ele, Fogel convenientemente diminuiu a importância de sérios problemas que ameaçam o desenvolvimento chinês, confiando demais na habilidade do governo de superar os enormes desafios políticos, econômicos e ambientais. Além disso, baseia as projeções no crescimento recorde atual, que pode não se repetir. Consonery apresenta alguns argumentos. A crise global estancou o processo de liberalização na China e fortaleceu o papel do Estado no mercado, o que tende a tornar a gestão econômica mais ineficiente e prejudicar o crescimento. Como o governo está concedendo mais incentivos à exportação, as empresas vão produzir em excesso, aumentando a dependência das vendas para os Estados Unidos, Europa e Japão, com todos os riscos que isso traz.

Sem uma genuína reforma política e econômica que estimule a expressão individual e a criatividade, a inovação tecnológica ficaria prejudicada, com os talentos saindo dos bancos escolares para empresas estatais ou a burocracia. Até 2025, um quarto da população terá mais de 60 anos de idade, o que trará enormes dificuldades para o já problemático sistema previdenciário. “Mas a razão mais importante pela qual não veremos 1,4 bilhão de chineses ganhando uma renda média de US$ 85 mil por ano é que o planeta simplesmente não pode sustentar uma expansão tão rápida”, diz. Hoje, só 4% dos chineses têm automóveis, número que poderia ser multiplicado por 20, com todas as consequências ambientais. O país deve enfrentar um deficit de 25% no fornecimento de água em 2030 — Pequim já sofre com a escassez. “O mundo está pronto para a China que Fogel descreve? A China está?”, perguntou Consonery.

Economia não é tudo
Num artigo publicado na revista The New York Review of Books, o historiador britânico Tony Judt afirma que, nos últimos 30 anos, as pessoas se acostumaram a pensar de forma apenas econômica ao avaliar políticas públicas. Em vez de se perguntarem se a medida proposta é boa ou má, querem saber se ela é eficiente e aumenta o PIB. Essa constatação cabe perfeitamente no caso da China. Em todo lugar só se quer saber do seu desempenho econômico. Pouco importa saber hoje se eles produzirão US$ 123 trilhões em 2040. Se ocorrer mesmo, e daí? Economia não é tudo. Civilização implica liberdades civis, tolerância, respeito à diferença, igualdade de condições, acesso à cultura e a um banheiro limpo.

Nos campos político e institucional, a China não tem nada a ensinar. A lista de malfeitos, passados e atuais, é grande. Desrespeita direitos humanos, do consumidor e o meio ambiente, proíbe a plena liberdade de expressão, a Justiça não se rege pelo devido processo legal e o regime político desconhece os princípios básicos da democracia. Tiraniza seu próprio povo. No artigo, Fogel afirma que uma economia dominada pela China pode soar estranho, mas representaria apenas uma volta ao passado, pois o país foi o mais rico em 18 dos últimos 20 séculos. Fiquem eles com o poder econômico. Nós nos contentamos com os valores ocidentais.

Ricardo Allan é repórter de economia

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO

Clima de desconfiança

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


Sucessão de erros abala credibilidade de órgão global para estudo da mudança climática, que precisa ser reformulado

DIFICILMENTE o IPCC -Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, órgão criado pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial- sairá incólume da crise de credibilidade que o acossa. Uma sucessão de erros e desvios de conduta de membros do painel vieram à tona. Para um colegiado de base científica, configura-se uma hemorragia de prestígio que poderá levá-lo à morte.
Entre as gafes mais espetaculares do IPCC figura o pedido de desculpas, no mês passado, pela inclusão, no relatório de 2007, da previsão de que as geleiras desapareceriam do Himalaia "muito provavelmente" no ano de 2035.
Rajendra Pachauri, presidente do órgão, reconheceu que "os padrões claros e bem estabelecidos de evidências apontam que procedimentos do IPCC não foram aplicados apropriadamente".
Pouco antes, em Copenhague, gerava polêmica a revelação de uma série de e-mails capturados por "hackers" dos computadores da Universidade de East Anglia. As mensagens trocadas entre climatólogos britânicos e norte-americanos sugeriam o uso deliberado de artifícios para reforçar a tese do aquecimento global.
Agora, por todo lado surgem propostas de reformulação do IPCC. E não são só os "céticos" do aquecimento global: na última edição do influente periódico "Nature", por exemplo, 4 de 5 colaboradores do painel manifestaram-se a favor de mudanças.
De fato parece esgotado o modelo surgido há duas décadas. Centenas de pesquisadores participam da produção dos relatórios de avaliação do IPCC, sumários da melhor ciência sobre o clima publicados com intervalos de cerca de seis anos. Os autores são selecionados entre nomes indicados por governos.
Com o passar dos anos, produziu-se uma tendência para a uniformidade de pensamento, indesejável num órgão encarregado de fornecer informação científica relevante -mas não prescritiva- para a tomada de decisão. Para alguns críticos também é perceptível um substrato anticapitalista em certas postulações anunciadas pelo painel como verdades científicas.
Mesmo que acusações de manipulação e relações problemáticas entre ciência e política não sejam suficientes para conspurcar a maior parte das constatações e previsões dos relatórios, não há dúvida de que uma atmosfera de desconfiança envolverá o que se publicar doravante.
Há várias ideias sobre como restaurar a credibilidade. A medida mais urgente seria desvincular o IPCC, ou o órgão que o venha substituir, da influência direta da ONU e dos governos.
Não é uma tarefa simples. Cogita-se uma agência com mais autonomia, que teria a incumbência de produzir relatórios mais específicos e frequentes, talvez bienais, sob um regime transparente de revisão por especialistas externos.
É um bom ponto de partida para discutir uma nova e necessária fase de avaliação dos efeitos da atividade humana sobre o clima.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

PAC do Rebolation

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


No ritmo meio-carnaval-meio-palanque, Dilma Rousseff mostrou firmeza ontem, em Salvador. Referindo-se à música que toma conta da cidade, garantiu, ao deixar o bloco Ilê Ayê:

"Se eu treinar, sei que consigo dançar o Rebolation".

Sem desgrudar de Jaques Wagner, a ministra mandou beijinhos a todo lado, enquanto as assessorias dela e de Serra se esfalfavam para impedir que se cruzassem.


O sem-tempo

Ao chegar ao camarote de Daniela Mercury, sábado à noite, Serra atacou um prato de carneiro com arroz ao vinho tinto. Em público.

Eram 9 da noite e ele não tinha comido nada o dia inteiro. Apesar disso, manteve um sorriso por horas a fio.


Em todas

A tarefa de ciceronear o tucano não tirou o pique de ACM Neto. Ele saiu na quinta em dois blocos e, na sexta, era um dos mais animados no camarote de Daniela Mercury.


Circuito Fashion

E quem apareceu em Salvador sem avisar ninguém? Paulo Borges, direto de NY, onde esteve com Anna Wintour, da Vogue americana.

Ele disse que tem surpresa para o Brasil. Boas?


Na arquibancada

Fábio Assunção fugiu da folia. Está quietinho na Costa do Sauípe assistindo a jogos de tênis com a namorada Karina Tavares.


Bola ou samba?

Antes de entrar na avenida com a Gaviões, Mano Menezes explicou à coluna a diferença entre treinar um time ou escola de samba:

"Bem, uma escola eu nunca treinei, né? Mas sei que o carnaval ainda é uma coisa alegre, uma festa. O futebol virou uma guerra, muito competitivo. Os erros de uma escola na avenida desaparecem. Os de um time, em campo, são decisivos."


Sambódromo 2.0

Kassab deixou promessa antes de sair do sambódromo, sábado de madrugada.

Para 2011 o sambódromo será ampliado, chegando até o fim da rua, onde há um posto de gasolina.


A Cervejada de Paris

Onze da noite, outra noite de calor africano no Rio e uma fila de homens de smoking, mulheres de longo e drag queens vai se formando em frente à entrada principal do Copacabana Palace, no Rio. Perto dali, multidão de foliões e turistas tenta localizar, na confusão, alguma celebridade.

Eis que Paris Hilton e o namorado, Doug Reinhardt, saem pela porta principal, acenam e entram rápido em uma perua blindada que sai cantando pneu. O destino? O pier Mauá, onde está começando a festa da cerveja que contratou Paris como garota-propaganda.

Ao desembarcar, Paris faz malabares. Posa para fotos, tenta equilibrar bolsa, celular - do qual não desgrudou -, a mão do namorado e a cerveja. Por fim sobe ao palco, onde Zé Pedro é o Dj. Lá bebe e faz a alegria do pessoal: dança, engatinha e até joga cerveja para o alto.

Susana Vieira chegou desdenhando Paris. "Acho que seria mais simpático se fosse uma brasileira no papel de devassa. Temos muitas que se encaixariam perfeitamente no papel."

Horas depois, Susana entra no cercadinho vip e se apresenta à ilustre convidada. Beijinhos, apresenta o namorado, Sandro Pedroso, e sai comemorando: "Ela é o máximo".

O imprevisto, na noite do Copa, ficou para o príncipe-herdeiro do Catar, Tamin bin Hamad al-Thani. Ele nunca entra sem seguranças armados e seguranças armados não entram no Copa.

Foram sentidas as ausências de Paris, de Jennifer Aniston e Quincy Jones, entre outras.

Vincent Cassel - que veio sem Monica Belucci - falou de seu próximo filme "brasileiro": "Desta vez vim a trabalho. Estou procurando lugares para uma comédia romântica".

Depois de Grazi Massafera em 2007 e Natália Guimarães em 2008, a rainha da vez, no Copa, foi Guilhermina Guinle. "Aceitei o convite como forma de homenagear meu avô", explicou a neta de Otávio Guinle.

Mais animada que o baile foi a manhã de sábado na piscina do hotel. Sem economizar no champanhe, alguns famosos disputavam as espreguiçadeiras - Rodrigo Santoro, Gerard Butler, Vincent Cassel, Lucilia Diniz e Marco Antonio Di Biaggi. Paris preferiu sua piscina privativa, na suíte presidencial.

"Adoraria me casar"

Antes de sair praticamente carregada da festa que ganhou no Píer Mauá, sábado, no Rio, Paris Hilton conversou com a coluna. A bordo de vestido transparente e fio-dental à mostra, nem precisou explicar muito como incorporou tão bem o papel de "musa devassa".

Depois da conversa, desceu do palco enxugando o suor com um guardanapo de papel e se junta aos amigos para beber. Cerveja? Não, tequila, com fatia de limão. Mais duas doses.

Você se esforça para parecer sexy no palco? Me chamaram até aqui para realizar um trabalho. Era isso o que eles esperavam que eu fizesse. E eu fiz.

Pensa em promover projetos sociais no Brasil, como Madonna? Adoraria fazer caridade no Brasil. Já estive na Guatemala, na África do Sul, ando pesquisando sobre o assunto.

Qual personalidade brasileira gostaria de encontrar? Na verdade, já conheço muita gente famosa. Então, gostaria mesmo é de conhecer gente comum. Os brasileiros são tão quentes, tão sexies e gostam de aproveitar a vida. Exatamente como eu.

O que gostaria de fazer no Brasil que ainda não fez? Queria ir à praia. Mas não para ficar dentro de um navio. Uma praia de verdade.

Pretende se casar? Ah, eu adoraria me casar um dia, com certeza.

O BONECO ABILOLADO

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA

Mudando de paradigma

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10



Não há mais como evitar, a atividade seguradora deve, rapidamente, se debruçar sobre as profundas mudanças que afetam o planeta e que fazem com que seus produtos não cumpram mais com sua função de proteger a sociedade.

A verdade é que boa parte das apólices em vigor, aqui e no exterior, não está adequada à realidade atual, quer por não cobrirem os riscos que ameaçam os segurados, quer por estarem com os preços defasados em função da sinistralidade.

Ao longo dos últimos anos o mundo mudou. E a mudança que se vê foi radical. Como estávamos no meio dela, demoramos a perceber, mas agora as coisas começam a clarear. Por este motivo é hora de sintonizar na frequência do planeta, assimilando as mudanças dos riscos, para desenvolver novas coberturas pensadas em função delas.

Da 1ª Guerra Mundial para cá, a expectativa de vida do ser humano subiu em todos os lugares do mundo, dos mais ricos aos mais pobres. O Japão, por exemplo, atingiu a média de mais de 80 anos.

A riqueza também se democratizou e se espalhou pelo planeta. Em contrapartida, a violência urbana assola todas as nações, matando milhares de pessoas anualmente, ainda que não havendo guerra declarada na maior parte delas.

Os meios de produção atingiram uma capacidade jamais vista ao longo da história. As novas tecnologias de comunicação ligam todos os cantos da terra em tempo real. A internet torna acessível a todos os usuários uma gama de informações inédita, pela quantidade e variedade de temas.

Por conta da crise de 2008, nações antes vistas como secundárias passam a desempenhar papel cada vez mais relevante para garantir a estabilidade e o funcionamento organizado da humanidade.

China, Rússia, Índia e Brasil se destacam pelos avanços positivos, enquanto Espanha, Irlanda, Grécia e Portugal ameaçam a recuperação internacional com o fantasma do não pagamento de suas dívidas.

Para completar o quadro, mudanças climáticas cada vez mais radicais modificam a realidade do planeta, com eventos de origem natural chegando a níveis de violência inimagináveis e atingindo regiões completamente desacostumadas aos seus impactos.

Tufões, vendavais, furacões, tempestades, tornados, granizo, chuvas fortes, ventanias, tempestades tropicais, nevascas, enchentes, secas e o mais que se imaginar em eventos de origem climática cobram fortunas das comunidades atingidas.

Pragas, doenças, endemias e epidemias se espalham pelo mundo matando e levando pânico. A cada vitória da medicina, surge uma nova ameaça, representada por um novo vírus ou uma bactéria desconhecida ou resistente aos medicamentos tradicionais.

Entre as atividades econômicas mais afetadas está o setor de seguros.

Não poderia ser diferente, já que o seu negócio é a proteção da sociedade pelo pagamento das indenizações dos sinistros.

Diz o ditado que "não existe risco ruim, existem seguros mal precificados". E é isto que se vê cada vez com mais frequência, inclusive em seguros com mais de um século de existência.

Diante da nova realidade, as estatísticas até agora usadas para calcular os prêmios deixaram de ser eficazes.

As estatísticas se baseiam na experiência passada, que não serve mais porque os sinistros atuais são inéditos, ou melhor, são eventos novos, pelas características, pela ordem de grandeza, pela frequência e pelos locais onde ocorrem.

Isto quer dizer que é hora da atividade fazer a lição de casa. Se os conceitos, as garantias, os resseguros, as taxas e as políticas de aceitação não forem profundamente revistos, em poucos anos as seguradoras e resseguradoras terão perdido mais do que podem suportar, colocando em risco todo o sistema.

Não dá mais para esperar. Ou as seguradoras, inclusive as nacionais, levam em conta a nova realidade, representada pela velocidade vertiginosa do mundo e pelo aumento brutal da violência urbana e pelos danos causados pelos fenômenos naturais de origem climática ou não, ou suas taxas serão insuficientes para fazer frente às suas obrigações contratuais.

Antonio Penteado Mendonça é advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas e comentarista da Rádio Eldorado.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Os Estados Unidos saindo na frente

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


Qual é o país, no mundo desenvolvido, que está saindo da crise da maneira mais vigorosa?
Pensou na Alemanha, no Japão? Errado. São os Estados Unidos.


Na semana passada saíram os números europeus para o quarto trimestre de 2009. A Alemanha, que fora o primeiro dos ricos a registrar algum crescimento, estagnou. A França conseguiu um magro crescimento de 0,6%. Do Japão já se sabia que continua devagar.

Enquanto isso, os Estados Unidos registraram um fortíssimo crescimento de 5,7% no último trimestre de 2009, em termos anualizados. Mais ainda, a produtividade cresceu espantosos 6,2%, o que equivale a três vezes a média histórica.

Isso mostra uma economia flexível, com enorme capacidade de adaptação. Se a produtividade cresceu esse tanto, isso significa que as empresas reagiram à queda de demanda com corte de custos (inclusive de pessoal), mas de um modo tal a aproveitar melhor os fatores disponíveis. Resultado: estão prontas para, dada a recuperação, aumentar rapidamente a produção.

Com a crise, o desemprego nos Estados Unidos praticamente dobrou - saiu da média dos 5% para mais de 10% (recentemente caiu um pouco, para 9,7%). Já na Alemanha o desemprego não aumentou, o que foi considerado um êxito e, como se discutia nos Estados Unidos, uma política exemplar.

Olhando a coisa mais de perto, verifica-se que o desemprego alemão ficou na taxa histórica de... 9%! Ou seja, a pior taxa nos Estados Unidos é equivalente à normalidade na Alemanha.

E por que o desemprego não aumentou na Alemanha? Porque o governo pagou. As empresas foram estimuladas a, em vez de demitir, colocar os trabalhadores em licença ou em horários parciais. As horas não trabalhadas passaram a ser pagas pelo governo.

Com isso, as empresas, que vinham de um ambiente de forte expansão, pré-crise, não precisam se adaptar aos tempos de recessão. Apenas mandam trabalhadores para casa (e para a conta do governo) e esperam a crise passar. E o governo aumenta seus gastos de custeio, limitando sua capacidade de investimento.

Evita-se com isso um problema social de curto prazo, o aumento do desemprego. Mas não se prepara a economia para a nova situação.

Já nos Estados Unidos, onde a rede de proteção social é menor e mais fina, a economia é levada a rápidas adaptações. As empresas registram logo os prejuízos, fecham fábricas, demitem, cortam salários e buscam meios de aumentar a produtividade. O ajuste é imediato.

E selvagem.

O custo social, e político, é maior, mas permite uma saída da crise mais rápida. Como está acontecendo.

E como ocorre fora das crises. Flexível, com ampla capacidade de mudança e aberta a inovações, a economia americana cresce mais do que as europeias e gera mais empregos. O símbolo maior da Europa, a Alemanha, com sua ampla rede de proteção social e suas regras que limitam a ação das empresas, cresce menos e emprega menos.

Mas - argumenta-se - os desempregados lá vivem melhor que nos Estados Unidos. Verdade. Só que uma economia sem dinamismo não cria as oportunidades para os mais jovens.

Modelos a escolher.

Curioso que o debate na Alemanha seja o de como ganhar mais flexibilidade e controlar o gasto público com a rede social (aposentadorias, saúde e auxílio-desemprego). Já nos Estados Unidos o presidente Barack Obama pede que os dois partidos se entendam em torno de uma política pública de geração de empregos. Mesmo aqui, porém, prevalece algum sentido de flexibilidade: uma das ideias, por exemplo, é tornar a contratação mais simples e ainda menos onerosa para pequenas e médias empresas.

Aliás, uma boa ideia para o Brasil, não é mesmo?

A conta voltou - Sob pressão para apresentar um programa crível de redução de seu déficit, o governo grego está propondo, entre outras maldades: aumentar a idade mínima de aposentadoria, uma elevação imediata dos impostos sobre combustíveis e o congelamento dos salários do funcionalismo. Para tentar conter a ira popular, promete cortar os vencimentos de governantes e de dirigentes de estatais.

Os governos da Espanha e de Portugal lidam com o mesmo dilema. É preciso cortar gastos e aumentar impostos, pois déficits e dívidas públicas passaram dos limites, mas isso se opõe a compromissos e ideologias.

Eis o ponto: a conta chegou mais cedo do que se esperava. Na verdade, lá na Europa, como aqui, muita gente acreditava ter eliminado esse tipo de conta. O gasto público parecia ter-se tornado o principal motor da economia. Assim, quem se preocuparia com essas coisas tão aborrecidas quanto austeridade e equilíbrio fiscais?

Desgraçadamente, porém, mais uma vez verificou-se que dinheiro não sai do nada. É preciso financiar o déficit e amortizar a dívida.

Eis uma lição para o Brasil. Na gestão da crise, aproveitando o embalo internacional, o governo Lula aumentou ainda mais os gastos e a intervenção do Estado na economia. As contas pioraram, a dívida aumentou. Se ainda assim o mercado continua financiando o Brasil e se o presidente ganha prêmios no exterior, isso prova uma mudança de paradigma, certo?

Errado.

A confiança no governo Lula, mantida, se baseia na crença generalizada, aqui e lá fora, de que as contas públicas serão reorganizadas neste ano, que a dívida voltará a cair, que a inflação ficará na meta e que a estabilidade será preservada - como promete o governo.

Promessa não cumprida, confiança perdida. E perde-se muito mais depressa do que se conquista.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

JAPA GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Setor vitivinícola quer revisão de acordo com Chile

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


Um acordo comercial entre os governos de Brasil e Chile, firmado há mais de uma década, está tirando o sono de quem cultiva vinhas e fabrica vinhos no Brasil.
A Câmara Setorial da Vitivinicultura encaminhou ao Ministério do Desenvolvimento, na semana passada, a queixa do setor em relação ao acordo firmado pelo Mercosul com o Chile, que prevê redução progressiva da tarifa de importação de vinhos finos.
Em 2005, o vinho chileno tinha taxa de importação de 27% no Mercosul. Hoje, o percentual é de 4,59% e, a partir de 2011, deverá cair a zero.
"Queremos que o governo brasileiro reveja essa redução do imposto de importação, porque isso prejudica a produção nacional. O risco para os investimentos será grande", disse Júlio Fante, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho.
O ideal, segundo Fante, é que a alíquota do imposto volte ao patamar de 27%.
"Outro fator agravante é que as importações do Chile são as que mais tem crescido."
No ano passado, o Brasil comprou 22,5 milhões de litros de vinho fino do Chile, o que representa 40% do total importado pelo país. Esse volume é 25% maior que a venda do produto nacional, de 18 milhões de litros de vinhos finos. A comercialização de vinhos nacionais como um todo, incluindo finos e de mesa, aumentou 12% no ano passado. Para este ano, a expectativa é manter o mesmo nível de expansão, disse Fante.

DA ALEMANHA PARA O BRASIL

Já aportou na costa brasileira navio com dois contêineres de produtos da alemã Roto Frank, do setor de ferragens e acessórios para caixilhos. A empresa anuncia nesta semana a entrada no mercado brasileiro. Com faturamento mundial de 650 milhões, a companhia planeja receita de 1,5 milhão para o primeiro ano de operações no Brasil. A Roto Frank, que detém 30% de participação no mercado mundial, traz novas tecnologias e tipologias sofisticadas de maçanetas, puxadores, fechos e dobradiças para portas e janelas de alumínio e PVC.
"Queremos nos tornar líder de mercado nos próximos cinco anos. E, no médio prazo, chegar a produzir no Brasil", disse Nikolaus Knops, diretor da Roto Frank para a América Latina. "Chegamos à conclusão de que a América do Sul será uma das maiores oportunidades de crescimento. E o Brasil tem de longe o maior potencial." A estratégia da companhia, que terá sede na cidade de São Paulo, será focar nos diferenciais de janelas com redução sonora, com alta segurança e com economia de energia, afirmou Knops.

Brazil.com é vendido por US$ 500 mil

O endereço brazil.com foi negociado no ano passado por US$ 500 mil, um dos valores mais altos obtidos por um domínio na internet em 2009, segundo monitoramento da empresa Sedo, de compra e venda de domínios. O endereço está registrado em nome da companhia Domains by Proxy e, atualmente, a página tem apenas classificados, sem nenhum conteúdo específico.
A Sedo afirma que, no ano passado, houve uma maior procura por endereço de regiões geográficas.
Russia.com, kiev.com e sudan.com, além de brazil.com, aparecem entre os que atingiram maior valor nas negociações em 2009.
"Isso é muito provavelmente um indicador de que mais dessas vendas devem ocorrer em 2010, à medida que os investidores globais continuam a expandir seu alcance de mercado aos domínios de países específicos", afirma a Sedo, em estudo trimestral sobre as transações nesse setor no ano passado.

NATUREBA AUDITADA
A rede Mundo Verde, que vende produtos naturais, não quer saber de nada alternativo em sua contabilidade. O balanço de 2009 já será auditado. A contratação de uma auditoria independente faz parte da implementação da governança corporativa, pelo fundo de "private equity" Axxon Group, que adquiriu a rede em julho passado. "A auditoria dá segurança de que os processos estão sendo feitos de forma correta", diz Sergio Bocayuva, diretor-executivo da rede. A Mundo Verde tem 150 lojas no Brasil, uma em Portugal, e quer chegar a 430 pontos de vendas em cinco anos. Cerca de 50% das novas unidades serão em São Paulo.

com JOANA CUNHA e ALESSANDRA KIANEK e ÁLVARO FAGUNDES

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Geisy na folia

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10

SÃO PAULO - Com a palavra, o apresentador do "Fantástico": "A polêmica acabou em samba. Lembra da Geisy, aquela do vestidinho rosa que provocou um rebuliço numa universidade em São Paulo? Ela está de volta, modificada, revista e ampliada". Assim começava a reportagem do dominical da Globo sobre a lipoescultura a que se submeteu a estudante Geisy Arruda. Tratava-se de mostrar em primeira mão o "novo visual" que a musa acidental da Uniban iria exibir durante os festejos momescos.
"Samba, vestidinho rosa, rebuliço" -as expressões engraçadinhas do locutor dão o tom acafajestado do suflê destinado a entreter os lares no final do domingão.
Uma das coisas que mais chamam a atenção no caso Geisy é a conversão do trauma em oportunidade, da humilhação em dinheiro, da selvageria em diversão de massa. A passagem entre uma coisa e outra se deu de maneira instantânea, sem que houvesse tempo para a elaboração do luto ou preocupação em refletir sobre o que aconteceu.
Depois de dizer que cinco litros de gordura foram pelo ralo, que "a barriga virou bumbum" e que Geisy ganhou quase meio litro de silicone em cada peito, o repórter pergunta: "Será que uma lourona dessas passa despercebida nas ruas?"
Vemos então miss Uniban desfilar pelos bares, entre marmanjos ouriçados a emitir sons de aprovação e correr para clicar a "nova Geisy" com os celulares. A cena lembra a turba em fúria nos corredores da universidade.
Aquilo que a escola prometia como perspectiva remota (uma vida melhor com o canudo na mão), Geisy alcançou num estalo, não pelo que aprendeu, mas como vítima da estupidez e da atrocidade do ambiente de ensino que frequentava.
Talvez ainda exista a tentação de criticar o deslumbramento da garota com sua fama descartável. Mas por quê? Ela não é mais vulgar do que as apelações da mídia a seu respeito. Ela não é mais frívola do que o jornalismo de celebridades e seus espectadores.

MARCO ANTONIO ROCHA

Agora é hora da folia. E depois dela?

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


Quarta-feira sempre desce o pano.

É o que dizia Chico Buarque de Holanda em Sonho de um Carnaval. Mas nesta quarta-feira, depois de amanhã, no Brasil-2010, o pano sobe: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo" - diria Fiori Gigliotti no seu inesquecível bordão. Aliás, dois soberbos espetáculos do ano: eleições para presidente da República e Copa do Mundo. Os brasileiros terão um olho na África do Sul, outro nas urnas de outubro. Torcendo para que o ano não seja um desengano.

Não será, se os candidatos à sucessão de Lula tomarem tento do que realmente é preciso fazer para que a economia brasileira continue surfando na onda de bonança e, sobretudo, se o setor privado brasileiro sair da modorra de só falar de juros ou impostos e se empenhar, de fato, em avanços tecnológicos e da produtividade.

Por enquanto, a sucessão de Lula está emaranhada no passado, mais do que comprometida com o futuro. Na oposição e na situação os discursos são sobre quem teve mais méritos e quem merece mais créditos pelo que já foi feito no País, e não sobre o que se pretende fazer para que as boas perspectivas não se desvaneçam. Pode ser que depois de quarta-feira essa fala entediante ceda lugar a alguma coisa de mais "sustança" - como se diz - para a moderna consciência cidadã. Tomara, pois o momento é crítico e o País não pode perder o foco da oportunidade que a economia mundial está abrindo nem perder tempo com um debate ideológico ultrapassado.

Quem revisar um pouco da história recente da economia brasileira verá que uma oportunidade como essa apareceu no final da 2ª Guerra Mundial, durante a qual as grandes potências em luta disputaram avidamente matérias-primas estratégicas, alimentos e outros fornecimentos brasileiros, o que encheu nossas burras de ricas divisas internacionais - que seriam dilapidadas logo depois pelos governos de um país completamente infantil em termos de planejamento estratégico (que nem existia) e de defesa dos seus próprios interesses. O azar foi que o fim da guerra e a oportunidade por ele oferecida coincidiram com o fim de uma ditadura de cerca de 15 anos num Brasil que se viu, por isso mesmo, mais empenhado em criar uma democracia (que nunca tinha tido) do que em cuidar das suas finanças e do seu futuro. Qualquer semelhança com o período de 1985 para cá deveria ser tema de estudos...

A oportunidade que aparece agora é dupla, vem de fora e de dentro. As grandes economias do mundo não estão em guerra como em 1939-45, mas buscam um lugar estável e promissor para ancorar seus capitais, depois do vendaval financeiro de 2008. Dos quatro Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) - não duvidemos - o Brasil é o mais promissor e o mais estável no que se refere a oportunidades de investimentos. Digam o que disserem e escrevam o que escreverem, é um rematado idiota o investidor institucional ou individual que, em busca de oportunidades, acredite numa Rússia, cheia de máfias estranhas, onde até o governo é mafioso; ou numa Índia, com dezenas de dialetos, de seitas, de castas, de religiões e milhões de famintos; ou numa China, com população maior e quadro cultural ainda pior, além de um governo que pode fuzilar quem lhe aprouver sem dar satisfações ao mundo; e menospreze o Brasil como plataforma de bons negócios...

Mas, ao cenário externo propício, junta-se uma novidade interna importante, que vem sendo identificada por diversos economistas e analisada em publicações especializadas: a rápida ascensão das classes mais baixas de renda para faixas mais altas, causando, na prática, uma expansão inusitada da classe média brasileira, em tempo relativamente curto.

O professor Yoshiaki Nakano, em artigo publicado no jornal Valor (Dinamismo Doméstico, 9/2/2010, página A11), dizia que "a economia brasileira se está convertendo numa economia com mercado de consumo de massa das maiores do mundo". E quantificava sua opinião estimando que a classe "C", nos últimos 15 anos, passou de 32% para 52% da população, o que representa hoje "mais de 90 milhões de consumidores incorporados ao mercado". E, já que estamos em tempo de Copa, basta dizer que isso equivale à população inteira do Brasil na Copa de 1970 - "Noventa milhões em ação, salve a seleção..." era o hino.

Ora, um dos principais fatores entre os que contribuíram para tornar gigantes as economias gigantes do mundo moderno foi a formação de um grande mercado interno de consumo de massa, que atrai investimentos externos, estimula investimentos internos, aumenta a produção, reduz os preços médios e gera empregos, num círculo virtuoso contínuo. O fenômeno que o professor Nakano aponta cresceu sobre dois pilares: o fim da inflação galopante, a partir de 1994, e o início das políticas afirmativas de distribuição de renda, acentuadas a partir de 2003. E teve três instrumentos: disciplina fiscal dos governos (ainda incompleto), câmbio flutuante e metas de inflação - mantidos por FHC e por Lula da Silva.

Há riscos adiante - de ressurgimento da inflação e de crise cambial. Por isso os economistas afirmam que o programa vitorioso precisa ser reforçado para exorcizar os riscos, ainda neste próximo mandato governamental. Mas quem já ouviu os presumíveis candidatos falando disso? Ou seus seguidores? Ou seus partidos? Quem apresentou algum programa antiborrasca?

Só o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem feito advertências. No governo, o PT está para aprovar, depois do carnaval, um programa que, se for o que já se divulgou, é pró-borrasca. E tanto no governo como na oposição o papo é de fofoqueiras de telenovela.

Mais seriedade e debates menos levianos sobre um verdadeiro projeto nacional são o que desejamos para depois do carnaval. E na campanha eleitoral.

Marco Antonio Rocha é jornalista

RUY CASTRO

Aritmética do Carnaval

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


RIO DE JANEIRO - Todo Carnaval é assim. Enquanto milhões se jogam na folia, outros amarram a cara pelo fato de que, num país de miseráveis, onde a fome, a doença e a morte campeiam e não faltam assuntos sérios, como inundações, desabamentos e demais desgraças, a mídia dá tanto espaço à cobertura de blocos, escolas de samba, mulatas e outras futilidades.
Velho adepto de futilidades, há alguns anos comecei a me perguntar sobre a aritmética do Carnaval. Exemplos. Quantas pessoas estariam envolvidas no desfile de uma única escola de samba, entre designers, folcloristas, pintores, figurinistas, escultores, costureiras, chapeleiros, bordadeiras, carpinteiros, eletricistas, ferreiros, soldadores e outros artesãos? Quem paga essa turma? Sem contar os empurradores de alegorias, os manobristas do carvalhão e os adorados garis, que passam varrendo e sambando depois de cada escola.
Quem mede a quantidade de tecidos, plumas, pedrarias, lantejoulas, miçangas e vidrilhos que cobrem os cerca de 4.000 figurantes dessa escola? E a de isopor, madeira e ferragens usados nos cenários dos carros? Quem calcula e compra tudo isso em nome da escola? E compra de que fornecedores? Há concorrência por preços mais competitivos? E qual é a margem de recuperação do investimento quando, passado o Carnaval, a escola revende o que sobreviveu do material a escolas de praças menores?
Isto apenas no que se refere à mecânica das escolas. Mas, e o dinheiro movimentado pelos blocos, bailes, feijoadas, televisões, patrocínios, publicidade, comércio, hotelaria, táxis, cerveja, água de coco, reciclagem de latas, carros de som, engov, buscopan na veia, fotos da Madonna etc.?
Fútil ou não, o Carnaval oferece emprego e sustenta mais famílias brasileiras do que supõem os que amarram a cara contra ele.

DENIS LERRER ROSENFIELD

A criação de quilombos
O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02Q10
Há todo um processo em curso, encampado pela FUNDAÇÃO PALMARES, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal (particularmente a sua 6ª Câmara), de ressignificação da palavra quilombo, visando a enquadrar todas as suas ações numa interpretação do artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988. Esse processo conta até com o apoio de setores da comunidade de antropólogos. Foi igualmente essa posição que fundamentou o Decreto 4.887, de 2003, estabelecendo os critérios de desapropriação baseados na autoatribuição e na autodefinição. Desde então, tais formulações só se têm reforçado.

A Constituição de 1988 é inequívoca no uso do conceito de quilombo, significando, na época, uma comunidade de escravos fugidios, mormente negros, que constituíram povoados em regiões longínquas com o intuito de oferecer resistência aos que vinham em sua perseguição. Ela é igualmente inequívoca ao assinalar, naquela data, as terras que eram efetivamente ocupadas, de forma continuada, por negros, entendidas como terras públicas ou devolutas. Concebia-se a existência de, no máximo, cem quilombos no País.

Ora, o movimento da dita ressemantização, assumido oficialmente pela FUNDAÇÃO PALMARES, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal, altera radicalmente os termos da questão, com o intuito de justificar invasões e contenciosos jurídicos. Calcula-se, a partir da nova significação, a "existência" no País de praticamente 4 mil quilombos, podendo esse número ser ainda muito maior. Uma primeira estimativa, provisória, seria de 22 milhões de hectares a serem destinados a essa "nova reforma", agrária num sentido, mas, em outro, atingindo diretamente centros urbanos.

Um quilombo passa, então, a ser definido segundo uma identidade simbólica baseada na autoatribuição. Basta um determinado grupo autointitular-se quilombola, a partir de uma suposta comunidade de raça, religião e sentimentos, para que se estabeleça uma pretensão territorial. É interessante observar que não se trata mais de terras ou propriedades, mas de "territórios", supostamente fundados nessa identidade simbólica, cultural. O trabalho do antropólogo se reduziria, por assim dizer, a colher relatos orais que justificariam uma pretensão, de antemão reconhecida como justa.

Ocorre o que é denominado redimensionamento do próprio conceito de quilombo, sua ressemantização, num processo de construção teórica, que não se contenta com o que os constituintes de 1988 consideravam como sendo um quilombo. De um lado, temos o que a Constituição estabelece conforme o que era pensado com esse conceito; de outro, temos os antropólogos conferindo à Constituição um significado que não é dela, significado esse não pensado pelos constituintes. A situação política é assaz curiosa, porque os antropólogos se colocam na posição de verdadeiros constituintes, sem terem sido eleitos com tal finalidade.

A inversão é total.

Foi introduzida, graças a um grupo de antropólogos, uma distinção de cunho ideológico e político entre o quilombo propriamente dito, renomeado "quilombo histórico", e o quilombo então dito "conceitual", que seria o "verdadeiro" quilombo. Trata-se de uma oposição entre o que seria o "reconhecimento" de um quilombo pelo Estado, num ato oficial, administrativo, político e jurídico de consagração de uma realidade, e o que seria um ato próprio de criação, produto de uma ressemantização, uma nova atribuição de significado à palavra quilombo, um quilombo imaginário.

Observe-se que, no primeiro caso, estaríamos diante do que é denominado "quilombo histórico", reconhecimento de uma realidade dada, de algo existente, e, no segundo, de uma produção propriamente simbólica, à qual se seguiria uma atribuição de existência. Num caso, há o reconhecimento de algo existente, no segundo, a produção de uma nova existência, não anteriormente dada. Ainda nesta última alternativa, a produção de uma nova existência, a criação de quilombos, obedece a um PROJETO de ONGs e movimentos sociais, que se conjugam naquilo que vem a ser um empreendimento político, também denominado criação de "novos sujeitos políticos".

De fato, o quilombo histórico não serve à causa quilombola. Como a lei, no entanto, deve ser observada, e como eles se reivindicam do artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição, torna-se necessário empreender um processo de metaforização, no qual, a rigor, tudo passa a caber, na medida em que são os próprios antropólogos que conferem a símbolos culturais e religiosos uma realidade medida em acres e hectares. Para que a sua finalidade política seja preenchida, uma operação preliminar é condição imprescindível, a da "conversão simbólica", que deixa para trás, precisamente, o significado da palavra quilombo e, com ela, a própria Constituição.

O quilombo histórico é atestado pela própria sociedade brasileira, com suas leis e instituições administrativas, que tomam essa realidade em seu significado aceito e reconhecido. O dicionário é o veículo dessa aceitação e desse reconhecimento, tomado por válido durante décadas e séculos. Trata-se da condição mesma mediante a qual pensamos e nos entendemos, atribuindo o mesmo significado às mesmas palavras. Se assim não fosse, viveríamos entre loucos e insensatos, cada um atribuindo um significado diferente às mesmas palavras e instrumentalizando, por meio dessa atribuição de significados, a essa ressemantização, uma luta propriamente política.

Confúcio dizia: "Quando palavras perdem o seu sentido, o povo vai perder a sua liberdade." Muitas vezes, as palavras mudam para que novos significados sejam introduzidos, embora tais mudanças, frequentemente, sejam ditas meras mudanças nas palavras, sem alteração em seus significados. A linguagem jurídica, e mesmo moral, torna-se, então, um instrumento da luta política e ideológica.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS

PAINEL DA FOLHA

Última que morre

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10

Embora Lula mande informar à praça que Henrique Meirelles, como o restante da equipe econômica, ficará onde está até o final do governo, nem o Planalto nem o presidente do Banco Central desistiram da ideia de transformá-lo em companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Os interessados reconhecem que, se a escolha tivesse de ser feita hoje, tal desfecho seria inviável, dada a rejeição do PMDB a entregar esse posto a um recém-chegado. Mas, como resta tempo pela frente e Dilma cresce nas pesquisas, há quem aposte que o governo estará em situação de força para convencer o PMDB a aceitar compensações em troca de garantir à petista um vice do tipo sossega-mercado.




Dote. No esforço para evitar que José Fogaça (PMDB) ofereça palanque a José Serra (PSDB), Lula e Dilma acenam ao prefeito de Porto Alegre com a possibilidade de apoio do PC do B e do PTB. Como Fogaça já tem o PDT, o PT teme ficar isolado. Não seria novidade no Rio Grande do Sul.

Impublicável. Mas e Tarso Genro, candidato petista ao governo gaúcho? Bem, depois da entrevista em que ele atribui a escolha de Dilma ao "vazio" no partido pós-mensalão, o círculo palaciano passou a chamá-lo dos piores nomes. Um deles faz trocadilho com a expressão "filho do Brasil".

Em campo. Eduardo Suplicy está perto de conseguir as 2.970 assinaturas de apoio exigidas pela direção do PT paulista para registrar pré-candidaturas ao governo. O senador ficou todo feliz ao obter o endosso da ex-mulher. "Quando passar a lista da Marta eu assino também", promete.

Números. Sobre a possibilidade de apoiar Ciro Gomes (PSB), como deseja o Planalto, Suplicy diz que vai depender das pesquisas. "Em 2006, tive 48% dos votos para o Senado. O Ciro aparece com 13% no Datafolha para o governo. Você acha que eu deveria abrir mão para ele?".

Lavanderia. Serra usa sempre a mesma camiseta polo azul em suas aparições carnavalescas. Tucanos que o acompanhavam tiveram de providenciar uma lavagem rápida da peça entre o desfile do Galo da Madrugada, em Recife, e o dos blocos em Salvador.

Cabeça cortada. O PSDB não renovou contrato com o Instituto Análise, do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Não há motivo oficial. Tucanos vinham apontando distorções nos cenários estaduais feitos pelo instituto.

Caça-ministro. O presidente do STF, Gilmar Mendes, ainda não conseguiu confirmar a presença de todos os ministros do tribunal para julgar, na Quarta-Feira de Cinzas, o habeas corpus do governador licenciado do DF, José Roberto Arruda.

Batata quente. Pela lei, não é necessário ter o plenário lotado para julgar esse tipo de ação. Mas os ministros do STF querem fazê-lo com a casa cheia, dada a sensibilidade do caso. Resultado: a decisão pode ser empurrada para a semana seguinte.

Na selva. Gilmar Mendes, que está para completar o ciclo de visitas de trabalho às 27 unidades da federação como presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, disse, em evento dias atrás, que seu périplo pelo país não se deu "no circuito Elizabeth Arden": "Foi no circuito Indiana Jones mesmo".

É a eleição 1. O pacote de bondades aos aposentados acaba de ser ressuscitado por meio de emendas de deputados à MP que eleva o salário mínimo de R$ 465 para R$ 510. A maioria das propostas estende aos aposentados as mesmas diretrizes de valorização do mínimo.

É a eleição 2. PTB, PSOL e PMN apresentaram emendas propondo uma elevação ainda maior do mínimo em 2010. Os valores variam de R$ 550 a R$ 664.




com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

Não sei se isso é amor ou se as diferenças "desapareceram" de uma hora para outra. Do deputado BETO ALBUQUERQUE (PSB-RS), sobre as recentes declarações pró-Dilma do PMDB gaúcho, rival histórico do PT.

Contraponto

Efeito gangorra

Maurício Fruet (1939-1998), pai do também deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), viajava de Brasília para Curitiba na companhia de colegas da bancada do Paraná quando notou que uma passageira próxima sofria mais acentuadamente os efeitos da turbulência no voo.
O peemedebista, que era conhecido pelo jeito brincalhão, levantou-se, percorreu a aeronave até a cabine e, ao retornar, sentou-se ao lado da moça indisposta usando o chapéu do comandante.
-O senhor é o piloto?- perguntou ela, algo surpresa.
-Sim, sou o piloto. Como estávamos com problema de peso, resolvi sentar aqui para ajudar a balancear...

CAGANDO FINO

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Moinho ameaça sonho da Ilha


- Folha: Brasil não pune lavagem de dinheiro, diz relatório


- Estadão: Brasileiros têm dívida recorde de R$ 555 bi


- JB: Ilha na luta e Imperatriz com fé


- Correio: Supremo reprova tese de intervenção


- Jornal do Commercio: Enquanto isso...

domingo, fevereiro 14, 2010

AUGUSTO NUNES

VEJA ON-LINE

O carnaval em que o Padroeiro dos Pecadores vestiu a fantasia de Inimigo dos Corruptos

14 de fevereiro de 2010

Durante o Carnaval, os brasileiros estão autorizados a vestir a fantasia que quiserem. Todos podem transformar-se em arlequim, pirata, pierrô, demônio, anjo, lorde inglês ou Nelson Jobim. Qualquer um tem o direito de fazer de conta que é o que nunca foi e jamais será. Lula, por exemplo, irrompeu em Goiás na sexta-feira fantasiado de Guardião da Moral e do Dinheiro Público em Luta contra os Corruptos Inimigos da Pátria. No País do Carnaval, talvez ganhe algum troféu na categoria Originalidade. Num Brasil menos cafajeste, o concorrente seria desqualificado por obscenidade.

A fantasia se inspira numa fantasia mais antiga: nos últimos sete anos, Lula não enxergou nenhum caso de corrupção, não viu nenhum corrupto. Descobriu só agora que existem bandidagens por perto, contou na espantosa entrevista concedida a emissoras de rádio goianas. “Obviamente que fico chocado quando vejo a denúncia de corrupção nesse país”, disse sem ficar ruborizado o presidente que, desde julho de 2005, preside um escândalo por mês. “Fico chocado quando vejo aquele vídeo do Arruda recebendo o dinheiro”, continuou a figura que, confrontada há dois meses com a performance da Turma do Panetone, ensinou que “imagens não falam por si”.

“É uma coisa absurda a gente imaginar que em pleno século 21 isso acontece neste país”, prosseguiu sem gaguejar. O que há com o Brasil, estaria perguntando Nelson Rodrigues, que não interrompe aos gritos o falatório, para berrar que muito mais absurdo é ouvir uma coisa dessas declamada pelo Padroeiro dos Pecadores Companheiros? Como os repórteres nem miaram, a discurseira seguiu seu curso: “Espero que o que aconteceu com o Arruda sirva de exemplo para que isso não possa mais se repetir em lugar nenhum. Por isso mandei para o Congresso projeto de lei transformando o crime de corrupção em crime hediondo porque precisamos ser mais duros com a corrupção e com os corruptos”. O que há com o Brasil, estaria rugindo Nelson Rodrigues, que não reage com uma gargalhada nacional ao espetáculo do cinismo?

Como pode falar em combate à corrupção quem finge não saber das bandalheiras em que se meteram mensaleiros, sanguessugas, aloprados, os compadres Roberto Teixeira e Paulo Okamotto, o “nosso Delúbio” e seus quadrilheiros? Como pode posar de defensor dos usos e costumes o presidente que se despediu com cartinhas meigas do estuprador de contas bancárias Antônio Palocci e de José Dirceu, capitão do time do Planalto e general da organização criminosa em julgamento no Supremo? Como pode apresentar-se como guardião da moral e da ética o companheiro que convive fraternalmente com Fernando Collor, Renan Calheiros e Romero Jucá, e promoveu José Sarney a homem incomum?

Há pouco, entre uma e outra pedra fundamental, Lula inaugurou a tese de que o mensalão não passou de uma trama forjada por inimigos da pátria inconformados com a performance incomparável do operário que virou presidente. Tudo somado, esse histórico informa que a promessa de combater duramente a corrupção é mais que uma fantasia de Carnaval. É também a prova de que o Brasil é governado por um presidente que, em vez de cérebro, tem na cabeça um palanque.

Desde o escândalo do mensalão, Lula fez a opção preferencial pela amoralidade e incorporou a mentira ao estilo de governo. É compreensível que tenha visto em Dilma Rousseff a sucessora ideal.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

O sabiá político

O ESTADO DE SÃO PAULO - 14/02/10


Do ano passado para cá, o setor canoro das árvores, aqui na ilha, sofreu importantes alterações. Aguinaldo, o sabiá titular e decano da mangueira, terminou por falecer, como se vinha temendo. Embora nunca tenha se aposentado, já mostrava sinais de cansaço e era cada vez mais substituído, tanto nos saraus matutinos quanto nos vespertinos, pelo sabiá-tenor Armando Carlos, então grande promessa jovem do bel canto no Recôncavo. Morreu de velho, cercado pela admiração da coletividade, pois pouco se ouviram, em toda a nossa longa história, timbre e afinação tão maviosos, além de um repertório de árias incriticável, bem como diversas canções românticas. A esta altura, certamente já faz companhia a Francisco Alves, Orlando Silva e Nélson Gonçalves, musicando as tardes dos anjos lá no céu.

Armando Carlos também morava na mangueira e, apesar de já adivinhar que o velho Aguinaldo não estaria mais entre nós neste verão, eu não esperava grandes novidades na pauta das apresentações artísticas na mangueira. Sofri, pois, rude surpresa, quando, na sessão-alvorada, pontualmente iniciada às quinze para as cinco da manhã, o canto de Armando Carlos, em pleno vigor de sua pujante mocidade, soou meio distante. Apurei os ouvidos, esfreguei as orelhas como se estivessem empoeiradas. Mas não havia engano. Passei pelo portão apreensivo quanto ao que meus sentidos me mostravam, voltei o olhar para cima, vasculhei as frondes das árvores e não precisei procurar muito. Na ponta de um galho alto, levantando a cabeça para soltar pelos ares um dó arrebatador e estufando o peito belamente ornado de tons de cobre vibrantes, Armando Carlos principiava a função. Dessa vez foram meus olhos incrédulos que tive de esfregar e, quando os abri novamente, a verdade era inescapável.

E a verdade era - e ainda é - que ele tinha inequivocamente se mudado para o oitizeiro de meu vizinho Ary de Maninha, festejado e premiado orador da ilha, que com sua eloquência bota qualquer deputado no chinelo. Estou acostumado à perfidez e à ingratidão humanas, mas sempre se falou bem do caráter das aves em geral e dos sabiás em particular. O sabiá costuma ser fiel a sua árvore, como Aguinaldo foi até o fim. Estaríamos então diante de mais um exemplo do comportamento herético das novas gerações, os sabiás de hoje em dia serão degenerados? Eu teria dado algum motivo para agravo ou melindre? Ou, pior, haveria uma possível esposa de Armando Carlos sido mais uma vítima de Pedro Rodolfo, o mico canalha que também mora na mangueira e, se dão sopa nos ninhos, come os ovos de qualquer passarinho?

Bem, talvez se tratasse de algo passageiro, podia ser que, na minha ausência, para não ficar sem plateia, Armando Carlos tivesse temporariamente transferido sua ribalta para o oitizeiro. Mas nada disso. À medida que o tempo passava, o concerto das dez também soando distante e o mesmo para o recital do meio-dia, a ficha acabou de cair. A mangueira agora está reduzida aos sanhaços, pessoal zoadeiro, inconstante e agitado; aos cardeais, cujo coral tenta, heroica mas inutilmente, preencher a lacuna dos sabiás; e a Itamar, um pica-pau que, com seu topete escarlate, enfeita sem cantar, no máximo dando aquela risadinha de pica-pau de vez em quando. Sim, e ainda há os bem-te-vis, os caga-sebos, as fogo-pagous, as lavandeiras e outros, mas todos estes fazem parte da população flutuante, que não se interessa em obter visto de residência.

E estou assim posto em reflexão, quando me aparece Zecamunista, egresso de uma reunião do Comintern da Pesca de Tainha, cuja sede provisória é no Bar de Espanha. Sabido e inteligente que só o Cão, talvez ele soubesse o motivo para a atitude de Armando Carlos e podia até ser que conhecesse um jeito de trazer o temperamental solista de volta à mangueira aqui de casa.

- Não foi Pedro Rodolfo - me garantiu ele, depois que ventilei minha suspeita em relação ao mico. - Ele continua não valendo nada, mas não rouba mais os ovos de ninguém, depois que foi coberto de porrada por Wilson.

- Que Wilson?

- Wilson, Wilsão, é um bem-te-vi mariscador enorme, que todo dia passa por aqui a caminho da praia. É boa gente, mas não admite muita folga no território dele. Pedro Rodolfo tomou uma bicada dele no quengo que quase teve de ser internado e agora não quer nem saber de meter o mãozão nos ninhos de ninguém aqui, ele pode ser cafajeste, mas não é burro. Não, essa saída de Armando Carlos é política, é uma questão ideológica.

- Não venha me dizer que ele também é comunista.

- Há dois meses, antes de Ary se mudar de volta para cá, eu ia lhe dizer que sim, senhor, ele era comunista e ultimamente vivia no meu araçazeiro. Eu tenho certeza de que ele já estava solfejando a Internacional, ô saudade, aquela parte que diz: "Crime de rico a lei encobre/O Estado esmaga o oprimido/Não há direitos para o pobre/Ao rico tudo é permitido!"

Zeca, eu nunca soube de sabiá cantando hino, você está curtindo com minha cara.

- Eu jamais curto com a cara de ninguém, isso é um passatempo pequeno-burguês decadente. Meu coração proletário se enche de emoção, quando eu canto esse hino, você não entende. Mas, pois é, assim que Ary chegou, esse sabiá safado se mudou para o oitizeiro dele. Ary é alto funcionário da prefeitura de Vera-Cruz e vai conseguir para ele ração e frutas tipo boca-livre total o resto da vida, sem ele nunca mais precisar trabalhar.

- Mas aqui não é Vera-Cruz e o oitizeiro é aqui.

- O patife trocou de domicílio só no bico - informou Zeca, abanando desgostosamente a cabeça. - São os exemplos.

república FEDORENTA do brasil

JACKSON DIEHL

Estratégia do silêncio

O ESTADO DE SÃO PAULO - 14/02/2010


Obama prometeu demais para o primeiro ano de sua política externa. Agora estaria evitando os aliados


Estaria um ferido Barack Obama se afastando do mundo?


Podemos desculpar os europeus por especularem nesse sentido. A Casa Branca anunciou no início do mês que o presidente não participará de uma reunião de cúpula entre Estados Unidos e União Europeia marcada para maio em Madri, obrigando os realizadores a cancelar o evento. O anfitrião desprezado, José Luis Rodríguez Zapatero, primeiro-ministro espanhol, fez uma visita de dois dias a Washington, mas seu pedido de reunião com Obama ou com o vice-presidente, Joe Biden, não foi atendido.

Zapatero disse ter encarado a recusa "sem problema". Mas não foi essa a reação que encontrou ao voltar para casa. O jornal espanhol El País publicou uma matéria intitulada "Obama dá as costas à Europa". O alemão Der Spiegel saiu com a reportagem "Ausência de Obama desaponta Europa".

Israelenses e palestinos também se perguntam sobre os planos do presidente. Nos 70 minutos do discurso de Obama sobre o Estado da União não foi feita nenhuma menção a Israel nem ao processo de paz no Oriente Médio. Pouco antes do discurso, Obama disse a um repórter que superestimou a capacidade de seu governo para renovar as negociações entre israelenses obstinados e palestinos recalcitrantes.

Há também o caso dos líderes iraquianos. Dois deles - o presidente regional curdo, Massoud Barzani, e o vice-presidente, Tariq al-Hashimi, líder da minoria sunita - estiveram em Washington nas últimas duas semanas. Ambos me falaram de sua grande preocupação sobre o comprometimento do governo Obama com a estabilidade e a democracia no Iraque. Isso se deve, em parte, ao fato de a retórica pública de Obama estar concentrada na retirada dos soldados americanos, e não nos projetos para o futuro do Iraque. "Compreendo que vocês estejam totalmente concentrados em retirar seus soldados até 2011", disse Hashimi. "Mas o que acontecerá depois disso?"

Será que o desapontamento dessas pessoas é justificado? Estaria Obama dando as costas às questões internacionais como reação aos problemas políticos domésticos?

A Casa Branca poderia argumentar que isso não é verdade, e com razão. Apesar de o presidente ter economizado na política externa durante o discurso do Estado da União e estar visivelmente concentrado nas questões domésticas desde a eleição de Scott Brown para o Senado, a diplomacia de Obama ainda transmite uma impressão de vigor. Seus enviados estão ocupados tentando reunir votos favoráveis a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU impondo ao Irã duras sanções. Obama tem viagem marcada para Austrália e Indonésia no mês que vem, e uma reunião de cúpula sobre o desarmamento é preparada para abril em Washington. Um novo tratado com a Rússia sobre armamentos estratégicos está próximo da conclusão.

No Oriente Médio, o enviado George Mitchell segue trabalhando na tentativa de convencer israelenses e palestinos a voltarem às negociações, apesar da desanimada declaração do presidente. Quanto ao Iraque, Biden esteve no país há apenas duas semanas, quando trabalhou - pela segunda vez nos últimos três meses - para evitar uma crise que poderia prejudicar as próximas eleições.

Ainda assim, detectar um recuo do presidente não é uma interpretação equivocada. Em parte, isso faz sentido - assim como fez nas questões domésticas, Obama estabeleceu objetivos excessivamente numerosos para o primeiro ano de sua política externa. A perspectiva de uma paz entre israelenses e palestinos no curto prazo não é animadora, e assim o presidente tem razão ao deixar que um enviado cuide da questão. Obama fez seis visitas à Europa em 2009, com frequência para participar de reuniões que não produziram muitos resultados. Seus assessores têm razão em querer empregar com mais sabedoria o tempo que o presidente passará em viagem este ano.

Mas o recuo de Obama tem também um aspecto inquietante. Zapatero não é o único a encontrar dificuldades no estabelecimento de boas relações com a atual Casa Branca: diferentemente da maioria de seus antecessores, Obama não firmou laços de proximidade com nenhum dos líderes europeus. O britânico Gordon Brown, o francês Sarkozy e a alemã Angela Merkel se sentiram desprezados por ele, cada qual por sua vez. As relações entre Obama e o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, são tensas, na melhor das hipóteses. George W. Bush costumava realizar videoconferências frequentes com o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, e o presidente afegão, Hamid Karzai. Obama conversou com eles em apenas algumas ocasiões.

A popularidade de Obama em muitas partes do mundo continua forte. Zapatero disse ao conselho editorial do Washington Post que "na Espanha, a eleição (de Obama) foi vivida como se fosse uma eleição em nosso próprio país". Mas, em seu primeiro ano de governo, o novo presidente não estabeleceu essa mesma conexão com os líderes dos principais países aliados dos EUA. Agora Obama está transmitindo a esses líderes a mensagem de que o tempo dedicado pelo presidente americano a eles será reduzido. Talvez, como Zapatero expressou tão diplomaticamente, isso não seja problema. Mas duvido que estivesse realmente pensando isso.

Tradução de Augusto Calil