quinta-feira, setembro 10, 2009

FERNANDO BARROS

Vai ser bom, não foi?


O Globo - 10/09/2009

Temos que admitir: o brasileiro tem mesmo uma tendência muito forte de mimetizar os americanos. Sobretudo se o assunto é marketing. E, principalmente, marketing político. Depois do fenômeno Obama, então, virou moda importar os guys, que vêm pra cá, desovam um bocado de obviedades, ganham sua grana (em US$, é claro) e naturalmente se mandam.


Dez entre dez políticos brasileiros candidatos às próximas eleições já estão encomendando às suas agências e “marqueteiros” (como detesto esse selo!) campanhas “tipo a do Obama”. É isso que, humildemente, gostaria de trazer à discussão, o exagero de se copiar tudo o que se fez lá e trazer para cá.

Defendo obsessivamente é o pensamento estratégico que deve reger campanhas. Além e acima do uso de ferramentas, porque os meios digitais estão na moda, mas os “analógicos” ainda existem e resistem, sendo imprescindíveis para um país plural e continental como o nosso.

A franca opção da equipe de Obama para concentrar seu esforço privilegiando a internet deu-se por uma única e exclusiva razão: falta de recursos.

Tanto assim que, quando eles rechearam seu caixa (captado principalmente via internet, e nesse capítulo eles verdadeiramente brilharam), foram às compras arrematando muito espaço nas “velhas” mídias. É.

Quando o dinheiro deu, ele foi lá para a TV, jornais, usou outros meios, ficou multimídia.

E fez certo.

O fascínio da internet é a possibilidade de fazer a interlocução direta com o eleitor, estabelecendo uma via de mão dupla. O grande saque da equipe de Obama foi traduzir isso na prática. Foram recrutados profissionais geniais, como Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, buscando comunicarse com os distintos grupos sociais de forma segmentada e customizada.

Tornaram-se pioneiros na utilização inteligente das chamadas novas redes sociais, como o Twitter.

A ação estratégica via WEB tinha como objetivo abordar e conquistar os segmentos e, a partir daí, fazê-los ativos na campanha, cada qual a disseminando do seu jeito. Criou-se assim um poderoso exército de militantes on-line, que seguiam o candidato, protegiamno, praticavam eles mesmos o mais autêntico bateu-levou, o que de certa forma evitou que Obama tivesse que ser mais ácido em seus discursos nos momentos dos ataques mais corrosivos.

Ele só coroava e pontificava com sua emocionante oratória.

O resto se sabe, e não vou me perder listando o quanto eles acertaram via internet.

Lembro-me de um depoimento de uma militante fisgada numa destas novas redes sociais. “Fui arrebatada; a mensagem dele parecia feita diretamente pra mim. Então, não consegui mais parar de trabalhar para ajudá-lo.” Sustento, apenas imitar o Obama não garante êxito a ninguém. Aqui é o Brasil e, embora sejamos impressionantes no uso da WEB, há ainda um formidável contingente de eleitores que ainda não tem acesso a esse meio. Ademais, de Obama para cá muita coisa mudou, a própria internet agregou uma boa quantidade de novas ferramentas. Fazer uma campanha apenas plasmada na dele já ficou ultrapassado.

Cada eleição é uma história, estamos cansados de saber. As pesquisas, sobretudo as qualitativas, são imprescindíveis e reveladoras do comportamento das pessoas e conhecimento da atitude de voto para as próximas eleições. Isso sim deve guiar as campanhas e os profissionais de comunicação.

A construção de uma boa estratégia, um sedutor conceito e sua aplicação a todas as plataformas de mídia, continua sendo a maneira mais eficiente de ganhar o clique final na confirmação do voto e a vitória nas eleições.

DORA KRAMER

Guardas da esquina

O ESTADO DE SÃO PAULO - 10/09/09

A impressão dá é que o Legislativo quer coibir de algum modo o uso da internet durante períodos pré-eleitorais, mas não sabe direito como nem por quê. A Câmara pelo menos foi clara: propôs a imposição da censura à internet em períodos pré-eleitorais e ponto final. Quem não gostou gostasse. Ou, então, recorra ao Supremo Tribunal Federal para restabelecer os ditames da Constituição no que tange a garantia legal à liberdade de expressão.
Já o Senado percebeu o absurdo da coisa, afrouxou um pouco, “deixou” livres as manifestações em blogs de pessoas físicas e redes sociais, como twitter, Orkut e YouTube, mas, até o início da noite de ontem quando começaram a discutir o assunto em plenário, estava de pé a ideia de proibir. Gratuita, como se percebe pelo conteúdo da proposta que, se aprovada ontem, voltaria para nova votação na Câmara.
Os senadores ficaram perdidos na discussão. Foram e vieram ao sabor de críticas e pressões. Primeiro, haviam decidido acabar com a restrição a opiniões e debates, tal como ocorre (de maneira absurda) no rádio e na televisão. Depois, ensaiaram um recuo por conta da posição dos deputados, que querem a manutenção do texto original, e ontem já não se sabia mais o que, afinal, queriam os senadores.
A prova esteve na quantidade de dúvidas que os parlamentares levantaram a respeito da matéria no início da sessão, vários deles proporcionando a grata surpresa de contestar as restrições propostas pelo relator Eduardo Azeredo.
Ele alega que não se trata de censura. Quer apenas “organizar” as coisas a fim de “assegurar o equilíbrio” de tratamento para todos os candidatos. Evidentemente, não convence. Inclusive porque a emenda ao projeto da Câmara garante a “livre manifestação de pensamento” em blogs e redes sociais. Em português claro isso significa admitir que em outras formas de comunicação na internet essa mesma liberdade é subtraída.
O objetivo subjacente a todo palavrório é não abrir brecha que possa dar margem ao questionamento das regras restritivas à manifestação de opiniões no rádio e na televisão. A ideia por trás do argumento racional do “equilíbrio” é a concepção do guarda da esquina, cujo maior tesouro é sua autoridade. Por mais diminuta que seja.
O texto proposto à discussão do Senado é confuso e contraditório Proíbe os sites noticiosos mantidos por empresas de comunicação de “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação, sem motivo jornalístico que justifique”.
O que seria “motivo jornalístico” justificável? Suas excelências não especificam. Nem lhes caberia especificar, uma vez que as razões jornalísticas de veículos de comunicação são da alçada das empresas, não do Parlamento. A menos que os senadores pretendam legislar sobre critérios para a publicação de notícias, artigos e reportagens.
O texto, vago, tanto se presta a julgamentos restritivos quanto à mais absoluta inutilidade. Segue a proposta, proibindo a divulgação de pesquisas eleitorais com “manipulação de dados”, ainda que sob forma de entrevista jornalística.
Desconhece-se se em algum outro tipo de veículo seja permitida a manipulação de dados. Mesmo que a intenção do legislador tenha sido a de inovar, ficou faltando detalhar quais seriam os indícios de manipulação, acompanhados da definição exata do termo no que tange à cobertura jornalística das campanhas eleitorais.
Aqui também a proposta foi redigida de forma genérica, dando margem a questionamentos de resultados que podem ser até mais restritivos que o agora pretendido. Qualquer um poderá se considerar prejudicado por qualquer motivo.
A situação mantida como está, regulada pelo direito de resposta assegurado em lei às vítimas de calúnias, economizaria tempo, energia e muita tolice. Depois de levar merecida surra de críticas pela condução errática no episódio das acusações contra o presidente do Senado, José Sarney, o líder do PT, Aloizio Mercadante, é um sério candidato à remissão.
O único a se posicionar de forma precisa e sem rodeios, propõe a retirada dessa burlesca tentativa de controle, com um argumento meridiano: “O homem público que teme sofrer crítica na internet é como o guarda noturno que teme trabalhar de noite. Tem que mudar de profissão.” Faltou incluir os que repudiam a crítica ao ponto de dispensar a leitura dos jornais a fim de evitar sofrer de azia.

ALGO SE MOVE
Aécio Neves já não repudia com ênfase a hipótese da composição de uma chapa “puro-sangue” com José Serra e passou a admitir a escolha do candidato do PSDB a presidente por exame das pesquisas e não mais por meio de prévias.
Em compensação, quer que sejam levados em conta outros aspectos além dos índices de intenção de votos: baixa rejeição, capacidade de agregar e potencial de crescimento. Ou seja, o mineiro anda. Mas vai devagar.

GOSTOSA


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TODA MÍDIA

Culpa da natureza

NELSON DE SÁ

FOLHA DE SÃO PAULO - 10/09/09

Por internet e televisão, manchetes para Santa Catarina e Osasco, não mais São Paulo. Mas o governador apareceu, falou à Folha Online e foi parar no alto do UOL, com o enunciado "Para Serra, enchente em SP é culpa da natureza". Mais precisamente, "é culpa da natureza que se rebela, temos que rezar para que não se repita". Defendeu a ampliação da marginal Tietê, dizendo que "todas as árvores que foram retiradas dali foram plantadas em outro lugar".
Na Folha Online, Gilberto Dimenstein postou "O maior erro de José Serra", dizendo que "o caos em que se transformou a cidade ajudou a mostrar o maior erro de toda a gestão Serra: torrar milhões para ampliar a marginal, obra absolutamente estúpida e, suspeito, com fundo eleitoral da pior espécie".


EUA VS. LULA
BrasiliaEMBEUA@state.gov

O e-mail chegou ao meio-dia, com o selo acima para download, e a "Declaração da Embaixada dos EUA sobre a concorrência do FX-2". Nos enunciados on-line, pouco depois, "EUA rebatem Lula e dizem concordar com a transferência de tecnologia na venda de caças".
Mais algum tempo e Lula brincou, "ao ser questionado sobre a oferta". Na chamada "+ lida" da Folha Online, no meio da tarde, "Lula ironiza a disputa entre EUA e França e diz que país receberá caças de graça".


LULA RECUA
De Fátima Bernardes, entrando no intervalo, "O presidente da Câmara, Michel Temer, anunciou agora há pouco que o presidente Lula vai retirar o pedido de urgência dos projetos do pré-sal", porque "foi feito um acordo com os partidos de oposição para que sejam votados em plenário a partir de 10 de novembro". Na manchete do G1, "Lula aceitou retirar urgência".
Na chamada da Folha Online, "Lula recua", depois do "compromisso firmado de colocar a matéria em votação no dia 10 de novembro".

"FT" FESTEJA
Após dias de ataque ao marco do pré-sal, o "Financial Times" saudou no alto da home, "Descoberta do Brasil pode ter dois bilhões de barris". O poço de Guará, com participação da britânica BG, teria "o dobro" da descoberta da britânica BP, no Golfo do México. O britânico "FT" brincou em coluna com a disputa, vantajosa para ambas.
Ao fundo, o presidente da Petrobras detalhou ao "Wall Street Journal" o marco, anunciando avaliadores "reconhecidos" para os direitos sobre a produção.


MAIS FRANÇA
Para além da cobertura do acordo militar, o francês "Le Monde" noticiou ontem que, "Diante de um mercado europeu saturado, a Vivendi vai buscar seu crescimento no Brasil". Foi destaque do Valor Online ao site Teletime, com a oferta de compra da GVT que, no valor de R$ 5,4 bilhões, "poderia mudar o setor de telecomunicações no Brasil" -segundo o "WSJ", que chamou na home. No título da análise do Merril Lynch, "Quem iria imaginar?". Segundo o site Tele.Síntese, "analistas aguardam resposta da Telefônica", agora.


"QUEM VENCEU?"
Doug Mills/nytimes.com
Obama diante da imagem do âncora da CBS, ontem
Barack Obama discursou na cerimônia em memória de Walter Cronkite, ontem em destaque por "NYT" e outros. Criticou que muito do que passa por jornalismo, hoje em dia, é "opinião instantânea, fofoca sobre celebridades e as histórias leves que Walter desdenhava, em vez da notícia e do jornalismo investigativo que defendia". Muitas vezes na mídia, prosseguiu o presidente americano, "O que aconteceu hoje?" é substituído por "Quem venceu hoje?". Lamentou "o momento difícil para o jornalismo", com "redações fechando" e baixos padrões.

HORA DE VOTAR
Com o discurso de ontem no Congresso e pela TV, Obama procurou encerrar o debate da reforma na saúde -enquanto, nas manchetes on-line nos EUA, a liderança democrata anunciava a votação, com ou sem republicanos, pois "chegou a hora".

"TESTE MIDIÁTICO"
Já o site Politico destacou que chegou "a hora da verdade" para a capacidade midiática de Obama, com as lideranças partidárias e parlamentares em declínio e a ascensão da opinião via internet, rádio e canais de notícias, que comandou o debate.


"IGUAIS", NÃO
O dia foi de pressão, em portais como G1, contra restrições à cobertura na internet, na reforma eleitoral votada no Senado. Mas o destaque no fim do dia, do Congresso em Foco ao "Jornal Nacional", foi que o Estatuto da Igualdade Racial passou na Câmara sem a expressão "iguais", no artigo sobre empregos em publicidade e TV. Sem "pontos polêmicos", no dizer da Globo.

SAMUEL PESSOA

Pré-sal, mudar para quê?


O Estado de S. Paulo - 10/09/2009

Desde a descoberta das reservas petrolíferas nos campos da Bacia de Santos na camada pré-sal, o governo sinaliza que alterará o marco regulatório do setor. Alega que o grande volume dessas reservas reduziu o risco exploratório e criou, portanto, uma nova situação, que requer alteração no marco institucional criado pela Lei nº 9.478, de 1997.

A discussão suscita duas questões de naturezas totalmente distintas. Primeiro, o governo avalia que a forma contratual entre a empresa que explora a reserva e a União tem de ser alterada. Ele considera a forma de partilha a mais adequada, em oposição à concessão. Segundo, o governo julga que a forma de repartição da renda pública gerada pela exploração deva ser repactuada. As rendas cresceram em demasia e não é justo que poucos entes federativos abocanhem parcelas tão expressivas. A repactuação federativa da renda petrolífera constitui questão distributiva. No momento oportuno o Congresso se pronunciará. E não há vínculo entre a forma contratual que a União celebrará com as empresas petrolíferas e a distribuição federativa da renda gerada.

Por sua vez, a forma de contratação mais adequada aos interesses nacionais suscita três outras questões: 1) se a propriedade das reservas é transferida à empresa privada - pelo tempo de vigência da concessão e segundo as condições contratuais - ou se essa propriedade continua da União; 2) qual será o mecanismo utilizado para remunerar o Estado e qual será o valor da remuneração; e 3) o grau de controle que o Estado terá do ritmo de exploração com o objetivo de resguardar a melhor estratégia de lavra do ponto de vista do interesse coletivo.

No marco institucional vigente há a transferência à empresa concessionária da propriedade sobre as reservas. Essa transferência não me parece perigosa. Por um lado, é muito simples o governo controlar a quantidade produzida. Por outro, os preços dos recursos extraídos são de conhecimento público. A conversão das unidades físicas produzidas em receita depende de uma simples conta de multiplicação das quantidades pela cotação. É simples o Estado determinar o valor da renda que lhe cabe.

No que se refere às diversas formas de remuneração do setor público, o marco vigente no Brasil é bem flexível. A Lei nº 9.478 estabelece três: o bônus que é pago no momento da assinatura do contrato de concessão, o royalty que é calculado sobre o faturamento da atividade e a participação especial que é calculada sobre a receita líquida. A única rigidez da lei atual é a obrigatoriedade do pagamento de royalty. Por isso não é possível um contrato puro de partilha.

Se o óbice que o governo tem com relação ao atual marco institucional é este, basta uma emenda que desobrigue esse pagamento na lavra na camada pré-sal.

Tem sido corrente a alegação de representantes do governo de que a forma contratual precisa ser alterada por causa da necessidade de garantir que o Estado se aproprie de uma maior parcela das receitas. Ora, a participação especial pode ser calibrada para atingir essa meta. A nova realidade do pré-sal pode ser acomodada com uma simples alteração do Decreto presidencial 2.705, de 3/8/1998, que estabelece os termos da participação especial.

Finalmente, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) está dotada de instrumentos para garantir que o ritmo de exploração do pré-sal atenda ao interesse público. Além de controlar a velocidade de concessão de blocos nos leilões, cabe à ANP verificar se as empresas estão observando as melhores práticas da indústria, que garantem as melhores taxas de aproveitamento das reservas.

A diferença essencial entre o contrato de partilha de produção e o de concessão, como praticado no Brasil, é que na partilha o Estado é proprietário de parcela da produção física de óleo ou gás, enquanto no contrato de concessão o Estado tem direito a parcela da renda gerada. A propriedade do petróleo permite que o Estado se lance na atividade de comercialização do óleo. Discordo que essa deva ser uma atividade pública.

O marco institucional vigente capacita a ANP de amplos instrumentos regulatórios para que a agência possa defender o interesse público. Não parece haver vantagens na alteração regulatória do setor. A afirmação de que a descoberta de expressivas reservas nos campos petrolíferos da camada de pré-sal justifica essa alteração é um claro non sectur.

É preciso que o governo demonstre à sociedade que o marco vigente não é aparelhado para regular elevados volumes de produção. Isso ainda não ocorreu.

COMENDO CAÇA

CARLOS HEITOR CONY

O ovo na galinha


Folha de S. Paulo - 10/09/2009

Num romance que teve sua época, Vicente Blasco Ibañez desenvolveu um raciocínio sobre os gastos militares num país mais ou menos como o Brasil: forte, poderoso em certo sentido, mas sem capacidade militar para um conflito com potência superior.
Em "A Catedral", diz ele a propósito das verbas e equipamentos da Espanha no tempo em que se passa a história: "Para tempos de paz, o dinheiro é muito. Para tempos de guerra, é pouco".
Bem, há a questão da soberania nacional, que cada país cultiva a seu modo. "Se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta nem teme quem te adora a própria morte". É isso aí. Os poloneses defenderam-se dos tanques alemães com a cavalaria: a guerra durou menos de um mês. Mas os patriotas cumpriram sua missão de defender a pátria.
O Brasil está comprando aviões e submarinos, uma fatura astronômica, que, parece, será paga com o petróleo do pré-sal. Para funções de polícia, os aviões são muitos. Para o caso de uma guerra com um rival, são poucos.
Esse é o drama da maioria das nações. É bem verdade que uma guerra nem sempre se decide com a quantidade e eficiência do armamento, mas com a garra de quem se defende: o Vietnã foi prova disso.
O lado positivo da recente compra é a tecnologia, que, mais cedo ou mais tarde, transcende dos equipamentos militares. Além de reaparelhar Marinha e Aeronáutica -motivo de eterna queixa dos militares-, que ainda utilizam sobras da última guerra mundial.
Parece que Lula tomou a decisão da compra sem ouvir o lado técnico da FAB -o que seria um erro. Fez média com a França e em especial fez média com Sarkozy -de quem se tornou amigo de infância. Quanto ao pré-sal, ainda é um ovo a espera da galinha a cacarejar, anunciando um novo produto.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.

O Brasil brilhou


Folha de S. Paulo - 10/09/2009

Confesso que fiquei orgulhoso, até emocionado, com o desempenho do país na reunião dos Brics em Londres


LEITOR, LEITORA , hoje não sei realmente por onde começar.
Normalmente, gosto de separar material, estatísticas, estruturar o artigo etc. Hoje, não dá tempo para nada disso. O horário-limite da
Folha se aproxima -é sentar na frente do computador e escrever. Isso a título de desculpa. Bem.
Retomo o assunto da semana passada. Como previ no artigo da última quinta, para nós o aspecto mais importante das reuniões do G20 em Londres acabou sendo mesmo o encontro dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) na sexta-feira. A reunião de sábado, dos ministros de Finanças e de presidentes de BCs do G20, terminou em 0 a 0.
Dentro da rotação estabelecida entre os quatro países, cabia ao Brasil presidir a reunião dos Brics. Posso ser franco? O Brasil brilhou.
Tudo funcionou dentro do planejado. Desde a preparação do comunicado, passando pela cuidadosa negociação do texto entre as quatro delegações, por toda a logística e infraestrutura do encontro a cargo da nossa embaixada em Londres, até a condução das discussões pelo ministro da Fazenda do Brasil, terminando na coletiva de imprensa da qual participaram os quatro ministros -tudo saiu muito bem.
Como foi noticiado, o secretário do Tesouro dos EUA pediu para comparecer à parte final da reunião -um reconhecimento da importância crescente que vêm adquirindo os Brics. O diálogo com o representante americano foi conduzido com grande habilidade pelos quatro países, em especial pelo Brasil, que comandava o encontro.
O leitor sabe que o brasileiro, apesar de tudo, é um pobre e humilde ser. O complexo de vira-lata -não adianta negar- está sempre à nossa espreita. Assim sendo, confesso lisamente: fiquei orgulhoso.
Posso confessar que fiquei até emocionado? Pois fiquei. Pode ter sido -quem sabe?- apenas um efeito do esgotamento decorrente do excesso de trabalho e viagens.
Em todo caso, saí da reunião dos Brics com a esperança de que se consiga fazer progresso na reunião dos líderes do G20 em Pittsburgh, nos próximos dias 24 e 25 -em especial no que diz respeito à reforma do FMI que é, como expliquei no artigo da semana passada, uma das prioridades (talvez a prioridade) do Brasil para Pittsburgh.
Paro e releio o que escrevi. Não quero cortar nada, mas devo fazer algumas ressalvas. Primeiro, vale lembrar a advertência de Chamfort, filósofo francês do século 18: "A esperança não passa de um charlatão que não para de nos enganar; para mim, a felicidade só teve início quando a abandonei". E acrescentou: "De bom grado, colocaria na porta do Paraíso as palavras que Dante colocou na do Inferno: "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate" (abandonai toda esperança, vós que entrais)". Temos uma árdua escalada pela frente. A resistência da Europa será um obstáculo difícil de transpor. A coordenação com Rússia, Índia, China e outros países em desenvolvimento é uma batalha quase diária. Com os EUA e outros países desenvolvidos temos interesses comuns em matéria de G20 e FMI, mas será preciso usar todos os nossos recursos de persuasão e argumentação.
Quem quiser ter uma ideia mais precisa dos objetivos que buscaremos em Pittsburgh pode consultar o comunicado dos Brics, cuja íntegra está em
www.fazenda.gov.br. Demorei a encontrar um título para o artigo. Espero que a escolha não pareça ufanista. De todo modo, o que importa mesmo é saber se conseguiremos sustentar a performance nas próximas semanas.

GOSTOSA


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BRASÍLIA - DF

Precisa-se de ministro


Correio Braziliense - 10/09/2009


Passou a hora de o governo substituir o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (PTB-PE), que é candidato a uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). O responsável pela coordenação da base do governo no Congresso já foi abduzido pelo órgão e não entra em bola dividida, seja para não contrariar os aliados, seja para não criar arestas com o núcleo duro do Palácio do Planalto. Resultado: o governo passou a ter uma atuação errática no Congresso.


O vai e vem no pedido de urgência para votação dos quatro projetos do pré-sal, cujo desfecho foi um segundo passo atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o primeiro foi restabelecer a participação especial dos estados na partilha dos royalties —, convenceu o Palácio do Planalto de que é preciso encontrar logo um substituto para Múcio. O subchefe dos Assuntos Federativos, Alexandre Padilha, andou cotado para o seu lugar, mas não tem cancha no Congresso. A estrela que sobe é a do líder do PT, Cândido Vaccarezza (SP), que foge da tarefa porque é candidato à reeleição.

Recuou// Temendo um cisma com os professores da rede estadual, que prometiam transformar todas as cerimônias oficiais num ato de protesto, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), voltou atrás na proposta de reduzir os aumentos dos quinquênios do magistério de 12% para 7%. Fica como está.

Talião



Aprovado na Câmara, o tratado com a Santa Sé pode empacar no Senado. Ressabiados com a campanha da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra candidaturas de políticos de ficha suja, senadores que se consideram atingidos querem dar o troco na CNBB. Pra complicar, o senador Marcelo Crivella (foto),
do PRB-RJ, da Igreja Universal, quer isonomia para as instituições evangélicas.

Setentrional


O Supremo Tribunal Federal tem três ministros paulistas: o decano Celso de Mello, Cezar Peluso e Ricardo Lewandowski; dois cariocas: Marco Aurélio e Ellen Gracie; dois mineiros: Joaquim Barbosa e Cármen Lúcia; um gaúcho: Eros Grau; um matogrossense: Gilmar Mendes e um sergipano, Carlos Ayres Britto. Não será surpresa se a vaga aberta com a morte do ministro Carlos Alberto Direito for preenchida por Lula com a indicação de um jurista do Norte ou Nordeste.

Capoeira

Presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara, Marina Maggessi (PPS-RJ) acompanhará de perto os episódios de violência na Bahia. Com um grupo de parlamentares, a investigadora carioca se deslocará até Salvador, onde dezenas de postos policiais, carros oficiais, ônibus e prédios públicos foram queimados por traficantes cujo chefe foi transferido para Campo Grande.

Rua



O deputado federal Geraldo Pudim (PMDB-RJ) e a vereadora Clarissa Garotinho, líder do PMDB na Câmara do Rio, foram gentilmente convidados a deixar a legenda pela porta da frente pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani, que comanda o PMDB fluminense. Os dois descem o sarrafo em Cabral e apoiam a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho (foto), que trocou a legenda pelo PR.


Susto/ Quem acompanhou o anúncio da intenção de compra dos caças Rafale, no Palácio Alvorada, notou o espanto do comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. Ele não havia sido avisado do acerto entre o presidente Lula e o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Calhamaço/ Tem cerca de 900 páginas o relatório da Força Aérea Brasileira do programa FX-2, que lista prós e contras dos derrotados F-18 Super Hornet e Gripen NG e o vitorioso Rafale F3. O comando da Aeronáutica agora teme ter de jogar o material no lixo.

Teco-teco/ Na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, o assunto foi os jatos franceses Rafale. Francófilo, Raul Jungman (PPS-PE) defendeu a tese de que o assunto é de alçada do Executivo. “Não sei nem distinguir um teco-teco de um jato”, brincou. Levou a invertida da deputada Maria Lúcia Cardoso (PMDB-MG): “Não temos participação na compra, mas temos o dever de fiscalizar”.

No/ O ex advogado-geral do Senado Alberto Cascais, exonerado por elaborar um parecer que legitimava casos de nepotismo na Casa, pediu licença para passar três meses no Canadá estudando inglês. O pedido, porém, foi negado pela direção da Casa por motivo de contenção de gastos.

ADRIANO PIRES

Estatizações, eleições e o pré-sal


O Estado de S. Paulo - 10/09/2009

Os quatro projetos que visam a alterar a atual legislação do setor de petróleo e gás natural no Brasil trouxeram à tona, e desta vez com bastante força, o cansativo e ultrapassado debate estatização x privatização. Ressuscitar esse debate é o verdadeiro objetivo do governo, o pré-sal está sendo usado apenas como pretexto. E por que essa estratégia é importante? No curto prazo, o objetivo é tirar de pauta os escândalos do Senado, os problemas na Receita Federal e a gripe suína. No médio prazo, é ganhar as próximas eleições presidenciais.

Nos últimos anos assistimos no Brasil a três grandes rounds da luta estatistas x privatistas. O primeiro foi no governo FHC, com o embate em torno do petróleo. Primeiro, para a aprovação da Emenda Constitucional nº 9, que alterou o artigo 177 da Constituição federal, em que era dado o monopólio à Petrobrás. Depois, quando da tramitação e posterior aprovação da Lei 9.478, em agosto de 1997. Naquele momento a vitória foi dos privatistas, que se teriam aproveitado dos ventos neoliberais que sopravam pelo mundo.

Um segundo round ocorreu na primeira eleição do presidente Lula, quando o governo FHC foi acusado de ter promovido o racionamento de energia elétrica em razão das privatizações. Apesar de o governo FHC ter privatizado apenas 15% das estatais geradoras, a tese que culpava a privatização pegou e deu a vitória aos estatistas. O terceiro round foi na segunda eleição do presidente Lula, que na época tachou o candidato de oposição de privatista e neoliberal. O presidente Lula acuou o adversário afirmando que, caso a oposição ganhasse as eleições, a Petrobrás e o Banco do Brasil seriam privatizados. O candidato da oposição em momento algum conseguiu escapar da armadilha, mostrando que o debate não era estatização x privatização, e sim um Estado eficiente assumindo posições de fiscalização e regulação contra um Estado gastador, inchado e politizado. Pela segunda vez as urnas deram a vitória à tese estatizante. A luta é sempre reiniciada às vésperas das campanhas presidenciais, e agora não poderia ser diferente.

É bom lembrar que, se tudo correr bem, a produção comercial do pré-sal só se iniciará a partir de 2015. O próprio presidente da Petrobrás, em contraposição a outros membros do governo, declarou recentemente que o pré-sal não é uma vaca leiteira. Mesmo assim, o governo, de forma autoritária e nada democrática, apresentou seus projetos para que fossem apreciados e aprovados em apenas 90 dias pelo Congresso Nacional.

Quando analisamos os quatro projetos enviados ao Congresso pelo governo, verificamos a existência de dois pontos comuns a todos: o direcionamento para uma reestatização do setor de petróleo e gás natural e a mudança de um Estado que participa da renda petroleira por meio da arrecadação de impostos para um Estado que vai obter a mesma renda pela comercialização do petróleo e do gás natural. Essa mudança acaba prejudicando Estados e municípios produtores de petróleo. O projeto que cria a Petro-Sal propõe funções de gestora dos contratos de partilha e dos contratos de comercialização de petróleo e gás natural. A primeira é atualmente exercida pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), só que em relação aos contratos de concessão. Nesse sentido, a Petro-Sal vai esvaziar a agência. A segunda faz a Petro-Sal reencarnar o antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e o Instituto Brasileiro do Café (IBC), que só deixaram heranças malditas. Por fim, a Petro-Sal vai participar dos comitês operacionais dos campos de petróleo, com poder de veto. Muitos afirmam que isso teria sido copiado da estatal norueguesa Petoro. Não é verdade. Na Noruega a estatal participa dos comitês operacionais porque a Petoro é investidora e, portanto, entra no risco do negócio. No Brasil, a Petro-Sal nada investe e apenas vai exercer ingerência política na administração dos campos. O governo brasileiro abandona o modelo de controle da produção e fiscalização do campo por uma agência reguladora e passa agora a ter essas funções exercidas por uma estatal com critérios pouco transparentes.

No contexto da volta aos anos 1950, o governo propõe restituir parte do monopólio que a Petrobrás havia perdido com a Lei 9.478. A Petrobrás passaria a ser a única operadora dos campos do pré-sal que ainda não foram licitados, com uma participação mínima de 30%. O primeiro comentário é que, além da perda de eficiência, natural em empresas monopolistas, essa novidade tende a afastar investimentos das tradicionais empresas petrolíferas, que poderão não aceitar ser meras parceiras financeiras da Petrobrás. Por outro lado, o novo modelo poderá atrair empresas estatais, principalmente chinesas, que têm grande disponibilidade de capital e pouca tradição como operadoras de petróleo. O governo chinês deixaria de comprar papéis do Tesouro americano e passaria a comprar reservas de petróleo no Brasil. Ficaria estabelecida a eficiente e moderna parceria estatal com estatal. A Petrobrás monopolista também passa a ser um monopsônio, transformando-se na única compradora das indústrias fornecedoras de bens e serviços para o pré-sal. Será que uma Petrobrás monopolista e exercendo o poder de monopsônio é caminhar para a modernidade e proteger os interesses do povo brasileiro?

É provável que a oposição não consiga sair do canto do ringue. Quando vemos políticos da oposição fazendo críticas artificiais aos projetos do governo para assegurar que não serão acusados de privatistas, temos a certeza de que caíram, mais uma vez, na armadilha de não ter coragem de enfrentar o verdadeiro debate. E, nesse caso, na próxima campanha presidencial o embate será entre estatistas e estatistas. Pobre Brasil, que com a adoção do novo modelo do pré-sal poderá gerar duas maldições: a conhecida doença holandesa e, na contramão do mundo, sujar a nossa matriz energética, que sempre foi das mais limpas do mundo.

GOSTOSA


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ELIANE CANTANHÊDE

Papel de trouxas

FOLHA DE SÃO PAULO - 10/09/09



BRASÍLIA - A norte-americana Boeing e a sueca Saab gastaram milhões de dólares para disputar a seleção de renovação da frota da FAB.
E eis que de repente, não mais que de repente, Lula vai comer uma moqueca com Sarkozy e ambos anunciam ao mundo a escolha dos Rafale, da francesa Dassault.
O anúncio, num texto em diplomatês e à parte do comunicado conjunto longamente negociado, correspondeu a dizer que o processo não era para valer. Era só para americanos e suecos verem.
Isso, evidentemente, criou problemas na Aeronáutica, que comanda a indicação com seu jeito militar de ser: tudo tem regra, cronograma, informação técnica. Ou, como explicou Jobim no Planalto, processos de seleção, principalmente internacionais e na área de defesa, seguem "prazos e ritos".
Então, como explicar para a milicada, aqui dentro, e para os países e empresas concorrentes, lá fora, que a decisão foi tomada antes da conclusão do parecer técnico? Esse tipo de voluntarismo cabe bem em lutas sindicais, mas pode criar problemas em negociações muito mais complexas.
Na segunda, Lula e Sarkozy anunciaram a escolha dos Rafale. Na terça, Jobim, em nota, deu o dito pelo não dito. Ontem, foi a vez do contorcionismo retórico para explicar o inexplicável, enquanto Lula tentava reduzir tudo a uma brincadeira: "Daqui a pouco eu vou receber de graça". (Atenção ao "eu". Não tem graça nenhuma.)
OK. Há muito mais do que vã filosofia, questões técnicas e até mesmo de preços por trás da preferência do Brasil pelos aviões franceses -ou melhor, pelos franceses. Mas não precisava esculhambar.
Bastava seguir os "trâmites normais", deixar a FAB concluir o seu trabalho, pressionar por melhores preços e juros e anunciar o negócio com a França com profissionalismo e compostura, para conferir ar de seriedade ao país e evitar questionamentos, até jurídicos, depois.

CLÓVIS ROSSI

São Paulo e a maldição

FOLHA DE SÃO PAULO - 10/09/09



SÃO PAULO - Carlos Eduardo Lins da Silva, o ombudsman desta Folha, é uma pessoa a quem nós, os pré-antigos, trataríamos como "cavalheiro de fino trato", elegante até na linguagem.
Por isso, quando ele, na crítica interna do jornal, chamou São Paulo de "cidade maldita", pensei baixinho: "a coisa está muito feia" Outra demonstração da "feiura" veio no texto de Rodrigo Fiume, editor-assistente de Cotidiano, que lamentava profundamente ter saído de carro apesar da chuva que caiu anteontem e pedia ao prefeito Gilberto Kassab que fizesse "algo nesta cidade maluca".
"Maldita", "maluca". Pobre São Paulo, a São Paulo que já foi "a cidade que não pode parar". Lamento desapontá-los, Carlos Eduardo e Rodrigo Fiume, mas sou mais antigo na arte de reconhecer as maldições e maluquices de São Paulo. Exemplo: em 1996, Duda Mendonça, marqueteiro então a serviço do malufismo, enchera a cidade de outdoors dizendo: "Não deixe São Paulo parar".
Parado, completamente parado, nos congestionamentos diários da avenida 23 de Maio, olhava o slogan do grande marqueteiro e pensava: "Como São Paulo já parou, essa é a típica propaganda enganosa".
O problema de São Paulo não é o de parar por causa de uma chuva excepcional como anteontem (parou ontem de novo, pelo menos de manhã, sem chuva extraordinária).
O problema de São Paulo é que parou faz tempo. Antes, o nível de congestionamento que autorizava voltar para casa era inferior a 100 quilômetros. Foi subindo, subindo, e hoje já está em 200, pouco mais, pouco menos.
Está próximo o momento (maldito) em que nem sair do trabalho os paulistanos sairão. Porque não conseguirão chegar.
E nos acostumaremos bovinamente, como ocorreu quando caíram sobre a cidade -e sobre nós- todas as "maldições" anteriores.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

PAINEL DA FOLHA

Para Lula ver

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 10/09/09

Quem conhece os meandros regimentais da Câmara sabe que, embora a oposição tenha concordado em fixar a votação em plenário dos projetos do pré-sal na semana de 10 de novembro, é quase impossível que a discussão esteja concluída antes do dia 24 daquele mês. Mesmo se não houver obstrução nas comissões, serão quatro propostas polêmicas, recheadas de emendas, a serem votadas madrugadas adentro.
Uma combinação de conveniências ditou o acordo que resultou no fim da urgência e na definição desse cronograma, ainda que pró-forma. Michel Temer (PMDB-SP) queria encerrar a obstrução e votar o reajuste do Judiciário. A oposição, desgastada, obteve mais prazo para debater as matérias e fazer emendas.

Mãozinha - Relator do projeto mais importante do pré-sal, o da partilha, Henrique Alves (PMDB-RN) ainda emplacou o conterrâneo João Maia (PR) na relatoria do fundo social. Argumentou que o irmão de Agaciel Maia vinha se aproximando da oposição, mas, uma vez contemplado, ficará com Dilma Rousseff.

Vai sonhando - Escolhido presidente da comissão sobre o regime de partilha, Arlindo Chinaglia (PT-SP) quer manter a discussão sobre royalties fora dos debates. Só que a maioria das emendas apresentadas trata da questão.

Borracha - Sem alarde, Eduardo Azeredo (PSDB-MG) fez alteração de última hora no texto da reforma eleitoral. Onde estava prevista a proibição de propaganda de programas oficiais seis meses antes da eleição, agora se lê quatro meses, ou seja, praticamente já na campanha. Explicou aos colegas que atendia a um pedido de Aécio Neves.

Momento - Eros Grau saiu bufando do plenário do STF depois do bate-boca com o relator Cezar Peluso a propósito do direito de defesa de Tarso Genro. Mas, pouco depois, minimizava o episódio: “O ministro Peluso é meu amigo-irmão”, disse a um assessor.

Pesos... - Depois que Peluso leu as preliminares do voto, o advogado de Battisti, Luís Roberto Barroso, disse que havia 30 anos seu cliente não se envolvia em questões “anti-sociais”. Quando lhe perguntaram se haveria tal prescrição para ex-ditadores, gaguejou.

... e medidas - Em seguida, formulou: “Defendo que criminosos de Estado, que usaram a tortura como instrumento de perseguição, tenham regime diferente dos criminosos de cidadania”.

Albergue - Eduardo Suplicy (PT-SP) deixou a chave de seu gabinete no Senado com os manifestantes pró-Battisti que chegaram a Brasília na véspera do julgamento. “Foi para que pudessem usar o banheiro à noite”, justificou.

Teleprompter - O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, optou por ler na tela do computador sua sustentação no caso Battisti. Em vários momentos se perdeu.

Escravos... - Alçado ao governo do Tocantins com a cassação de Marcelo Miranda (PMDB), o presidente da Assembleia, Carlos Gaguim (PMDB), fechou acordo para ser eleito indiretamente. Levará para o secretariado Leomar Quintanilha (PMDB), com quem disputará a vaga de candidato ao governo em 2010. Miranda concorrerá à cadeira hoje ocupada por Quintanilha no Senado.

...de Jó - Enquanto isso, o senador João Ribeiro (PR) tenta atrair a base de Miranda para ser candidato ao governo. Do outro lado, a senadora Kátia Abreu (DEM) negocia com Siqueira Campos (PSDB), seu adversário na eleição passada.

Paris é aqui - No currículo parlamentar de Gaguim há um projeto que prevê a construção de réplica da Torre Eiffel em Palmas. Piada de adversários: com a atual aproximação Brasil-França, talvez seja possível arrancar recursos do PAC para a obra.

Tiroteio

A oposição não tem passado para contrapor ao governo Lula. Não tem presente para enfrentar a popularidade do presidente. E agora, com o pré-sal, também não tem futuro.
Do deputado JOSÉ MENTOR (PT-SP), fazendo pouco das chances do consórcio PSDB-DEM na eleição presidencial do ano que vem.

Contraponto

Meu nome não é Enéas

Ainda no início do governo Lula, o PFL (depois rebatizado DEM) tentava com dificuldade obstruir uma sessão da Câmara. Como havia poucos deputados do partido e do parceiro PSDB no plenário, o chefe de gabinete da liderança pefelista, responsável por manter a obstrução com os meios disponíveis no regimento, animou-se ao ver Enéas Carneiro (1938-2007) sentado sozinho num canto.
- Deputado, por favor nos ajude. Eu preciso que o senhor discurse. Pode falar o tempo que quiser.
- Não, obrigado - cortou Enéas para surpresa do assessor, habituado à contundência do homem do Prona.
Enéas ainda completou:
- Tenho de confessar para você: eu detesto falar.

MERVAL PEREIRA

Uma bomba política

O GLOBO - 10/09/09


Está na mesa da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, uma verdadeira bomba política, exemplar de uma coalizão onde cada partido defende seus interesses próprios e mantém o governo refém. Um grave problema para quem é candidata oficial à sucessão do presidente Lula: o pedido do ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, para que a Aeronáutica troque seu representante na Agência Espacial Brasileira (AEB), o majorbrigadeiro Antonio Hugo Pereira Chaves, que é PhD em Engenharia Espacial em Toulouse, na França, e ex-piloto da Esquadrilha da Fumaça, considerado “top gun” na Aeronáutica

O pedido de demissão foi feito por pressão do presidente em exercício do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, que acumula a função política com a presidência da empresa brasileiro-ucraniana Cyclone Alcântara Space, que vai explorar o lançamento de foguetes da Base de Alcântara, no Maranhão — cuja utilização está no centro de toda a crise política.

Esse acordo com a Ucrânia, por sinal, foi objeto de uma polêmica logo no início do governo Lula, pois ele continha cláusulas que haviam sido contestadas pelo PT quando o governo Fernando Henrique Cardoso negociou tratado semelhante com os Estados Unidos.

Na campanha eleitoral de 2002, o candidato Lula dissera que o acordo com os Estados Unidos não levara em conta a soberania nacional, pois os americanos é que dariam permissão para que brasileiros entrassem na base e não cabia aos brasileiros “fiscalizar um contêiner em nosso território”. Cláusulas semelhantes estão no contrato com a Ucrânia.

Na reunião da Agência Espacial Brasileira na semana passada, houve um bate-boca entre Roberto Amaral e o major-brigadeiro, que defendia uma negociação com os representantes dos quilombolas e dos indígenas que estão instalados no terreno da Base de Alcântara antes de colocá-la em funcionamento novamente.

Embora Alcântara, no Maranhão, seja considerada o melhor local do mundo para lançamento de foguetes, o Programa Espacial está sendo emperrado por grupos de indígenas e quilombolas que estão instalados na região.

É preciso construir uma nova base para os lançamentos de foguetes, pois a antiga base explodiu em agosto de 2003, matando mais de 20 engenheiros, na maior tragédia do setor na história brasileira.

Mas há problemas, pois a Funai exige um estudo de impacto ambiental e um levantamento socioeconômico, enquanto a demarcação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) destinou 78,1 mil hectares aos quilombolas e 8,7 mil para o programa de lançamentos de foguetes.

O ex-ministro Roberto Amaral está empenhado para que as obras da nova Base de Alcântara sejam incluídas no PAC, para garantir a prioridade do projeto e acelerar o processo de licença ambiental da área onde os lançamentos serão feitos.

O projeto da empresa binacional seria iniciar as obras de terraplanagem em agosto, para lançar o primeiro satélite, sem fins comerciais, no segundo semestre de 2010, e o primeiro lançamento comercial em 2011, mas o processo está atrasado pelos problemas.

O major-brigadeiro Antonio Hugo Pereira Chaves, representante da Aeronáutica na AEB, defendeu na reunião da agência a tese de que seria melhor que se tentasse um acordo com os quilombolas e indígenas instalados na região, para que os lançamentos de Alcântara não fossem impugnados internacionalmente pelos movimentos sociais e se tornassem alvos de protestos, inclusive locais, para impedi-los.

Roberto Amaral, presente à reunião como representante da Cyclone Alcântara Space, irritou-se com a proposta do brigadeiro e alegou que os problemas já haviam sido equacionados. Argumentou que a sugestão do brigadeiro prejudicaria o programa espacial brasileiro e, a certa altura, a classificou de uma “proposta de filho da puta”, batendo violentamente com a mão na mesa, para em seguida tentar atirar um copo de água na direção do brigadeiro, que reagiu com outro soco na mesa.

Ao mesmo tempo, o brigadeiro atirou-se na direção de Roberto Amaral para lhe tomar o copo, o que fez com que o presidente em exercício do PSB caísse da cadeira, gritando palavrões e sendo contido por seus auxiliares.

Mesmo assim, conseguiu jogar o copo na direção do brigadeiro, sem, no entanto, atingilo. Sentindo-se agredido, o presidente do PSB exigiu do ministro da Ciência e Tecnologia a destituição do brigadeiro do conselho da AEB.

Esse ministério é, desde o início do governo Lula, um feudo do PSB, tendo sido Roberto Amaral o primeiro ocupante do cargo, ficando conhecido por uma polêmica declaração em 2003 à BBC Brasil, quando afirmou que concordava com a ideia de que o Brasil tem de buscar “o conhecimento necessário para a fabricação da bomba atômica”.

Foi substituído pelo então deputado federal Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, hoje governador de Pernambuco, e depois pelo atual ministro Sérgio Rezende — que coordenou o grupo que elaborou a proposta de apoio à ciência e tecnologia do governo de Arraes, em Pernambuco, em 1986, e depois foi seu secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente.

Como se vê, Rezende não tem condições políticas de recusar uma exigência do presidente do PSB, e muito menos de adverti-lo. Ele já conversou várias vezes nos últimos dias com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e com o da Aeronáutica, tenentebrigadeiro-do-ar Juniti Saito, mas encaminhou um pedido de demissão do majorbrigadeiro Chaves do Conselho da AEB, o que está abalando a Aeronáutica.

O major-brigadeiro Antonio Hugo Pereira Chaves continua trabalhando normalmente, à espera do desfecho da questão.

LINGUARUDO

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Bastidores

O GLOBO - 10/09/09

Especula-se que a vinda do Sarkozy ao Brasil foi precedida de uma intensa negociação diplomática entre Brasil e França em torno de uma única dúvida: se a Carla Bruni viria ou não viria junto. Quando o governo francês anunciou que ela definitivamente não viria, teria havido uma reunião de emergência no Planalto, com a participação do Itamaraty e dos ministros da Defesa e da Fazenda, quando ficara decidido que o Brasil concordaria em comprar helicópteros franceses, com a condição de que a Carla Bruni acompanhasse o marido. O Sarkozy teria dito que infelizmente ela tinha um compromisso previamente marcado e não poderia vir. O governo brasileiro insistira: compraria, além dos helicópteros, 18 aviões, se a Carla Bruni também viesse. A chancelaria francesa se desculpara: a senhora Sarkozy, infelizmente, não poderia atender ao convite. O Brasil então teria feito outra proposta: os helicópteros e mais 36 aviões. A própria Carla Bruni escrevera um bilhete muito gentil ao Lula, agradecendo o carinho dos brasileiros, etc. mas reafirmando que, infelizmente, não poderia vir. Nova reunião de emergência e nova oferta brasileira: os helicópteros, os 36 aviões e mais dois submarinos. Nova resposta francesa: infelizmente... Então Lula autorizara a proposta final. O Brasil compraria os helicópteros, os 36 aviões e TRÊS submarinos, sendo um nuclear, e a França ainda poderia levar o que quisesse do pré-sal, com desconto, se a Carla Bruni viesse junto. Aliás, se viesse
a Carla Bruni, o Sarkozy nem precisava vir. O negócio estava fechado.
Os franceses aceitaram. Por isso grande foi a decepção quando a porta do avião se abriu e o Sarkozy apareceu sozinho.
Depois ele explicou por que,
à última hora, a mulher não pudera vir:
– Enxaqueca.
Mas aí ficaria chato o Brasil retirar sua oferta.
Claro que esta é apenas uma versão do que teria havido nos bastidores do grande negócio. Outra, menos verossímil, é que o Sarkozy é apenas um vendedor com muita sorte.
UM DIA
(Da série “Poesia numa hora destas?!”)

Não esquente, não esquente:
um dia ainda vamos rir de tudo isto
histericamente.

CLÁUDIO HUMBERTO

“A gestão do Estado é morosa, complexa e os resultados demoram”
GOVERNADOR MINEIRO, AÉCIO NEVES (PSDB), TENTANDO NÃO CRITICAR O GOVERNO LULA

CPI: GOVERNO DEVE “RIFAR” GERENTE DA PETROBRAS
Na CPI da Petrobras, o governo Lula cogita não proteger o gerente de Comunicação Institucional da estatal, Wilson Santarosa, convocado para depor na terça (22). Ligado ao ex-ministro Luiz Gushiken, Santarosa ocupa o cargo desde 2003. Ele é quem define a liberação de patrocínios, sem dar ouvidos à própria diretoria da Petrobras, utilizando critérios que deixam governistas insatisfeitos e a oposição indignada.
BOLA DA VEZ
Em sessão noturna, há dias, a maioria governista sepultou o que quis, na CPI da Petrobras, exceto a convocação de Santa Rosa para depor.
ELE TEM A FORÇA
Wilson Santarosa pilota um orçamento estimado em R$ 1 bilhão em patrocínios, propaganda, repasses a ONGs e incentivos culturais.
NA BANDEJA
A frase de um senador petista resume o pragmatismo do governo Lula:
“Se temos de entregar a cabeça de alguém, que seja a do Santarosa”.
LIÇÃO DE DIREITO
Juristas consideraram “soberbo” o voto do ministro-relator Cezar Peluso, do STF, pela extradição do terrorista homicida Cesare Battisti.
ÚLTIMA PEÇA NO “XADREZ” DO CASO CELSO DANIEL
As promotoras do Ministério Público do ABC paulista Eliana Faleiros e Mylene Comployer entregaram à Justiça a última peça do intrincado quebra-cabeças que resultou no sequestro e assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em 2002. Pedem júri popular dos sete réus confessos, um deles menor, que implicam Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, ex-motorista,
ex-segurança e ex-amigo íntimo da vitima.
CHOCANTE
A Secretaria de Saúde do DF revelou que em apenas um ano seus médicos sapecaram 4 mil atestados para justificar faltas ao trabalho.
MANDA QUEM PODE
Um referendo popular suspendeu a venda de 20 a 30 caças de combate Rafale... à Suíça.
NOTÍCIA VELHA
Depois de fazer doce, o presidente Lula confirmou ontem o que esta coluna antecipou: mandou retirar a urgência nos projetos do pré-sal.
EXTREMA CRUELDADE
Até o experiente legista do DF ficou chocado com a “extrema crueldade” de quem esfaqueou um total de 72 vezes o afável ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, sua mulher e a empregada.
“JE ME LIXE”
A presidente argentina Cristina Kirchner visitou as cidades da fronteira atingidas por um tornado. Lula, que só tem olhos para a França, nem se abala para conhecer a cidade catarinenses destruída pelo tornado.
PANCADARIA ANUNCIADA
Na campanha presidencial de 2010, dois amigos do governador tucano de São Paulo vão entrar na linha de tiro do vale-tudo petista: Guilherme Marins, primo de José Serra, e José Amaro Pinto Ramos.
PRÉ-LULA
Só não vê quem não quer. Antes de ser plataforma de campanha para Dilma Rousseff, o Pré-Sal é palanque armado para a volta de Lula ao governo em 2014. É lá que, com sorte, começará a jorrar o petróleo.
GOVERNADORA
Nem bem o TSE anunciou a cassação do governador Marcelo Miranda, a senador Kátia Abreu (DEM), anunciou a disposição de concorrer ao governo do Tocantins. Ela não topa ser vice na chapa de José Serra.
CIRO EM SAMPA
A pedido do presidente Lula, que ignorou solenemente o apelo do tucano José Serra, o deputado Ciro Gomes (PSB-SP) vai mesmo transferir o título eleitoral do Ceará para São Paulo, na segunda (20).
MUSA CAPIXABA
O tucanato paulista está encantado com a deputada Rita Camata (ES). José Serra a convidou para trocar o PMDB pelo PSDB e disputar o Senado. Gérson, o maridão senador, deve abandonar a política.
CADEIRA VAZIA
Há mais de um mês está vaga na Anac a diretoria desocupada com a saída de Marcelo Seroa. O ministro Nélson Jobim (Defesa) defende um nome técnico para a vaga, contra a vontade de seu partido, o PMDB.
PERGUNTA NO COCKPIT
Empacado o original, PAC agora é Plano de Aquisição de Caças?

PODER SEM PUDOR
“VELHINHO” AMEAÇADO
O presidente Lula havia confirmado, no início do mandato, que não iria operar a bursite, já que não pretende lutar boxe ou carregar peso. E brincou:
– A não ser que eu precise de força para dar um soco no Ricardo Kotscho.
Seu veterano assessor de imprensa não deixou por menos:
– Se fizer isso, o senhor será enquadrado no Estatuto do Idoso, que prevê 11 anos de cadeia para quem agredir um velhinho...

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Megaoperação tenta tirar 12 mil vans das ruas hoje


- Folha: Lula faz acordo e recua na urgência do pré-sal


- Estadão: Acordo com oposição faz Lula retirar urgência do pré-sal


- JB: Remédio terá bula simples e via web


- Correio: Recorde de vagas no serviço público


- Valor: Indústria nacional tenta garantir fatia no pré-sal


- Estado de Minas: O que move o endividado


- Jornal do Commercio: Cai o número de assaltos a ônibus