PanoramaHolofote
O cenário paulista
O dedo do PT
O ministro das Comunicações, Hélio Costa, atribui ao petista Fernando Pimentel uma manobra que prejudica sua candidatura ao governo de Minas Gerais. A amigos, ele disse que foi Pimentel quem urdiu a candidatura do deputado estadual Adalclever Lopes à chefia do PMDB mineiro. Patrocinado pelo ex-governador Newton Cardoso, Lopes é considerado um risco para as ambições de Costa. Para anular o golpe dos adversários, Costa decidiu entrar também na disputa pela direção do PMDB de Minas Gerais.
O mentor de Carvalho
Rebelião no DEM
Na cartolagem, pela lateral
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sábado, agosto 08, 2009
PANORAMA
BRASÍLIA - DF
Aliança no Pelourinho
A aliança PT-PMDB se rompeu no quarto colégio eleitoral do país, a Bahia. Frustra-se, com isso, a possibilidade de uma união tão robusta entre os dois partidos no Nordeste que seria capaz de levar à derrocada, com apoio do Rio de Janeiro, a hegemonia tucana no Sul Maravilha. O confronto entre o governador Jaques Wagner (PT) e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), que retirou seus aliados do governo estadual e se lançou candidato a governador, é uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que articula candidaturas únicas dos dois partidos nos estados governados por um deles.
O presidente da República bem que tentou evitar o rompimento, mas não conseguiu. Geddel continua no ministério, como um dos artífices da coalizão que incorporou o PMDB em bloco ao governo Lula, mas sempre foi visto como um potencial aliado dos tucanos. Sua candidatura pode ser um segundo palanque para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), mas o preço será alto para Lula: seu amigo Wagner deixaria de ser o candidato preferencial do governo federal.
A conta
O governador Jaques Wagner pôs a conta do rompimento na mesa de Geddel, que enviou as cartas de demissões dos secretários peemedebistas Rafael Amoedo (Indústria e Comércio), Batista Neves (Infraestrutura) e do pai, Afrísio Vieira Lima (presidente da Junta Comercial da Bahia) por um contínuo, às 23h, direto para a residência oficial do governador, em Ondina.
Aposta
O diagnóstico da crise baiana é como um copo pela metade: se a situação de Dilma for boa, Geddel ficará na base: se for uma campanha difícil, o ministro da Integração Nacional migrará para o palanque do bloco PSDB-DEM-PPS. Como Lula é otimista, mantém o peemedebista baiano no governo.
Transposição
A visita de Lula à Bahia, inicialmente prevista para dia 3 de setembro, será novamente adiada, por falta do que ver nos programas do São Francisco. A execução orçamentária do Ministério da Integração é das mais baixas da Esplanada.
Amém
Cresce o contencioso entre o alto clero católico e os educadores por causa do acordo do governo brasileiro como Vaticano, que prevê o ensino religioso nas escolas públicas. O lobby de outras religiões entrou em campo contra a proposta, que restaura um privilégio da Igreja Católica incompatível com o republicanismo. O assunto ainda depende de aprovação do Congresso.
Arrozeiros - Agricultores desalojados da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, liderados por Paulo César Quartiero, estão de mudança para a Guiana. Se o acordo com o governo vizinho for fechado esta semana, as máquinas já devem atravessar a fronteira para a região de Pirara, a 120km da reserva, área que fazia parte do território brasileiro até 1904. Eles negociam com ogoverno do país vizinho a cessão de 50 mil hectares para o cultivo de grãos em larga escala.
Cruel - Depois de mandar arquivar todas as representações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), se prepara para acolher a representação do PMDB contra o líder do PSDB, Arthur Virgílio Neto (AM). A cassação do tucano virou obsessão do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL). Duque não vacila e deixa a bancada do PT na condição de pizzaiolos.
Gula - Uma ala do PMDB fluminense fez uma conta que pode comprometer a tradicional aliança com o PP no Rio de Janeiro. Um esboço traçado esta semana dos pré-candidatos à Câmara dos Deputados chegou a 18 nomes competitivos. O PMDB tem hoje 10 deputados federais e quer ampliar sua bancada para 12, em 2010. Três deputados progressistas terão que procurar outra coligação.
CLÓVIS ROSSI
1 - Fosse possível confiar em Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, que já disse que Caracas tem "o maior respeito" pelo projeto político das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo que transitou da luta política para o narcoterrorismo sem escalas).
Essa declaração não foi inventada pela "mídia golpista", mas feita em cerimônia pública. Nunca foi nem mesmo levemente retificada.
Mais: Chávez chamou a turma das Farc de "insurgentes", em vez de bandoleiros, que é a qualificação correta. Como é que se pode confiar em quem tem essa visão torpe, ainda mais sendo vizinho da Colômbia, base das Farc e maior produtor de drogas?
2 - Seria preciso ainda que se esclarecesse como é que dinheiro das Farc foi parar na campanha eleitoral de Rafael Correa, o que fica claro em vídeo difundido pelo próprio governo Correa, no qual um dos líderes do narcoterrorismo lamenta a inutilidade do financiamento.
Um ex-chefe de polícia equatoriano já disse que Gustavo Larrea, que viria a ser ministro do Interior de Correa, reuniu-se com as Farc. Larrea foi demitido, OK, mas é ou era o único canal?
3 - Nenhum dos países sul-americanos tem uma ficha propriamente brilhante em matéria de combate ao crime organizado, para o qual as drogas são o principal negócio. A soma de fracassos individuais resultará em êxito coletivo?
Por fim, é irrealista excluir do combate o país (Estados Unidos) que é o maior consumidor de drogas. Não dá, como é óbvio, para eliminar a oferta se a demanda se mantém poderosa.
MAÍLSON DA NÓBREGA
Maílson da Nóbrega
A ilusão sobre a reforma tributária
O erro foi atribuir o ICMS aos estados. Nos outros países,
o tributo cabe ao governo central, que o reparte com as outras
esferas. É que essa forma de tributar precisa ser harmônica
A carga tributária atingiu 35,8% do PIB. Chegou a hora da reforma? Difícil. Ilude-se quem espera mudança e simplificação. Pode até piorar, caso passe o projeto que está no Congresso, que muda ou cria 381 normas.
Países de renda média como o Brasil têm carga tributária em torno de 20% do PIB. Casos de Chile, México e China. A nossa é semelhante às de Inglaterra, Alemanha e Nova Zelândia. Supera as de Canadá, Japão e Suíça. É 27% maior do que a dos EUA. Parece buscar o nível dos países nórdicos (perto de 50% do PIB).
A carga tributária dos países ricos reflete sua renda e riqueza. Nos acima mencionados, a renda per capita média, pela paridade do poder de compra, é quatro vezes a brasileira. Por isso, pelo menos a metade de sua arrecadação vem da tributação da renda e da propriedade (23% no Brasil).
Em 1988, nossa carga era de 22,4% do PIB. Sua impressionante elevação derivou da farra fiscal da Constituição de 1988 e, a partir do Plano Real (1994), de aumentos reais de 120% do salário mínimo, que reajusta dois de cada três benefícios do INSS.
A Constituição foi um desastre fiscal em quatro atos: (1) aumentos insustentáveis de aposentadorias; (2) vantagens obscenas para servidores públicos; (3) maiores vinculações de receitas a despesas e transferências da União para estados e municípios; e (4) atribuição de poderes aos estados para legislar sobre o ICMS.
Antes, em 1965, havíamos herdado um razoável sistema tributário. Introduziu-se a tributação do consumo pelo valor agregado, mais racional e hoje praticada em mais de 100 países. O Brasil, pioneiro na América Latina com o IPI e o ICM (depois ICMS), o adotou antes de países europeus.
O erro foi atribuir o ICMS aos estados. Nos outros países, o tributo cabe ao governo central, que o reparte com as outras esferas. É que essa forma de tributar precisa ser harmônica no mesmo espaço econômico. Daí a prioridade que os países integrantes da União Europeia atribuem à harmonização.
No início, uma lei complementar e o Senado fixavam as normas e alíquotas do ICM, respectivamente. Brechas legais provocaram guerra fiscal, exigindo a criação de um conselho com representantes da União e dos estados (o Confaz) para harmonizar as regras. Se envolvessem incentivos fiscais, precisavam de aprovação unânime.
A Constituição confundiu harmonia com autoritarismo e liberou geral. Os estados ganharam o poder de legislar sobre o ICMS. Surgiram 27 legislações e incontáveis normas e alíquotas. Uma bagunça. Ultimamente, no combate cego à sonegação, os estados ampliaram o uso da substituição tributária, pela qual o ICMS é cobrado na fonte de produção. Mais bagunça, distorções e perda de eficiência econômica.
De 1988 até agora, os gastos com pessoal, previdência, vinculações, juros e outros igualmente obrigatórios formaram uma despesa pública rígida de 35% do PIB. Foi preciso aumentar tributos para financiar a festa. Três quartos da elevação se explicam pelos gastos previdenciários, que passaram de 4% para 13% do PIB de 1988 para cá.
Dado o nosso nível de renda, recorreu-se crescentemente a impostos sobre o consumo e cada vez mais sobre setores que não sonegam: automóveis, combustíveis, energia elétrica e telecomunicações, dos quais vem mais da metade da arrecadação do ICMS. O Brasil se tornou campeão de tributação nesses setores. Novas distorções.
Os tributos sobre o consumo penalizam mais as classes de menor renda. Entre 1996 e 2008, passaram a representar 54% da renda das famílias que ganham até dois salários mínimos, contra 29% das que percebem mais de trinta salários. Nesse período, o aumento da carga foi pior para as famílias pobres: tomou mais 26% de sua renda (11% nas maiores rendas). O sistema tributário ficou socialmente perverso.
A rigidez da despesa inibe a redução da carga tributária. A substituição tributária agrava os efeitos distorcivos do ICMS. O aumento dos gastos correntes, que piorou no governo Lula, escanteia os investimentos. Mudar tudo isso implica contrariar poderosos interesses e enfrentar complexas negociações. Não há liderança política disponível para o desafio. Ainda bem que o Brasil tem dado certo em outras áreas.
VOANDO NO LOMBO DO POVO
Senadora usou cota aérea para turismo
| LEONARDO SOUZA |
| Folha de S. Paulo - 07/08/2009 |
Rosalba Ciarlini (DEM-RN) custeou passagens e hospedagem em viagens nacionais e ao exterior para ela, parentes e amigos |
PAINEL DA FOLHA
Os apelos públicos, assim como os "gestos de carinho", continuarão nos próximos dias, mas, em privado, a maioria dos caciques petistas avalia que Marina Silva está de cabeça feita e irá mesmo deixar o partido para disputar a Presidência pelo PV.
Não que isso tenha deixado de assustar o PT, interessado em garantir a Dilma Rousseff o conforto de enfrentar exclusivamente o candidato tucano. Apenas ninguém acredita que pregações dos irmãos Viana (Tião, senador, e Jorge, ex-governador do Acre) resolvam a parada. Nem mesmo do chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho. Quanto ao presidente, quem o conhece bem acha que ele só chamaria Marina (se é que chamaria) caso tivesse certeza prévia de um resultado positivo. E o prognóstico não é esse.
Concílio 1. Marina mandou buscar as irmãs, que moram em colônias agrícolas no interior do Acre, para uma reunião de família sobre o convite feito pelo PV.
Concílio 2. Outros dois conselheiros privilegiados da senadora são o governador Binho Marques (PT), amigo desde os tempos da faculdade, e o arcebispo de Porto Velho, d. Moacyr Grechi, a quem Marina considera um segundo pai. Ele foi o primeiro a lançá-la candidata a presidente.
Exércitos. "Agora será a tropa de choque contra a tropa do cheque", proclamou um ainda exaltado Renan Calheiros (PMDB-AL) a aliados em jantar na quinta-feira pós-tiroteio no Senado. Foi no restaurante Bottarga, que fica numa loja de artigos de luxo no Lago Sul, em Brasília, e é o novo QG dos sarneysistas.
Fila. A agressividade de Renan na tribuna tem um componente bem racional: o líder do PMDB sabe que, se José Sarney for removido, ele será o próximo na linha de tiro.
O infiltrado. Chama-se Hezir Espíndola Gomes Moreira o responsável por acender o pavio de Tasso Jereissati (PSDB-CE) na sessão de quinta. Enquanto Renan lia a representação contra Arthur Virgílio (PSDB-AM), ele ficou chamando o líder tucano de "vestal", até Tasso pedir que fosse tirado de plenário. Criador do blog "Fica Sarney", Moreira é ligado à família.
Largada. O primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI), assinou a abertura de processo contra o ex-diretor de RH João Carlos Zoghbi, por ter instalado o filho num imóvel funcional.
Revoada 1. Às voltas com a denúncia do Ministério Público Federal e com a abertura de nova CPI, a governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB) deverá sofrer em breve uma debandada de secretários.
Revoada 2. O primeiro a desembarcar deverá ser o PMDB, a pedido do senador Pedro Simon, padrinho de indicações no Banrisul. Quem ainda resiste no partido é o deputado Eliseu Padilha, que indicou o secretário de Habitação, Marco Alba.
Presentinho. Os deputados estaduais do Paraná começaram a receber oito diárias mensais de R$ 650, pagas independentemente de viagens ou comprovação de gastos. A Assembleia não publicou ato criando o benefício.
Então tá. Para emendar o "feriado" de terça-feira, Dia do Advogado, o TRF da 3ª Região apelou para a gripe suína: expediente suspenso por "recomendações médicas".
Visita à Folha. Kátia Abreu (DEM-TO), senadora e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), visitou ontem aFolha, onde foi recebida em almoço. Estava acompanhada de Marcelo Garcia, secretário executivo da CNA, Moisés Gomes, superintendente técnico, Marcelo Cordeiro, assessor jurídico, Vanda Célia Oliveira, assessora de imprensa, e Ana Cláudia Rodrigues, secretária pessoal.
com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO
Tiroteio
Foi a sessão mais deplorável a que já assisti no Senado. Não queria ver minha foto naquela moldura.
Contraponto
Sem escalas Ao lado de representantes da cúpula do Judiciário, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) participou na terça-feira de solenidade na qual o presidente Lula sancionou a lei que cria 230 novas varas federais no interior do país.
Numa alusão à crise que assola a Casa comandada por José Sarney, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, brincou com Torres:
-Mas não se costumava dizer que o Senado era o céu?
O "demo" aproveitou a deixa:
-Pois é, mas não podemos esquecer que o Diabo nada mais é do que um anjo caído...
BETTY MILAN
Betty Milan
Os machistas sobrevivem
"Apesar de a revolução sexual datar de meio século atrás,
o machismo ainda determina o cotidiano de muitas pessoas,
em especial por causa da identificação delas com os seus
familiares mais próximos"
Machismo rima com arcaísmo, palavra que se refere a algo que está fora de uso. No entanto, o machismo continua a vigorar, como mostra a mensagem que uma leitora enviou para a minha coluna em VEJA.com. Ela escreveu que, para falar de sexo, o pai usava expressões que eram de dar nojo, e, quando brigava com a mãe, chamava-a de "geladeira". Contou ainda que tem 31 anos e é casada com um "homem maravilhoso", apesar de o sexo ser péssimo porque ela não tem vontade de transar.
Pudera! Ela é filha de pais cuja ética é a do machismo, que desautoriza o desejo feminino – condenando, por exemplo, a mulher a ser uma "geladeira". Essa ética se manifesta na letra de várias canções da música popular brasileira. Quem não ouviu "Ele é quem quer / ele é um homem / eu sou apenas uma mulher", na voz de Caetano Veloso? Ou "Na presença dele me calo / eu de dia sou sua flor / eu de noite sou seu cavalo / a cerveja dele é sagrada / a vontade dele é a mais justa", de Chico Buarque? Nesse contexto, há um só desejo legítimo, o do homem – e a mulher deve se retrair.
| John Rush/Getty Images |
A história da leitora mostra a assimetria entre o mundo das ideias e a realidade. Apesar de a revolução sexual datar de meio século atrás, o machismo ainda determina o cotidiano de muitas pessoas, em especial por causa da identificação delas com os seus familiares mais próximos. A filha de um homem cujo discurso provocava nojo de sexo e de uma mãe frígida não tem como ser sexualmente feliz, a não ser que faça a crítica do discurso dos pais. Ser crítico, no caso, significa sustentar o "não" que nos libera. Ao contrário do que comumente se supõe, tal negativa nada tem a ver com um ato de desamor. A desobediência deve ser praticada sempre que ela se impõe, e isso pode ser feito com delicadeza. Não implica necessariamente ruptura.
A fantasia de que o "não" é sinônimo de rejeição nos paralisa. Mas não é possível viver sem dizer "não", porque nós nascemos de um pai e de uma mãe que, além de desejar a nossa vida, consciente ou inconscientemente, planejaram o nosso futuro sem nos consultar. O escritor Deonísio da Silva fez uma menção bem-humorada a esse fato, por meio da seguinte frase: "Minha mãe teve vocação para eu ser padre". Quem não se reconhece nela? Ousaria dizer que todos nos reconhecemos. As mães – e os pais – podem ter sonhos para os filhos. É inescapável também que procurem infundir-lhes suas visões e preconceitos. É humano. Mas é igualmente humano dizer "não", quando este aponta o caminho para uma existência mais livre e digna.
RUY CASTRO
RIO DE JANEIRO - No tempo em que se exigia menos postura e mais compostura dos nossos homens públicos, a sociedade dispunha de certos instrumentos de controle das instituições: o teatro de revista, as marchinhas de Carnaval e as chanchadas. Eram de fulminante agilidade, poder de crítica e penetração popular.
Os últimos arranca-rabos no Senado, por exemplo, caberiam à risca nas chanchadas. Mas quem interpretaria quem? O problema dos grandes comediantes, como Oscarito, Zé Trindade e Ankito, é que sua natural bonomia, que os tornava tão adoráveis, era incongruente com a agrestia dos políticos. Nenhum deles poderia ter interpretado, digamos, o senador José Sarney.
O único ator capaz de viver Sarney com realismo seria Chico Anysio, o que ele já mostrou com o personagem do político Justo Veríssimo, que criou na TV há 25 anos. Para isso, bastaria trocar o bigode tipo escovão de Justo pelo de Mazzaropi, no qual, pensando bem, o próprio Sarney pode ter-se inspirado quando se lançou na política nos anos 50.
Outro senador, Renan Calheiros, ficaria bem nas mãos de Wilson Grey. Não por qualquer identidade física, mas porque, assim como não havia chanchada sem Wilson Grey -não importava o estúdio ou o enredo-, não se concebe um governo sem o apoio de Renan Calheiros. E quem melhor que o rodriguiano Fregolente como Tasso Jereissati?
Quanto ao senador Fernando Collor, nenhum dos antigos vilões das chanchadas, como José Lewgoy, Renato Restier ou Jece Valadão, seria capaz de reproduzir o olhar açulado, quase hidrófobo, injetado de cólera, de Sua Excelência. O jeito seria escalar um ator com certa semelhança de traços, mas que, pelo contraste entre suas personalidades, obrigasse a plateia a construir o personagem. Ronald Golias, quem sabe?
LYA LUFT
Lya Luft
Brasileiro não gosta de ler?
A meninada precisa ser seduzida. Ler pode ser divertido
e interessante, pode entusiasmar, distrair e dar prazer
| Ilustração Atômica Studio |
Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil. Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e... entender. A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos – um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.
Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.
E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.
Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.
O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.
ANCELMO GÓIS
O carioca que vai hoje à cozinha fazer a feijoada de todos os sábados nem desconfia. Mas a maior parte do gás consumido estes dias nas casas e nas indústrias do Rio não é da Bacia de Campos ou da Bolívia. É importado de Trinidad e Tobago e processado na planta de regaseificação de GNL que a Petrobras inaugurou na Baía da Guanabara.
E MAIS...
O preço que a estatal paga hoje pelo gás de Trinidad e Tobago é menor do que o do importado da Bolívia.
A Petrobras sabe que este valor do GNL pode nem sempre ser assim convidativo. Mas o Brasil deixa, cada vez mais, de ser refém do gás boliviano de Evo Morales.
OS COMPANHEIROS
Aliás, Lula vai se encontrar com Evo Morales na minúscula cidade de Villa Tunari, na Bolívia, dia 22.
Na semana seguinte, irá a Caracas para se reunir com Hugo Encrenca Chávez.
IMAGEM PÚBLICA
No meio do tiroteio, a Petrobras lança amanhã, no Fantástico, uma campanha que ressalta a pujança da empresa.
PARABÉNS PRA VOCÊ
Caetano Veloso passou o aniversário de 67 anos com os filhos, no Rio.
Mas, na Bahia, Dona Canô, sua mãe, mandou rezar missa e, depois, reuniu parentes e amigos para um lanche com bolo e chocolate quente.
MORTE POR OVERDOSE
A 2ª Câmara Criminal do Rio julga terça recurso de Regina da Silva, mãe de Marcelo Silva, que foi casado com a atriz Susana Vieira, morto há oito meses.
Regina recorreu da decisão que rejeitara queixa contra a atriz Maitê Proença, acusada de “crime contra a honra”...
É QUE...
Após a morte de Marcelo (segundo a polícia, por overdose de cocaína), Maitê teria dito no Saia Justa, do GNT:
– Morre tanta gente legal. Quando morre uma porcaria como essa, é muito bom.
ORQUESTRA VERDE
A Orquestra Petrobras Sinfônica aderiu à onda do carbono zero, em que empresas e organizadores de eventos plantam um número de árvores equivalente ao de CO² que emitem.
A cada concerto, técnicos calcularão o consumo de combustível e de energia.
BARRA POPULAR
A Barra, bairro carioca dos emergentes, também será agraciada pelo projeto Minha Casa, Minha Vida, de habitação popular com preços até R$ 130 mil.
A MDL Realty fará um empreendimento com 1.410 unidades.
CARLA NÃO VEM
Nicolas Sarkozy confirmou que vem assistir ao lado de Lula os festejos de 7 de Setembro, pelo Ano da França no Brasil.
Mas avisou que Carla Bruni, sua linda mulher, que pena, não poderá vir. Lula vai oferecer um churrasco na Granja do Torto ao colega.
PAÍS RICO
O Brasil doou à Costa Rica US$ 10 mil em aparelhos de rádio-comunicação para serem usados na região atingida pelo terremoto de janeiro.
BOLINHA DE PAPEL
O bate-boca entre os senadores, que impede as votações no Congresso, não paralisou a burocracia do Senado, que nesta semana encomendou mais R$ 102 mil em material de expediente e papelaria, segundo a ONG Contas Abertas, em uma casa do gênero de Brasília. Será que a troca de insultos será substituída por uma guerra de bolinhas de papel?
PONTO FINAL
Gente, o que está acontecendo com os políticos brasileiros? Primeiro, foi Sarney que apareceu sem seu tradicional terno jaquetão. Agora, é Serra que anuncia no Twitter: “Dormi cedo ontem”. Onde isto vai parar?
CLÁUDIO HUMBERTO
SENADOR PEDRO SIMON (PMDB-RS) CULPA O PRESIDENTE PELA CRISE INSTALADA NO SENADO
GRAMPO CONTRA ADVERSÁRIOS NA BAHIA
Cinco anos após o escândalo da escuta telefônica ilegal de adversários do falecido ACM, a Bahia pode ter feito esquema parecido, também na Secretaria de Segurança Pública, mas agora “esquentando” os grampos com autorizações judiciais. Importante político baiano, que ainda não quer aparecer, vítima do esquema de ACM, garantiu a esta coluna que alvos agora são adversários do governador Jaques Wagner (PT).
QUALQUER PRETEXTO
Com base até em denúncias anônimas, a Polícia Civil baiana estaria solicitando a juízes a quebra de sigilo telefônicos de adversários do PT.
DELEGADOS À FRENTE
O político baiano, ex-aliado de Jaques Wagner, acusa um casal de delegados da Polícia Civil como “operadores” da escuta de adversários.
NADA A VER
A assessoria de Jaques Wagner nega que o governo estadual esteja grampeando adversários políticos, e que será punido quem fizer isso.
GUARDIÃO POLÍTICO
O governo baiano adquiriu em 2008 um sistema “Guardião”, geringonça que desafia a lei, gravando milhares de ligações simultaneamente.
APESAR DA CRISE POLÍTICA, DILMA SOBE
Pesquisa encomendada pela Presidência da República, citada por fonte da Casa Civil, deixou eufóricos os marqueteiros do PT: apesar da crise financeira e da baixaria no Senado, a candidata a presidente Dilma Rousseff continua reduzindo sua diferença para o líder da corrida, o governador paulista José Serra (PSDB). A distância, que já foi superior a 35 pontos percentuais, caiu para 18 e agora estaria em apenas 15.
CARAS-PÁLIDAS
Ver para crer: sábado (15) haverá novo protesto Fora, Sarney. Desta vez na Candelária, Centro do Rio, às 14h. Pedem panos pretos nas janelas.
PROLE
Pelo que tem aparecido de filho de Michael Jackson, logo, logo, a prole do cantor supera a do presidente Fernando Lugo, o papatudo paraguaio.
FORTALEZA
Apesar da crise, o lucro do Bradesco cresceu este ano 14,7%, batendo na casa dos R$ 2,3 bilhões no primeiro semestre.
O JOGO DO PLANALTO
A crise do Senado interessa ao Planalto mais que nunca. Com os senadores quase se esbofeteando, esquecem a CPI que investiga malfeitorias na Petrobras. A pizza já está servida. E sem gosto de gás.
RODA E AVISA
Na marcha em direção ao Planalto, apesar dos problemas de saúde, a ministra Dilma Rousseff encontrou ânimo para neste sábado encontrar Sílvio Santos no Sofitel Hotel do Guarujá, na festa dos 30 anos do SBT.
PADRINHO DE CASAMENTO
Lula articulou o encontro, semana que vem, da cúpula do PT com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB, para oficializar a candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo.
‘BIENVENIDO’
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, estará em boa companhia na visita ao Brasil, semana que vem: o MST vai levá-lo a um acampamento ou ir em “desagravo” ao Itamaraty.
MALAS DIPLOMÁTICAS
O ministro Carlos Henrique de Abreu deixa Washington para comandar o Departamento dos Estados Unidos, em gestação no Itamaraty. Para seu lugar na capital norte-americana segue o ministro Carlos Ceglia.
VESPEIRO BILIONÁRIO
A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) vai à forra, após sua derrota para o ministro Carlos Lupi (Trabalho), que impôs um aliado na presidência do Codefat, o conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador, que gere R$ 158 bilhões: Kátia quer que o TCU investigue as contas do FAT.
VISIBILIDADE
O presidente Lula sancionou ontem lei da senadora petista Fátima Cleide (RO) tornando servidores educacionais as merendeiras, vigias, atendentes em bibliotecas etc, para “educação pública de qualidade”.
BOMBANDO
A captação líquida positiva da poupança, no mês de julho (diferença entre depósitos e retiradas) foi de R$ 6,672 bilhões, o maior volume desde dezembro de 2007. O saldo total está na casa dos R$ 290.337 bilhões.
PENSANDO BEM...
...faltou a “Maria Bonita” no embate entre o “coronel e o cangaceiro”, no Senado.
PODER SEM PUDOR
COMPARAÇÃO INFELIZ
Rui Falcão era deputado estadual, em 1994, e foi a um debate com idosos em Taubaté (SP). Aproveitou a ocasião e pediu votos para Lula, candidato do PT a presidente. Como a plateia não parecia receptiva, ele resolveu sustentar que as administrações municipais petistas eram de boa qualidade, o que prenunciava um bom governo Lula. Citou um exemplo:
– É só comparar a companheira Erundina a Maluf, em São Paulo.
Uma velhinha não se conteve e respondeu, em voz alta:
É mesmo! A administração do Maluf é bem melhor...
LÚCIA HIPPOLÍTO
A agonia moral do PMDB
O PMDB nunca foi um partido simples, para amadores. Há tempos venho afirmando que a lógica do partido é coisa para profissionais. Mas o PMDB é também o partido da federação, que compreendeu perfeitamente a importância da política regional.
Partido de índole democrática, que acredita no voto. No partido, quem tem voto tem voz. Esta federação de líderes regionais não fala uma linguagem única nem possui discurso afinado para apresentar candidato à presidência da República.
Aliás, o PMDB nunca precisou da presidência para participar do poder. A estratégia do partido tem sido outra: eleger o maior número de vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, governadores e prefeitos.
Com esta formidável máquina, a aliança com o PMDB interessa a qualquer governo. Por isso, uma das máximas da política brasileira é: ninguém governa o Brasil sem o PMDB. Mas nos últimos tempos estamos assistindo à desintegração moral daquele que foi o partido da resistência à ditadura.
Hoje o partido é controlado por uma gente a quem o dr. Ulysses Guimarães negaria cumprimento.
O maior partido do país está sendo utilizado por um grupelho como instrumento de chantagem, intimidação, truculência, ocupação da máquina pública, rapina de recursos públicos.
Convencido de que, sem o PMDB, a ministra Dilma não chega ao segundo turno das eleições de 2010 - e se vencer não conseguirá governar -, o presidente Lula tornou-se ao mesmo tempo refém e carrasco do partido.
Abriu as portas do governo aos atuais líderes(?) do PMDB. Esquartejou a máquina pública, entregou nomeações, emendas, cargos. Mas, em compensação, está destruindo o PMDB. Vai ver, é isso mesmo que ele quer. Nunca se sabe.
As cenas a que assistimos nos últimos dias no Senado da República foram das mais tristes de que se tem notícia. Com toda a certeza, nunca antes na história deste país o Senado viveu dias tão degradantes. Já houve até tiro no plenário.
Mas nunca houve nada tão baixo, tão horrivelmente vulgar. Senadores sem voto, ex-presidente transtornado, chefete de província, todos reunidos na defesa do velho coronel maranhense. Das práticas clientelistas, fisiológicas, violentas.
Arrastando o PMDB e o Senado da República na lama.Hoje o PMDB tem um dono, que usa e abusa da força do partido: o senador Renan Calheiros.
Chega a ser ensurdecedor o silêncio do presidente nacional do partido, o deputado Michel Temer. Será que a ambição desmedida de ser o vice na chapa de Dilma Rousseff justifica a destruição do legado do dr. Ulysses?
É muito triste assistir à agonia moral do PMDB.





