terça-feira, junho 09, 2009

MERVAL PEREIRA

O mundo de olho

O GLOBO - 09/06/09

Para se ter uma ideia de como o Brasil está no centro das atenções mundiais quando se trata de preservação do meio ambiente, principalmente no que se refere à Floresta Amazônica, a versão final da MP 458 aprovada pelo Senado, já apelidada pelos ambientalistas de "a MP da Grilagem", caiu como uma bomba entre os participantes nas negociações sobre mudança do clima que se realiza até sexta-feira em Bonn, na Alemanha.

No primeiro dia da reunião, a edição do "ECO", o prestigioso boletim diário editado pela Climate Action Network (CAN) que circula entre delegados em reuniões sobre meio ambiente e clima desde a cúpula de Estocolmo em 1972, publicou na página 2 artigo intitulado "Alerta - Isto é sério", em que os ambientalistas conclamam seus leitores a escrever para o presidente Lula pedindo seu veto pelo menos a alguns artigos da medida provisória.

A Climate Action Network (CAN) é uma reunião internacional de organizações não governamentais que promove ações para reduzir a níveis "ecologicamente sustentáveis" as ações humanas que provocam a mudança climática.

O documento a ser redigido na reunião de Bonn será o ponto de partida para a discussão na Convenção do Clima de Copenhague, marcada para dezembro, que definirá o sucessor para o Protocolo de Kyoto, que expira no fim de 2012.

São mais de 4 mil participantes, de 180 países, representando governos, indústrias, instituições de pesquisa e organizações não governamentais.

O texto aprovado pelo Senado brasileiro permite a legalização de 67,4 milhões de hectares de terras públicas da União na Amazônia, até o limite de 1.500 hectares. Empresas que ocuparam terras públicas até 2004 também terão direito às propriedades.

Os donos dos grandes lotes poderão revendê-los três anos após a concessão dos títulos. Os pequenos poderão ser vendidos só após dez anos.

A relatora da medida provisória no Senado, Kátia Abreu, do DEM, é também presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que recentemente pediu a demissão do Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que chamou de "vigaristas" os empresários do agronegócio.

Os petistas, com apoio do PSDB, querem que Lula vete a possibilidade de venda dos terrenos no período de dez anos após a regularização, assim como a possibilidade de pessoas que não ocupam diretamente as terras serem beneficiadas. Isso evitaria que "laranjas" de grandes grileiros sejam beneficiados.

Outro veto pedido é ao artigo que prevê uma declaração do ocupante da terra como requisito suficiente para a regularização fundiária. Ex-ministra do Meio Ambiente, a senadora Marina Silva quer que o governo realize vistorias nas pequenas propriedades rurais antes de conceder a regularização da terra.

O professor Luiz Pinguelli Rosa, na qualidade de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, enviou ao presidente Lula carta em que afirma que a medida provisória tem o efeito final de privatizar terras públicas na Amazônia, o que, segundo ele, contribuirá para agravar o desmatamento, que representa a maior contribuição do Brasil para o aquecimento global.

Pinguelli Rosa diz também que a medida provisória destoa do Plano Nacional de Mudança Climática, assinado por Lula.

O boletim ambientalista "ECO", distribuído no início da reunião de Bonn, trata o meio ambiente brasileiro como sendo uma preciosidade "para os brasileiros e o resto do mundo", e cuja "exuberância, vastidão, diversidade e beleza", destacadas por Pero Vaz de Caminha em 1500, vêm sendo desde então devastadas pelo homem.

"O que fizemos para merecer essa maldição, essa doença corrupta que ameaça o bem-estar de milhões de pessoas que vivem na Amazônia e bilhões em todo o mundo?", pergunta a publicação.

Como exemplo dessa "maldição", o boletim cita a MP 458, apresentada como originalmente destinada a acertar a situação de milhões de pequenos proprietários que tentam há anos legalizar a posse da terra, às vezes incentivadas por programas de governos anteriores para a ocupação da Amazônia, mas que acabou sendo desfigurada nas mãos de "legisladores gananciosos".

A ONG Climate Action Network (CAN) acusa a medida provisória de servir aos interesses "daqueles com olhos grandes na especulação da floresta". Um dos pontos criticados pelos ambientalistas internacionais tem na senadora Marina Silva também uma ferrenha opositora. É o que permite que os proprietários de empresas possam também regularizar as terras em seus nomes, como pessoas físicas.

Os líderes ambientalistas que foram mortos nos últimos anos na região, como a freira americana Irmã Dorothy, o ambientalista Chico Mendes e o padre Josimo, são lembrados na mensagem da ONG, que pede que se escreva ao presidente Lula reforçando a necessidade de vetos na nova lei.

A decisão do presidente deve sair até amanhã.

Na coluna de domingo, escrevi que Clarence Thomas foi o primeiro juiz negro da Suprema Corte dos Estados Unidos, nomeado pelo republicano George Bush pai, mas na verdade o pioneiro foi Thurgood Marshall, nomeado em 1967 pelo presidente democrata Lyndon Johnson.

O leitor Gerardo Xavier Santiago, advogado, ressalta que, ao contrário de Clarence Thomas, ele era "liberal (no sentido norte-americano da expressão) e progressista". Atuou como advogado em causas que envolviam direitos civis e respaldava a ação afirmativa.

A grande proeza de Bush pai foi exatamente encontrar um afro-americano de direita para substituir Thurgood Marshall.

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MÍRIAM LEITÃO

Na travessia

O GLOBO - 09/06/09

As boas notícias: o ministro Guido Mantega disse que a confiança está voltando à economia; o economista José Roberto Mendonça de Barros acredita que a queda livre da economia acabou; o empresário Jorge Gerdau, que tem usinas no Brasil e nos Estados Unidos, acha que aqui está melhor. Mas, nesta terça-feira, o Brasil será oficialmente informado de que está em recessão.

Hoje, sai o resultado do PIB do primeiro trimestre e ele vai confirmar o que temos dito aqui desde o começo do ano: o Brasil entrou em recessão no final do ano passado. Na quarta-feira, o país verá um fato histórico: a queda dos juros abaixo de 10%. Qualquer que seja a decisão do Copom - de corte de 0,5; de 0,75; ou de 1 ponto percentual -, os juros vão atravessar uma marca histórica.

Ontem, o Fórum Globonews reuniu Mantega, Gerdau e José Roberto. Coordenei o debate cujo resumo vai ao ar no próximo domingo. Mesmo divergindo em vários pontos, os três mostram o retrato de um meio do caminho: a situação não está tão grave quanto já foi, mas ainda há muitos desafios a serem enfrentados antes que se possa dizer que a crise acabou.

José Roberto acha que a recuperação pode ser em "W", ou seja, pode haver outra queda depois dessa melhora recente. Gerdau acha que há chances de evitar um novo tombo. Ele acredita que o risco de a situação voltar a piorar está nos Estados Unidos.

- Este ano não escapamos de uma recessão forte nos EUA, nos países desenvolvidos, e em parte dos emergentes - disse Mantega, que continua afirmando que o Brasil deve crescer 1%. Mas ele admite que isso não é projeção, mas uma meta.

José Roberto acredita que o resultado do PIB do primeiro trimestre vai mostrar quedas de 3,4% em relação ao mesmo período do ano passado e de 2,3% em relação ao último trimestre. E que em 2009 o país deve ficar num PIB de zero. Ele não faz a previsão mais pessimista do mercado. Mantega não quis arriscar números do PIB do trimestre. No almoço que se seguiu ao Fórum, sentei ao lado do ministro, e ele me disse que o segundo trimestre deve ser positivo, ainda que ele esteja esperando uma recuperação fraca, de talvez 0,5%. O que todos concordaram é que o final do ano será muito melhor do que esse trimestre que deixamos. José Roberto acha que o consumo das famílias estará crescendo a 1,2% no fim do ano.

Jorge Gerdau acha que mais importante do que o momento atual é o fato de que não nos preparamos para sair bem da crise. Segundo ele, o Brasil não fez mudanças necessárias para ser mais competitivo e continua taxando o investimento.

- Fiz um investimento de US$600 milhões em São Paulo. Paguei US$130 milhões de imposto, consegui abater uma parte disso, mas pelo menos US$60 milhões não recuperei - disse ele, explicando em grandes números o que quer dizer com a reclamação de que "no Brasil se paga imposto sobre o imobilizado".

Onde não houve acordo foi no gasto público. O economista disse que o Brasil está aumentando o gasto de forma irracional porque estão crescendo as despesas correntes há muitos anos em termos reais. O ministro disse que aumento de gasto é a forma de se fazer política anticíclica. O empresário acha que o gasto não é eficiente. Esse assunto, claro, tomou boa parte da discussão.

Mantega acha que está reduzindo a carga tributária com medidas pontuais. Gerdau concordou que várias das medidas tomadas pelo governo aliviaram, sim, as empresas. Mas José Roberto alerta que tudo o que provocou o aumento da arrecadação nos últimos anos não vai mais ocorrer.

- O bônus tributário acabou. O governo aumentou a arrecadação por que vários setores que não pagavam imposto passaram a pagar com mudanças como o Simples. Houve queda de custo com a redução de juros, só este ano o governo vai deixar de gastar um ponto percentual do PIB com juros. Mas, nada disso se repete. E o governo aumentou gastos de forma permanente com funcionários e salários - disse José Roberto.

- As contas fiscais estão melhores no Brasil que em outros países. Os gastos com pessoal estão estáveis como percentual do PIB e o Brasil precisava mesmo contratar mais e gastar mais com educação, saúde, segurança. Não acho que isso é gasto - respondeu Mantega.

Os três acham que o Brasil volta a crescer no ano que vem, ainda que mais devagar. José Roberto aposta em 3%. Ele acredita que o câmbio deve continuar fraco, que pode ir abaixo de R$1,90 e que no fim do ano deve estar em R$2,00. Mantega descartou qualquer tipo de política para tentar evitar a entrada de dólares. Nem IOF sobre entrada de capital. Ele disse que tem entrado pouco recurso para renda fixa, que a maior parte é para a bolsa. Sobre o IPI de automóveis, cuja redução acaba no fim do mês, o ministro não quis adiantar se ele continua ou não. Lembrou apenas que é uma política temporária.

No debate de duas horas e meia muita coisa foi conversada, mas no resumo o que se vê é a cena de um país atravessando a crise. Felizmente, uma parte dela já ficou para trás. E o numero que sai hoje faz parte desse passado.

JANIO DE FREITAS

História velada

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/06/09


O lucro de especuladores estrangeiros no país é riqueza criada no Brasil e não mantida em seu benefício



A GOTA ESPERADA para amanhã no pinga-pinga da redução dos juros, em reunião dos neoliberais do Banco Central, não altera a evasão sistemática da riqueza produzida pelo trabalho brasileiro e levada, ano após ano, pelos dólares especulativos cuja entrada o governo tanto saúda. Essa é uma forma de empobrecimento da economia, seus empregos e seu crescimento, e do futuro do Brasil, pela qual todo governo deveria responder nos tribunais.
Em mais um dos bons artigos que publica na Folha às segundas, Luiz Carlos Bresser-Pereira (agora enobrecido por um hífen) diagnosticou a onda de alta na Bolsa e a simultânea queda do dólar no Brasil, tomados no jornalismo e pela propaganda como sinais positivos. A massa de dinheiro que governos ocidentais vêm lançando contra a crise não tem a garantia de que todo ele "seja repassado para as empresas e os consumidores" dos respectivos países, observa Bresser-Pereira. Os especuladores "podem usar os recursos baratos para obter juros elevados [digo eu, lucros elevados] nos países emergentes" -que, aliás, nunca emergem. "Se, além disso, esse influxo de recursos externos especulativos provocar a valorização da moeda local [isto é, a desvalorização do dólar], melhor ainda, porque agora o especulador ganha também -e muito- com essa valorização. É essencialmente isso que está acontecendo com o mercado de ações. Estamos vivendo uma pequena bolha especulativa", o que se "soma à valorização perversa do real", "para infelicidade do Brasil".
Esse mecanismo oferecido pelo governo brasileiro é tão usurpador do Brasil, que, a rigor, para recolher e levar bom lucro os especuladores estrangeiros nem precisam aplicar todos os seus dólares baratos. Se US$ 100, ao entrarem aqui, foram trocados a R$ 2,50 por dólar ou R$ 250 no total, e em pouco tempo o dólar passa a valer R$ 2, os R$ 250 já representam US$ 125. Ou seja, lucro de 25% em dias ou poucas semanas, como ficou exemplificado agora mesmo. Sem o dólar precisar ir à Bolsa, bastando-lhe ficar no bolso.
Sem, no entanto, ficar no Brasil. Passada a bolha a que Bresser-Pereira se refere, tal como as anteriores, o dinheiro volta multiplicado para sua origem ou para outros territórios ofertados à especulação. E esse lucro que sai é trabalho, é investimento produtivo, é riqueza criada no Brasil e não mantida em seu benefício.
Mas não se trata de US$ 100. São milhões, dezenas de milhões, centenas de milhões, são bilhões.
Reproduzo outra vez Bresser-Pereira: "A grande oportunidade que esta crise global ofereceu ao Brasil ao lhe permitir, sem nenhum risco, voltar ao desenvolvimento econômico sustentado, baixando a taxa de juros e adotando medidas para controlar o câmbio, está pateticamente perdida".
Nada disso, porém, é feito sem motivos ou por falta de percepção. Aí há uma história velada, que levou Antonio Palocci à Fazenda e o peessedebista Henrique Meirelles ao Banco Central. E que nem José Dirceu nem a então embaixadora americana Donna Hrinak, de tantos e longos entendimentos no decorrer da campanha e antes da posse, têm o direito de esconder para sempre da história.

EM PAC ADO


CELSO MING

Rejeição ao verde


O Estado de S. Paulo - 09/06/2009
Não há pânico nos mercados, mas talvez esteja em formação algo próximo disso.

Desde o dia 4, o mercado financeiro internacional manifesta um movimento de rejeição dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo, as T-Notes de 2 anos. Seria o começo da rejeição do dólar?

O gráfico ao lado mostra uma forte escalada no rendimento (yield) destes títulos no seu mercado de revenda. (Veja a explicação no Entenda.)

Um grupo minoritário de analistas faz o jogo do contente e interpreta a estocada do rendimento como demonstração de que mais gente está se desfazendo de posições defensivas (T-Notes) para voltar a aplicar em títulos de risco, especialmente ações. Mas o que parece estar acontecendo é que os títulos de curto prazo passam por uma forte rejeição.

O fundamento disso é o medo de estarem próximos os dias em que o mercado global perca o apetite por títulos do Tesouro americano e este se veja obrigado a pagar o resgate não mais com emissão de novos títulos, mas com emissão de moeda providenciada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Se isso ocorrer, estará escancarada a porta para a inflação nos Estados Unidos.

Ao menos dois fatores sustentam esse medo. O primeiro é o fato de que o déficit orçamentário, ou seja, a insuficiência de arrecadação de impostos nos Estados Unidos para o tamanho das despesas correntes do governo, ultrapassará neste ano, cujo exercício fiscal termina em setembro, a magnitude de US$ 1,8 trilhão.

Segundo, o Fed extrapolou todos os limites do seu mandato para socorrer a economia americana em plena crise. Despejou dinheiro vivo nos bancos, financiou o setor privado e, dentro do esquema heterodoxo do tal afrouxamento monetário, está recomprando US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro de longo prazo, o que quase se equivale a financiar despesas correntes do setor público americano. Essas injeções incharam o balanço do Fed em nada menos que US$ 2 trilhões.

Pode-se contra-argumentar que o Fed está comprando esses títulos no mercado secundário, porque estavam nas carteiras do John, do Joe e do Bill, e que isso não é a mesma coisa que passar dinheiro vivo para o Tesouro. Mas o fato é que o dinheiro deixado pelo Fed com o John, com o Joe e com o Bill em pagamento dos títulos está disponível agora para comprar novos títulos do Tesouro, que continua compulsivamente a despejá-los no mercado.

Essas operações heterodoxas não estão levantando cismas apenas dos predadores habituais do mercado financeiro. As autoridades da China já se manifestaram algumas vezes sobre as dúvidas que começam a pairar sobre a saúde da principal moeda de reserva do Planeta. E, na semana passada, foi a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que fez um duro pronunciamento contra as irresponsabilidades heterodoxas dos bancos centrais, e aí incluiu o Fed, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, não respondeu diretamente a Merkel. Mas também fez declarações duras em que pareceu reconhecer que falta uma estratégia de saída e cobrou responsabilidade fiscal dos Congressistas e do governo americano.

Enfim, são coisas que não podem ficar por isso mesmo.

CONFIRA

Por que o rendimento sobe quando um título é rejeitado? Ao ser emitido, um título prevê o prazo de vencimento e os juros. Esses títulos podem ser renegociados, a preços definidos pela lei da oferta e da procura.

Se a procura aumenta, o preço pago pelo título sobe, ou seja, o vendedor exige mais dólares por ele. Como os juros embutidos continuam os mesmos, se o comprador precisa gastar mais, o juro fica mais baixo em relação ao capital aplicado.

Se ocorre o contrário, ou seja, a procura se retrai, o titular do ativo aceita vendê-lo por menos e os juros ficam mais altos em relação ao total aplicado.

BRASÍLIA - DF

A Petrossal é nossa!


Correio Braziliense - 09/06/2009

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB-MA), insistirá na criação da nova empresa para exploração do petróleo da camada de pré-sal, apelidada de Petrossal. E não fala pra ninguém o nome na manga do paletó que pretende sugerir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como futuro presidente da empresa.



A ideia é criar um regime diferenciado para a concessão ou partilha dos lotes de exploração da camada do pré-sal, no qual a nova empresa gestora poderia ou não favorecer a Petrobras, dependendo do chamado “interesse nacional”. Assim, o novo marco regulatório que o governo pretende enviar ao Congresso, para substituir a Lei 9.478, de 1997, não restabelecerá o antigo monopólio da Petrobras, que hoje compartilha a exploração de dez novos campos com várias empresas estrangeiras (YPF, BG Repsol, Shell, Petrogal e BG Group), mas esvaziará definitivamente a Agencia Nacional do Petróleo (ANP).

* * *
Na Bacia de Santos, a participação da Petrobras varia de 20% a 80%. No Bloco Ogum, por exemplo, a empresa tem 20% contra 40% da Esso e 40% da Amerada. Detalhe: todos os blocos leiloados que não foram explorados serão retomados pela União e somente serão liberados para exploração após o novo marco regulatório, ou seja, depois da criação da nova empresa.


Suicidas

Somente o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), e a senadora Lúcia Vânia (GO), na bancada tucana, votaram a favor da preservação da espécie e contra o relatório da senadora Katia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura, que alterou a MP 548 que regulariza a ocupação de terras da União na Amazônia Legal. Os destaques da senadora Marina Silva (PT-AC) que vedavam o acesso de “laranjas” e impediam a venda dessas terras durante dez anos foram derrotados por 23 votos a 21, com uma abstenção, graças aos votos dos demais senadores tucanos.

Cenários

Com os sinais de que a situação da economia em 2010 será melhor do que imaginavam os mais otimistas e de que a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), vai mesmo decolar, os tucanos paulistas começam a considerar o Plano B da legenda para sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: apelar ao governador José Serra para concorrer à reeleição e implorar ao governador Aécio Neves para manter sua candidatura a presidente da República a qualquer preço.

Cabide

Contrários à criação do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) da Paraíba antes da cassação de Cássio Cunha Lima (PSDB), aliados do governador José Maranhão (PMDB) na Assembleia Legislativa querem tirar o órgão do papel. A turma ligada ao tucano se mobiliza contra a iniciativa.

Aposta

O grupo Pão de Açúcar comprou o Ponto Frio na hora certa: o governo vai manter a isenção do IPI para a produção de geladeiras até as eleições de 2010. O programa visa a troca de 10 milhões de refrigeradores, com o objetivo de estimular a indústria de eletrodomésticos e, ao mesmo tempo, reduzir o consumo de energia. O segundo objetivo, porém, é duvidoso. A maioria usa a geladeira velha para estocar alimentos e bebidas.

Sabatina

A Comissão de Relações Exteriores do Senado realiza hoje uma audiência pública sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, com a presença do embaixador brasileiro naquele país, Antônio José Ferreira Simões. Sob o aval do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o tucano Tasso Jereissati (CE) elaborou 300 perguntas para o Itamaraty enviar ao presidente venezuelano Hugo Chávez.

No cafezinho

Ungido / Com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da antiga Articulação, agora denominada Construindo um Novo Brasil, desembarca hoje em Brasília o presidente da BR Distribuidora, Eduardo Dutra (foto), candidato a presidente do PT. Quer o apoio dos grupos dos deputados Arlindo Chinaglia (Movimento PT), de Carlos Zaratini (Novos Rumos) e Gilmar Tatto (PT de Luta e de Massas). Se conseguir, terá quase 70 % dos votos nas eleições diretas para presidente da legenda.

Palestino / O governo de Israel anda às voltas com a Comissão do Parlamento do Mercosul. Partidos da esquerda, com o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) à frente, querem excluir os produtos manufaturados nos territórios ocupados por aquele país — Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golan — do acordo de livre comércio negociado com o bloco do Cone Sul.

Vindita / Projeto do deputado Paulo Maluf (PP-SP) que responsabiliza membros do Ministério Público que ajuizarem ações civis públicas com viés político pode emplacar na Câmara. O líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), vai consultar a bancada. Vice-líder do PR, Lincoln Portela (MG), diz que o apoio não quer dizer que a bancada está fechada com a proposta.

Frente / Afastados do PDT desde que o partido indicou o distrital José Antônio Reguffe para concorrer ao Palácio do Buriti, o PSB e o PT do Distrito Federal reúnem-se hoje para delinear a estratégia para as eleições de 2010. A depender dos socialistas, o encontro das executivas se encerrará com Agnelo Queiroz (PT) como o candidato comum.

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A LEI DA MORDAÇA DO MP

EDITORIAL

O Estado de S. Paulo - 09/06/2009
O plenário da Câmara poderá votar esta semana, em regime de urgência, o projeto de lei que prevê punição para membros do Ministério Público (MP) que, por motivos ideológicos, interesses partidários, perseguição, má-fé ou promoção pessoal, impetrarem ações judiciais contra integrantes dos Poderes Legislativo e Executivo.

Conhecida como Lei da Mordaça do MP, a proposta foi apresentada pelo deputado Paulo Maluf (PP-SP), em 2007, e já passou pela Comissão de Constituição e Justiça. Na semana passada, em discurso de 20 minutos, Maluf pediu que o projeto seja votado o mais rapidamente possível e obteve apoio de todos os líderes partidários - inclusive de quem já o acusou de peculato, nepotismo e fisiologismo.

Em seu discurso, Maluf referiu-se ao processo que sofreu por ter comprado, com recursos públicos, os Fuscas que deu aos jogadores da seleção tricampeã mundial de futebol. A ação foi aberta em 1970 e a decisão final, que o absolveu da acusação de abuso do poder econômico, só foi dada em 2006. "Você leva quase uma vida inteira para provar que é inocente numa ação irresponsável. O que gastei de dinheiro com advogados nestes anos todos foi bem mais caro do que o total gasto com os carros", disse, depois de criticar a abertura indiscriminada de ações contra políticos por parte do MP. "São acusações que geram situações vexatórias e que desgastam a honra e a dignidade de autoridades injustamente acusadas", concluiu.

Maluf, melhor do que ninguém, sabe do que estava falando. Réu em cerca de 40 ações penais e cíveis, das quais pelo menos 10 já resultaram em condenação de primeira instância, o deputado deixou claro que está legislando em causa própria. E, se a proposta encontrou apoio na Câmara, é porque as lideranças partidárias agiram de modo igualmente pragmático, endossando uma medida que também poderá beneficiá-las. "Assino o pedido de urgência, e com muito gosto", disse o vice-líder do PR, deputado Lincoln Portela. "Eles (os promotores) te acusam hoje no jornal e, depois que você prova inocência, ninguém quer saber mais", afirmou o líder do PTB, Jovair Arantes.

Pelo projeto de Maluf, os integrantes do MP que entrarem com uma ação judicial contra um político sem ter provas concretas para embasar uma denúncia de corrupção serão condenados a pagar, do próprio bolso, as custas judiciais e as despesas do acusado com advogados. Além disso, correrão o risco de pagar indenização por danos morais e materiais ao denunciado e de serem condenados a até 10 meses de prisão.

Como era de esperar, promotores de Justiça e procuradores da República criticaram a proposta de Maluf. "Só votará a favor do projeto quem se envolveu em mensalão, sanguessuga e outros escândalos", diz José Carlos Cosenzo, presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público. Para a entidade, promotores e procuradores impetram ações para proteger a coletividade, não podendo ser punidos por exercerem suas funções constitucionais. Segundo Cosenzo, se o projeto de Maluf for aprovado, os integrantes do MP deixarão de denunciar políticos para não correr o risco de ser responsabilizados pessoalmente.

O argumento é procedente. Com o MP imobilizado, os principais instrumentos de combate à corrupção - a Lei de Ação Popular, a Lei da Ação Civil Pública e a Lei de Improbidade Administrativa - correm o risco de serem esvaziados. Mas nada disso estaria ocorrendo se os promotores e procuradores exercessem seu papel com isenção, prudência e sensatez. Infelizmente, porém, desde que a Constituição de 88 concedeu autonomia funcional ao MP, muitos promotores vêm exorbitando de suas prerrogativas. Nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, procuradores da República lotados no Distrito Federal agiram de modo acintosamente partidário, impetrando, sem provas, dezenas de ações de corrupção contra membros do governo, com o objetivo de favorecer o PT.

Foi essa conduta irresponsável de uma minoria da corporação que acabou criando as condições para que Maluf se sentisse animado a legislar em causa própria e as lideranças partidárias se sentissem estimuladas a aprovar um projeto que poderá ter efeitos desastrosos para a vida pública brasileira

PAINEL DA FOLHA

O jogo de cada um

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/06/09

O próximo presidente do PT deve ser mesmo José Eduardo Dutra, mas, até a eleição, haverá espaço para muito jogo de cena. Ao sugerir que o assunto não está liquidado, como fez em reunião no fim de semana, José Dirceu cria dificuldade para obter de Dutra algum compromisso de preservação de seu espaço.
Ao insinuar que pode se lançar na disputa, Arlindo Chinaglia tenta conseguir por outra via o que está buscando desde o fim de seu mandato na presidência da Câmara: um cargo no governo. E José Eduardo Cardozo, mesmo sem chances de ganhar, será mantido no páreo como forma de delimitar o tamanho da Mensagem, grupo do ministro Tarso Genro.

Lição de casa - Há ainda petistas sem relação com Dutra, mas que aderiram na primeira hora e com grande entusiasmo. Estes esperam alguma compensação quando o candidato deixar o comando da BR Distribuidora.

Estrangeiro - De um cardeal petista, sobre a resistência de Dirceu: ‘O Dutra hoje é mais Dilma do que Articulação’. Articulação, para quem não lembra, é o antigo nome da ala majoritária do PT.

Proativa - Quem conhece a Petrobras por dentro inscreve o timing da anunciada redução nos preços dos combustíveis dentro do repertório de instrumentos de que a estatal dispõe para se contrapor ao barulho em torno da CPI.

Passivo - ‘A Petrobras é uma empresa extremamente agressiva’, observa esse conhecedor das engrenagens da empresa. Ou seja, não assistirá à CPI calada, como ocorreu com os Correios em 2005.

Para registro - O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, avisa: não será candidato ao Senado nem a outro cargo eletivo em 2010. Para além da decisão pessoal, ele lembra que o PT da Bahia já firmou decisão de oferecer a candidatura ao Senado a partidos aliados, em troca do apoio à reeleição do governador Jaques Wagner.

Ideli Inc - O Boletim Administrativo de Pessoal do Senado registrou, em sua edição de ontem, o remanejamento de 12 assessores para o gabinete da liderança do governo no Congresso, agora ocupada por Ideli Salvatti (PT-SC). Além disso, a senadora nomeou outros três servidores dos quadros da Casa para seu gabinete pessoal. Por fim, promoveu três de seus atuais assessores para cargos mais altos.

Lupa - As doações da Camargo Corrêa e da AIB (Associação Imobiliária Brasileira) serão os dois primeiros alvos do Núcleo Especial de Auditoria de Contas, criado em abril pelo TSE para fazer análise mais aprofundada das prestações partidárias e de campanha.

Embaralhou - Depois de horas debruçado sobre o parecer com o qual tentará restringir os ‘contrabandos’ nas MPs, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), foi parar no oculista em pleno domingo. O texto deve ser apresentado hoje ao plenário.

Na TV - Responsável pela formatação do dossiê de gastos de FHC, Maria de la Soledad Castrillo trocou a Casa Civil pela EBC, empresa responsável pela TV pública. Marisol, como é chamada, vai trabalhar no setor de auditoria.

Pré-requisito - Vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman chegou com duas horas de atraso ontem ao seminário sobre a crise econômica promovido pelo DEM. O deputado tucano Emanuel Fernandes brincou: ‘Está treinando direitinho para substituir o chefe...’.

Tiroteio

É só falar em Wilson Santarosa que muitos governistas entram em pânico no Senado. Ele provoca paúra.
Do senador ÁLVARO DIAS (PSDB-PR), autor do requerimento da CPI da Petrobras, sobre o gerente de Comunicação Institucional da empresa, ligado ao PT.

Sobremesa - José Sarney diz que chegou só no final do almoço de sexta no Gero, do qual participaram seu genro, Jorge Murad, o médico Raul Cutait, o ex-senador Gilberto Miranda e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Contraponto

Fast forward

José Serra participava há uma semana da cerimônia de abertura da Feira do Piauí, em São Paulo, de olho no relógio. O governador Wellington Dias (PT) proferia alentado discurso, que não dava sinais de acabar, e seu colega paulista já estava atrasado para a festa de 21 anos do PSDB.
O também tucano Silvio Mendes, prefeito de Teresina, notou a apreensão de Serra e resolveu agir. Encaminhou a Dias um bilhete de estilo mais claro impossível:
-Acelera!
O governador encerrou prontamente. Mais tarde, no jantar do PSDB, Serra agradeceu a gentileza.

ARNALDO JABOR

Dois virgens na noite dos anos 50

O GLOBO - 09/06/09

J%C3%A1" style="color: rgb(51, 51, 51); text-decoration: none; ">Já escrevi que, em anos remotos, meus professores de sexo foram Bené, o pipoqueiro conquistador de empregadas, e seu ajudante Alfredinho, um aleijado de tórax musculoso e perninhas secas.

Esse texto foi para o celuloide, pois ontem rodei esta cena no filme "A Suprema Felicidade", que estou fazendo no Rio de Janeiro, a antiga cidade delicada e docemente atrasada em que amei e sofri minha adolescência.

Eu era um garoto querendo aprender sobre os terríveis "pecados" daquele tempo.

Pois bem, numa noite ventosa que fazia silvar a luz da carrocinha de pipocas de Bené, eu ouvi a palavra nova: "rendevu". A palavra vinha do oblíquo francesismo "maison de rendez-vous" (casa de encontros) ou, em português mais clássico: bordel, lupanar ou prostíbulo. Senti que, talvez ali, tudo que me era escondido pela família estaria decifrado no contato com a crueza do pecado.

Bené e Alfredinho discorreram longamente sobre os tipos de "rendevus" mitológicos que existiriam, como a casa das menininhas do colégio de freiras, a célebre e inexistente casa dos espelhos e o palácio das mulheres casadas…

Assim estimulados pela ficção, fui ao meu primeiro "rendevu" com meu amigo Cabeção, também virgem, deixando o Bené e o Alfredinho olhando-nos, descrentes, na carrocinha.
E lá fomos nós, topetes penteados com "quina petróleo", camisa nova dobrada na manga curta e pente no bolsinho. Eu não tinha um tostão e Cabeção, com boa mesada, declarou cruelmente que eu iria "só para olhar" e que se alguma mulher me quisesse "no amorzinho", tudo bem; senão, "azar o meu".

Ali na rua Correa Dutra tinha um "rendevu". Hoje, os bordéis são "sauna relax for men", com nomes em neon tipo "Crazy Love", cheios de meninas de maiô de oncinha; mas, naquele tempo, o prostíbulo se disfarçava de "casa de família".

Minha primeira surpresa foi encontrar uma grande sala-de-visitas, de assoalho encerado, quadros na parede e um silêncio espantoso. Não havia sinal de pecado, nem sombra de "artes do demônio".

Em volta da grande sala, como num velório sem caixão, sentavam-se umas 20 mulheres, de perna cruzada, olhando para fregueses de terno, bigodinho, amontoados na porta do corredor, travados em constrangimento, como numa antessala de dentista.

De vez em quando, um deles se adiantava e fazia um sinalzinho disfarçado em direção a uma menina. A moça se erguia com visível enfado, como para um sacrifício; seu "mau humor" fazia parte do ritual - era uma homenagem à virtude perdida. Nós olhávamos o casal subindo, com a mulher na frente, de vestido justo "tomara-que-caia", rebolando profissionalmente.

Nessa época, o animador do bordel era a figura obrigatória do "veado", o "pau-para-toda-obra" dos bordéis: gerente e conselheiro das mulheres. O "veadinho" de bordel era boa dona de casa, fazia as compras, se metia com fregueses e, estranhamente, fazia um tipo coquete, como se fosse uma mocinha virtuosa no meio das "decaídas".

Olhava com desprezo os bofes, sempre com a língua afiada para uma resposta: "Sai para lá, cafajeste! Eu sou pobre, mas tive boa educação". E andava pela casa toda, catando sua felicidade entre vasos sujos e papel higiênico, para suportar sua solidão terrível dos anos 50 (bruta época para os gays...). Era faxineiro e mãe substituta para as "mulheres da vida", como diziam minhas tias.

O "veadinho" passou, atirando-nos a língua aguda: "Chiiii!... hoje isto está um jardim de infância!" A gargalhada da boneca e dos bofes próximos queimou os brios do Cabeção que, com o dinheiro do pai no bolso e um requebro que imitava o Bené, chamou uma moreninha com cara de índia paraense. Sem ar, vi o Cabeção subir as escadas com ela, me jogando um olhar de triunfo.

Fiquei ali embaixo, sem um tostão, esperando o Cabeção perder a virgindade lá em cima. Estava desamparado sem ele, mas tive um surto de coragem e apareci à frente do grupinho de otários atravancando o corredor.

As mulheres notaram minha súbita "allure" e me enviaram sorrisinhos e piscadas de olhos. No entanto, cada sorriso e piscadela me doía fundo, fazendo mais vazio meu bolso, onde só estavam as moedinhas do ônibus, o que me desarmou logo a pose, diante dos rapazes de terno...(ia-se ao puteiro de terno!...).

Foi quando uma das mocas, uma lourinha magrela de vestido saco, se enrabichou por mim... Levantou-se, passou faceira a meu lado e sumiu nos fundos da casa, sorrindo-me, convidativa. Gelou-me a alma sem dinheiro: que fazer?

Fiquei por ali, enquanto a bichinha reclamava da aglomeração de homens: "Ihhh! Isso aqui não é fila do açougue, não!..."

Eu disfarçava a aflição com Continentais-sem-filtro, apalpando o dinheiro da condução. Nada do Cabeção aparecer. Onde estaria minha lourinha magrela e triste? Fui me esgueirando até uma porta no fundo do corredor. Fingindo de bobo, abri a porta. Era uma cozinha escura onde, numa mesa com linóleo quadriculado, umas putinhas jantavam. Estavam comendo um triste macarrão nos pratos de alumínio.

A lourinha me sorriu: "E aí, não vai fazer um amorzinho?..." Sorri amarelo. "Está servido?" "Não, obrigado, já jantei..." "Experimenta a sobremesa, então..."

De repente, me vi comendo um pedaço de goiabada num pratinho, mudo de medo. Foi quando ouvi uma gritaria lá em cima. O Cabeção estava descendo a escada atarantado, escorraçado pelo veadinho. Saímos de cambulhada, enquanto a índia, com cara guerreira e xavante, berrava do alto da escada: "Não pagou! Pega ele! Que desaforo!" E o veadinho-gerente fazia coro: "Pega ele... Vou navalhar vocês! Eu sou mau! Mau!"

Fora, o Cabeção me explicou que brochara e quisera pagar só a metade do "miché", para indignação da xavante e xingamentos do veado.

E no ônibus vazio da madrugada íamos nós: o Cabeção chorando, virgem e humilhado, e eu com gosto de goiabada na boca.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO



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ANCELMO GÓIS

LIQUIDAÇÃO DO PONTO

O GLOBO - 09/06/09

Veja como certos ativos perderam valor. O supermercado Pão de Açúcar vai pagar pouco mais de US$ 400 milhões pela compra do Ponto Frio. Não faz muito, o valor de mercado desta rede de varejo era superior a US$ l bi.
MISTER WATKINS
Lily Safra, 70 anos, a bilionária que vendeu o Ponto Frio, conhece bem a Baixada Fluminense. O pai, tcheco, tinha uma empresa em Mesquita e hoje é nome de logradouro no município (Rua Mr. Watkins).
PELA PAZ
O sonho de Lula é levar Obama para assistir ao amistoso entre Flamengo e Corinthians na Palestina, ainda este ano.
TRÊS VEZES
Uma comissária brasileira da Air France que vive o drama do acidente com o Airbus, o terceiro de sua carreira (os dois primeiros, na TAM), conta que a reação dos passageiros, agora, é bem diferente.
Na TAM, diz, as pessoas eram agressivas, como se culpassem a tripulação pelo acidente. Agora, são respeitosos e solidários.
É. Pode ser.
DIESEL DE SOJA
O último leilão de biodiesel, realizado pela ANP, dia 29, mostra que o Brasil paga relativamente caro para ter este combustível vegetal.
O preço apurado, de R$ 2,131 o litro, sem tributos, está 62% mais caro que o diesel de petróleo produzido no Brasil.
MARCA FORTE
Para o casamento com o jogador Roger, Deborah Secco fez uma maquiagem especial no pé, para cobrir a tatuagem com o nome do ex-namorado, Falcão, que não consegue apagar. A atriz já fez várias sessões de aplicação de laser.
ANALFABETOS DO BRASIL
O relatório Situação da Infância e da Adolescência no Brasil, que o Unicef divulga hoje, mostra que um quarto (25,8%) da população rural do País acima de 15 anos ainda é analfabeta. Em áreas urbanas, pelo mesmo critério, 8,7% são analfabetos. No Nordeste, apesar de começar a melhorar, a situação ainda é pior: só 11,6% dos jovens da área rural estão matriculados no ensino médio.
TIRO DE FUZIL
De Dori Caymmi, que mora em Los Angeles, sobre a situação do Brasil, em seu show na Caixa Cultural, no Rio, sábado:
– E ainda tem f.d.p querendo o terceiro mandato. Meu sonho é ser torturado pelo PT.
MAS...
A favor de Lula, diga-se que o presidente tem reiterado que considera prejudicial para a democracia mudar mais uma vez a regra eleitoral.
ELE É CARIOCA
O senador pernambucano Jarbas Vasconcelos, aquele que disse que “boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”, foi cumprimentado por dezenas de cariocas, sábado, no Bracarense, o boteco vip do Leblon.
‘EM BRASÍLIA... 19H’
O Senado deve apreciar amanhã cinco projetos de flexibilização do horário de transmissão da “Voz do Brasil”.
Seria a morte do velho bordão do programa: “Em Brasília... 19h”.
SEGUE...
Os cinco projetos estão na pauta da Comissão de Ciência e Tecnologia. Um deles, um substitutivo do senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, o filho de ACM, prevê a transmissão em qualquer horário, entre 19h e meia-noite e meia.

CLÓVIS ROSSI

"Projetos". Ou falta deles

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/06/09

SÃO PAULO - Diz a ministra Dilma Rousseff que um eventual terceiro mandato para o PT em 2010 seria para "um projeto", não para um nome (no caso o de Luiz Inácio Lula da Silva).
Se é assim, vejamos o que diz de tal "projeto", na área ambiental, uma das raras personalidades do PT que não renunciou ao dever de pensar, a senadora Marina Silva: "Essa conversa [em torno de deletérias alterações nas regras de defesa do meio ambiente] nos leva de volta ao Brasil das capitanias hereditárias. Ele está inteiro, poderoso, imutável, um encrave dentro de nossa pretensa modernidade. Nessa lógica, a lei só vale quando não contraria alguns interesses. Provavelmente, regras universais e o bem comum são considerados excentricidades".
Vale para o meio ambiente, vale para o conjunto da obra. Vale para o presente governo, vale para o anterior, de que dá prova a farta coleção de políticos que empobreceram o governo anterior e foram chamados para empobrecer também o atual.
Seria exagero dizer que vale para todos os governos anteriores desde as capitanias hereditárias? Tem-se, pois, que quem não se conforma com a mediocridade e/ou o retrocesso não tem "projeto" a escolher.
Nem fora do Brasil, aliás. Vide o resultado da eleição para o Parlamento Europeu. No meio de uma crise formidável, provocada pelo exagero de liberalismo, ganham os "projetos" liberais e/ou conservadores e ainda avança, em dez países, a retrógrada extrema-direita.
O "projeto alternativo" que em tese (só em tese) seria representado pela social-democracia perde onde é governo (Espanha e Reino Unido) e perde também onde a direita é governo (França, Itália e Alemanha), para ficar só nos grandes países do conglomerado europeu.
As Marinas Silvas deste mundo vão acabar falando sozinhas. Pena.

UM ENCANTO PARA A MULHER


CLÁUDIO HUMBERTO

“Vamos obstruir todos os projetos e impedir votação dos créditos”
DEPUTADO OTÁVIO LEITE (PSDB-RJ), SOBRE A REAÇÃO DA OPOSIÇÃO EM RAZÃO DAS CPIS

BOEING DA VARIG FOI ABATIDO POR CAÇAS RUSSOS
O cargueiro 707-323 da Varig, que desapareceu em 30 de janeiro de 1979, quando sobrevoava o Pacífico entre Tóquio e Los Angeles, foi abatido por caças soviéticos. A revelação foi feita a esta coluna por um ex-agente de inteligência brasileiro que ouviu o relato de um ex-agente da KGB que participou da operação. Domingo, o “Fantástico”, da Globo, mostrou que familiares dos 6 tripulantes há 30 anos aguardam respostas.
CARGA SECRETA
Os russos atacaram porque o Varig estaria transportando aos EUA, em segredo, partes de caça Mig 25 levado a Tóquio por um piloto desertor.
LÍNGUA NOS DENTES
Cooptado pelo serviço secreto inglês, o ex-agente da KGB soviético veio ao Brasil em 1982 e contou tudo a agentes que fizeram sua segurança.
ULTRA-SECRETO
O governo brasileiro jamais revelou às famílias dos tripulantes a decisão de colaborar com a CIA, levando pela Varig partes do Mig 25 aos EUA.
OUTRAS VÍTIMAS
O Brasil perdeu também 153 telas do artista Manabu Mabe, que eram trazidas de volta no cargueiro da Varig após uma exposição em Tóquio.
JUSTIÇA PEGA NA MENTIRA ÓRGÃO PENITENCIÁRIO
A Justiça Federal de Brasília suspendeu a compra, pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, de aparelhos Body Scan (escaneador de corpo para presídios federais). O Depen garantiu que a fornecedora escolhida era a única que tinha o equipamento no mundo inteiro, para justificar a compra sem licitação. Mas a Justiça Federal descobriu mais de duas dezenas de concorrentes.
CUSTO TOTAL
Os seis aparelhos custaram mais de R$ 3 milhões, adquiridos à empresa Smiths Heimann por meio da brasileira Ebco Systems Ltda.
DAS DUAS, UMA
A situação no Departamento Penitenciário Nacional está preta porque ninguém responde à pergunta: errou porque quis ou foi induzido a erro?
SAÚDE ABALADA
Continua o inferno astral do deputado Edmar Moreira, o dono do castelo de Minas Gerais: ele enfrenta sérios problemas de saúde.
ARMA ROUBADA
Roubaram um revólver calibre 38 de um segurança da Presidência da República, enquanto ele trabalhava (ou dormia, sabe-se lá). O Gabinete de Segurança Institucional confirmou a esta coluna o sumiço – constatado durante a passagem de serviço – e abriu inquérito.
PETRÓLEO ERA NOSSO
O presidente Lula contou ao governador do Rio, Sérgio Cabral, um dos seus segredos mais bem guardados: a intenção de mudar a Lei do Petróleo, que é um dos legados de FHC. Informado disso, o ex-ministro Eduardo Jorge, secretário-geral do PSDB, avisa: “Vou ficar de olho”.
DROGA DE MINISTRO
O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) terá de comparecer nesta terça à Comissão de Combate ao Crime Organizado, na Câmara, para explicar sua participação há um mês na marcha de apologia ao uso de maconha.
COINCIDÊNCIA
Filho perdulário da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), candidata do PT à sucessão de Lula em 2010, o PAC vai gastar 20% a mais no ano que vem. Claro, é justamente o ano da sua pretendida eleição.
VAI DAR ROLO
O presidente Lula está a um passo de pedir aos petistas Jaques Wagner, na Bahia, e Fernando Pimentel, em Minas Gerais, para desistirem de suas candidaturas ao governo e apoiar os candidatos do PMDB.
CARGO NOVO
O cunhado do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, o empresário Francisco Feitosa assumiu a presidência regional do Democratas no Ceará.
PERDEU A PACIÊNCIA
O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), está irritado com a ideia do governo Lula de lançar o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ao governo paulista. Para Serra, o Planalto quer forçá-lo a permanecer na disputa estadual e inviabilizar sua candidatura à Presidência,
em 2010.
ESFORÇO
Por determinação do Palácio do Planalto, o Dnocs ingressou com 997 ações na Justiça Federal para agilizar a desapropriação de terrenos e apressar as obras de transposição do Rio São Francisco. Lula quer inaugurar ainda como presidente a maior obra do País.
NOSSA GRANA
Nos próximos doze meses, a Agência Brasileira de Inteligência vai gastar R$ 755 mil em cópias, impressões e digitalizações.

PODER SEM PUDOR
EXPURGOS PETISTAS
Observando a lavagem de roupa suja do PT, no Senado, em 2003, o líder do PSDB, Arthur Virgílio, concluiu que o “neo-stalinismo” petista é mesmo inspirado nos expurgos soviéticos. Ele comparou, por exemplo, a senadora Heloísa Helena a Leon Trotsky e o deputado Babá a Kamenev, e alfinetou:
– Só espero que o presidente não vire um Aleksandr Kerenski.
Apeado do poder, Kerenski acabou exilado, quem diria, em Nova York.

DORA KRAMER

Água mole

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/06/09

O presidente da República rejeita a ideia, a exiguidade dos prazos e a ausência de condições políticas confirmam que não há hipótese de o Congresso mudar a Constituição para permitir duas reeleições seguidas aos presidentes, governadores e prefeitos, notadamente a tempo de a regra entrar em vigor para a eleição de 2010.

Contudo, não obstante as evidências e as negativas há um fato: a emenda constitucional criando a possibilidade de os chefes de Poderes Executivos concorrerem a um terceiro mandato está na pauta do Parlamento.

E a oposição, que vinha toda catita com a dianteira nas pesquisas – ao ponto de se dar ao luxo fazer da divisão interna um passatempo – agora terá de se dedicar ao trabalho de remoção do entulho. Será obrigada a cuidar de um artefato nascido nas hostes governistas e ainda ouvir que fica nervosa à toa.

Os aliados do presidente Luiz Inácio da Silva tanto fizeram que o assunto, que em tese não deveria estar sendo discutido nem por brincadeira, entrou na agenda legislativa. Pela porta da frente, com o apoio de um terço dos deputados (a maioria do PT e do PMDB) e uma justificativa estapafúrdia.

De acordo com o autor, o deputado Jackson Barreto, a popularidade do presidente Lula significa que o brasileiro desejaria a sua permanência na chefia do governo e, por isso, se deve abrir um espaço constitucional para a materialização da manifestação desse agrado.

Por essa lógica, quando um presidente estiver desagradando ou não conseguir “bons” índices de popularidade, a Constituição também deveria ser alterada para possibilitar a interrupção do mandato e, assim, oficializar a instabilidade política como regra no Brasil.

O presidente Lula até agora não fez um gesto objetivo para enterrar de vez essa história de terceiro mandato. É verdade que não alimentou a iniciativa quando ainda havia tempo, mas, por algum motivo, não só deixa que o cadáver transite insepulto, como ultimamente parece bastante satisfeito com isso.

Na semana passada, foram duas declarações simulando flexibilização da posição contrária. Na Guatemala, disse que a reeleição continuada é “assimilável” quando obtida de “forma democrática”. Vale dizer, sob a égide da Constituição.

Dois dias depois, já de volta ao Brasil, o presidente resolveu provocar os oposicionistas que reagiram à nova investida – desta vez bem-sucedida – do deputado Jackson Barreto. Achou “engraçado” o nervosismo da oposição, porque a proposta apresentada não institui pura e simplesmente o terceiro mandato, mas estabelece o referendo “que as pessoas podem derrubar na hora que quiserem”.

Na oportunidade, Lula informou que ia “conversar com os aliados” a respeito. Note-se: não impôs reparo à proposição de Barreto nem firmou compromisso de, na “conversa”, enquadrar quem quer que seja aos costumes vigentes.

Optou pela dubiedade, pelo gracejo e por confundir as ideias. Sobre o referendo, por exemplo, que só ocorre depois de a matéria passar pelo Congresso.Tais atitudes divergem das negativas peremptórias, destoam da realidade objetiva e, principalmente, demonstram uma inadequada e inquietante ligeireza do presidente da República ao tratar de um tema dessa importância institucional.

E por que fazer isso em tom de quase zombaria? Para dar a impressão de que são os adversários que levantam a questão como uma maneira de criar constrangimento ao governo, e que a imprensa embarca na onda para alimentar versões fantasiosas e transformá-las em notícias.

O presidente é bom na inversão dos fatos. Naquele mesmo dia, Lula pediu atenção na campanha eleitoral contra “os salvadores” da pátria: “Vocês viram o que fizeram comigo em 2005.” Referia-se aos adversários, que não fizeram nada contra ele. Ao contrário.

A denúncia do mensalão saiu da base governista e a oposição deixou passar em branco a confissão de Duda Mendonça na CPI sobre o pagamento de seu trabalho como publicitário da campanha presidencial de 2002, por meio de caixa 2.

É de se observar agora que a emenda da “rerreeleição” está no Congresso qual a atitude do governo e dos governistas. Os partidos de oposição mandaram seus deputados retirar as assinaturas de apoio à proposta.

O PT e o PMDB posicionaram-se contra, mas não mexeram uma palha para impedir o início da tramitação. Terão oportunidade de sobra, entretanto, de ajudar o arquivamento. Basta que deem seus votos na Comissão de Constituição e Justiça.

Se hesitarem, significa que ao governo não interessa matar esse mal na raiz. Convém, por algum motivo, deixar que ele prospere introduzindo um fator de perturbação na campanha eleitoral já suficientemente conturbada pela antecipação artificial do processo.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, batizou a coisa do nome certo, “pseudotema”. Só omitiu do monstrengo a filiação.

O CHEFE DA QUADRILHA

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Petrobras baixa gasolina, mas não para consumidor

- Folha: Preço do diesel cai 15% na refinaria

- Estadão: Diesel tem redução de 9,6% e gasolina só cai na refinaria

- JB: Voo 447 - Pilotos da Air France ameaçam a empresa

- Correio: Teste de qualidade pode fechar escolas no DF

- Valor: Pré-sal terá sistema de partilha e fundo social

- Estado de Minas: Esperança para a rodovia da morte

- Jornal do Commercio: Mais 4,343 vagas para professor