sábado, maio 02, 2009

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
Todas as acusações do casal Zoghbi
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Adriano Machado
ATAQUE
João Carlos e Denise Zoghbi, funcionários do Senado, em sua casa, em Brasília, durante a conversa com ÉPOCA

Na noite da quinta-feira 23, ÉPOCA manteve duas conversas com o casal João Carlos e Denise Zoghbi na mansão em que eles moram no Lago Sul, área mais nobre de Brasília. No primeiro encontro, a revista mostrou ao casal o resultado de três meses de apuração sobre as empresas de fachada em nome da ex-babá de João Carlos, Maria Izabel Gomes. A babá é uma senhora de 83 anos que não tinha renda até 2006. ÉPOCA mostrou que a família Zoghbi usou o nome de Maria Izabel para ocultar quantias milionárias recebidas de bancos que tinham autorização para fazer operações de empréstimos consignados com os funcionários do Senado. Diante das evidências, João Carlos e Denise confirmaram a história. No primeiro momento, atribuíram a fraude aos filhos, demitidos do Senado após o Supremo Tribunal Federal vetar o nepotismo. No primeiro encontro, o casal Zoghbi parecia desesperado. Repetiam que a divulgação da história da babá acabaria com eles.

Durante a conversa, a reportagem sugeriu que, se os Zoghbis revelassem um escândalo ainda maior, com potencial para ser capa da revista, o caso da babá não seria o destaque principal da edição. Meia hora após o fim da primeira conversa, João Carlos ligou para o repórter Andrei Meireles e pediu um novo encontro. De volta à casa dos Zoghbis, ÉPOCA recebeu propostas de barganha. Denise ofereceu um carro para a reportagem não ser publicada (ÉPOCA apurou depois que se tratava de um Mercedes-Benz). Diante da recusa, passaram a oferecer denúncias sobre supostos esquemas de corrupção em todas as grandes compras, licitações e contratações no Senado.

João Carlos e Denise afirmaram que há corrupção nas contratações do Sistema de Processamento de Dados (Prodasen), na comunicação social, no transporte, na vigilância e no serviço de segurança. Ao falar da área de taquigrafia, são mais específicos: “A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer o mesmo serviço”, diz ela.

Segundo o casal, a quadrilha que opera todos os negócios no Senado tem um chefe. Trata-se, segundo eles, de Agaciel Maia, que foi diretor-geral do Senado por 14 anos. Agaciel deixou o cargo há dois meses, depois da denúncia de que havia registrado uma mansão sua em nome do deputado federal João Maia (PR-RN), seu irmão. “Esses anos todos, o Senado tem dono. Um único dono”, diz Denise, sobre Agaciel. “Ele é sócio de todas as empresas terceirizadas (que têm contrato com o Senado)”.

Agaciel Maia nega as acusações e atribui as denúncias de Zoghbi a uma antiga rivalidade. “Ele (João Carlos) sempre teve diferenças comigo. Sempre sonhou em ser diretor-geral”, diz. Agaciel afirma que nem teria como manipular os milionários contratos com empresas terceirizadas que fornecem mão de obra ao Senado: “A comissão de licitação é formada por 13 integrantes de diversas áreas, que são nomeados pelo presidente do Senado. Não havia como eu interferir”. Agaciel é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações. “Já me viraram do avesso e não encontraram nada. Nem vão encontrar”, diz.

Na conversa com ÉPOCA, em momento algum o casal Zoghbi pediu reserva sobre as revelações que estava fazendo. A partir da segunda entrevista, eles deixaram de dizer que o uso da babá como laranja havia sido um negócio dos filhos. João Carlos passou a admitir que era a ele que a história da babá comprometia.

O casal Zoghbi fica cauteloso quando a conversa evolui para nomes de senadores. Quem são os parlamentares que bancam e se beneficiam das supostas operações corruptas de Agaciel? Os Zoghbis desconversam. O limite do casal é a insinuação do envolvimento dos senadores Romeu Tuma (PTB-SP) e Efraim Morais (DEM-PB) com Agaciel. Nada falam sobre os padrinhos políticos deles próprios – e também de Agaciel –, como José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão.

Na semana passada, a maior especulação nos principais gabinetes do Senado era sobre as possíveis reações de Denise. “Se essa mulher contar o que sabe, implode a cúpula do Senado”, diz um senador. Numa semana em que se esperava que o assunto predominante nas conversas no Senado fosse a doença da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Denise roubou a cena. Ela e o marido começaram a falar. Eis os principais trechos do que eles disseram até agora.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O dono do Senado
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Dida Sampaio
AGACIEL MAIA
O ex-diretor-geral do Senado diz que as acusações de Zoghbi se devem à disputa por poder entre os funcionários
O dono do Senado

João Carlos Zoghbi – Mas por que o João Carlos nisso aí? Eu, sem ser ordenador de despesas, poxa vida... O diretor-geral (Agaciel Maia) sim, que vocês já abriram coisa lá. Será que não dá para trabalhar em cima disso, não? Ele, sim, como ordenador de despesas, com a caneta na mão, decide. Eu?

Denise Zoghbi – Por que não vai em cima de quem tem a caneta? Esses anos todos o Senado tem um dono. Um único dono. Não acha que está no endereço errado? 

ÉPOCA – Não. Pode até ter um (caso) mais interessante. Mas preciso de coisa para isso. Não tenho mais coisa do Agaciel. Sei que ele está de diretor escondido, despachando no 9º andar, despachando naquela sala que foi da mulher dele.

Denise – Quantas terceirizadas há no Senado? Verifique quantas? Quanto dá por mês?

ÉPOCA – Como é isso?

João Carlos – O mapa da mina está em cima...

Denise – Mas vai publicar o nosso?

ÉPOCA – Mas eu quero o mapa da mina inteiro.

Denise – O caso é o seguinte: nós não temos dinheiro para oferecer para você.

ÉPOCA – Dinheiro? Como assim? Não estou entendendo.

João Carlos – Nós somos quebrados, porra.

Denise – Esta reportagem vai acabar conosco, o João vai ser demitido. O que eu posso fazer? Dinheiro? Se eu te der o meu carro, você não publica?

ÉPOCA – Denise, eu não sou corrupto. Você está me agredindo.

Denise – Eu não estou querendo te agredir. Eu estou dizendo que nós não temos como te pedir... Não publica isso porque você vai acabar com a nossa vida (chorando). Vai acabar com a vida dos nossos filhos.

João Carlos – Uma humilhação, porra.

ÉPOCA – Essa história está apurada. Deveriam ter pensado na hora que pegaram uma senhora, que chamam de “mãe preta”, e colocado como laranja numa empresa. Três empresas. Não pensaram nisso na hora? Essa mulher vai depor na Polícia Federal.

Denise – Não pensamos. Mas vai publicar isso?

ÉPOCA – É o meu trabalho. 

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O patrimônio de Agaciel
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
O patrimônio de Agaciel 

ÉPOCA – Como funcionava o esquema (do Agaciel) lá dentro?

Denise – Ali, acho que ele divide tudo com o primeiro-secretário.

João Carlos – É a sintonia. Porque o primeiro-secretário, em última análise, é ele que delibera (durante a gestão de Agaciel, vários senadores ocuparam a primeira-secretaria. No período a que Zoghbi se refere, foram os senadores Romeu Tuma, do PTB-SP, e Efraim Morais, do DEM-PB).

Denise – Ele (Agaciel) fica com a parte do leão. Agaciel está milionário. Eu sei que ele tem casa, apartamento em Natal, uma fazenda no interior do Rio Grande do Norte, várias casas em Brasília em nome de irmãos. Ele faz bem feito.

João Carlos – Não vai ser aqui em Brasília. Vai ver na origem dele.



O QUE DIZ EFRAIM: “Não segui cartilha de ninguém. As palavras dele não têm nenhuma verdade. Agaciel nunca determinou nada. Pelo contrário. Como senador, não tem nenhum sentido eu seguir a cartilha de um funcionário. Fiz um trabalho transparente na primeira- secretaria e todas as tentativas contra mim não foram comprovadas”.

 
O esquema das terceirizações

Denise – Eu tenho uma história melhor. Vai atrás das empresas terceirizadas. 

ÉPOCA – Cadê o mapa da mina das terceirizadas?

Denise – Ele (Agaciel Maia) é sócio de todas as empresas terceirizadas.

ÉPOCA – Ele é sócio? Onde é que eu encontro?

Denise – Não sei.

ÉPOCA– Por exemplo: você usou sua ama de leite. Quem ele usa? No nome de quem está essa coisa?

João Carlos – Espera aí: se olhar todo direcionamento de contratos e quem realizava os contratos do Senado... Vai ver um crescimento exponencial de patrimônio do diretor que realizava os contratos. Durante esse período o patrimônio dele cresceu muito...

ÉPOCA – Isso não tem nada de novo. Tanto é que ele caiu. Quero avançar nessa história.

João Carlos – Não estou falando nada disso. É essa pessoa que contribuía para esse processo. Como as terceirizadas? Através do ex-diretor de contratos Dimitrios Hadijnicolaou (ex-diretor da Secretaria de Compras do Senado, que perdeu o cargo em agosto de 2008 depois de ser acusado pelo Ministério Público de participar de fraudes em licitações para contratação de empresas terceirizadas pelo Senado). Estou te dando caminhos.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
Agaciel e as terceirizações
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Agaciel e as terceirizações

Denise – O que todo mundo dentro do Senado sabe é que todas as terceirizadas são dele (Agaciel). Todas as contratações passam por ele. 

ÉPOCA – Mas como provo isso? Por exemplo: quando a gente descobriu a dona Maria Izabel (a babá de João Carlos Zoghbi), a gente teve como chegar. Precisamos da Maria Izabel dele.

João Carlos – Quer uma ponta? Ele tem uma penca de irmãos. Mas tem um que trabalha no Senado. É o Oto Maia, que é o mais próximo. Pode ter outros, mas esse, necessariamente, tem o nome dele.

Denise – Tem de verificar quem são os donos. Tem um compadre, que eu não sei o nome dele, que é o marido de uma mulher que trabalha com a mulher dele. Já me falaram que tem coisa. Trabalha no 9o andar e que, inclusive, ficou no lugar dela.

João Carlos – Uma coisa é certa: ele não está concentrado em cima de uma pessoa. Ele tem braços porque foram 14 anos no comando. Deve ter umas dez terceirizadas.

Denise – Por aí, imagina. Cada um com uma média de mil, 2 mil funcionários.

João Carlos – Tem no Prodasen, na comunicação social, no transporte, na vigilância, na parte de segurança.

ÉPOCA – E na taquigrafia?

Denise – A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer os mesmos serviços.

ÉPOCA – E de quem é essa empresa?

Denise – Essa empresa é da Cleide (Cleide Cruz, diretora da Secretaria de Comissões do Senado, que atuou como secretária de importantes CPIs do Congresso, inclusive a que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor). Que eu saiba, a filha dela é que tomava conta da empresa. Era a gerente.


 
O QUE DIZ CLEIDE CRUZ: “Não é verdade. Uma multinacional chamada Steno Brasil presta serviços de transcrição de reuniões em tempo real para o Senado. Não é exatamente taquigrafia, por ser bem mais moderno. Essa empresa, de grande porte, sem ligações empresariais comigo, passou por uma licitação para entrar na Casa. Uma empresa da qual minha filha é sócia presta serviço de administração para a Steno Brasil. Não há nada de irregular e o Ministério Público já investigou”.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O Interlegis e o clã Tuma
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Ailton de Freitas e Glaucio Dettmar
OS TUMAS
O senador Romeu Tuma (à esq.) e seu filho Robson dizem que Zoghbi não tem como provar o que diz
O Interlegis e o clã Tuma 

ÉPOCA – Vocês podem falar do que vocês viram ali dentro.

João Carlos – A gestão é muito centralizada.

Denise – Procura olhar o Interlegis (programa desenvolvido pelo Senado para modernizar e integrar os poderes legislativos, federais, estaduais e municipais).

ÉPOCA – Tinha o Tuminha (ex-deputado federal Robson Tuma, filho do senador Romeu Tuma, do PTB de São Paulo) operando ali em determinado momento?

Denise – O Agaciel neutralizou ele, rapaz. O Agaciel fez o Sarney brigar com o Tuma.

João Carlos – Olha, vamos lá. Ninguém imaginava que o Tuma fosse tão fraco naquele momento. O Agaciel anulou o Tuma. O Tuminha tentou ali, forçou uma situação em determinado momento e o Agaciel neutralizou o Tuminha e deixou o Tuma desmoralizado nisso aí.

Denise – O primeiro-secretário só trabalhava se fosse na cartilha do Agaciel. Todos fecharam com ele. Vai no Interlegis.

João Carlos – Outra ponta para puxar envolve o Interlegis. Ali é dinheiro de recurso internacional, de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que não passa pelo processo licitatório. Teve uma contratação de R$ 10 milhões de um censo que foi feito diretamente por eles nesse processo. E mais: o Interlegis é todo minado.

Denise – E estão preparando outro censo...

ÉPOCA – E esse censo foi feito?

João Carlos – Foi feito na época.

Denise – Eles inclusive falam com muito orgulho da realização.

João Carlos – O Interlegis nasceu lá atrás com a Regina em um propósito e, de lá para cá, ele foi todo sendo deturpado.

ÉPOCA – A Regina do Prodasen? (Regina Borges é a funcionária que no ano 2000, por determinação dos então senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, mandou violar o painel eletrônico do Senado na votação secreta em que foi cassado o senador Luiz Estevão.)

João Carlos – Antes do escândalo do painel, o Interlegis foi criado com uma finalidade específica. Mas ficou um organismo de fachada para contratação de pessoas e de serviços. O dinheiro do Interlegis não passava pelo crivo da Lei 8.666 (que regula as compras e a contratação de serviços no setor público). Aí é que está. A contratação das pessoas deveria ser para cargos técnicos e trabalhar dentro do Interlegis para cumprir a missão do órgão. No entanto, os servidores foram trabalhar nos Estados e nos gabinetes a critério do Agaciel. Isso tem como provar. Historicamente, toda a trajetória do Interlegis foi sempre de desvios. E não são poucos recursos.


 
O QUE DIZ ROMEU TUMA: o senador Romeu Tuma defende o Interlegis e afirma que tem boas relações com Sarney: “Na primeira-secretaria sempre me pautei pela ética. Advogados e consultores da Casa trabalharam seriamente compromissados com o interesse público, tudo com a concordância da mesa diretora. Sempre fizemos normas para evitar qualquer possibilidade de desvio. Quanto ao Interlegis, há um acordo com o Banco Mundial, que faz regularmente auditoria externa e interna. É um trabalho sério, que investe na transparência. Também repudio qualquer ilação de mal-estar com o senador José Sarney, que respeito muito”.

 
O QUE DIZ ROBSON TUMA: “Nunca tive acesso e nem me envolvi em qualquer processo no Senado. O fato de ele (Zoghbi) ter sido descoberto em atos ilícitos não pode fazer com que ele ataque genericamente para encobrir seus erros. Zoghbi cita o meu nome porque não tenho mais imunidade parlamentar nem tribuna para me defender. É uma atitude própria de quem está desesperado e tenta jogar a culpa em outros para tirar qualquer responsabilidade de suas costas. Vou entrar na Justiça contra o Zoghbi”.

 
O QUE DIZ EFRAIM: o senador Efraim Morais acusa João Carlos de querer tumultuar o Senado: “As palavras dele têm de ser medidas, depois de tudo o que aconteceu. Que se fiscalize o Interlegis. Renovamos o contrato do Interlegis 2 em um total de U$ 33 milhões e não foi usado nada porque estava terminando o nosso mandato na mesa diretora. O Interlegis é fiscalizado pelo BID. Cabe a ele (Zoghbi) mostrar a roubalheira, então. Há uma vontade dele de tumultuar tudo. Ele vai ter de provar”.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
As ligações com os caciques do Senado
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
As ligações com os caciques do Senado

João Carlos – O Agaciel tem a veia política. Na primeira vez que o Sarney colocou ele lá, o Agaciel fez um trabalho de formiguinha de senador em senador para fazer a cabeça do Sarney.

Denise – Ele ganha todos os senadores.

ÉPOCA – O Agaciel presta favores variados.

João Carlos – É. Pois é. Ali, tem todo tipo de favores.

Denise – Um exemplo é o ACM (senador Antônio Carlos Magalhães, morto em 2007). Ele não suportava o Agaciel e depois passou a adorar. O Renan (Calheiros, líder do PMDB) não suportava ele e depois passou a adorar.

João Carlos – Ele era um facilitador. Vendia facilidade para todos, pô. Tem de fazer o transporte disso e mais daquilo? Ele fazia o transporte. Tem de imprimir isso e mais aquilo? Ele imprimia. Esse negócio de passagem. Tudo foi administrado de forma concentrada. 

RUTH AQUINO

REVISTA ÉPOCA
Moço, tem vacina contra a ignorância?
Ouvir de Lula que “Dilma não tem mais nada” é um pouco demais. Porque é mentira
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

Tem vacina contra populismo? E contra corrupção? Não, não é gripe suína, o Ministério da Saúde já garantiu que “o Brasil está preparado, os aeroportos estão sendo monitorados e dobrou a fiscalização de quem chega”. E todo mundo acreditou, porque aqui só chega marola, não é assim? O vírus cruzará o Atlântico e chegará aqui fraquinho. A epidemia que me preocupa é outra. A da ignorância. Tem injeção contra contaminação? Não quero meus filhos só três horas por dia na escola sem aprender nada. E se eu rezar?

O maior escândalo da semana foi o aproveitamento político do câncer da ministra Dilma Rousseff pelo presidente Lula, no calor do palanque amazônico. Dilma não merece. E a gente menos ainda. Ele é o cara que encanta o povo brasileiro, pela simplicidade e simpatia. Mas ter de ouvir de Lula que sua candidata “certamente não tem mais nada” porque “o câncer já foi tirado” e ela fará agora apenas “um tratamento preventivo” é um pouco demais. Porque é tudo mentira. Lula subestima seus ouvintes. Uma coisa é ser otimista. A outra é faltar com a verdade de maneira calculada, para tornar a ministra da Casa Civil, aos olhos do povo, uma mulher como qualquer outra. Do palanque, Lula apelou por apoio e sentimentalismo em momento que exigiria reserva e cuidados: “Rezem por ela”.

Quem conhece Dilma – e a maioria dos brasileiros ainda não conhece – ficou profundamente entristecido com a notícia. É mais um drama para essa mulher que foi guerrilheira aos 19 anos, caiu na clandestinidade sob o codinome Estela e foi torturada com choques elétricos. Dilma leva tudo a sério. Submeteu-se a uma cirurgia plástica para suavizar as rugas e a aparência durona, e se jogar com força e charme na campanha presidencial, rodando pelo país. Tudo leva a crer que vai sair desta e recuperar a saúde. Mas prever que a ministra não abandonará a “agenda dupla” é irresponsável.

Ouvir de Lula que “Dilma não tem mais nada” é um 
pouco demais. Porque é mentira

Conversei com uma médica brasileira, sumidade em diagnósticos. Ela já salvou amigas minhas que tiveram câncer e estão muito bem: “Ruth, eu adoro e admiro muito a Dilma, e essa notícia foi um choque tremendo para mim. Essa quimioterapia, que dizem aí que durará cinco meses, na verdade pode chegar a seis, sete meses, e é uma pancada brutal no organismo. Em breve, a ministra acordará e todos os seus cabelos estarão sobre a cama. Cairão sobrancelhas, cílios. A nutrição terá de ser controlada, alimentos esterilizados. Com a imunidade baixa, não poderá se expor a contato com multidão”. Como esperar, humanamente, que a ministra se mantenha neste ano sob holofotes e em campanha para uma eleição já em 2010? Esse risco, só a própria Dilma e seus parentes mais próximos podem avaliar. E Lula chama o tratamento de “preventivo”.

A doença de Dilma (câncer ainda é uma palavra que se evita) e a epidemia de gripe suína colocaram em segundo plano as estripulias no Congresso. Mas houve uma reviravolta ética na novela “Caminho de Brasília”: a farra das passagens não foi a plenário. Parentes e amigos de parlamentares não poderão mais viajar com nosso dinheiro. Os deputados se sensibilizaram com a tal “opinião pública manipulada pelo denuncismo da imprensa”. Muito bem. Mas foram todos anistiados pelos erros anteriores. Por isso, o mineiro Edmar “Castelo” Moreira, hoje sem partido, também quer perdão, é filho de Deus.

Alguém anotou quanto a Câmara vai economizar com essa medida moralizadora? Serão R$ 17,9 milhões ao ano. Quase R$ 18 milhões. Dá para fazer muito com esse dinheiro. Dá para os próprios deputados aumentarem, em votação, os seus subsídios, de R$ 15 mil para R$ 24 mil. O presidente da Câmara, Michel Temer, criou comissão para estudar a “reestruturação administrativa da Câmara”. E disse que “nunca houve farra de passagens”. Então tá.

No Senado, até uma funcionária fantasma se rebelou: Luciana, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pediu demissão porque “o Senado é uma bagunça” – tanto é que lhe pagava havia seis anos horas extras, acima do salário de R$ 7 mil, para não aparecer jamais na Casa. Nem fantasma aguenta essa bagunça toda. Tem vacina, moço? 

MAÇA DO AMOR


INFORME JB

Sem-teto saem na frente de Lula

Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 02/05/09

O presidente Lula tem boa intenção ao anunciar o plano de habitação com 1 milhão de residências, mas deveria atentar para construções incompletas. O Ministério Público Federal em Rondônia acaba de instaurar inquérito civil para investigar as obras inacabadas do conjunto residencial Veredas, em Porto Velho. As 20 casas inacabadas foram invadidas por sem-teto em março. As habitações ainda são financiadas com recursos federais – são R$ 850 mil do FGTS e R$ 700 mil do Ministério das Cidades, além dos R$ 120 mil de contrapartida da prefeitura. Segundo os agora com-teto, as obras estão paralisadas há um ano. O prazo de entrega era de seis meses. Fora a solidariedade da prefeitura em permitir a invasão, o MP cobra o nome da construtora que embolsou a grana.

Tietagem É o Pelé!

No encontro reservado que tiveram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Copacabana Palace (foto), os 13 integrantes do Comitê Olímpico Internacional pediram, cada um de uma vez, fotos com o chefe da nação. E foram preparados. Cada um tirou uma máquina do bolso.

A cena repetiu-se no Morro da Urca, no jantar de confraternização da turma. O recepcionista era, para surpresa, Edson Arantes do Nascimento. Flashs para todo lado.

Bombardeio

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, vai enfrentar série de protestos em sua visita oficial ao Brasil, semana que vem.

Bombardeio 2

O mais novo anúncio de manifestação contrária partiu da comunidade judaica do Rio. Um grupo vai se concentrar em Ipanema amanhã, às 10h30, na altura da Vinicius de Moraes.

Bombardeio 3

A turma vai levar faixas com palavras de ordem contra a política de Ahmadinejad, como repressão à liberdade religiosa e limitação dos direitos da mulher.

Dia da isca...

O Tribunal de Contas da União suspendeu contrato firmado entre a Secretaria Especial de Pesca e a Soplan Engenharia para reforma e ampliação do Terminal Pesqueiro de Santos. O edital não foi divulgado e... só a Soplan se interessou por uma obra milionária.

... e do Trabalhador

O MP Federal denunciou na quinta 60 pessoas, em 30 ações criminais, por trabalho escravo só em Mato Grosso.

Show do milhão

O Tribunal de Contas da União condenou André Gonçalves Videira, diretor do Instituto Treinar de Educação e Tecnologia, em Santa Catarina, ao pagamento de R$ 1.040.167,77, por não prestar contas da verba repassada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Adivinha!

As empresas contratadas não entregaram notas nem prestaram contas dos serviços. São a VK Consulting – Videira e Kuchiniski S/S e Logos Prestações de Serviços, ambas de Videira.

Adeus

A onda de cassações de governadores chegou às assembleias. O TSE cassou o mandato da deputada estadual Maria Lúcia Mendonça (DEM), em Minas, por abuso de poder na eleição.

Cotas

Em meio à polêmica jurídica sobre sistema de cotas na educação federal, o consultor da FGV João Luiz Mauad lembra que a reserva de vagas em faculdades públicas vem ganhando corpo no país.

Cotas 2

Segundo Mauad, na revista Banco de ideias, , cerca de 51% das faculdades estaduais e 42% das federais já adotavam em 2007 algum tipo de ação afirmativa que abria espaço para negros ou indígenas.

Cotas 3

Para um total de 128.368 vagas oferecidas nos últimos processos em 55 instituições, 17.708 são destinadas às cotas.

Fala, Gilmar

O presidente do STF, Gilmar Mendes, faz palestra hoje no Instituto Tancredo Neves, em São João del Rei (MG).

ANCELMO GÓIS

Oração por Dilma
O GLOBO - 02/05/09
Amanhã, às 10h, moradores de Santa Clara do Guandu, lugar pobre de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, vão se reunir num ato ecumênico para rezar pela saúde de Dilma Rousseff. A pastora Carluce Nunes, da Igreja Batista Pentecostal Mundial, é uma das organizadoras.

DILMA POLIGLOTA...
Aliás, na recepção para a comitiva que veio avaliar a candidatura do Rio de Janeiro aos Jogos de 2016, Dilma discursou em português, mas, depois, gastou francês e inglês no papo com o pessoal do COI.
O APERTO CONTINUA
Foi “muito mal em abril”, segundo gente do setor, a arrecadação das receitas Federal e dos Estados. Desde os ricos do Sul até os pobres do Norte. Apesar dos sinais de melhora na economia, o Leão não reagiu.
MARÍLIA E ROBERTO
Marília Pêra foi convidada e topou participar do show “Elas cantam Roberto”, do projeto ItaúBrasil, que vai reunir, dia 26 de maio, no Municipal de São Paulo, várias divas da MPB para interpretar o repertório do Rei, com participação do próprio.
Roberto e Marília vão decidir a música que a atriz cantará.
JESUS DE MADONNA
De Leny Andrade, a cantora de fama internacional, em entrevista na Rádio MPB FM:
– Depois de ver uma foto imensa do modelo Jesus Luz numa loja em Nova York, pensei: “Madonna tem bom gosto. Realmente, não dava para deixar de comer esse rapaz”.
GIL EM SUNDANCE 
Nosso Gilberto Gil vai participar do Festival de Sundance, o mais importante do cinema independente, nos EUA, em janeiro de 2010.
O supercantor contará a história da MPB, usando videoclipes.
COPA DE 2014
O TCU suspendeu concorrência do Ministério do Esporte que contrataria empresas para trabalhar na organização da Copa 2014. O ministro Augusto Sherman observou que uma análise prévia aponta “dispêndios indevidos para a administração”.
O edital previa um contrato de prestação de serviços de R$ 14,5 milhões por 24 meses.
PAI DA PÁTRIA 
Fernando Papa Tudo Lugo, o ex-bispo que preside o Paraguai, desembarca em Brasília quinta agora, dia 7.
EM TEMPO... 
No Brasil, uma das autoridades eclesiásticas mais próximas de Lugo é ninguém menos que o núncio apostólico, o italiano Dom Lorenzo Baldisseri.
Baldisseri foi núncio no Paraguai de 1994 a 1999, quando o atual presidente havia acabado de ser nomeado bispo da Diocese de San Pedro.
CARIOCAS APOIAM 2016
O COI fez pesquisas nas quatro cidades finalistas da disputa pelos Jogos de 2016 para aferir o apoio de suas populações às candidaturas.
O Rio, viva!, bate Chicago, Madri e Tóquio, com 81% de aprovação. No Brasil todo, 69% apoiam o sonho carioca.
NO MAIS
A gripe suína exige alerta máximo das autoridades. Mas, ao menos por enquanto, o brasileiro corre mais risco de morrer por dirigir embriagado, transar sem camisinha ou se descuidar com o mosquito da dengue. Por enquanto.

MARCOS CAETANO

Tolerância

JORNAL DO BRASIL - 02/05/09

Os torcedores mais fanáticos jamais admitirão. Mas eu tenho certeza de que, no último domingo,

muitos palmeirenses cerraram os punhos e, de uma maneira discreta, quase imperceptível, comemoraram um pouquinho os inesquecíveis gols de Ronaldo contra o Santos. Da mesma forma, estou convencido de que muitos corintianos – e alguns até confessaram, a meia-voz, para mim – ergueram-se levemente do sofá para reverenciar, ainda que por uma fração de segundo, o gol épico que Cleiton Xavier marcou na última quarta-feira.

O futebol tem dessas coisas. Aqueles que amam o esporte, mesmo sem saber ou admitir, amam a beleza do jogo até mais do que o próprio clube. Por mais que sejamos torcedores de um time, quando o rival faz um lance de rara beleza, acabamos gostando. Uma parte de nós, a menos racional e lógica, acaba gostando. Recordo-me que no início dos anos 80, ainda moço – e aqui vai uma confissão que só agora tenho coragem de fazer – fui várias vezes ao Maracanã ver o melhor time da história do Flamengo jogar. Meu álibi intelectual, a desculpa que dava para mim mesmo, era esta: vou lá para secar, para torcer contra. E, com efeito, sentava sempre na torcida adversária: do Vasco, do Botafogo e até de clubes de outros estados e países.

Certa vez, ao explodir uma briga, quase apanhei como santista. Pensei comigo: imagine se o meu pai abrir o jornal amanhã e ler uma matéria sobre santistas que foram vítimas de violência. Apanhar como tricolor, ainda vá lá. Mas apanhar como torcedor de outro clube já seria demais. Meu pai poderia achar que virei casaca, crime maior que alguém pode cometer para com a própria consciência. Nessa de agourar o Flamengo, acompanhei exibições históricas do time que, ao lado da Máquina do Flu, de meados dos anos 70, foi a maior orquestra de craques que vi em ação. Mas será que eu ia mesmo ao estádio para azarar os rivais? Na época, acreditava piamente nisso. Hoje, devo reconhecer que, apaixonado por futebol bonito como sou, provavelmente ia ao Maracanã para me deleitar com a classe de Zico, Júnior, Leandro, Mozer e companhia.

Os torcedores mais radicais do Fluminense, a essa altura, estão pensando em me dar uma surra. Mas os tricolores autênticos, com sua habitual fidalguia, devem estar admitindo – silenciosamente, claro – que também gostavam de ver aquele time danado jogar. E não se iludam: conheço rubro-negros que foram ao Maracanã, em pleno sábado de Carnaval, ver a estreia de Rivelino pelo Fluminense. Que bom que existe gente assim. Amar o que e quem amamos não nos impede de reconhecer méritos nas coisas no que não amamos. Isso nos ajuda ao menos a não odiar, atitude fundamental para que a paz um dia possa reinar nos estádios. Portanto, amigo leitor, admita: você já vibrou, escondidinho, constrangido, debaixo das cobertas, com um gol do rival. Como amar o futebol e não sorrir com os toques de classe e a história de superação de Ronaldo? Como não chegar perto de explodir com a bomba de Cleiton Xavier, decidindo um jogão que parecia perdido?

Atitudes assim me dão esperança. Fala-se muito em amor, mas o amor é a pós-graduação, o doutorado, o PhD dos sentimentos. Para chegar a ele, devemos começar com coisas mais simples, no curso elementar da educação sentimental. O nome desse fundamento é tolerância. E ela, antes do amor, é o que pode começar a por ordem no mundo. Espero que a tolerância possa estar presente no Pacaembu, no Maracanã e em todos os estádios do mundo, no próximo domingo. Quando rivais – e não inimigos – entrarão em campo para perpetuar a magia do esporte que tanto amamos.