domingo, janeiro 18, 2009

INFORME JB


 PORRETE E GATILHO LADO A LADO  

Leandro Mazzini


De todas as formas de integração aguardadas na parceria entre governo do estado e prefeitura do Rio, desafinados nos últimos anos, a maior expectativa aparece na segurança. Quarta-feira agora, em cerimônia no Palácio da Cidade, o prefeito Eduardo Paes (foto) lança com Sérgio Cabral o Comitê Integrado de Segurança – que envolve interação entre a Guarda Municipal e a Polícia Militar. Foi promessa de campanha, e surge com duas novidades. Um serviço de rádio integrado entre as forças, para maior interlocução e contra-ataque ao crime. E a volta da famosa dupla Cosme e Damião. Com outra diferença: a ideia é colocar lado a lado um policial e um guarda municipal. Será o grande teste do entrosamento. Além disso, estado e prefeitura vão reforçar o policiamento no Centro e na Zona Sul. Outras parcerias estão previstas. 

Reforço BBB do cliente

O ministro da Justiça, Tarso Genro, e o diretor da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, serão convidados para o evento.

Veja como a tecnologia ajuda a polícia a atuar com inteligência. O serviço de atendimento por telefone de um grande banco privado recebeu ligação de um empresário que teve os cartões roubados. Em poucas horas, o bando estava preso, e todos serão processados por quatro crimes.

BBB do cliente 2

A telefonista não só cancelou os cartões imediatamente como chamou a empresa contratada pela instituição para rastrear os pagamentos dos cartões. A polícia foi acionada e flagrou a quadrilha.

Compras & Cela

Com o bando havia armas, mais cartões e motos usadas para outros crimes do tipo.

Boi hermano

O Brasil é que nem mãe para Evo Morales. O Ministério da Agricultura comprou 2 milhões de doses de vacina contra a febre aftosa para doação à Bolívia. Pagou R$ 1,86 milhão à Merial Saúde Animal.

Maluquinho, não

Mestre Ziraldo sabe colher os frutos do sucesso. A Empresa Brasil de Comunicação, que controla a TV Brasil, pagou R$ 150 mil de direitos autorais para exibir a segunda temporada da série Um menino muito maluquinho.

Todo mundo on-line

A EBC quer todo mundo antenado. Comprou 80 notebooks para seus funcionários.

Bombeiro civil

O D.O. da União anuncia: criada a profissão de "bombeiro civil", em substituição aos velhos brigadistas de incêndio. Com categorias como a de bombeiro mestre, a lei dá aos brigadistas o privilégio de trabalhar 12 horas e descansar outras 36.

Muito fogo

Com os bombeiros civis, espera-se um novo filão no mercado para empresas terceirizadas.

Hostess

Rogério Fasano decidiu. Será inaugurado ano que vem em Nova York hotel da rede. Um prédio de seis andares passa por reformas e terá 70 suítes. Fica na esquina da Perry St. com Washington St.

Sem 'botton'

Segue o corte de prioridades da AGU. Depois de abandonar a ideia de instalar máquina automática de café expresso na unidade de São Paulo, o órgão revogou licitação para confecção de bottons para todas as unidades.

Batuque

Um grupo de 15 brasileiros do grupo de percussão Batalá, de Brasília, vai tocar na cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Participará nas ruas do circuito alternativo para animar os ianques com o som afro-brasileiro.

Batuque 2

O Batalá está presente em vários países. A diretora em Washington, que fundou o grupo lá, é a brasiliense Mariana Studart. Os brasileiros vão apresentar-se também no Harman Center for the Arts.

Contagem

Faltam dois dias para George Bush sair da Casa Branca.

PARA....HIHIHIHI

JOãOZINHO E SUA AVÓ!!!


Um dia na sala de aula a professora pede para que seus alunos levem no outro dia, equipamentos de primeiros socorros.
No outro dia...
- Marininha, o que você trouxe?
- Eu trouxe um esparadrapo, professora.
- E quem te deu?
- Foi minha tia.
- E o que ela disse?
- Disse que é muito bom pra fechar um curativo.
- Muito bem Mariinha.
E assim foi com todos os alunos até chegar na vez do JOÃOZINHO...
- Joãozinho, o que você trouxe?
- Eu trouxe um Balão de oxigênio, professora.
- E quem te deu?
- Foi minha avó.
- E o que ela disse?
- Devolve... Devolve...

EDITORIAL:O ESTADO DE SÃO PAULO

A verdadeira herança maldita


Seria bom se fosse verdade a notícia de que entre as medidas em estudo pelo governo Lula para ajudar o País a enfrentar a crise e reduzir seu impacto sobre a produção e o emprego está a imposição de um limite formal, estabelecido em lei, para o aumento das despesas da União com a folha de pessoal. Se houvesse esse limite, o governo contribuiria de maneira direta para estimular a produção, pois cada centavo a menos no custo do funcionalismo pode resultar em um centavo a menos de impostos que o lado real da economia precisa recolher aos cofres públicos, o que aumenta sua margem para investir já ou poupar para investir no futuro.

A limitação do aumento das despesas com o funcionalismo é tão importante que, para conquistar mais apoio ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) anunciado há dois anos, o governo a incluiu entre as medidas de estímulo à economia e enviou ao Congresso um projeto de lei a respeito. E lá ele continua, parado na Câmara. É muito difícil, portanto, acreditar que o governo do PT fará algum esforço real para colocar essa medida em prática a tempo de mitigar os efeitos da crise mundial sobre a economia brasileira.

Na questão do funcionalismo, a história dos seis anos de governo Lula é marcada não por cortes, mas por grandes aumentos de gastos e por uma gestão que, como observou o economista Roberto Macedo em seu artigo de quinta-feira no Estado, "já se marca como uma herança maldita para os governos que virão".

Por causa do crescimento constante e rápido da arrecadação, o governo não apenas abandonou o projeto encaminhado ao Congresso, que limitava o aumento da folha de pessoal à inflação do ano anterior mais 1,5%, mas baixou duas medidas provisórias que reajustam os vencimentos de 500 mil servidores e imporão gastos adicionais ao Tesouro de R$ 10 bilhões já em 2009. Os sindicalistas da área pública nunca estiveram tão satisfeitos. "Antes fazíamos greves para tentar iniciar um processo de negociação", recordou o diretor da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), Sérgio Ronaldo da Silva, em declaração ao jornal Correio Braziliense. "Hoje, eles estão instalados. Do ano passado até 2011, há R$ 48 bilhões negociados."

É isso mesmo. O governo do PT já comprometeu, em pagamentos adicionais ao funcionalismo, nada menos do que R$ 48 bilhões, que onerarão o Orçamento da União pelo menos até o primeiro ano do mandato do sucessor de Lula. Mas os dirigentes sindicais não estão inteiramente satisfeitos - "não é o ideal, mas é um bom começo", segundo o diretor do Condsef. Eles têm esperanças de que as coisas melhorem - para eles e para o funcionalismo em geral, não para o contribuinte.

Motivos, de fato, eles têm de sobra para estarem animados. Até setembro de 2008 - ou seja, em menos de seis anos -, o número de contratações do governo Lula já era 62% maior do que nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Há uma tendência de crescimento do número de contratações. Entre 2003 e 2007, segundo o Ministério do Planejamento, foi autorizada a abertura de 19 mil vagas por ano para serem preenchidas por concurso público. No ano passado, foram autorizadas 43.044 vagas.

Milhares dessas vagas foram abertas para, conforme justificativa do governo, reduzir o número de trabalhadores terceirizados - pagos pelo governo, mas funcionalmente ligados a empresas prestadoras de serviços - no setor público, prática sempre combatida pelo PT. Há alguma hipocrisia nessa justificativa. De um lado, o governo contrata servidores para reduzir a terceirização; de outro, contrata cada vez mais, e a custos crescentes, empresas fornecedoras de mão-de-obra terceirizada. De R$ 900 milhões em 2004, os gastos com essas empresas subiram para R$ 1,8 bilhão no ano passado. Além disso, o governo Lula aumentou, de R$ 74 milhões em 2004 para R$ 362 milhões em 2008, os pagamentos para pessoas jurídicas, o que também é uma forma de terceirização.

Diante de números como esses, dificilmente o contribuinte poderá levar a sério a notícia de que o governo quer conter ou limitar gastos com pessoal.

DISSERAM QUE ERA ARTE...


                                            ROMÃ COM CENOURA
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JOÃO UBALDO RIBEIRO

Sedição na ilha (2)

O GLOBO

Não sei por onde começar.

As notícias da ilha chegam de roldão, os acontecimentos se atropelam, alianças e cisões pululam em todos os cantos e não há como negar que o clima é francamente revolucionário. Amanhã, se tudo correr bem, deverei chegar por lá no fim da tarde, para juntar-me aos conspiradores liderados por Zecamunista, que passou uns dias em Itabuna se capitalizando, com a sorte habitual, numa sucessão de rodadas de pôquer milionárias e agora está ainda melhor do que no tempo do ouro de Moscou.

As reuniões, como não podia deixar de ser, são clandestinas, mas todo mundo sabe que se passam no restaurante Pandélis, do camarada Magno, que, depois do Dia da Dedada, levou uns tempos um pouco afetado da ideia e terminou por ingressar nas hostes bolcheviques. Com base no slogan "se eu tomo, todos tomam", ele vai exigir reciprocidade, quando chegar o próximo o Dia da Dedada. Os itaparicanos aceitam tomar a dedada, mas depois têm o direito de dedar os dedadores, dos quais o mais visado, que, se tivesse juízo, não pisava mais na ilha, é um grandalhão que ganhou a alcunha de Salame Atômico — não, infelizmente, em alusão a alguma iguaria, mas em brutal referência às dimensões de seu dedo funcional e a seu estilo de aplicação. "Quem tomou não esquece", me garantiu Magno. "Até hoje eu tenho cada pesadelo medonho e não suporto mais ver nem salsicha, quanto mais salame." Mas, embora conste dos pontos programáticos em debate, o Dia da Dedada Democrática não está entre os assuntos principais dos trabalhos, em que pese a discutidíssima e apoiadíssima emenda apresentada por Jacob Branco, de incluir entre os dedados um número mínimo, a ser fixado, de ocupantes de cargos eletivos.
Dizem que foi lindo, quando Jacob, declamando versos de sua própria autoria, descreveu, apesar de não abrir mão do paletó e gravata (a dedada tem que ter dignidade) o que ele, como sempre criativo, batizou de "democracia tóbica", que, como o nome indica, tem como pilar o princípio de que todos os tobas brasileiros são iguais perante a lei, em direitos e deveres, sem distinção de cor, sexo, religião e semelhantes. Se isso prevalecesse, com certeza a situação de todos iria melhorar, mas, a persistir essa de eles só no toba da gente e no deles nada da gente, um dia a casa cai.  Chegaram a criar slogans e palavras de ordem, como "e no seu não vai nada, companheiro?" e o coro ritmado de "rede-rede-rede/saia dessa rede!/nossa posição/é de costas pra parede!", mas o entusiasmo arrefeceu diante das novidades trombeteadas pelo experiente Zecamunista e do realismo do filósofo pragmático Toinho Sabacu.

Como se sabe, o que primeiro ocorreu a ele foi a criação do Bolsa Viagra, mais tarde expandido para Bolsa Créu e respectiva Cesta Créu.

Mas isso não o deixou satisfeito. Pelo contrário, só fez abrir-lhe os olhos para lacunas, que, se ignoradas pelo zelo reformador do revolucionário, podem levar ao malogro as melhores iniciativas, ou, pior ainda, distorcêlas irreparavelmente. No início, pareceu uma grande ideia, mas a interferência sábia, equilibrada e sensata de Toinho Sabacu, cidadão de juízo e conduta exemplares, por todos respeitado, inclusive por Zecamunista, pôs um cobro aos desvarios dos mais radicais. Estes, sob a liderança esbugalhada de Elk Munheca, chegaram a obter, por aclamação, a criação dos Voluntários da Pátria Amante, compostos de pessoas de boa vontade de todos os sexos, dispostas a oferecer seus corpos em sacrifício pela harmonia e justiça social. Mas a voz sensata de Sabacu serenou os ânimos exacerbados. Fez a todos ver que aquilo não era mais revolução, mas descaração mesmo. E que Elk Munheca, dessa maneira alcunhado não à toa, fosse fundar uma ONG para ele e seus muitos correligionários e fosse ongar na casa da Mãe Joana, mas não desvirtuasse um movimento que tantos benefícios trazia para a esquecida população dos despencados, objetivo, aliás, que, se ele bem lembrava, era o que vinham buscando, antes de os oportunistas e desviacionistas tentarem suas manobras.

Nesse momento Zecamunista, que quase vira sua liderança abalada por esses equívocos ideológicos, apanhou novamente o bastão de comando e secundou, com elogios polissilábicos, a posição de Sabacu. Era isso mesmo, havia que levar-se em consideração o resgate, feito pela Dra.
Margarida Angélica, desses brasileiros e brasileiras esquecidos, os despencados.
Cabia, pois, em primeiro lugar, propor nova legislação, o Estatuto do Despencado. Como definir quem está despencado, haverá somente um grau de despencamento? Não é, nem de longe, tão simples quanto o Estatuto do Idoso. Como fazer a epistemologia do Despencamento? Declarou-se uma desorientação momentânea no plenário, mas Zecamunista, como sempre, sacou um trunfo da manga: Ary de Maninha! Mas é claro, Ary de Maninha, tribuno festejado na ilha e em toda a Bahia, exemplo de amor à causa pública, um talento a serviço da vanguarda.

Ele seria autor dos estudos preliminares e, possivelmente, do anteprojeto do Estatuto do Despencado. Contactado rapidamente, aceitou a proposta e já chegou à ilha para começar a trabalhar, exigindo como paga somente sua classificação como Despencado nível DCB, ou seja, De Cima a Baixo, com direito à plenitude vitalícia de seus direitos físicos e morais.

Assim de pronto, já planeja considerar crime inafiançável e, se possível, hediondo, negar de maneira grosseira ou insensível algo pedido pelo despencado ou despencada. Por exemplo, a uma resposta tipo "se enxergue, vê lá se eu vou ficar com um gordote careca e barrigudo como você", o despencado poderá brandir o Código e revelar à ofensora a gravidade do corrido: "Viu aqui? Crime hediondo e inafiançável. Motel ou delegacia? A escolha é sua." Felizmente chego amanhã, não estarei ausente no momento em que minha terra, mais uma vez, faz História.

ELIANE CANTANHÊDE

      Lula lá, Lula cá

FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - No Brasil, Lula anuncia que retirou o aval à emenda que acaba com a reeleição, deixando a impressão de que desistiu definitivamente do terceiro mandato e a avaliação óbvia de que o alvo é o PSDB, onde a emenda acomoda os interesses de Serra e de Aécio.Lá na Venezuela, o papo é outro.
Ao fazer campanha aberta a favor dos mandatos múltiplos para Chávez, a um mês do plebiscito sobre a questão, Lula defendeu a tese de "três, quatro reeleições", como nos parlamentaristas Espanha, Alemanha e Reino Unido.
Apesar de insistir que não vai cair na tentação, Lula usou uma argumentação enviesada.
Vejamos.
Alegou que é a favor da reeleição infinita de Chávez e não da própria, pela idade: "O Chávez é novo ainda, aguenta um novo mandato. Agora eu já tô velho, vou me retirar". Como comparação: Lula tem 62 anos, Dilma, 61, e Serra, 66. Quem é "velho" para mais um mandato?
Outra argumentação: "Na hora que você tiver instituições consolidadas e tiver a liberdade política que o povo quiser, isso [reeleições sucessivas] vai acontecer". Como comparação: será que as instituições brasileiras estão menos consolidadas do que as da Venezuela? E o povo brasileiro tem menos liberdade política para decidir?
Lula, pois, continua brincando de gato e rato com a re-reeleição. Diz que não quer, mas deixa o PT tocar adiante no Congresso. Tira a emenda que possibilitaria a mudança, mas faz uma defesa pública em solo estrangeiro. Argumenta contra, recorrendo a argumentos a favor.
É assim que ele vai brincando, brincando... e sentindo a reação. Se realmente cumprir a palavra, vai de Dilma e esfrega na cara de adversários e de colunistas: "Viu, não disse?". Se colar, ele saca suas declarações pró-Chávez para alegar "coerência". E lembra: ele tem idade, as instituições estão consolidadas, e o povo tem liberdade.
É brincadeira com coisa séria.

DORA KRAMER

Positivo e operante

O ESTADO DE S PAULO

Na próxima quinta-feira na sede do PDT em Brasília o partido se despede oficialmente no chamado "bloquinho de esquerda" que desde 2007 une PDT, PSB e PCdoB. Lá, a despeito dos avisos de pedetistas tradicionais de que o partido perderia autonomia e identidade, fez-se um grupo que outra função não teve senão a de formar um "unidos avançaremos" sobre os espaços de poder na aliança com Lula e ajudar no que podia o governo no Congresso. Juntos, são mais de 80 deputados; separado, o PDT soma 24.

Foi bom enquanto interessou ao presidente. Deixou de ser tão bom assim no momento em que o bloco reivindica independência e sustenta, por exemplo, a candidatura presidencial de Ciro Gomes (PSB) e a postulação de Aldo Rebelo (PCdoB) à presidência da Câmara.

Nenhum dos dois, e por razões diversas, dá sinais de alinhamento automático à vontade do presidente Lula no processo da sucessão de 2010.

Hora, portanto, de acabar com a brincadeira e começar a organizar o reforço aos planos de Lula que serão também os do PT. O primeiro movimento foi solicitar a Carlos Lupi, ministro do Trabalho e presidente licenciado "ma non troppo" do PDT, a execução de uma nova empreitada: retirar seu partido do bloquinho e colocá-lo à disposição do projeto Dilma Rousseff ou quaisquer que sejam os projetos eleitorais do Palácio do Planalto.

Daí o entusiasmo crescente do ministro pela candidata Dilma, daí o afã de mostrar-se mais realista que o rei no combate às demissões na indústria, vendendo mercadoria que não pode entregar, como a punição de empresários e empresas que cortarem gastos com pessoal na crise.

Daí também a aguerrida e até surpreendente defesa da candidatura de Michel Temer para a presidência da Câmara em detrimento do parceiro de bloco, PCdoB, que disputa com Rebelo.

Quando souberam da movimentação, o PSB e o PCdoB começaram a articular também uma retirada, deixando a ópera assim resumida: o grupo autodenominado de esquerda entra em regime de autodissolução, passa a agir na base do cada um por si com Lula trabalhando para que todos atuem em prol de uma candidatura petista.

E assim o bloquinho que não influiu nem contribuiu enquanto viveu para a melhora ou piora dos destinos da nação dá adeus, vai-se embora e deixa uma lacuna que, da mesma forma, em nada altera a ordem das coisas.

A não ser o relevante fato de que a cerimônia de encerramento pode ser vista como o ato inaugural da operação S.O.S. PT seja feito como seu mestre mandar daqui até 2010.

Vontade do eleitor

Uma consulta entregue no final do ano por Miro Teixeira ao Tribunal Superior Eleitoral pode, dependendo da resposta, alterar o quadro de absoluta supremacia das cúpulas partidárias posto desde que o TSE e depois o Supremo Tribunal Federal decidiram que os mandatos pertencem aos partidos e não aos candidatos nem aos eleitos.

Miro pergunta, por exemplo, sobre a legitimidade da formação de blocos parlamentares no Congresso, juntando partidos que foram adversários da eleição. Ele quer saber se esse tipo de atitude se enquadra ou não naquelas hipóteses em que a mudança de partido é permitida por alteração do programa partidário.

Indaga também se é correto um partido ocupar cargos no governo daquele que foi seu oponente na eleição. Isso não trairia a vontade do eleitor e, portanto, não iria de encontro à limitação do troca-troca? É a dúvida subjacente.

Em seguida, o deputado pede ao tribunal que diga se, em caso de se configurar traição, o TSE não poderia editar uma nova resolução para assegurar que o partido – assim como o deputado ou senador – se visse impedido de mudar de posição.

A intenção do deputado é provocar a Justiça Eleitoral a delimitar a área de poder das direções dos partidos, que, no entender de Miro Teixeira, ficou irrestrito depois da decisão que deu ganho de causa às cúpulas.

Podem fazer e desfazer. Enquanto o parlamentar, ou mesmo o governador ou o prefeito, ficam obrigados a se manter filiados às legendas pelas quais foram eleitos sob pena de perda de mandatos, as direções – nem sempre eleitas, habitualmente produtos da burocracia partidária – ficam à vontade para fazer qualquer coisa, integrar quaisquer alianças, aderir a qualquer governo.

E, como demonstra o processo dos 40 acusados de participar do esquema do mensalão, cúpulas partidárias não são entidades acima de qualquer suspeita.

Armação ilimitada

Noves fora razões diplomáticas inexistentes, é de se perguntar qual a necessidade de o presidente Lula manifestar apoio às reeleições sem limites do venezuelano Hugo Chávez. Enseja suspeitas completamente dispensáveis para quem, como Lula, abomina a hipótese de continuidade.

FLEX


DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: Crise reduz em R$ 65 bi investimentos no Brasil

- Folha: Indústria paulista fecha mais de 100 mil vagas

- Estadão: Empresas e sindicatos fazem acordo à margem das centrais

- JB: Obama faz do Brasil parceiro estratégico

- Correio: Boa sorte, Obama

- Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

- Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

sábado, janeiro 17, 2009

RUY FABIANO

O terrorista é nosso

BLOG DO NOBLAT

Nos anos 80 do século passado, a diplomacia brasileira comprava uma briga bizarra com a inglesa em torno de um personagem que estava longe de justificá-la: Ronald Biggs, foragido depois de assaltar, em 1963, um trem do correio inglês, que recolhia depósitos de bancos da Escócia e os levava para Londres.

Roubou 631 mil e 784 libras esterlinas em notas miúdas - o equivalente hoje a cerca de 220 milhões de reais. Era o maior assalto naqueles moldes já havido.

Biggs teve melhor sorte que seus comparsas e conseguiu fugir da prisão para o Brasil, depois de passar pela Austrália e Panamá, alojando-se no Rio de Janeiro, em 1970, com a parte que conseguiu salvar do assalto (e que nunca se soube quanto era).

Desfrutava de uma rotina discreta de bon vivant, freqüentando boates e moças da rua Prado Junior, em Copacabana. Quando descoberto, no final dos anos 70, tratou de ter um filho com uma delas, a dançarina Raimunda de Castro, para garantir direitos de cidadania brasileira. E, espantosamente, conseguiu.

Não obstante o empenho do governo britânico, o Itamaraty esmerou-se em preservá-lo. Biggs acabou preso por conta própria: acreditou num acordo com a polícia inglesa, que, em troca de sua entrega, prometia libertá-lo em curto prazo. Não foi assim. Entregou-se e cumpre hoje pena de prisão perpétua na prisão de Belmarsh, de segurança máxima, em Londres.

Na Inglaterra, ao contrário do Brasil, os crimes não prescrevem. Seu filho brasileiro, Michael Biggs, famoso por integrar nos anos 80 a banda infantil Turma do Balão Mágico, da TV Globo, sustenta que ele é prisioneiro político e tenta, em vão, sensibilizar os tribunais europeus de direitos humanos para a situação do pai, que, depois de preso, e hoje com 80 anos, já teve três derrames.

Não há, porém, nos tribunais europeus um Tarso Genro. Se houvesse, é provável que Biggs, a esta altura, já estivesse solto, escrevendo suas memórias. Tarso, como se sabe, acaba de considerar perseguido político – e em decorrência, a lhe conceder asilo – o terrorista italiano Cesare Battisti, de 54 anos.

Battisti foi condenado a prisão perpétua em seu país por nada menos que quatro assassinatos, quando liderava um grupo terrorista denominado Proletários Armados pelo Comunismo (PAC).

Nada atenua os seus crimes. O seu país não vivia em regime de exceção, o que, em tese, poderia justificar o recurso à ação armada. Vivia, como ainda vive, em pleno Estado democrático de Direito. Foi julgado, portanto, segundo o processo democrático, e considerado terrorista. Pela Constituição brasileira (artigo 5º, incisos XLIII e XLIV), terrorismo, como a tortura, é definido como “ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático”. É, nesses termos, crime hediondo, “inafiançável e imprescritível”, e “insuscetível de graça ou anistia”. O ministro ignorou, portanto, a Constituição.

Mais: o Brasil mantém acordo de extradição com a Itália, que, com base nele, reclama o terrorista. O Estado brasileiro, antes do inusitado gesto do ministro da Justiça, Tarso Genro, manifestara-se, como não poderia deixar de ser, favoravelmente à extradição.

O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão do próprio Ministério da Justiça, e integrado por representantes do Itamaraty e da Polícia Federal, negou asilo ao prisioneiro. Tarso passou por cima disso, e do Supremo Tribunal Federal (a quem, segundo os especialistas, deveria caber a palavra final), e da Constituição, e considerou o terrorista e homicida “refugiado político”.

Além de semear perplexidade em seu redor – ele, que, paradoxalmente, quer rever a Lei de Anistia para condenar crimes contra a humanidade -, gerou um conflito diplomático absolutamente desnecessário com a Itália. Conflito constrangedor, pois não há razões morais e jurídicas a respaldar a decisão brasileira.

É interessante que o mesmo ministro, que invoca agora razões humanitárias, tenha negado asilo a dois boxeadores cubanos que, em 2007, após o Panamericano, no Rio, pediram para refugiar-se no Brasil, temendo perseguições em Cuba. O governo brasileiro, Tarso Genro à frente, devolveu-os a Fidel Castro, que os encarcerou.

Para que defendê-los? Eram atletas – e ao Brasil só interessam bandidos e terroristas, como Biggs e Battisti, embalados por seus defensores numa aura romântica de heróis contemporâneos. Desistam, italianos: o terrorista é nosso!


Ruy Fabiano é jornalista

DORA KRAMER

No modo empírico

O ESTADO DE S PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva já deu a resposta às autoridades italianas que manifestaram intenção de pedir a ele que reveja a extradição de Cesare Battisti: é não. Segundo ele, trata-se de uma questão de soberania nacional. Lula pede respeito à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, em mais uma demonstração da sua (de ambos) capacidade de escrever errado por linhas tortas.

A soberania do Estado brasileiro não esteve em destaque quando os pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara deixaram a comitiva do Pan-Americano, no ano passado, em busca de asilo.Ali se despacharam os esportistas para atender de pronto à ditadura amiga, desconsideraram-se as óbvias circunstâncias e montou-se uma ficção – com a gentil colaboração da miopia nacional – segundo a qual os atletas estavam desorientados, mas loucos para voltar a Havana. Onde os aguardavam as respectivas famílias, reféns do regime, e a interrupção das carreiras a título de punição exemplar.

Aqui, no caso do italiano, simplesmente se ignoraram as posições de instância consultiva do próprio Ministério da Justiça (o Conselho Nacional de Refugiados), do procurador-geral da República, do Itamaraty e se houve por bem interferir no processo judicial italiano.

O presidente da República põe a autonomia do Estado brasileiro na roda por causa de uma questão de cunho ideológico. Pede respeito à decisão de Tarso Genro, mas desrespeita as posições do procurador, do Conare e do Ministério das Relações Exteriores, quando menospreza o contraditório e diz que o ato foi uma "decisão do país".

As instâncias contrárias, ao que se sabe, fazem parte do país. São todas constitucionalmente legítimas, não se pode acusá-las de intromissão indevida nem se deve deixar de considerar a hipótese de que tenham embasado suas posições no processo, na diplomacia, na legislação nacional e internacional e, sobretudo, no bom senso.

A extradição, portanto, não foi uma sentença decretada pelo "Brasil". Foi uma atitude de caráter particular, produto de um modo de pensar. Respeitável, embora não representativo da soberania nacional, muito menos adequado do regime democrático, por autocrático.

A se aceitar a alegação do presidente, chega-se à conclusão de que o Ministério Público, a Chancelaria e o órgão auxiliar do Ministério da Justiça para assuntos afins não se aliam aos preceitos da autoridade moral do Brasil. E para raciocinar por hipótese, em situação de semelhante agressão à soberania estará o Supremo Tribunal Federal, se porventura vier a acatar o recurso do governo italiano.

Tal possibilidade, entretanto, por ora é mera suposição. De concreto, o que se tem é, de um lado, o peso de instituições abalizadas e desapaixonadas e, de outro, o presidente de novo exercendo o hábito de decidir de ouvido.

Segundo consta, Lula não sabia nada sobre o caso até o mês passado e foi convencido pelo ministro da Justiça e pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari de que a extradição obedeceria à tradição brasileira.

Tal relato poderia não ser digno de confiança, mas não são boatos porque combinam perfeitamente com as declarações do presidente a respeito. De acordo com Lula, a decisão se justifica porque o "Brasil é um país generoso" e Cesare Battisti foi condenado "por um crime antigo". Além disso, "passado tanto tempo ele é outra pessoa, é um escritor".

Ademais, pondera, a França concedeu asilo a outro acusado "das mesmas coisas". O presidente Lula não tem, e expõe a evidência, nada mais que uma leve impressão sobre o assunto. Repete de forma superficial o que ouviu de um lado e se abstém de cotejar todas as informações ou ao menos de perguntar ao procurador-geral, ao ministro das Relações Exteriores a razão de seus votos contrários à extradição.

A intuição é um excelente atributo, o empirismo funciona, mas a ausência de conhecimento e de curiosidade em geral induz ao equívoco. Não necessariamente em relação ao conteúdo, mas no tocante à abordagem de um tema quando assume o caráter de polêmica.

É de se esperar que o presidente da República nessas ocasiões esteja preparado para debater em patamar mais elevado e condizente com a soberania nacional.

Quanto pior

No discurso, o DEM e parte do PSDB apoiam a candidatura de José Sarney para a presidência do Senado por respeito ao princípio da proporcionalidade, já que o PMDB é a maior bancada da Casa.

À vera, porém, apoiam porque é o caminho mais curto para o atrito irremediável entre o PT e o PMDB. Experientes do tema, tucanos e ex-pefelistas, hoje democratas, sabem o custo presumido desse tipo de conflito.

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Com o delegado Protógenes Queiroz na chefia de inquéritos, o advogado de defesa é quase um acessório dada sua inesgotável capacidade de abrir brechas para anulação de provas.

LAURO JARDIM

REVISTA VEJA

Panorama
Radar

Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br


• Televisão

Record bate Globo e compra Pan de 2015
Na quinta-feira passada, ocorreu mais um embate feroz entre a Globo e a Record na Cidade do México. A vencedora foi a emissora do bispo Edir Macedo. Por cerca de 20 milhões de reais, a Record comprou os direitos de transmissão para o Brasil e para o mundo dos Jogos Pan-Americanos de 2015, cuja cidade-sede ainda não foi definida. Adquiriu os direitos não só para a televisão, mas para todas as mídias. É a quarta vez consecutiva que a Record bate a Globo numa disputa olímpica: venceu também a briga para transmitir os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, o Pan de 2011 e a Olimpíada de Londres, em 2012.

 

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O conciliador Aécio: ele acha 
que a capacidade de atrair opostos pode ajudar


A estratégia de pré-campanha de Aécio Neves para 2010 não se resumirá a viagens por todos os estados brasileiros entre março e outubro. Aécio não quer debater soluções para o país de mãos vazias. Para isso, encomendou propostas a alguns economistas ligados à Casa das Garças (um centro de pensamento econômico sediado no Rio de Janeiro, fortemente ancorado na turma da PUC-RJ). Aécio quer escolher quatro temas-chave, botá-los debaixo do braço e rodar o país discutindo-os. Seria uma espécie de carta de intenções. Ele tem dito a interlo-cutores mais próximos que um apelo poderoso de sua imagem como político é a conciliação. Algo que não é próprio nem de José Serra nem de Dilma Rousseff. Seria o perfil político mais adequado a um momento de crise econômica.

 

• Eleições 2010

Marta e Dilma
Marta Suplicy tinha planos de ficar na muda neste semestre. Mudou de ideia. Resolveu oferecer em sua casa um jantar de apoio a Dilma Rousseff no dia 13 para tentar espantar os rumores de que não está contente com a escolha de Lula para 2010.

 

 

Beto Barata/AE
O consultor
Dirceu: temporada de dois meses de estudos em Nova York

• PT

Sala de aula
O ex-líder estudantil José Dirceu voltou a estudar. Desta vez, inglês. Desde o início de janeiro, Dirceu está em Nova York, matriculado em um curso intensivo para afiar o seu inglês. É colega de escola do ator Lázaro Ramos. A temporada nova-iorquina de Dirceu, que alugou um apartamento no Upper West Side, termina no fim de fevereiro.

 

• Câmara

Prêmio de consolação
Os aliados de José Sarney na disputa pela presidência do Senado começam a se articular para que o petista Tião Viana fique com o cargo de líder do governo no Congresso – em substituição a Roseana Sarney. Sai Sarney, entra Sarney...

Com a bênção de Lula
A propósito da eleição para a presidência do Senado e da conversa que José Sarney e Lula terão nos próximos dias sobre o assunto, o senador Cristovam Buarque observa: "Esse processo me dá vergonha. Sinto-me como no tempo dos militares, em que o presidente do Senado é escolhido pelo Palácio do Planalto. Que democracia é essa?".

 

• Cerveja

A número 1 de lá
Portugal é testemunha de uma "guerra" que o brasileiro já viu muitas vezes: a das cervejas. A Sagres acaba de destronar a Super Bock, tornando-se a número 1 no país, depois de vinte anos na vice-liderança. A artilharia da guerra de lá veio do publicitário Eduardo Fischer, que detém a conta da Sagres e participou de todas as guerras de cervejas no Brasil.

 

• Cinema

Nossa Hollywood
Depois de virar um filão dos cineastas brasileiros, com Cidade de Deus, Tropa de Elite, Ônibus 174 e tantos outros, a violência no Rio de Janeiro torna-se agora tema de um diretor estrangeiro. Jon Blair, vencedor do Oscar de melhor documentário em 1995, acaba de concluir um filme sobre o faroeste carioca. O documentário recebeu o nome provisório deDancing with the Devil in the City of God (Dançando com o Diabo na Cidade de Deus) e mostra a vida de dois dos dez traficantes mais procurados do Rio de Janeiro, que abrem sua casa, mostram sua família e os territórios que dominam.

 

• Turismo

Dólar bem-vindo

Oscar Cabral
De bolsos abertos
Os turistas estrangeiros quase triplicaram seus gastos em cinco anos

O Banco Central anuncia nos próximos dias que 2008 fechou com um ingresso recorde de dólares trazidos pelos turistas estrangeiros. Eles gastaram 5,7 bilhões de dólares por aqui – 26% a mais do que os 4,5 bilhões de dólares de 2007 e quase o triplo do registrado em 2003. O número de turistas, contudo, permanece inalterado: 5,2 milhões em 2008, na maior parte americanos.

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

J.R. Guzzo 
Opção inválida

"O problema real não é o estado brasileiro ser
forte ou fraco; o problema é que ele não existe"

Está de novo no ar a discussão em torno da necessidade de estabelecer um "estado forte" no Brasil. O estímulo para o debate, desta vez, é a crise econômica, que turbinou os amigos do "estado forte" pelo mundo afora – eis aí, argumentam eles, a prova de que os governos têm de mandar muito mais do que mandam, para não deixar que problemas tão sérios assim continuem ocorrendo. Os mais esperançosos chegam a imaginar, até, que existe em toda essa história uma demonstração de que o capitalismo, afinal, ainda pode ser derrotado em algum momento do século XXI, após 200 anos de tentativas malsucedidas para acabar com ele. Os menos ambiciosos se contentam com uma situação em que a liberdade econômica é tolerada, mas na qual sempre caberá ao governo dar a palavra final (e a inicial, também) em tudo o que julgar de alguma importância.

Não é por falta de torcedores que o Brasil não desfruta, neste momento, os benefícios do "estado forte". No governo, por exemplo, todo mundo é a favor – e mesmo quem não pensa muito no assunto diz que é, se por acaso alguém perguntar. Os dois nomes mais citados para a eleição presidencial de 2010, a ministra Dilma Rousseff e seu principal adversário, o governador de São Paulo, José Serra, são tidos como grandes amigos do "estado forte". Na verdade, o difícil hoje em dia é achar quem pense diferente – na política em geral, nos meios universitários, nas associações de empresários, nos órgãos de comunicação, nos sindicatos e por aí afora. (Muita gente, é claro, não está nessa discussão a passeio. As empreiteiras de obras públicas, por exemplo, estão sempre entre as mais entusiasmadas admiradoras do "estado forte" neste país.)

A dificuldade de tirar algum proveito efetivo dos discursos sobre o assunto está no seu ponto de partida. O problema real não é o estado brasileiro ser forte ou fraco; o problema é que ele não existe. Não existe em grande parte do território nacional, nem nas realidades práticas da vida diária de milhões de cidadãos brasileiros. Para que ficar pregando as virtudes de um poder público mais forte se ele não é capaz, hoje, de exercer um mínimo de autoridade em questões em que tem obrigação de estar presente? Todo mundo, numa conversa a sério, sabe perfeitamente bem que não se chega a lugar nenhum sem haver, no início de tudo, o entendimento de que as leis e as regras só valem alguma coisa se a maioria dos cidadãos acreditar que elas serão realmente aplicadas – o tempo todo, da mesma forma e para todas as pessoas. É aí que começa, no Brasil, a complicação com o "estado forte". Que motivo alguém teria, por exemplo, para acreditar em certidões produzidas por cartórios de registro de imóveis no interior do Pará? Órgãos do próprio governo, aliás, são os primeiros a não acreditar nelas. Não se acredita, no fundo, na maior parte da documentação fundiária da Amazônia como um todo – e a Amazônia cobre 60% do território brasileiro. O governo manda tanto, nessa questão, quanto manda nos anéis de Saturno.

A inexistência do estado, ali, vai muito além de problemas imobiliários. Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo informou que um minério radioativo de exploração ilegal, a torianita, é extraído e contrabandeado livremente no Amapá há quase um ano; a Polícia Federal sabe disso, mas não pode fazer apreensões porque não tem onde guardar o material que for apreendido. A PF quer que a Comissão Nacional de Energia Nuclear cuide dessa torianita; a comissão não quer cuidar – nem ela nem a Polícia Militar Ambiental do Amapá. A PF entrou com uma ação contra a CNEN na Justiça, para obrigá-la a retirar do local o minério que já tinha capturado antes de suspender suas operações. Ganhou, mas o problema está longe de ser resolvido. A CNEN não quer fazer novas retiradas de material, por achar que isso não é obrigação sua, e a PF entrou com uma segunda ação judicial contra ela, ora em andamento. O contrabando continua.

O estado brasileiro não tem força para dar escrituras a milhões de moradores de favelas; o direito de propriedade, para eles, tem de ser assegurado a bala. Não consegue ampliar as pistas do aeroporto de Porto Alegre, por ser incapaz de remover a favela que deixou criar nas suas cabeceiras, nem fazer com que trens de carga andem a mais de 2 quilômetros por hora em áreas que foram invadidas junto aos trilhos, quando o estado era dono dos trens, dos trilhos e das áreas. Não controla nem as obras do PAC, bombardeadas por liminares, ONGs e guerras entre os seus próprios funcionários. Estado forte?

No Brasil de hoje, opção inválida.

ANDRÉ PETRY

REVISTA VEJA

André Petry colunadopetry@abril.com.br
O mal do umbigo

"Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo"

Quando o professor Jorge Guimarães, presidente da Capes, a entidade que mais distribui bolsas no exterior, disse que não se devia mais investir no estudo de economia lá fora, o mundo acadêmico deveria ter desabado. A frase exata, dita em entrevista ao jornal O Globo: "Vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo? Esse modelo se mostrou totalmente anticientífico, para dizer o mínimo". Como se sabe, os acadêmicos não reagiram à enormidade do professor. Ficou subentendida a aceitação da ideia de que estudo não é aprendizado, mas doutrinação, sendo inútil estudar solução com quem cria problemas.

Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo. Tem cura, mas é contagiosa e pode matar a inteligência. O Institute of International Education, dos Estados Unidos, informou que nunca houve tantos estrangeiros nas universidades americanas. São 620 000. O país que mais despacha estudantes para lá é a Índia, pelo sétimo ano consecutivo. São 94 000 indianos. Pode-se dizer que o domínio do inglês favorece a presença dos indianos nos EUA, mas o segundo país é a China, com 81 000.

Para fechar a lista dos campeões na era dos Brics, seria natural que, depois de Índia e China, viessem Brasil e Rússia. A Rússia não aparece. Talvez julgue lhe bastar sua Academia de Ciências, um dos maiores centros mundiais de produção científica. E o Brasil também não. O terceiro país é a Coreia do Sul, com 70 000 estudantes. Depois, vêm Japão, Canadá, Taiwan, México, Turquia, Arábia Saudita e, completando os dez-mais, Tailândia. No segundo bloco, Nepal, Alemanha, Vietnã, Inglaterra, Hong Kong, Indonésia e – enfim! – Brasil, com 7 500 estudantes, apenas um pouco mais do que a Colômbia.

O número raquítico explica, em parte, o papelão brasileiro nas ciências. A produção brasileira, medida pelo número de artigos publicados nas 
10 000 revistas científicas mais renomadas do mundo, vem crescendo, mas não é compatível com o PIB. Disputamos o 15º lugar com Suécia, Suíça, Taiwan e Turquia. Pior que isso é o número de patentes registradas, um indicador do nível de inventividade. Também tem aumentado, mas é desanimador. Conforme dados da ONU, o Brasil registrou 585 patentes em 2006. Para ficar nos Brics, a China cresce em ritmo fabuloso. A Rússia registrou quase 20 000. A Índia, 2 300. E o Brasil, 585. Rivalizamos com a Romênia, o ex-charco de Ceausescu.

Para chegar ao que julga ser seu destino manifesto de potência, o Brasil precisa aprender a olhar para além do próprio umbigo, sem preconceito. Em sua entrevista, o professor Guimarães só reforçou o preconceito. E deixou uma dúvida. Ele anunciou mais investimentos para bolsas de estudo nas áreas de oceanografia e bioenergia. Mas os países ricos não são os que mais poluem os oceanos e os maiores culpados pelo aquecimento global? Vamos formar doutores nesse modelo falido...?

CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA

Claudio de Moura Castro
Educação em áreas conflagradas

"É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola"

Atômica Studio


A ciência tomou corpo quando se descobriu ser mais fácil entender o mundo classificando o que se quer estudar. Aristóteles deu a partida. Muito depois, Lineu pôs ordem na biologia, separando os bichos e as plantas ("Esse de seis perninhas vai com o outro, também com seis"). Assim agrupados, fica mais fácil estudá-los e encontrar-lhes outros traços comuns. Para E. Junger, a razão encontra a sua suprema metáfora na classificação das espécies da flora. Classificamos até em um campo desconjuntado como a educação. Para entender os avanços e atoleiros do nosso ensino, proponho repensar as classificações costumeiras. Consideremos as escolas como pertencendo a três categorias. Há as escolas dos grotões, há as escolas das cidades médias e pequenas e, finalmente, há as escolas conflagradas das periferias urbanas e favelas. (Abandonamos aqui as grandes capitais, pois não percebemos generalizações relevantes.)

Os grotões vivem no círculo vicioso da pobreza. A seu favor, são mundos fechados e estáveis, onde cada um é cada um. Mas, na maioria deles, as vantagens da educação não são percebidas. Como consequência, o ensino é ruim e poucos se importam com isso. A depender da sua própria dinâmica, nada vai mudar. Porém, com um bom empurrão de fora, transformações são possíveis. As cidades pequenas e médias vivem em um equilíbrio instável, do ponto de vista da educação. As que são dinâmicas, e estão onde o prefeito acredita em escola, têm tudo de que precisam para progredir. Com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), sabe-se onde elas estão. Aos poucos, as mais inquietas vão aprendendo os caminhos. Em um bom número delas há avanços consideráveis. Algumas tomaram as rédeas nos dentes e dispararam. Passaram na frente das capitais, mais ricas e com mais tradição. E isso aconteceu em todos os níveis. Em São Paulo, até os pesquisadores já publicam mais no interior do que na capital.

Finalmente, temos as favelas e periferias das grandes capitais. Esse é o enguiço mais sério. Não lhes faltam recursos nem atenção. Contudo, estão travadas e perdendo espaço para as cidades menores. Por exemplo, dos 645 municípios do estado, a cidade de São Paulo está no 565º lugar no Ideb. O nó da questão é que são regiões conflagradas. A comunidade local teve seu tecido social dilacerado pelo crescimento atabalhoado ou foi invadida por vagas de imigrantes que não conseguiram se integrar na enorme confusão das periferias. Algumas são como praças de guerra, por seus problemas de insegurança, criminalidade, desemprego, pobreza e desintegração familiar. Nesses casos, faz sentido lembrar a hierarquia do psicólogo Abraham Harold Maslow. Para ele, as pessoas só se fixam em certos objetivos pessoais depois que outros mais importantes já foram resolvidos. Insegurança física, desemprego e condições precárias de vida vêm antes de educação. Sem que essas questões sejam minimamente atendidas, pouquíssimos darão atenção ao ensino.

Portanto, a não ser que se "pacifiquem" essas periferias, estão fadadas ao insucesso as tentativas heroicas dos secretários de Educação de nelas agir. São outras as prioridades, tais como sobreviver às guerras de gangues do narcotráfico. Isso tudo nos leva à necessidade de políticas educativas diferentes para elas. É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola. A tarefa ultrapassa o alcance das secretarias de Educação. Porém, requer uma ação minimamente coordenada com elas. Polícia, assistência social, saúde e políticas de emprego têm de entrar em cena e agir de forma articulada. Há boas experiências no Brasil e devemos aprender com elas. Mas citemos um caso com grande visibilidade: Medellín, na Colômbia. A cidade chamava atenção pela virulência das guerras do narcotráfico (vi soldados empunhando fuzil nas varandas da escola). Mas foi pacificada por um bom prefeito.

Em conclusão, alguns pensam que os grotões podem esperar. Mas, se for para consertar, é possível. Entre as cidades pequenas e médias, as mais dinâmicas começam a se mover. Nas outras, é cutucar os prefeitos lentos e recalcitrantes com respeito à educação. Nas praças de guerra das periferias, só educação não resolve. Ou entramos com programas mais abrangentes, ou nada vai acontecer – além de se repetirem as explosões costumeiras.

"PRÁSTICA"


SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: EUA socorrem bancos mas ações continuam em queda

- Folha: Maior banco dos EUA recebe ajuda de US$ 117 bilhões

- Estadão: Crise bancária se agrava nos EUA

- JB: Esperança de cessar-fogo

- Correio: Força-tarefa para regularizar lotes

- Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

- Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

- Jornal do Commercio: Dia de transtornos

sexta-feira, janeiro 16, 2009

"OPERASSÃO PRÁSTICA"


ELIANE CANTANHÊDE

Como em Gaza, mas resistindo


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

A guerrinha PT versus PSDB corre solta, mas onde ela é mais escancarada é na política externa, onde ex-chanceleres e embaixadores tucanos arrancam as penas criticando o atual ministro, Celso Amorim -que nunca teve nada de petista, diga-se de passagem, mas é acusado de transformar o Itamaraty numa espécie de bunker dos resquícios esquerdistas do PT.
Luiz Felipe Lampreia já tinha dito que as gestões de Amorim no Oriente Médio "beiravam o ridículo". Celso Lafer acrescentou que são "uma forçação de barra que não faz nenhum sentido". Estava faltando o ex-embaixador em Londres e em Washington Rubens Barbosa.
Não falta mais.
Ao saber que Amorim iria visitar Síria, Israel e cia. -de onde voltou na madrugada de ontem-, Barbosa ironizou na base do "agora vai": "Fiquei animado, porque até aqui nem o Sarkozy, nem o presidente da União Europeia, nem a ONU tinham conseguido demover Israel e os palestinos".
Para Barbosa, as ações e declarações do PT e do governo, e não só de Amorim, são o que vem chamando de "ideologização e partidarização da política externa". E provoca: "Só falta agora, para complementar os esforços da política externa, a ação do MST em manifestações pró-Hamas... (a exemplo do que dizem que vão fazer no Paraguai)".
Ao se desabalar para a região em guerra, Amorim fez apenas uma coisa, na opinião de Barbosa: "Cumpriu sua parte na política externa do PT". E lá vem mais ironia: "O Brasil do PT não consegue neutralidade e liderança nem para resolver a questão das "papeleras" entre Argentina e Uruguai...".
Coitado do Amorim, que parece a faixa de Gaza de tão cercado por todos os lados: atacado pelos inimigos e sujeito ao fogo amigo do PT e do próprio governo -um agride Israel com referências ao nazismo, o outro, numa canetada, concede asilo a condenado italiano exigido pelo governo Berlusconi. Tarso Genro cria a crise, o Itamaraty que se vire.

COLUNA PAINEL

Ideologia italiana


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

Acusado pelo governo da Itália de ter apelado ao ideário de esquerda na negativa à extradição de Cesare Battisti, o Brasil ressalta em relatório de 56 páginas encaminhado ao Senado, em novembro, "que os dados evidenciam com clareza o fortalecimento da ideologia de direita junto à sociedade italiana".
O documento, assinado pelo Ministério das Relações Exteriores, traça um panorama político e econômico da Itália e diz que o discurso de direita busca hoje todo o país, o que se evidenciaria pela votação que elegeu em abril Silvio Berlusconi. O texto embasa a indicação do ex-ministro José Viegas para a embaixada brasileira em Roma, ainda pendente de votação.

Meio a meio
Na sua última reunião, em dezembro, a Executiva Nacional do PT discutiu brevemente o caso do italiano Cesare Battisti, mas evitou tirar uma posição. Os membros se dividiram entre os favoráveis ao asilo político e os que argumentaram que não tinham opinião formada. Parte do PT avalia que não é assunto no qual o partido deva se intrometer. 

A favorita
O ministro Marcio Fortes (Cidades) foi escalado para ser estrela do aniversário de 176 anos de Nova Iguaçu (RJ), inaugurando obras do PAC destinadas a urbanização de favelas, cujo investimento da União é de R$ 326 milhões. Em 2008, só a pasta das Cidades desembolsou R$ 29,6 milhões para obras no município de Lindberg Farias (PT). 

Terceiro turno
Neoaliados em Salvador, ACM Neto (DEM) e Geddel Vieira Lima (PMDB) travam uma disputa para controlar a Câmara Municipal. Os "demos" querem emplacar Paulo Magalhães Jr. na presidência da Casa em troca de apoio a Geddel para indicar a chefia da União dos Municípios da Bahia. O PMDB do ministro, entretanto, quer as duas cadeiras. 

Warm-up
A tradicional lavagem do Bonfim, ontem, foi marcada pela corrida para ver quem chegava primeiro entre as comitivas do governador Jaques Wagner (PT) e a dos "demos" ACM Neto e José Carlos Aleluia, deputados, e Paulo Souto, ex-governador.

Acelerador
A pedido do Palácio do Planalto, o Ministério da Previdência corre contra o tempo para antecipar de março para fevereiro a concessão em 30 minutos do salário-maternidade e da aposentadoria por tempo de contribuição -hoje o benefício em meia hora é possível para a aposentadoria por idade. 

Palanque
A antecipação daria a Lula a oportunidade de anunciar as medidas em em São Paulo, no dia 27, quando haverá comemoração dos 86 anos da Previdência Social. 

Boquinha
Um dos personagens centrais do escândalo do Detran gaúcho, Cezar Busatto (PPS) ganhou emprego no primeiro escalão da Prefeitura de Canoas, comandada por Jairo Jorge (PT), afilhado do ministro Tarso Genro. O PT divulgou nota atacando Busatto, que integrava a equipe da tucana Yeda Crusius. 

Infiéis
Pesquisa elaborada pelo Cepam (Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal), ligado à Secretaria de Planejamento do governo paulista, aponta que 69,3% dos prefeitos eleitos no Estado disseram já ter migrado de partido. 

Bolsa
Saiu ontem no "Diário Oficial" nova fornada de anistiados políticos do regime militar. Entre os 52 agraciados, está o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (PT), que receberá R$ 267 mil, mais pensão mensal de R$ 2.000. 

Visita à Folha
Solange Paiva Vieira, diretora-presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), visitou ontem a Folha. Estava acompanhada de Paulo Henrique de Noronha, chefe de Comunicação Social.

Tiroteio

"O senador Mario Couto não vê as obras porque prefere os ambientes chiques de Brasília à periferia de Belém"


Da governadora 
ANA JÚLIA CAREPA (PT-PA), em resposta às críticas do senador Mario Couto (PSDB), para quem, apesar do repasse de verbas da União, "não há obras de infraestrutura" executadas pelo governo paraense para abrigar o Fórum Social Mundial.

Contraponto

Replay

Momentos antes de começar anteontem uma entrevista ao locutor Luciano do Valle, da Band, o presidente Lula apontou para a funcionária da Presidência Sandra Dorman, que trabalha na área administrativa do Palácio do Planalto e ajudava nos preparativos para a gravação.
-Luciano, ela é tia do Kaká!-, disse, sobre o jogador da seleção brasileira.
O locutor espantou-se e perguntou se era verdade. O presidente respondeu que sim:
-Inclusive várias daquelas coisas incríveis que você vê o Kaká fazendo com a bola, na TV, fui eu que mostrei para a Sandra, que depois explicou para ele...

DORA KRAMER

Na presença da adversidade


O Estado de S. Paulo - 16/01/2009
 

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br

Enquanto o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, com seu linguajar pitoresco e raciocínio manhoso, estiver na linha de frente da “defesa do trabalhador” e do ataque aos “patrões”, a cena fica entendida como simples performance sindicaliza.

Ruim, mas sem maior consequência. Demagógica, oca, mas em conformidade com o perfil do personagem escalado, na condição de presidente do PDT, para representar o partido na coalizão de apoio ao presidente Luiz Inácio da Silva.

Partido fundado por Leonel Brizola, o PDT é também a legenda de origem do senador Cristovam Buarque, que retornou a ela depois de anos no PT, de onde saiu por divergência de procedimentos e depois de uma passagem pelo Ministério da Educação.

O que faz Cristovam Buarque nessa história que começa com as bravatas de Carlos Lupi e logo concluirá pela inadequação de o presidente da República abrir espaço ao sindicalista nele mais ou menos adormecido?

Nos idos dos 90, ainda governador petista do Distrito Federal, Cristovam era das poucas vozes do PT a alertar para a necessidade de o partido abandonar a lógica da reivindicação, deixar de lado a defesa corporativista impressa em seu DNA sindicalista e abraçar causas que dissessem respeito à sociedade inteira.

Só dessa forma, argumentava Cristovam, o partido poderia se preparar para um dia realmente disputar a sério o poder e, no caso de vitória, administrar o País com todos os seus desafios.

Enquanto olhasse apenas para a “mesa de negociações” entre patrões e empregados onde Lula forjara suas habilidades políticas, seria parte sem a indispensável noção do todo.

Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, não ouviria as ponderações do filiado. A prepotência adquirida no cargo não lhe permitiria enxergar que não é ministro dos sindicatos.

É ministro do País que não precisa de ameaças vãs de punição ao setor produtivo, mas daquela visão ampla que desde há muito prega o hoje senador Cristovam Buarque, para enfrentar a crise, encarar as agruras da impossibilidade de atender a todos os interesses quando o cobertor encurta e a situação requer espírito público. No sentido coletivo do termo. 

Querer e poder

No caso das disputas dentro do Congresso, as querências dos presidentes da República não necessariamente correspondem às poderências.

Lula “tranquilizou” Michel Temer dizendo que o melhor cenário para ele é o PMDB na presidência da Câmara e o PT, com Tião Viana, na do Senado.

Nessa altura do segundo mandato de Fernando Henrique ele também tranquilizava sua base dizendo que o quadro mais confortável para o Planalto seria Jader Barbalho na presidência do Senado e Inocêncio Oliveira na da Câmara.

Jader foi eleito, renunciou em meio a denúncias. Inocêncio foi abalroado pela candidatura (vitoriosa) do tucano Aécio Neves.

A partir daí, as relações entre os três principais partidos da aliança - PSDB, PFL e PMDB - nunca mais foram as mesmas, com consequência direta sobre a eleição presidencial de 2002. 

Mal comparado

O ministro da Justiça, Tarso Genro, não enxerga por que não quer a diferença entre asilos políticos concedidos pelo Brasil a chefes de Estado apeados do poder e a recusa de extradição ao italiano Cesare Battisti.

Battisti foi condenado por homicídio pela Justiça de um País cujas instituições funcionam à normalidade. O ministro tem a prerrogativa de tomar a decisão que tomou, mas não dispõe de salvo-conduto para distorcer os fatos sem contestação.

Os atletas cubanos entregues a Havana quando tentaram refúgio no Brasil logo após os jogos panamericanos para atender ao governo de Cuba também foram, ao inverso, objeto dessa adaptação autocrática da realidade à posição ideológica de determinado grupo.

Naquele caso a conta foi paga pelos atletas, banidos do esporte, pois o Estado atendido deu-se por satisfeito e a reação no Brasil diluiu-se na geleia da benevolência geral para com a ditadura de Fidel Castro.

Nesse episódio de Battisti, ao se imiscuir em decisão do Judiciário italiano, o Brasil pode ter contratado um grave atrito diplomático sem dispor da estatura política e da sustentação legal suficientes para enfrentar. 

Tratou uma ditadura como democracia, agora atuou no modo vice-versa e terá necessariamente de se valer do nem sempre prestigiado Itamaraty para desatar o poderoso nó.

Os pedidos de recuo, feitos diretamente ao presidente Lula, tendem a ser inúteis, pois Tarso Genro submeteu a decisão a ele antes de divulgá-la certamente garantindo que não haveria obstáculos. Ou Lula teria medido as consequências.

É um bom exemplo de como nem sempre é bom o governante agir na confiança da avaliação alheia e formar juízo a partir do próprio discernimento. Obtido mediante o conhecimento dos fatos por meio, entre outros meios, da leitura dos dados em jogo.

SEXTA NOS JORNAIS


- Globo: Israel faz 110 ataques e atinge ONU, jornalistas e um hospital

- Folha: Israel ataca prédio da ONU e hospital

- Estadão:Israel mata líder do Hamas; prédio da ONU é atingido

- JB: Montadoras do Rio dão férias coletivas

- Correio: Como é caro manter os filhos na escola

- Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

- Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

- Estado de Minas: A BH que abre vagas, investe e desafia a crise

- Jornal do Commercio: Estado anuncia uma cidade para a Copa