domingo, janeiro 11, 2009

DORA KRAMER

Autossuficiente da Silva 

Estado de São Paulo 11/01/09

O desapreço do presidente Luiz Inácio da Silva pela leitura já estava devidamente registrado na galeria dos chefes da nação brasileira desde a comparação do ato de ler ao esforço de uma caminhada em esteira mecânica, ressaltado o caráter desconfortável da atividade física e, por consequência, do exercício mental.

Corria o mês de abril de 2004 quando o presidente abriu mais uma edição da Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, a tese:

“A leitura, para a criança, é o mesmo que uma esteira para uma pessoa da nossa idade. Muita gente até coloca uma esteira no quarto, muitas vezes até coloca na beira da cama, pensando: amanhã vou levantar e vou começar a andar na esteira. Mas todo dia se levanta com uma preguiça desgramada e vai ficando para o dia seguinte. Isso é como o livro para uma criança que não adquiriu no tempo certo o gosto pela leitura.”

Na edição em bancas da revista Piauí, Lula discorre sobre sua particular ojeriza por notícias. Revela ao jornalista Mário Sérgio Conti algo mais que uma “preguiça desgramada” de ler.

Demonstra aversão ao contato com qualquer tipo de crítica. Elas lhe fazem mal ao estômago, acentuam seu “problema de azia”. Daí o caráter profilático da distância ainda maior que mantém entre sua pessoa e escritos em geral nos fins de semana.

Não apenas adota a receita, como a recomenda “a qualquer presidente”. Afastem-se da imprensa e aproveitem o ensejo para ficar longe dos políticos também, aconselha.

A menos que se precise de um ou de outros para divulgar suas palavras e corroborar seus atos. Na versão integral da reportagem/entrevista da Piauí, Lula se diz surpreso com o fato de seu ex-ministro José Dirceu ter aceitado a companhia de uma profissional de imprensa - da mesma revista - durante uma semana.

Na visão dele, Dirceu se “desnudou” diante da jornalista de forma absolutamente imprudente. O que o presidente da República não tenha notado talvez é que se exibiu igualmente desnudo para Conti. Que transmitiu aos leitores algo até então escondido sob o manto da autossuficiência.

O presidente Luiz Inácio da Silva não tem opinião própria. Não forma juízo a partir do cotejo entre informações, diferentes interpretações dos fatos, óticas diversificadas, lógicas variadas.

O presidente Luiz Inácio da Silva disse à imprensa que só sabe o que lhe dizem. “Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia”, diz ele.

Diria bem melhor, de forma gramaticalmente mais compreensível no português pátrio (não culto, elaborado, elitizado, apenas o idioma pátrio, usado na linguagem acessível do noticiário), se não fizesse como as crianças que por alguma circunstância não adquiriram o gosto pela leitura desde cedo e depois, na idade adulta, tomaram horror a esteiras.

Lendo, escreve-se, fala-se e se pensa melhor. Mais não seja por reflexo, treino.

Mas o presidente, referido na oralidade, prefere que lhe digam resumidamente o que vai pelo Brasil e o mundo. Escolhe terceirizar sua capacidade de percepção e análise, deixar na mão dos outros aquilo que certamente, com sua celebrada sagacidade e intuição, faria com muito mais eficácia. Tirando disso prazer e proveito inenarráveis.

Só experimentado por quem de vez em quando fecha a boca, apura os ouvidos, aguça a visão e, de posse da inteireza de suas aptidões, traça paralelos entre o que pensa o “outro” - entidade essencial no exercício da convivência e no combate aos excessos da autossuficiência, do isolamento - e chega às próprias conclusões.

Não é o caminho mais curto, mas é a maneira mais segura de ao menos se manter alguma coerência na vida, bem como algum compromisso com a palavra dita.

Natureza


Resumo da ópera governo-PMDB nas preliminares das eleições para as presidências da Câmara e do Senado, sob a ótica de um político governista que já foi ministro: “O Palácio do Planalto fica imobilizado, no aguardo de que 2010 o PMDB faça diferente de 2008 e se alie preferencialmente ao PT. Alimenta o crocodilo na esperança de ser devorado por último.”

Fora de foco

Noves fora, da manifestação do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, qualificando como “terrorismo de Estado” os ataques de Israel em Gaza, sobra apenas o ridículo da cena.

Se a posição brasileira não influi na organização da ordem geral daquele drama milenar, a declaração de um auxiliar presidencial, em faixa paralela à política do Itamaraty, tampouco contribui para o Brasil se postar da maneira adequada a um país que é líder regional e abriga em boa convivência imensas comunidades de ascendência árabes e judaica.

Constatação óbvia e por isso mais eloquente a inconveniência.

O IDIOTA


DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Favelas crescem 3 milhões de metros quadrados no Rio

Folha: Valor de imóvel financiado pode subir

Estadão: Total de indústrias dispostas a demitir é o maior desde 99

JB: Governo do Rio investiga fraude em Manguinhos

Correio: Nova mordomia no Senado

Valor: Lula quer governadores na campanha anticrise

Gazeta Mercantil: Auditorias de grande porte serão auditadas

sábado, janeiro 10, 2009

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA

Roberto Pompeu de Toledo
Dois desejos

"A derrota da emenda que revoga a re-eleição 
e a vitória do "choque de ordem" no Rio de Janeiro 
têm algo em comum: significam, uma e outra, 
um avanço civilizacional"

Sejamos modestos, fiquemos em dois, só dois escassos desejos de início do ano, para não estufar com exageradas expectativas o que este 2009 possa trazer de bom à pátria. Primeiro: que seja derrotada no Congresso a emenda constitucional que prevê o fim da re-eleição. Segundo: que dê certo o "choque de ordem" desencadeado no Rio de Janeiro pelo prefeito Eduardo Paes. Ora, direis: e ainda achas pouco? São só dois, mas que desejos! Mais que isso, só pedindo o fim das secas no Nordeste e das enchentes em Santa Catarina. Eu vos direi no entanto que desejos são desejos, machucar não machucam, e que, se no passado não foi proibido sonhar com a queda do Muro de Berlim ou com a eleição de um negro para presidente dos EUA, então, por que não?

A ideia de acabar com a re-eleição do presidente, dos governadores e dos prefeitos é a mais recente prova de que De Gaulle realmente deveria ter dito a frase que dizem que ele disse, mas que na verdade não disse – segundo a qual o Brasil não é um país sério. A emenda foi aprovada no mês passado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. A duração dos mandatos passaria a cinco anos, e não apenas para presidente, governadores e prefeitos, mas também para deputados, vereadores e senadores. A promessa é de uma considerável bagunça institucional. Eis um país – esta a mensagem ao mundo – que não é capaz de construir as estáveis e previsíveis regras sem as quais a democracia, por sua vez, se priva do estável e previsível eixo sem o qual se condena a rodar em falso.

Faz só dez anos que a re-eleição vigora no Brasil. O argumento, no entanto, é que "não deu certo". A levá-lo a sério, muito menos certo deu o mandato de cinco anos sem re-eleição vigente sob a Constituição de 1946. No período, um presidente se suicidou (Getúlio), um renunciou (Jânio), três foram depostos (Jango, Café Filho e Carlos Luz) e apenas dois terminaram o mandato (Dutra e JK). Mas é de fachada o "não deu certo". O que vale são os interesses, por uma vez convergentes, dos dois disputadores de eleições presidenciais no país, o PSDB e o PT – o primeiro porque tem dois candidatos, e sem re-eleição fica mais fácil organizar a fila entre eles, e o segundo para encurtar a espera do atual presidente caso lhe convenha tentar uma volta, uma vez cumprido o interregno imposto pela proibição de três mandatos consecutivos. Como não disse o general, não é sério.

A operação "choque de ordem", a quem a ela ainda não foi apresentado, consiste numa grandiosa ofensiva de fiscais e guardas municipais contra tudo o que é irregular na cidade do Rio de Janeiro – camelôs, construções ilegais, infrações das regras de trânsito, transporte clandestino, outdoors fora de lugar, mendigos a bloquear espaços públicos. Eduardo Paes inventou um "secretário da ordem urbana", e, sob seu comando, lá foi a tropa para as ruas. "Não é admissível que existam áreas da cidade em que o poder público não seja soberano", disse o prefeito. Palmas para ele. Nos três primeiros dias de operação, toneladas de mercadorias piratas foram apreendidas, mais de 1 000 veículos foram multados ou rebocados, táxis e vans irregulares foram lacrados, mendigos foram recolhidos a abrigos.

Se der certo, o Rio de Janeiro, o mais eloquente exemplo de desordem urbana entre as cidades brasileiras, sairá transformado. A cidade, que é um paraíso para o comércio pirata e os táxis bandalhos, em que se constrói a casa onde bem se entende e em que se estaciona o carro na calçada, ganhará em beleza e urbanidade e, de quebra, terá aplainado o terreno para um combate mais eficaz ao crime e à violência. Ocorre que uma operação dessas não se faz em apenas algumas semanas, ao embalo da chegada de um novo prefeito. É obra para todo um mandato, com o mesmo gás, e se há algo em que nós, brasileiros, somos ruins é na persistência. Veja-se o exemplo recente da fiscalização contra os motoristas alcoolizados. Começou com fúria para, aos poucos, ceder à inércia característica da nacionalidade.

Os dois desejos são difíceis de concretizar por motivos inversos. A emenda contra a Constituição tem a impulsioná-la o excesso de ação que move os quadros dirigentes quando se trata de defender interesses próprios. O choque de ordem urbana tem contra si a escassez de ação quando o que está em jogo é o interesse público. É pena. Tanto uma medida como a outra embutem um avanço civilizacional para a Bruzundanga.

LIA LUFT

REVISTA VEJA

Lya Luft
As mortes poderiam
ser evitadas

"Estamos tão pressionados pela vida, a política, 
as circunstâncias, as dificuldades, os medos e 
sustos, que por qualquer coisa explodimos. 
Penso que somos uma geração doente da alma"

Ilustração Atômica Studio


Abrimos o ano novo com a habitual lista de tragédias que poderiam ser evitadas. Talvez a gente não perceba o valor da própria vida. Talvez a gente só consiga viver porque não tem consciência disso. Parece que só diante da morte nos damos conta de que, apesar dos altos e baixos, viver é maravilhoso, viver bem é possível. Na corrida do cotidiano, não paramos para pensar: "O que estou fazendo da minha vida? Como estou tratando as pessoas que amo? De que jeito estou cuidando delas, de mim, deste mundo em que vivemos?". Isso me ocorre especialmente lendo as primeiras notícias dos primeiros horrores: mortes nas estradas e cidades, fome e miséria para milhões de pessoas inocentes pelo mundo e, de novo, a guerra. Ou sempre as guerras, pois o homem gosta de brincar de bandido e mocinho, trocando as armas de brinquedo por tremendas armas de verdade. Nelas incluo carro, ônibus, barcos e outros.

Pelas estradas e ruas – para começar com o doméstico e cotidiano – não é preciso esperar muito para presenciar as maiores aberrações, desde pedestres praticamente se jogando diante de carros e caminhões até motoristas que parecem alucinados. Não sei se é possível, mas valeria a pena, quem sabe, tentar contar o número de mortes burras e evitáveis no trânsito, que ocorrem por imprudência, loucura, arrogância, despreparo, futilidade. Mortes fúteis, que mesmo sendo fúteis são tragédias. E não falo só dos assassinatos praticados pelos motoristas alcoolizados, falo também dos infantiloides e idiotas, que mesmo assim têm nas mãos as poderosas armas que são o carro, o ônibus, o caminhão.

Dirijo frequentemente em estradas, e diariamente em ruas. Boa parte dos motoristas não poderia ter carteira, não deveria dirigir. Não antes de conhecer as regras e aprender a respeitá-las, não antes de amadurecer, ter consciência e ser uma pessoa confiável. Com um veículo seguro. O que se vê nas ruas e estradas é um espetáculo incompreensível de imprudência e loucura. Ultrapassagens incríveis, muitas vezes feitas por um pai de família com o carro cheio de crianças. Impaciência doentia, uma raiva generalizada dando a impressão de que se quer matar, atropelar, fazer sofrer o primeiro que aparecer pela frente. O verniz de civilidade que nos cobre é cada vez mais tênue.

Talvez seja mais um sinal dos tempos: estamos tão pressionados pela vida, a política, as circunstâncias, as dificuldades, os medos e sustos, que por qualquer coisa explodimos. Penso que somos uma geração doente da alma. Ultrapreocupados, supermedicados, incapazes de relaxar e curtir a vida, de parar para pensar ("Parar pra pensar? Nem pensar! Se paro para pensar, eu desmorono!", a gente ouve com frequência). Estamos hipnotizados por questões de saúde, sentamos à mesa só pensando em triglicérides e calorias, deitamos pensando no Viagra, acordamos apressados porque é preciso correr, caminhar, ir à academia – tudo coisas ótimas, desde que não sejam obsessão. Porém, na conduta diária, em nossas particulares vidinhas, supertensionados, nos portamos como adolescentes insensatos.

E agora, mais uma vez, a guerra. Sempre há guerrinhas neste vasto mundo estranho. Não quero nem sei discutir razões e justificativas nem desta nem de outra guerra qualquer. Mas é nas guerras – como nos campos de refugiados na África e também por aqui, onde se morre de fome, sujeira e falta de condições mínimas – que nos damos conta do pouco valor da vida para uma humanidade que se bota fora a todo momento. No cotidiano em casa, na rua, na estrada, no campo de batalha, no corpo dos inocentes atônitos em casas arrasadas ou veículos destroçados, hospitais sem estrutura ou apenas com condições sub-humanas, a gente se porta como se a sobrevivência fosse garantida, e tivéssemos dos deuses o aval para cometer todas as imprudências assassinas e mortais futilidades que se possam inventar. Bom Ano Novo, para os que conseguirmos sobreviver.

O SEU FUTURO


SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Crise joga inflação para baixo e preço do gás cairá

Estadão: Israel e Hamas rejeitam cessar-fogo da ONU

JB: Massacre de crianças

Correio: IPVA mais barato

Valor: Lula quer governadores na campanha anticrise

Gazeta Mercantil: Auditorias de grande porte serão auditadas

Estado de Minas: Inflação cai e deve derrubar a taxa de juros

Jornal do Commercio: Inflação de 2008 foi a maior em quatro anos

sexta-feira, janeiro 09, 2009

VAI, MAROLA


VINICIUS MOTA

Dor de barriga


Folha de S. Paulo - 09/01/2009
 

Azia, má digestão, enjoos, cólicas... Atire a primeira pedra aquele que nunca penou com esse gênero atroz de males da finitude. Que o digam mais de 300 passageiros que se sentiram mal num navio, atracado na quarta para averiguações em Salvador e já liberado.
Um rotavírus altamente contagioso, uma salmonella, uma intoxicação alimentar. A Anvisa ainda investiga as causas do incidente coletivo. Deveria considerar, também, a hipótese de uma exposição generalizada dessas pessoas ao noticiário.
Não há de ser só o estômago do presidente Lula que se indispõe com a leitura de jornais e revistas e com o acompanhamento de notícias e opiniões pela TV, pelo rádio e pela internet. À revista "Piauí", Lula debochou da mídia. Não acompanha o noticiário por opção; porque tem "problema de azia", fez troça.
Não é de hoje que Lula demonstra, em gestos, biografia e palavras, desprezo solene pela leitura e outros hábitos de instrução e informação. A resposta a quem aponta essa falha, grave num presidente da República, é sempre a mesma: é acusado de elitista e preconceituoso.
"A imprensa brasileira tem um comportamento histórico em relação a mim", disse na entrevista. A indolência, de repente, toma a forma de prevenção contra ataques de um inimigo "histórico", a mídia.
Eis um clássico do escapismo esquerdista. Não me exponho ao diálogo na esfera pública, não cotejo minhas opiniões e minhas atitudes com a crítica porque os meios de comunicação não têm legitimidade; estão entregues à burguesia, ao império, aos bancos, aos tucanos.
E toda essa teoria sobre mídia e parcialismo, lançada por um presidente que deplora a instrução e vive cercado de intelectuais aduladores, terminou com uma atitude. Lula criou a TV Brasil para contar a versão popular da história.
O problema é que quase ninguém assiste à TV de Lula. Talvez a programação esteja enjoativa.

ELIANE CANTANHÊDE

Política versus diplomacia


Folha de S. Paulo - 09/01/2009
 

O Brasil é um dos maiores países em território, está entre os mais populosos, é um emergente econômico e um exemplo de paz, onde judeus e árabes convivem amigavelmente, como lembrava ontem o vice José Alencar. Mas, para se aventurar como "player" (palavrinha de diplomatas) na guerra do Oriente Médio, é preciso mais: neutralidade.
É justamente por condenar a parcialidade dos EUA e seu comprometimento com Israel, tentar "furar o bloqueio" e "arejar" os canais de negociação entre Israel e palestinos que o Itamaraty desviou todas as fichas para França e Egito. Logo... não pode optar por um lado.
Celso Amorim já criticou a "reação desproporcional" de Israel e "deplorou" os ataques por terra, o que está de bom tamanho para a importância muito relativa do Brasil na questão. Amanhã, ele embarca para encontros com presidentes e chanceleres na Síria, na Cisjordânia, na Jordânia e em Israel.
Deve esticar até o Egito. É para lá que confluem emissários israelenses, da Autoridade Nacional Palestina e do próprio Hamas. É para lá que Amorim acabará indo também.
Mas, enquanto o chanceler se esfalfa para alçar o Brasil à condição de interlocutor neutro das potências e dos contendores, o assessor Marco Aurélio Garcia acusa Israel de "terrorismo de Estado" e o partido do presidente diz que "a retaliação contra civis é uma prática típica do Exército nazista". A comparação é muito forte. Vira uma guerrinha de diplomacia versus política e corresponde a puxar o tapete do chanceler antes que ele ponha o pé no avião para o Oriente Médio.
Sem falar nas consequências internas. Se o assessor e o partido do presidente dão cacetadas nos israelenses, os judeus no Brasil se tomam em brios e reagem, e os árabes partem para a tréplica, como ontem, em Curitiba. Onde vai parar a decantada paz entre judeus e árabes nesse solo varonil de encantos mil da nossa pátria tão gentil?

CASAMENTO


COLUNA PAINEL

Lula: "Jornais estão obsoletos"


Folha de S. Paulo - 09/01/2009
 

Mais do que "sentir azia" quando exposto diretamente ao noticiário, o presidente Lula acha também que os jornais estão "obsoletos" e diz confiar mais nas informações de assessores do que naquilo que sai publicado. As declarações fazem parte de trechos inéditos da entrevista à revista "Piauí" deste mês. A Presidência divulgou o que diz ser a íntegra da conversa.
"É muito melhor ficar na mão de um assessor em quem eu confio do que na mão de um artigo. (...) Prefiro alguém que eu recruto, da maior seriedade, e que me dá as informações corretas", afirma Lula, que ressalta o papel da internet: "Alguns companheiros da imprensa não descobriram isso porque continuam agindo como se estivessem 40 anos atrás".

Em off
Em outro trecho, Lula afirma considerar "promíscua" a relação entre políticos e jornalistas baseada no anonimato da fonte. "Você passa a ser uma espécie de informante privilegiado. (...) O cara [a fonte] planta laranja para colher manga."

Mágoa
Lula também manifestou contrariedade com José Dirceu pela entrevista, à mesma revista, em que o ex-ministro teria criticado um de seus filhos. "Eu acho uma loucura alguém que exerce um cargo público ficar uma semana totalmente desnudado diante de uma jornalista."
Dirceu nega ter se referido ao filho do presidente.

0 a 0
A criação de um adicional aos servidores da Câmara que fazem cursos, ao custo anual de R$ 60 mi, joga por terra toda a economia com o pagamento de horas extras do ano passado, feito que o presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), não se cansa de propagandear.

De bem
De saída, Chinaglia ainda fez um mimo a Aldo Rebelo (PC do B-SP), hoje seu opositor internamente. Foi remontada na Casa a galeria dos "Construtores do Brasil", idealizada pelo antecessor.

A fila anda
A ida de Leonardo Picciani (PMDB) para o governo do Rio promoverá uma dança de cadeiras: dois suplentes, Rodrigo Bethlem (PMDB) e Fernando William (PMN), continuarão secretários municipais. A vaga irá para Paulo Rattes (PMDB).

Precursor
Em documento enviado ao Congresso no final do ano sobre a visita que fez ao Irã em novembro, o chanceler Celso Amorim, que embarca hoje para o Oriente Médio, diz que entregou ao presidente Mahmoud Ahmadinejad carta em que Lula "expressa o interesse brasileiro de aprofundar as relações bilaterais, particularmente na vertente econômico-comercial, e menciona a possibilidade de troca de visitas presidenciais no futuro". 

Classificados
Emissários do ex-prefeito de BH Fernando Pimentel, o deputado Miguel Correa e o atual vice-prefeito, Roberto Carvalho, ambos petistas, procuraram o chefe-de-gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, pedindo uma vaga para o mineiro na Esplanada. Disseram que falta uma vitrine a ele para concorrer ao governo em 2010. 

Prévias
Pimentel mede forças com Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) na disputa pela vaga. "Nosso projeto afirma o compromisso histórico do PT. Do outro lado está a visão mais pragmática, da realpolitik", diz o ministro, em alusão à aliança de Pimentel com Aécio Neves (PSDB). 

Boquinha
O governador Roberto Requião (PMDB-PR) arrumou um jeito de driblar a lei antinepotismo e mandará o irmão, Eduardo, para chefiar a representação do Estado em Brasília. Ele teve de deixar a administração dos Portos de Paranaguá. 

Estreia
Depois de romper com a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), o vice, Tin Gomes (PHS), será investigado pelo Ministério Público por ter saído férias já na primeira semana de trabalho.

Tiroteio

"O MST se especializou em dar consultorias a países sul-americanos contra os interesses brasileiros. Depois do Mercosul e da Unasul, em breve teremos também o "MST Sul"".

Do deputado RAUL JUNGMANN (PPS-PE), sobre os contatos mantidos entre MST e o governo do Paraguai para rever o tratado de Itaipu.

Contraponto

Imagem é tudo

No início da campanha municipal, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), saía da inauguração do comitê de campanha do candidato do PMDB em Recife, Raul Henry, que tinha o apoio dos tucanos, quando engatou conversa com um jornalista cuja fisionomia lembra a do então candidato rival e hoje prefeito, João da Costa (PT).
Na porta do evento, um locutor de campanhas no Estado aguardava o tucano e se espantou com a semelhança. Resolveu se certificar, foi até a metade do caminho, mas, ainda em dúvida, declinou:
-Puxa senador, eu vim fazer uma proposta, mas agora percebi que houve uma reviravolta na eleição...

DORA KRAMER

Paus para toda obra


O Estado de S. Paulo - 09/01/2009
 

 dora.kramer@grupoestado.com.br

As medidas provisórias se tornaram uma espécie de panaceia obsessiva do Congresso. Servem para simular independência em relação ao governo, para robustecer discursos eleitorais, são usadas como instrumento de pressão ou mesmo de afirmação individual e coletiva quando se faz necessário.

Legítimos paus para toda obra, prestam também um excelente serviço ao voluntário exercício de miopia galopante de senadores e deputados que fixam o foco de suas reclamações no excesso de MPs editadas pelo Palácio do Planalto e desviam o olhar da profundidade do buraco onde está no Poder Legislativo.

Fiéis à regra, os senadores Tião Viana e Garibaldi Alves, candidatos a presidir o Senado no biênio 2009/2010, fazem delas a principal peça de suas campanhas. 

Viana voltou-se, em carta divulgada no início da semana, contra a “gana legiferante do Executivo” e Garibaldi convoca - também em carta, distribuída ontem - o Parlamento a dar uma resposta à altura da “exorbitância” do Planalto, que, segundo ele, “teima em confrontar a Constituição”.

Com todo o respeito que o Congresso Nacional não confere a si, a instituição não anda moralmente autorizada a falar em confrontos de natureza legal.

Quando pode, subverte preceitos constitucionais. Seja resistindo ao cumprimento de decisões judiciais referidas no texto da Carta (e não tiradas das cabeças dos magistrados como quer fazer crer a tola tese da “judicialização” da política), seja ignorando princípios como o da impessoalidade no serviço público ou da probidade para exercício de mandato eletivo.

Aniquila o que diz a Constituição principalmente quando insiste em ignorar - para ficar no tema da predileção do Parlamento - o trecho que dá aos congressistas a prerrogativa de devolver quaisquer medidas provisórias ilegais ou que não se enquadrem nas exigências de relevância e urgência.

A abordagem desse tema é recorrente. Mas justifica-se, porque recorrente também é a insistência do Congresso em fazer das medidas provisórias uma tradução exclusiva e equivocada de todos os seus problemas.

Ainda que fosse o único foco de infecção, a queixa permanente continuaria sendo injustificada. O Parlamento não é uma agremiação indefesa, presa à sanha do Executivo - nem do Judiciário. É um poder que, quando quer, faz valer os seus poderes.

Impõe à sociedade absolvições ao arrepio dos fatos, ameaça criar leis vingativas, inventa regras para derrubar correções de rumo, patrocina acertos os mais escandalosos possíveis, pinta, borda, usa e abusa do poder de legislar.

Fala em confronto da Constituição num assunto que o próprio Congresso resolveria não confrontasse ele mesmo a Constituição para atender ao Executivo em troca de senhas de acesso a cobiçados nichos da máquina pública. 

Desvio

Durante os (muitos) anos em que se debateu a reforma do Judiciário, o ponto principal foi a necessidade da existência de uma instância de controle do Poder.

O chamado controle externo ficou a cargo do Conselho Nacional de Justiça, saudado quando da aprovação da reforma como um instrumento de fiscalização da sociedade. Não sobre as sentenças, mas sobre os procedimentos do Judiciário.

A realidade, contudo, mostrou que essa expectativa era ilusória. Prova está na recente decisão do CNJ de permitir aos servidores da Justiça acumular cargos públicos cuja soma de salários ultrapasse o teto de R$ 24, 5 mil. 

Pode vir a ser um atalho para futuras reivindicações de isonomia nos outros Poderes. 

Esmola muita

Por uma questão tática, o governo pode até dar a entender que apoia duas candidaturas simultâneas do PMDB às presidências da Câmara e do Senado, sustentando os nomes de Michel Temer e de José Sarney, este em função das dificuldades que o petista Tião Viana teria de se eleger.

Estrategicamente, porém, tal atitude fere a lógica. Ao patrocinar dois grupos antagônicos para o comando do Congresso Nacional, o governo estaria promovendo a entrega ao PMDB de um naco amazônico de poder, muito mais importante que os cinco ministérios ocupados pelo partido e mais os cargos administração federal afora. 

Presidentes de casas legislativas não são - como ministros e presidentes de estatais - demissíveis.

A boa vontade do Planalto com o PMDB parece excessiva. Mais ainda porque desde o início o governo identificou a insistência do partido em presidir o Senado como fruto das disputas internas entre o grupo que ficou com Lula já na campanha eleitoral de 2002 e o outro que aderiu após a reeleição, em 2006.

Convém desconfiar de que o jogo pode não ser exatamente aquele exposto nas cartas já baixadas à mesa. Há um aroma de blefe no ar: ou no Senado a história de Sarney não é para valer, ou na Câmara o acerto com Temer pode subir no telhado.

ILIMAR FRANCO

Chinaglia, Mello & Farias

Panorama Político 
O Globo - 09/01/2009
 

Quando os integrantes da Mesa Diretora chegaram à reunião de anteontem, já estavam reunidos o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente do Sindilegis, Magno Mello, e o corretor da Amil, Farias Pereira de Souza. Os demais membros da Mesa imaginavam que Farias fosse do sindicato. Farias interveio na reunião e ajudou a convencer a Mesa. Mais tarde, em outra reunião, na sala do diretor-geral da Câmara, Sérgio Sampaio, Magno Mello afirmou que não haverá licitação e que a operadora será escolhida pelo sindicato. E que o novo plano será implantado em 20 dias, antes da eleição do novo presidente da Câmara. 

Entre 1989 e 2008, os neoliberais lavaram a égua, como se diz no meu Rio Grande" - Tarso Genro, ministro da Justiça, encontrando aspecto positivo na crise 

Negocinho 

O novo plano de saúde dos funcionários da Câmara dos Deputados é um jogo de cartas marcadas. Foi tudo montado para que o Sindilegis (Sindicato dos funcionários do Legislativo) entregue o atendimento para a Amil, sem licitação. A Câmara repassará à operadora R$43 milhões. A empresa ainda receberá as contribuições de 15 mil servidores estatutários e 12 mil comissionados. 

Uma candidatura no telhado 

A candidatura de Tião Viana (PT-AC) à presidência do Senado não decolou. A oposição não quer um petista no comando, e o PMDB não abre mão do posto. A avaliação da maioria é a de que ele não conseguiu adquirir densidade política. O PT, que mesmo sendo a quarta bancada almejou a presidência da Casa, precisa agora encontrar uma saída. Tenso, Tião ligou para senadores ontem negando que poderia abrir mão da candidatura em troca de um ministério. 

Um nome em ascensão 

O senador José Sarney (PMDB-AP) fala sobre a sucessão na presidência do Senado: 1. "Não vou entrar em disputa nenhuma"; 2. "Se isso ocorrer (virar presidente do Senado), será um sacrifício imenso"; 3. "Como político, não posso dizer que essa situação não vai chegar (a presidência), mas as coisas estão muito longe disso". Sarney continua dizendo não à candidatura, mas sua resistência não é mais a mesma. 

Corinthiano roxo 

A piada que corre no Ministério da Fazenda é que o presidente Lula está disposto a nomear o economista Luiz Gonzaga Belluzzo até para a presidência do Banco Central. Tudo para impedir que ele assuma a presidência do Palmeiras. 

Minc contesta o "camarada" Stephanes 

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) contesta o mapa da Embrapa Monitoramento sobre as áreas intocáveis para a produção. Minc diz que "os dados são superestimados" e que "nem toda atividade econômica é proibida nas áreas de conservação". Na negociação do novo Código Florestal, ele promete "uma guerra amistosa, mas contundente". E adverte Reinhold Stephanes (Agricultura): "Como ministro, ele não pode se comportar como líder dos ruralistas". 

DIZ O PRESIDENTE do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), em carta aos senadores, sobre a legalidade de sua reeleição: "O Senado é autônomo para decidir, de acordo com seus próprios critérios". 

O PRESIDENTE da Assembleia do Rio, Jorge Picciani (PMDB), está ligando para seus aliados para dizer que é candidato ao Senado. Esta coluna havia publicado informe de que ele tinha desistido da candidatura. 

O PETISTA Tião Viana (AC) ligou ontem para o vice-presidente José Alencar. Queria sondar o ânimo do Palácio do Planalto com sua candidatura. 

PAC da Copa 

Focado na Copa de 2014, o Ministério do Turismo vai investir na infraestrutura turística de 65 cidades. O objetivo é incentivar as pessoas a viajar para cidades próximas no intervalo entre os jogos, que serão às quartas e sábados.

O IDIOTA


SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Estados quintuplicam os gastos e investem menos

 

Folha: Fuga de dólares é a maior desde 1982

Estadão: Governo quer limitar uso do FAT em acordos

JB: Israel exige saída de civis e amplia ataque

Correio: Em alta - Preço da cesta básica no DF dá o maior salto desde 1997

Valor: Fundos de pensão têm o pior ano de sua história

Gazeta Mercantil: Saldo do fundo 157 pode superar R$ 1 bi

Estado de Minas: Mais dinheiro para quem vende 10 dias de férias

quinta-feira, janeiro 08, 2009

PARA...HIHIHIHI


O  ALEMÃO

Duas velhinhas bem velhinhas estão jogando sua canastra semanal.
Uma delas olha para a outra e diz:
- Por favor, não me leve a mal. Nós somos amigas há tanto tempo e agora eu não consigo me lembrar do seu Nome, veja só a minha cabeça. Qual é o seu Nome, querida?
A outra olha fixamente para amiga, por uns dois minutos, coça a testa e diz:
- Você precisa dessa informação pra quando?

CARLOS BRICKMANN

O assessor que sabia javanês


Folha de S. Paulo - 08/01/2009
 

Tentar importar para nosso país a luta entre israelenses e palestinos, justo aqui, onde árabes e judeus convivem bem, brasileiros que são?

ENTRE AS tradições da diplomacia brasileira, há duas mais fortes do que todas as outras:
1 - O Itamaraty, nosso Ministério das Relações Exteriores, é extremamente profissional e competente, um celeiro de quadros de excelente qualidade para todas as áreas do governo;
2 - Os curiosos que se arvoram em diplomatas sempre dão errado, mesmo quando assumem com a fama de gênios. São como "O Homem que Sabia Javanês", de Lima Barreto: valem enquanto não aparece ninguém que fale javanês de verdade e fique demonstrado que não entendem nada.
A fauna de curiosos que atrapalharam a diplomacia brasileira é rica. Envolve um ex-presidente que, embaixador em Portugal, teve como principal feito a construção de um galinheiro na residência oficial, para fornecer-lhe a matéria-prima essencial para o frango à mineira; e, transferido para a Itália, morando no magnífico palácio Doria Pamphili, não se sentia bem e passou a maior parte do tempo no Brasil.
Houve um general de pijama, que fez parte da Junta Militar de 1969 (aquela que o deputado Ulysses Guimarães imortalizou com o nome de "Os Três Patetas"), que foi embaixador em Paris.
Outro general, chefe dos subterrâneos das informações, virou embaixador em Lisboa -obrigado, Portugal, pela paciência que teve conosco!
Apoiar a eleição de Evo Morales, que logo depois de tomar posse ocuparia militarmente as instalações da Petrobras?
Apoiar a eleição de Rafael Correa, cujo maior sonho é não pagar o que deve ao Brasil?
Ficar ao lado dos narcoterroristas das Farc, que a Colômbia atacou em território equatoriano?
Tentar importar para nosso país a luta entre israelenses e palestinos -justo aqui, onde árabes e judeus convivem bem entre si, brasileiros que são?
Intervir na política interna de um país vizinho, fornecendo gasolina para que o presidente venezuelano Hugo Chávez pudesse derrotar os grevistas da Petroleos de Venezuela e apoiando sua polêmica decisão de fechar a TV oposicionista?
Vestir-se com roupas de colonizador inglês na Índia para esperar, na selva colombiana, uma libertação de reféns que não ocorreu?
Nada disso é Itamaraty: nossos diplomatas não fazem papel ridículo.
Tudo isso é Marco Aurélio Garcia, o estranho especialista em política latino-americana que jamais escreveu nenhuma obra sobre o assunto, mas conseguiu se transformar em conselheiro do presidente Lula.
Garcia, é bom que se recorde, não se limita às atividades paradiplomáticas: foi também aquele que fez o famoso "top, top", o obsceno "top, top" para comemorar o fato de que não era o governo o responsável pelo acidente da TAM que matou 199 pessoas -isso enquanto o país, de luto, não tinha como aceitar nenhuma comemoração.
E é Marco Aurélio Garcia que, tomando partido numa luta com a qual o Brasil nada tem a ver, dá total razão aos palestinos do Hamas.
A briga é deles, não nossa; mas Garcia conseguiu convencer Lula de que o Brasil pode ter êxito onde Estados Unidos, França, Rússia, Inglaterra e ONU falharam.
O Brasil, como país neutro, como ponto de convergência de árabes e judeus, poderia ter um papel importante na busca da paz. Mas, tomando partido, perdeu quaisquer condições de influir na região.
Há poucos dias, o presidente Lula afastou Marco Aurélio Garcia da função de palpiteiro-mor de política externa, mas o manteve como assessor.
Entretanto, sua influência sobre o presidente é tamanha, ou foi tamanha, que as coisas que diz são tomadas internacionalmente como o pensamento de Lula. É ruim para o presidente, é ruim para o Itamaraty, é pior para o Brasil.
Talvez a solução fosse enviá-lo para a França, onde estudou, e onde estão os trotskistas que, há 40 anos, influenciaram sua cabeça stalinista.
O ex-primeiro-ministro alemão Konrad Adenauer tem uma frase clássica, que é impossível não citar aqui: "O bom Deus, que limitou a inteligência humana, bem que poderia ter limitado também a estupidez".

CARLOS BRICKMANN
, jornalista e consultor de comunicação, é diretor da Brickmann & Associados. Foi editor e repórter especial da Folha e editor-chefe da "Folha da Tarde" (1984 a 1991).

EDITORIAL-O ESTADÃO

Por que Lula não lê jornais

O Estado de S. Paulo - 08/01/2009
 
As opiniões que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva externa sobre a imprensa brasileira são de há muito conhecidas. Ele próprio diz que elas não mudaram desde que chegou ao Planalto - o que faz lembrar a anedota do jornalista irritado com um colega: "Não me venha com fatos novos, que já tenho as minhas ideias formadas." E, decerto por tê-las e por querer poupá-las do contágio com eventuais novidades no comportamento da mídia capazes de pôr em perigo crenças assim viscerais, Lula afirma que se dispensa de ler jornais, revistas, sites e blogs. "Porque eu tenho problema de azia", alegou, tentando exercitar o sarcasmo, numa entrevista publicada na edição deste mês da revista Piauí. (A crer nas suas palavras, ele tampouco assiste a telejornais, nem sequer aos da TV Brasil, nesse caso "por falta de tempo".) 

A imprensa lhe faz mal ao fígado, queixou-se. A mesma imprensa à qual creditou, como já fizera, a sua ascensão à Presidência da República. Foi "produto direto da liberdade de imprensa", repetiu, alheio à incoerência entre essa constatação irrefutável e a sua visão gástrica do jornalismo. Paradoxos, aliás, não faltam quando Lula é instado a falar do assunto - sintoma, quem sabe, de que não o digere com facilidade. O presidente que se guarda de acessar as novas mídias porque também essas, a exemplo das tradicionais, lhe causariam desconforto estomacal, não hesita em saudar a diversidade de comentários disponível em "300 blogs". "Hoje a informação é mais plural", acredita. "Isso democratiza a imprensa, aumenta a capacidade do cidadão de interpretar o que lê."

Lula, ao que diz, não só não lê, não ouve e não vê o noticiário, como recomenda "a qualquer presidente" que se afaste da imprensa - e ainda dos políticos - nos fins de semana. A mídia, insiste, não lhe faz falta. "Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia", argumenta. "Não há hipótese de eu estar desinformado." Só há. "O tanto de pessoas" que conseguem escalar o gabinete presidencial evidentemente não pediram audiência para criticar o seu titular; têm, todas, interesses a defender, o que aconselha os seus porta-vozes a guardar para si as verdades inconvenientes de que tenham conhecimento sobre o desempenho do anfitrião. Além disso, Lula se informa nas sessões matinais de meia hora com o ministro da Comunicação do Governo, Franklin Martins, que o põe a par do noticiário do dia. 

"Quando sai alguma coisa importante, a Clara (a assessora especial Clara Ant) e o Franklin me trazem o artigo ou mesmo o vídeo de uma reportagem de televisão", conta. Lula talvez não saiba, mas certa vez o presidente americano, George W. Bush, deu uma explicação semelhante para o fato de só bater os olhos nas manchetes - "eu raramente leio as matérias", admitiu, também numa entrevista. Ele se basta com os briefings diários do seu chefe de gabinete e do assessor de segurança nacional, "que provavelmente (sic) leram eles próprios as notícias". A diferença é que Bush, embora observando que muitas vezes as opiniões se misturam às notícias, não deixou de manifestar o seu "grande respeito" pela imprensa. "Nossa sociedade é uma boa, sólida democracia", disse, "porque temos uma boa, sólida mídia."

Eis a questão de fundo, mais ainda do que saber como o presidente da República se informa ou se é verdade que o jornalismo brasileiro lhe dá azia a ponto de ele manter uma distância profilática de jornais, revistas, sites e blogs. Líderes nacionais que conhecem a função não apenas informativa, mas, principalmente instrutiva da imprensa escrita não dispensam a sua leitura, como faz Lula - que, aliás, não lê nada. Quaisquer que sejam as suas mágoas em relação aos órgãos de comunicação de seus países e qualquer que seja a procedência das suas críticas ao modo como eles os tratam - e está para nascer o governante que não se sinta injustiçado pela mídia -, têm a devida noção da importância de sua contribuição, para a preservação e o aperfeiçoamento da democracia. 

Desde o discurso de posse de 2003, a toda hora Lula se refere à sua escassa escolaridade em tom de quem se vangloria da facilidade com que aprende as coisas "de ouvido". Na verdade, não é o "problema da azia" que o afasta da leitura dos jornais, É, isso sim, a aversão natural que ele tem a qualquer espécie de leitura.

NAS ENTRELINHAS

A coluna que Lula não vai ler


Correio Braziliense - 08/01/2009
 

A principal queixa do presidente é que a imprensa não mostra as coisas boas feitas pelo governo. Não é verdade e ele sabe disso

Em entrevista à revista Piauí, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não lê jornais e revistas. Argumentou que isso lhe faz mal ao fígado. Pode parecer frase de efeito, mas é a mais pura verdade. Lula não gosta de ler notícias e essa aversão não é nem mesmo conseqüência das pauladas que levou desde que assumiu o Palácio do Planalto. Vem de antes, é parte do seu jeito de ser e de fazer política. Mas a relação com a imprensa, ou a falta dela, influencia diretamente sua forma de governar. Até porque vai além do presidente. Atinge sua equipe e o PT. É um fenômeno sobre o qual vale a pena escrever. Mesmo sabendo que o presidente não vai ler. 

Lula se informa das principais notícias no início do dia. O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, ou a assessora especial, Clara Ant, lhe fazem um resumo do que saiu e passam recortes das reportagens mais importantes. Diga-se de passagem que é um avanço. No início do primeiro mandato, esse resumo chegava por meio das “Cartas ácidas”, elaboradas pelo assessor Bernardo Kucinski. Os textos faziam jus ao nome e viam em qualquer reportagem de tom crítico sinais de uma conspiração contra o governo. A acidez descia direto ao fígado presidencial. Franklin Martins faz o relato em tom profissional e desapaixonado. 

Governos têm razões para se queixar da imprensa. É inevitável que aconteçam erros ou injustiças, em especial em momentos mais tensos, como escândalos políticos ou durante o trabalho de comissões parlamentares de inquérito. O governo do PT se queixa mais. Em parte, com motivos. Lula é mesmo alvo de uma feroz vigilância da mídia. Mas é bom lembrar que foi o PT quem criou a fórmula de unir-se à mídia a fim de fazer das CPIs motivo para exigir a queda de governantes. Além disso, Lula pavimentou seu caminho para a presidência contando com a simpatia militante de boa parte dos jornalistas do país. 

Ninguém gosta de abrir o jornal e ler algo desfavorável. Fernando Henrique Cardoso, ao contrário de Lula, era um leitor voraz. Sabia o que tinha sido escrito, onde e por quem. Isso muitas vezes fazia com que seu governo reagisse com cara feia para veículos que assumiam uma postura mais crítica. No caso de Lula, o problema é a generalização. O presidente coloca todos no mesmo saco: a “imprensa”. E está convencido que ela trabalha para derrubá-lo. Já deixou isso claro em mais de uma entrevista e vive batendo na tecla em seus pronunciamentos. 

A generalização é injusta e embute um perigo. Há no PT segmentos que não veem com bons olhos a liberdade de expressão e para quem imprensa boa é imprensa a favor. O próprio Lula pensou em expulsar do país o correspondente do New York Times, Larry Rohter, quando esse escreveu uma reportagem na qual o acusava de beber demais. Foi salvo pela intervenção decidida do então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e do jornalista Ricardo Kotscho, à época seu chefe de comunicação. O mesmo governo já tentou criar um conselho para regulamentar o jornalismo. As iniciativas não deram certo, mas deixaram no ar um cheiro esquisito. 

A principal queixa do presidente é que a imprensa não mostra as coisas boas feitas pelo governo. Não é verdade e ele sabe disso. O governo viveu seu pior momento no final de 2005. À época, o escândalo do Mensalão contaminava o ar do Palácio do Planalto. A popularidade de Lula despencou e as pesquisas apontavam que ele se encaminhava para uma derrota certa nas eleições do ano seguinte. O presidente percebeu isso e decidiu inverter o jogo. Passou a adotar uma agenda positiva, cheia de medidas populares: dinheiro para grandes obras, aumento nos programas sociais, crédito mais barato. Em pouco tempo, a curva das pesquisas tinha se invertido. Lula foi reeleito e hoje chega aos 80% de aprovação. Como o país ficou sabendo de todas essas medidas? Pela imprensa, presidente. Quando a notícia é importante, ela sai. 

É preciso reconhecer que não ler jornais dá a Lula uma vantagem tática. Ele se informa de forma semelhante a de seus eleitores. Fica sabendo das grandes histórias, as que geram mais barulho e repercussão. Dessa forma, só reage quando a encrenca é grande o suficiente para gerar problemas reais. Não entra em qualquer marola. Assim, evita ser pautado pela imprensa. 

Mas a falta dessa leitura também lhe cobra um preço. O de não perceber que a imprensa é maior que as generalizações. Erra, como os governo erram. Mas acertam bastante. Ao não ler, o presidente está exercendo sobre a mídia o mesmo olhar enviesado que condena nos jornalistas. Fica apenas com a imagem ruim. 

Se alguém encontrar o presidente em suas férias na Bahia e quiser comentar esta coluna, fique à vontade.

O IDIOTA CARA DE PAU


ELIANE CANTANHÊDE

Simples assim: pela paz!


Folha de S. Paulo - 08/01/2009
 

Só fui a Israel uma vez, como turista. Visitei do norte, na fronteira com o Líbano, até o extremo sul, entre Egito e Jordânia, rodando pela Cisjordânia nos limites com a Síria. O que mais impressiona é que judeus e árabes vivem lado a lado, bairro a bairro, numa proximidade inimaginável.
Olhando Jerusalém do alto, é possível distinguir, pela disposição e pela nuance de cores, onde moram uns e outros. E, de baixo, cruza-se o tempo inteiro, ora com as famílias muito claras dos judeus, ora com as famílias morenas dos árabes, ambas geralmente numerosas.
Um judeu ali pelos 70, engraçado e falando várias línguas, levou meu grupo de apenas quatro pessoas a um restaurante árabe. A chegada foi esfuziante, com abraços e sorrisos de velhos conhecidos. Daí a pergunta: "E numa guerra?". Do nosso companheiro, sem titubear: "Ou eles me matam, ou eu mato eles".
A milhares de quilômetros dessa história, dessa cultura e das dores do Oriente Médio, convém evitar defesas ou acusações apaixonadas e o erro de reagir aos atuais ataques a partir só de 1947, de 1967 ou de 2005, cortes que nos empurram para um lado ou para outro, inevitavelmente. A questão vem de muito antes, é daquelas em que todos têm razão e ninguém tem razão, enquanto potências movem peças de acordo com suas conveniências.
O que podemos e devemos é discordar tanto dos foguetes inconsequentes do Hamas quanto da "reação desproporcional" de Israel -como acusam os governos, inclusive o do Brasil, que apita pouco, mas não se omitiu e tem sido coerente com sua política externa.
Agiu contra a unipolaridade norte-americana e sua tendência pró-Israel. E respaldou a ação combinada da França e do Egito -os dois países que Celso Amorim primeiro procurou- pelo cessar-fogo e pela reabertura de canais de negociação.
Ou seja, pela paz. Que, aliás, é justamente o que nos cabe fazer nesse momento de sangue e de dor.

COLUNA PAINEL

CPI, parte três


Folha de S. Paulo - 08/01/2009
 

Desta vez é uma escuta que remete ao telefone da secretária do líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), que faz a oposição vislumbrar um caminho para tentar um terceiro sopro de vida à CPI dos Grampos. A fórmula funcionou no meio do ano passado quando estourou a Operação Satiagraha da Polícia Federal.
A avaliação é que a comissão foi uma das raras trincheiras de resistência ao governo no Congresso. Ou seja, mais do que investigar o caso do tucano, a ideia é deixar aberta até março a janela que expôs a cúpula da PF e da Abin. Além de preparar um parecer alternativo na CPI, centrando fogo no governo, o PSDB acionará o Ministério Público Federal e usará o caso para pressionar a Anatel sobre o sigilo de dados.

Mercado
De R$ 250 a R$ 300 foi o valor negociado pelos integrantes da quadrilha de escutas clandestinas, presa pela Polícia Civil, para obter dados do telefone da secretária de Aníbal. O tucano havia sido informado há 45 dias de que o aparelho fora monitorado, num encontro com um promotor no aeroporto. 

Rede
Na sequência, o deputado tucano acionou Carlos Sampaio (PSDB-SP), que interveio junto à cúpula da polícia paulista. Depois de ouvir a gravação ontem, Aníbal pediu ao secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, que tente identificar quem "comprou" o grampo. 

Presente de grego
Após brigar na Justiça Eleitoral para assumir a Prefeitura de Campos (RJ), Rosinha Matheus (PMDB) reclama que o gabinete está sem telefone e internet, os carros oficiais sem combustível e muitas escolas tiveram a luz cortada por falta de pagamento. 

Aperto
O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), que cortou 10% do seu orçamento, também criou grupo para passar um pente fino nos contratos acima de R$ 70 mil. 

Ampla margem
Apesar de o Tesouro Nacional ter anunciado ontem a captação de US$ 1,025 bilhão no mercado internacional, a margem de manobra era bem mais ampla. No despacho em que autorizou a emissão dos títulos no exterior, Guido Mantega (Fazenda) estipulou limite de US$ 2 bilhões.

Bola de cristal
O governo brasileiro vê com bons olhos a afirmação de Barack Obama de que depois de sua posse, no dia 20, terá "muito mais a dizer" sobre o conflito na faixa de Gaza. "Talvez seja uma estratégia para ter uma posição mais contundente no futuro. Obama também não está apoiando a posição de George Bush", diz o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia. 

Róseo
Lula enviou carta aos 5.563 prefeitos eleitos em que não faz nenhuma menção à crise. Ele propõe parceria para acelerar investimentos e reduzir a pobreza. "Você vai encontrar no governo federal um parceiro para cumprir este compromisso", diz. 

Supermercado
Na carta, Lula também os convida para encontro de dois dias em Brasília, em 10 e 11 de fevereiro. Dez ministros, além dos presidentes do BB, Caixa, BNDES e Funasa, "venderão" seus programas para os novos administradores. 

Resistência
O deputado Paulinho da Força (SP) é um dos que ainda tentam evitar que o PDT desembarque da candidatura de Aldo Rebelo (PC do B-SP) à presidência da Câmara. "O PMDB insiste em ficar com as duas Casas, mas não vai conseguir", diz. 

Distância
Michel Temer (PMDB-SP) informou ao Palácio do Planalto que prefere se reunir com o presidente Lula sem a presença dos senadores do partido. Ele tenta desvincular a sucessão da Câmara da do Senado, aonde PMDB e PT não estão se entendendo. Além disso, não aceita dividir a sala com seu arqui-inimigo Renan Calheiros (PMDB-AL).

Tiroteio


"Que o presidente Lula não gosta de ler, todo mundo já sabia. Agora ele revela possuir um forte espírito antidemocrático, de quem não sabe lidar com as críticas." 
Do deputado 
ARNALDO MADEIRA (PSDB-SP), comentando a entrevista em que Lula diz, à revista "Piauí", que não acompanha diretamente o noticiário porque isso lhe dá "azia".

Contraponto 

Que vontade que dá...

Com o presidente Lula em férias, o vice José Alencar convocou a imprensa para uma entrevista coletiva anteontem. Como de hábito, falou sobre seu tema predileto: os juros. Em determinado momento, os jornalistas perguntaram se ele pretendia disputar um cargo no Executivo em 2010. O vice, que se recupera de um câncer, disse que não. A próxima pergunta foi se ele tinha informação sobre um possível desejo de Lula de se candidatar a algum cargo daqui a dois anos. Alencar abriu um sorriso:
-Olha, eu torço para isso! Porque daí ele teria de se licenciar por seis meses e eu assumiria. Daria tempo suficiente para eu mandar abaixar os juros para 0,5 ponto...

DORA KRAMER

Muito além do panfleto


O Estado de S. Paulo - 08/01/2009


Não é um debate na acepção da palavra. Nem uma discussão. Para o primeiro faltam as ideias e, para a segunda, há carência de contraditório. Chamemos, então, de palco o ambiente em que evoluem os candidatos às presidências da Câmara e do Senado.

É um cenário, com paredes falsas onde nada tem consistência nem conteúdo. O principal candidato ao comando da Câmara, deputado Michel Temer, informa que tem “propostas sérias de reestruturação da Casa”.

Quais? Ontem deu notícia de uma delas: “Vou acabar com essa história de baixo clero e alto clero.” Igualdade na fraternidade, pois. 

O principal candidato ao comando do Senado, senador Tião Viana, divulgou uma carta de duas páginas e meia em que uma única vez diz direta e objetivamente a palavra “proponho”. O quê? 

“Construirmos o Legislativo do tempo presente.” Como?

Mediante a adoção de uma “agenda ousadamente positiva”. Com qual finalidade? 

“Sobrepor-se à agenda da crise e impedir que o Parlamento fique a reboque dos acontecimentos.” Uma locomotiva em ritmo de Brasil grande, presumidamente.

E assim, em tom de panfletagem eleitoral, se desenrolam as preliminares das eleições de fevereiro. Concepções genéricas sobre a afirmação da “altivez” do Legislativo, chavões sobre a “judicialização” da política não atendem “as crescentes demandas da sociedade em torno de um Congresso Nacional afirmativo e propositivo”, como o senador Viana considera necessário em sua carta aos eleitores da corporação.

Atendem, quando muito, ao que demanda a performance dos candidatos na batalha do voto a voto, a fim de se compor o cenário com algo mais que os acertos interpartidários, estes sim as reais referências na troca de comando do Parlamento.

A preocupação dos personagens é a de arregimentar apoios ao custo que for. Inclusive o da compostura. Como faz o Executivo em relação ao Legislativo, que incorpora o pior e não presta atenção no melhor dos outros dois Poderes. Ao contrário, ataca o ativismo do Judiciário no lugar de buscar ser tão ou mais ativo.

O presidente da República tem 37 ministérios e milhares de cargos de confiança à disposição para lotear na formação de sua maioria parlamentar. Aos presidentes da Câmara e do Senado cabem duas dezenas de cargos das Mesas Diretoras para entregar aos partidos ali representados e, assim, tentar obter a maioria dos votos dos colegas.

Antigamente a coisa não era assim tão escancarada. Hoje, no caso da Câmara principalmente, faz-se a divisão de maneira desabrida, sem pejo: é a primeira secretaria para um partido, a segunda para outro, as suplências para os menos cotados, as vice-presidências para os mais importantes e está feita a receita.

Se resulta em boa coisa, não interessa. Exatamente como a lógica do Executivo: arma-se a maioria, mas não necessariamente se faz um bom uso dela. Se Michel Temer assegura a vitória com essa prática de loteamento, não é o que está em questão. Pode até perder como vários outros candidatos “do poder” já perderam.

Lamentável é o processo. Este por si só já consolida a degradação do Poder Legislativo e invalida quaisquer manifestações contra alegadas injustiças de avaliação cometidas contra a instituição.

Não existe maior prova da degenerescência que o ambiente na antessala da escolha dos novos presidentes das duas Casas do Congresso Nacional.

Faz algum sentido um candidato a presidir a Câmara dos Deputados abraçar a causa da extinção do “baixo clero e do alto clero?” Nenhum, a não ser como exercício de demagogia. E autorreferida, como se o Congresso fosse um grêmio recreativo e não a entidade de representação popular com todas as responsabilidades públicas inerentes a este papel.

Viana, Temer, Aldo Rebelo, Garibaldi Alves e todo o plantel de candidatos dispõem de uma gama de assuntos para ser abordados que passam pelo aprimoramento do processo legislativo e vão muito além do panfleto. 

Isonomia

Se não é eticamente adequado que um presidente de partido acumule essa função com a chefia de um ministério - conforme indicam a regras da Comissão de Ética Pública da Presidência da República -, não é aconselhável também que um político presida ao mesmo tempo um partido e a Câmara dos Deputados.

O conceito de conflito de interesses (mesmo presumido) é o mesmo. Daí o plano inicial, já abandonado, de o presidente do PMDB, Michel Temer, se licenciar do posto caso venha a se eleger presidente da Câmara.

Temer é um jurista e desses bastante referidos no formalismo, várias vezes cotado para o cargo de ministro da Justiça. Por essas e muitas outras mais, certamente saberia muito bem ao paladar geral, e ao decoro legislativo em particular, a retomada da ideia original do afastamento.

Mais não seja como medida preventiva a eventuais questionamentos de conduta.

ILIMAR FRANCO

Enfrentar a crise

Panorama Político

O Globo - 08/01/2009
 

O governo Lula vai reunir empresários, trabalhadores e personalidades que integram o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para atualizar a agenda de desenvolvimento do país. O governo espera que surjam propostas novas para superar os efeitos da crise. Seminário semelhante em 2006 resultou no PAC. Virão ao Brasil, em março, participar desse debate os economistas James Galbraith, Robert Guttmann e Ignacy Sachs.


Serra não quer nem marolinha 

Líder nas pesquisas de intenção de voto e com 90% de conhecimento, a tarefa eleitoral prioritária do governador José Serra, neste ano, é governar bem São Paulo. Acredita, dizem os serristas, que assim imporá com naturalidade sua candidatura ao PSDB. Com um programa de investimento de R$18 bilhões, Serra vai acompanhar com lupa a evolução das receitas estaduais. No campo político, já tem amarrado ao seu projeto o DEM, o PPS e parcela do PMDB. Internamente, agirá com cautela e paciência para costurar a aliança interna, sobretudo com o governador Aécio Neves (MG), que também postula concorrer à Presidência. 


A fragilidade jurídica impede que os senadores e partidos assumam compromisso" - Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara (RN), sobre a reeleição do primo Garibaldi Alves (PMDB-RN) para a presidência do Senado 

PREOCUPAÇÕES DE LULA. No programa de rádio "Café com o presidente", canal direto de Lula com a população, o tema mais abordado por ele em 2008 foi a geração de empregos, citado 21 dias. Em segundo lugar está o PAC, bandeira do segundo mandato, levantado em 17 programas. Depois vem a crise internacional e a dos alimentos, acarretada pelo aumento do preço das commodities, presente em 15 dos 51 programas. 

Pragmatismo 


Além de prestar um serviço ao Palácio do Planalto, o PDT quer garantir um cargo de suplente na Mesa Diretora e a presidência de uma comissão ao apoiar Michel Temer (PMDB-SP) para presidente da Câmara, abandonando Aldo Rebelo (PCdoB-SP). "Somos intrépidos para defender nossos direitos", disse o deputado Mário Heringer (PDT-MG), que até o fim do mês passado era líder do Bloco de Esquerda. 

CNJ e cartórios 


Nota técnica do Conselho Nacional de Justiça recomenda a rejeição, pela Câmara dos Deputados, da proposta de emenda constitucional que permite a efetivação de titulares de cartórios sem concurso público. Para o CNJ, a proposta "caminha na contramão" do sistema de recrutamento de pessoal para o poder público e seria um "descompasso histórico". O documento afirma ainda que o STF já considerou a medida inconstitucional ao julgar outras matérias.

Bate-boca 

Michel Temer (PMDB-SP) ligou ontem para Osmar Serraglio (PMDB-PR) e pediu que ele retire sua candidatura à presidência da Câmara. "Se eu conversar muito com você, fico sem ânimo para fazer campanha", encerrou Serraglio. 

Sem discurso 

Serraglio, aliás, terminou o dia ontem desanimado. A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados discutiu e encampou uma de suas principais propostas de campanha: a concessão de plano de saúde para funcionários comissionados. 


A PREFEITA de Natal, Micarla de Sousa, declara hoje situação de calamidade pública na saúde, o que lhe permitirá dispensar licitação para a contratação de médicos e compra de material. 

TROCA-TROCA. Rogério Guedes assumiu ontem a diretoria-geral do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) no lugar de Marcelo Lopes, que será o novo superintendente do Sebrae no Rio Grande do Sul. 

O PRESIDENTE da Fundação Milton Campos, Francisco Turra, quer o PP fora do governo. Diz que o partido virou coadjuvante na política nacional.

MERDA NÃO AFUNDA


QUINTA NOS JORNAIS


Globo: Estados quintuplicam os gastos e investem menos

 

Folha: Fuga de dólares é a maior desde 1982

Estadão: Governo quer limitar uso do FAT em acordos

JB: Israel exige saída de civis e amplia ataque

Correio: Em alta - Preço da cesta básica no DF dá o maior salto desde 1997

Valor: Fundos de pensão têm o pior ano de sua história

Gazeta Mercantil: Saldo do fundo 157 pode superar R$ 1 bi

Estado de Minas: Mais dinheiro para quem vende 10 dias de férias