segunda-feira, julho 11, 2016

Mau tempo na agricultura - EDITORIAL ESTADÃO

ESTADÃO - 11/07

Sustentar o saldo comercial será a contribuição mais vistosa do setor para a economia do país



O governo poderá reclamar dos céus, quando apresentar o balanço da economia nacional de 2016. A crise do ano passado, quando o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 3,8%, foi atenuada pelo crescimento de 1,8% da produção agropecuária, enquanto a atividade industrial diminuiu 6,2% e a de serviços, 3,3%. Neste ano, o campo continua sustentando a receita de exportações e garantindo o saldo comercial, mas sua contribuição para o desempenho geral dos negócios deve ir pouco além disso.

A safra de grãos de 2015-2016 deve atingir 189,3 milhões de toneladas, 8,9% menos que na temporada anterior, segundo a 10.ª estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em 2014-2015, o País havia colhido 208 milhões de toneladas, um recorde histórico.

Os números calculados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são um pouco diferentes e indicam uma colheita de 191,8 milhões de toneladas, mas também com redução significativa – de 8,4% – em relação à safra precedente. As causas principais podem ter variado entre regiões, mas foram sempre vinculadas ao tempo, com excesso ou escassez de chuvas nos momentos menos adequados.

Em anos de boa colheita e boa receita, a agropecuária contribui para o desempenho de outros setores, movimentando o consumo de bens industrializados, como roupas, calçados e eletroeletrônicos, e absorvendo bens de produção, como fertilizantes, defensivos, máquinas e equipamentos.

Neste ano, as vendas no atacado de tratores de rodas totalizaram 14.340 unidades de janeiro a junho, 31% menos que no primeiro semestre de 2015. Foram vendidos 279 cultivadores motorizados, número 38,7% menor que o de um ano antes. O total de colheitadeiras vendidas, de 1.693 unidades, foi 14% inferior ao da primeira metade do ano anterior.

Em 2014 e 2015, as vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias já haviam diminuído. O desempenho do agronegócio havia sido mais satisfatório que em 2016, mas nesses anos as vendas de equipamentos foram em boa parte prejudicadas pelo fiasco dos programas de infraestrutura e pela crise do setor de construção pesada.

As quebras de produtividade e de produção, neste ano, ocorreram na maior parte das lavouras de cereais, leguminosas e oleaginosas, no primeiro semestre. As poucas estimativas otimistas estão concentradas nas culturas de inverno, com colheita prevista para o segundo semestre. A safra de trigo, o produto mais importante desse grupo, está estimada pela Conab em 6,28 milhões de toneladas, com aumento de 13,5% em relação à anterior.

Segundo o balanço de oferta e demanda publicado pela Conab, o estoque final de trigo deve passar de 743,7 mil toneladas na temporada anterior para 1,01 milhão na atual. Os estoques de algodão em pluma, arroz em casca, feijão, soja e derivados devem diminuir.

Para avaliar a produção total do campo falta levar em conta as estimativas de outras classes de cultura, como café e cana-de-açúcar, e dos vários tipos de criação de animais. Para o café e a cana as projeções são de aumento de volume, mas o balanço geral será com certeza muito afetado pela redução do volume de cereais, leguminosas e oleaginosas. Os efeitos da quebra têm aparecido e continuarão a aparecer nos preços. No semestre, os preços dos produtos agropecuários subiram 16,93% no atacado.

Mesmo com as perdas causadas pelo mau tempo, o agronegócio continuou sustentando a balança comercial. As exportações do setor totalizaram no primeiro semestre US$ 45 bilhões, 49,9% da receita obtida com o comércio externo de bens. Subtraído o valor importado, verificou-se um superávit de US$ 38,91 bilhões, mais que suficiente para compensar o déficit de outros segmentos produtivos, principalmente da área de manufaturados. Graças ao agronegócio, o Brasil ainda alcançou um saldo comercial positivo de US$ 23,63 bilhões de janeiro a junho. Sustentar o saldo comercial será com certeza a contribuição mais vistosa do setor para a economia brasileira neste ano.


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