quarta-feira, setembro 10, 2014

Guido Mantega: entre ser e estar ministro - CRISTIANO ROMERO

VALOR ECONÔMICO - 10/09

Agonia de Mantega começou quando Lula lhe retirou apoio



Guido Mantega chega ao fim de seu reinado com um recorde - o de permanência no cargo (oito anos e cinco meses) - e uma certeza: o de estar em vez de ser ministro. Uma ironia cruel do destino para quem sempre foi muito cioso da própria autoridade. Abandonado por Lula e por Dilma, o outrora ministro forte se aproxima do fim do governo fraco, como os resultados da política econômica que liderou nos últimos anos.

O destino pregou uma peça em Mantega. Se ele tivesse deixado o Ministério da Fazenda no fim do segundo mandato do presidente Lula, como desejava inclusive a então presidente eleita, teria saído de cena como Pelé: no auge. Em 2010, a economia brasileira, cheia de confiança e prestígio, crescera 7,5%, a maior taxa de expansão desde 1986.

Mantega não teria batido o recorde de Pedro Malan, que ficou oito anos no cargo, mas teria se livrado do desempenho econômico pífio do país desde 2011 e da humilhação por que passa neste momento. Nunca se viu antes, na história do país, um ministro da Fazenda demitido com quatro meses de antecedência. No Brasil e provavelmente em qualquer outro lugar, não existe ministro da Fazenda fraco.

Lula pediu a Dilma que mantivesse Mantega no posto por pelo menos mais um ano. A presidente não tinha propriamente um nome para colocar no lugar, até porque, economista, considera a si mesma ministra da Fazenda. De toda maneira, como sempre teve bom relacionamento com o ministro, cultivado a partir de convergências ideológicas, aceitou que ele permanecesse.

Com a queda de Antonio Palocci no sexto mês do atual governo, Mantega exercitou bem a arte brasiliense de ocupar espaços vazios. Tornou-se ministro forte de Dilma, na verdade, o único. Com direito a exigências, como não participar de certas solenidades - a parada cívica de 7 de setembro é uma delas - e exigir que reuniões com quaisquer ministros, mesmo os do Palácio do Planalto, fossem realizadas em seu gabinete.

Foi o rumo da política econômica que enfraqueceu Mantega. Não foi ele o autor intelectual dos experimentos que resultaram, nos últimos três anos, em baixo crescimento, inflação acima da meta, deterioração fiscal, déficit externo crescente e níveis deprimidos de confiança de empresários e consumidores. A construção do fracasso foi coletiva e teve sempre a inspiração da presidente, com sua obsessão por alterar preços (juros, câmbio, tarifas) por meio do triunfo da vontade e não da realização de reformas.

É curiosa a trajetória de Mantega nos três mandatos petistas. Ele só se tornou ministro - primeiro, do Planejamento - porque Lula não fechou, a tempo, aliança com o PMDB de Renan Calheiros e José Sarney, que quis indicar a filha, Roseana, para o cargo. Palocci, então ministro da Fazenda, achou mais prudente ter Mantega na função. Aqueles eram dias terríveis de crise fiscal.

Palocci foi crucial também para que Lula transferisse Mantega, menos de dois anos depois, para a presidência do BNDES, em substituição a Carlos Lessa. Tanto no Planejamento quanto no banco, o economista de corte "desenvolvimentista" teve passagem discreta e alinhada com os principais objetivos da política econômica dita "neoliberal" de Palocci.

Mesmo quando assumiu o comando da Fazenda, no fim de março de 2006, Mantega procurou manter o status quo da gestão econômica petista até ali. Sua primeira equipe tinha nomes do mercado de peso, como Carlos Kawall, ex-economista-chefe do Citibank (hoje, do J. Safra), além de técnicos com ótima reputação como Bernard Appy (braço-direito de Palocci), o embaixador Marcos Galvão (hoje, representante do Brasil junto à OMC) e Jorge Rachid.

A rigor, Mantega mudou nomes da equipe de Palocci, mas não o rumo da política. É verdade que, já naquele período, começou a pressionar o Banco Central (BC), ainda que sem sucesso, a mudar a política cambial, com o objetivo de forçar uma desvalorização do real.

No segundo mandato de Lula, já sob forte inspiração de Dilma Rousseff, que sempre conviveu mal com a política econômica de Palocci, Mantega passou a operar mudanças com desenvoltura. Sua primeira vitória foi evitar que Lula reduzisse, em 2007, a meta de inflação fixada para 2009, uma triste contribuição à resistência inflacionária existente hoje. No ano seguinte, tentou de todas as formas convencer o presidente a demitir Henrique Meirelles do BC.

Lula resistiu às investidas de Mantega. Em seu mandato, manteve a autonomia operacional do BC, não criou qualquer obstáculo à entrada de capitais no país e não aceitou desvalorizar a moeda na marra para supostamente ajudar a indústria nacional. Lula também não tergiversou em relação à manutenção da inflação e de suas expectativas na meta, com exceção do ano eleitoral de 2010. O presidente fez concessões somente nas áreas fiscal e parafiscal, depois da crise de 2008, convencido de que a economia caminhava para a estagnação.

Não foi à toa que, apenas depois da saída de Palocci, Mantega e seus colegas de equipe econômica, avalizados por Dilma, passaram a fazer tudo o que sempre desejaram na gestão Lula e não tiveram autorização para tanto. É como se o PT tivesse chegado ao poder, na área econômica, apenas nove anos depois do primeiro triunfo eleitoral de Lula.

Mantega não se tornou demissível apenas depois de a presidente sinalizar ao mercado, na semana passada, que ele não permanecerá no cargo num possível segundo mandato. O ministro agoniza desde que, instado por empresários e banqueiros, Lula disse a Dilma, em abril do ano passado, que não avalizava mais a sua permanência. A presidente resistiu à pressão, temerosa de que a substituição fosse vista como uma interferência do antecessor em seu governo.

Meses depois, Dilma planejou trocar Mantega, mas, sem encontrar nomes de seu agrado, postergou a decisão. Adiante, concluiu que perdeu o timing da mudança, criando uma situação incômoda e insólita: a do ministro da Fazenda que não é, mas está.

A frágil situação de Mantega, bem como a tentativa frustrada do Banco Central de calar na Justiça um de seus críticos, é o retrato sem retoques do fim de festa em que se transformou o experimento econômico do governo Dilma Rousseff.

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