terça-feira, maio 29, 2012

O risco da dívida - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 29/05

As famílias brasileiras já estão endividadas demais ou não? Dependendo do indicador, a situação parece tranquila, e, mais do que isso, com grande espaço para crescer. Mesmo assim, é preciso lembrar o que já foi dito neste espaço: o comprometimento da renda das famílias já está alto, no Brasil o dinheiro é muito caro, e o ritmo de crescimento da inadimplência está acelerado.

O volume de créditos em atraso na economia brasileira - como um todo, somando-se o crédito de pessoa física e o das empresas - cresceu 35,5% nos últimos 12 meses até abril. Saiu de R$ 58 bilhões para R$ 79 bilhões, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central na sexta-feira.

Esse volume mostra o total de empréstimo sem pagamento há mais de 90 dias. De janeiro a abril, a alta é de 8,8% em relação ao mesmo período de 2011. O problema é principalmente o ritmo do crescimento do atraso. O crédito cresce a 18% ao ano, mas os atrasos cresceram a 35%.

A provisão que os bancos têm que fazer para o chamado crédito podre, que tem inadimplência acima de 180 dias, subiu 24% nos 12 meses até abril e atingiu R$ 67 bilhões. De janeiro a abril, a alta é de 4%.

Há muita confusão sobre os números de endividamento, em parte porque no Brasil até recentemente o crédito era tão baixo que nem era rotina acompanhar a evolução dos indicadores. Há vários ângulos pelos quais se pode avaliar o endividamento, pegando-se, por exemplo, só a dívida das famílias. Se for como percentual do PIB, no Brasil é 22%, nos EUA, 90%. Deve ter sido a esse indicador que o ministro Guido Mantega se referiu quando disse à "Folha de S.Paulo" que não se deveria preocupar com isso.

Outro indicador também de estoque da dívida mostra o Brasil numa situação muito favorável. Se for comparado o total dos débitos bancários das famílias com o que elas têm de renda em um ano dá 44% no Brasil e 117,5% nos Estados Unidos. Isso engana, porque evidentemente ninguém vai pagar a dívida inteira, financiada em vários anos, com a renda integral de um ano.

O mais relevante é o fluxo: qual é o comprometimento médio da renda mensal das famílias com o pagamento de juros ou amortização do principal? Isso é o que bate no bolso diretamente, emagrecendo a renda disponível para todos os outros gastos como alimento, habitação, transporte, saúde e educação. No Brasil é 22%, nos Estados Unidos é 10,88%.

Ou seja, os norte-americanos são mais endividados, em geral pelos financiamentos imobiliários que são altos e de longo prazo. A cada mês, no entanto, as prestações são baixas, porque os juros são praticamente negativos.

A inadimplência da pessoa física voltou a subir em abril e atingiu 7,6% das operações. No financiamento de veículos, a taxa de inadimplência disparou nos últimos 15 meses. Saiu de 2,5%, em dezembro de 2010, para 5,9%, em abril deste ano, com alta em todos os meses.

Os grandes números de provisão, ou de crédito em atrasos, assustam, mas eles incluem famílias e empresas. E como percentual do total emprestado a taxa de inadimplência é baixa, está em 3,8%. Não há ainda sinal vermelho no crédito, e o Brasil não está às vésperas dos problemas enfrentados por outros países com o estouro de bolhas.

O problema preocupa por todos esses motivos acima: as famílias estão com parte importante da renda comprometida com o serviço da dívida, e isso é alto até para padrões internacionais. Segundo, os juros no Brasil são altos demais, o que torna mais arriscado uma dívida virar uma bola de neve. Terceiro, o mercado de trabalho está aquecido, por enquanto, e isso ajuda as pessoas físicas a pagarem seus débitos, mas se houver qualquer reviravolta a situação pode se complicar.

Se houver qualquer vento contra, no entanto, com os juros caros no Brasil, as famílias podem ter dificuldade de pagar. É por isso que não é uma atitude muito ajuizada o Ministério da Fazenda incentivar o endividamento só porque o ministro quer ser o "levantador" do PIB.

A queda dos juros e os incentivos à renegociação que estão em curso ajudam a desfazer o caroço. Mas incentivar o endividamento de famílias já endividadas só porque o governo quer um número maior do PIB é um perigo. Crédito é bom quando quem o tomou pode pagar. Quando não pode pagar, vira um problema para as famílias, os bancos, os governos.