quarta-feira, julho 12, 2017

Thoreau aos 200 - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 11/07
Quem lê Henry David Thoreau? Passam amanhã 200 anos do seu nascimento. E os artigos da efeméride não são entusiastas. Thoreau parece "irrelevante", "anedótico", "adolescente". Para voltar ao início: quem lê Thoreau, hoje?

Resposta: eu. Poderia argumentar que a minha costela anarquista é a melhor da minha anatomia política –e uma fonte de equívocos para quem não entende direito o meu "conservadorismo".

Mas devo a Thoreau essa costela. Lembro-me de ler "Walden", pela primeira vez, em plena adolescência. Alguns dirão que "Walden" é, precisamente, um livro adolescente escrito para adolescentes. Ali temos o autor, na primeira pessoa do singular, a relatar dois anos e dois meses de vida no bosque. Afastado da "civilização", enfim, como um Rousseau americano.

A visão é superficial e ignora, pelo menos, duas coisas. A primeira é a beleza da prosa. Como são belas as manhãs em Thoreau –"a manhã traz de volta as eras heroicas" etc., cito de cor– e como são certeiras as suas observações mundanas. "Todos nos rimos das modas antigas", escreve ele, "e todos seguimos religiosamente as modas novas" (também cito de cor). É frase que fica gravada para sempre.

Por causa dele, aprendi a rir mais depressa das modas novas do que das antigas, o que me impediu de as seguir com um entusiasmo –agora, sim– adolescente. Falo de modas ideológicas ou indumentárias, tanto faz: o último grito não passa de um grito.

E também por causa dele, confissão pessoal, cheguei aos 41 sem nunca ter usado relógio. Somos escravos do tempo mas não precisamos exibir as correntes.

Mas leituras superficiais de Thoreau ignoram outro ponto: a escolha de viver junto ao lago Walden expressa um desejo nobre que define toda a sua obra. Qual? O desejo de ser deixado em paz.

Bem sei que, nas sociedades infantilizadas em que vivemos, exigimos da autoridade central uma companhia intrusiva. Não queremos o Estado nas suas funções básicas; exigimos um Estado máximo até para as coisas mínimas.


Na sua "A Desobediência Civil", o programa das festas é diferente para Thoreau: "o melhor governo é o que menos governa", diz ele, logo de início, na impossibilidade de ter governo nenhum.

O texto não se limita a uma condenação da escravidão e da guerra, promovida por um Estado imoral. Thoreau vai mais longe –e ocupa-se de questões pré-políticas que nunca verdadeiramente nos abandonam. Será que o Estado substitui a consciência individual? Ou esta pertence apenas aos homens, o que logicamente exclui um Estado moralista que determina como devemos viver ou morrer?

Cem anos antes das grandes carnificinas do século 20, Thoreau vislumbrou as consequências trágicas dessa transferência de responsabilidade moral do indivíduo para o Estado.

A primeira consequência é a atribuição de um poder abusivo a homens limitados e corrompíveis. A segunda é a transformação de uma sociedade de homens livres, moralmente livres, em uma organização de autômatos que se limitam a seguir ordens vindas de cima.


Quando escutamos as desculpas de Eichmann em Jerusalém, é impossível não lembrar as manhãs gloriosas de Thoreau.

O desejo de sermos deixados em paz é também o desejo de protegermos o nosso caráter.

Discórdias sobre o meu amigo? Várias. Não tenho da "civilização" a visão dantesca que ele cultiva. Digo mais: Thoreau só escreve como escreve porque ele é, acima de tudo, um homem civilizado.

Mas o essencial não mora aqui. Gosto de ler Thoreau nos momentos confusos, só para lembrar verdades límpidas como as águas do lago Walden.

A vida é minha. O tempo é escasso. As modas de hoje são gargalhadas futuras. Por vezes, a multidão que interessa é a multidão de um único homem. O poder político é necessário, mas não deixa de ser um mal necessário. E não assiste a nenhum político, a nenhum governo, a nenhum Estado, a condução da minha alma.

No bicentenário do nascimento, Thoreau simboliza a coragem da liberdade. Toda gente tem a palavra "liberdade" na boca. Mas raros são aqueles que possuem a coragem suficiente para a viver. Um adolescente? Engraçado. Não conheço autor mais exigente, mais indispensável –e mais adulto.

Ocupação da mesa do Senado é expressão do totalitarismo - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/07

Senadoras do PT e PCdoB tentaram impedir uma votação à força e mostraram do que é feito o modo totalitário de pensar



A ocupação da mesa diretora do Senado pelas senadoras Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) nesta terça-feira (11) vai entrar para a história como um dos ataques mais constrangedores à democracia brasileira desde a redemocratização. Sentadas no lugar de quem deveria conduzir a sessão, as três parlamentares quiseram impor, à força, ideias que não conseguiriam vencer no voto.

O funcionamento de uma democracia exige respeito às instituições e, por consequência, às regras que as regem. É o respeito a essas regras que garante à sociedade que não haverá abuso no uso do poder concedido a qualquer um dos três poderes. As três senadoras, vendo frustrada sua vontade de alterar o projeto de lei da reforma trabalhista, pisaram fora dos limites impostos a seu trabalho parlamentar. A consequência que se espera agora é um processo no Conselho de Ética do Senado.

Elas, infelizmente, não estão sozinhas. Episódios como esse têm se tornado mais comuns em votações que incomodam alguns setores organizados da sociedade. Recentemente, em Curitiba, sindicatos de funcionários públicos invadiram a Câmara Municipal com o igual propósito de impedir uma votação. Não aceitaram que o assunto fosse resolvido pelos representantes eleitos.

Invasões, ameaças e tomadas de mesa estão no mesmo lado errado da história. O tempo da conquista do poder usando todos os meios foi enterrado pelas vantagens incomparáveis do debate democrático. Muita gente que chegou a Brasília pela via democrática, no entanto, parece não entender o risco implícito na negação do debate.

Disse a senadora Gleisi Hoffmann em um evento no último sábado no qual ameaçou tomar a cadeira do presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE): “Às vezes a gente pensa que tem que ir para as vias de fato”. Como se viu nesta terça-feira, esta não era uma força de expressão, mas sim um chamado à ação. Levado ao limite, o argumento da senadora é o de que todo cidadão deve impor sua vontade pela força.

Até o momento, a tramitação da reforma trabalhista seguiu a normalidade no Congresso. O projeto foi apresentado pelo Executivo no fim do ano passado. Em uma negociação que envolveu deputados e o Palácio do Planalto, chegou-se ao texto atual, uma reforma ampla das leis trabalhistas que moderniza as normas sem retirar direitos, como insiste em dizer a oposição. Aprovada no plenário da Câmara, seguiu para o Senado, onde recebeu relatórios em três comissões – dois a favor e um contra. Em um acordo, os líderes da base do governo decidiram votar o texto como enviado pela Câmara e deixar possíveis alterações para um segundo momento, provavelmente por uma medida provisória.

O cálculo político feito pelas lideranças governistas faz parte da tramitação de qualquer projeto. Como as alterações pleiteadas no Senado são pontuais e não alteram substancialmente o texto, não há risco de uma diminuição do papel dos senadores nessa negociação. Seria provavelmente mais arriscado o país perder a chance de fazer o que parece ser a única reforma econômica viável neste momento de crise política – modificações nesta fase fariam o texto voltar para a Câmara, agora ocupada com a denúncia contra o presidente Michel Temer.

Nada impede que qualquer senador inconformado apresente depois um novo projeto de lei para alterar os pontos de discórdia, caso o governo não cumpra o compromisso de redigir uma medida provisória.

O voto deve ser sempre a saída para qualquer impasse ou inconformismo. Ao tomarem conta da mesa diretora do Senado, as senadoras do PT e do PCdoB querem dizer que há um caminho alternativo, no qual pode-se impor uma visão de mundo. Esse é invariavelmente o rumo do totalitarismo.

O exercício da omissão - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 12/07

O relator Sérgio Zveiter utilizou as 31 páginas de seu parecer para afirmar, na CCJ, a indigente tese de que, se há uma denúncia, os deputados devem aceitá-la

Cumprindo as expectativas, o deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ) apresentou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara um parecer eminentemente político sobre a denúncia feita contra o presidente Michel Temer pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Sem corresponder às suas responsabilidades constitucionais, que lhe impunham a tarefa de analisar com seriedade o conteúdo da acusação feita pelo procurador-geral, o relator utilizou as 31 páginas de seu parecer para afirmar a indigente tese de que, se há uma denúncia, os deputados devem aceitá-la. Segundo Zveiter, o papel da Câmara é justamente não cumprir o papel que a Constituição lhe dá, portando-se tão somente como despachante da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O relatório de Zveiter mencionou a existência de uma “narrativa forte”, com “sólidos indícios” contra o presidente Michel Temer. Mais do que convencer, tais palavras parecem destinadas a lançar uma cortina de fumaça sobre a acintosa fragilidade da peça acusatória. Janot acusou o presidente da República de receber vantagem indevida de R$ 500 mil, mas não apontou um único indício de que Temer teria recebido tal valor – onde, quando, como. Zveiter, no entanto, não enfrentou a questão, optando simplesmente por apoiar a admissibilidade da denúncia.

O relator teve ainda a ousadia de dizer que, atuando assim, se tinha “pleno funcionamento dos mecanismos que a Constituição Federal prevê para uma crise desta magnitude”. Ora, ao atribuir à Câmara o juízo de admissibilidade de uma denúncia contra o presidente da República, a Assembleia Constituinte de 1988 pretendeu assegurar que um presidente não seria afastado do cargo por uma denúncia inepta. Aos olhos do constituinte, esse é um assunto tão grave que não pode ser deixado a cargo apenas do Supremo Tribunal Federal.

Em vez de simplesmente reconhecer o dever que a Constituição lhe impunha, o deputado Zveiter preferiu inverter o ônus da prova e declarar a estranha teoria de que, em caso de dúvida num processo penal, deve valer a palavra da acusação. Ora, pretender afastar um presidente da República do cargo simplesmente por força da “narrativa forte” do procurador-geral da República, que não veio acompanhada dos necessários elementos probatórios, é uma perigosa arbitrariedade, que a Constituição pretendeu evitar justamente sujeitando a denúncia à apreciação da Câmara.

Cabe agora à CCJ, e, depois, ao plenário da Câmara, ter uma noção mais clara do seu papel constitucional. O inarredável caráter político do Congresso não pode levar à tese de que os deputados devem simplesmente anuir ao pedido do procurador-geral da República, como se eles não tivessem o dever de checar se os termos da acusação têm um mínimo de fundamento.

Para que a crise política não se transforme em campo aberto para a irresponsabilidade dos oportunistas de plantão, é necessário que as autoridades dos Três Poderes mantenham os pés no solo firme do bom Direito. O ordenamento jurídico deve ser o critério. Nesse sentido, são descabidas as críticas contra as trocas feitas pelos partidos da base aliada na composição da CCJ, para garantir votos favoráveis ao presidente Michel Temer. Esse tipo de condenação demonstra malicioso desconhecimento das regras parlamentares. Segundo o Regimento Interno da Câmara, cabe aos partidos designar os deputados que integrarão a comissão. É, portanto, legítimo que cada legenda assegure que os votos que lhe correspondem na CCJ estejam em conformidade com as diretrizes partidárias. Ao contrário do que alguns querem pintar, nada há de suspeito nesse tipo de articulação parlamentar. É um recurso comum e regular.

O que não é comum e regular é querer derrubar um presidente da República sem explicitar claramente a ação delituosa que teria sido cometida pelo governante. As pessoas que assim agem estão cegas de ódio e de paixão ideológica. Não veem que, se derrubarem o atual presidente, apenas transferirão a crise para o próximo que ocupar o Palácio do Planalto. E tanto pior para o País se essa pessoa for também objeto de um ou dois, talvez mais, processos da Lava Jato e operações afins. Cabe ao Congresso encontrar soluções sérias para a crise, não meios de eternizá-la.

Instituições insultadas - JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADÃO - 12/07

Interesse pessoal leva poderosos a tentarem dificultar a atuação do Estado de Direito


A série de insultos às instituições republicanas culminou ontem com o sequestro da Mesa do Senado por uma horda de bandalheiras – as senadoras Fátima Bezerra (PT-RN) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM,) à frente – para impedir a votação da reforma trabalhista. Ao mandar apagar as luzes do plenário, o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), fez a metáfora típica de membro do baixo clero num cargo do qual não está à altura.

Essa submissão da coisa pública às mesquinhas ambições pessoais da baixa política teve início após o impeachment de Dilma Rousseff (PT-RS), quando seus sequazes percorrerem o Brasil e o mundo a denunciar o “gópi” (da lavra da acima citada Fátima Bezerra), garantindo que a democracia havia sido interrompida por uma intervenção ilegítima. Agora que o governo Temer se assemelha cada vez mais a um zumbi assombrando um Brasil espoliado e intranquilo, os mesmos pregoeiros da desgraça garantem que o eventual substituto provisório e, quem sabe, provável sucessor até 2018, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estaria protagonizando o golpe do golpe. Mas as instituições parecem funcionar e Deus queira que as aparências não nos enganem.

O que não falta desde então, entretanto, são tentativas insidiosas de desmoralizá-las em proveito próprio. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi o primeiro a entrar nesse cordão dos “arrasa-instituições”. Defenestrada em processo constitucional normalíssimo, a mineira dos Pampas não perde uma oportunidade de maldizer os Poderes Legislativo e Judiciário, que a depuseram para punir crimes de responsabilidade que ela cometeu, como as famigeradas “pedaladas fiscais”. Sua narrativa da deposição ilícita de uma “presidenta” honesta, sem contas no exterior, pelo vingativo e corrupto inimigo, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que presidia a Casa que a destituiu, com o voto de mais de dois terços do total dos seus membros, correu o mundo para macular o seu afastamento definitivo, satanizando o sistema que a deserdou.

Responsável por sua insensata e inesperada ascensão ao posto máximo da República, o antecessor e padrinho dela, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu a idêntico expediente ao tentar transferir para investigadores, acusadores e julgadores de seus crimes as penas que lhe cabem. Após constatar, em telefonema a um comparsa, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seria “ingrato”, incapaz de ser minimamente leal a benfeitores que o promoveram, abusa de ataques insanos ao Ministério Público (MP), à Polícia Federal (PF) e ao juiz federal Sergio Moro, responsáveis pelos cinco processos a que responde. E, dizendo-se vítima de ditadura inexistente, avisou que, se condenado, apelará a Cortes no exterior.

Na guerra de vaidades e por poder nem todos os chefes dessas instituições têm agido de forma incontestável no uso de suas atribuições. Rodrigo Janot, que se jacta de enfrentar, de forma imparcial e sobranceira, os mais poderosos varões nada impolutos da República, escorregou na baba da própria ambição. Em busca de um lugar no pódio da corrida do combate à corrupção, autorizou uma negociação nefasta para o interesse público com os marchantes da família Batista de Anápolis, propiciando-lhes impunidade absurda por sua participação numa ação programada de que a principal vítima foi o presidente da República. A obra-prima dele, a delação premiada de Joesley Batista, seu irmão e seus empregadinhos, resultou num desastre de relações públicas. A troca de 2 mil anos de pena por uma gravação do chefe do governo em flagrante delito empata em desconfiança e impopularidade com a desastrada atuação no comando do Executivo do mais poderoso de seus acusados. Comparar a troca com a “escolha de Sofia”, referência à opção entre dois filhos, salvando um em troca da morte do outro, da protagonista de William Styron, é a metáfora que sai pior do que a tentativa de correção.

A desastrada estratégia do tudo ou nada de Janot terminou por prejudicar muito mais a ação dos procuradores, incluindo os da força-tarefa da Operação Lava Jato, do que todas as tentativas de barrar suas iniciativas feitas pelos suspeitos de corrupção que ocupam cargos de mando na República. Sua sucessora, Raquel Dodge, terá uma missão árdua para corrigir isso, ao mesmo tempo que terá de esgarçar a teia de cumplicidade em que Temer e aliados pretendem enredá-la.

Impossível ainda será deixar o presidente de fora dessa tentativa malfazeja de desmoralizar as instituições da República para tentar safar-se dos próprios erros. Por mais inepta e frágil que seja a peça da acusação da lavra de Janot, que deu entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ela tem como núcleo um fato incontestável: o encontro injustificável de Temer com Joesley na calada da noite, no porão do Jaburu, para tratar de assuntos pra lá de suspeitos e da forma mais inconveniente.

Desde que a reunião foi divulgada, a expectativa de delação de ex-parceiros, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o contador Lúcio Funaro, desafia a reputação impecável alegada pelo morador do Jaburu. Nada disso, contudo, viria à baila se ele não tivesse permitido a constatação lógica de que pode ter cometido delitos de corrupção passiva, obstrução à investigação e formação de organização criminosa no único prazo em que não poderia tê-lo feito: os dois anos e meio em que completaria o mandato reduzido de Dilma Rousseff.

Sem fatos que possam socorrê-lo, o presidente contratou seu amigo fiel e conviva semanal Antônio Cláudio Mariz de Oliveira para enxovalhar a reputação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um órgão técnico em cuja boa-fé repousam inquéritos criminais da maior relevância, o Instituto Nacional de Criminalística. Mas o Estado de Direito depende do funcionamento de instituições que a defesa de Temer tem enxovalhado para garantir o bom emprego dele.

*Jornalista, poeta e escritor

Fechado para a verdade - PAULO DELGADO

ESTADÃO - 12/07

O que está em questão é a decisão de incriminar previamente um presidente


Grupo contrarreformista atacou o presidente de nação do subcontinente e o mantém sob ameaça. Alto funcionário, que operou na chancelaria, ligado ao Ministério Público, que lidera a operação, desertou. Abrigou-se num aparelho advocatício para receber algo como um resgate pago a sequestrador. Mensagem de gravador descreve o método maldoso. Divulgada de forma reiterada, anestesia o país, como se alguém estivesse com uma arma na cabeça, obrigado a oferecer exigências ao malfeitor, não cumpridas integralmente pelo tribunal receptor da ação. A autoridade judicial que dá seriedade à trama não informou que o sogro da sua filha é chefe na organização acusada do mataboi, nome da operação de extermínio. A malta foi beneficiada por dois ex-presidentes com a desnacionalização do banco de fomento, através de empréstimos a compadre. Mesmo assim enviou a extravagante denúncia para servir ao esquartejamento do presidente no plenário da bacia maior. Com avidez de servir, fugindo de flechas de bambu, o relator parlamentar largou sua tribo e se entregou à do procurador
(Rádio Mariel, Baía dos Porcos).

O Brasil continua mergulhado na imundície da desavença entre Justiça e política. A rivalidade, mais forte do que a lei e a moral. A glória do deboche dos signos e valores da Justiça é afirmada pelo procurador-geral que denuncia com provas ruins, adora a perspectiva útil do caso grande e se comparar a carrasco de São Sebastião. Um jogo mais poderoso do que o mundo das pessoas de bem.

A energia do vício de acusar distorce fatos, perverte sentidos, libera a energia imoral do espetáculo em que cresce o gênio maléfico de simular. A razão insensata prefere a vitória da condenação política à justiça da condenação jurídica.

Ninharias, urtigas, intrigas dão ao ciúme entre instituições uma significação moral. O discernimento entre verdade e erro é impossível. Com a supercodificação ético-penal do carcereiro resta à sociedade o medonho consolo de apoiar.

A teatralidade da acusação fez a desordem dominar o fato e sua aparência. A dança macabra da honestidade-desonestidade usufrui o êxtase da transgressão à norma, um jogo de irresponsabilidade. Não é a déficit de socialização que estamos assistindo, é a socialização diferente e preocupante. A revolta que preparam é de quem nada sabe da enfermidade de ânimo que é o desprezo pela justiça.

Está em curso o crime absoluto, apressado, distante da justiça metódica. Misturado com a mediocridade da disputa política, vira linchamento. Alguém ameaçado é obrigado a fazer a confissão do outro. Cada um que apoia a denúncia a apoia como se estive sob a faca do pecado. A marca intimidadora que manda pensar daquele jeito lembra o caudilho, notório regional que enlaça e encadeia crime e benefício, elementos da desordem que domina.

Nem todos os procuradores usam o poder para sujar mais a política. Mas dentro dos que querem um motor gira sem controle, a moral, enfiada de ilegalismos que domina o Brasil nos últimos tempos.

A divulgação criminal em curso é a teoria da imitação e associação diferencial entre interessados. Uma interação do cometer erro e propagá-lo como acerto, conduta estudada que favorece a desobediência à lei. Não é bem o crime do investigado que está em questão, mas a decisão de incriminar previamente um presidente.

Um script aplicado nos anos 1990 contra o governo. Disse um bambambã da época: “Sob segredo de fonte a gente conta pro repórter o que a gente quer. Ele publica e a gente usa a matéria como prova e se o juiz resistir colocamos em cima dele a imprensa amiga. Nenhum juiz aguenta”. Agora é pior. Embrulhamos tudo junto. Bolero de Ravel, espiral que gira sobre políticos fracos e partidos invertebrados.

A lenta recuperação econômica, a necessidade de que privilegiados se enquadrem em normas previdenciárias mais justas; o apoio à lei que permita ao trabalhador liberdade para enriquecer sem intermediário; tudo isso levou a elite do setor público a arrancar o pino da granada. O ataque de guerra ao governo transitório revela a violenta prática das hierarquias não eletivas do Estado contra a autonomia da representação popular.

O cenário desaba todo dia. De manhã, depois de levantar, ônibus, quatro horas de trabalho, comer, quatro horas de trabalho, ônibus, sopa, sono. Agitado pelo som do jogo da autoridade formando time. O absurdo da vida do cidadão concentrou-se no Estado que obriga a sociedade a engolir a jubilosa autoridade brilhar, por nada, no circo da novela-crise-política

O despotismo jurídico reproduz o populismo na sociedade e seus interesses. E a despensa jurídico-político armazenada no Supremo não é diferente da formação econômico-social que os fez escolhidos.

O Supremo está congelado no tempo de quem compôs sua maioria. O que nos permite supor que as necessidades específicas que interessam ao poder, e fazem um ministro do Supremo, continuam vigorando depois que o governo acaba. Ou seja, o Supremo é hoje Poder reacionário, a principal forma como se manifesta a formação jurídica-ideológica-social-econômica do período popular-populista. Principal espaço de poder do tempo derrotado. E está intacto, como bússola quebrada, conspirando contra o futuro para salvar o passado.

Joesley, JBS são siglas indexadas. Testas de ferro do tempo velho onde o Ministério Público aceitou ser o código de barra. Grave é infiltrar-se no Supremo e impor sua saga: sem prova objetiva para sustentar a incriminação, ofereceu o perdão absoluto ao criminoso que esnobou a Corte com a armadilha que envenenou o presidente. Sem força para parar o erro, o tribunal gira seu relógio na direção do estado de absurdo que é usufruir o poder sem exercê-lo.

O Estado nos impôs seu presente, indiferente ao que vivemos. Não indica o lugar da razão. E o Parlamento liquidará de vez com a política se a cabeça do presidente for entregue na bandeja a autoridades embrulhadas em mistérios.

*Sociólogo.

LULA PRESIDENTE EM 2017? NÃO SUBESTIMEM O INIMIGO! - RODRIGO CONSTANTINO

RODRIGO CONSTANTINO
Que está tudo muito estranho e nebuloso na política nacional, essa é a única certeza que se pode ter no momento. Articulações pesadas ocorrem nos bastidores, envolvendo os políticos e grupos mais poderosos do país, enquanto nós ficamos mais perdidos do que cego em tiroteio, com o risco de fazer papel de otário e servir como idiota útil aos interesses obscuros dessa turma. Em especial ao do maior bandido da política brasileira: Lula, o responsável pelo caos em que estamos.

Carlos Andreazza comentou na Jovem Pan sobre isso hoje, afirmando sem rodeios que Lula é o grande culpado por tudo:

O jornalista e deputado Paulo Eduardo Martins também tem se mostrado apreensivo com a possibilidade de um golpe em curso, e comentou:

Temer cai. Assume Rodrigo Maia. Ele é obrigado a convocar eleição indireta.

Lula é candidato na eleição indireta. Então Lula sai em campanha pela Câmara. Ele encontra um deputado e usa sua força de persuasão.

Lula: Olá companheiro, lembra de quando eu era presidente e você me apoiava? Pois é. Eu consegui muita coisa pra você, né? Emenda, dinheiro pra campanha…

Deputado: é. Foi muita coisa.

Lula: pois é. Agora eu preciso me eleger pra não ser preso pelo Moro, aquele fdp. Então companheiro, se você não votar em mim, irei pra cadeia logo e aí, sabe como é, terei que te delatar. Você e os outros companheiros.

Deputado: vai delatar o que? Não há nada de errado comigo e nem com o meu grupo.

Lula: companheiro, se não há nada de errado com você e com seu grupo, você não precisa temer. Só vai ter que provar inocência depois de ser exposto em todos os jornais que darão destaque a tudo o que eu falar. Não importa se é verdade ou mentira. Eu sempre menti e eles nunca viram problema nisso. Ok? Conto com seu voto

Deputado: Lula lá.

Já disse e repito, não defendo Temer, mas esse exercício de consequência é necessário. Lula já disse que vai perseguir a todos quando voltar poder. Podemos estar diante não de uma questão de mera punição e justiça, mas sim se continuaremos a ser uma democracia ou passaremos para uma ditadura bolivariana com um Lula mais maduro. É meu sincero temor.

Em seguida, Paulo voltou ao assunto com mais reflexões, defendendo-se da acusação impensada de que sugerir a possibilidade de um golpe seja o mesmo que defender corruptos:

Pedi pela renúncia de Temer no dia em que vazaram os áudios da conversa com Joesley Friboi.

Nas últimas horas tenho confessado publicamente um temor pelas consequências da queda de Temer, que pode ser a volta de Lula, que fará do Brasil uma Venezuela.

É apenas uma reflexão, honesta, sincera de quem tem humildade para admitir dúvidas e fragilidades. Foi o que bastou para eu ser acusado de “proteger corrupto”.

Nada mais errado. Protege o corrupto quem criminaliza a reflexão. Tudo que um corrupto ou autoritário precisa é de um povo que raciocina por slogan. Reflita.

Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Liberal, também fez uma análise cética e preocupante, que não descarta a volta de Lula ao poder pelas portas dos fundos, recomendando não subestimar o inimigo:

Avançando um pouco na teoria Lula Presidente 2017.

1 – Lula é o primeiro colocado nas pesquisas para presidente da república. Antes que você, meu leitor, venha com seus negacionismos, quero dizer que não interessa você não acreditar nas pesquisas. O que importa é que os congressistas, em geral, acreditam, e, portanto, essas pesquisas causariam impacto na eleição indireta.

2 – Ao longo dos últimos 15 anos, Lula fez muitos favores para muita gente. Ele foi um presidente que dialogou até mesmo com a oposição dele (FHC que o diga), e sempre foi muito generoso na liberação de emendas parlamentares.

3 – 95% da bancada nordestina foi eleita com ele ou por ele. Provavelmente apenas parlamentares nordestinos do PSDB e do DEM não votariam em Lula.

4 – Lula foi comparsa da maioria dos parlamentares, e principalmente dos líderes partidários. É inimaginável um cenário onde a maioria dos deputados do PP e do PR não votassem em Lula, sob pena de serem posteriormente delatados pelo Nove Dedos, em caso de prisão deste.

5 – Mesmo para aqueles parlamentares mais arredios, há sempre a possibilidade de chantagem por parte de Lula, inclusive fruto de investigações da Abin. Não custa lembrar, a agência de inteligência é aparelhada pelo PT e até hoje Temer tem dificuldades em preencher vagas do segundo e terceiro escalão porque a Abin não libera os processos de investigação social de propósito, para desgastar o presidente.

6 – Dinheiro para compra de parlamentares não falta a Lula.

7 – Lula está fazendo o jogo direitinho no que tange a voar sob o radar: está apoiando as eleições diretas com vigor, mesmo sabendo que essa é uma pauta irrealizável; com isso, se legitima a ser eleito por via indireta, afirmando que eivou todos os esforços em busca de uma “eleição democrática”.

8 – Certamente possui o apoio, ainda que velado, do Grupo Globo e Folha, dois dos maiores beneficiários do esquema de refinanciamentos, publicidade e isenções fiscais durante seu governo.

Não subestimem seu inimigo.

De tudo isso, só podemos manter mesmo o ceticismo e alertar: o “Fora Temer” pode muito bem ser o “Volta Lula”, até porque a cafajestada já preparou o “Fora Maia” para o segundo seguinte da queda eventual e cada vez mais provável de Temer. Todo cuidado é pouco!

Rodrigo Constantino

O BRASIL NÃO É PARA AMADORES: PT INVESTE EM NARRATIVA PODEROSA E ILUDE INOCENTES ÚTEIS - RODRIGO CONSTANTINO

RODRIGO CONSTANTINO
Há uma ala da “direita” que fechou com Rodrigo Janot, adotando um tom de purificação plena do “sistema corrompido” que mais parece coisa de jacobino. Ao lado do PSOL e do PT, essas pessoas indignadas com “tudo e todos que estão aí” passaram a gritar “Fora Temer”. Faz algum sentido: não temos bandidos favoritos. E Temer, nunca é demais lembrar, foi eleito pelos… petistas! Quem pariu Mateus que o embale, não é mesmo?

Só há um problema: a maldita narrativa. E tem gente que ainda não entendeu que, em política, é essa desgraçada que importa, mais do que fatos, mais do que lógica, mais até do que a economia. O PT, que de bobo não tem nada, preparou a narrativa desde o começo: sofreu um golpe pela mão de corruptos, e se jogou para a oposição no dia seguinte do impeachment de Dilma, talvez celebrado nos bastidores por Dirceu e Lula.

Temer se transformou, num passe de mágica, no ícone da direita (risos), o representante da elite golpista, dos banqueiros, da mídia, dos conservadores. Sim, ele que era vice de Dilma, que participou da gestão petista desde sempre. E Temer passou a ser a bola da vez, a encarnação do Mal, o responsável até mesmo pela desgraça causada pelo próprio PT.

Por pura necessidade de sobrevivência, seu governo apresentou algumas reformas tímidas, que encantam os mercados (afinal, se o PT continuasse no poder elas estariam descartadas). Mas Temer não tinha capital político para aguentar a pressão do “deep state”, e seu instinto de sobrevivência logo apontou para concessões, e mais concessões, até restar um arremedo de reforma, que protege o setor público e transfere o custo para os cidadãos trabalhadores.

Em meio a isso tudo, e com alguma reforma trabalhista e previdenciária ao menos no radar, vem Rodrigo Janot, com seu patriotismo despertado no exato momento da queda de Dilma. E numa espantosa delação extremamente premiada, numa armadilha tosca, o enfraquecido presidente tampão se deixa gravar em conservas nada republicanas com Joesley Batista, aquele que virou “campeão nacional” no governo do PT.

A situação de Temer fica mais delicada ainda, e entra em cena a Globo numa campanha sem precedentes para derrubá-lo, com o apoio entusiasmado dos Antagonistas. Poucas vozes alertam para o risco dessa estranha campanha, e uma delas é de Reinaldo Azevedo, que erra no tom, na forma histérica, mas não necessariamente no conteúdo. Só que uma gravação, vazada de forma criminosa, aumenta as suspeitas de que tudo isso é amor aos tucanos, postura partidária, e portanto o teor do alerta cai em descrédito.

Não deveria. Como não deveria ter sido ignorado o ministro Gilmar Mendes, em direto combate com Fachin e companhia. Mas foi. A sanha por “justiça” é total. O povo está indignado, saturado, cansado demais, e quer ver o circo pegar fogo. Quer ver todos esses políticos canalhas punidos, mesmo que seja preciso abusar um pouco das leis. Só há um problema: igualar todos é proteger os piores, ou seja, os petistas. Só há mais um problema: Lula, o chefe da quadrilha, o maior responsável pelo caos no país, foi também o mais protegido nessa inquisição implacável. Ninguém mais fala dele!

Agora só pedem a cabeça de Temer, transformado por Joesley em chefe da quadrilha mais perigosa (Lula agradece). E, à medida que o tempo passa, aqueles que achavam que o dono da JBS entregaria todos, inclusive Lula, começam a perceber que podem ter sido enganados. Tarde demais. O homem está livre, leve e solto, com seus bilhões em Nova York, intocável. E Lula também, pronto para ser candidato com a narrativa de que foi perseguido por bandidos. O Brasil não é para amadores.

Recomendo a coluna de Carlos Andreazza hoje. Fala dessa obra-prima de Janot. E mostra o dilema insuportável dos tucanos: como apoiar o governo Temer, tão fragilizado e alvo diário da pressão da Globo? Pular fora é tentador, como é para todos nós o grito “Fora Temer”. As reformas já subiram no telhado, as evidências de corrupção existem, e o homem foi colocado no poder por petistas. Mas essa narrativa não vingou, até porque o “lado de cá” não investe muito em narrativas: acredita que bastam as reformas.

Os agentes do mercado apostam só em tecnocratas: se a equipe econômica for mantida, então tudo bem trocar Temer por Rodrigo Maia. Falta entender a reação do povo, o mundo real daqueles revoltados e impacientes com tudo isso, e o jogo de xadrez dos petistas, claro. É o que alerta Andreazza:

Não se pode projetar a sucessão extemporânea de Temer senão como aposta arriscada, repito; mas é fácil casar fichas sobre o maior beneficiário do baguncismo: Lula. O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso no Brasil é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão com maestria. Na lama em que o patriota chefe do Ministério Público jogou o exercício da política, nivelando a roubalheira para enriquecimento pessoal à apropriação do Estado que caracteriza o projeto autoritário de poder petista, Lula não só disputará a próxima eleição presidencial, seja quando for, como já está no segundo turno.

É perigoso supor — com base na experiência recente — que a queda de um presidente significaria apaziguar a crise política, encaixar as reformas e recolocar a economia nos trilhos. Não estou aqui para educar Tasso Jereissati, mas não foi essa a consequência do impeachment de Dilma Rousseff. E a conjuntura piorou desde então — agora, ademais, com os petistas profissionalmente à vontade na oposição. Não se iluda, senador. O PT — Lula — já o derrubou uma vez. O plano, porém, era varrê-lo do mapa político-eleitoral. O senhor sobreviveu. Que vosso senso de responsabilidade para com a democracia advenha, pois, do recurso à memória combinado ao instinto de sobrevivência. Desenharei: a única chance de que o PSDB — partido de frouxos — seja competitivo em 2018 está em Temer concluir seu mandato; está em que haja eleições somente no ano que vem. É sob essa condição que Geraldo Alckmin será forte candidato.


Se o PSDB pular fora agora, tardiamente, não terá a menor condição de capturar a imagem de oposição, que já é do PT, mesmo que o PT tenha sido o sócio de Temer antes, e o responsável por sua chegada ao poder pela condição de vice-presidente de Dilma. Temer está lá pela mão de quem digitou 13 nas urnas. Não importa. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Apoiar Temer é complicado, abandoná-lo pode ser ainda pior. Que dilema!

O PT já sente o cheiro de sangue, e como todo abutre, regozija-se. Vive do caos, é nele que se sai bem. Rodrigo Maia foi eleito presidente da Câmara com o apoio de parte da extrema-esquerda, não custa lembrar. A turma do andar de cima acha que pode controlar os eventos políticos com essa facilidade toda, que poderá usar Maia como uma marionete? Melhor pensar duas vezes.

São tempos de muita confusão na política nacional, e a sensação de que podemos estar agindo como idiotas úteis de interesses obscuros é enorme. O que foi, por exemplo, a reunião de Maia e caciques do PMDB com um chefão da Globo, denunciada por Reinaldo Azevedo? Coincidência? Nada demais? Talvez. Talvez não. A única certeza é a de que o grupo quer muito a saída de Temer. O motivo não sabemos, mas a bandeira ética não parece muito convincente.

Perdidos nessa névoa de desinformação, podemos estar certos de uma coisa ao menos: a narrativa de que são todos iguais só interessa ao PT, que destruiu o Brasil, que tem um DNA totalitário, que tentava transformar o Brasil na Venezuela, que possui militância radical criminosa, que aparelhou quase toda a máquina estatal. Esse jogo eu não faço, e nunca fiz.

Por mais que eu tenha raiva dos tucanos pusilânimes e esquerdistas, por mais que eu tenha asco dos fisiológicos do PMDB, ainda tenho bom senso para saber que o PT é muito pior em todos os aspectos, e que articula um movimento golpista para retornar ao poder e retomar seu projeto totalitário. E barrar essa ameaça é a prioridade que temos no momento, pois é um risco fatal. Se o PT voltar, é “game over” para o Brasil.

Rodrigo Constantino

A obra-prima do doutor Janot - CARLOS ANDREAZZA

O Globo 11/07

O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão


Suponhamos que Michel Temer caia. Um, dois, três: bum. Caiu. E então será o vazio. Ou melhor: o vácuo. Não. Não. Atenção. Não pela falta do estadista que ele jamais foi, por favor; mas porque ninguém — ninguém honesto intelectualmente — pode projetar a sucessão de Temer senão como aposta. E arriscada. Farei a minha. Eis o seu fundamento: ao estalar, bum!, no chão o traseiro presidencial, o já ralo compromisso parlamentar com o que estabelece a Constituição se liquefará imediatamente, e a defesa da eleição indireta — que é a defesa da Carta Magna — terá por guardiões apenas os dois ou três gilmar mendes já ceifados pela narrativa jacobina.

Não se pode projetar a sucessão extemporânea de Temer senão como aposta arriscada, repito; mas é fácil casar fichas sobre o maior beneficiário do baguncismo: Lula. O vácuo institucional decorrente da sanha justiceira e da leitura política equivocada sobre o que está em curso no Brasil é tão provável quanto certo é que os petistas o preencherão com maestria. Na lama em que o patriota chefe do Ministério Público jogou o exercício da política, nivelando a roubalheira para enriquecimento pessoal à apropriação do Estado que caracteriza o projeto autoritário de poder petista, Lula não só disputará a próxima eleição presidencial, seja quando for, como já está no segundo turno.

Voltemos, porém.

É perigoso supor — com base na experiência recente — que a queda de um presidente significaria apaziguar a crise política, encaixar as reformas e recolocar a economia nos trilhos. Não estou aqui para educar Tasso Jereissati, mas não foi essa a consequência do impeachment de Dilma Rousseff. E a conjuntura piorou desde então — agora, ademais, com os petistas profissionalmente à vontade na oposição. Não se iluda, senador. O PT — Lula — já o derrubou uma vez. O plano, porém, era varrê-lo do mapa político-eleitoral. O senhor sobreviveu. Que vosso senso de responsabilidade para com a democracia advenha, pois, do recurso à memória combinado ao instinto de sobrevivência. Desenharei: a única chance de que o PSDB — partido de frouxos — seja competitivo em 2018 está em Temer concluir seu mandato; está em que haja eleições somente no ano que vem. É sob essa condição que Geraldo Alckmin será forte candidato.

O PSDB teve, sim, algumas chances de desembarcar do governo e ainda sobreviver. Elas acabaram. Se pular fora agora e o presidente permanecer até o fim, isso terá ocorrido apesar da traição dos tucanos — e sabemos o lugar da deslealdade em política. Sabemos também que o PSDB terá abandonado o barco sem ter ferramentas para convencer como oposição. Esse lugar é do PT. Se o presidente cair, contudo, terá sido graças ao empurrão final dos tucanos — e sabemos o lugar da traição em política. Sabemos também que o PSDB terá derrubado Temer sem ter quaisquer meios de capitalizar eleitoralmente a queda. Esse capital será petista.

Voltemos, porém.

Eu dizia para Jereissati não se iludir. Tampouco, senador, iluda Rodrigo Maia, cuja eventual presidência já está, sim, precificada pelo mercado — mas apenas tanto quanto for possível pagar por uma cabeça de bolinha na bandeja. Não suponham, senhores parlamentares, que têm as rédeas da situação. A explicação grita: a ação da Lava-Jato se deturpou sob o ativismo judicial janotista, que a transformou em instrumento de ataque contra o establishment e de dilapidação da atividade política; mas não sem prestar o serviço ao projeto de poder petista em que consiste tratar todos os políticos criminosos como igualmente criminosos. Está aí — para exemplificar — a delação dos donos da J&F, gratíssima a quem a fez campeã nacional, premiadíssima por sua natureza ficcional.

Rodrigo Maia que não se deslumbre com a corte que ora lhe fazem os petistas. Ele está do lado daqueles condenados pela seletividade de Janot, e talvez seja hoje — ele, Maia — a mais perfeita representação do sistema. Primeiro na linha de sucessão e também investigado na Lava-Jato, que não se engane sobre suas chances de presidir o Brasil. É assumir e cair, derrubado pelas mãos que hoje lhe balançam o berço, triturado facilmente pela narrativa petista, varrido pelo golpe na Constituição e, portanto, pelo crescimento incontrolável — pela volta irreversível — da pressão por antecipação da eleição direta a presidente.

Em política, não se perdoa traição nem burrice. Chegamos ao momento de exceção em que políticos ainda não sentenciados pela Justiça — como Temer — encontram-se politicamente condenados pela institucionalização dos vazamentos seletivos e pela transformação de delação premiada em prova. Aproxima-se, no entanto, o momento, ápice da arte de Janot, em que políticos ainda não condenados pela Justiça — como Lula — ressuscitarão politicamente pela institucionalização dos vazamentos seletivos e pela transformação do conteúdo de delações premiadas em prova. É sutil.

Não importa se Lula terá como vencer em 2018. Importante é o fato de que será candidato. E, uma vez candidato, intocável. Todo o resto decorrerá daí.

Carlos Andreazza é editor de livros

Se Temer cair, as esquerdas terão uma absolvição moral e partirão com tudo para a disputa de 2018 - REINALDO AZEVEDO

REINALDO AZEVEDO

Não é uma questão de vontade, mas de fato: a forma como Janot e seus fanáticos conduziram a Lava Jato empurra o país para os braços das esquerdas; todo cuidado é pouco


Vamos a algumas constatações inevitáveis.

Caso o presidente Michel Temer caia, como prevê — e luta para que aconteça — Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, as esquerdas terão uma absolvição muito mais importante do que a judicial: tratar-se-á, aos olhos de muitos brasileiros, de uma absolvição moral. O discurso já está em todo canto. Lula, Dilma, José Dirceu, Gleisi Hoffmann (a ré buliçosa) e caterva, com a colaboração dos esquerdistas da imprensa, sintetizam: as principais figuras que concorreram para o impeachment de Dilma eram, na verdade, os verdadeiros bandidos. Nessa versão, como sabemos, os mocinhos são os petistas.

Para isso nos arrastou Rodrigo Janot. Essa é a verdade que os fanáticos da Lava Jato ajudaram a consolidar. Sim, Reinaldo Azevedo — eu mesmo! — tinha razão, não é? Quando afirmei que a destruição da política a que nos conduziam esses valentes e o esforço para igualar os desiguais acabariam por ressuscitar o PT e as esquerdas, fui acusado de estar tentando proteger bandidos. Lembram-se disso?

Foram sete meses debaixo de porrada intensa! Mas as agressões vêm de mais tempo. A cada vez que apontava uma ilegalidade da operação, diziam-me “inimigo da Lava Jato e de Sérgio Moro”. E os ataques partiam de setores da direita, os mesmos que acabaram colaborando para ressuscitar o PT.

Dizia eu: “Não há nada de errado com o projeto que muda lei que pune abuso de autoridade”. E a malta de vigaristas gritava: “Você quer acabar com a Lava Jato!” Dizia eu: “É preciso distinguir, sim, o caixa dois com contrapartida (corrupção passiva) do caixa dois sem contrapartida”. E o coro dos canalhas berrava: “Você quer acabar com a Lava Jato!” Dizia eu: “Não podemos dar ao Ministério Público o prerrogativa de primeiro condenar para depois investigar”. E a súcia de pilantras fazia o coro: “Você quer acabar com a Lava Jato!”

Escrevi eu: “Se todos são iguais, então Lula é melhor!” E tive de aguentar ofensas de especuladores, bucaneiros e safados, que esperam lucrar os tubos com a eventual queda de Temer. E, por óbvio, meus caros, os pobres pagarão o pato. Quando, em fevereiro, eu me insurgi contra uma manifestação que se dizia “em favor da Lava Jato”, escrevi aqui: “A Lava Jato não está em risco; estão querendo transformar o governo Temer em alvo”. Eis aí.

Ora, é claro que acho que tudo tem de ser investigado. O que faço aqui — e o que tenho feito nos 11 anos de existência deste blog — é defender que as ações de combate à corrupção sigam os marcos do Estado de Direito. Fui alvo de piadas por isso. De achincalhe. Notórios falastrões, que defendem abertamente a impunidade para um bandido como Joesley Batista, acusaram-me de estar me alinhando com a impunidade. E, sim!, não tive receio, quando achei correto, de apontar as vezes em que o próprio Lula foi alvo de arbitrariedades. Apanhei mais um pouco por isso. Passei a ser assediado moralmente em um dos meus empregos.

A realidade está aí, aos olhos de todos.

Lula será eleito?
Eu não me atrevo a fazer previsões desse tipo. Esse não é o ponto. A minha tese central, desde o começo, é que a forma como a Lava Jato, com destaque para Janot, conduzia as coisas submetia o processo político a um deslocamento para a esquerda. E ele está aí, aos olhos de todos. A prova, diga-se, de que os esquerdistas estão no comando da guerrilha contra Temer, em parceria com a Globo (sei lá o que o grupo teme ), está no fato de que temos uma, como vou chamar?, “revolução sem povo”. Afinal, os vermelhos detêm os aparelhos políticos, mas não conseguem mobilizar a população.

“Ah, Reinaldo, mas será preciso do povo para dar votos às esquerdas”. Sim, é verdade! Depois do resultado pífio que elas obtiveram nas urnas em 2016, essa possibilidade seria hoje remota. Mas notem o que aconteceu de lá para cá. Lula passou, por incrível que pareça, por uma reabilitação, e as lideranças antipetistas foram fulminadas. Segundo a história contada hoje pelos ficcionistas Joesley e Janot, o maior criminoso do Brasil era Michel Temer, secundado por Aécio Neves. Como é notório, essa dupla mandava na Petrobras, no BNDES, nos fundos de pensão, nos Correios, na CEF, nas demais estatais, nos ministérios, nas grandes obras de infraestrutura…

É uma piada grotesca.

Certamente vamos encontrar erros cometidos pelas forças que se opunham ao PT, mas é evidente que o projeto político da Lava Jato é que determinou esse resultado.

Se Lula estiver no gozo de seus direitos políticos, é evidente que entra na disputa de 2018 como favorito. Mas ainda que assim não seja; ainda que ele decida ungir um nome — Ciro Gomes, por exemplo —, o risco é gigantesco. Já é hoje, dado o estado das artes. Tanto pior será se Temer for deposto. Aí, meus caros, ainda que petistas sejam condenados às pencas, a redenção moral estará dada.

“Ah, Reinaldo, e se Lula for preso? A Lava Jato recupera o eu prestígio?”

Tratarei disso em outro post. Eis aí um outro tema em que os vigaristas rolam felizes, mais do que porcos na lama.

Não tenho nada mais a lhes oferecer do que meus acertos e erros honestos.

Por que a imprensa se nega a noticiar que o “sim” à reforma trabalhista foi vitória de Temer? - REINALDO AZEVEDO

REINALDO AZEVEDO

Explico: porque parte dela está empenhada em derrubar o presidente, e um fato como esse contraria a sua convicçãop. Afinal, para certo jornalismo, “contra teses, não há argumentos


O presidente que muitos deram por acabado num dia obtém, no seguinte, expressiva vitória
Se o texto-base da reforma trabalhista tivesse sido rejeitado pelos senadores, vocês sabem qual seria o título, com pequenas variações, dos portais, sites, blogs noticiosos, programas jornalísticos de TV e rádio e dos jornais impressos desta quarta: “Governo Temer é derrotado, e Senado barra reforma trabalhista”. Alguém tem dúvida? Afinal, não foi isso o que se viu quando, por 10 votos a 9, a Comissão de Assuntos Sociais rejeitou a proposta? Nesta terça, no entanto, procurei as letras garrafais e não encontrei: “Governo Temer vence, e Senado aprova reforma trabalhista”. E olhem que, desta feita, estamos falando de triunfo na votação final, não numa comissão. Assim, 10 (52,63%) de 19 votos bastam para que se decrete a derrocada do governo. Mas 50 (65%) em 77 não são suficientes para que se enxergue uma vitória. A propósito: o texto teria sido aprovado se fosse uma emenda constitucional, que precisa de 60% do total de senadores.

Vamos lá. A aprovação da reforma trabalhista pelo Senado — 50 a 26 e 1 abstenção — dá o que pensar, não? Inclusive sobre a imprensa. A se dar crédito a certa militância disfarçada de jornalismo, o vitorioso desta tarde foi um peru, que, como se sabe, havia morrido na véspera. Ou não foi o funeral político de Michel Temer a que se assistiu no noticiário online de ontem, estampado nos jornais desta terça? Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, já estaria nomeando e demitindo ministros. No auge das feitiçarias, lançou-se até a tese: “Sogro postiço não é parente”, a senha que serviria, dizia-se, para que o empossado pelo Grupo Globo mantivesse Moreira Franco no governo. O atual secretário-geral da Presidência é casado com a mãe da mulher de Maia.

E, no entanto, Temer está vivo. E o demonstra de vários modos. Sim, o governo decidiu reagir e conclamou, por exemplo, os líderes a substituírem membros da CCJ que lá estavam atuando como cavalos de troia dos adversários. O que eu acho? Fez muito bem! Defendi rigorosamente que assim se procedesse em post do dia 7 de julho. Escrevi então:

“Líderes da base aliada — realmente aliada — têm de se organizar e de promover a eventual substituição de membros da CCJ que estejam dispostos a flertar com as feitiçarias de Janot. É legítimo, regimental e legal. O que é ilegítimo, ilegal e inconstitucional é usar em juízo uma prova ilícita, por exemplo. O que é indecoroso e golpista é impor a um preso que delate o presidente em troca da liberdade. Ou ameaçar com a cadeia quem está libre se não atender a igual propósito.”

A imprensa esquerdizada chama isso de “manobra”, emprestando à palavra um viés negativo. Pois é… Então os governistas não deveriam usar os recursos legais de que dispõem para enfrentar os adversários, especialmente quando sabem que estes recorrem apelam até a métodos ilegais, a exemplo da patuscada estrelada por senadoras na tarde desta terça, que violaram as regras do jogo e do decoro ao ocupar a Mesa do Casa? Bem, essa mesma imprensa também tacha de “fisiologismo” o fato de um governo nomear seus auxiliares entre quadros da base aliada. Talvez devesse governar com os inimigos? “Por que não só com técnicos?””, pergunta quem tem nojinho da política. Respondo com outra pergunta, irônica: “Que tal fazer um vestibular para o governo nomear ministros e auxiliares? Tenham paciência!

Volto à reforma trabalhista. Como se sabe, o texto, que já passou pela Câmara, foi submetido a votação no Senado por maioria simples, já que decorre de um projeto de lei que começou a tramitar na outra Casa. Isso significa que, para que se pudesse proceder à votação, bastaria quórum de metade mais um dos senadores: 42. O texto precisava ter a maioria relativa no grupo: digamos que o “não” tivesse, nesse caso, obtido 14 votos, e as abstenções, 13: estaria aprovado por 15 votos.

Mas o governo obteve BEM mais do que isso, não é mesmo? Não havia apenas 42 senadores em plenário, mas 77. Houve apenas uma abstenção, e o texto base foi aprovado por 50 votos.

Tese falsa
Uma das teses falsas que ameaçam tomar corpo na imprensa, especialmente nos setores golpistas, é aquela que assegura que a permanência de Temer no poder teria agora o condão de ameaçar as reformas. O resultado demonstra justamente o contrário. Ou alguém enxerga um Rodrigo Maia capaz de conquistar um resultado como esse? Ouso dizer que o risco maior que o país correria seria justamente a paralisia. Afinal, Maia ascendeu à presidência com apoio de parte das esquerdas. Ele até pode almoçar com um vice-presidente da organização que quer depor o presidente, mas justiça se lhe faça: cumpriu todos os acordos que fez com a esquerda.

segunda-feira, julho 03, 2017

Deixar os pais na casa de repouso é um 'direito do cidadão' que quer ser feliz - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 03/07

Acho a autoajuda e o politicamente correto duas formas de mau-caratismo. Minha crítica máxima aos dois nasce da minha certeza (tenho poucas) de que o sofrimento é fonte inexorável do amadurecimento, coisa rara em épocas retardadas como a nossa. O projeto contemporâneo é chegar aos 60 anos com cabeça de 15. Logo, retardo mental como projeto de vida. Uma conquista contra a inteligência.

Um dos temas prediletos do mau-caratismo é a chamada "terceira idade". Um mercado, claro, devido à longevidade da espécie nos últimos anos. Já se tratou a velhice como "melhor idade" também. Uma ofensa à experiência humana real.

A longevidade estendida é um dos casos mais claros da famosa ambivalência descrita por Zygmunt Bauman (1925-2017). Um bem evidente por um lado, um drama humano gigantesco por outro, sem solução, como toda ambivalência que se preze. O mais sábio dos meus amigos costuma dizer que uma das versões do inferno no futuro será a impossibilidade de morrer. Você vai querer morrer e não conseguirá.

Sem fazer referência necessariamente a toda gama de pessoas que vegetam por aí em leitos aparelhados com tecnologia de "primeira linha" para a humanidade vegetativa, a longevidade puramente fisiológica, muitas vezes acompanhada pela perda de funções cognitivas essenciais, atormentará o humano daqui para a frente.

A maravilhosa peça "O Pai", de Florian Zeller, com direção de Léo Stefanini, cujo elenco é encabeçado por Fulvio Stefanini (brilhante como o pai da peça, vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2016), em cartaz no teatro Fernando Torres, em São Paulo, é essencial para pensarmos o tema da longevidade para além do marketing da longevidade.

Este é caracterizado por um discurso, como (quase) sempre no marketing, de facilitação da realidade em nome de um otimismo besta.

O impacto dos avanços tecnológicos, científicos e médicos criaram uma sobrevida na espécie humana jamais imaginada. Vivemos mais, mas somos cada vez mais solitários. Muito metabolismo para uma alma cada vez mais dissociada de si mesma. A peça tem, entre outras qualidades, a capacidade de levar você para dentro dessa alma idosa longeva e solitária, graças ao texto, às interpretações e à direção.

A solidão é uma epidemia contemporânea, em meio ao maior surto de histeria já enfrentado pela humanidade. Solidão e histeria, juntas, formam uma mistura explosiva em termos epidemiológicos.

Os avanços sociais e políticos, passo a passo com os avanços técnicos citados acima, produzem uma sociabilidade cada vez mais egoísta —o egoísmo é a grande revolução moral moderna. As pessoas emancipadas tendem ao egoísmo como forma de autonomia.

Inteligentinhos não entendem isso muito bem porque são as maiores vítimas do marketing de comportamento que se pode imaginar. Emancipados pensam em si mesmos, antes de tudo, como consumidores do direito ao egoísmo.

Sempre soubemos que os idosos sofrem na mão dos filhos homens e de suas mulheres, que quase nunca suportam seus sogros, que insistem em ficar vivos. As filhas, que quase sempre suportaram o ônus da lida com os pais, agora se libertam e também querem vida própria (claro que existem exceções ao descrito acima, que filhos, filhas, genros e noras ofendidinhos não fiquem nervosos em demasia).

As filhas também têm o direito de cuidar de si mesmas, é evidente. Deixar os pais na casa de repouso é um "direito de todo cidadão" que quer ser feliz sem ter que viver cuidando de pais que nunca morrem. Por isso que o mercado gerontológico só cresce.

Além disso, a crescente queda na natalidade, que caracteriza os mesmos países de crescente população longeva, só tende a agravar o quadro. Baixa natalidade e alta longevidade são ambas frutos da mesma riqueza instalada na sociedade: alta tecnologia e direitos sociais são manifestações diretas dessa riqueza. Filhos únicos serão idosos longevos solitários, dependentes de serviços que ocupam o vazio deixado pelas famílias.

Qual a solução pra isso? Não há. Um mundo de velhos solitários é o futuro de um mundo de ricos autônomos e amedrontados.