sexta-feira, maio 01, 2009

MAIS UMA DO LULA CANALHA

Lula defende uso de passagens por mulheres e admite que levou sindicalistas para Brasília

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu hoje que usou a cota de passagem aérea da Câmara, quando foi deputado federal, para levar sindicalistas para Brasília. Para Lula, não é crime usar a cota de passagem aérea para essa finalidade.

"Não acho crime deputado dar passagem para o dirigente sindical ir a Brasília. Eu, quando era deputado em Brasília, muitas vezes convoquei dirigentes da CUT e de outras centrais para se reunirem [lá] com passagens no meu gabinete", disse Lula.

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FERNANDO GABEIRA

O visitante

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/05/09

Numa das visitas internacionais mais politicamente delicadas do ano, chega ao Brasil Mahmoud Ahmadinejad. De um ponto de vista de nossas relações comerciais e culturais com o Irã, é compreensível.
Os dois países acabam de viver um desencontro.
O Brasil condenou, sem mencionar o nome, a intolerância que Ahmadinejad revelou na sua intervenção, em Genebra, na conferência sobre racismo. Teerã respondeu não ser adequado fazer críticas às vésperas da visita de Ahmadinejad.
Penso exatamente o contrário. A crítica foi feita na hora exata. É importante que ele conheça nossa situação. Somos pela existência de dois Estados, Israel e Palestina. Fiel à nossa política, Lula jamais deixou de mencionar isso, mesmo em conferências onde apenas os árabes estão presentes.
Quando há uma grande crise no Oriente Médio, fazemos no Saara, bairro comercial do Rio, manifestação das duas colônias, insistindo com nosso exemplo de que é possível uma convivência pacífica.
A presença de Ahmadinejad vai provocar manifestações de protesto. E é importante que Lula tenha consciência de que o Irã tem eleições nos próximos meses. Não é bom comprometer a imagem do país, muito simpática no Irã, com as pretensões de Ahmadinejad. Uma coisa é receber a Venezuela no Mercosul, outra, simpatizar com Chávez. De uma forma mais dramática ainda, uma coisa é desejar boas relações comerciais e culturais com o Irã, outra é respaldar um discurso de intolerância e ódio. A elegância para o anfitrião será uma caminhada na corda bamba.
As manifestações que esperam Ahmadinejad são, na verdade, consequência da sua negação do Holocausto. Para nós, a visita é um teste essencial num mundo onde o papel pacificador do Brasil estará sempre sujeito a reações apaixonadas.

INFORME JB

Por ora, a paz no ninho tucano

Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 01/05/09

Do jantar sigiloso de Aécio Neves com José Serra, no Palácio dos Mangabeiras, segunda-feira, em que o bater de asas foi acertado entre os tucanos, um grande do partido revelou o cardápio à coluna: os dois terão agenda conjunta pelos estados, nada de cada um ir para um lado. Houve um pacto de não agressão durante as prévias, que haverá entre dezembro próximo e fevereiro do ano que vem. Ambos trabalham com a estratégia de que o PSDB enfrentará mesmo a Dilma Rousseff (PT). E negociaram adotar "uma posição de extrema cautela" quanto aos holofotes sobre a doença da ministra. Não se tocou no assunto chapa puro-sangue para a campanha. E descobriram que, separados num embate interno, só atrapalham o partido – com fortes chances de retomar o poder.

Nem pensar Homem-sorriso

Aécio, depois do encontro, respondeu a um aliado que queria saber se ele aceitaria ser vice na chapa de Serra, o favorito nas pesquisas: "Essa hipótese não passa pela cabeça de jeito nenhum".

Um amigo viu Serra chegando a São Paulo tão animado quanto chegou a Belo Horizonte. Com amplo sorriso.

Um milhão

A cúpula do PSDB ainda vai decidir como serão as prévias, se por estado ou em evento de apenas um dia. Mas a prioridade, agora, é recadastrar os filiados. Fala-se em 1,1 milhão.

Galeria

No lobby do COB para convencer o COI a escolher o Rio como sede dos Jogos de 2016, valeu até incluir a presidente do comitê, a marroquina Nawal El Moutawakel, na galeria de estrelas internacionais, com foto, em corredor do Copacabana Palace.

Vale-xerox

A Imprensa Nacional contratou a Xerox para manutenção preventiva e fornecimento de peças para as máquinas IGEN3. Vai pagar... R$ 825.347,16.

Arquivo de fogo

Seguindo uma determinação do MP, o Conselho Nacional de Justiça decidiu: os tribunais brasileiros deverão editar normas sobre a guarda e o armazenamento das armas de fogo apreendidas em processos judiciais.

Arquivo de fogo 2

Os tribunais terão de providenciar, em 60 dias, o levantamento de todas as armas e munições sob custódia do Judiciário por prazo superior a um ano.

PT unido

O ex-senador Saturnino Braga (RJ) mandou mensagem para Dilma Rousseff solidarizando-se sobre o linfoma. Lembrou que já teve o mesmo tipo de câncer, há dois anos, e recuperou-se bem.

Merenda do bem

A Secretaria Estadual de Educação e a Comissão de Segurança Alimentar da Assembleia Legislativa vão controlar a venda em excesso de balas, doces, salgadinhos e alimentos gordurosos nas cantinas de escolas do Rio. Parceria entre a secretária Teresa Porto e a deputada Alice Tamborindeguy.

Alô, alô...

Sob a tutela da vereadora Aspásia Camargo, presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, a Câmara do Rio vota em maio projeto de lei do Executivo que dá incentivos fiscais às empresas de call centers. O objetivo é gerar 100 mil empregos em cinco anos com a redução do ISS de 5% para 2%.

... alô?!

Em oito anos, o Rio perdeu 60 mil postos de emprego no setor de telesserviço. A prevalecer o cenário, a linha vai ficar muda para 8 mil funcionários este ano.

Etanol do Puccinelli

Em almoço na ADVB no Rio, o governador André Puccinelli prometeu transformar Mato Grosso do Sul no maior produtor nacional de etanol até 2015. O MS tem 14 usinas em operação e mais 11 em processo de instalação

País da cerveja

A AmBev instalou nas fábricas de Brasília e Goiânia um "contador de garrafas". A partir de maio, as unidades terão 100% da produção controlada pelo novo sistema. Vai expandir a tecnologia para as outras fábribas.

GOSTOSA


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MERVAL PEREIRA

Bravatas oposicionistas

O GLOBO - 01/05/09

O PPS deu uma consertada na campanha eleitoral que vem divulgando, admitindo que o governo "vai mexer na poupança como Collor", mas desta vez apenas nos rendimentos, sem confiscar os depósitos existentes. É uma diferença fundamental, que faz com que a denúncia do PPS tenha sido tratada pelo próprio presidente Lula como "irresponsável" e "insana". Mas, mesmo sendo uma abordagem tecnicamente errada, estaria errada politicamente? Os que analisamos a política nacional temos a obrigação de defender que a atividade política obedeça a critérios éticos, e, desse ponto de vista, concordo com os que criticaram a campanha do PPS. Mas temos também que analisar a maneira como a política brasileira vem sendo disputada nos últimos anos, entender quais as raízes de suas distorções e trabalhar para que os erros sejam corrigidos.

Não me lembro, por exemplo, de um programa do PT, quando na oposição, admitindo ter errado na crítica ao governo tucano. Desse ponto de vista, a atitude do PPS já é um avanço.

Mas o deputado Raul Jungmann, autor da "denúncia", levanta uma questão importante: por que o governo não deixa o mercado se ajustar, obrigando os bancos a reduzirem as taxas de administração dos fundos de renda fixa, que chegam a 4%, em vez de apenas reduzir os ganhos da poupança?

Não há dúvida de que foi o PT que iniciou essa maneira de fazer política, ao defender posições apenas para se opor ao governo, sem levar em conta as reais necessidades do país, como faz agora o PPS, ao criticar a mudança nas cadernetas de poupança sem admitir que existem necessidades macroeconômicas que a torna imperiosa.

Mas também o presidente Lula, ao anunciar que o governo mexerá na poupança "para proteger o pequeno poupador", está sendo impreciso, tão impreciso quanto a denúncia do PPS, e tenta engabelar a maioria dos depositantes das cadernetas de poupança.

São abordagens políticas de um tema econômico delicado, e por isso o governo como um todo, e o presidente Lula pessoalmente, estão tão irritados com a maneira de fazer política do PPS, que eles conhecem muito bem. Tão bem que sabem de seus efeitos na população.

Mais de uma vez o passado petista voltou para assombrar seus integrantes no governo, mostrando quanto tempo foi perdido nas reformas do Estado pela ação predatória do PT, as famosas "bravatas" que o presidente Lula já admitiu ter usado como recurso de oposicionista.

No início do governo, as reformas da Previdência e tributária mostraram a incoerência entre o que o PT defendia na oposição e o que fazia no governo, e próceres do petismo explicavam tudo como sendo "luta política".

Basta lembrar que o PT votou contra o Fundef, que mudou radicalmente o financiamento do ensino fundamental no país; contra a criação da CPMF; contra a Lei de Responsabilidade Fiscal; contra a reforma da Previdência; contra a privatização das telecomunicações. Uma enorme lista.

Até mesmo quando o PT conseguiu impor medidas corretas ao governo, ele não as assumiu por questões meramente eleitoreiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, na negociação da Lei de Responsabilidade Fiscal, já no segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique.

Estavam incluídos no projeto de lei temas polêmicos, como a proibição de o Banco Central emitir títulos por conta própria, e a obrigação de dirigentes da instituição e do Ministério da Fazenda comparecerem ao Congresso regularmente para prestar contas.

Todos os pontos que diziam respeito à relação do Tesouro Nacional com o Banco Central, porém, foram tirados do texto oficial, pois o governo de então temia que disputas internas interferissem na tramitação do projeto.

Nas negociações no Congresso, no entanto, o PT decidiu só apoiar o projeto de lei se alguns desses pontos fossem novamente incluídos.

Mas o PT recuou, alegando razões políticas, e se recusou a votar o projeto, que foi aprovado contra o voto dos petistas.

O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que como deputado federal votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, disse certa vez que o também ex-ministro Pedro Malan merecia uma estátua por ter renegociado as dívidas dos estados e municípios.

O Partido dos Trabalhadores foi contra também a criação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que se tornou tão imprescindível para fechar as contas públicas que o próprio governo petista quis transformá-la em permanente na reforma tributária, e desvinculou-a oficialmente dos gastos com a saúde. Depois lamentou profundamente seu fim.

O Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) promoveu uma transformação radical na estrutura de financiamento do ensino fundamental no país e foi implantado em 1998, contra o voto do PT. Mas deu tão certo que o governo petista lançou o Fundeb, para o ensino básico.

A emenda constitucional que quebrava o monopólio estatal nas telecomunicações foi aprovada contra o voto do PT, que foi acusado de defender as corporações estatais. Hoje, o governo reformou a legislação para permitir que surja uma grande empresa nacional privada de telefonia, com a compra da Brasil Telecom pela Oi.

Foram essas posições irresponsáveis que levaram o PT ao governo, e, como a receita deu certo, a oposição se vê tentada a adotar os mesmos métodos demagógicos. Até por que o presidente Lula continua mestre nas bravatas, mesmo no governo. Agora, o PPS denuncia a redução dos rendimentos da caderneta de poupança, tucanos e democratas pedem reajustes maiores do salário mínimo ou cortes maiores nas taxas de juros.

Mesmo que em prejuízo da democracia, quem com bravatas fere...

GRIPE


PARA...HIHIHI

COISA DE ESTAGIÁRIO
Fui demitido. Justa causa.

Como estagiário, aprendi milhões de coisas e fui muito bem sucedido nas minhas funções. Juro que não entendo o porquê de me demitirem... 
Eu tinha várias funções que fazia com excelência, entre elas:

1. Tirar xerox. 3.1 segundos por página. 

2. Passar café. 

3. Comprar cigarro e pão. 1 minuto e 27 segundos. Ida e volta.

4. Fazer jogos na Mega-Sena, Dupla-Sena, Lotofácil, Loteria Esportiva...

Eu era muito bom. Mesmo. Fazia tudo certinho, até que peguei uma certa confiança com o pessoal e resolvi fazer uma brincadeirinha inocente. 

É impressionante o nível de stress em um ambiente de trabalho. 
Quis dar uma amenizada na galera, deixar o povo feliz e fui recompensado com uma bela de uma demissão por justa causa. Puta sacanagem!

Vou contar toda minha rotina desse dia catastrófico. 

Era quinta-feira, 26 de março, quando cheguei ao trabalho. 

Nesse dia, passei na padaria no meio do caminho. Demonstrando muita proatividade, comprei pão e 3 Marlboro. Já queria ter na mão sem nem mesmo me pedirem. Quando abri a agência (sim, me deixam com a chave porque o pessoal só começa a chegar lá pelas 11h), já vi uma montanha de folhas para eu xerocar na minha mesa. Xeroquei tudo, fiz café e deixei tudo nos trinques (minha mãe que usa essa gíria rs). 
Como tinha saído um pouco mais cedo no outro dia, deixaram um recado na minha mesa: "pegar o resultado da mega-sena na lotérica". 
Como tinha adiantado tudo, fui buscar o resultado. No meio do caminho, tive a ideia mais genial da minha.

Peguei o resultado do jogo: 01/12/14/16/37/45. E o que fiz? 
Malandro que sou, peguei uns trocados e fiz uma aposta igual a essa. Joguei nos mesmos números, porque, na minha cabeça claro, minha brilhante ideia renderia boas risadas. 
Levei os 2 papeizinhos (o resultado do sorteio e minha aposta) para a agência novamente. 
Ainda ninguém tinha dado as caras. Como sabia onde o pessoal guardava os papeis das apostas, coloquei o jogo que fiz no bolinho e deixei o papel do resultado à parte.

O pessoal foi chegando e quase ninguém deu bola pros jogos. Da minha mesa, eu ficava observando tudo, até que um cara, o Daniel, começou a conferir.
Como eu realmente queria deixar o cara feliz, coloquei a aposta que fiz naquele dia por último do bolinho, que deveria ter umas 40 apostas.
Coitado, a cada volante que ele passava, eu notava a cara de desolação dele. Foi quando ele chegou ao último papel. 
Já quase dormindo em cima do papel,vi ele riscando 1, 2, 3, 4, 5, 6 números. Ele deu um pulo e conferiu de novo. 
Esfregou os olhos e conferiu de novo, hahahaha. Tava ridículo, mas eu tava me divertindo. 
Deu um toque no cara do lado, o Rogério, pra conferir também. 
Ele olhou, conferiu e gritou: 
-"PUTA QUE PARRRRRRRRIUUUUUUUUUU, TAMO RICO, PORRA". Subiu na mesa, abaixou as calças e começou a fazer girocóptero com o pau. 

Óbvio que isso gerou um burburinho em toda a agência e todo mundo veio ver o que estava acontecendo. 
Uns 20 caras faziam esse esquema de apostar conjuntamente. 8 deles, logo que souberam, não hesitaram: correram para o chefe e mandaram ele tomar bem no olho do cu e enfiar todas as planilhas do Excel na buceta da arrombada da mulher dele. 
No meu canto, eu ria que nem um filho da puta. Todos parabenizando os ganhadores (leia-se: falsidade reinando, quero um pouco do seu dinheiro), com uns correndo pelados pela agência e outros sendo levados pela ambulância para o hospital devido às fortes dores no coração que sentiram com a notícia.

Como eu não conseguia parar de rir, uma vaquinha veio perguntar do que eu ria tanto. Eu disse: 
-"puta merda, esse jogo que ele conferiu eu fiz hoje de manhã. 
A vaca me fuzilou com os olhos e gritou que nem uma putalouca: 
-"PAREEEEEEEEEEM TUDO, ESSE JOGO FOI UMA MENTIRA.UMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO DO ESTAGIÁÁÁÁÁÁÁRIO" 


Todos realmente pararam olhando pra ela. Alguns com cara de "quê?" e outros com cara de "ela tá brincando". 
O cara que tava no bilhete na mão, cujo nome desconheço, olhou o papel e viu que a data do jogo era de 27/03. 
O silêncio tava absurdo e só eu continuava rindo. Ele só disse bem baixo: 
- É...é de hoje. 
Nesse momento, parei de rir, porque as expressões de felicidade mudaram para expressões de 'vou te matar'. 
Corri... corri tanto que nem quando eu estive com a maior caganeira do mundo eu consegui chegar tão rápido ao banheiro. 
Me tranquei por lá ao som de "estagiário filho da puta", "vou te matar" e "vou comer teu cu aqui mesmo". Essa última foi do peladão !

Eu realmente tinha conseguido o feito de deixar aquelas pessoas com corações vazios, cheios de nada, se sentirem feliz uma vez na vida.
Deveriam me dar uma medalha por eu conseguir aquele feito inédito. Mas não... só tentaram me linxar e colocaram um carimbo gigante na minha carteira de trabalho de demissão por justa causa. Belos companheiros!

Pelo menos levei mais 8 neguinho comigo ! Quem manda serem mal educados com o chefe. Eu não tive culpa alguma na demissão deles. 
Pena que agora eles me juraram de morte...agora tô rindo de nervoso. 
Falei aqui em casa que fui demitido por corte de verba (consegui justificar dizendo que mandaram mais 8 embora, rs) e que as ligações que tenho recebido são meus amigos da faculdade passando trote. 
Eu supero isso vivão e vivendo, tenho certeza.

É, amigos, descobri com isso que não se pode brincar em serviço mesmo...

CELSO MING

Afrouxamento dos juros

O ESTADO DE S. PAULO - 01/05/09

O Banco Central não considera concluído o processo de afrouxamento dos juros iniciado em janeiro. É o que está, com todas as letras, no lacônico comunicado divulgado logo após a reunião dessa quarta-feira que reduziu os juros básicos (Selic) em mais 1 ponto porcentual.

Mas daí a achar que os juros cairão necessariamente na próxima reunião, agendada para o dia 10 de junho, vai um passo maior que as pernas. O que acontecerá dentro de mais de 40 dias está condicionado a um punhado de fatores, a maioria deles fora de controle das autoridades da área monetária.

Vai depender do comportamento da economia global e da dinâmica do crédito interno; vai depender de como se comportará o câmbio e, sobretudo, de como ficarão os preços internos num ambiente em que aumentam as despesas correntes do governo federal, a um ritmo superior a 20% ao ano.

Esta diretoria do Banco Central tem todo o interesse de mostrar que conseguiu domar a inflação, mesmo derrubando os juros aos níveis mais baixos dos últimos dez anos. Mas ninguém espere que a inflação no chão será obtida ao risco de novos apertos monetários (alta dos juros) de emergência, destinados a combater uma inesperada reincidência da inflação. Nada mais desmoralizador para a autoridade monetária do que ter de corrigir às pressas um excesso de permissividade na condução de sua política de juros.

Com a queda da Selic para o patamar dos 10,25% ao ano, o Brasil deixou o topo do ranking dos países que praticam os juros básicos mais altos do mundo e já figura em quinto lugar. É provável que, dentro de mais alguns anos, abandone esse clube.

Por mais que tentassem, até agora os economistas não foram convincentes sobre as razões que levaram o Banco Central a praticar por tanto tempo juros tão elevados. E por não terem explicado as causas dessa anomalia, também não conseguirão fazer ninguém acreditar em que os juros tendem agora inexoravelmente a níveis civilizados.

Mas talvez valha a pena considerar que os juros não se limitam a remunerar o capital. Embutem no total parcelas nem sempre facilmente quantificáveis, que seriam denominadas taxa de risco Brasil. Uma economia mais previsível pode dispensar esse fator.

E entre as razões que podem ajudar a economia brasileira a conviver com juros bem mais baixos do que os vigentes estão as novas condições de previsibilidade da economia. Ela está bem mais fortalecida do que estava há dez anos. Sua capacidade de resistência aos solavancos externos ficou evidente nesta crise. Não há nenhum grave problema na rede bancária interna. Já é possível planejar a longo prazo e ninguém mais espera enormes fugas de capital. O robusto crescimento das classes médias mostra que o mercado de consumo avança consistentemente e a perspectiva de crescimento das economias asiáticas por si só garante certo mercado externo para as commodities brasileiras sem sacrifício da indústria.

Em resumo, se é verdade que a grande crise externa tende a arrefecer, os fatores apontados acima tendem a garantir certa estabilidade de preços no longo prazo e, nesse ambiente, os juros podem prosseguir em baixa.

Confira

É o PIB e é o câmbio - O gráfico mostra que, neste ano, a dívida pública aumentou em relação ao PIB. Esse efeito tem a ver com a baixa do dólar, que aumentou a dívida líquida em reais, e com um PIB que cresceu mais devagar.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA

Roberto Pompeu de Toledo
Três modelos sexuais

"Fernando Lugo possui o charme do padre
transgressor à moda antiga; Jacob Zuma, 
o charme da poligamia; Susan Boyle 
introduziu o charme do sexo zero"

Fernando Lugo – ex-bispo, presidente do Paraguai. Notório, hoje, menos pelas políticas que defende como presidente do que pela política sexual que adotou nos tempos de religioso. A primeira denúncia de que era pai, logo seguida pela segunda, depois pela terceira, e rumores de outras por vir ofereceram ao público uma daquelas evidências de que, por trás das aparências de uma pessoa, pode pulsar uma outra, surpreendente, espetacular (veja Susan Boyle). Viviana Carrillo, a primeira a denunciar Lugo como pai de seu filho (hoje com 2 anos), contou que o caso começou quando o ainda bispo se hospedou na casa da madrinha dela; à noite, Viviana foi levar-lhe os lençóis e perguntou se precisava de mais alguma coisa. "Preciso de você", foi a resposta. A frase trai um Don Juan versado nas cantadas e dotado de típica ousadia. Ressalve-se a presença, em seus namoros, de catolicíssimas particularidades. Damiana Morán Amarilla, que o auxiliava no trabalho pastoral, e que definiu a relação entre ambos como uma "explosão de sentimentos", deu ao filho (hoje com 1 ano e 4 meses) o nome de João Paulo – homenagem ao papa João Paulo II. Lugo merece outro crédito: eis, enfim, um escândalo sexual nas hostes católicas que não é de pedofilia! É verdade que se chegou a alegar que Viviana tinha 16 anos na noite dos lençóis. Segundo outras versões, teria mais de 20. De toda forma, é do sexo feminino. E, mesmo que tivesse 16 anos, estaria longe dos 12, idade máxima tolerada por um pedófilo clássico. Fernando Lugo é um transgressor do voto de castidade à moda antiga, dos bons tempos em que os padres tinham amantes mulheres.

Jacob Zuma – novo presidente da África do Sul. Zuma aplica, nas danças que costumam pontilhar seus comícios, passos parecidos aos dos jogadores de futebol ao festejar os gols. Trata-se de uma amostra do sensual jogo de corpo que encontra sua plena realização na cama. Quantas mulheres tem ele? Casamentos foram seis. Uma das mulheres se suicidou, de outra se divorciou. Quatro continuam em curso, num país que aceita a poligamia tradicional dos zulus. Há ainda casos fora do casamento. Quantos seriam os filhos? O total, tal qual no caso das mulheres, só pode ser estimado. Na conta dele são dezoito; outros cálculos vão além. O presidente da África do Sul diferencia-se do do Paraguai pela entrega tão escancarada às proezas sexuais, quando, no outro, são escondidas. Iguala-se ao colega sul-americano no fato de não se saber com segurança quantas mulheres tem e quantos filhos gerou (veja Fernando Lugo). Num caso tornado público porque motivou um processo por estupro (do qual foi absolvido), Zuma manteve relações com uma jovem mesmo sabendo ser ela portadora do vírus HIV, e sem adotar proteção. Ele explicou que se preveniu da doença tomando uma ducha depois da relação. Nada lhe segura a indomável libido. Disse uma vez: "Muitos políticos têm amantes e filhos que escondem para fingir que são monogâmicos. Eu prefiro ser aberto. Amo minhas mulheres e tenho orgulho de meus filhos". Huuummm… Não é que tem razão?

Susan Boyle – cantora sensação de programa de calouros britânico. Boyle, católica fervorosa, frequentou igrejas a vida inteira, destacou-se no trabalho voluntário e no coro dos hinos religiosos, mas nunca teve a sorte (ou o azar) de encontrar um Lugo na sacristia (veja Fernando Lugo). Aos 47 anos, nunca foi beijada, segundo afirmou aos entrevistadores do programa em que sairia do anonimato para a glória universal com sua interpretação de I Dreamed a Dream. A senhora simplona, de corpo maltratado, desajeitada, malvestida e mal penteada emocionou o mundo ao provar, contra todas as evidências, ser capaz de proporcionar um raro momento de beleza. É de novo uma daquelas evidências de que, por trás das aparências de uma pessoa, pode pulsar uma outra, surpreendente, espetacular. Muitas foram as explicações para o impacto que Susan Boyle causa nas pessoas. Aqui vai mais uma: num mundo intoxicado de sugestões de sexo, ela introduziu a alternativa oposta. Representa uma virada de maré, na rendição ao sexo dominante na música pop como no cinema, na televisão e na publicidade. Susan Boyle deve tomar cuidado com o que tentarão fazer dela daqui para a frente. Já está em curso uma tentativa de remodelação de sua aparência. Deve ter mais cuidado ainda com os rapazes e os senhores que daqui para a frente disputarão a primazia de arrancar-lhe o primeiro beijo. Em jogo está uma das armas de seu êxito: o charme do sexo zero

AÇÕES RÁPIDAS


EDITORIAL
O GLOBO - 01/05/2009

Já era evidente, desde as primeiras informações sobre o surto de gripe suína originada no México, a gravidade do quadro decorrente da evolução da epidemia, que no espaço de poucos dias se espalhou para diversos países. Com a decisão da Organização Mundial de Saúde de declarar o planeta a um passo de uma pandemia o alerta subiu a um nível que não deixa mais dúvidas sobre o alcance da doença. 

Por fim, as palavras da diretora-geral da OMS, Margaret Chan ("É realmente toda a Humanidade que está sob risco. (...) Todos os países devem imediatamente ativar seus planos para uma pandemia"), deram o tom definitivo do que está por vir. E numa velocidade impressionante: até ontem à tarde, oito pessoas haviam morrido no México, epicentro da doença, e uma criança nos EUA, onde haviam sido detectados 109 casos. Em uma semana, a gripe alcançou Canadá, Reino Unido, Israel, Nova Zelândia, Espanha, Alemanha e Áustria. 

O Brasil tinha ontem quatro pacientes com suspeita de estarem com a gripe, e monitora outras 40 pessoas. No Peru, chegou-se a anunciar a detecção do primeiro caso da América do Sul (seguiu-se um desmentido do governo peruano). São dados que colocam irremediavelmente a epidemia na antessala do território brasileiro. E é à luz das advertências e dos movimentos da OMS no sentido de chamar o mundo à responsabilidade diante da ameaça comum que as autoridades de Saúde do país precisam agir - eficaz e rapidamente. Postergar medidas, mitigar responsabilidades e minimizar o potencial de riscos para a população - para não criar "pânico" - devem passar ao largo do manual de conduta do poder público. 

Neste primeiro momento em que ainda é impossível projetar em que nível o país será afetado pela iminente pandemia torna-se imperioso recorrer a ações preventivas. Entre estas, cuidados óbvios como o movimento nos aeroportos e portos, bem como nas chamadas fronteiras secas, onde o fluxo de pessoas é imenso - particularmente na Amazônia, onde há um flanco aberto principalmente na região limítrofe com a Venezuela. 

É preciso encarar a ameaça de frente, sem subterfúgios, de modo a estabelecer com urgência um plano de ação consistente para enfrentar a doença. A gripe se espalha rapidamente, tem letalidade, mas, uma vez detectada a tempo, pode ser debelada. A presteza diante da evolução da epidemia é um desafio para as autoridades sanitárias; outro, é reduzir substancialmente a margem de infecção pelo vírus, de modo a preservar ao máximo a população dos riscos de contaminação. E a informação clara, veraz, é grande antídoto. 

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA

Diogo Mainardi
Mais e menos inteiros

"Um brasileiro com linfoma que toma MabThera
tem mais chance de sair inteiro do lado de lá do
que um brasileiro com linfoma que é atendido
pelo SUS e não toma MabThera"

MabThera. É a marca do remédio usado no tratamento de linfomas iguais ao da ministra Dilma Rousseff – os linfomas de células B. Associado à quimioterapia, ele aumenta a possibilidade de cura dos pacientes em cerca de 20%. Dilma Rousseff fez bem em procurar um hospital particular. Seus hematologistas e seus oncologistas podem receitar-lhe o MabThera, como acontece nos Estados Unidos e na Europa. Os mais de 10 000 pacientes com linfomas que todos os anos recorrem aos hospitais públicos brasileiros, por outro lado, não podem contar com o remédio. Porque ele é caro demais para o SUS: um frasco custa 8.000 reais. O que aumenta mesmo, nesses casos, é só a possibilidade de morrer.

No sábado 25, ao lado de seus médicos, Dilma Rousseff falou abertamente sobre seu estado de saúde. Depois de informar que retirara um linfoma e que passaria por um tratamento de quimioterapia, ela declarou o seguinte, com aquela sua gramática um tanto peculiar: "Nós, brasileiros, temos o hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos e sairmos inteiros do lado de lá". Alguns brasileiros enfrentam obstáculos menores do que os outros. E alguns brasileiros possuem mais chance de sair inteiros do lado de lá. Os médicos de Dilma Rousseff sabem disso: um brasileiro com linfoma que toma MabThera tem mais chance de sair inteiro do lado de lá do que um brasileiro com linfoma que é atendido pelo SUS e não toma MabThera. Há brasileiros mais inteiros e brasileiros menos inteiros.

Em seu primeiro comentário público sobre o assunto, Lula garantiu que Dilma Rousseff "não tem mais nada". De certa maneira, ele está certo. Os dados do Ministério da Saúde sobre a incidência de câncer no país nem relacionam o linfoma. Para o governo, trata-se de uma categoria indiscriminada. É como se, oficialmente, o linfoma nem existisse. Para fazer qualquer planejamento, as autoridades sanitárias brasileiras se baseiam nos dados dos Estados Unidos. Há muitos anos, os médicos da rede pública tentam inutilmente incluir o rituximabe – o nome genérico do MabThera – no tratamento dos linfomas. Mas o medicamento só costuma ser obtido na marra, por meios legais, quando um doente processa o Ministério da Saúde. O maior obstáculo que os brasileiros enfrentam, para citar Dilma Rousseff, é o governo.

Lula e o PT imediatamente levaram o linfoma de Dilma Rousseff ao palanque, usando o apelo emocional para tentar impulsionar sua candidatura a presidente. Em vez disso, teria sido mais decoroso levar o linfoma aos hospitais públicos, estendendo aos pacientes mais pobres o acesso ao MabThera. Quem sabe alguns deles conseguissem sair inteiros do lado de lá.

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A MUTIPLICAÇÃO DAS COTAS


EDITORIAL
FOLHA DE S. PAULO - 01/05/2009

A COMISSÃO de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados deu um passo temerário ao aprovar, sem passar pelo plenário, projeto que reserva 10% das vagas em universidades públicas -inclusive as estaduais e municipais- para portadores de deficiência. A deliberação tem caráter conclusivo, e a matéria, que abrange também escolas de ensino médio, será agora examinada pelo Senado.
O percentual fixado para a nova cota parece arbitrário, antes de tudo. O projeto original previa 5%, mas a reserva foi duplicada na Comissão de Educação.
Segundo o IBGE, 14,5% da população apresenta algum tipo de deficiência, num conceito mais amplo que o da incapacitação para o trabalho. Este deve ser o critério para identificar os beneficiários dessa forma de ação afirmativa: incapacidade atestada por laudos de médicos credenciados pelo poder público.
Já existe no país uma cota para portadores de deficiência no mercado de trabalho. Empresas com mais de cem funcionários estão obrigadas a destinar-lhes 2% a 5% de suas vagas. Faria mais sentido que a regra para universidades se mantivesse dentro desses padrões.
O projeto padece ainda de um defeito comum, a tentativa de aplicar norma única para realidades diversas. O perfil e a proporção da deficiência física podem variar de região para região. Além disso, a lei colide com a autonomia universitária.
Há por fim que considerar outro projeto de lei já aprovado na Câmara, ora em exame pelo Senado, que destina 50% das vagas em universidades federais a alunos da rede pública. Somadas as cotas, 60% das vagas de universidades federais ficariam engessadas e alijadas da seleção pelo estrito mérito acadêmico, que precisa ser preservado como principal requisito para dar acesso ao ensino público de nível superior.

MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA

Maílson da Nóbrega
Ainda o idiota

"Enquanto Galeano escrevia suas bobagens, 
surgiam estudos sérios para explicar por que 
a América Latina perdeu para os EUA e o Canadá 
o lugar de região mais rica das Américas"

Nada simboliza melhor o atraso mental de Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, do que o ato de presentear o presidente americano, Barack Obama, com o livro As Veias Abertas da América Latina na recente 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago. Como Chávez, uma multidão de latino-americanos se encantou com a obra do uruguaio Eduardo Galeano, publicada em 1971 e muito reeditada desde então.

Galeano tem uma resposta fácil (e equivocada) para o atraso relativo da América Latina: a exploração de suas riquezas pelos colonizadores espanhóis e portugueses, e depois pelos EUA. Como bem disse Reinaldo Azevedo na edição de VEJA da semana passada, "As Veias Abertas é um livro errado desde as primeiras letras".

Ideias como essa foram demolidas de forma bem-humorada por três intelectuais – o colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, o cubano Carlos Alberto Montaner e o peruano Alvaro Vargas Llosa – no livro Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, de 1996. Roberto Campos prefaciou a edição brasileira. A obra de Galeano ganhou o epíteto de "bíblia do idiota".

Galeano repetiu Lenin na explicação que este deu para o fracasso da previsão de Marx sobre o colapso do capitalismo: somos pobres porque os ricos nos exploram. "Podemos ficar tranquilos: a culpa não é nossa", zombaram aqueles três em A Volta do Idiota, de 2007. As teses de Galeano "são ao mesmo tempo netas de Marx, filhas de Lenin e sobrinhas de Freud, graças a essa providencial transferência de culpa".

Enquanto Galeano escrevia suas bobagens, surgiam estudos sérios para explicar por que a América Latina perdeu para os EUA e o Canadá o lugar de região mais rica das Américas. Em 1880, a renda per capita do Brasil ainda era semelhante à americana. A mudança decorreu basicamente da qualidade das instituições, que era melhor nas ex-colônias inglesas.

A Nova Teoria Institucional, que daria o Prêmio Nobel de Economia a Ronald Coase (1991) e a Douglass North (1993), permite entender a ultrapassagem. Para North, nos EUA e no Canadá, herdeiros das tradições anglo-saxônicas, o respeito aos direitos de propriedade e aos contratos alinhou incentivos para que os empreendedores investissem. Criaram-se as condições para o crescimento acelerado. Na América Latina, a cultura e as instituições ibéricas eram pouco propícias ao desenvolvimento capitalista.

Stanley Engerman e Kenneth Sokoloff mostraram que as minas de prata na América do Sul espanhola e o clima favorável ao cultivo da cana-de-açúcar no Brasil e nas colônias inglesas e espanholas do Caribe constituíram a base da prosperidade latino-americana entre os séculos XVI e XVIII. A mão de obra era escrava. A riqueza se concentrava nos grandes proprietários. Estão aí as raízes das nossas desigualdades sociais.

A América do Norte recebeu imigrantes artesãos e pequenos agricultores. Formou-se uma ampla classe média. A renda era mais bem distribuída. A religião protestante fomentou a educação ao estimular a leitura da Bíblia sem a intermediação de sacerdotes. A educação primária foi universalizada no século XIX. Em 1800, os EUA possuíam a população mais alfabetizada do mundo.

Segundo Engerman e Sokoloff, "os estudos mais recentes sobre o processo de industrialização nos EUA confirmam a hipótese de que as economias do Novo Mundo onde havia maior igualdade estavam mais bem posicionadas para promover o desenvolvimento". Na América Latina, vicejou o capitalismo de compadres, particularmente no bojo das políticas de substituição de importações. Privilégios, descaso com a educação e leniência com a inflação pioraram a concentração de renda.

Culpar a "espoliação imperialista" pela pobreza latino-americana é mistificação derivada de preguiça mental e cegueira ideológica. Os EUA têm defeitos, mas não o de terem enriquecido nutrindo-se das veias abertas da América Latina. Melhor explicação está nas instituições geradoras da democracia e do capitalismo vigoroso, que ampliaram o bem-estar e catapultaram o país ao posto de maior potência em pouco mais de um século.

Obama poderia oferecer a Chávez os dois livros sobre o idiota latino-americano. Não adiantaria muito, mas seria uma retribuição à altura.

PANORAMA

REVISTA VEJA

Holofote

Felipe Patury


Novos ministérios

Valter Campanato/ABR


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encomendou à Advocacia-Geral da União um estudo sobre a conversão das secretarias especiais de seu governo em ministérios. A medida beneficiaria as pastas menos conhecidas e relevantes do governo, como a de Políticas para as Mulheres, de Nilcéa Freire, a dos Direitos Humanos, de Paulo Vannuchi, e a de Promoção da Igualdade Racial, de Edson Santos. Qual é o efeito prático da mudança? Nenhum. Mas Lula ficaria bem com as minorias, que elegeriam como inimigo quem tentasse extinguir as pastas no futuro.

 

Engenharias de Brasília

Rodrigues Pozzebom/ABR


Está prestes a ruir o acordo feito pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, com seu vice, Paulo Octávio, ambos do DEM, para a eleição de 2010. Arruda prometeu não concorrer à reeleição e lançar Paulo Octávio à sua sucessão. Mas o vice não quer mais. Paulo Octávio reluta em entrar na disputa porque teria poucas chances de vencer o ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB. Também há confusão nas hostes petistas. A vaga do partido foi prometida ao ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz, mas o presidente Lula e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, preferem Sigmaringa Seixas.

 

As verdinhas do Verdão

Marcos D’Paula/AE


O presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo,renegocia os patrocínios do time. A Suvinil, que patrocina a manga da camisa, será substituída pela Fast Shop. Com a mudança, o clube receberá, neste ano, um total de 25 milhões de reais com os anúncios no uniforme – a maior parte será paga pela Samsung, que anuncia na frente da camisa, e pela Adidas, que fornece os uniformes. No ano passado, o Palmeiras arrecadou 13 milhões pelo mesmo espaço.

 

Charlie Huck e Lolangélica

Divulgação


O apresentador Luciano Huck fará sua estreia no teatro, mas nos bastidores. No ano passado, ele assistiu em Londres, com sua família, a uma adaptação para o palco com bonecos do desenho animado Charlie e Lola. Adorou, comprou os direitos para o Brasil e os transferiu para a produtora Aventura, que pretende montá-la no Rio de Janeiro e em São Paulo. O diretor do espetáculo na Inglaterra, Roman Stefanski, foi incumbido da seleção de elenco e já veio ao país para as audições. Amigos de Huck gostariam, porém, de vê-lo no papel de Charlie e sua mulher, Angélica, no de Lola.

 

A dívida na frente dos bois

Alan Marques/Folha Imagem


Os pecuaristas de Mato Grosso do Sul estão em guerra com o frigorífico Independência. A empresa entrou em recuperação judicial em março e deu um cano de 100 milhões de reais em uma centena de produtores locais. Depois, propôs que eles continuassem fornecendo bois mediante pagamento à vista e aceitassem receber os atrasados no futuro. Os pecuaristas dizem que o Independência tem dinheiro para pagar seus débitos e rejeitaram a proposta. Dirigentes do setor acreditam que pode ser o início de uma rebelião generalizada contra os frigoríficos, sob os auspícios da presidente da Confederação Nacional da Agricultura, Kátia Abreu.

 

Pedro Rubens


Está podendo, hein, Miele?

Em outubro do ano passado, a grife italiana Pucci convidou o estilista paulistaCarlos Miele para ser seu diretor criativo. Miele recusou. Em fevereiro, foi a vez de a marca americana Halston oferecer-lhe o mesmo posto. Novamente, Miele disse não. Decidiu manter-se à frente das lojas de alta-costura que levam seu nome e o da M.Officer, porque abrirá uma terceira frente de negócios. Ele prepara o lançamento de uma linha de calças jeans premium para disputar no Brasil a clientela da Diesel. A nova marca se chamará Miele Denim e deve começar a ser vendida ainda neste mês.

COISAS DA POLÍTICA

A gripe dos porcos e a mentira dos homens

Mauro Santayana

JORNAL DO BRASIL - 01/05/09

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.

Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.

O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.

Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.

As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada "ação social". Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.

O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.

LYA LUFT

REVISTA VEJA

Lya Luft
Esse poço tem fundo?

"É frágil uma democracia na qual pobres e ricos, 
jovens e velhos, reagem com um dar de ombros 
quando se fala nesses desmandos, nesses abusos, 
nessas verdadeiras loucuras – as que sabemos e
as piores, que ainda ignoramos"

Houve um tempo em que se ensinava às crianças que, se a gente furasse um poço dias e dias e anos e anos a fio, chegaríamos ao Japão (ou era China que diziam?) e estaríamos no meio de crianças orientais de olhos puxados e costumes muito diferentes. Menina de cidade do interior, só conheci a maravilhosa cultura oriental muitos anos depois.

Adulta, descobri que a vida tem outros poços, nem todos divertidos. Um deles agora se afunda como se não tivesse chão: o poço dos escândalos nossos de cada dia, o poço da nossa desolação e dos nossos enganos. Percebo que, a pior das situações, raras pessoas ainda se dão ao trabalho de se preocupar de verdade. A maioria, talvez para suportar tantos desencantos, dá de ombros dizendo que é isso mesmo, as coisas são assim, no Brasil é assim, no mundo inteiro está ficando assim, e afinal "não tem problema".

Ilustração Atômica Studio


Propriedades produtivas são invadidas sob proteção não se sabe de quem: ninguém parece fazer nada. Congressistas e senadores fazem farras inimagináveis quando ainda acreditávamos neles: não tem problema. Mensaleiros continuam sendo processados, mas não sei que tenham perdido a honra, ou vivam execrados. Agora, no Supremo Tribunal do país, ministros batem boca diante de telespectadores atônitos: parece que perdemos o último baluarte da nossa esperança.

Mas fiquem tranquilos, não tem problema.

Não devemos nos espantar com a generalizada quebra de autoridade. Tudo numa boa, por aqui é assim. Sem stress, que dá rugas, sem exageros, que a gente vira um chato. Que povo estamos nos tornando? Ignoramos essas circunstâncias, que agora não são apenas corrupção escancarada e impune, mas falta de compostura de quem era a última instância de nossa vida problemática, derradeira inspiração para a desorientada juventude nossa. Mas não ignoramos por sermos ignorantes, e sim porque nos dizem que está tudo numa boa, e não adianta reclamar. A gente se acomoda, se distrai, olha para o outro lado, porque a capacidade de reagir nos foi lentamente, subliminarmente, retirada. Não por sermos um povo acomodado ou superficial, mas mergulhado num estado geral de desinteresse – e isso contagia feito uma nova doença, uma gripe de derrotados nem sempre suínos. Algo negativo e sombrio perpassa este país, e nem os trios elétricos nem zabumbas nem carnavais ou belas danças típicas do interior conseguem disfarçar.

É frágil uma democracia na qual pobres e ricos, jovens e velhos, reagem com um dar de ombros quando se fala nesses desmandos, nesses abusos, nessas verdadeiras loucuras – as que sabemos e as piores, que ainda ignoramos. (Pois, quanto à chamada farra das passagens, dizem os que sabem das coisas que o pior vai permanecer oculto, não por último para preservar, em alguns casos, a solidez da santa família brasileira.) A gente ou sabe ou imagina, e comenta como se fosse engraçado: quem ainda acredita nos políticos? Quem ainda tem fé nas instituições? Olhe só o que está acontecendo por aí, e nem é de hoje. Nem vai se corrigir, ao contrário: cada vez aparece algo mais sério, mais sinistro, objeto de reais ou falsas investigações tantas vezes desfocadas e ineficientes, ou aparentemente rigorosas. Sentimos uma lufada de otimismo, agora, sim, a coisa vai endireitar... mas logo se desfaz diante do comentário que vem do alto: tudo resolvido, não tem problema.

Tem problema. Tem muito problema. Não é normal, não é assim o Brasil, não são assim os brasileiros. A falta de autoridade de tantos líderes contamina feito uma gosma escura, uma doença maligna corroendo a decência neste país, tirando-nos discernimento e capacidade de julgar. Fingimos não saber, fingimos nem ligar. Aos mais simples, como às crianças e jovenzinhos, é repetido que está tudo bem, tudo em ordem. "Não tem problema." Assim, descrentes e céticos, protegem-se com um precoce cinismo, que afinal é um jeito (pobre) de sobreviver na selva moral.

MÍRIAM LEITÃO

Sutis diferenças

O GLOBO - 01/05/09

Barack Obama chegou pontualmente para a sua terceira entrevista coletiva em 100 dias. Falou inicialmente por três minutos, e deu a principal mensagem: ele não está satisfeito com o seu desempenho. Não se atrasou, aceitou o confronto direto com os jornalistas, não falou demais, não se deitou em autoelogios, encerrou a entrevista precisamente uma hora depois. Com quem ele não se parece?

Quando falou da oposição, o fez com respeito republicano. Lembrou que os americanos votaram pela mudança, mas que os republicanos, quando se opõem ao seu governo, “estão fazendo o que acham que está certo”.

Era sonho dourado do presidente Barack Obama fazer um governo bipartidário. Isso fracassou logo no começo, quando o plano de recuperação da economia não teve um único voto da minoria. Mesmo assim, ele não culpa a oposição quando fala do assunto.

Obama poderia fazer uma longa lista de feitos e de promessas cumpridas neste começo de governo. Dizer que anunciou o fechamento de Guantánamo, que terminou o início da retirada do Iraque, baniu a tortura, retomou as pesquisas com células-tronco, acabou com a censura aos cientistas nos estudos sobre mudança climática, incluiu a questão ambiental nos programas de estímulo econômico, mudou a atitude diplomática americana. Enfim, a lista das promessas cumpridas já é vasta. Mas Obama passou rapidamente por algumas questões, entre elas o susto do momento com a gripe suína, e abriu o espaço para perguntas diretas, ele próprio chamando cada jornalista.

Não há, lá, aquele aparato em que um locutor solene chama o jornalista, sem espaço para réplica, em raríssimas entrevistas. Lá elas são corriqueiras e fazem parte do trabalho de prestação de contas à sociedade através dos jornalistas.

Quando o repórter do Wall Street Journal perguntou, com ironia, o que ele pretende fazer como representante do acionista de empresas dos setores automobilístico e bancário — numa referência às intervenções do Estado na economia — Obama respondeu que pretende sair fora o mais rapidamente possível do negócio automobilístico e do financeiro, porque a interferência do Estado se justifica apenas na emergência da crise. Disse que não está ali para administrar empresas automobilísticas e bancos. Não deixou espaço para ambiguidades, não fez loas ao Estado como o condutor da economia, mas puxou orelha do setor privado, quando disse que se os japoneses podem construir carros baratos, híbridos, bem desenhados e fáceis de manejar, os americanos também deveriam ser capazes disso. Lembrou, ainda, que o contribuinte que pôs dinheiro nestas empresas, em momento de risco, tem que poder cobrar e ser informado do que se passa nelas.

Saiu-se bem num importante embate entre os jornalistas sobre a tortura a suspeitos de terrorismo. Um deles quis saber se os “métodos duros” de interrogar prisioneiros não teriam salvado vidas e aumentado a segurança dos Estados Unidos. Ele foi enfático e direto. Fará tudo o que for necessário para aumentar a segurança dos Estados Unidos, mas não acha que a tortura — ele não usou eufemismos — seja um caminho para isso. Citou Churchill em plena Segunda Guerra, diante do terrível inimigo nazista, determinando que não fossem torturados os prisioneiros de guerra. Quiseram pôr o presidente na saia justa de criticar o governo passado por fazê-lo, e ele repetiu: “não vamos torturar”, independentemente da base legal que por acaso tenha havido. Diante de outra pergunta, do Time Magazine, disse que vai mudar a lei de segredos de estado, que os trâmites legais para isso estão sendo feitos.

O New York Times quis saber o que o tinha surpreendido na presidência e Obama disse que foi o número de problemas que encontrou. Contou que, no começo da campanha, pensava num número de assuntos críticos, como guerra do Iraque, crise econômica e reforma do sistema de saúde, mas encontrou um número muito maior de assuntos críticos. Agora, enfrenta mais uma emergência: a gripe suína.

Pouco falou do que é o seu mais fraco desempenho: a crise econômica. Mas não o fez porque foi pouco perguntado sobre o assunto e este era seu óbvio ponto fraco. Os bancos terão mais aportes de capital do contribuinte e, exceto o ritual dos testes de estresse, não há nada muito diferente em relação à antiga administração. Os acionistas, controladores e administradores continuam sendo mais ou menos os mesmos. O Proer brasileiro impôs perdas aos controladores e gestores dos bancos falidos.

O repórter da Black Entertainment Television fez uma pergunta dando um tom grave à crise econômica e seus efeitos na população, especialmente na comunidade negra, e perguntou o que ele faria a respeito. Obama, na resposta, incluiu os latinos, admitiu que são comunidades que sofrem mais o impacto da crise e falou dos resultados que espera do seu plano de estímulo econômico.

Em todas as outras questões, seja o arsenal militar do Paquistão, aborto, reforma da lei de imigração (pergunta da Telemundo), Obama respondia diretamente. Não usava a pergunta como trampolim para discursos de campanha ou autolouvação. Que diferença!

Com Leonardo Zanelli