terça-feira, outubro 21, 2014

Heróis do mensalão tentam sobreviver ao petrolão - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA


Luiz Inácio da Silva está de saco cheio - nas palavras dele, naturalmente. Caprichando no timbre pré-histórico que o Brasil consagrou, Lula atacou mais uma vez o denuncismo da imprensa burguesa, que fica publicando coisas desagradáveis sobre a Petrobras. O ex-presidente em exercício disse que não aguenta mais a mesma coisa em toda eleição. De fato, se não fosse essa mídia golpista a serviço da elite branca, os companheiros poderiam continuar a roubar a maior empresa brasileira de forma silenciosa e discreta, sem esse falatório todo que só atrapalha os bons negócios privados feitos dentro da estatal (abaixo da camada pré-sal).

O mais estranho de tudo é que, pelo cenário da corrida presidencial, parece que o eleitorado começou a acreditar nas manchetes da imprensa golpista - um absurdo, pois Lula já cansou de avisar aos brasileiros para não acreditar no que sai na mídia.

Eles nunca acreditaram, como se viu na reeleição dele em pleno mensalão e na eleição da sucessora, em pleno escândalo Erenice Guerra. Para corrigir essa perigosa distorção, segue um retrato do segundo turno da eleição mais surpreendente da história em manchetes elaboradas especialmente para não transbordar o saco de Luiz Inácio:

O presidente dos Correios que distribui panfletos de Dilma é ligado ao tesoureiro do PT que está no petrolão. Vote 13 pela coerência.

Dilma calou os críticos. Mesmo com os preços de energia amordaçados, ela acaba de estourar o teto da meta de inflação. Pensam que é fácil?

O despachante de José Dirceu na Papuda, e governador do DF nas horas vagas, não foi nem ao segundo turno. Infelizmente, há unhas que nem Delúbio desencrava.

Fantasmas do passado assombram a elite vermelha (aterrorizada com a ideia de ter de trabalhar a partir de 2015).

A Bolsa subiu, o dólar caiu, as ações da Petrobras dispararam. Volta, Dilma!

Com a boa votação de Luciana Genro, o Brasil enfim discutirá a sério a reforma agrária, o imperialismo ianque e, quem sabe, até as Diretas Já.

Marcelo Freixo, o revolucionário do bem, já declarou seu voto para Dilma. O recado das ruas em junho de 2013, portanto, foi o seguinte: deixa pra lá.

Lá vem a direita gritar que mais um petista (ligado ao governador eleito de MG, Fernando Pimentel) foi pego com uma montanha de dinheiro. Pura inveja da elite vermelha. Eduardo Jorge apoia Aécio e pira o GPS dos bonzinhos. Fica a dica: a esquerda éado relógio, e a direita a da caneta.

Falando em pureza, Luciana Genro liberou seus fiéis para votar em Dilma. Pela margem de erro, os puros poderão escolher de Collor a Sarney.

Mantega diz que Armínio cortará programas sociais. É verdade. O Bolsa Ministro Ocioso, por exemplo, desaparecerá.

Delatores revelam: Vaccari, tesoureiro do PT, regia o petrolão. Delúbio está morrendo de ciúmes.

Armínio ao PT: "Comparações com FH precisam ser mais honestas". Pedir honestidade ao PT? É um fanfarrão, esse Armínio.

O Brasil aguarda ansiosamente o manifesto dos intelectuais de esquerda em defesa da Petrobras e dos heróis que fizeram dela um anexo do PT.

Dilma diz que o petrolão só apareceu porque ela investigou. As cabeças cortadas também só apareceram porque o Estado Islâmico filmou.

Dilma disse que acha "muito estranha" a história contada pelos delatores da Petrobras. Bota estranha nisso, presidenta.

Dilma denuncia: divulgação dos podres da Petrobras é golpe. Cadê o manifesto dos intelectuais petroprogressistas contra o novo golpe da elite branca?

E os sonháticos... Cada vez mais erráticos. Nenhuma surpresa. A coletiva de Marina pós-eleição parecia um almoço de domingo. Haja poesia.

Um lembrete: nenhum jornalista, cientista político ou tucano genérico apostou em Aécio. Diziam que ele não batia no PT e estava no tom errado.

Aécio esterilizará as nordestinas (essa manchete é para poupar trabalho à central de inteligência dos companheiros).

Dilma reclamou das delações na Petrobras em época de eleição. É mesmo um absurdo. Mas roubar a empresa está liberado em qualquer época.

Se você também não suporta mais ver o filho do Brasil de saco cheio em véspera de eleição, siga @GFiu-za_Oficial: a política brasileira em manchetes que não ardem nos olhos e não irritam a alma sensível dos companheiros (só um pouco).


Leite derramado - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 21/10


Evidentemente não se pode atribuir à Justiça os defeitos nem se resolvem por meio de interferência legal os problemas decorrentes do uso de mistificação e da mentira nas campanhas eleitorais. Mas há parâmetros a serem observados a fim de se resguardar os limites da legalidade e, com eles, um grau razoável de civilidade entre os concorrentes.

Essa percepção parece ter levado o Tribunal Superior Eleitoral a adotar, desde a semana passada, uma atitude mais rigorosa nesta eleição. Suspendeu peças publicitárias dos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves por serem consideradas de conteúdo meramente ofensivo e que fugiam do objetivo do horário eleitoral da apresentação das propostas e do perfil dos oponentes.

Decisão algo questionável, por inédita, uma vez que há exemplos de casos de propagandas agressivas em outras campanhas que não foram suspensas, e também por ensaiar um flerte com o controle de conteúdo - em português claro, censura.

Na realidade, o que o TSE fez foi tentar passar a tranca depois de a porta ter sido arrombada. Por falta de aviso não foi. Desde o início do ano passado o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, por três vezes presidente do TSE nos últimos 20 anos, vem alertando para os riscos de uma tendência mais "flexível" em relação à legislação existente entre os integrantes do tribunal.

Vários deles se manifestaram contrários à interferência da Justiça no processo político, defendendo que o debate eleitoral transcorresse de maneira mais livre. Era a teoria da atuação mínima. Materializada, por exemplo, na liberdade dada à realização campanha antecipada. Quase um ano e meio antes das eleições, não obstante a lei só permita o início a três meses da data do primeiro turno da votação.

Os horários reservados aos partidos para que apresentem seus programas - e exclusivamente para isso - foram todos usados para enaltecer as figuras daqueles que viriam a ser oficializados candidatos nas convenções de junho último. Isso sem serem importunados pelo Judiciário.

No ano passado o ministro Marco Aurélio chamava atenção para o fato de que esse tipo de distanciamento por parte da Justiça abriria espaço para que nas eleições deste ano prevalecesse "a lei do mais ousado, do mais esperto". Assim ocorreu no primeiro turno com o PT em relação à candidata Marina Silva. Já no segundo, com o PSDB, o ambiente foi de "bateu levou".

Na opinião de Marco Aurélio, o TSE acordou tarde para o problema. "Pelo visto arrependeu-se, mas o fez em cima da hora, o que não permite a atuação da Justiça ser tão eficaz como poderia", diz ele, acrescentando que o limite às transgressões deveria ter sido imposto antes.

"A eleição é um período que se presta a paixões e se os candidatos percebem que a Justiça não age, a tendência é a de abusarem. Por isso consignei à época que deixei o TSE que o momento não seria o mais adequado para se aplicar flexibilidade com as normas jurídicas. Afinal, não vivemos na Suíça."

O ministro não concorda que o TSE esteja praticando censura ao vetar conteúdo de programas, pois na opinião dele a prática de "enxovalhar o perfil do adversário" conflita com a legislação e, portanto, sua proibição tem legitimidade. "O espaço reservado à discussão de ideias não abre campo para a desqualificação pessoal, muito menos de caráter calunioso."

Marco Aurélio envereda por um terreno tão delicado quanto polêmico ao aventar outra hipótese para o aumento da temperatura entre os candidatos à Presidência da República: "A perda de parâmetros em passado recente no Supremo Tribunal Federal". Refere-se aos debates acalorados comandados pelo ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento do processo do mensalão.

"Os termos das discussões na Corte não contribuíram para dar um bom exemplo aos demais cidadãos".

A hora da onça beber água - ARNALDO JABOR

O ESTADÃO - 21/10


Dilma Rousseff: seu duro passado de militância e luta lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela foi uma típica "tarefeira" da VAR-Palmares e hoje, como tarefeira do PT, ela quer realizar o sonho de sua juventude. Por isso, quer estatizar o que puder na economia, restos de sua formação... (eu ia dizer "leninista", mas é "brizolista").

Seus olhos fuzilam certezas sobre como converter (ou subverter) a pátria amada. Petistas e brizolistas acham que democracia é "papo para enrolar as massas", como já declarou um professor emérito da USP; ela idealiza o antigo "proletariado" e despreza a classe média "fascista", como acha outra emérita professora.

Ela desconfia dos capitalistas e empresários, ela quer se manter no poder e virar o PT num PRI mexicano; ela finge ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria, ela ama o Lula, seu operário mágico que encarnou o populismo "revolucionário".

Conheci muitas "dilmas" na minha juventude. As "dilmas" eram voluntariosas, com uma coragem irresponsável diante da muralha da ditadura. Professavam uma liberdade mais grave do que os hippies da época; era uma liberdade dolorosa, perigosa, sacrificial, suicida, sem prazer, liberdade e luta. Até respeitável.

Mas, para as "dilmas" e "dirceus" do passado, a democracia era uma instituição "burguesa". Ela se considerava e se acha ainda "membro" (ou "membra"?) de uma minoria que está "por dentro" da verdade, da chamada "linha justa" que planejava um outro tipo de "liberdade" (Lenin: "É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente" ).

Ela se julgava e se julga superior - como outros e outras que conheci (inclusive eu mesmo - oh, delícia de ser melhor que todos; oh, que dor eu senti ao perder essa certeza...). Nós éramos os fiéis de uma "fé cientifica", uma espécie de religião da razão que salvaria o mundo pelo puro desejo político - éramos o "sal da terra", os "sujeitos da história". Toda a luta progressista de hoje se trava entre a esquerda que amadureceu e ficou socialdemocrata e a esquerda que continua na ilusão de 63. A velha esquerda brasileira existe como nostalgia de uma esquerda que desapareceu.

Dilma foi executiva da comissão de frente que organizou a aliança de Lula com a liderança sindicalista pelega e com a direita mais vergonhosa do País, liderada por Sarney et caterva. Como era "trabalhadeira", Lula se impressionava com ela (ele que odeia o batente) e transformou-a em um "poste" que se revelou persistente no erro, com a típica burrice dos teimosos.

E aí ela começou a governar com um medidas e táticas pretensamente "socialistas" em um país capitalista. Dá em bolivarianismo, esse terror contra o povo da Venezuela.

A "claque" sindicalista que subiu ao poder nunca desistiu de seus planos; suas mentes são programadas para repetir as mesmas táticas. A esquerda velha continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", de Estado-pai, ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições.

Muitos riquinhos e mauricinhos hoje dizem que votam na Dilma porque ela seria "contra a pobreza". Não sabem de nada, tinham 10 anos quando FHC fez o Plano Real contra a vontade do PT e seus aliados. Hoje, esses mauricinhos se dão ao luxo de se sentirem de "esquerda", antes de irem para a balada.

São absolutamente ignorantes sobre política e acham o PT um partido de "esquerda", quando é claramente de "direita" ("É a economia, estúpidos!" - James Carville, assessor do Clinton contra Bush).

O povão do Bolsa Família não pode entender isso, mas esses babacas que estudaram deviam ser menos primitivos. Os petistas dão graças a Deus que muitos de seus eleitores não sabem ler. Por exemplo, eles não têm ideia do que seja o escândalo da Petrobrás e do aparelhamento do Estado cleptomaníaco que foi montado. Não entenderam nem o mensalão, pois, como disse o Lula, "povo pensa que dossiê é doce de batata". Votarão no escuro de suas vidas. Como se explica isso?

Resposta: o País tem um movimento "regressista" vocacional. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista, para gáudio dos seus exploradores. E o PT aproveita.

A crescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: "complexidade é frescura, o negócio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista" (Lenin: "Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país").

O Plano Real e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos são tratados como se fossem uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas públicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. Não houve um lampejo de reconhecimento pelo país que FHC deixou pronto para decolar e que foi desfeito (Stalin: "A gratidão é um sentimento de cachorros...").

Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático. Querem fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um "patrimonialismo de Estado". Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica.

Não esqueçamos que o PT não assinou a Constituição de 88, combateu a Lei de Responsabilidade Fiscal, foi contra o Plano Real para depois roubá-lo como se fosse obra do Lula. Alardeiam coisas novas que "vão" fazer, se eleitos de novo mas, pergunta-se: por que não fizeram nada durante doze anos?

É isso aí, bichos... Se Dilma for eleita, teremos o início de um bolivarianismo "cordial".

Voto a voto - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 21/10
A virada na eleição presidencial constatada pelo Datafolha na pesquisa divulgada ontem ainda não é definitiva a favor da presidente Dilma, mas sinaliza uma tendência que pode ganhar velocidade até o próximo domingo, dia da eleição. Mesmo essa tendência, porém, precisa ser ainda confirmada, e as próximas pesquisas, quase diárias e de institutos diferentes, marcarão a evolução do eleitorado nestes últimos dias de campanha.

Ganha relevância maior, neste caso, o debate a ser promovido pela Rede Globo na sexta- feira, último dia da campanha eleitoral. Além desse detalhe de calendário, o debate terá a novidade em relação aos demais de colocar eleitores indecisos para fazer perguntas aos candidatos, o que pode ser fundamental na hora de definir o voto. Pesquisa recente do Datafolha mostra que parte do eleitorado decidiu no primeiro turno entre o sábado e o domingo da eleição, o que teria provocado os erros dos institutos de pesquisa.

O empate técnico ainda se mantém, mas o fato é que houve uma inversão de posições na liderança que demonstra uma alteração de quadro importante. Dilma Rousseff ganhou 3 pontos percentuais nos votos válidos, que, tirados do concorrente direto, podem significar um ponto de inflexão.

Mesmo que já não seja mais aquela militância aguerrida de outros tempos, a do PT tem mais história que a do PSDB, cujos eleitores serão testados nestes últimos dias de campanha. Há uma tese de que parte dos eleitores tucanos não revela seu voto nem nas pesquisas, para não sofrer pressão, e esse "voto oculto" poderia fazer a diferença na hora decisiva.

Nunca houve tanta chance de derrotar o PT quanto agora, mas a resiliência da candidatura de Dilma Rousseff, que não é a mais carismática das candidatas nem a mais amada entre seus próprios pares, mostra que ainda existe um forte sentimento petista no eleitorado, que mistura os ideológicos com os beneficiários dos programas sociais temerosos de perder as vantagens, e uma classe média que não quer arriscar o que já ganhou, os dois últimos grupos influenciados pela propaganda negativa desencadeada pela campanha petista.

Caberá à campanha de Aécio Neves tentar convencer os eleitores de que essa propaganda de boatos e ameaças do PT não corresponde à realidade, além de não deixar seus eleitores desanimarem na reta final. A propaganda petista teve sucesso em dois pontos cruciais até o momento: conseguiu reduzir a rejeição à presidente Dilma Rousseff, melhorando a aceitação de seu governo, e aumentar a rejeição a seu adversário, embora isso tenha sido alcançado através da mistificação e da boataria.

A disputa, neste momento, está sendo travada em estados em que o eleitorado mostrou-se dividido no primeiro turno: Rio de Janeiro e Minas Gerais. A presidente conseguiu manter uma pequena diferença no Rio, crescendo nesta reta final o suficiente para não deixar que o candidato tucano a superasse; e, em Minas, Aécio Neves ainda não abriu uma diferença tal que compense derrotas em outros estados e a melhoria da presidente Dilma em regiões onde o tucano vence, como no Sul.

Ganha enorme importância mais uma vez São Paulo, onde o PSDB está abrindo grande vantagem. Por isso a campanha petista nos últimos dias voltou a atacar o PSDB pela crise da água, um tema que não vingou na campanha para governador, mas que, com o agravamento da situação, pode tirar votos preciosos do tucano Aécio Neves.

Sai de baixo! - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 21/10

BRASÍLIA - Aécio Neves saiu bem do primeiro turno, como a grande novidade, e abriu bem o segundo, ultrapassando numericamente Dilma no primeiro Datafolha. A reviravolta desta segunda (20) vem numa hora muito ruim para o tucano --a hora da consolidação dos votos.

Essa pesquisa: 1) mostra que os ataques de Dilma estão dando certo; 2) pode mover milhões de indecisos ou votos infiéis pelo país afora. A dias da eleição, o ímpeto é votar em quem está na frente.

A campanha de Aécio estima crescer e até ultrapassar Dilma em Estados chaves como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de reduzir bastante a vantagem em Pernambuco, onde o tucano conquistou o apoio da viúva, dos filhos e dos aliados de Eduardo Campos.

É nesses quatro focos que Aécio pensa contrabalançar a desvantagem no Norte e Nordeste, redutos petistas, mas a estratégia parte da premissa de que os votos nos demais Estados estão cristalizados. Estão?

Dilma investe nos mesmos quatro --MG, RJ, PE e RS--, mas não descuida daqueles em que o PT é forte e nos quais ela já saiu vitoriosa no primeiro turno. Além de evitar a sangria em redutos que podem oscilar, como o Rio, quer se fortalecer (ou enfraquecer Aécio...) onde ela já é forte.

O interessante é que São Paulo, maior colégio eleitoral do país, entra de forma enviesada, mas é central na estratégia. É a maior vitrine da campanha de Aécio (que passou a se referir a Alckmin e a Serra nos debates), mas começou a ser também uma perigosa vidraça, por causa da crise da água. O confronto de Dilma não é mais com o governo FHC, é com o governo do PSDB em São Paulo, bem mais atual, convenhamos.

A campanha petista tem rumo, sabe aonde quer chegar e não tem o menor prurido de usar todo e qualquer meio para chegar lá. Está bem mais difícil dar certo com Aécio do que deu com Marina. Mas, com empate técnico, esses últimos dias serão de vida e morte. Sai de baixo!

Fora da cadeia - CELSO MING

O ESTADÃO - 21/10


A indústria brasileira não está apenas perdendo importância no PIB do País. Também vem perdendo participação nas cadeias globais de valor, se é que já esteve bem nesse filme. É o que apontou nesta segunda-feira em relatório a Organização Mundial do Comércio, a OMC, hoje presidida pelo diplomata brasileiro Roberto Azevedo.

O importante hoje não é propriamente produzir da matéria-prima ao produto acabado, como se pensava há alguns anos. A Tecnologia da Informação e as grandes inovações no transporte internacional criaram um novo ambiente e uma nova arrumação da produção, altamente fragmentados.
É mais importante produzir um chipezinho à toa ou até mesmo prestar um serviço que faça parte de um produto global do que seguir fabricando todos os componentes de uma mercadoria de consumo apenas local.

O Brasil está perdendo esse bonde porque, há mais de dez anos, o governo não entendeu esse processo. Aferrado a uma visão nacional-sindicalista da produção, aprofundou uma política industrial conservadora e protecionista que vai desembocando nas particularidades do consumo interno e não na integração global.

Na medida em que se baseia na proteção alfandegária e na criação de reservas de mercado, que abrangem quase sempre da matéria-prima ao produto final, o processo industrial brasileiro enfrenta custos altos demais, que tiram competitividade do setor. E, como não têm nem preço e quase sempre nem qualidade para competir internacionalmente, não há como produto intermediário e produto final se inserirem nas cadeias globais de valor.

A participação nessas cadeias exige uma estrutura de tarifas alfandegárias baixas, para que a indústria possa incorporar matérias-primas e produtos intermediários importados que depois serão reexportados. No entanto, como mostra o estudo da OMC, o País acabou sendo relegado à posição dos lanternas das cadeias globais de valor. (Veja a tabela do Confira)

A explicação para mais esse mau desempenho do Brasil não está no relatório da OMC, mas é conhecida. Agarrado a seus parceiros do Mercosul, principalmente a Argentina, o País continua se fechando comercialmente e, na medida em que se fecha, vai ficando fora do jogo.

Durante todos esses anos, o governo Dilma não percebeu a importância do novo processo. Não apenas desestimulou a costura de novos acordos comerciais que abrissem o mercado do setor produtivo a novos negócios, como tratou de defender o mercado interno para o produtor nacional, no pressuposto de que, dessa maneira, criaria condições para o aumento de escala para a indústria.

Aconteceu o contrário. Travado pelos custos, o setor não conseguiu competir lá fora e perdeu cada vez mais fatias de mercado para o produto importado, apesar do forte protecionismo interno.

Em geral, os dirigentes da indústria e alguns dos seus economistas continuam argumentando que esse alijamento do setor produtivo se deve à “persistência de um câmbio fora de lugar” e não à baixa competitividade, resultado causado por outros fatores, que nenhum câmbio possível será capaz de compensar.

Amplos desdobramentos do escândalo na Petrobras - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/10

A SEC, agência do mercado de ações e títulos nos EUA, abriu investigação sobre o caso, e ainda falta conhecer a lista de políticos do esquema de corrupção



A visão conspiratória de que o escândalo na Petrobras obedeceria a um enredo sob encomenda para desestabilizar a candidatura de Dilma Rousseff não sobrevive a um mínimo de bom senso. O andamento das investigações da Operação Lava-Jato, da PF — a que devassou os laços entre o doleiro Alberto Yousseff e o diretor da estatal Luís Roberto Costa —, precisaria se articular com o calendário de interrogatórios na Justiça e MP, alguns sob supervisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo, para produzir um noticiário negativo ao governo do PT em setembro e outubro.

O noticiário existe, mas por outro simples motivo: porque o escândalo do superfaturamento de contratos de empreiteiras com a Petrobras, para financiar propinas e caixa dois de políticos e campanhas, se configura mesmo como de grandes proporções. Tanto que se prevê a divulgação de informações ainda mais danosas ao PT — e não apenas para ele — tão logo o segredo de justiça sobre depoimentos que envolvam acusados com foro privilegiado, políticos em cargos eletivos, seja suspenso. O pior ainda estaria por acontecer.

A amplitude do escândalo é tal que, segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, Roberto testemunhou que até mesmo o então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, teria recebido suborno do esquema, em 2009, para ajudar a inviabilizar uma CPI sobre a Petrobras. Morto há sete meses, Guerra não pode se explicar.

A história ficou ainda mais séria porque Dilma, no sábado, admitiu que houve “desvio de dinheiro público” na Petrobras, ao afirmar em entrevista que se desdobrará para “ressarcir o país”. É algo inédito, porque nunca foi admitido formalmente por alguém do PT qualquer malfeito de militantes. Até hoje, com mensaleiros em cumprimento de penas, não se reconhece sequer que houve o mensalão. Pode ser uma manobra eleitoreira para tentar reduzir danos à campanha de Dilma, causados pela pecha de corrupto que parece pespegar no PT, não bastasse ter sido ela presidente do conselho de administração da empresa. O resultado prático da afirmação da candidata, porém, é a confirmação definitiva do escândalo.

Desdobramentos começam a ocorrer. Nos Estados Unidos, a SEC (Securities and Exchange Commission), agência responsável pela fiscalização do mercado de ações e títulos, instaurou investigação sobre o caso. Afinal, recibos de ações da Petrobras são negociados em Nova York, e seus detentores terão sido lesados pela retirada fraudulenta de recursos do caixa da estatal. Entre as vítimas também estão os acionistas brasileiros, em que se destacam trabalhadores que investiram o FGTS nas ações da empresa. Missão para a CVM.

Para o ano que vem, primeiro do próximo governo, já está contratada a turbulência a ser causada pela divulgação da lista de políticos financiados por esse dinheiro sujo, a ser avaliada pelo Supremo e Ministério Público. O escândalo, então, ainda evoluirá bastante.

O perigo da volta da indexação salarial - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/10

A experiência prática mostra que uma alta de preços de até 5% é o limite tolerável pela sociedade. Por isso, é importante buscar a meta (4,5%)


A meta de inflação estabelecida pelo governo, há anos, é de 4,5%, com dois pontos percentuais de tolerância para menos ou mais. Não se trata de um percentual escolhido abstratamente. A experiência prática mostra que, quando a inflação ultrapassa os 5%, a sociedade passa a buscar em mecanismos de indexação uma forma de se defender da corrosão do valor da moeda. E, com isso, a inflação acaba se tornando mais resistente, com a alta de preços incorporando um componente de autoalimentação.

Assim, 4,5% seria o limite que a sociedade é capaz de suportar. Devido a problemas estruturais crônicos da economia, haveria também dificuldade de se perseguir uma inflação mais baixa. O centro da meta deveria ser, então, buscado obstinadamente pelo governo. No entanto, desde o início do mandato da presidente Dilma, o índice oficial que baliza a meta (o IPCA, que mede a variação média do custo de vida de famílias com renda de até 40 salários mínimos mensais), apurado pelo IBGE, tem permanecido no intervalo superior de tolerância de dois pontos percentuais, chegando, em vários momentos, a ultrapassar o teto de 6,5% em doze meses, como acontece agora.

Em uma conjuntura de baixos índices de desemprego, a pressão por mais indexação se torna crescente nas negociações salariais, restivando a antiga corrida entre preços e salários.

Com exceção do salário mínimo, todos os demais estão hoje desindexados por força de lei. São definidos por livre negociação, com reajustes coletivos com prazo mínimo de um ano. A regra foi definida pelo Plano Real exatamente para desarmar um dos mais resistentes mecanismos de indexação com forte efeito de autoalimentação da inflação.

No entanto, o fato de o IPCA ficar acima de 5% ser mais uma constante do que uma exceção fez com as negociações salariais muitas vezes caiam em impasse, cabendo à Justiça trabalhista arbitrar o valor do reajuste, que nunca é inferior à inflação.

A única maneira de desarmar novamente esse processo perigoso de reindexação é a política de metas de inflação recuperar credibilidade. Para tal, os agentes econômicos e a sociedade em geral precisam ser convencidos de que não só o Banco Central mas todo o governo esteja efetivamente empenhado em fazer com que a inflação convirja para a meta dentro de um horizonte realista e viável, em vez de se constituir apenas numa promessa.

O Banco Central até que elevou as taxas básicas de juros para 11% ao ano, que não é um patamar desprezível em termos de aperto monetário. No entanto, na outra ponta o governo não para de pisar no acelerador dos gastos públicos, executando uma política fiscal claramente expansionista. Nesse contexto, as autoridades não podem se queixar da volta da indexação. Era previsível.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

PERDA SALARIAL NA PETROBRAS SOMA 35% NA ERA PT

Consulta aos Acordos Coletivos de Trabalho revela que os salários dos empregados da Petrobras perderam 35% do poder de compra desde que o PT chegou ao poder. Remuneração do “nível 201” da estatal era R$ 341,49 em 2002 e equivalia a 1,4 salário mínimo da época (R$ 240), mas o acordo que vigorou até 31 de agosto de 2014 garantia só R$ 669,21 aos empregados, bem menos que o atual mínimo de R$724.

NATA TAMBÉM PERDEU

Empregados do “nível 774” recebiam R$ 4.603,52 ou 19,1 mínimos em 2002. Hoje, recebem R$ 9.021,50, equivalente a 12,4 mínimos.

NEM A INFLAÇÃO

Durante os 12 anos de PT, a Petrobras não conseguiu repor sequer as perdas com inflação. O salário subiu 96%, com inflação de 108,8%.

OVO GARANTIDO

O único item com ganho real foi alimentação. Em 2002, auxílio-almoço na Petrobras era de 99% do mínimo. Hoje equivale a 106%.

TUDO DIMINUIU

Como a maioria dos benefícios e vantagens concedidos pela Petrobras equivalem a percentual do salário, tudo é comprometido.

BAIXARIAS TERÃO DIREITO DE RESPOSTA

O ministro Dias Toffoli, presidente do TSE, decidiu convocar plantão a partir da noite de sexta-feira (24), último dia de propaganda eleitoral no rádio e TV. Ele também abriu prazo de quatro horas, a partir da exibição dos últimos programas, para o caso de desrespeito à proibição de baixarias. Direitos de resposta podem ser concedidos para serem exibidos no sábado, véspera do segundo turno.

EFEITO DOMINÓ

Deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) acha que “é só o começo” a denúncia envolvendo a ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT) no Petrolão.

DELAÇÃO PREMIADA

O delator Paulo Roberto Costa revelou que o esquema corrupto destinou R$ 1 milhão para Gleisi e o marido Paulo Bernardo, em 2010.

QUEM?

Gleisi e o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) afirmam, como os demais delatados, que nem conhecem Youssef ou Paulo Roberto.

PARTIDO MILIONÁRIO

Dinheiro para o PT não é problema, como diriam Alberto Youssef, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o tesoureiro petista João Vaccari. O partido aumentou em R$ 40 milhões a previsão de gastos nos últimos 5 dias. No total, serão R$ 338 milhões. Isso no caixa 1.

CAMPANHA CARA

A campanha do PSDB a presidente não fica muito atrás, em termos de gastos previstos. O partido informou ao TSE a previsão de gastos de até R$ 290 milhões para tentar eleger Aécio Neves presidente.

OTIMISMO TUCANO

Os tucanos começaram a semana otimistas: ontem, no começo da noite, o candidato Aécio Neves liderava com 52 x 48% no tracking interno. Trata-se de medição diária de até 2 mil entrevistas, que apontaria a tendência do eleitorado.

DIFERENÇAS

A ministra da Economia do Japão renunciou após denúncia de uso abusivo de verbas para despesas pessoais. No Brasil, desde o governo Lula, cartões corporativos são usados para pagar tapioca, hotéis e restaurantes de luxo, salão de beleza, gasolina, reforma de casa...

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

A turma da teoria da conspiração está a mil. Surgiram boatos de internação hospitalar de Lula, para provocar comoção, e até mesmo da simulação de um atentado contra Dilma.

CISCANDO PARA DENTRO

Após receber Aécio, Alckmin e Beto Richa, o candidato ao governo do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB) terá apoio do senador eleito José Serra e do governador eleito Pedro Taques (PDT).

EU ACHO É POUCO

Apesar de liquidado em Pernambuco, sem eleger um único deputado federal, o PT tenta promover ato expressivo pró-Dilma no Recife, nesta terça-feira (21), com o apoio do bloco carnavalesco “Eu acho é pouco”.

SEGURAR A VOTAÇÃO

O vice Michel Temer espera levar Dilma esta semana a eventos de campanha no Norte, onde o PMDB disputa segundo turno com Helder Barbalho (PA), Confúcio Moura (RO) e Eduardo Braga (AM).

PENSANDO BEM…

…que atire a primeira pedra o candidato que não tiver parentes agarrados em boquinhas no serviço público.


PODER SEM PUDOR

IDENTIDADE REVELADA

O jornalista Carlos Zarur era presidente da Radiobrás e devedor da família e de si mesmo alguns momentos de descanso. Escolheu o paradisíaco litoral de Maceió, onde alugou uma casa que era um achado: mobiliada, bem conservada, redes na varanda e o mar de Ipioca beijando-lhe o jardim.

Quando abriram um armário, Zarur e a esposa caíram na gargalhada: lá encontraram, digamos assim, a identidade da dona da casa.

Eram toalhas bordadas com o nome de Denilma, a ex-primeira-dama de Alagoas que - reza a lenda - foram muito úteis para manter na linha o maridão Geraldo Bulhões.


segunda-feira, outubro 20, 2014

Molecagem! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 20/10

Qual Lula é o verdadeiro? O bem-educado que aparece no programa de propaganda eleitoral de Dilma na televisão, defende os 12 anos de governos do PT e, ao cabo, sorridente, pede votos para reeleger sua sucessora? Ou o moleque de rua que pontifica em comícios país afora, sugerindo, sem ter coragem de afirmar diretamente, que Aécio é capaz, sim, de dirigir embriagado, agredir mulheres e se drogar?

O SEGUNDO É o mais próximo do verdadeiro Lula. Digo porque o conheço desde quando era líder sindical. Lula é uma metamorfose ambulante. Não foi ninguém quem o disse, foi ele quem se rotulou assim. A esquerda tudo perdoaria a Lula desde que chegasse ao poder. Chegou, cavalgando-o. Urna vez lá, corrompeu-se. Quanto a ele... Não sabia de nada. Nunca soube.

JUSTIÇA SEJA FEITA a Lula: por desconhecimento de causa e preguiça, ele jamais compartilhou as ideias da esquerda. Assim como ela se aproveitou dele, Lula se aproveitou dela. Um casamento não por amor, mas por interesse. Na primeira reunião ministerial do seu governo em 2003, Lula se irritou com um ministro e desabafou: "Toda vez que me guiei pela esquerda me dei mal"

RETIFICO: ELE NÃO disse que se deu mal. Usou um palavrão. Nada de mais para o sujeito desbocado que nunca pesou o que diz. Grossura nada tem a ver com infância pobre. Lula é um sucesso do jeito que é. Mudar, por quê? Todos admiram sua astúcia. Muitos se curvam à sua sabedoria. E outros tantos temem ser apontados como desafetos do retirante nordestino que se deu bem.

UMA DAS CHAVES do sucesso de Lula é a coragem de dizer o que lhe apetece - às favas a verdade. No último sábado, em comício em Belo Horizonte, Lula disse que nunca foi grosseiro com adversários. Textualmente: "Não tive coragem de ser grosseiro contra Collor, Serra, Alckmin, Fernando Henrique. Pega uma palavra minha chamando candidato de mentiroso e leviano" É fácil.

LULA CHAMOU SARNEY de ladrão. E Itamar Franco de filho da puta. Resposta de Itamar em maio de 2003: "Gostaria de saber o que aconteceria se a situação fosse inversa, ou seja, se esse indivíduo arrogante e elitista fosse o presidente da República, e alguém lhe chamasse disso. (...) Minha mãe se chamava Itália Franco. Mas, fosse um filho da p., certamente teria por ela o mesmo amor filial'!

VOCÊ PENSA QUE Lula ficou constrangido com a resposta de Itamar? Foi ao velório dele. Assim como foi ao velório de Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique. Chorando, lançou-se aos braços do ex-presidente. Pouco antes da morte de Ruth, a Casa Civil da então ministra Dilma montara um dossiê sobre despesas com cartão de crédito do casal FH. Depois, a ministra se desculpou.

LULA NÃO É HOMEM de se desculpar. Nem mesmo quando trata um assessor a pontapés. Como governador de Minas Gerais, no auge do escândalo do mensalão, Aécio lutou para que o PSDB não pedisse o impeachment de Lula. Conseguiu. Mais tarde, Lula tentou convencê-lo a aderir ao PMDB para disputar a Presidência com o seu apoio. Aécio não quis.

DE VOLTA AO COMÍCIO de Belo Horizonte. Antes de Lula falar, foi lida a carta de uma psicóloga acusando Aécio de espancar mulheres e de ser megalomaníaco. Ele ainda foi chamado de "coisa ruim'," "cafajeste" e "playboy mimado" Por fim, a plateia foi ao delírio ao ouvir Lula dizer sobre o comportamento de Aécio em debates: "A tática dele é a seguinte: vou partir para a agressão. Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo"

domingo, outubro 19, 2014

Ataques à História - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 19/10

Como na obra de George Orwell, governo tenta reescrever a História recente do Brasil. Deveria ser a safra dos debates profundos sobre o país, sobre suas dificuldades reais e a procura de solução para os inúmeros problemas que já existem e os que podem ser previstos. Mas os marqueteiros vestem a realidade com frases de fantasia, confortáveis para os candidatos, e afiam armas. Alguns fatos são deturpados e a história recente é reescrita até ficar irreconhecível.

É óbvio que foi o ex-presidente Fernando Henrique quem venceu a hiperinflação. Foi ele quem levou para o governo Itamar Franco os economistas com a tecnologia e a destreza para montar um plano que atendia a dois pedidos dos cidadãos: ser feito às claras, sem sustos e perdas, e matar o dragão que sobrevivera a cinco planos e devorava as finanças das famílias. Foi FH quem superou os desafios para consolidar o real e começou a reorganizar o estado. Acusar aquele governo de inflação alta é desonestidade.

Na distopia de George Orwell, 1984, os poderosos reescrevem a história. Quem viu a longa luta do Brasil para ter uma moeda estável sabe quem liderou a vitória sobre a inflação e lembra dos benefícios dessa conquista para as pessoas.

As ideias do PT sobre o combate à inflação eram toscas e perigosas. Seus economistas defenderam teses que nunca deram nem dariam certo; ou, o que é pior, um plebiscito sobre pagar ou não a dívida interna. Não pagá-la seria tomar o dinheiro de quem investiu em títulos públicos, como fez o ex-presidente Collor. O plebiscito e uma auditoria nas aplicações dos brasileiros foram defendidos pelo PT dois anos antes de assumir o poder. Se aplicasse o programa em 2003 teria destruído o real. Cotejar números descarnados dos fatos é um desrespeito à memória do país.

O PT não faria a estabilização e hoje a ameaça. Não são "choques de preços" que explicam a inflação estar acima do teto da meta. Inesperados sempre ocorrem e é por isso que existe a margem de flutuação. O governo atual aceitou uma inflação mais alta. A taxa passou o mandato inteiro arranhando ou furando o teto, porque perdeu o espaço para acomodar os choques. O PT deve a Antonio Palocci e à ajuda de Arminio Fraga ter vencido as naturais desconfianças sobre a capacidade do partido de conduzir a economia. Arminio socorreu o país em dois momentos-chave: ao assumir o Banco Central no meio da crise cambial, em 1999, e na transição política, em 2002. Ninguém é obrigado a gostar dele, mas esses são os fatos.

Da mesma forma que o PSDB tem o mérito de ter atendido a demanda do país por uma moeda estável; o PT tem o mérito de ter atendido a demanda do país por redução da pobreza e da miséria, e por ter ampliado os programas de renda mínima. Quem começou a defendê-los como política pública foi o senador Eduardo Suplicy. Repórteres iam ouvi-lo sobre qualquer assunto, e tinham uma aula sobre as políticas de transferência de renda.

Estudos foram feitos por especialistas em combate à pobreza. A política foi testada em municípios dirigidos por partidos diferentes: Campinas, PSDB; Brasília, PT; Belo Horizonte, PSB. Quando chegou ao governo federal, o valor da bolsa era pequeno. Mas aquela experiência trouxe dois avanços: iniciou a montagem de um cadastro dos beneficiários e vinculou o benefício à presença na escola. Outra preocupação do governo FH é que a bolsa não fosse vista como uma concessão partidária, mas um direito do cidadão.

A ideia inicial do PT, o Fome Zero, seria um retrocesso: era entregar selos para serem trocados por comidas, como os "food stamps", política testada nos Estados Unidos na Depressão e que virou programa social a partir dos anos 1960. O Fome Zero não saiu do papel, o governo corrigiu a rota e criou o Bolsa Família. A presidente Dilma colocou os focos nos mais pobres e o governo dedicou-se à busca ativa, que é procurar os que mais precisam. Prisioneiros das armadilhas do Brasil profundo, eles não tinham sequer noção dos seus direitos. A estabilização e a redução da pobreza são conquistas do país que nenhum governo deve ameaçar.

O combate à corrupção é uma demanda do Brasil e a presidente Dilma a enfraquece quando bate no peito e diz "a minha Polícia Federal". Lembra muito a frase: "o Estado sou eu".


Voto de cabresto oficial - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 19/10


A primeira pauta pós-eleições será necessariamente a Petrobrás, diante da perspectiva da publicidade da delação premiada do ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, cujos vazamentos parciais indicam um escândalo político sem precedentes.

Juntados esses vazamentos, que incluem nomes expressivos do quadro partidário brasileiro, com o depoimento de Costa não submetido ao segredo de justiça, tem-se um duto de recursos públicos desviados para irrigar campanhas e políticos de PT,PMDB e PP, o que pode alcançar as campanhas da presidente Dilma de 2010 e a atual, ainda que à revelia da candidata.

É um quadro que seria avassalador para qualquer governo em campanha pela reeleição, dado que o tempo de mandato do PT soma 12 anos, dando-lhe o monopólio dessa gestão marginal em favor do partido e de aliados. Com um tesoureiro cumprindo pena pelo mensalão, o partido já tem o segundo na mira da justiça.

O que diferencia o esquema sob investigação de outros ao longo da história política nacional é a sua característica sistêmica, como pilar de um processo de sustentação política de um projeto de permanência no poder, abrangendo três grandes partidos da base governista.

A recente informação de que a Petrobrás poderá sofrer sanções nos Estados Unidos, onde a legislação prevê consequencias mesmo para empresas estrangeiras lá sediadas, estende as investigações ao plano internacional, um sólido sinal de consistencia do conteúdo da delação do ex-diretor da estatal no Brasil.

Tal cenário leva a outra questão: como o governo, em condições tão adversas que inclui ainda a economia em recessão técnica e alta rejeição da candidata, pode alcançar índice próximo a 50% na disputa e aponto de torná-la tão acirrada?

Aqui entra o dado essencial: o bolsa família. O programa dá ao PT o conforto de um patamar de largada eleitoral de 34,6% em qualquer eleição. São 13.738.798 famílias beneficiadas, estimando-se 1,6 eleitor por cada uma, e considerando-se que 85% dos beneficiários votam com o governo, tem-se aí 14,9 milhões dos 43,3 milhões de votos obtidos por Dilma no primeiro turno, já subtraídas as abstenções totais.

É o maior voto de cabresto de que se tem notícia e que explica a falsa conotação ideológica no confronto sul-sudeste versus nordeste, que o PT explora como a luta entre ricos e pobres, a partir do monopólio do programa que se tornou arrimo eleitoral do partido.

Por isso, a oposição considera indispensável que já no próximo ano seja feita uma reforma conceitual no programa Bolsa Família, de maneira que ele se torne uma ação de Estado e não de governo, via emenda constitucional.


Entre a promessa e a propina - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 19/10


Paremos para pensar: Paulo Roberto Costa só terá sua pena reduzida se o que disser for verdade


Faltando sete dias para que decidamos, com nosso voto na urna, quem governará o país, parece-me necessário nos lembrarmos de que nem sempre o nosso interesse pessoal imediato corresponde ao interesse da sociedade.

E que, por isso mesmo, muitas vezes, ao votarmos só pensando em nosso interesse próprio, votamos contra nós mesmos.

É exatamente desse equívoco que se valem os políticos espertos, que visam o poder pelo poder. A nós, cidadãos, cabe distinguir entre esse tipo de político e o outro, imbuído de espírito público, que deve merecer nosso voto.

Entendo que nem sempre é fácil perceber, no que dizem os candidatos, o que é sincero e o que corresponde a intenções honestas do que é mera embromação. Mas não é impossível, desde que avaliemos, com objetividade, as promessas que fazem, se o que prometem é factível, como têm atuado e quais são os seus aliados.

Dá trabalho, mas compensa, porque só assim se evita que mais vigaristas se tornem legisladores ou governantes.

Esse cuidado, infelizmente, não tem estado presente na escolha que os eleitores fazem dos candidatos. A prova disso está no que a imprensa tem divulgado e que, por incrível que pareça, ainda nos espanta.

Um jornal publicou recentemente a seguinte notícia: quase metade dos candidatos mais votados nestas eleições de agora estão sob investigação policial.

A reportagem informava que 40 dos 108 deputados federais mais votados e senadores eleitos para a próxima legislatura estão sendo investigados pela polícia ou pelo Ministério Público.

As acusações vão desde o desvio de recursos públicos e improbidade administrativa a crime de tortura e falsidade ideológica. Entre os suspeitos, estão ex-governadores, ex-ministros, parlamentares reeleitos e que foram eleitos pela primeira vez.

Todos eles, portanto, detentores de mandatos populares para fazer leis que pautarão a vida de todos nós. E isso, muito embora exista a Lei da Ficha Limpa, que pretende impedir a eleição desse tipo de políticos.

O que se pode esperar de pessoas como essas, transgressoras das leis e dos princípios éticos?

São personagens como esses que se valem da autoridade que lhes foi delegada para infiltrar-se nas empresas estatais e nos ministérios e usá-los em proveito próprio e dos partidos a que pertençam.

É o caso espantoso do que ocorreu na Petrobras e que, a cada dia, escandaliza mais a nação. Às revelações envolvendo figuras e partidos do governo, a presidente da República alegou não poder levar em conta acusações sem prova.

Por sua vez, o PT, principal implicado, tratou de qualificar as denúncias de calúnias.

Paremos para pensar. Essas acusações foram feitas por Paulo Roberto Costa, como delação premiada, que só terá sua pena reduzida se o que disser for verdade.

Se não for, ele não ganhará nada com isso, a não ser, para o resto da vida, o ódio daqueles que acusou injustamente. Para fazer isso, o cara, além de corrupto, teria que ser débil mental.

Sucede que, depois daquelas denúncias, foi divulgado um vídeo em que Paulo Roberto confirma o que foi divulgado antes, acrescentando que as propinas eram de 3% do valor dos contratos firmados entre as empreiteiras e a Petrobras, o que montava a muitos milhões de reais, dinheiro esse que era dividido entre PT, PMDB e PP.

O PT ficava com a maior parte (2%), que era entregue a João Vaccari Neto, tesoureiro do partido. Esse dinheiro, em 2010, financiou a campanha eleitoral do partido, cuja candidata à Presidência da República era Dilma Rousseff.

Sem mais poder negar a procedência das acusações, Dilma passou a afirmar que é graças a ela que a Polícia Federal tem combatido a corrupção, embora seja essa função da polícia que, para exercê-la, não necessita da permissão de ninguém.

Como se não bastasse, passou ela a pôr em dúvida a isenção da Justiça do Paraná, que apura os escândalos da Petrobras.

A Associação de Juízes Federais contestou a acusação de Dilma e a Procuradoria Geral da República, no Paraná, afirmou em nota oficial que a atuação da Polícia Federal e do Judiciário é "estritamente técnica, imparcial e apartidária".

Aconteceu há 12 anos... - SUELY CALDAS

O ESTADÃO - 19/10


O ex-presidente Lula negou ter convidado o economista Armínio Fraga para permanecer na presidência do Banco Central (BC) por mais algum tempo, quando se elegeu em 2002. A reconstituição dos fatos da época ajuda a entender por que Lula cogitou mas não oficializou o convite - erroneamente revelado pelo candidato Aécio Neves no debate da TV Band. Na verdade, a ideia de prolongar o mandato de Armínio no BC partiu de Antonio Palocci - principal coordenador da campanha de Lula e, depois, seu ministro da Fazenda - e ganhou força e adesões na cúpula do PT. Nas duas funções, Palocci teria de enfrentar a dificílima tarefa de acalmar empresários, investidores e o turbulento mercado financeiro, que ameaçavam jogar o Plano Real despenhadeiro abaixo e transformar a economia do País, sob Lula, num verdadeiro inferno.

A continuidade de Armínio no BC funcionaria como uma espécie de seguro, uma garantia para o mercado de que Lula não levaria adiante as maluquices que o PT pregou antes e durante os oito anos de governo FHC. Conversas com Armínio na civilizada transição de FHC para Lula (se Aécio vencer, Dilma Rousseff fará o mesmo?) convenceram Palocci da ideia, mas ela ganhou um opositor tão poderoso quanto ele: o ex-ministro José Dirceu, hoje prisioneiro em Brasília. Os dois alimentavam antiga rivalidade, acirrada na campanha, intensificada no governo e volta e meia intermediada por Lula. Este quase sempre dava razão a Palocci, mas desta vez acatou os argumentos de Dirceu: seria capitular diante do adversário e rival PSDB reconhecer a incompetência do PT de conduzir a economia e aderir sem disfarces ao que chamavam de neoliberalismo, tão criticado na campanha.

Aos fatos. Final de 2002. Ao longo do ano, o Plano Real viveu sua pior e mais grave crise: a Bovespa não parava de despencar, o dólar chegou a R$ 3,95 e o risco Brasil, a 2.500 pontos (comparando, no auge da crise de 2008 a taxa não passou de 250 pontos). As crises importadas do México, da Ásia, da Rússia, do ataque às Torres Gêmeas e da moratória argentina foram um leve sopro diante do vendaval destruidor do que ficou conhecido como "efeito Lula". De fora e dentro do País o ataque ao Real ficava mais forte a cada pesquisa eleitoral, a cada certeza da vitória do petista. As previsões para o ano eram terroristas: a inflação não ficaria abaixo de 50% (terminou o ano em 12,5%), tão cedo o Brasil não voltaria a tomar empréstimos no exterior e recessão e desemprego eram inevitáveis.

O candidato Lula percebeu o inferno que viveria seu governo e divulgou, em junho, a Carta ao Povo Brasileiro, em que assumia compromissos de respeitar contratos, combater a inflação e gerar superávits primários. Mas não convenceu o mercado, que só intensificava o ataque e tirava proveito do caos para especular e realizar lucros com a gangorra dos indicadores econômicos. Era uma situação que não interessava a FHC, que cumpria seu último ano de mandato e era obrigado a administrar uma crise que não criou, muito menos a Lula, que precisava do mínimo de estabilidade econômica para começar a governar.

Foi diante desse quadro que Palocci marcou um encontro entre Lula e Armínio Fraga, numa sala reservada do Aeroporto de Brasília. "Estou te entregando um país na UTI", avisou Armínio a Lula, descrevendo o quadro econômico e o que deveria ser feito para o doente melhorar e ganhar condições de, pelo menos, trocar a UTI pelo quarto. Lula e Palocci ouviram assustados e atentos. E Lula se convenceu a buscar um nome do mercado para o BC. Encontrou o tucano Henrique Meirelles.

Meses depois, já presidente, Lula relatou a sua versão da conversa com Armínio a um grupo de deputados. E gabou-se no costumeiro estilo fanfarrão: "Eles colocaram e eu tirei o País da UTI". Irritado com o relato parcial de Lula, o ex-presidente do BC respondeu em entrevista ao Estadão: "O País estava na UTI porque havia medo em relação ao futuro, e o futuro não estava em nossas mãos".

Já ministro, por vezes Palocci consultou Armínio para problemas que encontrava e ele nunca se negou a ajudar.


Os meios e os fins - MARCOS DE BARROS LISBOA

FOLHA DE SP - 19/10


O baixo crescimento, a deterioração fiscal e a piora das contas externas implicam dificuldades


Nesta eleição, o debate tem sido dominado pela desqualificação da divergência.

Argumenta-se que a crítica ao atual governo decorre de interesses contrariados pela queda da desigualdade. Na versão vulgar, a elite se incomoda com os aeroportos repletos com a nova classe média.

Ao contrário da retórica oficial, a discordância se refere aos instrumentos adotados, não ao objetivo de um país mais justo. Criticam-se os meios, não os fins. A política econômica atual ameaça os avanços das últimas décadas.

A partir da Constituinte, a agenda social ganhou relevância inédita na nossa história. O fim da hiperinflação permitiu que novos temas fossem debatidos, como a retomada do crescimento e a melhora da política pública.

No governo FHC ocorreram importantes avanços como a universalização da educação fundamental, os aumentos do salário mínimo e a introdução das políticas de transferência de renda.

A agenda social continuou no governo Lula, que teve o mérito de conceder-lhe maior proeminência na política. Reflexo de um país em que, finalmente, após mais de uma década de aperfeiçoamentos na condução da macroeconomia e reformas institucionais, a economia se tornara menos relevante, porque menos problemática.

Entre 2001 e 2009, o maior crescimento econômico, o desempenho do mercado de trabalho e o reajuste do salário mínimo, beneficiados pelo cenário externo e ganhos de produtividade, permitiram a melhora da qualidade de vida e a queda da desigualdade.

Infelizmente, os avanços das últimas décadas estão em risco. Segundo a Pnad, a desigualdade estagnou entre 2011 e 2013. O baixo crescimento, a deterioração fiscal e a piora das contas externas implicam dificuldades para os próximos anos.

A política econômica parece ter errado tanto no diagnóstico quanto na escolha dos instrumentos. A retomada do nacional-desenvolvimentismo, com a concessão de benefícios e de estímulos a grupos selecionados, sem metas e avaliação de resultados, prejudicou os setores à frente na cadeia produtiva, a evolução da produtividade e o crescimento da renda, além de ter isolado a economia brasileira do mercado externo.

O governo evitou enfrentar as dificuldades de curto prazo; ao contrário, expandiu os gastos públicos. O que teria sido um rápido ajuste se transformou em uma longa estagnação, além da maior inflação, reproduzindo, em menor escala, a política adotada no fim dos anos 1970 no Brasil, ou, mais recentemente, na Argentina e na Venezuela.

A retórica do atual governo, ao desqualificar a divergência, relembra debates anteriores.

As privatizações dos anos 1990 foram tratadas como um negócio benéfico apenas a interesses privados, ignorando o custo decorrente do monopólio público imposto a várias gerações, para as quais o acesso à telefonia, por exemplo, era um privilégio caro e exclusivo.

Em 2003, a proposta de focalização das políticas sociais foi rejeitada com argumentos superficiais e diversionistas como o de que seria parte de uma agenda promovida pelo Banco Mundial. A história registra quem estava em cada lado da controvérsia na concepção do Bolsa Família.

A divergência ocorre sobre o diagnóstico, não acerca da intenção. Aceitá-la convida à democracia. O contraditório, o confronto de argumentos, de quem defende o atual projeto e de quem o critica colabora com o debate e auxilia a escolha dos meios.

A desqualificação da divergência, por outro lado, atribuindo-a a interesses contrariados revela apenas oportunismo.

Marina - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 19/10


BRASÍLIA - Marina sonhou salvar o mundo com Chico Mendes, mudar o Brasil com o PT, virar presidente pelo PV, criar a Rede e, enfim, engrossar o desejo de mudança na chapa de Eduardo Campos. Uma sonhática que vive da esperança.

Em 2010, Marina ficou neutra no segundo turno. Em 2014, sem poder e querer apoiar a algoz Dilma, ficou diante de nova neutralidade ou o apoio a Aécio. Optou pela frente de todos os candidatos do primeiro turno --exceto Luciana Genro (PSOL)-- a favor da mudança com o tucano.

Apoiar um dos lados não foi uma decisão fácil, já que o projeto da Rede foi construído com o discurso da terceira via, da alternativa à polarização entre PSDB e PT, não mais apenas cansativa, agora sangrenta.

Mas não seria simples também repetir a neutralidade de 2010. O momento é outro e todas as pesquisas indicavam que a maior parte do eleitorado de Marina deslizaria naturalmente para Aécio, independentemente de acertos partidários. E mais: a maioria do PSB e das lideranças consolidadas da Rede optavam claramente pelo tucano.

A cúpula do PSB não deixou margem de dúvida: 21 a favor de Aécio, sete pela neutralidade, um por Dilma. Posição consolidada pelas viúvas de Eduardo Campos e do mítico Miguel Arraes e seguida pelo partido em 23 das 27 unidades da Federação. Ficaram de fora: Bahia, onde não há segundo turno para o governo, Paraíba, Acre e Amapá. Não é um racha maior do que o que existe, por exemplo, no PMDB.

Na Rede, que não é um partido, mas, sim, um movimento, é natural e até saudável que os mais puristas tenham se rebelado contra a decisão de Marina. Rebeldias assim alimentam a utopia, mantêm nutridos os utópicos. Mas Walter Feldman, Neca Setubal, Capobianco... sabem que, na vida real, só se avança negociando, compondo, optando.

Sorte de Aécio. Mais do que votos, Marina Silva agrega valor.

Segundo turno CELSO LAFER

O ESTADO DE S.PAULO - 19/10


A democracia tem como um dos seus componentes essenciais eleições livres e disputadas, cujo resultado define quem vai governar "contando cabeças e não cortando cabeças", na sintética formulação de Norberto Bobbio. Nas eleições majoritárias, como é o caso das presidenciais, um dos aperfeiçoamentos introduzidos pela Constituição de 1988 é o segundo turno, para evitar uma escolha minoritária e assegurar a efetiva prevalência da regra da maioria. Seu fundamento é o pressuposto de que a decisão tomada por maioria atenderá melhor ao interesse coletivo do que a tomada por minorias.

Neste primeiro turno, o respaldo eleitoral da candidata à reeleição alcançou 41,59% dos votos válidos, tendo como proposta básica dar continuidade ao seu governo e não interromper a gestão petista no exercício da Presidência. A candidatura de Aécio Neves, do PSDB, obteve 33,55% dos votos válidos, credenciando-o a disputar o segundo turno. A de Marina Silva, do PSB, alcançou 21,32% dos votos válidos. As candidaturas de Aécio e Marina foram de oposição. Tiveram em comum a avaliação de que há, em nosso país, amplo descontentamento com o atual estado de coisas. Daí terem sublinhado a importância de uma renovada alternância democrática, e agora, no segundo turno, de uma propositiva união de forças e vontades, realçada no fim de semana passado por Aécio no documento que divulgou no Recife ao lado da família de Eduardo Campos e por Marina nas declarações que fez em São Paulo.

A periodicidade de eleições competitivas tem como objetivo, nas campanhas eleitorais, assegurar, num pluralismo informativo, o livre debate em torno de propostas antes da tomada de decisão do voto pelo eleitor. O segundo turno será uma forma de controle pela cidadania, que desconfirmará ou não os resultados de uma gestão governamental. Trata-se de um método da democracia que oferece a oportunidade da avaliação de desempenho.

O primeiro turno confirmou que a maioria do eleitorado (58,47%) se revelou favorável à efetiva revisão dos resultados da gestão petista e do seu modo de governar. Daí o potencial de vitória da candidatura de oposição, que neste segundo turno, pelas regras do jogo democrático, é a de Aécio.

A revisão dos resultados, pelo método das aproximações sucessivas, é um dos valores da democracia. Parte do pressuposto de que o caminho da contínua renovação da sociedade se faz por meio do livre debate das ideias, das mudanças de mentalidade e da possibilidade de, por meio de eleições, ensejar novas diretrizes governamentais. Esse pressuposto se vem confirmando na nossa experiência política. O Brasil é um país melhor e mais justo depois da redemocratização, graças à atuação dos que passaram pelo poder e lidaram com seus desafios, incluído o PT.

Não é esse fato histórico, no entanto, que está no DNA dos governos do PT. Este, desde 2003, com Lula e Dilma Rousseff, se autoproclama o marco zero da História brasileira. É essa autorreferida afirmação que faz o PT apresentar a reeleição de Dilma como o antídoto do apocalipse. Daí a intolerância com que eles tratam seus adversários, assumidos como inimigos da salvação, a serem, por isso mesmo, destruídos. É por essa razão que o PT, no seu modo de governar e nas suas campanhas, resvala com lamentável frequência na antidemocrática desqualificação, em todos os planos e por todos os meios, dos seus opositores, cabendo lembrar, nesse contexto, que uma meia-verdade é uma completa mentira, como diz o provérbio.

A desqualificação mentirosa, e por isso injusta, dos adversários feita pelo PT mina um dos valores da democracia. Com efeito, a tolerância em relação aos Outros, a civilidade da aceitação do diverso e do diferente no pluralismo de uma sociedade complexa como a brasileira são indispensáveis, pois a política numa democracia não é um jogo de soma zero no qual quem "ganha fica com tudo". É essa visão de um jogo de soma zero que caracteriza o DNA da campanha do PT que, ao modo de Carl Schmitt, considera a relação política como uma relação amigo/inimigo. Por isso confunde rejeição com ódio, transformando seus adversários em inimigos a serem destruídos, almejando assim cindir a sociedade brasileira entre "nós e eles".

Não é essa a proposta da candidatura Aécio. Ela tem a consistência do compromisso com a estabilidade e o desenvolvimento econômico, corroídos na gestão Dilma. Tem a inteireza ética da contraposição aos desmandos do modo de governar do PT - entre eles a voraz aparelhagem do Estado e o cupim da corrupção, evidenciado com o julgamento do mensalão, ao qual se somam os indícios que se vêm tornando públicos da rapinagem na Petrobrás. Conjuga a afirmação dos benefícios de estabilidade e de desenvolvimento com a relevância de políticas afirmativas de inclusão social, inclusive o Bolsa Família, que tem sua origem nas políticas sociais do governo Fernando Henrique Cardoso. Dá ênfase ao desenvolvimento sustentável, com o respaldo adicional representado pela mensagem de Marina Silva. Conta com o poder de convocatória e a credibilidade dos quadros dos partidos que o apoiam, que darão à sua Presidência renovadora capacidade de gestão.

Uma Presidência Aécio, atual candidato de um arco de partidos importantes e complementares em sua visão de Nação, será de todos os brasileiros. Será sustentada pelos avanços da sua proposta de renovação do País e liderada por homem público de coragem, reafirmada nesta campanha, traço do legado de seu avô Tancredo Neves e do presidente Fernando Henrique. A coragem, na formulação de Hemingway, caracteriza-se pela dignidade diante da pressão, virtude não identificável na presidente Dilma e na maneira como ela vem conduzindo a sua campanha.


Intolerância à francesa - OSIAS WURMAN

O GLOBO - 19/10

Trilogia liberdade, igualdade e fraternidade, slogan da Revolução Francesa de 1789, parece não mais valer para os judeus franceses



A trilogia liberdade, igualdade e fraternidade, slogan da Revolução Francesa de 1789, parece não mais valer para os judeus franceses. Uma comunidade judaica milenar, com cerca de 600 mil pessoas, registra a decadência em seu direito de, livremente, viver em sua pátria natal, e preservar a sua liberdade religiosa.

O momento atual, para os judeus franceses, remete aos idos do século XIX, quando o capitão judeu alsaciano Alfred Dreyfus foi sentenciado como traidor e, somente após sua degradação e prisão, foi julgado inocente e libertado por pressão na mídia de indignados intelectuais como Émile Zola, que acusaram o governo de ter praticado uma terrível injustiça.

Vale lembrar que, em época mais recente, na década de 40, cerca de 70 mil judeus franceses, sendo 1.500 crianças, foram arrancados de seus lares e enviados para os campos de concentração na Polônia, onde foram assassinados pelos nazistas.

Durante a mais recente guerra em Gaza, usada como pretexto por extremistas para insuflar o ódio aos judeus, mais de 150 mil manifestantes saíram às ruas de Paris e, empunhando bandeiras da Autoridade Palestina e faixas de apoio ao Hamas, voltaram a gritar slogans antijudaicos que lembraram o ocorrido nas ruas da capital francesa, na época do caso Dreyfus. A mais recente demonstração de intolerância antijudaico-sionista ocorreu próxima à segunda mais populosa cidade francesa, Marselha, que tem uma enorme população muçulmana, e onde o desemprego dos jovens é de cerca de 40%.

A cineasta israelense premiada Hilla Medalia sempre participa de acaloradas discussões e debates sobre seus filmes, mas ela nunca tinha experimentado o que aconteceu na exibição de seu filme “Dançando em Jaffa” num festival de cinema israelense, em Carpentras.

Cerca de 20 membros da plateia se levantaram e começaram a gritar slogans anti-Israel. Em seguida, eles atiraram bombas de mau cheiro. “Isto foi muito frustrante para mim, especialmente porque este filme é sobre como entender e respeitar o outro”, disse a diretora.

É neste clima de ódio explícito a Israel e aos judeus — que representam cerca de 1% da população francesa totalizando 600 mil pessoas, comparados aos seis milhões de muçulmanos franceses — que milhares de membros da comunidade judaica botaram um pé na Terra Santa. Cerca de 50 mil famílias francesas adquiriram, nos últimos anos, uma segunda moradia em Israel.

Para este ano são esperados mais de seis mil judeus franceses, que imigrarão para o Estado Judeu, sendo que a quantidade anual tende a aumentar.

Na atual situação de discriminação na França, os judeus franceses estão tendo que optar por apoiar o partido anti-islâmico da Frente Nacional da radical Marine Le Pen, com 46% da comunidade nesta situação, ou emigrar para um país onde encontrarão a definitiva liberdade, igualdade e fraternidade: Israel.

Dois caminhos - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 19/10


A nova matriz econômica e o contrato social da redemocratização não cabem no Orçamento


O poder no Brasil tem sido disputado por dois partidos sociais-democratas, PT e PSDB. Ambos concordam que o Estado tem que prover as redes básicas de proteção social bem como promover a igualdade de oportunidades.

Assim, o Estado deve oferecer educação básica pública e gratuita e ter forte presença na oferta direta ou no financiamento da educação superior, como são os casos do Prouni e do Fies. Adicionalmente deve ofertar universal e gratuitamente serviços de saúde.

Outras atribuições são os seguros contra a pobreza, como o programa Bolsa Família e os benefícios não contributivos da Previdência Social; contra o desemprego, como o seguro-desemprego; contra a doença, como o auxílio-doença; contra a invalidez permanente, como a aposentadoria por invalidez; e contra a carência habitacional, como o programa Minha Casa, Minha Vida, entre outros.

A forte elevação da carga tributária das últimas duas décadas decorreu da necessidade de construir e manter essa extensa rede de proteção social.

Nenhum dos candidatos competitivos nesta eleição se posicionou por outro modelo. O motivo é que a sociedade, nas diversas vezes em que foi chamada às urnas, tem se pronunciado favoravelmente a esse modelo. O contrato social da redemocratização não está em discussão. Ele é um dado.

Na eleição do próximo domingo, o eleitor será chamado a se pronunciar em relação a dois caminhos diferentes para que continuemos a progredir na direção de uma sociedade com maior nível de renda e mais igualitária.

O caminho do atual governo, conhecido por nova matriz econômica e que venho chamando de ensaio nacional-desenvolvimentista, aposta no fortíssimo intervencionismo estatal na economia.

Para os formuladores do atual regime de política econômica, devemos perseguir um pacote assemelhado ao adotado pelos países de desenvolvimento rápido do Leste da Ásia, como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e mais recentemente a China continental.

Políticas como a forte presença de bancos públicos no financiamento do investimento, fechamento da economia para proteger setores, desoneração tributária seletiva, entre tantas outras medidas, foram inspiradas nessas experiências asiáticas.

Para os críticos da nova matriz econômica, como é meu caso, o sucesso das economias asiáticas não está associado ao pacote intervencionista, mas sim ao fato de essas sociedades terem construído sistemas públicos de educação básica de elevadíssima qualidade e de terem negociado um contrato social --em geral de forma não democrática-- que produziu no período de rápido desenvolvimento econômico níveis de poupança doméstica sempre acima dos 30% do PIB, com destaque para a elevadíssima taxa de poupança das famílias.

Por exemplo, as famílias na China poupam o equivalente a 22,5% do PIB chinês, o que significa algo próximo a 50% de sua renda disponível.

O motivo é que essas sociedades contrataram --quase sempre de forma não democrática, é bom repisar - que a seguridade social é uma responsabilidade individual. As elevadíssimas taxas de poupança das famílias e as baixíssimas cargas tributárias resultam dessa "escolha".

É por esse motivo que a nova matriz econômica não funcionou e não funcionará e é por esse motivo que o crescimento sob Dilma despencou dos 4% anuais nos oito anos de Lula para o nível atual de 1,6%.

A nova matriz econômica tropicaliza a parcela do modelo asiático que não é a responsável pelo crescimento acelerado vivenciado por essas sociedades.

O caminho alternativo é retornarmos a um modelo de Estado regulador que vigorou nos oito anos do governo FHC e no primeiro mandato de Lula. Esse modelo deu certo e explica a aceleração do crescimento no governo Lula.

A presidente Dilma, o ministro Mantega e os demais formuladores da política econômica atual não perceberam que a nova matriz econômica e o contrato social da redemocratização não cabem no Orçamento do Estado brasileiro. Insistir na nova matriz econômica é dar murro em ponta de faca.


Nossa política, mãe da 'herança maldita' - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE S.PAULO - 19/10


A expressão "herança maldita", de tão banalizada, virou carimbo para marcar a feição de governos. Foi inicialmente usada por Lula em 2003 para dizer que recebera do ciclo tucano, comandado por Fernando Henrique Cardoso, "um país quebrado". Nos últimos tempos, tem-se virado contra o PT, colada aos escândalos de corrupção.

A síndrome da maldição de governos, sejam quais forem suas posições no arco ideológico, tem origem na política. Basta anotar a coletânea de mazelas que se extrai do pleito eleitoral, entre as quais se incluem as coligações proporcionais, a modelagem dos programas eleitorais, a infidelidade partidária, a proliferação de siglas, a figura do senador suplente e o próprio estatuto da reeleição. A "herança maldita" das gestões é filha da "herança política". Afinal, as representações do povo e dos Estados no Parlamento, ao lado dos governantes do Executivo, carregam para suas atividades o ônus de velhas práticas e instrumentos defasados da política.

Veja-se a primeira contrafação: dos 513 deputados federais, apenas 35 (6,8%) receberam votos suficientes para se elegerem sozinhos, sem precisarem do adjutório de coligações ou do quociente eleitoral de legendas. Os restantes 478 ganharam o mandato pela soma dos sufrágios dados à legenda ou a outros candidatos, os chamados "puxadores de voto". Em 2006 apenas 32 tiveram votação suficiente para conquistar o cargo e na eleição seguinte, em 2010, o número foi o mesmo que se tem hoje. Ora, ser deputado com votação própria constitui primado do sistema de representação. Seria, portanto, lógico que as vagas de cada Estado fossem preenchidas pelos mais votados. Como não é assim, ganha vulto a aberração do mandato "caroneado", fruto do sistema de coligações proporcionais. O eleitor vota num candidato e este puxa outros, de baixa votação - e a representação fica distorcida. Veja-se o absurdo: o deputado Mendes Thame (PSDB-SP) obteve 106,6 mil votos e não se elegeu, Fausto Pinato (PRB-SP), com 22.097 votos, chegará à Câmara.

A segunda mazela surfa na onda do Estado-espetáculo, cujos tentáculos se voltam para a visibilidade dos atores políticos. Arrumam-se palcos para o desfile de candidatos, cujos discursos são adornados de autoglorificação e floreios com aparente embalagem de programas e promessas. De um lado, os candidatos majoritários, com espaços mais largos, apresentam-se sob a batuta dos marqueteiros, brandindo feitos e desfraldando bandeiras. Esse é um momento cruel para a verdade. Simulação e dissimulação emolduram o jogo eleitoral. Cada qual se veste com o manto de herói, mocinho, salvador da pátria, benfeitor, extraordinária figura do bem; já o diabo, a destruição, a perversidade, a corrupção, a maldição são coisas guardadas no baú do adversário. Debates entre candidatos majoritários, que deveriam propiciar comparações entre propostas, são engessados por regras e, quando permitem o confronto direto, nivelam-se por baixo, fazendo fluir acusações recíprocas. Ao final, a carga negativa acaba ofuscando os poucos minutos de bom senso e racionalidade. Já na esfera de candidatos proporcionais, o desfile de caras, bocas e caretas é um espetáculo de nonsense.

Na torrente de incongruências, a liberdade dos partidos de optar nos Estados por rumos diferentes dos seguidos por eles mesmos na esfera federal se afigura como estapafúrdia. É o que se vê. Conveniências pessoais, disputas tradicionais entre grupos e tradição familiar determinam as pedras no tabuleiro eleitoral dos Estados, fazendo os parceiros nacionais se transformarem em adversários locais. Não por acaso, a força dos partidos estiola-se ante tantas equações para a competição política. Ademais, a multiplicidade de siglas funciona como uma engrenagem defeituosa. Teremos, na próxima legislatura, 28 representadas na Câmara dos Deputados. A extravagância deve-se à derrubada da cláusula de barreira, em 2006, pelo Supremo Tribunal Federal. Acolhendo parecer do ministro Marco Aurélio de que a legislação provocaria o "massacre das minorias", o estatuto que dificultava a criação de partidos foi extinto, dando lugar a currais partidários para todos os gostos. Alguns desses estabelecimentos acabam propiciando parcerias esfumaçadas com a finalidade de melhorar o "pasto" dos rebanhos. Sem cláusula de barreira é possível enxergar, nos próximos anos, mais 20 siglas do "toma lá dá cá".

E o que dizer de senadores sem um voto sequer? É um contrassenso ver chegar à Camara Alta um suplente sem sufrágio no lugar do titular. Na composição ministerial tem sido comum o convite para senadores ocuparem cargos de ministro ou, ainda, de candidato a governos estaduais. É quando os suplentes ascendem ao posto. Eles são, em geral, figuras de porte empresarial/negocial e alguns ganham o assento em decorrência de sua disposição de bancar financeiramente a campanha do titular. Eis a charada. O mais lógico seria a ocupação do cargo pelo segundo candidato mais votado no Estado - uma decisão muito esperada da corte senatorial.

Para fechar o circuito das mazelas deparamo-nos com o estatuto da reeleição. Em democracias consolidadas a reeleição pode ser um eixo de aperfeiçoamento democrático, no entendimento de que o mandato de quatro anos seria insuficiente para um partido no poder concluir sua obra. Em países de instituições políticas e sociais em processo de consolidação, como é o caso do nosso, a reeleição bafeja os governantes, visto que, sem se afastarem do posto, eles usufruem o simbolismo e a força inerentes ao cargo. Essa alavancagem contribui para entortar a régua da igualdade entre disputantes. Um mandato de cinco anos sem reeleição cairia melhor na moldura de nossa democracia, pois propiciaria a renovação de mandatários e a oxigenação das estruturas governativas.

Essa é a farta "herança maldita" que o Brasil precisa banir.

O segundo turno - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 19/10


Rui Barbosa, diplomata, jurista, professor, escritor, deputado provincial até 1878, deputado nacional de 1878 a 1884, senador de 1890 a 1921 (Primeira República) disse, certa feita, uma frase que coincide com o meu estado de espírito: "Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e a vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos "floreios" para justificar atos criminosos. Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir, pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!".

Espero, entre descrente e esperançoso, que o PT seja vencido e que seus próceres sejam, civil e criminalmente, responsabilizados pelos crimes contra o patrimônio das empresas estatais, em prejuízo dos acionistas particulares (minoritários), especialmente na Petrobras e na Eletrobras, como recomenda a Constituição e as leis do Estado Democrático de Direito, que o PT tentou erradicar durante três mandatos presidenciais, sem êxito, em face da resistência dos democratas.

Não entendi como o eleitorado mineiro pôde votar em Dilma em detrimento de Aécio - ela tão ingrata para com Minas. A novidade é que o PT tornou o governo o grande coronel dos grotões (coronelismo de Estado). Aécio quer, por lei, transformar o Bolsa Família em política de Estado e não de governo. Neves e Anastásia, por 12 anos, nos governaram com ética e competência. Se não votarmos em massa no segundo turno, não vejo como evitar a derrota da esperança no porvir da nação que esses mineiros representam, a exemplo de São Paulo, estado desenvolvido, no qual Aécio teve o dobro dos votos do PT.

O programa da Dilma contempla três pontos comunizantes inspirados pelo foro de São Paulo, criado por Lula, Fidel Castro e partidos comunistas da América Latina. Primeiro querem mudar a Constituição, para introduzir consultas populares e plebiscitos liberticidas, enfiando os "movimentos sociais" na estrutura do Estado. Foi assim que Chávez tornou a Venezuela uma ditadura.

Depois, querem mudar o sistema jurídico diminuindo-lhe o alcance (o chamado efeito Joaquim Barbosa). As invasões das propriedades alheias, urbanas e rurais, não mais desafiarão os interditos possessórios, especialmente o de reintegração de posse, sem a oitiva prévia dos "movimentos sociais" (coletivização violenta da propriedade privada).

Por último, o programa do PT subscrito por Dilma propõe o controle popular dos meios de comunicação e impede as tevês, rádios e jornais de se auto-organizarem, como ocorre entre os povos democráticos. Querem influir nos "conteúdos" e na autonomia privada. Foi assim que Cristina Kirchner "fatiou" o jornal Clarín e Hugo Chávez confiscou meios de comunicação na Venezuela.

Comunista por formação, Dilma se apossou da Petrobras, dos Correios, da Eletrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e até do Banco Central, em prol dos desígnios do seu partido, mesmo após o supremo tribunal Federal ter condenado a cúpula do PT (os meios justificam os fins como preconizava Lenin). No plano econômico, foi o pior governo, desde 1930 (inflação alta, crescimento de 0,3%, dívida crescendo, falta de confiança dos investidores). A sua campanha é feita de mentiras e ataques pessoais, à moda de Stalin.

Milhares de militantes do PT estão atuando no Nordeste e nas periferias, plantando o ódio e a luta de classes na versão dos "ricos neoliberais" contra "os pobres desprotegidos". Estão com medo de irem parar nos tribunais, pelos crimes de lesa-pátria e, por isso, levam ao máximo a tática da luta de classes, amedrontando os eleitores para manterem o poder.

O preço da liberdade é a eterna vigilância. O ditado supérfluo noutras plagas é válido no Brasil. Fosse o país uma democracia plena, a presidente já estaria impedida de concorrer, e investigada como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, pela inacreditável roubalheira ali estabelecida por longos e lustrosos anos. Terá sido incompetente ou conivente.

Votemos por novos tempos, maiores liberdades e progresso econômico, em prol de todos os brasileiros, em ambiente democrático, com segurança jurídica!

A volta do cipó - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 19/10


Desde o início estávamos todos devidamente avisados de que o bicho iria “pegar”, mas pelo visto não suficientemente preparados para o quanto os candidatos seriam capazes de fazer “o diabo” na disputa pela Presidência da República.

Causou espanto o grau de agressividade entre a presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves nos dois primeiros debates da campanha do segundo turno, notadamente o embate de quinta-feira transmitido pelo SBT. Surpresa até certo ponto injustificada, pois a guerra de extermínio estava anunciada.

O tom da sinfonia também já havia sido dado pelo PT no primeiro turno, quando Marina Silva apresentou-se como uma ameaça concreta. Aquele comercial dos banqueiros celebrando a falta de comida no prato do brasileiro já indicava que não haveria limite nem nada parecido com a prometida “campanha propositiva”.

Marina sucumbiu. À força dos ataques, mas também devido às próprias fragilidades. Como a campanha do PT se concentrou na destruição da adversária mais perigosa, o tucano foi poupado e conseguiu atrair o eleitorado de oposição.

A fim de não ter o mesmo destino da antecessora no ringue, Aécio precisava entrar no segundo turno preparado para enfrentar a artilharia pesada.

Até porque o PSDB vinha sendo freguês do PT desde 2002. Nas sucessivas vezes em que o mineiro insinuava intenção de ser candidato, e mesmo agora, os petistas sempre disseram que seria muito fácil derrotá-lo. Espalhavam versões de todo tipo, envolvendo a existência de material supostamente explosivo nunca exibido.

Os tucanos sabiam que o adversário atacaria com mão pesada. Não foram, portanto, pegos de surpresa. O dado surpreendente e que parece ser a causa de tanto espanto é a reação do PSDB, um combatente sempre moderado. Um partido de oposição criticado por excesso de condescendência no exercício da atividade.

Aécio Neves hoje só não é mais conhecido do público porque não teve a atuação de líder oposicionista que dele se esperava quando deixou o governo de Minas Gerais para assumir uma cadeira no Senado. Ficou ali naquele trabalho de bastidor sem importunar o governo. A “pegada” da oposição nesses anos foi reconhecidamente leve.

Assim o PT estava acostumado a ser tratado. Batendo com ferro, na ofensiva, só ficando na defensiva quando lhe interessava o papel de vítima. Uma exceção apenas: na eleição de 1989, quando o então candidato Luiz Inácio da Silva ficou acuado pelos ataques antiéticos e brutais do oponente Fernando Collor, hoje seu aliado.

De onde o elemento surpresa desse segundo turno é o revide dos tucanos, que nos últimos 12 anos aceitaram apanhar praticamente calados. Viram o PT se apropriar dos feitos dos governos Fernando Henrique Cardoso sem saber direito como se defender.

Nas campanhas presidenciais subsequentes a oposição deixou o PT nadar de braçada, sem aproveitar seus flancos objetivamente. Do ponto de vista da luta política, o PSDB foi inexplicavelmente delicado na época do escândalo do mensalão, ao atender à solicitação do advogado Márcio Thomaz Bastos para deixar passar em branco a denúncia do publicitário Duda Mendonça de que recebera dinheiro de caixa dois na campanha de Lula em 2002.

Os tucanos foram tão ingênuos na campanha de 2010. Agora estão dispostos a vestir a roupa de briga e ir para o meio da rua invocando Geraldo Vandré na volta do cipó de aroeira, pedindo o castigo “no lombo de quem mandou dar”.

A quem interessa. A campanha da presidente Dilma não tem razão para comemorar a confissão de Paulo Roberto Costa de que pagou propina ao tucano Sergio Guerra para esvaziar uma CPI da Petrobras em 2009. Afinal, atuava a serviço do governo.

João 'Bicho-Papão' Santana - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 19/10


Marqueteiro americano foi pioneiro no uso da "propaganda negativa" para atacar adversários. A "baixaria" da campanha eleitoral, que tecnicamente chama-se "propaganda negativa", tem levado o marqueteiro oficial João Santana a ser comparado com Goebbels, o ministro da propaganda nazista, a quem se atribui a tese de que uma mentira repetida acaba virando verdade. Santana diz que trabalha não com mentiras, mas "com o imaginário da população, com produções simbólicas".

Na verdade, essa maneira agressiva de utilizar a "propaganda negativa" para desconstruir os adversários tem um pioneiro na História política contemporânea, e não poderia deixar de ser um marqueteiro americano, pois nos Estados Unidos é onde se pratica a mais violenta propaganda política.

A história de Lee Atwater está contada num filme chamado "O Bicho-Papão" ("Boogie Man"), apelido por que era conhecido, de que já tratei aqui na campanha eleitoral de 2008 que levou Barack Obama à Presidência. Vale a pena rememorar. Como marqueteiro político, era tão ligado aos republicanos que foi nomeado pelo então presidente George Bush pai para presidir o Partido Republicano, a primeira vez que um não parlamentar ocupou o cargo.

Atwater chamou a atenção pela primeira vez em termos nacionais quando, aos 29 anos, teve papel importante na indicação de Ronald Reagan como candidato oficial do Partido Republicano em 1980, e, depois, na concepção de sua campanha, que teve início propositalmente na Filadélfia, lugar onde em 1963 foram assassinados três militantes dos direitos civis.

Durante o governo Reagan, Atwater trabalhou na Casa Branca e teve papel importante no escândalo Irã-Contras, organizando as manobras de marketing para livrar o presidente das acusações. Foi nesse período que se aproximou do então vice-presidente George Bush pai, de quem depois seria o principal assessor. Lee Atwater foi o primeiro assessor político a fazer pesquisas induzidas, e instintivamente entendeu que poderia incutir medo nos eleitores, explorando seus sentimentos patrióticos e religiosos.

Na sua primeira campanha, em 1978, curiosamente no Partido Democrata na Carolina do Sul, ele ajudou a derrotar Max Heller, um popular prefeito de Greenville, dando a vitória a Don Sprouse - que acusava Heller de, por ser judeu, não acreditar "no Nosso Senhor Jesus Cristo".

Foi a campanha de George Bush pai em 1988 que trouxe de vez a fama para Lee Atwater, começando pelas primárias, onde o primeiro a ser atacado foi o senador Bob Dole, acusado em propagandas de ser "O Senador Indefinido", mostrando-o como um político inconsistente, que mudava de opinião a toda hora. A tal ponto que, em um debate, perguntado pelo moderador Tom Brokaw se tinha algo a dizer a seu adversário, respondeu rispidamente: "Pare de mentir a respeito de minha história".

A campanha negativa marcou a marcha de George Bush para a Casa Branca, e a propaganda até hoje lembrada como uma das mais sujas da História política americana foi sobre o prisioneiro Willie Horton, condenado à prisão perpétua por assassinato, que saiu da cadeia dentro de um programa social implantado em Massachusetts pelo governador Michael Dukakis, praticou um assalto e estuprou uma mulher.

O candidato democrata, que tinha uma ampla vantagem, acabou sendo batido por Bush. O programa social tão criticado por Bush havia sido implantado pela primeira vez na Califórnia pelo então governador Ronald Reagan, mas os democratas não souberam responder ao ataque.

Durante essa campanha, Atwater ficou amigo da família Bush, especialmente do filho George W. Bush, e foi dele a ideia de fazê-lo candidato ao governo do Texas. Morreu em 1991, sem ter tempo de ver sua invenção chegar à Presidência dos Estados Unidos. Durante o período em que esteve doente, antes de morrer, Atwater ainda teve tempo de se arrepender de seus métodos, deu entrevistas e enviou cartas a diversos políticos, cujas reputações arruinara, pedindo desculpas.

Correção

Na coluna de ontem escrevi, a certa altura, "enfrentar de frente", um pleonasmo que corrigi no blog e pelo qual me desculpo com os leitores.

A esperança contra o ódio - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 19/10

Na reta final de uma eleição equilibrada, que vai definir os destinos do País, o mínimo de racionalidade indispensável a uma escolha criteriosa do próximo presidente da República está escoando pelo ralo. Para conquistar votos, candidatos devem ser capazes de falar, sempre honestamente, tanto à razão quanto à emoção dos eleitores. Mas pelo motivo óbvio de que programas de governo lidam com questões objetivas - problemas concretos - a emoção não se pode dissociar da razão na hora de se decidir o voto. Boas causas com dose maior de apelo emocional, como direitos humanos e justiça social, impõem-se porque são, por definição, racionalmente justas, não por serem emocionalmente defensáveis - e exigem soluções racionais.

O marketing, porém, tende a subverter os valores numa campanha eleitoral quando parte do princípio de que os fins justificam os meios. E essa subversão cresce na medida em que aumenta a falta de escrúpulos de candidatos e marqueteiros. Todos sabem o que Collor fez contra Lula na eleição de 1989. Os petistas aprenderam com aquele exemplo e o resultado é que nunca antes na história deste país, como agora, houve tanta apelação e baixaria numa eleição presidencial.

O que se viu no "debate" da quinta-feira no SBT foi deplorável. Por iniciativa de Dilma, o recurso marqueteiro da "desconstrução" do adversário foi reduzido ao mais baixo nível da odiosa demolição de caráter com ataques à honra pessoal do adversário e seus familiares. Não lhe restando opção senão responder à altura, Aécio teve a habilidosa precaução de pedir desculpas aos telespectadores por trazer à luz a nomeação do irmão de Dilma, Igor Rousseff, para um cargo, na Prefeitura de Belo Horizonte, onde recebia sem trabalhar. Faltam ainda dois "debates"!

Nenhum dos candidatos merece medalha de bom comportamento pelo que têm feito e dito nas entrevistas, nos palanques, na propaganda e nos debates. A candidata do PT, no entanto, fiel à convicção que Lula incutiu na mente da companheirada, de que valores éticos e morais são preconceitos "pequeno-burgueses", coisa de "udenistas" e de "babacas", deu carta branca para que seu marqueteiro fizesse "o diabo". E bota diabo nisso, porque a necessidade é premente.

Os petistas proclamam que têm uma proposta política "diferenciada", porque voltada para o interesse e as necessidades da população mais pobre. E por essa razão confrontam as "elites", que só pensam em dinheiro e em explorar os despossuídos. São, portanto, os petistas, gente "do bem", enquanto as elites congregam todos os que são "do mal". E aos paladinos do bem tudo é permitido.

Dividindo os brasileiros entre "nós" e "eles", "bons e maus", "ricos e pobres", inspirada na lógica da luta de classes que ruiu com o Muro de Berlim, o lulopetismo se proclamou detentor do monopólio da virtude e da representação dos fracos e oprimidos. Desde que Lula subiu pela primeira vez no palanque dos metalúrgicos em Vila Euclides, ninguém mais no Brasil tem legitimidade para falar em nome dos trabalhadores.

O combustível dessa pretensa luta dos oprimidos contra os opressores comandada pelo PT é o ódio, ardilosamente insuflado com argumentos essencialmente emocionais. Lula ensina as pessoas a odiar porque... são odiadas. É, portanto, um ódio do bem, legítima defesa.

Lula sempre se esmerou em disseminar o ódio. E sempre teve esmerados aprendizes. Provou-o no momento de sua trajetória política em que vislumbrou pela primeira vez a possibilidade real de chegar ao poder, em 2002, e por conveniência eleitoreira travestiu-se, temporariamente, em "Lulinha paz e amor". Durou pouco, até o mensalão.

As agruras do mundo moderno oferecem motivos para que as pessoas se tornem cada vez mais agressivas no relacionamento social cotidiano. É o que se vê nas manifestações de rua, no trânsito, nos campos de futebol. O PT sabe, portanto, que a semente do ódio tem campo fértil para vicejar - e, assim, fez um projeto de poder sustentado na cizânia social.

Lula declarou em junho, quando a campanha eleitoral começava a esquentar: "Em 2002 lutamos para que a esperança vencesse o medo. Agora, é preciso que a esperança vença o ódio". Que assim seja.

O clube dos corações divididos - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 19/10


Multiparentalidade no registro de crianças e uniões poligâmicas ignoram o fato de que só o amor exclusivo dá conta dos nossos anseios mais profundos



Há pouco mais de um mês, uma decisão judicial no Rio Grande do Sul lançou novos desafios para o direito de família: uma menina, nascida em 27 de agosto, foi registrada, na cidade de Santa Maria, com duas mães e um pai. As mulheres têm um relacionamento há quatro anos e vivem juntas; o homem é amigo delas, e concordou em ajudar a gerar um filho com a condição de que seu nome figurasse no registro, que ainda traz o nome dos seis avós.

Um dos argumentos centrais do juiz Rafael Pagnon Cunha é o de que a intenção do trio era a de “assegurar à sua filha uma rede de afetos. E ao Judiciário, guardador das promessas do Constituinte de uma sociedade fraterna, igualitária, afetiva, nada mais resta que dar guarida à pretensão – por maior desacomodação que o novo e o diferente despertem”. O argumento tem sua sedução, especialmente quando o magistrado escreve que “quanto mais gente estiver cuidando dessa criança, eu tenho certeza que a possibilidade de felicidade dela é bastante grande”.

A “rede de afetos”, aliás, é um conceito que acaba servindo também para defender a poligamia, que já passou da ficção para a realidade no Brasil, com pelo menos um caso conhecido nacionalmente de registro de união entre um homem e duas mulheres, no interior de São Paulo. Ainda que o registro de multiparentalidade no Rio Grande do Sul não se refira a uma situação de poligamia, a decisão cria o precedente para que outras crianças nascidas em uniões desse tipo sejam também registradas com vários pais.

Cunha e os defensores da poligamia, no entanto, seguem uma lógica que associa, ou confunde, quantidade e qualidade. Levando ao extremo o raciocínio, ele justificaria registros de uniões entre várias pessoas que pratiquem o “amor livre”, ou que uma criança fosse registrada tendo como pais todos os membros de uma comunidade. E certamente, diante desses exemplos, haverá quem pergunte: por que não?

Por mais que as desilusões e as fraquezas humanas levem a que hoje exista uma descrença generalizada no ato de entregar os afetos mais profundos a um único companheiro, ainda é esse ato que preserva aquela intuição ancorada na dignidade do ser humano: a de que só o amor exclusivo dá conta dos nossos anseios mais profundos. Um coração dividido não dá tudo o que é devido ao parceiro; não é diluindo o amor conjugal que se vai fortalecê-lo. E essa não é uma mera construção social que se altera com o tempo: é uma inegável realidade humana que a sabedoria popular já consagrou em verso e prosa, como fez Vinicius de Moraes em um de seus textos mais famosos: “Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... – não tem nenhum valor”.

E as crianças? Ora, se é o amor de exclusividade que responde plenamente aos anseios do ser humano, fica evidente que as crianças estarão melhor servidas se forem criadas em um ambiente no qual possam aprender essa verdade desde pequenas. A “rede de afetos” proposta pelo juiz Cunha e pelos defensores das uniões poligâmicas, no fim, poderá resultar em um déficit de afeto, justamente o efeito contrário ao desejado. As crianças, no fim, se tornarão as grandes vítimas de experimentos sociais baseados em um discurso velado que tem o objetivo de, ao fim e ao cabo, matar o verdadeiro amor e retirar-lhe seu significado profundo. Não é isso que desejamos para as próximas gerações.