domingo, fevereiro 19, 2023

O mercado religioso trata a fé como commodity e usa a miséria de todos nós - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SÃO PAULO 19.02.2023

O mercado religioso trata a fé como commodity e usa a miséria de todos nós

A vida é muitas vezes insuportável e as religiões nos dão uma esperança de poder torná-la menos insuportável


A fé é uma commodity e as religiões a disputam. Alguém pode dizer que sempre foi assim. Dizer isso é como comparar as velhas feiras dos burgos onde se vendia comida e outras bugigangas com a sociedade capitalista.

A sociedade capitalista é um sistema global que se caracteriza, além de outras coisas, pelo fato de que só tem futuro o que vira produto. À medida que se agrega valor financeiro a algo, imediatamente ele começa a responder dentro da dinâmica da mercadoria. E nessa dinâmica o que importa é aumentar o PIB do player religioso.

Essa dinâmica é marcada pelo estágio da midiatização da religião que começa com o televangelismo dos anos 1970 nos Estados Unidos. Sendo a mídia o mercado de conteúdos por excelência, as religiões se transformaram em empresas de conteúdo que formam ministros religiosos no marketing mais do que na teologia ou sistemas mitológicos.

Com as redes sociais, esse processo se radicalizou e ficou mais barato. Uma das marcas da sociedade capitalista é a emergência de uma microfísica da competição que é fundamental no processo de destruição dos players dentro do mercado em questão.

Uma vantagem do mercado religioso sobre outros é seu custo relativamente baixo para quem paga pela adesão e pelo que ganha em retorno —um produto que tem a característica de ser infinito e maleável, ou seja, a fé.

A fé tem uma plasticidade gigantesca e é adaptável às mais diversas situações e narrativas. A fé nunca acaba porque ela está ancorada na experiência profunda do desamparo dos seres humanos, como diz Freud no seu memorável "Futuro de uma Ilusão".

A vida é muitas vezes insuportável e as religiões nos dão uma esperança de poder torná-la menos insuportável. Nada há de racional nisso, por isso é tão poderosa. Tudo que é ancorado na razão é frágil, já o que é ancorado na miséria é sempre poderoso.

A violência entre os players religiosos é clássica, sempre foi. Hoje, ela se tornou passível de gestão de conteúdos e comportamentos segmentados. Falar mal dos competidores, inclusive no plano das ideologias políticas, marca nichos específicos no mercado da fé.

Esse fato pode aparecer em toda e qualquer comunidade religiosa que disputa fiéis, independente da identidade de fé em questão.

Na Igreja Católica isso ocorre entre ordens religiosas, entre grupos conservadores contra progressistas, e dentro da hierarquia de carreira na instituição.

Sendo uma instituição que deita raízes profundas na antiguidade e medievo, a Igreja Católica tem mais dificuldade para se tornar uma empresa ágil em nosso admirável mundo novo. Sua lentidão pode ser mortal num futuro próximo.

O mercado evangélico é obsceno nesse aspecto porque o protestantismo já nasceu moderno. Um galpão abandonado, algumas cadeiras de plástico, um microfone, alguém que domina a retórica e um punhado de miseráveis desamparados —que somos todos nós— e o business se põe em marcha.

Abrir uma igreja de sucesso é como abrir uma loja na rua onde se compra produtos baratos. Qualquer franquia de Jesus funciona. A miséria é algo que Deus seguramente distribuiu de forma democrática entre os homens e mulheres.

Há, contudo, nichos de evangelicalismo de luxo, usualmente, de classe média alta e de esquerda.

Entre judeus não é muito diferente, apesar de ser gourmetizado. Rabinos disputam seus fiéis a pau. Falam mal um dos outros, disputam poder e espaço dentro das sinagogas, assim como as almas a disposição.

Sinagogas buscam nichar seus fiéis a partir de questões ligadas as normativas da tradição: seus pais são judeus? Pode frequentar tal sinagoga. Sua mãe não é judia? Melhor ir naquela. E por aí vai.

A segmentação segue as linhas que determinam a validade da sua identidade judaica.

Terreiros de candomblé não fogem à regra. Pais e mães de santo falam mal de concorrentes, buscam roubar seus filhos de santo, equedes e ogãs, inventam fofocas sobre seus desafetos. Ao final, o que importa é quem fatura mais.

O budismo no Brasil ainda funciona como um mercado entre restaurantes com estrelas Michelin, coisa de riquinhos descolados.

terça-feira, dezembro 06, 2022

Ruptura democrática - DENIS LERRER ROSENFIELD

 ESTADÃO - 05/12/22

Líderes autoritários ou até totalitários podem utilizar instrumentos democráticos para imporem formas de governo a serviço de seus próprios desígnios



O título pode surpreender! Há rupturas da democracia que se fazem segundo instrumentos democráticos, de modo que as aparências são mantidas, enquanto os pilares de um regime assentado na liberdade são abalados. Eleições, por exemplo, tanto podem ser um meio de alicerçar a democracia, como de fragilizá-la, o que ocorre quando se tornam ferramentas de políticos autocráticos. Lideranças autoritárias ou, inclusive, totalitárias podem se utilizar desses instrumentos para imporem formas de governo a serviço de seus próprios desígnios.

Hitler conquistou o poder democraticamente, fazendo uso de um artigo da Constituição de Weimar que lhe permitia, em determinadas circunstâncias, governar por decretos. O artigo em questão já havia sido utilizado dezenas de vezes por governos anteriores social-democratas, de modo que tinha a aparência de uma mera medida corriqueira. Ato subsequente, passou a perseguir oposicionistas, eliminando fisicamente adversários e, mesmo, amigos, aí incluindo lideranças militares, como o ex-chanceler Kurt von Schleicher e o comandante das SA, Ernst Röhm. Deu-se ao luxo de convocar eleições que eram meros referendos à sua liderança, proibindo qualquer oposição partidária e fazendo uso intensivo da censura. As massas o aclamaram.

Hugo Chávez, aclamado pela esquerda latino-americana e brasileira, seguiu o mesmo caminho. Conquista o poder democraticamente, passando a governar por meio de decretos e referendos que confirmavam sua liderança. Se o referendo lhe era desfavorável, não o seguia e logo convocava um outro, até conseguir impor a sua vontade. Deste modo, foi calando progressivamente os meios de comunicação, até o seu completo silêncio. O Congresso foi também aparelhado por etapas, até lhe ser totalmente submisso. Milícias paramilitares vieram a controlar toda a população, com o uso da violência e o assassinato de manifestantes. O Supremo foi subjugado, tornando-se um mero avalizador de seus atos. Os militares foram cooptados por intermédio do uso intensivo da corrupção. A burla foi completa.

O Brasil está saindo de um período em que as instituições democráticas foram postas à prova, embora o atual presidente e o seu movimento assegurassem fazer o contrário. E o fizeram, paradoxalmente, dizendo defender a democracia e as liberdades. Não foram poucas as tentativas de, progressivamente, criar um ambiente propício a um golpe de Estado, com o questionamento ostensivo das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral. Prova nenhuma foi apresentada, mas inúmeras vezes disse o presidente que não seguiria os resultados das eleições se suas pretensões não fossem atendidas. Na verdade, para ele valia apenas o seguinte: em caso de vitória sua, a democracia funcionaria; em caso de derrota, a democracia não teria sido seguida. Simples assim o absurdo de tal colocação.

O resultado das eleições foi-lhe adverso. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como é de sua exclusiva competência, atestou a lisura do processo e validou toda a apuração, dando vitória ao ex-presidente Lula. Lideranças responsáveis, inclusive de partidos aliados, como o ministro Ciro Nogueira, que assegurou o gabinete de transição, e o deputado Arthur Lira, que reconheceu imediatamente o resultado do pleito, seguiram igual rumo. Os militares, no estrito cumprimento de seu dever, seguem a Constituição, afastando-se de qualquer tentativa golpista. É apenas de lamentar que generais do alto comando estejam sendo denegridos por companheiros de farda ao serem considerados como militares melancias, verdes por fora e vermelhos por dentro. Seguir a Constituição, para pessoas que assim se tornam indignas, seria uma atitude de esquerda. Disparate total.

No entanto, o ministro Alexandre de Moraes, atuando como defensor da Constituição, tem sido considerado como um bode expiatório. Soube ele compreender, ao contrário de seus críticos, que momentos excepcionais, em que a democracia está em risco, exigem medidas excepcionais. Não se pode confundir a aparência de seguir a democracia com sua subversão. Não caiu neste tipo de armadilha armada por bolsonaristas. No momento em que decidiu arquivar um pedido fake, golpista, do PL, contestando o resultado das eleições, não hesitou em lhe impor uma pesada multa por litigância de má-fé. Não cabia, aqui, nenhum tipo de tergiversação, sob pena de tais investidas se repetirem com o intuito de impedir a posse do novo presidente eleito ou sua governabilidade futura. A multa impõe um limite.

Da mesma maneira, não se pode considerar como democráticas manifestações em frente de quartéis e em rodovias exigindo uma intervenção militar. É meramente contraditório. Dizem eles: ou há intervenção ou continuaremos nos manifestando e, em casos mais extremos, impedindo o direito de ir e vir em ruas e estradas, mediante o uso de violência. Os seus autores e financiadores devem ser, sim, responsabilizados, pois democracia não significa liberdade para delinquir. Uma democracia que não reconhece limites caminha para o seu fim.

PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS.

domingo, outubro 02, 2022

Carta a Bolsonaro: não ouse dar um golpe - JAMIL CHADE

UOL - 02/10/2022 


Senhor presidente,

Em janeiro de 2019, poucos líderes internacionais imaginavam que a destruição que o senhor promoveria seria tão profunda, perversa e dolorosa no Brasil. Mas, curiosamente, já sabiam que não deveriam compartilhar a mesa ao seu lado. Naquele mês, no Fórum Econômico Mundial de Davos, o senhor teria um almoço com os anfitriões, que também convidavam todos os líderes presentes para um encontro fechado.

Quando duas dessas lideranças mundiais se deram conta com o senhor também tinha sido convidado, uma delas combinou que fariam de tudo para encontrar um local bem distante do senhor. Mesmo que tivesse de trocar a plaquinha com os nomes que o protocolo havia posto para a disposição dos convidados. "Deus me livre sentar ao lado dele", confessou uma delas.

Quando entraram, as duas descobriram que não eram as únicas que tinham pensado nisso e, como num jogo, parte da cúpula mundial se divertia com o pavor de ter de passar uma refeição ao seu lado.

Naquele mesmo dia, o senhor esbarrou com Tony Blair, num dos corredores de Davos. Sem saber o que fazer, ele aceitou uma foto ao seu lado. Mas assim que ela foi divulgada, a assessoria do ex-primeiro-ministro do Reino Unido teve de dar explicações diante do constrangimento e das críticas que ele recebeu.

Horas depois, o senhor seria entrevistado por um grande jornal americano. Ao sair do encontro, a experiente jornalista estava em choque diante dos absurdos que ela ouviu.

Anos depois, numa outra cúpula, ouvi uma conversa entre Angela Merkel e um grupo de líderes europeus. Ao debater uma proposta, a alemã advertiu ao grupo que "os brasileiros teriam problemas" com tal ideia que seria submetida à consideração da comunidade internacional. Ela, porém, foi interrompida por outro chefe de governo que brincou: "os brasileiros têm um problema ainda maior". Todos riram.

Vou contar aqui um segredo: eles se referiam ao senhor.

Ninguém me contou. Eu vi com meus próprios olhos como no G20 em Roma, em 2021, o senhor sequer sabia quem eram os líderes ao seu lado. E eles faziam questão de virar as costas. Basta perguntar a Olaf Scholz.

Ninguém me contou. Eu vi como embaixadores estrangeiros na ONU debochavam das decisões que o senhor mandava aos diplomatas brasileiros.

Ninguém me contou. Eu vi como, no auge da pandemia, a cúpula da OMS chamava o senhor de "louco".

Ninguém me contou. Eu vi como diplomatas brasileiros pediram licença médica, afastamento ou foram para países insignificantes para não ter de servir à destruição que o senhor promoveu.

Com a mais alta liderança palestina, numa certa ocasião, um dos principais nomes de Ramallah me explicou que jamais imaginaria que um país com tal ativo de simpatia no mundo poderia passar por uma transformação tão profunda.

Pelos serviços de mensagens no celular, chanceleres estrangeiros debocham do senhor ao me escrever e torcem para um final de seu mandato.

No Parlamento Europeu, o senhor é tratado abertamente como "irresponsável" e "neofascista". No Senado americano, seu nome é sinônimo de ameaça à democracia.

Na França, o governo deu ordens para dificultar ao máximo qualquer acesso de seus representantes aos canais de diálogo com uma das maiores economias da Europa.

O senhor e seus apoiadores podem achar que diplomacia é ir a coquetéis e sair na foto ao lado de gente importante. Mas não é nada disso. Política externa é política pública e instrumento de desenvolvimento social. Destruir essa arma é prejudicar a parcela mais pobre da população, não os ricos.

O último grande constrangimento que o senhor promoveu foi usar um funeral de estado para fazer campanha eleitoral, para o espanto de todos. Mas esse não foi o único caso. Com o falecido Shinzo Abe, o senhor ensaiou uma piada fora de lugar. A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Até que o japonês, politicamente, decidiu rir. E todos respiraram aliviados.

Desprezado pelas grandes democracias, o senhor apenas foi recebido por pessoas que foram obrigadas a fechar o nariz para conseguir atingir algum objetivo estratégico com o Brasil.

Sim, o Brasil conta no mundo. E por isso a eleição neste domingo também conta.

Escrevo essa carta ao senhor com uma mensagem que o senhor já ouviu da CIA e de governos estrangeiros: respeite os resultados das urnas.

Não existe outra alternativa. Ridicularizado, o senhor apenas tem o apoio —interessado— de líderes de extrema direita, de governos autoritários ou daqueles que querem justamente o enfraquecimento da democracia ocidental.

Se o senhor optar por contestar o voto, a urna, o TSE e o sistema eleitoral brasileiro, estará jogando o Brasil num de seus momentos mais perigosos e aprofundando o isolamento do país no mundo. Para grande parte do mundo, o senhor é um bufão. Mas um bufão perigoso.

O senhor armou milhares de pessoas em três anos, com mentiras e balas. O senhor destruiu pontes e criou inimizades com alguns dos nossos principais parceiros comerciais. Há um consenso na opinião pública internacional de que o senhor faz parte de uma das aberrações do século 21 e reflexo do colapso moral de nossa geração.

A história não poupará o senhor. Isso já é um fato. Mas se a opção for por um golpe, ganharemos um capítulo ainda mais trágico e a certeza mundial de que o futuro foi uma vez mais adiado para o Brasil.

Algumas de suas decisões jamais serão reparáveis. Como trazer de volta milhares de brasileiros que foram assassinados por uma gestão criminosa da pandemia? Como restabelecer o isolamento de indígenas que viram suas terras roubadas?

Agora, ao bombardear a eleição, o senhor está também minando a confiança da sociedade em um sistema que tantos morreram para que fosse estabelecido na América Latina: a democracia.

Não ouse. Somos muitos e não aceitaremos. O mundo, que o despreza, tampouco aceitará.

Viva a democracia,

Jamil

segunda-feira, agosto 22, 2022

Saúde mental é uma das grandes fronteiras do capital neste século - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 22/08/22

Cada vez mais haverá jovens medicados, alunos diagnosticados e seguros de saúde mais caros


A saúde mental é uma das grandes fronteiras do capital neste século 21. Mas isso não quer dizer que todos os profissionais da área sejam picaretas, como pode pensar os apressados de plantão.

Isso significa que, do ponto de vista de quem faz uso de profissionais de saúde mental, você, enquanto usuário —e pode ser aqui uma pessoa física ou uma instituição—, começa a duvidar quando esse profissional diz que é preciso "investir" em saúde mental. Porque não sabe se ele está pensando cientificamente ou financeiramente, a partir do ponto de vista de um fornecedor —ele— do mercado de bens e serviços em saúde mental. Difícil?

Sim, difícil, bem mais difícil do que pensa nossa vã filosofia. Sim, hoje há um mercado de bens e serviços em saúde mental. Ele inclui profissionais como psicólogos, psiquiatras, psicopedagogos e instituições e empresas organizadas por esses profissionais para oferecer tratamentos e formação de mais profissionais em escolas, clínicas —enfim, bens e serviços gerais do mercado de saúde mental.

E, é claro, quando o assunto é um mercado, falamos também em marketing disso tudo. Logo, há ainda profissionais de marketing, publicidade, mídia, redes sociais, escrita, jornalismo. Todos eles podem ser "players" nesse mercado de saúde mental.

Inclui também diagnósticos de todos os tipos que assolam as escolas e as famílias nos tempos contemporâneos. E, não esqueçamos, agrega ainda a gigantesca indústria farmacêutica e seus remédios.

Aqui vale um parêntese. Não se trata de sair xingando a indústria farmacêutica. Lembre que ela nos deu vacinas e longevidade em geral. Trata-se de entender, antes de tudo, que ciência não é um lugar cheio de monges-cientistas que trabalham porque são pessoas especialmente voltadas ao bem do mundo, mas que a ciência é a indústria farmacêutica —as universidades só decolam de fato quando têm apoio do capital desse setor, na imensa maioria dos casos.

A ciência sempre foi vocacionada a ser uma indústria porque custa caro. Dito isso, voltemos ao tema: a saúde mental como fronteira do capital.

Cada vez mais haverá jovens medicados, alunos diagnosticados, pais desesperados —aliás, este é um dos motivos latentes para a decisão dos jovens de não terem mais filhos— e seguros de saúde cada vez mais caros. Enfim, uma enorme rede que reúne inúmeros "players" do mercado de saúde mental.

Aliás, uma das formas de você identificar quando um segmento da sociedade se transformou numa fronteira do capital é quando ele começa a gerar demandas de bens e serviços crescentes e acumulados, como é o caso em questão hoje.

As escolas, hoje imobilizadas entre alunos, professores, pais pagadores de mensalidades e a emergente judicialização das relações entre colégios e esses pais, terão que investir dinheiro na formação específica de corpos docentes, já que elas, as escolas, foram alçadas à categoria de parceiras nos cuidados com a saúde mental —que hoje só piora— dos seus alunos matriculados.
Escolas com mensalidade abaixo de R$ 1.000 crescem na crise

A análise desse sintoma histórico e econômico deve ser também feita num plano que diferencie os vários "players" desse mercado emergente.

Do ponto de vista dos profissionais, os psiquiatras de sucesso, saídos das marcas acadêmicas públicas em medicina, tendem a ser o elo mais poderoso da cadeia.

Não é à toa que se tornou comum psiquiatras ignorarem tratamentos psicoterapêuticos em andamento e indicarem colegas seus aos pacientes, a fim de eliminar a concorrência mais frágil da cadeia, que são os psicólogos.

Na verdade, os psicólogos, em geral, são os "varejistas" desse mercado, recebendo pagamento por hora de trabalho. A psiquiatria é um elo importante nessa ciranda da indústria farmacêutica, já que detém o poderoso discurso médico em suas mãos e canetas.

Pais e escolas, ambos em pânico, cada vez mais infantilizados diante do poder do discurso médico e científico, adoram ver filhos e alunos medicados.

É sempre mais seguro ter o aval do médico. Se der pau, ele será importante para outro elo dessa cadeia: o advogado. Não há saída no horizonte. Só vai piorar a violência do capital no mundo da saúde mental.

sexta-feira, junho 17, 2022

É coveiro, sim - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 17/06

O mundo inteiro, agora, sabe quem é Bolsonaro


Em 2020, no auge da Covid, Jair Bolsonaro preferia passear de jet ski a visitar os hospitais abarrotados e solidarizar-se com os profissionais que arriscavam a vida. Enquanto brasileiros morriam por falta de oxigênio, Bolsonaro imitava uma pessoa lutando para respirar. Já então eram-lhe oferecidas vacinas, que ele desprezava em função da cloroquina. E, quando os cemitérios tiveram de abrir covas rasas para comportar milhares, ele celebrou essa tragédia com uma frase: "E daí? Não sou coveiro".

Agora Bolsonaro terá de ser coveiro. Está diante de dois mortos que o mundo não deixará insepultos: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Queira ou não, são seus mortos, assassinados pelos exploradores, traficantes e pistoleiros a quem ele entregou a Amazônia. Por "ele", leiam-se Bolsonaro ele mesmo, seu cínico vice-presidente Hamilton Mourão, presidente decorativo do Conselho Nacional da Amazônia, e o ex-ministro Ricardo "Boiada" Salles.

Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, possivelmente incendiados e enterrados na floresta. Não se sabe a que se reduziram seus corpos —ou "remanescentes humanos", como foram chamados pelas autoridades. É insuportável imaginar que dois seres humanos, até há pouco na plenitude de suas forças e virtudes, sejam neste momento material de laboratório e, pior ainda, em Brasília, não muito longe do homem que os responsabilizou pela própria morte chamando-os de "aventureiros" e "excursionistas".

Seja o que tiver restado deles, mesmo que uma unha, terá de ser entregue às suas famílias e sepultado
—Bruno, aqui mesmo, e Dom, quem sabe em seu país. Era o que Bolsonaro mais temia: a prova física do crime. A partir de agora, ninguém mais, em qualquer parte, poderá dizer que o desconhece.

Os coveiros da Covid eram heróis. O coveiro da Amazônia pode ser chamado de muita coisa —você escolhe.

quinta-feira, abril 28, 2022

Atenção, empresas, a litigância climática está chegando - RODRIGO TAVARES

FOLHA DE SP - 28/04

Processos em tribunal contra empresas que violem metas associadas às alterações climáticas devem crescer no Brasil


Ao abrir uma filial de uma empresa no Brasil, um conhecido banqueiro brasileiro sobreavisou-me: "poupe em tudo, menos nos advogados". A judicialização das atividades corporativas, juntamente com a hiperburocratização e a tributação visigótica, são o tripé cambaleante onde assentam as empresas brasileiras.

Mais de 60 milhões de ações envolvendo empresas tramitam no judiciário brasileiro, sobretudo de cunho trabalhista, civil (contratos e indenizações) e relacionadas ao Direito do Consumidor. Um CEO brasileiro tem que conhecer tão bem o chão da fábrica quanto o chão do fórum da sua comarca.

É um cenário que se agudizará com a litigância climática, uma ferramenta a ser usada pela sociedade civil para obter a responsabilização das empresas e dos governos na agenda do clima. Ainda que as primeiras ações judiciais datem da década de 90 na Austrália e EUA, foi com a vitória histórica em 2021 de um grupo ambiental contra a Shell –em que um tribunal holandês ordenou que a empresa estabelecesse o corte de 45% das suas emissões de carbono até 2030– que se abriu um novo capítulo. Foi a primeira vez que o poder judicial de um país obrigou uma empresa a se alinhar ao Acordo de Paris.

No dia de hoje, segundo a LSE, existem 548 casos em curso em tribunal contra empresas ou entidades públicas por violações associadas às alterações climáticas. No Brasil são 18, incluindo uma ação cautelar de quatro associações não governamentais –Agapan, Ingá, Coonaterra-Bionatur e Ceppa– contra uma empresa de mineração por violação das regras de licenciamento ambiental "frente à grave situação de emergência climática".

Mas no país ainda não há registo de casos semelhantes ao da Shell. E falta ativismo jurídico por parte da sociedade civil. Em Portugal, a semana passada, um grupo de 12 jovens, composto principalmente por advogados recém-graduados e estudantes de Direito, criou a associação Último Recurso. Publicamente, apresentaram como sua missão colocar o Estado português e a empresa de energia Galp em tribunal, acusando-os de serem os principais responsáveis pela crise climática no país.

Em declarações à coluna, a direção da associação salienta que a base legal dos processos deriva "da responsabilidade civil (por violação de direitos subjetivos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos), dos deveres fiduciários, dos riscos financeiros e dos direitos humanos". Ou seja, a base legal é ampla e multidisciplinar. A questão dos direitos humanos ocupa um espaço importante porque a ONU reconheceu há poucos meses que o meio ambiente limpo, saudável e sustentável é um direito humano fundamental.

Mas é mais fácil um trabalhador processar uma empresa pela simples falta de pagamento de horas extraordinárias do que uma associação processar uma corporação por contribuir para o aquecimento global e operar a crédito no planeta, afetando milhares. A associação espera "resistência dos tribunais" dada a "propensão algo conservadora das decisões jurisdicionais", acrescida pela "falta de preparação da magistratura portuguesa para lidar com quesitos ambientais e climáticos," afirmam Mariana Gomes (presidente), Beatriz Cunha (vice-presidente) e Pedro Marques (tesoureiro), por email.

Tanto no Brasil paulista quanto no Portugal lisboeta, o mundo corporativo opera em espaços de confiança e camaradagem. Os jovens advogados portugueses alertam para o fato de que muitas das empresas carbónicas "estão profundamente inseridas no status quo, cuja sustentabilidade é reconhecida por estruturas e organizações também integradas nesse status quo." Para superar a crise climática é, por isso, necessário "deixar para trás o business as usual."

Jovens portugueses têm pedigree nesta área. Em 2020, quatro crianças e dois adolescentes, com idades entre os 8 e os 21 anos, foram os autores de uma ação que deu entrada no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, contra 33 Estados, incluindo o português, pela falta de ações concretas para reduzirem as emissões de gases com efeitos de estufa.

O ordenamento jurídico brasileiro, à semelhança do europeu, também permite a litigância climática.

A Lei da Política Nacional da Mudança do Clima (lei 12.187/09); o Acordo de Paris, ratificado pelo Brasil em setembro de 2016; o entendimento do STF sobre o alcance jurídico do artigo 225 da Constituição Federal de 1988, que determina que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, cabendo à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações; o Código Florestal Brasileiro; e uma constelação de regras associadas ao Direito Ambiental, ao Direito do Consumidor e à Responsabilidade Civil instigam as empresas e o poder público a cumprirem objetivos de mitigação ou adaptação climática.

Apesar do papel indutor de organizações internacionais como a ClientEarth ou a Global Action Network (Glan), levar a emergência climática para dentro dos tribunais acarreta custos difíceis de suportar por jovens juristas ativistas. A própria Último Recurso não tem financiamento externo e irá contatar "fundações, organizações e doadores privados" para angariar recursos.

Mas que doadores privados? Se a maior parte dos filantropos brasileiros ou portugueses são empresários, não há o risco de haver conflitos de interesse? Não poderá um empresário, pelo charme da filantropia, ser tentado a financiar ações contra a concorrência? E poderão recursos públicos da União Europeia, o maior financiador da agenda climática do mundo, ser disponibilizados para a sociedade civil processar governos, incluindo os próprios membros da UE?

O caminho será árduo, mas é imparável. Se nos últimos anos o STF tem sido exortado a interferir no poder executivo para evitar calamidades políticas, também serão os tribunais a estimularem os executivos de empresas a cumprirem regras para evitarmos catástrofes ambientais.

Rodrigo Tavares
Fundador e presidente do Granito Group; professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

sábado, janeiro 22, 2022

A última dança - GUSTAVO POLI

O GLOBO - 22/01

Desde 2019, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol são sinônimo do melhor futebol praticado no país


Arrascaeta, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol Foto: Alexandre Vidal / Flamengo


O fantástico “Get Back”, documentário de Peter Jackson sobre os Beatles, termina com o famoso show do quarteto no terraço da gravadora Apple. No asfalto da Londres de 1969, pedestres e transeuntes olham pra cima em busca de um rock and roll que não sabem de onde vem. Ninguém sabe direito o que está acontecendo. O que acontecia era apenas a última apresentação dos Fab Four de Liverpool. John, Paul, George e Ringo jamais tocariam juntos ao vivo de novo.

A apreciação do momento histórico é um prazer de difícil fruição. Raramente temos a percepção de viver o instante espetacular. Em geral, só percebemos ter vivido algo atemporal anos depois. Faço esse preâmbulo todo porque — com o perdão da heresia — me lembrei de um quarteto que corre o risco de fazer sua última turnê em 2022.

Desde 2019, quando Jorge Jesus ajeitou a partitura, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol são sinônimo do melhor futebol praticado no país. Tudo bem que 2021 terminou mal. Problemas físicos, convocações e desacertos levaram o Flamengo a perder Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. E hoje já há quem diga que Paulo Sousa, o novo treinador luso, curte Pedro e pode querer encaixá-lo no onze titular.

Será? É possível — Pedro é ótimo jogador. E, se for assim, talvez a era já tenha terminado. E daqui a 20, 30 anos... streamers farão reacts, vídeos ou hologramas sólidos no metaverso para lembrar dos quatro do Urubu. Faz parte — bandas se separam, o futebol é dinâmico. Mas a torcida aqui é para que Giorgian, Gabriel, Bruno e Everton tenham uma última dança. Afinal, o que eles fizeram nos últimos três anos, especialmente em 2019 e 2020, merece toda sorte de aplauso.

Foi com eles, e por causa deles, que Jesus conseguiu encaixar a pressão ofensiva pós-perda que revolucionou o ludopédio tupi. Foi com eles, e por causa deles, que o Flamengo se transformou no melhor time da década brasileira. Arrascaeta é um gênio de pequenos espaços, que prestidigita mais do que joga. Everton é um cruzamento de formiga com cigarra, um operário criativo. Bruno Henrique, um furacão de intuição impressionante. Gabigol, artilheiro frio e ao mesmo tempo passional, une carisma a uma rara percepção de jogo (repare o leitor como ele raramente fica impedido). Individualmente são ótimos — mas juntos entram no proverbial outro patamar do filósofo BH.

Os Beatles continuaram produzindo beleza quando separados, mas não chegaram perto do que fizeram em grupo. O mesmo vale para os quatro rubro-negros que, em vidas separadas, chegaram a brilhar entre Cruzeiro e Santos, mas nada parecido com os discos de ouro que ganharam no Flamengo: três estaduais, dois brasileiros, uma Recopa, uma Supercopa e uma Libertadores.

Toda analogia que envolva o quarteto de Liverpool carrega um misto de heresia com hipérbole. Claro, a genialidade no campo de futebol é de outra natureza — e se fossemos pensar em hierarquia os Beatles só seriam comparáveis a algo como a Laranja de Cruyff ou à Seleção de 70. Mas não importa se Arrasca, Gabigol, BH e Everton são Beatles, Paralamas, Oasis ou Nação Zumbi. Importa a chance de apreciar talento histórico em tempo real.

Até porque um dia, adaptando as palavras de um certo beatle, o sonho vai acabar.

domingo, dezembro 12, 2021

As contradições e as lacunas de Moro - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 12/12

A senadora Simone Tebet, pré-candidata do MDB à Presidência, disse que o investidor não precisa ter dúvidas sobre o posicionamento dela na economia e acrescentou: “Minha história fala por mim”. Esse é o problema com o candidato Sergio Moro, do Podemos, ele não tem história em alguns temas decisivos do país. Em outros, acumula controvérsias. No mercado financeiro já se ouve o farfalhar dos apoios incondicionais à pessoa sem conteúdo definido, como houve em 2018. O autoengano recomeçou.

O problema em torno de Sergio Moro é o quase nada que se sabe sobre suas ideias em várias áreas. Nos 16 meses que ficou no Ministério da Justiça, Moro barrou demarcações de terras indígenas, mandou o fracassado pacote anticrime para o Congresso, embutindo nele o excludente de ilicitude, apoiou indiretamente um motim de policiais no Ceará e abonou os sinais de desvios éticos no governo Bolsonaro, quando começaram a surgir.

Para contextualizar os ditos no parágrafo anterior. Havia 17 processos de demarcação de terras indígenas prontos para serem assinados pelo ministro da Justiça. Moro devolveu tudo para a Funai e nunca demonstrou ter qualquer interesse pelo tema indígena. O apoio ao excludente de ilicitude é agressão ao Direito. Ninguém que aposte no devido processo legal pode achar natural essa licença para matar que é bandeira de Jair Bolsonaro.

Na questão da corrupção, que o levou a ser conhecido no país, Moro disse que tinha “confiança pessoal” em Onyx Lorenzoni, quando se descobriu o caixa dois do então coordenador da transição do governo Bolsonaro. Em 9 de janeiro de 2019, diante do relatório do Coaf mostrando as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ele disse que o presidente já havia esclarecido o caso do ex-assessor do filho. Até hoje o caso permanece não esclarecido.

Houve um evento assustador na sua gestão no Ministério. Greve de policial é proibida, porque é motim de pessoas armadas. E que foram armadas pela sociedade com o fim exclusivo de protegê-la. Policiais militares se amotinaram no Ceará, desafiando o governador Camilo Santana e levando medo à população. Moro enviou o coronel Aginaldo Oliveira para resolver o conflito. Lá, o coronel definiu os amotinados como corajosos e gigantes. “É muita coragem fazer o que vocês estão fazendo. Os covardes nunca tentam, os fracos ficam pelo meio do caminho.” Imagine o perigo se todas as PMs do Brasil seguissem a orientação do enviado do Ministério da Justiça ao Ceará. Moro foi padrinho do casamento de Aginaldo com a deputada Carla Zambelli e nunca o repreendeu por essa atitude temerária.

Esses são os fatos. Moro não pode ser idealizado. Ele precisa, na campanha, definir suas ideias e propostas. Ter escolhido como conselheiro um bom economista como Affonso Celso Pastore é bom, mas está longe de ser suficiente. Ele, em muitas áreas, é uma página em branco e precisa preenchê-la. Para o bem ou para o mal, os outros candidatos são pessoas com ideias conhecidas.

O ex-presidente Lula está na vida política do país há mais 40 anos e governou o Brasil por dois mandatos. Bolsonaro teve longa vida parlamentar, na qual defendeu atentados à liberdade e aos direitos humanos. Esse tétrico prontuário foi desconsiderado por muitas cabeças pensantes do país. Deu no que deu. O governador João Dória tem um histórico que não é longo, mas testado na administração da maior cidade e do maior estado do país. Ciro Gomes foi prefeito, governador e ministro. A senadora Simone Tebet foi deputada estadual, prefeita, vice-governadora e, no Senado, presidiu a Comissão de Constituição e Justiça. Todos podem dizer “minha história fala por mim”. Moro teve curta experiência administrativa e deixou lacunas e contradições.

Há muitos temas que precisarão de respostas em 2022 e não apenas a economia. O ataque de Bolsonaro à democracia exige uma defesa intransigente do pacto democrático de 1988. As ofensas aos negros, as ameaças aos indígenas, o desprezo às mulheres, o preconceito contra a comunidade LGBTQ no governo Bolsonaro aumentaram a urgência da questão da diversidade. É mais do que um debate sobre minorias, é trincheira de defesa da civilização. Os atentados à Amazônia tornaram emergencial um amplo plano de proteção do meio ambiente. A ambiguidade não será aceitável em 2022. O país vive momento dramático e decisivo.

segunda-feira, novembro 22, 2021

Alexa sabe o nome dos seus filhos e com quem você se encontrou: veja os detalhes íntimos que a Amazon coleta com assistente de voz

O Globo - 21/11/2021 





TECNOLOGIA
Alexa sabe o nome dos seus filhos e com quem você se encontrou: veja os detalhes íntimos que a Amazon coleta com assistente de voz


Empresa diz que acesso a informações permite melhorar serviços e personalizá-los. Política de privacidade tem 3.500 palavras com links para mais de 20 páginas
O Globo - 21/11/2021 


RIO - Como legislador da Virgínia, Ibraheem Samirah estudou questões de privacidade na Internet e debateu como regulamentar a coleta de dados pessoais das empresas de tecnologia. Ainda assim, ele ficou surpreso ao saber todos os detalhes das informações que a Amazon coletou sobre ele.

A gigante do comércio eletrônico tinha mais de mil contatos de seu telefone. Ele tinha registros de exatamente qual parte do Alcorão Samirah, que é muçulmano, havia ouvido em 17 de dezembro do ano passado.

A empresa conhecia todas as pesquisas que ele havia feito em sua plataforma, incluindo uma para livros sobre “organização comunitária progressiva” e outras pesquisas delicadas relacionadas à saúde que ele pensava serem privadas.

“Eles estão vendendo produtos ou espionando pessoas comuns?” perguntou Samirah, um membro democrata da Câmara de Delegados da Virgínia.

Samirah estava entre os poucos legisladores da Virgínia que se opuseram a um projeto de lei estadual de privacidade elaborado pela Amazon e favorável à indústria, aprovado no início deste ano.

A pedido da Reuters, Samirah pediu à Amazon para divulgar os dados que coletou sobre ele como consumidor.

A Amazon coleta dados sobre os consumidores por meio de sua assistente de voz Alexa, as compras em seu marketplace, os leitores eletrônicos Kindle, além da plataforma de música.

Acesso a dados sob demanda

Assim, a empresa reúne uma vasta gama de informações sobre seus clientes nos Estados Unidos e começou a disponibilizar esses dados para todos mediante solicitação no início do ano passado, depois de tentar e não conseguir derrotar uma medida de 2018 da Califórnia que exigia tais divulgações.

Sete repórteres da Reuters também obtiveram seus arquivos da Amazon. Os dados revelam a capacidade da empresa de reunir retratos incrivelmente íntimos de consumidores individuais.

Essas informações podem revelar a altura, o peso, a saúde, a etnia, tendências políticas e os seus hábitos de leitura e compra de uma pessoa. É possível saber também o paradeiro em um determinado dia e, às vezes, quem eles encontraram.

O dossiê de um repórter revelou que a Amazon coletou mais de 90 mil gravações Alexa de familiares entre dezembro de 2017 e junho de 2021 - uma média de cerca de 70 por dia. As gravações incluíam detalhes como os nomes dos filhos e suas músicas favoritas.

A Amazon capturou as crianças perguntando como elas poderiam convencer seus pais a deixá-las “brincar” e recebendo instruções detalhadas da Alexa sobre como convencer seus pais a comprar videogames.


Conversas de família

Algumas gravações envolveram conversas entre membros da família usando dispositivos Alexa para se comunicar em diferentes partes da casa. Várias gravações capturaram crianças de sete a 12 anos fazendo perguntas a Alexa sobre termos como "pansexual".

O repórter não percebeu que a Amazon estava armazenando as gravações antes de divulgar os dados que rastreava sobre a família.

A Amazon diz que seus produtos são projetados para registrar o mínimo possível, começando apenas quando a palavra "Alexa" é acionada, parando quando termina o comando do usuário. As gravações da família do repórter, no entanto, às vezes capturavam conversas mais longas.Alto-falante Echo, da Amazon, com a assistente virtual Alexa Foto: Daniel Berman / Bloomberg

Em um comunicado, a Amazon disse que tem cientistas e engenheiros trabalhando para melhorar a tecnologia e evitar a gravação antes do comando "Alexa". A empresa disse que alerta os clientes de que as gravações são armazenadas quando eles configuram seus aparelhos.


Mudança em configurações

A Amazon disse que coleta dados pessoais para melhorar produtos e serviços e personalizá-los para indivíduos. Questionada sobre os registros de Samirah ouvindo o Alcorão no serviço de audiolivros da Amazon, a empresa disse que tais dados permitem que os clientes continuem de onde pararam em uma sessão anterior.

A única maneira de os clientes excluírem muitos desses dados pessoais é encerrar suas contas, disse a Amazon.

A Amazon disse que permite que os clientes ajustem suas configurações em assistentes de voz e outros serviços para limitar a quantidade de dados coletados. Os usuários do Alexa, por exemplo, podem impedir que a Amazon salve suas gravações ou excluí-las automaticamente de forma periódica.

Um cliente pode optar por não ter suas gravações deve navegar por uma série de menus. Mas recebe os seguintes avisos: “Se você desligar isso, o reconhecimento de voz e os novos recursos podem não funcionar bem para você”.

Encontrar informações sobre como ouviu o Alcorão em seu arquivo na Amazon fez Samirah pensar sobre a história da polícia e agências de inteligência dos EUA que vigiam muçulmanos por suspeitas de ligações terroristas após os ataques de 11 de setembro de 2001.


Falta de transparência

“Por que eles precisam saber disso?” ele perguntou. O mandato de Samirah termina em janeiro, depois que ele perdeu uma candidatura à reeleição no início deste ano.

Às vezes, as agências de aplicação da lei buscam dados sobre clientes de empresas de tecnologia. A Amazon divulga que cumpre os mandados de busca e outras ordens judiciais legais que buscam dados que a empresa mantém em uma conta.

Os dados da Amazon para os três anos encerrados em junho de 2020, os mais recentes disponíveis, mostram que a empresa cumpriu pelo menos parcialmente com 75% das intimações, mandados de busca e outras ordens judiciais que buscam dados sobre clientes dos EUA. A empresa atendeu plenamente 38% dessas solicitações.

A política de privacidade da Amazon tem 3.500 palavras com links para mais de 20 outras páginas relacionadas à privacidade e configurações do usuário.

Florian Schaub, pesquisador de privacidade da Universidade de Michigan, disse que as empresas nem sempre são transparentes sobre o que estão fazendo com os dados dos usuários.

- Temos que confiar que a Amazon fará a coisa certa. Em vez de ter certeza de que os dados não podem ser mal utilizados.

domingo, setembro 05, 2021

Carta ao Leitor: Presidente de oposição - REVISTA VEJA



Turbulência provocada por Bolsonaro tem solapado a economia do país, em um processo de autossabotagem jamais visto em um ocupante do Palácio do Planalto


Quadragésimo primeiro presidente dos Estados Unidos e sucessor de Ronald Reagan, George H.W. Bush (1924-2018) teve um mandato atípico. Depois de bater em 80% de popularidade ao deflagrar a Guerra do Golfo, em 1991, ele viu sua aceitação entre o eleitorado despencar no ano seguinte, o que o levou a perder uma reeleição que muitos analistas já consideravam ganha. O motivo para a insatisfação foi uma abrupta crise econômica, que lançou o país em uma recessão. Para vencer Bush, o rival democrata Bill Clinton fustigou-o com críticas ao déficit fiscal e ao aumento nos impostos, seguindo à risca a orientação de James Carville, seu estrategista de campanha. É de Carville a frase que define esse contexto e que entrou para a história da política: “It’s the economy, stupid!” (É a economia, estúpido!).

Passados quase trinta anos, o presidente Jair Bolsonaro talvez não conheça a máxima de Carville — ou simplesmente acredite estar imune ao fenômeno que representa. Se fosse mais atento, perceberia que perigosas nuvens se alinham no horizonte a cada ataque que faz à estabilidade democrática do país, aos demais poderes constituídos e à ordem institucional. Sob o júbilo da horda de ultrarradicais que o seguem e idolatram, a turma que vai sair às ruas no próximo 7 de setembro, a crescente turbulência provocada pelo presidente tem solapado a economia do país, em um surpreendente processo de autossabotagem jamais visto em um ocupante do Palácio do Planalto. É como se tivéssemos um presidente de oposição — uma inovação esdrúxula, ridícula e altamente prejudicial ao Brasil.

Pouco afeito às questões técnicas de gestão pública ou aos fundamentos econômicos, Bolsonaro, ao subir continua­mente o tom de seus arroubos autoritários, está pulverizando a confiança dos investidores potenciais no país — e, consequentemente, piorando a vida da população brasileira. Reportagem na edição da semana mostra como e por que, impulsionados pelo destempero da autoridade máxima da nação, o dólar se mantém em patamares muito mais elevados que o esperado e o investimento estrangeiro despencou a um volume que equivale a menos de um quarto do registrado em janeiro. Em resumo: o Brasil, que poderia estar se aproveitando da alta liquidez internacional e do novo ciclo de commodities, na verdade se vê acuado diante do fantasma da inflação, dos preços astronômicos dos combustíveis e da ameaça de uma grave crise energética.

Ao promover o caos, Bolsonaro trai a maioria daqueles que cravaram 17 no último pleito presidencial. Os eleitores o elegeram para governar o país e implantar um sistema econômico liberal. Empossado, porém, ele prefere promover uma contínua confusão, sem pesar as consequências de seus atos. Na realidade paralela em que habita, as adversidades são sempre parte de um complô armado por adversários e inimigos imaginários. Em seus devaneios, acredita que passeios de moto e manifestações, associados a um pacote de obras eleitoreiras, impulsionarão sua popularidade (obviamente, em queda vertiginosa no momento). Iludido, não percebe que tais medidas podem até lhe trazer fotos e votos, mas dificilmente conseguirão impulsionar a recuperação econômica de que o país tanto precisa e que poderia representar a sua própria reeleição. Amante de armas, Bolsonaro está dando um verdadeiro tiro no pé.

quinta-feira, setembro 02, 2021

O 7 de Setembro e o burro - WILLIAM WAACK

ESTADÃO - 02/09

Elites dirigentes da economia discutem como se livrar de Bolsonaro


Diante dos olhos das principais elites da economia brasileira Jair Bolsonaro repete uma conhecida trajetória. De mal menor, está virando aos olhos dessas elites o pior dos males. O mesmo aconteceu com Fernando Collor e Dilma Rousseff.

Há importantes diferenças no comportamento dessas elites que, em parte, espelham a perda de coesão institucional e o esgarçamento do tecido social brasileiro, além da forte regionalização da nossa política. Refletem também a alteração dos “pesos relativos” no PIB e na política entre indústria, agroindústria, setor financeiro e varejo. E diferentes mentalidades, que impedem o surgimento de lideranças e ações comuns. Ninguém mais fala pelo “todo” das elites econômicas.

Quando se examina as posturas políticas desses grupos de dirigentes essas diferenças separam a grosso modo os segmentos que são mais “abertos” daqueles “mais fechados” em relação ao mundo lá fora. Os mais dependentes ou integrados nas grandes cadeias produtivas globais, de capital intensivo, orientados para inovação tecnológica e atrelados ao comércio exterior e aos grandes fluxos de investimento foram, por exemplo, os que abateram os ministros bolsonaristas das Relações Exteriores e Meio Ambiente.

É importante notar que nesses grupos a oposição ao governo não se deu simplesmente por ser considerado “ruim para os negócios” (caso claro do moderno setor do agro). A forte rejeição a Jair Bolsonaro facilmente detectável nesses segmentos vem de uma visão de mundo – portanto, ideológica – para a qual o presidente simboliza o contrário dos princípios fundamentais de uma sociedade aberta, tolerante e liberal no sentido europeu da palavra. Foi nessas áreas que mais rápido Bolsonaro trafegou da condição de personagem político “tolerável” à de “insuportável”.

Ele foi salvo até aqui de um destino parecido ao de seus ministros defenestrados por uma característica comum ao empresariado (desculpem a generalização, sempre perigosa): o profundo temor de se meter em política. Quando isso acontece (meter-se em política) a causa costuma ser a defesa dos próprios interesses setoriais e negócios, e só em casos excepcionais é o resultado de uma ação coletiva em torno de princípios gerais ou projetos nacionais. “Política” é vista, não sem motivos, como coisa suja por definição.

O perigo para Bolsonaro é quando a excepcionalidade da ação por motivação “ideológica” se junta à noção no empresariado de que está tudo muito ruim para os negócios, as perspectivas não parecem que vão melhorar, os problemas aumentam, diminuem esperanças de dias melhores a curto prazo, vão subir inflação, juros e os impostos, fora os custos e as despesas. E a imprevisibilidade do triste ambiente de insegurança jurídica se agrava com pandemia, crise hídrica e, para culminar, instabilidade política trazida pela incessante crise institucional.

O “tipping point” (ou palha que quebra o lombo do burro) é o momento em que o receio da severa turbulência causada por um processo de impeachment é menor do que a certeza de que com Bolsonaro vai tudo só ficar pior, e que não dá para aguentar até as distantes eleições do ano que vem, pois a velocidade e profundidade da crise encurtaram drasticamente os horizontes de tempo. É o momento no qual a crise brasileira se encontra.

As forças do centrão já dão demonstrações de que consideram Bolsonaro intragável, prejudicial aos próprios interesses (políticos e econômicos) o que não significa abraçar-se ao “outro lado”, ou seja, Lula. É um volátil processo político no qual os caciques do centrão confabulam com setores dirigentes da economia e vice-versa. Não surgiu ainda dessas conversas, que estão se intensificando, se o melhor caminho para sanar a maluquice que emana do Planalto é acelerar um impeachment ou articular uma terceira via – à qual a turma do dinheiro está, sim, se dedicando.

Com o 7 de setembro Bolsonaro está se esforçando para ver quanto o burro aguenta.

JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN

sexta-feira, agosto 27, 2021

A reação dos adultos - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 27/08

As palavras do comandante do Exército soam como a antítese do governo de Jair Bolsonaro. O alerta brota espontâneo. O País precisa urgentemente dos adultos


Jair Bolsonaro continua tratando irresponsavelmente o País. Num cenário de indicadores sociais e econômicos difíceis, o presidente da República reforça tensões, cria atritos e ameaça outros Poderes. Nota-se a sanha, completamente irrazoável, de inviabilizar qualquer possibilidade de tranquilidade e estabilidade.

O quadro é desafiador. Deve-se reconhecer, no entanto, a atuação responsável de autoridades civis e militares, em contraste com o bolsonarismo. O comportamento de Bolsonaro continua sendo grave, mas essa reação madura – recordando limites e preservando o funcionamento das instituições – evita muitos danos. Apesar do bolsonarismo, há adultos na sala.

Na quarta-feira passada, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, rejeitou o pedido de Jair Bolsonaro para abrir processo de impeachment contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. “Como presidente do Senado, determinei a rejeição da denúncia por falta de justa causa e por falta de tipicidade”, disse Rodrigo Pacheco.

A rápida resposta do presidente do Senado deu a exata dimensão da peça acusatória. Sem nenhum fundamento jurídico, o pedido de impeachment era tão somente expressão da birra do presidente Jair Bolsonaro contra decisões judiciais que desagradaram ao Palácio do Planalto.

“Quero crer que essa decisão (de rejeitar o pedido) possa constituir um marco de restabelecimento das relações entre os Poderes, pacificação e união nacional”, afirmou o presidente do Senado. No entanto, já no dia seguinte, Jair Bolsonaro mostrou que não se deve nutrir a expectativa de mudança de seu comportamento.

Criticou o presidente do Senado e reclamou que o pedido de impeachment não tenha sido recebido como uma ordem judicial. “Quando chegou uma ordem do ministro Barroso para abrir a CPI da Covid, ele (Rodrigo Pacheco) mandou abrir, e ponto final. Ele agiu de maneira diferente de como agiu no passado”, disse Bolsonaro à Rádio Jornal Pernambuco, em entrevista na qual também criticou o ministro Alexandre de Moraes.

Também na quarta-feira passada, o ministro Edson Fachin arquivou quatro ações propostas por Jair Bolsonaro e pelo Diretório Nacional do PTB, questionando o artigo do Regimento Interno do STF que autoriza o tribunal a abrir, em determinados casos, investigações próprias. Foi com base nesse dispositivo que o Supremo abriu o inquérito relativo às fake news e ameaças contra a Corte e seus ministros.

Na decisão, Edson Fachin lembrou que o plenário do STF já se manifestou no ano passado pela validade do dispositivo, precisamente ao analisar a instauração do inquérito das fake news. É constrangedor constatar como o Palácio do Planalto, em vez de colaborar com as investigações do Supremo sobre indícios e suspeitas de crimes, limita-se a questionar, sem nenhuma base jurídica, a existência dos inquéritos.

O bolsonarismo imita, assim, a tática do lulopetismo. Não dá explicação sobre as condutas suspeitas de crimes. A resposta à Justiça e à população é apenas uma, por sinal muito pouco convincente: Jair Bolsonaro e Lula da Silva seriam vítimas de perseguição do Judiciário. Agiu bem, portanto, o ministro Edson Fachin ao arquivar tais manobras judiciais.

Outro exemplo de maturidade e responsabilidade pôde ser visto na cerimônia de homenagem ao Dia do Soldado. Num momento em que o bolsonarismo se vale do bom nome das Forças Armadas para instigar confusão e convocar apoiadores para invadir o Supremo e o Congresso no 7 de Setembro, o comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, deu um recado cristalino, assegurando que as Forças Armadas estão “sempre prontas a cumprir a missão delegada pelos brasileiros na Carta Magna”. Não há margem para golpe.

O comandante do Exército reafirmou ainda o compromisso das Forças Armadas com os “anseios de tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento”. Próprias da maturidade, essas três palavras soam como a antítese do governo de Jair Bolsonaro. O alerta brota, então, espontâneo. O País precisa urgentemente dos adultos.

quinta-feira, agosto 26, 2021

Paulo Guedes entra em choque com planos de Bolsonaro ao desdenhar de inflação - BRUNO BOGHOSSIAN

FOLHA DE SP 26/08

Ministro fala dos custos de vida da população como se fossem detalhes desprezíveis



Paulo Guedes tem um plano para enfrentar as incertezas que levantaram a ameaça de um apagão e fizeram disparar a conta de luz. As tarifas já pressionam o orçamento da população mais pobre, mas o ministro avisou que o preço vai subir ainda mais. "Temos de enfrentar a crise de frente", resumiu. "Não adianta ficar sentado chorando."

O chefe da equipe econômica fala dos custos de vida da população como se fossem detalhes desprezíveis. Guedes já afirmou que a alta do preço do arroz era só um efeito da melhora na vida dos brasileiros de baixa renda. Na semana passada, ele disse que uma inflação de 8% neste ano não seria nenhum descontrole e que o país estava "dentro do jogo".

A demofobia do ministro é um elemento tradicional da política econômica do governo Jair Bolsonaro. Guedes fez pouco caso de empregadas domésticas que aproveitaram o dólar baixo para viajar ao exterior e dos porteiros que mandaram filhos para a universidade com financiamento público. Agora, ele diz que é preciso engolir o choro e pagar as contas.

No meio da semana, Guedes afirmou que não era preciso ter medo de encarar a crise. "Qual é o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara?", indagou, insinuando que o cenário era inflado por uma antecipação do ambiente eleitoral. Ele poderia refazer a pergunta às famílias pobres que já enfrentam uma inflação acumulada de mais de 10%, puxada pelo custo da energia.

O desdém do ministro entra em choque com as aflições políticas de Bolsonaro. O presidente já identificou a inflação como um dos maiores riscos à sua campanha pela reeleição. Guedes pode fingir que o problema não existe, mas a bomba vai explodir no colo de seu chefe.

O ministro deve mesmo achar que a inflação de 8% não é o fim do mundo e que o aumento da conta de luz é razoável, mas ignorar essas pressões atrapalha os planos eleitorais de Bolsonaro. Se o presidente realizar o sonho de dar um golpe para continuar no poder, Guedes não precisará mais se preocupar com o povo.


O Sete de Setembro de Bolsonaro - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 26/08

Um apanhado parcial do que ele terá a comemorar, capaz de lhe render 300 anos de cadeia


O Brasil de Jair Bolsonaro terá muito a comemorar a sete de setembro: pobreza, corrupção, violência, crime organizado, tráfico de drogas, racismo, homofobia, feminicídios, massacres de indígenas, ocupação de terras demarcadas, desmatamento, queimadas, destruição da natureza, desprezo pelo patrimônio histórico, políticos repulsivos, pastores evangélicos idem e uma certeza geral de impunidade. Sim, são males seculares, endógenos, do Brasil. Apenas, ultimamente, pioraram muito.

Mas há outros intransferíveis, exclusivos do governo Bolsonaro: negacionismo, 600 mil mortes pela pandemia, absoluta falta de compaixão, estímulo ao contágio, sabotagem das medidas de prevenção, venda criminosa de remédios inócuos, falta de programa para o controle da doença e, ao contrário, campanha nacional contra a vacina e a máscara —seguida da descoberta de que a compra de vacinas poderia, quem diria, enriquecer aliados, empresários, políticos, atravessadores e coronéis. Isso só no quesito saúde.

Bolsonaro nos brindou com ainda mais contribuições: prostituição das Forças Armadas, anarquia da PM, aparelhamento da Justiça, desconfiança no processo eleitoral, afrontas ao STF, indústria de fake news com dinheiro público, milícias digitais, súbito prestígio de boçais profissionais (à paisana ou fardados, com ou sem chapéu de caubói), dissolução da cultura, estrangulamento da educação (com a grave possibilidade do fechamento de colégios e universidades), aviltamento do Itamaraty e desmoralização internacional do Brasil.

Em consequência do abandono completo da administração, temos colapso de investimentos, alta do dólar, inflação sem controle, disparada dos juros, crise hídrica como se não existisse e benesses bilionárias ao centrão. Isso é que é trair seus eleitores, não?

Claro que, para se safar de, com sorte, 300 anos de cadeia, só resta a Bolsonaro —e a seus filhos calculistas e perigosos— o golpe.

Crise se agrava no setor elétrico - MÍRIAM LEITÃO

O Globo - 26/08


A crise no setor de energia se agravou nos últimos dois meses, mas os especialistas já haviam alertado que isso iria acontecer. Ontem o governo convocou a imprensa para anunciar que haverá três programas para redução de consumo. Um para as grandes empresas, um para os consumidores residenciais e outro para os órgãos federais. A coletiva foi marcada pelo improviso e pela falta de informações sobre o funcionamento e os custos dessas medidas. O ministro Bento Albuquerque continua errando na comunicação, ao afirmar que não trabalha com a hipótese de racionamento. Na prática, isso já começa a acontecer para os órgãos federais. O governo está atrasado porque é negacionista também nesse assunto e tem medo da queda da popularidade do presidente Bolsonaro.

Os programas de redução de consumo só foram apresentados agora, no oitavo mês do ano. As empresas dizem que levará tempo até que haja confiança para uma adesão expressiva. Os órgãos federais que descumprirem as metas não serão punidos. E o consumidor residencial não sabe quem pagará pelo seu bônus. O risco é que seja ele mesmo, com aumento de bandeira tarifária. Ganha-se um desconto de um lado, paga-se mais via encargos de outro. Os especialistas são unânimes em afirmar que não há uma campanha de comunicação que mostre a gravidade desta crise elétrica.

O nível de água dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste está em 22,7%, o menor patamar para agosto dos últimos 20 anos, superando inclusive 2001. Essas duas regiões representam 70% da capacidade de armazenagem do sistema. A situação é crítica. Circula a informação no setor de que o presidente Bolsonaro vetou um pronunciamento que seria feito pelo ministro Albuquerque em rede nacional na última segunda-feira. Bolsonaro não quer notícia ruim às vésperas das manifestações do 7 de Setembro. Trocou-se isso por uma coletiva transmitida pelo canal oficial do ministério nas redes sociais.

As grandes indústrias dizem que é cedo para avaliar a eficácia do programa de racionamento voluntário. O consumidor cativo pagará os custos da medida sob a forma de Encargo de Serviços do Sistema. Esse é o mesmo encargo que contabiliza os gastos com as termelétricas, que continuarão operando em carga máxima. Ou seja, um custo irá se somar ao outro. As indústrias temem que o voluntário vire compulsório.

— Como o governo é pouco confiável, se você entrar nisso ele pode te obrigar depois. É o risco de o governo forçar a mão caso a situação se agrave. Ainda não houve uma postura de real conversa com a sociedade, com abertura dos dados para todos os agentes sobre esta crise. Como confiar? — diz o representante de um setor industrial.

O ex-diretor-geral da ANP David Zylbersztajn, especialista em setor elétrico, afirma que o risco de faltar energia em horários de pico no final do ano tem aumentado. No passado, houve governantes que contaram com a sorte e a chuva os salvou, mas não se deve apostar nisso.

— Bolsonaro precisa entender que há um risco de 30% de faltar energia. É um percentual muito alto. Ele está apostando nos 70%. O Lula fez isso em 2008 e deu certo. A Dilma fez isso em 2014 e empurrou a crise para 2015. Mas é papel do governo pensar no pior cenário. Se ele acontecer, será dramático para a economia — afirmou.

O consultor Luiz Augusto Barroso, da PSR, diz que o cenário piorou muito em relação às suas análises anteriores e as previsões de chuvas para o mês de setembro não estão boas. Com o baixo nível de água, o sistema elétrico já está operando no limite, o que aumenta o risco de falhas nos sistemas de geração e transmissão. Ele acha que algumas medidas do governo têm dado certo, como a flexibilização dos limites de armazenamento e vazão de água das hidrelétricas e o aumento de importação de energia de países vizinhos. Sobre o programa de redução de consumo das residências, diz que é fundamental, mas ainda faltam detalhes.

— Disseram que o dinheiro não virá do Tesouro, mas da tarifa. Ainda está pouco claro sobre como isso vai funcionar — afirmou.

Itaipu está hoje gerando 39% da sua capacidade. Se não fosse a energia dos ventos e do sol, que não havia na crise de 2001, o Brasil já poderia estar em colapso. A eólica em agosto gerou 166% mais energia do que Itaipu no Brasil, e o sol chegou a 10 GW de potência instalada.

A crise hídrica impacta a economia dramaticamente e já está afetando as famílias pela inflação da energia. O governo ao atuar do lado da oferta — e só agora ter medidas para conter a demanda — está contratando aumentos futuros e elevando os riscos do país.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

Ninguém teme Bolsonaro - WILLIAM WAACK

ESTADÃO 26/08

O medo é da tragédia que o presidente parece empenhado em provocar


De tanto se atormentar com fantasmas, Jair Bolsonaro está conseguindo que eles se tornem realidade. Cristaliza-se em círculos do Judiciário, Congresso e também entre oficiais-generais a ideia de que o arruaceiro institucional precisaria no mínimo ser declarado inelegível. E o caminho seria através dos tribunais superiores.

Esse perigo (não poder disputar as eleições) para Bolsonaro é real, mas não imediato. A “conspiração” não passa, por enquanto, de um desejo amplamente compartilhado nas instâncias mencionadas acima. Generalizou-se nesses círculos de elite política, judicial e militar a convicção de que Bolsonaro provocou um impasse institucional para o qual não há saída aparente, e ele nem parece interessado em buscá-la.

A “conspiração” carece, contudo, de coordenação central e efetiva articulação. Setores do Congresso, do STF e das Forças Armadas estão conversando informalmente, e já se falou no Alto Comando do Exército em atribuir ao comandante dessa arma a missão de “pôr uma coleira” em Bolsonaro. Dois personagens políticos de peso nessa paisagem – os caciques do Centrão Arthur Lira e Ciro Nogueira – têm dito a jornalistas que desistiram disso.

Quem conversa quase que diariamente com o presidente o descreve como possuído de um quadro mental para lá de preocupante. Bolsonaro está totalmente convencido de que a “conspiração” contra seu mandato começou já no primeiro dia do governo, e é conduzida por uma difusa e ao mesmo tempo bem entrincheirada coligação de corruptos no Congresso, corporativistas na administração pública, empresários que perderam dinheiro, esquerdistas treinados em Cuba, governadores gananciosos e todos unidos em torno de alguns ministros do STF.

Dois aspectos tornam o absurdistão que é a cabeça de Bolsonaro num problema real, pois ele age a partir dessa percepção de mundo. O primeiro é a “legitimação jurídica” que ele julga ter encontrado para ir ao que chama de contragolpe contra os usurpadores do poder do presidente. A interpretação que adotou do artigo 142 da Constituição é espúria, mas lhe confere um ar de certeza no campo do Direito para, eventualmente, chamar forças militares a intervir – no mínimo para garantir lei e ordem num cenário conturbado que Bolsonaro se empenha em piorar.

O segundo aspecto que faz do desequilíbrio presidencial um perigo real é a crença de que disporia de instrumentos de poder tais como irresistível quantidade de “povo nas ruas”, “adesão de setores das Forças Armadas” além de PMs amotinados, insubordinados e levados às ruas por lideranças corporativistas. Em outras palavras, ele acha que estaria em posição de superioridade em se tratando da relação das forças treinadas para exercer violência – um cenário implícito nas posturas do presidente.

O problema para Bolsonaro é que tanto no plano político-jurídico como no plano das “forças das ruas” ele está isolado. É completamente refém de um conjunto fisiológico de caciques políticos cínicos que o espremem deixando aberta a possibilidade de decidir quando jogam fora o bagaço. O cerco judicial ao presidente, no STF e no TSE, é um fator que tornou inclusive irrelevante se o PGR estaria (não está) disposto a denunciá-lo.

Sem ter criado uma organização política capilarizada e sem ter a adesão das cadeias de comando das Forças Armadas, Bolsonaro acha que manda, mas não comanda nada a não ser fanáticos imbecilizados em redes sociais que não sabem até agora muito bem onde está o “Palácio de Inverno” a ser tomado e ocupado. Eles são contra um monte de coisas, mas ainda aguardam uma ordem específica do “mito” sobre em qual direção marchar e qual inimigo precisam aniquilar.

Em outras palavras, Bolsonaro não dispõe de sólidos argumentos jurídicos, de amplas forças políticas, de nutridos contingentes militares, do domínio das ruas, da adesão das principais elites econômicas e é rejeitado pela maioria dos eleitores, pela quase unanimidade do mundo intelectual e cultural e visto como um estorvo passageiro pelas grandes potências. Ninguém tem medo dele como dirigente político.

O que se teme é a tragédia que ele parece empenhado em provocar.

JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN

quarta-feira, agosto 25, 2021

Uma crise insolúvel - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 25/08

O Brasil tem pela frente longos 16 meses até que termine o mandato do pior presidente que já governou a Nação. Nada indica que os graves problemas que afligem o País serão tratados


É tal a gravidade da crise política e institucional que ora paralisa o País que cinco ex-presidentes da República – José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Michel Temer – acionaram seus canais de interlocução com as Forças Armadas, particularmente com generais do Exército, da ativa e da reserva, para aferir o ânimo das tropas para embarcar em uma eventual intentona do presidente Jair Bolsonaro. A informação foi revelada pelo Estado no fim de semana.

Premido pela queda consistente de sua popularidade e por reveses no âmbito dos Poderes Legislativo (derrota da PEC do Voto Impresso) e Judiciário (inquéritos administrativos e penais no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral, contra si e alguns apoiadores), Bolsonaro tem dado sinais de que partirá para o “tudo ou nada” – vale dizer, o descumprimento das leis e da Constituição, quiçá de ordens judiciais – como forma de se aferrar ao poder e, assim, tentar escapar das consequências políticas e penais de seus desatinos.

Para o bem da Nação, as respostas que os cinco ex-presidentes obtiveram, ainda que com pequenas variações, afluíram na direção do respeito à Constituição pelas Forças Armadas. Os emissários dos ex-presidentes ouviram dos generais consultados que as eleições de 2022 não só vão ocorrer normalmente, como o Congresso ouvirá, na data da posse, o compromisso do presidente eleito, seja ele quem for, exatamente como determina a Lei Maior. Ou seja, as bravatas de Bolsonaro, incluindo o alardeado apoio que ele julga ter do alto oficialato para suas investidas contra as instituições republicanas, mais revelam fraqueza e isolamento do que força.

A firmeza dos generais consultados em relação a seus compromissos constitucionais, no entanto, é apenas uma boa notícia em um quadro geral muito preocupante. São tempos muito estranhos estes em que uma manifestação de respeito de generais do Exército à Constituição traz certo alívio para os cidadãos que prezam pela liberdade. A rigor, a própria consulta que cinco ex-presidentes da República fizeram aos generais revela, por si só, que Bolsonaro já golpeou a democracia ao agredir diuturnamente, com atos e palavras, os pilares do Estado Democrático de Direito.

A saída para esta grave crise que rouba o presente e compromete o futuro do País teria de passar, necessariamente, por uma civilizada concertação de interesses entre os chefes de Poderes, todos imbuídos pelo que o ex-ministro Marco Aurélio chamou de “amor institucional”. Da parte do Poder Legislativo e do Poder Judiciário já houve este aceno à harmonia e à civilidade, ainda que preservadas eventuais discordâncias. Do Poder Executivo, no entanto, as tentativas de pacificação se revelaram ardis para que Bolsonaro apenas ganhasse tempo até sua próxima investida contra a República. Ao trair a confiança de seus interlocutores nos outros dois Poderes, o presidente trai a confiança da Nação.

Jair Bolsonaro é irremediável. Se ainda havia alguma dúvida sobre sua aversão à política em seu sentido mais estrito – a acomodação de interesses por meio do diálogo –, esta dúvida foi dissipada em caráter definitivo pelo pedido de impeachment que o presidente apresentou ao Senado contra o ministro Alexandre de Moraes, sem qualquer fundamento a não ser a clara disposição de lançar seus apoiadores mais fanáticos contra a Suprema Corte e contra o Senado, que, evidentemente, não dará andamento ao pedido.

O País ainda tem pela frente longos 16 meses até que termine o mandato de Bolsonaro. Nada indica que os graves problemas que afligem o País serão tratados neste período. As investidas golpistas do presidente travarão o andamento de projetos importantes no Congresso, como as reformas estruturais. A capacidade de Bolsonaro para “fabricar artificialmente crises institucionais infrutíferas”, como bem avaliou o decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes, é inesgotável. E isto manterá o Brasil refém do temperamento vesânico do pior presidente que já governou a Nação.

O fracasso Bolsonaro - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 25/08

Malogro do governo, que desencadeou gritaria golpista, deve-se só ao presidente


Decorridos dois terços do governo Jair Bolsonaro, o saldo é um fracasso inegável e, tudo indica, irreversível. Não se vê em Brasília pensamento, liderança ou mera disposição para levar adiante uma agenda que permita ao país chegar ao final de 2022 em condições melhores que as herdadas pelo mandatário.

O principal feito do período, a reforma da Previdência, deveu-se muito mais à iniciativa do Congresso e aos estudos e negociações de anos anteriores. Seus primeiros efeitos benéficos para as finanças públicas e a economia, de todo modo, foram solapados pelo impacto dos gastos com a Covid-19.

A atividade —indústria, serviços, consumo, investimento— mal se recupera da derrocada pandêmica e, pelas projeções mais consensuais, retomará o padrão anterior de quase estagnação. Desemprego e pobreza voltaram a se elevar.

Se a área econômica preserva o que resta de racionalidade na administração, sua credibilidade desabou. Promessas de privatização e reformas ficaram pelo caminho; a inflação subiu a níveis inquietantes; encaminha-se a irresponsabilidade orçamentária no ano eleitoral.

A calamidade sanitária seria um atenuante —se não fosse a demonstração maior da incompetência e do descaso desumano de Bolsonaro. Toda a parolagem do presidente e de seus seguidores fanáticos não encobrirá o fato de que o Brasil amarga a maior taxa de mortes por milhão de habitantes entre os países do G20.

Uma coletânea de indicadores publicada pela Folha mostra que retrocessos predominam nas diversas áreas do governo, notadamente Educação, Saúde e Meio Ambiente. É evidente que nem todas as pioras derivam apenas de medidas tomadas a partir de 2019, mas o peso da gestão ruinosa dessas pastas prioritárias é indelével.

Não houve nova política, muito menos combate à corrupção. O centrão ganhou protagonismo inédito, a Procuradoria-Geral perdeu em autonomia e a Polícia Federal teve dirigentes trocados ao sabor das preocupações do Planalto com aliados e familiares.

Bolsonaro nem mesmo consegue fazer avançar —felizmente— sua pauta ideológica, salvo por alguns decretos de legalidade questionada em favor do acesso a armas de fogo. Não consegue porque se trata de propostas de escasso apelo na sociedade e, mais ainda, porque o presidente se mostra uma negação nas tarefas essenciais de dialogar, convencer e negociar.

O malogro de seu governo se deve ao despreparo e à indolência, não a sabotagens e conspirações imaginárias. A perspectiva de derrota nas urnas, que desencadeou toda a atual gritaria golpista, decorre tão somente da constatação do óbvio pelo eleitorado.

Empresários do 7 de Setembro golpista e ricos coniventes arruínam economia - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 25/08

Movimentos empresariais ajudam a destruir economia pelo menos desde 2015


O caminhonaço de 2018 parou o país por quase dez dias, acabou com a expectativa de que a economia crescesse 2% naquele ano e colocou o governo de Michel Temer de joelhos, dada a ameaça de colapso do abastecimento.

A baderna rendeu um tabelamento de preços (dos fretes) e subsídios de bilhões para caminhoneiros autônomos, transportadoras e clientes do transporte rodoviário, como o agronegócio (tudo muito liberal, né?). O Congresso anistiou os crimes dos baderneiros. O paradão inclinou ainda mais a ladeira que o Brasil desce desde 2013, pelo menos.

Jair Bolsonaro apoiou o caminhonaço, claro, ao lado de empresários e associações empresariais, como a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL).

A polícia investiga o atual presidente da Aprosoja, o bolsonarista Antonio Galvan, suspeito de organizar manifestações golpistas no 7 de Setembro (em 2018, era presidente da Aprosoja-MT, entusiasta do caminhonaço). Blairo Maggi e a associação dizem que não apoiam Galvan, que ainda comanda a Aprosoja, no entanto.

Grandes empresas e seus empresários, vários do varejo, do setor imobiliário e da finança, são bolsonaristas militantes ou colaboracionistas. Quase todo o resto foi omisso ou conivente. No fim das contas, esperavam acabar com o PT, passar a boiada de algumas “reformas” (trabalhista e previdenciária) e barrar aumento de impostos, ainda que para o ajuste fiscal, o que ficara evidente desde 2015, com o Movimento do Pato Amarelo, da Fiesp. A maioria se opõe a “reformas” que aumentam concorrência e eficiência (equalização de impostos, abertura comercial, fim de subsídios etc.).

Era evidente que mesmo esse programa mínimo cínico daria com os burros n’água, ainda mais com o burro perverso no Planalto, que levou para o governo, na economia inclusive, o mundo cão, o porão militar e incompetentes e obscurantistas em geral.

A destruição ambiental, os talibãs na educação, o morticínio na epidemia, o isolamento internacional, nada disso levou o grosso do que se chama de “empresariado” a fazer um mea culpa. Mesmo que não se importem de fato com esses assuntos, sabe-se que esse programa destrutivo cedo ou tarde prejudica os negócios, com ou sem “reformas”. Quando Bolsonaro repetiu a ameaça explícita de melar a eleição de 2022, mandaram um telegrama tardio para o país.

Em suma, de um modo ou de outro, o grosso do “empresariado” apoia ou apoiou a ruína econômica.

O empresariado “reformista” não se moveu também quando Bolsonaro ajudou a acabar com a Lava Jato, tocando Sergio Moro para fora e nomeando Augusto Aras para a PGR —o liberal-lavajatismo fora uma das correntes que levaram Bolsonaro ao poder. O sistema político, o centrão-bolsonarismo em particular, fez o resto do serviço de dar cabo de investigações contra corrupções e arrumou mais dinheiros para se manter no poder. Conseguiu passar pela revolta de 2013, pela Lava Jato e está no comando do governo mais reacionário e imbecil da nossa história quase sempre lamentável. Venceram.

Como é fácil perceber, o “empresariado reformista” e o sistema político dominado pelo centrão fizeram um grande arranjo de manutenção do establishment, com sucesso, mas sem perspectiva alguma de progresso, em um país agora mais selvagem, cafajeste, cínico, queimado, pobre, pária, ignorante, doente, miliciano e tutelado por generais semiletrados.

Ainda vai ser preciso estudar muito para entender a Grande Involução brasileira, que dirá para imaginar uma saída para este desastre.​

terça-feira, agosto 24, 2021

Bolsonarismo e Talibã são expressões do fenômeno do nacionalismo religioso - GUILHERME CASARÕES

FOLHA DE SP - 24/08

Movimentos no Brasil e no Afeganistão são bastante diferentes, mas projeto de nação indissociável da fé em Deus os conecta

Guilherme Casarões
Cientista político e professor da FGV-EAESP


Começou a temporada pré-eleitoral de comparações descabidas do Brasil com outros lugares do mundo. Em 2018, o voto em Fernando Haddad nos transformaria na Venezuela.

Agora, surfando a onda da trágica retomada do Afeganistão pelo Talibã, as redes bolsonaristas foram inundadas de comparações entre o Partido dos Trabalhadores e o grupo fundamentalista afegão —“se Lula for eleito, ele desarmará o povo, como estão fazendo lá!”, dizia a mensagem difundida, entre outros, pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

O mais irônico desses paralelismos é como envelhecem mal. Nos últimos dois anos, a deterioração política do Brasil —comandada por um populista e amparada pelas forças de segurança— é o que mais nos aproxima da Venezuela. Nessa mesma linha, é possível dizer que, se há alguma comparação possível entre Brasil e Afeganistão, ela passa pelo bolsonarismo.


A essa altura, está claro que Bolsonaro lidera um movimento reacionário, marcado por desrespeito às instituições democráticas, sectarismo religioso e violência política. Em muitos sentidos, um Talibã tropical. Obviamente, não são fenômenos comparáveis em termos de beligerância, organização e modus operandi, até porque se orientam por parâmetros civilizatórios e históricos muito distintos.

Mas há algo que os conecta em sua essência: um projeto de nação indissociável da fé em Deus.

Guardadas as proporções, bolsonarismo e Talibã são expressões do fenômeno do nacionalismo religioso. Estamos falando de uma visão de sociedade que condiciona o pertencimento nacional não a critérios legais de cidadania, mas à filiação religiosa.

Trata-se de um fenômeno global que ganhou força no pós-Guerra Fria, especialmente em regiões periféricas do mundo, onde a disputa entre capitalismo e comunismo foi sendo suplantada por expressões religiosas de afirmação nacional.

Nos últimos anos, a ideia de organização política em torno do eixo religioso-civilizacional expandiu-se para além dos grotões. A crise dos valores liberais do secularismo e do multiculturalismo criou condições para a ascensão da extrema direita, muitas vezes atrelada a uma cosmovisão fundamentalista religiosa.

Governos de países tão distintos como Estados Unidos, Hungria, Índia e Polônia passaram a defender a necessidade da regeneração espiritual de suas sociedades, tornando a religião o principal elemento de unidade nacional, em prejuízo a valores como diversidade, pluralismo ou tolerância.

O risco evidente desse nacionalismo antiliberal —seja de corte étnico, racial ou religioso— é a linha tênue entre a solidariedade e o supremacismo. Ninguém pode negar a importância dos laços de fé ou de sangue como fundamento da vida comunitária.

Ao mesmo tempo, tomar uma religião como moralmente superior às demais, a ponto de pregar a assimilação forçada, a segregação social ou até mesmo a eliminação literal de quem não pertence ao grupo, está na raiz de incontáveis conflitos nos últimos séculos.

A tragédia afegã é reflexo da radicalização desse nacionalismo religioso. Politicamente fragmentado em grupos etnolinguísticos e estruturas tribais, o Afeganistão foi capaz de resistir às invasões externas —primeiro britânicos, depois soviéticos, agora americanos— usando a religião como cimento social.

Desse processo longevo nasce um tipo de fundamentalismo islâmico brutal, que sacrifica direitos e liberdades em nome da afirmação soberana. Aos olhos do Talibã, a derradeira prova de lealdade à nação afegã é a demonstração de fé, nos seus termos mais radicais.

A rigor, o bolsonarismo não nasceu como movimento exclusivamente religioso, aglutinando diversos grupos antipetistas, de saudosos da ditadura a apoiadores da Lava Jato, de armamentistas a liberais, de ruralistas a cristãos de várias igrejas.

Aos poucos, contudo, os contornos religiosos foram dando o tom da atuação política de Bolsonaro, desde as coisas mais prosaicas, como cultos escondidos no Planalto e referências bíblicas em discursos oficiais, à indicação de ministros por rateio denominacional.

São abundantes as evidências de que ao menos parte do bolsonarismo é adepta a uma visão radical de nacionalismo cristão. Para além do que diz o próprio presidente, há declarações de ministros e aliados buscando condicionar políticas públicas a preceitos religiosos, além de apoiadores que enxergam o mandato de Bolsonaro como parte de uma guerra santa contra inimigos genéricos como o comunismo, o globalismo e o marxismo cultural.

Expressão escancarada desse projeto nacionalista religioso é o programa do partido criado por Bolsonaro (e nunca oficializado), a Aliança pelo Brasil, onde se lê o seguinte: “a relação entre esta Nação e Cristo é intrínseca, fundante e inseparável”.

É a materialização de um discurso do próprio presidente, ainda em 2017, em que bradou ser o Brasil um país cristão e que as minorias “deveriam se curvar” às maiorias —ou desaparecer. A evangelização forçosa de indígenas e a destruição de terreiros de religiões afro-brasileiras é indício de que esse plano, ainda que lentamente, já se encontra em marcha.

Não, caros leitores, o Brasil não se tornará um Afeganistão. Bolsonaro sequer é o pio cristão imaginado por seus idólatras. Por mais problemática que seja nossa democracia, penso que ela ainda é capaz de nos resguardar de qualquer movimento que queira fazer do Brasil um país de uma só fé.

Mas é necessário zelarmos pelos valores e mecanismos democráticos que sustentam nossa sociedade. Destrui-los é o primeiro passo para que o radicalismo sectário impere no futuro, num caminho possivelmente irreversível.

segunda-feira, agosto 23, 2021

Adulto em sofrimento terminal deveria, sim, ter o direito de morrer - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 23/08

Negar às pessoas nos usos de suas faculdades mentais essa possibilidade é um abuso em nome de um bem que já não existe


Eu acho que uma pessoa adulta nos usos das suas faculdades mentais e numa situação de sofrimento terminal deveria, sim, ter o direito de morrer. Negar às pessoas essa possibilidade é um abuso em nome de um bem que já não existe, a saber, a vida como horizonte.

Sei que o tema é delicado. Alguns podem interpretá-lo como uma defesa do suicídio como direito. Aqueles que assim o fizerem, que o façam. Não podemos nos defender de toda forma de interpretação, coisa que nos dias atuais muita gente parece se esquecer. Pensar publicamente não é uma atividade feita para agradar —inclusive aos patrocinadores, que, aliás, desejo que se danem no seu poder de limitar o uso da palavra pública.

Aborto é outro tema espinhoso. Já tive muitas opiniões sobre ele. Hoje as tenho em muito menor quantidade e qualidade.

Sei que existem pessoas que não comem carne nem usam proteína animal de qualquer tipo, mas que são a favor do aborto. Para muitos haveria uma contradição nessa atitude. Ou hipocrisia. Eu suspeito que, no caso de não comer carne, a pessoa acredita que isso será saudável para ela.

Já no caso do aborto, está em jogo a liberdade de ela transar e, se algo no processo der errado, por assim dizer, poder resolver o problema com o menor sofrimento físico possível, apesar de essa solução nunca ser de forma fácil do ponto de vista moral.

Óbvio que existe a dimensão da saúde pública. Óbvio também que em uma etapa lógica anterior, se pressupõe a ideia de que o feto não é um ser humano ainda. Penso que, em meio a um mundo em que a desumanização corre solta, a dificuldade em desumanizar o feto parece uma afetação de virgens no bordel.

Mas voltando ao que me interessa hoje, o tema da escolha pela morte assistida e legítima me parece significativo. Antes de tudo porque a população envelhece a olhos nus, e muita gente faria uso de uma saída de cena com classe se lhes fosse dada essa opção. Aliás, o filme “A Despedida”, de 2019, com Susan Sarandon e Kate Winslet, é excelente sobre o tema.

Cenas do filme 'A Despedida', de Roger Michell


Alguns poderão considerar essa afirmação um absurdo moral. Alguém escolher essa opção não implica que você seja obrigado a escolhê-la. Talvez, um dia, vivendo uma situação semelhante, você venha a entender a opção do outro.

Óbvio que há sofrimento. Mas é justamente em nome dele que se deve dar às pessoas o direito de morrer quando elas querem e quando a vida já não aparece como um horizonte fisiológico viável. Obrigar a uma pessoa no uso da sua inteligência a existir num corpo que já não mais é seu me parece uma violência moral muito maior.

Se há hipocrisia no vegetariano a favor do aborto —o que não me parece totalmente evidente—, aqui há com certeza. Se quero manter a pessoa viva porque eu a amo, mesmo que ela sinta que o melhor é repousar na pedra, o meu amor, sim, é de alguma forma impróprio.

A ideia de que a vida pertence a Deus me parece irrelevante. Se não acredito em Deus, entendo que a vida pertence apenas a mim, mas se sou terminal, ela já pertence à pedra.

Mas, mesmo que eu seja um crente, posso sê-lo de forma ousada e desafiar a afirmação religiosa institucional de que só Deus pode tirar a vida.

Posso escolher encará-lo, inclusive para perguntá-lo, afinal de contas, por que sou obrigado a ficar em agonia se poderia já descansar.

Detalhes jurídicos são o menor aqui. Em termos de lei, tudo pode, uma vez decidido que pode. Quanto ao fato de que médicos só podem salvar vidas, também é algo que se pode ajustar. E nem me falem sobre a possibilidade de uma descoberta milagrosa de cura: a ciência, nesse caso, está a favor de quem se sabe terminal. Não existem milagres na ciência.

O centro do problema é a possibilidade de se decidir que basta. Esse passo não significa o aniquilamento
da agonia moral. Significa a escolha de uma certa agonia moral em detrimento de outra, sendo a diferença capital a que quem quer sair de cena —que é quem deve decidir a qualidade da agonia moral que pretende enfrentar.

À medida que a humanidade envelhece, há que nos prepararmos para um mundo em que pessoas desistam dele.

Pandemia de ransomware está só no início - RONALDO LEMOS

FOLHA DE SP - 23/08

Ataques se sofisticam, e até funcionários das empresas são cooptados


Na semana passada, a rede de lojas Renner foi a mais nova vítima de um ataque de ransomware.

“Ransom” significa sequestro. E é exatamente isso que acontece. A vítima tem dados e sistemas sequestrados pelo atacante, que exige o pagamento de resgate em criptomoedas para restabelecer a normalidade. No caso da Renner, o pagamento inicial exigido foi de US$ 1 bilhão.

O impacto desse tipo de ataque é devastador. Até sexta (20) à noite, o site da Renner estava fora do ar com a frase “estamos com uma indisponibilidade sistêmica e nosso time está trabalhando para normalizar o acesso”. Em geral os ataques também paralisam operações essenciais do negócio, como contas a pagar e receber. Por isso os criminosos tendem a pedir valores gigantescos para devolver os dados.
Serviços da Renner ficam fora do ar após ataque hacker - Renner

Pagar o resgate não é uma boa opção. Como advogado, sempre lembro que o pagamento do resgate pode constituir crime de fraude processual. Mais do que isso, nada garante que os criminosos irão restabelecer os sistemas.

A exceção a essa recomendação é quando há vidas humanas em risco, nesses casos pagar o resgate pode ser justificável. No entanto, a situação da vítima é sempre sofrível. Ninguém merece a sensação de incredulidade, pânico, medo e impotência que surge ao se deparar com a tela do computador que anuncia o ataque.

O problema do ransonware é que ele se transformou em uma operação altamente profissionalizada. Existe até “call center” disponível 24 horas para que a empresa possa tirar dúvidas com os atacantes sobre como pagar o resgate e até barganhar o preço.

O imaginário popular gosta de pensar o autor desse tipo de ataque como sendo “o hacker”. No Brasil, tem sido usual até culpar “o hacker” por fatos inexplicáveis. No entanto, a imagem de um garoto solitário atacando empresas é passado.

Os atacantes de hoje são principalmente organizações criminosas e Estados nacionais. Como o ransonware é capaz de fazer dinheiro com risco relativamente baixo, há países autoritários que adotam a prática para fugir de sanções internacionais.

O ransonware pode também gerar responsabilidades legais para a vítima. A Lei Geral de Proteção de Dados obriga que as empresas adotem “medidas de segurança aptas a proteger dados pessoais de acessos não autorizados e de situações ilícitas de destruição ou perda”. Isso só aumenta o drama, já que a vítima pode ser posteriormente responsabilizada por danos por não seguir as medidas exigidas pela lei.

Mais preocupante ainda, os ataques estão se sofisticando. A tática mais recente é cooptar funcionários da empresa para ajudar no ataque. Isso acontece por meio de mensagens para os funcionários com textos como: “Se você instalar esse programa em qualquer computador ou servidor da sua empresa, remota ou fisicamente, você receberá 40% do resgate”. A mensagem fornece então um email dos atacantes e um perfil no Telegram para os interessados.

Por todas essas razões não é exagero dizer que está em curso uma pandemia de ataques de ransonware. Para contê-los, são necessárias medidas de várias naturezas que envolvam o setor privado, público, a comunidade científica e, sobretudo, mais cooperação internacional.

READER
JÁ ERA: Não fazer backup (cópia de segurança)
JÁ É: Desespero ao ser atacado por ransomware sem ter backup robusto
JÁ VEM: Mais empresas brasileiras e órgãos públicos atacados por ransomware

Pesadelos de agosto - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 23/08

Agosto é um estranho mês, todos sabemos no Brasil. Por que não o seria sob Bolsonaro, que em si já é um estranhíssimo governo?

Numa noite dessas de agosto, vi nas redes um cantor sertanejo nos ameaçando de caos e até fome se não adotássemos o voto impresso.

Na minha santa ignorância, perguntei: mas o que pensa o outro?

Achava que os cantores sertanejos sempre se apresentam em dupla, mas o autor da ameaça faz uma carreira solo. Achava também que cantam amores perdidos, a natureza, um pé de serra, um animal de estimação.

O cantor se dizia ligado aos caminhoneiros, daí o caos e a fome que se espalhariam pelo país. Minha perplexidade foi ainda maior: diesel e gasolina aumentam desde o princípio do ano, o etanol já está 34% mais caro. Merecíamos um castigo tão grande, por optar pela votação eletrônica?

Tenho sonhado muito nos últimos anos. Todas as noites, sonhos disparatados, mas — o que fazer ?— sonhos adoram o absurdo.

Sinceramente fiquei com medo de dormir e sonhar com a multidão pedindo a volta dos orelhões com fichas nas bancas de jornal. Ou numa hipótese mais radical, cartazes exigindo a volta do Rhum Creosotado, aquele dos famosos anúncios nos bondes de antigamente.

A indecisão diante do sono me lembrou uma história muito contada. É a do pobre homem que vivia num cômodo abaixo de um boêmio que chegava tarde à noite e tirava ruidosamente as botas. As duas pancadas da bota batendo no assoalho arruinavam o sono do vizinho de baixo.

Um dia ele tomou coragem, foi até o boêmio e pediu que tirasse as botas silenciosamente. Ao voltar para casa de madrugada, um pouco bêbado, o homem tirou uma bota ruidosamente e se lembrou do vizinho, corrigindo-se logo e depositando a outra em silêncio.

Aconteceu o previsível: o pobre homem passou a noite esperando que a outra bota fosse depositada, até que subiu ao quarto do boêmio e pediu que jogasse logo a outra bota, pois precisava dormir e trabalhar bem cedo.

A situação de muitos de nós é parecida. Estamos à espera de um golpe sempre anunciado nas entrelinhas e temos vontade de que tentem logo, para resolvermos nossa vida.

Os historiadores teriam dificuldade de explicar um golpe liderado por um cantor sertanejo.

Leio que ele se arrependeu, amigos disseram que bebeu muito.

Outra perplexidade de agosto: um sertanejo bêbado cantando um tango é muito mais previsível do que propondo um golpe.

Mas, como se diz na linguagem popular, onde há fumaça há tanques, outras pessoas com chapéu de caubói aparecem na internet dizendo que acabou a tolerância, que agora o país pegará fogo se não adotarmos o voto impresso.

Rigorosamente, os biomas brasileiros estão pegando fogo. Não teremos como os afegãos a possibilidade de nos agarrarmos no trem de pouso de aviões que partem.

Nossa única chance seria abraçarmos os pássaros maiores, jaburus, gaviões, urubus-reis, nhambus, jacus, e tentar pousar noutras raras florestas do planeta.

Com todo o respeito a essas pessoas com chapéu de caubói que se sentem acima do Estado Democrático de Direito, é preciso lembrar que a população se sente cada vez mais distante do governo Bolsonaro.

As pesquisas mostram a crescente consciência de que Bolsonaro foi apenas um acidente histórico e de que, apesar da importância númerica das forças conservadoras no Brasil, ele não as representa na sua totalidade.

Quando essa consciência se cristaliza, a extrema direita isolada nada pode fazer, além de cargas de cavalaria como nos filmes de faroeste e desfiles de tanques enfumaçados.

A imposição pela força é uma visão idealista que não se sustenta nem à direita nem à esquerda. A exportação do socialismo empurrado por baionetas fracassou na Europa; o idealismo liberal de se instalar no Afeganistão foi um fracasso.

Por mim, podem jogar logo a segunda bota, apesar do barulho e do peso das esporas.