terça-feira, agosto 19, 2014

Hipnose coletiva - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 19/08


Guilherme Fiuza não poupa os que protestavam contra ‘tudo’, o mesmo que protestar contra nada, e que tomaram as ruas em junho de 2013. Chama isso de ‘rebeldia inofensiva’



Para o filósofo Henri Bergson, o riso não pode ser bondoso. Sua função é “intimidar humilhando”. Lembrei disso ao reler os deliciosos textos de Guilherme Fiuza reunidos no livro “Não é a mamãe”, que será lançado pela Record nesta quinta, às 19h na Travessa do Leblon.

Sua marca registrada é o sarcasmo diante do inacreditável: a passividade da opinião pública frente aos inesgotáveis escândalos do governo petista. Acreditou-se até mesmo nos mitos da “faxineira ética” e da “gerentona eficiente”.

Nunca antes na história deste país se roubou tanto, avançou-se tanto sobre o Estado como se fosse uma “cosa nostra”. Tudo protegido pela narrativa dos “oprimidos do bem”. O “governo popular” das “minorias” — o operário e a mulher — goza de um salvo-conduto para praticar todo tipo de “malfeito”. A imprensa “burguesa e golpista” não tem nada com isso, e deveria parar com essa mania chata de se meter em assuntos “privados” dos governantes.

O humor ácido de Fiuza é um soco na cara de um povo sonolento, hipnotizado pela repetição incansável de slogans vazios e chavões ridículos. Seu principal alvo nem é o PT com suas falcatruas, mas sim os eleitores com sua negligência.

Fiuza não poupa os que protestavam contra “tudo”, o mesmo que protestar contra nada, e que tomaram as ruas em junho de 2013. Chama isso de “rebeldia inofensiva”, um circo que não leva a nada. Acreditar que o gigante havia acordado era a grande piada, só que de mau gosto.

Criativo, ele cunha expressões excelentes para descrever o Brasil de hoje que, visto com o benefício do retrospecto pelos observadores do futuro, será motivo de muita perplexidade. “Esquerda S.A.”, “elite vermelha”, “Império do Oprimido”, “DisneyLula”, entre tantos outros, são termos que descrevem com perfeição a situação surreal de nosso país.

Ótimo frasista, Fiuza tem grande poder de síntese, sem deixar de lado o chiste. Exemplos não faltam:

“É comovente a garra da esquerda brasileira em defesa da melhoria social de sua conta bancária”; “O Brasil acha que um presidente bonzinho pode tudo, inclusive decretar almoço grátis para todos”; “Nunca antes na história deste país os argumentos foram tão inúteis.”

“Que mania os repórteres têm de se meter com a propina alheia”; “O PT já cansou a beleza do Brasil com o politicamente correto como fachada do administrativamente incorreto — os fins nobres justificando os meios torpes.”

“A elite envergonhada se sente nobre quando bajula o povão. Não contem para ninguém que os avanços sociais começaram no governo de um sociólogo, porque isso vai estragar todo o heroísmo da esquerda festiva.”

“No Brasil emergente da era Lula, a pobreza é quase um diploma. E a ignorância enseja carinho e condescendência”; “O brasileiro é, antes de tudo, um crédulo. Deem-lhe um pretexto para ter fé em alguma coisa, e ele se lambuza de esperança”; “Ficou então combinado assim: enquanto Dilma refresca a vida dos fisiológicos, os éticos apoiam Dilma contra o fisiologismo”; “Como o eleitor já deveria saber, quando o PT grita pela ética, é hora de segurar a carteira.”

“Para os intelectuais franceses, Lula é o homem do povo que dobrou as elites, o ex-operário que superou a ignorância para salvar os pobres. Só quem não superou a ignorância, pelo visto, foram os cientistas políticos parisienses.”

“O trabalhismo, como se sabe, é a arte de se pendurar no cabide estatal e não largar o osso”; “Nunca se desafiou a corrupção com tanta compaixão”; “Os fatos, hoje, são um detalhe. O que o senso comum respeita mesmo é a repetição.”

“Para os não iniciados, é bom esclarecer: ‘elite’, no dicionário do PT, é um termo figurativo muito importante para os ladrões do bem, que os mantém na condição de milionários oprimidos”; “O julgamento do mensalão ficará como uma página quase cômica da história brasileira. O país que explode de orgulho com o fim da impunidade é governado, candidamente, pelo mesmo grupo político que pariu o esquema.”

E tem muito mais. O que fica claro é que se trata de um jornalista corajoso, que não teme remar contra a maré vermelha, contra a patrulha dos “oprimidos”, nem contra a farsa oficial montada pela poderosa máquina estatal. Não é à toa que Fiuza entrou para a “lista negra” criada pelo vice-presidente nacional do PT, de formadores de opinião independentes que ousam criticar o governo e apontar para toda a podridão do maior esquema já visto de assalto aos cofres públicos em plena luz do dia.

O livro é leitura obrigatória para quem não quer hibernar enquanto é saqueado pelos “representantes do povo”.

Páreo duro - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 19/08


A primeira pesquisa do instituto Datafolha com a inclusão do nome de Marina Silva em substituição ao de Eduardo Campos como titular da chapa presidencial do PSB não surpreendeu.

Ao contrário: correspondeu perfeitamente à expectativa de que a ex-senadora alcançasse o candidato do PSDB, Aécio Neves, em termos de intenções de votos. A leitura fria dos números não autoriza dizer que o resultado seja reflexo da comoção nacional decorrente da morte trágica do ex-governador de Pernambuco.

Quando perdeu a condição legal de se candidatar porque não conseguiu registrar seu partido no prazo permitido por lei, Marina aparecia com 27% nas pesquisas de opinião. Como vice não havia ainda conseguido transferir esse capital para seu companheiro de chapa, cujo índice estava no patamar de 8%.

Demonstração clara de que é no mínimo questionável a influência do vice na incorporação de votos. Na realidade, ninguém vota em vice. No momento em que a ex-senadora passa à condição de herdeira da candidatura, nada mais natural que recupere boa parte de seu patrimônio pessoal.

Está escrito na pesquisa: nem a presidente Dilma nem o senador Aécio perdem um ponto porcentual sequer. Ela fica com os 36% anteriores e ele com os 20% registrados na penúltima consulta. Marina pontua 21%. De onde saem esses votos? Os números indicam que das categorias "outros", "brancos/nulos" e "não sabe".

Na consulta de quinze dias atrás, esse conjunto somava 35% dos pesquisados. Na pesquisa atual o índice cai para 13%. Diferença: 22%. Um ponto porcentual a menos que o índice de intenção de votos registrado para Marina Silva. Matematicamente ao menos parece que temos uma evidência.

Os eleitores de Dilma e Aécio ficam onde estavam. Os de Marina despertam. Criam um novo interesse pela eleição, o que é ótimo para o processo como um todo, tende a aumentar a quantidade de votos válidos e, com isso, a participação do eleitorado.

Mas, esse é o primeiro momento e há muitas variáveis daqui em diante a serem consideradas antes de se estabelecer um cenário de resultado confiável. A mais importante delas: como vai se comportar o eleitorado diante de uma candidatura de Marina Silva não mais como uma "outsider", mas como uma possibilidade concreta de presidente?

Outra: qual a posição da candidata será de franca oposição ao governo? E os adversários, PT e PSDB, partirão para o ataque? Menos ou mais agressivo? Qual a calibragem de maneira a mostrá-la menos preparada para governar, mas sem transformá-la em vítima das grandes e tradicionais forças políticas?

São questões a serem resolvidas nos próximos dias, aí sim, considerado o fator comoção. O ambiente tende a se normalizar e, nele, há dificuldades para Marina.

A relação tensa com o PSB no tocante às alianças regionais cujo fiador era Eduardo Campos, o financiamento de campanha e até um dado importante - surpreendente - da pesquisa; a melhora em seis pontos porcentuais na avaliação positiva do governo da presidente Dilma.

Em suma, a eleição que antes era difícil para dois candidatos, agora é difícil para três.

'Medômetro'. No ranking informal - troca de impressões, ainda sob o impacto da morte de Eduardo Campos - de executivos de grandes bancos o tucano Aécio Neves segue em primeiro lugar nas preferências. Marina Silva fica na segunda posição e o receio maior continua sendo em relação à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Como esperado, a resistência à candidatura do PSB aumenta no setor de agronegócio, onde é difícil a quebra do gelo entre outros fatores por ausência de disposição de parte a parte. O papel de mediador era feito por Campos, que conseguiu algum avanço na sabatina da Confederação Nacional da Agricultura, há duas semanas.

Na ocasião, porém, a plateia recebeu com frieza explícita a então candidata a vice.


Tempo corre contra Marina - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 19/08


BRASÍLIA - O Datafolha reflete um momento específico: é o primeiro imediatamente depois da morte de Eduardo Campos e antes dos programas de TV. Muita água vai rolar.

Mesmo assim, todas as campanhas, ainda tontas pela tragédia, vão ter de se recompor com base nesses dados. E Aécio Neves se vê, subitamente, "ensanduichado" entre Dilma Rousseff, a favorita, e Marina Silva, a grande novidade.

Dilma teve a pior notícia: a vitória no primeiro turno evaporou, e ela está num empate técnico com Marina num eventual segundo turno entre as duas. Mas Dilma não perdeu um só ponto para a nova adversária, e candidatos à reeleição dependem até mais da avaliação de governo e dos índices de rejeição do que de intenções de voto. O ótimo/bom do governo subiu de 32% para 38%, e o ruim/péssimo caiu de 29% para 23%.

Marina teve as melhor notícia: já larga com 21%, em meio a enorme exibição na mídia e gerando expectativa de vitória final. Mas a excepcionalidade do momento passa, e ela tem as piores condições. Seu partido não é seu; PSB e Rede têm uma relação complicada; os arranjos estaduais estão em suspense; setores que se encantavam com Campos não se encantam com ela; setores que se encantavam com ela desencantaram-se. Não será uma campanha fácil. O tempo corre contra Marina.

E Aécio? Respira aliviado por não perder capital para Marina, mas está estacionado em 20% e espremido entre as fortes condições de Dilma (tempo de TV, palanques estaduais, imagens de obras de governo) e os ventos favoráveis a Marina (foco das atenções, o bom "recall" de 2010 e a ansiedade por uma terceira via).

E mais: Dilma pode bater em Aécio, Aécio pode atacar Dilma, Marina pode dizer poucas e boas contra os dois. Mas Dilma e Aécio não podem mirar Marina agora, porque teria efeito bumerangue.

Em ascensão, ela está livre para voar sem os estilingues dos adversários. Mas cuidado com os "aliados"!

Frutos do controle petista - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 19/08


Nem produzindo e refinando mais petróleo a Petrobrás consegue melhorar seu desempenho financeiro, como mostram os resultados do primeiro semestre deste ano, na comparação com os da primeira metade de 2013. O lucro líquido do período, que alcançou R$ 10,4 bilhões, foi 25% menor do que o do período janeiro-junho do ano passado. Dominada politicamente pelo governo do PT - e por isso submetida a um regime de controle de preços que lhe impõem custos cada vez mais insuportáveis e, ainda assim, obrigada a executar um ambicioso programa de investimentos -, a estatal não poderia produzir resultados muitos melhores do que os que vem apresentando. Ou seja, com perdas para os investidores e para o País.

Com o objetivo de conter as pressões inflacionárias, em boa parte decorrentes da inconsistência de sua política econômica e da fragilidade de sua política fiscal, o governo Dilma Rousseff vem segurando os preços dos combustíveis para os consumidores. Essa política, ou antipolítica, tarifária vem causando prejuízos bilionários para a empresa na área de abastecimento. No primeiro semestre deste ano, por exemplo, essa área registrou prejuízo de R$ 8,6 bilhões, 29% maior do que na primeira metade de 2013.

A empresa chegou a uma situação tal que, quanto mais refina e vende gasolina e óleo diesel, além de outros derivados, mais tende a perder dinheiro, pois o preço cobrado nas bombas não é suficiente para cobrir os custos de produção. E vem refinando mais petróleo. No entanto, como sua capacidade de refino ficou estagnada nos últimos anos, está sendo obrigada a utilizá-la num nível acima do recomendável. Como ela própria reconheceu, o processamento em seu parque de refino no segundo trimestre de 2014 alcançou 98% da capacidade instalada, 2 pontos porcentuais acima do registrado nos três primeiros meses do ano. É um nível de utilização que pode dificultar a manutenção indispensável para reduzir os riscos de interrupção das operações ou de acidentes.

Mesmo assim, por causa dos fortes estímulos do governo petista à venda de automóveis, o consumo interno de combustíveis vem crescendo num ritmo que a Petrobrás não tem mais condições de acompanhar com sua produção própria, o que a tem forçado a importar derivados, sobretudo gasolina, pelos quais paga em dólares ao preço internacional e é obrigada a vender a preços controlados pelo governo - e insuficientes para cobrir seus gastos.

A área de abastecimento é a principal responsável pela geração dos recursos para os investimentos da Petrobrás - e também pela geração dos resultados financeiros para os acionistas. Em crise, como mostram os números recentes, ela não tem gerado os recursos suficientes para sustentar o bilionário programa de investimentos da empresa na área de exploração, cuja ação está concentrada no pré-sal. No primeiro semestre, os investimentos foram 6% menores do que os do mesmo período de 2013.

Sem gerar recursos suficientes, a Petrobrás vem procurando no mercado financeiro o capital de que necessita para sustentar seus investimentos. O resultado é a expansão da dívida em ritmo acelerado. No fim do primeiro semestre, a dívida líquida da Petrobrás correspondeu a 3,94 vezes sua capacidade de geração de resultados (conhecida como Ebtida, que corresponde ao lucro antes do pagamento de impostos e juros e do lançamento contábil de depreciações e amortizações), acima do índice de 3,52 registrado no fim do primeiro trimestre e muito superior ao considerado ideal pela diretoria da empresa, de 2,5 vezes.

Com a concentração de investimentos no pré-sal, a produção nessa área alcançou o recorde de 542 mil barris em julho. Mas, com a redução dos investimentos nas áreas já em exploração, sua decadência se acelerou, ocasionando a queda mais rápida de sua produção.

Os problemas que a empresa enfrenta para explicar o ruinoso negócio da compra da Refinaria de Pasadena, no Texas - se explicações há para isso -, são a face política de uma crise que já era aguda nos planos administrativo e operacional.

Foi dada a largada - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 19/08

A presidente Dilma dormiu um dia com a possibilidade de vencer a eleição no primeiro turno, ou sendo a favorita para o segundo, e acordou ontem com o segundo turno praticamente selado e a possibilidade de perdê-lo para Marina Silva, que não estava no páreo e se transformou do dia para a noite na favorita da eleição presidencial.

Será preciso, no entanto, depurar essas intenções de votos no tempo para saber o quanto de emoção elas contêm, e o que restará ao final. A menos que estejamos diante de um fenômeno eleitoral que será movido pela comoção até a boca de urna, não é plausível que a votação de 2010 seja o piso de Marina, e que daqui para frente ela só faça crescer na preferência popular.

É verdade que ela já chegou a 27% em uma pesquisa anterior, mas não ter alcançado patamar semelhante diante da exposição a que foi submetida nos últimos dias pode significar que tenha alcançado seu limite. O ex-governador Eduardo Campos não era uma figura nacional, e o fato de sua trágica e prematura morte tê-lo transformado em tal não resiste a 45 dias de uma campanha eleitoral acirrada como a que veremos a partir de hoje.

Por enquanto, Marina reconquistou seus eleitores tradicionais: basicamente os jovens, que saíram às ruas em 2013 e estão desiludidos com os políticos tradicionais, e os moradores das grandes e médias cidades. Ou a classe média "iluminista" e a garotada das redes sociais, numa definição sucinta usada na última eleição.

Mesmo sendo uma política experiente, com dois mandatos de senadora e atuação no Ministério de Lula, consegue manter uma postura que a afasta da imagem do político tradicional, além de se identificar com um terceiro grupo eleitoral, os evangélicos, de fundamental importância para sua votação como apontado na pesquisa sobre religiões realizada pela equipe do professor Cesar Romero Jacob da PUC do Rio de Janeiro.

Mas, a partir do documento que o PSB vai apresentar a ela, começarão também as dificuldades para Marina.

Ela, que não tomou o avião fatídico para não se encontrar em Santos com Márcio França, o candidato a vice de Alckmin, como fará agora campanha em São Paulo? Como serão suas relações com os representantes do agronegócio e do que chama de "velha política" que estavam fechados com Campos e com os quais agora ela terá que conviver? O fato de, num primeiro momento, Marina não ter tirado votos nem de Dilma nem de Aécio mostra que seus adversários estão consolidados em suas posições, e, no entanto, o crescimento de todos os três candidatos vai depender dos votos que conseguirão tirar dos concorrentes. Marina pode ganhar mais votos de Dilma do que de Aécio no primeiro turno; Aécio pode tirar votos de Marina nesses setores que a estão apoiando hoje sem grandes convergências, que existiam com Eduardo Campos. E Dilma pode recuperar votos que perdeu em setores importantes da classe média se conseguir manter a percepção de melhora de seu governo, que superou o índice mínimo de 35% de ótimo e bom, passando de 32% para 37%.

Tudo indica que a melhoria está ligada à percepção menos pessimista sobre a economia do país, pois a inflação de alimentos deu uma trégua, embora continue próxima do teto da meta na medição anual. O problema de Dilma é que a economia dá sinais de que piorará nos próximos meses, havendo forte possibilidade de o 2º turno ser em meio a uma recessão.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, respirou aliviado com o resultado da pesquisa Datafolha, pois não perdeu seus votos, embora tenha ganhado uma adversária mais competitiva. Ele pretende basear sua propaganda no rádio e televisão na experiência de gestor, para contrastar com a inexperiência de Marina Silva no comando de governos.

O fato de que Marina trouxe para dentro do cenário eleitoral um contingente de eleitores que se recusavam a votar (redução dos votos nulos, e em branco e abstenção) é festejado pelo PSDB, que considera possível atraí-los a partir de um maior conhecimento de seu candidato, que hoje é o mais desconhecido dos três.

Antiamericanismo, uma doença letal - ABRAHÃO FINKELSTEIN

ZERO HORA - 19/08

Essa doença ataca a área cognitiva do sistema nervoso de pessoas expostas ao contágio, principalmente as que já apresentavam uma pronunciada predisposição ao ódio e ao rancor. Caracteriza-se por agressividade crescente e rejeição a tudo o que for americano, com exceção de tênis Nike, aparelhos eletrônicos da Apple, roupas de grife produzidas a preços reduzidos nos Estados Unidos e inúmeros outros itens que caracterizam aquela civilização consumista. Os casos mais graves vêm acompanhados por acessos de ódio incontrolável, sem causa aparente. Geralmente, essas pessoas não tiveram contato anterior com cidadãos daquele país mas os consideram responsáveis por todas as desgraças do mundo. Encontram breve alívio de seus sintomas queimando bandeiras dos Estados Unidos e de outras nações que considerem inimigas de povos “progressistas”, não alinhados.
O contágio se dá em universidades, sindicatos, movimentos sociais e também através de jornais em que viceja um largo contingente de portadores do mal que utilizam seus espaços midiáticos e suas cátedras para disseminar a doença. Os primeiros sintomas dos infectados se traduz por uma espécie de euforia e prazeroso sentimento de pertencer a um seleto grupo de pessoas esclarecidas, humanas e sensíveis, bem diferentes desses reacionários, gente de direita, divorciados da realidade de um mundo dominado pela cobiça. Do sentimento à ação, os iluminados se sentem no direito a ajudar a humanidade a alcançar “um novo mundo é possível” através de palavras de ordem e atos violentos.
Contando com a indiferença da maioria da população, estendem sua agressividade sobre as instituições democráticas que dizem defender e, na ausência de uma reação adequada dessas instituições e dos partidos tradicionais, podem chegar ao poder, com todas as consequências que isto pode acarretar à nação. Para eles, tudo é explicado pela geopolítica dos interesses escusos dos imperialistas e assim podem dormir tranquilos, certos de que entendem o mundo como poucos.
A doença é letal, porque não há vacina contra ela e os indivíduos são levados a um estado progressivo de embrutecimento de tal ordem que não terão mais condição de voltar à razoabilidade e à compaixão. É uma morte por dentro que não há como estancar.

As eleições e as nuvens - GIL CASTELLO BRANCO

O GLOBO - 19/08


Campanhas somarão R$ 72 bilhões, conforme previsões dos concorrentes. Mais de duas vezes o gasto prometido para a Copa



A conhecida frase de Magalhães Pinto, ex-banqueiro e parlamentar mineiro, permanece atual: “Política é como nuvem.” De fato, a cada olhar, enxerga-se um novo formato. Até a semana passada, o filme seria o já visto nas cinco últimas eleições presidenciais, com o PT e o PSDB no duelo final. A dúvida era se Dilma venceria no primeiro turno. A morte de Eduardo Campos viabilizou a terceira via e o segundo turno, no qual Marina Silva (PSB) passou a ser favorita.

Independentemente do desfecho imprevisível, 25.366 cidadãos irão concorrer às vagas de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. Curiosamente, três candidatos já passaram dos 90 anos. Estão no páreo, por exemplo, 2.321 empresários, 1.481 professores, 1.386 advogados, 544 policiais, 23 motoboys, 21 garis, cem sacerdotes, oito artistas de circo e dois coveiros. Ao que parece, Tiririca deixou legado.

O interesse em servir à sociedade — ou servir-se dela, como fazem alguns — envolve ricos e pobres. Nas declarações de bens encontram-se 63 aeronaves e 216 embarcações. De um jato, adquirido por R$ 7,5 milhões, a um bote inflável de R$ 462. De duas Ferraris a um burro. Cerca de dez mil candidatos não informaram patrimônio. Como as declarações de bens entregues no registro das candidaturas não são cruzadas com as do Imposto de Renda — o que deveria ocorrer — é provável que a Justiça Eleitoral e o Leão tenham informações diferentes.

A partir de hoje, quando começar o horário eleitoral, estarão disputando votos pretendentes com nomes curiosos como Hora do Rango, Cachorrão, Chiclete, Chupa Cabra, Cição Bandido, Barack Obama, Mister M, Filho do Padre, Eu te Amo e Bagunça. O último, se eleito, vai se sentir em casa.

As campanhas somarão R$ 72 bilhões, conforme previsões dos concorrentes. O valor corresponde a mais de duas vezes o gasto prometido para a Copa 2014, incluindo as obras de mobilidade urbana, aeroportos, estádios, turismo e segurança pública. Desde 1965, a lei eleitoral prevê a possibilidade de o Legislativo fixar tetos para as campanhas, o que nunca ocorreu. Para os partidos políticos, candidatos e doadores, aparentemente, quanto mais dinheiro, melhor.

Tal como acontece há várias eleições, os maiores doadores têm relações com o governo federal. A maior empresa de proteína animal do mundo, a JBS (Friboi), lidera as doações. A caridade somou R$ 53,3 milhões, distribuídos para nove partidos. O grupo recebeu R$ 12,8 bilhões do BNDES, de 2002 a 2012. Por mero espírito democrático, doou R$ 5 milhões para a campanha de Dilma e valor idêntico para a de Aécio. O PSB recebeu apenas R$ 370 mil, por enquanto.

A promessa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de acabar com as doações ocultas não se concretizou. As doações continuam sendo feitas em grande parte aos comitês, diretórios e aos partidos. Posteriormente, quando do repasse aos candidatos, frequentemente não são identificados os doadores originais. Assim foi na primeira prestação de contas dos três então principais candidatos à Presidência da República, mau exemplo de transparência.

As regras eleitorais contêm aberrações, a começar pelo favorecimento descarado aos que concorrem exercendo mandatos de deputado, senador, governador e presidente da República. Até estas eleições, as “autoridades” fingiam desempenhar as funções públicas durante o dia e se dedicar às campanhas somente na hora do almoço, à noite e nos fins de semana. Agora, o que se vê é a caça de votos durante o expediente, com entrevistas nos palácios, lançamentos de planos e concessão de incentivos às vésperas do pleito, às barbas do TSE. O que já era ruim, piorou.

As cartas estão na mesa nas eleições presidenciais, com reflexos nas estaduais. A favor de Dilma, 15 pontos percentuais à frente, segundo o Datafolha, quase 12 minutos na televisão e Lula como cabo eleitoral para mostrar o que o partido fez em 12 anos. Aécio e Marina vão lembrar a inflação alta, o crescimento pífio do PIB e os escândalos da Petrobras. O mineiro confiará na polarização PT/PSDB e na sua vida política. A segunda, ungida como sucessora de Campos, contará com o fator emocional e o seu peso eleitoral elevado fruto do “recall” das eleições de 2010. Todos com os pés na estrada para conquistar os 24 milhões de eleitores indecisos e que pretendem anular ou votar em branco. Sem falar no “volta Lula”...

Enfim, se a política é como nuvem, ninguém poderá prever o “clima” nos dias 5 e 26 de outubro. Nem os cientistas políticos, tampouco os meteorologistas.

O que mudou - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 19/08


SÃO PAULO - A entrada de Marina Silva na corrida eleitoral muda tudo? Nem tanto. É verdade que o advento da candidata ambientalista parece assegurar que haverá segundo turno e pode tirar Aécio Neves do escrutínio final. A questão macro, porém, é um pouco diferente.

Em regimes presidencialistas com reeleição, a vantagem de quem está no poder é tamanha que não é a oposição que ganha pleitos, mas a situação que eventualmente os perde. Sob esse prisma, as coisas mudaram bem menos do que aparentam.

Desde os protestos de junho do ano passado, que ceifaram a popularidade da presidente Dilma Rousseff, ficou claro que a reeleição não seria mais o passeio que se afigurava até então. Dali para cá, com alguns morros e vales, Dilma vinha conseguindo manter a liderança nas pesquisas, mas sempre assombrada por uma forte rejeição a seu nome e por um número persistentemente alto de eleitores indecisos ou dispostos a anular seu voto.

A maioria dos analistas apontava que os candidatos da oposição ainda não haviam conseguido tornar-se conhecidos fora de suas bases nem capitalizar o difuso sentimento pró-mudança. Era razoável, entretanto, esperar que, ao longo da campanha, melhorariam suas posições.

O que a súbita chegada de Marina fez foi acelerar --e talvez vitaminar-- um processo que já ocorreria naturalmente. Reforça essa interpretação a importante queda no total de indecisos e dos que planejavam votar nulo ou branco, cuja soma baixou de 27%, na pesquisa Datafolha anterior para 17% na mais recente.

O quadro geral, portanto, permanece mais ou menos o mesmo: embora o PT ainda seja o favorito, há uma chance considerável de o partido perder a eleição e, neste caso, Aécio e Marina disputam os despojos do poder. A verdade --algo contraintuitiva, admito-- é que campanhas importam menos do que se apregoa. Volto ao assunto nos próximos dias.

O tabuleiro econômico - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 19/08


Infelizmente, a lógica da campanha e o formato dos programas de rádio e televisão não permitem debates mais profundos em termos teóricos e técnicos


As teorias econômicas destinam-se a explicar o funcionamento do sistema econômico. A política econômica é o meio pelo qual o governo interfere no funcionamento do sistema e é dividida em pelo menos quatro grandes partes: a política fiscal, que compreende a estrutura de tributação e a forma como o governo gasta o dinheiro arrecadado; a política monetária, que trata da administração da moeda, do juro e do crédito; a política cambial, que responde pela administração do preço das moedas estrangeiras e das regras de relação financeira com o resto do mundo; e a política de intervenção, referente à administração de preços e à regulação do mercado e do setor privado.

Por definição, o governo é uma entidade econômica que não produz. Inicialmente, o único meio de que o governo dispõe para financiar (pagar) a máquina do Estado e o conjunto de serviços públicos é apropriando-se (pela tributação) de parte da renda nacional. Adicionalmente, o governo pode gastar mais do que arrecada, o que o leva a se socorrer de duas saídas possíveis: tomar empréstimos (fazer dívida pública) e/ou emitir moeda. Outro meio pelo qual o governo pode obter receita é montar empresas estatais com dinheiro dos impostos e usar as receitas dessas empresas para sustentar os gastos públicos. Porém, na maioria das vezes, as empresas estatais são mais sorvedouros de dinheiro do que provedoras de recursos para o tesouro nacional.

De um lado existe o Produto Interno Bruto (PIB) e, de outro, a renda nacional, cujos valores são rigorosamente iguais. O PIB e a renda são apenas os dois lados da mesma moeda. O PIB é composto por duas fatias apenas, os bens e serviços de consumo e os bens de capital. A renda nacional é a soma de salários, juros, aluguéis e lucros. Esse quadro fecha o grande tabuleiro da economia sobre o qual o governo deve atuar na tentativa de conseguir as quatro grandes metas: o crescimento do PIB, o aumento do emprego, o controle da inflação e a distribuição da renda.

Em época de eleições, um dos principais debates (se não o principal) deveria ser como cada candidato pretende atuar sobre esse grande tabuleiro, seus programas e suas políticas. Infelizmente, o debate econômico tem se resumido à apresentação de um extenso rosário de promessas e benefícios em favor do povo, cuja razão está na tentativa de conquistar o maior número de votos, sem maiores considerações sobre temas técnicos como viabilidade, gestão e eficiência. Os candidatos procuram se apresentar mais como arautos da bondade social do que como portadores das teorias certas e políticas adequadas para o progresso do país.

Vale ressaltar que a lógica da campanha e o formato dos programas eleitorais no rádio e na televisão não permitem debates mais profundos em termos teóricos e de melhor conteúdo técnico. Apesar disso, é lamentável que a discussão sobre como os candidatos pretendem atuar sobre o grande tabuleiro econômico, essencial para o desenvolvimento, fique à margem e, quando muito, seja abordada de maneira superficial.

Uma vez no governo, o vencedor da eleição será mais ou menos eficiente muito mais em função de sua política econômica do que em função das medidas para cumprir suas promessas de bondade feitas durante a campanha. A própria presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, está diante dos custos políticos de uma série de indicadores ruins na economia, situação que tem levado preocupação a seus assessores de ­marketing eleitoral.

A economia é área complexa e a realidade tem a mania de mostrar que certas medidas boas para solucionar problemas de curto prazo acabam se transformando em problemas no longo prazo. Um exemplo é a elevação da demanda agregada por meio do aumento do consumo das pessoas a qualquer custo. O Brasil fez isso – o que ajudou a conter os efeitos da crise mundial iniciada em 2007 – e as pessoas entraram em uma onda de consumo movido a crédito farto e juro alto, o que acabou desaguando numa crise de endividamento e aumento da inadimplência. A conta chegou e o quadro se inverteu, sendo esse um dos fatores responsáveis pelo baixo crescimento econômico dos últimos dois anos.

Agora é que a campanha eleitoral começa de fato (retardada em alguns dias por causa da morte trágica do candidato Eduardo Campos), oportunidade em que a população poderá cobrar dos postulantes que apresentem suas ideias e planos, e não fiquem apenas nas velhas promessas assistencialistas.


A política do autoengano - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 19/08


No PT há mais gente preocupada em ‘desconstruir’ a nova adversária do que em mudar a maneira de governar. Subestimar Marina é erro. Lula já provou desse veneno



O primeiro cenário depois do desastre, mapeado pelo Datafolha, teve o efeito de um bálsamo para candidatos e seguidores aflitos: Dilma Rousseff (com 36%) e Aécio Neves (20%) se mantiveram intactos, e Marina Silva entrou na disputa com preferência (21%) similar à sua votação na eleição presidencial de 2010.

Grande novidade é a mudança no comportamento do eleitorado. Um mês atrás os sem-candidato, por indecisão ou opção, somavam 50 milhões de eleitores (35% ) e agora são 31 milhões (22%). Ou seja, 19 milhões de brasileiros resolveram entrar no jogo.

Esse movimento teve como primeira consequência a afirmação — agora de maneira explícita e majoritária — da vontade de uma eleição presidencial em dois turnos. Pela primeira vez em 18 meses, Dilma perde no confronto com os dois principais adversários — ficou abaixo (5%) da soma de Aécio e Marina.

Isso aconteceu mantendo-se intocado o desejo de mudanças, talvez a característica dessa campanha, expresso por mais de dois terços do eleitorado em sucessivas sondagens.

Candidatos deveriam interpretar como pressão, a 11 semanas do primeiro turno, por urgência na apresentação de ideias objetivas sobre como o país pode avançar em saúde, educação, transporte, segurança e desenvolvimento econômico, sem perder o já conquistado, como o valor da moeda e o controle da inflação.

Ontem, porém, havia mais gente no comando do PT preocupada em “desconstruir” a nova adversária do que em pensar sobre uma nova maneira de governar. É um método de autoengano, porque subestima o adversário.

Lula provou desse veneno no outono de 2008. Na quinta-feira 8 de maio, ele reuniu governadores da Amazônia e ministros, entre eles Marina Silva, responsável pelo Meio Ambiente, na época em conflito com Dilma Rousseff.

Lula anunciou uma nova política ambiental para a Amazônia delegando-a ao ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger. Justificou: “O importante é alguém isento para tocar. A Marina não é isenta...”.

Ela ouviu calada. Ficou até o fim, como se nada houvesse acontecido, com seu peculiar meio sorriso, os passos e gestos comedidos que acentuam sua aparência frágil.

Na terça-feira seguinte, 13 de maio, Lula estava em um almoço no Itamaraty, onde discursaria sobre a Abolição da Escravatura. Um assessor entregou-lhe a carta de demissão de Marina com uma notícia: o texto já estava nos sites de notícias (“Deixo seu governo com a consciência tranquila”, ela dizia).

A ministra demitira o presidente, em público. E Lula foi o último a saber — registraram os jornais, de Porto Alegre a Berlim.

Em setembro passado, Lula previu a impossibilidade de registro do partido de Marina. A decisão seria confirmada pela Justiça dias depois. A maior contribuição para anulação de filiações à Rede partiu dos cartórios eleitorais do ABCD paulista, por coincidência região dominada pelo PT. Ali, a rejeição chegou a 60%. Alegou-se até a ausência “por gravidez” da responsável pelo reconhecimento de firma.

Marina não desistiu, uniu-se a Eduardo Campos. Numa trapaça da História, está aí, de novo. Com todas as suas contradições, mas acompanhada por 19 milhões de eleitores, informa a mais recente pesquisa.

A nova equação eleitoral - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 19/08


A primeira das 20 sessões de propaganda para a Presidência da República no rádio e na TV - duas vezes ao dia, três vezes por semana, até 2 de outubro - começa ainda sob o impacto do desastre aéreo que na quarta-feira matou o candidato Eduardo Campos, do PSB. A ele caberia, por sorteio, iniciar o ciclo. A fração de 2 minutos e 3 segundos a que teria direito, no bloco de 25 minutos, provavelmente o mostrará hoje quando dizia as palavras com que passou à história, nos instantes finais da entrevista que dava ao Jornal Nacional (JN), na véspera da tragédia, e que viriam a dominar o seu cortejo fúnebre, acompanhado por mais de 100 mil pessoas, domingo, no Recife: "Não vamos desistir do Brasil".

Se não por decoro, pelas regras do jogo eleitoral, a sua até então companheira de chapa, Marina Silva, não poderá se apresentar desde já como a sua substituta. Nem herdeira, como decerto haverão de preferir os correligionários do ex-governador de Pernambuco, para mantê-la vinculada às suas propostas (nem sempre coincidentes com as dela) e, mais ainda, aos compromissos eleitorais assumidos pelo partido nos Estados (no Rio e em São Paulo, contra a sua vontade). Formalmente, a ex-senadora só poderá assumir a candidatura da coligação liderada pelo PSB depois de ter o seu nome homologado amanhã pela executiva nacional da legenda e avalizado pela maioria das quatro siglas aliadas, no prazo legal de 10 dias. Na reunião, a cúpula do partido deverá escolher também o nome do vice de Marina.

Isso significa que, na melhor das hipóteses, apenas no dia seguinte ela poderá se dirigir ao eleitorado como aspirante ao Planalto, encarnando a "terceira via" preconizada por Campos para interromper duas décadas de governos ou do PSDB ou do PT. Dos candidatos que contam, Marina é quem menos tem o que apostar no período oficial de propaganda. Tudo computado, contará com apenas 82 minutos, ante 183 de Aécio Neves e 456 de Dilma Rousseff. Mas, em 2010, quando dispunha só de 1 minuto e 23 segundos em cada entrada, a penúria de tempo na mídia de massa foi mais do que compensada pelo boca a boca de seus entusiásticos seguidores e o aluvião de mensagens em seu favor nas redes sociais. Marina obteve surpreendentes 19,6 milhões de votos (ou perto de 18% dos sufrágios válidos), o que a levou ao terceiro lugar na disputa.

Agora, trazida à liça pela força do acaso - ou, segundo ela, pela Providência Divina, a que atribui a sua decisão de não viajar com o titular da chapa no voo afinal acidentado -, Marina já mudou a equação sucessória. Pesquisa do Datafolha realizada nos dois dias seguintes ao acidente deu-lhe 21% das intenções de voto, em empate técnico com Aécio (20%). Ele e Dilma (36%) mantiveram as mesmas posições da sondagem anterior, com 8% para Campos. Nas simulações de segundo turno, a esta altura inevitável, Marina bate Dilma por 47 pontos a 43, no limite da margem de erro. As futuras sondagens dirão se esses números traduzem a emoção do momento ou se exprimem uma migração efetiva dos eleitores até então indecisos ou propensos a invalidar o seu voto: esse contingente, que somava 27% há um mês, caiu para 17%.

Inevitavelmente no centro das atenções do público que acompanhar o início do horário de propaganda, Marina terá de dizer a que vem, já não representando apenas "o novo", como há quatro anos, nem tampouco centrada na causa ambiental. Pelo menos os eleitores que descobriram as ideias do candidato do PSB na entrevista ao JN terão a natural curiosidade de saber o que a aproxima e o que a diferencia do político a quem se aliou no ano passado, quando fracassou em registrar como partido o movimento Rede Sustentabilidade. Marina também terá de se voltar para as questões terrenas dos brasileiros, deixando em casa o misticismo que a levou a dizer, no velório de Campos, que "essas coisas acontecem em nome de algo maior".

O papel do horário eleitoral na definição do voto é discutível, de todo modo. Sem dúvida desperta o público para o pleito, mas não parece decisivo para o seu resultado. Nas quatro últimas eleições presidenciais, ganhou o candidato que já liderava as pesquisas quando começou a temporada. Marina mudará a escrita?

Renda básica: Robin Hood às avessas - FELIPE SALTO

FOLHA DE SP - 19/08


É preciso considerar que a escassez de recursos é uma realidade concreta e exige seletividade nas transferências sociais


O mítico herói inglês, que tirava dos ricos para dar aos pobres, ficaria boquiaberto diante da tese da renda básica de cidadania (ou renda mínima), defendida há anos pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

A renda básica é uma transferência mensal a ser paga pelo Estado a todos os cidadãos --ricos e pobres. Na prática, a adoção de tal política, no Brasil, seria um retrocesso em relação aos consagrados programas de transferência de renda com condicionalidades --Bolsa Escola (no governo Fernando Henrique Cardoso) e Bolsa Família (no governo Luiz Inácio Lula da Silva).

No Brasil, onde a desigualdade é elevada, a saída é óbvia e as evidências empíricas são muito claras: direcionar as políticas públicas àqueles que delas mais necessitam.

Se o governo do PT tivesse seguido a lei nº 10.835, de 2004, a chamada "renda básica de cidadania" já deveria estar sendo paga a todos os brasileiros, sem distinção socioeconômica. O benefício, porém, nunca foi concretizado.

Ainda que a renda mínima seja defendida por economistas importantes como o belga Philippe Van Parijs, à luz do argumento de que o caráter universal do programa ampliaria a liberdade pessoal, é preciso considerar que a escassez de recursos é uma realidade concreta e exige seletividade nas transferências sociais.

A lei --proposta por Suplicy, aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Lula-- promete pagar a todos os cidadãos o mesmo que for pago aos brasileiros mais pobres. É justo? Não.

Seria um grave erro desperdiçar recursos do Estado, que são arrecadados da própria sociedade, quando ainda convivemos com preocupante contingente de brasileiros e de brasileiras sem o mínimo necessário para sobreviver.

Se, hoje, conseguimos identificar a parcela mais pobre da população, com evidente sucesso, e transferir a estas pessoas montantes de recursos importantes, que os ajudam a sair da situação de pobreza extrema, por que defender a ideia de jogar recursos para o alto?

Uma conta simples mostra o grau de desatino da tese. Há 200 milhões de habitantes no Brasil. Se fixarmos um valor de R$ 100 ao mês por habitante (quantia relativamente baixa, quando consideramos que a lei preconiza que o recurso transferido seja suficiente para custear as despesas de saúde, educação e alimentação), o montante necessário para financiar a empreitada totalizaria R$ 240 bilhões ao ano!

Isso corresponderia a 4,6% do PIB, ou a dez vezes o orçamento anual do Bolsa Família. Ainda que a ideia fosse acatada pelo governo, caberia perguntar: de onde sairiam os recursos? De mais impostos, ou de menos gastos sociais?

A classe A representa, hoje, 2% da população brasileira --ou cerca de 4 milhões de pessoas. Isto é, dos R$ 240 bilhões, R$ 4,8 bilhões seriam destinados aos mais ricos da sociedade, que recebem acima de R$ 13,8 mil mensais. Essa pequena parcela da sociedade já detém 17% de toda a massa de renda do país e seria ainda mais beneficiada.

Lição número um da economia: a utilização dos recursos (privados e públicos) deve buscar o melhor resultado possível e a melhor relação de custo e benefício.

Criar um benefício monetário igual para todos é o mesmo que jogar dinheiro pela janela. O correto é adotar políticas seletivas em favor dos mais pobres --isto é, seguir a tendência do Bolsa Escola e do Bolsa Família. Além disso, evidentemente, é preciso criar novas políticas para atender à demanda da sociedade por mais e melhores serviços públicos e garantir ambiente propício à geração de maior número de empregos com bons salários.

A renda básica de cidadania pode partir da cabeça de gente bem-intencionada. Mas nunca é demais lembrar que, de boas intenções, o inferno está cheio.

De como a sorte afeta Dilma e Marina - ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR

O ESTADÃO - 19/08


Num misto de cinismo e sabedoria, o florentino Nicolau Maquiavel pareceu avançar no tempo quando, cinco séculos atrás, produziu algumas afirmações que parecem ajustar-se a fatos da atualidade, como se tivessem sido escritas a respeito do tempo presente. Isso já foi dito tantas vezes e realmente é o que acontece.

Entre suas afirmações, sempre lembradas, está a de que a sorte controla metade do nosso destino, mas permite que a gente controle a outra metade. Quem o lê fica às vezes com a impressão de que ele se divertia com o que afirmava. Assim, dizia, como a sorte é mulher, precisa apanhar bastante para aprender a obedecer. E sempre insistia no pensamento de que é mesmo possível controlar uma parte do nosso destino, ensinando a sorte a nos ajudar.

Maquiavel dava como exemplo um rio caudaloso que, em sua fúria, avança de forma incontrolada, inunda a superfície da terra e causa estragos que a força humana não consegue impedir naqueles momentos. Mas, acrescentava, aos homens cautelosos não é vedada, em termos de calmaria, a possibilidade de agir preventivamente com a construção de diques e barragens. Com isso procurava demonstrar que os incautos, os que confiam unicamente na sorte, acabarão afogados pela inundação. Por isso seria necessário não perder de vista que a fortuna é inconstante como uma mulher e, por ser mulher, é sempre mais amiga dos jovens (o que é novo tem mesmo a finalidade de substituir o que é velho).

Não há filosofia que não desabe diante de um prato de feijoada, mas, pensando nos dias presentes e na campanha eleitoral em curso no Brasil, é curioso observar como a sorte alcança de forma distinta as duas mulheres que se enfrentam na disputa, a presidente Dilma Rousseff e a postulante Marina Silva.

Sim, a lamentável e triste morte do candidato Eduardo Campos apresenta claros reflexos na atuação política e eleitoral de ambas. Percebe-se claramente que a presidente Dilma, por não ter enfrentado de forma adequada a impetuosidade dos rios caudalosos que abalaram a economia do País, não tendo construído os necessários diques e barragens, sofre um desgaste que não viveu quando da campanha anterior. Naquele momento a sorte soprava a seu favor e a beneficiou ao extremo, permitindo-lhe chegar à Presidência da República sem que antes tivesse disputado uma eleição. Já no cargo, passada a euforia dos primeiros meses, ela realmente não teve a cautela de produzir as modificações de que o País necessitava.

Há uma grande diferença entre a forma como se governa e a forma como se deve governar. Agora, em plena campanha eleitoral, a candidata Dilma passou a falar na necessidade de mudanças, e isso é verdadeiro, mas quem sabe se torne um pouco inadequado para ela própria, porque grande parte dos seus eleitores, aqueles que a apoiam, assim agem porque desejam que as coisas permaneçam da maneira com que estão postas. As mudanças seriam coisa da elite branca e da grande imprensa, sempre acusada de estar controlada por reacionários que não aceitam ver o povo no poder.

Em razão da ausência de vigor na promoção de mudanças - sobretudo na gestão pública, na economia e no controle da corrupção, permitindo deixar como tudo está (afinal, foi assim que se elegeu da primeira vez) -, é possível que a candidata Dilma esteja agora vivendo uma insegurança que não esperava. É até mesmo admissível que esteja um pouco assustada com a surpresa que o destino lhe preparou: a morte de seu concorrente Eduardo Campos e o crescimento da posição de candidata de Marina Silva.

Sim, a sorte referida por Maquiavel, que influi no destino de cada um de nós, alcança Dilma e Marina de formas diferentes. A candidata Marina Silva parecia até dias atrás estar condenada a figurar na disputa eleitoral apenas na posição de vice, nada mais. Por força do destino, que de nós levou tão cedo a juventude e o talento de Eduardo Campos, a sua condição de acomodada candidata a vice-presidente agora é outra, diante de uma possibilidade inesperada, que a favorece em todos os sentidos.

Uma enorme estrada se abre aos seus passos e, conforme promova a caminhada, poderá surpreender a Nação e a ela mesmo. Parece claro que a morte súbita de Eduardo Campos produz forte impacto na população brasileira, tornando plausível a presunção de que será capaz de apresentar efeitos no pleito presidencial.

Enfim, o mesmo fato, que a sorte não foi capaz de prever, atinge diretamente as duas candidatas. Não há dúvidas de que a comoção provocada pela morte do pernambucano, tão chocante e tão sofrida, poderá influir nos votos tanto de uma como de outra. É algo, enfim, capaz de alterar a posição dos três principais candidatos à Presidência da República.

Curioso lembrar o que dizia Magalhães Pinto, com a sua conhecida mineirice: "A política é feita de fatos novos". De repente, no curso de uma caminhada, acontece um fato inesperado e tudo o que estava feito parece desmanchar-se, como agora.

É normal, portanto, que as pessoas se perguntem: na corrida sucessória, quem mais se beneficia com o triste fim de Eduardo Campos? Talvez seja possível presumir que Marina Silva seja a mais beneficiada, porque, afinal, mesmo sem o impulso desse fato novo, na eleição passada teve votação expressiva de cerca de 20 milhões de votos.

Daqui para a frente ela vai ter a sua figura humilde destacada perante os olhos das pessoas que votam, com uma particularidade: trata-se da sua segunda candidatura presidencial, agora impulsionada por um fato novo que ninguém esperava, muito menos ela própria. Vamos ver se Marina será capaz de ajudar a sorte.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

CONTRIBUINTE BANCA MAIOR PARTE DAS CAMPANHAS

Enquanto brasileiros reagiam indignados ao “financiamento público de campanha”, discretamente os políticos engordaram o “fundo partidário”, abastecido com recursos do Tesouro. Em 2004, ao ser instituído, o fundo tirou R$124,8 milhões do bolso do contribuinte. Isso foi aumentando até saltar de R$197 milhões, em 2010, para R$ 307,3 milhões, em 2011. Em 2014, a previsão é que vai a R$ 364,3 milhões.

RATEIO DO BUTIM

Do total, 5% do fundo é rateado entre todos os partidos registrados na Justiça Eleitoral, e 95% conforme a votação para deputado federal.

PARTIDOS CARTORIAIS

Vários partidos nanicos, sem qualquer expressão eleitoral, são mantidos pelos seus “donos”, interessados apenas no fundo partidário.

PARTE DO LEÃO

Até julho, os grandes partidos embolsaram a “parte do leão” do fundo: PT (R$ 29,4 milhões), PMDB (R$ 21 milhões) e PSDB (R$ 19,9 milhões).

SEM VOTO, COM GRANA

Nanicos não têm votos, mas fazem festa com o fundo: PTC (R$ 1,3 milhão), PRTB (R$ 773 mil), PSDC (R$ 618 mil) e PEN (R$ 531 mil).

FECOMÉRCIO-MG ADQUIRIU IMÓVEIS SUPERFATURADOS

Investigação de desvios e superfaturamento levaram a juíza Lucimeire Rocha, da Vara de Inquéritos Criminais de BH, a afastar o presidente do sistema Fecomércio-MG, Lázaro Gonzaga, e os diretores do Sesc, Rodrigo Duarte, e do Senac, Luciano Fagundes, aliados do presidente da Confederação Nacional do Comércio, Antônio de Oliveira Santos. Também tiveram os bens bloqueados até o valor de R$ 50 milhões.

TAL QUAL

O Sesc Nacional, de Antônio de Oliveira Santos, é acusado de pagar dez vezes mais por uma fazenda no Mato Grosso.

MP INVESTIGOU

A investigação na Fecomércio-MG foi iniciada em 2013 pelo promotor Eduardo Nepomuceno, de Defesa do Patrimônio Público de BH.

TUDO ERRADO

Além de comprar imóveis sem avaliação oficial, a Fecomércio-MG pagou R$30 milhões antecipadamente, antes do registro em cartório.

NÃO É MARINA

O novo presidente do PSB, Roberto Amaral, continua dando pistas do seu desconforto com a candidatura de Marina Silva. Disse, ontem, que Renata Campos, viúva de Eduardo, “é a maior liderança do PSB”.

ELEIÇÃO NAS REDES SOCIAIS

O perfil de Marina Silva (PSB) no Facebook cresceu 300 mil curtidas, desde quinta passada; tem agora 1,1 milhão de likes. Aécio Neves (PSDB) tem 1,13 milhão de curtidas e Dilma Rousseff (PT), 920 mil.

VIRADA

Experientes políticos acham que Paulo Câmara (PSB) tem tudo para virar a campanha vencer a disputa pelo governo, até como homenagem dos pernambucanos a Eduardo Campos, que o escolheu candidato.

INFORME A FAVOR

Informe de analistas do banco Credit Susse aponta Dilma como a favorita na disputa. Se escrevessem o contrário, seus patrões seriam pressionados a demiti-los, como aconteceu no banco Santander?

NINGUÉM MERECE

Quem reclamava do assembleísmo do PT antes da chegada ao poder, não viu nada. Os chamados “marineiros”, que agem no Rede e no PSB como tutores de Marina Silva, são um pé no saco da objetividade.

ANTIPETISTAS

Estrelas do PMDB, o vice de Dilma, Michel Temer, e Paulo Skaf, que disputa o governo paulista, foram a ato antipetista em Mauá (SP). Era o lançamento da candidatura à reeleição da deputada estadual Vanessa Damo (PMDB), arquirrival de Donizete Braga, prefeito petista de Mauá.

PETISTA ‘HUMILHADO’

Alexandre Padilha (PT) sentiu-se “humilhado” com o critério da Globo de fazer cobertura diária de candidatos acima de 6% nas pesquisas. Padilha deveria se sentir diminuído com o próprio desempenho: ele não passa dos 5%. Mas foi à Justiça para obrigar a Globo a abrir espaço.

EMBATE NO DEBATE

Líder nas pesquisas para o governo do DF, José Roberto Arruda (PR) enfrenta hoje os adversários no debate da Band, inclusive Toninho, do Psol, autor da representação que fez o TRE impugnar sua candidatura.

PERGUNTA DIANTE DA TV

Já que permite que políticos mintam à vontade no guia eleitoral a partir de hoje, o TSE não deveria julgá-los depois por propaganda enganosa?



PODER SEM PUDOR

CONFUSÃO

O falecido ex-governador paulista Franco Montoro trocava nomes e pessoas, mas tentava acertar. Até fazia associações. Por isso, sempre chamava o então deputado Flávio Bierrenbach de "Bierrenbrahms". Associava o sobrenome do ministro aposentado do Superior Tribunal Militar com um certo compositor de Hamburgo (Alemanha), mas novamente trocava Johann Sebastian Bach, nascido em 1685, por Johannes Brahms, de 1833.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Utopia no condomínio - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 18/08


Imagine que você tem alguns vizinhos inadimplentes. Como ser 'legal' com eles?


Todo mundo sabe como reunião de condomínio é um saco. Castigo pra uma noite depois do trabalho. Não é ótimo quando alguém resolve que uma "churrasqueira" (aquilo que faz fumaça e deixa tudo com cheiro de gordura) é um gênero de primeira necessidade?

Muita gente suspeita de que, quando alguém quer ser síndico, é porque gosta de mandar ou tem muito tempo livre ou é muito limpinho ou, pior, está faltando ação na cama. Aliás, quem é muito limpinho é porque não tem mesmo uma boa cama suja.

Penso nesse roteiro abaixo com intenções experimentais. Sempre que ouço pessoas "de boa vontade" (recentemente uma leitora me lembrou esta excelente frase, "desconfiar da bondade dos bons"!) falarem sobre como o mundo seria melhor se fizéssemos o que elas acham que deveríamos fazer, me lembro de reuniões de condomínio --principalmente quando se enfrenta o velho problema da inadimplência.

Todo adulto sabe que o órgão mais sensível do homem é o bolso (menos os mentirosos). Pesquisas recentes mostram que casais toleram mais facilmente adultérios sexuais do que financeiros. Ele até pode comer a secretária, mas se der um apartamento pra ela, é demais. Ela até pode dar pro professor de tênis, mas se ganhar mais do que diz que ganha, aí ele não suporta. O adultério financeiro é mais intolerável do que o sexual, portanto. Que vá o corpo, mas que fiquem os anéis.

Sigamos em nossa proposta de pôr as utopias no laboratório. Como eu dizia, o convívio em condomínios é a prova cabal de que qualquer utopia política é coisa de mau caráter ou iniciante em filosofia. Vejamos.

Imagine que você tem alguns vizinhos inadimplentes. Agora pense, como ser "legal" com os inadimplentes? Alguém na reunião conta que o cara do 41 está com câncer. Como ele nunca vem às reuniões, por razões óbvias, como vocês poderão checar? Pedirão exames via oficial de Justiça? E se for verdade? Dividirão a dívida do condomínio entre vocês? Todo doente terá desconto? Mas a separada do 61, que cuida sozinha de três filhos porque o marido era um traste, pergunta: "Eu já acordo às seis todo dia pra trabalhar e levar meus filhos na escola (a perua escolar está um absurdo!), por que devo arcar com a inadimplência dos outros? E se eu ficar doente? Vocês vão cuidar de mim e meus três filhos?".

Outro devedor, do 11, só sai de casa ao meio-dia. Dizem que é artista, por isso é difícil pagar as contas. Entretanto, trocou de carro recentemente, e você continua com aquele coreano que comprou em quatro anos de parcelamento, cinco anos atrás. Como proceder? Invadir a casa pra ver se ele de fato tem essa "atividade nobre que não vale pelo que se ganha mas pelo serviço que se presta à cultura"? E se for? Vão bancá-lo?

E a família do 52? O marido perdeu o emprego, apesar de a esposa (que já está com aquele rosto opaco de mulher que não bebe há muito tempo) trabalhar como uma louca. Perdoamos a dívida deles? Ou instituímos que todos devem dar uma contribuição para o caixa da família do 52?

Mas o pior mesmo foi a experiência do último inadimplente em questão. A síndica anterior, que era muito magra e silenciosa (vivia com gatos pela casa), conseguiu leiloar o apartamento 43, por que a dívida estava muito alta. No dia do despejo, o zelador conta pelos cantos que a filhinha do casal chorava perguntando porque aqueles homens estavam tirando-a do quarto dela. Dizem as más (ou boas?) línguas que fotos nas redes sociais apareceram com dizeres do tipo: "Parem com a violência nos condomínios!".

Pra completar a pauta da reunião, havia a suspeita de que a moradora do 72, uma gostosa de uns 40 anos, estava dando em cima dos caras do prédio (mesmo os casados!). Como agir sem confessar que você tem preconceitos com mulheres separadas no elevador com seu marido ou que você é um invejoso porque a tal gostosa nunca olhou pra você?

Enfim, imagino que a turma do "vamos fazer um mundo melhor" devia se concentrar em resolver os dramas dos condomínios antes de "fait la morale" (em francês é mais chique) pra cima de nós, que pagamos a conta.

O abutre e o beija-flor - OMAR PERES

O GLOBO - 18/08


Minha amiga teve de vender seu investimento em papéis lastreados por títulos argentinos, pois, caso contrário, passaria dificuldades. Era tudo o que tinha na vida



Tenho uma amiga de 75 anos, italiana, de classe média. Seu banco propôs que ela aplicasse sua poupança (de toda uma vida), de 200 mil euros, em bônus da República Argentina. O banco disse que não havia qualquer tipo de risco. E ela, sem saber dessa possibilidade, investiu. O papel pagava juros de 12% ao ano. Portanto, nada extorsivos.

Tudo ia muito bem, até que... A Argentina dá, literalmente, um calote e comunica aos seus credores (à velhinha minha amiga e milhares de outros iguais) que não tinha mais dinheiro para pagar o que devia. Simplesmente, informou ao mercado financeiro que não tinha como honrar sua dívida. Havia quebrado. Simples assim.

Foi o maior calote já praticado no mundo, desde quando o México declarou moratória nos anos 80, seguido pelo Brasil, de cuja renegociação eu participei como representante de banco brasileiro. Los hermanoscomunicaram que não pagariam mais juros, muito menos o principal. E, depois de longa e desgastante negociação, conseguiram repactuar com os bancos toda a sua dívida externa, com 70% de desconto!

Sabem quem, de fato e exclusivamente, perdeu com essa “decisão soberana” da República Argentina? Não foram os bancos, meros intermediários, mas a minha amiga e milhares de outros aposentados mundo afora.

Resultado final: por necessidade, minha amiga teve de vender no mercado secundário seu investimento em papéis lastreados por títulos argentinos, pois, caso contrário, passaria enormes dificuldades. Era tudo o que tinha na vida.

Sabem por quanto ela foi “obrigada” a se desfazer de seu investimento argentino? Por 20% do valor de face. Em outras palavras, os 200 mil euros que ela investiu no país vizinho viraram 40 mil euros. Ou seja, perdeu 80% de todo o seu patrimônio amealhado em 50 anos de trabalho.

E sabem também quem comprou esse crédito de minha amiga? Esse fundo americano, Elliot, que, imediatamente, entrou cobrando o valor que ela (a minha amiga) de fato investiu, ou seja, 200 mil euros. Esse mesmo fundo que ganhou, recentemente, na Justiça americana o direito de receber 100% do valor de face, obrigando a Argentina a entrar em default novamente.

Daí, vai a minha pergunta: quem é o verdadeiro abutre? O credor americano que cobra o que tem direito a receber ou os governos argentinos que tomaram emprestado esse dinheiro de gente de boa-fé, descontando 70% do valor original? E, pior, é sabido que parte do dinheiro emprestado foi parar em contas numeradas na Suíça...

Você decide. Pra mim, abutres são esses governos corruptos que tomam os recursos emprestados, fazem o querem e, simplesmente, não repagam o que devem, prejudicando e destruindo a vida de pessoas que investiram em boa-fé.

De mais uma coisa, infelizmente, estou convicto: existe um beija-flor nessa história. É a minha amiga, que, inocente, sentiu o cheiro do néctar ao investir na República Argentina, mas, como no conto de fadas, mal sabia ela, tratava-se de uma poção de veneno. O veneno da corrupção e desmando dos estados sul-americanos.

Uma reconstrução inacabada - RUBENS RICUPERO

FOLHA DE SP - 18/08


A diplomacia brasileira pôs abaixo parte do velho edifício sem edificar em seu lugar uma casa nova


A diplomacia de Dilma deixa a impressão de reconstrução que retificou alguns erros da anterior, sem conseguir construir obra própria.

Era claro o que exigia correção: excesso de protagonismo, iniciativas temerárias em áreas distantes das prioridades do país, silêncio em relação a regimes violadores de direitos humanos, inspiração ideológica e sectária da política externa.

Certas mudanças vieram de fatos. A saída de um presidente carismático pôs fim ao protagonismo, enquanto a ruína da imagem internacional da economia brasileira impôs estilo diplomático mais sóbrio.

É mérito da presidente o retorno à defesa dos direitos humanos em situações como a do Irã. Também se deve a ela o esforço de redefinir a relação com os EUA em termos inovadores como o do programa Ciência sem Fronteiras.

Essa aproximação, que deveria culminar com a visita de Estado da presidente a Washington, foi vítima da espionagem da NSA. Não se pode censurar a decisão de suspender a iniciativa até que se restabeleçam condições políticas propícias.

A frustração de elemento importante como esse da reconstrução diplomática cria a sensação de um projeto em que se pôs abaixo parte do velho edifício sem edificar no lugar uma casa nova.

Da obra de demolição, resta intacta a ideologização da política sul-americana. A ela se acrescentaram monstrengos inéditos: a suspensão arbitrária do Paraguai do Mercosul como pretexto para precipitar o ingresso da Venezuela; o lamentável episódio do falso "asilo" ao senador boliviano Roger Pinto.

O que faltou edificar, porém, supera em muito o que ficou sem demolir. Esperava-se que uma tecnocrata objetiva como a presidente imprimisse à diplomacia a busca pragmática de resultados tangíveis.

A colheita é magra: nada se fez para renovar o Mercosul, abalado por crise de credibilidade terminal. O relacionamento comercial com o principal parceiro no bloco, a Argentina, tampouco teve melhora.

A diplomacia perdeu a capacidade até de formular proposta para superar a crise do Mercosul. Não tem outro horizonte além de se agarrar a uma união aduaneira que naufraga sem que o Brasil proponha ao menos um plano para salvá-la.

A mesma falta de imaginação criativa se nota na ausência de um gesto decisivo em direção a países como o México e seus companheiros da Aliança do Pacífico --Colômbia, Chile e Peru.

Somente no apagar das luzes do governo se decidiu retomar negociações iniciadas há mais de dez anos para um acordo de livre-comércio com a União Europeia.

Apesar de anunciada várias vezes, não se conseguiu definir até agora posição negociadora comum nem dar início efetivo às tratativas.

O que salvou a política externa de balanço constrangedor foi a reunião dos Brics em Fortaleza. A criação do banco de infraestrutura e do fundo de reservas veio da capacidade de construir consenso da diplomacia brasileira, ao custo inclusive da renúncia a ambições legítimas.

O resultado exemplifica o que teria sido possível obter se a mesma competência, despida de distorção ideológica, tivesse sido aplicada aos demais problemas.

Vida bem vivida - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 18/08


RECIFE - Obra do destino, que construímos em dimensões visíveis e invisíveis, a morte de Eduardo Campos põe nas mãos de Marina Silva a chance de ouro de conquistar o posto que seu companheiro considerava projeto pronto a ser realizado.

Projeto que Marina viu escapar de suas mãos até pouco tempo atrás e que, agora, vê o destino, de forma sofrida, lhe devolver. Não da forma como desejaria, mas que passa a ser real na avaliação tanto de aliados como até de seus adversários.

Enquanto seu companheiro de chapa era velado neste domingo, Marina era o tema de conversas reservadas nos jardins interiores do Palácio Campo das Princesas, sede do governo pernambucano.

Ao contrário de Eduardo, que tinha projeto viável de governo, Marina é sonhática, vista como inconsistente. Mas, se somar os dois lados, sobe várias casas no tabuleiro eleitoral e pode chegar ao segundo turno, que garante estando na disputa.

Este é o receio de petistas e tucanos, que preferem apostar em seu lado mais frágil, o fundamentalista, para minar o potencial de votos que conquistará com a comoção nacional gerada pela morte de Eduardo.

Marina, fiel a seu estilo, manteve-se distante destes debates e próxima da família. Teve o nome gritado por populares. Sai daqui com o aval de Renata Campos, figura forte revelada ao país nestes últimos dias desde a morte de seu marido.

Apesar da tragédia, surpreendia a todos com sua serenidade. Em rápida conversa, revelou de onde vem tanta força. Olhos para o alto, mirando um ponto indefinido no céu, assim traduziu seu sentimento de perda. "Vai dar uma saudade danada, mas foi uma vida bem vivida."

Frase-síntese de quem começou a namorar com Dudu Campos aos 13 anos, com quem teve cinco filhos ao longo de vinte anos de casamento. Uma história de amor que o país conheceu no seu final. Uma família que daria, com certeza, vida especial ao Palácio da Alvorada.

Energia e infraestrutura - JOSÉ GOLDEMBERG

O Estado de S. Paulo - 18/08


É difícil de imaginar um mundo sem os benefícios da eletricidade e do transporte motorizado. O progresso material da humanidade a partir do fim do século 19 e durante todo o século 20 foi baseado no seu uso crescente sob muitas formas.

Sem eletricidade viveríamos no escuro, sem motores e sem água canalizada, como ainda vivem milhões de pessoas em aldeias na África ou mesmo em algumas favelas brasileiras. Só para dar um exemplo, geladeiras, essenciais para a conservação de alimentos, não seriam possíveis. Sem transporte motorizado, trens, caminhões, automóveis e aviões, ainda estaríamos dependendo de cavalos para a movimentação de pessoas e de mercadorias. Sem ela nossa civilização voltaria ao nível da Idade Média, quando a vida era "curta e brutal", em contraste com a imagem romântica que alguns fazem - como é ainda nas áreas rurais de muitos países do mundo.

A produção de eletricidade e a motorização dos transportes são dois elementos essenciais das sociedades modernas em que vivemos. É preciso, portanto, garanti-los. Isso exige grandes obras de infraestrutura, uma vez que a energia elétrica é produzida, em geral, em usinas hidrelétricas ou térmicas (que queimam carvão ou derivados de petróleo); o combustível para veículos motorizados é também, na quase totalidade, derivado de petróleo.

No Sudeste e no Sul do Brasil, beneficiando-se de uma geografia favorável, a opção preferencial para a produção de eletricidade foi, até agora, a construção de grandes hidrelétricas, que durante um século garantiram energia elétrica abundante e barata. Itaipu é um excelente exemplo desse tipo de usina. Com o petróleo nossa geografia não foi tão favorável e só mais recentemente deixamos de importá-lo graças à exploração no pré-sal - a profundidades cada vez maiores, a grandes distâncias da costa e em depósitos que se situam abaixo de uma espessa camada de sal. Os dois sistemas de produção de energia no Brasil estão atravessando, contudo, uma séria crise, como também ocorre em outros setores da infraestrutura do País, como portos e estradas, e o governo tem-se mostrado incapaz de enfrentá-los, até agora.

No setor de eletricidade, a origem dos problemas foi o abandono gradual, nas últimas décadas, da construção de reservatórios de água que garantissem a sua produção nas usinas hidrelétricas em anos de seca, que, aliás, se estão tornando mais frequentes. Podem-se enumerar várias razões para tal, como a oposição dos ambientalistas, já que grandes reservatórios inundam áreas povoadas ou cobertas de florestas, criando problemas ambientais e sociais. Isso pode ser verdade em países como a Índia, com densidade populacional elevada, mas não é o caso do Brasil.

Mesmo quando os impactos são significativos, como é o caso da Hidrelétrica de Belo Monte, é preciso comparar os custos ambientais e sociais decorrentes dos reservatórios com os benefícios, em geral muito maiores, para populações que vivem a milhares de quilômetros das áreas afetadas.

Além de hidrelétricas, a solução dos problemas de produção de eletricidade passa pelo aproveitamento de outras formas de energia abundantes no País. O bagaço de cana, por exemplo, bem aproveitado, poderia gerar tanta eletricidade quanto a usina de Itaipu. A energia eólica também poderia contribuir com outra Itaipu, mas os problemas de interligação das máquinas às redes de transmissão teriam de ser resolvidos - tem ocorrido, frequentemente, que parques eólicos já construídos fiquem ociosos por falta de linhas de transmissão.

Mais ainda, o amplo sistema de transmissão que integra a rede interligada nacional tem pontos falhos que precisariam ser reforçados para evitar os frequentes "apagões", que se devem a acidentes, ou a erros humanos, ou à falta de manutenção. Muitos "apagões" poderiam ser evitados com a introdução de redundâncias no sistema, algumas de custo elevado, mas que protegeriam a população dos sérios inconvenientes das interrupções no fornecimento de energia elétrica, que atinge de forma particularmente grave certas indústrias e hospitais.

O sistema de leilões adotado pelo governo federal para o aumento da produção de eletricidade, em que todas as fontes (hidráulica, eólica, biomassa, solar) concorrem em igualdade de condições, é também uma das causas dos problemas. Garantir um custo final mais baixo da eletricidade, que é o objetivo dos leilões, revelou-se fruto de uma visão ideológica, e não técnica, da questão. A "modicidade tarifária", nominalmente destinada a proteger os mais pobres, também se revelou um obstáculo para os empreendedores que concorriam com opções novas, como energia eólica e biomassa, e só agora está sendo abandonada.

No que se refere ao suprimento de petróleo e derivados, novamente uma visão equivocada do que se entende por proteger a população de baixa renda se revelou desastrosa para a Petrobrás, que vende gasolina a preços inferiores aos que paga por ela ao importá-la do exterior, uma vez que a produção nacional não é suficiente - por causa dos atrasos nas refinarias - para atender à demanda.

Uma consequência desastrosa dessa política é que a manutenção do preço da gasolina sem reajuste desde 2007 - em nome do combate à inflação - tornou o álcool da cana-de-açúcar (etanol) pouco competitivo em quase todo o território nacional, sacrificando o que se havia tornado o maior programa de energia renovável existente no mundo.

Resolver esses problemas - o que está muito longe de ser impossível - exigirá mais planejamento e menos ideologia. E abriria caminho para a produção da energia necessária para sustentar um novo ciclo de desenvolvimento no País.

Fora de ordem - ELENA LANDAU

FOLHA DE SP - 18/08


Alguma coisa está fora de ordem com as empresas estatais de energia. As ações da Petrobras subiram quase 8% na sexta-feira passada, sem anúncio de novas descobertas nem de ajuste nos preços de derivados.

Essa valorização foi mais uma vez resultado direto do cenário político. A possibilidade da candidatura Marina Silva à Presidência trouxe novo ânimo ao mercado de capitais. O vaivém das ações da empresa reflete diretamente as expectativas dos acionistas minoritários de correção dos rumos na sua administração.

O governo vem impondo às estatais de energia responsabilidades que não são delas. São utilizadas como instrumento de geração de superavit primário e controle da inflação, com a imposição de preços artificialmente baixos para seus produtos.

Política anti-inflacionária e controle das contas públicas e são obrigações do Banco Central e do Tesouro Nacional. O fracasso no cumprimento de suas tarefas transferiu para as estatais parte dessas funções, reduzindo suas receitas e as impedindo de cumprir sua vocação; produzir energia elétrica, petróleo e gás.

Ministros de Estado, na presidência dos Conselhos de Administração, contribuem para essa distorção, impondo políticas que vão contra o interesse dos acionistas. Paradoxalmente, a própria União.

A intervenção do governo vem destruindo as estatais de energia, numa velocidade e dimensão sem paralelos. Desde 2010, a Petrobras perdeu metade do seu valor, e hoje a Eletrobras vale quatro vezes menos. No mesmo período, seus competidores, nacionais ou estrangeiros, registraram ótimo desempenho.

Ganhariam muito mais a União, que nos representa, e sócios minoritários se elas estivessem gerando receitas próprias, investindo em sua atividade principal, criando empregos e pagando dividendos.

O bom resultado não interessa apenas ao "mercado", mas sobretudo ao governo. Em MG, dividendos pagos pela Cemig representaram cerca de 20% dos investimentos nos últimos dez anos. Enquanto isso, a Eletrobras anuncia que pode suspender o pagamento aos acionistas, de novo.

Quando opta por uma atuação do Estado via sociedades de economia mista, o governo sabe que através do mercado de capitais pode ampliar suas opções de financiamento. O que é ainda mais importante em contexto de restrição fiscal como o nosso, onde os aportes do Tesouro são mais difíceis e caros.

Sem o mercado acionário, a capitalização das empresas competiria com recursos de atividades próprias do Estado, como os investimentos sociais.

Não há antagonismo entre a sociedade e o acionista minoritário. Todos ganham com a valorização dessas empresas. Que a venezuelana PDVSA sirva de alerta e não de exemplo.

Democracia depende do jornalismo - CARLOS ALBERTO Dl FRANCO

O GLOBO - 18/08


Não há um único assunto relevante que não tenha nascido numa pauta do jornalismo de qualidade. Os temas das nossas conversas são, frequentemente, determinados pelo noticiário e pela opinião dos jornais. A imprensa é, de fato, o oxigênio da sociedade. As redes sociais reverberam, multiplicam, agitam. Mas o pontapé inicial é sempre das empresas de conteúdo independentes. Sem elas a democracia não funciona.

Arthur Sulzberger Jr., chairman e publisher do The New York Times, sublinhou a importância de uma marca de credibilidade, independentemente da plataforma informativa. “A tradição é a maior qualidade do nosso jornalismo. É a maneira como as coisas são vistas, é a precisão de investigar, são os core values com que trabalhamos. Queremos continuar fazendo algo no qual se pode confiar. Mudar para o mundo digital significa apenas contar com novas ferramentas para fazer exatamente o mesmo. A experiência diária do jornalismo não muda, é essencialmente única”.

O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. Por isso os jornais são fustigados pelos que desenham projetos autoritários de poder. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, escapa à perspicácia do leitor médio. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em ambientes sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite uma máscara de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina. A crise do jornalismo está intimamente relacionada com a perda de qualidade do conteúdo, com o perigoso abandono de sua vocação pública e com sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado. É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, tecnologia, embora se trate de suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética, inovação.

Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante.

As provas de uma teoria - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

VALOR ECONÔMICO - 18/08


O cidadão que ingressa na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente



Aos 72 anos de idade minha visão da economia brasileira parte sempre de uma leitura estrutural dos fatores principais que comandam sua dinâmica. Neste sentido procuro construir um futuro ainda hipotético a partir de movimentos que entendo devam influir progressivamente no comportamento dos mercados. Este é um exercício quase solitário, pois o número de analistas com esta visão da economia é muito menor do que o dos palpiteiros do dia a dia.

Por isto, quando uma pesquisa de campo, como a realizada pelo diretor do Instituto Data Popular - e publicada pelo Valor na sua edição do último dia 13 -, confirma minha leitura do futuro, sinto um conforto muito grande. No final são dados reais caminhando na direção do cenário idealizado por mim há alguns anos. A entrevista de Renato Meirelles trata dos efeitos da formalização do emprego, ocorrida principalmente a partir de 2005 entre os brasileiros das classes D e E.

Este movimento de formalização do trabalho das classes de renda mais baixa no Brasil ocorreu em dois momentos distintos: o primeiro, nos anos seguintes ao Plano Real, quando o número de brasileiros que viviam no espaço do emprego formal passou de 33% do total para 44%. O segundo momento ocorre a partir de 2005, quando a formalização volta a ganhar força e chega a 67% da população agora no final do mandato da presidente Dilma (veja gráfico). Estudo recente realizado pela equipe do Banco Itaú mostra que este processo deve se estabilizar quando atingir 70% da população brasileira, por volta de 2016.

Minha conversão à tese de que vivíamos realmente uma mudança estrutural importante na sociedade brasileira ocorreu em fins de 2008. Afinal o gráfico nesta página, construído pela equipe da Quest Investimentos em 2005, já falava por si mesmo. A partir de 2008 minha preocupação foi procurar entender os efeitos que este novo desenho da sociedade teria sobre as dinâmicas política e econômica em nosso país. Venho fazendo este exercício de forma continuada desde então e, por isto, a matéria do Valor teve um impacto muito grande para mim. Afinal, uma pesquisa de campo, com credibilidade, mostrava que meu exercício de abstração estava correto e que poderia dar um passo adiante - mais ambicioso - nas minhas previsões.

Antes de fazê-lo vou mostrar ao leitor quais as mudanças importantes que a passagem de um brasileiro comum da informalidade para a formalidade econômica traz no seu comportamento como cidadão. Creio ter encontrado uma ideia que resume de forma sintética estas mudanças: o cidadão na economia formal passa a ter um futuro relativamente previsível pela frente. Entendo como um futuro relativamente previsível o fato de ter um contrato formal de trabalho que lhe permite ter acesso, entre outros, a programas sociais como FGTS e PIS/Pasep, ao credito bancário e, principalmente, ao direito de ter seu salário corrigido anualmente com base na inflação passada e, em certos períodos, com um ganho real no valor de seu salário. Apenas o fantasma do desemprego pode mudar este quadro.

A formalização do trabalho, em uma sociedade em que o nível de consumo tem um valor muito forte, responde por grande parte do boom de consumo do segundo mandato do presidente Lula. A sincronia destas mudanças com o aumento da confiança do sistema bancário na economia acelerou ainda mais seu crescimento. Entre 2006 e 2008, as vendas ao varejo nas regiões Norte e Nordeste chegaram a crescer a taxa anuais superiores a 15%. Na esteira deste aumento do consumo seguiu-se um aumento significativo do investimento na medida em que as empresas mais conservadoras passaram a perder fatias de mercado. E a economia brasileira - e o governo do PT - viveram anos de ouro.

Deixo de lado a questão econômica e volto agora a especular sobre os efeitos defasados no tempo que esta formalização do emprego terá sobre a sociedade brasileira. Mais uma vez recorro a entrevista do presidente do Data Popular ao Valor para reforçar minha tese de que a formalização do emprego trará mudanças no comportamento político destes brasileiros e na sua forma de avaliar o Estado. Renato Meirelles cita, por exemplo, o fato de que pela primeira vez estes brasileiros estão encarando de frente os impostos cobrados em seus salários.

"A favela cresceu junto com a economia e esse cara passou a pagar imposto na fonte. Ele não tem noção de imposto indireto. Então, ele não sabia o que era pagar imposto. Agora sabe. Com isso, passa a cobrar mais dos serviços públicos. Deixa de entender serviço público como um favor do governo e passa a entender como uma contrapartida pelo que ele paga. Isso é ótimo. Ele não quer mais cesta básica. Quer plano nacional de banda larga. Não quer dentadura. Quer ProUni".

Esta é uma diferença fundamental para que possamos entender o Brasil dos próximos anos. Quando o cidadão não tem futuro somente o governo pode garantir a ele alguma segurança em relação ao futuro; quando ele passa a ter o emprego formal e começa a pagar impostos ao governo esta lógica se inverte, principalmente na situação em que os serviços públicos prestados pelo governo são de péssima qualidade. Dentro desta ótica fica mais fácil entender a Constituição brasileira de 1988, quando o emprego formal atingia menos de 30% da população. E certamente poderemos esperar que, talvez no fim dessa década, haja condições políticas para sua revisão.

Perdendo mercados - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 18/08


Tendo sido mais afetado do que outros países emergentes pela crise iniciada há seis anos no mundo rico, o Brasil é um dos que menos podem ganhar agora que as economias desenvolvidas começam a se recuperar. O governo petista, quando chefiado por Lula, desdenhou a crise mundial - era só uma "marolinha", dizia ele - e impôs ao País um custo pesado em termos de crescimento, que a sociedade já paga e continuará pagando por algum tempo; na gestão Dilma, agravou problemas antigos e criou novos.

A falta de dinamismo das exportações - notável pela perda contínua dos espaços do produto nacional em mercados tradicionais, como os dos Estados Unidos e da Europa unificada, mostrada pelo Estado (13/8) - é uma das consequências nocivas para a economia brasileira de 12 anos de governo petista.

A presença brasileira nos mercados dos países industrializados, consolidada por anos de relações comerciais profícuas, seria um poderoso instrumento para estimular a atividade produtiva, no momento em que os seguidos incentivos ao consumo doméstico dão claros sinais de esgotamento - os já fracos resultados dessa política se tornam cada vez mais tênues. Mas, por uma série de erros da administração petista - uns decorrentes da má escolha de parceiros comerciais, determinada por interesses ideológicos; outros, de sua incapacidade de avaliar as dificuldades que tolhem a produção -, o Brasil tem poucas possibilidades de utilizar esse instrumento.

No comércio com os 26 países da União Europeia, o Brasil passou de um superávit de US$ 3,2 bilhões no primeiro semestre de 2009 para um déficit de US$ 2,6 bilhões nos primeiros seis meses deste ano.

Há alguns anos, por desinteresse do governo petista nesse mercado, o Brasil é um dos raros países que registram déficit no comércio com os Estados Unidos, que, apesar de sua enorme capacidade de produção, sempre foram um grande importador. O problema é que o déficit mostra tendência de crescimento desde 2009. Há cinco anos, o saldo negativo no primeiro semestre foi de US$ 2,5 bilhões; neste ano, está em US$ 4,7 bilhões.

Os EUA e a Europa recuperaram a capacidade de importação que tinham antes da crise, diz o consultor de empresas e ex-secretário de Comércio Exterior do governo Lula Welber Barral. Mas o espaço antes ocupado por produtos brasileiros está sendo tomado por outros países, sobretudo asiáticos.

O forte crescimento da economia chinesa compensou, parcialmente, a perda das exportações para os países industrializados. Nos últimos anos, a China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil. Mas, embora ainda vultoso, da ordem de US$ 5,5 bilhões no primeiro semestre, o superávit comercial brasileiro no comércio com a China está estagnado.

Movido por razões ideológicas, o governo do PT concentrou a atenção de sua política comercial no Mercosul, que, após a chegada dos petistas ao poder, incorporou a Venezuela então governada pelo bolivariano Hugo Chávez e hoje sob o domínio de seu seguidor Nicolás Maduro. Por um momento, a escolha parecia pouco nociva para a economia brasileira, pois o superávit comercial do País com o bloco cresceu nos primeiros anos que se seguiram ao início da crise mundial. Mas há três anos o saldo positivo vem encolhendo. Depois de ter chegado perto de US$ 4 bilhões nos primeiros seis meses de 2011, o superávit se reduziu para US$ 1,7 bilhão no primeiro semestre de 2014. Em crise, a Argentina, principal parceiro comercial do Brasil no Mercosul, vem reduzindo suas importações, tanto pela desaceleração da atividade econômica como, sobretudo, pelas restrições que o governo chefiado por Cristina Kirchner - que, ainda assim, é tratada com deferência por Dilma - impõe aos produtos brasileiros.

Tolhida por impostos excessivos, infraestrutura precária e falta de mão de obra treinada e prejudicada por políticas públicas que desestimulam a busca de mais produtividade, a indústria está perdendo o mercado que ainda pode abastecer - o Mercosul - e não tem condições de conquistar novos. É o retrato do governo petista.


A Caixa espremida - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 18/08


O governo decidiu usar e abusar da Caixa - o principal banco executor das políticas sociais - para remendar as contas públicas em frangalhos e consertar problemas criados por sua política desastrosa. A história inclui a cobrança de dividendos crescentes e pressões para participação no socorro às distribuidoras de eletricidade. Além disso, desde o ano passado o Tesouro tem atrasado repasses para programas como o Bolsa Família e o seguro-desemprego. A Caixa usa recursos próprios para atender os beneficiários. Quando o dinheiro é finalmente liberado pelo governo central, chega depreciado pela inflação e sem juros. É como se o Ministério da Fazenda dispusesse de um cheque especial sem limite e sem custo para emergências. Essas emergências se vêm tornando cada vez mais frequentes.

Com o atraso nos pagamentos o Tesouro melhora a aparência de suas contas, pelo menos por algum tempo. A contabilidade criativa, usada principalmente para maquiar as finanças públicas no fim do ano, inclui, entre outros itens, o adiamento de vários tipos de repasses. Embora o grande objetivo seja o fechamento do balanço fiscal em dezembro, os truques aparecem durante todo o ano.

O governo continua gastando demais. Ao mesmo tempo, a arrecadação tem sido afetada por incentivos fiscais ao consumo e pelo baixo crescimento econômico. O Tesouro tem recorrido a receitas especiais e a atrasos de pagamentos para tentar obter, pelo menos formalmente, o resultado fiscal prometido. Para 2014, o objetivo é um superávit primário - dinheiro para pagar juros - de R$ 80,8 bilhões para o governo central.

Pressionada pelo Banco Central (BC) a explicar a "discrepância" em suas contas, a diretoria da Caixa recorreu à Advocacia-Geral da União (AGU) para mediar o conflito com o Tesouro. Uma câmara de conciliação foi criada para cuidar do problema, com participação da Caixa, do Tesouro e do BC. "Os trabalhos da câmara podem evoluir para um parecer técnico", informou ao Estado o chefe da AGU, Luiz Inácio Adams.

Se esse parecer for baseado exclusivamente nos termos do contrato entre o Tesouro e a Caixa, o problema permanecerá. Para uma solução, será preciso levar em conta as condições financeiras da prestação do serviço, mas ninguém avançou nesse tipo de detalhe. Por meio de sua assessoria, a Secretaria do Tesouro disse desconhecer qualquer proposta da Caixa para alteração do contrato.

A natureza do problema, no entanto, é bastante clara. Os termos do acordo entre as duas partes seriam muito menos importantes em outra circunstância. O Tesouro está em muito má situação e o governo está perdido no emaranhado de erros da política econômica. Para reforçar a receita fiscal, o governo tem pressionado a Caixa para entregar dividendos maiores que os combinados para este ano. A ideia inicial era entregar apenas metade do ganho disponível, mas o Ministério da Fazenda resolveu mudar o jogo. Agora se espera da Caixa uma contribuição de cerca de R$ 5 bilhões.

Dividendos maiores que os do ano passado já reforçaram as contas do Tesouro no primeiro semestre e o jogo deve continuar. Além disso, o governo espera recolher uns R$ 18 bilhões de pagamentos do novo Refis, o refinanciamento de dívidas tributárias, e mais algum dinheiro de bônus de concessões.

Pressionada para aumentar os dividendos pagos ao Tesouro, a Caixa foi mobilizada também para o socorro às distribuidoras de energia. Determinada há mais de um ano pela presidente Dilma Rousseff, a diminuição das tarifas de eletricidade prejudicou as companhias do setor. Danosa mesmo em circunstâncias normais, essa política foi especialmente custosa porque as empresas tiveram de comprar eletricidade - mais cara - de centrais térmicas. A redução das contas de luz foi duplamente errada: distorceu os preços e estimulou o consumo em fase de restrição de oferta.

A Caixa deve participar com R$ 750 milhões do novo financiamento, de R$ 6,5 bilhões, articulado pelo governo. Um empréstimo de R$ 11,2 bilhões mobilizado em abril já se esgotou e o novo será mais caro. Populismo, voluntarismo e incompetência têm custos altos.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

DILMA ESCONDE TEMER NA CAMPANHA E IRRITA PMDB

Não é à toa que o PMDB se preocupou em organizar estrutura para o vice-presidente Michel Temer nos Estados onde a sigla não apoia o PT. Apesar de cobrar fidelidade, a presidenta Dilma tem escondido Michel Temer em peças publicitárias da reeleição, nas quais ganha destaque apenas o antecessor Lula. O peemedebista não figura em adesivos e materiais distribuídos e mal aparece nos sites de campanha de Dilma.


SUB DO SUB

No site, as referências a Temer estão em local obrigatório, onde os partidos costumam colocar suplentes de senadores, CNPJ, tiragem.


SÓ NA INAUGURAÇÃO

O vice Michel Temer só ganhou destaque, com direito à biografia na primeira página, na inauguração dos sites de Dilma. Depois, nada.


JÁ É UM COMEÇO

Apesar da pouca exposição nos sites, aliados se dizem satisfeitos que, ao contrário de 2010, o vice aparecerá no programa de TV no 1º turno.


QUESTÃO DE ESTRATÉGIA

A assessoria do vice diz que o material com Dilma e Temer é “pensado de forma conjunta e estratégica com o PT”. Ah, bom.


ITAÚ CONDENADO POR LEVAR INVESTIDORA A MADOFF

O Itaú Unibanco foi condenado a indenizar uma investidora que, por indicação do banco, aplicou economias na empresa de Bernard Madoff, mega-picareta norte-americano que aplicou um golpe bilionário, num esquema de pirâmide financeira. O Itaú foi condenado pela 22ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, em sentença que separou o risco, inerente a aplicações financeiras, da fraude.


NEGLIGÊNCIA

O desembargador Roberto Mac Cracken apontou “clara e objetiva desídia e negligência de quem deve orientar a aplicação financeira”.


GOLPE BILIONÁRIO

“Bernie” Mardoff foi condenado a 150 anos de cadeia por haver lesado milhares de pessoas, no golpe estimado em mais de R$ 200 bilhões.


DANOS MATERIAIS

Condenado em segunda instância, o Itaú Unibanco terá de indenizar em R$ 355.349,78 a investidora lesada, por danos materiais.


PÂNICO A BORDO

Encalhou o barco de Lindbergh Farias (PT), com sua candidatura patinando nas pesquisas para o governo do Rio: o PCdoB já cogita apoiar o rival Garotinho ainda no primeiro turno.


REFORMA NECESSÁRIA

A Confederação Nacional da Indústria pressiona para diminuir gastos do Brasil com previdência, que chegam a 12% do PIB. Chegam a 13% nos EUA e Canadá, com população idosa quase três vezes maior.


CAUSA E EFEITO

O mensaleiro José Genoino, que obteve regime aberto antes do previsto, foi beneficiado por lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), garantindo redução de pena por estudos feitos na prisão.


CPMI VIRTUAL

O relator da CPMI da Petrobras, Marco Maia (PT-RS), diz que já reuniu 25,4 giga de documentos colhidos e até analisados tecnicamente por órgãos de investigação e controle como Polícia Federal, CGU e TCU.


SUBLOCAÇÃO

Políticos garantem que o deputado Luiz Argôlo não só teria usado por um ano o helicóptero de Alberto Youssef, como também seria responsável por sublocar o helicóptero a políticos e artistas baianos.


JUNTOS NA CAUSA

Apesar da rejeição a Marina Silva no Mato Grosso do Sul, Fábio Trad (PMDB) acha que a tendência é manter apoio ao PSB, caso seja ela a candidata: “Marina sinalizou que os ideais de Eduardo serão mantidos”.


VAI COM DEUS

A cúpula do PP comemorou a desfiliação no ano passado do deputado Luiz Argôlo (SD-BA) e de Mário Negromonte, que tomou posse no TCM-BA. Ambos são citados no esquema do doleiro Alberto Youssef.


SEM SABATINA

Com a agenda de vários presidenciáveis cancelada, a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) se viu obrigada a desistir de realizar sabatina programada para estas terça e quarta.


CLOROFILOCRACIA

O genial roqueiro e escritor Lobão advertiu para eventual a eleição de Marina Silva presidente: “Teremos uma clorofilocracia evangélica!”