Sábado, Novembro 21, 2009

RUY CASTRO

Duas mariolas

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/11/09

RIO DE JANEIRO - Nos anos 50, tempos de Oscarito, Eliana e José Lewgoy, os filmes brasileiros tinham cláusulas quase obrigatórias: números musicais com Emilinha Borba e Ivon Curi, bandido internacional hospedado no Copa, passeio de carro pela orla, sequência de briga na boate e, em meio aos créditos -que, então, vinham no começo-, a lista de agradecimentos ao comércio, que cedera acessórios para os cenários.
A lista volta e meia incluía a Galeria Silvestre, que comparecera com lustres e abajures; a Casa Neno, com um fogão e um ventilador; o Dragão da rua Larga, com panelas e caçarolas; Sayonara Cabeleireiros, que penteara e fizera as unhas da vilã; a Spaghettilândia, que fornecera pizzas-brotinho para a equipe; o português José Moita, taxista da praça Mauá, que transportara o galã entre o estúdio em São Cristóvão e a locação em Jacarepaguá; e outros.
Eram parcerias inocentes. O comerciante ficava feliz com o nome de sua firma na tela, embora durasse dois segundos, mal dava tempo de ler. Talvez vendesse uma ou duas mariolas a mais, e só. Não era um big negócio.
Meio século depois, o cinema nacional continua precisando dessas colaborações. Para fazer um filme, o produtor leva anos passando o chapéu, só que, agora, em busca de dinheiro vivo. É uma luta dramática e desgastante, e o nome disso é "captação". Em troca, há as "leis de incentivo": o patrocinador ganha isenções, deixa de pagar impostos e ainda tem o nome na tela como benfeitor da cultura.
O filme "Lula, o Filho do Brasil" nem precisou lutar. Estatais, ministérios, bancos públicos, mineradoras, empreiteiras, montadoras, frigoríficos, fabricantes de cerveja, de cigarros etc. se atiraram à passagem do chapéu e até dispensaram as leis de incentivo. E cada "doador" lucrará mais do que duas mariolas.

JOSÉ SIMÃO

Terror! Dilma em "Lula Nova"!

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/11/09

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Fernanda Young diz que se arrependeu de ter posado nua. Kibeloco: "Imagine quem comprou a revista". E diz que o Palmeiras tá como guaraná de dois litros, chega na metade, acaba o gás! E posso fazer uma pergunta pra Geisy da Uniban? Quando ela vai lavar aquele vestido rosa?! Acho que se lavar, encolhe. Ou seja, desaparece.
E o megassucesso filme de vampiro "Lua Nova"? Diz que vão fazer uma versão 2010: "LULA NOVA"!
Com a Dilma no papel de vampira! Filme de terror. "Lula Nova"! Depois de "Lula, o Filho do BARRIL"! E mais um: "2 Filhos do FHC". E aquele filho do FHC com a jornalista da Globo podia voltar pro Brasil e pegar uma ponta em "Malhação".
E o Lula extradita ou não extradita o terrorista italiano?! O único italiano que o Lula odeia é o Paolo Rossi. Que tirou o Brasil da Copa de 82. E o único italiano que a gente ama é o Baggio. Que errou o pênalti e viramos tetra. E o único italiano que eu amo é o Armani! E uma amiga disse que o único italiano que ela ama é qualquer italiano. Extradita pra cá que eu boto em prisão domiciliar.
E tão dizendo que o Lula devia extraditar o Sarney! Quero ver o Berlusconi aguentar. E eu já disse por que o PT não quer extraditar o Battisti. Ele é da facção Proletários Armados pelo Comunismo, PAC! É pai do PAC! E Lula é o Filho do Barril! E tá bombando no YouTube o vídeo da Valeria Mattos, "KOMBI BRANCA"! "Fuscão Preto", "No Meu Crossfox" e, agora, "Kombi Branca". Terrorismo da Volks! Comentário de um cara: "Sabe de quem é a culpa? Das Lojas Americanas, que insistem em vender câmera digital em dez vezes. Maldita inclusão tecnológica". E outro: "Quero saber se ela tem mais músicas como fusca preto, brasília amarela e mais latas velhas". Boa ideia. Vou gravar o clipe "Minha Lata Velha". E jogar no YouTube. É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.
Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Contendas do Sincorá, na Bahia, tem um inferninho chamado Matéria Paga! Ueba! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil E atenção! Cartilha do Lula.
O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Hecatombe": um monte de companheiro numa kombi! Branca. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. (Folha de São Paulo)

GOSTOSA

ALEXANDRE BARROS

E os pobres, ministro, como ficam?

O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/11/09


Quando legisladores começam a legislar sobre compras e vendas, a primeira coisa que se compra e vende são legisladores, diz o economista-humorista libertário norte-americano P. J. O"Rourke.

Moedas são mercadoria como qualquer outra. Compram-se e vendem-se dependendo da confiança dos compradores, como confiam na qualidade e durabilidade de uma geladeira ou de um televisor. É a confiança ou desconfiança que define se pessoas, empresas e governos devem ter suas economias em dólares, libras, euros ou yuans.

Na ascensão de Hitler (e em seu apogeu), pessoas que acreditavam no "Reich de mil anos" trocaram os seus caraminguás por marcos alemães. A derrota da alemã deixou-as sem nada, nas mãos e nos cofres.

Em países instáveis as pessoas livram-se das moedas nacionais em favor de outras, pela confiança. Creem que numa crise a moeda que escolheram (e o país que a emite ou o regime político que a sustenta) triunfará. Não há outra razão para o governo da China e milhões de pessoas não-norte-americanas amealharem e guardarem um monte de papel pintado de verde, comumente chamado dólar. Guardar moedas, para quem não negocia com elas, tem a vantagem da divisibilidade infinita. Pode-se comprar ou vender de um dólar a muitos milhões.

Os ricos de verdade defendem suas fortunas no atacado, e não no varejo. Eles não dão muita importância a moedas. Operam com o ouro, que é muito mais palpável, mas muito mais complicado de negociar. Se você quer saber a temperatura de uma crise política, comece a acompanhar o preço do ouro.

Considerando o preço do ouro na época da primeira eleição do presidente Lula, ele ficou quase inalterado. Quando os primeiros sintomas da crise mundial de 2008 apareceram, o ouro deu um pulo. Quase dobrou. Começou a baixar devagar. Tradução: os ricos de verdade já não tinham medo de Lula em 2002, mas ficaram muito amedrontados com a crise que avançava rapidamente em 2008.

A declaração do ministro da Fazenda na Fiesp - que tem um presidente do Partido Socialista, caso único, que eu saiba, em países capitalistas - de que o preço ideal do dólar é R$ 2,60 é uma quase-legislação de um funcionário graduado do governo num mercado que já provou que funciona bem sem interferências. Suas consequências são muito graves e pouco claras à primeira vista. E o pior, sobre compra e venda de uma mercadoria que afeta todos os outros preços. As exportações brasileiras ficarão mais baratas para os consumidores estrangeiros: com a mesma quantidade de dólares comprarão R$ 2,60 de produtos brasileiros, e não mais apenas R$ 1,70. Bom para exportadores.

Já que perguntar não ofende: o ministro é do Brasil ou dos exportadores?

Na teoria econômica do ministro não vigora que quando se muda artificialmente o valor de uma moeda estrangeira, ainda que os exportadores possam vir a ganhar mais, todos os outros cidadãos, os não-exportadores, passarão a pagar mais caro pelos produtos importados (ou que têm partes ou insumos importados)? No mundo globalizado isso é corriqueiro. Você não precisa comprar nenhum produto estrangeiro para que ele tenha componentes importados. Sua calça pode ter o pano, a tintura, as linhas, os botões ou o zíper estrangeiros ou com componentes estrangeiros.

Quando o governo interveio artificialmente no câmbio, na gestão de Gustavo Franco no Banco Central, todo mundo passou a consumir frango à vista e Orlando a prazo. O objetivo era baixar a inflação. Mas essa política teve um custo: queimamos reservas para defendê-la.

Tanto em contabilidades nacionais como em contabilidades privadas, as contas têm de fechar: o que se gasta tem de ser igual ao que se ganha, ensinou-nos Frei Luca Pacioli, o inventor da contabilidade. A diferença do setor privado é que o país não vai à falência, mas seus cidadãos ficam mais pobres ou mais ricos em sua capacidade de consumo.

A interferência do ministro no mercado do dólar contraria os interesses dos consumidores brasileiros, beneficiando só um grupo muito específico.

Os problemas sérios dos exportadores não estão no câmbio. Estão nos impostos, no emaranhado burocrático da exportação e no difuso custo Brasil, que vai da corrupção burocrática à infraestrutura falida, que quebra os eixos dos caminhões e encarece o produto brasileiro.

Impostos até servem para sustentar coisas boas, mas também pagam o Estado aparelhado com correligionários, as despesas do Senado e outras coisas que você, leitor, encontra diariamente nos jornais. Finalmente, estão na simples incapacidade empresarial de alguns exportadores de produzir seus produtos a preço menor.

Resumindo, não é fácil ser exportador e ganhar dinheiro, no Brasil. Mas daí a mudar artificialmente o valor do dólar apenas para beneficiar os exportadores, em prejuízo de todos os demais brasileiros, vai uma grande distância.

A política proposta pelo ministro "protege" o cidadão brasileiro contra produtos estrangeiros mais baratos. E esse não parece ser o objetivo do governo do presidente Lula, que diz todos os dias que a prioridade do governo é a erradicação da pobreza.

Há uma cacofonia entre a fala do presidente e a do ministro da Fazenda. Enquanto o ministro se contentava em dizer platitudes, era perfeito, porque não afetava nem interferia na parte séria do governo. O Ministério era uma espécie de mimo dado a um amigo de lutas passadas.

No momento, entretanto, em que o ministro acha que faz parte de suas tarefas imiscuir-se na política cambial do País para beneficiar um grupo específico, em detrimento de todos os brasileiros, sobretudo os pobres, as coisas ficam muito mais sérias.

A desvalorização beneficia a ineficiência dos exportadores.

Alexandre Barros, cientista político (Ph.D.- University of Chicago) é diretor-gerente da Early Warning: Análise de Risco Político (Brasília)Email: alex@eaw.com.br

MERVAL PEREIRA

Os caminhos do voto

O GLOBO - 21/11/09

Trabalho coordenado pelo cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, publicado na edição de novembro da revista Alceu, que analisa os resultados da eleição presidencial de 2006 no Brasil à luz das mudanças na geografia eleitoral dos partidos, tem conclusões que servem para uma análise prospectiva com relação à sucessão de Lula, e uma certeza: nenhum candidato ganha ou governa sem algum grau de compromisso com um Brasil que tem voto e representação política, e é composto por “estruturas de poder” definidas: as oligarquias nos grotões, os pastores pentecostais, os políticos populistas na periferia e a classe média urbana escolarizada.

O estudo mostra que o pragmatismo tomou conta da política brasileira, e que todos os políticos competitivos foram seguindo a mesma lógica, a de levar em consideração as estruturas de poder existentes no território onde se dá o embate eleitoral.

Quem ganhou as eleições dos últimos 20 anos — Collor, Fernando Henrique, e Lula — fez os mesmos acordos políticos.

O professor Cesar Romero Jacob registra que Collor entendeu isso antes de todo mundo, num movimento individual, provavelmente convencido por Marcos Coimbra, do instituto de pesquisa de opinião Vox Populi que, tendo estudado nos Estados Unidos, aprendeu a entender a importância do território.

Há 20 anos, a queda do Muro de Berlim aconteceu em 9 de novembro, o primeiro turno da primeira eleição presidencial direta depois do período militar foi a 15 de novembro e o segundo turno a 17 de dezembro.

“Exatamente no momento em que o mundo estava mudando, ele apresentava o Lula como um jurássico, defensor de um mundo que está caindo, e ele como o arauto da modernidade”.

Mas fazia acordos com as oligarquias de onde provinha.

Na eleição de 1994, o Plano Real foi um elemento fundamental, mas, ressalta Romero Jacob, quando são analisados os mapas eleitorais de Fernando Henrique, vê-se que são uma repetição dos mapas de Collor.

Quando Fernando Henrique se aliou ao PFL, recebeu muitas críticas, mas ele vai ter o apoio das oligarquias — andou de jegue no sertão, comeu buchada de bode — e ao mesmo tempo tinha um discurso sedutor para a classe média, e o Plano Real, modernizante, que era mais do que um discurso.

Ao contrário da maioria das análises, Romero Jacob acha que Fernando Henrique precisava do PFL não apenas para governar, mas sobretudo para ganhar a eleição também.

Para ele, Lula, Brizola e Covas em 1989 faziam política ao estilo pré-64, que é o de convencer o eleitor de que as suas posições são as mais corretas.

Collor introduz a pesquisa qualitativa na política eleitoral, que vai dizer aquilo que o eleitorado médio quer ouvir. “Convencer o eleitor daquilo que ele já está convencido”.

O trabalho dos pesquisadores da PUC mostra que todos os candidatos, se quiserem vencer a eleição, precisam do apoio das máquinas eleitorais no interior do país.

“Lá há outro tipo de formador de opinião. Há lugares em que Collor e Fernando Henrique tiveram 90% dos votos, não há opinião dividida”, analisa Jacob.

A partir de 2002, todos, inclusive Lula, aderem a esse modelo. O mapa eleitoral da Heloísa Helena mostra que ela não existe no interior do país, é um voto de capital, o mesmo acontecendo com o Cristovam Buarque.

A diferença do Lula de 2002 para antes é que o PT se torna pragmático, diz Romero Jacob.

Ao atingir 1/3 do eleitorado, vai para o centro.

“Quando você pega a série histórica toda, repete-se a mesma situação: cerca de 46% do eleitorado está nos municípios pobres do interior, e aí o que vale é a máquina eleitoral oligárquica, que trabalha uma população carente, com baixa escolaridade”, diz.

Na periferia metropolitana pobre, o peso maior é do político populista e do pastor pentecostal. A classe média urbana escolarizada é a minoria, onde há mais diversidade de opinião.

Lula perdia nesses dois primeiros segmentos da sociedade, e passou a ganhar em 2002. Das eleições de 1989, 1994 e 1998, fica claro que houve uma troca de eleitorado em relação a 2002.

Na análise de Cesar Romero Jacob, “a diferença entre a votação de Lula entre 2002 e 2006 mostra que as oligarquias do Nordeste foram superadas pelos programas sociais do Lula”.

Isso porque em 2002 Lula cresceu em relação às suas votações anteriores com o auxílio de oligarcas que haviam rompido com o governo tucano, como Antônio Carlos Magalhães e José Sarney. Mas em 2006, ele já assumiu o controle desse eleitorado dos grotões, com o Bolsa Família.

Não seria mais correto dizer que as oligarquias se reciclaram, e que o governo passou a fazer com o Bolsa Família o que os coronéis faziam antes? O governo não seria, como acusam alguns, um coronel eletrônico, pósmoderno? Ele acha que mudou a lógica, com o governo aportando recursos diretamente às pessoas, e não mais aos políticos.

Ele diz que essa postura vem desde o governo do Fernando Henrique, quando dona Ruth Cardoso, com o Comunidade Solidária, cria o Bolsa Escola, e havia outros programas como o vale-gás, o vale-alimentação, “o que de algum modo começava a quebrar o poder das oligarquias”.

No caso do Bolsa Família do governo Lula, essa lógica foi alterada em parte, pois o cadastramento é feito através dos prefeitos. Segundo Romero Jacob, as oligarquias locais se reciclam, e as regionais se enfraquecem.

No estudo do resultado de 2006, ele faz a ligação entre a vitória dos partidos de esquerda em 9 estados do Nordeste, — PT ganha 3, PSB ganha 3 e o PDT, 1 — e a decadência das oligarquias, com Antônio Carlos Magalhães, que fica contra Lula, e Sarney, que fica a favor, os dois perdendo as eleições. Hoje, seriam as oligarquias tradicionais que precisam do apoio de Lula.
(Continua amanhã)

GOSTOSA


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MÍRIAM LEITÃO

Ele vai, por que não?

O GLOBO - 21/11/09


Caetano é assim mesmo. Crítico dos críticos, opiniões ferinas, ideias densas e franqueza extrema.

Que país não precisa de alguém assim? Ele avisou a que vinha logo no começo da sua rica e produtiva vida artística: “Eu vou, por que não?” Mesmo quando discordo dele, Caetano me faz pensar. E pensar é sublime. Caetano tem um jeito.

Ele foi desta vez num nervo exposto

Ninguém pode falar que Lula estudou pouco. Só Lula pode proclamar isso o tempo todo. Ele transforma seu sucesso em vitórias de quem não estudou sobre quem estudou. Uma estranha luta de classes. De aula.

De um lado os bons, os que não estudaram. De outro os insensíveis e incompetentes, os que estudaram. É isso que está implícito nos discursos. Confira as palavras dele, ditas na sextafeira, dia 6, no dia seguinte ao da entrevista de Caetano a Sonia Racy, numa crítica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: — Um intelectual ficar assistindo a um operário que tem o quarto ano primário ganhar tudo o que ele queria ter ganhado e não ganhou por incompetência é muito difícil mesmo.

Se tivesse sido só essa vez, era a briga política apenas.

Mas ele em vários contextos, inúmeras vezes disse algo semelhante, como: “Tem gente que pensa que inteligência está ligado à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Nada mais burro que isso.” Em outro: “Vão morrer sem entender por que um metalúrgico que não tem diploma universitário é capaz de fazer mais do que eles.” Enfim, a lista é interminável; a mensagem, a mesma: estudar não faz diferença.

Imagina o impacto disso na cabeça de milhões de crianças e adolescentes no Brasil! Estudar para quê? Se Lula é tudo isso, respeitado aqui e lá fora, e tem apenas o quarto ano primário? Saber inglês para quê? Se Lula vive dizendo que não precisou de inglês para chegar aonde chegou? Isso é perigoso.

É mandar os jovens andarem na contramão da era do conhecimento.

A formatura como torneiro mecânico, que emocionou a dona Lindu, era uma estupenda vitória para a família, num país que sempre desprezou a educação dos pobres. Lula foi, de início, vítima dos mesmos erros educacionais do Brasil que ferem outros jovens. As estatísticas permanecem sendo vergonhosas. Entre os 20% mais pobres, a escolaridade dos homens é hoje de menos de cinco anos. Lula é filho inicialmente desse Brasil que não incluiu os pobres na escola. Depois, a militância sindical foi abrindo portas para ele. Muitos outros brasileiros, quando tiveram chance, ainda que mais tarde, voltaram a estudar.

O que o levou a fazer as opções que fez é assunto privado. O que é assunto de todos é a mensagem que passa.

Lula deveria usar sua liderança para dar o incentivo oposto ao que tem dado nas inúmeras ocasiões em que elogiou-se por ter estudado pouco e conseguido tanto.

Não há essa relação causal: ele conseguiu tanto porque estudou pouco. A causa do seu sucesso é outra: ele foi tão longe, apesar de ter estudado tão pouco, porque é inteligente e persistiu.

O presidente outro dia falou uma palavra mais difícil e depois brincou que Caetano não ia mais chamálo de burro. Louve-se seu bom humor, mas Caetano não disse isso. Na mesma entrevista ele disse que: “Ter tido Fernando Henrique depois Lula é um luxo.

Ambos saíram melhor do que a encomenda.” Na mesma entrevista, ele elogia as decisões de Lula na área econômica, como melhores do que as que José Serra tomaria se tivesse sido eleito em 2002.

Caetano contrapôs ao exemplo dele o da senadora Marina Silva. E de novo acertou.

Como Lula, Marina veio da extrema pobreza. Teve ainda mais obstáculos no caminho da escola. Alfabetizouse com 17 anos ao ir para Rio Branco tratar-se das enfermidades múltiplas que teve na infância. E nunca mais parou de estudar.

Numa entrevista que fiz com Marina Silva, perguntei como tinha conseguido se alfabetizar no Mobral tão tarde e, mesmo assim, ter chegado à universidade. “Quando vejo uma fresta eu passo por ela”, me respondeu. A história de Marina com a escola é inspiradora, seu exemplo é soberbo e deve ser exibido aos jovens do Brasil. E, como disse Caetano, ela tem fala elegante, bonita. “A vitória ou a derrota se mede na história”, disse ela, quando saiu do ministério. Agora, que incluiu a questão ambiental e climática no programa de todos os candidatos, e nas decisões do governo, quem discordaria que a frase, além de bonita, foi profética? O que me incomoda nas críticas veladas ou explícitas ao Caetano é, primeiro, que pouca gente se deu ao trabalho de ler toda a entrevista e entender a complexidade da mensagem que ele passou. Segundo, esse clima de endeusamento do presidente. Na carta que ele escreveu ao “Estadão”, Caetano fala desse veto a tudo que não seja “adulação a Lula”. Não existe tema tabu, e é bom ter um Caetano no país para, com sua irreverência, avisar que é proibido proibir. E o aviso dele veio em boa hora. O filme que projeta Lula como o herói sem defeitos vai para as telas exatamente quando ele precisa do mito para transferir votos para a sua candidata.

Outro dia sonhei com dona Canô. Do nada, sonhei com ela. Não a conheço, não tive esse imenso prazer, mas quem não ama dona Canô? Também amo. No sonho, conversava com ela sobre as sapatilhas de princesa que ela ganhou no aniversário de 100 anos. Em entrevista ao GLOBO, ela discordou do Caetano, mas avisou que não puxaria a orelha dele, sendo a única que teria esse direito. “É o jeito dele”, disse.

O jeito dele faz bem. Sacode, faz pensar, provoca, incomoda, fica na memória, divide opiniões. Isso é bom, esteja você de que lado estiver.

Caetano vai ser sempre assim. Por que não?

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Espólio do PT

FOLHA DE S. PAULO - 21/11/09

SÃO PAULO - A se confirmarem as previsões, José Eduardo Dutra deve ser eleito amanhã o novo presidente do PT. Sindicalista, senador por Sergipe entre 1995 e 2002, ex-presidente da Petrobras e da BR Distribuidora, ele representa o establishment petista. É o candidato de Lula, de Dilma Rousseff, do atual presidente, Ricardo Berzoini, e do ex (quase tudo) José Dirceu. A chance de um segundo turno contra esse bloco de poder é reduzida.

Seja qual for o resultado, o roteiro do PT para 2010 está traçado. A candidata à Presidência já foi definida à revelia do partido, por quem de fato manda e apita: Lula.
Dilma é quase cristã-nova no PT -ingressou ali em 2001, vinda do PDT-, além de principiante no "grand monde" da política nacional. Até a crise do mensalão, era uma desconhecida do público.

A eleição no PT se tornou irrelevante? No mínimo, bem menos importante do que já foi, como o próprio partido, que, a despeito do seu tamanho e presença institucional, é hoje uma espécie de agregado do lulismo, disputando com os aliados migalhas e favores do grande pai.

O PT nasceu, em 1980, como catalisador de demandas sociais, enraizado no sindicalismo, nos movimentos populares, na igreja e na intelectualidade progressista. Foi instrumento e caixa de ressonância de muitos avanços democráticos.

A conquista progressiva do poder, porém, se confunde com o processo de burocratização do partido, do qual Zé Dirceu foi o artífice e condutor. O PT que patrocina a realpolitik, distante das ruas e incrustado no Estado, esgotou seu papel transformador. Com o mensalão, esgotaram-se também suas reservas éticas. A popularidade de Lula serviu de pretexto para que o partido tentasse reescrever o passado à moda stalinista: "Que mensalão?!".

Por isso tudo, o ritual de renovação da diretoria petista, além de ser pouco importante, tem um forte ingrediente farsesco. Unido, o PT afia os dentes para brigar nos pós-Lula pelo único patrimônio que lhe terá restado: o espólio do lulismo.

JAPA GOSTOSA

MORRE UM FILHO DA PUTA

Ex-prefeito Celso Pitta morre aos 63 anos em São Paulo

O ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (PTB) morreu neste sábado (21) aos 63 anos. Ele estava internado no hospital Sírio-Libanês, onde fazia tratamento contra um câncer no intestino.

Em janeiro deste ano, o ex-prefeito foi submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino e, desde então, fazia tratamento com quimioterapia no hospital.

Afilhado político do deputado Paulo Maluf (PP), Pitta administrou a Prefeitura de São Paulo no período de 1997 a 2000. Sua gestão foi marcada por uma série de denúncias. A principal delas foi o esquema de corrupção batizado de "escândalo dos precatórios".

Ele acabou afastado do cargo por 18 dias --sendo substituído por seu vice-prefeito, Regis de Oliveira--, mas retomou o cargo em seguida. Concorreu a deputado federal e perdeu em duas ocasiões, mas manteve sua filiação ao PTB.

Em julho do ano passado, Pitta foi preso pela Polícia Federal durante as investigações da Operação Satiagraha, que investiga crimes financeiros atribuídos ao banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. O ex-prefeito e os demais investigados presos foram soltos depois.

A investigação da PF resultou em uma denúncia do Ministério Público Federal, que acusou Pitta por corrupção passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa. Todos os pedidos foram integralmente aceitos pela Justiça Federal.

CLÓVIS ROSSI

Parole, parole, parole

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/11/09


Casos de Honduras e de bases mostram que o Brasil precisa aprender que a diplomacia não pode ser apenas retórica

TÍTULO DA CAPA desta Folha ontem: "Abbas quer que Lula peça ao Irã fim de apoio ao Hamas".
É indiferente ou inócuo Lula atender ou não o pedido do presidente da Autoridade Nacional Palestina. Peça ou não peça algo ao Irã, é óbvio que não haverá mudança de posição. A diplomacia presidencial tem-se caracterizado, recentemente, por uma quantidade de pedidos que não levam a nada.
Não se trata de negar o avanço considerável que o Brasil está tendo na cena internacional. Sou, aliás, testemunha ocular desse avanço, talvez a mais presente, pelo tempo de estrada no acompanhamento de atividades internacionais de autoridades brasileiras.
O problema é que está na hora de criar condições para que as palavras sejam acompanhadas de ações e soluções.
Não basta o presidente ameaçar telefonar "ao Obama" (ou "ao Sarkozy" ou "ao Hu Jintao" ou a quem seja), cada vez que surge um problema, nas negociações do clima, na Rodada Doha, onde for.
Não basta tampouco soltar caudalosos documentos oficiais que nem quem os assina lê na íntegra.
Exemplo: o comunicado conjunto Brasil/Argentina, a propósito da visita desta semana de Cristina Kirchner, tinha 5.713 palavras, sem contar uma declaração conjunta e uma lista de atos.
Boa parte dos parágrafos começa com "reiterar" ou "reafirmar", sinal óbvio de que as partes nada tinham de novo a dizer.
Caso de Honduras, por exemplo: Brasil e Argentina "reiteram sua enérgica condenação do golpe de Estado" e "reiteram", também, que "não reconhecerão o resultado de eleições conduzidas pelo governo de fato".
Bonito, mas e daí? Os dois governos, além de todos os outros das Américas, passaram os cinco meses mais recentes a "reiterar" essas posições inutilmente. Foi preciso que os Estados Unidos entrassem em ação para quebrar o impasse, que, no entanto, se reinstalou porque o Congresso hondurenho fez corpo mole e não aprovou a volta de Manuel Zelaya ao poder.
Não seria o caso, então, de Brasil e Argentina apresentarem alguma proposta, tipo adiamento das eleições, para que possam se dar com Zelaya restituído?

Bases na Colômbia
Vale idêntica cobrança para o caso das bases que os EUA poderão usar na Colômbia, que serviu de pretexto para uma ofensiva da Venezuela (igualmente retórica, aliás). Lula e Cristina Kirchner "reiteraram" que querem garantias de que as bases não serão usadas para operações além das fronteiras colombianas.
Pura retórica: nenhum acordo no mundo dirá algo como "sim, pretendemos doravante atacar nossos vizinhos".
É sintomático que o ministro equatoriano da Defesa, Javier Ponce, tenha admitido, na quinta-feira, que "a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) não conta com os instrumentos necessários" para atuar em situações de crise como a que se criou entre Colômbia e Venezuela.
Por enquanto, acrescentou, é apenas "uma grande vontade política de avançar na integração e na paz". Palavras, palavras, palavras.
por lindas que sejam. É óbvio que diplomacia é também retórica. Mas não pode ser só retórica.

FERNANDO RODRIGUES

Crime e perdão

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/11/09

BRASÍLIA - Um bando de celerados sequestrou o empresário Abílio Diniz em 1989. Pediram US$ 32 milhões para libertar o dono do Pão de Açúcar. Presos, alegaram estar praticando uma ação política. Alguns haviam recebido treinamento de guerrilha em países da América Central. O dinheiro seria para fazer revolução mundo afora.
Mas o Brasil estava em festa com a sua primeira eleição presidencial direta pós-ditadura militar. Era um despautério praticar sequestros de cunho político num país em plena democracia. O delito foi considerado crime comum.
Chamou a atenção entre os dez sequestradores um casal de canadenses. Caucasianos e ingênuos, encarnavam a teoria do bom burguês -riquinhos fazendo revolução num país pobre. Foram parar no Carandiru, condenados a 28 anos.
As famílias do casal contrataram lobistas. Torraram US$ 500 mil. Induziram o Brasil a assinar um tratado internacional com o Canadá: condenados dessas duas nacionalidades poderiam cumprir pena em seus países de origem.
Em 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, patrocinador do acordo, concedeu o benefício ao casal de canadenses. Os dois foram expulsos do Brasil para obrigatoriamente (sic) cumprir o restante da pena no Canadá. Meses depois, já estavam soltos.
A memória desse episódio é útil agora por causa da agitação sobre o caso do italiano Cesare Battisti, condenado em seu país pela participação em quatro assassinatos. Ele quer ficar no Brasil, dizendo ser perseguido político. O Supremo Tribunal Federal rebarbou a tese e determinou a sua extradição.
Mas o STF deu a Lula o poder final de extraditar o italiano. Se mantiver Battisti no Brasil, não será o primeiro presidente a perdoar um criminoso comum que alega ser preso de consciência. Afinal, o tucano FHC já concedeu liberdade a sequestradores canadenses.

GOSTOSA


DIRETO DA FONTE

Yes, they can

SONIA RACY

O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/11/09

Cresce, de modo surpreendente, a importância do Brasil para os estrangeiros.
Jamie Dimon, CEO do JP Morgan Chase - único banco americano a surfar na crise - esteve discretamente no País esta semana, para visitar clientes e apresentar seu braço direito, Jes Staley, cuja mulher é brasileira.
E aproveitou para comentário bem-humorado. Disse que, ao pagar este ano os US$ 25 bilhões integrais que lhe emprestou o Tesouro americano, lembrou a Tim Geithner - o dono do cofre - que de um ano para cá o banco emprestou US$ 200 bi ao mesmo Tesouro. "Perguntei a ele: agora sou eu que quero saber onde vocês estão gastando..."

Voando visual

Marcel Telles, da Inbev, não se deixa contagiar pelo extremo otimismo mundial em relação ao Brasil, mas tem poucas dúvidas de como será a economia nos próximos 18 meses: só céu de brigadeiro.
"A não ser que aquela profecia dos maias, de que o mundo vai acabar em 2012, se concretize", brinca.

fácil, a moça

Conhecida socialite-empresária tanto fez no Four Seasons de Nova York que o gerente do hotel avisou à agência de turismo responsável pela reserva: não aceitaria mais a moça.
E se surpreendeu com a resposta rápida: "Nossa, o hotel Mandarin pediu o mesmo."

Sessão da tarde

E sai a primeira cirurgia de câncer de reto feita com robô no Brasil. Com direito a "telespectadores": participantes do Fórum Internacional de Câncer do Reto vão assistir em telão no WTC.
Acontece hoje à tarde, no Hospital Oswaldo Cruz.

Índio quer apito

Raoni aparece amanhã à noite no show de Sting, no projeto Natura About US, na Chácara do Jockey.
Não leva gravador mas vai pedir ao amigo de longa data uma ajuda sustentável: que entre na campanha para barrar a construção da Usina de Belo Monte.

sonho de bola

Washington Olivetto democratizou geral. No seu livro Corinthians x Outros abriu espaço para 15 torcedores fanáticos de outros clubes escalarem o seu "time dos sonhos". Um tira-gosto? Ao lado há dois, que ele recebeu do palmeirense José Serra e do vascaíno Sérgio Cabral (pai).

1. Marcos

2. Djalma Santos

3. Luis Pereira

4. Djalma Dias

5. W. Fiume

6. Rodrigues

7. Julinho

8. Mazinho

9. Aquiles

10. A. da Guia

11. Rivaldo

Lisboa-Salvador

Ricardo Espirito Santo, do grupo Espirito Santo, desembarca hoje em Salvador para batizar obras da igreja da Santa Casa da Misericórdia, tocadas pela fundação filantrópica da família. Jacques Wagner confirmou presença.

onde está wally?

O encontro era da indústria, em Brasília, mas a foto principal que aparece no site do Ministério da Fazenda mostra Guido Mantega todo sorridente... ao lado do tucano Tasso Jereissati.
Escanteado, com ar sério, o representante da indústria, Armando Monteiro Neto.

Papel e parede

O Instituto Moreira Salles abre dia 25 a exposição Norte, com fotografias do francês Marcel Gautherot. E lança na mesma noite livro homônimo, com 72 fotos dele entre 1940 e 1970.
Apresentação de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr. - curadores da mostra.

segunda pele

Geisy Arruda não larga do seu vestido da discórdia, grife Revanche, depois do escândalo na Uniban. Tão grudada está que sequer pensa em lavá-lo, segundo confessou à coluna. "Usei 12 vezes."

segunda pele 2

A insistência de Geisy, aliás, tem rendido frutos. No Terminal Rodoviário Barra Funda, em SP, brilha na vitrine vestido muito parecido, da grife Atrevida, R$ 36. Que, segundo se apurou, está vendendo como água.
Dúvida cruel: será que a moça vai querer registrar o modelito no INPI?

Cara Nova
Analu Andrigueti


Ela escreveu o primeiro poema aos nove anos "já com problemas existenciais", diz. Na época, nem imaginava colher os frutos de hoje. Foi só em uma oficina literária, há dois anos, ministrada por Marcelino Freire, que a poeta redescobriu suas habilidades. Por que poesia? "Nasci assim, acho que veio do meu gosto por música." Com o primeiro livro A Matadora de Orquídeas, prestes a sair do forno, Analu junta-se a outros caras-novas poetas em mesa da Balada Literária, hoje, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.

Na frente

Bruna Lombardi, Dan Stulbach e Eduardo Coutinho embarcaram para a Rússia. Vão abrir, a convite de Ederaldo Kosa, a 2ª Mostra de Cinema Brasileiro. Em Moscou e depois em São Petersburgo.

Nilton Bonder comanda o curso Niggun - A Melodia do Intelecto. Com primeira aula terça, no Centro da Cultura Judaica.

Conversa entre FHC e Francisco de Oliveira fazem parte do lançamento do livro e do DVD Retrato de Grupo, que marcam os 40 anos do Cebrap. Terça, no Sesc Vila Mariana.

Tunga foi um dos artistas que colaboraram com o novo projeto da coleção Bom Livro, que reúne clássicos da língua portuguesa para jovens. Escolheu sua obra True Rouge para ilustrar os Sonetos de Camões.

Benjamin Moser bate papo com Humberto Werneck sobre o livro Clarice. Segunda, na Cultura do Conjunto Nacional.

Ao elogiar vestido vermelho de Marina Silva no Senado, Aloizio Mercadante ouviu: "Vesti em sua homenagem". Bem-humorado, retrucou: "Então amanhã venho de gravata verde".

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA
J. R. Guzzo

É nisso que dá

"O Brasil oficial de hoje faz um esforço concentrado
para mentir. 'Falar com alguma sinceridade é perigoso',
dizia Oscar Wilde. 'Falar com muita sinceridade é fatal'"

Ditaduras, pelo mundo afora e em qualquer época, têm os seus próprios usos, costumes e manias. Há ditaduras, por exemplo, que não gostam de portos, principalmente se são grandes. Cidades com quilômetros de cais de frente para o mar, navios de outros países e muito entra e sai tendem a ser mais abertas, com uma circulação maior de gente, de ideias e de novidades; é mais difícil mantê-las isoladas do resto do mundo, e ditaduras ficam inquietas com isso. Outras gostam de avenidas bem largas, onde possam fazer desfiles e levar a passeio seus tanques de guerra - além de tornarem mais fácil a movimentação da tropa de choque da polícia, em caso de protesto público. Há ditaduras que proíbem a reza do terço, as que determinam quais roupas ou cortes de cabelo os cidadãos podem usar e as que só permitem o acesso da população a livros, filmes, músicas e espetáculos oficialmente aprovados pelo governo. Já houve ditaduras que não deixavam as pessoas ter listas telefônicas, no tempo em que elas existiam; eram consideradas segredo de estado. Os estilos podem variar, mas todos os regimes totalitários, naturalmente, têm coisas essenciais em comum, e essas não mudam nunca. Uma das que mais prezam é o culto sistemático à mentira.

O Brasil oficial de hoje, cada vez mais, faz um esforço concentrado para mentir. Um governo não se transforma em ditadura só porque mente; é preciso fazer bem mais, e bem pior que isso, para chegar lá. Mas quando copia com tanto empenho um dos métodos de ação mais utilizados pelos regimes de força acaba ficando, sem dúvida, mais parecido com eles. Nessa salada entra tudo. Há a mentira pura e simples, em que se negam fatos que comprovadamente aconteceram - ou se garante a existência de fatos jamais acontecidos. Há a ocultação da verdade. Há a propagação de realizações inexistentes. Há as explicações, justificativas e desculpas falsas para erros que não foi possível esconder. Há mentiras bem contadas e mentiras mal contadas, as que vêm disfarçadas como equívocos e as que são ditas com as piores intenções - no fundo, apenas mentiras, todas elas, como a população teve mais uma oportunidade de constatar no recente episódio do apagão geral, que deixou dezoito estados brasileiros sem luz nem energia durante quase seis horas. Diversas modalidades de mentira que fazem parte do repertório habitual do governo foram utilizadas na ocasião, mas ninguém ofereceu um resumo melhor dessa maneira de governar do que a ministra Dilma Rousseff. "Não vai ter apagão", havia garantido a ministra quinze dias antes; disse que isso era "uma certeza". Quando o problema surgiu, ela sumiu. "Ciao", foi tudo o que disse aos jornalistas até reaparecer, dois dias depois, sustentando que não tinha falado em apagão na sua entrevista, e sim que não haveria "racionamento". Mas falou - está gravado na entrevista que deu ao programa Bom Dia, Ministro, da Radiobras, em 29 de outubro. Em seguida, sempre no procedimento-padrão do governo, Dilma deu o caso "por encerrado". E a realidade dos fatos? Foi apagada da memória oficial.

Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou muito bravo, na hora do apagão, com assessores que lhe davam informações falsas, jogavam a culpa uns sobre os outros e falavam de coisas que não sabiam. Não se sabe se ficou mesmo, mas se ficou ele terá sentido o gosto do seu próprio remédio. Como exigir, diante do exemplo que vive dando, que os subordinados lhe digam a verdade? Dias antes do apagão, Lula afirmou que o mensalão, um dos episódios materialmente mais comprovados da história política brasileira, não existiu; foi tudo uma tentativa de "golpe" contra ele. Na mesma linha, tem dito que as críticas do ex-presidente Fernando Henrique a ele e a seu governo são "nazistas" - e aproveitou para dizer que o apagão "do Fernando Henrique" foi pior que o seu. (Um levantamento do jornal O Estado de S.Paulo mostra que ao longo do seu governo Lula já mencionou esse fato 55 vezes. Aí já é ideia fixa.) O presidente, além disso, teve mais um belo exemplo do que costuma acontecer quando se vive cercado de bajuladores em tempo integral. Sua prioridade não é dizer a verdade ao chefe; é dizer o que acham que ele quer ouvir. Compreende-se - ninguém faz carreira, nesse ramo de atividade, dizendo as coisas como elas são. "Falar com alguma sinceridade é perigoso", dizia Oscar Wilde. "Falar com muita sinceridade é fatal."

O presidente vai continuar ouvindo mais do mesmo. Não há vocações para o suicídio no Palácio do Planalto.

UM FILME DE PUTARIA

BRASIL S/A

Calotes políticos

CORREIO BRAZILIENSE - 21/11/09

Lula acumulou dívidas de omissões, agora levadas a protesto, como a da Previdência e a do caso Battisti

A saia-justa vestida pelo Supremo Tribunal Federal no presidente Lula, ao decidir pela autonomia presidencial no caso do militante Cesare Battisti, condenado na Itália e sujeito a extradição, não é diferente da que o senador petista Paulo Paim, com a contribuição de votos da oposição e da base aliada no Senado e agora na Câmara, o faz passar na questão da reforma ao avesso da Previdência.

Ambos os casos são díspares apenas no conteúdo. Na forma, os dois são iguais. Eles revelam que o que pode constranger — contrariar a multidão de aposentados em véspera de eleições, num caso; bater de frente com aliados de esquerda que apoiam a concessão de refúgio a Battisti, ex-terrorista acusado de assassinatos, no outro —, muito pior pode ficar se decisões cruciais são empurradas com a barriga.

Ou omitidas as explicações, que é o mais frequente, especialmente quando envolvem questões de racionalidade econômica e de finanças públicas. O governo se omite não só com a Previdência, deficitária e ameaçada de ter seu rombo ampliado, caso sejam aprovadas medidas como o fim do “fator previdenciário”, um redutor criado no governo FHC para desestimular as aposentadorias precoces.

Tudo que exigiu do presidente decisão sobre assuntos sem consenso e capazes de mexer com sua popularidade, como as reformas da CLT, da Previdência e a Tributária, prometidas em campanha e iniciadas algumas em seu primeiro mandato, foi largando pelo caminho.

Até aqui deu para agradar a todo mundo e driblar as cobranças por definições, graças ao esgarçamento das contas públicas — tratadas ora como elásticas, ora como se os aumentos excessivos dos gastos fossem inofensivos, ora como se preocupações ficais fizessem parte do receituário “neoliberal”, neologismo preferido para condenar os desafetos à execração política e ao mármore do inferno.

Assim já foram chamados os que propunham a Reforma da Previdência para eliminar no espaço de uma geração os déficits crescentes, em especial os atuariais, que vão ampliar-se com a tendência em curso de envelhecimento da população. Lula optou pelo calor da aclamação popular, e hoje, sem a flexibilidade de quando tais problemas eram ainda incipientes, tenta escorar-se atrás de aliados fiéis.

Liderança mal usada

De algum modo tudo isso pôde ser relevado. Para frente talvez não mais. Nenhum dos candidatos à sucessão tem o carisma de Lula, nem terá o espaço fiscal — ocupado pelas decisões de gastos já tomadas por seu governo — para continuar bancando a conciliação política e distribuir indulgências ao eleitor. O distributivismo social pela partilha da carga tributária e a irreprimível expansão dos gastos de custeio da máquina pública em todos os níveis terão de correr a um ritmo menor para abrir terreno ao aumento dos investimentos.

Não são decisões fáceis. Com canetadas não dá, só com negociações exaustivas sob forte liderança política, que Lula conquistou e não pôs a serviço da desobstrução dos impasses econômicos e políticos.

As ações aposentadas

A questão das aposentadorias, por exemplo, há muito tempo requer, se não uma mudança profunda, ao menos ações que dispensem todos os anos o governo e o Congresso decidirem o reajuste. Isso deveria ser automático, como nos planos de fundos de pensão. O segurado também deveria ter conta própria, conforme o modelo dos fundos, de modo a que saiba a qualquer tempo quanto contribui e quanto terá direito a receber ao se aposentar. Se quiser mais, a contribuição terá de aumentar. Os casos sociais, da aposentaria sem contribuição, como para trabalhadores rurais e idosos com mais de 60 anos sem renda, o financiamento teria de vir do orçamento fiscal — não do INSS, e com dotação transparente na contabilidade do Tesouro.

Banana aos políticos

Tais medidas são administrativas, mas nem isso evolui. Por quê? A suspeita é que, dispensada da mediação para acessar seus direitos, boa parte do eleitorado daria banana aos políticos. É claro também que, conhecendo as limitações orçamentárias, não é que cessariam as pressões por mais benefícios, mas o governante seria forçado a explicar as razões de beneficiar uns, não outros, e como o fará.

O sistema só diz o que lhe convém. É o que explica a longevidade de tramóias contábeis criadas para lograr o povo do FMI, que vinha aqui xeretar nossas contas. Coisas como superávit primário para o que é déficit, dívida líquida maquiando a feiúra do endividamento público, em todo mundo medido pelo conceito de dívida bruta, o tal PPI, de projeto piloto de investimento. Hoje, logra-se o eleitor.

Campanha de ilusões

Governar é decidir, não importa a quem desagrade, se foi anunciado assim na campanha eleitoral. Não dá é para prometer fartura, como os candidatos presidenciais começam a fazer, e, depois de eleito, praticar o oposto. Hoje, o presidente toma posse sem saber bem o que o aguarda. Mesmo o continuísmo, pois não só há equívocos de política econômica tornados verdades apenas por antiguidade, como se perdeu no tempo até o motivo dos cambalachos da contabilidade pública que distorcem a compreensão da economia. Mas quem liga? É mais fácil prometer o céu quando para muitos o inferno já é aqui.

PAINEL DA FOLHA

Foco regional

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 21/11/09


Detalhamento de portaria publicada anteontem pelo governo liberando R$ 1 bilhão para municípios com até 50 mil habitantes, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, mostra que 70% dos recursos serão destinados às regiões Norte (R$ 162 milhões) e Nordeste (R$ 540 milhões). Os nomes das cidades selecionadas serão anunciados pouco antes do Natal.
O dinheiro é repassado em quatro etapas, conforme o andamento das obras, mas até 90% será liberado antes de as casas serem erguidas. Bandeira da candidatura de Dilma Rousseff (PT), o programa deve movimentar R$ 10 bi em 2010. Em média, os beneficiários têm renda inferior a três salários mínimos.



Plataforma. Do candidato favorito à presidência do PT, José Eduardo Dutra, sobre o aliado preferencial de 2010: "Não tenho ilusão de que o PMDB estará unido em torno da candidatura de Dilma, mas, se eleito, trabalharei para reforçar a relação institucional entre os dois partidos".

Senha 1. A se confirmar a esperada vitória de Reginaldo Lopes na eleição amanhã para a presidência do PT de Minas, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel colocará várias voltas de vantagem sobre Patrus Ananias na disputa pela vaga do partido na sucessão estadual.

Senha 2. Aos mais próximos o ministro do Desenvolvimento Social dá a impressão de já estar em outra, preparando a campanha ao Senado. E Lula até hoje não pediu a Pimentel que desista em favor de Hélio Costa (Comunicações), do aliado PMDB.

Termômetro. A chapa apoiada pela governadora Ana Júlia Carepa deverá perder a eleição do PT no Pará para o grupo do deputado Paulo Rocha. Ela é candidata à reeleição. Ele quer o Senado. Em jogo está uma aliança com o PMDB de Jader Barbalho.

Vai indo... Convidados pelo governador do Paraná, Roberto Requião, a discutir a tese da candidatura própria à Presidência numa reunião hoje em Curitiba, lideranças nacionais do partido já com um pé na canoa de Dilma preferiram sair pela tangente.

...que eu não vou. Íris de Araújo, Michel Temer, Sérgio Cabral, André Puccinelli e Renan Calheiros estão entre os que, ontem, manifestavam a intenção de declinar do convite. No máximo, alguns devem enviar representantes ao convescote de Requião.

Bloco na rua. Lula ganhou uma viola elétrica, ontem em Salvador, e foi homenageado com uma interpretação de "Brasileirinho" na celebração do Dia da Consciência Negra. Em agradecimento, disse que passará o Carnaval de 2010 na capital baiana.

Breu. De Sérgio Guerra (PSDB-PE), sobre a tática do governo para diluir o depoimento de Dilma, despachando uma série de técnicos para falar do blecaute aos senadores : "Quando chegar a vez dela, já apagou a luz de novo".

No cravo. Relator do projeto que altera a Lei de Licitações, Eduardo Suplicy (PT-SP) deverá impor prazo à fiscalização do TCU. A pedido do governo, o senador estipulou limite de 90 dias para as medidas cautelares do tribunal.

Na ferradura. Mas, por solicitação do TCU, Suplicy dirá que os 90 dias só começam a ser contados após o tribunal receber esclarecimentos dos envolvidos na obra.

À iraniana. Mahmoud Ahmadinejad será recebido na tarde de segunda pelos presidentes das Casas do Congresso. Diferentemente do que ocorreu com Shimon Peres, ele não irá ao plenário.

Outro lado. Michel Temer diz que a inclusão na pauta da Câmara da extinção do foro privilegiado foi decidida em reunião com líderes partidários em 13 de outubro.


com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

"O verdadeiro apagão parece ter ocorrido no PSDB, que se recusa a entender a realidade dos 70% de aprovação ao governo Lula."

Do deputado PAULO TEIXEIRA (PT-SP), sobre os novos comerciais tucanos, que tratam do recente blecaute e, no final, perguntam ao telespectador: "até quando você vai ficar no escuro?".

Contraponto

Ressaca brava Escalado para reunião às 8h de anteontem sobre a Copa de 2014, Paulo Bernardo (Planejamento) se atrasou e, ao chegar, encontrou o colega Orlando Silva (Esporte) conversando com Gilberto Kassab. À guisa de desculpas, o ministro retardatário disse ao prefeito paulistano:
-Puxa, o Orlando disse que eu podia ficar tranquilo, porque você costuma atrasar...
Mais que depressa, Orlando devolveu a bola:
-Não é bem isso. Na verdade, o Paulo Bernardo amanheceu com dor de cabeça por causa do Palmeiras...
Atlético-PR em sua base eleitoral, o ministro também torce desde pequeno pelo Palmeiras, que na véspera havia perdido para o Grêmio por um desolador 2 x 0.

GOSTOSA PELO SISTEMA DE COTAS DO BLOG

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA
Diogo Mainardi

Quem é o "Filho do Brasil"

"O chefe da propaganda de Benito Mussolini
era seu genro, Galeazzo Ciano. Lula, por sua vez,
tem de se arranjar com Franklin Martins"

Luiz Carlos Barreto, o Filho do Brasil." Ele, Luiz Carlos Barreto, é um personagem um tantinho menos oco do que aquele outro, canonizado em sua última obra, Lula, o Filho do Brasil. Quem é Lula? Eu o resumiria numa única linha: um retirante maroto que sonha em se transformar em José Sarney. Ele é Vidas Secas sem Graciliano Ramos. Ele é Antônio Conselheiro sem Euclides da Cunha. Ele é, citando outra patetice sertaneja produzida por Luiz Carlos Barreto, quarenta anos atrás – os filhos do Brasil repetem-se tediosamente de quarenta em quarenta anos –, o cangaceiro Coirana, sem Antônio das Mortes.

Quem já assistiu a um cinejornal do "Istituto Luce" sabe perfeitamente o que esperar de Lula, o Filho do Brasil. Benito Mussolini, em Roma, conclamando as massas, é igual a Lula, no ABC, imitando Bussunda. O chefe da propaganda de Benito Mussolini era seu genro, Galeazzo Ciano. Lula, por sua vez, tem de se arranjar com Franklin Martins, coordenador do MinCulPop lulista. Mas o fato é que, a cada dia mais, o "filho de Dona Lindu" macaqueia o "filho do ferreiro de Predappio" – só que num cenário mais indigente e embolorado.

Se o crack de 1929 consolidou aquilo que Benito Mussolini chamou de "estado empreendedor", o crack de 2008 fez o mesmo com Lula. A economia fascista tinha IMI e IRI, bancos públicos que forneciam crédito à indústria italiana, privilegiando os aliados do regime. A economia lulista tem Banco do Brasil e BNDES, que desempenham um papel semelhante. Benito Mussolini era celebrado na propaganda oficial por ter "restringido as desigualdades sociais". Lula? Também. Os triunfos italianos nas Copas do Mundo de 1934 e 1938 foram creditados ao Duce, que compareceu aos jogos finais, assim como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 foram creditadas a Lula. Recentemente, Lula arrumou até seu próprio ditador antissemita, que promete repetir o holocausto: o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, recebido com pompa na capital do lulismo. Os "anos do consenso" de Benito Mussolini duraram de 1929 a 1936. Quanto podem durar os de Lula?

Luiz Carlos Barreto, em 1966, produziu um curta-metragem de propaganda para José Sarney. O curta-metragem foi dirigido por um conhecido marqueteiro: Glauber Rocha. Desde aquele tempo, Luiz Carlos Barreto, "o Filho do Brasil", é quem melhor sintetiza o caráter nacional. Durante a ditadura militar, ele tomou conta da Embrafilme. No período de Fernando Henrique Cardoso, ele fez propaganda para a Embratur e para o BNDES. Quando o lulismo foi desmascarado, em 2006, ele disse: "O mensalão não era mensalão. Era uma anuidade. Faz parte da ética política. E a ética política é elástica". A ética cinematográfica é igualmente elástica. E, no caso de Luiz Carlos Barreto, é uma anuidade.

Luiz Carlos Barreto, homenageado no Senado por Roseana Sarney, que o chamou de "grandalhão dócil e amável do cinema brasileiro", agora planeja filmar o romance Saraminda, de José Sarney. É dessa maneira que Lula passará para a história: como uma mera anuidade no intervalo entre o José Sarney de 1966 e o José Sarney de 2010.

BRASÍLIA - DF

Novela das 40 horas

CORREIO BRAZILIENSE - 21/11/09


O governo se mobiliza para barrar a votação das 40 horas semanais, que divide a base aliada naquilo que o projeto tem de mais importante: o seu caráter policlassista. PT, PDT, PSB e PCdoB são a favor da proposta da Central Única dos Trabalhadores e da Força Sindical, de olho nos votos da massa de sindicalizados. O PMDB, o PTB, PP, o PR e o PRB são contra, tendo como alvo as pequenas e as médias empresas do país.

Se a proposta for votada na próxima semana, a possibilidade de aprovação é grande, por causa dos votos de parte da oposição, principalmente do PSDB e do PPS. O DEM fechou questão contra as 40 horas. A consequência imediata da aprovação seria o fim do trabalho aos sábados para quem tem jornada de oito horas cheias, de segunda a sexta-feira. As empresas que quisessem manter o funcionamento na manhã de sábado teriam que pagar horas extras aos funcionários. O pequeno comércio, escritórios de prestação de serviços, oficinas e empresas de construção civil seriam os mais atingidos, pois, na maioria desses casos, a produtividade depende do número de horas trabalhadas.


Transição

O líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), tentou costurar um acordo com o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro (PTB-PE), para implantar o regime de quarenta horas até 2016, gradualmente, com reduções anuais a partir de 2010. A proposta foi rechaçada pela CUT e pela Força Sindical. A alternativa do Palácio do Planalto é empurrar a decisão “pras calendas”, para evitar um racha na base.


Catacumba

Bombou na estreia no Festival de Brasília o filme Perdão, mister Fiel, do jornalista Jorge Oliveira, ganhador de dois prêmios Esso de reportagem na década de 1970, um deles por denunciar a existência do então secretíssimo acordo nuclear do governo Geisel com a Alemanha. Em consequência do filme, o Ministério da Justiça está atrás do ex-agente do Doi-Codi Marival Chaves para que esclareça as circunstâncias do assassinato do ex-deputado Rubens Paiva. Segundo o sargento reformado do Exército, o parlamentar teria sido esquartejado na prisão. É fácil achar Marival: mora em Vila Velha(ES).


Ferida

Ao subir o tom nas declarações contra o governo italiano, o ministro da Justiça, Tarso Genro (foto), pressiona o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a favor do asilo político ao ex-terrorista Cesare Battisti, cuja extradição foi aprovada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por 5 x 4, com o voto de minerva de seu presidente, Gilmar Mendes. Mexe numa ferida mal-cicatrizada da política italiana ao dizer que Battisti é vítima de setores fascistas da sociedade e do governo da Itália.


Boas-festas/Vem aí mais uma crise na aviação do país. Com o reaquecimento da economia, os salões de embarque e saguões andam lotados e as companhias aéreas começam a tropeçar nas próprias asas. A Infraero tira o corpo fora com a desculpa de que o respeito aos horários é de responsabilidade das companhias, que muitas vezes fecham o check-in na hora marcada, mas os aviões partem com longos atrasos.

Direitos/Advogados cubanos saem do isolamento. O presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), Henrique Maués, está em Cuba para a celebração de um acordo de cooperação entre o instituto e a União dos Juristas de Cuba. A ideia é promover o intercâmbio visando tanto à publicação de artigos em revistas digitais e impressas quanto à realização de eventos institucionais.

Voto/ O marqueteiro Álvaro Lins, especialista em monitoramento de campanhas eleitorais e votações, lançou um
site interativo de acompanhamento das eleições de 2010. Qualquer cidadão pode participar: www.votocerto.com.br



Algodão

Escaldado pela confusão que criou ao colocar na pauta a emenda Paim, que equipara o aumento do salário mínimo aos reajustes dos benefícios de aposentados e pensionistas, o presidente da Câmara, Michel Temer (foto), do PMDB-SP, avisou aos líderes que só colocará em votação o regime de 40 horas semanais com um acordo entre líderes. As centrais sindicais não gostaram, pois tudo o que as confederações patronais queriam era engavetar o projeto.


Copa

O Ministério do Turismo planeja investir pesadamente na infraestrutura do país, principalmente em aeroportos, metrôs e rede hoteleira. Pretende oferecer financiamentos às 12 cidades-sedes da ordem de US$ 2 bilhões


Casca-grossa

Jader Barbalho (PMDB-PA), cacique do PMDB na Câmara, não quer saber de conversa sobre candidatura ao Senado. É como falar em corda na casa de enforcado. Cada vez mais está disposto a disputar o governo do Pará contra a governadora petista Ana Júlia Carepa, candidata à reeleição.

CHORANDO DE BARRIGA VAZIA

BETTY MILAN

REVISTA VEJA

Betty Milan

O mito da perfeição

"A psicanálise substituiu o ‘Penso, logo existo’, da filosofia
de Descartes, pelo ‘Digo, logo existo’. Com isso, ela enfatiza
a importância do discurso para a autopercepção"

Um dos consulentes de minha coluna em VEJA.com conta que se esforçou a vida inteira para ser o melhor dos filhos, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas – mas que se deu conta de só ter se comportado dessa maneira para satisfazer o desejo do outro e, assim, ser adorado e se sentir superior. Ou seja, por egoísmo.

Como não poderia deixar de ser, o desejo do outro e o dele nem sempre coincidem. Dessa forma, casou-se há oito anos por causa de uma gravidez inesperada e é pai de três filhos. Hoje não tem afinidade nenhuma com a mulher, gostaria de se separar dela e não ousa. Tem pavor de ser reprovado. Quando teve uma amante e quase foi pego em flagrante, chegou a pensar em suicídio. Sabe, contudo, que precisa aprender a decepcionar os outros para viver.

Leon Zernitsky/Stock Ilustration Source/Getty Images


A história tanto surpreende pela clareza do consulente em relação à própria vida quanto pela impossibilidade de mudá-la. Apesar da consciência clara, ele está paralisado pelo medo da reprovação. Para saber o motivo, necessita de uma consciência nova, que só a psicanálise propicia – pois é por meio da fala, e apenas dela, que a pessoa se expõe ao seu próprio inconsciente e àquilo que ele pode revelar.

O consulente mostra quão limitada é a consciência reflexiva do dia a dia quando se trata do conhecimento da própria subjetividade. Precisamente por causa desse limite, a psicanálise substituiu o "Penso, logo existo", da filosofia de Descartes, pelo "Digo, logo existo". Com isso, ela enfatiza a importância do discurso para a autopercepção. Não é fácil aceitar o "Digo, logo existo", porque tanto a palavra nos escapa quanto tentamos fugir dela, fato de que a língua dá conta com vários provérbios. Entre eles, "O silêncio é de ouro" ou "O peixe morre pela boca".

O inconsciente, porém, faz e fala por nós. E, também disso, a língua dá conta com a frase "Ninguém é perfeito". Se atentássemos para o que a língua ensina em alguns de seus clichês, sofreríamos menos porque aceitaríamos a possibilidade de falhar. Em vez disso, como o consulente, nós insistimos no mito da perfeição. Caímos continuamente nessa armadilha do nosso imaginário, ao contrário de Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Por ter aceito a imperfeição da condição humana, e ter se debruçado sobre essa realidade, ele abriu um caminho verdadeiramente novo e nos legou a possibilidade de nos curarmos de nós mesmos.

ARI CUNHA

Futebol, o embaixador do Brasil

CORREIO BRAZILIENSE - 21/11/09


Nem a promessa de um passeio inesquecível na Disneylândia convencia Luiz, pai sempre muito carinhoso com a filha. Olhava para as atrações, mas não enxergava nada. Pisava nas calçadas cor-de-rosa, mas não chegava aonde gostaria. Até que Tuca, a sogra, reparou na respiração diferente e em uma gota de suor que escorria. Era de um computador que o adorado genro precisava a todo custo. Enquanto não entrasse na rede não iria conseguir acalmar o pensamento. Muito solícita, a sogra resolveu arriscar. Uma sala e um funcionário ostentando um computador. Ali elaborava relatórios e controlava a necessidade de abastecimento nos restaurantes. Nem levantou o olhar à súplica que ouvia de Tuca. Minutos depois, lá estava Luiz no computador do funcionário que deixou a seriedade de lado. Foi só falar no Brasil e no futebol que Luiz conseguiu o que queria. Acompanhar a situação do flamengo no Campeonato Brasileiro. Deu certo. Esperança alimentada.


A frase que não foi pronunciada

“Por isso, papai-noel tem a barba branca.”
Lula, sonhando com o bom velhinho lendo uma carta assinada por Batistti


Pontualidade
Em Goiânia, os usuários do transporte coletivo ganharam uma ferramenta para facilitar a vida. Menos tempo na parada. Usando recursos do celular podem gratuitamente consultar o horário em que o ônibus vai passar. A garantia do horário britânico prometida pela empresa tem um GPS na retaguarda.

Lupa
Ultimamente, o cadastramento tem sido importante para o controle da aplicação da verba pública. Agora é a vez dos beneficiados pelo Programa Bolsa Família. Ao todo, 97.322 famílias deixarão de receber o benefício até dar explicações nas prefeituras. O papel de colaboradores dos governos municipais tem sido de suma importância para a transparência do projeto.

Achaque
Uniformes de autoridades policiais são usados por bandidos que não têm nenhuma dificuldade em adquiri-los. Mas, no Rio de Janeiro, a quadrilha que se passava por falsos agentes falsificou, além da vestimenta, documentos e mandados. A polícia só descobriu porque o funcionário da Caixa, achacado, não tinha nada a dever e desconfiou do golpe.

Começo
Wasny de Roure tentou acabar com a fumaça emitida pelos veículos nas ruas de Brasília. Não conseguiu. É lei distrital, mas não há interesse das empresas de ônibus e caminhões nem de motoristas em acoplar um filtro no escapamento. Comissão do Senado aprova projeto de metas para a redução de gases do efeito estufa. No final, a natureza ganha só discurso. Copenhague
é aqui.

Errados
Coube à senadora Marisa Serrano colocar freios na propaganda de alimentos direcionada a crianças. Por enquanto, só empresários sem compromisso com a saúde infantil têm apostado no marketing para vender produtos que não nutrem o corpo. O projeto que regulamenta a propaganda de alimentos está na Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

Urnas
Para alguns técnicos foi frustrante. Para o TSE, valeu a pena. Esse foi o resultado do concurso para que experts em tecnologia da informação achassem uma brecha na segurança das urnas que serão usadas em 2010. Ponto para o TSE.

Berço esplêndido
São muitos os gabinetes nos Três Poderes onde obras de arte repousam longe do olhar da população. Há um grupo de trabalho com a preocupação de expor essas obras no Museu de Arte de Brasília. O senador Cristovam está à frente da ideia.

Territórios
Continua a briga sobre distribuição de terras. A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados está mobilizada depois que aprovou projeto de lei que tira a responsabilidade do Incra por desapropriações. A reforma agrária acontecerá em local definido pelo parlamento brasileiro.

Logística
Enquanto as chamadas por uma ambulância não param no terminal do Samu, os veículos ficam parados nas entradas de emergência porque faltam macas nos hospitais de Brasília para transportar o paciente. Problema simples de se resolver.



História de Brasília

A superquadra do IAPB é a única já concluída e urbanizada. O jardim de frente para o Eixo era uma beleza. Pois bem. Agora é que viram que as galerias pluviais não estavam colocadas e, por isso, estão esburacando o jardim e arrancando a grama que deu tanto trabalho para pegar.(Publicado em 17/2/1961)

UMA COISA E UMA OUTRA COISA

CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA
Claudio de Moura Castro

Tecnologia para ricos ou pobres?

"Há pouco tempo, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas
domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares
funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis"

Revolução Industrial pesou no lombo do operariado. Marx e Dickens, com ânimos diferentes, descreveram a miséria opressiva de Londres. Mas, a longo prazo, os maiores ganhos foram para esse mesmo proletariado. Para Schumpeter, o desenvolvimento econômico não é mais meias de seda para os ricos – que sempre as tiveram à vontade – mas meias para os pobres. Nos países mais prósperos, um operário hoje tem um nível de conforto que um rico da época de Marx não tinha. Nas nossas paragens tupiniquins, os benefícios para os mais pobres, trazidos pelo crescimento do século XX, foram superiores aos de todos os quatro séculos anteriores. Apenas para ilustrar, a esperança de vida passou de 30 anos para mais de 70. Obviamente, falta muito, não são poucos os excluídos e não se trata de desculpar a horrenda distribuição de renda. Mas, é interessante registrar, os avanços tecnológicos têm sido muito generosos para com os mais pobres. Não que tenham sido pensados assim, mas é o que aconteceu.

A produção de motos (1,5 milhão por ano) corresponde a mais da metade dos brasileiros atingindo 18 anos. Um jovem empregado, morando com seus pais, consegue pagar a prestação de uma motocicleta simples, desfrutando a indescritível sensação de liberdade oferecida por ter seu próprio veículo. O telefone celular é a redenção de quem trabalha por conta própria. Enterro em vala comum para o precário sistema de recados em telefones "de favor". De fato, só rico tinha telefone. Hoje, empregadas domésticas saem fagueiras das lojas com seus celulares funcionando, prontos para lhes prestar serviços inestimáveis.

As fotos de família estavam a cargo dos fotógrafos das praças públicas. Hoje, um celular melhorzinho fotografa tudo, a custo zero. O computador começa a chegar ao povão (em modestas prestações). Por exemplo, o meu borracheiro tem. Quase um terço da população tem algum acesso a ele. O crescimento das vendas é espantoso. Para um universitário, um bom computador usado custa menos do que os livros indicados anualmente pelos professores.

Ilustração Atômica Studio


Quantos municípios brasileiros não têm livrarias? Ou, se têm, seu acervo é pífio. Mas, para que livrarias, se há a Amazon.com e suas versões caboclas? Qualquer um pode comprar quase 20 milhões de títulos pressionando algumas teclas. Quem tem Google ri dos 32 volumes da
Britânica, ao custo de 1.000 dólares, pois a Wikipedia é mais simpática e de graça. Pobre não tem dinheiro para revistas ou jornais, mas agora está tudo na internet. E pode ler, em português e gratuitamente, milhares de livros de domínio público. O rico mandava o contínuo ou o moleque de recados ao correio para postar uma carta. Agora, o pobre passa um e-mail, igualzinho ao rico. E nenhum dos dois paga o selo. E o preço absurdo dos CDs? Hoje, qualquer música pode ser encontrada na web. E, com um pouquinho de astúcia, sem gastar nada. E passam fagueiros os garis, com seus fones ligados nos tocadores de MP3. Como dito, longe deste ensaísta subestimar a situação de pobreza de grande parte da nossa população. Não obstante, a mensagem deste ensaio é que os avanços presentes da tecnologia trazem benefícios bem maiores para o povão.

Tais elucubrações nos levam de volta ao bando de hippies da Califórnia que inventou os microcomputadores, na década de 70. Era um grupo de contracultura que via na tecnologia um antídoto para a opressão, por parte de uma sociedade impessoal, comandada por grandes empresas e por "big brothers" sinistros. Eles buscavam alternativas tecnológicas libertadoras. Queriam ferramentas que permitissem aos pequenos expressar-se em múltiplas direções. Precisavam de soluções pouco dispendiosas. Com o sucesso dos microcomputadores, quase todos ficaram milionários. Não precisaram das soluções baratas que criaram. Mas as ideias estavam na rua. Suas aplicações foram herdadas por bilhões de pessoas.

Restam duas cogitações. Primeiro, o povo ficou mais feliz com seus novos apetrechos? Ou aumentou sua alienação e angústia? Segundo, ele saberá usar isso tudo? Ou as lastimáveis deficiências em sua educação o impedem de usar o melhor desse potencial criado pela tecnologia para aumentar sua cultura e qualidade de vida?

RUY CASTRO

O pé não esquece


FOLHA DE SÃO PAULO - 26/10/09


Há dez anos, vi Octavio de Moraes na praia do Diabo, no Arpoador, de papo com um amigo. Octavio, cor de mogno, já tinha 70 e tantos anos. Era ex-craque do Botafogo, arquiteto aposentado e filho da cronista Eneida, autora do definitivo 'História do Carnaval Carioca'. De repente, uma bola de frescobol rolou a seus pés, atirada por um rapaz que disputava uma partida a 50 ou 60 metros dali. Os jovens pediram que ele a devolvesse.

Octavio nem respondeu. Enquanto conversava, fez um montinho de areia com o pé descalço. Ajeitou a bolinha e, com um chute de três dedos, jogou-a na raquete de um dos garotos, que mal teve de esticar o braço. E reatou o papo com o amigo como se não tivesse feito nada demais. Estupefato, concluí: o sujeito envelhece e suas pernas já não aguentam correr, mas há coisas que o pé não esquece. Uma delas, colocar uma bola, mesmo que de frescobol, a 50 ou 60 metros, em cima de um lenço, se preciso for.

Em sua breve carreira no futebol, Octavio fora artilheiro e campeão carioca pelo Botafogo em 1948 e sul-americano pelo Brasil em 1949. Pouco depois, trocou o gramado pela prancheta e pela praia. Certa vez em Copacabana, nos anos 50, para driblar a proibição de jogar pelada na areia, ajudou a inventar nada menos que o futivôlei. Belo currículo. Mas, se tantos o invejavam naquela época, era por namorar a cantora Elizeth Cardoso, admirada não apenas pela voz.

Em 2005, ouvi-o muitas vezes sobre Garrincha para meu livro 'Estrela Solitária'. Octavio não chegara a jogar com Garrincha, mas conhecia como ninguém a alma do Botafogo, no fundo a dele próprio.

Morreu na semana passada no Rio, aos 86 anos. Não tinha poupança, nem seguro, nem plano de saúde. Mas tinha muitos amigos, que não o esqueceram e foram com ele até o fim.

GOSTOSA

RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA
O coco-verde, vilão do verão?
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

O verão elege musas e vilões. Às vezes injustamente. Na semana passada, no Rio de Janeiro, os barraqueiros receberam uma ordem: será ilegal vender coco na areia a partir de dezembro. Quase 60% do lixo recolhido nas praias são cocos-verdes – 20 mil cocos por dia. Cada um pesa em média 1 quilo. O “Comitê Gestor da Orla” informou que o coco é o maior detrito, o maior poluidor das praias. Coitado do coco. O maior poluidor das praias é o brasileiro, um povo sem a menor educação ambiental.

Todos se indignaram com a prefeitura, que estaria violando a tradição carioca de beber água geladinha de coco à beira-mar. A tradição, tanto nas praias quanto nos parques, em todos os Estados, é espalhar imundície por onde se anda. No Rio, a mesma multidão que quer se refrescar com coco junto ao mar deixa nas areias, aos domingos, até 180 toneladas de lixo.

É tudo o que se pode imaginar. Garrafas, latas, saquinhos plásticos, palito de churrasco, fralda descartável, luvas (para passar água oxigenada nos pelos do corpo!) e muito mais. A casca do coco leva dez anos para se decompor na natureza. Os sacos e copos de plástico, de 200 a 450 anos.

Acho admirável o desempenho da Comlurb, companhia municipal de limpeza urbana no Rio. Como é árduo o trabalho dos garis para tornar invisível a sujeirada que todos – madames, celebridades, atletas, favelados, jovens e velhos – largam para trás! Quem caminha muito cedo na praia, antes da chegada dos garis, vê a areia coalhada de detritos. É vergonhoso.

A proibição da venda de cocos na areia (prestem atenção, é só na areia, porque os quiosques no calçadão poderão vender) foi destaque em colunas, reportagens e sites. Pouco se falou sobre o resto do choque de ordem praieiro. Camarão no espeto e queijo coalho na brasa não poderão ser vendidos na areia. Botijão de gás, churrasqueira, aparelhos elétricos ou de som e recipientes de vidro estão entre os barrados da praia. Só o coco despertou protestos.

Dizem que o brasileiro adora praia. Eu acho que detesta.
Ninguém trata tão mal algo que adora

Acho inacreditável alguém se atrever a dizer que deixa lixo na praia porque não há contêineres suficientes na areia ou no calçadão. Em primeiro lugar, há. É só andar alguns metros. Um coco é pesado para levar até o calçadão? Dá preguiça? Imaginem 20 mil cocos diariamente. Junto com os cocos, as famílias – mesmo as educadas em colégios de elite – também abandonam os canudos de plástico. Por que, em países civilizados, os usuários levam saquinhos para as praias (especialmente as desertas, sem contêineres)? Para tomar conta de seu próprio lixo.

Aconteceu uma cena insólita recentemente no Rio. Uma motorista jogou lixo pela janela do carro e uma pedestre arremessou o lixo de volta para dentro do carro, gritando: “Este lixo é seu!”. Foi aplaudida. Existe um despertar de consciência. Mas ainda é uma minoria. Mesmo alguns dos que aplaudem a militante talvez sujem a praia. Sem perceber que é a mesma falta de civilidade.

Eu gostei da medida da prefeitura. Por ter despertado um debate. Não por achar que vai mudar alguma coisa. Por si só, é uma medida inócua, que apenas reduz o trabalho braçal dos garis. Às vezes penso numa medida mais radical. Parar de limpar por uns dois dias a praia. Só para a gente se olhar no espelho turvo. Claro que vão culpar a prefeitura: “Pô, ninguém limpa isso?”. Alguém uma hora vai dizer: “E quem sujou isso?”. Fomos nós.

Sem educação ambiental no currículo das escolas desde o primeiro ano, nossas crianças repetirão os vícios dos pais. Com campanhas maciças do governo pela televisão, quem sabe nossos filhos nos repreenderão quando cometermos crimes contra o meio ambiente?

Não sei se nossos sujismundos são os mesmos cidadãos preocupados com o aquecimento global, com a poluição, com os bueiros entupidos que provocam enchentes. Não sei se são os mesmos cidadãos preocupados com o fim das geleiras, com o desmatamento da Amazônia, com as metas que o Brasil vai apresentar em Copenhague no início de dezembro.

Dizem que o brasileiro adora praia. Eu acho que detesta. Ninguém trata tão mal algo que adora.

ANCELMO GÓIS

CUIDE DO SEU APAGÃO

O GLOBO - 21/11/09


Quarta à noite, a Península dos Ministros, em Brasília, ficou sem luz um bom tempo.
No que Dilma Rousseff perdeu a paciência e ligou para o afilhado político Nelson Hubner, da Aneel, a agência que fiscaliza o setor.
APAGÃO QUE SEGUE...
Na mesma hora, Hubner telefonou para um diretor da Companhia Energética de Brasília, reclamou e disse que a Aneel ia fiscalizar a empresa.
O diretor ouviu e, ao ser informado que Dilma tinha cobrado providências, provocou: “A ministra deveria pedir fiscalização na empresa dela”. Era referência ao apagão da semana passada.
PRÊMIO ALBA
Nosso Frei Betto foi o vencedor do Prêmio Alba das Letras e das Artes de 2009, de Cuba.
EU QUERO CARNE
O promotor Rodrigo Terra está investigando a churrascaria Barra Brasa, no Rio.
Diz ter recebido a denúncia de que o restaurante não aceita que os clientes fiquem além de três horas no recinto.
JÁ VÃO TARDE
O Rio vai transferir mais uma leva de bandidos para presídios federais – não se sabe ainda se para Campo Grande ou Catanduvas.
São sete criminosos, seis deles envolvidos na invasão do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, dia 17 de outubro, quando um helicóptero da polícia foi abatido a tiros.
FORÇA ESTRANHA
Nelson Motta, o coleguinha e escritor, faz uma promoção em seu site (sintoniafina.com.br). Dará seu livro Força estranha” aos autores das dez melhores respostas à pergunta: “Qual a força mais estranha que você conhece?”.
– A melhor resposta, por enquanto, é... a “Força Sindical”. Mas, para mim, é o atual time do Fluminense – brinca o tricolor Nelson, feliz com a invencibilidade de 12 jogos do Flu, ameaçado de cair para a segunda divisão.
MÉRITO CULTURAL
Fernanda Montenegro e Sérgio Mamberti vão apresentar o Prêmio da Ordem do Mérito Cultural, dia 25, no Rio, com a presença de Lula.
MORAR BEM
Gilberto Braga, o grande autor de novelas, comprou um apartamento em Paris.
TOM E RUBEM BRAGA
Sérgio Cabral bateu ontem o martelo. O metrô de Ipanema, na Praça General Osório, vai se chamar Estação Tom Jobim.
Viva!
Também determinou que o elevador do Morro do Cantagalo seja Elevador Rubem Braga, pela visão que permitirá da cobertura onde viveu o genial cronista, na Rua Barão da Torre.
LULA SUPERSTAR
Com título “Lula Superstar”, a L’Express, da França, deu destaque, esta semana, ao filme Lula, o filho do Brasil.
Segundo a revistona, a ideia de adaptar o longa do timoneiro para a TV, na forma de novela, não é descartada.
FILME TRISTE
Aliás, veja a maldade que circula na internet. Dois sujeitos falam sobre Lula, o filho do Brasil. Um elogia o filme. Outro, também, mas ressalva: “Pena que o fim seja triste. O cara termina... presidente do Brasil.”
Deve ser coisa da oposição. Como diz o Tutty, “Ô raça”.

JAPA GOSTOSA

DORA KRAMER

Palavras de presidente

O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/11/09

É de praxe que as partes aguardem a publicação oficial da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a extradição de Cesare Battisti. Tanto o presidente Luiz Inácio da Silva para dar a última palavra, quanto o governo italiano para anunciar o que fará caso se considere legalmente lesado.

Não obstante as cautelas, as posições são conhecidas. Para a Itália é ponto de honra que Battisti volta ao país para cumprir pena de prisão perpétua a que foi condenado por quatro homicídios.

Já para o presidente brasileiro, a concessão do refúgio pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, é correta e seu cumprimento "uma questão de soberania nacional" à qual a Itália teria de se curvar gostando ou não.

Foi isso que ele disse no dia 16 de janeiro último e quase o mesmo escreveu em carta ao presidente Giorgio Napolitano três dias depois.

Na época, Lula defendia seu ministro da Justiça, que havia tomado uma decisão tida como "absurda" pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e contrária ao parecer do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça.

Mas Lula avalizou: "Nós tomamos uma decisão de entender que essa pessoa italiana (sic) não precisaria voltar à Itália e poderia ter o status de exilado. O ministro da Justiça entendeu que esse cidadão deveria ficar no Brasil e tomou a decisão que é do Estado brasileiro. Portanto, alguma autoridade italiana pode não gostar, mas tem de respeitar".

Na carta ao presidente Napolitano Lula assegurava que o ato de Tarso Genro estava amparado "na Constituição Brasileira, na Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados e na legislação infraconstitucional (Lei 9.474/97)".

Em defesa de Battisti lembrou que o Brasil é um "país generoso", contestou a validade das provas dos assassinatos - "o acusador fez um processo de delação premiada e hoje nem existe mais para provar essas acusações"- e convalidou a lisura da conduta do italiano "que trabalhou e hoje é escritor".

Na ocasião dessas declarações o presidente não teve o cuidado de fazer ressalvas a um possível entendimento diverso do
Supremo Tribunal Federal. Foi peremptório ao conferir ao juízo do ministro da Justiça o grau de instância máxima.

Foi arrogante, autoritário no trato das instituições italianas e brasileiras e, sobretudo, demonstrou que não sabia da missa a metade a respeito das implicações do caso. Tocou de ouvido em assunto em que conviria conhecer a partitura.

Dia depois

Se o presidente Lula resolver manter Battisti no Brasil, já se sabe, pode levar o País a responder perante tribunal internacional por quebra do tratado de extradição com a Itália e se arriscar também a sofrer denúncia por crime de responsabilidade, já que o tratado tem força de lei.

O que ainda não se aventou é a hipótese de os advogados de Battisti pleitearem do governo brasileiro reparo por danos morais e materiais. Afinal, se Lula decidir pela anistia, o italiano terá ficado dois anos preso por nada.

Ou, como disse o ministro Cezar Peluso na sessão de quarta-feira: "Por gratuito exercício de crueldade."

Cubanos

Segundo o ministro da Justiça, Tarso Genro, não está correta a afirmação feita aqui de que a motivação humanística que o fez conceder refúgio a Cesare Battisti não alcançou os pugilistas cubanos mandados de volta a Havana, em 2008.

Por meio de sua assessoria, envia a seguinte mensagem:

"Durante o Pan, cinco atletas pediram refúgio ao Brasil. Estão vivendo aqui até hoje o ciclista Michel Garcia, o jogador de handebol Rafael Capote e o treinador de ginástica artística Lázaro Ramirez.

"Os outros dois atletas, os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, inicialmente quiseram ficar. Eles tinham contato com um empresário que prometera levá-los para a Alemanha. Deixaram a delegação cubana, foram para um hotel numa praia do Rio e esperaram; o empresário não apareceu.

"Pediram a um pescador que fizesse contato com a polícia, pois estavam sem dinheiro e sem saber o que fazer. Foram ouvidos pela Polícia Federal, na presença de um procurador da República e de um conselheiro da
OAB-RJ. A todos declararam que queriam voltar para Cuba, e assim foi feito. Não pediram refúgio, ao contrário de seus outros três colegas.

"Em março último Lara confirmou, em entrevista à TV Globo, o desejo de voltar a Cuba. De lá foi para o México, depois para a Alemanha e atualmente vive em Miami.

"Há no Brasil 124 cubanos refugiados. O refúgio mais recente foi dado a um grupo de músicos no ano passado, que vieram para um festival de música e vivem em Recife.

"Portanto, o ministro Tarso Genro não teria motivos para negar refúgio aos dois boxeadores, visto que o concedeu a outros dois atletas e também aos músicos, mais recentemente".

CLÁUDIO HUMBERTO

“Toda vez que o PT soltar uma pesquisa, não acreditem”
ACM NETO (DEM-BA), APÓS O PT-BA DIVULGAR UMA PESQUISA FALSA SOBRE A ELEIÇÃO DE 2010

TERRORISTA DEVE SER LEVADO AO RIO PARA DEPOR
Uma impressionante operação de logística policial, digna da escolta a grandes criminosos, está sendo planejada em sigilo afim de levar o terrorista Cesare Battisti para depor na 2ª Vara Federal do Rio de Janeiro, no dia 12. O bandido que merece a proteção do ministro Tarso Genro (Justiça) será ouvido sobre crimes como uso de documentos falsos, no Brasil, para abrir contas bancárias e obter cartões de crédito.
BANDIDO COMUM
Cuidados são adotados para evitar fuga de Battisti, sua especialidade. Antes de matar, ele foi processado na Itália por assalto e estupro.
CANA BRAVA
Pelos crimes que cometeu no Brasil, o bandidão Cesare Battisti está sujeito a penas que podem somar onze anos de prisão.
MEXA-SE, MP
Cabe ao Ministério Público Federal oferecer denúncia e pedir a prisão preventiva do terrorista, condenado na Itália por quatro assassinatos.
VIDEOCONFERÊNCIA
A transferência do terrorista para o Rio só poderá ser abortada se o Supremo Tribunal Federal autorizar sua oitiva por videoconferência.
CASO DE MENINO BRASILEIRO CHEGA AO CAPITÓLIO
O caso do menino Sean Goldman, filho da brasileira Bruna com o americano David Goldman, foi parar na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos. O deputado republicano Cris Smith acusa o governo brasileiro de não obedecer o tratado internacional que “versa sobre o seqüestro de menores”, assinado por ambas as nações. A audiência será realizada no dia 2.
COMPLICADO
Bruna trouxe o filho para o Brasil em 2004 e nunca voltou aos EUA. Ela morreu em 2008 e agora o menino vive com o padrasto, no Rio.
VINGANÇA
O deputado republicano que ajuda David propôs uma lei que permitiria ao presidente americano “punir” o Brasil por não ajudar no caso.
UNIÃO INSTÁVEL
O caso do americano contra o governo brasileiro é uma das poucas causas que uniu parlamentares republicanos e democratas, nos EUA.
OLHO DA RUA
Antes de demitir, ontem, Regina Parisi, diretora-executiva da Fundação Geap, plano de saúde de funcionários federais, o conselho deliberativo consultou o presidente Lula por meio do seu secretário particular Gilberto Carvalho. Lula deu sinal verde e ela foi defenestrada.
ARRUDA NA FRENTE...
Pesquisa realizada no Distrito Federal entre os dias 12 e 18 de novembro aponta que o governador José Roberto Arruda (DEM) lidera com folga as intenções para o GDF, com 26%, dez pontos à frente do principal adversário, o ex-senador Joaquim Roriz (PSC).
... E PT ATRÁS NO DF
A pesquisa, realizada pelo Instituto Dados, o único que apontou a vitória de Joaquim Roriz contra Cristovam Buarque (PDT) em 2002, mostra que o PT é o partido preferido dos eleitores do DF, mas o candidato petista Agnelo Queiroz tem apenas 1,5% das intenções de voto.
DANDO CORDA
O coronel tucano Tasso Jereissati (CE) está dando a maior corda para que o amigo Ciro Gomes aceite ser o vice de Aécio Neves, na chapa presidencial. Com isso, ele limpa o caminho para tentar a reeleição.
EMPREGOS EM ALTA
Com 95.043 trabalhadores empregados, entre efetivos, terceirizados e temporários, o emprego no pólo industrial de Manaus teve em setembro melhor resultado desde janeiro, quando chegou a 95.607.
A TERRA AGRADECE
A Câmara de Vereadores de Araranguá (SC) aprovou a proibição de extração e beneficiamento de carvão mineral, combustível fóssil que contribui para o aquecimento global. E faz a alegria das termoelétricas.
LIKE A VIRGIN
Dorme na gaveta da Alerj projeto do deputado João Pedro (DEM) regulamentando o uso da estrutura pública em eventos privados, que impediria, por exemplo, a farra de batedores para Madonna com dinheiro do contribuinte. O Ministério Público finge-se de morto.
VISÃO DOS INFERNOS
Será especialmente constrangedor um encontro da assessora especial de Lula, Clara Ant, judia, com o anão atômico Ahmadinejad, que nega o Holocausto. O umbral da sala dela tem a mezuzá, símbolo de proteção.
PENSANDO BEM...
...FHC não é bispo como seu xará paraguaio Fernando Lugo, mas ajoelha e reza. O Lugo reza mais: já tem oito filhos.

PODER SEM PUDOR
PARENTE, O MÃO-DE-VACA
Certa vez, num coquetel com investidores em Londres, o então ministro Pedro Malan resolveu brincar com Pedro Pullen Parente, chefe da Casa Civil de FHC. Malan espalhou que Parente era mão de vaca e que isso tinha a ver com os seus descendentes escoceses, conhecidos pela avareza. Ele logo percebeu que de transformara em motivo de chacota. Protestou:
– Pedro, daqui a pouco, todo mundo vai achar que é verdade!?
– A esta altura – saboreou Malan – só você está achando que não é...

O VERME

SÁBADO NOS JORNAIS

- Globo: Cabral reage à mudança na regra de partilha do pré-sal


- Folha: Lula avaliará modelo misto para a banda larga no país


- Estadão: Ministro do STF diz que não se dobrou a pressões


- JB: Calor eleva em 10% consumo de energia


- Correio: Sem concorrência, gasolina é cara no DF


- Jornal do Commercio: Tiros de fuzil em roubo de R$ 2,5 milhões

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

DEMÓSTENES TORRES

É tribunal, é federal, mas é sobretudo Supremo

O BLOG DO NOBLAT

Quando chegou à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania o pedido de análise da decisão do Supremo Tribunal Federal cassando o mandato do senador Expedito Júnior, me recusei a aceitar.

Argumentei que sentença do STF não é para se discutir, é para se cumprir, pois, acima dele, só Deus.O problema é que alguns se consideram deuses e ao menos um tem disso certeza absoluta.

Agora, no caso da extradição de Cesare Battisti, é imperativo cortar quaisquer dúvidas acerca do alcance dos vereditos do STF, inclusive quando eles se dão pela metade.

A Corte resolveu que se trata de autor de crimes comuns, que deve ser mandado para cumprir a pena no país em que os cometeu.

Ao mesmo tempo, decidiu não decidir que se trata de um órgão maior e passou o crivo de sua sentença a outro Poder, como se o Executivo, que já domina o Legislativo, tivesse o mando sobre o Judiciário.

Para o senador Expedito Júnior, a certeza da cassação; para o assassino Battisti, a dúvida na extradição.

Expedito Júnior chegou aos tribunais superiores por crimes eleitorais, acusado por empregados da firma de segurança da família.

Battisti foi alçado a centro de polêmica porque parte do governo brasileiro o considera um ativista político, não um assassino frio, condenado pelo Judiciário de um país democrático.

Para a esquerdossinecura brasileira, matar quatro pessoas, deixar outras com deficiências permanentes e enlutar famílias não é nada, faz parte do esquema para chegar ao poder, perigoso mesmo é comprar voto.

O argumento não resiste aos fatos explicados na época do mensalão como “recursos não contabilizados”.

Se o governo compra voto, é filigrana; se é a oposição, incinera-se o infrator. Ambas as condutas deveriam ejetar da política seus autores, governistas ou contrários.

O abuso de poder econômico custou o mandato ao senador. O abuso de desfaçatez do governo custou indisposição com a Itália e, ao STF, pode redundar em redução do prestígio.

Battisti não merece a desmoralização do Brasil perante a comunidade internacional nem o menor esforço dos ministros do Supremo. Muito menos, o assassino vale o temor de que a Suprema Corte seja vista como clube lítero-teatral.

Não é um espaço lúdico, não é um jogo de empurra, não comporta dubiedades, não sedia vacilos. O STF é o sustentáculo da democracia.

A ele a nação recorre quando se vê ameaçada e ele a nação socorre qualquer que seja a crise. O criminoso italiano não merece ser o marco do início de um processo de decadência em que as decisões da Instância Maior tenham apenas caráter informativo e não vinculante.

O STF tem as mãos que guiam os destinos de um povo e não pode cometer a pilatice de lavá-las. Decidiu, está decidido. Não tem conversa, não tem consulta, não tem pressão por trás nem presidente pela frente.

Longe de Brasília, o chefe do Executivo, que nunca sabe de coisa nenhuma, parecia muito bem informado sobre os saltos pendulares de posições internas no Supremo.

Tanto que, o presidente da República prometeu respeitar as opiniões “determinativas” do STF.

Sim, no entender do presidente, trocou-se a sentença indiscutível por mero juízo de uns e outros. Não, o Supremo merece o respeito da Pátria e, sobretudo, das autoridades constituídas.

Sigo acreditando que nada há acima do Supremo Tribunal Federal, muito menos os que se consideram os deuses de plantão. Que seja retomada a rota e decida sempre sem titubeios, sem interpretações posteriores, como a sociedade espera que seja o guardião de sua Carta.

O País espera, também, que o presidente da República repare a grosseria institucional e o absurdo nunca antes visto de confrontar uma nação amiga por causa de um assassino.

O riso de escárnio implantado no rosto de Battisti por irresponsáveis plantados no governo brasileiro deve se esmaecer apenas quando entrar no avião com destino à Europa e na cadeia italiana pelas próximas décadas. Expedito Júnior voltou para seus negócios em Rondônia.

Falta Cesare Battisti retornar à Itália, para que as famílias das vítimas não cumpram a pena perpétua da impunidade.

Demóstenes Torres é senador (DEM-GO)

BRASÍLIA - DF

Assalto aos royalties


Correio Braziliense - 20/11/2009


O Palácio do Planalto resolveu pisar no acelerador e votar a partilha do pré-sal na próxima semana, antes dos demais relatórios. Teme que as bancadas dos estados não produtores inviabilizem a aprovação do acordo fechado pelo governo com os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e do Espírito Santo, Paulo Hartung, ambos do PMDB. Segundo o acerto com Lula, 25% dos royalties seriam destinados aos estados produtores. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que diverge da proposta, comanda a rebelião das bancadas do Norte e do Nordeste, como a coluna antecipou.

“Todo mundo quer tirar um pouco dos royalties do Rio de Janeiro”, justifica o líder do PT, Cândido Vacarezza (SP), que negocia com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), a inversão da pauta. Segundo o petista, a intenção é votar no começo da semana o relatório do deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que estabelece a partilha dos royalties. Mesmo assim, segundo o parlamentar, será preciso fazer alguns “ajustes” na proposta para amansar os descontentes.

Bombou// A equipe econômica estima que o país crescerá 2,5% no último trimestre, o que projeta uma taxa de crescimento “anualizada” de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas a previsão que deixa o ministro da Fazenda, Guido Mantega, rindo mais do que aeromoça é o aumento da arrecadação federal a ser divulgada na próxima semana.

Caixa



A propósito dos projetos do pré-sal, o líder do PSDB, José Aníbal (foto), está cismado com a pressa do governo para aprovar o projeto de capitalização da Petrobras, urgência que atribui a problemas de caixa. Para o tucano paulista, o socorro de R$ 2 bilhões da Caixa Econômica Federal à empresa, em outubro passado, ainda preocupa o mercado. Como o número é pequeno para uma empresa que investe somente este ano US$ 60 bilhões, a única explicação para sua necessidade é a falta de capital de giro.

Fênix

O ex-governador de Minas Newton Cardoso quer renascer das cinzas. Na moita, arrebanha delegados para a convenção do PMDB mineiro com objetivo de recuperar o controle da legenda. Quem não está gostando da empreitada é o ministro das Comunicações, Hélio Costa, candidato ao governo mineiro. A deputada Maria Lúcia Cardoso, ex-mulher e desafeta de Newton, corre risco de perder a legenda e não concorrer à reeleição.

Cana-dura

Um pedido de vista coletivo adiou para a próxima semana a votação no Senado do projeto que altera as atribuições do Ministério Público e das polícias federal, civil e militar na repressão ao crime organizado. O líder do PT, senador Aloizio Mercadante, relator do projeto, no qual o MP exercerá o controle externo das polícias, tenta costurar um acordo para acabar com a disputa entre os órgãos. O petista também leva em conta o projeto do Ministério da Defesa que atribui poderes de polícia à Marinha e ao Exército nas fronteiras do país.

Mulheres

Pesquisa do Data Senado aponta que 62% das entrevistadas conhecem mulheres que já sofreram violência doméstica e familiar. Entre os tipos de violência, as mais citadas foram a física (51%), a moral (16%) e a psicológica (15%). No Brasil, uma mulher é espancada pelo marido ou companheiro a cada 15 segundos.

Absoluto



O favoritismo do senador tucano Marconi Perillo (foto), ex-governador de Goiás, inibe a candidatura do prefeito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), até agora o único que poderia enfrentá-lo na disputa pelo governo goiano. Pela mesma razão, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se filiou ao PMDB, anda falando que permanecerá no cargo.

Recauchutagem/ Enquanto os 36 novos caças de última geração que o governo Lula pretende adquirir taxiam na pista do Programa FX-2, a Força Aérea Brasileira recauchuta mais 12 aviões F-5 adquiridos de segunda mão da Jordânia. O programa de modernização da frota de combate da FAB já reformou 34 caças norte-americanos F-5, que compõem a vanguarda da Força, juntamente com os velhos Mirages 2000, também reformados.

Sem-terra/ A bancada ruralista aprontou mais uma na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural: aprovou, ontem, projeto do deputado Valdir Colatto (PMDB-SC) que condiciona a desapropriação de terras para fins de reforma agrária à prévia autorização do Congresso Nacional. A pretexto de combater os sem-terra, a comissão invadiu as atribuições do Executivo.

Olodum/ O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), que assinam vários decretos de regularização de terras quilombolas, vão levar o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, a um ato público na Praça Castro Alves, hoje, às 16 horas, em comemoração ao dia da Consciência Negra. Acostumado aos tiros para o ar de AK-45 dos soldados do Fatah, durante as solenidades palestinas, Abbas ouvirá pela primeira vez o canto de Margareth Menezes e o som dos tambores da Bahia.

GOVERNADORA WILMA DE FARIA-RN

DIRETO DA POLÍCIA FEDERAL-URGENTE

A governadora Wilma, colocando o neto no BERÇO-PRISÃO. Até o momento o blog não sabe qual crime foi cometido pelo bebê. O que o blog tem conhecimento, são os crimes cometidos pelo Filho, irmão, genro e agregados da governadora.
Pelo sim, pelo não, deve ser prisão preventiva.

NELSON MOTTA

Caças e caçadores


O Globo - 20/11/2009


A cubana Yoani Sánchez está se tornando um símbolo mundial da liberdade de expressão na internet.

Proibida de ser lida em seu próprio país, de viajar para receber diversos prêmios internacionais, vigiada dia e noite, e agora sequestrada e espancada por agentes da policia política, ela continua contando em seu blog como é a vida real em Cuba — que os meios de comunicação estatais, sovieticamente controlados, escondem.

Yoani é perseguida porque revela a realidade do cotidiano cubano, desmente mitos da propaganda oficial com fatos e fotos, ironiza e debocha dos dinossauros no poder, é intolerável para qualquer ditadura. Pior, quanto mais famosa fica, mais difícil calá-la e encarcerá-la, por medo do clamor internacional. No clássico estilo oficial, é acusada de ser inimiga da revolução a soldo da CIA e do Império, embora viva modestamente e sequer tenha internet em casa, privilégio dos fiéis ao partido. Tem que fazer os seus posts de lan houses, que são proibidas aos cubanos, disfarçada de turista.

Os anticastristas fanáticos de Miami, que se nivelam em estupidez aos castristas da ilha, na tentativa de monopolizar a oposição ao regime, plantaram que Yoani fez um acordo com o governo e é usada para mostrar que há liberdade de expressão em Cuba. É ridículo: ela não pode nem ser lida na ilha.

Os velhos revolucionários nunca imaginaram enfrentar inimigo tão poderoso, a serviço do Império, por supuesto: blogs, twitters, sites, celulares, e-mails, satélites, que estão mostrando os desastres de 50 anos de revolução. Tudo que o governo cubano não tolera. Mas é um caminho que não tem mais volta, que nem armas, nem slogans e nem bravatas poderão conter.

Corajosa, logo depois da agressão, Yoani postou fotos de diversos agentes da repressão que vigiam seu apartamento e seus passos. Os arapongas foram flagrados no susto, alguns fugindo, outros cobrindo o rosto como bandidos presos, em flagrantes históricos de uma ditadura.

A caça, armada de celular, passou a caçadora. Os secretas foram expostos, suas fotos circulam pela ilha, Yoani pergunta o que eles vão dizer a suas famílias.

ROBERTA FRAGOSO MENEZES KAUFMANN

O tribunal racial da UnB


O Globo - 20/11/2009

Você já ouviu falar de Tribunal Racial? Só na Alemanha, nos tempos de Hitler? E no Brasil? Pois saiba que em Brasília, a poucos metros da Corte Constitucional, a UnB resolveu instalar uma Comissão Racial, de composição secreta, que, com base em critérios secretos, define quem é branco e quem é negro no Brasil.

Desnecessário comentar sobre o verdadeiro massacre ao princípio da igualdade, da razoabilidade e da dignidade da humana.

Em pleno século XXI, o item 7, e subitens, do Edital n o02/2009 do vestibular Cespe/UnB ressuscitou os ideais nazistas, hitlerianos, de que é possível decidir, objetivamente, a que raça a pessoa pertence.

Em outras palavras: será constitucional que uma comissão composta por pessoas arbitrariamente escolhidas pelo Cespe diga a que raça alguém pertence? Quais são os critérios utilizados? Em um país altamente miscigenado, como o Brasil, saber quem é ou não negro vai muito além do fenótipo. Após a Nigéria, somos o país com maior carga genética africana do mundo! Nesse sentido, importa mencionar a recente pesquisa de ancestralidade genômica realizada em líderes negros brasileiros pelo geneticista Sérgio Pena. Na ocasião, observou-se que a aparência de uma pessoa diz muito pouco em relação à ancestralidade.

O sambista Neguinho da BeijaFlor, por exemplo, possui 67,1% de ascendência europeia.

A mesma coisa pode ser afirmada em relação à ginasta Daiane dos Santos e à atriz Ildi Silva, nas quais a ascendência europeia é maior do que a africana.

Assim, no Brasil, há brancos na aparência que são africanos na ancestralidade. E há negros, na aparência, que são europeus na ascendência! O professor Sérgio Pena, no estudo denominado Retrato Molecular do Brasil, chegou à conclusão de que, além dos 44% dos indivíduos autodeclarados pretos e pardos, existem no Brasil mais 30% de afrodescendentes, dentre aqueles que se declararam brancos, por conterem no DNA a ancestralidade africana, principalmente a materna (a medicina comprova a história de miscigenação precoce).

Nessa linha, infinitos são os questionamentos possíveis em relação aos critérios segregatórios (se é que existe algum critério) de definição racial utilizados pela tal comissão.

Por exemplo: quantos por cento de ancestralidade africana fazem alguém ser considerado negro? E se a pessoa for africana na ancestralidade, mas branca na aparência, e nunca tiver sofrido preconceito e/ou discriminação, isso faz com que ela também possa ser beneficiária da medida? E se o indivíduo negro estrangeiro tiver acabado de chegar ao Brasil para aqui ser residente, ele também pode ser beneficiário da política? E se o negro não descender de escravos, terá direito? E o branco na aparência que comprovar descender de negros escravos, poderá ter acesso privilegiado? E o negro que descender de negros que possuíram escravos, também poderá ser beneficiário? Por outro lado, admitir que uma “Banca Racial” decida quem é negro no Brasil, utilizando-se de critérios arbitrários e ilegítimos, lastreada em perguntas do tipo “Você já namorou um negro?”; “Você já participou de passeatas em favor da causa negra?”, é totalmente ofensivo a os princípios da igualdade, moralidade, publicidade e autonomia universitária.

A questão que se levanta não é superficial: se não se pode definir objetivamente os verdadeiros beneficiários de determinada política pública, então sua eficácia será nula e meramente simbólica.

De fato, a estupidez humana parece não encontrar limites.

JAPA GOSTOSA

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EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO

Confusão legal

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09


Desfecho do caso Cesare Battisti cria anomalia institucional e projeta insegurança jurídica para as extradições futuras

A DESASTRADA decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder refúgio ao terrorista italiano Cesare Battisti -condenado em seu país por quatro homicídios- acabou por desencadear uma reviravolta no modo como o Brasil trata pedidos para extraditar estrangeiros. O resultado é uma anomalia institucional que projeta confusão e insegurança jurídica para o futuro.
Ao sustentar o refúgio, o ministro da Justiça imputou à Itália "fundados temores de perseguição política" contra Battisti. Para Genro, uma democracia estável desde o final dos anos 1940, com Judiciário independente, seria incapaz de garantir o cumprimento adequado de sentenças transitadas em julgado.
Expedido o refúgio, a lei específica, de 1997, manda cessar o trâmite dos pedidos de extradição. Mas outra norma, o Estatuto do Estrangeiro, de 1980, atribui exclusivamente ao Supremo Tribunal Federal decidir se um crime imputado a um extraditando é político -hipótese em que o Brasil não permite a extradição.
Ora, Tarso Genro concedeu o refúgio por avaliar que os crimes pelos quais o italiano foi condenado eram políticos: havia, portanto, um conflito de competências. O Supremo, que já havia ensaiado dirimir essa dúvida num caso precedente, decidiu fazê-lo por ocasião do juízo de Battisti.
Por margem de um voto, o plenário desqualificou os argumentos de Tarso Genro, anulou o refúgio, refutou a tese dos homicídios políticos e julgou procedente a extradição. A maior novidade viria a seguir: o ministro Ayres Britto mudou de lado e juntou-se aos colegas antes derrotados para estabelecer que é do presidente da República a última palavra, nesta e em todas as outras extradições daqui por diante.
Não se trata, é importante notar, de autorizar o chefe do Executivo a recusar ou adiar a entrega de Battisti à Itália nos casos já previstos nas leis e no tratado de extradição com o Brasil -já é do presidente, por exemplo, a faculdade de aguardar o término do processo ao qual o estrangeiro responde aqui, por falsificação de documentos. O Supremo diz, simplesmente, que Lula não está obrigado a cumprir a extradição. Pode recusar-se a entregar o extraditando num ato de pura, e ilimitada, discricionariedade.
Num passe de mágica, transfere-se a instância julgadora da extradição -papel que a Constituição reserva ao Supremo- para a Presidência da República. A corte máxima de repente se torna um órgão meramente consultivo nessa matéria, contrariando sua tradição centenária de decidir as questões, produzindo efeitos necessários de suas manifestações.
O inusitado é tamanho que nem sequer o Planalto -sequioso por consumar a ação entre amigos iniciada por Genro- sabe reagir. Como manter um estrangeiro cujo status de refugiado foi cassado na Justiça? Como justificar politicamente um ato que contraria o Supremo? Como impedir a entrega de Battisti sem desmoralizar o tratado de extradição entre Brasil e Itália?
A obsessão do governo de atender a um pequeno mas ruidoso lobby de militantes de esquerda já nos custou demais. Os amigos de Cesare Battisti têm todo o direito de pleitear o relaxamento de sua prisão. Mas que o façam no lugar certo -na Itália que o julgou e condenou. É para lá que Lula deveria transferir o terrorista, respeitando a vontade da maioria do Supremo.

TÂNIA DA SILVA PEREIRA

Liberdade para morrer!

O Globo - 20/11/2009


O mundo acompanhou pela imprensa internacional e pelos relatos das pessoas próximas ao Papa João Paulo II que, desde o início do agravamento de sua doença, manifestou a vontade de permanecer em sua casa e solicitou que fossem afastados tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, todos resumidos em suas últimas palavras: “Deixai-me ir para a casa do Pai”.

Devemos entender o “testamento vital” como eficaz instrumento garantidor da autonomia do paciente terminal que, redigido em momento de sanidade mental, reflete o direito de ser respeitado em sua vontade, em concreta manifestação de sua dignidade no momento da morte.

O “testamento vital” é ato unilateral de vontade onde o declarante, com lucidez e convicção, atestadas por um especialista, expressa seu desejo em instrumento público, perante duas testemunhas de, em situações terminais, na hipótese de ser acometido de uma doença grave, ou no caso de um acidente que acarrete um quadro de inconsciência permanente, ser evitado o prolongamento da vida por meios artificiais. Deve indicar um médico da sua confiança para acompanhar o estado terminal. Nesse documento podem ser incluídas cláusulas sobre sepultamento, cremação e doação de órgãos.

O novo Código de Ética Médica (Resolução do CFM no1931/2009 ) estabeleceu que “nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados”. As Unidades de Cuidados Paliativos já representam no Brasil uma conquista significativa na atenção ao doente terminal, buscando atender às necessidades físicas, psíquicas, sociais e espirituais do paciente e de sua família.

O projeto de lei 116/2000 do senador Gerson Camata, debatido em audiência pública (17/09/2009), busca excluir a ilicitude da ortotanásia se previamente atestada por dois médicos, diante de uma morte iminente e inevitável e desde que haja consentimento do paciente ou, em sua impossibilidade, do cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão. Evita-se, assim, o desgaste emocional, físico e financeiro que sua existência infeliz e impro dutiva possa acarretar.

Em nome do direito à vida, da liberdade e do princípio da dignidade humana, não se pode recusar às pessoas o direito de expressar sua vontade de maneira a orientar os médicos e aqueles com quem convive com afinidade e afetividade. Tendo como parceira a comunidade científica, busca-se estabelecer um posicionamento dos operadores do Direito, da classe médica e da sociedade civil organizada. Igualmente, o acesso aos cuidados paliativos deverá representar um direito universal e uma prática comum porque é direito de qualquer pessoa uma vida com qualidade que termine com uma morte digna.

TÂNIA DA SILVA PEREIRA é advogada e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

GOSTOSA


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FERNANDO DE BARROS E SILVA

Filme C


Folha de S. Paulo - 20/11/2009

Como "2 Filhos de Francisco", "Lula, o Filho do Brasil" é um filme sobre a superação. Ambos os enredos têm origem em histórias verídicas de brasileiros que, nascidos na miséria e sem perspectivas pela frente, conseguem contornar as adversidades para ascender socialmente, até atingir os píncaros da glória individual e o ápice do reconhecimento público.
A trajetória que vai da miséria ao estrelato é parecida, mas, no primeiro caso, os personagens são uma dupla sertaneja e, no segundo, o presidente da República, o que muda as coisas de figura. O pai deste Lula da Silva não é "Francisco", mas "o Brasil".
Se a expressão "filme B" designa as produções rudimentares, o cinema menor destinado ao consumo ligeiro, parece que agora estamos diante de um novo fenômeno: o "filme C". Com "Lula, o Filho do Brasil", o melodrama épico da vitória pessoal sobre a pobreza se converte em ideologia de uma época.
Esse gênero de entretenimento com mensagem social e intenção edificante já está presente em "2 Filhos de Francisco", mas ganhou agora sua versão oficial com o carimbo do Planalto. A oportunidade vislumbrada pelo clã Barreto para lavar a égua e o estímulo de Lula a tudo o que possa resultar no culto à sua personalidade estão associados numa obra que vai alimentar a confusão entre a sorte de um indivíduo e o destino de um povo.
Em 1982, em sua primeira campanha eleitoral, quando disputou o governo de São Paulo, Lula dizia ser "um brasileiro igualzinho a você". Anos depois, diria, em tom de ironia: "Ninguém queria ser um brasileiro igual a mim".
Hoje as coisas mudaram. É provável que a classe C emergente, a quem o filme parece ser didaticamente dirigido, se reconheça e se emocione diante da tela.
O Brasil continua a ser o país em que a desigualdade ainda imensa convive com infinitas formas de mobilidade social. Mas estamos avançando. Quem nos diz é esse filme simplesmente horroroso.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Real forte chega à exportação de primários

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09


A ATENÇÃO quanto aos efeitos negativos da valorização do real estava até agora restrita ao setor industrial, principalmente nos segmentos voltados para a exportação. Não por outra razão são os órgãos representativos da indústria os que mais reclamam e pedem uma ação mais decisiva do governo.
Os exportadores de produtos primários estavam -até agora- protegidos da taxa de câmbio valorizada por uma nova lógica de mercado: os preços em dólar desses produtos subiam na proporção da valorização do real e de outras moedas emergentes. Durante vários meses, os índices que medem os preços das principais commodities, quando calculados em real, apresentavam uma estabilidade monótona, apesar das grandes oscilações do câmbio.
Com a aceleração recente da desvalorização do dólar em razão da percepção de que os juros nos Estados Unidos devem continuar muito baixos em 2010, essa mágica se desfez. Com isso, o valor em real dos produtos primários exportados pelo Brasil começou a ser afetado. Nesta última semana, o jornal "Valor" trouxe extensa reportagem sobre os preços da carne bovina no Brasil e em outros países exportadores que competem conosco.
A arroba do boi custa hoje US$ 44,50 para os frigoríficos brasileiros, valor equivalente ao que vigora nos Estados Unidos. Na Argentina -grande concorrente do Brasil nos mercados internacionais-, os frigoríficos pagam menos de US$ 30 pela mesma arroba. O mesmo ocorre no Uruguai (US$ 34,60) e na Austrália (US$ 38,60). Mesmo com os preços em dólar mais baixos, os criadores nesses países continuam a receber o mesmo valor em moeda local e estão felizes da vida. No Brasil, os criadores terão de aceitar menos reais por arroba para viabilizar as exportações de carne.
O mesmo fenômeno -perda expressiva de competitividade- está ocorrendo no setor de carne de frango por conta da taxa de câmbio. Nesse segmento, as empresas americanas -que são mais eficientes do que as brasileiras- têm escala de produção que permite aumentar sua presença nos principais mercados consumidores. Da mesma forma, produtos como soja e seus derivados e café também têm seus preços em real deprimidos em razão da moeda brasileira cada vez mais forte. Certamente os associados da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da CNI (Confederação Nacional da Indústria) vão ganhar novos companheiros na luta para enfraquecer o real nos próximos meses.
Em todos os setores exportadores e nos segmentos mais sujeitos à concorrência das importações, estamos assistindo a uma transferência de renda das empresas para os consumidores, por meio dos preços mais baixos de produtos industriais e alimentícios. Os índices medidos no atacado nos últimos meses mostram esse fenômeno de forma clara, tanto na cadeia industrial como na maioria dos produtos agrícolas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aconselhou os exportadores mais prejudicados a ganharem competitividade para enfrentar a realidade de uma moeda nacional forte.
Esquece ele que, para que isso ocorra, o governo precisa mudar sua forma de organizar o gasto orçamentário. Somente com investimentos em infraestrutura, principalmente na cadeia logística de exportação e importação, e mudanças profundas na estrutura tributária do setor exportador será possível esse movimento por maior eficiência. Está mais do que na hora de uma melhor execução da política fiscal, com menores gastos de custeio e mais investimentos.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS , 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

GOSTOSA PELO SISTEMA DE COTAS DO BLOG

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JOÃO MELLÃO NETO

Meu caro Lula

O Estado de S. Paulo - 20/11/2009
Nos últimos 23 anos já lhe escrevi, aqui, neste Espaço Aberto, pelo menos umas cinco cartas, sempre com o mesmo título. Não tenho grande esperança de que você as leia. Afinal, você mesmo se vangloria do fato de não gostar de nenhum tipo de leitura. Não tem importância. Eu já me dou por satisfeito se ao menos algum assessor seu as ler. E me compraz também o simples fato de escrevê-las.

A primeira, bem me lembro, foi em novembro de 1989. Você acabava de passar para o segundo turno, que viria a disputar com o Collor. O seu discurso, à época, era eivado de rancor e ódio contra as camadas mais favorecidas. A queda do Muro de Berlim ainda não fora devidamente deglutida pelas nossas bravas esquerdas, tanto que ainda se falava a sério sobre o comunismo e você, não sei por que cargas d"água, colocava-se como porta-voz dessa gente toda. Eu o conheci quando ainda era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e você dizia que "intelectuais e estudantes só serviam para atrapalhar". Depois disso, quando começou a dirigir o PT, você, estranhamente, mudou. Adotou o discurso marxista, que era usado justamente por aquelas pessoas que você disse que "atrapalhavam". Tudo isso com a bênção da ala dita progressista da Igreja.

Intelectuais, estudantes e padres - não foi à toa que você perdeu três eleições.

Mas tudo isso é passado e você já tratou de enxotar toda essa gente esquisita. Uma gente, aliás, que custeou a sua vida, na condição de presidente do Partido dos Trabalhadores.

Estou novamente lhe escrevendo porque tenho notado que você mudou. E, sinceramente, não consigo vislumbrar para onde.

Seu discurso, desculpe-me dizer, é populista. Mais responsável do que o de seus colegas Hugo Chávez e Evo Morales, mas mesmo assim populista. Você mudou de carismático para carinhoso e ninguém sabe dizer por quê. A sua proposta é a da conciliação e da concórdia e você mal imagina o estrago que está causando em nossas instituições. Você tem o Poder Executivo, dispõe de maioria no Legislativo e, quanto ao terceiro Poder, o Judiciário, coube-lhe a rara oportunidade de indicar 7 dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal.

Os partidos políticos perderam a razão de existir. Com exceção de três ou quatro, todos os demais o apoiam. "Nunca antes neste país" se viu uma aliança tão ampla e contraditória. As esquerdas o aplaudem e as direitas, também, incluindo aquele partidos que abrigam os remanescentes da ditadura.

Até mesmo a União Nacional dos Estudantes (UNE), agora, ao invés de bradar contra o governo, deu de aplaudi-lo. "Nunca antes na História deste país" tal fenômeno ocorreu.

Na área sindical, tudo corre às mil maravilhas. Tanto a CUT como a Força Sindical, as duas grandes centrais, em vez de promoverem passeatas de protesto, preferem fazer atos públicos de apoio. Cabe aqui outro "nunca antes neste país".

Por que você se tornou tão "light"?

Eu me recordo de ter lido em 2001 (antes, portanto, de sua primeira vitória) um livro muito interessante de Duda Mendonça, o seu então marqueteiro oficial, no qual comentava "o jeito petista de ser". Dizia ele que os militantes do partido, sabe-se lá por quê, só apareciam em público com a cara amarrada, barba desgrenhada e ar ameaçador. Você mesmo não fugia à regra.

Companheiro a se despedir de companheiro lascava um "a luta continua". Que luta é essa?, perguntava-se Duda Mendonça.... Contra quem ela se dá?

Mais adiante afirmava que, se há algo que o brasileiro médio abomina, é confusão. Nada por aqui se resolve com brigas, refregas, muito menos com "lutas". Esse slogan "a luta continua" prometia exatamente o contrário. Por essa e outras razões correlatas, o partido sempre era derrotado nas urnas.

Esse livro, caro Lula, presumo que você leu. E se não o fez, ao menos foi um aluno aplicado do mestre Duda. Foi assim, creio eu, que surgiu o "Lulinha paz e amor".

Você já está no leme da Nação há quase sete anos. De modo fulminante, o episódio do "mensalão" tratou de afastar de seu convívio quase todos aqueles que o vinham acompanhando havia décadas. Outros caíram em desgraça por se terem proposto a realizar proezas impossíveis. Como aquele que iniciou o governo como ministro do "combate à fome". Em nome de seu programa, o famigerado Fome Zero, o seu governo abriu mão até de adquirir uma dúzia de aviões de guerra, alegando que o dinheiro necessário para tanto seria revertido para o meritório projeto.

O tempo passou e nunca mais se ouviu falar nem do tal ministro nem do Fome Zero. Quanto aos aviões de combate, eles estão sendo comprados agora. Que papelão, hein, Lula? Você deixou de comprar os jatos na ocasião e menos de um ano depois adquiriu o Aerolula. Vai entender...

Outra coisa que tenho reparado em você é que adquiriu uma rara habilidade na arte do "recorte e cole".

Depois do fracasso do Fome Zero, você e seus amigos decidiram levar adiante vários programas sociais dos tempos do Fernando Henrique. Eram o Bolsa-Escola, o Vale-Gás, etc. Funcionou tão bem que você decidiu colar todos eles e assim nasceu o Bolsa-Família.

Essa história de PAC também é um exercício de colagem. Você pegou todas as obras públicas que estavam sendo realizadas no País, juntou-as com as das estatais e pronto: estava criado o pomposo Programa de Aceleração do Crescimento!

Você já está ficando oito anos. Dizem por aí que pretende se candidatar em 2014 e assim ficar para mais oito.

Para falar a verdade, eu nunca votei em você, mas, pelo andar da carruagem, meus netos e bisnetos ainda terão oportunidade de fazê-lo.

Lula-lá em 2032!

VINÍCIUS TORRES FREIRE

Desigualdades, de FHC a Lula


Folha de S. Paulo - 20/11/2009

Desigualdade econômica regional caiu mais sob FHC, mas mudança não é efeito direto de ações de governo


A DESIGUALDADE econômica entre Estados e regiões diminuiu mais nos anos FHC do que nos anos Lula, segundo dados divulgados nesta semana pelo IBGE.
Decerto não foi intenção de nenhum dos dois puxar a sardinha econômica para esta ou aquela região. Nem a mudança é efeito direto da ação de governos. Políticas públicas têm efeito lento e retardado na alteração das diferenças econômicas regionais, se tanto, quando não têm consequências inesperadas. Além do mais, certos fatores que influenciam o destino de regiões estão fora do alcance de governos, como as andanças da economia mundial.
Nos anos Lula, houve grande alarido sobre o progresso econômico do Nordeste. Mas, a julgar pelos dados do PIB, a região andou apenas um tico mais rápido que o "Sul rico" entre 2003 e 2007. Os dados recentes e o recálculo do PIB desde 1995 reforçam a impressão de que algumas mudanças ocorridas entre 1990 e 1995 é que deram origem a alguns deslocamentos produtivos no país ao longo da década seguinte.
O PIB per capita no Nordeste equivalia a 42,3% do PIB per capita nacional em 1995, 46,44% em 2002 e ainda estava quase por aí em 2007 (46,66%). O do Sul foi de 108,6% em 1995 para 114,76% em 2002 e também quase estacionou: equivalia a 114,51% da média nacional em 2007.
De 1995 a 2002 foi a região Sudeste que "cedeu" participação no PIB. As mudanças maiores, essas e outras, ocorreram entre meados dos 90 até os anos da retomada do crescimento do país, no governo Lula.
A abertura comercial de 1990 (Collor) a 1994 (Itamar & FHC) e o real forte de FHC 1 avariaram alguns setores industriais e obrigaram outros a partir de centros como São Paulo. Sujeitas à competição do importado de melhor qualidade e/ou mais barato, as empresas tiveram de se mexer. Algumas se mudavam à procura de salários menores, sindicatos fracos ou inexistentes, subsídios estaduais, impostos menores ("guerra fiscal") e de outras reduções de custo -em alguns setores, a confusão metropolitana é um custo.
Outras empresas procuravam ficar mais próximas de centros de fornecimento de matérias-primas ou se mudaram com seus fornecedores, caso de indústrias de alimentos que migraram para o Centro-Oeste.
Trata-se aqui da indústria de transformação ("fábricas") e não da indústria total, que inclui a indústria extrativa (como petróleo). Costuma-se ouvir que a indústria paulista perdeu bastante participação na produção nacional. Nem tanto. Na indústria total, São Paulo tinha 44,5% do valor da produção em 1995; em 2007, 35,4%. Mas, no caso da indústria de transformação, a "queda" foi de 48,7% para 44,4%.
"Queda", entre aspas, pois na verdade houve um grande crescimento da indústria extrativa, em especial no Rio de Janeiro (petróleo).
O Nordeste ganhou uma fatia magra da indústria -foi de 7,94% para 8,84% do total nacional. Mas 95% desse incremento ficou na Bahia, que tem sua petroquímica e implantou uma indústria de automóveis.
Claro que não é só de indústria que se faz um país. O Centro-Oeste, por exemplo, no período cresceu quase o dobro do Sudeste -enriquece com a agropecuária. Mas é preciso achar um norte para o Nordeste.

TAXÍMETRO

BARBARA GANCIA

Arrivederci, Cesare Battisti!

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09


É natural que se pense que o presidente Lula esteja alinhado a Tarso Genro no caso Cesare Battisti


"NÃO ME TRAGA problemas, só me traga soluções." Durante anos, convivi com um diretor de Redação que mantinha uma plaquinha com essa frase sobre sua mesa de trabalho.
Era do tipo explosivo, e vira e mexe um urro vindo de sua direção desviava a minha atenção da tela do computador para uma cena bastante comum, a imagem do diretor brandindo a placa feito um punhal de sacrifício sobre a cabeça de algum repórter mais incauto.
Imagino que o presidente Lula seja o tipo de chefe que teria de bom grado essa mesma plaquinha sobre a mesa em que despacha no Palácio do Planalto. Acho que já deu tempo de aprendermos que Lula não gosta de problemas, que foge da contrariedade e que prefere sempre deixar os pepinos de casca mais espessa para outros descascarem.
É fato que ele não ficou nem um pouco feliz com seu ministro da Justiça, quando o atual titular da pasta inventou um conflito absolutamente evitável com a Itália na questão da extradição do terrorista italiano Cesare Battisti.
Qualquer um que tenha um pouco de intimidade com o temperamento e o modus operandi do nosso presidente, sabe que o "imbroglio" deve tê-lo deixado fulo da vida.
É bem verdade que qualquer calouro do Instituto Rio Branco teria passado ao léu do desgaste diplomático. Pois, já pensou, meu dileto leitor, o que alguém com o jogo de cintura e a habilidade política de Lula não deve ter achado dessa confusão toda?
E, agora que a decisão terminou no colo do presidente, eu não gosto nem de pensar nas cobras e lagartos que devem estar bolindo a respeito do ministro da Justiça na intimidade do Palácio da Alvorada.
É natural que se pense que Lula esteja alinhado a Tarso Genro no caso Battisti. Além do maniqueísmo generalizado que opõe duas ideologias como num clássico do Maracanã, fazendo supor que o mundo se divida na vida real como na cabeça de Chico Alencar, Ivan Valente e Eduardo Suplicy, o ministro da Justiça, afinal de contas, é de Lula e foi o presidente quem o colocou lá.
Logo após o Supremo Tribunal Federal decidir por delegar a decisão final sobre a extradição de Battisti a ele, foi também o presidente quem acionou a AGU (Advocacia Geral da União) para dar a impressão de que estaria buscando uma saída jurídica que conseguisse manter o italiano em solo tapuia.
Mas, veja bem: se Lula optar pela permanência do italiano, ele agradará a Marilena Chauí, Antonio Candido, Maria Victoria Benevides e a mais dois ou três gatos pingados da facção mais retrógrada do seu próprio partido. Mas desagradará à opinião pública de seu país, à Europa inteira e, sobretudo, criará uma situação inédita de tensão e rancor entre o Brasil e a Itália.
Conhecendo nosso presidente "sombra e água fresca", o que você, meu nobre leitor, acha que ele fará?
Sou capaz de apostar um caminhão refrigerado de picolés de limão como Lula irá enrolar o máximo que puder para fazer crer que tentou manter o facínora por aqui e que, no fim das contas, Cesare Battisti acabará cantando o "Sole Mio" lá na terra dele. Que assim seja!

MÍRIAM LEITÃO

Ciência e tempo

O GLOBO - 20/11/09


O ministro inglês do Meio Ambiente, Hilary Benn, está convencido de que a reunião de Copenhague será bem-sucedida. “A ciência é clara, e o tempo é curto.” Benn passou esta semana no Brasil e fez elogios ao país e ao presidente Lula, que mostrou “liderança” ao anunciar compromissos de corte de gases de efeito estufa. Ele disse que haverá financiamento dos países ricos

Ele me disse que não entendeu o comunicado da Apec, Cooperação Econômica Ásia e Pacífico, como um sinal de que China e Estados Unidos querem adiar o acordo do clima: — Não creio que eles queiram adiar. Eles discutiram até que ponto é possível se resolver as questões em Copenhague para se chegar a um acordo legalmente obrigatório. O que está claro é que precisamos de um acordo forte, e o que foi discutido na Apec não muda isso, porque a ciência é clara, e o tempo é curto.

Entrevistei o ministro num programa que foi ontem ao ar na Globonews e repete hoje às 8h30m e 16h30m. Ele disse que na reunião de cúpula do clima os países precisarão dizer claramente que compromissos estão dispostos a aceitar.

Explicou que a Europa já disse que vai chegar a 2020 emitindo 20% menos do que em 1990. A Inglaterra foi além, propôs 34% e promete chegar a 2050 emitindo 80% menos do que em 1990: — É essencial termos a contribuição dos Estados Unidos. As pessoas precisam colocar os números na mesa. Para fazer um tratado válido, um país vai olhar para o outro e dizer: “o que você vai dar? O que vai oferecer?” Quando somarmos todas as ofertas feitas, poderemos ver se é o bastante para evitar uma perigosa mudança climática.

Não faz sentido que os líderes digam assim: “vou prometer ao meu povo que faremos isso, mas estou relutante em assinar um acordo internacional.” Hilary Benn vem acompanhando essa negociação há algum tempo como parlamentar ligado à causa ambiental, antes de ser ministro, e por isso tem uma visão concreta de quanto se avançou.

Lembrou que nos EUA, anos atrás, o governo até negava a existência da mudança climática e hoje está disposto a negociar. Entre os avanços dos últimos anos, ele inclui o Brasil: — O Brasil mostrou um grande progresso. O índice de desmatamento hoje é um quarto do que era há cinco anos. Foi muito bem recebido o comunicado do presidente Lula em nome do Brasil, semana passada, porque mostra liderança de verdade, que é o que queremos em Copenhague.

Lembrei a ele que o desmatamento caiu, mas 7.000 km2 é uma área equivalente a 4.4 vezes o tamanho da área metropolitana de Londres: — É uma área imensa, mas se há 10 anos alguém dissesse que seria possível reduzir a um quarto a área desmatada em cinco anos, ninguém acreditaria. É muito importante na nossa missão reconhecer quanto é feito de progresso. Ainda falta muito? Falta. Já demonstramos que temos capacidade de fazer as mudanças necessárias? Acho que sim.

Acha que hoje há progressos em proteção de florestas, em uso de energia, em posição política, em compreensão científica, em decisão de agir dos governos.

O governo inglês — ressaltou — foi o primeiro a ter uma lei climática, a ter um orçamento de carbono para a própria administração pública. Funciona assim: cada órgão do governo tem que cumprir uma meta de redução das emissões em suas atividades.

O ministro admite que se uma parte do acordo de Copenhague será o esforço de cada país, a segunda parte envolverá financiamento para que países em desenvolvimento possam fazer sua transição: — As economias emergentes e em desenvolvimento perguntam, e com razão: como pagaremos pela baixa emissão de carbono, pelas novas tecnologias e mudanças necessárias? Sem dúvida, isso tem que fazer parte do acordo. Na última cúpula, o primeiroministro Gordon Brown disse que até 2020 o apoio financeiro tem que ser de US$ 100 bilhões por ano e viria de fontes públicas e de fontes privadas através do mercado de carbono.

Ele acha que não faz sentido que os grandes emergentes, que são também grande emissores de gases estufa, não tenham que cumprir meta, e que países como China, Brasil e Índia sejam tratados da mesma forma que os países pobres: — A China e o Mali são países inteiramente diferentes, com um grau de responsabilidade diferente.

Londres vai sediar as Olimpíadas em 2012, e eu perguntei como ele vai assegurar a Olimpíada sustentável.

Ele disse que isso tem que ser pensado desde o começo. Contou, por exemplo, que em vez de usar caminhões para levar material de construção para Vila Olímpica, eles usaram barcos e foram pelo Rio Tâmisa.

E que só isso já reduziu muito o volume das emissões. O segredo de uma Olimpíada verde é pensar desde o início do projeto.

Antes de começar a entrevista, eu disse que o número dos céticos, os que não acreditam em mudança climática, está diminuindo a tal ponto que eles já são uma espécie em extinção.

Ele deu uma boa gargalhada e admitiu: — Eu me preocupo em proteger as espécies, mas sobre essa, em particular, acho que não devo me preocupar.

JAPA GOSTOSA

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ARTHUR DAPIEVE

Fla-Flu mental

O GLOBO - 20/11/09

Lobão, Marina, Caetano, Azeredo

Contudo, vamos trocar de metáfora esportiva.
Semana passada, era corrida maluca. Nesta, é futebol. O apagão do Lula acirrou os ânimos de um dos embates mais estúpidos do Campeonato Brasileiro de Política: o Fla-Flu mental. Parecia a velha piada sobre as obras paralisadas do metrô em Copacabana: “O buraco é do Brizola ou o buraco é do Moreira?” Foi constrangedor ver Edison Lobão, ministro das Minas e Energia, incapaz de trocar pilha em lanterna, censurando um técnico do Inpe sob a alegação de que o tal não tem conhecimento de causa para falar do sistema elétrico brasileiro. Foi igualmente constrangedor ver Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, declarar que o apagão em 18 estados é que foi o verdadeiro racionamento a fim de defender, hã, a poupança compulsória de energia no Governo FH, sem nem mesmo se dar ao trabalho de consultar um dicionário.
A rejeição in totum do Governo FH pelo time do PT atrás é obtusa. Quando Lula assumiu, só se queixava da “herança maldita”, mas foi esperto o bastante para se apoderar das conquistas do antecessor. Agora, a rejeição in totum do Governo Lula pelo time do PSDB não é menos tapada. Renegá-lo é, de certa forma, renegar a si próprio.
Não se trata de, daqui da cabine, perseguir a imparcialidade jornalística, que, aliás, nem concerne a um cronista, mas é ululante a continuidade do futebol praticado por PSDB e PT.
Partir para o tudo ou o nada ofende a inteligência.
A principal diferença é que tucanos foram tímidos na defesa do social, e petistas foram desinibidos no ataque à ética.
E aí, em meio ao clássico do maniqueísmo pátrio, Marina invadiu o campo. Ela assinalou um tento, levantou a camisa verde e, por baixo, apareceu outra, com a frase “Sou de Jesus”.
O efeito nos bancos adversários foi imediato.
Além de Marina, já confirmaram presença na conferência sobre o clima o tucano Serra e a “petista” Dilma. Serra sempre foi verde.
Basta olhar. Dilma achava que Copenhague era só o nome de uma chocolataria.
A propósito de “Marina”, dois personagens escreveram em busca de reparação. Por ordem de surgimento no texto da semana passada, Caetano Veloso e Eduardo Azeredo. Seguemse, então, cada trecho em questão, os emails deles e as respostas que lhes enviei.
Trecho: “Porém, ao contrário de Caetano, que em temporadas passadas já se desmanchara em elogios a Antônio Carlos Magalhães, a Mangabeira Unger e ao próprio Ciro, o cronista até hoje não chegou a nenhuma conclusão sobre a tímida Marina.” E-mail: “Dapieve, em meio ao cansaço diante da grita por causa de uma manchete do ‘Estadão’ e da fanfarronada do Segundo Caderno sobre Woody Allen (extraída de entrevista autobiográfica dada a pequena revista cultural de João Pessoa), me deparei com você, de quem gosto, afirmando que apoiei ou louvei Antônio Carlos Magalhães. A verdade é que fiz oposição sistemática a esse político durante toda a sua vida pública, tendo recebido dele respostas pela imprensa (‘Caetano quer ser diferente’, ‘Ele não gosta de mim mas a mãe dele gosta’). Subi nos palanques de Waldir Pires e Lídice da Mata contra ACM. Disse repetidas vezes que ele representava um tipo de político de que a Bahia deveria poder se livrar. E que ninguém era meu dono. Portanto, minha declaração de voto a Marina Silva não pode ser emoldurada por informações descuidadas e irresponsáveis. Minhas ideias são ideias de artista: complexas e maleáveis. Se um dia você quiser saber as nuances de minha apreciação de ACM, podemos conversar. Mas minha oposição pública a ele foi clara e teimosa. Peço que você corrija a informação.
Obrigado. Caetano Veloso.” Resposta: “Caro Caetano, agradeço seu apreço e sua mensagem. Concordo, sim, que o que escrevi pode dar a entender que você ou apoiou ou louvou Antônio Carlos Magalhães. Isso não está correto, nem na minha memória, e será corrigido na coluna. Dada a repercussão do tema Marina junto ao (e)leitorado, acho que voltarei ao assunto na próximo sexta. Seja como for, não era apoio ou louvação ao político que eu tinha em mente — tanto que escrevi ‘elogios’, algo bem mais genérico — e sim alguma frase sobre a beleza física do ACM ou coisa parecida. Mas não pretendo polemizar, imagino como deva ser cansativo mesmo. Se você se sentiu ofendido, cabeme apenas ponderar isso e reproduzir a sua queixa. Será sempre um prazer conversar, sobre ACM ou Regina Spektor. Abraço.” Trecho II: “Contudo, o texto (de Fernando Henrique) era tanto ataque ao governo quanto ao próprio PSDB, incapaz de fazer qualquer oposição, inclusive pelo rabo preso no ‘mensalão mineiro’ de seu ex-presidente Eduardo Azeredo.” E-mail II: “Prezado cronista Arthur Dapieve, não tenho nenhum ‘rabo preso’. Sou vítima, inclusive, de falsificadores. E não desejo a ninguém que também sofra com ilações, suposições e montagens. A questão está sub judice, e pessoas responsáveis não deveriam, neste momento, fazer afirmações precipitadas. Obrigado pela atenção. Senador Eduardo Azeredo.” Resposta II: “Prezado senador Eduardo Azeredo, agradeço sua mensagem, mas não afirmei que o senhor tem ‘rabo preso’ — e sim que o PSDB tem ‘rabo preso’ por sentir-se tolhido nas críticas, pelas acusações contra o senhor e/ou a sua campanha. Não tenho mesmo como julgar o mérito delas, mas para mim está claro que tais acusações constrangem o seu partido ao jogá-lo no mesmo saco do PT, inclusive no que tange ao andamento do processo no STF. Processo no qual desejo-lhe sucesso.
Cordialmente.” E fim de papo no Maraca. Até a próxima rodada do Brasileirão 2010.

JANIO DE FREITAS

Efeito cômico

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09

O Supremo consagra com um bafafá grotesco a conclusão de que sua conclusão sobre o caso Cesare Battisti nada vale

O BAFAFÁ ENGRENADO pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, para definir-se sobre uma questão que o caso Cesare Battisti não incluía, resultou na quebra de um princípio básico: no Estado democrático, é essencial que as decisões judiciais sejam o mais precisas possível em seus fundamentos e o mais claras para a compreensão e a confiança do senso comum.
Foi um fecho à altura de um processo cuja lerdeza, com longos intervalos entre suas sessões de pronúncia de votos, tornou o Supremo Tribunal indiferente à permanência de um homem em prisão, à espera de que Suas Excelências decidissem se os crimes que o condenaram justificam, ou não, sua extradição a pedido da Itália. E processo que proporcionou outra provável manifestação da tendência do atual Supremo de exceder-se -seja em casos como o da Reserva Raposa/Serra do Sol, quando sua decisão passou do problema da propriedade fundiária para impor uma política das reservas indígenas, seja pelo excesso de manifestações extrajudiciais sobre assuntos dos outros dois Poderes.
O estreito resultado de cinco a quatro pela extradição de Battisti (dois ministros ausentes) requeria por si só, e ainda com divisões tão acirradas fora e dentro do tribunal, cuidados especiais. Deu-se o oposto. Presidente e derrotado quanto à obrigação (ou à liberdade) do presidente da República de praticar a decisão do STF, Gilmar Mendes fez uma proclamação apressada e confusa do resultado final, limitando-o à extradição e excluindo o que caberia ao presidente ante a decisão do tribunal. Marco Aurélio reagiu, com cobranças irônicas à proclamação do resultado daquela segunda parte, e começou o espetáculo: nove Excelências falando ao mesmo tempo, em respostas ou provocações de uns aos outros -digamos, confronto de torcidas jurídico-políticas. Confronto sublinhado por dois traços.
O primeiro: a maioria dos ministros deixou a impressão de falta de coragem, esta coragem mínima de dizer com objetividade e clareza, e simplesmente, que em razão disso e daquilo "considero que a Presidência da República deve seguir a decisão do Supremo Tribunal Federal", ou, da mesma maneira, "não está compelida a seguir a decisão do STF". O palavrório juridiquês e fugidio enrolou-se em si mesmo, revestiu a maioria dos ministros, e produziu este efeito cômico: nem eles entendiam mais o que os outros diziam, supondo-se que houvesse o propósito de ser entendido, e não só o oposto. Já ninguém sabia mais como a maioria votara.
O segundo traço foi oferecido por Carlos Ayres Britto. Desde sua primeira intervenção no caso, lá atrás, esse ministro considerou, como outros quatro, que Cesare Battisti não foi condenado na Itália por crimes políticos, mas por crimes comuns, de morte. Na sessão de anteontem, ressaltou que os atos de Battisti passaram por todas as instâncias da Justiça italiana e pela Corte Europeia, sempre qualificados como crimes comuns, e sem revisão das sentenças condenatórias. Ainda coube farto elogio à Justiça italiana.
Depois disso, porém, Ayres Britto entrou em repentino parafuso de juridiquês para juntar-se aos quatro votos, tornados vitoriosos com o seu, que transferiram para o presidente da República a decisão de extraditar ou não. Para e por que tanto tempo com seus votos, se considerava que nada valeriam para o presidente da República, para Cesare Battisti, para a Itália e para a própria condição de magistrado do próprio Ayres Britto, cuja decisão não produz efeito?
Por cinco a quatro, o tribunal definiu-se pela extradição e, pelos quatro aí vencidos mais o de Ayres Britto que deu um para cada lado, o tribunal decidiu que sua decisão pode ser seguida ou não pelo presidente da República, a critério do próprio.
Logo, o caso Battisti desnudou um sistema muito original. O Comitê Nacional de Refugiados, que existe para decidir de refúgios e extradições, decidiu pela extradição de Cesare Battisti, mas o ministro da Justiça, Tarso Genro, pôde desconsiderar a decisão e, por critério pessoal, conceder-lhe a condição de refugiado. Então, Comitê Nacional de Refugiados para quê? É só entregar o processo à decisão ministerial e chega de burocracia e lenga-lenga. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, passa o ano com o recurso italiano contra a decisão pessoal de Tarso Genro e, depois de tantos meses de tramitação, tantos votos enciclopédicos e horas inextinguíveis, consagra com um bafafá grotesco a conclusão de que sua conclusão nada vale. Então, para quê tudo aquilo?
Bem, uma decisão do Supremo vale, sim. Não a que lhe foi pedida, a respeito do cabimento, ou não, da entrega de Cesare Battisti à Justiça italiana. Mas aquela que outra Excelência praticou sem precisar de processo, votos e juridiquês, apenas com lavar as mãos.

A SINFONIA DA MALUQUICE

PAINEL DA FOLHA

Salvo-conduto

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09

Segundo relato de auxiliares próximos, foi durante a viagem à Itália, no final de semana passado, que Lula mudou de posição quanto a Cesare Battisti, passando a considerar que o melhor seria obter do
Supremo Tribunal Federal o direito à palavra final sobre o caso.
Sem prejuízo das manifestações favoráveis à extradição do terrorista ouvidas de políticos italianos da direita à esquerda, o presidente recebeu sinalização de que o governo não iria esbravejar caso o STF lhe devolvesse a bola, na prática postergando (e criando incerteza sobre) o desfecho da novela. Nos dias que antecederam o julgamento de quarta-feira, operadores do Planalto atuaram fortemente no Supremo para chegar ao resultado desejado por Lula.


Fora do ar. Henrique Meirelles não gravará participação no programa do PMDB a ser exibido na próxima quinta. O presidente do Banco Central disse a correligionários que uma coisa é ser filiado, outra, pronunciar-se politicamente estando no cargo.

Ficando. Pós-encrenca na troca do diretor Mario Torós, Meirelles passou a emitir repetidos sinais de que pretende permanecer no comando do BC até o fim de 2010, abdicando de disputar a eleição.

RT. Arquidesafeto de Lula, o senador Marconi Perillo (PSDB-GO) postou no Twitter link para vídeo de evento no Planato em 2003: "Vejam o presidente, em carne e osso, agradecendo a minha colaboração para o aperfeiçoamento do programa Bolsa Família".

Fazer... Dilma Rousseff enfrentará saia-justa na eleição interna do PT neste domingo. A ministra votará no Rio Grande do Sul, hoje dividido entre os candidatos Raul Pont, da Mensagem, e Marcel Frison, que tem o apoio da Construindo um Novo Brasil.

...o quê? Pont é o candidato do presidente do PT gaúcho, Olívio Dutra, de cujo governo Dilma foi secretária. Mas ela vem sendo pressionada a dar declaração de apoio a Frison.

Engorda. A festa de fim de ano do PT, no dia 8 em Brasília, servirá para reforçar o caixa do partido. Convites de R$ 50 a R$ 5.000 estão à venda.

Versão power. Durante reunião da Executiva do PV, ontem, Marina Silva disse que a "interpretação de pesquisas pode criar fatos" e que "o uso das máquinas tenta projetar uma eleição plebiscitária". A pré-candidata vem sendo pressionada pelos verdes a "aparecer mais".

Lava-rápido. Deputados discutiam na comissão de mudanças climáticas quando alguém citou Hugo Chávez. Fernando Gabeira (PV-RJ) observou que tem muitas divergências com o presidente venezuelano, menos uma: "Acho que banho tem de durar no máximo três minutos".

Pressão 1. Contrariados com o fracasso do esforço de derrubar foro privilegiado, líderes do PR ameaçaram retaliar barrando a emenda constitucional dos precatórios.

Pressão 2. Ainda no que diz respeito aos precatórios, há quem aponte descompasso entre o líder da bancada do DEM, Ronaldo Caiado, que não demonstra pressa, e o correligionário Gilberto Kassab, advogado maior da aprovação do texto. Caiado defende urgência na definição do candidato do PSDB. Kassab, pró-Serra, está em outra.

Ai meu Deus! Ontem, em meio ao "apagão" no sistema da TAM em São Paulo e no Rio, passageiros lembravam ter recebido da empresa, dias antes, e-mail noticiando a conclusão "com sucesso da migração para a plataforma tecnológica da Amadeus".

Visita à Folha. Luiz Lara, presidente da Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade), visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Marcelo Parada, da Comunicação e Estratégia.

com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

"O presidente Michel Temer instituiu a pauta do susto. Cada semana é uma surpresa."
Do deputado GUSTAVO FRUET (PSDB-PR), sobre a inclusão, em cima da hora, da proposta que acaba com o foro privilegiado, ao final derrotada na noite de anteontem.

Contraponto

O roto e o rasgado


Em reunião ontem da Executiva Nacional do DEM, a conversa girava em torno do apagão quando o deputado Roberto Magalhães (PE) perguntou em tom indignado:
-Eu queria saber se é verdade que o governo colocou um engenheiro agrônomo na diretoria-geral de Itaipu!
Vários dos presentes confirmaram que sim, era essa a formação do petista Jorge Samek. E o deputado Eduardo Sciarra (PR) acrescentou uma advertência:
-Mas é melhor a gente não falar nada...
Diante do olhar intrigado de Magalhães, ele completou:
-É que no governo do Fernando Henrique o diretor-geral de Itaipu era o Euclides Scalco, farmacêutico...

DIRETO DA FONTE

O custo Brasil do custo Planeta

SONIA RACY

O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/11/09

O Brasil vai fazer o seu próprio cálculo dos estragos causados pelas mudanças climáticas. Um grupo de especialistas está montando, até o fim do mês - para ser levada a Copenhague -, uma versão brasileira do Relatório Stern.
Esse é o nome do estudo montado pelo inglês Nicholas Stern, em 2006, dando nome aos bois. Isto é, números ao impacto do aquecimento global sobre a economia. Saiu do Relatório Stern, por exemplo, a quantia de US$ 100 bilhões/ano para manter o planeta funcionando.

Custo Brasil 2
A versão brasileira, pelo que se apurou, terá quatro grandes capítulos.
Impacto na agricultura, a cargo da Embrapa. Energia e investimentos, da Coppe, do Rio. A UFMG analisará o semiárido. E o balanço hídrico caberá ao FBDS - Fundo Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável.

Sem melodrama
Depois de Lula, o Filho do Brasil, vem aí Eliezer Batista - O Engenheiro do Brasil, documentário que conta a história do respeitado pai de Eike, responsável pela criação da Vale.
Com estreia no dia 27.

Precaução
Serra escolheu a Estação Sacomã do Metrô para testar, ainda este ano, ideia que trouxe da Europa: a "porta de plataforma". Uma espécie de cerca de vidro separando usuários e trilhos, além de objetos.
Vai instalar a novidade em 26 estações até as eleições.

De quem sabe
Célio Borja, que já esteve no lugar de Tarso Genro e de Gilmar Mendes, acha estranhíssimo deixar a extradição de Cesare Battisti nas mãos de Lula.
"Jamais imaginei que decisões do Supremo poderiam ter um caráter facultativo", avisa o respeitado jurista.

De quem sabe 2
Ele lembra que o princípio da extradição "tem como fonte uma norma internacional, é um acordo entre países".
Em vista disso, "não é possível submeter a decisão judicial a um juízo político".

Martelo batido
Beyoncé confirmou sua vinda para o Brasil - e não é para cantar no Réveillon. Faz show aqui na última semana de fevereiro.

Para Ahmadinejad não conseguir ver
Não vai mais acontecer a exposição sobre o Holocaustro, programada para segunda-feira, na Câmara, organizada por Marcelo Itagiba.
A Federação e a Confederação Israelita avisaram ao deputado que não vão poder mandar o material. Sabe-se lá por quê.

Para Ahmadinejad ao menos escutar
Carta assinada por cinco organizações de direitos humanos foi encaminhada ontem a Lula.
Pedindo ao presidente que enfatize o tema no encontro com Ahmadinejad.

Súditas
Roberto Carlos terá três convidadas ilustres no especial de fim ano da Globo.
Uma delas já está escolhida: será Ana Carolina.

Mudança de zona
Uma casa de tolerância, instalada há um mês, tira o sossego de moradores do Morumbi. O rendez-vous funcionava antes na Av. 9 de Julho e foi fechado pela Prefeitura.

Vendetta
Gabriel Chalita sofre retaliações na Câmara desde que deixou o PSDB. Quarta, seus ex-colegas o tiraram da poderosa CCJ.


Na Frente

Roger Agnelli será homenageado pelo Business Council for International Understanding com o Dwight D. Eisenhower Global Citizenship Award. Dia 3, em NY, no Waldorf Astoria. Com ele, Lakshimi Mittal.

Laís Bodanzky fará curso de cinema para crianças. Ano que vem, na Escola Carlitos.
O Ponta dos Ganchos está entre os indicados a melhor hotel butique da América do Sul. Pela World Travel Awards.

A Sales, Periscinoto, Guerreiro e Associados está fazendo cinco seleções de agências de publictários para clientes seus. Entre eles, Bradesco Seguros, Firjan e Santos Brasil.

O Beaujolais Nouveau 2009 chegou ontem, pelas mãos da Mistral, ao Brasil. Parte do lançamento mundial - que foi simultâneo.

Jorge Okubaro faturou, com O Súdito, pela Terceiro Nome, o Premio Nikkei 2009. Que aceitou obras em português.

A la Gay Talese, Tom "ternos brancos" Wolfe veio ao Brasil preocupado em não repetir roupa. Trouxe um terno para Porto Alegre, outro para Salvador e outro para São Paulo.

OS FILHOS DA PUTA

LUIZ GARCIA

Mais bem contada

O GLOBO - 20/11/09

Perto de mim, alguém reclama: “Por que tanto destaque para história velha? Já não se sabia há muito tempo que esse Rubens Paiva foi morto na cadeia?” É, sabia-se, sim. Mas não com os detalhes aparentemente incontestáveis expostos num documentário exibido ontem num festival de cinema em Brasília.

A família de Paiva há muito tempo descobriu que ele fora torturado e morto pelo DOI-Codi, órgão militar de repressão. Mas o cineasta Jorge Oliveira obteve arrasador depoimento de Marival Chaves, que serviu no DOICodi como sargento do Exército.

Segundo contou Marival, sem constrangimento algum, Paiva foi morto com uma injeção de matar cavalos — e seu corpo foi esquartejado.

Essa era a rotina do DOI-Codi. Com o dado agravante — como se algo possa tornar o episódio mais macabro — de que os agentes faziam apostas sobre quantos pedaços seriam produzidos pelos esquartejamentos.

Há, sim, motivos para relembrar, com esses detalhes todos, a tragédia do deputado. As Forças Armadas de hoje não têm o que temer com a revelação dos crimes cometidos naquele tempo, em nome do combate a movimentos e pessoas que se opunham ao regime.

As fardas são as mesmas, mas estão a serviço de ideias e métodos de ação radicalmente diferentes daqueles do regime militar.

Quando o país começou a voltar para a democracia — num projeto orquestrado e conduzido pelos próprios militares — houve, como se sabe e também lembra o ex-agente Chaves, um esforço para eliminar registros e outras provas de torturas e assassinatos de presos.

A tentativa foi bem-sucedida em parte; só em parte. Os detalhes sobre o caso de Rubens Paiva — um civil, é bom lembrar, sem ligações sabidas ou provadas com grupos empenhados em ações violentas contra o regime — mostram como é difícil engavetar a verdade. E há muito tempo, vale a pena registrar, não há registro de esforços nesse sentido.

De qualquer forma, os dados macabros sobre a morte de um deputado há quase 40 anos são importantes pela simples razão de que tornam o registro daqueles tempos mais completos.

E a História do Brasil sempre ganha — principalmente quanto às lições que produz — quando fica um pouco mais bem contada.

ELIANE CANTANHÊDE

Zé Eduardo x Zé Eduardo

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09


BRASÍLIA - A coincidência entre os dois nomes mais fortes para presidir o PT, no domingo, não fica só no nome. Um se chama José Eduardo Dutra, e o outro, José Eduardo Cardozo. A tendência é Dutra ganhar em primeiro turno ou disputar um segundo com Cardozo, seguido de perto por Geraldo Magela. Ao todo, são seis candidatos.
Os dois Zé Eduardo eram do Campo Majoritário, corrente que precedeu a eleição de Lula e era moderada, pragmática, decidida a ganhar a qualquer custo. Liderada por José Dirceu, defendeu o maior leque possível de alianças para Lula e abraçou vigorosamente o empresário José Alencar para vice.
Dutra, 52, vem do movimento sindical, como Lula. Geólogo mineiro, fez carreira política em Sergipe e na Petrobras. No primeiro mandato de Lula, presidiu a própria empresa. No segundo, a BR Distribuidora, sua subsidiária. Foi assim que ele se aproximou de Dilma Rousseff, ministra de Minas e Energia e membro do conselho da Petrobras até virar gerentona do governo. Dez entre dez petistas dão de barato que Dutra tem apoio de Dilma e do próprio Lula.
O outro Zé Eduardo, o Cardozo, 50, vem do movimento estudantil. Paulista, professor de direito constitucional da PUC-SP, onde estudou, ele defende algo como menos militantes fugazes e mais compromissos sólidos. Pode-se ler: menos sindicalismo, mais ideologia.Tem apoio, por exemplo, do ministro Tarso Genro.
Pergunte-se aos dois o que os separa. Dutra ri: "He, he. Essa é uma questão difícil de responder". No fundo, eles são bons caras e parecidos. Isolando-se a barafunda de tendência e siglas internas que nem o PT entende mais, todos querem: recuperar a imagem (inclusive a autoimagem) do partido, eleger Dilma e manter os rumos do governo Lula e os imensos espaços na máquina pública. Ah. E meter o "mensalão" no fundo do baú. Até Lula reescrever a história.

GOSTOSA

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ARI CUNHA

Confusão na obra

CORREIO BRAZILIENSE - 20/11/09


Complica-se a situação do Rodoanel em São Paulo, depois de observações levantadas pelo Tribunal de Contas da União. Na opinião do TCU, a obra estava quase concluída. Adiantamentos generosos foram pagos pelo governo com medições alteradas. A construção que despencou sobre a Regis Bittencourt está suspensa, enquanto se procede à limpeza. Até o momento, a Secretaria de Obras não se manifestou. O silêncio tem provocado expectativa de que as coisas não andavam bem. Consórcio da OAS e Mendes Jr. não explicou por que a empresa Carioca havia sido rejeitada na concorrência inicial do projeto, para ser admitida em seguida como participante.


A frase que não foi pronunciada

“Esqueceram-se de convocar Thor... Convocado.”

Senador Flexa Ribeiro, pensando em ouvir os culpados pelo apagão.



Solução
Salsicha de piranha, caviar de cascudo, piavuçu vira sardinha enlatada. Antonio Ferreira de Lara, da Embrapa Pantanal, é um entusiasta de novas tecnologias para transformar o pescado em alimento mais popular. O consumo de carne bovina e de frango chega a cerca de 40kg/habitante/ano e de pescado quase 7kg/habitante/ano. Os estragos na terra podem vislumbrar uma solução nos lagos, rios e mares.

Jica
O ex-senador Leonel Pavan está a par dos problemas causados por desastres naturais. Há uma planilha do governo catarinense com a previsão de recursos para o restabelecimento da normalidade nesses casos. Santa Catarina aos poucos se prepara para agir em novos casos de calamidade pública.

Consulta livre
Não é ideia nova a da Comissão de Direitos Humanos do Senado. Foi aprovado projeto que cria cadastro nacional de menores de idade desaparecidos. Há, no entanto, uma associação que presta esse serviço com dados de pessoas de qualquer idade desaparecidas no Brasil e em vários países. É a Associação Cadastro Nacional, que coloca à disposição da população, da sociedade civil e das autoridades, o mesmo cadastro com consulta livre e gratuita via internet.

Desde 1660
A cada ano a rainha Elizabeth II fala por menos tempo sobre os projetos para o país. Dessa vez, o discurso não durou 10 minutos. A oposição se debate contra a tradição, mas a pompa e a circunstância da ocasião foram as mesmas. Ela segue de carruagem do Palácio de Buckingham até o Parlamento, onde os lordes a recebem. Ano passado foram apresentados 28 projetos de lei. Em 2009, 14.

Agricultura familiar
Inegável o talento de articulação do senador Romero Jucá. Conseguiu negociar com governo e oposição projeto que considera de interesse de ruralistas e movimentos sociais. Trata-se do texto do Projeto de Lei da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater). O orçamento pode chegar a R$ 1 bilhão até 2012. O governo aceitou mudar a lei para impedir o apadrinhamento em projetos da Ater. Mesmo assim, o TCU terá como dever monitorar as ações, já que estão dispensadas da licitação entidades públicas de assistência técnica e prefeituras.

Amigo da onça
Pela primeira vez o país se volta ao presidente Lula aguardando uma decisão pessoal. Até agora os assessores têm feito isso por ele. A solução para o caso Battisti será de responsabilidade exclusiva do presidente do Brasil. Quando aceitou o presente de grego do presidente francês Sarkozy, Lula não imaginava que o caso fosse terminar assim.

Furo
Enquanto costurava a aliança PV, PSol e PSC a senadora Marina Silva discordou do repórter. Se sua campanha está tímida, é porque a mídia não a tem acompanhado. E alfinetou: “A não ser que os meios de comunicação achem que eu deva ficar o tempo todo fazendo discursos no plenário quando estou no Senado”.

No exterior
Parecia lógico que o dinheiro do contribuinte não fosse usado em obras fora do país. Mas investimentos importantes são feitos como parte da política do governo de ocupar espaço na América Latina e na África. Construtores vão se empenhar para barrar projeto no Congresso que limita o BNDES a financiar obras em território nacional.

Anatel
Mais e mais reclamações contra as TVs a cabo. Além de cobrarem a manutenção de assinatura, o tempo de um filme tem grande porcentagem ocupada por comercial. O consumidor paga para ter acesso a uma programação diferente e leva sem querer a propaganda no pacote.


História de Brasília

A superquadra do Iapb é a única já concluída e urbanizada. O jardim de frente para o eixo era uma beleza. Pois bem. Agora é que viram que as galerias pluviais não estavam colocadas e, por isso, estão esburacando o jardim e arrancando a grama que deu tanto trabalho para pegar. (Publicado em 17/2/1961)

MERVAL PEREIRA

Próximos e distantes

O GLOBO - 20/11/09


Toda a estratégia do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, na árdua negociação política para se transformar em uma opção viável do PSDB para a eleição de presidente da República no ano que vem está baseada na sua capacidade de dialogar com adversários e de agregar apoios, como destacou na mensagem publicada na coluna de ontem. O objetivo seria construir um ambiente propício ao convívio de contrários, especialmente PT e PSDB, que há 20 anos polarizam a política nacional. A preocupação de Aécio é que o pós-Lula seja vivido num clima de radicalização entre os dois partidos, cuja origem paulista explicaria, em grande parte, esse embate e caracterizaria uma visão provinciana da política.

O próximo presidente, seja qual for, pode ter muita dificuldade de governar se não for ultrapassado esse obstáculo, e, sendo o governador paulista José Serra, a dificuldade seria maior ainda, justamente por representar o grupo tucano que domina a política paulista, em contraponto aos petistas, adversários que vêm sendo permanentemente batidos no estado.

Juntando-se a isso, há o que o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, define como “a frustração dos mineiros”, que ajudaram a tirar os paulistas do poder em 1930 e os recolocaram de volta em 1994.

Ele ressalta que São Paulo, o principal estado brasileiro, ficou fora do comando da federação por 64 anos: de 1930 a 1994, tirando os nove meses de Jânio Quadros e o período dos militares, “isso porque mineiros e gaúchos se uniram contra os paulistas”.

O candidato do ex-presidente Itamar Franco à sua sucessão era o deputado federal Antonio Britto, político gaúcho, revivendo a velha aliança de Minas com o Rio Grande do Sul. E, como Britto não quis, ele apoiou Fernando Henrique, esperando voltar à política do “café com leite”, e se sentiu traído pela reeleição.

“Fernando Henrique fez com Itamar a mesma coisa que Washington Luiz em 1929, quando não apoiou Antonio Carlos, presidente de Minas”, relembra Romero Jacob, para concluir: “É claro que existe em Minas uma certa decepção”.

Para ele, é possível que, ao escolher a ministra Dilma Rousseff para candidata oficial à sua sucessão, o presidente Lula tenha levado em conta não apenas suas qualidades de gestão, ou o fato de ser uma mulher.

A questão regional também deve ter pesado, diz Jacob: Dilma é uma política do Rio Grande do Sul, e, para sorte do projeto político governista, nasceu em Minas Gerais.

Com sua indicação, Lula quebrou a hegemonia paulista dos últimos 16 anos, onde ele e Fernando Henrique, dois políticos paulistas, exerceram a Presidência da República.

E é o que Aécio Neves tenta fazer dentro do PSDB.

O apoio do deputado Ciro Gomes deve ser entendido dentro dessa lógica, mas continuo considerando que foi um erro estratégico, pois Ciro transformou o grupo paulista do PSDB no inimigo a ser batido, e Aécio, mesmo sem a intenção, associou-se a ele.

As semelhanças entre PT e PSDB estão explicitadas no programa econômico do governo Lula, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acaba de definir, em entrevista ao jornal espanhol “El País”, como uma política social-democrata, e pelos programas sociais, que tiveram início no governo tucano e foram ampliadas na gestão Lula, com a união de todos eles sob o guardachuva do Bolsa Família.

Continuidade destacada pela revista inglesa “The Economist”, na reportagem de capa sobre o Brasil, que lembra que o governo Fernando Henrique, com a implantação do Plano Real, estabilizou a economia, controlou a inflação e deu condições a que o governo Lula pudesse fazer uma política de crescimento econômico com distribuição de renda, aproveitando-se dos anos dourados da economia mundial.

Mas o decorrer do governo Lula também mostrou diferenças acentuadas entre a maneira de ver o Estado do PT e do PSDB, reforçando as separações para além da simples disputa eleitoral.

Uma das diferenças fundamentais é que o PSDB acha que programa social bom é aquele que diminui a cada ano. Reduzir o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família significaria que elas teriam sido incluídas no mercado de trabalho, o que demonstraria o sucesso do programa.

O governo Lula, ao contrário, festeja o aumento para 11 milhões dos bolsistas, numa visão assistencialista.

O aumento da máquina estatal, e seu aparelhamento pelos sindicalistas e militantes petistas, é outro ponto de discordância entre os dois grupos políticos.

O PT diz que fortalece a máquina estatal, desmontada pela visão neoliberal do PSDB, e os tucanos acusam os petistas de usarem politicamente o Estado, abrindo mão da eficiência e não evitando desperdícios do dinheiro público.

Ao dizer que não tem condições intelectuais para redigir a decisão do Supremo sobre o caso Cesare Battisti, o relator, ministro Cezar Peluso, procura, pela ironia, ressaltar a incongruência da decisão de extraditar o italiano, mas permitir que o presidente da República não cumpra os acordos internacionais firmados pelo país.

A destacar o fato de que essa dicotomia foi uma estratégia da defesa que, perdida a causa central, “inventou” a polêmica. Todos os ministros que votaram a favor de Battisti votaram também por dar a decisão final ao presidente.

O único incoerente foi o ministro Ayres Britto, que votou pela extradição, mas abriu a brecha para que Cesare Battisti possa ficar no Brasil.

Difícil vai ser o presidente Lula encontrar um jeito de ficar bem com a esquerda e, ao mesmo tempo, com o governo italiano.

JAPA GOSTOSA

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JOSÉ SIMÃO

Ueba! Lula, o Filho do BARRIL!

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/11/09


E as últimas do filme do Lula. Aquele filme que acaba mal: no final, ele vira presidente


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Sabe por que o PT não quer entregar o terrorista italiano Battisti? Porque ele é da facção Proletários Armados para o Comunismo, PAC! Mas os italianos são insaciáveis. Já entregamos aquele mafioso Buscetta duas vezes. Já demos o Buscetta duas vezes e eles ainda querem mais? Rarará! E tem um grito de protesto: Battisti, GO ROMA!
E as últimas do filme do Lula. Aquele filme que acaba mal: no final, ele vira presidente. E o site Comentando apresenta uma nova versão: "Lula, o Filho do Barril!". Em breve, nas biroscas do Brasil! Um filme de Fábio Velho Barreiro.
E adorei a charge do Pelicano com dois convidados da estreia: "Que escuro, o filme não vai começar?". Já começou, é a cena do apagão. Rarará!
E sabe qual o castigo pros jogadores que brigam em campo? Assistir ao filme do Lula. E diz que já tem padre dando a penitência: dez Padres Nossos e um filme do Lula.
E hoje é o Dia da Consciência Negra. A gente podia aproveitar e criar o Dia da Consciência Pesada: para políticos, assaltantes, gerente do banco que negou empréstimo e pro motoboy que quebrou o retrovisor do meu carro!
Piada pronta do dia: tribunal chinês proíbe venda de programas da Microsoft por plágio. Por plágio? Na China? Rarará! No país do Lolex, da Plada e do Miclosoft? E do Bladesco! Um amigo foi num stand center e perguntou pra chinesa: "Esse aparelho de som vem com as caixinhas surround?". "Caxinha sulound paga sepalado." "Então enfia na peleleca." Rarará! Em matéria de plágio, a China quer exclusividade! Enfia na peleleca! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!".
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Boca da Mata, Alagoas, tem um inferninho chamado Cavalo Solto. Ueba! Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Esculhambado": companheiro que operou as hemorróidas. Rarará!
O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.
E vai indo que eu não vou!

ANCELMO GÓIS

“ELE É SEU PAI?”

O GLOBO - 20/11/09


Ontem, no lançamento de um programa de apoio à Apae e à Pestalozzi, no Palácio Laranjeiras, uma criança olhou para Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo, parou para pensar um pouco e perguntou à primeira-dama: “Ele é seu pai?”.
Por esta e por outras, o governador começou mais uma dieta para emagrecer.
INDISCIPLINA
Quando os chefes dão o mau exemplo, a coisa desanda.
Isto vale tanto para o Palmeiras de Beluzzo, Obina e Maurício quanto para o PT de Lula e dos aloprados.
ALIÁS...
Deu ontem no Globo: “No fim, houve briga generalizada e Fernando Henrique acabou expulso.” Mas foi na página de esportes, não na de política.
E Lula não tem nada a ver com isto.
NO MAIS
Pelé tinha razão. Quarenta anos depois do milésimo gol, o Brasil ainda precisa salvar suas criancinhas.
Escola (de qualidade) nelas!
SÉCULO 20
O sociólogo Demétrio Magnoli fechou acordo com a Editora Record. Vai escrever uma obra sobre os conflitos do século 20 no mundo.
Devem ser dois volumes. Cada um, pelo menos, com umas 500 páginas.
OBAMA E ZUMBI
Obama soltou uma nota oficial em que, “em nome do governo e do povo dos EUA, felicita o Brasil pelo Dia da Consciência Negra, também conhecido como Dia de Zumbi dos Palmares”:
– A vida do líder Zumbi e sua luta incansável contra a escravidão permanece como símbolo de resistência da liberdade e da Justiça – escreveu.
ALIÁS...
Só em 2007, 4.156 crianças e jovens até 18 anos foram mortos no país – 67,6% deles, negros.
A conta estará na 2ª edição do Relatório Anual das Desigualdades Raciais, coordenado por Marcelo Paixão, da UFRJ.
EFEITO JULIANA PAES
Modelos brasileiras morenas têm feito sucesso em Bollywood, a indústria do cinema indiano.
A gaúcha Bruna Abdalah virou estrela e abriu mercado para outras meninas daqui – que, como não falam o idioma local, são dubladas por indianas.
GOL DE YUKA
A Gol foi condenada pela 13ª Câmara Cível do Rio a indenizar em R$ 10 mil o músico Marcelo Yuka, que é cadeirante.
Numa viagem para São Paulo, em 2006, a cadeira de rodas de Yuka foi esquecida pela voadora no Rio.
SEGUE...
Para Yuka, que foi baleado numa tentativa de assalto em 2001, a decisão da Justiça é um é um alerta para a sociedade:
– Se uma empresa é capaz de extraviar algo tão importante, como uma cadeira de rodas, imagine uma simples mala de passageiro.
AHMADINEJAD NÃO
Domingo, às 10 horas, no Posto 9, em Ipanema, uma passeata contra Mahmoud Ahmadinejad promete reunir negros, judeus, gays, mulheres e até palestinos e muçulmanos contrários ao presidente do Irã, que visitará Lula. Da Mangueira, devem ir dez ônibus com negros.
BOKOVA NO BRASIL
A nova diretora-geral da Unesco, a búlgara Irina Bokova, visitará o Brasil de 29 de novembro a 2 de dezembro.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

DORA KRAMER

Presente de grego

O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/11/09


Para quem não gosta de arbitrar, tem horror a críticas e cultiva o hábito de ficar longe de qualquer coisa que lhe possa render danos à imagem, a atribuição de decidir sobre o destino do italiano Cesare Battisti é dos males talvez o maior - e mais desnecessário - já enfrentado pelo presidente Luiz Inácio da Silva.

Um legítimo presente de grego entregue por quem compartilha da tese, já defendida anteriormente pelo presidente, de que o ex-ativista corre risco de ser morto na Itália e, portanto, por razões humanitárias deve permanecer no Brasil: o ministro da Justiça, Tarso Genro, os ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram contra o pedido de extradição e o ministro Ayres Britto, que se juntou a eles na segunda parte da questão.

O titular da pasta da Justiça, cuja motivação humanística não alcançou os dois esportistas cubanos mandados de volta à ditadura de Fidel Castro por causa das boas relações dos atuais ocupantes do poder com o ditador, imbuiu-se do espírito de herói da resistência e resolveu contrariar a decisão do órgão que decide essas questões tecnicamente em seu ministério.

Contrariou também decisões anteriores da Justiça italiana, que condenou Battisti por quatro homicídios; da Justiça francesa, que aprovou sua extradição no período em que esteve escondido por lá; contrariou também decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos, que não enxergou em Battisti o que Tarso Genro viu nele, mas não viu nos pugilistas cubanos: a figura de um perseguido a ser protegido da crueldade do regime em seu país de origem.

Tarso Genro bancou a concessão do refúgio, depois considerado ilegal pela Justiça brasileira, que também decidiu que os crimes não estavam prescritos e que a motivação política não servia de justificativa para assassinatos.

Muita gente no governo que outrora foi partidária da luta armada entende diferente.

Encaminhado assim de maneira torta o assunto, ficou subentendido que "progressistas" torcem pela permanência de Battisti e "conservadores" - ou, como se tornou convencional dizer, "golpistas" - acham que o governo italiano está sem seu pleno direito no exercício das normas do Estado de Direito, onde forças de todos os matizes apelam pela extradição.

Visto sob essa ótica pseudoideológica, o desfecho do caso teria representado uma vitória para o ministro da Justiça, que desde o primeiro momento manifestava opinião de que a última palavra deveria ser do presidente Lula.

Mas, do ponto de vista do presidente, a situação é de puro enrosco. Uma tarefa que lhe cai nas mãos sem que tenha hipótese de se desincumbir dela sem perdas.

Não é verdade que a decisão de não decidir de forma terminativa tenha transformado o STF numa entidade figurativa. O julgamento do pedido de extradição permitiu que todos tomassem conhecimento das variantes envolvidas e não se ficasse apenas na base da palavra do ministro contra as alegações do governo italiano.

Ficou patente, pela sentença favorável à extradição, que Battisti não se enquadrava no perfil do refugiado, até porque estava clandestino no Brasil, onde entrou com documentos falsos e não mediante um pedido formal de abrigo. Sua condição é de fugitivo da Justiça.

Tanto que responde a processo por falsidade ideológica, um dos argumentos do ministro da Justiça para que se estenda a permanência dele e que a extradição só seja resolvida após o fim da ação.

Tal dilema de dimensão internacional foi posto justamente no colo de um presidente que não investiu em reformas internas - previdenciária, tributária, política, sindical e trabalhista - para não despertar conflitos nem amealhar inimigos para poder transitar como generosa unanimidade ao longo de dois mandatos.

Ao fim do último se vê numa encruzilhada: ou segue a orientação do Supremo ou se confronta com uma questão diplomática que pode resultar em denúncia perante cortes internacionais.

Os italianos

Reunidos ontem para avaliar a decisão do Supremo, os advogados contratados pelo governo da Itália decidiram aguardar a publicação do acórdão. Depois disso, aguardarão o prazo legal de 20 dias prorrogáveis por mais 20, durante o qual o presidente Lula deverá se pronunciar.

Se o presidente optar por manter Battisti no Brasil terá de justificar juridicamente a decisão nos termos do acordo bilateral de extradição, mas, segundo os advogados, terá de obter a aceitação da Itália. Caso isso não aconteça, como é provável, o governo italiano poderá denunciar o tratado e acusar o Brasil de ferir a Convenção de Bruxelas.

A partir daí, se houver insistência, o Brasil pode sofrer penalidades e, internamente, o presidente é passível da acusação por crime de responsabilidade, pois o tratado de extradição foi aprovado pelo Congresso, sancionado pelo então presidente Itamar Franco e tem força de lei federal.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Há um interesse na imprensa exterior que nunca aconteceu antes”
PRESIDENTE LULA, EM MAIS UM EPISÓDIO DE “NUNCAANTESNESSEPAÍS”

DINHEIRO ENVIADO POR FHC NÃO CHEGOU À COPEIRA
Dos R$ 250 mil prometidos pelo então senador Fernando Henrique Cardoso à ex-empregada Maria Helena Pereira, mãe do seu filho Leonardo, somente R$ 30 mil chegaram às mãos dela de uma vez e cerca de R$ 100 mil em parcelas mensais no valor médio de R$ 6 mil. O dinheiro foi repassado a Maria Helena pelo então senador Ney Suassuna (PMDB-PB), transformado em fiel depositário do segredo.
EMPREGO NO SENADO
A pedido de FHC, Maria Helena foi nomeada auxiliar de copa no gabinete de Ney Suassuna, após ser demitida por d. Ruth Cardoso.
COISA DE “PETISTA”
Ney Suassuna reagiu irritado, ontem. Diz não conhecer “essa mulher”, sua ex-copeira durante anos, e que nossa fonte “só pode ser petista”.
CONEXÃO PARAÍBA
A copeira Maria Helena foi “herdada” pelo ex-senador José Maranhão, governador da Paraíba, e depois pelo suplente, Roberto Cavalcanti.
FHC ESCONDENDO
O resumo da vida do ex-presidente, no site do Instituto FHC, informa que ele teve três filhos com Ruth Cardoso. Omitiu pelo menos dois.
AVIÃO DE ALEGRIA AMAZONENSE RUMO A DUBAI
O governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB), foi à reunião do Conselho de Biodiversidade do Fórum Econômico Mundial, em Dubai. Ele e a mulher viajaram de primeira classe (US$ 10 mil cada), sem contar outros seis da comitiva. O casal fica no hotel sete estrelas Burj Al Arab, onde a diária mais barata é US$ 2 mil. Tudo sob os auspícios da generosa Gauche Promoções e Eventos, fornecedora do governo.
MARAJÁS
No portal do governo, o roteiro escorrega na Geografia: Dubai foi localizada na Índia. Terra dos marajás, por sinal.
ELES ESTÃO DE VOLTA
O “núcleo duro” de Lula se reorganiza: o ex-ministro Luiz Gushiken passou a tarde, ontem, no gabinete do deputado Antonio Palocci.
O INQUILINO TRAPALHÃO
Amanhã (21), faz dois meses que o presidente deposto Manuel Zelaya é “convidado” da embaixada brasileira. Até quando ele “honduras” lá?
TOP SECRET
Acordo secreto entre os dois países, que ganhou carimbo de “secreto” no Ministério da Defesa, autoriza o Brasil a instalar uma base naval na Namíbia, país africano que adquiriu navios de guerra produzidos aqui.
“PENA” DE TERRORISTA
Lula deverá deixar “de molho”, até janeiro, a decisão sobre o terrorista Cesare Battisti, quando o ministro Tarso Genro (Justiça), padrinho do bandidão, deixa o cargo para disputar o governo gaúcho. Pode também conceder-lhe “asilo humanitário” por ele supostamente estar doente.
PAUSA FORÇADA
Lula será obrigado a não viajar por alguns dias, para receber as visitas de presidentes como os da República Tcheca (hoje), do porralouca iraniano (dia 23) e Palestina (24). Mas no dia 1º ele vai longe: Ucrânia.
MOINHOS DE VENTO
Provável substituta durante a campanha (oficial) da ministra Dilma, a subchefe da Casa Civil, Miriam Belchior está em Madri, explicando o xodó da chefe, em espanhol: o programa “Mi Casa, Mi Vida”. Olé.
O CONVIDADO INDESEJADO
Diversas entidades civis protestam de branco neste domingo, 10 horas, na praia de Ipanema, contra Ahmadinejad e a intolerância religiosa, homofobia, negação do Holocausto e outras “políticas” do porralouca.
O ETERNO RETORNO
O Ministério da Justiça concedeu ontem bolsa-ditadura e pensão do INSS a 35 vereadores obrigados a trabalhar de graça no regime militar. Com a nova leva, chega a 700 os beneficiados pela viúva este ano.
RADAR CH
O carro oficial modelo GM Omega, placa branca JFP-4613, foi utilizado para fazer compras, no final da tarde de ontem pelas 17h, no Lago Sul, em Brasília, na delikatessen Sweetcake e no supermercado Big Box.
FUTURO RICO
Os grupos hoteleiros Four Seasons e o árabe Jumeirah planejam construir no Brasil nos próximos anos. A ideia é aproveitar a onda de investimentos com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
PENSANDO BEM...
... Petistas e tucanos estão exagerando na rivalidade: foi só Lula lançar seu filme O Filho do Brasil e FHC apareceu logo com dois.

PODER SEM PUDOR
A CARA DE UM...
O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), sempre teve o hábito de visitar a família em Tietê, interior paulista. Viajava sozinho mesmo, dirigindo o próprio carro, ao longo da rodovia Castelo Branco. Certa vez, um funcionário do pedágio observou, enquanto passava o troco:
– Já lhe disseram que o senhor se parece com o Michel Temer?
O deputado seguiu viagem, feliz da vida com sua popularidade.

INVESTIMENTO

SEXTA NOS JORNAIS

- Globo: Supremo ou Superior?: STF não consegue explicar decisão sobre caso

Battisti

- Folha: Governo estuda liberar aplicações no exterior


- Estadão: Governo estuda MP para conter aposentadorias


- Correio: Taxa de condomínio no DF é a que mais sobe no país


- Valor: Brasil vai taxar royalties para retaliar americanos

AUGUSTO NUNES

VEJA ON-LINE

Cinco ministros subordinam o STF ao Grande Juiz do Planalto

19 de novembro de 2009

“Decisão do Supremo não se discute, cumpre-se”, vivia repetindo Ulysses Guimarães. Uma boa frase e um evidente exagero. Como tudo o mais, em países democráticos também decisões do Supremo Tribunal Federal estão sujeitas a discussões, debates e, se for o caso, críticas veementes. Quanto ao que vinha depois da vírgula, nenhum reparo a fazer: o que foi resolvido pelo STF é coisa para se cumprir. Supremo, segundo o dicionário, é “o que está acima de tudo”.

Não necessariamente, relativizou a espantosa decisão de entregar ao presidente da República o julgamento em última instância do caso Cesare Battisti. Na primeira parte da sessão desta quarta-feira, por 5 votos a 4, o tribunal resolveu que os crimes cometidos por Battisti não têm caráter político e aprovou o pedido de extradição formulado pela Itália. Na segunda parte, pela mesma contagem, ressalvou que, por se tratar de ”um caso de política internacional”, o que parecera uma sentença era uma autorização para que o delinquente italiano seja extraditado. A palavra final é de Lula.

Pela primeira vez na história, a Corte que, por ser suprema, deveria estar acima de tudo, colocou-se voluntariamente abaixo do chefe do Executivo. Se quiser extraditar o homicida condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana, Lula terá a bênção do STF. Também a terá se resolver que o terrorista de estimação do ministro Tarso Genro deve ficar por aqui. Mas não pode incluir Battisti na categoria dos refugiados políticos, porque a primeira etapa da sessão inverossímil anulou a promoção decretada por Tarso Genro. É o Brasil.

Incorporados desde o começo à trama costurada para livrar Battisti do cumprimento da pena, os ministros Marco Aurélio Mello, Carmen Lúcia, Eros Grau e Joaquim Barbosa ao menos agrediram a lógica com coerência. Derrotados na tentativa de rejeitar a extradição, os quatro se juntaram para os trabalhos de parto da criatura assombrosa: o Grande Juiz do Planalto. Mais desconcertante foi o monumento à contradição erigido pelo comportamento pendular de Ayres Britto.

Em 9 de setembro, o ministro afirmou que Battisti deveria ser extraditado por não ter sido movido por motivos políticos. Menos de três meses mais tarde, invocando motivos políticos, defendeu enfaticamente a ideia de transferir para Lula a palavra final. Entre uma sessão e outra, não foram acrescentados ao processo quaisquer indícios, evidências ou provas. A única novidade foi a incorporação à tropa dos advogados de defesa do jurista Celso Antônio Bandeira de Mello, que sugeriu a nomeação de Ayres Britto para a vaga no Supremo.

“O presidente é chefe de Estado e titular da política internacional”, tentou explicar-se o ministro. Se é assim, por que o STF andou desperdiçando tempo, dinheiro e a paciência dos brasileiros que pensam e pagam a conta? ”O tribunal entra no circuito para garantir os direitos humanos”, complicou Ayres Britto. Difusas razões humanitárias provavelmente serão evocadas por Lula para driblar o tratado de extradição assinado pelos dois países.

“Não faz sentido entregar um perseguido ao carrasco”, declamou Tarso Genro. Foi exatamente o que fez o ministro da Justiça ao deportar para Cuba os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, capturados no Rio quando tentavam a fuga para a Alemanha. A misericórdia de Tarso é seletiva. Como é amigo de Battisti, estende-lhe a mão solidária que negou aos dois cubanos por ser amigo de Fidel Castro. Em ambos os casos, Lula avalizou as decisões do companheiro gaúcho.

O tratamento dispensado aos dois episódios informa que a subordinação do STF ao Executivo abre um precedente perturbador. Imagine-se, por exemplo, que os ministros tenham de julgar um caso semelhante ao dos cubanos, e decidam que um estrangeiro perseguido no país de origem merece viver em segurança no Brasil. Se quiser, Lula poderá deportá-lo. Nesta quarta-feira, o Supremo autorizou o presidente da República a fazer a opção pela infâmia sem nenhum risco de ser corrigido. É ele quem decide em última instância.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

KENNETH MAXWELL

Os pássaros de Belton


Folha de S. Paulo - 19/11/2009


O ANTIGO diplomata norte-americano William Belton morreu no dia 25 de outubro passado, em sua casa em Great Cacapon, na Virgínia Ocidental, aos 95 anos de idade.
Belton entrou para o serviço diplomático norte-americano em 1938, depois de estudar na Universidade Stanford. Ele nasceu em 1914, em Portland, no Oregon. Durante seus 32 anos como diplomata, serviu em Cuba e na República Dominicana, na Austrália e no Canadá, bem como na América do Sul. Aposentou-se em 1970, no posto de primeiro-secretário do consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.
Ao longo dos 30 anos seguintes, porém, Belton empreendeu uma segunda e mais ilustre carreira e se tornou um ornitologista autodidata e internacionalmente respeitado. Ele conquistou renome especial por suas pesquisas sobre a vida das aves no mais meridional dos Estados brasileiros, o Rio Grande do Sul. Viajando pela região em um jipe com reboque, e carregando um pesado gravador de rolo, Belton pacientemente registrou mais de mil gravações de canto de pássaros. No período entre 1971 e 1993, ele compilou um arquivo abrangente sobre os sons dos pássaros do Rio Grande do Sul.
As gravações de campo que realizou provaram a existência de muitas espécies desconhecidas. Entre os pássaros cujo som gravou estão o poético barranqueiro-de-olho-branco, o curió-do-brejo e o acauã.
Muitos desses cantos de pássaros únicos podem ser ouvidos online, na Biblioteca Macaulay, como parte da coleção do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, que abriga grande número das gravações de Belton.
O papa-lagarta-acanelado, por exemplo, registrado por Belson no Rio Grande do Sul em 19 de fevereiro de 1974, pode ser ouvido no endereço macaulaylibrary.org/ audio/19005.
William Belton escreveu o estudo definitivo sobre os pássaros do Rio Grande do Sul, publicado em dois volumes pelo Museu Americano de História Natural em 1984 e 1985. Também compilou um livro em formato reduzido, "Aves Silvestres do Rio Grande do Sul", com cem ilustrações em cores, e, em 1993, traduziu "Birds of Brazil: a Natural History", de Helmut Sicks.
A American Bird Conservancy criou um programa de bolsas em seu nome para apoiar trabalhos de campo, viagens e planos de conservação. É um tributo digno desse homem notável.
William Belton amava o Brasil e deixou uma coleção de gravações que reflete o seu profundo afeto por um componente fascinante da rica história natural brasileira.

JAPA GOSTOSA


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JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA

Avaliação educacional em risco

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/11/09


A única medida aceitável é o reconhecimento do erro, a anulação das provas e a mudança na sistemática que hoje permite que isso ocorra

A AVALIAÇÃO educacional conduzida pelo governo federal e por alguns Estados é um dos poucos aspectos em que a educação brasileira se encontra em níveis comparáveis aos dos países desenvolvidos. Mas essa "conquista" está em risco diante de fatos recentes.
Para entender o risco, é preciso separar, antes de mais nada, os diferentes incidentes e suas causas. Trapalhadas, como as do Enem, são em parte fruto de açodamento de contratantes e contratados. Mas não sugerem má-fé. De certo modo, o mesmo ocorreu com a divulgação de alguns testes do Enade, dos cursos superiores. Os recentes episódios com a avaliação estadual paulista também se enquadram aí. São ocorrências lamentáveis, que as autoridades rapidamente tentaram sanar. Como fatos isolados, não colocam em perigo a avaliação. E revelam que, quando o governo quer agir rápido, tem êxito.
O cerne da questão está na substância, caso das distorções no conteúdo das provas do Enade. Como a própria mídia noticiou, houve uma ideologização de tal ordem que só a defunta velhinha de Taubaté poderia ignorar.
As autoridades poderiam até lavar as mãos e dizer, em nome de uma suposta autonomia e isenção, que o problema é dos autores das provas. Mas só à saudosa moradora de Taubaté não ocorreria perguntar: mas quem escolhe os autores? E quem faz o controle dos processos?
Distorções em questões de testes não constituem um problema inteiramente novo. O que surpreende é a natureza e a dimensão das distorções. De forma recorrente, nos últimos anos, os exames dos cursos de pedagogia apontam forte viés ideológico, tanto nos conteúdos quanto no direcionamento das respostas "corretas".
É uma falha grave, mas, infelizmente, sem consequências, porque as autoridades sabem que as fragilidades desses cursos vão muito além dessa questão. O mesmo se repete na chamada Provinha Brasil, que não resiste a uma análise psicométrica minimamente rigorosa.
Isso é terrível, mas sabemos que o Brasil ainda não se deu conta da importância de alfabetizar as crianças no primeiro ano nem se preocupa em saber que existem maneiras eficazes de conseguir isso. Não adianta avaliar -nem bem nem mal- quando não se quer corrigir.
Mas agora é diferente. Estamos ante uma forma de ideologização ligada à interpretação de políticas governamentais em curso e de assuntos diretamente vinculados às pautas eleitorais. Isso é bem mais grave do que as graves distorções apontadas em recente avaliação para ingresso de economistas no Ipea, situação rápida e devidamente apontada, mas, em seguida, varrida para debaixo do tapete.
Antes de se peronizar, o país pode correr o risco de se cubanizar -no que Cuba tem de pior, que é o monopólio governamental da verdade e a doutrinação ideológica nas escolas.
Ainda é tempo de corrigir o erro. Se mantido, irá manchar uma gestão que primou pela humildade em reconhecer os avanços do governo anterior nessa área e que, após vacilos no primeiro mandato de Lula, soube valorizar e fazer avançar a avaliação.
Foram os resultados das avaliações que levaram o ministro Haddad a se recusar a tapar o sol com a peneira e a reconhecer, pela primeira vez na história do MEC, que nosso ensino fundamental estava muito mal.
O governo se encontra diante de uma importante decisão. Cabe reconhecer o erro tanto na substância quanto no processo de escolha de pessoas e nos critérios de revisão dos conteúdos, já que também nisso se mostraram incapazes de detectar ou de impedir esse tipo de distorção.
A única medida aceitável é o reconhecimento do erro, a anulação das provas e a mudança na sistemática que hoje permite que isso ocorra.
A Prova Brasil está próxima. Seus resultados têm sido estáveis nos vários anos de aplicação. Sua maior visibilidade, com a introdução do Ideb, transformou essa prova em algo mais sensível do ponto de vista político.
Para preservar as conquistas dos últimos anos, o governo deverá desdobrar-se para evitar que a Prova Brasil seja contaminada pela ideologização, o que poderia manchar a imagem e as realizações de um dos ministros mais ilustres que a educação já teve.

JOÃO BATISTA ARAUJO E OLIVEIRA