Quinta-feira, Julho 09, 2009

CLÓVIS ROSSI

Áquila : Por que não falas?


Folha de S. Paulo - 09/07/2009

Se o Brasil quer mesmo assumir um papel mais relevante na governança global, tem uma urgente lição de casa a fazer: reformular totalmente seu sistema de informações durante eventos internacionais de que participa, em especial quando está o presidente da República.
Explico: eu estou muitíssimo mais bem informado sobre o que fez o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no Iraque, a milhas e milhas daqui, do que sobre as atividades de Luiz Inácio Lula da Silva, embora tenhamos passado toda a tarde e uma parte da noite a poucos metros um do outro.
Por quê? Porque a Casa Branca, especialmente depois da posse de Barack Obama, me abastece com uma tonelada de informações por e-mail, que vão desde nomeações que a administração submete ao Congresso até os chamados "briefings" (jargão jornalístico para sessões informativas), nos quais um funcionário graduado dá todos os detalhes sobre, por exemplo, o que rola no G8 ou qualquer outro G.
Com a liberdade que lhe dá saber que seu nome não aparecerá. Que fique claro: não é uma invenção recente nem exclusividade norte-americana. Exemplo de ontem: os jornalistas brasileiros ficamos sabendo pela boca de Kazuo Kodama, diretor-geral de Imprensa e Relações Públicas do governo japonês, o que se discutiu no almoço de trabalho dos líderes do G8. Dos líderes do G5, de que faz parte o Brasil, só o comunicado oficial e meia dúzia de palavras de cada um dos cinco, Lula inclusive, que pouco acrescentaram ao comunicado.
Cria-se então a seguinte insólita situação: os jornalistas brasileiros sabemos o que fez e disse o governo japonês, mas não sabemos (nem os jornalistas japoneses) o que disse e fez o governo brasileiro. Com perdão pelo óbvio: informação também é poder -e quem não se comunica se trumbica, como dizia Chacrinha.

JANIO DE FREITAS

O gol de Ronaldo

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/07/09


A informação de Ronaldo traz colaboração importante, se não para inquérito, por certo para uma biografia de Lula



CONHECIDAS OUTRAS relações suspeitas ou comprometedoras entre Lula e ao menos uma empreiteira, nem a alienação dos grã-finos da oposição, nem artimanhas ou equívocos de transcrição podem obscurecer a gravidade da informação dada pelo jogador Ronaldo sobre outro comprometimento do próprio presidente da República com empreiteiras.
Em contraste com as versões publicadas no noticiário como se literais, mas todas abrandando a frase objetiva e clara de Ronaldo, Tostão, o cronista craque, fechou sua coluna de ontem com uma nota, "Absurdo", que repõe sentido e tempos verbais adequados ao original: "Ronaldo disse no programa "Bem, Amigos", do SporTV, que o presidente Lula tem ajudado bastante o Corinthians por meio de contatos com empreiteiros para a construção do centro de treinamento do clube! Absurdo um presidente fazer isso! Parei!".
Ronaldo segundo o noticiário da Folha: "Ele [Lula] é a principal pessoa que tem ajudado o Corinthians nesta nova fase. Mas não é ajuda financeira. O que ele tem feito é passar contatos de empreiteiras e indicar empresas que podem ajudar".
Ronaldo segundo "O Globo", na primeira página, lá sem aspas de palavras de transcrição: "Ronaldo surpreendeu ao afirmar, no "Bem, Amigos", do SporTV, que o presidente Lula vai indicar as empreiteiras que construirão o centro de treinos do Corinthians". Ronaldo na página principal de esportes, com sinal de transcrição literal: "O presidente Lula é quem mais está ajudando o Corinthians nessa fase. Ele está dando alguns contatos de empreiteiras que podem nos ajudar, mas não é financeiramente. Ele é fanático, um corintiano roxo. O presidente está sabendo de tudo e indica as empresas que podem ajudar".
Registro meu, no trecho que aqui interessa, quando referido o encontro do jogador com Lula: ..."é uma das pessoas que mais ajudam o Corinthians. É o que ajuda mais. Ele pede a empreiteiras para nos ajudar".
Notícia anterior ao Lula presidente deu conta de que sua filha morava em Paris custeada por uma empresa, citada mais tarde como uma empreiteira. Já em pleno mandato, a gigantesca empreiteira Andrade Gutierrez associa-se, e infla de capital, a pequena ou micro empresa de que um filho de Lula é sócio. E há meio ano está aí, consumada, uma das maiores aberrações já havidas no Brasil em negócios privados com a mão e o dinheiro providenciados pelo governo: a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar (Grupo Andrade Gutierrez) antes mesmo que Lula alterasse a lei para torná-la possível.
Um dos três inquéritos pedidos, agora, pelo procurador federal Rodrigo de Grandis no caso Satiagraha, refere-se ao negócio BrT-Oi/Telemar, porque financiado por dois bancos estatais, o BNDES e o do Brasil, e participação de Daniel Dantas, com suspeita de crime financeiro ou lavagem de dinheiro em torno de sua parte. Esse é um inquérito que, se levado adiante pelo Judiciário, pode chegar ao que uma CPI, caso os partidos oposicionistas fizessem oposição com honestidade e civismo, já poderia ter chegado.
Tal como dada mesmo, a informação de Ronaldo traz uma colaboração importante. Se não para o inquérito, cujo pedido o Judiciário talvez prefira em um arquivo, por certo para uma biografia de Lula mais verdadeira do que a fabricada pela Unesco para um prêmio sem candidatos.

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ELIANE CANTANHÊDE

O cara e a cara

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/07/09

A fraqueza de Sarney e de Renan Calheiros evidenciou a força do PMDB na sucessão presidencial. Lula pode estar engordando o monstro que vai engolir o PT. Ele subjugou a bancada petista no Senado em favor de Sarney e articula para o PMDB participar da coordenação política do governo. Aboletado no Planalto, o comando do partido ficará ainda mais à vontade para garantir a aliança com Lula na convenção nacional e o nome de Michel Temer como vice na chapa de Dilma. Para isso, porém, o PT tem de se imolar nos Estados.
Assim como interveio no Senado, Lula tende a sacrificar o PT em favor do PMDB nas eleições para os governos estaduais. Bom exemplo é Minas Gerais. O prefeito Fernando Pimentel, do PT, é legitimamente pré-candidato a governador, mas bate de frente com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, do PMDB. Nessa guerra de vida ou morte, Lula já decidiu quem deve viver. E não é Pimentel.
Outros líderes petistas no Estado, como os ministros Patrus Ananias e Luiz Dulci, parecem lavar as mãos. Formalmente, em nome do projeto nacional de fazer Dilma subir a rampa em 2011. De quebra, porque têm ciúmes de Pimentel. O mesmo vale para o Pará, onde o amor da governadora Ana Júlia, do PT, com o deputado Jader Barbalho, do PMDB, só foi eterno enquanto durou. Lula tomou partido no divórcio. Contra Ana Júlia.
Em outros locais, como Bahia e Rio Grande do Sul, em que não dá para forçar a barra e tirar o PT de cena, articulam-se dois palanques para Dilma. Tudo vale (ou vale tudo?) para o PMDB não retaliar pulando no barco tucano. É por essas e outras que o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante, esquece o que disse e aparece com aquela cara arrasada na tribuna e na TV, assumindo o discurso (de Lula) pró-Sarney e pró-PMDB e presumindo o efeito disso na sua base eleitoral em São Paulo.
Lula é "o cara", segundo Obama. E Mercadante é "a cara" do PT hoje.

ROLF KUNTZ

Cascatas federais


O Estado de S. Paulo - 09/07/2009

Começou mal a aventura de colunista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma vez ele atribuiu aos outros a responsabilidade pelas falhas de seu governo. E mais uma vez ele atribuiu as mazelas da política de saúde à extinção do imposto do cheque, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Pura cascata. A carga tributária voltou a crescer no ano passado e chegou a 35,8% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as contas da Receita Federal. Outros emergentes cuidam muito melhor da educação e da saúde com impostos muito menores. Mas isso não é tudo. O governo e seus aliados só não aplicam mais dinheiro nos programas de saúde porque não querem. Recursos não faltam, até porque a administração federal continua incapaz de usar as verbas de investimento previstas no Orçamento-Geral da União.

Se os projetos de outros Ministérios não deslancham, por que não se transfere o dinheiro para o Ministério da Saúde? Neste ano, até 1º de julho, o Tesouro desembolsou apenas R$ 2,49 bilhões para os programas de investimento, 4,93% da verba autorizada para o ano. A maior parte desse dinheiro corresponde a restos a pagar.

Essa incapacidade de investir explica a diferença de ritmo entre os pagamentos efetuados pelos diversos órgãos do governo. O Ministério da Saúde gastou, até 1º de julho, 44,03% da verba prevista para 2009, segundo o site Contas Abertas. O dos Transportes, apenas 14,04%. O de Minas e Energia, 5,87%. O das Cidades, 7%. Trocando em miúdos: gastou menos quem tinha a agenda mais carregada de projetos de investimento. O problema é de incompetência geral do governo, não de falta de dinheiro. A incompetência, nesse caso, é demonstrada também na má distribuição de recursos entre os Ministérios e na fixação inepta de prioridades.

Quando se vai ao detalhe da execução, o resultado é assustador. No programa Luz para Todos, tema de uma campanha oficial de propaganda no rádio e na TV, o governo só gastou neste ano, até o começo de julho, 0,42% da verba prevista. À Segurança da Sanidade na Agropecuária, essencial tanto para o bem-estar da população quanto para as exportações, o Orçamento destina R$ 180 milhões - uma miséria -, mas o dispêndio efetivo só chegou a R$ 14,6 milhões, 8,11% do valor autorizado. Estão previstos R$ 923,4 milhões para Segurança de Voo e Controle do Espaço Aéreo. A despesa ficou, até 1º de julho, em R$ 89,36 milhões, 9,68% do montante programado. E quantos brasileiros sabiam de um programa intitulado Gestão da Transversalidade de Gênero nas Políticas Públicas? Pois existe e já consumiu 8,05% dos R$ 5,96 milhões previstos.

A péssima distribuição de recursos é visível também na dotação dos chamados Poderes da República. Nunca é demais lembrar: embora só haja 81 senadores, o Senado tem um orçamento de R$ 2,7 bilhões, maior que o do município de Campinas (R$ 2,5 bilhões), com mais de 1 milhão de habitantes, um dos maiores e mais desenvolvidos do Brasil. Se o presidente Lula se permite dar conselhos ao presidente do Senado e meter o nariz numa crise do Legislativo, por que não usa essa mesma disposição, mais produtivamente, para discutir o custo absurdo e escandaloso da chamada Câmara Alta?

Se o presidente da República estivesse realmente preocupado com a qualidade do gasto público, não teria comprometido as conta federais com seguidos aumentos de salários para o funcionalismo nem permitiria mais contratações. As despesas com a folha de salários estão entre aquelas com maior crescimento neste ano, enquanto a receita é comprometida pela crise econômica. Apesar disso, o presidente manteve os aumentos programados para entrar em vigor em 1º de julho. Poderia legalmente atrasar a vigência dos novos salários, mas preferiu outro caminho, levando os ministros da Fazenda e do Planejamento a pedir ao Congresso o afrouxamento das normas orçamentárias. Para quê? Para continuar aumentando os gastos de custeio neste ano e no próximo - tempo de eleição. Para investir mais, não precisaria mexer em regras fiscais. Bastaria cobrar mais competência de seus auxiliares.

Se o governo investe pouco, não é por falta de dinheiro, ao contrário da tese sustentada pelo Ipea em sua nova tentativa de justificar o injustificável, a enorme tributação brasileira. Segundo o mesmo instituto, não há excesso de funcionários públicos e sobra espaço para a contratação de mais gente. O governo usará teses desse tipo para justificar a gastança eleitoral. Mais um desperdício: não é preciso tanto esforço para convencer quem acredita em cascata.

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LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Realpolitiques

O GLOBO - 09/07/09

Consolemos-nos. O parlamento inglês – que, afinal, é o pai de todos os parlamentos – também anda às voltas com escândalos. E escândalos parecidos com os do nosso Congresso: despesas escondidas, favorecimentos descabidos e outras lambuzeiras com o dinheiro público. Levando-se em conta a tradição de austeridade da política inglesa, com a exceção de um ou outro deslize sexual, pode-se até dizer que os escândalos do parlamento inglês são piores do que os nossos. Pelo menos temos a desculpa de não sermos ingleses.
Lula não usa a palavra mas invoca a “realpolitik” para constranger o PT a apoiar o Sarney, que se tornou, com um certo exagero, símbolo de todos os maus hábitos do nosso Congresso. “Realpolitik” é uma expressão alemã do século dezenove com vários significados, de realismo político e pragmatismo até maquiavelismo do mais cínico. No caso do Lula, que só se preocupa em manter alianças que garantam o funcionamento deste governo e a eleição do próximo, ela significa uma espécie de maquiavelismo de arrabalde. Nada muito grave, se bem que nada muito inspirador também. De qualquer jeito, foi doloroso ver o Mercadante anunciando a concordância do PT com as ordens do chefe sem acreditar numa palavra do que estava dizendo.
Estou escrevendo isto no começo da semana, é possível que o próprio Sarney já tenha se constrangido o suficiente para renunciar ao cargo. Se está sendo injustiçado ou vítima de um golpe “in câmera” fica para se ver depois. O que ele deve fazer agora é poupar o que resta da sua biografia.
PRIMITIVOS
Em Honduras houve um golpe militar à antiga, que deve ter feito bater mais forte o coração de alguns nostálgicos. Lá também se invoca uma forma de “realpolitik” como justificativa, no caso a necessidade de prevenir um novo Hugo Chávez em formação. “Honduras” quer dizer “funduras”. Foram buscar lá no fundo da história latino-americana o modelo mais primitivo para troca de governos. O golpe hondurenho é uma versão grosseira de uma história conhecida, a da reação do conservadorismo a qualquer ameaça ao seu poder, e cujo protótipo é a reação da oligarquia mexicana à eleição do índio zapoteca Benito Juárez à presidência em 1858. A elite mexicana exagerou: para substituir o índio foi buscar um príncipe, o arquiduque Maximiliano, da Áustria, financiado por Napoleão III. Desde então nunca se chegou mais a tanto, mas a reação se repete através dos anos onde quer que um “índio” chegue ao poder. Sem imperadores importados, ultimamente sem militares golpistas, ainda é a mesma velha história.

PAINEL DA FOLHA

Emenda Kassab

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/07/09

Articulação do DEM, partido de Gilberto Kassab, conseguiu derrubar do projeto de reforma eleitoral sobre o qual a Câmara se debruçava ontem a permissão de propaganda em muros. Da forma como estava, o texto de Flávio Dino (PC do B-MA) revogava, na prática, a Lei Cidade Limpa, marca distintiva da atual gestão paulistana. Segundo o o artigo 41, a permissão não poderia ‘ser cerceada’ e nem ‘ser objeto de multa sob a alegação de violação de posturas municipais’.
A despeito do pesado lobby dos ‘demos’, deputados ainda tentavam, na noite de ontem, emplacar destaques liberando a colocação de outdoors de candidatos- também proibidos na capital paulista.

Adeus, janela - Alguns deputados ‘sem ambiente’ em seus atuais partidos ainda tentaram articular a apresentação de emenda abrindo brecha para a troca até seis meses antes da eleição. Nada feito. Ninguém mais acredita que haverá outra oportunidade de aprovar qualquer tipo de janela de infidelidade.

Upgrade - Pela proposta original do deputado Flávio Dino (PC do B-MA), haveria restrições ao uso de redes sociais na campanha. Também não estava liberada a transmissão de entrevistas e debates nos sites dos candidatos. Coube à dupla Paulo Teixeira (PT-SP) e Manuela D’Ávila (PC do B-RS) ajudar a refazer as definições nos artigos referentes à internet para ampliar seu uso.

Saco de dormir - O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), fez questão de advertir os deputados desde cedo de que a sessão para tratar das novas regras eleitorais seria longa: ‘É bom os senhores se prepararem para passar a noite aqui’.

Disponível - Os defensores do retorno de Aldo Rebelo (PC do B-SP) ao comando da articulação política do governo, que deverá ficar vago com a ida de José Múcio para o Tribunal de Contas da União, argumentam que o substituto do ministro tem de desistir de disputar as eleições no ano que vem. E Aldo já deixou claro, em conversas com aliados, que não gostaria de buscar novo mandato de deputado.

Clonagem 1 - O ato secreto do Senado que concedeu aumento salarial para 40 chefes de gabinetes de secretarias, anulado anteontem, foi duplicado nove dias depois de sua edição, em dezembro de 2006. O então diretor de Recursos Humanos, João Carlos Zoghbi, despachou boletim com o mesmo ato número 30.

Clonagem 2 - No segundo ato de número 30, a Casa criou uma superestrutura para a Secretaria de Estágios, algo comparável à gigantesca massa da Gráfica do Senado. O setor de Estágios foi chefiado por Sânzia Maia, mulher do então diretor-geral Agaciel Maia. Ali ele passou a despachar depois de perder o cargo.

Padrinhos mágicos - A operação para inflar a Secretaria de Estágios teve a chancela de senadores à época instalados na Mesa Diretora: Renan Calheiros (PMDB-AL), Efraim Morais (DEM-PB), João Alberto (PMDB-MA), Serys Slhessarenko (PT-MT), Papaléo Paes (PSDB-AP) e Aelton Freitas (PR-MG).

Efeito dominó - Ontem, a direção do Senado determinou a exoneração do ‘agaciboy’ Luiz Augusto da Paz Júnior, que pilotava uma das diretorias da Gráfica. A família Paz era exemplo de nepotismo no Senado até a edição, no ano passado, da súmula do Supremo Tribunal Federal.

Tiroteio

Não vão instalar a CPI no grito. Na base ninguém treme com grito.

Do líder do governo no Senado, ROMERO JUCÁ (PMDB-RR), sobre os protestos da oposição contra as manobras para adiar indefinidamente a investigação da Petrobras.

Unanimidade - De um senador do PT, sobre a nota em que o partido faz contorcionismo verbal para tentar explicar, pela enésima vez, sua posição a respeito da permanência ou não do presidente da Casa: ‘De uma só tacada, conseguimos desagradar os eleitores, o Lula, o Sarney e o PMDB. É um desastre’.

Contraponto

Competência reconhecida

Um dos pontos mais acalorados do debate sobre a reforma eleitoral foi liberar ou não a propaganda em muros e a instalação de outdoors durante a campanha.
Contrário à atual regra, que permite (não em São Paulo) pintar muros, desde que o candidato pague ao proprietário, Silvio Costa (PMN-PE) foi à tribuna:
-Nos últimos anos se desenvolveu uma verdadeira indústria do muro neste país!
Um deputado que acompanhava a discussão no fundo do plenário não deixou barato:
-Isso não é verdade! Se houvesse mesmo uma indústria do muro no Brasil, o PSDB não perderia uma eleição!

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CARLOS HEITOR CONY

Eu, pecador, me confesso

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/07/09

Antes, no melhor das festas, se alguém duvidasse, a imprensa já era tida como quarto poder, uma instituição que exercia um poder paralelo. Na verdade, não é um poder, mas uma força. Com as novas técnicas de comunicação e com a sacralidade das fontes, ela se transformou no escoadouro dos descontentamentos (lícitos ou não), dos ressentimentos (pessoais ou grupais), das pressões e compressões de uma sociedade heterogênea que inclui desde índios e menores inimputáveis até políticos e empresários que podem roubar.

Esse caldo em ebulição seria a matéria que justificaria a existência e a expressão do Estado que, no caso brasileiro, antecedeu a Nação.

Abriu-se um vácuo e, nele, a força da comunicação encontrou o seu espaço. E o fez com exuberante boa vontade. Não é a vida nacional que pauta a imprensa. É a imprensa que pauta a vida nacional, através de seus órgãos mais excitáveis.

Dá a régua e o compasso. A classe política empacou, ataca e se defende a esmo, desarticuladamente, de acordo com a direção e a intensidade dos petardos que recebe.

Mas quem acusa a imprensa? Quem se atreve a mostrar e demonstrar que o gigante também tem, como todos os gigantes, os seus pés de barro? Há desconforto em todas as classes, juízes, militares, empresários e policiais em relação aos jornalistas. Eles se transformaram em detetives, em esmiuçadores de contas de luz e telefone, de depósitos bancários, declarações de Imposto de Renda, despesas nos postos de gasolina e nas agências dos Correios.

Estenderam sobre a sociedade uma teia assombrosa que absorve denúncias vindas de fontes anônimas, lembrando os comitês de salvação pública da Revolução Francesa que alimentaram de sangue a guilhotina nos anos do terror.

ANCELMO GÓIS

TAVA DEMORANDO

O GLOBO - 09/07/09

Nasceu ontem na Maternidade de Acari, no Rio, um bebê batizado de... Maiquel Jackson.
DOM BENJAMIN SUJOU
A Secretaria do Ambiente de Sérgio Cabral multou a CSN em R$ 450 mil por poluição do ar.
Dia 30 de junho, a pressão interna do Alto Forno 3 aumentou e acionou um dispositivo de segurança que abriu uma das válvulas da siderúrgica. Por ali, foi lançado, durante uns três minutos, um pó preto que atingiu o Centro de Volta Redonda.
TRANSPARÊNCIA TOTAL
O Hospital Souza Aguiar será o primeiro da rede municipal do Rio a exibir ao público a lista dos médicos escalados para trabalhar naquele dia.
A medida será estendida a todas as unidades.
BUROCRACIA INFIEL
Veja como até nos casamentos os concursos públicos podem fazer diferença em Brasília.
Outro dia, uma servidora concursada soube que o marido (também concursado) a traía com uma moça contratada por prestadora de serviços do Senado. Na separação, na frente do juiz, a traída desabafou: “Pior é que foi com uma... terceirizada!”.
DESTRAVA
Carlos Minc lança dia 20 o Destrava 2, plano para reduzir em até 50% o tempo de emissão de licenças no Ibama.
PLANO DE SAÚDE
O que se diz na Rádio Corredor é que o Unibanco Saúde deve ser transferido para o grupo Tempo Participações.
MANÍACOS POR MARTA
O jornal “USA Today” publicou ontem reportagem enorme sobre a nossa Marta, craque da seleção feminina de futebol.
O texto diz que na Califórnia, onde ela joga no Los Angeles Sol, surgiu o movimento “Marta Maniacs” (Maníacos por Marta).
DENGUE EM QUEDA
Uma boa notícia: o ministro Temporão anuncia hoje uma queda de 50% nos casos de dengue no primeiro semestre, em relação a igual período de 2008. O Rio foi o Estado com maior redução (95,8%).
Até agora, diga-se, a gripe suína matou uma pessoa. A dengue tirou a vida de uns 500 brasileiros nos últimos anos.
GRIPE NO AEROPORTO
A Anvisa confirmou ontem os primeiros casos de gripe suína entre trabalhadores da aviação no País, em Porto Alegre. São dois funcionários de terra, um da Gol e outro da TAM.
GAROTO DOS PAMPAS
Do gaúcho Pedro Simon, 80 anos, ao voltar ao Senado depois de uma cirurgia de apendicite:
– Podem marcar a consulta com o dentista. Se agora fiz uma operação de adolescente, o próximo passo é tirar o siso.
‘MAGICIAN’
Sai em outubro nos EUA a edição em inglês do livro “O mago”, de Fernando Morais, sobre Paulo Coelho.
SABE COM QUEM...
A Associação dos Magistrados Federais pediu à Secretaria de Segurança do Rio punição para o delegado Vinícius Jorge, assessor do deputado Marcelo Freixo. Numa discussão de trânsito, na Barra, o delegado teria ameaçado um juiz federal e a mulher dele com um fuzil. Já o delegado diz que agiu com urbanidade.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


DORA KRAMER

Uma leve maquiagem

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/07/09

A rigor, não seria preciso investigação alguma sobre a edição dos atos secretos do Senado. O correto seria anular todos eles por descumprimento ao princípio da publicidade, constitucionalmente obrigatório para qualquer ação de natureza pública.
A punição dar-se-ia mediante os efeitos dessa nulidade. No caso de nomeações, por exemplo, demissão dos ocupantes dos cargos e devolução dos salários pagos durante a vigência do ato ilegal. O mesmo critério valeria para todos os outros atos.
Ficariam sem efeito as exonerações secretas de parentes feitas para atender à exigência do Supremo e esconder o nepotismo, bem como estariam invalidadas as horas extras pagas durante o período de recesso. O “cumpra-se” imediato caberia à Mesa Diretora do Senado, caso estivesse mesmo, como alega, imbuída do espírito da reformulação dos procedimentos. Como tal disposição só se manifesta ao ritmo de conta-gotas e sob pressão externa, o parâmetro transgressor continua presente nas ações da atual Mesa
Quando o Senado opta por regularizar aqueles atos por meio da publicação com data retroativa, convalida a infração original. Confere artificialmente uma legalidade inexistente, no lugar de extinguir a ilegalidade. Radical, complicado, agressivo aos supostos direitos adquiridos? Muito mais drástico, complexo e destrutivo ao Estado de Direito é o Senado conviver com um território paralelo de poder consentido e exercido à margem da lei.
A instituição - toda ela, pois o colegiado aceitou essa regra meia-sola - optou por contemporizar. Apostou na saída sem dor, acreditou mais uma vez na existência de almoço grátis, a despeito de todas as provas em contrário.
Resultado: vai pagar dobrado. Muito mais desastroso para o Legislativo é a determinação do Ministério Público para que a Polícia Federal investigue o caso dos atos secretos. Os procuradores não tinham escolha. Ou cumpriam seu papel de defensores da sociedade e tomavam uma providência ou se associavam aos senadores na condescendência para com a ilegalidade.
Transigência esta que tem sido uma constante. Antes, na produção dos fatos que resultaram no escândalo em curso e também depois, na administração dos efeitos da crise. Tudo é feito no sentido de contornar as situações. O que se pode adiar-se adia, onde há espaço para amenizar se ameniza e naquilo que é possível acomodar interesses, acomoda-se. A consequência é a perda de credibilidade na disposição do Senado de realmente mudar suas práticas.
Da crise que completa seu quinto mês, de concreto resultam até agora o anúncio de abertura de processo contra dois ex-diretores, nenhum senador responsabilizado, muitas promessas a serem conferidas, uma tendência explícita à acomodação geral e vastos sinais de que a lição não foi aprendida.
Se nem o desativado Conselho de Ética a Casa deu-se o trabalho de remontar, como acreditar nas promessas de cortar gastos, reduzir pessoal, desmontar núcleos de poder paralelo, moralizar e modernizar uma estrutura viciada e obsoleta?
Todas as tentativas de fazer a Mesa aceitar ajuda externa foram repudiadas em nome da soberania interna. Tentou-se transformar um escândalo de transgressões legais numa crise de natureza político-eleitoral.
Pois bem, só que agora a coisa muda de figura com a política na iminência de virar oficialmente um caso de polícia. O encaminhamento poderia ter sido menos vergonhoso e mais eficaz. Mas, como ainda não se deu conta de que essa história só acabará quando efetivamente terminar a era do compadrio, o grupo controlador do Senado preferiu tomar o atalho da escora na figura do presidente da República combinada a um cardápio de soluções mornas que não resolvem, não convencem e não tiram o Senado da berlinda.

SAGRADA CONFRARIA
Autoridades que usam a administração pública para assegurar fonte de renda a familiares, amigos e correligionários dizem que nada fazem de errado, pois os beneficiados não se enquadram no grau de parentesco que caracteriza o nepotismo.
Posam de ingênuos, enquanto dão asas ao mais desvairado, atrasado e cada vez mais bem aceito empreguismo. Hoje o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, emprega a mulher para expediente de um dia na semana em gabinete na Câmara e não vê nada demais.
Em outubro de 2003, o então secretário Nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, pediu demissão do Ministério da Justiça porque se sentiu desconfortável com as críticas à contratação da ex-mulher - profissional na área - como consultora num convênio entre a ONU e a secretaria que dirigia.

NEM TANTO
Sendo tão exigente e vigilante conforme alega, é incompreensível como a ministra Dilma Rousseff deixou que seu currículo circulasse por anos a fio com informações maquiadas.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Tem vocação arqueológica e não política”
PRESIDENTE DO PT, RICARDO BERZOINI, CRITICANDO A POSIÇÃO DA BANCADA DE SEU PARTIDO NO SENADO

DILMA TERÁ MÊS DE AGOSTO DIFÍCIL, NO HOSPITAL
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) enfrentará em São Paulo, no mês de agosto, os trinta dias mais difíceis de sua vida: permanecerá a maior parte do tempo no Hospital Sírio-Libanês, submetendo-se à radioterapia. A aplicação deverá ser feita durante períodos de cinco dias seguidos e pode causar efeitos colaterais diversos. Um escritório será instalado no quarto ao lado, no hospital, onde Dilma poderá despachar com auxiliares.
VAI ENCARAR?
A assessoria de Dilma precisa saber: a radioterapia pode deixá-la insone, irritadiça, agitada. Quem conhece a fera sabe o que isso representa.
MONITORAMENTO
Na Europa, Lula recebeu informes diários sobre o tratamento de Dilma, mas o deixaram mais preocupado as notícias sobre o vice José Alencar.
ENXUGAR É PRECISO
Dos dez mil funcionários do Senado, seis mil estão lá sem concurso. Contaram apenas com a força dos padrinhos.
GRANA NA VEIA
O governo usa argumento infalível para o Congresso aprovar projetos do seu interesse: liberou R$ 1 bilhão em emendas parlamentares.
LULA DIZ A SARKOZY QUE COMPRARÁ CAÇAS RAFALE
O presidente Lula deu ao colega francês Nicolas Sarkozy a informação privilegiada, pela qual muitos lobistas se matariam: anunciará em setembro a decisão de fazer o Brasil adquirir os caças Rafale para reequipar a Força Aérea Brasileira. Lula observou que o Rafale “transfere tecnologia”. É um negócio de cerca de R$ 12 bilhões. A confidência do presidente brasileiro foi vazada pelo governo francês ao jornal La Tribune.
DINHEIRO NA LAVOURA
Será de R$ 39,5 bilhões o orçamento do Banco do Brasil para financiar a safra agrícola 2009/2010. É 30% superior ao montante da safra passada.
SHOW DA MORTE
Para complementar o “espetáculo” da morte, só falta agora Michael Jackson ressuscitar no terceiro dia.
MONTANHA DE REAIS
O patrimônio global do Sistema de Poupança e Empréstimos da Caixa somou R$ 282,19 bilhões em junho. É dinheiro saindo pelo ladrão.
NEVERLAND
Com obras estimadas em R$ 1,3 bilhões, mais R$ 100 milhões em mobiliário, o Centro Administrativo de Minas Gerais já ganhou um apelido: “Neverland do Aécio Neves”.
CPI NO SUPREMO
A CPI da Conta de Luz, na Câmara, uniu contra ela DEM, PT e PSDB, que não indicaram representantes. As tarifas subiram 400% desde o início da privataria tucana. O presidente da CPI, Eduardo da Fonte (PP-PE), pediu ontem ao STF que os obrigue a indicar representantes.
MÁ COMPANHIA
Com a chegada do embaixador Arnaldo Carrilho a Pyongyang, o Brasil é o segundo nas Américas, depois de Cuba, a reconhecer o lamentável governo do lixo atômico Kim Jong-il, ditador da Coréia do Norte.
RECADO AO CELULAR
O senador-celular Tião Viana (AC) não contou à revista Veja seus esforços, como líder do PT, para tentar blindar ACM, no caso do grampo na Bahia. Por causa da entrevista, Tião já foi avisado que não poderá contar com o presidente Lula em seu palanque no Acre, em 2010.
BLAIRO EM CAMPO
O governador Blairo Maggi (MT) aproxima Dilma Rousseff do agronegócio, do qual é expoente. Rivaliza com a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da CNA e crítica do governo e da candidata.
MÃO DE GATO
Estudo do IPEA, órgão do governo, indica que apenas 1 de cada 3 reais arrecadados é investido em educação, saúde, segurança etc. Os demais R$ 2 pagam juros da dívida (bancos) ou programas como Bolsa Família.
PRÓ-EMPREGO
O governo federal tem pronto um projeto, a ser enviado ao Congresso Nacional, reduzindo a contribuição patronal para a Previdência. Destina-se a incentivar empreendimentos com uso intensivo de mão de obra.
QUEM SE HABILITA?
Um parque britânico oferece vaga de bruxa por cerca de R$14,5 mil mensais, diz a BBC Brasil. Precisa “agir como bruxa e fazer o que as bruxas fazem”. Aos leitores fica a sugestão de candidatas brasileiras.
ELE VOA, EU DANÇO
O presidente Lula também tem sua Neverland, a Terra do Nunca. É o Brasil, onde ele nunca está.

PODER SEM PUDOR
MISTÉRIOS DE QUADRÚPEDE
O ex-presidente Fernando Henrique sempre conta, com graça, o momento em que o então ex-senador José Serra (PSDB) foi apresentado a um animal no pasto, durante a visita que os dois fizeram à fazenda de um amigo, no exílio do Chile. Na ocasião, Serra confessou, encantado:
– Fernando, sabe que é a primeira vez que vejo uma vaca de perto?
Quando todo mundo ri do relato, Fernando Henrique complementa:
– Era um touro...

O MURO

Quarta-feira, Julho 08, 2009

CELSO MING

Abusos de César


O Estado de S. Paulo - 08/07/2009

A César o que é de César, não há o que negar.


Mas o que ocorre quando César passa dos limites? Aqui no Brasil, a Derrama desembocou na Inconfidência Mineira e em tudo quanto se seguiu. Será que a inexistência de movimentos contra a excessiva carga tributária é a prova de que não há abusos de César?

Ontem, a Receita Federal divulgou estudo mostrando que a carga tributária no País saltou de 34,7% (em 2007) para 35,8% do PIB (em 2008). Como o PIB é a renda nacional, 35,8% da renda do brasileiro é mordida pelo Fisco. Em outras palavras, o brasileiro trabalha 4 meses e 9 dias por ano só para sustentar o governo.

Quando o Congresso se preparava para não mais prorrogar a CPMF, os ministros da área econômica e demais autoridades fiscais do País fizeram terrorismo evocando dois argumentos contra o fim da CPMF. O primeiro é o de que sem a CPMF seria aberto um rombo orçamentário devastador para as contas públicas. E o segundo, o de que a Receita Federal perderia a principal arma de controle da sonegação. Agora se vê que as duas alegações são falsas. Nem se abriu um rombo orçamentário nem se perdeu a capacidade de rastrear a sonegação, instrumento dispensado em todos os países do mundo.

O coordenador-geral de Estudos, Previsão e Análise da Receita Federal, Marcelo Lettieri, avisa que em 2009 a carga tributária deverá reverter a alta. E embasa-se no fato de que o governo federal reduziu a carga do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para vários setores da indústria, especialmente para o de veículos e o da linha branca. É provável que esta seja mais uma torcida do que uma conclusão técnica. O IPI pesa só 1,3% na arrecadação total. O ICMS pesa muito mais (7,6%). No entanto, um punhado de governadores, inclusive o de São Paulo, implantou a substituição tributária, pela qual a cobrança do ICMS foi antecipada e está provocando alta considerável da arrecadação dos Estados. São Paulo arrecadou em 12 meses mais R$ 3 bilhões, ou 4% a mais. O próprio ministro Guido Mantega se queixou de que essa manobra inutilizou parte dos benefícios da renúncia fiscal da União. Portanto, há razões para acreditar que a carga tributária esteja subindo, e não o contrário.

Mais três observações:

(1) Com quase 36% do PIB, a carga tributária do Brasil está praticamente no mesmo patamar da que incide em países da Europa, como Alemanha, Reino Unido, Espanha, Portugal e Holanda. Mas o volume e a qualidade dos serviços que o Estado entrega ao contribuinte no Brasil são bem mais baixos. Basta conferir a quantas anda a educação, a saúde, a segurança, as estradas e os portos brasileiros.

(2) O próprio governo, que alardeia sua identificação com os interesses do trabalhador, reconhece que a carga tributária sobre a folha de pagamentos atingiu 22,5% do total do País. Enquanto isso, a tributação sobre a renda ficou nos 20,5%.

(3) Está demonstrado que a excessiva carga tributária é o principal fator que prejudica a competitividade do produto brasileiro aqui e no exterior. No entanto, em vez de batalhar pela redução da mordida de César, as lideranças empresariais preferem o mais fácil: pregam a compensação mediante o controle do câmbio, isto é, pela alta artificial da cotação do dólar em reais.

Confira

Passou Lula - As últimas pesquisas de opinião mostraram elevada aprovação da gestão da presidente do Chile, Michelle Bachelet. Já no quarto ano de governo está exibindo 74% de aprovação. O máximo que o governo Lula conseguiu foi 73%.

Nada menos que 89% dos pesquisados disseram que Bachelet é "querida"; 86%, que é "respeitada"; 80%, que é "crível"; 78%, que "tem capacidade para enfrentar situações de crise"; 76%, que "tem liderança"; e 75%, que "tem autoridade".

Outra surpresa, seu ministro da Economia, Andrés Velasco, surge como campeão das preferências: 68% de aprovação.

BEM LEGAL!


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JANIO DE FREITAS

A curva do cansaço


Folha de S. Paulo - 07/07/2009

Senadores petistas devem decidir entre posição que Lula rejeita ou submissão que nega identidade a seu petismo

SEJAM QUAIS forem as reflexões a que os senadores petistas, na previsão de Eduardo Suplicy, se entregaram no fim de semana, o PT viverá hoje um momento muito mais decisivo para o seu futuro do que para a sua prevista definição ante o senador José Sarney e a desordem no Senado.
A impressão dos senadores petistas de que as pressões de Lula lhes exigem definir-se "entre a governabilidade e a reforma do Senado, com a licença de Sarney", é o dilema enganoso. Quando, na reunião pressionante com Lula, Aloizio Mercadante advertiu que, apesar da "governabilidade", "precisamos respeitar a posição da bancada, não dá para enquadrar", aí já se insinuava a contradição verdadeira para a opção petista. O mesmo quando Paulo Paim sustentou, depois da reunião, que "não houve enquadramento, continuamos defendendo a licença temporária de Sarney e a reforma do Senado".
Já o "vamos refletir até a próxima terça-feira", de Eduardo Suplicy, incluía o dilema posto por Lula: "vamos refletir" é, sem dúvida, entre o apoio a Sarney sob o nome de "governabilidade", dado por Lula, ou o "não dá para enquadrar" assim a maioria da bancada.
A rigor, o dilema que os senadores petistas devem decidir em reunião prevista para hoje é entre a posição que tomaram, e Lula rejeita, ou a provavelmente derradeira submissão vexaminosa que nega ao seu petismo qualquer identidade partidária e pessoal.
A senadora Marina Silva tem razão na advertência de que as posições de agora, no Senado, vão influir nas eleições para renovação de mandato e para governos estaduais. Ideia adotada no noticiário como explicação para a quase unânime atitude da bancada pela licença de Sarney por 30 dias. Há, porém, outra explicação possível.
Nesse grupo estão petistas presentes entre os que mais construíram identidades pessoais no passado, em alguns casos longo e de atividade intensa. Em graus variados, depois todos fizeram concessões onerosas ao transformismo de Lula. Já, no entanto, a candidatura do petista acriano Tião Viana à Presidência do Senado, derrotado pela articulação Renan-Lula-Sarney, continha sinais de uma atitude própria de parte da bancada do PT. Como consequência dessa interferência de Lula, seguindo a criação só na Presidência da candidatura presidencial do partido, e outras muitas prepotências de Lula, parece ter evoluído um cansaço das complacências, refletindo-se como fator preponderante na resistência incipiente das últimas semanas.
A esse cansaço, aí sim, em um ou outro caso de pretendente a governo estadual junta-se a insatisfação com as insinuadas interferências de Lula, em sucessões estaduais, tal como fez com Dilma Rousseff. O fato é que nunca se viram caras e declarações como as expostas depois da reunião com Lula, também ela com inconclusão sem precedente.
Nada exclui uma solução imprevista dos petistas, mas isso exigiria algo há muito retirado do PT: a criatividade. As concessões tomaram seu lugar.

BRASÍLIA - DF

Os segredos de cada um

Correio Braziliense - 08/07/2009

Desde quando começaram os boletins com os 663 atos secretos do ex-diretor- geral Agaciel Maia, somente escapam da omissão, na Presidência do Senado, os falecidos senadores Antônio Carlos Magalhães (PFL) e Ramez Tebet (PMDB), assim mesmo porque morreram. Nas duas gestões de ACM (de 1998 a 2000), foram 11 boletins com atos secretos, 10 dos quais no segundo mandato; na de Ramez Tebet, sete.

Jader Barbalho, que renunciou ao mandato, editou 10 boletins. Renan, de 2005 a 2007, bateu no teto: 139. Garibaldi Alves chegou perto, com 96. José Sarney, somando os três mandatos, responde por 49 boletins com atos secretos. Tião Viana, quando foi presidente interino, poderia ter lançado luz sobre pelo menos 207 dos 312 boletins registrados de 1995 até hoje, mas não fez nada. E ainda pode ter algum boletim injustamente incluído na cota de Renan em 2007.

Mais gente


A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados acertou ontem que serão convocados 180 concursados até o fim do ano. O número será dividido em cotas de 30 futuros servidores por mês, ao longo dos próximos seis meses.

Oxente


O ex-prefeito de Recife João Paulo (foto), do PT, está quase saindo do sério, apesar do estilo zen. Foi encurralado pelo governador Eduardo Campos (PSB), que trabalha uma aliança com o deputado José Armando Monteiro (PTB) e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa (PT) na chapa ao Senado. Pelo andar da carruagem, ou João Paulo se lança ao governo ou terá que se conformar com uma vaga de deputado federal.

Titã

Enquanto o governo aumenta seus gastos de custeio, a Petrobras carrega o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas costas. Responde por 10% dos investimentos, 7% das exportações e 12% da arrecadação do país. Este ano investirá US$ 30 bilhões

A propósito

Dorme na gaveta do primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes, o relatório da Petrobras sobre os recursos destinados às organizações não governamentais solicitado pela CPI das ONGs. Trancado a sete chaves, somente será revelado quando a comissão de inquérito voltar a funcionar.

Chique a valer


Diria Dâmaso Salcede, aquele personagem de Eça de Queiroz. A bolsa da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (foto), é um objeto de desejo de nove entre 10 madames da Corte brasiliense. Trata-se de uma Birkin da Hermés, com lista de espera de três anos e custo de US$ 6 mil. Victoria Beckham, segundo uma leitora atenta, tem uma coleção de 100 peças. Similar, nem na Feira do Paraguai, aqui no Distrito Federal.

Fora

A Capital Serviços Gerais avisou ontem à Câmara dos Deputados que rescindirá, na sexta-feira, os nove contratos de serviços terceirizados em vigor com a Casa. Gestora dos acordos, a Primeira-Secretaria vai convocar, em caráter emergencial, as três empresas que venceram licitações para substituir a Capital em cinco dos contratos para a TV e a Rádio Câmara e nos serviços de transporte e de informática. A vencedora da concorrência, marcada para amanhã, também será convocada emergencialmente.

Chapa quente

Chapa do deputado federal José Genoino para infernizar a vida do governador José Serra, em São Paulo, na sucessão de 2010. Ciro Gomes (PSB), governador; Emídio de Souza (PT), vice; Aloizio Mercadante (PT) e Aldo Rebelo (PCdoB) para o Senado.

Sertão
O comando do PSDB convidou o ex-governador do Rio Grande do Norte Geraldo Mello para ocupar a vice-presidência regional do partido no Nordeste. Curtindo férias em Miami (USA), o cacique potiguar responderá pela agenda tucana na região onde o presidente Lula nada de braçada. Melo foi dos fundadores da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Acarajé
O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), tenta convencer a cúpula do PSB a lançar a candidatura da deputada Lídice da Mata ao Senado. A ex-prefeita de Salvador reluta, pois teme entrar numa fria e ficar sem mandato.

Parado
O senador Cristovam Buarque desconfia que a sua postura a favor da saída de José Sarney (PMDB-AP) da Presidência do Senado está provocando um boicote aos seus projetos. Na Comissão de Constituição e Justiça, o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE)) devolveu a relatoria do projeto que obriga os filhos dos políticos a estudarem em escola pública, retornando-o à estaca zero. Na Comissão de Assuntos Sociais, o senador Inácio Arruda (PC doB-CE) fez o mesmo com o projeto que regulamenta a profissão de técnico em administração.

GOSTOSA


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ARI CUNHA

Alencar na Rússia


Correio Braziliense - 08/07/2009

Na última semana deste mês, o vice-presidente José Alencar viajará para a Rússia, como chefe da Missão Brasileira de Alto Nível. O encontro será com Vladimir Putin, o homem forte daquele país. O representante do governo brasileiro será acompanhado por equipe de empresários, que vai afinar a conversa. A Rússia é grande importadora de carne do Brasil e suspendeu as compras por causa de criadores que destruíram a mata amazônica.

Da conversa poderão sair bons entendimentos. Outros empresários vão negociar seus produtos em troca do que a Rússia poderá oferecer. Haverá encontro com o presidente Dimitri Medvedev, cujo nome se traduz como urso. Para quem visita a Rússia, contato com urso é novidade.

A frase que não foi pronunciada


“No Senado, ninguém vive sozinho.”
Palavra de experiente pioneiro da casa, indicando que seus pares devem olhar para todos os lados, inclusive para seu interior.


Amazônia
A reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e Tecnologia vai acontecer este ano em Manaus e o tema será: Amazônia, ciência e cultura. O diretor do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Roberto Germano Costa, diz que “essa é uma grande oportunidade de degustar produtos típicos do semiárido brasileiro e adquirir artesanatos feitos à base de licuri, livros e outras atrações”.

Automóveis
Com a facilidade de se comprar automóveis novos, Brasília está no sufoco. Este ano foram vendidos 290 mil veículos. Desde que começou a promoção foram postos nas estradas mais de 300 mil carros. Faltam ruas para tanto movimento. Nos horários de pico, as avenidas do DF, até mesmo as de oito pistas em cada direção, estão lotadas. Isso porque os motoristas não fazem ziguezague, a não ser os irresponsáveis.

Fica em casa!
O Brasil está surpreso com a volatilização do presidente Lula da Silva. Desembarca de uma viagem, inicia outra. Os casos são resolvidos dia a dia, conforme o aparecimento repentino. Não há planejamento, a não ser o desejo da presença de países em desenvolvimento como membros do Conselho de Segurança da ONU. Parece anúncio da loteria: “Insista, não desista”.

Tranquilidade
“Juiz não responde a ataque”, disse em outras eras o ministro Ari Franco, à indisciplina do governador Carlos Lacerda e à fanfarronice do deputado Amaral Neto. Posição perfeita para juiz ciente de suas obrigações.

Eletrônica
Destaque para a Imprensa Oficial, com o êxito das atividades. A primeira região volta ao DIN, para que publique por meios eletrônicos os atos judiciais do Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Minas Gerais. Por seu lado, tem a sua função resgatada pelo Ministério Público, ao determinar que os atos oficiais do Senado tenham publicação no Diário Oficial da União, para que ali não haja atos secretos.

Enxugamento
Depois de promulgada, a Constituição brasileira recebeu 90 artigos, 312 parágrafos, 309 incisos e 90 alíneas. Nos dias atuais, 1.119 propostas tramitam na Câmara, sem falar em 1.344 propostas já arquivadas desde 1988.

Há tempo
Valerá até setembro a redução do IPI dos automóveis vendidos no país. O imposto voltará a subir a partir de outubro e os preços retornarão aos patamares antigos, mais altos. A volta será controlada para que compradores não sintam a diferença dos preços cobrados.

Mercosul
Senador Augusto Botelho, do PT de Roraima, é de opinião que a Venezuela entre para o Mercosul. Há impedimentos legais, porém o presidente Hugo Chávez insiste em participar do bloco, mesmo contra a vontade de alguns. Depois de entrar, vai ser difícil convencer Chávez de que seu governo não é eleito. Aí, então, ele, que é violento, fará verdadeiro banzeiro na reunião dos países.

Medicina
Médicos cubanos estão se mudando para a Venezuela. Outros países sul-americanos estão protestando, pela falta do registro profissional. Há a previsão de que a Venezuela ficará igual a Cuba, onde um médico recebe US$ 30 por mês. Poucos sabem que têm de graça residência, automóvel abastecido e abastecimento doméstico.

Cotação
Mesmo contando com opiniões contrárias, a popularidade do presidente Lula da Silva chega a 70% no Nordeste. Em São Paulo, sua penetração está crescendo. Nem todo brasileiro entende a popularidade do presidente. É que ele não contraria ninguém. Só fala a favor. Passa a mão na cabeça dos deputados petistas que foram punidos. Está tudo quase normal.

História de Brasília

Nós havíamos dito que o Senado não iria tomar uma atitude pouco recomendável moralmente, negando-se à aprovação da indicação do sr. Paulo de Tarso para a Prefeitura de Brasília. De fato, aconteceu isso e, graças à democracia, um único senador teve o direito de dar um voto contra 34 dos companheiros. (Publicado em 3/2/1961)

ELIO GASPARI

Lula tem razão: não confie nos doutores


Folha de S. Paulo - 08/07/2009


Dilma Rousseff teve um momento-Maradona e ajeitou o seu currículo com a "mão de Deus"

LOGO NO GOVERNO de um presidente que chegou ao Planalto sem diploma de curso secundário e gosta de ironizar canudos, descobriu-se que dois de seus ministros ostentaram títulos universitários maquiados. A repórter Malu Gaspar revelou que, ao contrário do que informava o Itamaraty, o chanceler Celso Amorim jamais teve título de doutor em ciências políticas e econômicas pela London School of Economics. Pior: a biografia oficial de Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, candidata à Presidência da República, informava que ela é "mestre em teoria econômica" e doutoranda em economia monetária e financeira pela Unicamp. A Plataforma Lattes, do CNPq, registrou que ela obteve o mestrado com uma dissertação sobre "Modelo Energético do Rio Grande do Sul". Falso. O repórter Luiz Maklouf Carvalho revelou que, segundo a Unicamp, não há registro de matrícula de Dilma Rousseff no seu curso de mestrado. Só ela tem a senha que permite mexer nos dados da página com seu currículo no Lattes.
Dilma e Amorim não preencheram o requisito essencial para obtenção do título de doutor, que é a apresentação de uma tese. Uma pessoa só é "doutorando" enquanto cursa o programa de doutorado ou enquanto cumpre o prazo de carência para a entrega da tese. Depois disso, volta a ser "uma pessoa qualquer". Há 1,1 milhão de acadêmicos cadastrados no Lattes. Se nesse universo de professores ficam impunes coisas desse tipo, será difícil um mestre condenar aluno que comprou trabalhos na internet.
A ministra Dilma tem uma relação agreste com a realidade. Em março do ano passado ela sustentou que a Casa Civil não organizara um dossiê de despesas pessoais de Fernando Henrique Cardoso na Presidência. Tudo não passava de um "banco de dados". Um mês antes, num jantar com 30 empresários, ela informara que o governo estava colecionando contas incriminatórias do tucanato.
Lidando com um período sofrido de sua juventude, ela disse que, durante a ditadura, "muitas vezes as pessoas eram perseguidas e mortas... e presas por crime de opinião e de organização, não necessariamente por ações armadas. O meu caso não é de ação armada. O meu caso foi de crime de organização e de opinião".
Presos e condenados por crime de opinião foram o historiador Caio Prado Júnior e o deputado Chico Pinto, Dilma Rousseff militou em duas organizações que, programaticamente, defendiam a luta armada para instalar um "Governo Popular Revolucionário" (Colina, abril de 1968) ou um "Governo Revolucionário dos Trabalhadores, expressão da Ditadura do Proletariado" (VAR-Palmares, setembro de 1969). Dilma nega que tenha participado de ações armadas, ou mesmo planejado assaltos. Até hoje não pareceu um mísero fato que a desminta, mas o Colina, que ela ajudou a organizar, matou um major alemão pensando que fosse um oficial boliviano e assaltou pelo menos três bancos. Seria injusto obrigar a ministra a carregar a mochila dos ideais de seus vint'anos. Até porque, no limite, merecem mais respeito os jovens que assumiram riscos e pegaram em armas do que oficiais, agentes do Estado, que torturaram e assassinaram prisioneiros. Ainda assim, é um péssimo prenúncio ver uma ministra-candidata que maquia currículo, bem como o propósito de sua militância. As pessoas preferem acreditar nas outras

GOSTOSA


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MÍRIAM LEITÃO

Ameaças e fatos

O GLOBO - 08/07/09

No fim de 2007, o presidente Lula atacou os senadores da oposição que votavam o fim da CPMF. Definiu-os como "a direita impiedosa". Afirmou que pediria aos governadores que fossem às casas dos pobres, explicando quem eram os responsáveis por eles ficarem sem o dinheiro do Bolsa Família. Os fatos: a carga tributária subiu e o governo gasta com Bolsa Família apenas 1% do dinheiro que arrecada.

Lula continuou ofendendo. Chamou de "mesquinhos" e criticou a "pequenez" dos que estavam contra o imposto. Quando a contribuição foi derrubada, ele prometeu que não aumentaria imposto algum. Quinze dias depois, o governo subiu as alíquotas do IOF para todos os contribuintes e da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) para o setor financeiro.

O ministro Guido Mantega disse que se a CPMF acabasse o Brasil seria rebaixado pelas agências de risco. O país foi promovido e chegou ao grau de investimento. Quando subiu o IOF e a CSLL, Mantega garantiu que a carga não subiria, pelo contrário, já que as novas alíquotas não compensariam a perda da contribuição. Durante todo o ano passado, o governo insistiu que estava eliminando impostos e que, por isso, a carga não aumentaria. Como se viu ontem, ela subiu um ponto percentual do PIB. Como o PIB subiu 5%, significa que os impostos pagos pelos brasileiros subiram ainda mais. Na conta da Fazenda, 8%.

O fato é: os brasileiros pagam impostos demais, seu peso é mal distribuído, o fruto da arrecadação é também desigualmente distribuído em benefícios. Como agora. A Fazenda conta que as desonerações para estimular a economia já provocaram a perda de R$11 bilhões. A maior parte foi para quem produz carro e para quem compra carro.

- Para ser justo, o governo deveria, quando há um aumento de carga tributária, devolver isso ao contribuinte, mas os planos de desoneração tem sido injustos. Da forma que tem feito, o governo tem beneficiado alguns setores em detrimento do resto da sociedade - diz Gilberto Amaral, do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.

Tudo é desigual. Até a fúria da Receita. Ela se abate implacável sobre o contribuinte pessoa física que, às vezes, apenas se enganou, não entendeu o que tinha que recolher. Mas a Petrobras, que deixou de pagar R$4 bilhões, não foi chamada para se explicar. Pelo menos foi isso que o presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, disse em entrevista ao jornal "Estado de S. Paulo". Gabrielli defendia a tese de que esse assunto não deveria ser tratado pela CPI. "No máximo deveria ser uma discussão entre a Petrobras e a Receita Federal. E nem isso existe porque não fomos intimados". Como a entrevista saiu no dia 28 de junho, quem sabe a Receita já tomou alguma providência?

A carga tributária era 30% em 2000. Ontem, a Receita divulgou que ela fechou 2008 em 35,8%: quase seis pontos percentuais do PIB em oito anos. O ex-secretário da Receita Federal Everardo Maciel explica que existe aumento de carga sem pressão fiscal e com pressão fiscal. Um pouco o que o governo está dizendo:

- Parte do aumento se deve ao fato de que as empresas tiveram mais lucratividade no começo do ano e mesmo que tenha havido crise no final do ano não foi suficiente para derrubar a arrecadação. Houve um aumento muito forte de consumo.

O problema, segundo Maciel, é que o governo está fazendo "um caminho suicida":

- Está aumentando o gasto corrente de maneira irreversível. Ao mesmo tempo, está, por causa da crise, tendo uma queda de arrecadação de 6%, maior do que a queda do PIB. Está compensando os aumentos dos gastos e a queda da arrecadação, com a redução progressiva do superávit primário, o que elevará a dívida/PIB. Isso é um caminho suicida.

Com essa queda de arrecadação maior do que a queda do PIB, a carga tributária cairá no ano que vem. Mas por maus motivos. O que o governo deveria fazer é o que o ministro Guido Mantega disse esta semana ao "Financial Times" que fará, mas que dificilmente fará: a redução dos impostos que pesam sobre a folha de pagamentos das empresas. Ou seja, o custo enorme, de quase 25%, que as empresas têm que recolher pelo fato de estarem concedendo emprego e pagando salário.

- Desejável, a redução do custo da folha é. Factível, não acho que seja - afirmou Everardo.

Provavelmente essa promessa vai engrossar outras tantas feitas pelo governo que não foram cumpridas, como a da reforma tributária ou do mecanismo que o governo disse que iria criar para inibir o aumento da carga tributária.

No dia 26 de fevereiro do ano passado, uma terça-feira, o ministro Guido Mantega se reuniu com líderes da oposição e fez várias promessas. Disse que enviaria na quinta-feira, dois dias depois, a proposta de reforma tributária. Ela teria um mecanismo que inibiria o aumento da carga tributária daí para diante. Prometeu que a carga não aumentaria e disse que, três meses depois de aprovada a reforma, o governo iria propor a desoneração da folha. Nada disso aconteceu.

INFORME JB

Real pacifica inimigos de 1994

Vasconcelo Quadros

JORNAL DO BRASIL - 08/07/09

Se algum estrangeiro assistiu, ontem, no Senado, à sessão comemorativa dos 15 anos do real, deve ter ido embora pensando que tucanos e petistas formam um só partido e que o Brasil é uma das democracias mais evoluídas do mundo. Crítico feroz do plano, em 1993, o senador Aloizio Mercadante (foto), líder do governo, fez o mea-culpa. Disse que é inegável o avanço do país e que Fernando Henrique Cardoso e Lula fizeram um Brasil melhor. Prendeu a atenção do homenageado ao pregar que é hora de o governo e a oposição evoluírem, reconhecendo o que cada um fez de bom para o país. Para quem não lembra, o PT bombardeou o real na campanha de 1994, classificando o plano de eleitoreiro.

Troco Real 2

Ovacionado por todos os partidos, Fernando Henrique aproveitou a deixa para recomendar que as palavras sobre evolução política sejam levadas ao atual inquilino do Palácio do Planalto. "Devem ser ditas a quem pode. Sempre que estive lá, tentei".

FHC pregou uma nova agenda para discutir o futuro do país, com decência na política, preservação do meio ambiente, revolução educacional e um pacto em que o frugal substitua as miudezas políticas. Obras que ele e Lula não conseguiram tocar.

Armistício

Um importante dirigente do PT sugeriu que Fernando Henrique e Lula conversem mais sobre o futuro do país porque, afinal, nenhum dos dois é candidato em 2010. O ex-presidente quer primeiro que Lula admita que o real é o alicerce da estabilidade. "Ele usou o real e ainda não reconheceu. Não disse uma palavra até agora", provocou FHC.

Eram homônimos

Depois de 40 dias da tragédia, a Polícia Federal e a Abin confirmam: havia, sim, suspeitas de que entre os passageiros do voo AF-447 pudessem encontrar-se alguns terroristas. Os dois órgãos fizeram um verdadeiro pente-fino para confirmar que três ou quatro nomes eram, na verdade, homônimos de terroristas árabes procurados.

Cara pálida

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado vai pegar fogo hoje. O senador Walter Pereira (PMDB-MS) apresentará um polêmico relatório propondo que a demarcação de terra indígena seja aprovada na Casa. E quer que o governo indenize quem ocupa áreas indígenas.

Al Qaeda

O delegado federal Daniel Lorenz deixou ontem na Comissão de Segurança da Câmara uma revelação bombástica. O libanês Khaled Hussein Ali, preso em São Paulo no dia 26 de abril, que até ontem era conhecido por Senhor K, é mesmo ligado à Al Qaeda, a organização de Bin Laden responsável pelo 11 de setembro de 2001.

É guerrilheiro

O ministro Paulo Vannuchi confirmou ontem que uma das ossadas guardadas num armário da Secretaria Especial de Direitos Humanos é mesmo do guerrilheiro do PCdoB morto no Araguaia, Bergson Gurjão Farias. A hipótese foi levantada pelo JB em reportagem publicada em 5 de abril deste ano. A investigação era reivindicada há anos pela jornalista Myrian Alves. Há suspeitas de que os armários do governo ainda guardem outros ativistas.

Sabatina

É hoje no Senado a sabatina do procurador Roberto Gurgel, indicado pelo presidente Lula para suceder Antonio Fernando de Souza na chefia do Ministério Público Federal. Para ser nomeado procurador-geral, Gurgel precisa obter a maioria absoluta dos votos dos membros da CCJ e, depois, do plenário da Casa.

FERNANDO CALAZANS

Vivendo de costas

O GLOBO - 08/07/09

Deu no Globo o que foi mostrado pelo “Esporte Espetacular”: em entrevista a Galvão Bueno, nosso Joel Santana, técnico da África do Sul, se queixou educadamente que, ao fim do jogo com o Brasil na Copa das Confederações, seu colega Dunga não o cumprimentou.
Joel relatou assim: fui falar com Dunga, mas Dunga não veio falar comigo. Quem se apressou a fazê-lo foi o auxiliar Jorginho.
Joel Santana disse que faltou cavalheirismo a Dunga, até porque Dunga tinha sido seu jogador no Vasco. Jogadores da seleção brasileira, em sua maioria, cumprimentaram o treinador brasileiro da África do Sul.
Mas cabe uma pergunta a Joel: será que, nos tempos em que os dois trabalharam juntos no Vasco, Joel não havia reparado que cavalheirismo não é o forte do Dunga? Conhecendo Dunga, como deve conhecer, não deveria ter lhe causado espanto ou estranheza o fato de Dunga não caminhar para cumprimentá-lo depois do jogo entre Brasil e África do Sul. Ao contrário, deu-lhe as costas.
Sejamos francos, Joel: não há nenhuma novidade nisso. Os tempos de Dunga na seleção brasileira são outros, mas o Dunga é o mesmo. No início de seu trabalho, diante de tantas hesitações, críticas de todos os lados caíram sobre Dunga — inclusive minhas.

Com o tempo, as vitórias, a evolução do trabalho e até os títulos da seleção, essas críticas viraram elogios — inclusive meus. O tom mudou, sim. Mas o Dunga, não. Dunga é o mesmo.
No meu caso específico, de todo modo, os elogios são mais comedidos, eles se relacionam apenas ao trabalho profissional do Dunga que, não resta dúvida, tem apresentado resultados importantes e eloquentes.
Quanto à figura humana, a que transparece no episódio com Joel Santana, não tenho por que elogiá-la. Dunga não tem cavalheirismo nem elegância. São termos estranhos ao seu parco vocabulário.
E não será agora, como já não tem sido desde que assumiu o cargo — considerado no Brasil tão relevante quanto o de presidente da República — que ele vai melhorar, quer dizer, que ele vai mudar. Se eu fosse o Joel, que já o conhece há mais tempo, nem iria cumprimentá-lo.

Pois é: mas repórteres esportivos — meus colegas e (alguns deles) meus amigos — têm que cumprimentar Dunga, têm que falar com ele, têm que entrevistá-lo, têm que se relacionar com ele. Aí é que está o problema.
E pior: não só com ele, Dunga, mas com inúmeros, incontáveis treinadores por aí, vários deles — eis o problema de novo — sem educação como o técnico da seleção brasileira.
Os envolvidos no assunto que me desculpem, mas há algo hoje na nossa imprensa esportiva que me incomoda profundamente.
É ver colegas repórteres de rádio, tevê e jornal, serem destratados e espezinhados nas famigeradas entrevistas coletivas dos professores doutores de falta de educação e, ao mesmo tempo, ver comentaristas em cabines herméticas, em estúdios de televisão, nas redações dos jornais ou mesmo em suas residências, jogando flores nos mesmíssimos treinadores, dedicando-lhes palavras de admiração e deslumbramento, embasbacados com as geniais elucubrações táticas desses seres superiores, essas divindades que conduzem os destinos do futebol brasileiro e, quiçá, do país.
Sim, meus caros, não temos que ir ao encontro desses senhores supremos, nem suportar-lhes os egos deformados. Se o fazemos, é ao menos à distância.
Mas alguém tem que fazer isso de perto. A esses bravos colegas repórteres, minha solidariedade. Podem contar comigo. Vocês sabem, não sabem?

O IDIOTA

PAINEL DA FOLHA

Bandeira branca

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/07/09

A reação enfurecida dos tucanos ontem, diante da resistência do PMDB em instalar a CPI da Petrobras, tem como pano de fundo o descumprimento de um acordo selado pela manhã entre o comando do partido e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). O pacto previa que o PSDB daria uma trégua na ofensiva contra Sarney -que, por seu turno, garantiria o funcionamento da CPI.
Sarney foi poupado nos discursos da sessão dos 15 anos do Real, na qual ficou ao lado de FHC. Quando Renan Calheiros (PMDB-AL) e Aloizio Mercadante (PT-SP) não toparam levar a CPI adiante, os tucanos ameaçaram subir o tom. A permanência de Sarney à frente da Casa, entretanto, não foi mais questionada.

Calendário - Renan disse em plenário que o início da CPI da Petrobras dependerá da ‘oportunidade da construção política da instalação’. Quem ouviu entendeu que, a depender do peemedebista, será no ‘Dia de São Nunca’.

Adeus, divã - Diante da mudança do vento, o PT já pensa em cancelar a reunião para rediscutir, pela quarta vez, a posição sobre Sarney. Acha que não cabe ao partido ficar em ‘terapia de grupo’.

Nova direção... - O novo diretor-geral do Senado, Haroldo Tajra, assina o ato de nomeação de Sylvana Cunha Roriz para assessora técnica no gabinete da primeira vice-presidência, ocupada por Marconi Perillo (PSDB-GO). O salário é de R$ 9.900.

... velhas práticas - Sylvana é mulher de Paulo Roriz, secretário de Habitação do governo José Roberto Arruda (DEM-DF). Já trabalhou no gabinete de Demóstenes Torres (DEM-GO) e na primeira-secretaria, também do DEM.

Faxina - O Senado abriu concorrências para contratar fornecedores de material de limpeza pesada e de flores para decorar cerimônias.

Que crise? - Enquanto outros senadores usam o Twitter para falar sobre as mazelas internas, os posts do petista Paulo Paim (RS) versam sobre gripe suína, fator previdenciário e, mais recentemente, golpe em Honduras.

Geek - Um dos mais ativos no Twitter, o líder do DEM, José Agripino (RN), despachou assessores para um curso sobre a melhor forma de usar a ferramenta. Além disso, destacou um especialista em internet apenas para abastecer seu site e pesquisar tudo o que sai sobre ele na blogosfera.

Surpresa! - Convidado a participar da sessão pelos 15 anos do Real, Itamar Franco (PPS-MG) disse que iria somente se fosse para dizer ‘umas verdades’ aos tucanos, que teriam lhe tomado o crédito pelo plano. A turma do deixa-disso achou melhor não insistir, e o ex-presidente ficou em casa.

Photoshop - Já a governadora Yeda Crusius (PSDB-RS), em crise no Estado, esquivou-se de entrevistas no Senado e levou um fotógrafo para registrar os abraços.

Treino - Aécio Neves aproveitou a passagem por Brasília para convidar políticos para a final da Libertadores, na quarta, em BH. A ideia é tentar impressionar CBF e Fifa na campanha pela capital mineira na Copa de 2014.

Direto da fonte - A biografia de Fernando Haddad no site da Educação encaminha o internauta para o currículo do ministro no sistema Lattes. Dilma Rousseff (Casa Civil) e Celso Amorim (Relações Exteriores) tiveram de explicar recentemente o descompasso entre informações divulgadas pelo governo e sua real formação acadêmica.

Tiroteio

Na verdade, o Ciro não pensa em ser governador de São Paulo. Ele quer mesmo é implodir a aliança PT-PMDB para ser o vice da Dilma.
Do deputado peemedebista EDUARDO CUNHA em resposta ao colega Ciro Gomes (PSB-CE), que descreveu a relação entre PMDB e PT como um ‘ajuntamento fisiológico’.

Contraponto

Causa própria

Ao receber a visita de Lula para tratar de acordos na área da indústria de defesa, Nicolas Sarkozy aproveitou e pediu uma mãozinha ao colega num assunto interno: queria apoio ao projeto que prevê a abertura do comércio aos domingos na França. Lula aceitou de pronto:
-Se o comércio não abrir, o brasileiro que viajar na sexta-feira para passar o fim de semana em Paris não poderá comprar quase nada- brincou o presidente.
O próprio Lula embarcou para a capital francesa na sexta-feira passada, embora tivesse agenda de trabalho apenas a partir de segunda. Não se sabe se o presidente conseguiu comprar alguma coisa no sábado.

RUY CASTRO

Calvário nas manchetes


FOLHA DE SÃO PAULO - 08/07/09

Há poucas semanas, fomos esmagados pela história da menina Sophie, de 4 anos, torturada e agredida durante um ano por sua tia até morrer, desnutrida e cheia de hematomas, ossos quebrados e lesões internas, num hospital em Caxias (RJ). É de se perguntar se e quando terminará o calvário das crianças no Brasil. Porque, pelo noticiário, não há motivo para otimismo. Veja algumas manchetes, todas dos últimos dias.

“Polícia prende padre suspeito de violentar criança de quatro anos em escola de São Paulo.” ; “Mãe tenta matar filha por suspeitar de gravidez em Belo Horizonte (MG).”; “STJ nega liberdade a padre acusado de violentar três meninas em Rio Grande (RS).”; “Polícia prende suspeito, mas não identifica jovem morta (em São Paulo).”;' “Descaso de médico no Miguel Couto causa morte de bebê (no Rio).”; “Promotora denuncia oito por violência sexual contra dois adolescentes em Paulo de Faria (SP).”; “Crianças de até quatro anos são exploradas na Lapa – menores vendem balas de madrugada enquanto mulheres as supervisionam (no Rio).”; “Ladrão mata executiva na frente do neto no Butantã – vítima ia estacionar e tirar o neto de quatro anos de dentro do carro; ela levou um tiro na testa (em São Paulo).”

“Juiz do Trabalho é acusado de exploração sexual infantil ao promover orgias com crianças no município de Tefé (AM).”; “Mulher é suspeita de ter enterrado criança viva – bebê foi achado em saco plástico, em quintal de casa em Angra dos Reis (RJ).'”; “ONU critica STJ por não punir sexo pago com menor – entidade repudia endosso a decisão da Justiça (de Mato Grosso do Sul) e alerta para o perigoso precedente aberto.”

Não importa o que digam os números, nenhuma criança está a salvo no Brasil. Tudo conspira contra ela: a pobreza, o crime, os pais e, às vezes, a lei.

GOSTOSA


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TOSTÃO

Quem manda é o mercado

JORNAL DO BRASIL - 08/07/09

Cruzeiro e Estudiantes fazem hoje o primeiro jogo decisivo. A Libertadores é o título mais importante e mais desejado pelos clubes brasileiros e argentinos.

Mesmo assim, a CBF, para atender aos interesses da Globo, adiou o jogo entre Corinthians e Fluminense para o mesmo dia e horário da partida da Libertadores. Para a Globo, o jogo pelo Brasileiro dá mais audiência no Rio e em São Paulo.

Estou curioso para saber qual das duas partidas será transmitida para outros estados, fora de Minas, Rio e São Paulo. Com certeza, será a que a Globo acha que vai dar mais audiência. Quem manda é o mercado.

Será que o torcedor paulista e carioca, que não torce para Corinthians e Fluminense, prefere ver o jogo do rival a Cruzeiro e Estudiantes?

Se outras TVs abertas tivessem o mesmo poder da Globo, fariam o mesmo. São empresas particulares que visam primeiro o lucro. O esporte é, cada dia mais, um espetáculo comercial. Infelizmente, é a realidade, em todo o mundo.

A disputa pela audiência é tão intensa que a Globo nem cita a realização de um importante jogo, se ela não for transmiti-lo. Outras emissoras seguem o mesmo caminho.

Como a partida entre Cruzeiro e Estudiantes será transmitida para Minas, a maioria dos mineiros não está nem aí para saber qual jogo vai passar no Rio e em São Paulo. Outros estão indignados, não só por isso. A indignação é também com os programas esportivos nacionais, de todas as emissoras, que falam pouco do jogo do Cruzeiro contra o Estudiantes, mesmo sendo uma decisão de Libertadores.

O bairrismo está presente em todos os estados. Desde que não existam exageros, o bairrismo é compreensível e uma maneira de estimular e preservar a vida e a cultura local. No interior da França, é difícil encontrar um bom e médio restaurante que tenha vinhos e queijos de outras regiões do país.

Quanto mais cresce a globalização, a comunicação e o desejo de romper as fronteiras físicas e afetivas e de ser um cidadão do mundo, paradoxalmente, aumenta o sentimento de pertencer a uma nação, a um estado, a uma cidade, a um bairro e a uma família. O encontro é sempre um reencontro com algo que vivemos e/ou imaginamos.

Muitas vezes, o bairrismo é tão estimulado pela imprensa local, que se transforma em uma paranóia coletiva. As pessoas passam a achar que existem planos diabólicos para prejudicar seu time e seu estado.

Como escrevo a mesma coluna para vários estados, recebo críticas, de uma minoria, que querem que eu seja um cronista bairrista, um cronista do Cruzeiro e/ou de Minas Gerais. Quando falo bem de jogadores e de times mineiros, certamente alguém vai dizer que protejo meu estado.

Vivemos a época do espetáculo e da audiência. Poucos querem saber de análises e de reflexões. Existe uma epidemia de idiotice. Os fatos se tornam importantes de acordo com a audiência. As pessoas passam a ser analisadas por seu comportamento pessoal, e não pelo que fazem. Alguns jornalistas não querem apenas dar e analisar a notícia. Querem ser a notícia. É o show da audiência.

ANCELMO GÓIS

MERCADO CRESCEU

O GLOBO - 08/07/09

A queda do avião da Air France trouxe de volta ao Brasil uma equipe do americano Podhurs, mais famoso escritório especializado em indenizações a vítimas de acidentes aéreos do mundo.
Por causa dos grandes acidentes com aviões da Gol e da TAM, o Brasil virou um grande mercado para a banca.
ELE AINDA CHEGA LÁ
O novo ministro da Coordenação Política de Lula deve ser Henrique Eduardo Alves, líder do... PMDB.
Chega de intermediários: Eduardo Cunha no Planalto.
SOBROU PARA O PORTUGA
Lula ganhou ontem em Paris de ativistas do Greenpeace, que foram protestar contra o desmatamento da Amazônia, uma escultura do planeta derretido.
Depois, tentou entregar o trambolho a um assessor e, como não viu ninguém perto, despejou nas mãos do primeiro-ministro português, José Sócrates.
ÁGUA DE COCO
A Pepsi deve comprar a Kero Coco, graúda da água de coco.
FORTALEZA-EUA
O voo semanal Fortaleza-Atlanta (EUA), da Delta Air Lines, iniciado em abril, deu tão certo que passou agora para cinco por semana.
NO MAIS
Com algumas exceções – como o emocionante depoimento da filha Paris, de 11 anos – o belo “showneral” de Michael Jackson teve muitos momentos de hipocrisia e fingimento. É que o show não pode parar.
‘TEMPLO IS MONEY’
Além do dízimo pago mensalmente, os fiéis que frequentam a Igreja Universal do Reino de Deus no Largo do Machado, no Rio, têm participado de uma corrente que prevê doações em... Dólares!
SERRA É CRUZEIRO
De Serra, ontem, no twitter: – Amanhã, somos todos Cruzeiro na final da Libertadores. Mais uma coisa em comum com Aécio: torcemos pra times que já foram Palestra. Então, tá.
POR FALAR EM SERRA...
Depois que a “Piauí” mostrou que Dilma Rousseff, ao contrário do que informava, não havia concluído os cursos de mestrado e doutorado na Unicamp, José Serra teria pedido ao amigo Luiz Gonzaga Belluzzo para levantar todo seu histórico escolar.
COMO DIZIA MATHEUS
Diante da revelação de que a carga tributária (leia-se: tudo aquilo que o governo toma de você e nunca mais devolve) bateu recorde histórico, vale a máxima do ex-presidente do Corinthians Vicente Matheus: “Depois da tempestade, vem sempre a ambulância...”.
DE OLHO EM DILMA
Do ministro Márcio Fortes, ontem, em cerimônia no Palácio Guanabara, com a presença de Dilma Rousseff: “Queria saudar todos e todas presentes”. Talvez tenha se inspirado em Sarney, que, na Presidência da República, introduzia seus discursos com um “brasileiros e brasileiras!”
LIBEROU GERAL
A juíza Maria Paula Galhardo, da 4ª Vara de Fazenda Pública, deu ganho de causa ao Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis do Rio e proibiu a prefeitura de “praticar qualquer ação fundada no Decreto que impedia a venda de bebidas alcoólicas nos postos de gasolina.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

DORA KRAMER

Satisfação garantida

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/07/09

Distante do PMDB atormentado no Senado pelo cerco das denúncias, o abandono dos mais fiéis aliados e uma crise em que qualquer hipótese representa uma derrota, há um PMDB feliz da vida que não pensa em criar problemas para o governo Lula e não condiciona a eleição de 2010 a atitudes do presidente da República em relação ao senador José Sarney.
É o PMDB que controla a estrutura partidária, sabe o que se passa em cada um dos diretórios regionais, administra o andar da carruagem rumo à convenção decisiva, negocia com o presidente Luiz Inácio da Silva seus interesses específicos, transita pelo campo adversário e calibra as regras do jogo do processo sucessório no dia a dia.
Empresta solidariedade contida ao presidente do Senado, lamenta muito toda a situação, mas acha que Sarney está pagando o preço da imprudência de ter levado adiante o plano de ser pela terceira vez presidente do Senado, quando a vida já não lhe dava tempo de tentar a volta por cima se algo saísse errado.
Portanto, a esse PMDB interessa menos o desfecho da crise e mais as possibilidades futuras. Logo, nesse quadro não cabem ameaças de ruptura. Ao contrário, o interesse é de crescente aproximação Por exemplo, por ali se considera que a entrega ao partido de um assento no Palácio do Planalto seria um passo de peso em direção à formalização da aliança com a candidatura da ministra Dilma Rousseff.
Meio à brinca, meio à vera é citado o cargo hoje ocupado pelo ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, em vias de se transferir para o Tribunal de Contas da União.
Nesse caso seriam sete ministérios, sem contar os penduricalhos, muitos deles fabulosamente valiosos, espalhados pela administração federal Brasil afora. Osso que o PMDB não se dispõe a largar ainda que Lula, por hipótese absurda, resolvesse entregar Sarney à própria falta de sorte. Essa participação governamental é apresentada como o principal motivo da tendência do partido em fechar com a candidatura Dilma.
É o mais provável, segundo o comando do PMDB, que já começa a “ver semelhanças” entre 2002 e 2010. Lá, o partido estava no governo Fernando Henrique e fechou com o candidato José Serra dizendo que não poderia se transformar do dia para noite de governo em oposição. Agora diria o mesmo.
A outra possibilidade - tida nesse momento como menos cotada - seria a adesão à candidatura tucana. Se a convenção nacional assim decidisse por força da posição dos diretórios regionais, não precisaria outra justificativa.
A indecisão de resultados, que possibilitaria ao partido se dividir entre os dois principais oponentes, é praticamente descartada. Posição surpreendente, porque sempre se esperou que o PMDB seguisse com um pé em cada canoa.
Os dirigentes alegam que seria uma desmoralização para o partido Altiva, a alegação. Mas inverossímil. Mais provável é que a tomada de uma posição oficial seja exigência de Lula. Afinal, só assim a candidatura presidencial poderia dispor do tempo de televisão do PMDB no horário eleitoral gratuito. Só assim também o PMDB poderia ficar com a vaga de vice.
Ademais, a formalização da aliança não impede que os candidatos pemedebistas aos governos dos Estados façam outras coligações, porque a lei não obriga mais que haja uniformidade partidária entre a parceria nacional e as regionais. Cada qual se alia com quem bem quiser.
Mas o PMDB da bonança negocia com Lula o maior número possível de alianças com o PT nos Estados. Pede que o presidente convença os petistas a desistir de disputar governos, apoie os candidatos do PMDB que, em troca, sustentariam os candidatos petistas ao Senado.
A ideia de Lula é montar bancada forte no Senado, uma fonte de problemas para o governo federal muito maior que os governadores Estes, mesmo quando de partidos de oposição, são obrigados a manter boa relação com o Planalto por força das questões administrativas.
Toda essa engenharia passa ao largo da crise do Senado e está sendo montada para chegar a um desfecho ainda este ano, provavelmente em outubro. Muito antes do prazo fatal da lei, em julho. Oficialmente, a justificativa é a de que a antecedência permitiria ao PMDB guardar honrosa quarentena, caso a decisão seja apoiar a oposição. Mas, na prática, a antecipação favorece a opção Dilma, pois daqui a três meses Lula ainda estará dando as cartas como o todo poderoso.

REDUÇÃO DE DANO
O PT adiou nova rodada de discussão sobre a posição dos senadores em relação ao presidente do Senado e, tão cedo, a bancada não deverá voltar a se pronunciar. Considerando as opiniões externadas por Tião Viana e Marina Silva e o fato de que a maioria também acha que Sarney não é capaz de levar o Senado à melhor solução, o silêncio deve ser interpretado como um gesto de reverência à autoridade do presidente Lula.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Em casa de enforcado não se fala em forca e nem em corda”
EX-PRESIDENTE FHC, EXPLICANDO O PORQUÊ DE NÃO COMENTAR OS ESCÂNDALOS EM SUA VISITA AO SENADO.

SARNEY VAI ‘ENXUGAR’ 40% DO SENADO
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), prepara o anúncio nesta quinta-feira de uma série de medidas que têm o objetivo de tornar mais ágeis e transparentes as atividades da Casa. Uma das medidas a serem anunciadas é a decisão de promover um enxugamento de proporções raramente visto no serviço público brasileiro. A ideia é cortar 40% de toda a estrutura do Senado Federal, incluindo cargos.
AQUI MANDO EU
Sarney presidiu a festa de aniversário do Plano Real, ontem, fazendo-se respeitar até por seus críticos mais duros como FHC e Arthur Virgílio.
A CRISE ACABOU
Mal se falou em crise ontem no Senado Federal, mesmo com José Sarney presidindo a sessão noite a dentro.
FHC, O RETORNO
O discurso de FHC na sessão em homenagem ao Plano Real, ontem, no Senado, teve todo o jeito de quem é candidatíssimo a presidente.
FELIZ ANIVERSÁRIO
Os diplomatas brasileiros celebram hoje os 76 anos do mais importante de todos eles neste século: o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima.
RELAÇÃO LULA-EMPREITEIRAS INTRIGA OPOSIÇÃO
A declaração do jogador Ronaldo de que o presidente Lula estaria mobilizando empreiteiras amigas para ajudar seu time, o Corinthians, resultou em pedidos de investigação da oposição. O deputado João Carlos Aleluia (BA) prometeu que seu partido, o DEM, tomará providências judiciais caso o presidente não se esclareça sobre a denúncia. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) também pediu explicações.
PERGUNTA
O líder tucano na Câmara, José Aníbal (SP), quer saber os nomes
das empreiteiras “amigas de Lula” e também pediu investigação da denúncia.
MUDANÇA NECESSÁRIA
O Conselho de Aviação Civil analisa hoje mudanças na outorga de transporte de passageiros, para facilitar a entrada de novas empresas.
ROSEANA DE VOLTA
Após 37 dias cuidando da saúde, Roseana Sarney reassume no Maranhão com um plano a ser executado nos 17 meses que lhe restam.
LULA TUCANOU
Petistas fazem maldade, mas sem mostrar a cara: dizem que o tucano José Serra é o verdadeiro candidato dele a presidente, após conceder-lhe rolagem da dívida. Afinal, serão mais R$ 20 bilhões em caixa.
SERRA NO MURO
José Serra continua inventando motivos para não assumir a candidatura. Agora diz esperar a homologação do partido. Lorota. Ele ainda não sabe se troca a reeleição segura em São Paulo pela aventura presidencial.
O NOME DELE É TRABALHO
O presidente Nicolas Sarkozy se disse “surpreso” com a defesa de Lula do trabalho aos domingos – em debate acirrado na França –, apontando o exemplo brasileiro para “criação de empregos”. E Sarkozy: “Não é fácil”.
NO BURACO
O Air Force 51 também ficou “perdido no espaço”, contou Lula a Sarkozy, falando de “buracos negros” sobre o Atlântico, onde caiu o 447. “Vi com meus próprios olhos, tem um buraco”, garantiu o presidente voador.
LÁ VÊM ELES
Mais uma Marcha de Prefeitos em Brasília, a 12ª, dias 14 a 16. Vêm pedir mudança na lei de licitação, frequentar bordéis, reescalonar dívidas e frequentar bordéis. Também vão à balada, claro. Ninguém é de ferro.
PEDIATRAS UNIDOS
A Sociedade Brasileira de Pediatria suplica do Congresso a votação do projeto, que dormita há três anos, tornando obrigatória, em produtos com soda cáustica, embalagens complicadas de abrir. É que, por ano, 55 mil crianças morrem ou adoecem no Brasil por ingestão de soda cáustica.
POLÊMICA NA GEAP
O plano de saúde dos servidores Geap garante que não houve voto contrário de trabalhadores na recondução de Regina Parizi à diretoria executiva. Mas não votou nela, por exemplo, a associação de servidores da Previdência – Anasps, que confirma seu salário de marani: R$ 40,2 mil.
VOA, LULA, VOA
O presidente em exercício aéreo vai à Dinamarca em 2 de outubro defender no Comitê Olímpico Internacional a candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016. O presidente Obama vai defender Chicago.
PERGUNTAR NÃO É ILEGAL
Lula também é presidente do Senado?

PODER SEM PUDOR
CAINDO DO CÉU
Quando era prefeito de Curitiba, em 1995, Rafael Greca não hesitou em aceitar o convite de um participante do Festival de Balonismo para dar uma voltinha. Mas houve problemas e o piloto do balão foi obrigado a descer, para a segurança de Greca. A aterrissagem imprevista aconteceu no quintal de uma casa, cujo dono saudou o visitante com espanto e bom humor:
– Êta cidade boa! De vez em quando, até o prefeito cai do céu!

O PEDÓFILO

QUARTA NOS JORNAIS

- Globo: Carga tributária bate novo recorde e gastos crescem


- Folha: Carga tributária é recorde, mas governo prevê queda


- Estadão: Carga tributária cresce mesmo com fim da CPMF e crise global


- JB: Mais voz para os emergentes


- Correio: O show acabou


- Valor: Países estudam a criação de estoque de alimentos


- Jornal do Commercio: Recife ganha batalha na guerra do lixo

Terça-feira, Julho 07, 2009

PAINEL DA FOLHA

Férias, por favor!

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 07/07/09

Governo e oposição começaram a alinhavar um acordo tácito para votar ainda nesta semana a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) e antecipar na prática o recesso no Senado, que só começaria no dia 18.
Os líderes dos partidos da base se reúnem hoje para afinar o discurso de blindagem de José Sarney (PMDB-AP) e, assim, ‘deixar mais confortável’ o PT, obrigado por Lula a defender a permanência do presidente da Casa. Também para a oposição as férias antecipadas viriam a calhar, já que os alvos das denúncias começam a se pulverizar e a instalação da CPI da Petrobras se mostra inviável. ‘Todo mundo quer sair de Brasília’, resume um cardeal oposicionista.

Senha - Ainda que o fiador de sua permanência seja Lula, Sarney aguardou com especial ansiedade a declaração de apoio de Dilma Rousseff, feita na sexta. O papel da ministra da Casa Civil no roteiro do ‘fica’ foi acertado na véspera, no encontro Lula-Sarney.

Aqui se paga - Expoente da ala petista que se rebela contra a imposição do apoio a Sarney, a senadora Marina Silva desfruta agora da oportunidade de dar o troco não apenas em Lula como em Dilma, que trabalhou com tenacidade para derrubá-la do Ministério do Meio Ambiente.

Tá vendo? - A oposição não tem esperança de que o endosso a Sarney abale a popularidade de Lula, mas vê possibilidade de dano a Dilma. Por isso, vai martelar a ideia de que a candidata do PT ajudou a proteger o encrencado presidente do Senado.

Tanto faz - Segundo as regras, não importa o horário de entrada do funcionário: se passar de 20h, tem direito a hora-extra. O valor pago a quem fica poucos minutos além desse horário e quem faz serão de verdade é o mesmo.

Horário de pico - As novas regras para ‘disciplinar’ horas extras têm provocado congestionamento a partir das 20h01 no setor encarregado de registrá-las, situado na garagem do Senado. É comum ver na fila servidores com roupas de ginástica, que voltam ao local de trabalho apenas para beliscar o benefício.

Bonde - Epitácio Cafeteira (PTB-MA) paga mensalmente R$ 7.000 de sua verba indenizatória a título de ‘locomoção’ a uma empresa de transporte escolar e fretamento de ônibus. O proprietário é amigo de Ivan Sarney, irmão do presidente do Senado. Ivan foi exonerado do gabinete de Cafeteira por ato secreto.

Imobiliária - Já Renan Calheiros (PMDB-AL) paga R$ 2.500 por mês ao aliado Fábio Farias, ex-administrador do porto de Maceió e secretário estadual de Educação, pelo aluguel do imóvel onde funciona seu escritório político em Alagoas. E Gilvam Borges (PMDB-AP) entrega cada centavo dos R$ 15 mil mensais de sua verba indenizatória ao dono de um edifício em Macapá onde, segundo o senador, funciona seu QG local.

Corrida maluca - A decisão da administração de Gilberto Kassab (DEM) de não divulgar os preços referenciais do novo processo de licitação da merenda escolar paulistana provocou alvoroço entre as empresas interessadas. Elas pedem acesso aos preços para ‘elaborar melhor as propostas’ e ‘entrar com eventual ação contra a licitação’, marcada para amanhã.

Memória - O Ministério Público investiga suspeita de conluio entre as empresas que participaram da licitação anterior. Elas teriam combinado os preços, com eventual apoio de funcionários públicos.

Tiroteio

Um senador que foi líder do PT e comandou o Senado confirma o mensalão e diz que o presidente Lula desrespeita as instituições. Num outro país, seria o suficiente para o governo cair.
Do presidente do DEM, RODRIGO MAIA , sobre entrevista em que Tião Viana acusa Lula de nada ter feito para ‘evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso’.

As mesmas - Na fase de pesquisa, a Secretaria de Educação enviou pedido de preços para 30 empresas. Apenas as seis que hoje têm contratos responderam. Com preços muito superiores aos atuais -e aos calculados pela Fipe.

Contraponto

Está explicado

A Comissão de Infraestrutura do Senado realizou na quinta-feira passada uma audiência pública sobre a construção de um porto no Piauí. A certa altura do debate, o presidente da comissão, Fernando Collor (PTB-AL) quis chamar Heráclito Fortes (DEM-PI), mas o confundiu com Wellington Salgado (PMDB-MG).
-O Heráclito emagreceu, mas ainda não está tão esbelto quanto eu- brincou o senador peemedebista.
-Foi um ato falho- disse Heráclito, e daí explicou:
-É que o governador do Piauí se chama Wellington, e ele está em franca campanha para o Senado!

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ARNALDO JABOR

Pina Bausch partiu deste mundo mau

O GLOBO - 07/07/09

Pina Bausch morreu. Logo agora que precisamos tão urgentemente de beleza. Quase ninguém falou de sua importância nos cadernos de cultura.

Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas da história, revolucionou a dança contemporânea, unindo balé com teatro.

Pina era "grande arte" - coisa rara hoje - para nós que vivemos enganados por uma massificação da poesia, por uma sociologia crítica superficial na arte, por um ufanismo menor ou uma alegria compulsiva de pagodões e pilantragens de mercado para esquecermos o horror social do país.

O discurso oficial do oportunismo chapa-branca nos faz acreditar em nosso "futuro glorioso" que não chega nunca.

A história brasileira é uma novela de ilusões. Enquanto sonhamos, eles roubam. Enquanto acreditamos no futuro, o sistema político nos mente no presente.

Essas últimas semanas foram feias de ver: além dos escândalos diários, vimos a babaquice do PSDB (ninguém sabe mais o que significam os tucanos), tivemos de aguentar a cara-de-pau absoluta do Lula com o bigode do Sarney colado no rosto - vemos que a mentira venceu.
Seduzido e enganado, o povo ama a hipocrisia e a incompetência. A feiura é saudada como "necessária" na política. Além disso, esse governo conseguiu uma coisa quase "revolucionária": usou tão largamente, tão torrencialmente o jogo de alianças tolerantes com o PMDB para sua única ideologia que é o próprio Lula que fez jorrar como um esgoto toda a verdade do patrimonialismo do país que, agora, contemplamos devastados.

Caímos numa espécie de perversão do lixo, um estranho amor pelo circo pegando fogo, uma volúpia pelo excremento, um "frisson" pela ignomínia. Não temos mais para onde olhar. Tudo é feio.

Foi aí que vi nos jornais que Pina Bausch tinha morrido. E pouca gente entre nós sabe quem ela foi, tirando a turma dos cultos e descolados.

Eu estive com ela uma única vez, num bar em São Paulo, e achei que fumava demais, em cadeia, e tive o temor de um câncer a caminho, por sua trêmula palidez. Pina para mim era um dos pontos luminosos da cultura contemporânea. Talvez seja o (a) artista que mais admirei na vida. Sempre que ela vinha ao Brasil, eu corria para vê-la, para passar duas horas (ao menos...) contemplando a mais pura forma de arte da atualidade. Isso; Pina Bausch conseguiu milagrosamente fazer uma arte que posso até chamar de "terapêutica". Dentro de um mundo violento, humilhado, ansioso por alguma grandeza, ela conseguiu nos dar inúmeros trabalhos cheios de delicadeza e paz. Esquecíamos tudo lá fora e ficávamos somente diante da poesia. E não era apenas o êxtase de uma sinfonia ou um grande filme. Não. A grande arte de Pina, a grande arte em geral, nos deixa ver a máquina leve que organiza a composição estética, o segredo do processo criativo. Ela não nos emocionava apenas; ela nos ensinava. Aquela coisa do "beleza é verdade e verdade é beleza" se realizava em seus espetáculos.

A importância artística de Pina é imensa, pois ela conseguiu descrever nossa época com uma mistura rara de sentimentos: angústia ligada à compaixão. Isso: melancolia com esperança.
Há na arte, desde o pós-guerra, o sentimento do absurdo, o horror, a desesperança crítica. Os mendigos de Beckett vagueavam em desertos sem saída. "O Estrangeiro", de Camus, pedia que saudassem sua morte com "vivas" de ódio. Hoje, na literatura, restou um anarquismo sem rumo, detritos masoquistas de uma desesperança superficial, "kafkas pop", "sub-joyces" despejando um automatismo narrativo porra-louca e superficial. Isso tem rendido prestígio e "sentido" a muitos idiotas. Muita gente conhecida transformou falta de talento em estilo, ausência de visão de mundo em "assunto". Descrença, desespero e ceticismo são bons para a promoção de falsos gênios. O "nada" dá lucro.

Pina Bausch, que já é filha da Guerra Fria, nunca esteve nessa. Ela sempre deixou um fio de felicidade passar por entre seus bailarinos solitários, desunidos, dessincronizados, nas tristes roupas cotidianas, pobres ternos, pobres vestidinhos, desamparados transeuntes do nada para o nada. Pina criou um minimalismo afetivo, sem a frieza rancorosa de tantos artistas "engajados", sem a negra alegria de saudar a morte, de festejar a impossibilidade, narrando um juízo, fina oportunista.

Pina sempre viu uma melancólica beleza, "uma intensa luz que não se vê", como cantou Caetano (que também a amava); sempre nos mostrou uma paz "dark" diante desse mundo pós-WTC, pós-Al Qaeda, pós-Bush.

Pina Bausch captava o imperceptível. Seus atores/bailarinos/personagens vivem sempre sozinhos, tentando o amor, tentando uma união que se desfazia e renascia.
Pina via com amor nossos clichês e aprofundava-os, salvava-os, raspando-lhes a casca da repetição óbvia.

Pina humanizava nossos defeitos, nossos ridículos e nos oferecia a própria vida reciclada com carinho, virando-nos em viajantes de nós mesmos.

Seus atores/personagens oscilavam entre desejo e repressão, entre liberdade e medo. Seus espetáculos sempre foram aulas de "grande arte" e, por entre os corpos bailando, percebíamos as influências mais límpidas da arte contemporânea.

Víamos Fellini, claro, víamos Chaplin ali, víamos na cenografia o suprematismo, o minimalismo mais espontâneo, sem o velho exibicionismo vanguardista, víamos Mondrian, Malevitch, víamos os irmãos Marx repetindo as mesmas "routines" de chanchadas, víamos até Beckett raspado de sua depressão doentia.

Ela desenhou, com a espantosa competência poética de seus bailarinos, um painel amplo da melhor criação do século XX.

É isso aí. Quando eu via Pina, eu saía limpo, oxigenado, purificado, pronto para mais uma temporada no inferno da estupidez nacional.

Agora que ela se foi, ficaremos reduzidos ao "Cirque du Soleil"...

ANCELMO GÓIS

ASSALTANTE X VÍTIMA

O GLOBO - 07/07/09

Acredite. Um ladrão, preso em flagrante em Belo Horizonte, prestou queixa-crime e tenta processar sua vítima por lesões corporais e danos morais.
O bandido, Wanderson de Freitas, 22 anos, sentiu-se “injustiçado e humilhado” porque apanhou do dono da padaria que tentava assaltar. O juiz Jayme Silvestre Corrêa Camargo, da 2ª Vara Criminal de BH, suspendeu a ação por achar que o caso é “uma aberração postulatória”.
EMPRESAS NA UTI
O vice José Alencar, mesmo doente, não deixa de palpitar sobre a economia. Depois da cruzada contra os juros altos, criticou, outro dia, para um amigo, a ação de alguns governos, inclusive no Brasil, de salvar empresas no corredor da morte por causa da crise:
– O BNDES não pode ficar socorrendo empresas.
RISCO ZERO
Em plena crise, o senador boa gente Marco Maciel foi à tribuna falar da democracia, citando autores como Robert Dahl, Norberto Bobbio e Hans Kelsen.
Tudo bonito, erudito. Mas ninguém soube exatamente o que Maciel pensa das acusações contra Sarney, por exemplo.
O ANFITRIÃO REJEITADO
Lula e Celso Amorim serão recebidos hoje na Unesco, em Paris, pelo brasileiro Márcio Barbosa, o diretor-adjunto cuja candidatura a diretor-geral foi torpedeada pelo próprio Itamaraty.
É GRAVE A CRISE A IBM cortou o cafezinho de graça dos funcionários.
Agora, a turma paga R$ 0,70.
EM BUSCA DE JESUS
Ao som de Madonna, a aula de spinning seguia animada na academia Exata Fitness, no Rio.
No que o professor, divertido, estimulou o mulherio: “Pedaaaaaala, galera! Quem sabe vocês não encontram Jesus?!”
Aliás, spinning é o cacete!
TWITTER BATE ORKUT
O brasileiro adora moda. Até outro dia, o Brasil era o país do Orkut, a rede social de comunidades, que agora, diz estudo da agência Frog, caiu 5%.
A hora é do Twitter, o site dos miniblogs, que, de janeiro a maio, experimentou crescimento de 155% na mesma pesquisa, que cita marcas importantes.
PROTESTO AUDIOVISUAL
O movimento “Fora Sarney” invadiu o Youtube.
Internautas fizeram esquetes dublados, com diálogos da crise do Senado, e puseram no supersite de vídeos. O melhor usa cenas de “A queda – as últimas horas de Hitler” (assista no site da turma da coluna).
DERRUBADA DA INFLAÇÃO
O senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, convidou os dirigentes estaduais do partido para comparecerem hoje à sessão solene no Congresso de 15 anos do Plano Real.
DOM PEDRO LUÍS
Foi identificado domingo e enterrado ontem em cerimônia só para a família, no cemitério de Vassouras, RJ, o corpo de Dom Pedro Luís de Orleans e Bragança, vítima do voo da Air france.
Uma missa de corpo presente foi celebrada pelo abade emérito do Mosteiro de São Bento, Dom José Pinheiro Mendes, auxiliado por padre Jorjão, de Ipanema.

GOSTOSAS DO TEMPO ANTIGO


DORA KRAMER

Honra ao demérito

O ESTADO DE SÃO PAULO - 07/07/09

Na reunião dos senadores do PT com o presidente no Palácio da Alvorada, sexta-feira passada, Luiz Inácio da Silva tentava convencer os correligionários a não pedir o afastamento de José Sarney da presidência do Senado e a abraçar a tese da diluição de responsabilidades, quando deu um xeque-mate no mais longevo senador da bancada.
“Depois de 18 anos lá dentro, ninguém vai acreditar que você não sabia o que acontecia no Senado”, disparou na direção de Eduardo Suplicy. Pela lógica, tinha razão. Mas, como muita gente acreditou que Lula depois de 25 anos no comando do PT não sabia que o partido abastecia o caixa 2 das campanhas eleitorais de partidos aliados para garantir maioria ao seu governo no Congresso, o PT também teria o direito de simular surpresa com os desmandos do Senado.
Inclusive porque, até o senador Tião Viana falar umas verdades na edição da revista Veja desta semana, o partido não só havia se associado à indiferença geral diante de alertas de que o Senado caía de podre, como nunca impusera reparos ao modo do governo petista de sacramentar os velhos vícios do Parlamento.
“O Legislativo não sobreviverá se continuar funcionando apenas na base do beija-mão do governo”, disse o senador, apontando, pela primeira vez e com uma precisão que nem a oposição jamais foi capaz de fazer, o papel que o atual governo jogou na acentuada deterioração de um processo já em vias de degradação gradativa.
“Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes”, constata ele, dizendo-se frustrado por Lula não ter compreendido que ao chefe de um Estado cabe a tarefa de zelar pelo vigor das instituições e nada ter feito para “evitar a desconstrução e a perda moral do Congresso”.
Uma fala institucionalmente importante, politicamente benéfica, socialmente responsável, partidariamente corajosa. Mas, recebida com ressentimento. Tanto que a decisão do governo foi ignorar as palavras do senador. Como se fosse ele o ponto fora da linha, o transgressor, o traidor. Bons, dignos de deferência, homenagens e atenções, são os arquitetos da obra ora em demolição involuntária.
Tião Viana passa, assim, a integrar aquele grupo de pessoas que dizem as coisas como devem ser ditas, dão às evidências seus nomes reais, mas acabam tratadas como pústulas a expulsas de um organismo que, não obstante a podridão explícita, inverte os papéis e faz pose de saudável.
Acusam-no de chorar o pranto dos derrotados. Ou de tentar ocultar as próprias mazelas expondo as doenças do vizinho. Antes dele, dois outros senadores haviam feito duras, mas realistas análises sobre a situação do Congresso em geral e do Senado em particular, em entrevistas à mesma Veja.
No ano passado, Garibaldi Alves estava na presidência do Senado quando disse que a Casa estava “na UTI”. Ou seja, era doente terminal. “Ninguém no mundo político percebe que esse desapreço pelo Poder Legislativo está minando suas bases de sustentação e que a qualquer hora poderá haver um momento de maior tensão, de crise entre os Poderes.”
A leniência do Congresso consigo, alertava Garibaldi, lhe subtrai autoridade para fiscalizar os outros Poderes. O então presidente do Senado falava dos males do coleguismo, do quanto a absolvição do senador Renan Calheiros havia penalizado o Legislativo, da necessidade de se fazer “uma faxina dentro de casa”, da distorção da função parlamentar.
“A maioria dos parlamentares segue a lógica de votar com o governo, de liberar umas emendazinhas, emplacar um cargo para um aliado e colher os dividendos na eleição seguinte. Os políticos se contentam com isso e fazem um mal danado ao Legislativo. A Casa pode desmoronar do jeito que vai.”
Alguém se impressionou? Ao contrário, atribuiu-se a manifestação do senador do PMDB a planos de se candidatar de novo ao cargo de presidente do Senado. Da mesma forma, o senador Jarbas Vasconcelos, quando apontou o fisiologismo e a corrupção reinantes no PMDB, ficou relegado ao limbo das vozes isoladas.
Mas, na ocasião, logo após a eleição de José Sarney, alertara para o significado do ato corroborado pela maioria: “É um completo retrocesso. Ele não vai mudar a estrutura política nem contribuir para reconstruir uma imagem positiva da Casa. Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão.”
Alguém se emocionou? Alguns sim, mas só em discursos de apoio a Jarbas Vasconcelos no plenário. Para todos os efeitos, era o dissidente irado, de temperamento “difícil”, posando de “vestal” e zombarias do gênero.
É de se perguntar o que de tão grave e desairoso há na ética e na seriedade na política para que seus defensores sejam tratados como se fossem eles os algozes, enquanto se celebra a sagacidade e o poder de fogo do nefasto batalhão do atraso, cujo único compromisso é com o que existe de mais errado.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Nosso presidente não tem pudor algum”
SENADOR JARBAS VASCONCELOS (PMDB-PE), SOBRE A PRESSÃO DO PRESIDENTE LULA NO SENADO

DILMA LIGA PARA TRANQUILIZAR SARNEY
O governo comemorou ontem o esfriamento da crise do Senado Federal, com a diminuição progressiva das denúncias envolvendo principalmente o presidente da Casa, senador José Sarney (PMDB-AP). Ontem, já mais seguro, ele recebeu um longo telefonema tranquilizador da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) transmitindo-lhe a reafirmação do compromisso do presidente Lula com a sua permanência no cargo.
ASAS DA MORDOMIA
Já ex-ministro, Mangabeira Unger usou um jatinho da FAB de Brasília para o Rio, onde um avião de carreira o levou aos Estados Unidos.
O PRÓXIMO?
Três “Nobel da Paz” ganharam antes o prêmio que Lula receberá nesta terça-feira da Unesco: Nelson Mandela, Yasser Arafat e Jimmy Carter.
BOLSO FORRADO
Prêmio Felix Houphouët - Boigny, que o presidente Lula recebe em Paris hoje, é acompanhado de um cheque de 170 mil euros (R$ 500 mil).
VOZ ROUCA
Por e-mail, telefone, carta ou pessoalmente, os senadores petistas têm sido pressionados a apoiar o afastamento de Sarney no Senado.
OPOSIÇÃO TAMBÉM FOI À FESTA DE AGACIEL
Volta e meia a oposição cobra do presidente do Senado, José Sarney, e do líder do PMDB, Renan Calheiros, o disparate político de terem ido ao casamento da filha de Agaciel Maia, em que se executou a trilha sonora do filme “O poderoso chefão”. Mas o PSDB e principalmente o DEM fingem que não viram na cerimônia um terceiro senador desconectado da realidade política: o líder José Agripino (RN). Ufa, que casamento!
F-INDY EM BRASÍLIA
O governo do DF estuda receber em Brasília uma prova da Fórmula Indy, em circuito de rua. Já em 2010, ano do cinquentenário da cidade.
ETERNA VIGILÂNCIA
Até maio, era de R$ 274,8 mil mensais o custo da vigilância armada 24h nas residências oficiais dos senadores em Brasília. E nós, ó...
MATANDO A CPI A PAU
Agências de publicidade disputam uma das três contas da Petrobras, que pretende gastar em 2010 quase meio bilhão de reais em propaganda.
VELHO ROTEIRO
Tão logo o MPF anunciou nova acusação contra Daniel Dantas, o velho roteiro se repetiu: os porta-vozes de acusados e acusadores tentam desqualificar uns aos outros, confundindo a opinião pública, e arrastando para o lamaçal quem possui independência e não entra nesse jogo.
POLÍCIA SECRETA DO SENADO
Ninguém consegue encontrar, em bibliotecas, publicações jurídicas, boletins e diários oficiais a Resolução 59/2002, que criou a Polícia do Senado. Suspeita-se de mais um ato secreto da era Agaciel Maia.
PROFESSOR MACIEL
O senador Marco Maciel (DEM-PE) lecionou na Universidade Católica de Pernambuco (UCP), citada em seu site, e não da UFPE, conforme foi divulgado. Ele foi professor de Direito Internacional Público.
INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA
O livro “Inteligência Estratégica”, do delegado Miguel Lucena, da Polícia Civil do DF, e dos policiais Robson Azevedo e Vandir Freitas, do Senado, já está à venda em Brasília na Livraria Leitura do Terraço Shopping.
PAUTA POSITIVA
Lula marcou uma reunião interministerial para o dia 13. Vai discutir a crise econômica internacional, que considera página virada para o Brasil, e para tratar de uma “agenda positiva” para o segundo semestre.
NOSSA GRANA CRIOU ASAS
O dinheiro brasileiro está saindo pelo ladrão, para a companheirada petista no exterior: o presidente Lula mandou mesmo ao Congresso uma mensagem doando R$ 25 milhões para a Faixa de Gaza.
FUGINDO DO DÓLAR
Brasil e China discutem abandonar o dólar em suas transações comerciais, fechando acordo que permita importadores e exportadores de ambos os países fecharem negócios em suas próprias moedas.
VIVER É MUITO PERIGOSO
A Assembleia de Santa Catarina vive dias de Senado: o deputado petista Jailson Silva descobriu “adicional de insalubridade” de R$ 3,1 mil para dentistas e médicos, que no palácio do governo ganham até R$ 20 mil.
PENSANDO BEM...
O presidente deposto de Honduras entrará para a História como Manuel Sevaya.

PODER SEM PUDOR
O VALOR DA AMIZADE
Juscelino Kubitscheck era governador de Minas e mandou o secretário da Fazenda, José Maria Alkmin, demitir um coletor. Alkmin ficou enrolando durante semanas, porque o coletor era um aliado. Quando JK perdeu a paciência, Alkmin jurou que o coletor fora demitido na véspera.
– Não é verdade. Não está no Diário Oficial! – respondeu JK, irritado.
Alkmin ficou magoado:
– Ô, Juscelino, depois de mais de trinta anos de amizade, você acredita mais naquele jornal do que em mim...

LUGAR DE BANDIDO


TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Senado triplica os gastos com viagens ao exterior


- Estadão: BB usa Nossa Caixa para pressionar bancos em SP


- JB: Prejuízo mínimo da gripe: US$ 630 mi


- Correio: Invasão no Lago é caso de polícia


- Valor: Setor de PCs já acredita em vendas iguais às de 2008


- Jornal do Commercio: Cinco sem-terra mortos em chacina

Domingo, Julho 05, 2009

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Conosco ninguém pode


O GLOBO - 05/07/09

Acabo de fazer o primeiro reconhecimento aqui da Denodada Vila de Itaparica. Os inexperientes talvez imaginem que, havendo nascido nela e voltando todos os anos, eu não teria novidades a encontrar. Trata-se de um equívoco desculpável, mas, não obstante, merecedor de correção. Na verdade, se eu fosse contar todas as novidades, não teria espaço. Não me refiro aos finados na minha ausência, porque estes requerem conversas minuciosas sobre as qualidades de cada um, além da rememoração de seus feitos mais notáveis e da recapitulação dos últimos dias antes do fatal desenlace. Bem verdade que não temos mais narradores como os de antigamente, capazes de mesmerizar a plateia com a narrativa minuciosa de tremendos embates com a Grande Ceifadeira, ocorridos entre itaparicanos que se recusavam a morrer antes do próximo jogo do Bahia, como já aconteceu com tantos que perdi a conta. Mas as reportagens locais continuam com excelente qualidade jornalística e, devagar para não ter congestão emocional, vou me inteirar das últimas.

Não sem antes, é claro, contar a viagem, que pode não ter sido nenhuma expedição ao Ártico, mas teve grandes momentos de emoção, a começar pelo suspense do voo entre o Rio e a Bahia. A decolagem estava prevista para as nove horas da manhã. Já na sala de embarque, olhei o relógio e notei, com algum sobressalto, que já passava das nove e o voo não tinha sido chamado, certamente por causa da cerração no Galeão. Mas, por outro lado, bem que eu podia ter-me distraído e perdido a chamada, até porque o serviço de som agora se dirige ao público num dialeto da Baixa Eslobóvia, com algumas palavras em português intercaladas. Dei uma olhada no monitor de partidas. O voo, se bem me lembro, era descrito como “alterado”. Se não era isso, era parecido e, como desconhecia essa categoria, fiquei apreensivo. Voaríamos num teco-teco adaptado para grandes distâncias? O avião estaria sob o efeito de algum psicotrópico? Um pouco nervoso, procurei um balcão de informações da companhia, o que estava acontecendo? Ah, nada, aquela palavra queria dizer que o voo fora cancelado. Mas por que não avisaram?

– Ah, não sei – disse o rapaz do balcão. – Nós pedimos para avisar.

– E avisaram?

– Não tenho certeza, ninguém entende o som. Mas o senhor vai para Salvador?

– Vou, ou pelo menos ia. Como é que eu faço?

– O senhor procura aquele funcionário ali, ó. Aquele ali, no meio daquele bolo de gente. O que está sacudindo um monte de papéizinhos na mão, aquele mesmo.

Depois de vencer a concorrência resmungando cabalisticamente “eu sou idoso” e conseguir falar com o rapaz dos papéizinhos, na verdade cartões de embarque para os sortudos que adivinharam o cancelamento do voo, descobri que seria embarcado num avião procedente de Buenos Aires. Estou ferrado, pensei, agora vou cair na malha de proteção do Ministério da Saúde, tomara que não me botem em quarentena, eles vivem avisando que não estão para brincadeira. Mas esqueci de que a gente pode confiar no governo, claro que dentro das circunstâncias nacionais, ou seja confiar em que ele está sempre loroteando, não tem erro.

Não havia fiscalização nenhuma e muitíssimo menos ameaça de quarentena, embora, pelo pouco que entendo de eslobóvio, o sistema de barulho do Galeão fizesse inúmeras advertências. Achei meio esquisito sentar-me ao lado de uma moça usando máscara, como pareciam estar todos os passageiros vindos da Argentina. Pronto, o avião não passava de uma enorme incubadora de vírus, prestes a engolfar-me numa gripe que poderia me levar ao túmulo. Logo eu, que, depois dos conselhos do governador Serra, passei a evitar a companhia de porquinhos e porcões e, tanto no Rio quanto em São Paulo, atravesso a rua só para não me bater com um porco gripado. O destino é implacável. Desci em Salvador já sentindo os primeiros sintomas, embora, justiça seja feita, a mão do Ministério da Saúde se fizesse presente. Depois de selecionados os passageiros na base dos berros de “quem veio da Argentina aê!”, funcionárias também de máscara estavam na saída. Como eu viera no mesmo avião que os mascarados, mas não estivera na Argentina, ninguém me chamou para nada e me senti um pouco discriminado. O ministério não aconselhara a evitar recintos fechados, para reduzir a exposição ao contágio? Bem, tem que se prestar atenção, ele menciona recintos e avião não deve ser recinto, vai ver que é isso.

Já na ilha, voltou a preocupação. Mal me acomodei, dirigi-me ao centro da cidade, mais precisamente ao bar de Espanha. Sim, eu tinha corrido o risco de ser infectado, mas o importante mesmo era a possibilidade de que, pela ação insidiosa das Parcas, eu viesse a ser o introdutor da gripe suína em minha terra. Era imperioso advertir a coletividade sobre o possível perigo que minha presença significava e fiquei aliviado quando o primeiro que encontrei foi meu grande amigo Gugu Galo Ruço.

– Não há nenhum motivo para preocupação – me disse ele, quando o pus a par de meus receios. – Não esquente, você está em Itaparica.

– Eu sei, mas nem Itaparica é imune a esse vírus.

– Aí é que você se engana. Nós não somos imunes, mas rechaçaremos o vírus. Existe terra mais patriótica do que Itaparica?

– Não, não existe.

– Pois então? – disse ele. – Nós botamos o nosso vírus para liquidar com o deles. O nosso é o vírus do Ipiranga, está no Hino, não esquente.

GOSTOSA


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MÍRIAM LEITÃO

O Império se renova

O GLOBO - 05/07/09

O presidente de Honduras é deposto e os Estados Unidos exigem a volta dele ao poder. As mudanças climáticas ameaçam o mundo, e o presidente americano consegue aprovar uma lei que imporá às empresas a redução das emissões de carbono no planeta. O mercado financeiro entra em crise e a Casa Branca propõe maior controle sobre bancos e instituições financeiras.

Barack Obama não será a renovação de tudo o que prometeu. Velhas e novas forças vão se confrontar em seu governo, mas algumas mudanças importantes já começam a acontecer. Muita gente aposta que a devastadora crise econômica, que já destruiu 6,5 milhões de empregos americanos, é o começo do fim do Império.

Ele, no entanto, desafiado, se renova. É um interessante momento em que o gigante muda em alguns pontos e permanece igual em outros. Em alguns desafios, ele não sabe ainda como se renovar, como no caso dos mísseis provocativos da Coreia do Norte.

Em outros, tem trilhado um caminho novo.

O futuro não será a repetição do passado. Mesmo que queiram, os Estados Unidos não terão mais o poder incontrastável que tiveram.

Outras peças se mexem no tabuleiro. O poder será menos concentrado; não por concessão americana, mas pela dinâmica dos processos econômicos e políticos em curso.

O embaixador Clifford Sobel não foi confirmado no cargo. Mesmo assim, segundo amigos, ele decidiu morar no Brasil. Originalmente empresário, ele acha que aqui há futuro. Pequeno detalhe que mostra as novas chances das potências médias.

O mundo do futuro será formado por várias forças gravitacionais menores e uma maior. Os Estados Unidos não poderão ser unilateralistas como foram no governo Bush. Se o país continuar no caminho da renovação diplomática, da ação internacional cooperativa, da transição para um novo modelo de uso e produção de energia, pode reverter o risco de decadência.

É inevitável que os Estados Unidos sejam, no futuro, relativamente menores no PIB mundial e no controle das organizações multilaterais. Eles lutam contra a decadência, com notável sabedoria.

O caso de Honduras é pequeno e emblemático. O cientista político Antonio Octávio Cintra me escreveu ressaltando um ponto interessante: o que Manuel Zelaya fez o torna passível de um processo de impeachment por crime de responsabilidade, ao desrespeitar a Suprema Corte de seu país. No Brasil, se um presidente fizesse isso, incorreria em crime de responsabilidade, lembra ele.

A posição de Cintra é parte de um debate que ocorreu em vários blogs — inclusive aqui — e na imprensa americana, sobre se a melhor palavra, para se referir ao que houve em Honduras, é “golpe”. Estou convencida de que sim: é golpe. O presidente Zelaya desrespeitou a Constituição, mas a reação a ele foi ainda mais abusiva dos princípios constitucionais.

Ele deveria ter sido constrangido, dentro dos parâmetros estabelecidos pela Constituição, e não preso de pijama e mandado para outro país, com os novos governantes divulgando uma suposta carta de renúncia, e, em seguida, suspendendo direitos individuais dos cidadãos.

O caso só mostra que os tempos de hoje são mais matizados do que os toscos momentos das quarteladas dos anos 60. A reação americana foi um fato novo e sinal da mudança: o Império renovou sua forma de atuar na região e, ao fazer isso, serrou as estacas do palanque do inconstitucional serial Hugo Chávez.

Há outros sinais de mudanças, na região e fora dela: o começo da retirada do Iraque; as decisões sobre Guantánamo; a atitude cooperativa no G-20. Para o futuro, o mais relevante é a posição interna e externa em relação às mudanças climáticas.

O governo Bush negava as evidências científicas do fenômeno. Com Obama, o tema deu um salto para além dessa discussão vencida e passou-se à tomada de ações concretas.

Um dos pontos mais marcantes dessa renovação americana é a Lei da Mudança Climática. Ela foi aprovada na Câmara e agora está no Senado. Em inglês, é conhecida pela sigla ACES (American Clean Energy and Security Act). Ela muda os padrões de uso de energia.

Tem efeitos na construção civil, que terá que reduzir em 30% seu consumo de energia atual, ampliando o corte para 62% até 2014. Tem efeitos na forma de geração de energia, nos transportes, na indústria automobilística. Estabelece um sistema de cota e comércio de créditos de carbono (cap and trade) que, de cara, vai encarecer em 7% a energia fóssil. Vai criar um vasto mercado de carbono, maior que o europeu. Obama trabalha intensamente com os democratas contra os inúmeros lobbies. Os Estados Unidos entraram na semana passada na Agência Internacional de Energia Renovável — que George Bush sempre sabotava — para aumentar investimento em energia solar (fotovoltaica) e eólica. Os representantes do governo Obama assinaram um documento que será analisado, na semana que vem, pelo G-8, na Itália, que estabelece o compromisso com a meta científica de dois graus centígrados de aquecimento global máximo.

No área financeira, as mudanças são incipientes. Os administradores e controladores das instituições, que assumiram riscos irresponsáveis, não foram punidos.

O caso de Madoff é de crime de fraude e quem cuidou dele foi a Justiça.

Mas já foi proposta uma nova regulação, com inovações notáveis. O mercado bancário ainda não a digeriu e lutará contra ela no Congresso.

O Império contra-ataca.

Declarado decadente e em crise terminal, ele reinventa lideranças e atitudes. Sairá menor desta crise, mas, se tiver sucesso, pode sair melhor do que entrou.

COISAS DA POLÍTICA

O encontro de Moscou

Mauro Santayana

JORNAL DO BRASIL - 05/07/09

Quando duas grandes nações, sobretudo se são historicamente rivais, se entendem, alguém paga pela paz. Assim tem ocorrido sempre na História. Os pactos se fazem contra terceiros. Entre tantos exemplos, podemos ficar com um dos mais recentes, em termos históricos: o da capitulação da França de Daladier e da Inglaterra de Chamberlain, sob a iniciativa da Itália de Mussolini, ante as exigências de Hitler sobre o território dos sudetos. Quem pagou pelo Acordo de Munique, firmado na madrugada de 30 de setembro de 1938, foram os tchecos. Hitler, depois de anexar a Áustria, fez ultimato a Praga, para que lhe fosse entregue a soberania sobre o território ocidental do país. Os tchecos resistiram, confiados nos acordos de solidariedade que tinham com a Inglaterra e a França, mas franceses e ingleses os abandonaram. Hitler, autorizado por Paris e Londres, ocupou o país nas primeiras horas do dia seguinte. O escritor Karel Capek, acometido de infecção pulmonar, deixou, no mesmo dia, de medicar-se, como protesto, e morreu no Natal seguinte. Poucos meses mais tarde, a Tcheco-Eslováquia se tornava "protetorado" do Reich. Seu presidente, Hácha, sob a ameaça de que as principais cidades do país seriam arrasadas, rendeu-se à força, assinando o "pedido" ao Reich, para que "protegesse" o seu povo.

Terça-feira se reúnem, em Moscou, os presidentes Barack Obama e Medvedev. Vão iniciar novas negociações para a redução recíproca de armas nucleares (diminuir o supérfluo, e manter, nos dois lados, bombas suficientes para aniquilar a Terra e a Lua). É claro que haverá concessões de lado a lado. Os russos querem acabar com o chamado escudo protetor antibalístico, que os americanos pretendem instalar na Polônia e na Tcheco-Eslováquia. Como não são parvos, sabem que a iniciativa, de Bush, nada tem de defensiva, e constitui ameaça a queima-roupa contra seu povo. Como prova de boa vontade, conforme informava a imprensa no fim de semana, estão dispostos a abrir caminho em seu território, a fim de que os norte-americanos possam, com mais segurança, abastecer a sua frente no Afeganistão com equipamentos e homens.

Os rebeldes afegãos, que, com a ajuda americana, lutaram contra os soviéticos durante nove anos – quando Moscou apoiava o governo marxista de Cabul – descobrem, agora, que os amigos, quanto mais poderosos, menos confiáveis. Tendo enfrentado antes os russos, e combatendo hoje tropas norte-americanas e europeias, veem o que lhes parecia impensável: o governo de Moscou contribuindo para a vitória ianque em seu país.

Ao espantar do Kremlim as sombras de Lenine e de Stalin, Gorbatchev favoreceu a desagregação do antigo império e, assim, permitiu que seus sucessores fizessem, do que sobrara, uma república como as outras. Como o antigo império russo se espraiava sobre três continentes (do Alasca ao Extremo Oriente), a Federação Russa pôde conservar o domínio da maior extensão territorial do mundo, o que representa grande trunfo estratégico. Uma aliança dos Estados Unidos com a Rússia seria, assim, praticamente imbatível diante da China e da Índia – que estarão atentas às negociações de Moscou, depois de amanhã. Embora a situação internacional de hoje seja outra, temos que olhar o passado. Quando os diplomatas conversam muito, os estrategistas contam os seus soldados e calculam o poder de suas armas.

Registre-se, também, que Medvedev, discretamente, vai assumindo liderança própria, saindo da sombra de Putin. Não se sabe se será capaz de crescer mais do que o seu padrinho e criador. De qualquer forma, Obama, não obstante a sua postura mais aberta diante do mundo, deve, no íntimo, contar com o provável dissídio entre os dois estadistas russos. Outros preocupados com o encontro de Moscou são os países da União Europeia, temerosos de perder sua importância no mundo.

É compreensível que Obama atue com astúcia em favor de seu país, da mesma forma que o faça Medvedev. São administradores da memória de dois grandes impérios, preocupados com o declínio de suas nações, e empenhados em restaurar a pujança antiga. Os nossos países, sem embargo, herdeiros de outra memória – a da submissão colonial – da qual estamos nos livrando com dificuldades, devem acautelar-se diante do entendimento dos fortes. É bom que haja paz entre eles, mas não em nosso prejuízo.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


CARLOS HEITOR CONY

A cassação de JK

FOLHA DE SÃO PAULO - 05/07/09

Com algum atraso, vou lembrar o 45º aniversário da cassação de Juscelino Kubitschek, em junho de 1964. Logo após o golpe daquele ano, os militares cassaram o presidente em exercício, João Goulart, e um ex-presidente, Jânio Quadros. Inicialmente, JK foi poupado.

Desde fevereiro do mesmo ano ele fora lançado e homologado pelo PSD como candidato na próxima sucessão presidencial, marcada para o ano seguinte. Seria o “JK-65”, tido como uma barbada eleitoral.

As forças no poder, tanto no setor militar como no empresarial, queriam fazer de Carlos Lacerda, o mais ostensivo propagador do golpe, não apenas um candidato, mas o presidente da República. Era necessário limpar o terreno para isso, tirando JK da jogada.

Em São Paulo, que na época gozava a fama (merecida) de ser a locomotiva do Brasil, teve início um movimento para cobrar a cassação do candidato pessedista. Castelo Branco, que havia prometido manter o calendário eleitoral e o jogo democrático, foi pressionado pelo então ministro da Guerra Costa e Silva para ir conversar com a cúpula da conspiração. Castelo reclamou que os empresários paulistas ameaçavam boicotar o plano econômico elaborado por Octavio Gouveia Bulhões e Roberto Campos, que daria régua e compasso para a economia nacional. Foi feita a exigência: que Castelo cassasse JK. Todos os ministros assinariam o ato, menos Roberto Campos.

No avião de volta para Brasília, Costa e Silva convenceu Castelo que era necessária a cassação, caso contrário, a chamada revolução não se consolidaria. Em carta a JK, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo Vasconcelos Mota, seu amigo desde os tempos de Diamantina, entregou o que sabia: “Presidente, aqui está a cabeça da hidra”.

CARLOS EDUARDO NOVAES

Pedalando para o sonho

JORNAL DO BRASIL - 05/07/09

De repente você abre ao acaso um site de notícias e dá de cara com uma informação que precisa ler duas vezes para acreditar: a carioca Daniela Giovanesi venceu a Race Across America, prova de ciclismo através de 4.800 quilômetros, de uma costa a outra dos Estados Unidos. Se você ficou surpreso espera só para saber que Daniela tem 41 anos, três filhos e foi a primeira mulher – em dois anos de competição – a concluir o percurso dentro do tempo exigido na prova feminina. Vamos ficar de pé para aplaudir Daniela!

Uma conquista dessas deixa qualquer brasileiro orgulhoso, muito mais do que com o título da Copa das Confederações. Ela derrotou as americanas no mesmo dia em que vencemos os americanos na África do Sul. Vitórias no futebol já não nos surpreendem (surpreendem as derrotas!), mas no ciclismo e na terra de Lance Armstrong, sete vezes seguidas campeão do Tour de France, é um feito que merecia quase tanto espaço na mídia quanto recebe o Sarney que nunca subiu numa bicicleta.

Sempre me impressionou a vocação do brasileiro para os esportes (o mesmo não posso dizer quanto à política). Tivéssemos uma estrutura semelhante à de Cuba – nos bons tempos – e estaríamos no topo do mundo olímpico junto com a China e os Estados Unidos. Você já se deu conta dos títulos mundiais que vamos recolhendo nos mais diferentes esportes? Do futebol ao skate (street ou vertical); do vôlei ao surfe; do futsal à natação; da ginástica olímpica a Maurren Maggi? Sem falar do judô, vela, taekwondo, futebol de areia, vôlei de praia e de glórias recentes no tênis, boxe, hipismo, automobilismo. Somos uma potência esportiva deitada em berço esplêndido. Com mais dois dedinhos de seriedade e planejamento chegaremos a campeões de beisebol com nossos "japoneses".

Daniela não é uma recém-chegada aos esportes. Praticou corrida de rua, bodyboarding, foi campeã mundial no jiu-jítsu e só em 1999 sentou-se profissionalmente no selim de uma bike (reparou que ninguém mais fala "bicicleta"?). Para vencer a Race pedalou um pouco mais do que o Robinho: foram nove dias, 11 horas e 50 minutos. Sabe quem foi seu companheiro de "viagem"? O riso! Mais do que o canto foi o riso que espantou seus males e seu cansaço. Ela declarou, depois de cruzar a chegada, que "encarei a prova sempre me divertindo, dando gargalhadas com o grupo". Nunca suspeitei dos benefícios do riso à saúde, mas confesso que ignorava que rir também fosse o melhor remédio para as competições esportivas. Um humorista americano disse que "uma boa gargalhada é o segundo maior prazer do homem". Não podendo usufruir do primeiro – fica difícil pedalando o tempo todo – Daniela entregou-se ao segundo e com ele chegou em primeiro.

A carioca pedalou 20 horas por dia (cerca de 400 kms), dormindo quatro, um esforço brutal para ganhar um prêmio – pasme – de US$ 2 mil. Mas o dinheiro não estava na conta da sua felicidade. Como diria a propaganda do cartão de crédito, um sonho não tem preço.

O IDIOTA: ONTEM E HOJE


BRASÍLIA - DF

Notícias do Senado

LUIZ CARLOS AZEDO

Correio Braziliense - 05/07/09

Se engana quem pensa que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o primeiro-secretário da Casa, Heráclito Fortes (DEM-PI), estão em rota de colisão. Trocam figurinhas todos os dias. Dos cardeais do DEM, Heráclito é o mais firme com Sarney. Até mesmo Kátia Abreu (TO) e Raimundo Colombo (SC), ligadíssimos a Jorge Bornhausen, foram a favor do afastamento do presidente do Senado. O "Alemão", eminência da legenda, apoia Sarney.

A tensão na bancada petista no Senado não para de aumentar. Paulo Paim (RS), Flávio Arns (PR), Eduardo Suplicy (SP) e Marina Silva (AC) estão inconformados com o apoio de Lula a Sarney. O desconforto atinge também os que foram enquadrados por Lula, como o líder da bancada, Aloizio Mercadante (SP), que sangra eleitoralmente. A ponto de a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) sonhar com uma vaga no Senado. A exceção é Delcídio Amaral (MS), firme e forte com Sarney.

Camicase

Na oposição, o líder do PSDB, Arthur Virgílio Neto, do Amazonas, que gosta de viver perigosamente, foi para um tudo ou nada que preocupa a cúpula da legenda. Desgastado por denúncias contra ele, o tucano está em sérias dificuldades eleitorais no Amazonas e sua longeva liderança na bancada começa a dar sinais de esgotamento.

Bye, bye, Brasil

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, começou o desembarque da instituição. Desde ontem, realiza uma maratona de visitas a empresários e políticos de Goiânia e Anápolis. Hoje, participa da Missa de Trindade, tradicional palanque político goiano. O périplo termina amanhã, com um almoço na Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg). A agenda inclui um ciclo de palestras para agosto, em Jataí, Rio Verde, Anápolis, Catalão e Itumbiara.

Freio de mão

Irritado com a antecipação da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), mandou recado a seu chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, para que não façamarola contra o secretário de Desenvolvimento Econômico, Geraldo Alckmin. Nada de campanha por enquanto.

Velho Chico

O jeito é reclamar com o bispo de Barra (BA), Luiz Cappio, aquele da greve de fome. O governo não liberou a grana dos projetos de recuperação ambiental do Rio São Francisco, enquanto toca as obras da transposição. Dos R$442,7 milhões previstos, foram empenhados apenas R$ 71 milhões este ano, dos quais somente R$ 1milhão foram efetivamente gastos.

NO CAFEZINHO

Bucaneiro - Na Operação Luxo, deflagrada na última terça-feira, 30, quatro empresários cearenses e um carioca foram presos por fraudes em licitações e outros crimes. Um dos detidos temporariamente era o comodoro do Iate Clube do Rio de Janeiro, Euclides Duncan Janot, almirante-de-esquadra reformado da Marinha, que disputou e perdeu o cargo de comandante da Força. A operação deixou em pânico muita gente no setor naval, porque pode ter desdobramentos na cúpula da marinha mercante.

Muita gente - Para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) o número excessivo de senadores incentiva o descontrole na gestão do Senado. Segundo o senador, é preciso cortar na própria carne para dar um bom exemplo aos marajás da burocracia da Casa.

Apelo - Uma delegação de deputados petistas atravessou o Salão Verde para hipotecar solidariedade ao presidente do Senado, José Sarney: o líder do PT, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e os deputados Marco Maia (RS), João Paulo Cunha (SP), José Mentor (SP), José Genoíno (SP), Luiz Sérgio (RJ) e André Vargas (PR).

Poeira - Candidata certa ao Senado pelo Rio Grande do Norte, a governadora Wilma de Faria (PSB) patina em terceiro na disputa pelas duas cadeiras abertas em 2010. Pesquisa encomendada pelo DEM nacional mostra a socialista como primeira opção de 22% do eleitorado potiguar. O senador Garibaldi Alves Filho (foto), do PMDB, está na frente, com 35%, seguido de perto do senador José Agripino Maia (DEM), com 34%.

Ovada - Vaiado nas comemorações da Independência da Bahia, na quinta-feira, o prefeito João Henrique (PMDB) põe a culpa no ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que insistiu que fosse às celebrações, apesar das ameaças de servidores grevistas. Um agitador chegou a acertar um ovo na cabeça do prefeito. Foi em cana na hora.

TOSTÃO

Palavras óbvias e ridículas


JORNAL DO BRASIL - 05/07/09

Uma das coisas que gosto no futebol é ver um time organizado, como os do Cruzeiro e do Corinthians.

As duas equipes possuem laterais que apoiam bastante e nem por isso atuam com três zagueiros ou com um volante excessivamente recuado, quase como um zagueiro. Existe um sincronismo no apoio entre os laterais, entre os volantes e entre os laterais e os volantes.

São dois times que sabem o momento de trocar passes e o de acelerar em direção ao gol. Ninguém joga a bola na área para ficar livre dela ou para fazer um gol em uma bola espirrada, como é comum em outras equipes, como o Grêmio no jogo de quinta-feira.

Bom esquema tático é o que tem jogadores com características ideais para executá-lo. Essa é uma função importante do técnico. Como se vê, dou importância aos treinadores. Só discordo quando dão excessiva importância a algumas condutas que não têm nenhuma ou pouca importância.

Por atuarem no Corinthians e no Cruzeiro, duas equipes organizadas, vários jogadores evoluíram bastante, como André Santos e Leonardo Silva. Essa é uma das razões de um atleta jogar muito bem em um time e muito mal em outro.

O Cruzeiro atua com três volantes, mas os três têm mobilidade. Não se limitam a proteger os zagueiros. Ramires, com frequência, se transforma em atacante. Não gosto de equipes, como a do Inter, que possui três volantes, que quase só marcam, e três na frente, que quase só atacam. Fica muito previsível.

Nunca entendi o fascínio que existe por Guiñazu. É chamado de monstro. Ele é um bom jogador, raçudo, que desarma bem e que toca a bola para o companheiro mais próximo. Nada mais que isso. Ótimo jogador de meio-campo é Elias, que está presente em todo o campo, com habilidade e eficiência, ou Marquinhos Paraná, que joga um futebol tão simples e conciso, que muitas vezes fica despercebido.

O Corinthians joga o melhor futebol coletivo do país. Disse isso mais de uma vez, semanas atrás. Já era assim desde a segunda divisão. Ficou ainda melhor depois que Mano Menezes colocou Jorge Henrique de um lado, e Dentinho de outro. Os dois marcam atrás e, rapidamente, se tornam atacantes. Isso não é novidade. Muitos times europeus jogam dessa forma. No Brasil, o Corinthians é o único que faz isso bem.

Quarta-feira, na chegada do Inter ao estádio, estava entre os jogadores o engenheiro motivador Evandro Mota, contratado pelo time gaúcho e por vários clubes brasileiros. Contam que ele deu a mesma palestra, no mesmo dia, para os jogadores do Fluminense e do Paulista, de Jundiaí, em um jogo final da Copa do Brasil. Por indicação de Parreira, o Fluminense dispensou o trabalho de psicólogos para contratá-lo.

Não quero dizer que o trabalho emocional com os jogadores deve ser feito apenas por psicólogos. Vários técnicos e outras pessoas do clube têm condições de fazer isso bem. Às vezes, traz benefícios. Sou contra o exagerado prestígio que muitos treinadores, dirigentes e parte da imprensa dão a essas palestras óbvias, algumas vezes ridículas, de motivação. Parece um show.

GOSTOSA


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INFORME JB

Na Antaq, a grande família

Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 05/07/09

Alvo de cobiçados contratos milionários e setor em ascensão, os portos do país estão nas mãos da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), e a Antaq está nas mãos de... José Sarney. O diretor-geral é o maranhense Fernando Brito Fialho, conterrâneo do cacique. Foi secretário no Maranhão durante o governo de Roseana Sarney e presidente da Administração do Porto de Itaqui (MA) no governo de José Reinaldo. Quando Fialho assumiu, começou a circular pela Antaq o lobista Clésio Martins, despachando direto do gabinete do procurador-geral – ele é muito ligado à empresa Rodrimar, de Celso Greco, que tem contratos no setor no Porto de Santos e denuncia concorrentes nas licitações. Clésio é o vendedor de facilidades da agência, casado com Vandira Peixoto – assessora de Sarney – e padrasto de Manoela Peixoto, assessora parlamentar da Antaq e ex-assessora de Roseana. Greco e Sarney foram padrinhos de casamento de Clésio e Vandira.

Limpa Tô vivo

A Antaq sedia reuniões para reorganização do órgão. Comanda o encontro a assessora do diretor, Carmem Margarida, indicada de Waldemar da Costa Neto (PR-SP) para a Procuradoria da agência.

Jader Barbalho, que mal aparece na Câmara, prepara seu retorno ao Senado.

Salto

O ministro do Esporte, Orlando Silva, será candidato a deputado federal pelo PCdoB-SP. Fica em seu lugar o secretário executivo Wadson Ribeiro.

Apagada

A CPI da Conta de Luz está sem energia. O lobby do empresariado é tão forte que, apesar de instalada a CPI, os partidos não completaram as indicações. E os que indicaram nomes não prosperaram.

Dudu da Luz

O autor, deputado Dudu da Fonte, ameaça ir ao STF para "ligar" a CPI. Nesse caso, se assim decidir o tribunal, Michel Temer deverá indicar os representantes.

Curto-circuito

Filadelfo dos Reis, ligado à Curuá Energia e Brasil Central Energia, é um dos que mais trabalham contra a CPI na Casa.

No chão

Filadelfo gosta de aviões. Chegou a encomendar um bimotor à Líder Táxi, mas teve problemas.

Negócio...

O Rio virou a porta de entrada para investimentos da China. O China Development Bank (CDB), com US$ 400 bilhões para investir, confirmou a abertura de um escritório na cidade.

...da China

O país asiático tem US$ 2 trilhões de reservas. Só para se ter uma ideia do tamanho disso, o Brasil, que vai bem em meio à crise, tem US$ 200 bilhões em caixa.

À mineira

É grande o esforço no PT de Minas para fazer Patrus Ananias e Fernando Pimentel dividirem o pão de queijo à mesa. Agendam até seminários em que os dois são palestrantes. Aguardemos.

Efeito Copa

São Paulo vai sediar, em 2015, a Convenção Mundial do Rotary Club International. A cidade concorreu na etapa final com outros destinos de peso, como Houston e Phoenix (EUA), e ganhou por unanimidade, com 13 votos.

É a crise

A crise no Senado respinga até em deputado. Chico Alencar (PSOL-RJ) foi a um mercado e pagou com cartão de... débito. "Eh, sei que não é o caso do senhor, mas crédito os políticos têm pouco mesmo", mandou a caixa.

Povo fala

Na farmácia, Chico ouviu: "Não quer levar um Demerol (analgésico) para seus colegas?".

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Onde parar


O GLOBO - 05/07/09

Ainda sobre a cara do Michael Jackson: fiquei pensando em como um dos grandes problemas da humanidade é não saber onde parar. É um defeito que nos aflige de várias maneiras, desde de não saber parar antes que um hábito se torne um vício até não saber parar de especular sobre a natureza do Universo antes de sucumbir à loucura. O Michael Jackson não soube onde parar de refazer a própria cara. Você e eu conhecemos muita gente que não soube parar de retocar a sua e também já ultrapassou a fronteira do grotesco irreversível. Faltou alguém para lhes dizer “Pare! Assim está bom. Nem um puxado a mais.”
A atual crise financeira mundial se deveu à incapacidade dos grandes financistas de Wall Street em reconhecer quando o lucro excessivo se tornava lucro obsceno. Ou seja, em saber onde parar. A questão da corrupção e da desigualdade extrema se resolveria se houvesse um dispositivo interior que alertasse quando o dinheiro roubado ou acumulado se tornasse demais, algo que avisasse “agora chega, nem um centavo a mais”. Porque, como se sabe, não são os milhões que corrompem e arruínam – é o centavo a mais. Aquele um centavo além do razoável, a perdição dos que não sabem onde parar.

Grandes artistas são os que sabem instintivamente onde parar. Pode-se imaginar um Velasques decidindo que uma das suas pinturas estava pronta. Que uma pincelada a mais – como o centavo a mais do corrupto e do rico gananciosos – faria tudo desandar. Ou um poeta depois do último retoque, da última micro-cirurgia estética no seu poema, lançando-o, certo de que não falta ou sobra uma palavra. É verdade que o instinto nem sempre ajuda. O Jorge Luis Borges dizia que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, para não ficar reescrevendo-os ao infinito. Mas Borges, que nunca fez um texto muito longo, foi um grande exemplo de quem sempre soube onde parar.

Nas especulações sobre as primeiras coisas do Universo saber parar também pareceria importante. Parar em Deus, criador do céu e da terra, e ficar por aí para prevenir maiores angústias, seria uma forma de sabedoria. Mas outros não se contentam com uma explicação teológica que relega o resto a um mistério que não nos diz respeito, e dizem que isto seria como decidir parar de pensar. Já outros...

Mas acho melhor parar por aqui.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


DORA KRAMER

Na rota da trilha torta

O ESTADO DE SÃO PAULO - 05/07/09

A pose de quem tudo pode, a todos enfrenta e qualquer dificuldade supera do alto dos seus 80% de popularidade, tem sido uma boa companheira do presidente Luiz Inácio da Silva nesses seis anos de governo em que ultrapassou obstáculos aparentemente intransponíveis e, pelos padrões vigentes, de forma até incompreensível.

Por essa capacidade de passar incólume pelas piores turbulências, Lula ganhou assento no panteão dos fenômenos. Só que não recebeu nada de graça. Trabalhou duro, se valeu do celebrado instinto acurado e, uma vez desvendado o mistério da conquista e da sustentação no poder, buscou sempre o lado da melhor aparência.

Ninguém como ele sabe se safar de situações adversas, mesmo que seja preciso criar um cenário virtual muito pouco coerente com a realidade, mas verossímil o bastante para deixar os adversários com as barbas de molho e fazer os aliados se sentirem protegidos debaixo de suas asas.

Daí a oposição limitar sua combatividade a terrenos de baixo risco e se encolher diante de situações que possam representar um confronto real com Lula. Daí também decorre a submissão do PT, mesmo ao custo calculado da perda de discurso, imagem e reputação, bem como se deve a essa supremacia o conforto dos envolvidos em escândalos quando são socorridos pelo presidente.

Lula tem a faca e tem o queijo, para ele as coisas sempre dão certo. Mas, é como deixou subentendido a senadora Marina Silva na sexta-feira, a propósito da insistência do presidente em obrigar o PT a se aliar a ele na sustentação do presidente do Senado, José Sarney: para tudo tem um limite.

Segundo a senadora, o partido leva em conta as conveniências do presidente da República, mas não pode deixar de considerar “o custo político para a sociedade” de determinadas atitudes. Marina Silva propõe algo simples. O exame frio das perdas e ganhos decorrentes da decisão a ser tomada. No caso do PT, a escolha entre aderir ao eticamente certo ou ficar com o moralmente duvidoso.

Não seria a primeira vez nesses seis anos de governo que o partido optaria pela segunda hipótese. Mas só o fato de ter deixado a questão em aberto mesmo depois da ofensiva (talvez um tanto simulada) de Lula em prol de um Sarney eivado de suspeições pessoais, não mais divisíveis com o colégio de senadores, indica mudanças no horizonte.

Evidentemente, a maioria da bancada petista no Senado, cujos mandatos estarão em jogo no ano que vem, percebe que essa encrenca é muito diferente. Não se trata de autodefesa, como no caso do mensalão. Trata-se de incorporar como suas as mazelas do PMDB, adversário do PT em vários Estados na eleição de 2010, e um aliado em hipótese alguma confiável no que tange à promessa de apoio no plano nacional.

Ademais, que poder sobre a decisão do PMDB pode ter um Sarney enfraquecido, sustentado por uma tropa de choque moralmente combalida? Destemido, confiante na própria natureza, o presidente Lula não parece fazer essa conta. Ainda que esteja apenas dançando conforme a música das aparências para demonstrar ao PMDB que fez até o fim a sua parte, Lula exagera. Queima gordura em praça pública.

Por exemplo: poderia ter firmado fileira ao lado de Sarney sem ressalvar que ele não pode ser tratado como “pessoa comum”. Tão convicto está da inviolabilidade de sua augusta figura, que o presidente não se dá à prudência de pisar com mais cuidado em campos há muito tempo minados.

A sorte pode até continuar a lhe servir como ótima companheira, mas conviria não ceder a certas ilusões e considerar que a vaidade extremada mais dia menos dia se revela traiçoeira. Basta que sinta o clima favorável. Algo assim como um presidente forjado na identificação popular passar boa parte do tempo fora do país, bater o pique 48 horas por aqui e embarcar para um fim de semana em Paris. Ou o presidente torcedor no país do futebol arriscar sua lenda de unanimidade ao levantar a taça de seu time, sem se importar com o ressentimento das torcidas dos perdedores.

Diversidade

A julgar pela justificativa da assessoria de Dilma Rousseff para a explosão de temperamento que levou o secretário executivo do ministério da Integração Nacional a se demitir sob alegação de maus tratos em público, a ministra tem dupla face.

Tanto incorpora dona intolerância quanto dá vazão a sua porção santa paciência. A primeira seria a descrita pelos assessores como aquela “intolerante com o despreparo, a corrupção e o desperdício de dinheiro público, que chega a ser mal-educada ao cobrar o cumprimento de tarefas”.

A outra seria a do bom convívio com o aumento das despesas do governo com custeio, o ínfimo índice de investimentos e que não reclama quando o suplente de senador Gim Argello, dono de um fornido plantel de processos na Justiça, inclusive por corrupção, é apontado como seu mais novo, ativo e fiel conselheiro.

CLÁUDIO HUMBERTO

“É a imprensa que está dizendo isso”
GOVERNADOR PAULISTA, JOSÉ SERRA (PSDB), AO NEGAR SER CANDIDATO À PRESIDÊNCIA EM 2010

HERÁCLITO ACUSADO DE USAR E OMITIR ATO SECRETO
O primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (PI), agiu para proteger senadores do seu partido, o DEM, na divulgação de “atos secretos”. Ele próprio teria utilizado esses atos para nomear dois assessores, mas os omitiu do relatório entregue a jornalistas. A revista IstoÉ, que circula hoje, localizou um desses aspones em uma praia de Pernambuco, onde mora, no horário que deveria estar no Senado.
DESCULPA DADA
O senador Heráclito Fortes negou as acusações e garante que seus assessores trabalham e são competentes.
ALDO, O RETORNO
O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) pode mesmo retomar o Ministério das Relações Institucionais, que ocupou entre 2004 e julho de 2005.
NOVO RG
Pela temperatura e pressão no Senado, o autor de Marimbondos de Fogo esteve até agora mais para Sainey que Sarney.
STOP, CRISTINA
A derrota nas parlamentares faz a presidente argentina Cristina Kirchner repensar sua reeleição em 2011. Não quer nova humilhação.
HOTEL DE LULA EM PARIS TEM “CAÇA AO TESOURO”
O legendário hotel Meurice, onde o presidente, d. Marisa e comitiva ficam de hoje a terça descansando em Paris, tem uma atração irresistível para as crianças: os netos de Lula poderão participar da “caça ao tesouro” no esplendoroso hotel e ganhar prêmios. O vovô receberá o dele na sede da Unesco, na capital francesa, pelo “incentivo à paz”. Junto, um cheque de € 122 mil, que dá e sobra para pagar a estadia.
EM PROMOÇÃO
A diária em promoção de dois quartos contíguos de luxo no Le Meurice, na esplendorosa Rue de Rivoli, é de € 1,4 mil, cerca de R$4 mil.
AI, MEU CARTÃO
As célebres marcas Gucci, Dolce & Gabana, Hermès, Chanel e Dior são vizinhas do hotel, perto da praça de La Concorde e do museu do Louvre.
FESTA CORPORATIVA
Além do aspone top-top Marco Aurélio Garcia, outros quatro ministros acompanham Lula no tour em Paris e depois na Itália.
SEM RESPOSTA
Ainda ecoa a pergunta sem resposta do senador Heráclito Fortes (DEM-PI) no plenário: “Tião Viana (PT-AC) presidiu o Senado por três meses, então por que nada fez para evitar ou punir as irregularidades?”.
ESPERANDO GODOT
Nunca um recesso parlamentar foi tão aguardado como este que se aproxima. Os senadores esperam que a fogueira em que arde a Casa diminua as labaredas com as férias de meio de ano.
FEBRE ALTA
Os amigos do ex-ministro Mangabeira Unger dizem que ele está mesmo disposto a enfrentar a candidata do ex-patrão Lula, Dilma Rousseff, na campanha para presidente. Comício de Unger deve ser engraçado.
ELES, NÃO
O Brasil terá em breve um Registro Unificado do Rol Nacional dos Culpados, de réus com sentença criminal transitada em julgado.
Autoridades com foro privilegiado continuarão dizendo “eu não sabia”.
DROGA DE PROMESSA
Servidores do Ministério do Meio Ambiente, Ibama e Instituto Chico Mendes querem de volta o colete (outro) da “reestruturação da carreira” que o ministro Carlos Minc vestiu na promessa. Ameaçam parar.
ALMA DO NEGÓCIO
Acaba hoje a visita ao Brasil do diretor do Departamento de Propaganda do Comitê Central do Partido Comunista da China, Liu Yunshan. Ele é puro êxtase com a formidável máquina de propaganda do Planalto.
VOZES DO ALÉM
“A crise não é de hoje”, ou “a crise não é minha”, “acontece há muito tempo” – justificam os senadores ectoplasmas que vagaram cegos, surdos e mudos no Senado por todos esses anos.
ALTA CREDIBILIDADE
Multinacionais transferiram para suas filiais no Brasil US$ 2,4 bilhões em maio, para investimento na produção. Em abril foram US$ 3,4 bilhões, consolidando a confiança internacional na economia brasileira.
NÃO TEM PREÇO
Agacielcard: não saia de casa sem ele.

PODER SEM PUDOR
COISAS DO ESPÍRITO SANTO
O ministro Sepúlveda Pertence presidia o Supremo Tribunal Federal, em 1995, quando foi ao Espírito Santo para participar de uma reunião com os presidentes dos tribunais de Justiça de todo o País. À sua chegada, repórteres locais o pressionaram a opinar sobre uma briga entre o presidente local do TJ e o corregedor-geral de Justiça. O mineiro Pertence encerrou a questão com bom humor:
– Em coisas do Espírito Santo, nem o Pai nem o Filho devem falar...

BAR ZIL

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Sindicalista criam esquema de ação política na Petrobras


- Folha: Senado movimenta conta sigilosa


- Estadão: Projeto prevê fechamento de empresa que pagar propina


- JB: Monumentos pedem socorro


- Correio: Cresce o número de jovens armados

Sábado, Julho 04, 2009

VALE A PENA ASSISTIR!

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA
J.R. Guzzo

Gente do ramo

"A burrice faz parte das doenças que não têm cura; por isso
mesmo, produz efeitos em qualquer época, como se pode
verificar com tanta facilidade no Brasil de hoje"

Pouco se ouve falar no Brasil, já faz um bom tempo, em intelligentsia. Quem ainda utiliza essa expressão, hoje em dia, ou sabe de sua existência? Como é possível lembrar, a palavra foi tomada em empréstimo do russo, para designar a classe de gente que em geral vive nos degraus superiores da sociedade e a quem se atribui a capacidade de pensar o que é melhor para todos, devido aos altos teores de sua instrução, preparo profissional e inteligência. Haverá, com certeza, boas razões para o conceito ter saído de moda e caído em desuso; professores de sociologia podem explicar isso bem melhor que um artigo de revista. É interessante notar, em todo caso, que no Brasil de ontem e de hoje, quando se pensa na produção de resultados práticos, aintelligentsia sempre pareceu competir em desvantagem com o que poderia ser descrito como a sua outra face – a burritsia. Trata-se de uma classe em tudo idêntica à primeira. Os que fazem parte dela também estudam muito, raciocinam "em bloco", armam estratégias e, ao fim desses esforços, sempre chegam à conclusão errada – ou, entre todas as decisões possíveis, escolhem sempre a pior.

Um dos grandes momentos da burritsia nacional ocorreu quando os governos militares, entre os anos 60 e 70, descobriram que um dos piores problemas do Brasil, no seu modo de ver as coisas, era a existência de estradas de ferro. Passaram, então, a erradicar ferrovias com a urgência de quem combate a saúva. Arrancaram trilhos do chão, fecharam estações e exterminaram companhias inteiras; ficaram só com os funcionários e a folha de pagamento. O resultado é que o Brasil perdeu de trinta a quarenta anos no desenvolvimento de sua estrutura ferroviária e hoje tem de correr atrás para recuperar uma parte, pelo menos, do atraso. Naturalmente, demora e custa caro. Para ficar num exemplo só, a Ferrovia Norte-Sul, que um dia ligará Goiás ao Maranhão, atravessando o Tocantins, começou a ser construída há 22 anos e ainda não conseguiu cobrir nem a metade do trajeto previsto; até hoje não transportou um único saco de soja, o que deveria ser um dos seus principais propósitos, e alguns trechos da sua parte sul nem sequer foram licitados para dar-se início às obras. Conclusão: o que já estava pronto não existe mais, e o que precisa existir não está pronto.

Os colossos do pensamento brasileiro também nos brindaram no passado com a extraordinária noção de que o país não teria futuro se não controlasse, do começo ao fim, todo o processo da produção de computadores – sem isso, o Brasil ficaria na dependência de "potências estrangeiras" numa área estratégica da tecnologia. E se num dia qualquer a IBM, por exemplo, não quisesse vender um computador para a gente? A solução seria projetar e construir aqui dentro o nosso próprio parque digital, e para tanto os produtores nacionais teriam de ser protegidos da competição internacional com a "reserva de mercado". Num período em que o mundo começava a andar na direção exatamente oposta, com a descoberta de que o importante não era juntar peças para montar um computador, e sim ter as melhores ideias para tirar proveito do seu funcionamento, o governo brasileiro imaginava que conseguiria legislar sobre o pensamento humano e proibir a sua livre circulação de um lado para outro do planeta. Hoje parece engraçado que uma coisa dessas tenha sido levada a sério, mas aí está: o Brasil oficial passou anos acreditando que computador era algo que tinha de ser controlado pelo governo, como a emissão de moeda ou o funcionamento dos semáforos nos cruzamentos de rua. Deveria, é claro, servir à segurança nacional e ser utilizado, pensando bem, apenas por engenheiros ou técnicos capacitados.

A burrice faz parte das doenças que não têm cura; por isso mesmo, produz efeitos em qualquer época, como se pode verificar com tanta facilidade no Brasil de hoje. Por trás dela há o princípio básico de que o mundo se divide em gente "do ramo", a quem cabe decidir os grandes temas de interesse público, e os demais, a quem cabe pagar pelas consequências; uma de suas marcas clássicas é a intolerância com a opinião de quem "não entende nada do assunto". A agravante é que o Brasil gosta de se considerar um país espertíssimo, onde frequentemente a "malandragem" é tida como uma forma superior de virtude. É o ideal para esconder os sintomas da moléstia. É, também, o caminho mais curto para o povão acabar no papel de otário, como comprova todos os dias o noticiário político. Quem sai ganhando, sempre, é a espertetsia.

JOSIAS DE SOUZA

04/07/2009

História secreta da simulação da renúncia de Sarney

Senador se finge de Jânio para voltar ‘nos braços do PT’

Plano envolveu conversas reservadas com Lula e Dilma

José Cruz/ABr

Brasília respirou, entre terça e quarta-feira, a expectativa de uma renúncia planejada para não acontecer. Moído por uma crise que o persegue a cinco meses, José Sarney pôs em marcha uma estratégia definida por um de seus aliados como “Plano Jânio Quadros”.

Jânio, como se sabe, renunciou à presidência da República, em agosto de 1961, seis meses e 23 dias depois de ter sido empossado. Em texto manuscrito, de cunho enigmático –“forças terríveis levantam-se contra mim”—, comunicou a decisão ao Congresso e voou para São Paulo.

Esperava que o Legislativo recusasse a renúncia e que o povo fosse às ruas clamar por seu retorno. Não ocorreu nem uma coisa nem outra. O resto é história. Sarney –“um Jânio sem álcool”, na definição ouvida pelo blog— simulou a renúncia para “voltar” a um cargo que lhe foge. Sem o inconveniente de deixar a cadeira.

Para livrar sua “presidência” das aspas que a conspurcam, Sarney tramou uma ressurreição “nos braços do PT”. Deu-se o seguinte:

1. Na manhã de quarta, Sarney recebeu em sua mansão, no Lago Sul, Aloizio Mercadante e Ideli Sanvatti. Foram contar a ele um segredo de polichinelo. Na noite anterior, a bancada do PT posicionara-se a favor do seu afastamento. Licença de um mês. Sarney refugou. Licença não tiraria. Ou o PT o apoiava ou renunciaria.

2. Sem que Mercadante e Ideli suspeitassem, Sarney armava a reação desde a tarde da véspera, quando a notícia sobre a cara virada do PT lhe chegara aos ouvidos. Em segredo, conversara pelo telefone com Lula, que estava na Líbia. Queixara-se da movimentação do petismo. Ouvira de Lula críticas acerbas ao PT. O presidente chamara de amadores os senadores de seu partido. E tranquilizara Sarney.

3. Lula acionaria, desde a Líbia, a ministra Dilma Rousseff e o chefe de gabinete dele, Gilberto Carvalho. Ordenou-lhes que agissem para deter o “amadorismo” do PT. Na noite de terça, enquanto a bancada petista apreciava o pedido de licença de Sarney –7 votos a favor e 4 contra– o “alvo” reunia-se secretamente com Dilma e Carvalho, na casa da ministra.

4. Sob orientações de Lula e de olho na preservação do apoio do PMDB à sua candidatura presidencial, Dilma acalmou Sarney. Pediu que aguardasse o retorno do chefe. Tudo seria solucionado, disse. Assim, Lula e sua principal ministra já haviam vendido a Sarney o apoio do PT, que Mercadante e Ideli diziam não existir.

5. Sarney tinha razões para escorar-se no governo. O plenário fervia. Três partidos exigiram a sua licença: PSDB, PDT e até o DEM. Sem o PT, sua “presidência”, já comprometida pelas aspas, poderia virar cinzas. Na conversa com Mercadante e Ideli, testemunhada por Renan Calheiros, Sarney, na pele de “Jânio sóbrio”, como que devolveu o problema ao PT e ao governo. Parecia jogar o seu futuro numa única mão de cartas. Mas a renúncia era teatro.

6. Quatro dias antes, no início da noite de um domingo frio de Brasília, um Sarney apegado ao cargo e seu escudeiro Renan Calheiros tiveram uma primeira reunião sigilosa com com Lula. Dera-se na Granja do Torto. Lula se preparava para a viagem à Líbia. Àquela altura, a fuga do DEM tinha a forma de uma ameaça, pendurada nas manchetes pelo líder José Agripino Maia. Sarney e Renan pareciam descrer. Pelo sim, pelo não, decidiram testar os limites do apoio de Lula. Não havia limites. O presidente prometeu-lhes apoio irrestrito.

8. Tampouco o PSDB, parceiro de oposição do DEM, levava a sério os arroubos de Agripino. “Não vão chegar a tanto”, dizia, na segunda-feira, o presidente tucano Sérgio Guerra ao dissidente peemedebista Jarbas Vasconcelos. Estavam no aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Retornavam de uma viagem a Estocolmo. Àquela altura, Agripino já havia costurado o rompimento.

9. O líder ‘demo’ entendera-se com os “formadores de opinião” de sua bancada. Até o sereno Marco Maciel apoiara a tese do afastamento de Sarney. A decisão do DEM foi vendida ao público como “consensual”. Meia-verdade. De 14 senadores, três saíram da reunião como votos vencidos: Eliseu Resende (MG), ACM Jr. (BA) e Heráclito Fortes (PI).

10. Primeiro-secretário da Mesa presidida por Sarney, Heráclito ponderou que o rompimento poderia empurrar Sarney para a reunúncia. Pintou um cenário de caos. Agripino atalhou a argumentação com uma idéia que sabia inviável: “Por que não uma candidatura própria, de Marco Maciel? Ficava claro que, além de romper com Sarney, o DEM já esboçava a sucessão. Agripino prevaleceu.

11. No meio da reunião do DEM, tocou o telefone. Era o tucano Sérgio Guerra. Queria que Agripino aderisse a uma proposta de última hora: a constituição de um grupo de senadores notáveis. Reformariam o Senado sob um Sarney manietado. Agripino já havia sido informado dos planos de Guerra por Renan, procurado antes dele. Reagira mal. Chamara a proposta de “tolice”. Nem atendeu ao telefone. Mesmo sem o assentimento de Agripino, Guerra foi à casa de Sarney. Levou a tiracolo os tucanos Alvaro Dias e Marisa Serrano.

12. Apresentado à tese da constituição do grupo de senadores insignes, Sarney simulou interesse. Disse que iria pensar. Os tucanos disseram-lhe que nem precisaria se licenciar do cargo. Bastaria um afastamento informal. Não queriam ver Sarney pelas costas. De quebra, sondaram-no sobre a disposição de instalar a CPI da Petrobras. “Parece que nem a oposição está interessada”, provocou Sarney.

13. O tucanato estava, sim, interessado. Sarney e Renan trataram de levar esse interesse ao caldeirão da crise como mais uma ameaça ao governo. Em seus diálogos, deixaram antever que, ao menor sinal de abandono, o PMDB ajudaria a abrir a CPI.

14. Lula manteve a mão estendida. Mal posou na base aérea de Brasília, na noite de quarta, discou para Sarney. Antes, telefonara para Ideli Salvatti, que lhe relatara um encontro ameno de Sarney com dez dos 12 senadores do PT. Só Marina Silva e Eduardo Suplicy ousaram repisar a tese da licença diante de Sarney. A bancada parecia ceder à pressão. Lula sentiu o pulso de Sarney e agendou uma conversa com ele. Seria na quinta. Foi transferida para sexta. O presidente quis, primeiro, avistar-se com o PT.

15. Lula testemunhou ao vivo o “amadorismo” que pressentira à distância. Cinco senadores petistas defenderam a licença de Sarney. Em resposta, reduziu a crise do Senado a uma “guerra política”. Lembrou 2010 e apelou à governabilidade. Encurralado, o PT reunirá sua bancada, de novo, na próxima terça. De antemão, Lula disse a Sarney, nesta sexta, que entregará a mercadoria que prometera. Se conseguir, José ‘Quadros’ Sarney ganhará sobrevida para conduzir opó Senado. Não se sabe para onde.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


MÍRIAM LEITÃO

Os sem-crise

O GLOBO - 04/07/09

Eles não demitiram, não perderam receita, estão ampliando negócios e mantendo investimentos. Alguns estão aumentando o número de funcionários. São o que se pode chamar de os sem-crise: setores que ainda não foram atingidos pela recessão ou que, por motivos diversos, estão se saindo melhor nessa difícil conjuntura. Não é fácil agrupá-los. Cada um tem um motivo para estar protegido da tempestade.

A rede Centauro, de material esportivo, planeja inaugurar mais 40 lojas este ano. A Avon, especializada em vendas diretas de artigos de cosméticos e beleza, teve crescimento de 12% na receita do primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano anterior. O número de revendedores cresceu 6%. O grupo Brookfield Gestão de Empreendimentos, que comanda 15 shoppings na região Sudeste, entre eles, o Rio Sul, disse que, dos seis segmentos dos shoppings, apenas o de lojas âncoras sofreu, pela restrição do crédito. No segmento recreação e lazer houve crescimento acima da média.

A rede Livraria Cultura teve alta de 18% na receita do primeiro semestre, na comparação com 2008. Mais uma superloja será inaugurada este ano e para 2010 a projeção é de abertura de mais duas. A Ambev teve alta de 32% no lucro líquido; de 10,7% na receita; e de 5,1% no volume de vendas no primeiro trimestre. A Coca-Cola garante que vai investir 16,6% a mais em 2009. No 1º trimestre, o volume de vendas da empresa aumentou 4%. A rede Boticário inaugurou 50 novos pontos de venda e diz que o objetivo é chegar a 100 até o final do ano. As vendas cresceram de 7% a 10%.

- Nossas vendas não dependem de crédito e temos produtos de várias faixas de preço - explicou o presidente do Boticário, Artur Grynbaum.

O que explica o bom desempenho numa crise? Primeiro, o varejo ficou mais protegido. Os mais pessimistas acham que ele pode ser atingido depois. Passou melhor quem não vende a crédito. Setor de cosméticos, produtos de beleza, material esportivo, produtos diet/light têm sempre vendido mais que a média.

Alguns foram beneficiados com efeitos colaterais da turbulência. É o caso do segmento recreação e lazer dos shoppings, de acordo com o diretor executivo do grupo Brookfield, Filipe Vasconcelos:

- Duas justificativas têm relação com a crise: menos gente viajando e queda no consumo de artigos mais caros, como eletrodomésticos. Mais gente ficou na própria cidade e acabou gastando fora de casa o dinheiro que seria usado em uma compra financiada.

A venda de livros também foi favorecida por isso, de acordo com o diretor comercial da Livraria Cultura, Fábio Herz. Livro tem baixo preço - se comparado a outros artigos - , é lazer e também ajuda em tempos de crise. Ele explica que, com um gasto de R$30 em um livro, a pessoa consegue ter lazer e entretenimento em casa por uma semana.

Além disso, em momentos de turbulência financeira, há aumento na preocupação com a formação profissional e qualificação, coisas que se conseguem nos livros.

O desemprego fez aumentar a oferta de pessoas disponíveis para venda porta em porta. Aumentou o número de revendedores da Avon.

- Passei a ter mais gente se dedicando às vendas e isso foi importante para o resultado. Todos os nossos investimentos para 2009 foram mantidos, inclusive nos gastos com marketing e publicidade - explicou o presidente da empresa no Brasil, Luis Felipe Miranda.

Os números da Associação Brasileira de Vendas Diretas (ABVD) comprovam. No primeiro trimestre houve aumento de 18,1% no volume de vendas e de 13,8% no número de revendedores.

- Parte de nossas vendas é baseada nas redes de relacionamento dos próprios vendedores. Em tempos de crise, eles acabam sendo beneficiados porque recebem mais ajuda dessa rede, que geralmente incluem amigos e familiares - explicou o presidente da ABVD, Lírio Cipriani.

Os alimentos tiveram queda de preço com a crise internacional e por isso o varejo vendeu mais. Com mais renda disponível pela queda dos alimentos, o consumidor também comprou mais bebidas. Prova desse efeito, segundo o vice-presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, Marco Simões, é que o auge do crescimento da economia mundial, no segundo trimestre de 2008, foi justamente o menor período de crescimento da empresa no país.

- Estamos crescendo a 22 trimestres seguidos. O de menor crescimento foi o segundo do ano passado, quando as commodities agrícolas estavam em alta e a inflação dos alimentos também. Agora, estamos vendo um efeito contrário, a inflação de alimentos está em queda e isso beneficia o nosso setor - afirmou.

Alexandre Loures, gerente de comunicação corporativa da AmBev, explica também que a antecipação do aumento do salário mínimo, de maio para março, acabou garantindo o consumo das famílias de baixa renda. Além disso, a empresa investiu na diversificação de produtos e embalagens, com preços que poderiam se adaptar melhor à realidade de crise.

É o que registramos na coluna de ontem. A crise se espalha de maneira diferente. A economia brasileira é como um organismo com várias temperaturas. Estes setores, ouvidos hoje, estão quentes.

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