Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

AUGUSTO NUNES

VEJA ON-LINE

FHC merece adversários menos boçais e aliados mais corajosos

9 de fevereiro de 2010

“Para ganhar sua guerra imaginária, o presidente distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos”, constata Fernando Henrique Cardoso já no primeiro parágrafo do artigo publicado no domingo. O que faz o governo Lula para “desconstruir o inimigo”?, pergunta-se linhas adiante. A resposta resume a tática que o pastor ensinou ao rebanho: “Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido”.

Surpreendida pela contundência do ex-presidente, que desmontou com menos de mil palavras vigarices reiteradas há sete anos, a matilha companheira foi à luta, desta vez sem o comandante. Como faz sempre que sabe com quem está falando, Lula achou melhor perder a voz. Enquanto ensaia o que dizer, falarão por ele os sarneys e os dirceus, os jucás e os berzoinis, os renans e os vaccarezzas, as dilmas e as idelis, os tarsos e os mercadantes, os destaques e os figurantes do elenco de filme de terror.

Não falarão por Fernando Henrique os aliados, incapazes sequer de compreender que, mais que um artigo-manifesto, acabam de ganhar a segunda parte do roteiro para a montagem do discurso que, segundo Lula, a oposição não tem. A primeira foi publicadoa há três meses, no artigo com o título “Para onde vamos?”. O texto demonstra que o autoritarismo popular instituído por Lula pode desembocar, num Brasil presidido por Dilma Rousseff, no que qualificou de “subperonismo”.

A previsão foi confirmada em dezembro pela aparição do Programa Nacional de Direitos Humanos. Nenhum tucano associou o artigo ao documento, que pretende chegar ao futuro pela estrada que termina no século 19. Se o horizonte próximo o inquieta, Fernando Henrique se mostra sem medo do passado, título do segundo artigo. Discurso, portanto, a oposição já tem. Falta agora descobrir que tem. Falta criar coragem para pronunciá-lo. Falta o candidato que tem jeito de candidato, modos de candidato, cara de candidato e vontade de ser candidato dizer que é candidato.

Tolerante, bem-humorado, substantivamente democrata, Fernando Henrique merecia adversários menos boçais e aliados mais corajosos. Há algo de muito errado com os partidos de oposição quando um grande governante tem de recordar ele próprio o muito que fez. Há algo de muito estranho quando FHC tenta impedir, sem a solidariedade ativa dos militantes, que se consume outra morte da verdade, sucessivamente assassinada desde janeiro de 2003.

Há mais de sete anos, patrulhas federais se valem da meia verdade ou da mentira grosseira para transformarem em herança maldita um legado de estadista. A cada avanço dos vendedores de fumaça corresponde uma rendição sem luta do PSDB, do DEM e do PPS. A oposição vive comprando como verdades milenares as mentiras que o governo vende. Lula, que precisou do segundo turno até para vencer Geraldo Alckmin, virou um imbatível campeão de votos. FHC, que o surrou duas vezes no primeiro turno, é apresentado como má companhia eleitoral.

Depois da vaia no Maracanã, Lula só testa a popularidade em institutos de pesquisa. Mas ficou estabelecido que ninguém foi tão amado desde Tomé de Sousa. Fernando Henrique anda pelas ruas sozinho entre cumprimentos e saudações da gente anônima,, foi mais de uma vez aplaudido no Viaduto do Chá. O Planalto espalhou que o país inteiro gostaria de vê-lo na guilhotina. A oposição acredita. É o Brasil.

As reações ao artigo escancararam o abismo existente entre a tibieza da oposição oficial e o ânimo combatente dos incontáveis brasileiros inconformados com a Era Lula que se movem e se agrupam na internet. Centenas de milhares de adversários do governo transformaram o artigo em bandeira e se juntaram à ofensiva de FHC. Sabem que não se ganha uma eleição sem confrontos nem se chega ao poder com mesuras. Sabem que disputa presidencial não é concurso de biografias, e que não é possível ser tão gentil com seitas primitivas.

Por tudo isso, aceitaram com entusiasmo o repto do Planalto. Lula quer uma disputa plebiscitária, certo? Por que não começar com um debate público entre Lula e Fernando Henrique? Pelo falatório governista, seria o duelo entre o pai dos pobres e o grande satã neo-liberal. É uma simplificação perigosa. Uma coisa é discursar num palanque, cercado de amigos que agem como meninas de auditório, sob os olhos de plateias amestradas. Outra é expor-se ao contraditório, à réplica, ao aparte. Lula foge de entrevistas com jornalistas independentes como o vampiro do crucifixo. Vai precisar de coragem para enfrentar um adversário que tem razão

CELSO MING

Chega pra lá


O Estado de S. Paulo - 09/02/2010

Ontem, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, desautorizou uma das mais importantes agências de classificação de risco, a Moody"s, ao afirmar, em entrevista à rede de TV norte-americana ABC, que jamais os títulos de dívida do Tesouro do país (T-bonds, também conhecidos por treasuries) perderão o rating AAA (cotação máxima).

Até aí já havia rolado uma longa história. Quinta-feira, em relatório, a Moody"s avisou que os T-bonds corriam o risco de serem desclassificados em consequência da forte deterioração fiscal dos Estados Unidos.

A Moody"s é uma dessas agências que se encarregam de examinar a qualidade de um título. Seu objetivo é avaliar as condições que tem uma dívida de ser paga pelo devedor no dia do vencimento, de acordo com os termos de contrato.

É perfeitamente compreensível que a mais importante condição que um devedor tem de honrar seus compromissos de dívida seja a saúde de suas finanças. No caso de um país, essa condição é determinada pela robustez fiscal. De acordo com a Moody"s, a relação entre a dívida do Tesouro norte-americano e a receita do governo federal recuará de 429% no ano fiscal de 2010 para 394% em 2020, nível excessivamente elevado que não dá mostras de melhora confiável.

As principais agências de classificação de risco, entre as quais está a Moody"s, têm sido fortemente criticadas por graves vícios de procedimento e por uma série de avaliações desastrosas.

O vício de procedimento é o de que as avaliações dessas agências são pagas por quem as encomenda, ou seja, os próprios interessados na qualidade dos títulos. As coisas são assim desde que esse serviço começou a ser feito e não se vê nenhuma iniciativa para mudá-las.

As avaliações desastrosas ficaram escancaradas a partir de setembro de 2008, quando as autoridades e os próprios bancos passaram a dar tratamento de ativos podres a títulos de dívida cuja excelência havia sido reconhecida até dias antes por essas agências.

Quando vem a público e afirma com todas as letras que o rating dos T-bonds, títulos que o mercado considera como referência (benchmark), pode ser rebaixado por causa das dúvidas sobre a capacidade de solvência dos Estados Unidos, a Moody"s parece empenhada em recuperar a credibilidade que ficou abalada. Rebaixar o T-bond significa reconhecer que centenas de outros títulos públicos e privados, como os da dívida da Alemanha, da Suíça, do Canadá ou da Microsoft (cuja confiança não foi até agora questionada), podem ter qualidade melhor do que a atual referência global.

Mas, se o secretário do Tesouro norte-americano avisa que o alerta da Moody"s é descabido e que jamais os treasuries perderão o selo AAA, mais uma vez as avaliações da Moody"s são duramente questionadas.

E Geithner não deixa de ter a lógica a seu lado porque, apesar da dívida gigantesca e do rombo orçamentário colossal, os Estados Unidos detêm a prerrogativa de emitir a quase única moeda internacional de reserva.

Quer dizer, se houver uma rejeição dos treasuries pelos credores, em última instância os Estados Unidos os resgatarão com emissão de dólares.


Confira

Não se metam - Os representantes de países da União Europeia dentro do G-7 rejeitaram os financiamentos e as regras do Fundo Monetário Internacional (FMI) para resolver o problema da Grécia.

O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäeuble, foi claro: "Esse não é assunto para o FMI."

É uma atitude que parece demonstrar que uma solução está a caminho do interior da União Europeia - apesar das proibições de transferência interna de recursos determinadas pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). Falta saber o que virá agora.

É A VIDA

NAS ENTRELINHAS

Na hora e no lugar certos

Alon Feuerwerker
Correio Braziliense - 09/02/2010



Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear. Onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde buscar proteção contra o jacobinismo? No PMDB, ora

Existe abundante material de análise sobre dois atributos do PMDB, pelo ângulo do desejo petista de continuar no poder. Nada a acrescentar sobre a importância do tempo de TV para a campanha, nem sobre o papel estabilizador na formação e manutenção da base parlamentar. Mas, da maneira como o quadro se desenha, talvez tão importante quanto venha a ser o PMDB no equilíbrio social e político (extraparlamentar) de um eventual governo Dilma Rousseff.

O desastrado — ainda que sincero — Programa Nacional de Direitos Humanos, por exemplo, reacendeu em segmentos da sociedade (Igreja, imprensa, Forças Armadas, agricultura) dúvidas sobre as convicções democráticas do PT. Vejam que não discuto aqui se o PT as tem. Discuto as percepções.

Com o PNDH, o PT marcou um ponto na base fiel e espiritualmente radicalizada. Reendossou, no plano ritual, uma certa utopia basista. Foi como se o Copom, de pé, cantasse a “Internacional” antes de se reunir para, seguindo o hábito, proteger a rentabilidade dos bancos. O problema é que o PNDH abriu larga frente de contenciosos e desconfianças. Talvez na contabilidade eleitoral faça sentido, mas uma coisa é eleger-se, outra é governar. Quem elege é o povo, mas quem pode impedir de governar é a elite.

Daí por que o PMDB talvez esteja diante da maior oportunidade histórica desde quando elegeu Tancredo Neves, no colégio eleitoral em 1985. Vai a caminho de consolidar-se como força política decisiva, e não apenas no parlamento. Se o PT (o PT, não Luiz Inácio Lula da Silva) é incapaz de construir uma hegemonia político-ideológica que deixe confortável o conjunto da sociedade, e se o PSDB não consegue apresentar ao país um líder, um ideário ou um discurso, o nacionalismo diluído e a história antiditatorial do PMDB podem colocar-se como o seguro necessário para a democracia representativa, a economia de mercado e o estado de direito.

Uma certa opinião pública, nascida na segunda metade dos anos 1980 e cultivada nas campanhas “pela ética na política”, movimentos que viram a ascensão do PSDB e do PT como paradigmas de modernidade e pureza, acostumou-se a desprezar o PMDB, desde sempre apresentado como a personificação do atraso. Mas tucanos e petistas chegaram ao poder, os escândalos se espalharam por todo o espectro e o lacerdismo tardio deixou de ter força material. Ainda que, como toda construção ideológica, resista no plano imaginário ou no do simples entretenimento intelectual.

O jogo hoje em dia é outro. Com uma parte da elite desconfiada de que o PSDB vai mesmo enfiar os pés pelas mãos, as antenas começam a rastrear possíveis caminhos para a relação com o poder a partir de 2011. E onde encontrar guarida para as demandas não propriamente petistas? Onde, sem Luiz Inácio Lula da Silva em palácio, buscar proteção contra o jacobinismo? Obviamente que no PMDB, o fiel da balança.

Para os peemedebistas, é o “estar no lugar certo, na hora certa”.

Nunca antes na história deste país viu-se o PMDB tão unido. Não é sem motivo.

Claro que Dilma poderia embaralhar o script, sendo ela própria o pós-Lula. Mas esse é um capítulo ainda por escrever. E é preciso saber se o PT vai deixar.

Piada de francês
O agente secreto de certo país europeu (não digo qual é, para não ser politicamente incorreto) desembarca no Tom Jobim, recolhe a bagagem, entra no táxi. E fica em silêncio. Até que o profissional ao volante finalmente faz a pergunta de praxe:

— Para onde vamos, senhor?

A resposta vem na hora:

— Você não acha que está fazendo perguntas demais?

A piada é velha, eu não tenho talento para contar piadas, mas ela serve para ilustrar o comportamento dos governos brasileiro e francês quando questionados por que os negócios militares entre ambos são tão caros, tão mais caros do que o habitual.

A expressão da moda é “interesse estratégico”. Que pode significar qualquer coisa, até mesmo coisa nenhuma. Adequado seria se o país ficasse sabendo de quem é o interesse estratégico e qual o tamanho dele. Mas anda muito difícil hoje em dia em Brasília achar um político que esteja disposto a colocar a mão nessa cumbuca, a destampar o caldeirão. Talvez o patriotismo esteja mesmo em alta na capital. Ou talvez haja muitos interesses estratégicos contemplados.

BENJAMIN STEINBRUCH

Um pouco mais ousado

Folha de S. Paulo - 09/02/2010


Nem o ritmo da economia está tão acelerado nem existe uma pressão inflacionária tão ameaçadora

O BRASIL vai crescer entre 5% e 6% neste ano? Sempre acreditei nisso, mas começo a ter dúvidas. A pressão do mercado e o viés conservador da política monetária indicam que vem aí uma nova rodada de alta dos juros.
Quando sobreveio a crise global, com a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, o BC procurou agir com cautela. Levou três meses para se convencer da gravidade da crise. Só em janeiro de 2009 começou a baixar os juros, num momento em que os demais bancos centrais já adotavam taxas reais negativas. Naquela época, a demora do estímulo monetário teve de ser compensada por medidas de política fiscal, principalmente o corte de impostos sobre bens duráveis e a redução do superavit primário do governo. Foram essas medidas que estimularam o consumo e iniciaram o processo de restabelecimento da confiança e a retomada econômica. Se fosse esperar pelo efeito da redução tardia dos juros, o país teria amargado uma recessão.
O viés conservador se manifesta agora novamente. A economia terminou 2009 com crescimento zero, embora a recuperação da atividade fosse nítida no último trimestre. Os estímulos fiscais já estão sendo retirados e serão zerados até o fim de março. Seria o caso, portanto, em benefício da cautela, de manter os juros inalterados até que se tenha maior segurança sobre o ritmo da recuperação. Na verdade, haveria até espaço para uma redução da taxa, hoje a mais alta do mundo em termos reais.
Desta vez, porém, parece que não haverá prudência. A ata da reunião do Comitê de Política Monetária, divulgada na semana passada, mostra que a elevação dos juros pode começar já na próxima reunião do Copom, em 16 de março. Justificativa: haveria uma retomada muito forte da atividade econômica, com riscos inflacionários, que estaria evidenciada no aumento da utilização da capacidade instalada da indústria.
A capacidade instalada poderia ser, de fato, um fator preocupante, se ela desequilibrasse a oferta e a demanda de bens, porque nesse caso haveria pressão inflacionária. Mas tudo indica que a indústria está ainda muito longe desse ponto. Os níveis de utilização de capacidade tiveram queda no início do ano passado, chegando a 78%. Depois, houve aumentos desse índice para até 81% no último trimestre, nível ainda inferior ao do primeiro semestre de 2008.
Além desse fator, no segundo semestre do ano passado prevaleceu uma clara tendência de retomada dos investimentos. Isso vai aumentar a capacidade instalada da indústria no médio prazo, tendência revelada pelo consumo de máquinas e equipamentos no último trimestre, que cresceu 18% em relação ao penúltimo.
Há, portanto, duas constatações: nem o ritmo da economia está tão acelerado quanto prega o mercado amante dos juros altos nem existe uma pressão inflacionária tão ameaçadora provocada pela escassez de oferta. O mercado para exportações continua fraco, e vêm da Europa notícias inquietantes sobre recaídas da crise na Espanha, na Itália, na Irlanda, em Portugal e na Grécia. Ou seja, a tempestade passou, mas ainda não há céu de brigadeiro.
A imposição de freios ao crescimento, portanto, é precipitada. Ainda que houvesse algum risco de a inflação ultrapassar um pouco o centro da meta -vale lembrar que o limite máximo é 6,5% em 2010-, seria recomendável apostar no crescimento. O momento vivido pelo país, de grande prestígio externo e confiança interna, permite um pouco mais de ousadia.

BENJAMIN STEINBRUCH, 56, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

GOSTOSA

ARI CUNHA

Movimento católico


Correio Braziliense - 09/02/2010



Uma televisão fazia estudo geral sobre o nascimento do movimento de 1964. Pelo que a história conta, o discurso de Jango na Central do Brasil fez nascer a atuação das senhoras católicas que deu início à luta pela liberdade do povo. O almirante Aragão escolheu data errada para se refugiar no Uruguai. Estávamos numa roda e fomos fazer reportagem sobre como viviam os exilados. O almirante Aragão chegou animado. Fomos almoçar uma parrilhada. Todos os exilados estavam exaustos. No almoço, o almirante Aragão disse: “O que está lá nós derrubaremos com um sopro”. Darcy Ribeiro contou toda história antes de se refugiar no país vizinho. Não queria ouvir patacoadas. E falou em português claro: “Por que o senhor não soprou?” A roda se desfez como corda de caranguejo. Não saiu ninguém atrás do outro. Fomos nos encontrar no Café Sorocaba, onde se reuniam os brasileiros e estavam com o peito feliz.


A frase que não foi pronunciada

“As unhas que o gato usa para pegar o rato ficam escondidas.”
» Manual do araponga.



Paranoá

»
Uma mancha branca na parte norte do Lago chamou a atenção no domingo. Carlos Eduardo Pereira, superintendente de Operações da ETE, explica. O sistema adotado pela Caesb para o tratamento do esgoto é o aerado. Como estava em manutenção, a pouca quantidade de ar para o processamento do esgoto foi compensada pelo aumento do uso de sulfato de alumínio. Formou-se daí a espuma que não causa danos.

Depredação

»
Enquanto os olhos se voltam para a Amazônia, continuam as instalações de empresas químicas nas serras catarinenses. Algumas em áreas de proteção permanente. Órgãos ambientais têm facilitado o acesso das indústrias. Exploração de jazida de fosfato, fábrica de fertilizantes e até produção de ácido sulfúrico. A região montanhosa é o que sobrou da Mata Atlântica na região, onde os rios do estado têm suas nascentes. A natureza não perdoa.

Por amor

»
Trabalhadores do carnaval brasileiro vão receber capacitação. O projeto nasceu no Ministério do Trabalho. Do luthier a costureiras, o projeto é dar mais atenção profissional. A notícia foi muito bem recebida pela população, que até hoje trabalhou como amadora do carnaval e pode trabalhar durante o resto do ano.

Baralho

»
Dilma Rousseff faz esforço para contar com Ciro Gomes no palanque. Passado na casca do alho, o paulista “cearencês” manteve a mesma postura. A resposta foi seca e limpa. “Há chances, mas no segundo turno.”

Padre Cícero

»
Padim padre Cícero participa da Igreja Católica pela primeira vez depois da proibição papal. Foi introduzido na Catedral do Crato. Homenageado por romeiros católicos, nada houve contra a decisão do povo, que se sentiu feliz. A sua presença está restrita à Catedral do Crato.

Lagash

»
Aniversário do primeiro restaurante com pratos árabes, o Lagash criou para os amigos e frequentadores a maior variedade de iguarias. Trata-se de coleção dos cardápios desde a fundação. Os festejos são em homenagem aos frequentadores.

Combate

»
A maneira mais sóbria de conter a propagação do tóxico não deve ser trabalho para a polícia armada. A infiltração está grande. Cargas altas chegam ao Brasil por várias direções. Serviço de inteligência é que deveria estar à frente. As prisões seriam mais fáceis e sem grandes alaridos.

Missão

»
Quando o Congresso se mudou para Brasília, criou a Comissão do Distrito Federal. Não havia apadrinhamento, nem as obras custavam mais do que o Brasil dispunha. A Comissão era controlada pelo Senado. Todas as decisões eram em favor da cidade, que recebia os mais novos moradores. Os legisladores desejavam que sumisse do mapa a bandalheira das outras unidades da Federação.

Haiti

»
Na crise do desespero, o Brasil colocou num avião da FAB o que era mais necessário à população do Haiti. Assim chegaram as primeiras 13 toneladas, recebidas com choro e alegria pelos necessitados. A tropa do Brasil, que lá representa a ONU, sentiu a amizade que eles sempre dispensaram ao contingente brasileiro.

História de Brasília
Pela primeira vez, presto, na vida, um serviço ao governo. Sou integrante da Comissão de Incentivo à Iniciativa Privada em Brasília e aceitei a missão com muito gosto. Quando rejeitei o cargo de tesoureiro, para que fui nomeado no governo passado, fi-lo na certeza de que estava cumprindo um ditame da minha consciência. Hoje, passo a prestar serviço à minha cidade, com satisfação e orgulho, que poucos sabem medir, e a independência de políticos, que todos conhecem. (Publicado em 24/2/1961)

FERNANDO CALAZANS

Alta temperatura

O GLOBO - 09/02/10


Nada mais do que 30 e poucos segundos de jogo, e o Resende meteu um gol no Botafogo, o único time grande que ainda brigava pela classificação na rodada de domingo, última da Taça GB. Susto no Engenhão, vaias da torcida em cima daqueles jogadores de sempre, susto até em quem (como eu) já tinha dado como certa a presença dos quatro nas semifinais. Mas foi apenas isto, um susto.
Logo o Botafogo se recompôs, e a cabeça do Loco Abreu pairou no estádio com três gols em bolas altas, como é o seu forte. Aí já estava resolvida a parada, ainda mais que o Resende teve um jogador expulso logo no primeiro tempo, facilitando mais ainda a tarefa nada difícil do Botafogo. Marcelo Cordeiro e Wellington Júnior fizeram os outros na goleada de 5 a 2.
Então o Botafogo já está preparado? Com Joel Santana, o Botafogo já ganhou, é claro, uma arrumação melhor, já dá ideia de um time de futebol, pelo menos na distribuição em campo. Até onde vai essa melhora, não sei, porque o adversário, como seus pares de menor porte, não permite fazer maiores avaliações.
No fim das contas, estão aí os quatro grandes clubes classificadíssimos para as semifinais da Taça GB, sábado de carnaval e Quarta-Feira de Cinzas, com a folia no meio para não deixar cair a temperatura.
Com um time misto e já classificado, não prestei muita atenção no jogo do Flamengo – nem no jogo do Fluminense –, mas deu para perceber que jogadores lá da Gávea, como Leonardo Moura e Juan por exemplo, continuam levando cartões a torto e a direito, por causa de faltas e atitudes bobas, infantis. Como há também companheiros com privilégios no Flamengo, não sei se a diretoria pode repreender esses jogadores de cabeça pequenina.
<< >>
O clássico paulista apresentou a vitória de 2 a 1 do Santos sobre o São Paulo, conquistada no gol feio de Neymar, com o recurso vulgar da paradona na cobrança de pênalti, e com o gol bonito de Robinho. Rogério Ceni acertou depois do jogo, ao dizer que Neymar aproveitasse bastante, porque uma paradona como aquela só pode no Brasil.
Estou lendo aqui uma grande celebração ao Corinthians pela goleada de 4 a 0 sobre o Sertãozinho, que é nada mais do que o 20º colocado no Campeonato Paulista, ou seja, o último, o lanterninha. O Corinthians é um dos líderes de torcida no Brasil, logo depois do Flamengo, como vocês sabem, e times de grandes torcidas, como Flamengo e Corinthians, merecem sempre grandes celebrações da mídia, mesmo quando vencem o último colocado.
Alguma implicância com o Corinthians? Nenhuma. O Corinthians foi, dos times brasileiros, o último que me agradou, no primeiro semestre do ano passado, campeão da Copa do Brasil. Agradou mais ainda do que o Flamengo em sua vitoriosa arrancada para o título brasileiro, quem sabe perdendo apenas para a saga da salvação do Fluminense.
Hoje, o Corinthians não me agrada tanto, mas me agrada, cada vez mais, seu jogador Jorge Henrique. Longe de ser o virtuose dos meus sonhos, Jorge Henrique é um baita jogador, na armação, na marcação, na criação e agora até na finalização. Desta vez, por mais incrível que isso possa parecer, Roberto Carlos também disse uma coisa certa: “Jorge Henrique é um grande jogador, pensa no time”. Joga pelo time, diria eu. Joga no campo todo. E vale, ele próprio, por uma boa exibição do Corinthians, mesmo sem adversário.

GOSTOSA

REGINA ALVAREZ

Cenário municipal

O GLOBO - 09/02/10


O crescimento forte da economia este ano, em tese, reforçará os cofres públicos em todas as esferas de poder, mas no âmbito municipal não se vê o mesmo otimismo do governo federal em relação ao cenário de 2010. A Confederação Nacional dos Municípios fez projeções já com base na arrecadação do Fundo de Participação de Municípios (FPM) em janeiro. E concluiu que a recuperação não é líquida e certa

No mês passado, como já divulgado, o FPM teve uma queda de 14,4% em relação a janeiro de 2009. Paulo Zuilkoski, presidente da CNM, explica que o resultado surpreendeu porque ficou bem abaixo da média histórica.

A arrecadação do primeiro mês do ano costuma ser forte, a terceira maior do exercício. A devolução recorde do IRPF — dividido com estados e municípios — contribuiu para derrubar o Fundo. As desonerações de IPI e IR, que sustentam os incentivos ao consumo, continuam no primeiro trimestre, o que também compromete a arrecadação.

Pelos cálculos da CNM, o FPM teria que crescer 11,7% em 2010 para fechar em R$ 56,5 bilhões, como prevê o Orçamento. Zuilkoski acha difícil e aponta as pressões pelo lado da despesa que podem complicar a situação dos municípios. O reajuste do salário mínimo, antecipado para janeiro, terá impacto estimado em R$ 384 milhões nas folhas de pagamento das prefeituras.

O Piso Nacional do Magistério é outra preocupação dos prefeitos. Terá que ser pago integralmente este ano, segundo a lei, e o valor indicado pelo MEC é de R$ 1.024. Tem ainda o piso dos Agentes Comunitários de Saúde, de R$ 930, em fase final de votação no Congresso, cujo impacto anual nas contas municipais é estimado em R$ 858,5 milhões.

Zuilkoski está pessimista.

Lembra que existe um hiato entre a recuperação da economia e a entrada efetiva dos recursos nos cofres públicos.

Diz que o governo federal continua fazendo “cortesia como o chapéu dos outros”, pois acaba de anunciar a redução da Cide, outro imposto partilhado, e o ano eleitoral só vai complicar ainda mais a situação das finanças municipais. É que dificilmente o Congresso conseguirá aprovar a regulamentação da emenda 29, que garantiria cerca de R$ 5 bilhões a mais por ano para os gastos com saúde dos municípios, permitindo uma folga de caixa para cobrir outras despesas. A regulamentação da emenda emperrou no Congresso no ano passado, mesmo com o lobby fortíssimo da bancada da saúde, porque embutia a criação da polêmica Contribuição Social para a Saúde, uma espécie de CPMF disfarçada. No ano eleitoral, a aprovação de mais um imposto tem mesmo poucos chances.

Fora do jogo

Em carta encaminhada à Petrobras, o TCU reitera que houve recusa da estatal no envio de documentos e sonegação de informações sobre as obras sob suspeita, liberadas pelo presidente Lula. O Tribunal diz que não participará de grupo de trabalho para discutir os problemas, como quer a estatal. “As providências necessárias ao saneamento das irregularidades dependem essencialmente de gestões e iniciativas da Petrobras”, diz a carta, que acaba com um alerta: o pedido de auditoria nos sistemas de custos da estatal, encaminhado ao TCU pelo Congresso, só poderá ser atendido se o Tribunal tiver acesso às informações, o que não acontece hoje.

À espera

O gráfico abaixo mostra a evolução dos preços do barril do petróleo e ilustra bem a dúvida dos investidores em relação a 2010. No primeiro semestre de 2009, houve forte recuperação nos preços, pautada pela melhora das expectativas, na medida em que o pior da crise ficava para trás. Isso fez o barril sair da casa dos US$ 30 e voltar para a casa dos US$ 70.

Desde outubro, porém, os preços estão relativamente estáveis, oscilando entre US$ 70 e US$ 83. De acordo com Luiz Otávio Broad, analista da Ágora Corretora, essa estabilidade indica que o mercado está em stand by. Ou seja, não consegue ter confiança para apostar num crescimento forte da economia mundial, que jogaria os preços para cima, mas também não quer cravar que haverá um novo ciclo de recessão.

— O mercado está sem direção — conclui Broad.

RUBENS BARBOSA

Falta vontade

O GLOBO - 09/02/10


Nunca houve na história deste país um momento em que a politização das decisões nas negociações comerciais externas tenha sido tão intensa, influenciada pelo Itamaraty e a reboque da política externa brasileira.

A politização das decisões nas negociações comerciais, contudo, não é uma excentricidade brasileira.

Até o começo dos anos 60, por mais de uma década, o Departamento de Estado, o equivalente do Itamaraty nos EUA, era responsável pela condução das negociações relacionadas com comércio exterior e investimentos, e pelo acompanhamento dos acordos comerciais.

Em 1962, por razões de política externa, o presidente Kennedy pediu ao Congresso a redução das barreiras tarifárias no comércio com a Europa, em rápido processo de integração econômica.

Como era de esperar, houve forte reação não só do setor produtivo e exportador, como também do Congresso, em vista da prevalência de considerações de natureza de política e não do estrito interesse comercial.

Nos EUA, ao contrário de outros países, inclusive o Brasil, a competência para legislar sobre comércio exterior é do Congresso, e não do Executivo.

Dessa forma, contra a vontade do Executivo, na época, presidido por John Kennedy, o Congresso aprovou o “Trade Expansion Act”, de 1962, que determinava que o presidente nomeasse um representante especial que conduzisse as negociações comerciais, de modo não politizado e sem a influência do Departamento de Estado.

Em 1963, esse representante comercial ganhou mais peso e acabou vinculado à presidência da república, com status ministerial, com a criação do USTR. Sucessivas modificações, ao longo dos últimos 40 anos, definiram a competência do órgão, que conta hoje com cerca de 200 funcionários e coordena 17 Ministérios e agências governamentais.

Legislação mais recente, de 1984, atribuiu ao USTR responsabilidades adicionais para formular e coordenar a execução de políticas relacionadas com o comércio de serviços, a coordenação de políticas comerciais com outros ministérios e para atuar como o principal porta-voz para a política de comércio internacional. É ainda o principal assessor do presidente para a coordenação dos interesses de outras áreas do governo nas negociações internacionais de comércio e de investimentos.

O exemplo dos EUA é relevante quando se examina essa questão no Brasil.

A queda de mais de 20% no comércio exterior brasileiro em 2009 não pode ser atribuída apenas à recessão internacional e à desaceleração do consumo de produtos brasileiros nos mercados. A falta de uma política voltada para o comércio exterior talvez seja a causa principal.

Ao contrário de muitos países, no Brasil, não há um ponto focal para a defesa dos interesses do setor exportador, que se ressente da falta de um comando unificado e de um processo de coordenação mais efetivo entre os diferentes ministérios.

A Camex, que seria o órgão competente para discutir e aprovar recomendação ao presidente para uma política que envolva todo o governo e seja executada de forma coordenada, não tem força política para propor, muito me nos para administrar ações concretas de apoio ao setor. Não se trata de falta de competência ou de capacitação do órgão para a tarefa, mas sim de inexistência de vontade política do Executivo para reformar o processo decisório, como foi feito nos EUA.

Será importante que o setor de comércio exterior se manifeste publicamente a favor de mudanças profundas no processo decisório, para fortalecer a Camex. A existência de um comando unificado com efetivo poder de coordenação pela criação da presidência da Camex, em nível ministerial, separada do MIDC e subordinada diretamente ao presidente da república, poderia ser uma alternativa.

A campanha presidencial oferece uma ampla possibilidade para o engajamento direto dos candidatos em relação a essa questão. Tendo em vista os interesses burocráticos envolvidos, somente a participação direta e a vontade política do presidente eleito poderão, em inicio de mandato, ter a força e a liderança necessárias para uma reforma dessa natureza.

RUBENS BARBOSA é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp.

O ESGOTO DO BRASIL

PAINEL DA FOLHA

Brigada de incêndio

Renata Lo Prete

Folha de S.Paulo - 09/02/2010

Programada em sua agenda oficial, a ida de Dilma Rousseff a Belo Horizonte ontem para a cerimônia na qual José Alencar (PRB) recebeu o título de "militante honorário" do PT foi cancelada de última hora, sem maiores explicações, na tentativa de acalmar o PMDB, desgostoso com a manobra do Palácio do Planalto que visa emplacar o vice-presidente como candidato ao governo de Minas em detrimento do peemedebista Hélio Costa, ministro das Comunicações e líder nas pesquisas. Além de permanecer em Brasília, a ministra tentou por telefone conversar com Michel Temer, cotado para ser seu vice. Os dois se desencontraram. Enquanto isso, Lula recebia Hélio Costa.

Não e não
Na contramão do agito, a família de Alencar, preocupada com sua saúde, não quer nem ouvir falar em candidatura ao governo.

Emissário
Presidente do PDT, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) visitou anteontem o ex-correligionário Anthony Garotinho (PR) para tratar de possível aliança no Rio: o partido indicaria um dos nomes ao Senado na chapa do ex-governador. Segundo Lupi, a própria Dilma lhe pediu que conversasse com Garotinho.

Fico 1
Em encontro ontem com Lula, o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) acertou sua permanência até o final do governo, abdicando de concorrer à Câmara.

Fico 2
O desejo do presidente, manifestado em conversas com auxiliares, é manter nos cargos toda a equipe econômica. Como o PMDB descarta dar ao neofiliado Henrique Meirelles (BC) o posto de vice na chapa de Dilma, o plano de Lula tem boas chances de se concretizar.

Melhor...
Enquanto o PSDB reza pela desistência de Yeda Crusius, o que permitiria ao partido apoiar José Fogaça (PMDB) logo de saída, o prefeito de Porto Alegre torce para que a governadora gaúcha leve até o fim a disposição de se submeter às urnas.

...com ela
Como a desgastada Yeda não deverá sobreviver ao primeiro turno, e sendo Fogaça o herdeiro natural de seus votos, o prefeito prefere passar sem o constrangimento de tê-la no palanque.

Fermento 1
Para entregar até o final do ano as 214 novas escolas técnicas anunciadas ontem durante o programa de rádio "Café com o Presidente", o governo terá de empregar um ritmo de obras inédito. Isso porque, desde 2003, Lula inaugurou 141 unidades.

Fermento 2
Segundo o Ministério da Educação, há outras 99 escolas técnicas em construção. A ideia é que o presidente "corte as faixas" em conjunto, como ocorreu no início do mês quando lançou 78 numa tacada só.

Figurino
O PT enviou circular para que suas deputadas usem trajes vermelhos, e os deputados, gravatas da mesma cor, na sessão de amanhã. De saída da presidência do partido, Ricardo Berzoini (SP) fará um discurso pelos 30 anos da sigla no plenário.

A postos
Após a polêmica sobre o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, a bancada do PT indicou como umas das prioridades a presidência da comissão que trata do tema. O rodízio nas comissões começa hoje. Pleiteiam o cargo Janete Pietá (SP) e Pedro Wilson (GO).

Cadeiras
O PT também deverá optar por manter duas comissões que considera estratégicas em ano eleitoral: Educação e Finanças. Uma delas ficará com Berzoini.

Pente fino
Na primeira reunião do ano da CPI do MST, amanhã, a oposição tentará aprovar a transferência dos sigilos fiscal e bancário de quatro entidades ligadas ao MST, entre elas a Concrab (Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil). Os dados estão na agonizante CPI das ONGs.

Tiroteio
Se o Alencar é tão boa solução para Minas, como sugere o Planalto, por que não o lançam à Presidência? Seria melhor do que a Dilma.

Contraponto

Reciclagem profissional
Em seu recém-lançado livro "Raposa/Serra do Sol, o Índio e a Questão Nacional", o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PC do B-SP) discorre sobre o movimento migratório que desidratou tribos na região Norte, com o deslocamento de parte de seus integrantes para áreas metropolitanas de outras regiões. A título de exemplo, o deputado conta que, durante uma viagem pelo interior, entabulou conversa com uma pataxó que vendia artesanato.

-E seu marido, onde está?- perguntou ele.

-Voltou para a roça.

Aldo continuou a prestar atenção, e ela completou:

-Cansou dessa profissão de índio...

MERVAL PEREIRA

Cartas na mesa

O GLOBO - 09/02/10


O presidente Lula já conseguiu uma primeira vitória na campanha presidencial, estabelecendo o enfrentamento direto entre o seu governo e o do ex-presidente Fernando Henrique. Ficou inescapável o plebiscito, a não ser que a campanha da senadora Marina Silva, ou uma eventual participação de Ciro Gomes, quebrem essa lógica que está colocada nas pesquisas de opinião

Não dá mais para separar os dois principais candidatos dos governos a que pertenceram.

Resta ao PSDB a tarefa de desconstruir certas afirmações de Lula, mostrando que são ou mentirosas ou fantasiosas. Há um vasto campo a explorar contra o autoritarismo do governo Lula, a esquerdização de certos setores do governo, que tende a aumentar num eventual mandato de Dilma Rousseff o aparelhamento do Estado, trazendo-lhe ineficiência.

E também convencer o eleitorado de que o seu candidato é mais bem preparado do que a candidata oficial para levar adiante um projeto de país que vem dando certo até agora.

Nesse ponto, entrará a parte boa da campanha, na opinião dos tucanos, isto é, a comparação não entre Lula e FH, mas entre Serra e Dilma.

O currículo do governador de São Paulo é forte o suficiente para levar vantagem contra o da candidata oficial.

E as comparações entre os dois períodos de governo não são tão favoráveis a Lula que impeçam uma disputa.

Alguns exemplos: no governo Lula, a redução da pobreza foi de 43% de 2003 a 2008, enquanto, no governo Fernando Henrique, ela foi de 18% com o Plano Real. E o aumento real do salário mínimo foi praticamente igual nos dois governos.

A média de crescimento do PIB dos oito anos do governo Fernando Henrique foi de 2,5%, enquanto a do governo Lula, em seu sétimo ano, está em torno de 3,5%, dependendo do número de 2009, que deve ser zero ou negativo.

E deve ficar nesse patamar, sempre abaixo da média do crescimento mundial, com o agravante de que os primeiros anos do governo Lula, antes da crise internacional, foram os mais prósperos do mundo nos últimos tempos.

Não é difícil uma boa campanha de propaganda mostrar a importância dos números na era FH, quando o mundo passou por diversas crises internacionais enquanto o Brasil tentava sair da hiperinflação e organizar sua economia.

O único político da oposição que tem coragem de enfrentar Lula é o ex-presidente Fernando Henrique, talvez porque já derrotou Lula duas vezes no primeiro turno, ou porque não tenha que disputar votos agora.

E certamente porque é o alvo preferencial de Lula nesses seus sete anos e pouco de governo. Toda vez que fala, Fernando Henrique provoca uma reação intensa do governo, e esse debate é bom para a democracia.

O PSDB tem que assumir esse debate sem vergonha de defender um governo que foi um marco importante no desenvolvimento do país.

Se, ao final das contas, o eleitorado achar que a ministra Dilma Rousseff é a melhor candidata para dar continuidade a esse processo de desenvolvimento que o país vem experimentando há 15, 20 anos, então ela será eleita.

O que o PSDB tem que lutar é para convencer o eleitorado de que os avanços de Lula, ao contrário do que ele bravateia, fazem parte de um processo que ele não interrompeu, ao contrário, aprofundou e aperfeiçoou em alguns aspectos.

O que o PSDB não pode é repetir 2002 e 2006, quando os candidatos, tanto Serra quanto Geraldo Alckmin, tentaram se distanciar do governo de Fernando Henrique Cardoso. Desse jeito não há como ganhar a eleição.

De um lado teremos uma candidata que tem orgulho do governo ao qual pertence, e de outro poderemos ter um candidato que tem medo de defender o governo a que pertenceu, e que foi um governo importantíssimo para o país.

Tem razão a ministra Dilma Rousseff quando diz que comparar os dois governos é importante para mostrar qual o caminho que cada candidato pretende seguir no futuro.

Mesmo que não pretendesse, o PSDB vai ter que entrar na campanha disposto a defender o governo Fernando Henrique, mesmo porque o ex-presidente já demonstrou que estará a postos para defender seu legado, mesmo que essa atitude seja considerada desaconselhável como estratégia política.

O ex-presidente Fernando Henrique está disposto a defender sua biografia, mesmo que o partido possa ser prejudicado eleitoralmente.

O que ele pode fazer para não prejudicar ele faz, como, por exemplo, aceitar que o documentário sobre sua cruzada a favor da descriminalização do uso de drogas leves, como a maconha, seja adiado para o próximo ano, para evitar eventuais utilizações eleitorais pelos adversários.

O polêmico assunto, que Fernando Henrique abraçou convencido de que o mundo está no caminho errado ao tentar combater o tráfico de drogas com a repressão policial, como na Lei Seca contra as bebidas alcoólicas nos anos 1930 nos Estados Unidos, já lhe valeu o reconhecimento como um dos cem mais influentes pensadores do mundo atual pela revista Foreign Policy.

Transformar Dilma na marionete de Lula, como fez ontem Fernando Henrique, pode ser um bom começo para mostrar que ela não tem condições de substituir o presidente mais popular do país nos últimos tempos.

Apesar do empenho de Lula, haverá sempre, no decorrer da campanha, espaço para que os candidatos meçam seus conhecimentos e demonstrem sua capacidade de liderança, seja nos debates televisivos, seja em aparecimentos isolados.

A candidata oficial será colocada em exposição pública e ficará claro para o eleitorado se ela é ou não uma simples boneca do ventríloquo Lula.

Se assim for identificada, como parece pretender o PSDB, dificilmente passará a confiança necessária para ser a presidente.

A não ser, é claro, que o que o eleitorado queira seja justamente isso, um terceiro mandato para Lula através de Dilma.

GOSTOSA

NELSON DE SÁ - TODA MÍDIA

Sem medo do passado

FOLHA DE SÃO PULO - 09/02/10


Sob o título acima, domingo dos jornais "O Globo" e "O Estado de S. Paulo", o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu que, "se o lulismo quiser comparar, a briga é boa. Nada a temer".
Ontem, manchete do "Estado", "Governo sai em bloco para responder a FHC". Depois, manchete no G1, no UOL e em outros portais, "Dilma não é líder, é reflexo de um líder, afirma FHC".

Sob o título "Um artigo certo no momento errado", o blog de Reinaldo Azevedo na Veja.com comentou: "Seu legado tem que ser defendido? Eu acho que tem. Mas há o momento certo para saltar para o primeiro plano". Por outro lado, sob o título "FHC-Serra, uma relação delicada", o blog de Luis Nassif no portal iG comentou: "Goste-se ou não, FHC é a única voz da oposição. Ocupou o espaço porque há um vácuo no PSDB que não foi preenchido".


À ÁFRICA

O "Financial Times" publica hoje "Brasil entra na briga pelos recursos da África", em que Richard Lapper relata as visitas de Lula e a multiplicação das exportações de alimentos e das importações de petróleo de Nigéria e Angola (quadro acima). Além da ligação histórica e cultural, o "modelo" de redução da pobreza aproximou o Brasil da África.
O jornal cita a posição da Odebrecht como maior empregador em Angola e a recente entrada da CSN em Moçambique, seguida nos próximos dias pela Vale na cidade de Tete, que vive uma "corrida do ouro". Roger Agnelli, da Vale, afirma que "a África é o futuro dos recursos naturais do mundo, junto com a América do Sul".

A RECONQUISTA DO IRAQUE

Em destaque no site de notícias internacionais Global Post, o correspondente Seth Kugel escreve que as "Exportações do Brasil para o Iraque explodiram no último ano e o frango lidera o ataque". Também entram na conta carne, açúcar, tratores e escavadoras

DE VOLTA A LOBATO
A Bloomberg destacou ontem que a Petrobras "está acelerando um programa de exploração no Recôncavo, onde o Brasil encontrou seu primeiro petróleo, em 1939".


ATAQUE AO EURO
Na manchete on-line do "FT", ontem, "Especuladores fazem aposta de 8 bilhões de euros contra o euro", sobre a movimentação com a moeda europeia.
Em entrevista ao site Exame, o economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neill, que criou o acrônimo Bric, aconselhou os investidores brasileiros a tomarem consciência dos "problemas da Europa e dos Estados Unidos", mas não espera "default" ou moratória de nenhum dos países do que chama de "Club Med" (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Aliás, afirma que "é muito inapropriado chamar esses países de Pigs".


ECONOMIA SE MOVE
Mohamed El Erian, que dirige o fundo Pimco, voltou a ocupar o alto das buscas de Brasil, em entrevista à TV Bloomberg, detalhando por que ele "prefere títulos do Brasil e moeda da China", destaque da agência. A razão principal é a "expectativa de que vão sobrepujar as economias desenvolvidas em riqueza". Do Brasil, ele gosta em especial da postura de "falcão" do Banco Central.
Já o "China Daily" destacou que Howard Davies, diretor da London School of Economics, declarou que a economia mundial "está se movendo para a Ásia muito rapidamente" e saudou a criação do G20, porque países como China, Índia e Brasil "agora formam uma parte imensamente importante da economia global".

AINDA NÃO
O colunista do "New York Times" Paul Krugman, Nobel de economia, escreveu sobre o "fim do reino da América como maior nação do mundo", ironizando: "Imaginávamos que, quando viesse, seria grandioso e trágico". E não como agora, com a paralisação do Congresso por interesses locais. "A América ainda não está perdida. Mas o Senado está se esforçando".

MENSAGEM
Na manchete do mesmo "NYT", grandes bancos americanos, "em mensagem aos democratas, enviam dinheiro aos republicanos". Em reação ao projeto de maior controle do sistema, apoiado por Obama, o mais democrata dos bancos, JP Morgan Chase, recusou apelos do partido e só deu dinheiro aos republicanos, para as eleições parlamentares deste ano.

ARNALDO JABOR

Durma-se com um pagode desses...

O GLOBO - 09/02/10

No início dos anos 60, como a política real era chata e dava muito trabalho (porta de fábrica, panfletos e, depois, coragem para morrer), nós, artistas "revolucionários", transferimos para a "Cultura" - com "c" maiúsculo - nosso sonho de mudança histórica. Iludíamo-nos com isso; o Brasil ia ser "salvo" por nós, em uma espécie de amanhecer iluminista. O presente era duro, mas o subdesenvolvimento nos santificava; nossa pobreza era uma forma de "superioridade" franciscana, mais autêntica do que os "falsos" problemas europeus, tais como a angústia do pós-guerra.

Dizíamos: "a angústia diante do absurdo é frescura de rico". A estética da fome nos enobrecia; a fome dos outros, claro.

O subdesenvolvimento era nossa única riqueza. O mundo era dividido em "centro" versus "periferia", numa espécie de bem e mal geográficos. Sentíamo-nos como mártires enfrentando o leão da Metro.

Usávamos essa divisão entre "colônia" e "metrópole" como pretexto para nos absolver e camuflar as doenças hereditárias de nossa formação, tais como: a cordialidade corrupta, o escravismo na alma, a falsa democracia. Todos os vícios de uma formação patrimonialista ficavam perdoados por nossa condição de "vítimas dos norte-americanos".

Achávamos até "bonitinha" nossa incompetência - um charme mestiço; achávamos a "doce" esculhambação brasileira quase uma forma de "originalidade" - uma poética da precariedade. O desrespeito à coisa pública era visto como atos da nossa simpática tribo de macunaímas, contra a caretice "organizada" dos países desenvolvidos - "os grandes culpados".

Falava-se de "revolução" como de Papai Noel. Não havia futuro algum para aquele janguismo mágico, coroado por frases bombásticas de Darcy Ribeiro, mas, mesmo assim, achávamos que ia rolar um socialismo dançante sem sangue, sem esforço, uma revolução doce e fácil "feita pelo governo" (até para a subversão dependíamos do Estado...). Poucos nomes nos foram tão apropriados como "esquerda festiva".

A ditadura veio como uma inevitável porrada histórica. Mas, mesmo durante a ditadura, os mais burros persistiram em seu destino de "vítimas santificadas" do imperialismo, agora confirmado pela "realidade objetiva". Falo de artistas e "nerds" porque na luta direta houve vários heróis suicidas.

Outros artistas e intelectuais aprenderam com a desgraça de 64, descobriram que o buraco é mais em cima e que não estávamos preparados para a tal "revolução".

Já tínhamos tido, é verdade, várias cepas de cultura: a antropofagia de Oswald, tínhamos tido o concretismo e seu fecundo formalismo, influenciando uma estética mais ambígua no Cinema Novo e no tropicalismo. Esses movimentos relativizaram as certezas nacional-populistas. Glauber, Caetano e Gil previram a globalização da economia. Mas, mesmo com esquematismos de um lado e complexidades de outro, a cultura brasileira continuou com um forte élan finalista, com um porto ao longe, um paraíso ao fim da linha.

Ou seja, de "esquemáticos" e "complexos", "dependentes" à Cebrap ou "onipotentes" à Iseb, continuávamos a cultivar um projeto de país, com um sebastianismo denegado. "Nova esquerda" ou "velha esquerda", tínhamos um encontro marcado com o futuro para nosso Estado-nação. Cultura precisa de esperança, mesmo se vã.

Agora, o trauma da globalização foi mais terrível para artistas e intelectuais esperançosos do que a ditadura de 64.

A ilusão de "futuro cultural" compensava nossa impotência política; agora, nem mais isso. Tiraram-nos a doce ilusão de "controle" da história e da "evolução dialética".

Estamos passando por um túnel de lixo, talvez a parte suja de uma "destruição criadora". A dor para minha geração é imensa, pois queríamos construir a utopia luxuosa de um país maravilhoso.

De repente, nos vimos como uma nação sem futuro claro e com um enorme presente de trilhões de informações banais. Começou a grande tempestade de conceitos sem rumo nos twitters e facebooks. A transcendência bateu as asas; ficamos apenas com o dia a dia; ficamos "vazios" como os norte-americanos que trabalham como formigas e cuja única utopia são o mercado e a aposentadoria. A "macdonaldização" do mundo nos tirou o charme de atores de um processo, mesmo como vítimas "exploradas". Hoje viramos fregueses de um mercado. E com a massificação geral do audiovisual, com a invasão de bagulhos culturais, com o acesso da ignorância aos "media", estamos assistindo à vitória da verdadeira cultura brasileira: o triunfo do analfabetismo democrático.

A sordidez nacional que a democracia exibe (na política e na cultura), ao mesmo tempo, nos anestesia e nos desperta (oh, contradição...). O Brasil está mais louco, mais vulgar, mais nu, mas também muito mais interessante do que há 40 anos, até porque, mesmo ignorantes, estamos mais conscientes de nossa própria chanchada. Mergulhamos nas irrelevâncias em busca de alguma resposta.

No entanto, tive um estalo: há uma nova transcendência sob essa bandalheira, uma totalidade feita de irrelevâncias.

A democracia nos trouxe uma revolução de rica vulgaridade. Temos a democratização de uma cultura de baixo consumo, um feio Carnaval que não sabemos ainda como criticar, a não ser como "brega", de nariz torcido. E temos de dormir com um pagode desses...

A verdade irônica é que nunca tivemos tanta produção cultural, de baixa extração (hélas!...), com uma euforia cretina, brutal, mas autêntica. Há uma grande "vitalidade" nesse cafajestismo cultural. Não sei em que isso vai dar, mas o futuro chegou: sujo, grosso, mas chegou. O povo se expressa, sem dirigismo nem utopias, no pleno exercício de sua sagrada ignorância. Apesar de eu estar com os cabelos em pé, no meu horror de "utópico deprimido", estamos vivendo uma verdadeira revolução cultural.

Como Orwell escreveu na ultima frase de "1984": "Finalmente, ele amava o Big Brother...". Eu também.

LEIA OUTRAS COLUNAS AQUI

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

O dono da dívida

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/02Q10


Governo e concessionárias de serviços públicos não tiram o olho de processo que vai chegando aos finalmentes no STJ: o que define o repasse do PIS e da COFINS aos consumidores.
Iniciado por um usuário no Sul, o caso tende a tornar-se paradigmático, com a decisão valendo também para casos semelhantes em telefonia fixa, energia, gás e água. O que geraria um buraco, no Tesouro, de R$ 33 bilhões.
A votação no STJ está 4 a 1 desonerando... o consumidor.


Dia de Madonna


Será amanhã, às 4h da tarde, o encontro entre Serra e Madonna, conforme antecipado sábado pelo Estado.
A conversa foi pedida pela cantora. E sua segurança, formada por israelenses, já fez visita de reconhecimento ao Bandeirantes.

Eletricidade

Indagado pela coluna ontem, sobre a repercussão de seu artigo no Estado, domingo, FHC mostrou-se algo cândido:

"Não consigo entender por que eles ficam tão nervosos com qualquer coisa que eu diga."


UM NO CRAVO...

Walter de Almeida Guilherme começou bem sua presidência no TRE paulista.

Abriu o discurso de posse, sexta, com parabéns a Serra, por ele chegar na hora. Após as gargalhadas, terminou cantando A Felicidade, de Tom e Vinícius.


...OUTRO NA ROSEIRA

Mas, nada como uma cerimônia depois da outra. Ontem, durante a inauguração da Biblioteca de São Paulo, o governador voltou à rotina - atrasou duas horas.
FHC não aguentou esperar. Foi embora antes.


REI DO BEM


Será dia 23 a avant-première de O Rei e Eu, promovida por Anna Schvartzman, do Centro Israelita de Apoio Multidisciplinar, e Ana Feffer, da Acredite - Amigos da Criança com Reumatismo.
Pela Takla Produções.

Top of the tops

Hoje certamente vai ter confusão no Hotel Fasano do Rio. Quem é que vai dormir na suíte presidencial?
Estarão lá "apenas" Beyoncé, Madonna, Alicia Keys e Gerard Butler.


Data vênia

Enfim, casa nova para o TJ paulista. Dia 22, desembargadores e juízes substitutos se instalam no antigo Hilton.

O aluguel, em torno de R$ 750 mil, é menor que o que pagavam na Paulista.


Ar limpo

Vai ser lançado hoje o livro Liderança em Tempos Difíceis, que narra a história de Décio Novaes.

O empresário da indústria química que lutou pela sustentabilidade de Cubatão.

Duas pedras

Roberto Tardelli, promotor do caso Suzane Richthofen, tem outra pedreira pelo caminho. Deve assumir o caso do assassinato do empresário Dácio Souza Junior na padaria Dona Deôla, em Higienópolis.

O Ministério Público vai recorrer contra a liberdade provisória do segurança Eduardo Soares Pompeu.

Diva, ventilador e estádio lotado

A exemplo de Madonna, Beyoncé, que está em turnê pelo Brasil e se apresentou sábado no Morumbi, adota esquema de segurança inspirado na linha esconde-esconde.

Como assim? Na sexta, mandou um carro estacionar em frente ao Hyatt sinalizando ser ela dentro do veículo. Engano, a diva já havia entrado. O fato se repetiu quando entrou no Morumbi, sábado, para o show. E depois, no backstage, a volta do mistério. Cadê a nova diva do pop? Está ali, não, não está... e eis que ela surge de ponto inesperado, com algum atraso.

Beyoncé entrou no palco às 22h15 com a pompa e a circunstância desenhadas por Thierry Mugler. Show extremamente bem acabado, a cantora deu demonstrações do que é aliar profissionalismo, técnica e tudo o mais que Deus lhe deu.

Alma? Com toda a parafernália, para que, se fez um show-espetáculo que levou o público à loucura? Em especial, a turma gay. Performática, a cantora chega à perfeição: linda, figurino impecável, fôlego impressionante, voz em plena forma e um telão de alta definição que a faz ainda melhor. Para ninguém do próximo século botar defeito, Beyoncé mostrou por que vendeu 6 milhões de cópias de seu último disco e ganhou 28 prêmios Grammy em sua carreira. Também soma 28 a idade da estrela - que, definitivamente, chegou para ficar nesta nova era dos astros multifuncionais pré-fabricados.

Antes do espetáculo, porém, na pista Vip (ingressos a R$ 600 na bilheteria e R$ 900 nos cambistas) a banda e os dançarinos fizeram questão de assistir ao show de Ivete Sangalo. Além de registrarem o momento com fotos, apontavam para o braço - mostrando como estavam arrepiados com a vibração do público.

No melhor estilo "low-profile", de havaianas, a equipe se esbaldou no rebolado axé. Ashley Everett, uma das dançarinas de cabelo black power, que não sai do lado de Beyoncé durante o show, perguntou à coluna: "Como faço para dançar igual a ela?"

Já a cantora baiana, irônica, tirou fita-crepe da marcação do show do Beyoncé e soltou: "Vou vender isso aqui no Twitter, vai valer uma fortuna..."

Ainda na pista vip, Simoninha furou fila para comprar cerveja. Na sequência, uma moça tentou fazer o mesmo e foi retirada pelos policiais.

Houve quem preferisse ficar longe dos privilégios. Raí - que tem camarote próprio no estádio - optou por assistir ao show na pista comum. E, depois do espetáculo, a dona da noite não se encontrou com ninguém.

Pergunta que não quer calar: o que seria de Beyoncé sem os fortes ventiladores que movimentaram sua cabeleira durante todo o show?

Na Frente

Quem tentava ontem costurar encontro com Beyoncé, no Rio, era Sergio Cabral.

Maria Alice Milliet abre a mostra Lothar Charoux, Entre Vida e Obra. Dia 11, na Galeria Vitrine Paulista.

Renata Carvalho, promoter da Brahma, encontrou-se em Los Angeles com Jessica Alba, Eva Mendes e Chris North - e tem mais visitas pelo caminho. Tarefa? Encher de celebridades o camarote da Sapucaí.

A Vai-Vai baterá bumbo contra exploração sexual infantil. Amanhã sai em passeata a partir da Praça do Patriarca.

Jorge Caldeira lança o livro História do Brasil com Empreendedores. Hoje, no Bar Balcão.

Comentário de um petista sobre as chuvas que tanto atormentam Kassab: "Há males que vem para o... DEM".

ELIANE CANTANHÊDE

Gênios incompreendidos

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/02/10


BRASÍLIA - Lula jogou a isca, e FHC, cansado de engolir sapos, comeu. A vaidade falou mais alto do que o pragmatismo, e o ex-presidente entrou na campanha de 2010 comparando o seu governo ao do sucessor e deflagrando o que Lula mais queria: uma campanha plebiscitária. Só falta saber o que Serra acha disso.
No domingo, FHC usou um artigo para mostrar as vantagens das privatizações da Vale e das teles e os avanços na área social, além do sucesso da estabilidade econômica.
No final, se disse pronto para o confronto de resultados: "A briga é boa, nada a temer".
Ontem, os jornais publicavam versões de que FHC teria dito que Dilma não passa de um boneco manipulado por Lula. O Planalto e o PT adoraram. Preferem o choque Lula-FHC ao Dilma-Serra. Ainda por cima, acham que FHC ajuda a divulgar a candidata deles.
Já que é hora de comparações: enquanto a campanha de Dilma fala a mesma língua, a da oposição é uma salada de posicionamentos, provocações, táticas e estratégias.
Cada um por si.
O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, avisou que, se eleito, Serra vai botar a economia de ponta-cabeça. Agora, FHC cede à estratégia dos adversários. E, no meio tempo, o próprio Serra quer trocar "Polícia Militar" por "Força Pública", só para irritar os milicos.
O "andar de cima" (com licença, Elio Gaspari) se assustou com Guerra, o "andar do meio" foi liberado para a batalha marqueteira de números, e os militares, que têm capacidade de multiplicação de votos no "andar de baixo" pelo país afora, passam a ter tanto medo de Serra quanto já tinham de Dilma.
Tem alguma coisa errada com esses tucanos ou eles são uns gênios de eleição. Tão geniais que só eles mesmos conseguem entender.
Mesmo sem se entenderem.

GOSTOSAS

JOSÉ SIMÃO

Carnaval! Vai-Vai indo que eu não vou!

FOLHA DE SÃO PAULO - 09/02/10


E em São Paulo abre-alas vai ser abre-águas. E porta-bandeira vai ser porta-goteira. Rarará!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Direto da Bahia: "Bloco Espada Preguiçosa atrasa pra sair". Rarará! E pra que sair?
E uma amiga estava na praia em Fortaleza quando viu a faixa "KLB no Bar Mucuripe". Como ela é fã do KLB, lá foi ela. E quando chegou: KLB era um bloco de carnaval: Ki Lapa de Bucho! Rarará!
E sabe como o Lula calculou o salário mínimo de R$ 510? Pegou uma garrafa de 51 e multiplicou por dez. Rarará! E mais piada pronta direto de São Paulo: homem rema com vassoura sobre caiaque na rua GANGES! Ganges? Sampa virou a continuação de "Caminho das Índias"?
E diz que o Kassab vai inaugurar uma nova montadora: HYNUNDAI! Rarará! E o Carnaval não vai ter alegorias mas ALAGORIAS! E abre-alas é abre-águas. E porta-bandeira vai ser porta-goteira. Um verdadeiro carNAVAL! Moral do verão em São Paulo: o limpador de para-brisas do meu carro tá estressado.
E o Carnaval? Contagem regressiva. A Grande Festa da Esculhambação Nacional! No Recife já saiu o bloco "Metido a Corno!" Olha, eu já vi metido a rico, metido a besta, mas metido a corno só no Recife.
E o senador da oposição Arthur Virgílio patrocina um bloco em Santarém do Pará chamado "Eu Não Dou o Meu Cuati!" É autobiográfico? Rarará! Aí não é mais questão de oposição, mas de posição. Carnaval no Brasil é só esculhambaria: mistura de esculhambação com putaria. No Brasil tudo tem duplo sentido. Graças a Deus!
E os dois pensamentos básicos de todos os carnavais: transar com uma mulher só é trair todas as outras. E se a Gretchen soltar um pum num saco de confete, é carnaval o ano inteiro. Ueba! Em São Paulo o Carnaval cai na terça-feira. No Nordeste o Carnaval cai no verão! Cinco dias é pra amador!
A partir de hoje, liga a televisão e chuva de bundas. Nada contra. Pelo contrário. Mas só bunda? O que o brasileiro tem contra o resto do corpo? Rarará! E quem tem bunda pequena que vá passar o Carnaval na Dinamarca! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Colombina": companheira que nasceu no país das Farc. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E Vai-Vai indo que eu não vou!

ANCELMO GÓIS

BOM MENINO

O GLOBO - 09/02/10


Eduardo Paes vai espalhar mijódromos iguais aos da Holanda pelo Rio. “Não aguento mais mijões”, diz o prefeito.
Será uma das primeiras tarefas de Carlos Roberto Osório na nova Secretaria da Conservação. O secretário Sérgio Dias, de Urbanismo, deu a ideia de chamar o mijódromo de “Bom Menino”. É alusão àquela velha música de Carequinha “O bom menino não faz xixi na cama...”, lembra?
MALDADE
Lula convocou uma reunião da coordenação política para a Quarta-Feira de Cinzas.
SINAL DE ALERTA
O PIB de 2009, o ano da marolinha, será divulgado pelo IBGE dia 11 de março.
Há relatos de pressões oficiais para que o número não seja negativo – o que não ocorreu em nenhuma crise enfrentada na era FH. A conferir.
NO MAIS
O Brasil inteiro admira o vice José Alencar e se emociona com sua luta pela vida. Mas a ideia de Lula e do PT de lançá-lo ao governo de Minas, gravemente enfermo, é, mais do que oportunismo político e exploração da bondade popular, uma crueldade. O Planalto está abusando do uso da esperteza na luta eleitoral. E, como se diz lá mesmo, em Minas, quando a esperteza é demais, engole o dono.
MÃO AMIGA
Do economista Sérgio Besserman, carioca gaiato, a uma amiga que o convidou para escreverem juntos um livro de autoajuda:
– Livro de autoajuda é besteira. Sexo de autoajuda, ao menos, dá uma mão para as pessoas...
FUNK CENSURADO
O funk e o rap foram banidos do carnaval de São Lourenço, MG, pelo decreto 3.732 do prefeito da cidade, José Neto. Segundo Neto, a ideia é valorizar a folia tradicional, com marchinhas, e também evitar a violência:
– Para ter funk ou rap, precisaríamos de mais segurança. A cidade é turística, temos de nos preocupar com confusão.
É. Pode ser.
VOLANTE E BEBIDA
O Ministério das Cidades inicia amanhã a sua campanha de carnaval.
Tema deste ano: “Que lembrança você quer ter do carnaval?”. A ideia da campanha, de R$ 100 milhões, é falar da culpa que o motorista sente depois de causar um acidente.
MORRO DA CONCEIÇÃO
Beyconcé e Alicia Keys gravam hoje, às 18 horas, um clipe juntas no Morro da Conceição, na Praça Mauá, no Rio.
TRIBUNAL VERDE
O TRT-RJ encomendou 4 mil canecas de louça para distribuir aos servidores e magistrados.
A ideia é acabar com o uso anual de 2 milhões de copos plásticos. A caneca, patrocinada pelo Banco Real, terá esta frase estampada: “Mudar hábitos para preservar”. Eu apoio.
CASO MÉDICO
O calorão de sábado no Rio fez João Bosco, o cantor e compositor, baixar no hospital.
Nosso João estava na casa do amigo João Donato, o grande músico, quando se sentiu mal. Mas ficou tudo bem.
BARREIRA FISCAL
Em sete dias apenas, a Operação Barreira Fiscal, contra sonegação no
Rio, aplicou 572 multas em empresas que não recolheram impostos sobre mercadorias transportadas.
Foram mais R$ 2 milhões no caixa do governo do estado, valor é igual ao arrecadado com multas ao longo de 2008 todo.

GOSTOSA

LUIZ GARCIA

Os gays e a farda

O GLOBO - 09/02/10

O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho é certamente um homem honesto e corajoso, e está pagando por isso. Indicado para ministro do Superior Tribunal Militar, submeteuse à sabatina de praxe e de lei na Comissão de Justiça do Senado. E fez uma declaração tão sincera quanto polêmica: para ele, homossexuais não podem integrar as Forças Armadas, porque “soldados não obedeceriam a comandantes gays”.

É opinião que merece ser discutida — como, de resto, já está sendo. Se o general tivesse razão na sua premissa sobre a atitude da tropa, militares homossexuais representariam risco permanente de indisciplina numa corporação que depende de respeito integral e permanente da disciplina para funcionar.

Mas a situação não é tão simples e clara quanto parece a Cerqueira Filho.

Em primeiro lugar, o direito à opção sexual é reconhecido pela sociedade. Além disso — e esse talvez seja o dado crucial na avaliação das convicções do general — não existe um padrão universal, único, de comportamento homossexual. Há cidadãos que procuram ser e parecer tão femininos quanto possível. Porque prefeririam ter nascido mulheres, ou, sei lá, por sentirem necessidade de exibir, ou caricaturar, comportamentos e atitudes femininas.

Seja qual for a sua motivação, parece ser inteiramente razoável admitir que essa postura seja incompatível com uma carreira militar.

De resto não se conhecem casos de travestis tentando sentar praça ou se matricular nas Agulhas Negras. Os “comandantes gays” temidos pelo general (e por muitos de seus companheiros de farda) simplesmente não têm esse perfil.

São homens que têm atração por homens.

É uma forma de identidade sexual não melhor nem pior, mas bem diferente daquela das almas femininas aprisionadas em corpos masculinos.

Tem razão o presidente do STM, Marques Soares — um civil, mas isso está longe de vir ao caso — ao dizer que não comete crime algum o militar que não praticar publicamente ato libidinoso, homo ou heterossexual. Em suma, para usar expressão antiga, o militar tem que se dar ao respeito. Vale para o recruta e para o general.

O mesmo Marques Soares pode não estar certo quando diz que o general não tinha intenção de discriminar homossexuais. Cerqueira não fez outra coisa ao generalizar, afirmando que “soldados não obedeceriam a comandantes gays”. Ele parece pressupor que a opção sexual em si, e não o caráter e o comportamento público do militar, já bastaria para fazê-lo indigno da carreira militar.

Toda organização militar precisa ter normas e critérios visando à preservação da disciplina. Ninguém discute isso. Mas parece ser absurda e preconceituosa a premissa de que a opção homossexual de um militar representa inaceitável risco de escândalo e desordem.

CLÁUDIO HUMBERTO

“É o mesmo que o impacto de um pingo de chuva no lago”
MINISTRO HÉLIO COSTA, SOBRE O IMPACTO DAS CRÍTICAS DE FHC A DILMA ROUSSEFF

CPI DO PAN SUPERFATURADO PODE RESSUSCITAR
Faz-se pizza da CPI do Congresso para investigar o superfaturamento nos Jogos Panamericanos do Rio, estimado pelo TCU em R$ 4 bilhões. Parlamentares retiraram apoio e a CPI foi arquivada. Por coincidência, uma sobrinha do senador tucano Álvaro Dias (PR) foi nomeada para um cargo no Ministério do Esporte, mas ele diz que nem sabia disso e mal fala com ela. E agora o senador promete tentar ressuscitar a CPI.
NOVA GERÊNCIA
Valéria Dias perdeu o cargo no Senado por vínculos de parentesco. Agora é gerente de projetos do Ministério do Esporte, no Rio.
NEGÓCIOS NA ÁFRICA
A sobrinha de Álvaro Dias esteve pelo Brasil em uma feira de negócios do futebol na África do Sul, segundo revelou o Blog do Cruz.
COM AMIGOS ASSIM...
Defensores do terrorista Cesare Battisti atribuem “às férias” o número baixo de assinaturas na petição on-line a Lula para asilar o bandido.
ALMOÇO GRÁTIS
Ainda sobre o fracasso de bilheteria do filme Lula, o filho do Brasil: o brasileiro ama o presidente, desde que não tenha que pagar ingresso...
PETROBRAS REPASSOU REDUÇÃO DA CIDE À GASOLINA
A Petrobras nega qualquer reajuste da gasolina em suas refinarias. A última alteração de preços foi uma redução de 4,5% em 9 de junho do ano passado, segundo informou a estatal. A BR Distribuidora repassou à rede de postos de bandeira Petrobras em todo país – a redução de R$ 0,08 por litro de gasolina determinada pelo governo para a alíquota da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico).
MÉRITO SUBJUGADO
De 3 a 5 de março, o STF promove audiências públicas sobre as cotas que substituem o mérito pela cor da pele, no acesso à universidade.
SÓ COM INGRESSO
Nos 30 anos do PT do Paraná, só quem tinha ingresso distribuído por políticos petistas pôde ouvir Dilma Rousseff, em Curitiba.
PRAZO FATAL
Termina hoje o prazo para o deputado Geraldo Magela confirmar se vai disputar com Agnelo Queiroz a candidatura do PT ao governo do DF.
RENÚNCIA DE MANDATO
A inscrição “renúncia de mandato” no site do STJ, ontem, fez muita gente comemorar a renúncia do governador José Roberto Arruda. Mas era as advogadas Luciana Gonçalves e Elise Albuquerque renunciando à defesa do deputado Leonardo Prudente, aquele da grana nas meias.
CADEIA NELES
Não basta prender os policiais de Goiás recrutados para o serviço sujo de instalar escutas ilegais nos gabinetes de deputados de oposição, na Câmara Legislativa do DF. É preciso prender o mandante também.
ÁGUA E ÓLEO
Tem um problema a sugestão da senadora Lúcia Vânia (GO), de fazer de Tasso Jereissati o vice da chapa tucana, neutralizando Ciro Gomes: José Serra não suporta o cearense. E é plenamente correspondido.
MEUS SAIS
O vice-governador tucano de Santa Catarina, Leonel Pavan – envolvido em escândalo que a Polícia Federal e o Ministério Público apuram - está num spa em Gramado (RS), “por recomendação médica”.
É FRIA
A nevasca em Washington foi tão intensa ontem que o brasileiro Murilo Portugal, vice-presidente do FMI, não conseguiu chegar ao local de trabalho. Foi obrigado a dar expediente por internet e telefone.
CODINOME “CIEL” Candidato a deputado em Brasília, o ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia montou um blog e distribui adesivos que se referem a ele como “Ciel”. É o primeiro candidato com codinome, na História recente.
“EXPERTISE”
A FAB despachou um tenente-coronel a Dallas, Texas, para examinar um piloto brasileiro do avião EMB-500, fabricado no Brasil. Tirar o bicho do chão só com a ajuda dos “brothers” americanos.
GOL DO DESRESPEITO
A companhia aérea Gol perdeu a bagagem de um cliente depois do voo 1852, trecho São Paulo-Brasília, na última quinta. Quase cinco dias depois, a companhia aérea diz apenas “estar procurando” as malas.
PERGUNTAR NÃO ADOECE
Lula teve um peripac na pressão, Kirchner numa artéria. O que aguardará Hugo Chávez?

PODER SEM PUDOR
SARNEY, O INSACIÁVEL
Conhecido empresário de Brasília, já falecido, montava a cavalo com o ex-presidente Figueiredo. Num sábado de 1984, em visita às baias do general na Granja do Torto, Figueiredo lastimou-se, bem a seu estilo, dos que o abandonaram: “o Cotonete de Gigante” (Marco Maciel), o “Rolha” (Jarbas Passarinho), que nunca vai fundo e jamais será presidente, e Sarney, o “Pidão”. Bufou o general:
– É o que mais tem cargos no segundo escalão. São 30 e ainda pede mais.

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Taxa de homicídio no Rio em 2009 foi a menor da década


- Estadão: Europeus criticam Brasil por dificultar sanções ao Irã


- Folha: EUA e França defendem mais sanções contra o Irã


- JB: Prisões cresceram 22% no Rio em 2009


- Correio: Trânsito mortal para jovens e crianças


- Valor: Safra de soja avança e bate recorde de produtividade


- Jornal do Commercio: Trânsito muda para o Galo passar

Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

AUGUSTO NUNES

veja on-line

O eleitorado brasileiro merece ver um debate entre Lula e FHC

8 de fevereiro de 2010

Nos comícios agora diários, além de aprenderem que demissão por abandono de emprego não vale para presidente da República, os brasileiros ficam sabendo que o Dia da Criação só deu as caras por aqui bilhões de anos mais tarde. Mais precisamente em 1º de janeiro de 2003, quando o maior governante desde o tempo das cavernas começou a cumprir a missão que a Divina Providência lhe confiou: construir um país.

Antes de Fernando Henrique Cardoso, recita o pregador, o que havia era pouco. Depois, restou o nada. Foi Lula quem fez o Brasil. Teria feito em sete dias se não existissem o Tribunal de Contas da União, o Ministério Público e o IBAMA. Só por isso a mais grandiosa das obras do PAC demorou sete anos. O atraso foi compensado pelo resultado.

O Brasil do Terceiro Milênio é uma beleza, deslumbram-se os ministros de Estado e a base alugada. Até frequenta o Clube das Potências como sócio-convidado, celebram os Altos Companheiros. E o que está bom demais vai ficar ainda melhor no governo de Dilma Rousseff, berra o resto do rebanho. Com a vitória da Mãe do PAC, berra o palanqueiro compulsivo, o milagre brasileiro vai deixar boquiabertos até chineses e americanos. americanos. Sem Dilma na gerência, o país irá submergir no buraco negro de onde Lula o tirou.

Neste domingo, com 968 palavras, Fernando Henrique enterrou no jazigo das malandragens eleitoreiras a fantasia costurada durante sete anos. O artigo ensina que o Brasil existia antes de Lula e existirá depois dele, seja quem for o sucessor. Incisivo, contundente e veraz, o texto exibe o legado de um estadista onde Lula finge enxergar a herança maldita.

“Gostaria que a eleição fosse no estilo nós contra eles, pão-pão-queijo-queijo”, repete o presidente desde outubro. Quem o conhece sabe que “nós” quer dizer Lula e que “eles” é o codinome de FHC no código do Planalto. No último parágrafo do artigo, Fernando Henrique primeiro reitera uma lição elementar (”Eleições não se ganham com o retrovisor: o eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças” para em seguida apanhar a luva atirada pelo sucessor: “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.

Não é difícil descobrir quem tem razão, avisou Sebastião Silveira num comentário aqui publicado. Basta promover um debate público entre os dois. Imediatamente encampada pela coluna e por VEJA.com, que cuidarão de convidar os contendores, a ideia não tem contra-indicações ─ e os possíveis efeitos colaterais são todos positivos. Um foi presidente, outro logo deixará o cargo. Nenhum deles é candidato. O embate ajudará o eleitorado a escolher com mais segurança.

O fecho do artigo informa que FHC está pronto para o duelo. Lula vive dizendo que sonha com o debate que não pôde travar em 1994 e 1998. Duas vezes derrotado por FHC, o atual presidente tem a chance de provar que o desfecho de um terceiro confronto seria diferente.

O Brasil merece conhecer a verdade. E está ansioso por saber quem está mentindo.

O DIA SEGUINTE É FODA!

ROBERTO ZENTGRAF

Ação e reação

O Globo - 08/02/2010


Impressionante o que um sustinho em Bolsa faz com a gente, não é mesmo? Pois bastou este tropeço na Bovespa - que acumula queda de 6,78% até o fechamento de 4 de fevereiro - para me fazer olhar despesas com mais cuidado, apagando luzes desnecessariamente acesas ou usando mais o metrô, por exemplo. E por que tudo isso? Porque, tendo alguns trocados em fundos FGTSPetrobras, a presente queda fez meu patrimônio diminuir um pouco. Nada de se tirar o sono, mas que automaticamente me colocou na defensiva, querendo compensar a perda financeira com um ganho operacional. No meu caso, que, de forma idêntica a uma legião de brasileiros, vivo basicamente de salário, isto significa que precisarei diminuir minhas despesas, por pura incapacidade de aumentar a própria receita.

Refletindo sobre este movimento das ações, ainda não tenho uma visão clara do que virá pela frente, pois os sinais, como já comentei anteriormente aqui neste espaço, estão contraditórios: o país vive um momento único, com otimismo exuberante, contas razoavelmente em ordem, inflação sobre controle; tudo aparentemente apontando para um 2010 tranqüilo. Entretanto, no cenário externo ainda há temores e indefinições, como por exemplo, a situação da dívida dos PIGS (sigla para designar Portugal, Itália, Grécia e Espanha) ou os dados do desemprego americano, dentre outros fatores. Analistas que li (e ouvi) estão divididos entre aqueles mais otimistas, que acham que a atual queda é apenas um reajuste de preços (investidores realizando os polpudos lucros obtidos em 2009) e os mais pessimistas, que acham que a atual queda é apenas o início de uma grande correção.

Voltando à questão apresentada no início do artigo, decerto você, meu bom e querido leitor, possivelmente já tenha experimentado reações parecidas, tanto no sentido da que apontei hoje - tornar-se mais " mão-de-vaca " diante das perdas financeiras -, como no sentido oposto - tornarse perdulário diante dos ganhos. Reconheço que administrar ganhos é muito mais suave, já que para evitar detoná-los com excessos, sair de casa sem cheques ou cartões é uma ação simples, com potencial para nos colocar na linha. A questão relevante portanto é: como lidar com as perdas - como a de agora, por exemplo - sem infernizar a vida daqueles que nos cercam? Uma sugestão que funciona bem comigo é separar o que é impressão (emoção) do que é fato (razão). E um grande aliado destas horas é o controle dos ganhos e dos gastos em bases periódicas - o não-tãopopularassim orçamento pessoal. Por meio dele, posso descobrir, por exemplo, que a perda do fundo FGTS afetou apenas meus resultados financeiros, deixando intacto o meu equilíbrio operacional - meu salário continuou suficiente para cobrir as minhas despesas. Neste caso, faria mais sentido eu procurar proteger o saldo do fundo (usando desde estratégias muito simples, como resgatar o valor lá aplicado, até as mais sofisticadas, com o auxílio dos mercados futuros), do que economizar na conta de luz, não é mesmo? Até porque os valores envolvidos são olimpicamente distantes.

Mais infelizmente o assunto - orçamento - é imenso, e o espaço aqui é curto. Prometo mais artigos sobre o tema! Um grande abraço e até a próxima semana!

GOSTOSA

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

O falso êxito do PAC

O Estado de S. Paulo - 08/02/2010

Por qualquer critério isento que se examinem os números da execução do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) apresentados na quinta-feira pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff ? sua principal gestora, batizada pelo presidente Lula como "mãe do PAC" ?, a conclusão é decepcionante. Sua execução é lenta, o que torna muito duvidoso que seja concluído no prazo previsto. A utilização de certos indicadores mascara seu baixo nível de execução. Seus principais resultados são frutos de programas e projetos de empresas estatais e privadas que seriam executados com ou sem ele. A necessária melhora na qualidade do gastos do governo, que deveria ser um de seus principais efeitos sobre a gestão financeira do setor público, não ocorreu até agora e não deverá ocorrer no último ano de sua vigência.

O PAC é um fracasso que, mesmo assim, a ministra-candidata transformou, com o entusiasmado apoio de seu mentor político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na principal peça de propaganda de sua campanha eleitoral lançada antes do prazo previsto pela legislação. Ao longo deste ano, seguramente muito será dito pelo governo sobre esse programa, mas o eleitor precisará estar atento para não ser enganado.

A ministra anunciou que, do total de R$ 638 bilhões em investimentos no período 2007-2010 previstos no PAC, R$ 403,8 bilhões, ou 63,3%, tinham sido aplicados até o fim do ano passado. É um dado enganoso. Se se considerar apenas as ações efetivamente concluídas, o resultado é bem menos animador. Em 36 meses de execução do PAC, nas obras encerradas foram aplicados R$ 256,9 bilhões, ou seja, 40,3% do total.

Isso significa que, por ano, o governo executou, em média, 13,4% do total. Para concluir o PAC no prazo, teria de executar 60% neste ano de 2010, ou seja, teria de multiplicar por 4,5 o ritmo da execução do programa. Mesmo que, como assegura a ministra, o governo tenha aprendido a gerir melhor o programa, não parece crível que consiga elevar tanto assim o ritmo, pois isso exigiria da atual gestão uma competência que ela nunca mostrou ter.

Do valor de R$ 403,8 bilhões anunciado pela ministra como realizado, é preciso destacar uma gorda parcela, de R$ 137,5 bilhões (34% do total), que nada tem a ver com obras, pois é formada por empréstimos habitacionais a pessoas físicas. São recursos oriundos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, do FGTS, do FAT e de outras fontes públicas.

Esses recursos são utilizados, em geral, na compra de imóveis usados, pois as políticas do governo para esses fundos privilegiam esse tipo de negócio. Economistas do setor privado observam que, ao contrário das vendas de imóveis novos, as de imóveis usados não resultam necessariamente na geração de emprego ou renda, como é o objetivo do PAC. Daí a estranheza com relação ao uso desses dados, o que pode ter sido feito apenas para inflar os resultados.

Outra parcela importante refere-se aos investimentos das estatais, de R$ 126,3 bilhões (31%). A Petrobrás responde pela maior fatia desses investimentos, que seriam feitos pelas estatais com ou sem o PAC, pois eles são elementos essenciais do planejamento estratégico dessas empresas.

A terceira fatia mais importante corresponde aos investimentos das empresas privadas, de R$ 88,8 bilhões (ou 22% do total), e sobre eles o governo nada pode decidir. Há, ainda, as contrapartidas dos Estados e municípios (R$ 11,1 bilhões, ou 3%) e os financiamentos (R$ 5,1 bilhões, ou 1%).

A fatia do PAC que cabe exclusivamente ao governo do PT, originária do Orçamento-Geral da União, totalizou apenas R$ 35 bilhões, 9% do que a ministra anunciou ter sido executado. Esses números mostram que, apesar de tudo que tem anunciado e apesar do PAC, o governo continua a investir pouco, bem menos do que as necessidades do País.

O padrão do gasto oficial, dominado pelas despesas de custeio, continua ruim para a economia brasileira e para os cidadãos. Melhorá-lo exige a redução dos gastos correntes, mas as despesas que mais crescem no governo Lula são com o funcionalismo, razão pela qual, tirante o PAC, é pequena a fatia que sobra para investir.

Em resumo, o PAC, mal gerido, está longe de suas metas.

GEORGE VIDOR

Rio de petróleo

O GLOBO - 08/02/10



Os Jogos Olímpicos de 2016 são a cereja do bolo e certamente trarão muitos benefícios para a cidade. Mas, em termos de atração de investimentos e geração de empregos, o setor que mais impulsionará a economia do Rio, segundo estimativa da prefeitura, é o de petróleo e gás.

Enquanto os Jogos devem criar 15 mil empregos até 2016, o petróleo responderá por 80 mil.

A diferença se deve ao impacto dos investimentos programados para o período. Todas as atividades relacionadas com o petróleo e o gás (o que inclui não só a elaboração de projetos mas a prestação de serviços) absorverão investimentos da ordem de US$ 75 bilhões nos próximos sete anos. No caso dos Jogos Olímpicos, o valor estimado é de US$ 16 bilhões, o que também é muito relevante.

Somente a Petrobras espera investir, conforme seu plano estratégico, o equivalente a US$ 174 bilhões no período 20092013, dos quais o Rio receberá expressiva parcela.

O número de empregos esperados para a cidade também se baseia na demanda de profissionais qualificados estimada pela empresa para esse mesmo período (207 mil pessoas no Brasil todo).

Evidentemente que tanto o petróleo como os Jogos beneficiarão outro segmento importante no município do Rio, que envolve recreação cultural e esportiva, ressalva o professor Mauro Osório, especialista em economia fluminense. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho, de um total de 2.161.698 empregos formais no Rio em 2008, 38.632 (ou seja, 1,8%) eram vinculados a atividades de cinema, teatro, televisão, música, discotecas, dança, espetáculos, jogos, bibliotecas, museus, parques e esportes em geral.

Para efeito de comparação, esse mesmo segmento em São Paulo envolvia 44.508 empregos (1% de um total de 4.489.076 postos de trabalho formais), em Belo Horizonte, 11.409 (0,9%), em Porto Alegre, 8.172 (1,2 %),em Salvador, 5.413 (0,8%), e em Recife, 3.711 (0,6%).

No caso do turismo, o setor empregava formalmente 149.679 pessoas no Rio em 2008 (6,9% do total de ocupados, com registro). Essa participação relativa só era superada em Florianópolis, onde o turismo respondia por 7,3% dos empregos formais Em São Paulo, a proporção era de 5,5% (248.793).

Curiosamente, a participação relativa dos empregos formais gerados pelo turismo nas maiores capitais brasileiras pouco se alterou nos últimos dez anos. Passou de uma média de 5,5% para 5,7%.

No Rio, até caiu (era de 7,1% em 1998).

Alguns jovens executivos financeiros se tornaram grandes banqueiros de investimento no Brasil em menos de duas décadas, pois souberam aproveitar oportunidades que surgiram com as transformações da economia nesses 20 anos, e conseguiram também escapar de algumas armadilhas decorrentes de tais mudanças.

Gestão de recursos de terceiros, fusões, incorporações, leilões de privatização, lançamento de ações, tudo isso junto fez com que instituições financeiras que nasceram pequenas multiplicassem seus patrimônios líquidos rapidamente, pois uma intermediação bem-sucedida acabava viabilizando outra a seguir. A sorte deu uma mão, já que pelo meio do caminho houve muitas baixas.

Se fossem apenas assalariados ou diretores com gratificações convencionais, esses jovens executivos financeiros possivelmente teriam acumulado bens pessoais suficientes para viver com tranquilidade o resto de suas vidas.

Se tornaram banqueiros (alguns até mesmo bilionários) graças a políticas de participação nos resultados das instituições onde começaram ou passaram a trabalhar.

Esse tipo de remuneração, apontado como um dos fatores que levaram o sistema financeiro internacional a assumir riscos exagerados por decisão de seus executivos, é que está hoje na mira dos governos. Na discussão de medidas para tirar a economia mundial da crise, os governantes decidiram promover uma ação conjunta para controlar ou limitar essas gratificações.

No Brasil, devido a regras já impostas ao sistema financeiro antes mesmo da crise (já havíamos passado por más experiências no próprio país, e assim, os órgãos regulares tinham estabelecido regras mais conservadoras do que as adotadas lá fora, o que, de certa forma, nos salvou da tempestade), a questão de pagamento de bônus não deverá ser tratada com a gravidade com que é encarada nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo. No entanto, ao que tudo indica o Banco Central baterá pé firme em duas questões: transparência na política de participação dos executivos nos resultados das instituições financeiras (a divulgação da maior e da menor bonificação será uma das exigências); condicionar o pagamento de bônus a resultados mais de longo prazo, para evitar que executivos se aventurem em operações bombasrelógio.

O projeto do Banco Central ficará em audiência pública por 90 dias.

Ninguém tem dúvida que os índices de preços agora em fevereiro serão uma espécie de rescaldo da inflação de janeiro. Mas se esses índices mostrarem alguma tendência de queda — o que é bem provável — prevalecerá a tese que a inflação no início do ano foi mais um soluço que um repique. Só assim escaparemos de uma alta nas taxas de juros já na reunião do Copom em março.

GOSTOSA

FABIO GIAMBIAGI

A "argentinização" da política


Valor Econômico - 08/02/2010

Publiquei este artigo na Argentina, em 2009. No final explico a tradução. Fiz adaptações, para adequar o texto ao espaço. "Sou brasileiro, filho de argentinos que por razões profissionais passaram dois anos fora do país no começo dos anos 60 e por razões políticas tiveram que sair da Argentina em meados dos 70. Da mesma forma que o argentino Borges se confessava 'um europeu nascido no estrangeiro', durante parte da minha vida me senti 'um argentino nascido no Rio'. As reflexões que farei a seguir são pessoais, mas refletem o estado de espírito de vários amigos que viveram circunstâncias similares, com a diferença de que todos eles tinham nascido na Argentina. Não por acaso, tendo tido todos nós, depois de 1983, a oportunidade de retornar a Buenos Aires (pela qual cada um de nós conservou a sua paixão), optamos em todos os casos por continuar morando no Brasil.

Tendo chegado aqui em 1976, fugindo da Argentina daquela época, algo que me chamava a atenção era que conflitos menores como, por exemplo, batidas de carro, que na Argentina gerariam uma briga de socos e pontapés, no Brasil não raras vezes acabavam em um bar para tomar um chope. Criado na tradição italiana das grandes polêmicas, tendo passado minha adolescência na vertigem dos anos 70 com o país novamente fraturado pela divisão inexorável da sociedade entre peronistas e antiperonistas, aprendi por meio desses pequenos gestos que, como alguma vez disse Fernando Pessoa, ao invés de uma verdade poderia haver duas.

Com a impetuosidade da juventude, esse aprendizado não foi imediato. A transição para a vida adulta coincidiu no meu caso com a transição do Brasil rumo à democracia, na qual brilhou a figura de Tancredo Neves. Em 1984, na campanha das 'Diretas já', supunha-se que, se houvesse eleições, seriam vencidas por Ulysses Guimarães. Com a derrota da emenda das diretas, a saída encontrada foi a de 'vencer o regime com suas próprias armas', no Colégio Eleitoral, com um candidato que pudesse ser votado por parte da bancada governista, o que levou à eleição de Tancredo e, depois, à posse de Sarney.

Com a impaciência dos 22 anos e participando das passeatas com o entusiasmo de quem sentia estar no meio de uma revolução, vivi aquele desfecho como uma traição e via Tancredo com grande desconfiança, como se ele tivesse traído o povo para se juntar aos inimigos. Os anos me levaram depois à reflexão de que, na verdade, aquilo tinha sido uma excepcional lição de sabedoria política de todos os atores: de Tancredo, grande mestre da transição, respeitado por todos os partidos e capaz de dialogar com diferentes grupos; de Ulysses, que abdicou de suas legítimas pretensões e, ao invés de fazer arder o país numa campanha de destino incerto, soube dar um passo ao lado ao entender que o momento histórico requeria ceder a liderança a outra pessoa - algo muito difícil para um político - com menos resistências do regime que estava acabando; e dos próprios militares, que reconheceram que seu ciclo tinha que chegar ao fim e estavam dispostos a sair de cena, mas não queriam fazê-lo como derrotados.

O que a geração de argentinos que vieram ao Brasil nos anos 70 foi notando com o passo das décadas é que as histórias diversas de nossos países - e falo como brasileiro - eram também o reflexo da diferença entre a atitude das pessoas de um lado e de outro da fronteira. Isso ficava claro quando íamos de férias à Argentina e saíamos para conversar com os amigos. Eram sempre discussões muito diferentes em relação às que estávamos acostumados a ter aqui, em função das simpatias que cada um de nós ia desenvolvendo com os grupos políticos locais. Enquanto que no Brasil era natural aceitar as divergências e elas quase nunca comprometiam as amizades, ir à Argentina - já como visitantes - era submergir em um turbilhão de insultos e ressentimentos: os 'outros' não eram pessoas que apenas tinham opiniões diferentes, mas 'vendidos', 'traidores' ou coisas piores. Em outras palavras, inimigos que deviam ser destruídos. Com o tempo, o sentimento comum a todo esse grupo de amigos foi o cansaço ante essa forma, em última instância, de viver. Descobrimos que tínhamos optado pelo Brasil, não por gostar mais de tomar um chope que um café em uma confitería portenha; não por preferir o samba ao tango; mas sim por ter aprendido a conviver com a diferença e a apreciar a tolerância, ao invés de fomentar a cultura do ódio e do desprezo.

Os sinais do crescimento desse traço cultural são visíveis na Argentina, lembrando as disputas enlouquecidas ocorridas há mais de 30 anos. O 'ovo da serpente' está na virada da esquina. O fato de ser brasileiro e de trabalhar em um órgão oficial me inibe de manifestar minha opinião franca sobre a responsabilidade das autoridades para que se tenha chegado à situação de tensão atual. Com a vantagem de conhecer a idiossincrasia e a história de ambos países, há algo, porém, que posso afirmar: a Argentina precisa, desesperadamente, de um Tancredo, que seja capaz de conversar com todos".

Deixo a tradução de lado. A experiência de ter vivido em quatro países diferentes ao longo da vida me ensinou a analisar os fatos com olhos de quem vê um país de fora. E sou obrigado a constatar com pesar que a política brasileira se parece, em certo sentido, cada vez, mais com a argentina. Basta frequentar os insultos que circulam no mundo da web para constatar as dificuldades de diálogo. As pontes são cada vez mais escassas. O discurso do antagonismo de "nós x. eles" - perigosamente estimulado desde os palanques, numa campanha absurdamente antecipada - e a noção de que o rival é um inimigo tornam rarefeito o clima político. Governo e oposição conversavam mais no Brasil nos anos 70, na época dos militares, nas pessoas de Petrônio Portella e de Ulysses, do que hoje, apesar de o PT e o PSDB terem nascido da mesma costela do MDB paulista. Comparando o Brasil de 2010 com o daqueles anos, a conclusão é que nossos políticos enriqueceram - mas a política se empobreceu.

DILMA SELI PENA

Mitos sobre enchentes em São Paulo

Folha de S. Paulo - 08/02/2010


O noticiário sobre as enchentes que têm assolado São Paulo alimentaram alguns mitos. Vamos tratar aqui de três deles

O NOTICIÁRIO sobre as enchentes que têm assolado São Paulo nos últimos meses, embora intenso e, em geral, bastante esclarecedor, tem alimentado alguns mitos, que precisam ser apontados. Vamos tratar aqui de três deles.
O primeiro garante que as cheias se devem à falta de piscinões previstos em plano diretor elaborado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee). Outro atribui as enchentes ao aumento da vazão das represas.
Um terceiro assegura que a limpeza e a canalização de córregos têm agravado as inundações.
O Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê foi elaborado pelo Daee em 1998, contendo ações para o problema da drenagem na região metropolitana até o ano de 2020. Ele previa, entre outras coisas, a implantação de piscinões em toda a região, de forma a conter a vazão despejada no Tietê nas cheias.
O governo do Estado já entregou, desde então, 26 piscinões, dos quais 6 na gestão José Serra. Outros quatro estão em obras. Somados aos 19 feitos pelas prefeituras, são 45 piscinões em operação, que podem acumular mais de 8 milhões de metros cúbicos de água -60% da capacidade prevista para 2020. Assim, quando se afirma que a execução do plano é baixa, como fez esta Folha, erra-se duplamente: ao omitir que as metas são para 2020 e ao fazer um cálculo enganoso, baseado no número de piscinões, e não na sua capacidade total.
O efeito da vazão das represas operadas pela Sabesp também tem sido abordado equivocadamente, nesse caso por razões político-eleitorais.
Essas represas existem para armazenar água e garantir o abastecimento de milhões de pessoas. Cumprem também um papel fundamental no controle das cheias, retendo boa parte da água que recebem.
Elas são operadas conforme normas da Agência Nacional de Águas (ANA), órgão federal, e do Daee, do Estado, que determinam, por exemplo, o nível a partir do qual se deve liberar a água acumulada, por meio da abertura de comportas ou naturalmente, por um vertedouro. Isso é necessário para garantir a segurança de suas estruturas, evitando que as barragens se rompam.
A água liberada nessas situações é insuficiente, por si só, para causar grandes inundações: a vazão dos afluentes do rio tem impacto bem maior. Em Atibaia, a cheia de 13/12 ocorreu quando a represa operava normalmente, sem verter água.
Chega-se a dizer que a Sabesp deveria ter se antecipado às chuvas, iniciando o descarregamento de água em meados do ano passado, de forma a evitar o excesso de capacidade atual. Mas liberar a água de uma represa com níveis normais é uma medida irresponsável: implica o risco real de afetar o abastecimento de milhões de pessoas. A própria região de Atibaia já sofreu e reclamou da estiagem em anos anteriores.
Outro mito -este uma aberração muito especial, propagada com base em declarações de uma suposta "especialista" em hidrologia- é o de que o programa Córrego Limpo teria aumentado as enchentes, como afirmou reportagem desta Folha no dia 29/1.
Ora, procurou-se estabelecer uma relação causal sem nem mesmo citar a causa principal e inequívoca das enchentes: o volume recorde de chuvas na capital nos últimos meses. Com ou sem as obras, haveria o risco de mais inundações. Omitiu-se, por outro lado, que a regularização de 42 córregos foi uma conquista enorme: não há mais esgoto a céu aberto, moradias de risco foram removidas e os bairros receberam equipamentos urbanos.
Embora seu objetivo não seja a prevenção das cheias, essas obras amenizam os seus efeitos, devido à redução da erosão das margens, remoção de lixo e implantação de áreas verdes e pisos permeáveis.
Em São Paulo, a construção de piscinões segue acelerada: em 14/1, foi inaugurado o piscinão Sharp, o segundo maior do Brasil -infelizmente não noticiado pela imprensa.
O investimento no desassoreamento do Tietê só aumentou: entre 2007 e 2009, foi, em média, de R$ 53,7 milhões -62,7% superior a 2006-, e será duplicado neste ano.
O parque Várzeas do Tietê, que já está em obras e terá 75 km de extensão, ajudará a recuperar a várzea do rio e preservar áreas verdes.
Isso sem falar nas ações de emergência, garantindo apoio técnico e verbas adicionais para que as prefeituras possam identificar e remover moradias de risco, limpar córregos e conter encostas.
Sem tudo isso, as consequências dessas chuvas atípicas -as maiores em 70 anos- seriam bem piores.

DILMA SELI PENA, 59, geógrafa pela UnB e mestre em administração pública pela FGV-SP, é secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo. Foi diretora da ANA (Agência Nacional de Águas). Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

MODERNIDADE NO TEMPO ANTIGO

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Auditores veem ameaça à independência

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/02/10



A onda global de regulação em bancos também deve complicar a vida de auditores. Para reduzir o risco de um colapso no estilo da Arthur Andersen, que foi negligente com a contabilidade da Enron, em 2001, o Reino Unido criou um novo código de governança para firmas de auditorias. As "quatro grandes" (PricewaterhouseCoopers, Deloitte, KPMG e Ernst & Young) deverão, entre outras obrigações, indicar não executivos independentes para os trabalhos de auditoria.
Os auditores temem que as novas regras ameacem sua independência e acarretem conflitos de interesse. "A exigência de indicar não executivos independentes para nosso modelo de governança levantou considerações relativas à independência, a conflitos de interesse e de responsabilidade", disse Stuart Diack, sócio da auditoria, no Reino Unido.
Para Diack, o Código de Governança de Firmas de Auditorias vai permitir uma melhor comparação entre as empresas de auditorias, mas "não prevemos que acrescente algo de modo significativo às nossas responsabilidades regulatórias."
Uma disseminação de regras mais rigorosas pelo mundo pode ser preocupante, segundo os auditores. "Uma boa governança é preferível a uma regulação desproporcional", disse Diack.
"O regime de governança britânico é visto internacionalmente como equilibrado e lógico. Outros países vão julgar se requerimentos similares são apropriados as suas necessidades. No Reino Unido, o código foi introduzido para mitigar o risco de uma importante firma de auditoria se retirar do mercado, mas esse risco varia internacionalmente", acrescentou.
"Estamos sempre lidando com mudanças de regulação", disse Robert E. Moritz, presidente e sócio da PricewaterhouseCoopers. Para Moritz, o que é prejudicial é ter incertezas. "À medida que você já sabe o que muda, você se prepara, faz ajustes", afirmou Moritz.

O pior é ter incertezas. À medida que você já sabe o que muda, você se prepara, faz ajustes
ROBERT E. MORITZ
presidente e sócio da Pricewaterhouse (EUA)

A exigência de indicar não executivos independentes levantou considerações relativas à independência
STUART DIACK
sócio da Deloitte (Reino Unido)

CARAVELA PARA A COPA

Antonio Trindade, presidente do Grupo Porto Bay, rede de hotelaria portuguesa, com sede na Ilha da Madeira, esteve no Brasil para avaliar oportunidades de aquisições no setor. Trindade afirma que o país, onde o grupo já possui três unidades -em São Paulo, Rio e Búzios-, passa por um bom momento para receber investimentos, impulsionado pela Copa e pelas Olimpíadas. "Já investimos R$ 70 milhões no Brasil e estamos muito motivados a fazer novos projetos em outras capitais." Os hotéis brasileiros do grupo já estão com ocupação completa para o Carnaval.

IMPACTO NOS SETORES

O setor de papel e celulose foi o que mais sofreu com a turbulência dos mercados financeiros. As ações dessas companhias tiveram desvalorização média de 15% na Bovespa no acumulado deste ano até a última sexta-feira, de acordo com levantamento realizado pela Economática, que leva em conta a liquidez. Em segundo lugar, ficaram os papéis do setor de construção, que acumularam queda de 13%. Ao todo, sete setores tiveram desvalorização acima dos 8,5% registrados pelo Ibovespa, índice que reúne as 63 ações brasileiras mais negociadas na Bolsa paulista.

CORREDOR 1
Surgiu um novo corredor de exportação de grãos com a reativação da logística ferroviária no noroeste de Minas. O número de tradings que buscam alternativa ao porto de Santos aumentou. A mais recente é a Louis Dreyfus Commodities Brasil, que fechou contrato com a Ferrovia Centro-Atlântica para o transporte de 1,5 milhão de toneladas de grãos.

CORREDOR 2
A carga será captada em Mato Grosso, em Goiás e no noroeste de Minas Gerais para exportação pelo porto de Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo. De janeiro a setembro do ano passado, 40% do volume total de carga geral transportada pela FCA foi de produtos agrícolas. A Vale anunciou investimentos de R$ 300 milhões na região.

O RETORNO 1
Após ficar cerca de um ano sem um produto voltado para a baixa renda, a Brasilcap lançou neste mês um título de capitalização que oferece descontos de até 50% em farmácias, o Ourocap Reserva. "Voltaremos a vender para um segmento importante", diz Márcio Lobão, presidente da Brasilcap. A expectativa é comercializar 530 mil títulos até dezembro.

O RETORNO 2
Os pagamentos mensais do Ourocap Reserva vão de R$ 30 a R$ 50. Para lançar o produto, a Brasilcap fez parceria com 6.000 farmácias do país, que irão oferecer descontos em medicamentos. O mercado de capitalização possui potencial para crescer, pois atualmente é o menor dentro do mercado de seguros, de acordo com o presidente da empresa.

Chuvas irão influenciar voto de brasileiro em 2010, diz pesquisa

Em tempos de chuvas e enchentes, mais da metade dos brasileiros vai levar em consideração os fatores climáticos na hora de decidir os candidatos que irão escolher nas próximas eleições. Mais de 65% dos eleitores pretendem avaliar como os candidatos se posicionam sobre o tema, segundo levantamento feito pela empresa de pesquisas de mercado Market Analysis, com 835 pessoas em nove capitais.
As classes mais baixas são as mais sensibilizadas pelo tema, com mais de 60%. Os jovens são os mais preocupados -73% dos que têm entre 18 e 24 anos consideram a questão prioritária. O menor percentual está entre os mais velhos, entre 55 e 69 anos (52%). As mulheres (68%) são também mais interessadas pelo tema do que os homens (64%).

com JOANA CUNHA e ALESSANDRA KIANEK

RUY CASTRO

Suco de maracujá

Folha de S. Paulo - 08/02/2010


RIO DE JANEIRO - Há dias, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse que "carne de porco é melhor que Viagra". A declaração foi feita num encontro na Casa Rosada com criadores de porcos, mas Cristina explicou que não era para agradar. "Comer carne de porco realmente melhora a atividade sexual", insistiu. E contou que ela e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, comeram carne de porco ("com a pele e tudo, assada") numa recente viagem à Patagônia e que, depois, "tudo saiu bem".
A frase deixa bem o porco, mas nem tanto o ex-presidente. Subentende que ele não vinha comparecendo, que nem com o Viagra dava jeito e que um leitão pururuca teve de vir em seu socorro.
Por sua vez, cientistas da Universidade de Graz, na Áustria, analisaram 2.299 homens e descobriram que os indivíduos com maior quantidade de vitamina D apresentam mais testosterona. Donde, mais libido. E que, como o nível desse hormônio aumenta muito no verão, segue-se que o sol estimula o desejo sexual. Uma organização holandesa voltada para o estudo do sol acaba de chegar à mesma conclusão.
Pode ser. Mas sempre haverá aqueles para quem o excesso de sol e de carne de porco contém mais riscos que benefícios. Nesse caso, só posso recomendar a letra de "Suco de Maracujá", o novo samba de João Donato e Martinho da Vila, ainda inédito em disco:
"Pra me casar com você/ Eu vou ter que me cuidar/ Contratar um personal/ Trainer pra me acelerar.// Também vou ter de fazer/ Uma dieta alimentar/ Catuaba no almoço/ E ostras antes do jantar.// Quando a gente for deitar/ Um bom pó de guaraná/ Se a quentura tiver morna/ Como um ovo de codorna.// E se a noite for infinda/ Aí só pau-de-cabinda/ Se ela quiser bis no fim/ Pimenta no amendoim.// E depois, pra me acalmar/ Suco de maracujá".

GOSTOSA

MARINA SILVA

Impasses de Belo Monte


Folha de S. Paulo - 08/02/2010

PERTO DE Altamira, no Pará, o rio Xingu desenha uma grande curva, semelhante a uma ferradura. Nessa região, conhecida como Volta Grande do Xingu, está prevista a polêmica construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, cuja licença prévia acaba de ser concedida pelo Ibama.
A obra tem proporções gigantescas. A quantidade de terra e pedra a ser retirada é quase comparável ao que foi removido na construção do canal do Panamá. Pelo leito do rio passa uma vazão, no período de cheia, correspondente a quatro vezes a vazão das cataratas do Iguaçu.
Os impactos socioambientais terão a mesma ordem de grandeza.
Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra que deverá chegar a R$ 30 bilhões -somado o custo da transmissão-, terá capacidade instalada para gerar, em média, 4.428 MW. E não os 11.223 MW anunciados. A energia média efetiva entregue ao sistema será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica é de pelo menos 55%.
Para isso, seria preciso construir outras três usinas na bacia do Xingu, com a função de regularizar a vazão do rio. Foram descartadas pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras são indígenas. Mas há forte desconfiança de que acabarão sendo feitas.
A população indígena ficará prensada nas cabeceiras dos rios da bacia, em processo acelerado de exploração econômica e desmatamento. O plano de condicionantes nem menciona a regularização das terras Parakanã e Arara, já bastante ameaçadas. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.
É incrível que um empreendimento com tal impacto não tenha planejamento adequado para o uso e ocupação do território. A obra deverá atrair mais de 100 mil pessoas para a região. Como dar conta de tal adensamento populacional no meio da floresta amazônica, sem um bom Plano de Desenvolvimento Sustentável?
O Brasil tem importante potencial hidrelétrico. Mas a indisposição em discutir a sustentabilidade das obras de infraestrutura na Amazônia, somada à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência do sistema como um todo e investir em energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

NELSON DE SÁ - TODA MÍDIA

Crise da dívida lá


Folha de S. Paulo - 08/02/2010

Na manchete on-line do "Wall Street Journal", a reunião do G7, dos países industrializados, terminou com a promessa de "manter o estímulo" e "enfrentar os problemas de dívida pública". A "crise da dívida na Europa", segundo o jornal e agências como a Reuters, foi o "foco das atenções".
O ministro alemão das finanças garantiu que "o euro vai se manter estável". Outro ministro europeu citou Grécia, Espanha e Portugal e prometeu: "Vamos resolver, nós mesmos, sem o socorro do FMI".

ALEMANHA, ITÁLIA ETC.


O site da "Economist" destaca para a semana, com uma ilustração da Europa em dissolução (acima), que quarta tem manifestação ampla dos servidores públicos gregos contra as "medidas de austeridade" no país. E sexta a Alemanha solta números mostrando o país estagnado no quarto trimestre de 2009. A Itália, também

GRÃ-BRETANHA?
Economista-chefe do FMI até dois anos atrás, o britânico Simon Johnson deu entrevista à BBC, logo após o encerramento do G7, e alertou que a Grã-Bretanha, com "orçamento sem controle", deve ser "vista na mesma categoria de países como Grécia e Espanha, que enfrentam severos problemas de dívida". Na zona do euro, a crise "vai incluir a Irlanda -e, creio, a Itália está na linha de tiro".

EUA, "NUNCA"
Da reunião do G7 no Canadá, o secretário do Tesouro dos EUA deu entrevista à rede ABC, destacada nos sites dos jornais americanos sob o enunciado "Geithner: a nota dos títulos americanos está protegida". Na quinta, a agência de classificação Moody's avisou o país para o risco de queda do "rating" máximo devido ao déficit público. "Isso nunca vai acontecer com este país", diz Geithner.

O CANTO DO CISNE
Nos enunciados do "Financial Times", "G7 se encontra em meio a dúvidas sobre sua relevância" e "Encontro pode ser o canto do cisne para o G7". Segundo o "WSJ", "o G7 foi eclipsado pelo G20, que também representa grandes emergentes como China, Índia e Brasil".
A AP, em balanço da reunião, despachou no título que foi um "momento de virada". E a reunião no Ártico foi "cortina de fumaça para o poder evanescente do grupo de países que costumava comandar o mundo".

EUA VS. BRASIL
Na primeira coletiva como embaixador, o americano Thomas Shannon ameaçou, em destaque por Folha e outros: "Retaliação sempre provoca contrarretaliação". Referia-se à autorização dada pela Organização Mundial do Comércio, para medidas em resposta aos subsídios americanos ao algodão, que afetam Brasil e outros.
Diplomatas brasileiros se disseram "perplexos". E no fim de semana veio a confirmação de que o foco da retaliação já foi para assinatura de Lula, e deve atingir a área de patentes. Mas a negociação prossegue.

EUA OU FRANÇA
Dias antes de enviar o novo embaixador, os EUA anunciaram o orçamento para o Departamento de Estado. Segundo a "Foreign Policy", o Hemisfério Ocidental foi um dos "vencedores", com mais vagas e dinheiro, "sobretudo" para Brasil e Colômbia.
Por outro lado, no mesmo dia, também entregou credenciais o embaixador francês.

DEMONSTRAÇÃO
Ontem no
"New York Times", o canadense Michael Ignatieff, líder da oposição, questionou os Jogos de Inverno em seu país:
"Os Jogos de Pequim revelaram a China como potência global. Os Jogos do Rio em 2016 vão fazer o mesmo pelo Brasil. Agora, se você não está tentando demonstrar poder ou proclamar a sua chegada ao palco global..."

MAIS E MAIS CLASSE C
A "Veja" publicou no sábado que "a classe C, a nova classe média brasileira, voltou a crescer e aparecer", com mais 2,6 milhões entre setembro e dezembro.
E ontem a manchete do jornal "O Globo" ressaltou que a "Classe C do Brasil já detém 46% da renda", segundo a FGV, representando "a maior fatia", passando os 44% das classes A e B. O jornal ouve, de publicitários, que a mudança vem levando o setor a "rever conceitos".

PACIFICADORAS
"O Dia" deu na sexta e ecoou no exterior, em sites como Vibe, que Beyoncé e Alicia Keys gravam clipe esta semana no Rio, em cenários como uma favela e uma escola. "Sou fã da alegria e do suíngue do Brasil. E é um bom momento de mostrar a nova fase que estão vivendo as comunidades do Rio", justificou Alicia Keys ao jornal carioca.

GOSTOSA

CARLOS ALBERTO DI FRANCO

Internet e leitura


O Estado de S. Paulo - 08/02/2010

Os adolescentes são fascinados pelas ferramentas da era digital. Eles não desgrudam do celular, vivem digitando mensagens de texto, passam horas escrevendo em blogs, navegando na web ou absortos nos videogames. Mas a dependência da internet não é exclusiva dos adolescentes. Todos nós, jovens e menos jovens, sucumbimos aos apelos do mundo virtual. Eu mesmo fiz o propósito de não acessar meus e-mails nos fins de semana. Tem sido uma luta. Com vitórias, mas também com derrotas. Para o norte-americano Nicholas Carr, formado em Harvard e autor de livros de tecnologia e administração, a dependência da troca de informações pela internet está empobrecendo nossa cultura. Ele falou à revista Época durante visita ao Brasil para uma palestra a 4.500 líderes empresariais.

Segundo Carr, o uso exagerado da internet está reduzindo nossa capacidade de pensar com profundidade. "Você fica pulando de um site para o outro. Recebe várias mensagem ao mesmo tempo. É chamado pelo Twitter, pelo Facebook ou pelo Messenger. Isso desenvolve um novo tipo de intelecto, mais adaptado a lidar com as múltiplas funções simultâneas, mas que está perdendo a capacidade de se concentrar, ler atentamente ou pensar com profundidade."

A internet é uma magnífica ferramenta. Mas não deve perder o seu caráter instrumental. O excesso de internet termina em compulsão, um tipo de dependência que já começa a preocupar os especialistas em saúde mental. Usemos a internet, mas tenhamos moderação. Ler é preciso. Jovens, e adultos, precisam investir em leitura e reflexão. Só assim, com discernimento e liberdade, se capacitam para conduzir a aventura da própria vida. Compartilho com você, amigo leitor, algumas obras. Espero, quem sabe, que o estimulem nos próximos feriados.

Dicionário Lula, um Presidente Exposto por suas Próprias Palavras (Editora Nova Fronteira) é um livro revelador. Um Lula surpreendente, para adeptos e opositores, é o que emerge do livro do jornalista Ali Kamel. Utilizando de forma inédita um método de análise de conteúdo, Kamel pesquisou todos os discursos do presidente improvisados no todo ou em parte, todas as suas entrevistas e todos os programas Café com o Presidente nos períodos de janeiro de 2003 a maio de 2008 e de setembro de 2008 a março de 2009.

"Lula é coerente ao longo do tempo? Lula tem, sobre um mesmo tema, ideias opostas dependendo do público para quem está discursando? Ele se sente confortável diante do capitalismo ou se mostra como um socialista de carteirinha? Em que se apoiam as suas opiniões, avaliações, conceitos, conclusões, afirmativas, certezas? Ou ainda: há alguma base de onde tudo isso parte? Quais são as suas formas de construir um discurso e de comunicar esse mesmo discurso?"

"O Lula que emerge destas páginas é um comunicador sem igual; um homem que vê o mundo a partir de sua experiência concreta de vida, de uma maneira que salta aos olhos; coerente, mas com incoerências importantes; um cidadão que preza os valores tradicionais da família e de Deus; um filho legítimo do capitalismo que almeja para os outros a mobilidade social que conseguiu para si (quando se tornou torneiro mecânico); um conciliador, cujo objetivo, ao menos no nível da retórica, é alcançar a harmonia entre os polos extremos da sociedade, tendo, para isso, como principal instrumento, políticas assistencialistas."

Lula é, sem dúvida, um grande comunicador. Sua história de vida, carregada de carências e sofrimento, enrijeceu sua personalidade e o transformou num homem decidido a vencer a qualquer preço. Mas é precisamente na têmpera da sua obstinação que reside a sua maior fragilidade ética. O projeto de poder de Lula não admite barreiras. Em nome da governabilidade e da perpetuação de seu projeto de poder, Lula se aliou ao que de pior existe na vida pública brasileira. A relativização dos valores e a condescendência com os companheiros e aliados envolvidos em graves irregularidades virou rotina na fala presidencial. O livro ilumina os méritos do presidente da República, mas também desnuda suas sombras.

Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (Editora Quadrante, São Paulo). Um belo livro e uma forte estocada nos preconceitos politicamente corretos. Se perguntarmos a um estudante universitário o que sabe da contribuição da Igreja Católica para a sociedade, a sua resposta talvez se resuma a uma palavra: opressão, por exemplo, ou obscurantismo. No entanto, essa palavra deveria ser civilização.

O autor, Thomas Woods, doutorado pela Universidade de Columbia, mostra como toda a civilização ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. Em concreto documenta, entre muitas outras coisas, como a Igreja criou uma instituição que mudou o mundo: a universidade; como ela nos deu uma arquitetura e umas artes plásticas de beleza incomparável; como os filósofos escolásticos desenvolveram os conceitos básicos da economia moderna, que trouxe para o Ocidente uma riqueza sem precedentes; como o nosso Direito, garantia da liberdade e da justiça, nasceu em ampla medida do Direito Canônico; como a Igreja criou praticamente todas as instituições e o conceito de assistência que conhecemos, dos hospitais à previdência; como humanizou a vida, ao insistir durante séculos nos direitos humanos e na sacralidade de cada pessoa.

Num momento em que se planta uma imagem da Igreja como inimiga do progresso da ciência e da técnica, e da liberdade do pensamento, esse é um livro que desfaz preconceitos, corrige clichês e ensina verdades teimosamente omitidas no ensino colegial e universitário.

NAS ENTRELINHAS

Transformers

Denise Rothenburg
Correio Braziliense - 08/02/2010

FHC tinha o Plano Real, o PT tem a popularidade de Lula. Resta saber se os petistas irão ceder aos desejos do PMDB como o PSDB fez para agradar ao PFL

Maurenilson Freire/CB/D.A Press

Em sua convenção nesse fim de semana, os peemedebistas finalmente “saíram do armário”. Antes que você pense que se vestiram de mulher para participar de um bloco carnavalesco, é bom lembrar que o tema aqui é política. Com todo o respeito aos comandantes peemedebistas, o que se viu na convenção foi um partido assumido: é regional mesmo e ponto final. E, dentro do grande condomínio chamado PMDB, cada um fará o que puder para manter o seu apartamento de luxo, digo, governo, nos mais diversos estados.

Vejamos, o Maranhão. Depois de um janeiro movimentado, marcado por ações políticas mais incisivas da ministra e pré-candidata Dilma Rousseff, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), usou a convenção para cercar o território da filha, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney.

Para quem não se lembra, enquanto Lula cuidava da sua pressão, a ministra recebeu o PDT para um almoço em sua casa, onde o presidente do partido, Carlos Lupi, selou o apoio à candidatura dela, transformando o PDT no primeiro a fazer um gesto mais ostensivo de aliança eleitoral.

Unidade
Os pedetistas fizeram algumas exigências, entre elas, o apoio de Dilma a Jackson Lago no Maranhão que, ao que tudo indica, será candidato a governador contra Roseana.

Sarney, na época, nada disse. Ontem, na convenção, estava combinado que, em prol tentativa de unidade em junho, ninguém avançaria o sinal falando da aliança com o PT, numa demonstração de respeito aos que são contra para, mais à frente, tentar agregar estados como o Rio Grande do Sul. Sarney quebrou o acordo e falou para os bons entendedores que apoiará Dilma Rousseff.

A declaração de Sarney tem um objetivo claro: colocar-se no mesmo patamar que o PDT para, mais à frente, avisar ao PT para não “ficar de gracinha” contra Roseana, candidata à reeleição. E, para os sarneyzistas, essa “gracinha” é Dilma desfilar no palanque de Lago. Afinal, Roseana foi líder do governo. E seu pai hoje pode dizer que, desde a convenção do PMDB em que não era para falar de sucessão presidencial, ele apoiou Dilma.

Até junho, data da convenção peemedebista que escolherá o caminho à Presidência da República, essa cobrança de apoio e exclusividade por parte do PMDB será voz corrente em diversos estados. Os políticos que analisam os movimentos do PMDB acreditam que ele está cada vez mais parecido com o PFL do início da década de 1990 — que fechou apoio ao então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Tucanos
No início de 1994, o então presidente do PFL, Jorge Bornhausen, jogou o mapa das coligações sobre a mesa tucana e resmungou: “É assim que vocês querem que estejamos engajados na campanha presidencial?” Foi a senha para que o PSDB cedesse. Fernando Henrique viu-se obrigado a desfilar na Bahia com Antonio Carlos Magalhães, desprezando o próprio PSDB e antigos aliados.

Talvez FHC não precisasse disso para ganhar a eleição. Mas o PFL então era forte, um grande partido de caciques regionais, sobretudo no Nordeste. O PSDB não quis correr o risco.

Cobrança
Agora, o PMDB faz a mesma cobrança em relação ao palanque de Dilma. E assim como FHC tinha o Plano Real embalando a campanha, o PT tem hoje a popularidade de Lula. Resta saber se os petistas irão para o sacrifício em nome da aliança para preservar o PMDB engajado na campanha como fizeram muitos tucanos em 94 para agradar ao PFL.

Por enquanto, os petistas torcem pelo crescimento rápido dos índices pré-eleitorais de Dilma. Acreditam que, assim, não precisarão ceder muito. Afinal, aceitam o PMDB transformado num PFL, mas não querem que o aliado vire uma máquina poderosa e feroz agindo nos bastidores contra a ministra. Se isso vai ocorrer, só o tempo dirá.

O JOGO

FERNANDO DE BARROS E SILVA

PT de segunda mão

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/02/10

SÃO PAULO - Há uma insatisfação reprimida com Lula no PT paulista. A exemplo do que ocorreu no processo de escolha de Dilma Rousseff, o partido foi atropelado na definição do nome que deve disputar a sucessão de José Serra. Com uma agravante: além de tripudiar sobre a legenda, o presidente ignorou as opções caseiras. Em nome do "projeto nacional", deixou de lado as flores do seu jardim para importar uma planta exótica do Ceará.
Ocorre que Ciro Gomes, o cacto agreste, muito embora made in Pindamonhangaba de nascimento, se nega a ser essa planta de estufa que Lula quis transplantar para as margens alagadas do Tietê. Sua resistência até aqui testa os limites do bonapartismo presidencial.
Como o PT, mesmo subjugado, teme Lula e fica calado, foi o próprio Ciro quem vocalizou quão artificial seria sua aventura paulista -hoje menos do que improvável. Mais ainda: Ciro distribui espinhos retóricos aos companheiros e reafirma sua disposição de concorrer à Presidência. Desafia "o mito" para não sucumbir antes da hora.
Ao PT restará fatalmente uma candidatura de segunda mão em São Paulo. Não é trivial se pensarmos que o Estado reúne 29,5 milhões de votantes, quase 22,4% do eleitorado nacional. Os tucanos ocupam o Bandeirantes há quatro mandatos e Geraldo Alckmin hoje soma 50% das intenções de voto.
Quem servirá de tapa-buraco ao PT? Fernando Haddad, pouco conhecido, teria o que ganhar projetando-se no Estado. Mas nem o senador Aloizio Mercadante nem a ex-prefeita Marta Suplicy gostariam de ver uma nova liderança sem inserção partidária surgir no seu quintal pelas mãos de Lula.
A bola da vez deve mesmo ser Mercadante, que abandonaria uma provável reeleição ao Senado em troca do doce que o chefão lhe prometer pelo sacrifício. Essa é hoje a hipótese mais difundida no PT.
Em 2006, o "Chuchu" apanhou feio do "Barba"; em 2010, terá a chance de fazer o "Bigode".

SANDRO VAIA

A obsessão autoritária

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/02/10

Está bem que um ex-porta-voz do governo lulista nos afiança, do alto de uma conversa confidencial com "um dos ministros mais importantes do governo Lula", que esse negócio de "controle social da imprensa" é papo furado. Para nos tranquilizar diz que podemos "tirar o cavalinho da chuva" porque esse negócio não vai rolar - pelo menos neste governo. (Quem duvida procure ler De onde vem tanto medo?, de Ricardo Kotscho, publicado no blog do autor e republicado no Observatório da Imprensa.)

Ufa, se estamos livres do perigo, como nos garante Kotscho, por que diabos vamos ficar insistindo nesse assunto?

Há pelo menos uma razão para isso: existe um grupo de pessoas que tem uma obsessão paranoica pela palavra "controle" (e todas as suas sequelas) e sempre que podem a encaixam em qualquer projeto em que procuram edificar um futuro glorioso para nós, para nossos filhos e nossos netos - embora não lhes tenhamos concedido delegação para tanto.

Vai que um dia a sociedade relaxe a vigilância e baixe a guarda, acreditando na palavra de "um dos ministros mais importantes do governo Lula", e elas consigam, enfim, emplacar o seu sonho dourado - que é não apenas o de controlar o que chamam pejorativamente de "mídia", mas controlar tudo o que lhes pareça controlável. Afinal, não existe ideologia esquerdista que não inclua no sonho terminal de sua utopia instalada o controle amplo, geral e irrestrito de todas as atividades humanas. Como só eles sabem onde mora o sol, generosamente querem que todos nós usufruamos sua luz.

Depois do fracasso da tentativa de emplacar um Conselho Nacional de Comunicação, usaram um projétil de nome insuspeito - Plano Nacional de Direitos Humanos-3 (PNDH-3) - para empacotar outra tentativa de controle. Controle é uma palavra que de suspeita se tornou insuportável, e até um dos ideólogos do jornalismo esquerdista, Bernardo Kucinski, professor da USP, recomendou aos companheiros que parem de usá-la. Nem a tentativa de enobrecê-la acoplando-a ao qualificativo "social" caiu bem. Enquanto o Houaiss continuar insistindo em definir "controle" como "poder, domínio ou autoridade sobre alguém ou algo", a parte da sociedade que preza o livre-arbítrio - tal qual o cachorro de Pavlov - vai continuar rosnando cada vez que ela for pronunciada.

O amigo de Lula pergunta, em seu artigo, de onde vem tanto medo, uma vez que o presidente nunca mexeu uma palha contra a liberdade de imprensa e nunca deu sinais de ser a favor da censura. Noves fora duas ou três bravatas verbais ambíguas disparadas a esmo em algum palanque eleitoral e a tentativa de expulsão de Larry Rohter, correspondente do jornal The New York Times, o presidente, de fato, nunca tomou nenhuma iniciativa concreta para calar a imprensa. Mas é verdade também que nunca tomou nenhuma iniciativa concreta para aplicar o programa do PT em seu governo. Ao permitir a edição desse calhamaço chamado PNDH-3, e assiná-lo embaixo, Lula parece ter feito o papel do psiquiatra que conduz seus pacientes a um desabafo catártico para aliviar-lhes os pesos da consciência. Já que nada mais fizemos do que continuar aplicando o programa econômico neoliberal de nossos antecessores, vamos despejar sobre a cabeça do País 29 mil palavras do mais puro malte petista, sem blended de nenhuma espécie. Se colar, colou.

Eis aí por que temos medo: puseram a caneta na mão dos inspetores de quarteirão - e, como se sabe, é deles que temos de ter medo, mais que dos chefes.
É a última chance - pelo menos neste governo - que os inspetores de quarteirão do petismo têm de pôr em prática suas ideias. Por isso no PNDH-3 estão as ideias recorrentes da vulgata petista, entre as quais as mais vistosas e típicas são estas:

O desprezo à democracia representativa, substituída por um arremedo de democracia direta, que são as conferências das "organizações sociais", por suposto, formadas pelos militantes dos partidos que apoiam o governo;
a tentativa de abastardamento do Poder Judiciário, substituído pela mediação das "organizações sociais" em casos de conflitos de invasões de terras;
a tentativa de criação de um ranking de empresas de mídia sob o aspecto de sua atuação em relação aos direitos humanos (com critérios ditados por quem? Claro, pelas "organizações sociais" controladas pela máquina partidária);
a criação de uma "Comissão da Verdade" para julgar as violações dos direitos humanos cometidas por uma - e só uma - das partes em conflito depois do golpe militar de 1964; a nomeação de uma instância sindical para atuar nos processos de licenciamento ambiental de empresas, oferecendo mais um criador de dificuldades para vender facilidades.

Os governistas estão indignados com a reação da imprensa e de muitos setores da sociedade contra os aspectos mais "controladores" do PNDH-3, pois, afinal de contas, dizem, as conclusões foram "tiradas" (é assim que se fala ainda, como nas velhas assembleias estudantis?) em dezenas, centenas, quase milhares de conferências locais, regionais, municipais, estaduais, nacionais, etc., das quais participaram 14 mil pessoas. E essa fica sendo a conta da peculiar democracia petista: se, num país de 190 milhões de habitantes, 14 mil militantes foram mobilizados para essa prática de democracia direta, o problema da legitimidade está resolvido. Pouco importa se os 14 mil foram tirados do mesmo embornal ideológico e que não tenham sido escolhidos por nenhum mecanismo representativo legitimado e reconhecido pelo resto da sociedade. O dedazo ideológico substitui a representatividade e quem for contra esse método é contra os direitos humanos, segundo o diktat petista.

Pode ser que nada disso seja para valer (o presidente já se cansou de teorizar sobre "bravatas", lembram-se?), mas é sempre bom ficar atento. O autoritarismo costuma instalar-se disfarçado de justiceiro.

Sandro Vaia, jornalista, ex-diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, é articulista do Instituto Millenium

GOSTOSA

RICARDO NOBLAT

Idiota imperfeito

O GLOBO - 98/02/10


esta altura, por tudo que se sabe, é quase irresistível a tentação de chamar de corrupto o governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal.

Ele foi apontado pela Polícia Federal como “chefe de uma organização criminosa” responsável pelo mensalão do DEM. Mas a polícia diz o que quer, escreve o que quer e não vai presa. No meu caso

Nunca fui preso pelo que escrevi.

Muito do que escrevi foi censurado na época da ditadura militar de 64. Quanto a ser processado, o depoente reconhece que foi mais de uma dezena de vezes. Condenado? Só uma — e por negligência do meu advogado. Paguei R$ 20 mil como forma de reparar a honra de um ex-deputado distrital de Brasília preso mais tarde por grilagem de terra.

Outro dia, Arruda distribuiu nota afirmando que me processará por que eu o acusara de oferecer R$ 4 milhões para cada deputado disposto a votar contra seu impeachment.

Leu errado. Publiquei no blog que a oferta partiu do “esquema interessado” em mantê-lo no cargo.

Fazem parte do “esquema” empresários de Brasília que lucraram milhões com obras superfaturadas. Acho até que Arruda não sabia...

Se cedesse à tentação de taxálo de corrupto seria processado na hora. Como só cabe à Justiça resolver essa parada — se quiser e quando quiser —, por ora prefiro me referir a Arruda como um idiota. Um rematado idiota.

Ou melhor: um idiota imperfeito.

Idiota é quem comete uma burrice por descuido ou ignorância. O imperfeito idiota comete a burrice porque se julga inteligente demais, esperto demais.

Logo depois de se eleger governador em 2006, Arruda soube que havia sido filmado recebendo dinheiro vivo durante a campanha. Quem lhe contou? Durval Barbosa, o autor do filme, responsável pelo pagamento de despesas da campanha de Arruda. Na ocasião, Durval se desculpou: “Eu tenho de me defender...”.

O filme permaneceria inédito se ele ganhasse um cargo no futuro governo.

Não um cargo qualquer.

Mas um com direito a foro privilegiado. Durval coleciona processos desde o governo de Joaquim Roriz, seu mentor. Quem tem foro privilegiado costuma escapar mais facilmente de condenações.

Daí... Daí que Arruda nomeou Durval secretário de Relações Institucionais.

E ao invés de isolá-lo em seguida, deixou-o cuidar do pagamento do mensalão.

Durval passou então a filmar todo mundo.

Em setembro último, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal aceitou mais um processo contra Durval. Arruda prometera dar um jeito para que o processo fosse recusado. Sentindo-se traído, Durval abriu sua filmoteca, sacou de lá 30 vídeos e estragou para sempre a vida de Arruda. Foi a primeira idiotice cometida pelo governador — confiar em quem o chantageara antes e estocava munição para detoná-lo.

A segunda monumental idiotice: tentar se entender com o jornalista Edson Sombra, o amigo de Durval que mais o incentivou a despachar Arruda para o inferno. Sombra diz que Arruda lhe ofereceu R$ 3 milhões.

Em troca, ele deveria desqualificar os vídeos dizendo que foram adulterados.

Arruda alega que foi procurado por Sombra atrás de favores, e que se recusou a atendê-lo.

Ambas as versões podem conter furos — mas a de Arruda é uma peneira. O deputado Geraldo Naves (DEM) confirma que visitou Sombra a pedido de Arruda.

Confirma também que entregou a Sombra um bilhete escrito por Arruda onde ele suplica a certa altura: “Quero ajuda”. Weligton Moraes, secretário de Comunicação do governo, confirma que Arruda e Sombra conversaram por telefone.

Que Arruda aja como um idiota imperfeito é problema dele. Mas que queira nos fazer de idiotas, alto lá! Primeiro o dinheiro filmado com ele era para a compra de panetones. Agora, tudo não passou de mais uma armação de Durval. Foi o sobrinho e secretário-particular de Arruda que providenciou o dinheiro entregue a Sombra. Corrupção, não, mas idiotice é crime imprescritível.

Só por isso Arruda merecia estar preso.

ANCELMO GÓIS

Chico Olho de Boi

O Globo - 08/02/2010

O Diário Oficial do Estado do Rio publica hoje a demissão “a bem do serviço público” de sete fiscais de renda, entre eles Francisco da Cunha Gomes, conhecido como Chico Olho de Boi.

O grupo é acusado de causar prejuízos aos cofres públicos, dinheiro meu, seu, nosso, de cerca de R$ 1 bilhão.

Carnaval do Twitter

O governador Roberto Requião vem trocando farpas pelo Twitter com o ministro Paulo Bernardo, também do Paraná.

Veja o “diálogo”, sábado: De Requião para Paulo Bernardo: “Interessante sua conferência ‘A importância do galho seco na vida esportiva do macaco’. Muito profunda.” De Paulo Bernardo para Requião: “Bom dia, governador! Prezo muito o dito cada macaco no seu galho! E cuidado com os galhos secos!”

Na verdade

Não entendi direito o “diálogo”.

Mas parece palhaçada. E é.

Também lá fora

Com o livro “O filho eterno”, editado pela Record, o escritor Cristóvão Tezza ganhou quase todos os principais prêmios literários do país.

Agora, a versão em francês pela editora Métailié recebeu o Charles Brisset, prêmio da Associação Francesa de Psiquiatria

A coisa tá preta

João Marcos Pereira, ex-empresário de Preta Gil, entrou na Justiça contra a artista.

Diz que o nome do bloco da cantora “A coisa tá preta” lhe pertence conforme registro no INPI em janeiro de 2009.

É. Pode ser

O FARTO ENTULHO

nas fotos acima e ao lado, nas imediações do Instituto Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, chamou a atenção do leitor Vinícius Cavalcante. As montanhas de sucata ocupam parte do terreno do antigo Hospital Psiquiátrico Pedro II, onde será construída a primeira Unidade de Pronto Atendimento municipal da Zona Norte. Para as obras, que deveriam ficar prontas este mês, a prefeitura demoliu, em dezembro, um dos prédios desativados do complexo hospitalar. Mas o que restou da mobília do edifício se transformou nisso aí. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, o entulho será removido esta semana para dar continuidade às obras — cuja conclusão, agora, está prevista para... até o fim do semestre. Ah bom...

Faz sentido

Do matemático Oswald de Souza, no Twitter: — Faço contas para pagar as contas lá de casa

Guarda-chuva

Do nosso Tutty Vasquez, no Twitter: — O que você faria se não chovesse um dia? Tem gente em São Paulo prometendo até levar a sogra para jantar

País das bundas

Pesquisa do canal de saliência explícita Sexy Hot com 6.500 homens sobre o biotipo da “mulher perfeita” deu, em primeiro lugar, com 55%, as popozudas, e, em segundo, as peitudas, com 44%.

As magrinhas, como as moças que desfilam nas “fashion weeks”, coitadas, não chegaram a 2%.

Saara globalizada

Com a cidade cheia de turistas para o carnaval, a Rádio Saara, serviço de alto-falante do shopping popular a céu aberto no Rio, tem veiculado anúncios das lojas em inglês e espanhol.

Oinc, oinc, oinc

O que já é moda entre alguns ricos de São Paulo parece mesmo ter chegado ao Rio.

Terça à tarde, no Jardim Pernambuco, Leblon, um empregado passeava, acredite, com dois porquinhos pretinhos de coleira.

Os bichos, de tamanho médio, têm até nome: Chiquinha e Will

Último ato

Mal começou a temporada de 2010 e dois importantes teatros da prefeitura baixaram as portas.

A sala Baden Powell, em Copacabana, fechou sexta à noite e o Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, fez o mesmo no sábado.

É que os funcionários que recebem por empresas de RH terceirizadas pela Secretaria de Cultura estão sem receber

O amor é lindo

Vera Fischer estava com um namorado misterioso na festa à fantasia que fez sábado para a filha Rafaela Fisher, em Pedra de Guaratiba, no Rio.

Calma, Paes

Em visita à Cidade do Samba ontem, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, brincou com uma das alegorias da Mangueira.

De dentro da gaiola dourada que ornamenta o carro da censura, Paes falou: mdash; Acho que a população do Rio adoraria me ver assim, preso nesta gaiola, para jogar ovos.

MESTRE MARTINHO

da Vila em família, na estreia do show, no Canecão: Alegria, Preto e a mulher e aniversariante, Cléo Ferreira

O COLEGUINHA

William Bonner e Jeff Gomez, da equipe de feras de “Avatar”, após workshop sobre as plataformas múltiplas de mídia, nos estúdios da Globo

CANDIDATA DA

Porto da Pedra a Mulata do Gois 2010, Juju Mota visita o site do concurso e vota — nela mesma, claro.

GOSTOSAS DO TEMPO ANTIGO

MARCELO DE PAIVA ABREU

Do ''lulismo'' ao ''rousseffismo''

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/02/10


Em análises recentes das mutações sofridas, desde 2002, pela estratégia política do presidente Lula, têm sido destacados contrastes entre o "petismo" pré 2002, sucedido pelo "lulismo" com tintas bonapartistas. A análise deixa de sublinhar as mudanças essenciais que sofreu o "lulismo" em sua transição para o "roussefismo".

É difícil, entretanto, concordar com o diagnóstico de que o "petismo" teria sido ejetado quando Lula concordou em assinar a Carta ao Povo Brasileiro, traindo o programa do Partido dos Trabalhadores (PT). De fato, a ocasião foi uma magnífica oportunidade para que Lula pudesse escapar a compromissos programáticos estapafúrdios, atribuindo a guinada à crise que se agravava.

É preciso não deixar de levar em conta as dificuldades que seriam enfrentadas caso tivesse sido adotada a política econômica coerente com o programa do partido. Lula, caso eleito, enfrentaria enormes turbulências e pagaria o custo político de ter arruinado a estabilização que havia herdado. O cenário de um governo Lula 2003-2006 fiel ao programa do PT é inverossímil.

Mais convincente é a interpretação de que o "petismo" foi, de fato, abandonado quando a crise do "mensalão" explicitou claramente que o PT não poderia cumprir o papel de inspirador para que os demais partidos amadurecessem suas práticas políticas. A metáfora eficaz é a da "queda de um anjo".

Com a fragilização do PT como partido coerente e sério, ganhou força o lado pragmático, turbinado por suas propensões ao protagonismo populista - já em parte explicitadas, por exemplo, pela exacerbação da diplomacia presidencial com ênfase na pirotecnia. Esse lulismo versão 1.0, que persistiu até o final de 2007, foi bastante eficaz ao combinar a exploração do prestígio do presidente - oriundo de sua espetacular trajetória de retirante-metalúrgico-presidente - com a adoção de políticas econômicas prudentes.

A partir daí tornou-se dominante a temática sucessória, gerando a transição para o lulismo versão 2.0. A inviabilização dos possíveis candidatos mais consistentes do PT - José Dirceu e Antonio Palocci - gerou a crise do "petismo". Após consideração dos custos e benefícios de uma campanha pelo terceiro mandato, o presidente Lula, em espetacular "dedazo", ungiu Dilma Rousseff como candidata.

O lulismo versão 2.0 baseou-se em mais protagonismo, culminando em escancarada campanha eleitoral com uso da máquina federal.

As demandas eleitoreiras tiveram, além disso, impacto na postura fiscal do governo, com significativo aumento de despesas. A crise econômica mundial criou condições para que se alegasse que o aumento de gastos configurava política anticíclica, embora boa parte da expansão da despesa seja irreversível. Apesar de o compromisso com a adoção de uma política monetária prudente ter sido em grande medida preservado, tornou-se evidente a fadiga do Banco Central, em fricção permanente com o restante do governo.

Caso o presidente Lula tenha sucesso em assegurar a eleição da sua sucessora, haverá, necessariamente, mudança radical no estilo, e também da substância, da ação governamental. O que seria o "roussefismo" comparado ao "lulismo"? Até mesmo por circunstâncias biográficas, a projeção externa da nova presidente seria menos proeminente do que a de Lula, implicando custos não desprezíveis de reconversão de estilo de atuação. Internamente, os custos de transição terão que ver com o grande contraste entre criador e criatura quando se trata de capacidade de articulação política e de definição estratégica.

Ao contrário de Lula, a candidata dependerá crucialmente do seu chefe da Casa Civil, presumível articulador político e acomodador de atritos na esteira da veemência presidencial. Há aí vários subcenários que vão desde Antonio Palocci até Marco Aurélio Garcia.

Os contrastes entre os prováveis estilos de atuação nesses dois casos polares são uma indicação das incertezas implícitas no "roussefismo". Palocci, emblemático do lulismo 1.0. Garcia, circunscrito ao neo-bolivarianismo durante todo o governo Lula, mais alinhado ao "petismo".

No que diz respeito a assuntos econômicos, enquanto Lula buscou preservar a ambiguidade entre diferentes correntes de seu governo em relação à política econômica, a candidata sempre se alinhou entre os que defendiam, com vigor, o aumento de gastos e o afrouxamento da política monetária. Explicitou, em diversas ocasiões, o seu banzo pelos velhos tempos, mesmo que fardados, em que havia ênfase adequada em desenvolvimento com papel proeminente do Estado. Dilma Rousseff, embora neófita no PT, está mais alinhada ao "petismo" do que o próprio Lula.

Não é surpreendente que muitos eleitores considerem pouco atraente o que se pode antever como "roussefismo". Dadas as incertezas e, pior ainda, as certezas, a busca de alternativas é compulsória. Mesmo porque há que levar em conta o ponderável argumento da alternância como incentivo para não prorrogar a hegemonia da atual coalizão política.

Alternância seria algo essencial para interromper o aparelhamento do Estado que marcou os dois mandatos de Lula. E também para reavaliar as políticas públicas adotadas desde 2003, preservando as que têm mérito distributivo e ajustando as que constituem mera extração de benesses do Estado.

Para embasar um voto consciente é essencial, no entanto, que seja rompido o silêncio do candidato da oposição. Quanto à economia, só se espera que o trailer propiciado por Sérgio Guerra não tenha sido fiel ao filme.

*Marcelo de Paiva Abreu, Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

PAINEL DA FOLHA

E agora essa

Renata Lo Prete -

Folha de S.Paulo - 08/02/2010

Com a recondução de Michel Temer à presidência do PMDB transformada em passeio, a preocupação imediata da cúpula do partido é o coelho tirado da cartola pelo Planalto e por setores do PT em Minas, segundo colégio maior eleitoral do país: lançar o vice José Alencar (PRB) ao governo com um companheiro de chapa petista, empurrando para a concorrida disputa do Senado o peemedebista Hélio Costa, líder nas pesquisas para sucessão estadual. Saudado por Temer como "futuro governador de Minas", Costa foi uma das figuras mais paparicadas na convenção. O comando do partido sabe, porém, que a operação Alencar não será fácil de ser desmontada, dada a aura de unanimidade que o enfrentamento do câncer conferiu ao vice.

Com ágio
Em discurso na convenção, José Sarney disse estar completando bodas de ouro por seus 25 anos no PMDB, mas logo foi lembrado de que as bodas eram de prata. Na plateia, alguém comentou: "Esse está sempre tentando aumentar o passe".

Poder de fogo
Vice ideal para Dilma Rousseff no entender de muitos no Planalto, Henrique Meirelles foi acomodado no palco ao lado de Temer, vice considerado ideal por boa parte do partido. O presidente da Câmara cochichou para o do BC: "O PMDB unido jamais será vencido".

Em aberto
Não obstante os esforços do Planalto para tornar "confortável" a participação do PMDB na administração de Ana Júlia, Jader Barbalho só vai decidir mais adiante se enfrentará a petista na disputa pelo governo do Pará. Tudo dependerá da situação dela nas pesquisas.

Ele não
No esforço para acalmar o governador Sérgio Cabral (PMDB), que tentará a reeleição, petistas envolvidos na campanha de Dilma têm dito que apenas a ministra poderá subir no palanque de Anthony Garotinho (PR). A participação de Lula no Rio, afirmam, seguirá outro roteiro.

Que tal?
Com a vinda de Ciro Gomes (PSB) para São Paulo considerada a cada dia mais improvável tanto pelo PT quanto pelos partidos do chamado "bloquinho", surgiu a ideia de transformar Paulo Skaf (PSB) em vice de chapa encabeçada pelo senador petista Aloizio Mercadante.

E daí?
Falta apenas combinar com Skaf, que segue decidido a disputar o governo. Quando alguém pondera que o presidente da Fiesp não terá o apoio do PT e de setores de seu próprio partido, o neossocialista dá de ombros, pois espera contar com PP e PR.

Produções 1
Procuradores da República que investigam o mensalão candango reuniram indícios de que Fábio Simão, ex-chefe de gabinete do governador José Roberto Arruda, montou uma rede de espionagem com o auxílio de ex-policiais.

Produções 2
Exonerado do governo após o estouro da crise, Simão ainda é visto na residência oficial, em Águas Claras, onde mantinha uma sala privativa. Segundo conhecedores da política do DF, ele frequenta os bastidores do poder há 20 anos: foi assessor do senador cassado Luiz Estevão e secretário particular de Joaquim Roriz (PSC).

Papéis
Além de cuidar dos contratos com terceirizadas e das obras milionárias da Copa-2014, Simão também tinha atuação política: era a ponte do governo com o PMDB, partido ao qual é filiado. Antes do escândalo, falava em se candidatar a deputado.

Cenários
Em silêncio durante toda a crise, o deputado Tadeu Filippelli (PMDB) disse a aliados que pretende disputar o governo do DF.

Avatar
Para o jornalista Edson Sombra, que denunciou à Polícia Federal suposta tentativa de suborno de aliados de Arruda, a prodigalidade e a explicitude das imagens do Arrudagate instituíram um novo padrão: "O próximo escândalo será em 3D".

Contraponto

Questão de ordem
Homenageado na terça-feira passada pela bancada do PMDB com um jantar de boas vindas, o novo líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), quis fazer um agrado ao partido, cortejado como aliado preferencial no projeto de eleger Dilma Rousseff presidente.

-Eu gostaria de passar a utilizar o microfone do PMDB para indicar à Casa a posição do governo- disse.

Os anfitriões agradeceram o gesto de cortesia, mas o líder Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) não perdeu a chance de fazer piada com o hiperativo Vaccarezza:

-Na verdade, do jeito que você gosta de falar, vai acabar usando todos os microfones do plenário!

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: TRE abre guerra a milícia, tráfico e bicho na eleição

- Folha: Tarifa de celular é a 2ª maior do mundo

- Estadão: Governo sai em bloco para responder a FHC

- JB: Bota classificado: Dia de El Loco

- Correio: Brasília só recicla 8% do lixo coletado

- Valor: TCU aponta má gestão e irregularidades na Conab

- Jornal do Commercio: Foliões sem descanso