segunda-feira, março 25, 2019

Atacado por Joice, Kim diz que articulação é catástrofe e que reforma morreu


Atacado por Joice, Kim diz que articulação é catástrofe e que reforma morreu



O barraco do dia no Congresso veio de uma troca de farpas entre a líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), e o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), líder do MBL (Movimento Brasil Livre).
Ex-aliados durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, eles bateram boca por causa da articulação política (ou falta dela). O clímax foi Joice chamando Kim, 23, de “moleque” e sugerindo que ele “pegue a chupeta e vá nanar”.
Ouvi Kim sobre o imbróglio. Ele critica a articulação do governo e diz que a reforma da Previdência morreu.
*

O que o sr. achou do tuíte da deputada Joice Hasselmann que o chama de moleque? Quando entra no terreno da baixaria, prefiro não responder. Minha crítica é à articulação política do governo.
E qual sua avaliação? É uma catástrofe.
Por culpa de quem? É principalmente por causa do perfil do Bolsonaro, de não querer dialogar com o Congresso, de não querer receber parlamentares, de falar para todos os ministros fecharem as portas, de não escutar os projetos. Ou seja, de não fazer articulação republicana. O governo está tentando transformar a articulação em sinônimo de corrupção. Quando na verdade é escutar os projetos [dos parlamentares] para eventualmente encaminhar nos estados. Construir pontes, fazer hospitais, é legítimo também. Isso não tem nada a ver com corrupção.
Como o sr. avalia as escolhas dele para sua liderança no Congresso?Ele ficou traumatizado com o erro do major [Major Vitor Hugo, do PSL-GO, líder do governo na Câmara], que é um cara que não se impunha com os líderes, e aí acabou exagerando, tentando apagar o fogo com pólvora, nomeando a Joice.
Que consequência o estilo dela pode ter? O efeito que gera é que quanto mais parlamentares ela ataca, mais sentimento de corpo contra o governo gera nos outros parlamentares.
Com essa situação, qual o futuro da reforma da Previdência? A reforma encaminhada pelo governo morreu, não tem chance de ser votada e aprovada. Mas acho que também tem um senso de responsabilidade aqui de boa parte dos parlamentares. E mesmo a pressão dos governadores, que faz efeito. Acredito que talvez a gente retome o texto do Arthur Maia [relator da proposta apresentada no governo Temer], o que resolveria o problema a curto prazo da Previdência e ao mesmo tempo o centrão não seria derrotado.
Essa morreu por quê? Principalmente pela questão dos militares, mas pelo conjunto da obra. Pela falta de tato do governo. No caso dos militares, dizer que a economia vai ser de R$ 90 bi, quando na prática vai ser de R$ 10 bi.
Esses ataques da Joice são dela, ou vem uma ordem de cima, do Palácio? Eu acho que é a linha geral do governo, mas também vem ao encontro da personalidade dela.
Vocês tinham uma boa relação no passado, por exemplo durante o impeachment de Dilma, não? Sim. Estivemos juntos. Mas ela não reconhece que o trabalho dela não está funcionando. E há um sentimento de que a única direita possível é a do Bolsonaro.

Cadáver verde - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 25/03

Vou repetir: chegamos lá, o cadáver humano agora será lixo orgânico


Anos atrás, na época do COP 15, a conferência ambientalista em Copenhague, escrevi uma coluna aqui na Folha ("Cadáver verde") em que previa o uso de corpos humanos para alimentação hipervegana. O raciocínio, numa chave distópica, era que um dia a ciência iria descobrir a senciência (se você não sabe o que é, olhe no Google) nos vegetais, e toda a gente bacana contra a violência na alimentação, herdeiros do utilitarista Peter Singer e seu "Animal Liberation", seria obrigada a concluir que a única alimentação sustentável e ética possível seria comer cadáveres humanos. Cheguei perto da realidade.

Você, curioso, talvez se pergunte: como alguém pode prever coisas assim? Simples: aposte no ridículo, na hipocrisia social, no interesse econômico e, antes de tudo, no pior travestido de bem. A fórmula é quase infalível. Ia esquecendo! Acrescente uma pitada de niilismo inconfesso.

No caderno Mundo do dia 3 de março, esta Folha publicou uma reportagem fundamental que descrevia o processo de tramitação de uma lei no estado de Washington, na costa oeste americana (uma espécie de paraíso do partido democrata, um parque temático que poderia se chamar "nirvana hipster"), segundo a qual cadáveres humanos poderão ser usados como adubo, ao invés de cremados ou enterrados (cremar está na moda, inclusive no estado em questão). O termo científico é "compostagem humana". O termo em si significa uma espécie de reciclagem de lixo orgânico. No caso, o lixo é o cadáver humano. Você entendeu? Vou repetir para fins didáticos: sim, chegamos lá, o cadáver humano agora será lixo orgânico.

O filósofo britânico Edmund Burke (1729-1797) escreveu certa feita que a sociedade era uma comunidade de almas que reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram. O mesmo autor, comentando uma cena em sua imaginação que viria a acontecer na realidade, dizia que o povo, ao invadir os aposentos da rainha durante a Revolução Francesa, descobriria que uma rainha era apenas uma mulher, e uma mulher, apenas um animal. Aviso aos idiotas de gênero que não se trata de uma "questão de gênero", mas sim que a rainha e a mulher do enunciado representam o universal humano. Esses trechos se constituem em fundamento do que a filosofia posterior chamaria de "imaginação moral". A expressão intitula um livro primoroso escrito pela historiadora americana Gertrude Himmelfarb, recentemente publicado pela É Realizações, "Imaginação Moral". Leia.

A ideia é que a moral é dependente da função imaginativa depositada em experiências ancestrais narrativas, afetivas e mesmo estéticas. Adam Smith, no século 18, e John Stuart Mill, no 19, referiam-se a duas dimensões de modo semelhante: "moral sentiments" (sentimentos morais) e "moral affection" (afeto moral), respectivamente. Haveria na moral um estrato afetivo, estético, imaginativo, narrativo, alheio à lógica geométrica da ciência? Sim.

Segundo o conceito de imaginação moral, uma vez que você dilacera o tecido narrativo da moral com argumentos econômicos, calculadores e sofistas (Burke, de novo) você abre um abismo no comportamento humano que jamais será organizado moralmente apenas pela lógica racional (sinto muito, Kant), e menos ainda pela científica. Da compostagem humana, chegaremos a comer cadáveres humanos porque um ser humano é apenas mais um animal.

O mercado (empresas especializadas nesse processo ambientalmente correto) vê o bom negócio que é. Afinal, morre muita gente toda hora e, mais importante, "de graça!!". Na universidade, antropólogos hipsters logo dirão como é cool redefinir rituais fúnebres. Políticos progressistas dirão que essa é a forma igualitária de resolver a desigualdade social dos enterros e cremações. Ativistas progressistas dirão que se trata de uma questão de saúde pública. Espiritualistas de plantão dirão que é energeticamente equilibrado. E, claro, a ciência dará sua bênção dizendo que é melhor psiquicamente para as atuais gerações pensar que seremos úteis para as futuras gerações se formos adubo para rúcula orgânica. Mais uma vez, a estupidez esclarecida esquece da reverência aos mortos de que Burke tanto falava.

Vamos um pouco mais longe? Em breve, abençoaremos o uso de fetos abortados em pesquisas de saúde e cosmética. Proporemos uma produção assistida de bebês gerados para fins alimentares corretos. O segredo é ser proposto por gente bacana. Virou seu estômago? Eis a imaginação moral agindo. Logo passa.

Luiz Felipe Pondé

Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Lava Jato derruba reforma da Previdência pela segunda vez - REINALDO AZEVEDO


SEMPRE ELES 1: Lava Jato derruba reforma da Previdência pela segunda vez

UOL - 25/03
Uma coisa é preciso reconhecer: a turma da Lava Jato tem método — ou, se quiserem, o lava-jatismo, já que agora esse "ente" está presente no Ministério Público, no Judiciário, no Executivo e no Legislativo; no caso, nas pessoas daqueles porra-locas que pretendem fazer a "CPI" que apelidaram de "Lava-Toga". Por que afirmo isso? Porque a turma conseguiu mandar pelos ares a reforma da Previdência pela segunda vez. A primeira se deu com a tentativa de depor o então presidente Michel Temer, e a segunda está em curso agora. E não deixa, de novo, de usar Temer como alvo. Mas como se percebe, a questão é agora mais ampla. E, por óbvio, incluam-se no espírito lava-jatistas as hostes organizadas na Internet, muitas delas servindo ao bolsoanrismo, que saem por aí a vomitar bobagens em nome de uma tal "nova política", sem que consigam dizer o que isso significa. O fato é que Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, havia combinado com Jair Bolsonaro, nada menos do que presidente da República, uma estratégica de aprovação do texto — uma matéria sempre difícil de engolir. E isso passava por negociar com os partidos políticos, já que, de verdade, a base de Bolsonaro não é formada nem pelo PSL, que não apoia unanimemente o texto, como admitiu até a líder do governo no Congresso.


Quantos votos pró-reforma Olavo tem na Câmara e no Senado?

O primeiro a jogar uma casca de banana no caminho de Rodrigo Maia foi o próprio Bolsonaro. Enquanto o presidente da Câmara negociava com os parlamentares, o presidente da República os chamava de fisiológicos e dizia enfrentar pressão da "velha política", numa mal disfarçada alusão ao próprio Maia, o que é indecoroso para dizer pouco. E muitos idiotas caem na conversa. A Família Bolsonaro, não sei se notam, veem a Presidência como uma espécie de feudo familiar. Em certa medida, o presidente só aceita dividir o poder com a família: ou são aliados ideológicos com a sua mesma obtusidade ou são militares — nesse caso, é a família do quartel, onde ele era um rebento meio enjeitado. Com quase três meses de governo, o chefe do Executivo ainda não conseguiu ter uma conversa adulta com os partidos políticos. Parece que ele se sente roubado ou chantageado. Resumo da ópera: os parlamentares são tratados como um bando de interesseiros, como lixo. Ora, decente, como sabemos, é entregar ministérios e áreas do governo a seguidores de Olavo de Carvalho, não é mesmo? A propósito: quantos votos Olavo tem na Câmara e no Senado? Até agora, ele só atrapalhou o governo, como resta evidente. E daí? O bolsanirsmo-lava-jatismo-olvismo espalhava seu fel nas redes sociais enquanto as pessoas responsáveis tentavam ver se a negociação andava.


Moro detonou pessoalmente a maior bomba contra a reforma

Eis, então, que Sérgio Moro, o Pai de Todos, que Bolsonaro fez o desfavor a si mesmo de meter no governo, vai à Câmara e resolve expelir regras ao presidente da Casa, justamente Rodrigo Maia, aquele que vinha mantendo já uma relação algo tensa com Bolsonaro porque a ele, Rodrigo, coube os esforços de fazer avançar a reforma da Previdência, mas sem o concurso do Planalto, que nem governa nem deixa governar. Ainda há pouco, no Chile, Bolsonaro afirmou que a reforma é um problema do Congresso. Isso corresponde a tentar lavar as mãos. Não é, não! O Congresso vota, mas é um problema principalmente do Executivo. Parece visível que o presidente escolhe um "virem-se vocês aí que não quero perder ainda mais popularidade". Moro não é burro nem nada. Sabia que a cobrança pública que fez a Maia para que seu pacote dito anticorrupção e anticrime tramitasse ao mesmo tempo em que tramita a reforma da Previdência era um chute na canela daquele que se tornara o principal esteio da proposta formulada por Paulo Guedes. E houve a reação. O presidente não advertiu seu ministro. Carlos, o filho predileto, saiu nas redes sociais a demonizar Maia. Moro não só emitiu uma nota malcriada, sugerindo que o deputado quer procrastinar o combate à corrupção, como gravou uma versão em áudio da dita-cuja, que circula freneticamente por aí. Um lava-jatista de primeira grandeza, que jamais disse uma palavra em favor da reforma da Previdência — fazendo um jogo político pessoal que ignora o próprio Bolsonaro, já de olho em 2022 —, resolveu detonar uma bomba na relação entre os presidentes da Câmara e da República. E Bolsonaro fez o quê? Só piorou o que já era ruim.


A Lava Jato do RJ se encarregou de queimar a terra arrasada

E aí veio o arremate, protagonizado pela Lava Jato do Rio, com a decretação doidivanas e estúpida da prisão preventiva do ex-presidente Michel Temer. Os heróis das trevas atacavam de novo. Ainda que a peça mal costurada apresentada pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal fizesse sentido, e ainda que tudo tivesse se dado como lá vai, a prisão era descabida. Ocorre que vai além do território do ridículo, o que se evidencia também no despacho do juiz Marcelo Bretas. O uso que ele faz em seu texto do Artigo 312 do Código de Processo Penal, que trata desse tipo de prisão cautelar é um assombro. Muitos juízes federais, ainda que prefiram o silêncio público do corporativismo, se dizem envergonhados. Gente que acha que a Lava Jato tem a suas virtudes avalia que o episódio marca a avacalhação da operação. Muito bem! E as hostes bolsonaristas fizeram o quê? Saíram a comemorar a prisão, como se ela não marcasse mais um tento justamente na demonização da política e dos políticos. Um dos presos, Moreira Franco, é padrasto da mulher de Maia. Os dois estão longe de rezar o mesmo credo. Mas, ainda assim, o presidente da Câmara entrou no radar das milícias virtuais do bolsonarismo. E o próprio presidente disse compreender que o deputado pudesse estar agastado por razões familiares, o que é de uma grosseria impressionante.


Até o líder do PSL na Câmara reconhece que assim não dá

E então se chega ao ponto atual. Até Delegado Waldir (GO), líder do PSL na Câmara, diz que assim não dá. Ele pede que Bolsonaro e Maia se entendam etc e tal. Mas reconhece: "O governo não precisa de oposição nesse momento. As ações de algumas pessoas do Executivo e do Parlamento criam um tsunami maior do que qualquer pessoa. É necessário amadurecimento. Se o governo quer aprovar a (reforma), da Previdência temos que dialogar mais, reduzir essa zona de atrito, de discussões pela imprensa e pelas redes sociais. Esse mundo virtual é extremamente sadio, ajudou a mudar o Congresso, mas agora está sendo péssimo. Em alguns segundos uma publicação (na internet) derruba a bolsa de valores e reduz a credibilidade do País quando dois chefes de poderes estão numa acirrada disputa pelo nada".

Pois é, Delegado Waldir… Esse "mundo virtual", como o senhor chama, pode até ajudar a eleger. Fazer dele o espaço das contendas políticas é escolher a ingovernabilidade. Como a que vemos. Mas vá convencer o presidente, seus filhos e alguns de seus prosélitos vulgares…

A harmonia entre os Poderes - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 25/03

Para voltar aos trilhos do desenvolvimento econômico e social, o País tem claras e imediatas necessidades


Para voltar aos trilhos do desenvolvimento econômico e social, o País tem claras e imediatas necessidades. É preciso realizar reformas estruturantes, a começar pela reforma da Previdência. É preciso restabelecer um ambiente de normalidade e estabilidade jurídico-institucional. Há ainda um longo caminho no combate à criminalidade e à impunidade, mas nem tudo é corrupção ou podridão, e tratar o cenário nacional como terra devastada, além de injusto, significa pôr a perder muitas coisas boas construídas ao longo do tempo. É preciso também amenizar a polarização político-ideológica. Compreensível numa campanha eleitoral, o clima de conflito, se estendido ao longo do tempo, esgarça as relações sociais e gera danos em todas as esferas da vida nacional.

Se as atuais necessidades do País são evidentes, está claro também que os Três Poderes têm sido incapazes – ao menos, até o momento – de atender a contento a essas demandas. Na semana passada, houve um almoço em Brasília que reuniu a cúpula dos Três Poderes a respeito dos possíveis caminhos para, diminuindo as tensões entre Executivo, Judiciário e Legislativo, torná-los mais funcionais. É preciso, por exemplo, trabalhar coordenadamente para que a reforma da Previdência, prioridade nacional, seja de fato aprovada pelo Congresso.

“Há um intuito de todos de construir uma nova agenda e de aprovar a reforma da Previdência. Este encontro é um sinal importante, estamos construindo um pacto para governar o Brasil”, afirmou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, anfitrião do almoço.

Nessa trajetória de união e cooperação entre os Poderes é indispensável que o Executivo cumpra o seu papel. Desde a posse, tem causado perplexidade o fato de o presidente Jair Bolsonaro, em vez de buscar a união nacional, continuar alimentando polêmicas e fissuras, num clima de guerrilha eleitoral. No dia anterior ao almoço, por exemplo, o presidente da República compartilhou em sua conta no Twitter vídeo em que seu filho Carlos criticava a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito da competência da Justiça Eleitoral. Não é disso que o País precisa.

Nesse reequilíbrio institucional em busca de maior funcionalidade, é também evidente a necessidade de o Ministério Público (MP) adequar-se às suas competências institucionais, sem que alguns de seus membros invadam outras searas ou agravem desnecessariamente as tensões.

A Suprema Corte tem sido alvo de ataques, nas redes sociais, de grupos que desmerecem, desautorizam e ridicularizam todos aqueles que ousam ter opiniões divergentes das suas. É surpreendente, no entanto, que alguns desses ataques venham de membros do MP, cuja função é defender a ordem jurídica e o Estado Democrático de Direito.

Para diminuir as tensões, é preciso também uma atitude de cooperação e de menos protagonismo dos ministros do STF. Não poucas vezes, são os próprios integrantes da Corte que alimentam divisões, promovem embates e, mais grave, ferem o caráter colegiado do Supremo. É urgente a promoção de uma nova cultura no STF, mais disposta a aceitar a posição majoritária, a conferir estabilidade à jurisprudência ao longo do tempo, a restringir as decisões monocráticas para os casos imprescindíveis, a defender e a aplicar a Constituição e as leis, sem imiscuir-se com tanta frequência em trajetórias alternativas.

O Congresso tem também papel especial na busca da funcionalidade institucional. É ele quem deve processar com diligência as reformas de que tanto o País precisa. A renovação ocorrida nas eleições passadas deve servir para banir velhos costumes que são absolutamente deletérios para o interesse nacional. No entanto, tanto os antigos parlamentares como os novos não podem se furtar de fazer política, na melhor acepção da palavra. A decisiva contribuição do Congresso para o País decorre precisamente dessa busca por encontrar os consensos e propostas possíveis para os problemas nacionais. Não é no grito, na intolerância e, muito menos, na violência, física ou verbal, que o Legislativo cumprirá o seu papel.

É essencial o diálogo entre Executivo, Judiciário e Legislativo. Mas o principal fruto que se espera desse diálogo é que cada um dos Poderes cumpra seu dever. Essa é a harmonia institucional de que o País precisa.

Há pergunta nova no ar: Vai concluir o mandato? - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 25/03
Até outro dia, piscava no letreiro da conjuntura nacional uma pergunta: Jair Bolsonaro conseguirá aprovar a reforma da Previdência? Hoje, há uma interrogação nova no ar: Será que o presidente termina o mandato? O governo ainda nem completou três meses e a carta do impeachment já voltou para o baralho.

Fernando Henrique Cardoso e Olavo de Carvalho jamais tiveram algo em comum. O ex-presidente tucano chegou a dizer que "nunca tinha ouvido falar" no polemista que virou guru do atual presidente da República. De repente, FHC e Olavo passaram a compartilhar uma opinião. Ambos avaliam que Bolsonaro pode cair.

Há nove dias, Olavo disse: "O presidente está de mãos amarradas. […] Se tudo continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal, é só continuar isso mais seis meses e acabou."

Neste domingo, FHC anotou no Twitter: "Paradoxo brasileiro: os partidos são fracos, o Congresso é forte. Presidente que não entende isso não governa e pode cair. Maltratar quem preside a Câmara é caminho para o desastre."

O que diferencia as opiniões de FHC e de Olavo são as razões que levam Bolsonaro a flertar com a queda. Um acha que a Presidência do capitão corre risco porque ele é incapaz de se sentar à mesa para negociar. Outro acredita que o mandato está ameaçado porque Bolsonaro demora a virar a mesa.

Para Olavo, Bolsonaro está cercado de militares que têm "mentalidade golpista". Ele chama os auxiliares fardados do presidente de "um bando de cagões." Olavista de mostruário, o assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins, empilhou as ideias exóticas do grupo no Twitter na última sexta-feira.

Em meio à polêmica que eletrifica as relações de Bolsonaro com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, Filipe pregou a necessidade de organizar uma "pressão popular" capaz de "mostrar que o povo manda no país", não as forças que compõem o que ele chama de "poder estabelecido", "oligarquias dominantes", "sistema de privilégios" e "sindicato do crime".

Para FHC, o problema é bem outro. "Precisamos de bom senso, reformas, emprego e decência. Presidente do país deve moderar não atiçar."

Tomado por seus últimos movimentos, Bolsonaro está mais para Olavo do que para FHC. Com a popularidade em queda, o capitão estimula os atores políticos e econômicos a prestarem atenção no vice-presidente Hamilton Mourão, um general que integra o "bando de cagões". Os vices, como os ciprestes, costumam crescer à beira dos túmulos.

Nova política patina e Bolsonaro será o culpado se reforma fracassar - LEANDRO COLON

FOLHA DE SP - 25/03

Não há mágica que altere um modelo lógico de trabalhar com o Congresso

Essa tal nova política de Jair Bolsonaro tem se revelado um desastre em quase cem dias de governo. Usando-a como escudo, o presidente tenta fugir da culpa que terá pelo eventual fracasso na aprovação da reforma da Previdência.

“A bola está com ele [Rodrigo Maia], já fiz a minha parte, entreguei, o compromisso dele é despachar e o projeto andar dentro da Câmara”, disse Bolsonaro, durante viagem ao Chile. “A responsabilidade no momento está com o Parlamento brasileiro”, reforçou, em resposta às críticas do presidente da Câmara.

Se a mudança previdenciária fracassar, não haverá nenhum outro culpado que não seja o governo de Bolsonaro, por mais que o presidente da República tergiverse para fazer colar a versão de que já fez sua parte ao enviar a proposta ao Congresso.

A poucos dias de completar três meses de mandato, o capitão reformado não conseguiu formar uma base aliada. Não há nova política (seja lá o que signifique) que faça projetos de interesse governista seguir adiante sem um bloco de apoio. Não há, por exemplo, crime algum na prática de discutir cargos com os partidos, desde que não haja negociação espúria por trás das cortinas.

Errado é nomear como líder do governo na Câmara o major Vitor Hugo, uma figura inexperiente, desconhecida e ignorada pelos colegas.

Bolsonaro pede voto dos parlamentares com um discurso que os afugenta. Tem minado potenciais aliados ao pensar que só ele age com ética e correção. Nem o seu PSL, manchado pelo laranjal eleitoral, engoliu a reforma dos militares, recheada de privilégios para a carreira.

O PSL, aliás, também dá sua parcela para o caos político ao criar problemas desnecessários com legendas que poderiam ajudar o governo a (enfim) sair do ponto morto.

Rodrigo Maia está certo ao afirmar que Bolsonaro não pode terceirizar a articulação. É tarefa do Planalto buscar maioria. Não há nova fórmula que altere um modelo lógico de trabalhar com o Congresso. Dizer o contrário é enganar os eleitores.

A conspiração - DEMÉTRIO MAGNOLI

O Globo 25/03
Diante de uma lápide, no antigo cemitério judeu de Praga, à sombra da noite, reúnem-se 12 rabinos, representantes das tribos de Israel. O mais venerável toma a palavra. No seu discurso, proclama que “18 séculos pertenceram a nossos inimigos”, mas “o século atual e os futuros pertencerão a nós”. Em seguida, explica que a luta pela hegemonia mundial se desenrolará nos planos político, econômico e religioso, por meio da tomada de controle das finanças, do poder de Estado, dos meios de comunicação e das instituições educacionais.

A estrutura narrativa da conspiração encontra seu paradigma no mito da conspiração judaica, que emerge em romances baratos, artigos fantasiosos de jornal e uma célebre falsificação da polícia czarista russa, na passagem do século 19 para o século 20. O historiador Raoul Girardet segue a trilha desses textos no ensaio “A conspiração”, que faz parte do livro “Mitos e mitologias políticas”, publicado em 1986. É um guia inesperado para compreender o que se passa, hoje, no governo Bolsonaro.

A facção ultradireitista do governo, formada por seguidores de Olavo de Carvalho, nutre-se da ideia da conspiração. No lugar dos judeus, o Bruxo da Virgínia coloca os “liberais globalistas” e os “comunistas”, ligados por um pacto de dominação global que almeja destruir as “nações de sangue”. Se a constrangedora visita presidencial aos EUA nos ensina algo, a lição é que a paranoia conspiratória sedimentou-se como convicção fundamental do próprio presidente.

O Bruxo da Virgínia não inventou a versão contemporânea da conspiração mundial. De fato, ele apenas reproduz a tábua da fé da alt-right, a direita nacionalista americana, que tenta organizar um movimento nacionalista internacional. A crença difunde-se entre os fiéis pelo labirinto das redes sociais, em fragmentos de informação descontextualizada, boatos ferozes e acalorados rumores. Uma concha protetora providenciada pela aversão à imprensa profissional isola a seita da torrente de notícias que descortinam a complexidade do mundo.

A conspiração seduz, hipnotiza, encanta os espíritos. Sua narrativa simples, similar às do conto de fadas e do folhetim, oferece explicações completas para fenômenos complexos. Sua força persuasiva floresce no solo da ignorância histórica e da preguiça intelectual. Não é preciso ler, estudar, investigar: a teoria conspiratória eleva qualquer um à condição de sábio. A conspiração é o travesseiro, o lençol e o cobertor dos incultos. O Bruxo da Virgínia, que sabe disso, fez dela o núcleo do seu modelo de negócios.

Depois que deita raízes, a teoria conspiratória é invulnerável à prova negativa— e, inclusive, alimenta-se dela. Postos diante de contestações lógicas ou factuais, os espíritos tomados por ela retrucam que o autor da refutação faz parte da própria conspiração. Experimente sugerir a um“aluno de Olavo” que o keynesianismo fechou caminhos às proposições socialistas. Ele responderá que o interlocutor é um  arauto do keynesianismo—isto é, do“marxismo cultural” espraiado nas instituições, na mídia e nas universidades. Nas bolhas das redes sociais, a resposta patética passa como contrarrefutação indiscutível.

Figuras imersas no caldo de cultura da conspiração inclinam-se a fantasiar pequenos complôs cotidianos— e a reagir articulando, eles mesmos, complôs paroquiais. O MEC, comandado por um discípulo do Bruxo da Virgínia, é um microcosmo desse fenômeno. A crônica guerra civil que o paralisa, contrapondo fanáticos “olavetes” a assessores técnicos e militares, evidencia a inviabilidade de um governo submetido ao paradigma conspiratório. Governar exige um mínimo de respeito a regras de administração e alguma estabilidade política. Nada disso é compatível com as quimeras que movem a facção ideológica do bolsonarismo.

“Se continuar assim, mais seis meses e acabou”, pressagiou Olavo de Carvalho sobre o governo Bolsonaro, no jantar em Washington, pouco antes de tomar assento ao lado do presidente. O Bruxo da Virgínia tem os meios para demonstrar o acerto de sua profecia.

O momento da Lava-Jato - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 25/03


Aqui no alto da Serra de Ibitipoca, uma bela região de Minas, chove e faz frio. Na minha cabeça, tentava organizar um artigo sobre uma possível intervenção militar na Venezuela. Rememorava a Guerra do Iraque e os grandes debates da época. Achava uma visão idealista tentar impor, numa sociedade singular, a democracia liberal à ponta do fuzil.

Continuo achando. Lembro-me de que, num debate em Paraty, o escritor Christopher Hitchens ficou bravo com meus argumentos. Nada grave. Semanas depois, escreveu um artigo simpático sobre aquela noite. Hitchens, ao lado de outros intelectuais como Richard Dawkins, dedicava-se muito ao combate da religião. Mas não percebeu como suas ideias sobre a invasão do Iraque, como observou John Gray, tinham uma ponta de religiosidade.

Esse era meu plano. No alto do morro, o único lugar onde isso era possível, o telefone deu sinal da mensagem: Temer foi preso. Moreira Franco também. A possibilidade da prisão de Temer sempre esteve no ar. Na última entrevista, lembrei a ele que ia experimentar a vida na planície.

Aqui neste pedaço da Mata Atlântica, não é o melhor lugar para se informar em detalhes. No meio da semana, tinha escrito um artigo sobre a derrota da Lava-Jato no STF, que deslocou o caixa 2 e crimes conexos para a Justiça Eleitoral.

Lembrava que o grupo de ministros que se opõem à Lava-Jato aproveitou um momento de desequilíbrio. Foi o escorregão dos procuradores ao tentar destinar R$ 2,3 bilhões, oriundos do escândalo da Petrobras, para uma fundação. Eles recuaram para uma alternativa mais democrática, um uso do dinheiro através de avaliação mais ampla das necessidades do país.

Distante dos detalhes da prisão de Temer, tento analisar este novo momento da Lava-Jato. Até que ponto vai fortalecê-la ou ampliar o leque de forças que se opõem a ela, apesar de sua popularidade? Diante da prisão do ex-presidente, que é do MDB, certamente vai surgir uma tendência de opor as reformas econômicas à Lava-Jato.

É uma situação nova, que ainda tento avaliar. O ministro Sergio Moro tem um pacote de leis contra o crime que já está sendo colocado em segundo plano, em nome da reforma da Previdência. É possível que avance junto ao governo uma nova tese, a de que a Lava-Jato prejudica as reformas, reduzindo suas chances de aprovação. Além disso, há o mercado, sempre expressando seu nível de pessimismo.

As acusações contra Temer eram conhecidas. Como diz um analista estrangeiro, ele gastou grande parte da energia e do tempo de seu governo para tentar escapar delas. Por essas razões, será necessário deixar bem claras as razões que levaram Temer à cadeia. É apenas mais um ex-presidente; mas, no caso de Lula, só houve prisão depois de condenado em segunda instância. Essa diferença desloca o debate técnico para a causa da prisão. Daí a importância de bons argumentos.

A ideia geral é de que a Lava-Jato deve seguir seu curso independentemente de análises políticas. Mas ele depende do apoio da opinião pública. Qualquer momento de fragilidade é usado pelos lobos no Supremo que querem devorá-la.

Numa análise mais geral, as eleições fortaleceram a Lava-Jato. A própria ida de Moro para o governo era o sinal de que agora ela teria o Executivo como aliado. Mas as coisas não são simples assim. A escolha de Moro por Bolsonaro foi um gesto político.

A renovação no Parlamento pode ter ampliado o apoio à Lava-Jato. Mas ainda é bastante nebuloso prever que leis contra o crime, especialmente o do colarinho branco, tenham um trânsito fácil, maioria tranquila.

O governo perde prestígio, segundo as pesquisas. Está dependendo da reforma da Previdência. Pode haver uma convergência momentânea para empurrar com a barriga as leis contra a corrupção.

Houve maioria no Supremo para mandar processos para uma Justiça Eleitoral sem condições de investigá-los com rigor. A mesma maioria de um voto pode derrubar a prisão em segunda instância.

Nesse momento, não adiantará aquele velho argumento: perdemos uma batalha, mas venceremos no final. Uma sucessão de derrotas precisa acender o sinal de alarme. Somente uma interação entre a opinião pública e a parte do Congresso que entendeu a mensagem das urnas pode reverter essa tendência. Haverá força para isso?

Aqui no meio do mato, não me arrisco a concluir nada. Eleições não decidem tudo. Ainda mais uma falta de rumo dos vencedores, que chega a nos fazer temer que, na verdade, não tenham resolvido nada. Exceto mudar o rumo, da esquerda para a direita.

domingo, março 24, 2019

EU VOTEI CONTRA O PT - OS TRÊS PATETAS E UM JUMENTO!

A Direita não precisa de guru, já temos as idéias. Precisamos de HOMENS para implementa-las e não de twiteiro sem-noção



UM GOVERNO CONTRA AS REFORMAS


Parece não haver aprendizado - SAMUEL PESSOA

FOLHA DE SP - 24;03

O ministro Sergio Moro dá sinais de que se considera ainda um juiz


É natural que uma nova elite política passe por um processo de aprendizado.

A eleição de Jair Bolsonaro representou profunda transição política. Não somente temos uma nova elite política no comando do Executivo nacional como houve troca na direção ideológica. Após um longo domínio de partidos de esquerda ou de centro-esquerda, foi eleito um presidente com claro discurso liberal na economia e conservador nos costumes.

Como escrevi há três semanas, Bolsonaro se meteu em uma armadilha da qual está difícil sair. Na verdade, não é possível saber se ele deseja sair.

Governo de regime político multipartidário, independentemente de ser parlamentarista ou presidencialista, será de coalizão. Esse é um fato da vida. Não é possível lutar contra ele.

No presidencialismo multipartidário brasileiro, há dois tipos de moeda de troca legais. Compartilhar poder em torno de um programa, que envolve negociar cargos e posições no gabinete após a negociação de um programa e projeto de país, e a liberação de emendas em contrapartida ao apoio do parlamentar a projetos de interesse coletivo.

A evidência empírica da ciência política brasileira é que os presidentes que compartilham mais o poder, construindo coalizões mais programáticas, usam menos intensamente a liberação de emendas. (ver capítulo 3 de "Making Brazil Work", de Marcus Melo e Carlos Pereira.)

Possivelmente —e a evidência empírica aqui não é tão clara, em razão da natureza do fenômeno—, o nível de corrupção também será menor.

Na campanha eleitoral, Bolsonaro demonizou a parte mais nobre da política.

O problema maior é que não há sinais de que esteja havendo um processo de aprendizado. Pelo contrário, as declarações do presidente ao desembarcar em Santiago no Chile, na semana passada, sinalizam que ele dobra a aposta na estratégia de governar apartado do Congresso Nacional, isto é, da política.

A dificuldade de Bolsonaro de descer do palanque e governar faz com que a lua de mel seja desperdiçada em temas laterais e, mais recentemente, em discussões públicas muitas vezes internas ao governo.

O governo se recusa a tocar a política da forma tradicional por considerar que perderá sua base popular de apoio. Paradoxalmente está perdendo a sociedade por não o fazer. A forte queda da popularidade noticiada na semana passada ilustra esse fato.

Para piorar a situação, o ministro da Justiça, Sergio Moro, dá sinais de que se considera ainda um juiz. Juiz assina a sentença e cumpre-se. Ministro envia projeto de lei para o Congresso e negocia. Fazer cobrança pública ao presidente da Câmara não parece ser muito efetivo.

A sociedade passou dois anos no governo Temer discutindo a reforma da Previdência. Os políticos estão cientes da gravidade da situação fiscal. Há clima para aprovação.

Por outro lado, o governo está com a faca e o queijo na mão. O presidente Temer deixou a casa bem arrumada e o caminho —a depender de uma solução para o problema fiscal— livre para uma retomada do crescimento, mesmo que pouco brilhante.

Difícil imaginar que as atrapalhadas do governo poderão colocar tudo a perder. Mas é para lá que parece que estamos caminhando.

A política não arrumará a situação fiscal por gravidade. Sem tocar a política, nada será aprovado.

Samuel Pessôa

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP.

'Parece que o pau está comendo' - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 24/03

Ideólogo do bolsonarismo prega agitação, propaganda e democracia direta tuitada


"O poder no Brasil está em guerras", se escrevia aqui, no domingo passado (17). "Parece que o pau está comendo", disse na sexta-feira (22) o ministro Paulo Guedes (Economia), que fazia troça da semana de confrontos explícitos entre as turmas do poder.

Gente no centro do governo, porém, fazia teoria do conflito e da importância da rebelião das massas para o sucesso do governo de Jair Bolsonaro.

Filipe Martins, assessor da intimidade presidencial, um ideólogo do bolsonarismo e de seu núcleo de agitação e propaganda, pregou no Twitter nove teses sobre a missão da "ala antiestablishment" do governo: derrubar a "oligarquia" atiçando as massas, por meio de pressão popular direta, o que substituiria a "velha política". Leia mais abaixo um resumo desse manifesto bolsonarista, também um grito de guerra dentro e fora do governo.

Nesta semana, ficaram mais graves os atritos entre o Supremo e os procuradores militantes; entre Congresso e Planalto. O líder lava-jatista, o ministro Sergio Moro (Justiça), chocou-se com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que, por sua vez, abdicou do posto de articulador-geral parlamentar de Bolsonaro.

Maia estava sendo flagelado pelas falanges de Bolsonaro nas redes insociáveis, caçado por ser um representante da "velha política" e, em última análise, por tentar reunir uma coalizão parlamentar de apoio ao governo ou, pelo menos, à reforma da Previdência.

Mas os remendos de coordenação política que havia se desmilinguiram na semana passada.

Para piorar, no Chile, Bolsonaro dissera que a governabilidade e acordos políticos baseados em divisão de poder (cargos) criam situações propícias à corrupção.

O presidente e o núcleo ideológico de seu governo estão afinados. Trata-se do grupo comandado por seus filhos Carlos e Eduardo, que puseram Filipe Martins no cargo de assessor de assuntos internacionais de Bolsonaro, todos eles muito ligados ao influenciador digital Olavo de Carvalho.

Essa "ala antiestablishment do governo", apelido dado pelo próprio Martins, disputa o comando do Itamaraty com os militares, procura dominar o Ministério da Educação e tentou controlar a Secretaria de Comunicação, que ocupa oficiosamente por meio de contas nas redes sociais. Acredita que o bolsonarismo é uma revolução nacional e popular; que seu instrumento é a democracia direta tuitada.

"Há uma tentativa" de isolar e difamar a "ala antiestablishment" do governo, tuitou Martins, na sexta-feira. O ataque a esse núcleo puro do bolsonarismo teria como objetivo "quebrar a mobilização popular" que elegeu Bolsonaro e o dispensou da aliança com os "donos do poder".

Esse movimento seria o combustível do sucesso do governo, a "única forma" de fazer reformas liberais, aprovar o pacote anticrime e preservar a Lava Jato, argumenta Martins.

A mobilização popular, por sua vez, depende da "agenda de ideias e valores da ala antiestablishment do governo". A cooperação com os oligarcas e a aceitação da velha política não seriam meios de "romper com o sistema patrimonialista que existe há 500 anos".

É preciso, pois, que as diferentes alas do governo se organizem de modo a reforçar a pressão popular ao ponto de que os integrantes do sistema político temam por sua sobrevivência política. "É necessário, em suma, mostrar que o povo manda", proclama Martins.

É um chamado para um levante virtual das falanges da ultradireita.

Vinicius Torres Freire

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

"Não tem governo" - ELIANE CANTANHÊDE

O Estado de S.Paulo - 24/03


Rodrigo Maia: “É um governo vazio, sem ideia, sem proposta, sem articulação”


Mais uma semana infernal no Congresso, no Executivo, no Judiciário, no mercado e, muito especialmente, no twitter. Começou e terminou com o presidente Jair Bolsonaro ajustando as posições brasileiras às de Donald Trump, enquanto o Brasil pegava fogo. Mais um ex-presidente preso, o presidente da Câmara em pé de guerra e os filhos do presidente desgovernados nas redes sociais.

A maior vítima é a reforma da Previdência, que sofreu vários solavancos: críticas no Congresso à proposta dos militares, considerada mais branda do que para outras categorias; parlamentares do PSL comemorando a prisão de Michel Temer, maior nome do MDB; a queda de 15 pontos na popularidade de Bolsonaro no Ibope; a desarticulação do governo com sua base.

Nada, porém, foi tão nocivo às chances da reforma da Previdência quanto os ataques de bolsonaristas e até do governo ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que é, nada mais, nada menos, a peça principal para a aprovação da proposta no Congresso.

De pavio curto, como se sabe, Maia não gostou quando o ministro Sérgio Moro se reuniu com a “bancada da bala” e disse que iria insistir na tramitação do pacote anticrime o quanto antes. Maia, que tinha acertado com Bolsonaro dar prioridade à Previdência e deixar o pacote Moro para o segundo semestre, deu um pulo. E avisou que não falava com funcionários, só com o chefe. Ou seja, não falava com Moro, só com Bolsonaro.

O clima piorou quando Carlos Bolsonaro, o 02, usou a trincheira da internet para defender Moro e atacar o presidente da Câmara com insinuações. A coisa mudou de figura. E de patamar. Nesse meio tempo, Maia ameaçou não receber o projeto dos militares e abandonar a articulação da reforma, furioso com uns e outros. Inclusive os que usaram a prisão do padrasto da sua mulher, Moreira Franco, para atingi-lo.

Quando liguei para ele, Rodrigo Maia contra-atacou: “Não tem governo. É um governo vazio, que não tem ideia, proposta, articulação”. E continuou: “Para dissimular, criou esse confronto do bem contra o mal, do bonito contra o feio, do quente contra o frio. Eles são o bem, os bonitos, os quentes. E nós, os políticos, somos os maus, os feios. É só para manter a base ultraconservadora na internet”.

Bolsonaro sabe que a reforma da Previdência é questão de vida ou morte para o País e para o governo dele, mas finge que não queria, que não é com ele. “Ele tira o corpo fora e vende a imagem de que nós é que estamos obrigando o governo a fazer a reforma”, diz Maia.

Ainda na sexta-feira, o filho 01, senador Flávio Bolsonaro, tentou consertar o estrago (pelo twitter...) e elogiou o presidente da Câmara: “Assim como nós, ele está engajado em fazer o Brasil dar certo”. Maia devolveu o elogio, mas com ressalva: “O Flávio é bom, mas ele é do Parlamento, não do Executivo”.

É assim que o governo, em vez de aglutinar, vai dividindo, afastando, criando atritos, dificultando não só a reforma da Previdência como a sua própria vida. O 01 tem mais noção política e mais responsabilidade, mas o 02 e 0 03 precisam lembrar que Bolsonaro não governa para seus eleitores, muito menos para os eleitores genuínos (que votaram efetivamente nele, não contra o PT). Governa para todos.

O Planalto não pode correr o risco de perder o apoio de Maia, porque ele abriria uma longa fila de adversários, o DEM, o PSDB, o MDB, parte dos evangélicos do PRB e vai por aí afora. O que sobraria? O PSL, novo inexperiente e dividido?

O pior é que a culpa da guerra de guerrilhas na internet sempre cai sobre os filhos, mas Maia tem uma certeza: “É tudo patrocinado por ele”. Quem é ele? Jair Bolsonaro.

Bolsonaro e sua estranha diplomacia sem Estado - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo 24/03

Presidente, no Brasil, é chefe de governo e de Estado. Falta explicar os termos ao presidente



Depois de prestar vassalagem a seu ídolo e modelo Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro foi a Santiago com a anunciada intenção de enterrar a quase esquecida Unasul, uma irrelevante invenção bolivariana, e participar da criação de um bloco proposto pelo colega chileno Sebastián Piñera. Nenhuma das duas visitas tem relação clara com interesses de Estado. As duas foram motivadas por objetivos ideológicos e até religiosos, sem conexão com os atributos essenciais da entidade conhecida como República Federativa do Brasil. Essa entidade é laica e sua Constituição garante, além da “livre manifestação do pensamento”, a “liberdade de consciência e de crença”. É uma aberração, portanto, a ideia de uma diplomacia cristã, proclamada pelo embaixador Ernesto Araújo, ocupante formal do posto de ministro de Relações Exteriores. Na tradição do Itamaraty, violada algumas vezes no passado e simplesmente ignorada no atual governo, a diplomacia se faz em nome do Estado.

O chanceler e seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, estão muito longe dessa tradição. Isso foi comprovado de forma indisfarçável na visita presidencial a Washington. Na Casa Branca ele falou de um Brasil engajado com os Estados Unidos. Não falou de afinidades ou simplesmente de interesses comuns, mas de engajamento, numa condição de clara subordinação. Além disso, a afinidade, se fosse mencionada, seria entre países ou ente governantes? A hipótese correta, nesse caso, é a segunda.

O presidente brasileiro confunde a relação entre ele e Trump com a relação entre os dois Estados soberanos ou mesmo entre os povos do Brasil e dos Estados Unidos. O presidente Trump nem sequer teve a maioria dos votos populares. Perdedor nesses votos, ele foi escolhido por um colégio eleitoral constituído a partir de resultados obtidos em diferentes Estados, como determina a regra eleitoral americana.

O presidente brasileiro parece desconhecer esses dados ou menosprezá-los. Em sua visão, os valores trumpianos devem representar os da verdadeira cultura americana, embora ele mesmo, Bolsonaro, nem se expresse dessa maneira. Longe dessas e de outras distinções, ele ignorou sua posição de autoridade estrangeira ao defender a construção de um muro na fronteira com o México e as ideias de Trump sobre imigração – temas de disputa entre americanos.

Como se isso fosse pouco, ainda afirmou, depois da reunião na Casa Branca, acreditar “piamente” na reeleição do presidente Trump. Um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, mais poderoso que o chanceler Araújo, havia posado para fotos, alguns meses antes, com um boné de campanha do presidente americano. Acompanhando o pai em Santiago, esse filho profetizou ser necessário o uso da força para afastar o ditador venezuelano Nicolás Maduro. Em Washington, Bolsonaro pai evitou dizer, depois da conversa com Trump, se apoiará ou deixará de apoiar uma intervenção armada na Venezuela. Quem discordar da palavra vassalagem pode substituí-la por algum termo talvez mais preciso. Mais difícil será mudar os fatos e a história da visita a Washington.

A mesma preocupação essencialmente ideológica e religiosa marcou a ida a Santiago. O próprio Bolsonaro reconheceu estar morta há muito tempo a Unasul (União de Nações Sul-Americanas), símbolo irrelevante do bolivarianismo e da diplomacia chavista, apoiada pelo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Mas como poderia deixar de mencionar essa experiência fracassada e inócua?

Para Bolsonaro, o Prosul (Foro para o Desenvolvimento e Progresso da América do Sul), associação proposta pelo presidente chileno, Sebastián Piñera, deverá promover “democracia, liberdade e prosperidade”. O próprio Piñera usa linguagem mais cautelosa, nega o objetivo de substituir ideologicamente a Unasul e fala de um “foro de diálogo, de encontro e de colaboração”, desenhado para valorizar “a integração e o desenvolvimento de todos”.

Os objetivos e formas de operação do Prosul ainda são pouco claros. Além disso, a integração sul-americana mal começou. As experiências mais bem-sucedidas, até agora, são as de associação com fins econômicos. A Aladi abriu caminho para a constituição do Mercosul e, mais tarde, da Comunidade Andina e da Aliança do Pacífico, fundada por Chile, Colômbia, Peru e México. O Mercosul começou bem, mas encalhou por causa da aliança desastrosa entre o kirchnerismo e o lulismo.

Os presidentes Mauricio Macri, da Argentina, e Michel Temer, do Brasil, ensaiaram um esforço de reparação e de recuperação do bloco, mas pouco avançaram. O governo Bolsonaro nunca mostrou interesse em continuar esse trabalho. Ao contrário, tem tratado o Mercosul como irrelevante e isso foi comprovado, mais uma vez, pela programação das duas primeiras viagens do presidente brasileiro ao exterior.

Os interesses particulares e ideológicos do kirchnerismo e do lulismo quase liquidaram o Mercosul. Governantes mais pragmáticos, mais competentes e mais comprometidos com interesses de Estado poderiam reanimar esse bloco e iniciar outros esforços de integração regional – entendidos, de preferência, como criação de condições para uma inserção global eficiente e competitiva. Nenhum governo pode esgotar esse tipo de tarefa. Empreendimentos desse tipo envolvem compromissos de Estado, mantidos acima das mudanças de governos e partidos.

No caso do Brasil, o avanço nessa direção dependeria de uma recuperação da tradição diplomática. Seria preciso restabelecer a diplomacia como atividade de Estado. Isso dificilmente será feito enquanto o presidente for incapaz de distinguir os valores e objetivos de grupos e de partidos dos valores e interesses da República.

Num regime como o brasileiro, o chefe de governo é também chefe de Estado. O presidente Bolsonaro tem mostrado escasso conhecimento e quase nenhum preparo para qualquer das duas funções típicas da Presidência. Se essa é a condição do chefe, como esperar uma diplomacia exercida em nome de interesses de Estado?

A janela pode se fechar - MARCOS LISBOA

FOLHA DE SP - 24/03

Planalto parece dar um passo para a frente e dois para trás


Quem sabe o susto imenso da última semana não ajude a evitar o desastre?

A expectativa de que o país conseguiria encaminhar uma agenda de reformas para interromper a degradação das contas públicas e evitar a volta da recessão foi solapada por uma proposta inoportuna e conflitos disfuncionais.

Em meio às negociações sobre a reforma da Previdência, o governo enviou ao Congresso uma proposta para as carreiras dos militares que procura corrigir distorções acumuladas por mais de uma década.

Difícil imaginar momento mais inadequado. Afinal, a Câmara começava a discussão sobre a nova Previdência, que reduz benefícios de servidores públicos e aumenta o tempo de contribuição dos trabalhadores formais do setor privado.

No debate público, as percepções são tão relevantes quanto os fatos. É verdade que os salários dos militares estão defasados em comparação com outras carreiras do setor público. Também é verdade que o atual governo congrega militares nos principais cargos como não se via desde os anos 1980.

Qualquer aprendiz de político poderia antecipar que a proposta seria mal recebida. O governo parece conceder benefícios para as tropas enquanto propõe sacrifícios para os demais. Não é bem assim, mas o protagonismo na política pública cobra seu preço.

Quem lidera um país deve dar o exemplo. Se os militares querem estar à frente da política pública, então deveriam saber que têm de arcar com o ônus de não propor, neste momento, a recomposição de perdas de tantos anos.
Bolsonaro entrega proposta para Previdência dos militares

Como se não fosse suficiente, a nova política parece jogar o bebê fora junto com a água do banho. Certamente a corrupção é inaceitável.

No entanto, tratar o presidencialismo de coalizão como equivalente à corrupção é condenar a vida cotidiana por conta das suas possíveis patologias. Algo como proibir os automóveis pela existência de motoristas psicopatas.

A boa política, a negociação sobre a agenda do governo e a nomeação dos seus gestores, permite à sociedade mediar conflitos e construir soluções. Seu benefício colateral é impedir o desastre das guerras.

O Planalto parece estar em uma estranha dança de um passo para a frente e dois para trás. Faz gestos para negociar a reforma e, ao mesmo tempo, revela-se conivente com o desprezo pela boa política.

Sabemos que o presidente foi omisso sobre as reformas na campanha e tem um histórico de defender interesses corporativos com a virulência dos sindicalistas. Pois bem, agora lidera o governo e há um país que ameaça sangrar. Gestos de boa vontade e diálogo com a oposição são fundamentais para enfrentarmos os nossos graves desafios.

Há uma janela de oportunidade, mas ela pode se fechar.

Marcos Lisboa

Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

Certa deterioração - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 24/03

Erros, desatinos e trepidações ameaçam cacife político do presidente e reformas


Sintomas de deterioração política em torno do presidente da República se avolumaram nos últimos dias. Erros e desatinos originados no Planalto e em sua vizinhança se somaram a litígios novos, ou redivivos, espocados em outros núcleos de poder da República, com efeitos secundários na governabilidade.

Enquadra-se nesse caso a prisão do ex-presidente Michel Temer (MDB), de fundamentação duvidosa. Há coincidências com a operação que, em maio de 2017, expôs a tenebrosa conversa entre o então presidente Temer e o empresário Joesley Batista —gravíssima, sem dúvida, mas tratada com visível açodamento pela Procuradoria.

À época, tal como agora, procuradores, policiais e magistrados —privilegiados por regimes salariais e de aposentadoria sob questionamento no Congresso— produziram um fato capaz de prejudicar o andamento da reforma da Previdência Social.

A diferença, desta vez, é que o corporativismo da elite do funcionalismo pode contar com a ajuda, aparentemente involuntária, do presidente da República.

Foi assinado por ele o projeto que pretende elevar a remuneração dos militares, generoso a ponto de praticamente esterilizar a poupança esperada com as novas regras propostas para as pensões.

A caixa de Pandora dos pedidos de equiparação, da parte de outras categorias que se consideram especiais e merecedoras de aumento salarial ou proteção na aposentadoria, está prestes a ser aberta. Assim começaram a morrer, no Brasil dos últimos 30 anos, muitas iniciativas para sanear as contas públicas e combater desigualdades.

O chamado bolsonarismo, no entanto, vai muito além nas suas atitudes estúpidas, que costumam percorrer um trajeto mais ou menos curto até se voltarem contra os interesses do próprio presidente.

É o caso de provocações baratas contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o mais efetivo defensor das reformas orçamentárias entre os chefes de Poder.

Diante do deserto que se descortina na capacidade de articulação parlamentar do Executivo, alvejar Maia só reduz as chances de sucesso no Legislativo dessa agenda crucial para o futuro do país e para o sucesso político de Bolsonaro.

O custo de colocar panos quentes, como fez o círculo presidencial após perceber o estrago, sempre supera o de controlar a máquina de dizer e fazer bobagens a seu redor.

O presidencialismo brasileiro funciona mal quando o chefe do Executivo é uma fonte de incertezas. As grandes tacadas da administração, como é a Previdência para Bolsonaro, não andam sem grande dedicação pessoal do mandatário.

Isso porque todos sabem que é dele o maior triunfo nas vitórias, assim como é ele quem arca com o preço mais elevado nas derrotas.

FUJA DO FINAL FELIZ - GUILHERME FIÚZA

GAZETA DO POVO - PR - 24/03

"O Brasil despencou no ranking de felicidade da ONU. Encontra-se agora 16 posições abaixo da que estava quando Dilma Rousseff ainda era presidente. A felicidade da ONU é para os fortes.

Deve estar aí a explicação para o fato de que Dilma, a feliz testa de ferro do maior assalto da história, continua solta por aí. Só pode ser a proteção invisível do escudo inexpugnável da felicidade. Desde que ela foi deposta, o bom observador notou a escalada da tristeza nacional refletida nos olhos marejados da ONU – especialmente enquanto a entidade soltava, por meio daqueles seus diligentes subcomitês, os alertas internacionais “Lula livre”.

É muito triste mesmo você usar a sua milionária máquina burocrática em favor de um ladrão simpático – e absolutamente honesto – para, no final das contas, constatar que ele continua vendo o sol nascer quadrado. O novo relatório da ONU deveria trazer na capa uma epígrafe sintetizando a filosofia da esperança que nunca morre: “A chave da felicidade está logo ali, na mão do carcereiro”.

Faltou a epígrafe, mas o Brasil não tem do que se queixar em relação a essa organização amiga dos amigos, companheira dos companheiros. A ONU fez tudo que estava ao seu alcance para ver os brasileiros felizes – particularmente aquele mesmo ladrão simpático, picareta do coração, que quando ainda não estava em situação de xadrez andou se encontrando por aí com uns ovos voadores muito mal-educados.

Foi quando Dilma, a nossa última musa da felicidade, alertou a ONU com uma sagacidade quase profética: o ônibus do Lula ia passar por uma área perigosa do Paraná e ela estava preocupada com o que poderia acontecer… Vejam o que é a intuição de uma mulher sapiens. Não deu outra: em lugar dos ovos, tiros atingiram um ônibus da caravana petista – não o que levava o ex-presidente, por coincidência – e mesmo ninguém sabendo dizer onde, quando, por que ou como aquilo aconteceu, a ONU avisou ao mundo, praticamente em tempo real, que tentaram matar o Lula.

O atentado mais misterioso da história, sem uma única testemunha, virou manchete no mundo inteiro como uma ameaça à democracia brasileira em ano de eleição presidencial. No centro de tudo, a vítima das vítimas, o pobre milionário mais querido do planeta, o filho do Brasil e enteado da ONU que queria ser candidato para não ser preso. Cada um com seu projeto de felicidade.

Durante a eleição, um dos adversários do PT, mais especificamente o candidato que liderava as pesquisas, foi esfaqueado em praça pública. Dessa vez, a testemunha do atentado era todo mundo – dava até para ver a lâmina entrando e saindo da barriga por vários ângulos. Mas a tentativa de assassinato deve ter coincidido com o dia de folga da ONU: ela só foi se manifestar sobre o assunto umas 24 horas depois, dizendo basicamente que aquilo não se faz (poderia pelo menos ter explicado que lugar de faca é na cozinha, mesmo que isso não esteja previsto na Convenção de Genebra).

Estardalhaço em tempo real não é para qualquer um – só com amor de mãe e aviso da Dilma, a musa da felicidade.

Vale dizer, a propósito, que depois do impeachment a ONU virou uma espécie de testemunha ocular da infelicidade brasileira. Reforma trabalhista acabando com a mamata dos sindicatos? Não interessa. Segundo a ONU, um golpe elitista e autoritário nos direitos do trabalhador. Medida de controle fiscal para acabar com a orgia contábil do PT? Nada disso: segundo a ONU, a PEC do Fim do Mundo ia deixar crianças com fome nas escolas da periferia.

Como não amar uma entidade dessas, tão dedicada a cuidar incondicionalmente da felicidade dos seus pilantras de estimação? O que mais pode desejar um povo do que ser roubado por gente com boas conexões em Nova York, onde não se perde a ternura jamais?

O que terminou de azedar a situação do Brasil no ranking foi a retirada do apoio ao ditador gente boa da Venezuela (cujo massacre a ONU nunca viu mais gordo) e a turnê fracassada de um exilado profissional do PSOL – estrela cadente da agência internacional de felicidade.

Se os brasileiros fizerem a reforma da Previdência e tirarem suas contas do buraco, provavelmente serão diagnosticados no ranking da ONU com depressão profunda. O jeito é continuar fugindo do final feliz."

Só ‘vontade de Deus’ não basta - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 24/03

Cada dia que passa é um dia a menos que o governo tem para articular sua base com vista a aprovar a reforma da Previdência



Cada dia que passa é um dia a menos que o governo tem para articular sua base com vista a aprovar a reforma da Previdência, mas o Palácio do Planalto e seus operadores políticos parecem longe de compreender a urgência do problema. As advertências de deputados e senadores ao governo deixaram de ser apenas murmuradas e passaram a frequentar discursos e entrevistas em que as queixas são expostas de maneira explícita. Hoje parece haver um consenso segundo o qual o presidente Jair Bolsonaro precisa mudar o modo como negocia o apoio para a reforma, sob o risco, cada vez mais concreto, de ser derrotado.

A questão central é que os parlamentares que apoiam a reforma e se dispõem a liderar o esforço por sua aprovação estão cada vez mais descontentes com o fato de que o próprio Bolsonaro não se apresenta para defender com vigor a proposta. Não são poucos os que temem arcar sozinhos com o ônus político da reforma enquanto o presidente hesita ante a natural impopularidade do tema – quinta-feira passada, por exemplo, Bolsonaro disse que, “no fundo, não gostaria de fazer a reforma da Previdência”, embora reconheça que seja necessária.

O fato é que Bolsonaro parece raciocinar ainda como deputado, condição que o tornaria mais suscetível à pressão de suas bases, e não como presidente, que deve governar para o conjunto da sociedade, com coragem para tomar medidas que podem eventualmente desagradar a seus eleitores.

A julgar pela desorganização de sua articulação política – até mesmo um dos filhos do presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, diz ter sido designado para fazer contatos com deputados em nome do pai –, soa otimista a previsão oficial de que a reforma da Previdência possa ser votada ainda no primeiro semestre e de que faltariam pouco menos de 50 votos para aprová-la, como disse o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O governo dá a impressão de apostar que Bolsonaro, por ter sido eleito pela “vontade de Deus”, como disse na recente visita aos Estados Unidos, aprovará no Congresso todas as pautas de seu interesse sem necessidade de negociação. Não é o que pensam, contudo, os principais parlamentares empenhados na aprovação da reforma. Para esses políticos, só a “vontade de Deus” não basta quando se trata de convencer três quintos da Câmara a aprovar uma emenda constitucional, especialmente a que endurecerá as regras para a aposentadoria.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, por exemplo, alertou que a Casa “não tem 320 liberais” e que será preciso convencer até 280 deputados que não foram eleitos com a agenda da reforma da Previdência.

Se já não seria tarefa simples mesmo para experimentados articuladores, essa empreitada tende a ser muito mais complicada se o governo não se dispõe a fazer política. Até deputados da chamada bancada evangélica têm reclamado da falta de diálogo. Ademais, quando o presidente da República se reúne com parlamentares para ouvir reivindicações com vista a obter apoio à reforma e em seguida vai às redes sociais se queixar de que “a velha política” está “querendo nos puxar para fazer o que eles faziam antes”, manda uma mensagem ambígua sobre sua disposição para negociar.

Ao dar a entender que todas as demandas dos parlamentares são fisiológicas, o presidente colabora para criar um clima de fricção com o Congresso. Não surpreenderá se alguns dos parlamentares que hoje colaboram abertamente com o governo para costurar apoio à reforma da Previdência passarem a ficar reticentes, à espera de um suporte mais explícito do presidente. O próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ameaça abandonar a articulação se continuar sob ataque das milícias virtuais bolsonaristas e dos filhos de Bolsonaro, sob o olhar complacente do pai.

Não basta a Bolsonaro dizer que a aprovação da reforma da Previdência vai acontecer só porque seu governo adotou “uma maneira diferente de negociar”, em que “o sentimento patriótico e a busca do consenso são fundamentais”, como escreveu em artigo publicado no jornal Valor. Como deveria saber qualquer iniciante na vida política, apelos patrióticos podem até animar eleitores e militantes, mas não costumam ser suficientes para arregimentar apoio no Congresso, ainda mais quando o presidente da República pede votos a favor, mas age como se fosse contra.

sábado, março 23, 2019

Contra a velha política, surge uma nova balbúrdia - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 23/03
Há algo de suicida no comportamento de Jair Bolsonaro. O doutor Paulo Guedes, homem forte da Esplanada, informa que, sem a reforma da Previdência, sobrevirá o Apocalipse. O governo só dará certo, portanto, se entregar a reforma. Na Câmara, exigem-se 308 votos. Para obtê-los, é preciso adotar três providências: dialogar, dialogar e dialogar. Mas Bolsonaro prefere fazer cara de nojo. Se continuar agindo assim, Dilma Rousseff vai acusá-lo de plágio.

Bolsonaro escolheu governar no mundo das redes sociais. É muito parecido com o País das Maravilhas. Ali, quem ousa mostrar o mundo real é acusado de conspirador. É isso o que está acontecendo com Rodrigo Maia. Grão-tuiteiro do reino, Carlos Bolsonaro foi ao país do cristal líquido para instruir os navegadores a cortarem a cabeça do presidente da Câmara. Após intensa refrega, Maia aconselhou Bolsonaro, o pai, a dedicar mais tempo à Previdência do que ao Twitter. Foi como se o deputado ecoasse Alice: "Vocês não passam de um baralho de cartas".

No país de Alice, a honestidade de Bolsonaro tornou-se uma virtude negativa. À medida que seu governo vai penetrando o caos legislativo, o presidente vai enumerando os mandamentos de sua honra. Todos começam com não. Coisas assim: Não colocarei bandido no ministério, não farei o toma-lá-dá-cá, não farei concessões à velha política, não isso, não aquilo.

No gogó, tudo soa muito lindo. Entretanto, no mundo das coisas práticas, um presidente que se escora no vocábulo da negação fica muito parecido com o sujeito que leva a família ao restaurante, acomoda-se numa mesa e, na hora de pedir a comida, enumera para o garçom todos os pratos que não deseja experimentar. A família volta para casa com fome e o filho do meio vai às redes para falar mal do estabelecimento.

Não existe velha nem nova política. Existe a boa política e a cleptopolítica. A Lava Jato demonstrou que, nos últimos anos, o índice de corrupção não aumentou no Brasil. Continua nos mesmos 100%. O presidente faz bem em tomar distância do modelo em que a governabilidade é obtida na base do "uma mão suja a outra". Mas é uma tolice negar a evidência de que não há política sem escambo.

É natural que os congressistas sejam portadores de demandas do seu eleitorado. Bolsonaro dispõe de uma vacina capaz de imunizá-lo contra a radioatividade da formação de consórcios partidários. Basta comunicar aos integrantes da sonhada maioria parlamentar: "Não me peçam nada que subverta o interesse público. No meu governo, não se toma e não se dá nada que não possa ser exposto na vitrine."

Fora disso, a retórica do combate à velha política não serve senão para abrir o caminho que conduz a uma nova balbúrdia. Jair Bolsonaro e sua dinastia sempre poderão correr às redes sociais para acusar o Congresso de bloquear as propostas do governo. Mas já ficou entendido que esse tipo de fuga serve para criar crises, não para evitar o Apocalipse de que fala Paulo Guedes.

O Pensamento de Frédéric Bastiat - JOÃO LUIZ MAUAD

O Pensamento de Frédéric Bastiat

INSTITUTO LIBERAL
Claude Frédéric Bastiat (30/06/1801 — 24/12/1850) foi um economista, jornalista e parlamentar francês. A maior parte de sua obra foi escrita durante os anos que antecederam e que imediatamente sucederam a Revolução de 1848. Nessa época, eram grandes as discussões em torno do socialismo, para o qual a França pendia fortemente. Como deputado, teve a oportunidade de se opor vivamente às ideias socialistas, fazendo-o através de seus discursos e panfletos, vazados em estilo cheio de humor e sátira.
“Quando o saque se torna um modo de vida, os homens criam para si um sistema legal que o autoriza e um código moral que o glorifica.”
“Quando a opinião pública equivocada honra o que é desprezível e despreza o que é honroso, pune a virtude e recompensa o vício, encoraja o que é prejudicial e desencoraja o que é útil, aplaude a falsidade e sufoca a verdade sob indiferença ou insulto, uma nação vira as costas para o progresso, que só pode ser restaurado pelas terríveis lições de catástrofe.”
“O socialismo, como as idéias antigas das quais ele brota, confunde governo e sociedade. Como resultado disso, toda vez que nos opomos a uma coisa que está sendo feita pelo governo, os socialistas concluem que nos opomos a que isso seja feito. . . . É como se os socialistas nos acusassem de não querer que as pessoas comam porque não queremos que o estado plante grãos”.
“Se as tendências naturais da humanidade são tão ruins que não é seguro permitir que as pessoas sejam livres, como as tendências desses governantes são sempre boas? Os legisladores e seus agentes nomeados também não pertencem à raça humana? Ou eles acreditam que eles mesmos são feitos de argila mais fina do que o resto da humanidade?”
“A pilhagem legal pode ser cometida de um número infinito de maneiras; portanto, há um número infinito de planos para organizá-lo: tarifas, proteção, bônus, subsídios, incentivos, imposto de renda progressivo, educação gratuita, o direito ao emprego, o direito ao lucro, o direito a salários, o direito ao alívio , o direito às ferramentas de produção, crédito isento de juros, etc., etc. E é o agregado de todos esses planos, em relação ao que eles têm em comum – a pilhagem legal -, que passa sob o nome de socialismo.”
“Esta questão do saque legal deve ser resolvida de uma vez por todas, e existem apenas três maneiras de resolvê-lo: (1) Os poucos saqueiam muitos. (2) Todo mundo rouba todo mundo. (3) Ninguém rouba ninguém.”
“Nada é mais sem sentido do que basear tantas expectativas sobre o estado, isto é, assumir a existência de sabedoria e previsão coletivas, depois de tomar por certo a existência de imbecilidade e imprevidência individuais.”
“Existe em todos uma forte disposição para acreditar que qualquer coisa legal também é legítima. Essa crença é tão difundida que muitas pessoas têm erroneamente sustentado que as coisas são “justas” porque a lei as faz assim.”
“Eu acredito que minha teoria está correta; seja qual for a questão sobre a qual estou argumentando, seja religiosa, filosófica, política ou econômica; se isso afeta o bem-estar, moralidade, igualdade, direito, justiça, progresso, responsabilidade, propriedade, trabalho, troca, capital, salários, impostos, população, crédito ou governo; em qualquer ponto do horizonte científico de onde parti, invariavelmente chego à mesma conclusão – a solução do problema social está na liberdade.”
“O custo real do Estado é a prosperidade que não temos, os empregos que não existem, as tecnologias a que não temos acesso, os negócios que não existem e o futuro brilhante que nos é roubado.”
“Deve-se admitir que a tendência da raça humana para a liberdade é em grande parte frustrada, especialmente na França. Isso se deve em grande parte a um desejo fatal – aprendido com os ensinamentos da antiguidade: desejam se colocar acima da humanidade para organizá-la, governá-la e regulá-la de acordo com sua fantasia.”
“Ou a fraternidade é espontânea ou não existe. Decretá-la é aniquilá-la. A lei pode realmente forçar os homens a permanecerem justos; não pode forçá-los a se sacrificarem.”
“Quando, sob o pretexto de fraternidade, o código legal impõe sacrifícios mútuos aos cidadãos, a natureza humana não é revogada. Todos, então, dirigirão seus esforços para contribuir o mínimo para o fundo comum de sacrifícios e dele retirar o máximo. Agora, é o mais fraco que ganha com essa luta? Certamente não, mas sim o mais influente e calculista.”
"Eles seriam os pastores sobre nós, suas ovelhas. Certamente, tal arranjo pressupõe que eles são naturalmente superiores ao resto de nós. E certamente é plenamente justificado exigir dos legisladores e organizadores prova dessa superioridade natural.”
“E o que é liberdade, cujo nome faz o coração bater mais rápido e sacudir o mundo? Não é a união de todas as liberdades – liberdade de consciência, de educação, de associação, de imprensa, de viagem, de trabalho ou comércio?”
“… a declaração “O propósito da lei é fazer com que a justiça reine” não é uma declaração rigorosamente precisa. Deve-se afirmar que o propósito da lei é impedir que a injustiça reine. De fato, é a injustiça, e não a justiça, que tem existência própria. A justiça só é alcançada quando a injustiça está ausente.”
“Mas como esse saque legal pode ser identificado? Muito simples. Veja se a lei retira de algumas pessoas o que lhes pertence e a dá a outras pessoas a quem não pertence. Veja se a lei beneficia um cidadão em detrimento de outro, fazendo o que o próprio cidadão não pode fazer sem cometer um crime.”
“A necessidade mais urgente não é que o Estado ensine, mas que permita a educação. Todos os monopólios são detestáveis, mas o pior de todos é o monopólio da educação.”
“O estado é uma grande entidade fictícia, pela qual todos buscam viver à custa de todos os outros.”
“Vida, faculdades, produção – em outras palavras, individualidade, liberdade, propriedade -, isto é o homem. E apesar da astúcia de líderes políticos engenhosos, esses três dons de Deus precedem toda a legislação humana e são superiores a ela.”
“Não é verdade que o legislador tenha poder absoluto sobre nossas pessoas e propriedades. A existência de pessoas e bens precedeu a existência do legislador, e sua função é apenas garantir sua segurança.”
“Às vezes a lei defende a pilhagem e participa dela. Às vezes, a lei coloca todo o aparato de juízes, policiais, prisões e gendarmes a serviço dos saqueadores, e trata a vítima, quando esta se defende, como um criminoso.”
“A lei é a organização coletiva do direito do indivíduo à legítima defesa de sua vida, liberdade e propriedade. Quando é usado para qualquer outra coisa, não importa quão nobre seja a causa, ela se torna pervertida e a justiça é enfraquecida.”
“Todo mundo quer viver às custas do estado. O que esquecem é que o estado vive à custa de todos.”
“Aqui eu encontro a falácia mais popular dos nossos tempos. Não é considerado suficiente que a lei garanta a todo cidadão o uso livre e inofensivo de suas faculdades para o auto-aperfeiçoamento físico, intelectual e moral. Em vez disso, exige-se que a lei garanta diretamente o bem-estar, a educação e a moralidade em todo o país. Essa é a atração sedutora do socialismo.”
“Os homens naturalmente se rebelam contra a injustiça de que são vítimas. Assim, quando o saque é organizado por lei para o lucro daqueles que fazem a lei, todas as classes saqueadas tentam de alguma forma entrar, por meios pacíficos ou revolucionários, na elaboração de leis. De acordo com seu grau de esclarecimento, essas classes saqueadas podem propor um de dois propósitos completamente diferentes ao alcançar o poder político: ou podem querer impedir o saque legal, ou talvez desejem compartilhar nele.”
“Nenhuma sociedade pode existir se o respeito pela lei não prevalecer em alguma medida; mas a maneira mais certa de respeitar as leis é torná-las respeitáveis. Quando a lei e a moralidade estão em contradição, o cidadão se vê no cruel dilema de perder seu senso moral ou de perder o respeito pela lei.”
“Trate todas as questões econômicas do ponto de vista do consumidor, pois os interesses do consumidor são os interesses da raça humana.”
“Se a filantropia não é voluntária, ela destrói a liberdade e a justiça. A lei não pode dar nada que não tenha sido primeiro tirado de seu dono.”
“Cada um de nós tem um direito natural, de Deus, de defender sua pessoa, sua liberdade e sua propriedade.”
“Barreiras comerciais constituem isolamento; o isolamento dá origem ao ódio, o ódio à guerra e a guerra à invasão.”
“Se as mercadorias não cruzarem fronteiras, os exércitos o farão.”
“Em virtude da troca, a prosperidade de um homem é benéfica para todos os outros.”
“A solução do problema social está na liberdade.”
“É sempre tentador fazer o bem à custa de outra pessoa”.
“E foi isso que aconteceu. A ilusão do dia é enriquecer todas as classes à custa umas das outras; é generalizar o saque sob pretexto de organizá-lo.”
“Há pessoas que pensam que o saque perde toda a sua imoralidade assim que se torna legal. Pessoalmente, não consigo imaginar uma situação mais alarmante.”
“Propriedade: o direito de desfrutar dos frutos do próprio trabalho, o direito de trabalhar, de desenvolver, de exercer as próprias faculdades, de acordo com o próprio entendimento, sem que o Estado intervenha senão por sua ação protetora; é isso que significa liberdade”.
“Se toda pessoa tem o direito de defender – mesmo pela força – sua pessoa, sua liberdade e sua propriedade, segue-se que um grupo de homens tem o direito de organizar e apoiar uma força comum para proteger esses direitos permanentemente. Assim, uma vez que um indivíduo não pode legitimamente usar a força contra a pessoa, liberdade ou propriedade de outro indivíduo, então a força comum – pela mesma razão – não pode legalmente ser usada para destruir a pessoa, liberdade ou propriedade de indivíduos ou grupos.”
“Quem, então, não gostaria de ver tantos benefícios fluírem para o mundo a partir da lei, como uma fonte inesgotável? Mas isso é possível? De onde o Estado tira os recursos que se exige para dar benefícios aos indivíduos? Não é dos próprios indivíduos? Como, então, esses recursos podem ser aumentados passando pelas mãos de um intermediário parasitário e voraz?”
“Os socialistas alegam que rejeitamos a fraternidade, solidariedade, organização e associação; e eles nos marcam com o nome de individualistas. Podemos assegurar-lhes que o que repudiamos não é organização natural, mas organização forçada. Não é a livre associação, mas as formas de associação que eles nos imporiam. Não é uma fraternidade espontânea, mas uma fraternidade legal. Não é solidariedade providencial, mas solidariedade artificial, que é apenas um deslocamento injusto da responsabilidade.”
“O estado tende a expandir-se proporcionalmente aos seus meios de existência e a viver além de seus meios, e estes são, em última análise, nada mais que a substância do povo. Ai das pessoas que não podem limitar a esfera de ação do estado! Liberdade, iniciativa privada, riqueza, felicidade, independência, dignidade pessoal, tudo desaparece.”
“Se você deseja prosperar, deixe seu cliente prosperar. Quando as pessoas aprenderam essa lição, todos buscarão seu bem-estar individual no bem-estar geral. Então, invejas entre homem e homem, cidade e cidade, província e província, nação e nação, não mais incomodarão o mundo.”
“O tipo de dependência que resulta da troca, isto é, das transações comerciais, é uma dependência recíproca. Não podemos depender de um estrangeiro sem que ele seja dependente de nós. Agora, isso é o que constitui a própria essência da sociedade. Romper as interrelações naturais não é tornar-se independente, mas isolar-se completamente.”
“Acho difícil entender por que aqueles que demandam Educação exclusiva pelo Estado também não exigem uma Imprensa exclusiva do Estado … Ou o Estado é infalível, caso em que não poderíamos fazer melhor do que submeter a ele todo o domínio do pensamento inteligente, ou não é, caso em que não é mais racional entregar a educação a ele do que a imprensa.”
“Ah, suas criaturas miseráveis! Você que pensa que é tão grande! Você que julga a humanidade tão pequena! Você que deseja reformar tudo! Por que vocês não se reformam? Essa tarefa seria suficiente.”
“Escravidão, proteção e monopólio encontram defensores não apenas naqueles que lucram com eles, mas também naqueles que sofrem por eles.”
“Os planos diferem; os planejadores são todos iguais.”
“Numa economia, um ato, um hábito, uma instituição ou uma lei geram não apenas um efeito, mas uma série de efeitos. Destes efeitos, o primeiro apenas é imediato; manifesta-se simultaneamente com sua causa – é visto. Os outros se desdobram em sucessão – eles não são vistos. Agora, essa diferença é enorme, pois muitas vezes é verdade que, quando a conseqüência imediata é favorável, as conseqüências finais são fatais. Há apenas uma diferença entre um economista ruim e um bom: o mau economista se limita ao efeito visível; o bom economista leva em conta tanto o efeito que pode ser visto, como os efeitos que devem ser previstos.”
“Muitas vezes, as massas são saqueadas e nem se dão conta disso.”
“Tente imaginar um sistema de trabalho imposto pela força que não seja uma violação da liberdade; uma transferência de riqueza imposta pela força que não é uma violação dos direitos de propriedade. Se você não pode fazê-lo, então você deve concordar que a lei não pode organizar o trabalho e a indústria sem organizar a injustiça.”
“Não é verdade que o legislador tenha poder absoluto sobre nossas pessoas e propriedades, uma vez que eles preexistem, e seu trabalho é apenas protegê-los de danos. Não é verdade que a missão da lei é regular nossas consciências, nossas idéias, nossa vontade, nossa educação, nossos sentimentos, nossas obras, nossas trocas, nossos dons, nossos prazeres. Sua missão é impedir que os direitos de um interfiram nos de outro, em qualquer uma dessas coisas.”
“E agora, que os legisladores e benfeitores infligiram inutilmente tantos sistemas à sociedade, que eles finalmente terminem por onde deviam ter começado: que rejeitem todos os sistemas e tentem a liberdade; pois a liberdade é um reconhecimento da fé em Deus e em Suas obras”.
“A missão da lei não é oprimir as pessoas e saquear suas propriedades, mesmo que a lei esteja agindo em um espírito filantrópico. Seu propósito é proteger pessoas e propriedades … Se você exceder esse limite – se você tentar tornar a lei religiosa, fraterna, equalizadora, filantrópica, industrial ou artística -, então você se perderá em um território não mapeado, em imprecisão e incerteza, em uma utopia forçada ou, pior ainda, em uma infinidade de utopias, cada uma lutando para assumir a lei e impô-la a você.”
“Agora, uma vez que o homem está naturalmente inclinado a evitar a dor – e visto que o trabalho é uma dor em si -, segue-se que os homens recorrerão à pilhagem sempre que a pilhagem for mais fácil que o trabalho. A história mostra isso claramente. E sob estas condições, nem a religião nem a moralidade podem pará-lo. Quando, então, o saque para? Quando se torna mais doloroso e mais perigoso que o trabalho. É evidente, então, que o propósito apropriado da lei é usar o poder de sua força coletiva para parar essa tendência fatal de saquear em vez de trabalhar. Todas as medidas da lei devem proteger a propriedade e punir a pilhagem.”
“A proteção comercial acumula em um único ponto o bem que ela produz, enquanto o mal infligido é infundido em toda a massa. O primeiro chama a atenção à primeira vista, enquanto o outro torna-se perceptível somente depois de minuciosa investigação.”
“As pessoas que, durante a eleição, eram tão sábias, tão morais, tão perfeitas, agora não têm tendências; ou se tiverem alguma, são tendências que levam à degradação. . . . Se as pessoas são tão incapazes, tão imorais e tão ignorantes quanto os políticos indicam, então por que o direito dessas mesmas pessoas de votar é defendido com tanta insistência apaixonada?”
“Quais países contêm as pessoas mais pacíficas, mais morais e mais felizes? Essas pessoas são encontradas nos países onde a lei menos interfere nos assuntos privados; onde o governo é menos sentido; onde o indivíduo tem o maior escopo e a livre opinião a maior influência; onde os poderes administrativos são menores e mais simples; onde os impostos são mais leves e quase iguais”.
“Mas a vida não pode se manter sozinha. O Criador da vida nos confiou a responsabilidade de preservá-la, desenvolvê-la e aperfeiçoá-la. Para que possamos realizar isso, Ele nos forneceu uma coleção de maravilhosas faculdades. E Ele nos colocou no meio de uma variedade de recursos naturais. Pela aplicação de nossas faculdades a esses recursos naturais, os convertemos em produtos e os utilizamos. O processo é necessário para que a vida possa seguir seu curso indicado.”
“Não podemos duvidar que o interesse próprio é a principal fonte da natureza humana. Deve ser claramente entendido que essa palavra é usada aqui para designar um fato universal e incontestável, resultante da natureza do homem, e não um julgamento adverso, como seria a palavra egoísmo.”
“Se todos desfrutassem do uso irrestrito de suas faculdades e da livre disposição dos frutos de seu trabalho, o progresso social seria incessante, ininterrupto.