segunda-feira, abril 29, 2019

A gargalhada - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 29/04

No Brasil, direita e esquerda parecem pastar como jumentos na grama da guerra fria

Sempre que tenho o prazer de ir ao leste europeu, ouço a mesma resposta quando conto que no Brasil a maior parte dos jovens “informados” e da classe culta em geral são simpáticos a regimes socialistas ou comunistas: uma gargalhada seguida de espanto. “Mas, eles não sabem o que aconteceu aqui nos países comunistas durante décadas?”, me perguntam.

Claro que esta adesão ao socialismo e comunismo como tara intelectual não é um pecado brasileiro. Por todo o ocidente, inteligentinhos brincam de socialistas e comunistas. Diante da violência e miséria que viveram, os habitantes dos países que padeceram sob o regime comunista de fato, só podem dar uma gargalhada como esta.

Arriscaria dizer que só agora começamos a ter a chance de tentar entender, em algum grau, nossa história política desde a guerra fria. O trágico período da ditadura(que nenhum inteligentinho de direita venha dizer que não houve ditadura no Brasil) foi seguido por outro período em que, ao invés de termos uma elite cultural que olhou para o país de uma forma um pouco mais realista (um filósofo diria, “empírica”), tivemos uma elite cultural monolítica que continuou presa a geopolítica da guerra fria. A polarização política no Brasil hoje é anacrônica. Direita e esquerda parecem pastar como jumentos na grama da guerra fria.

Se Bolsonaro e seus seguidores são uma espécie de cadelas hidrófobas que saíram do quarto escuro quase 30 anos depois (a imagem é inspirada em Nelson Rodrigues), nostálgicos de uma ditadura, a elite culta ativa nos “aparelhos culturais e educacionais” pós-ditadura se encastelaram numa narrativa atávica, presa a um “profetismo” marxista (e derivados) que logo estará na lata de lixo da historiografia.

Ao invés de propor uma análise mais complexa e ampla da política, grande parte de nós preferimos transformar as universidades, a mídia, a arte e a cultura em espaços de disputa política baixa, a serviço de interesses de classe, assim como se vê hoje em dia uma parte do poder judiciário fazer a mesma coisa: que se dane o país, contanto que seus privilégios de uma República das Bananas continuem a funcionar.

A historia do pensamento político é essencial para pensarmos qualquer política. A obviedade da afirmação acima é proposital. Referências existem por toda parte, cito aqui apenas uma delas: “On Politics” do professor Alan Ryan, que ensinou teoria política nas universidades de Oxford e Princeton, da editora W.W. Norton & Company.

O debate sobre como fazer a vida em sociedade um pouco menos ruim (porque é disso que se trata a política), desde a Grécia, tem alguns marcadores essenciais. Vou dar apenas dois exemplos importantes.

Um deles é a busca de “regimes mistos”, como buscava Aristóteles em Atenas e Cícero em Roma, ambos na antiguidade, e “Os Federalistas” (James Madison, John Jay e Alexander Hamilton) nos EUA, no final do século 18. “Misto” aqui significa um regime que integre minimante uma “aristocracia” (não de sangue) competente a agentes que representem o “povo”, a maioria, de forma razoável. A busca dessa integração institucional visa evitar a ganância dos poderosos e o ressentimento dos mais pobres.

Política é o campo em que conflitos auto-justificados se organizam institucionalmente a fim de que esses conflitos não destruam a sociedade. Esta tradição atinge seu apogeu justamente nos Federalistas, com a criação de mecanismos práticos e institucionais de pesos e contrapesos que limitem o poder de todo mundo que tem alguma forma de poder.

Outro marcador essencial é o debate acerca da natureza humana (não vou debater com os inteligentinhos o conceito de natureza humana aqui). De um lado, Santo Agostinho, na antiguidade tardia, para quem o pecado faz de nós seres interesseiros que a qualquer hora podem destruir tudo para realizar seus desejos mais mesquinhos e que, portanto, necessitam de uma ordem mínima que os mantenham sob cuidado e atenção. David Hume, cético, já no século 18, pensava que seria uma máxima política justa supor que todo homem pode a qualquer hora agir como um patife, e por isso mesmo, se faz necessário confiar desconfiando, em bom português.

Do lado oposto, a tradição, grosso modo, iluminista, de Rousseau a Marx (e derivados) para quem os homens são vítimas históricas que um dia, libertos da opressão, serão anjos políticos.

Você também está ouvindo a gargalhada de Aristóteles, Cícero, Santo Agostinho, Federalistas e David Hume?

A conspiração dos algoritmos - SAMY DANA

O GLOBO - 29/04

Algoritmos de preços são conjuntos de regras, em geral muito simples, que usam tentativa e erro para obter uma venda

Se você já comprou on-line, sabe como funciona: escolheu um produto, viu quanto custava e fez a compra. Enquanto tudo acontecia, um algoritmo provavelmente definiu o preço que você pagou. Esses programas hoje são importantes para o comércio on-line. A quantidade de produtos é imensa. Na Amazon, por exemplo, são mais de 600 milhões diferentes à venda. Seria impossível contar só com a ação humana, por isso um terço dos preços do site é atualizado por algoritmos.

O problema é que podem custar caro nas suas compras, segundo quatro economistas italianos — Emilio Calvano, Giacomo Calzolari, Vincenzo Denicolò e Sergio Pastorello. Algoritmos de preços podem agir às vezes como vendedores mal intencionados, combinando com os concorrentes para aumentar os preços, sugere um trabalho do quarteto, publicado em fevereiro pelo Centre for Economic Policy Research.

Algoritmos de preços são conjuntos de regras, em geral muito simples, que usam tentativa e erro para obter uma venda. Como um vendedor que tenta seduzir o cliente, esses robôs tentam seguidas estratégias de preços, com dados como os preços dos concorrentes, tentando oferecer um valor atraente para o comprador e o máximo de lucro para o vendedor.

A ideia é usar as estratégias que funcionam melhor. Se uma fracassa, simplesmente tentam de novo com outra até acertar. Mas, no meio do processo, o estudo demonstrou que podem se dar conta que o melhor para lucrar mais é cobrar mais caro em vez de fazer uma guerra de descontos.

Para testar a teoria, os economistas criaram dois robôs de preços e deixaram que um interagisse com o outro. Isto é, quando um baixava o preço, o outro reagia, baixando ainda mais, e quem ganhava era o consumidor. Mas, quando um dos algoritmos mudou de comportamento, o outro parou de dar descontos e o acompanhou. Os preços subiram e voltaram aos níveis do começo do experimento.

Pelo movimento dos preços, a manipulação foi evidente, mas, segundo os pesquisadores, não há traços de como aconteceu. Nenhum dos algoritmos quebrou qualquer regra ou se comunicou um com o outro, os dois apenas reagiram a leis básicas sobre como se formam os preços, escolhendo a estratégia que levava a mais ganhos.

Até agora, estranhas subidas de preços tinham chamado atenção da internet, como uma árvore de Natal de plástico comum à venda por US$ 10 mil no site da Amazon, mas eram consideradas falhas de programação. O estudo sugere outra explicação: talvez algoritmos, competindo, possam elevar preços ao infinito. Mas é uma hipótese em aberto.

Alguns economistas defendem que é impossível algoritmos formarem um cartel, já que não se comunicam. Mas, em um artigo publicado no começo do ano no Oxford Journal of Legal Studies, dois professores de Direito, Ariel Ezrachi e Maurice E. Stucke, citam casos, no Chile e na Alemanha, em que os preços subiram sem combinação prévia quando o governo publicou o valor da gasolina em cada posto. A medida devia incentivar a concorrência, mas, vendo o preço dos outros, cada posto aumentava o seu. Algo parecido ocorreu no experimento dos quatro italianos.

Não se trata de imaginar programas malignos, criados para lesar consumidores. Para as empresas, algoritmos só tomam decisões melhores do que humanos sobre os preços. O problema, os dois estudos sugerem, é quem pode acabar pagando por isso. Seu bolso.

A paralisia do investimento - SERGIO LAMUCCI

Valor Econômico - 29/04
Dúvidas sobre Previdência e demanda fraca travam decisões


O investimento segue travado, mesmo depois de passadas as eleições presidenciais e da queda de mais de 30% no auge da crise. Com a demanda anêmica e as incertezas em relação à aprovação da reforma da Previdência, o setor privado investe muito pouco, ainda mais num cenário em que grande parte das empresas tem enorme capacidade ociosa. O setor público contribui ainda menos, dada a péssima situação fiscal do governo federal e de muitos Estados e municípios.

Sem o investimento ganhar fôlego, o PIB crescerá a um ritmo fraco também em 2019 - não por acaso, aumentam as apostas numa expansão de 1,5% ou menos neste ano. Do lado da demanda, o consumo das famílias, os gastos do governo e as exportações não puxarão a atividade, e o país deverá ter mais um ano perdido em termos de crescimento e redução do desemprego.

O anúncio de investimentos desacelerou significativamente depois da greve dos caminhoneiros, em maio do ano passado, como aponta o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato. Levantamento do banco com base em projetos anunciados na imprensa mostra uma queda mais forte exatamente a partir de junho de 2018. De julho de 2017 a maio do ano passado, a média de projetos divulgados foi de 109 por mês. De junho de 2018 a março deste ano, ficou em 56.

No segundo semestre de 2018, as incertezas relacionadas às eleições seguraram o investimento. Hoje, as dúvidas quanto à reforma da Previdência, fundamental para garantir a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo, mantêm o setor privado em compasso de espera.

Como pano de fundo, uma demanda muito fraca e uma grande ociosidade na economia. Honorato cita a sondagem industrial de março da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em que houve um salto das empresas apontando a "demanda interna insuficiente" como um dos maiores obstáculos. No quarto trimestre de 2018, esse era um dos principais problemas para 31,1% das companhias; no primeiro trimestre deste ano, o número pulou para 37,5%.

A ociosidade é enorme. O nível de utilização de capacidade instalada da indústria de transformação ficou em 74,4% em abril, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV). É um número muito abaixo da média registrada desde 2001, de 80%.

Segundo Honorato, as dúvidas quanto à Previdência afetam mais diretamente um grupo de grandes empresas globais, muitas de capital de aberto, que esperam uma definição sobre o futuro das contas públicas para tomar decisões de investimento. "Há dois canais de transmissão aí", diz Honorato. Se a reforma não passar, a tendência é de haver uma desorganização do ambiente econômico, o que leva as empresas a esperar antes de investir. O outro é o risco de que haja um aumento de impostos no futuro se não houver a mudança do sistema de aposentadorias, gerando dúvidas sobre a rentabilidade dos investimentos.

No caso de empresas de médio e pequeno porte, de capital fechado, o efeito das incertezas sobre a Previdência é diferente, afirma Honorato. Ele se dá porque a indefinição quanto ao sistema de aposentadorias impede mais estímulos para a demanda por parte do próprio Banco Central (BC), por exemplo. Isso poderia contribuir para reduzir mais o custo de capital. É um efeito indireto. Esse empresário só vai investir mais quando perceber a perspectiva de crescimento mais forte da demanda. É obviamente um fator crucial também para as empresas de maior porte, mas uma perspectiva clara de aprovação da reforma da Previdência poderia deflagrar decisões de investimento das companhias maiores, que anteveriam um cenário melhor para a economia, avalia Honorato. Ele espera que a proposta passe em primeira votação na Câmara dos Deputados em julho ou agosto, com aprovação final pelo Senado ainda neste ano.

No primeiro trimestre, a economia foi mal. O Bradesco estima que o PIB tenha recuado 0,1% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. Nessa base de comparação, a previsão é que o investimento tenha recuado 0,6%. Por enquanto, Honorato projeta um crescimento do PIB de 1,9% em 2019, número que eventualmente pode ser reduzido. Pelo que indica a pesquisa empresarial do banco, o segundo trimestre se encaminha para uma alta de 0,5%, melhor do que no primeiro, mas que, se confirmada, torna difícil um avanço no ano perto de 2%.

A demora na tramitação e a aprovação de uma versão pouco robusta da reforma da Previdência podem retardar ainda mais a recuperação da formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação). Entre o terceiro trimestre de 2013 e o quarto trimestre de 2016, a FBCF caiu 31,6%.

Em recuperações cíclicas que se seguiram a recessões anteriores, o investimento costumava liderar a retomada. Depois de uma queda superior a 30%, não seria absurdo esperar um aumento da FBCF em torno de dois dígitos num primeiro momento. Nos oito trimestres seguintes ao fim da recessão, porém, a FBCF só cresceu 6%. Para Honorato, o problema não é falta de financiamento - a queda dos empréstimos do BNDES já foi mais do que suplantada pelas emissões no mercado de capitais, segundo ele.

Com demanda fraca e o setor público sem espaço para investir, uma opção seria cortar mais os juros, em 6,5% ao ano desde março de 2018. Honorato acredita que a redução da Selic é tema para o segundo semestre. Até lá, deverá ficar claro para o BC que o repique recente dos preços é transitório, como ele e a grande maioria dos analistas avaliam. Se a atividade continuar fraca, a inflação e o câmbio ficarem comportados e a reforma da Previdência estiver bem encaminhada, o BC poderá então baixar mais os juros. Nesse quadro, não seria necessário esperar a aprovação final pelo Senado, diz ele.

Se não for possível estimular a demanda pela redução dos juros, Honorato vê como outras possibilidades promover outras reformas, como a tributária, e intensificar privatizações e concessões de infraestrutura. Hoje, essa agendas estão em segundo plano pela prioridade dada à mudança na Previdência.

Nesse quadro, é fundamental o governo se concentrar na articulação dessa reforma no Congresso, tentando aprovar o mais rapidamente possível uma versão robusta da proposta. A falta de coordenação política da administração de Jair Bolsonaro já cobra o seu preço em termos de crescimento, por adiar a retomada do investimento e dificultar a adoção de outras medidas para estimular a demanda, como novos cortes dos juros.

Twitter: um mundo à parte - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 29/04

O papel do Twitter como um microcosmo da sociedade tem sido supervalorizado


Há poucos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu o CEO do Twitter, Jack Dorsey, no Salão Oval da Casa Branca. Oficialmente, o objetivo da reunião foi discutir medidas a fim de “proteger a saúde do debate público” na rede social tendo em vista as eleições gerais no ano que vem. Entretanto, o presidente americano, ávido usuário da plataforma para se comunicar com o público, aproveitou para reclamar do que chama de “discriminação” da empresa em relação a ele.

Trump alega ter perdido recentemente muitos seguidores no Twitter – 59,9 milhões de pessoas o seguiam na rede no momento em que este editorial foi escrito – e crê que nada há de espontâneo nessa debandada. Em sua visão, ela seria fruto de um ardil da empresa para reduzir o alcance de suas publicações, o tal “tratamento discriminatório” que ele diz sofrer em virtude do viés político-ideológico de seu governo.

Noves fora a preocupação adolescente do chamado líder do mundo livre, alguém que tem sobre a mesa de trabalho questões muito mais sérias a despachar, não resta dúvida de que o Twitter é uma valiosa ferramenta de comunicação e há mais de uma década tem moldado uma nova forma de interação entre pessoas, empresas e instituições.

Não obstante, o papel do Twitter como uma espécie de microcosmo da sociedade tem sido supervalorizado. É o que indica uma pesquisa feita pelo Pew Research Center com 2.791 usuários adultos da rede social nos Estados Unidos. Os resultados foram divulgados na terça-feira passada.

A pesquisa revelou que a idade média dos usuários do Twitter é menor do que a idade média da população americana adulta: 40 e 47 anos, respectivamente. A renda é outro fator que separa os usuários da rede do restante do país: 41% dos pesquisados informaram receber acima de US$ 75 mil por ano, ante os 32% da média nacional. A escolaridade é outro muro que divide os usuários do Twitter e a população americana em geral. De acordo com a pesquisa, 42% dos respondentes têm diploma universitário, 11 pontos porcentuais acima da média nacional (31%).

A metodologia da pesquisa demonstrou o quão descolado da realidade é o debate que se dá no Twitter. O Pew Research Center optou por dividir os usuários em dois grupos: os 10% mais ativos e os 90% menos ativos na rede social. A média de tweets mensais dos usuários menos ativos é de apenas duas publicações. Já a da fração mais engajada é de, pasme o leitor, 138 tweets, o que equivale a quase 5 postagens por dia. Ou seja, uma pequeníssima porção de usuários é capaz de produzir conteúdo suficiente para, não raro, mascarar o que, de fato, ocupa o debate no restante do país. É uma minoria bastante barulhenta.

As preferências partidárias entre os usuários do Twitter também divergem da média da população americana. Na rede, 36% declaram se identificar com os democratas e 26%, com os republicanos, de acordo com o levantamento do Pew Research Center. Entre a população americana em geral, os porcentuais são de 30% em relação aos democratas e 21% em relação aos republicanos.

Questões raciais, de gênero e imigratórias também foram objeto da pesquisa. Entre os usuários do Twitter, para 64% dos pesquisados os negros são tratados injustamente nos Estados Unidos. Entre a população em geral, são 54% os que acreditam nesta afirmação. No que se refere aos imigrantes, 66% dos tuiteiros, ante 57% em geral, acreditam que os estrangeiros fortalecem o país, e 62% dos usuários da rede veem barreiras sociais que tornam a vida das mulheres mais difícil do que a dos homens. Entre a população em geral, os que veem tais barreiras para as mulheres somam 56%.

A pesquisa feita pelo Pew Research Center é importante para mostrar que o Twitter é um mundo à parte, ainda que sua importância para as relações humanas no século 21 seja inegável. Serve de alerta, portanto, para os que tomam as redes sociais como perfeita amostra da sociedade. Não são.

Ainda não se tem notícia de pesquisa semelhante no Brasil. Viria em boa hora.

O desalento começa a prevalecer - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 29/04

Não é mera coincidência o comportamento mais conservador adotado tanto pelo empresariado do comércio como pelo da indústria na gestão dos estoques. Esse comportamento observado recentemente parece antecipar sua percepção de que haverá queda nos negócios nos próximos meses. Têm sido pequenas, até agora, as variações dos índices que medem os estoques nos dois setores, mas elas mostram atitude mais cautelosa dos dirigentes das empresas. O economista Aloísio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), escolheu uma expressão um pouco mais direta, “desalentador”, para se referir ao cenário que vai se formando no ambiente de negócios a partir dos dados que vão sendo conhecidos.

O índice de adequação de estoques do comércio, calculado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) registrou alta de 5,9% em abril na comparação com o resultado de um ano antes, o que indica que, nesse período, a economia ganhou fôlego. Mas a comparação com dados mais recentes mostra uma tendência menos brilhante. Em relação a março, o índice teve aumento de 1,5%, mas essa variação, como ressaltam os economistas da FecomercioSP, não se deveu à melhora do ambiente econômico. Os empresários do setor já não têm o otimismo que demonstravam no início do ano. O comportamento mais conservador se deve ao fato de que o comércio “já percebe sinais de arrefecimento das vendas”.

Também na indústria o cenário é de estoques ajustados e de pequena melhora na demanda interna, o que levou à alta de 0,4 ponto entre março e abril na prévia do Índice de Confiança da Indústria medido pela Fundação Getúlio Vargas. Mas as expectativas vêm se deteriorando. O resultado preliminar do índice que mede essas expectativas caiu 0,2 ponto entre março e abril, o que o economista Aloísio Campelo interpretou como “uma ducha de água fria” no humor do empresariado industrial.

Outra pesquisa confirma essa tendência. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) caiu 3,5 pontos em abril, após queda de 0,2 ponto em fevereiro e de 2,6 pontos em março. A queda deveu-se tanto ao recuo das expectativas como à piora da avaliação das condições de negócios.

O mau desempenho da economia no primeiro trimestre decerto afetou o humor do empresariado. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,73% de janeiro para fevereiro, depois de ter recuado 0,41% em janeiro na comparação com dezembro. São dados que, por anteciparem com razoável precisão os resultados oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) calculado pelo IBGE, indicam desempenho negativo da economia brasileira no primeiro trimestre. As revisões para baixo nas previsões para o comportamento do PIB neste ano, por economistas de instituições financeiras privadas e do próprio governo, realimentam a desconfiança do empresariado. Ou o “desalento”, como prefere o economista do Ibre-FGV.

O quadro político-administrativo acentua esse sentimento. As expectativas positivas alimentadas após o conhecimento do resultado das eleições de outubro do ano passado foram sendo paulatinamente corroídas por confusões, retrocessos e notória desarticulação política do governo que tomou posse em 1.º de janeiro.

Há oportunidade e tempo, obviamente, para que aos poucos se vá recompondo a confiança do empresariado e das famílias com relação ao desempenho da economia nos próximos meses. É absolutamente indispensável para isso que avancem as propostas destinadas a assegurar o equilíbrio futuro das finanças públicas, sem o que o País não poderá crescer de maneira consistente. E isso depende do governo Bolsonaro, que precisa demonstrar mais firmeza de propósitos e mais competência política do que apresentou até agora.

"Quem, além do pai, parças, Tite e Edu Gaspar, consegue entender Neymar?" - MAURO CEZAR PEREIRA

GAZETA DO POVO - PR 29/04
"O maior jogador brasileiro da atualidade, brindado pelo destino com imenso talento para a prática do maior esporte do universo, parece imbuído num projeto inequívoco de auto-sabotagem. Não bastasse o cai-cai da Copa do Mundo, que não faz um ano virou meme mundial, Neymar segue se envolvendo em situações que o expõem de maneira negativa.

Sábado, seu time, o milionário Paris Saint Germain, rico desde a incomensurável injeção econômica da família do Emir do Qatar; perdeu um título aparentemente ganho. Campeão francês antecipadamente, abriu 2 a 0 sobre o Rennes na Copa da França. Mas permitiu que o oponente igualasse o placar e depois o derrotasse na decisão por pênaltis.

A reviravolta deu ao 11º colocado na liga francesa o título da Copa nacional, com um orçamento quase sete vezes inferior ao dos parisienses. Um feito e tanto. Um vexame imenso para a equipe que também conta com Buffon, Thiago Silva, Marquinhos, Daniel Alves, Verratti, Di María, Draxler, Mbappé, Cavani e outros destaques do futebol internacional.

O cenário era, obviamente, ruim para o elenco do PSG. E quando seus astros subiam a escadaria rumo às tribunas do Stade de France, um torcedor rival acionou seu celular, começou a filmar e a desferir ofensas aos jogadores derrotados. Neymar largou a mão no rosto do fãs da equipe do Rennes, em momento devidamente registrado em vídeo.

O motorista de entregas Edouard, de 28 anos, como identificado pela imprensa da França, diz que nada fez. “Eu não o insultei, disse que ele era ruim”, alegou ao jornal “L’Equipe”. Contudo, em um dos vídeos da agressão divulgado em redes sociais, ele parece chamar Buffon de “idiota” e Verratti de “racista”. Ao brasileiro diz: “Vai aprender a jogar futebol”.

Não foi a primeira vez que esse tipo de situação aconteceu com o camisa 10. Em meio à festa pela conquista da medalha de ouro no futebol dos Jogos Olímpicos de 2016, discutiu com um torcedor no Maracanã. Furioso, o craque fez questão de ir até o local onde o cidadão estava para tomar satisfações em tom agressivo e sendo contido à margem do campo (abaixo).

Entendo a revolta de Neymar com o torcedor, que se teve a chance de ficar tão próximo, não tem o direito de ofende-los ali, cara a cara, acreditando que jamais reagiriam. Mas ao esmurrar o sujeito, o jogador se posicionou no papel de vilão e permitiu ao agressor verbal se transformar em agredido fisicamente. Melhor seria ignorar, ou confrontá-lo sem atacá-lo.

Um dos maiores problemas do jogador parece ser a redoma onde vive. Cercado por “parças”, os tais amigos que o seguem em todas as partes, pai, agentes, assessores etc, parede sentir-se como se o mundo contra ele estivesse. Algo que até parece ter sido real no auge dos memes sobre cai-cai, ano passado. E o destempero demonstrado algumas vezes só o prejudica.

Segue fresca, viva, a frase “não é fácil ser Neymar”, dita pelo dirigente da CBF Edu Gaspar após a eliminação do Brasil no Mundial do ano passado. Foi uma das mais inacreditáveis declarações paternalistas já registradas no mundo do futebol. “O que esse menino sofre não é fácil”, acrescentou o ex-jogador, atual coordenador técnico da Seleção.

Semanas depois foi a vez de Tite: “Neymar merece elogios por comportamento, pela recuperação, pela disciplina. Mantenho o que disse: ele é top três do mundo”, sentenciou. “O último contato que tive com ele, disse quando dei um abraço: ‘Neymar eu gosto muito de ti. Eu gosto de ti muito mais que tu pensa que gosto. Eu sei o seu valor’”.

Aparentemente quase todos que o cercam tentam protegê-lo, paparicá-lo, dando sequência a um processo de não-amadurecimento, à manutenção do homem no papel de menino. Ninguém o ajudará assim e o próprio não colabora com ele mesmo. A questão é: até que ponto isso seguirá afetando seu desempenho em campo? O tempo está passando e Neymar o desperdiça.

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O contundente 4 a 1 do Athletico sobre um Vasco fragilizado, com técnico interino e desfalcado de seu goleiro (Fernando Miguel) e do melhor zagueiro (Leandro Castán) foi normal. Pela boa fase do Furacão em casa e com tantas dificuldades vividas pelos vascaínos, a goleada não foi surpreendente, absolutamente. O time rubro-negro é forte.

O problema atleticano é a distância da Arena da Baixada. O time perdeu os dois jogos que fez longe de Curitiba pela Libertadores, o mais recente na quarta-feira passada, para o Jorge Wilstermann (antes caiu para o Tolima). E sofreu reveses nos três últimos compromissos fora, perdendo para Londrina e Toledo antes dos 3 a 2 sofridos na Bolívia.

Sim, são times diferentes o campeão paranaense e o que disputa o certame internacional e agora o Brasileiro. Mas esse ponto em comum remete à Série A 2018, quando em 19 pelejas como visitante o Athletico venceu somente duas. Se quiser continuar se infiltrando entre os grandes para nunca mais sair, o time rubro-negro precisa melhorar seu desempenho fora.

Fortaleza, Chapecoense, pelo Campeonato Brasileiro, e Boca Juniors, pela rodada derradeira da fase de grupos da Libertadores, serão os três próximos adversários dos atleticanos, todos fora do Paraná. A ver.

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Badalado, campeão mineiro, antecipadamente classificado na Libertadores com 100% de aproveitamento, o Cruzeiro foi mais do mesmo na derrota para o Flamengo, no Maracanã. Cauteloso, sem apetite ofensivo, incapaz de explorar o momento tenso do rival, derrotado no Equador dias antes pela competição sul-americana, perdeu pela primeira vez em 2019.

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Cuca levou a campo um São Paulo reativo diante de um Botafogo que pode ser identificado como uma das mais fracas equipes que já pisaram um gramado exibindo no peito a estrela solitária. Estreou três bons reforços, Pato, Tchê-Tchê e Vítor Bueno, mas não passou dos 33% de posse de bola, esperando em seu campo o frágil time alvinegro. Desolador.

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Nobre a atitude do Coritiba, distribuindo os ingressos para o jogo contra a Ponte Preta, que marcará a estreia na Série B, com a homenagem ao ídolo Dirceu Krüger. O Couto Pereira estará repleto, 40 mil torcedores são esperados e o Flecha Loira, que morreu na quinta-feira aos 74 anos, será revivido numa noite à altura. Desde que o time nele se inspire."

Uma PEC para a prisão em segunda instância - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 29/04

A melhor solução é mesmo reformar a Constituição e colocar o peso do Congresso sobre a solução do impasse.


Com a confirmação da condenação do ex-presidente Lula da Silva pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no caso do tríplex do Guarujá e a perspectiva de que avance em segunda instância o processo referente ao sítio de Atibaia, no qual Lula já conta com mais 12 anos de condenação pela juíza Gabriela Hardt, a sombra do ex-presidente vai diminuindo sobre a discussão da execução da pena após condenação em segunda instância. Já não era sem tempo. O tema tem repercussões jurídicas e sociais importantes e está desgastando o capital institucional do Supremo Tribunal Federal (STF), preso a um impasse interno a seus membros. Livre do peso de Lula, o assunto poderá ter um desfecho, que deve vir por emenda constitucional.

O início do cumprimento da pena após a condenação definitiva em segunda instância é a regra geral em quase todos os países do mundo – ela é suficiente para garantir, de forma substantiva, a ampla defesa e o devido processo legal, ao mesmo tempo em que possibilita a duração razoável dos processos e a efetividade do sistema penal. No Brasil, desde que Operação Lava Jato foi deflagrada, em 2014, e o STF retornou a seu entendimento original em 2016, a execução em segunda instância foi apontada como fundamental para o combate à corrupção e aos crimes de colarinho branco. E com razão: é inegável que o Brasil tenha avançado como nunca antes nesse campo e que a espera do esgotamento de todos os recursos nos tribunais superiores frustraria a finalidade do sistema jurídico em garantir a eficácia da lei.

O problema, porém, é que a atual redação da Constituição Federal faz essa interpretação, do ponto de vista jurídico, aproximar-se perigosamente do ativismo judicial. Diz o inciso LVII artigo 5º que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Para quem é contrário à execução em segunda instância, a prisão, pelo texto constitucional, só poderia se dar por razões processuais – preventiva ou provisória – ou com o esgotamento de todos os recursos. Esse embate tem dividido a classe jurídica e o Supremo, preso a uma disputa renhida, com direito a idas e vindas e manobras regimentais que enfraquecem a autoridade do tribunal. Enquanto a redação do inciso LVII for esta, não há perspectiva de que a questão seja pacificada e a segurança jurídica, garantida definitivamente.

É alvissareiro, então, que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tenha dito em recente entrevista à Globonews que o parlamento não pode mais se furtar a esse debate. Maia sinalizou, inclusive, que o tema pode ser votado ainda em 2019. O ministro da Justiça, Sergio Moro, defende que mudança seja feita por meio de lei, uma vez que o STF já tem interpretação a favor da segunda instância. O PL anticrime enviado por Moro ao Congresso propõe uma mudança no Código de Processo Penal, que passaria a prever que a possibilidade de prisão, além das hipóteses já existentes, em decorrência de decisão “exarada por órgão colegiado”. A lei passaria ainda a dizer que, “ao proferir acórdão condenatório, o tribunal determinará a execução provisória das penas”, exceto se houver questão legal ou constitucional relevante que “possa plausivelmente levar à revisão da condenação”.

Embora projetos de lei possam ser aprovados com mais facilidades que emendas constitucionais, a mudança legal não afastaria em definitivo as dúvidas sobre a interpretação do dispositivo constitucional que tanto causa polêmica. Por isso, a melhor solução é mesmo reformar a Constituição e colocar o peso do Congresso sobre a solução do impasse. Já tramitam apensadas na Câmara duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC), de autoria dos deputados Alex Manente (CD-SP) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), hoje ministro, que propõem uma nova redação para o inciso LVII: “ninguém será considerado culpado até a confirmação de sentença penal condenatória em grau de recurso”.

É claro que nem mesmo uma PEC garante que se encerre de vez o assunto, porque existe a possibilidade de o STF ser acionado sob o argumento de que uma mudança dessa natureza violaria um direito fundamental cláusula pétrea da Constituição. Mas, nesse caso, a discussão muda de patamar, uma vez que não haveria tendência alguma, sob uma interpretação razoável, de se abolir a presunção de inocência no país. A mudança do texto não atinge a substância da garantia constitucional. Seja como for, a execução da pena após condenação em segunda instância é requisito de segurança jurídica, estabilidade institucional e efetividade da lei penal. Hoje, o melhor caminho para isso é reformar a Constituição.

A questão indígena - DENIS LERRER ROSENFIELD

ESTADÃO - 29/04

Tribo paresi (MT) quer progredir e decidir seu destino, sem depender da tutela do Estado

A questão indígena é um dos temas mais apaixonantes pelas emoções que suscita, entrando em linha de conta tanto o desconhecimento da situação quanto considerações sobre a liberdade de escolha dos indígenas, passando pela atuação de ONGs e dos mais diferentes tipos de interesse. A ignorância ou a má-fé não deixa de ser um desses seus elementos.

Segundo dados do IBGE, a população indígena no País é constituída por aproximadamente 1 milhão de pessoas, pouco mais de 550 mil em zona rural. O caso de índios urbanos, observe-se, é de natureza diferente, por não envolver demandas fundiárias, mas de saúde, educação, trabalho, condições dignas de vida e luta contra o preconceito. Chega a ser uma vergonha que o País não consiga atender dignamente um contingente tão pequeno de pessoas, pertencentes originariamente a esta terra.

Do ponto de vista territorial, a população indígena restante ocupa em torno de 118 milhões de hectares, correspondentes a 14% do território nacional. Se fôssemos seguir as ONGs indigenistas, deveriam ocupar, segundo cálculos preliminares, 24% do território. Faz sentido?

Isso não significa, evidentemente, que nenhuma área deva ser doravante demarcada, mas um diagnóstico da situação deveria analisar a especificidade de cada tribo. Não é o mesmo uma tribo perdida, sem nenhum contato cultural, na Amazônia, os conflitos ditos fundiários em Dourados e em Mato Grosso do Sul e os paresis em Mato Grosso.

No que diz respeito a essa tribo na Amazônia, salta aos olhos que seu território deveria ser demarcado, é essencial para sua preservação. Daí não se segue, porém, que ela deva ser usada como objeto de manipulação ideológica, como se seu caso servisse de parâmetro para outras tribos. Basta ver como fotos são divulgadas por ONGs nacionais e estrangeiras para constatar a instrumentalização realizada!

No que toca à situação de Mato Grosso do Sul, as partes em confronto têm pretensões de direito aparentemente legítimas, cada uma delas apresentando seu próprio pleito. Nessa região os produtores rurais, em geral, possuem títulos de propriedade centenários, outorgados pelo próprio Estado. Imaginem um(a) produtor(a), depois de décadas morando e trabalhando em determinado lugar, receber um belo dia a notificação de que a terra não lhe pertence. Como assim? Por um suposto laudo antropológico que tudo anula, deve ele simplesmente ser expulso, deixado à própria sorte?

Note-se que não há propriamente desapropriação de terras indígenas, mas simplesmente expropriação, o proprietário não é indenizado pela terra nua, mas apenas pelas benfeitorias. É como se a terra não fosse sua propriedade, sendo ele uma espécie de usurpador. Seriam famílias de usurpadores por todo o País!

Se há conflitos de direitos, deveria o Estado, se fosse o caso, pagar pela propriedade, pela terra nua, podendo os indenizados se instalar em outros lugares, nada perdendo. Nada diferente do que já estabelece a legislação quilombola no País, estipulando que as pessoas indenizadas devem ser pagas em dinheiro, segundo avaliações de mercado. Já ocorre em muitos locais que os proprietários, cansados de disputas intermináveis, de invasões e violências, apenas pretendam uma justa indenização.

No caso tão discutido de Dourados, nem se trata de demarcação, pois a área em questão já está demarcada, isto é, quando se demarca um território como indígena, demarca-se ao mesmo tempo o seu entorno como não indígena. O que lá acontece é uma explosão demográfica dentro da terra demarcada. Em vez da exploração ideológica e de ONGs, bastaria comprar a terra do entorno, conforme valores estabelecidos em acordo com os proprietários. Muitos, porém, vivem da eternização dos conflitos, como se deles dependessem para se justificar.

Outro caso totalmente diferente é o da tribo paresi, que planta em Mato Grosso soja no verão, milho, feijão e girassol no inverno. Trata-se de um caso exemplar, ao pôr em pauta a liberdade de escolha. Querem eles decidir por si mesmos o próprio destino, sem depender do Estado nem recorrer a ONGs. E por isso mesmo estão sendo penalizados, por exigirem para si uma atitude cidadã!

São índios que falam por si mesmos, exigindo ser tratados como agricultores, com os mesmos direitos destes. No entanto, recebem do Estado como resposta que devem ser tutelados, como se não soubessem do que estão falando. Não saberiam dos seus interesses, devendo permanecer sem voz. Calados pelo politicamente correto!

Almejam melhores condições de vida para o seu povo, vivendo do seu próprio trabalho. Não exigem Bolsa Família, nem esmolas. Querem poder escolher o seu trabalho e o seu modo de vida, dependendo apenas de si mesmos. Com uma população de pouco mais de 2 mil pessoas, cultivam soja em 10 mil hectares, com agricultura moderna e mecanizada. Neste ano devem movimentar em torno de R$ 50 milhões em suas duas safras. Note-se que essa sua área de cultivo corresponde a apenas 1,7 % do seu território. Somente isso!

Conforme a mentalidade de uma nova época, criaram uma cooperativa, o que tornou viável a compra comum de insumos, a venda da produção e contratos bancários. Contudo, por serem indígenas, submetidos a tutela, têm dificuldades de acesso ao crédito. Bizarro, não?

Ademais, estão sendo multados em mais de R$ 140 milhões por não terem sido autorizados a produzir monocultura para comercialização e, em caso de outras pessoas da mesma etnia, por fazerem arrendamento. Teriam ainda cometido outro pecado capital, a utilização de sementes transgênicas. Isto é: o seu supremo pecado teria sido o exercício, como qualquer brasileiro, de sua liberdade de escolha!

Se há questões legais envolvidas, muito simples. Basta elaborar uma nova legislação segundo o espírito de um novo tempo!

*PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS

A guerra das fintechs - RONALDO LEMOS

FOLHA DE SP - 29/04

Experiência mostra que apostar contra a inovação não costuma dar certo


Enquanto um bom punhado de gente acompanha o mundo virtual de "Game of Thrones", há uma outra guerra real e dramática acontecendo em torno da ascensão das fintechs, as startups do setor financeiro.

Essa guerra pode ser resumida por uma única palavra: "unbundling" (desagregação).

Hoje, o modelo dos bancos é agregar o maior número de serviços em uma mesma estrutura monolítica: conta-corrente, investimentos, seguros, crédito, pagamentos, gestão patrimonial e até mesmo loterias, como nos chamados "títulos de capitalização".

Esse modelo, obviamente, dá muito certo. Especialmente porque é um prato cheio para a possibilidade de colocar em prática subsídios cruzados. É fácil escolher um produto altamente popular e zerar o seu preço, desde que ele sirva de ponte para outros produtos altamente rentáveis. Não por acaso as margens de lucro do setor são muito elevadas.

No entanto, há bárbaros cercando o castelo. Lucros exorbitantes são um forte chamariz para a competição (ou ao menos deveriam ser). Como disse o presidente-executivo da Amazon, Jeff Bezos: "A sua margem é a minha oportunidade".

E, obviamente, Bezos já notou as ineficiências do sistema bancário. Para cada um dos serviços que os bancos agregam hoje, a Amazon está lançando um competidor equivalente: Amazon Pay (pagamentos), Amazon Lending (empréstimos), Amazon Cash (conta-corrente), Amazon Protect (seguros), Amazon Prime (cartão de crédito) e assim por diante.

No entanto, a competição está acontecendo mesmo no território das fintechs, as startups que estão desagregando cada um dos serviços que os bancos prestam de forma unificada, criando modelos mais eficientes e de maior qualidade para o consumidor.

No Brasil, já existe uma pletora dessas novas empresas, cada uma atacando uma modalidade de serviço específico.

E, é claro, isso começou a incomodar e gerar reações. A experiência com outras indústrias nos últimos anos demonstra, no entanto, que apostar contra a inovação não costuma dar certo. Em 2006, entre as 5 maiores empresas globais em valor de mercado, havia um banco. Em 2019, todas as cinco maiores empresas do planeta são de tecnologia.

As mudanças ocorrem rapidamente. O que hoje é monolítico em cinco anos pode não ser mais, como gosta de dizer o consultor Anand Sanwal, citando Hemingway: "Como você faliu? De dois jeitos. Gradualmente, depois subitamente".

Chegou o momento em que as fintechs começarão a ter curvas de adoção parecidas com a das empresas de tecnologia. No entanto, esse caminho não vai ser fácil. O papel da regulação do setor e da proteção à competição vai ser determinante.

Quando a indústria da música foi "desagregada" pela internet, tentou ao máximo valer-se da regulação para conter os novos entrantes. Queriam continuar vendendo CDs com 12 músicas para consumidores que queriam comprar só uma. O resultado é que hoje as gerações mais novas nem sabem o que é um CD.

Com os serviços bancários, a banda já começou a tocar dessa forma. Resta saber se a música será um tango argentino ou um abre-alas para a inovação, capaz de construir um futuro sintonizado com os desejos da ponta que mais importa, o consumidor.

READER
Já era Inteligência artificial vencendo humanos só em jogos de tabuleiro (xadrez, go etc.)

Já é IA vencendo humanos em games complexos, como "Starcraft 2"

Já vem
IA vencendo humanos em Magic: The Gathering

Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

O poder briga com a sombra - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 29/04

Não importa o que aconteça com Mourão, um governo tão estreito como o de Bolsonaro certamente terá novas tensões internas

O governo deu um passo na reforma da Previdência, mas continua no clima de barraco eletrônico, com grupos internos se atacando.

Não entro em detalhes, nem me interesso por personagens. Persigo um quadro um pouco maior.

Nele, a primeira ideia que surge dessas incessantes brigas é a ausência da oposição, ocupando ampla e seriamente o seu espaço. Na falta dela, o governo não tem com quem brigar e resolve brigar consigo próprio.

A cena agora revela mais abertamente uma tensão entre presidente e vice. É uma dupla singular para quem observa o recente período democrático. Na última viagem a Brasília, o fotógrafo Orlando Brito me mostrou a imagem da posse de Fernando Henrique Cardoso. No carro aberto, o vice Marco Maciel levantava a mão, de olho na altura da mão de Fernando Henrique. Ele não queria que acidentalmente seu braço estivesse mais elevado.

Marco Maciel era rigoroso na interpretação do papel do vice. Entre Temer e Dilma, houve um período em que a relação esquentou, terminando com aquela carta em tom de bolero: você não se importa comigo, sou apenas um vice decorativo.

Era, na verdade, uma carta de despedida. Temer já se preparava para substituir Dilma.

No caso Bolsonaro-Mourão, teoricamente tinham tudo para se complementar. Poderiam ter até combinado uma divisão de trabalho: Bolsonaro falaria para seus adeptos; Mourão faria a ponte com os setores que, por pura rejeição ao PT, votaram sem concordar com tudo.

Mas a política não se faz apenas com teorias. Ela é mediada por nossas paixões humanas. Sem combinar suas posições, agindo desorganizadamente, acabaram caindo na armadilha de sempre: até que ponto o vice pode ser protagonista?

No princípio da campanha, Mourão parecia tão ou mais conservador que Bolsonaro. Com o tempo, foi abrandando seu discurso, voltado para o mercado financeiro, a imprensa, a diplomacia.

Até que ponto Mourão quis apenas manter a amplitude da frente que elegeu Bolsonaro, até que ponto seu protagonismo é a maneira de se diferenciar dele, mostrar-se como uma alternativa?

Isso dá margem para tantas nuances interpretativas que prefiro avançar um pouco na tese inicial. Não importa o que aconteça com Mourão, um governo tão estreito como o de Bolsonaro certamente terá novas tensões internas, sobretudo pela ausência de uma forte oposição. Um efeito colateral dos confrontos entre alas do governo é o tiroteio contra as Forcas Armadas. O que se diz sobre os militares em posts e lives da direita, não se dizia nem nos panfletos da extrema esquerda no tempo da Guerra Fria.

Não me importo com textos que tentam interpretar o golpe de 64 como algo realizado pelos civis, muito menos com a afirmação de que os militares destruíram os políticos de direita.

O mundo da internet é recheado de interpretações, eletrizado por teorias conspiratórias. Por que perder tempo em desfazê-las?

As coisas mudam de figura quando os ataques às Forcas Armadas são postados na conta do próprio presidente da República.

É algo tão grave, em termos políticos, como a postagem do golden shower. Não creio que Bolsonaro compartilhe realmente da tese de que as Forcas Armadas no Brasil são uma nulidade. Todo os que viajam pelo Brasil podem testemunhar a ação positiva do Exército. Se quiser reduzir o aprendizado a duas situações, basta ir à fronteira com a Venezuela, ou mesmo às cidades mais secas do Nordeste, onde o Exército organiza o abastecimento de água.

Quem gosta de ler também pode ter acesso às obras que militares têm publicado. Outro dia, resenhei o livro do coronel Alessandro Visacro sobre “A guerra na era da informação”. Acabo de receber o livro “Direito internacional humanitário”, do coronel Carlos Frederico Cinelli. Um estudo sobre a ética em conflitos armados.

As Forcas Armadas não divagam sobre filosofia ou política, mas cuidam de temas ligados à sua atividade principal.

Quem escolheu um general como vice foi o próprio Bolsonaro. Tem de arcar com sua escolha. Se quiser trocar de vice, que o faça em 2022, se for candidato.

A comparação das fotos de posse de Fernando Henrique e Bolsonaro é sintomática. No carro de FH, Marco Maciel obcecado em ser discreto; no carro de Bolsonaro, a ausência. Em seu lugar, Carlos Bolsonaro, protegendo o pai.

O protagonismo de Mourão foi suprimido no ritual. Naquele momento, o drama, como dizia o poeta Drummond, já se precipitava sem máscaras. Era só olhar.

domingo, abril 28, 2019

O novo império do cliente - GUSTAVO FRANCO

ESTADÃO - 28/04

Nada pode ser mais salutar para a concorrência que a elevação do poder do cliente

Os últimos anos testemunharam inovações de gigantesco potencial no terreno monetário e bancário e um bom começo para mapear o que está se passando é a lei que definiu, em 2001, o SPB, Sistema de Pagamentos Brasileiro (Lei 10.214). Parecia apenas mais uma medida prudencial restrita às “câmaras e dos prestadores de serviços de compensação e de liquidação”, portanto, apenas mais um rescaldo da crise de 2008, com vistas a limitar o risco sistêmico.

Entretanto, ao isolar e proteger os circuitos de pagamentos do restante da atividade bancária a regulação abriu horizontes amplos e inesperados. Uma parte do sistema financeiro, o SPB, passava a ser tratada como uma “infraestrutura essencial”, ou “de utilidade pública”, diferentemente de outras atividades dos bancos. O BCB se viu, subitamente, frente a frente com um desafio concorrencial que nunca foi sua especialidade, e foi se abrindo uma colaboração interessante com o Cade, o qual, por sua vez, nunca teve a agilidade para remediar ou reprimir condutas anticompetitivas no sistema financeiro.

Nos anos subsequentes, foi se observando com mais clareza uma tensão insolúvel: os “donos” de plataformas que compunham o SPB procuravam usar essa posição para escravizar seus clientes dos outros produtos financeiros “não essenciais”, como os instrumentos de poupança e outros tantos serviços. Era como se o supermercado só vendesse produtos da própria marca, ou se a companhia de eletricidade obrigasse seus consumidores a comprar as TVs de plasma, torradeiras e geladeiras das empresas ligadas. Era o império da venda casada e da reciprocidade.

Quando a lei brasileira revisitou o assunto em 2016 (Lei 12.865), foi bem além do estabelecido em 2001 ao tratar o sistema de pagamentos como um conjunto de plataformas, instituições e arranjos cujas relações entre si deveriam ser regidas por princípios novos, com sonoridade tecnológica, como “interoperabilidade” (capacidade de trabalhar “em grupo”), ou concorrencial, como “tratamento não discriminatório aos serviços e às infraestruturas necessários” ao funcionamento dos arranjos (o sistema não pode ter pedágios, interrupções discricionárias e dificuldades introduzidas para gerar rendas de monopólio). Tal como a internet.

A nova lei regulou algumas novidades revolucionárias, dentre elas a “moeda eletrônica” e, especialmente, as “contas de pagamento”, que criaram a possibilidade de instituições de pagamento competirem com bancos comerciais oferecendo contas remuneradas a 100% do CDI com as mesmas funcionalidades de depósitos à vista.

Era uma transformação importante, pois essas contas são muito parecidas, nos seus efeitos, com uma criatura de que se fala apenas no ambiente laboratorial: as moedas digitais “emitidas” por bancos centrais. E funcionam como criptoativos, mas sem necessidade de “blockchain”. Elas representam uma seriíssima e muito bem-vinda ameaça competitiva aos grandes bancos comerciais com os quais se dizia que era impossível competir.

A próxima novidade, anunciada nesta semana, atende pelo nome de “open banking”, uma frente muito ampla de possibilidades que se poderia tentativamente descrever como a ideia de, com vistas a melhorar a experiência do cliente, levar às últimas consequências a segregação entre o sistema de pagamentos e a comercialização de produtos financeiros, inclusive crédito.

Sua face mais conhecida é designada como “portabilidade”, ou seja, o direito de o cliente trocar de ofertante conforme encontre uma experiência melhor em determinados produtos (plano de previdência, crédito consignado) ou serviços (recebimento de seu salário). Como quem troca de provedor de acesso a uma rede.

Na semana que passou, o Banco Central deu prosseguimento ao assunto de “open banking”, agora com essa designação, focando no poder do cliente dispor e portar os dados sobre seu histórico bancário. Com isso, o cliente pode cotar operações de crédito de forma competitiva, com grandes benefícios para si.

Nada pode ser mais salutar para a concorrência no sistema financeiro que a elevação do poder do cliente buscar o melhor para si.


"Os corneteiros do fracasso - GUILHERME FIUZA

GAZETA DO POVO - PR - 28/04

Há um avião pronto para decolar, com motor suficiente para te tirar da seca. Mas você quer saber se tem vascaíno à bordo, qual a religião do fabricante e o signo do copiloto. Assim está o Brasil, com um grupo de abnegados tentando fazer a reforma da Previdência pegar no tranco apesar de vocês, os analistas zodiacais do neofascismo imaginário.

Até anteontem vocês se comportaram direitinho. O que importava, basicamente, era ter uma tripulação confiável para tirar o Brasil do deserto deixado pela exuberância da DisneyLula. Após uma eleição cheia de artimanhas para tentar reabilitar o poder da quadrilha, o país escolheu o caminho onde, por vias tortas ou não, a tal tripulação confiável chegou à cabine de comando. Posto Ipiranga.

Mas vocês não querem mais sair do lugar. Aparentemente nesse meio tempo vocês fizeram um mestrado em crítica comportamental, com MBA em etiqueta comparada, e seus interesses mudaram. Vocês trocaram o Posto Ipiranga pelo salão de cabeleireiro, onde uma desavença sobre a novela da véspera é crise grave.

De fato, é uma rotina mais agitada e emocionante. O Posto Ipiranga é um tédio.

E assim estamos, neste estanho ano da graça de 2019. Enquanto Paulo Guedes, Rogério Marinho, Mansueto Almeida, Marcos Cintra, Salim Mattar, Campos Neto, Tarcísio Freitas, Sergio Moro e outros grandes trabalham duro para tirar o Brasil do atoleiro, vocês fuxicam rebotalhos de rede social e tocam nos ouvidos da nação as suas cornetas do fracasso. Nada presta, assim não dá, ole-lê, ola-lá. Os velhos trombeteiros do apocalipse, de Ciro Gomes a Requião, de Jean Wyllys a Gleisi, estão animadíssimos com a chegada de vocês à orquestra.

A reforma está afundando na CCJ – diziam vocês – porque o governo só existe no Twitter (vocês sabem tudo de articulação política), porque o Rodrigo Maia mordeu a orelha do cachorro do Bolsonaro, porque o Mourão é o golpista gente boa (vocês estão na dúvida), porque os filhos são fanfarrões (ah, se eles tivessem MBA em etiqueta comparada…) e acima de tudo porque vocês encontraram essa fantasia de corregedores perfumados do estorvo bolsonarista e vão fazer cara de nojo para tudo.

OBS: A reforma passou bem na CCJ, iniciando ainda nos primeiros meses da nova gestão a agenda mais esperada pelos que querem reconstruir isso aqui, mas vocês continuaram com cara de nojo, dizendo que demorou (!), dizendo que o projeto do Paulo Guedes foi desidratado (mentira) e não vai prestar, ole-lê, ola-lá.

Sobre essa parte de viver surfando entre meias-verdades, vocês estão provando aos parasitas do petismo que é possível mentir com muito mais classe do que eles fizeram por 13 anos. Aliás, no salão da resistência democrática não se ouviu um pio sobre a fake news da menina que se recusou a cumprimentar o presidente. Podem poupar suas meias-verdades para explicar esse silêncio hediondo: já entendemos que na nova cartilha de vocês não é permitido apontar eventuais picaretagens na imprensa, porque pode ser entendido como discurso bolso-fascista. Incrível como vocês estão mudados (os cabelos continuam os mesmos, mas o juízo… quanta diferença).

Ainda assim, a nova aposta de vocês não é de todo burra. Não há de faltar bizarrices dos bolsonaros e seus circundantes para alimentar as crises de fofoca que vocês hoje se dedicam a fermentar e espalhar. Vocês são os colunistas sociais da miragem autoritária, uma espécie de reencarnação da Revista Amiga para futricas de coturno. Não deixa de ser um papel na sociedade.

Se apesar de vocês o avião decolar e tirar o Brasil da seca, vocês obviamente vão querer embarcar correndo, pedindo educadamente desculpas pelo atraso. Não tem problema, a tripulação que está dando duro mal sabe de vocês (não dá tempo de ler a Revista Amiga). São democratas – exatamente como vocês fingem – e não irão barrar ninguém.

Talvez os passageiros à bordo não sejam tão receptivos, mas não dedicarão a vocês nada pior do que uma cara de nojo, como a que vocês hoje fazem para tudo. Nada grave, eles apenas terão entendido quem vocês são."

A anatomia da inovação - CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA, edição nº 2632

As novidades brotam de gente “perguntadeira” — e não do Estado


Quando morava em Genebra, eu ia sempre ao Mont Salève, para voar de asa-delta ou parapente. Certo dia, comprei de meu colega de clube um medidor de velocidade do vento, muito útil para não decolar no dia errado.

Quem fez esse aparelho? Responder a essa pergunta ajuda a decifrar o processo de inovação. De quebra, é possível melhor entender o nosso mundinho aqui. O anemômetro foi desenvolvido e construído pelo próprio piloto, um jovem criativo e técnico em eletrônica (nem engenheiro era). Ele, porém, cursara uma escola acadêmica exigente e sua profissionalização foi com a mão na massa.

Invenção é uma descoberta, uma ideia nova. Inovação é combinar — pode ser o velho ou o novo — e vender o resultado. No caso, ele nada inventou, mas juntou o que existia, fazendo um aparelho leve, elegante e confiável. Como os concorrentes eram pesados e caros, sua inovação era vendável. Aliás, a Suíça é o país com o maior número de patentes per capita. Será seu povo mais criativo? Não. As diferenças são outras.

A inovação resulta de gente curiosa e “perguntadeira”: por que isso não funciona direito? Será que poderia criar uma versão melhor ou mais barata? O engenheiro americano F.W. Taylor (1856-1915), que revolucionou o sistema produtivo, resolveu aprender tênis. Antes de adquirir competência com a raquete, registrou duas patentes de dispositivos para esticar a rede. Tinha olho clínico para identificar soluções capengas e propor alternativas. Para que muitos tenham essa combinação de espírito crítico, criatividade e crença de que vale a pena buscar uma nova resposta, é necessário que isso tudo seja valorizado e estimulado. Assim fazem as sociedades onde existe muita inovação. Mais ainda, inovadores isolados são raros. A inovação borbulha quando há um bando de gente trocando ideias.

No passado, a Itália produzia muitos cantores de ópera. O Brasil é um celeiro de jogadores de futebol. E, não é por acaso, as pessoas desabrocham naquilo que é endeusado pela sociedade. Assim é a inovação na Suíça. E óbvio, o Estado oferece facilidades e estímulos para premiar os criativos. Na década de 80, a China enviou uns 100 inventores a uma conhecida feira de invenções em Genebra. O país asiático ainda cambaleava, os participantes não falavam inglês e seus inventos eram para lá de bobocas. Mas o Estado sinalizava assim o seu compromisso com a inovação. Quantos inventores brasileiros estavam lá? Nenhum.

Uma sociedade como a nossa, carente de inovações, precisa estimular, e não penalizar, os inventores e as iniciativas que podem desembocar nelas. Sabidamente, o Estado é o último lugar onde poderemos encontrar inovações. Mas espera-se, pelo menos, que não atrapalhe os poucos a se aventurar nessas direções.

Registrar uma patente é um pesadelo. São anos! Os financiamentos públicos não vão para quem tem as melhores ideias. Pagar impostos é um sofrimento. As notas fiscais encalham nos computadores das prefeituras. Alvarás? Certidões? Trogloditas ambientais à espreita?

A criatividade borbulha em nossas (poucas) startups. Mas não é por acaso que se ajuntam todos para cultivar e proteger um microambiente de empreendedorismo. Quem sabe um dia poderão vicejar fora dessa redoma?

A cabeça da direita - HELIO BELTRÃO

REVISTA VEJA, edição nº 2632

A cabeça da direita

Helio Beltrão, o criador do Instituto Mises, onde estudou Eduardo Bolsonaro, diz que o presidente é um ‘liberal emprestado’ e que o Brasil é ‘socialista’

Por João Batista Jr.



Embora não tenha um cargo no governo de Jair Bolsonaro, o engenheiro Helio Beltrão formou e capacitou quadros hoje instalados em ministérios e no Congresso Nacional por meio do Instituto Mises. Com nome que homenageia o economista austríaco Lud­wig von Mises (1881-1973), a escola se dedica a dar cursos para disseminar os princípios da economia liberal, cujos pilares fundamentais são a pregação do Estado mínimo, do livre mercado e da propriedade privada. Ao lado do atual ministro Paulo Guedes, Beltrão foi membro-fundador do Instituto Millenium, outro think tank liberal. Filho de Hélio Beltrão (1916-1997), ministro da Previdência Social e da Desburocratização durante o período do último presidente da ditadura militar, João Figueiredo, ele se apresenta como um “ultraliberal”. Para Beltrão, Bolsonaro é um “liberal emprestado, não de verdade”, mas que “soube captar como ninguém a vontade da população de se livrar dos pensamentos da esquerda”.

Como avalia o desejo — depois revisto — de Jair Bolsonaro de regular o preço do diesel?

Foi um grave erro. Não cabe ao acionista majoritário ou ao presidente da República controlar a empresa. A verdade é que ele teve uma ação instintiva por medo de perder sua alta popularidade. O erro custou caro. Afinal a empresa perdeu 32 bilhões de reais de valor de mercado em um único dia. Bolsonaro reviu a decisão e permitiu o aumento. Ele não pode cometer equívocos desse tipo, se bem que houve um erro anterior.

Qual?

A questão da reforma da Previdência. Não existe uma vontade de formar uma coalizão junto ao Congresso. O que se vê é uma articulação a distância, como se ele quisesse omitir-se na responsabilidade que pertence ao presidente. Atuando dessa forma, Bolsonaro põe em risco a reforma em si. O mercado sofreu com a tentativa de taxar o diesel, mas o problema de percepção em relação ao governo vem da desarticulação no capítulo da Previdência.

O presidente barrou o aumento do diesel para evitar briga com os caminhoneiros. Isso é um equívoco?

É um erro reagir às pressões da sociedade. Fica a sensação de que ganha aquele que chora mais. O Poder Executivo federal não deve ficar refém de um determinado grupo. Na verdade, o governo deveria remover os obstáculos às exportações de caminhões usados. O excesso de caminhões que rodam no Brasil torna o frete muito barato. A categoria também sugeriu a possibilidade de o BNDES recomprar caminhões usados, o que não faz sentido algum.

Além de interferir na questão do diesel, Bolsonaro se mostra contrário à privatização do Banco do Brasil e da Caixa. Também é um erro?

Bolsonaro é um liberal emprestado. Mas está aprendendo a ter simpatia pelas ideias. Vamos ver até onde isso vai. Paulo Guedes, sim, é favorável à privatização dos bancos estatais. Uma leitura no mercado é que o presidente trouxe Guedes para o seu time porque precisava dele dentro da composição; outra é que acredita mesmo nos fundamentos do liberalismo. Talvez a resposta certa esteja no meio do caminho. Os freios do presidente são mais ligados à viabilidade política, não à crença econômica. Embora liberal no discurso, Bolsonaro se mostra nacionalista quando fala de China e Amazônia. Mas ao menos ele está dando aval a Paulo Guedes.

O Instituto Mises formou, além de Eduardo Bolsonaro, quadros do governo atual como Letícia Catelani, ligada ao chanceler Ernesto Araújo. Como a sua escola se transformou no reduto da nova direita do Brasil?

Não foi por acaso. Em A Revolta de Atlas, livro da americana Ayn Rand, publicado pela primeira vez em 1957, há um recrutamento secreto das pessoas mais capacitadas. É um dos poucos livros em que o empresário é herói, e não vilão. Inspirei-me nesse recrutamento imaginado por Ayn Rand para reunir mentes inteligentes. Há mais de dez anos, existia no Brasil um grupo no Orkut chamado Liberalismo, que contava com 3 000 participantes. Pensando num projeto de longo prazo, entrei naquela rede social para descobrir quem eram os melhores entre os interessados no tema. Quando lancei discussões sobre a economia nacional, o dono da comunidade ficou irritado comigo. Então saí do grupo, mas criei outro, chamado Liberalismo Verdadeiro. Os bons migraram para mim. Foi uma ebulição. Os jovens de 16 anos queriam saber de economia e como ascender na vida com o trabalho, mas sem esse ranço da esquerda. Decidi criar o Instituto Mises em 2007 porque as faculdades de economia do Brasil, em geral, são ruins e tomadas por ideologias.


“Liberal no discurso, Bolsonaro é nacionalista quando fala de China e Amazônia. Ele está aprendendo a ter simpatia pelo liberalismo, mas não sei até onde vai”

Quais ideologias?

Até pouco tempo atrás, a Universidade Federal do Ceará tinha as disciplinas Marx 1 e Marx 2. As faculdades não falam da teoria austríaca dos ciclos econômicos, ensinam apenas os estudos de John Maynard Keynes, para quem tudo é questão de subdemanda. Keynes fez suas linhas mestras em cima dos ciclos recessivos, tendo como um dos principais remédios o investimento por parte do governo. O Estado seria o fiador. A esquerda domina a academia e alimenta o pensamento geral de que o Estado precisa tomar conta de tudo.

Qual o efeito disso?

A mentalidade anticapitalista faz com que os empresários virem vilões. Viceja certa teoria da exploração amparada na luta de classes. A cada geração esse raciocínio torto muda de nome: antes era rico contra pobre, depois veio o branco contra os não brancos, agora é homem contra mulher. Sempre existe um que explora o oprimido. Daí a teoria austríaca questiona: o empresário explora de fato? A pessoa escolheu sair do campo, onde morreria de fome, pegou suas coisas de modo voluntário e foi trabalhar na cidade. Se não foi obrigada, como pode haver exploração? É uma bobagem, que precisa ser deixada de lado em favor do livre mercado.

Qual a principal forma de defender o livre mercado?

Apoiando o Estado mínimo. O Estado não pode ter privilégios. Hoje, ele tem o monopólio dos Correios. Tem o monopólio da exploração dos rios e do subsolo. Mas onde o governo tem monopólio o país quebra a cara. Usando o método de Mises, o Estado só deveria fazer aquilo que entregaria com a eficiência da iniciativa privada.

Nesse contexto, qual deve ser o papel do BNDES?

O BNDES deveria acabar. Paulo Guedes sabe disso, porém há obstáculos políticos para fechar as portas do BNDES. Mas ele já avisou: vai pedir a devolução do dinheiro emprestado. E também não vai mais emprestar dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador e do Tesouro.

Há hipocrisia entre os empresários “liberais” que recorrem aos empréstimos do BNDES?

Não, é a regra do jogo. Se meu competidor pega juros baratos, tenho de defender os direitos dos acionistas e fazer o mesmo.

O presidente Bolsonaro, depois de muito vaivém, disse que o Brasil permanecerá no Acordo de Paris. É bom que permaneça?

Tenho problemas com esses acordos multilaterais. Na filosofia liberal, a disputa funciona assim: você causou um dano, aquele que sofreu mostra o nexo causal e busca seus direitos na Justiça. É muito complicado um país já ser penalizado e taxado por algo que ele nem poluiu.

O senhor contesta o aquecimento global?

Não, mas ele foi causado pelo homem? Se sim, que se demonstre isso na Justiça. O mundo está se aquecendo nas últimas duas décadas, sim. Mas aquece, esfria, aquece, esfria… Agora, o aquecimento vai prejudicar mais do que beneficiar?

Qual é o benefício do aquecimento global?

As áreas temperadas poderiam virar tropicais e ter mais capacidade agrícola.

Por outro lado, fauna e flora de localidades como Groenlândia, Alasca e Finlândia, por exemplo, poderiam ser extintas.

O que se sabe é que sempre houve mudança climática. O meu ponto é simples: causou algum dano? Prove na Corte. Se o Acordo de Paris está punindo agora, por meio de intervenção e impostos, algo que acontecerá no futuro, sou contra. Quem se prejudica é o pobre, o que vale também para essa história do canudo de plástico. Só querem permitir o uso da versão biodegradável, muito mais cara. O pobre acaba sendo o maior prejudicado.

O senhor apoia a exploração de minério na Amazônia?

Não vejo problema. A Amazônia não acaba nunca, quem vai para lá sabe disso. Mesmo uma mina aberta trará um desenvolvimento enorme. Emprega pessoas, desenvolve a região, requer a construção de estradas…

Abrir estrada em área nativa não é um problema?

Não acredito que o governo saiba cuidar de área pública. O que questiono não é a preservação, mas sim o governo responsabilizando-se pelo espaço — não vai funcionar nunca, tanto que há desmatamento. Devemos nos inspirar no modelo do Chile, onde quem preserva, com regras claras, é a iniciativa privada.

Como o senhor vê a influência de Olavo de Carvalho no governo?

Ele foi decisivo para combater as ideias erradas do esquerdismo radical, mas tem sido negativo. Na medida em que sua influência vai na linha da ruptura e da não compreensão do processo político, torna-se perigosa. A visão dele e de seus seguidores radicais é que Bolsonaro tem aliança com o povo, e que quem estiver atrapalhando essa visão precisará ser tratorado — não importa que seja o Congresso. Eles tentam suplantar as regras de uma República. Essa turma que se vê iluminada não tem sabedoria, pois vai quebrar a cara por brigar com uma força mais poderosa: o Congresso. Existe um viés conspiracionista, como se houvesse um conjunto de pessoas escondidas atrás da cortina que planeja maquiavelicamente a tomada socialista da Terra. Afirmar que as urnas poderiam ser fraudadas nas eleições deriva dessas teorias que não têm sentido. Também senti vergonha de quem disse que o Jean Wyllys deixou o Brasil por ter articulado o atentado contra Bolsonaro.


“Quando está na classe executiva, você pega uma fila diferenciada no mundo todo — exceto no Brasil. O cara que paga mais tem uma fila diferente. A fila comum aqui é socialismo”


Bolsonaro chegou a declarar, em seu discurso de posse, que o Brasil é socialista. É mesmo?

Sim, é o que mais há por aqui. Temos um pouco de mercado, você pode comprar e vender, mas a definição tradicional de socialismo diz que quem tem mais capacidade para produzir deve ajudar aquele com necessidade. Seria a socialização dos bens e dos meios de produção. O antissocialismo seria ter livres trocas, sendo elas voluntárias. Nessa métrica, não podemos soltar um pum sem precisar de um alvará ou reconhecimento de firma. Somos regulados desde o nascimento até a certidão de óbito. Há o imposto progressivo. Quanto mais se ganha, maior a alíquota que se paga — isso é socialismo. Você compra um carro na Flórida, e o imposto se dá pelo peso do veículo, que impacta o solo. O IPVA no Brasil se dá pelo valor do carro. Outro exemplo: o Brasil é o único país que conheço onde não há express line em aeroporto.

O que seria express line?

Quando está na classe executiva do avião, você pega uma fila diferenciada nos aeroportos. Eu fui a Myanmar esses tempos, e foi assim, como é em todo o mundo — exceto no Brasil. O cara que paga mais tem uma fila diferente. Esse absurdo, a fila comum, é um exemplo, sem dúvida, do socialismo no Brasil.

O raio do papel - J.R. GUZZO

REVISTA VEJA, edição nº 2632

Deu um nó. Está sempre dando, na política brasileira, porque é mesmo da natureza da política produzir complicação, aqui e no resto do mundo. Mas desta vez parece que se formou entre governo, Congresso, partidos e o resto da nebulosa que compõe a vida pública brasileira um nó de escota duplo, ou um lais de guia holandês, ou algum outro dos muitos enigmas criados pela ciência dos marinheiros — desses que você olha, mexe, olha de novo, e não tem a menor ideia de como desfazer. É fácil para os marinheiros — mas só para eles. Como, no presente momento, não há ninguém com experiência prévia a respeito da desmontagem dos nós que apareceram desde que Jair Bolsonaro formou o seu governo, o mundo político está com um problema sério. Como se sabe, é a primeira vez na história recente do Brasil que o time inteiro de cima foi montado sem ninguém pedir licença aos políticos, ou sequer perguntar a sua opinião — e menos ainda comprar seu apoio com a entrega de cargos na administração. Há muito técnico, muito general etc. Mas não há, como a ciência política considera indispensável, nada de “engenharia política”. Isso quer dizer, na prática, que ficou difícil fazer a turma da situação votar a favor do governo — pois a maior parte dela passa mal se tiver de votar alguma coisa por princípio, ou seja, de graça. É esse o nó que não desata. Por causa dele, dizem que o governo está “paralisado há 100 dias”.

Vejam, para citar o exemplo mais indecente do momento, a reforma da Previdência. Nada mais natural que o PT, seus auxiliares e o resto da esquerda fiquem contra. Têm mesmo de ficar: a única escolha que faz sentido para a oposição, hoje, é ser 100% contra qualquer ideia que tenha a mínima chance de melhorar o Brasil em alguma coisa. Isso seria, em seu raciocínio, ajudar o governo Bolsona­ro a ser bem-sucedido — e um governo Bolsonaro medianamente bem-­sucedido é um desastre mortal para o consórcio Lula-PT. Que futuro vai ter essa gente na vida, a não ser que o governo acabe em naufrágio? Nenhum. É compreensível, assim, que a oposição não aprove nada que possa dar certo. Mas PT, PSOL e PCdoB, somados, não chegam a 15% da Câmara dos Deputados. E o resto: por que eles demoram tanto para votar a reforma? Mesmo descontando outras facções antigoverno, daria para aprovar. Resposta: demoram porque querem cargos na máquina e não estão levando.


“Eles demoram para votar porque querem cargos na máquina e não estão levando”

É isso: o sujeito quer uma diretoria, uma superintendência, uma vice-­presidência — uma boquinha gorda qualquer, Santo Deus — e não tem a quem pedir. Falam em “agilização” das nomeações. Mas nomeação, que é bom, não sai. Chegou-se a falar num “Banco de Talentos”, para onde a politicalha mandaria os nomes que quer empregar — e onde as escolhas seriam feitas segundo “critérios técnicos”. Também não rolou. Um deputado especialmente desesperado com a demora, Felipe Francischini, chutou o balde e pediu um emprego na estatal Itaipu para a própria madrasta. Outro, um Elmar Nascimento, do liberalíssimo DEM, disse que não quer saber de “talentos”; quer emprego mesmo, e dos bons. “Não vamos nos contentar só com marmita”, ameaçou ele. Histórias como essa encheriam a revista inteira; não vale a pena ficar repetindo a mesma ladainha. O certo é que a manada quer os empregos, não está conseguindo e, pior que tudo, não sabe com quem falar para descolar a nomeação. Não adianta falar “no governo”, ou “no palácio”. Tem de ser com o sujeito de carne e osso que manda assinar o raio do papel que vai para o Diário Oficial. E quem é que chega até ele?

A Caixa Econômica Federal, para dar um exemplo só, trocou todos os vice-presidentes, 38 dos quarenta diretores e 75% dos 84 diretores regionais — tudo propriedade privada dos políticos. Mais: quer cortar em dois anos 3,5 bilhões de reais em despesas como aluguéis ou “prestação de serviços”. Só na Avenida Paulista, a CEF ocupa hoje sete prédios — nenhum outro banco do mundo chegou perto disso, mesmo na época em que bancos tinham milhares de agências. Em Brasília é pior: são quinze prédios, um deles só para tratar da admissão de funcionários, como se a Caixa tivesse de admitir funcionários todos os dias. Até uma criança de 10 anos sabe que mexer nisso é mexer diretamente no interesse material dos políticos. Eles perderam esses cargos; querem todos de volta, desesperadamente. Na CEF, no serviço contra as secas, nos portos, nos aeroportos, nos armazéns de atacado, no Oiapoque e no Chuí.

Uma coisa é pedir um negócio desses ao ministro Onyx Lorenzoni. Outra é pedir ao general Santos Cruz. Dá para entender o nó, não é mesmo?

Do tempo - LYA LUFT

ZERO HORA - 27/04

Faz alguns anos, tive, num sonho, um vislumbre de uma escultura interminável de corpos humanos entrelaçados emergindo muito abaixo de mim e perdendo-se no infinito acima de minha cabeça. Talvez seja um dos significados da existência nossa: encadeamento e continuação. Como um novelo desenrolando-se incessantemente, todos nascendo uns dos outros, uns por cima dos outros, cada um estendendo as mãos para o alto um milímetro mais e mais e mais: somos novelo e fio ao mesmo tempo.

Meu gesto repete o de uma de minhas antepassadas; meu riso será o de algum descendente meu, que jamais conhecerei, o fio primeiro de minhas ideias nasce de outro pensamento milênios atrás, e continuará se desenrolando depois que eu tiver deixado de existir há séculos, num tempo que não flui como o imaginamos, esse tempo medido e calculado. Ele é pulsação, surpresa.

Às vezes, suspiramos pelo conforto que, vista de longe, parecia ser a vida quando tudo era mais limitado e certo: menos opções, menos possibilidade de erro. Temos de aprender a conviver com essas novas engrenagens de tanta surpresa e perplexidade, mas tanta maravilha. Temos de estar mais alertas do que décadas atrás, quando a vida era - ou hoje nos parece - tão mais simples: precisamos estar mais preparados, para que ela não nos dilacere. Temos de ser múltiplos, e incansáveis.

Que cansaço.

Pois a vida não anda para trás: o preço da liberdade são as escolhas com seu cortejo de esperança, entusiasmo, hesitação e angústia - para que se criem novos contextos e se realizem novas adaptações, que podem não ser estáveis. Pois as inovações, a corrida do tempo e as possibilidades aparentemente infinitas já nos puxam pela manga e nos convidam para outra ciranda de mil receitas: vamos ser inventivos, vamos ser produtivos e competentes, felizes a qualquer preço na companhia de todos os deuses e demônios nessa sarabanda. Fora dela, nos dizem, restam o tédio, a paralisia e a morte.

Será mesmo assim? Ou ainda existem, e podemos descobrir, lugares ou momentos de tranquilidade onde se realiza a verdadeira criatividade, onde podemos expandir a alma, onde podemos amar as pessoas, onde podemos contemplar a natureza, a arte, e os rostos amados, e construir alguma paz interior? Creio que sim.

Para que as emoções e inquietações positivas não entrem em coma antes que termine de definhar o corpo.


Vários anos sem alta real do mínimo - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 28/04

É preciso arrumar a casa antes de retomar política de valorização do salário

Desde 1994 o salário mínimo subiu 167%, já descontada a inflação (bit.ly/2IV8B5j). Ou seja, 4,2% ao ano.

No mesmo período, a economia cresceu 57%, e a produtividade do trabalho, 25%, ou pouco menos de 1% ao ano.

Há limites à política de elevação do salário mínimo real. Sabe-se que aumentos do salário mínimo a partir de níveis relativamente baixos não apresentam efeitos deletérios sobre o funcionamento da economia.

Não pressionam a informalidade nem elevam a taxa de desemprego.

Esse parece ser o caso, por exemplo, da economia americana, em que o salário mínimo é de 34% do salário mediano. Salário mediano é o daquele trabalhador em comparação ao qual metade da força de trabalho ganha mais e a outra metade ganha menos.

Se considerarmos os países da OCDE em 2017, a média dos salários mínimos como proporção do salário mediano foi de 53%. No Brasil, o salário mínimo é de 75% do mediano.

Ou seja, o salário mínimo é baixo no Brasil pois a produtividade do trabalho é baixa. Dada a realidade brasileira, já foi feito um fortíssimo esforço de elevar o salário mínimo.

Não parece haver espaço para novos aumentos reais. De fato, trabalho de técnicos do Ipea indica que aumentos do salário mínimo têm tido efeitos expressivos no aumento da informalidade (bit.ly/2ZExnfS).

No entanto, os impactos da política de valorização do salário mínimo sobre o funcionamento do mercado de trabalho constituem o menor dos problemas dessa política.

A grande dificuldade é que os benefícios de praticamente todos os programas sociais de nosso Estado de bem-estar social são vinculados ao salário mínimo.

O aumento real do salário mínimo tem impacto direto sobre o gasto público. Em tempos de restrição fiscal extrema, e em que a dívida pública apresenta trajetória explosiva, não há espaço para subir o salário mínimo.

Segundo o anexo IV da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), cada 1% de aumento do salário mínimo gera R$ 3 bilhões de elevação do gasto primário da União.

O Brasil é um país relativamente pobre. A produtividade do trabalho é 1/5 da americana. O salário mínimo é baixo pois o país é relativamente pobre.

O mesmo problema ocorre com a Previdência. O benefício pago pelo INSS é relativamente baixo pois o salário do trabalhador ativo é baixo. No entanto, o benefício do sistema previdenciário do setor privado é da ordem de 80% da renda da ativa. Isto é, nosso sistema previdenciário tem uma das mais elevadas taxas de reposição.

Há forte demanda de nossa democracia, absolutamente legítima, de tentar acelerar o processo de redução das desigualdades e, principalmente, de elevar a qualidade de vida dos brasileiros.

O problema é que, a partir de certo ponto, a agenda de redução das desigualdades e de inclusão por meio de programa sociais choca-se com a agenda de crescimento econômico e de estabilização da economia.

Parece que já passamos do ponto. Teremos que conviver diversos anos com a manutenção do valor real do salário mínimo e rezar para que a desorganização da economia não produza piora como tem ocorrido na Argentina e na Venezuela.

Após a arrumação da casa e a reconstrução de uma posição sólida para as contas públicas, a política de valorização do salário mínimo pode ser retomada.

Quando o momento chegar, o ideal será adotarmos a sugestão de Nelson Barbosa em sua coluna neste espaço na sexta (26): vincular o salário mínimo à renda per capita.

Samuel Pessôa
Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP.

Os subversivos do Brasil de 2019 - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 28/04

Ataques irritam generais; sem oposição, elite no poder causa sururu autodestrutivo


O general bebe guaraná e diz que a comida estava muito boa, mas “a gente come qualquer coisa, cobra e farinha, se for o caso”.

“Cobra e farinha” talvez seja citação da frase heroica de Jerônimo de Albuquerque, capitão-mor da conquista do Maranhão, que combateu os franceses no século 17 (“somos homens que um punhado de farinha e um pedaço de cobra quando o há nos sustenta”, dizia, segundo a história de Capistrano de Abreu).

Agora são outros os capitães e os franceses.

A conversa fica um pouco mais aberta no fim do almoço. “E se essa gente uma hora for procurar os jovens oficiais, se essa gente for atrás dos capitães?”, pergunta o general, da ativa. Essa gente?

O assunto eram os “apoiadores radicais” de Jair Bolsonaro e seus ataques aos militares. O jornalista os chamou de “ala antiestablishment” do governismo; o general, de “os seguidores desse homem”, o influenciador digital Olavo de Carvalho, ideólogo de inspiração do bolsonarismo puro.

Entrincheirado, o militar se recusou a rebater os insultos do influenciador digital e a analisar a atitude do presidente em relação a Carvalho. Disse apenas que o país tem mais com o que se preocupar do que marcar passo com fofoca.

Quanto ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, primeiro alvo do ideólogo de Carvalho, o general disse que uma “voz ponderada [como seria a de Mourão] ajuda”, mas é preciso ser “econômico, prudente e leal nas manifestações, muito de vez em quando, na maioria das vezes em conversa particular”.

Mais impressionante mesmo foi a menção aos capitães, a uma possível tentativa de agitar quartéis, de baixo para cima. Para qualquer adepto da ordem democrática, militar ou paisano, essa tentativa se chama corretamente de subversão.

Não há notícia dessa tentativa de agitação. Mas o general que bebe guaraná e fala de comer cobra com farinha não foi o único militar a ficar irritado e preocupado com o ataque do bolsonarismo antiestablishment, de Carvalho em particular, aos generais.

Não se tratou de insulto apenas pessoal, mas de um tipo de ataque que, em situação de crise, pode ser tomado como tentativa de desmoralizar o comando das Forças Armadas, um meio insidioso de disseminar indisciplina.

Dois generais dizem que não há a menor possibilidade de a tropa ouvir agitadores, mas a mera cogitação de que alguém possa vir a criar caso nos quartéis já é motivo de irritação sombria.

É evidente que o país está destrambelhado quando um grupo de extremistas biruta, boca suja, ignorante, feroz e sinistro se torna capaz de causar tanto desarranjo, alguns deles aboletados no Planalto. Mas o destampatório não acontece apenas na copa e na cozinha digital do palácio.

No conflito com procuradores, certos parlamentares e bolsonaristas nas redes insociáveis, ministros do STF puseram os pés pelas mãos com um inquérito de exceção, o das “fake news”.

Noutro caso, o governismo tenta achar meios de decapitar ministros a fim de ter poder no Supremo. Os jacobinos do Ministério Público, por sua vez, querem levar a guilhotina para o Congresso ou além, faz tempo. A “ala antiestablishment” do governo esclarece de vez que vai perseguir quem quiser chamar de “ideólogos”, “esquerda”. Etc.

Não é tumulto causado por revolta popular, movimentos sociais ou oposição, que ora inexiste. A gente assiste bestificada ao sururu atroz da nova elite do poder, uma obra de desconstrução.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

Quero ser grande - VERA MAGALHÃES

O Estado de S.Paulo - 28/04

Maturidade em política independe da idade, mas é requisito fundamental

Na polarização extremada e muitas vezes irracional que tomou conta da política brasileira há várias virtudes em falta no mercado, do bom senso à tolerância, mas talvez uma das mais escassas seja a maturidade. Na mesma velocidade com que se radicalizou, o debate ganhou contornos infantis que tornam constrangedora a tarefa de analisar alguns acontecimentos.

Eleita aos 25 anos com 264 mil votos, a sexta maior votação de São Paulo, a deputada federal Tabata Amaral (PDT) foi execrada nas redes sociais por ter se encontrado com o governador do Estado, João Doria Jr., e aceitado – vejam só que heresia! – tirar uma foto, ainda por cima sorrindo, ao seu lado.

Os ataques vieram tanto da esquerda presa ao mantra do “Lula Livre” como de setores da nova direita incomodados pelo fato de o perfil moderado da deputada encontrar adesão em parte do público que apoiou os movimentos de rua pró-impeachment de Dilma Rousseff.

E eis o grande pecado de Tabata, uma jovem pobre que se formou em Harvard e, mesmo estando em um partido de centro-esquerda, dialoga e recebe apoio de movimentos como RenovaBR e Acredito: ela é difícil de rotular dentro das etiquetas reducionistas em voga no momento atual da política brasileira.

Aos 25, Tabata demonstrou mais maturidade que muitos políticos mais velhos ao encarar a gritaria com naturalidade e, com paciência, explicar o que deveria ser óbvio: como política eleita, ela tem como obrigação dialogar (eita palavrinha maldita nos dias de hoje) com o governador do seu Estado e tentar alocar recursos para a área na qual escolheu focar seu mandato, a Educação.

Busquemos outro caso que dominou o noticiário nas últimas semanas, com maior estridência na última: os pitis de Carlos Bolsonaro contra o vice-presidente da República e os militares, ecoando as diatribes do guru Olavo de Carvalho.

Carlos é político por delegação paterna desde os 17 anos. Há 18 anos, portanto, exerce um mandato como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Número 2 de uma dinastia de políticos comandada pelo hoje presidente da República, apesar de toda essa bagagem encara política como uma refrega entre turmas rivais da quinta série. Juntando a picardia juvenil com doses cavalares de paranoia e uma sintaxe de difícil compreensão, faz das redes sociais – suas e não raro as do pai-presidente – palco para uma incessante fustigação do general escolhido por Jair Bolsonaro para governar com ele por quatro anos.

Não amadureceu, o número 2, mesmo obrigado pelo pai a entrar na política ainda tão jovem.

Outro que entrou na política muito jovem foi o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Filho do então prefeito Cesar Maia, foi por muito tempo eclipsado pelo estilo fulgurante do pai, contrário a sua patente timidez.

Desde que, ungido pela circunstância da queda de Eduardo Cunha, ascendeu à presidência da Câmara, no entanto, Maia parece ter encontrado um trilho próprio de atuação e discurso: liberal na economia, moderado na política, um contraponto à própria pregação bolsonarista estridente.

Tem sido a voz mais lúcida na defesa da política como único caminho de mediação num País heterogêneo social e economicamente como o Brasil, e vai conseguindo amalgamar em torno de si um centro que levou uma surra nas eleições dos dois lados do extremismo histérico e encontra dificuldade em reencontrar um eixo.

Maturidade independe de idade, como se vê diante de exemplos de diferentes gerações de jovens políticos brasileiros. Mas nunca foi um requisito tão fundamental para evitar que o País continue perdendo tempo que deveria ser destinado a tirá-lo do buraco, mas é gasto em infantilidades diárias praticadas e vomitadas nas redes sociais, do Planalto ao STF.

Interferência inadmissível - GENERAL FELÍCIO

O TEMPO - MG - 28/04

Olavo de Carvalho, ex-comunista, ataca militares no governo


Os interesses da nação estão muito acima dos interesses de um indivíduo ou de qualquer grupo, independentemente de laços de sangue ou de qualquer outra natureza. Há que se enfatizar que a moral (comportamentos e valores) do Estado é diferente da moral do indivíduo. A começar que, entre Estados, não existe amizade, apenas interesses.

Os antagonismos e obstáculos internos, que ameaçam tais interesses, não podem ser tolerados. Há que se cortar na própria carne se assim se fizer necessário. Principalmente se ocorrem sob grave crise sociopolítica e econômica, ética, moral e cívica, como a que cobre o Brasil. E, ao se cortar, não se pode deixar dúvidas a serem exploradas pela negativa oposição.

A reação de parcela da população brasileira para confrontar tal crise desesperadora foi eleger um candidato que, patriota e defendendo valores conservadores, se apresentou como capaz de resgatar o governo e recolocar o país nos trilhos: Jair Bolsonaro.

Eleito, iniciou a reação esperada, montando ministério capaz, apoiado em militares e civis, patriotas e competentes. O sr. Paulo Guedes é exemplo notável de competência e amor ao Brasil. Tem um vice-presidente experiente, inteligente, preparado, com grande liderança nas Forças Armadas, que complementa a força da popularidade do presidente. O vice é barreira que o presidente deve ter para que não se exponha a qualquer hora, a cada esquina, como, por vezes, tem ocorrido, a perguntas e críticas extemporâneas, queimando sua imagem, o “mito”, construída a duras penas. É o vice o filtro e termômetro de situações que surgem a cada momento, próprias de um governo com acirrada oposição, e que devem ser neutralizadas na origem, sem atingir a figura do presidente.

Entretanto, esse tem permitido o protagonismo de seus filhos, fontes de crises, pois não agregadores, e de alguém que tem sido apresentado como o verdadeiro orientador político dos Bolsonaros, Olavo de Carvalho. Estes, segundo a imprensa, têm influído na tumultuada dança de cadeiras ministeriais. Agora, voltam-se para comprometer, auxiliando a esquerda nefasta, um dos pilares do governo que mal começou: a união entre presidente e vice-presidente. O que querem esses irresponsáveis? A derrocada do governo Bolsonaro?

O sr. Olavo, ex-comunista, arrogante e autoritário, “dono da verdade”, com discurso desabrido e, por vezes, chulo, ataca os militares no governo e, principalmente, o vice-presidente. Em seu último vídeo, apela para a desqualificação intelectual e moral dos militares ministros, e dos militares em geral, prática marxista-leninista. Ministros militares reconhecidos pelo desempenho, com total sucesso, em difíceis e duras missões internacionais.

À afirmação do sr. Olavo de que a Academia Militar nada produz, respondo que as Forças Armadas sempre estiveram presentes nos momentos de grandes inflexões históricas da nação. Os produtos da Academia são muitos, entre eles homens íntegros e preparados, patriotas, cujo partido é o Brasil. São forjados, prioritariamente, como administradores do caos, isto é, do combate. Porém, têm os conhecimentos essenciais que lhes permitem atuar politicamente quando necessário. Não se fazem de pseudointelectuais, difundindo ideias estapafúrdias que iludem os incautos, buscando interesses rasteiros.

Como exemplos de produtos da Academia, cito os atuais ministros general Santos Cruz, comandante das tropas da ONU no Haiti e comandante da primeira tropa de combate da ONU no Congo, reconhecido pela ONU e por oficiais estrangeiros como líder e possuidor de grande visão política e estratégica; e general Augusto Heleno Pereira, comandante das Forças da ONU no Haiti, sendo reconhecido, também, pela liderança e inteligência, e escolhido pelo grupo O Globo, em 2005, como expoente militar do ano.

Não se pode aceitar, com o país ainda em grave crise, com dificuldades em realizar as profundas e variadas reformas de que o Estado necessita, que atitudes irresponsáveis, de pessoas chegadas ao governo e ao presidente, criem crises continuadas a partir de animosidades aparentes ou de atritos menores, fazendo com que o presidente perca apoio popular, seu grande cacife, e, assim, facilite o trabalho da oposição esquerdista, ferrenha, infiltrada e encastelada nos Poderes do Estado.

Para tal oposição, sem pensar no Brasil e na nação, quanto pior, melhor!

Brasil acima de tudo! Deus acima de todos!

Marco Antônio Felício é General do Exército e ex-candidato a deputado estadual pelo PSL

A síndrome do touro - GAUDÊNCIO TORQUATO

O TEMPO - MG - 28/04

Uma constatação: o Brasil padece da síndrome do touro. Em vez de pensar com a cabeça e arremeter com o coração, faz exatamente o contrário. Vejam: o presidente ouve impropérios contra militares num vídeo de Olavo de Carvalho, põe em sua rede social e retira 20 horas depois. Repudia a acusação, mas exalta a figura do guru. O filho Carlos joga mais pólvora na fogueira e compartilha o vídeo com seus seguidores. Síndrome do touro.

O governo, trôpego e sem rumo, embala a reforma da Previdência e a encaminha sem discussão à Câmara. Falta articulação política, e o pacote ganha intenso debate na comissão que deveria analisar sua admissibilidade, não o mérito. A oposição procura obstruir a sessão. A tensão entre Executivo e Legislativo se escancara: quem comandará os próximos passos na comissão especial e no plenário? Síndrome do touro.

O STF, criado em 1890 como instância máxima de um dos Três Poderes, entra em parafuso com a decisão de seu presidente, Dias Toffoli, de censurar uma revista e um site pela reportagem “O amigo do amigo de meu pai”. Nossa mais alta Corte padece de uma das maiores crises de credibilidade de sua história. Alguns ministros sofrem intenso bombardeio midiático. Síndrome do touro.

As relações entre os Três Poderes atravessam momento crítico. O Legislativo tenta criar um escudo em defesa de prerrogativas, sente-se acuado e insere em sua agenda uma CPI da Toga. Em outra frente, um ministro acusa o Ministério Público de “hiperativismo”, com “procuradores usando métodos questionáveis para transformar investigados em delatores”. Sobram termos como “gentalha”, “cretinos”, “incivilizados”. Procuradores destemidos enfrentam magistrados, e um deles sofre processo administrativo disciplinar no Conselho do MP. Síndrome do touro.

Difamação, injúria, calúnias e uma coleção de acusações inflamam a arena das redes sociais. Bolsonaristas digladiam-se com lulistas, e sobram flechadas para todos os lados. Cicatrizes de campanha permanecem abertas. A fogueira recebe cargas de lenha, ampliando o apartheid social. Síndrome do touro.

A esfera artística, perfilada à esquerda, ressente-se da política do novo governo de rebaixar para R$ 1 milhão o teto de patrocínios culturais. A Lei Rouanet já estava na mira. A decisão aumenta o fosso entre os artistas e a administração, fechando a interlocução e a articulação. A classe deverá tocar alto suas trombetas. Síndrome do touro.

Os parlamentares ainda não se deram conta da imprescindibilidade das reformas, como a previdenciária. Sem elas, não haverá amanhã radioso. Um país de grandes riquezas ameaça se transformar num território de misérias. O Congresso parece Torre de Babel, onde muito se fala e pouco se ouve. E o que se ouve nem sempre é o mais adequado.Que se proclame: o momento sugere que se pense com a cabeça e arremeta com o coração. Não como faz o touro.