FOLHA DE SP - 11/03
Ninguém mais duvida de que já acabou. O governo Dilma chegou ao fim. Hoje, convenham, para fingir que ainda existe, depende apenas do PMDB. Se o partido desembarcar em bloco, a causa está encerrada. E nem precisa haver rompimento formal. Basta que a legenda declare a sua independência.
E aqui cabe uma pergunta muito objetiva aos peemedebistas: se até o PT, sem saída, já caiu fora, por que serão vocês a segurar a alça do caixão? Em nome de quê?
Mesmo as metáforas se cansaram da presidente e fugiram. Esperava-se estrondo, não veio nem suspiro. As coisas foram escorrendo, assim, pelo ralo, preguiçosa e fatalmente. Dilma não nos inspira nem discursos condoreiros. Sua incompetência pastosa não serve nem para animar discurso de resistência. Ela empobrece até a retórica dos adversários.
Neste domingo, muitos milhares sairão às ruas pedindo o seu impeachment. A indignação com a máquina cleptocrata é grande, claro! Mas o sentimento mais perceptível é de enfaro. Essa senhora nunca teve nada a dizer.
E, então, me dou conta de que não é ela. Algo mais está morrendo, se dispersando, nos abandonando, nos libertando...
Na sexta-feira passada, logo depois da condução coercitiva, Lula ainda nos ameaçou a todos com a ira da jararaca ferida no rabo, desafiando a que se lhe esmaguem a cabeça. Será esmagada, não duvidem. Mas o ponto que me interessa aqui nem é esse.
Seu discurso encantou a alguns cronistas políticos, os da minha idade ou mais velhos. Eu mesmo destaquei, em meu blog, sua habilidade retórica; sua fala organizada; sua capacidade de transformar a luta de classes num jogo de truco de botequim; seu dom narrativo que faz Marisa Letícia usar um decanter como se fosse um vaso; sua notável habilidade em exibir todas as suspeitas que há contra si como trunfos, sem responder a nenhuma –até porque respostas não há.
Quase fiquei, leitor, confesso, com saudade de Lula; do tempo em que eu tinha mais cabelo; da minha barba mais preta; dos meus leitores em número muito menor; das minhas reservas ao petismo, exibidas como um traço que alguns queriam esquizoide, já que tantos à minha volta anteviam amanhãs sorridentes onde eu só percebia falência moral e espancamento da lógica. Nota: eu não resistia por heroísmo. Como o artista da fome, de Kafka, era o que eu sabia fazer.
Na sexta, tive, admito, certa nostalgia do tempo em que Lula exibia um pouco mais de vigor; dos dias em que seu arranca-rabo de classes era ao menos legitimado pela ignorância de causa; daqueles anos, ainda precoces, das minhas contraposições ao petismo, com sua incrível capacidade de vulgarizar não apenas a história e a trajetória dos adversários, mas de rebaixar os desígnios pregressos da própria esquerda.
Fiquei com vontade de combater um Lula que fosse algo mais que um decrépito contador de histórias de um passado que ele reescreveu para justificar seu presente miserável. Quase gritei, irritado, diante da TV: "Deem-me um líder que ainda consiga levar porrada! Esse não serve!".
E já não havia Lula nenhum. Olhei ao redor, pensei nos seus teóricos e justificadores, e tudo era mediocridade e irrelevância. Quase fiquei triste, quase fui tomado pela acídia, que, em Santo Agostinho, se não me engano, é definida como "entristecer-se do bem divino", dada a pequenez dos anseios humanos...
Mas depois me animei. Como o garotinho do filme "O Sexto Sentido", cansei de "ver gente morta o tempo todo".
Eu vou para a rua no domingo. Estou é com saudade do futuro.
sexta-feira, março 11, 2016
De paz e amor a jararaca - FERNANDO GABEIRA
A crise brasileira é tão asfixiante que às vezes preciso de uma pausa, ouvir música, ler algumas páginas de romance. Em síntese, recuperar o fôlego.
As crises assumem ritmos mais rápidos no seu final. A reação de Lula na entrevista coletiva, ao sair da PF, não me pareceu a de um candidato.
Em 2002 foi difícil vencer com o “Lulinha paz e amor”. Em 2018 será impossível vencer como jararaca. Um candidato não se identifica com uma cobra peçonhenta. Nem se considera a alma mais honesta do Brasil. Verdade que seu marqueteiro está na cadeia. Mas onde está a intuição política que sempre lhe atribuem?
Ele perdeu a cabeça e, com ela, a chance de representar a serenidade do inocente. Seu marqueteiro representou. Não evitou a cadeia, mas, pelo menos, era um scriptmais elaborado.
Lula queria ser algemado. O marqueteiro e a mulher, também. Eles colocaram as mãos para trás, incomoda menos que as algemas reais, mas não tem o mesmo efeito. No fundo, um tremendo esforço para se fazer de vítima, conquistar pela emoção a simpatia que os fatos liquidaram.
Na Justiça, a decisão vai trabalhar com os fatos. Se alguém, realmente, quer contestar sua provas, precisa argumentar também com evidências.
Nem sempre as decisões na esfera do crime são bem recebidas. Em muitos pontos do Rio, prisões resultam em protestos, queima de pneus e bloqueios. Alguns líderes religiosos, quando presos, também emocionam seu rebanho.
No campo da política, há sempre o cuidado com os conflitos sociais. Para quem viu conflitos sociais, o que aconteceu na sexta passada foi apenas uma briga de torcidas e, na verdade, mais pacíficas que as de futebol.
Leio num jornal brasileiro que iriam buscar, entre outros, um gesto de solidariedade de Nicolas Sarkozy. Leio num jornal francês que Sarkozy também está às voltas com a polícia. Sujou, bro.
Apesar de seu ritmo, os últimos dias têm trazido uma ponta de otimismo, mesmo nos mercados, que são tão voláteis. Esse otimismo está baseado na queda de Dilma, mas deve ser estendido também a Eduardo Cunha. Os dois são rejeitados pela maioria. Não se trata apenas de festejar uma queda, desfazer-se de uma pedra no caminho. É criar uma chance de, superando o impasse político, recuperar a economia.
O que move as pessoas no domingo não é só a unânime luta contra a corrupção, mas também a clareza sobre as dificuldades cotidianas. Elas podem não ter uma noção clara do que deva ser feito. Mas sabem que algo precisa ser feito. E urgente.
Sempre que foi preciso, a sociedade brasileira manifestou-se claramente. Será assim no domingo e, para dizer a verdade, não acredito em conflitos, como algumas vozes do PT sugerem e Dilma confirma, a seu modo, pedindo paz.
As coisas vão se resolver de forma tranquila e o bicho-papão não tem como amedrontar ninguém. Escaramuças pode haver, mas seriam mais um caso de polícia: mais gente presa e neutralizada.
É ingênuo supor que as pessoas, dando-se conta de que o País está à deriva, com um governo que se elegeu com grana da Petrobrás, numa enorme crise econômica, vão ficar em casa só porque uns caras de camisa vermelha fazem cara feia ou gestos obscenos com o dedo.
Quando as pessoas denunciam a corrupção estão baseadas em fatos reais, documentados, investigados com rigor. Sabem que a Petrobrás foi saqueada, sabem dos milhões de dólares que foram repatriados. Não adianta cara feia. Se isso fosse uma saída histórica, bastava saquear o País e dizer: não me prendam porque senão vamos para as ruas gritar; não apareçam para protestar porque estou bravo, viro uma jararaca.
Outro dia, o bispo auxiliar de Aparecida recomendou aos seus fiéis pisarem na cabeça da jararaca. E um juiz condenou um adversário do PT a pagar multa de R$ 1,00 por ter criticado o partido. E ironizou que é um partido que tem a pessoa mais honesta de todas.
O bispo via a luta contra a jararaca como a luta entre o bem e o mal. Quem se colocou como cobra venenosa foi o próprio Lula. E o fez num recado para a Justiça. É uma declaração subconsciente de culpa: jararaca eu sou, acontece que vocês não atingiram minhas funções vitais, sigo sendo uma cobra venenosa.
Dilma reclamou de injustiça, mas até hoje não defendeu Lula no mérito. Colaborou na forma: protestou pelo fato de a Lava Jato tê-lo levado a depor debaixo de vara.
Inconscientemente, Lula pediu para ser destruído. O bispo levou-o ao pé da letra. A Lava Jato certamente entendeu de outra forma. E optou pela pesquisa. São os fatos que já existem e os que ainda não foram divulgados que vão definir o destino do governo e de Lula.
Tanto parlamentares como juízes precisam saber claramente o que a sociedade pensa. Não trabalham com pesquisa e, de qualquer forma, não se antecipam nunca. São viciados no único estímulo: um sopro na nuca, de preferência um vento bem forte, 100 km por hora.
Em outras palavras, a manifestação de domingo pode ser o sopro que falta para romper o impasse político. Mas, de qualquer maneira, a vaca já foi pro brejo. Não há horizonte com o governo Dilma, exceto empobrecer mais, enquanto ela luta por se agarrar no cargo.
No domingo há, ainda, a chance de uma aproximação maior de todos os que querem mudança. É fundamental que estejam próximos durante a travessia até 2018. Esta, sim, já me preocupa mais que as bravatas de Lula. Precisa de um mapa do caminho para recomeçar em 2018 com a economia recuperada e um grau de consciência nacional que não deixe jamais o Brasil chegar ao ponto a que chegou.
Essa é minha esperança. Por ela vou às ruas. Não para me expressar, pois isso posso fazê-lo com liberdade na imprensa. Nem para flertar com a política, interesses partidários ou eleitorais. Vou para a rua porque acho que é o lugar onde devem estar todos os que queiram tirar o Brasil do buraco e encerrar este triste episódio histórico.
Vou para a rua porque é onde devem estar todos os que queiram tirar o Brasil do buraco.
Ofertas do Google - RUY CASTRO
Folha de São Paulo - 11/03
Uma das coisas que admiro nas pessoas que sabem muito é o desapego. Elas não se contentam em saber –espalham generosamente o que sabem, vivem prontas a ensinar e fazem isso de graça, pelo prazer de ajudar. O conhecimento não é para ser guardado a ferros, mas dividido –aliás, a única maneira de multiplicá-lo.
Tive a sorte de trabalhar ou conviver com alguns verdadeiros arquivos vivos, gente capaz de responder na lata sobre muitos assuntos além dos de sua área –entre outros, Otto Maria Carpeaux, R. Magalhães Jr., Franklin de Oliveira, Antonio Moniz Vianna, José Lino Grünewald. Uma pergunta a um deles era a garantia de uma aula. Talvez fossem movidos pela vaidade, mas pode haver vaidade mais benigna?
De 15 anos para cá, o Google se esforça para substituir as sumidades do conhecimento. É o maior banco de dados do mundo e ameaça tornar ociosos os dicionários, enciclopédias e compêndios –já absorvidos por ele, ao alcance de consultas rápidas e, melhor ainda, grátis.
Ou não? Posso estar errado, mas tenho visto que, de algum tempo para cá, ao procurar por qualquer assunto no Google, ele nos cumula de pechinchas comerciais sobre o dito assunto. Se você pesquisar "sorvete", "livro" ou "apartamento", ele aproveitará para apregoar um irritante varejo desses produtos. Mas, se você quer pesquisar um conceito abstrato, obscuro ou mesmo absurdo, ele não se toca, faz igual. Exemplo: "o lulopetismo estrebucha".
Digite isto no Google e ele responderá: "À procura de o lulopetismo estrebucha?"; "Tudo que você precisa saber sobre o lulopetismo estrebucha"; "Encontre as melhores ofertas sobre o lulopetismo estrebucha"; "Preços baixos para o lulopetismo estrebucha"; "Verifique nossa ampla seleção de o lulopetismo estrebucha".
É só escolher e clicar.
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De 15 anos para cá, o Google se esforça para substituir as sumidades do conhecimento. É o maior banco de dados do mundo e ameaça tornar ociosos os dicionários, enciclopédias e compêndios –já absorvidos por ele, ao alcance de consultas rápidas e, melhor ainda, grátis.
Ou não? Posso estar errado, mas tenho visto que, de algum tempo para cá, ao procurar por qualquer assunto no Google, ele nos cumula de pechinchas comerciais sobre o dito assunto. Se você pesquisar "sorvete", "livro" ou "apartamento", ele aproveitará para apregoar um irritante varejo desses produtos. Mas, se você quer pesquisar um conceito abstrato, obscuro ou mesmo absurdo, ele não se toca, faz igual. Exemplo: "o lulopetismo estrebucha".
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Nove homens e nenhum segredo - BERNARDO MELLO FRANCO
Folha de São Paulo - 11/03
Um jantar de nove homens, na quarta, selou a reaproximação das bancadas de PMDB e PSDB no Senado. O assunto à mesa não era segredo: a busca de um acordo para derrubar Dilma Rousseff.
O repasto foi servido no apartamento do senador Tasso Jereissati. Do lado tucano, compareceram os ex-presidenciáveis José Serra e Aécio Neves. Do peemedebista, a estrela foi o senador Renan Calheiros.
Os dois partidos discutiram os cenários que poderiam levar à saída da presidente antes das eleições de 2018. Ainda não há um acordo definitivo porque ninguém quer abrir mão de comandar o novo regime.
O PMDB defende o impeachment, que entregaria a Presidência ao vice Michel Temer. O PSDB sonha com eleições antecipadas. Apesar da divergência nos métodos, os dois partidos se uniram no essencial: a promessa de partilhar o poder futuro.
"Vamos trabalhar juntos para encontrar uma saída para a crise", declarou Tasso após a sobremesa. "Não viemos aqui derrubar o governo Dilma. Viemos buscar uma saída para a crise", emendou o líder do PMDB, Eunício Oliveira. Na primeira frase dele, acredita quem quiser.
O pacto PMDB-PSDB reprisa a velha tradição brasileira da transição conservadora, comandada por poucos. Como sempre, os tradicionais detentores do poder articulam a conciliação para melhor ocupá-lo.
Até aí, não há novidade. Mas o jantar assustou o governo por causa da presença de Renan, que atuava como fiador de Dilma e se recusava a discutir a deposição da presidente.
O presidente do Senado é investigado em nada menos que cinco inquéritos da Lava Jato. Agora virou a noiva cortejada pelo PSDB, que está convocando eleitores para protestar contra a corrupção no domingo.
Um jantar de nove homens, na quarta, selou a reaproximação das bancadas de PMDB e PSDB no Senado. O assunto à mesa não era segredo: a busca de um acordo para derrubar Dilma Rousseff.
O repasto foi servido no apartamento do senador Tasso Jereissati. Do lado tucano, compareceram os ex-presidenciáveis José Serra e Aécio Neves. Do peemedebista, a estrela foi o senador Renan Calheiros.
Os dois partidos discutiram os cenários que poderiam levar à saída da presidente antes das eleições de 2018. Ainda não há um acordo definitivo porque ninguém quer abrir mão de comandar o novo regime.
O PMDB defende o impeachment, que entregaria a Presidência ao vice Michel Temer. O PSDB sonha com eleições antecipadas. Apesar da divergência nos métodos, os dois partidos se uniram no essencial: a promessa de partilhar o poder futuro.
"Vamos trabalhar juntos para encontrar uma saída para a crise", declarou Tasso após a sobremesa. "Não viemos aqui derrubar o governo Dilma. Viemos buscar uma saída para a crise", emendou o líder do PMDB, Eunício Oliveira. Na primeira frase dele, acredita quem quiser.
O pacto PMDB-PSDB reprisa a velha tradição brasileira da transição conservadora, comandada por poucos. Como sempre, os tradicionais detentores do poder articulam a conciliação para melhor ocupá-lo.
Até aí, não há novidade. Mas o jantar assustou o governo por causa da presença de Renan, que atuava como fiador de Dilma e se recusava a discutir a deposição da presidente.
O presidente do Senado é investigado em nada menos que cinco inquéritos da Lava Jato. Agora virou a noiva cortejada pelo PSDB, que está convocando eleitores para protestar contra a corrupção no domingo.
Percalços de uma alma honesta - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 11/03
Se quem não deve não teme, Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar feliz com a oportunidade que lhe é oferecida pelo Ministério Público (MP) de São Paulo, que o denunciou à Justiça, de acabar de uma vez por todas com a perseguição de que alega ser vítima no caso do tríplex no Guarujá. Bastaria que sua equipe de advogados – privilégio reservado a uma pequena elite de brasileiros – livrasse o ex-presidente da acusação. Caberia aos advogados demolir, no mérito, as suspeitas e acusações, em vez de se dedicarem a manobras protelatórias relativas a preliminares processuais. Não lhes seria trabalhoso apresentar em juízo provas irrefutáveis de que Lula é “a alma mais honesta deste país”.
Nada disso foi feito e o resultado foi a apresentação de denúncia criminal contra Lula e, mais grave que isso, com pedido de prisão preventiva do ex-presidente. Lula temia os rigores da Lava Jato e acabou em maus lençóis por fatos mais corriqueiros, como falsidade ideológica, ficando ao lado de denunciados por estelionato – o célebre 171.
De qualquer modo, e como o seguro morreu de velho, quando a denúncia do MP foi protocolada na Justiça paulista, na quarta-feira, Lula estava em Brasília cumprindo uma intensa agenda de reuniões com políticos e altas autoridades, todos interessados em protegê-lo da “perseguição” que policiais, procuradores e juízes, “cooptados pela direita”, estão promovendo contra ele. Um cidadão prestativo e engenhoso chegou a sugerir que Lula seja nomeado ministro, o que lhe garantiria foro para escapar dos rigores da Justiça de Curitiba.
Essa ideia bizarra – há quem diga que foi de jerico – dá a medida da desorientação e do desespero dos petistas diante da crise política. Um dos maiores entusiastas dela é o ministro Ricardo Berzoini, da Articulação Política, que cederia o posto a Lula: “Quem é que não gostaria de ter um Pelé no time?”. Ninguém parece estar se importando – provavelmente com exceção da própria Dilma – com a situação constrangedora em que estaria colocada a presidente da República ao assinar a nomeação de um ministro que, no interior da máquina governamental, teria mais autoridade do que ela própria – que, aliás, já não tem nenhuma. Mas talvez seja exatamente essa a mirabolante ideia dos jericos: colocar Lula no poder, com gabinete no Palácio do Planalto, enquanto a Dilma seria permitido fingir que continua governando. A ideia foi apresentada a Lula em jantar no Alvorada, na terça-feira, como parte de uma ação mais ampla de recomposição do primeiro escalão do governo. Segundo se apurou, o ex-presidente afirmou que “vai pensar” no assunto.
Como parte do esforço de mobilização política em sua defesa, Lula esteve também na residência oficial do presidente do Senado, Renan Calheiros, peemedebista que, segundo as mais recentes especulações, tende a se distanciar do Palácio do Planalto. Participaram do encontro vários senadores do PMDB, que foram contemplados por Lula com novas frases de efeito produzidas por seu delírio persecutório. Por exemplo: “Se quisesse, eu poderia incendiar o País. Mas esse não é o meu papel. Sou um homem da paz”.
Renan Calheiros ofereceu a Lula uma cópia da Constituição Federal – que certamente o homenageado nunca leu nem lerá –, num gesto que parecia destinado a sugerir que as investigações da Lava Jato têm atropelado os preceitos constitucionais. Mas há também quem tenha sugerido uma versão mais óbvia do gesto de Renan: chamar a atenção de Lula para o fato de que existe uma Constituição no Brasil.
É compreensível que o chefão do PT esteja aflito para envergar uma armadura política que o preserve de dissabores com a Justiça, mas a dura realidade que o confronta é a de que foram ele próprio e a tigrada que cevou que criaram as evidências contra as quais nenhum argumento se sustenta. O caso do tríplex é emblemático dessa situação. Para começar, Lula jamais deveria ter-se permitido, e à sua família, sequer chegar perto do condomínio Solaris, símbolo da gestão safada da direção de uma cooperativa de bancários que acabou lesando milhares de associados. O empreendimento foi salvo pela intervenção – sugerida sabe-se lá por quem – de uma construtora, a OAS, implicada na Lava Jato, que generosamente gastou R$ 777 mil na reforma de um tríplex no qual dona Marisa Letícia estava comprovadamente interessada. Isso se explica?
Se quem não deve não teme, Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar feliz com a oportunidade que lhe é oferecida pelo Ministério Público (MP) de São Paulo, que o denunciou à Justiça, de acabar de uma vez por todas com a perseguição de que alega ser vítima no caso do tríplex no Guarujá. Bastaria que sua equipe de advogados – privilégio reservado a uma pequena elite de brasileiros – livrasse o ex-presidente da acusação. Caberia aos advogados demolir, no mérito, as suspeitas e acusações, em vez de se dedicarem a manobras protelatórias relativas a preliminares processuais. Não lhes seria trabalhoso apresentar em juízo provas irrefutáveis de que Lula é “a alma mais honesta deste país”.
Nada disso foi feito e o resultado foi a apresentação de denúncia criminal contra Lula e, mais grave que isso, com pedido de prisão preventiva do ex-presidente. Lula temia os rigores da Lava Jato e acabou em maus lençóis por fatos mais corriqueiros, como falsidade ideológica, ficando ao lado de denunciados por estelionato – o célebre 171.
De qualquer modo, e como o seguro morreu de velho, quando a denúncia do MP foi protocolada na Justiça paulista, na quarta-feira, Lula estava em Brasília cumprindo uma intensa agenda de reuniões com políticos e altas autoridades, todos interessados em protegê-lo da “perseguição” que policiais, procuradores e juízes, “cooptados pela direita”, estão promovendo contra ele. Um cidadão prestativo e engenhoso chegou a sugerir que Lula seja nomeado ministro, o que lhe garantiria foro para escapar dos rigores da Justiça de Curitiba.
Essa ideia bizarra – há quem diga que foi de jerico – dá a medida da desorientação e do desespero dos petistas diante da crise política. Um dos maiores entusiastas dela é o ministro Ricardo Berzoini, da Articulação Política, que cederia o posto a Lula: “Quem é que não gostaria de ter um Pelé no time?”. Ninguém parece estar se importando – provavelmente com exceção da própria Dilma – com a situação constrangedora em que estaria colocada a presidente da República ao assinar a nomeação de um ministro que, no interior da máquina governamental, teria mais autoridade do que ela própria – que, aliás, já não tem nenhuma. Mas talvez seja exatamente essa a mirabolante ideia dos jericos: colocar Lula no poder, com gabinete no Palácio do Planalto, enquanto a Dilma seria permitido fingir que continua governando. A ideia foi apresentada a Lula em jantar no Alvorada, na terça-feira, como parte de uma ação mais ampla de recomposição do primeiro escalão do governo. Segundo se apurou, o ex-presidente afirmou que “vai pensar” no assunto.
Como parte do esforço de mobilização política em sua defesa, Lula esteve também na residência oficial do presidente do Senado, Renan Calheiros, peemedebista que, segundo as mais recentes especulações, tende a se distanciar do Palácio do Planalto. Participaram do encontro vários senadores do PMDB, que foram contemplados por Lula com novas frases de efeito produzidas por seu delírio persecutório. Por exemplo: “Se quisesse, eu poderia incendiar o País. Mas esse não é o meu papel. Sou um homem da paz”.
Renan Calheiros ofereceu a Lula uma cópia da Constituição Federal – que certamente o homenageado nunca leu nem lerá –, num gesto que parecia destinado a sugerir que as investigações da Lava Jato têm atropelado os preceitos constitucionais. Mas há também quem tenha sugerido uma versão mais óbvia do gesto de Renan: chamar a atenção de Lula para o fato de que existe uma Constituição no Brasil.
É compreensível que o chefão do PT esteja aflito para envergar uma armadura política que o preserve de dissabores com a Justiça, mas a dura realidade que o confronta é a de que foram ele próprio e a tigrada que cevou que criaram as evidências contra as quais nenhum argumento se sustenta. O caso do tríplex é emblemático dessa situação. Para começar, Lula jamais deveria ter-se permitido, e à sua família, sequer chegar perto do condomínio Solaris, símbolo da gestão safada da direção de uma cooperativa de bancários que acabou lesando milhares de associados. O empreendimento foi salvo pela intervenção – sugerida sabe-se lá por quem – de uma construtora, a OAS, implicada na Lava Jato, que generosamente gastou R$ 777 mil na reforma de um tríplex no qual dona Marisa Letícia estava comprovadamente interessada. Isso se explica?
Corruptos e corruptores - RAQUEL LANDIM
Folha de São Paulo - 11/03
Na confusão do pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula, que não tem prazo para ser analisado pela juíza encarregada do caso, outra notícia passou quase despercebida pela opinião pública nesta quinta-feira (10).
O STF perdoou o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, que foi beneficiado por um indulto de Dilma no Natal. Apenas dois anos após o fim julgamento do mensalão, Cunha é um homem livre. E vai apenas puxar a fila.
Devem receber o mesmo tratamento do STF os ex-deputados Waldemar Costa Neto, Bispo Rodrigues, Romeu Queiroz, Pedro Henry, Roberto Jefferson e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Sores. O ex-ministro José Dirceu não terá direito ao perdão, porque foi preso novamente, dessa vez por corrupção na Petrobras.
Todos os políticos envolvidos no mensalão foram direto para o regime semiaberto (trabalhar fora e dormir na prisão) por terem sido condenados a menos de 8 anos.
Em cerca de um ano, mudaram para o regime aberto, cuja pena é cumprida na própria residência. Ou seja, sem desprezo pelos problemas em suas vidas particulares, nenhum deles amargou anos na cadeia como acontece com o brasileiro comum.
Na época, foi criticada a diferença entre as penas aplicadas aos políticos e aos empresários ou operadores do mensalão. Exemplos: Marcos Valério foi condenado a 37 anos de prisão e a banqueira Kátia Rabello a 14 anos. Kátia conseguiu o regime semiaberto no fim do ano passado, depois de dois anos trancada na prisão; Valério continua atrás das grades.
Essa desproporção deve ser discutida, mas certamente o rigor da punição aos corruptores do mensalão colabora para as dezenas de delações premiadas do Petrolão. Ninguém quer ser o "novo" Marcos Valério.
Muitos delatores da Lava Jato são alguns dos maiores corruptores da história do Brasil: os empreiteiros. Um dos mais importantes méritos da Lava Jato foi ter atingido esse setor, que esteve envolvido em diversos escândalos e sempre escapou ileso.
Dessa vez, foi diferente. Marcelo Odebrecht, comandante da Odebrecht, foi condenado a mais 19 anos pelo juiz Sérgio Moro e já está atrás das grades há meses. As penas de Léo Pinheiro, da OAS, e de Dalton Avancini, da Camargo Correa, chegaram a 16 anos e 15 anos, respectivamente.
Com exceção de Odebrecht, Avancini, Pinheiro e vários outros estão em prisão domiciliar, com tornozeleira ou não, porque delataram seus parceiros no crime. Não vai demorar para serem considerados totalmente livres.
A Operação Lava Jato devastou seus negócios, mas continuam sendo homens ricos que passarão o resto da vida, na pior das hipóteses, em suas belas mansões e casas de praia.
É preciso reconhecer que, sem as delações premiadas, não seria possível desvendar esse vasto esquema de corrupção e nem chegar aos políticos beneficiados, que estão sendo investigados em Brasília por terem fórum privilegiado. E é aí que mora o perigo.
Com exceção do ex-presidente Lula, que, por enquanto, não tem cargo público, e, por isso, vem sendo pressionado - corretamente ou não - pelos ministérios públicos de Curitiba e São Paulo, nada parece acontecer com a maioria dos políticos envolvidos no caso até agora.
Renan Calheiros, Romero Jucá e outros parlamentares investigados na Lava Jato seguem exercendo seus cargos sem qualquer constrangimento. O processo de Eduardo Cunha caminha, mas ele continua na presidência da Câmara. É preciso lembrar que o mensalão movimentou R$ 56 milhões em propina aos políticos, enquanto o Petrolão já chega a R$ 10 bilhões, incluindo políticos e funcionários de estatais.
Essa história ainda não chegou no fim, mas só vai realmente valer a pena "soltar" os empreiteiros corruptores se os políticos corruptos forem para a cadeia e se a investigação provocar uma limpeza na política brasileira.
Pela experiência do mensalão, as perspectivas não são animadoras.
Na confusão do pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula, que não tem prazo para ser analisado pela juíza encarregada do caso, outra notícia passou quase despercebida pela opinião pública nesta quinta-feira (10).
O STF perdoou o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, que foi beneficiado por um indulto de Dilma no Natal. Apenas dois anos após o fim julgamento do mensalão, Cunha é um homem livre. E vai apenas puxar a fila.
Devem receber o mesmo tratamento do STF os ex-deputados Waldemar Costa Neto, Bispo Rodrigues, Romeu Queiroz, Pedro Henry, Roberto Jefferson e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Sores. O ex-ministro José Dirceu não terá direito ao perdão, porque foi preso novamente, dessa vez por corrupção na Petrobras.
Todos os políticos envolvidos no mensalão foram direto para o regime semiaberto (trabalhar fora e dormir na prisão) por terem sido condenados a menos de 8 anos.
Em cerca de um ano, mudaram para o regime aberto, cuja pena é cumprida na própria residência. Ou seja, sem desprezo pelos problemas em suas vidas particulares, nenhum deles amargou anos na cadeia como acontece com o brasileiro comum.
Na época, foi criticada a diferença entre as penas aplicadas aos políticos e aos empresários ou operadores do mensalão. Exemplos: Marcos Valério foi condenado a 37 anos de prisão e a banqueira Kátia Rabello a 14 anos. Kátia conseguiu o regime semiaberto no fim do ano passado, depois de dois anos trancada na prisão; Valério continua atrás das grades.
Essa desproporção deve ser discutida, mas certamente o rigor da punição aos corruptores do mensalão colabora para as dezenas de delações premiadas do Petrolão. Ninguém quer ser o "novo" Marcos Valério.
Muitos delatores da Lava Jato são alguns dos maiores corruptores da história do Brasil: os empreiteiros. Um dos mais importantes méritos da Lava Jato foi ter atingido esse setor, que esteve envolvido em diversos escândalos e sempre escapou ileso.
Dessa vez, foi diferente. Marcelo Odebrecht, comandante da Odebrecht, foi condenado a mais 19 anos pelo juiz Sérgio Moro e já está atrás das grades há meses. As penas de Léo Pinheiro, da OAS, e de Dalton Avancini, da Camargo Correa, chegaram a 16 anos e 15 anos, respectivamente.
Com exceção de Odebrecht, Avancini, Pinheiro e vários outros estão em prisão domiciliar, com tornozeleira ou não, porque delataram seus parceiros no crime. Não vai demorar para serem considerados totalmente livres.
A Operação Lava Jato devastou seus negócios, mas continuam sendo homens ricos que passarão o resto da vida, na pior das hipóteses, em suas belas mansões e casas de praia.
É preciso reconhecer que, sem as delações premiadas, não seria possível desvendar esse vasto esquema de corrupção e nem chegar aos políticos beneficiados, que estão sendo investigados em Brasília por terem fórum privilegiado. E é aí que mora o perigo.
Com exceção do ex-presidente Lula, que, por enquanto, não tem cargo público, e, por isso, vem sendo pressionado - corretamente ou não - pelos ministérios públicos de Curitiba e São Paulo, nada parece acontecer com a maioria dos políticos envolvidos no caso até agora.
Renan Calheiros, Romero Jucá e outros parlamentares investigados na Lava Jato seguem exercendo seus cargos sem qualquer constrangimento. O processo de Eduardo Cunha caminha, mas ele continua na presidência da Câmara. É preciso lembrar que o mensalão movimentou R$ 56 milhões em propina aos políticos, enquanto o Petrolão já chega a R$ 10 bilhões, incluindo políticos e funcionários de estatais.
Essa história ainda não chegou no fim, mas só vai realmente valer a pena "soltar" os empreiteiros corruptores se os políticos corruptos forem para a cadeia e se a investigação provocar uma limpeza na política brasileira.
Pela experiência do mensalão, as perspectivas não são animadoras.
quinta-feira, março 10, 2016
Um momento especial na luta contra a impunidade – EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 10/03
Quando o então poderoso Delúbio Soares, tesoureiro do PT, apostou que o mensalão viraria uma “piada de salão”, foi difícil discordar dele. Não era mesmo norma, numa República que preservava da monarquia castas de fidalgos, punir abastados e gente com poder político. Mas já transcorria um fortalecimento das instituições, e assim Delúbio, além de companheiros de mensalão até mais graduados, como José Dirceu, terminaram na cadeia, condenados no Supremo.
Percebe- se hoje que uma renovação de quadros no Estado, protegidos do aparelhamento empreendido pelo PT, e a mobilização social têm levado a decisivos aperfeiçoamentos legais e jurídicos. Dessa forma, surgiu a Ficha Limpa, em 2010, apelido da lei complementar derivada de um projeto de origem popular, sustentado por aproximadamente 1,6 milhão de assinaturas. Por ela ficou instituído que político condenado em segunda instância fica inelegível.
Neste momento, uma quantidade semelhante de assinaturas sustenta um projeto de dez pontos para melhorar a eficácia da Justiça no combate à corrupção. Ele veio do grupo de procuradores que atuam na Lava- Jato, e portanto são propostas inspiradas nas dificuldades que a força-tarefa da operação tem encontrado numa investigação histórica.
Uma das reivindicações procura acelerar a aplicação das penas, para coibir uma das mais graves distorções da Justiça brasileira, o número excessivo de recursos, razão direta da lentidão do sistema. Neste sentido, há pouco, o Supremo promoveu uma revolução: contra as chicanas protelatórias, estabeleceu que penas confirmadas na segunda instância, ou seja, por colegiado, podem começar a ser executadas logo.
O primeiro efeito, até simbólico, do bem-vindo veredicto, foi, afinal, mandar- se para a penitenciária o empresário Luiz Estevão, ex- senador, condenado em 2006, no caso de corrupção na construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, e até agora mantendo- se longe das grades à força de dezenas de recursos.
Nos últimos dias, houve novos sinais alvissareiros: a condução coercitiva do ex- presidente Lula, para depor na Lava- Jato, reafirmando que não há quem esteja acima da lei no Brasil, e a condenação a 19 anos de prisão, em primeira instância, pelo juiz Sérgio Moro, do maior empreiteiro do país, já preso, Marcelo Odebrecht.
Não há guerra vencida neste terreno. Sempre existem chances de interferência de poderosos. Apesar de tudo, ocorrem vitórias importantes contra a corrupção nas “elites” às quais o lulopetismo se aliou: empreiteiros, operadores financeiros, políticos sem ética etc.
A degradação do padrão moral da vida pública cria uma reação em contrário que já produz ganhos visíveis. Parece surgir uma base com alguma solidez, no Estado, para se limpar de fato a política e sanear seus vínculos com o mundo dos altos negócios. Seja à esquerda ou à direita.
Entre o ruim e o pior - BERNARDO MELLO FRANCO
FOLHA DE SP - 10/03
A ideia ganhou até porta-voz no Planalto. "Qual time não gostaria de colocar o Pelé em campo?", perguntou ontem o ministro Ricardo Berzoini, que despacha um andar acima do gabinete da presidente.
Não é bem disso que se trata. Lula não seria nomeado para brilhar nos gramados de Brasília, e sim para se livrar do juiz de Curitiba. Como ministro, ele recuperaria o foro privilegiado e só poderia ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal.
Em princípio, a ideia não seria boa para o ex-presidente. Lula passaria a imagem de que está com medo de ser preso a qualquer momento por Sergio Moro. Sua nomeação soaria como manobra para driblar a Justiça.
O ex-presidente teria outros problemas. Depois de ensaiar um afastamento de Dilma, ele se ligaria de vez ao futuro político da presidente. Como ela não dá sinais de recuperação, isso poderia significar um adeus ao plano Lula-2018.
Nomear o antecessor também é mau negócio para Dilma. A presidente já foi forçada a fazer todo tipo de concessão para se manter no poder. Abaixou a cabeça para o mercado, aguentou as humilhações do correntista suíço e teve que entregar até o orçamento da Saúde ao PMDB.
Se transformar Lula em ministro, Dilma assumirá de vez o papel de rainha da Inglaterra -ou de presidente decorativa, para usar uma expressão cara ao vice Michel Temer. O esvaziamento da autoridade dela será imediato e definitivo.
Se a ideia é ruim para ambas as partes, por que ainda não foi descartada? Simples: porque a alternativa parece ainda pior.
Uma eventual prisão de Lula é o cenário mais temido por ele próprio, por motivos óbvios, e por Dilma, que perderia seu único general na batalha contra o impeachment.
Sem golpe de cúpulas - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 10/03
Cogita-se disso (ou de um "semipresidencialismo") na cúpula do Senado, que instalou comissão especial para estudar o tema. Em artigo recente na imprensa, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) relançou a ideia de uma "Presidência forte e equilibradora, mas não gerencial".
Para além das ambições pessoais deste ou daquele senador a que possa convir, compreende-se o atrativo da propositura.
Sistemas parlamentaristas tornam a maioria no Legislativo responsável, porque interessada no êxito do governo, ao mesmo tempo em que permitem abreviar sem trauma uma administração que tenha fracassado. Por valorizar essas vantagens, do prisma doutrinário esta Folha apoia há décadas o parlamentarismo.
Mas adotá-lo de improviso, num passe de mágica congressual, não parece indicado. Seria um remendo comparável ao de 1961, logo revogado pelo plebiscito de 1963, que restaurou os poderes da Presidência. Uma segunda consulta popular, feita em 1993 a mando da nova Constituição, confirmou a anterior por larga maioria (55,6% X 24,9%).
A fim de não configurar intolerável golpe de cúpulas, qualquer solução do tipo demandaria aprovação num terceiro referendo. Sobretudo no caso de se pretender implantar a medida durante o atual mandato, seja com a atual presidente reduzida a figura decorativa, seja com o vice em seu lugar.
Difícil crer, ainda assim, que a maioria do eleitorado se disponha a conferir mais poderes a um Congresso que é desprezado em escala quase universal.
Mesmo que terminasse aceito, tal arranjo não estaria assentado em persistente campanha de persuasão pública que houvesse formado lastro na sociedade. Decerto seria a primeira coisa que o presidente eleito com imensa legitimidade em 2018 trataria de desfazer.
Somadas as dificuldades, a sugestão resulta inviável. Parte de seu espírito, no entanto, poderá se materializar na prática, uma vez que um eventual governo Michel Temer (PMDB) necessitaria de ampla base parlamentar e concederia o que fosse necessário para conquistá-la, na tentativa de confinar na oposição apenas o que restasse do PT e sua franja ideológica.
O futuro parece mais volátil do que nunca, exceto pela sólida convicção de que a solução da crise acontecerá dentro da lei. Em meio ao cenário desolador, as instituições têm dado provas de bom funcionamento. Não é hora de mexer na única parte do sistema que vai bem.
Fechando o cerco - MERVAL PEREIRA
O Globo - 10/03
A decisão do Ministério Público de São Paulo de denunciar Lula e familiares por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, resultado da investigação sobre o tríplex no Guarujá, é um sinal mais do que claro de que também o Ministério Público Federal, que atua na Operação Lava- Jato, está na fase final da investigação, que tem provas compartilhadas.
A preocupação de Lula e seus próximos com um possível desfecho das investigações contra ele, com a consequente denúncia ao juiz Sérgio Moro em Curitiba, é mais do que razoável, e por isso a insistência para que ele aceite ir para o ministério da presidente Dilma, a fim de ganhar foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal.
Mesmo que aceite, porém, além do fato de ter que assumir praticamente uma confissão de culpa, Lula e o governo teriam que passar por outro constrangimento, o de defender no STF a nomeação insólita.
Por certo, a nomeação de ministro, de acordo com a Constituição, é ato político do presidente da República, que é quem decide quanto à conveniência e oportunidade da nomeação, imune, nestes aspectos, ao controle judicial, devido ao princípio da separação dos poderes.
Mas, seria essa imunidade absoluta, podendo se fazer tábula rasa do princípio constitucional da moralidade? Pode a presidente, a pretexto de ser um ato político, nomear Lula ministro, com a finalidade escancarada de livrá-lo das investigações da Lava- Jato na primeira instância?
Ontem mesmo, o Supremo impediu a nomeação do novo ministro da Justiça, por ser ele membro do Ministério Público da Bahia. A preocupação com um desfecho iminente dos processos da Operação Lava-Jato em relação ao ex-presidente Lula tem base nos fatos. Quem ler o documento de 89 páginas em que o Ministério Público Federal requer ao Juiz Sérgio Moro as medidas cautelares de busca e apreensão e a condução coercitiva de várias pessoas, inclusive o ex-presidente Lula, ficará com a certeza de que os procuradores encarregados do caso estão convencidos da culpabilidade do ex-presidente.
Ao longo de suas páginas, há trechos como o seguinte: “Mostrou- se, ainda, que esse esquema tinha como um de seus líderes José Dirceu, e que continuou a existir mesmo após este ser afastado por corrupção em esquema idêntico desvelado no caso mensalão, o que mostra que alguém de igual ou superior hierarquia comandava o esquema: e o elemento comum para esses esquemas todos, detentor do poder de nomeação e beneficiado com o apoio político era, particularmente, Lula".
“Nessa toada, considerando os dados colhidos no âmbito da Operação Lava Jato, há elementos de prova de que Lula tinha ciência do esquema criminoso engendrado em desfavor da Petrobras, e também de que recebeu, direta e indiretamente, vantagens indevidas decorrentes dessa estrutura delituosa".
“Nesse âmbito, considerando que uma das formas de repasse de propina dentro do arranjo montado no seio da Petrobras era a realização de doações eleitorais, impende destacar que, ainda em 2005, Lula admitiu ter conhecimento sobre a prática de ‘ caixa dois’ no financiamento de campanhas políticas. Além disso, conforme recente depoimento prestado à Polícia Federal, reconheceu que, quanto à indicação de diretores para a Petrobras ‘ recebia os nomes dos diretores a partir de acordos políticos firmados’. Ou seja, Lula sabia que empresas realizavam doações eleitorais ‘ por fora’ e que havia um ávido loteamento de cargos públicos. Não é crível, assim, que Lula desconhecesse a motivação dos pagamentos de ‘ caixa 2’ nas campanhas eleitorais, o porquê da voracidade em assumir elevados postos na administração pública federal, e a existência de vinculação entre um fato e outro".
“Repise- se que a estrutura criminosa perdurou por, pelo menos, uma década. (...) Considerando que todas essas figuras, diretamente envolvidas no estratagema criminoso, orbitavam em volta de Lula e do Partido dos Trabalhadores, não é crível que ele desconhecesse a existência dos ilícitos. (...) Além disso, é inegável a influência política que Lula continuou a ter no governo federal, mesmo após o término de seu mandato (encontrando-se até hoje, mais de cinco anos após o fim do seu mandato, com a atual presidente da República)”.
A decisão do Ministério Público de São Paulo de denunciar Lula e familiares por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, resultado da investigação sobre o tríplex no Guarujá, é um sinal mais do que claro de que também o Ministério Público Federal, que atua na Operação Lava- Jato, está na fase final da investigação, que tem provas compartilhadas.
A preocupação de Lula e seus próximos com um possível desfecho das investigações contra ele, com a consequente denúncia ao juiz Sérgio Moro em Curitiba, é mais do que razoável, e por isso a insistência para que ele aceite ir para o ministério da presidente Dilma, a fim de ganhar foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal.
Mesmo que aceite, porém, além do fato de ter que assumir praticamente uma confissão de culpa, Lula e o governo teriam que passar por outro constrangimento, o de defender no STF a nomeação insólita.
Por certo, a nomeação de ministro, de acordo com a Constituição, é ato político do presidente da República, que é quem decide quanto à conveniência e oportunidade da nomeação, imune, nestes aspectos, ao controle judicial, devido ao princípio da separação dos poderes.
Mas, seria essa imunidade absoluta, podendo se fazer tábula rasa do princípio constitucional da moralidade? Pode a presidente, a pretexto de ser um ato político, nomear Lula ministro, com a finalidade escancarada de livrá-lo das investigações da Lava- Jato na primeira instância?
Ontem mesmo, o Supremo impediu a nomeação do novo ministro da Justiça, por ser ele membro do Ministério Público da Bahia. A preocupação com um desfecho iminente dos processos da Operação Lava-Jato em relação ao ex-presidente Lula tem base nos fatos. Quem ler o documento de 89 páginas em que o Ministério Público Federal requer ao Juiz Sérgio Moro as medidas cautelares de busca e apreensão e a condução coercitiva de várias pessoas, inclusive o ex-presidente Lula, ficará com a certeza de que os procuradores encarregados do caso estão convencidos da culpabilidade do ex-presidente.
Ao longo de suas páginas, há trechos como o seguinte: “Mostrou- se, ainda, que esse esquema tinha como um de seus líderes José Dirceu, e que continuou a existir mesmo após este ser afastado por corrupção em esquema idêntico desvelado no caso mensalão, o que mostra que alguém de igual ou superior hierarquia comandava o esquema: e o elemento comum para esses esquemas todos, detentor do poder de nomeação e beneficiado com o apoio político era, particularmente, Lula".
“Nessa toada, considerando os dados colhidos no âmbito da Operação Lava Jato, há elementos de prova de que Lula tinha ciência do esquema criminoso engendrado em desfavor da Petrobras, e também de que recebeu, direta e indiretamente, vantagens indevidas decorrentes dessa estrutura delituosa".
“Nesse âmbito, considerando que uma das formas de repasse de propina dentro do arranjo montado no seio da Petrobras era a realização de doações eleitorais, impende destacar que, ainda em 2005, Lula admitiu ter conhecimento sobre a prática de ‘ caixa dois’ no financiamento de campanhas políticas. Além disso, conforme recente depoimento prestado à Polícia Federal, reconheceu que, quanto à indicação de diretores para a Petrobras ‘ recebia os nomes dos diretores a partir de acordos políticos firmados’. Ou seja, Lula sabia que empresas realizavam doações eleitorais ‘ por fora’ e que havia um ávido loteamento de cargos públicos. Não é crível, assim, que Lula desconhecesse a motivação dos pagamentos de ‘ caixa 2’ nas campanhas eleitorais, o porquê da voracidade em assumir elevados postos na administração pública federal, e a existência de vinculação entre um fato e outro".
“Repise- se que a estrutura criminosa perdurou por, pelo menos, uma década. (...) Considerando que todas essas figuras, diretamente envolvidas no estratagema criminoso, orbitavam em volta de Lula e do Partido dos Trabalhadores, não é crível que ele desconhecesse a existência dos ilícitos. (...) Além disso, é inegável a influência política que Lula continuou a ter no governo federal, mesmo após o término de seu mandato (encontrando-se até hoje, mais de cinco anos após o fim do seu mandato, com a atual presidente da República)”.
Impeachment depende da rua - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 10/03
Acusado naquela época de ter contas pagas por terceiros, Collor fez um discurso exaltado no dia 13 de agosto daquele ano. Dizendo-se presidente dos descamisados, falou em "golpe", reclamou que a "central única dos conspiradores" pretendia promover o "terceiro turno das eleições" e conclamou a população a vestir as cores da bandeira nacional.
O efeito foi o de um bumerangue. Três dias depois, enquanto Collor reunia cerca de 300 apoiadores em frente à Casa da Dinda, o país presenciou uma onda de manifestações em favor do impeachment na qual o preto foi adotado como símbolo e as gargantas pediam "cadeia". Collor durou só mais 44 dias no cargo.
Lula não é um outsider como era o seu adversário de 1989. Tem na retaguarda um partido estruturado, ainda que combalido, uma central sindical e alguns movimentos sociais. Mas o fato de não conseguir formular uma resposta minimamente convincente para os presentes que recebeu de empreiteiras torna sua posição muito frágil. Como convencer alguém a defender o direito do Lula de ser paparicado pela Odebrecht?
Tanto assim que, na própria sexta, a despeito de o PT ter tentado mobilizar sua militância contra a condução coercitiva de Lula, pouca gente foi para rua. Houve alguns protestos, uma ou outra confusão, um ex-deputado mostrando a cueca, mas o máximo que o partido conseguiu foi lotar a quadra de um sindicato. É pouco para o Lula que já foi considerado o presidente mais popular da história.
A manifestação de domingo, dependendo da sua amplitude e vigor, pode significar o respaldo que a Câmara aguarda para o pedido de impedimento de Dilma. Como disse Michel Temer a aliados meses atrás, não é o Congresso quem aprova o impeachment. "É a rua."
quarta-feira, março 09, 2016
Marcha-rancho - ROSANGELA BITTAR
VALOR ECONÔMICO - 09.03
O PT tem suas próprias pesquisas de opinião feitas por instituto com quem mantem relações comerciais. Sabe que a performance político-eleitoral do ex-presidente Lula, nos auditórios de militância e da sua base social aos quais derramou sua raiva por ter ido depor nos autos da Operação Lava-Jato, foi boa para ele. Lula, que andava recolhido, cabisbaixo, sem assunto diante de tantas denúncias que ainda não conseguiu explicar, ganhou de repente um conteúdo, o de vítima da arbitrariedade, que não lhe exige apresentar maiores evidências de inocência e lhe dá o palanque necessário.
É um ganho, porém, temporário, não se sabe até quando dura e a depender da campanha contra os condutores da investigação, alimentada pelo PT e pelo próprio ex-presidente, pode ter efeito bumerangue. Podem se tornar públicos argumentos mais consistentes em gênero, número e grau para combater a propaganda contrária. Ainda tem muita delação a ser divulgada.
O ex-presidente, porém, tem sua base social, os sindicalistas, as organizações e entidades que se deram muito bem no seu governo, a chamada militância de crachá, que pode mobilizar a qualquer momento. Estava devendo uma tarde de animação a essas pessoas que vinham programando vigílias para quando ele fosse depor, ou quando precisasse. Precisou.
Sobre a Operação Lava-Jato, em que pese a torcida, não se enxergam efeitos negativos, nem quanto à credibilidade, nem quanto à legalidade, ou à quebra da infalibilidade do juiz Sergio Moro, se é que isto estava na mira de tiro.
O juiz, tanto quanto o PT, conseguiu o que queria. Era óbvio que não estava dando para marcar data de depoimento de Lula. Sindicalistas, movimentos sociais e outros mobilizadores estavam preparados para as concentrações impeditivas de qualquer atividade desse tipo com um político popular, pior ainda quando tem a agressividade de Lula. Os protestos, as convocações, os ataques nas redes sociais já estavam muitos decibéis acima do tom em que se tem confiança para agir sem riscos de segurança pública e preservação física do depoente, dos manifestantes e dos policiais.
A operação resolveu fazer para o ex-presidente o mesmo modelo que aplicou aos mais de 100 depoentes que precisou conduzir a ambientes fora de suas residências, e acertou. Conseguiu realizar o trabalho, evitar perder provas (há controvérsias quanto a isso dentro da polícia) e reduzir riscos. Lula havia dito antes que não iria depor, seus advogados propagavam uma atitude de resistência, na hora relutou a aceitar a convocação mas, convencido pelos profissionais, foi lá e capitalizou a seu favor o gesto.
O mesmo comportamento que teve na frente dos locais por onde passaria o ex-presidente e até na ante-sala presidencial do aeroporto de Congonhas, onde ele prestou o depoimento, a militância a favor de Lula foi também efetiva e agressiva. Surpreendida, para evitar tumulto, ainda conseguiu seu intento.
Ilegal também não foi. Mais de um ministro do Supremo que discutiu internamente o assunto sem a paixão partidária considerou que não houve ilegalidade. O juiz Sergio Moro poderia ter evitado a celeuma, fazendo para Lula um modelo diferente do que fez para os demais, mas ilegal não foi. Os juízes que presidem uma operação como a Lava-Jato e outras de grande envergadura têm, segundo os argumentos de juízes da alta corte, um "elevado grau de discricionariedade". Pois têm seus dados, o que o público em geral ainda não conhece. As decisões são tomadas com base nas informações, no momento, na segurança do depoente e da sociedade que está na torcida, além da polícia, que executa a ação. O juiz tem total poder de avaliação e definição do seu método.
No caso de Lula, ainda por cima, o problema é muito maior do que a discussão em torno da propriedade de um apartamento e um sítio construídos ou reformados por empreiteira do cartel da Petrobras, e um instituto que faz transações questionáveis de numerários isentos com empresas que não têm isenção. O Ministério Público e a polícia estão trabalhando com a busca do chefe do grupo que saqueou o erário, e as prisões do marqueteiro João Santana e de José Carlos Bumlai foram peças fundamentais na aproximação da investigação aos que os indícios e fatos fazem suspeitar que estejam no centro da meta.
A operação não ficou tisnada ou perdeu credibilidade, e sob o ponto de vista político-eleitoral, foi boa para Lula. Dar a ele a chance de se vitimizar, de animar os manifestantes que já vinham sem motivação para enfrentar a guerra, tantas eram as denúncias, tudo isso está na coluna haver, se é que se pode considerar algo positivo nesse famigerado caso. Serviu também para o ex-presidente testar se ainda funciona seu discurso do pobre contra a elite, da empregada doméstica contra o patrão preconceituoso, do letrado contra o metalúrgico iletrado, que sempre rendeu eleitoralmente para Lula e parece que continua rendendo.
Lula disse que isso o fez decidir se candidatar, mas não é verdade. Ele não decidiu ainda, está tudo no mesmo estágio de antes. Depende da sua saúde, da situação da economia, do governo Dilma, dos desdobramentos da Operação Lava-Jato, principalmente. Mas se deve-se evitar falar em lições construtivas de um espetáculo deprimente como esse, dá para relacionar as perdas, e elas são da presidente Dilma Rousseff.
De nada serviu, por exemplo, ao governo do PT, emparedado, sob impacto de crises múltiplas, a presidente ter corrido a dar o abraço de afogado e tentar tirar uma casquinha da claque de Lula. A presidente está isolada, não tem base de apoio, não tem base social, não tem palavra de ordem a favor, está afastada do PT e do ex-presidente. Faltam-lhe oportunidades de reagir e alternativas para sair do impasse. Combate o impeachment todos os dias, todas as horas.
Dilma tentou também adquirir um discurso com o episódio, mas continua a sofrer problemas intransponíveis de linguagem. Saiu-se com a afirmação de que o caso mostra que a oposição está dividindo o Brasil. Sem nexo causal com a situação em tela, a conclusão foi registrada como uma daquelas centenas de sentenças presidenciais que não fazem sentido e ficam por isso mesmo.
O governo segue paralisado, o apoio à presidente está a cada dia mais curto e mais ralo, há a conjuntura da Lava-Jato que, convençam-se, ninguém controla.
Nem os profetas do velho testamento sabem o que vai acontecer. É o que o governo Dilma também acha.
O PT tem suas próprias pesquisas de opinião feitas por instituto com quem mantem relações comerciais. Sabe que a performance político-eleitoral do ex-presidente Lula, nos auditórios de militância e da sua base social aos quais derramou sua raiva por ter ido depor nos autos da Operação Lava-Jato, foi boa para ele. Lula, que andava recolhido, cabisbaixo, sem assunto diante de tantas denúncias que ainda não conseguiu explicar, ganhou de repente um conteúdo, o de vítima da arbitrariedade, que não lhe exige apresentar maiores evidências de inocência e lhe dá o palanque necessário.
É um ganho, porém, temporário, não se sabe até quando dura e a depender da campanha contra os condutores da investigação, alimentada pelo PT e pelo próprio ex-presidente, pode ter efeito bumerangue. Podem se tornar públicos argumentos mais consistentes em gênero, número e grau para combater a propaganda contrária. Ainda tem muita delação a ser divulgada.
O ex-presidente, porém, tem sua base social, os sindicalistas, as organizações e entidades que se deram muito bem no seu governo, a chamada militância de crachá, que pode mobilizar a qualquer momento. Estava devendo uma tarde de animação a essas pessoas que vinham programando vigílias para quando ele fosse depor, ou quando precisasse. Precisou.
Sobre a Operação Lava-Jato, em que pese a torcida, não se enxergam efeitos negativos, nem quanto à credibilidade, nem quanto à legalidade, ou à quebra da infalibilidade do juiz Sergio Moro, se é que isto estava na mira de tiro.
O juiz, tanto quanto o PT, conseguiu o que queria. Era óbvio que não estava dando para marcar data de depoimento de Lula. Sindicalistas, movimentos sociais e outros mobilizadores estavam preparados para as concentrações impeditivas de qualquer atividade desse tipo com um político popular, pior ainda quando tem a agressividade de Lula. Os protestos, as convocações, os ataques nas redes sociais já estavam muitos decibéis acima do tom em que se tem confiança para agir sem riscos de segurança pública e preservação física do depoente, dos manifestantes e dos policiais.
A operação resolveu fazer para o ex-presidente o mesmo modelo que aplicou aos mais de 100 depoentes que precisou conduzir a ambientes fora de suas residências, e acertou. Conseguiu realizar o trabalho, evitar perder provas (há controvérsias quanto a isso dentro da polícia) e reduzir riscos. Lula havia dito antes que não iria depor, seus advogados propagavam uma atitude de resistência, na hora relutou a aceitar a convocação mas, convencido pelos profissionais, foi lá e capitalizou a seu favor o gesto.
O mesmo comportamento que teve na frente dos locais por onde passaria o ex-presidente e até na ante-sala presidencial do aeroporto de Congonhas, onde ele prestou o depoimento, a militância a favor de Lula foi também efetiva e agressiva. Surpreendida, para evitar tumulto, ainda conseguiu seu intento.
Ilegal também não foi. Mais de um ministro do Supremo que discutiu internamente o assunto sem a paixão partidária considerou que não houve ilegalidade. O juiz Sergio Moro poderia ter evitado a celeuma, fazendo para Lula um modelo diferente do que fez para os demais, mas ilegal não foi. Os juízes que presidem uma operação como a Lava-Jato e outras de grande envergadura têm, segundo os argumentos de juízes da alta corte, um "elevado grau de discricionariedade". Pois têm seus dados, o que o público em geral ainda não conhece. As decisões são tomadas com base nas informações, no momento, na segurança do depoente e da sociedade que está na torcida, além da polícia, que executa a ação. O juiz tem total poder de avaliação e definição do seu método.
No caso de Lula, ainda por cima, o problema é muito maior do que a discussão em torno da propriedade de um apartamento e um sítio construídos ou reformados por empreiteira do cartel da Petrobras, e um instituto que faz transações questionáveis de numerários isentos com empresas que não têm isenção. O Ministério Público e a polícia estão trabalhando com a busca do chefe do grupo que saqueou o erário, e as prisões do marqueteiro João Santana e de José Carlos Bumlai foram peças fundamentais na aproximação da investigação aos que os indícios e fatos fazem suspeitar que estejam no centro da meta.
A operação não ficou tisnada ou perdeu credibilidade, e sob o ponto de vista político-eleitoral, foi boa para Lula. Dar a ele a chance de se vitimizar, de animar os manifestantes que já vinham sem motivação para enfrentar a guerra, tantas eram as denúncias, tudo isso está na coluna haver, se é que se pode considerar algo positivo nesse famigerado caso. Serviu também para o ex-presidente testar se ainda funciona seu discurso do pobre contra a elite, da empregada doméstica contra o patrão preconceituoso, do letrado contra o metalúrgico iletrado, que sempre rendeu eleitoralmente para Lula e parece que continua rendendo.
Lula disse que isso o fez decidir se candidatar, mas não é verdade. Ele não decidiu ainda, está tudo no mesmo estágio de antes. Depende da sua saúde, da situação da economia, do governo Dilma, dos desdobramentos da Operação Lava-Jato, principalmente. Mas se deve-se evitar falar em lições construtivas de um espetáculo deprimente como esse, dá para relacionar as perdas, e elas são da presidente Dilma Rousseff.
De nada serviu, por exemplo, ao governo do PT, emparedado, sob impacto de crises múltiplas, a presidente ter corrido a dar o abraço de afogado e tentar tirar uma casquinha da claque de Lula. A presidente está isolada, não tem base de apoio, não tem base social, não tem palavra de ordem a favor, está afastada do PT e do ex-presidente. Faltam-lhe oportunidades de reagir e alternativas para sair do impasse. Combate o impeachment todos os dias, todas as horas.
Dilma tentou também adquirir um discurso com o episódio, mas continua a sofrer problemas intransponíveis de linguagem. Saiu-se com a afirmação de que o caso mostra que a oposição está dividindo o Brasil. Sem nexo causal com a situação em tela, a conclusão foi registrada como uma daquelas centenas de sentenças presidenciais que não fazem sentido e ficam por isso mesmo.
O governo segue paralisado, o apoio à presidente está a cada dia mais curto e mais ralo, há a conjuntura da Lava-Jato que, convençam-se, ninguém controla.
Nem os profetas do velho testamento sabem o que vai acontecer. É o que o governo Dilma também acha.
terça-feira, março 08, 2016
Déjà vu - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 08/03
No artigo que escreveu em 2004 para a Revista Jurídica do Centro de Estudos Judiciários ( CEJ) do Conselho de Justiça Federal sobre a Operação Mãos Limpas, ocorrida na Itália nos anos 1990, o juiz Sérgio Moro a classifica como "uma das mais impressionantes cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa".
Quando destaca "a relevância da democracia para a eficácia da ação judicial no combate à corrupção e suas causas estruturais", Moro diz que "se encontram presentes várias condições institucionais necessárias para a realização de ação semelhante no Brasil, onde a eficácia do sistema judicial contra os crimes de " colarinho branco", principalmente o de corrupção, é no mínimo duvidosa".
Depois disso, já marcado como especialista no combate à lavagem de dinheiro, ele assessorou a ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal. Hoje, está à frente da Operação Lava- Jato, que caiu em seu colo em Curitiba por uma associação de fatores que levaram a investigação quase banal de doleiros ao centro de um dos maiores escândalos de corrupção política do mundo, como o caso da Petrobras foi classificado recentemente pela ONG Transparência Internacional.
No artigo, ele analisa o caso de Bettino Craxi, líder do Partido Socialista Italiano ( PSI) e ex-primeiro-ministro, um dos principais alvos da Operação Mãos Limpas. Moro ressalta que Craxi, já ameaçado pelas investigações e depois de negar várias vezes seu envolvimento, reconheceu cinicamente a prática disseminada das doações partidárias ilegais, em famoso discurso no Parlamento italiano, em 3 de julho de 1992, usando argumentos muito semelhantes aos que o PT vem usando: "(...) Mais, abaixo da cobertura do financiamento irregular dos partidos, casos de corrupção e extorsão floresceram e tornaram- se interligados. (...) O que é necessário dizer e que, de todo modo, todo mundo sabe, é que a maior parte do financiamento da política é irregular ou ilegal. Os partidos e aqueles que dependem da máquina partidária ( grande, média ou pequena), de jornais, de propaganda, atividades associativas ou promocionais... têm recorrido a recursos adicionais irregulares (...)".
Em dezembro de 1992, relata Moro, Craxi recebeu seu primeiro "avviso di garanzia", um documento de dezoito páginas, no qual era acusado de corrupção, extorsão e violação da lei reguladora do financiamento de campanhas. A acusação tinha por base, entre outras provas, a confissão de Salvatore Ligresti, suposto amigo pessoal de Craxi preso em julho de 1992, de que o grupo empresarial de sua propriedade teria pago, aproximadamente, US$ 500 mil desde 1985 ao PSI para ingressar e manter- se em grupo de empresários amigos do PSI.
Na segunda semana de janeiro de 1993, Craxi recebeu o segundo "avviso di garanzia", com acusações de que a propina teria também como beneficiário o próprio Craxi, não só o PSI.
Os pagamentos seriam feitos a Silvano Larini, que seria amigo próximo de Craxi. Larini e Filippo Panseca seriam os proprietários da empresa da qual Craxi alugaria suas mansões opulentas em Como e Hammamet. Craxi ainda recebeu novos "avvisi de garanzia" antes de renunciar ao posto de líder do PSI, em fevereiro de 1993. Sua popularidade logo se transformou em repúdio, e certa ocasião foi alvejado por uma chuva de moedas na rua.
Também viu seu nome envolvido no escândalo da Enimont, empresa química formada por joint venture da Ente Nazionale Idrocarburi ( ENI), a empresa petrolífera estatal italiana, e a Montedision, empresa química subsidiária do grupo Ferruzi ( considerado o segundo maior da Itália, após a Fiat). O governo acabou comprando a parte da empresa privada, mas a preço superestimado que gerou o pagamento de cerca de cem milhões de dólares a vários líderes políticos, dentre eles Craxi.
A operação "mani pulite" também revelou que a ENI funcionaria como uma fonte de financiamento ilegal para os partidos e teria efetuado pagamentos mensais aos principais partidos políticos durante anos. Bettino Craxi, diante das acusações e condenações, autoexilouse, em 1994, na Tunísia, onde faleceu em 2000.
O PSI sofreu uma grave crise financeira e, em 1994, o 47 º Congresso resolveu dissolver o partido. Seus seguidores acabam divididos ente o Forza Italia, de centro- direita, liderado por Berlusconi, e o Partido Democrático, de esquerda. Mais tarde, em 1998, surge o Socialisti e Democratici Italiani, que em 2009 voltou a ser o PSI.
No artigo que escreveu em 2004 para a Revista Jurídica do Centro de Estudos Judiciários ( CEJ) do Conselho de Justiça Federal sobre a Operação Mãos Limpas, ocorrida na Itália nos anos 1990, o juiz Sérgio Moro a classifica como "uma das mais impressionantes cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa".
Quando destaca "a relevância da democracia para a eficácia da ação judicial no combate à corrupção e suas causas estruturais", Moro diz que "se encontram presentes várias condições institucionais necessárias para a realização de ação semelhante no Brasil, onde a eficácia do sistema judicial contra os crimes de " colarinho branco", principalmente o de corrupção, é no mínimo duvidosa".
Depois disso, já marcado como especialista no combate à lavagem de dinheiro, ele assessorou a ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal. Hoje, está à frente da Operação Lava- Jato, que caiu em seu colo em Curitiba por uma associação de fatores que levaram a investigação quase banal de doleiros ao centro de um dos maiores escândalos de corrupção política do mundo, como o caso da Petrobras foi classificado recentemente pela ONG Transparência Internacional.
No artigo, ele analisa o caso de Bettino Craxi, líder do Partido Socialista Italiano ( PSI) e ex-primeiro-ministro, um dos principais alvos da Operação Mãos Limpas. Moro ressalta que Craxi, já ameaçado pelas investigações e depois de negar várias vezes seu envolvimento, reconheceu cinicamente a prática disseminada das doações partidárias ilegais, em famoso discurso no Parlamento italiano, em 3 de julho de 1992, usando argumentos muito semelhantes aos que o PT vem usando: "(...) Mais, abaixo da cobertura do financiamento irregular dos partidos, casos de corrupção e extorsão floresceram e tornaram- se interligados. (...) O que é necessário dizer e que, de todo modo, todo mundo sabe, é que a maior parte do financiamento da política é irregular ou ilegal. Os partidos e aqueles que dependem da máquina partidária ( grande, média ou pequena), de jornais, de propaganda, atividades associativas ou promocionais... têm recorrido a recursos adicionais irregulares (...)".
Em dezembro de 1992, relata Moro, Craxi recebeu seu primeiro "avviso di garanzia", um documento de dezoito páginas, no qual era acusado de corrupção, extorsão e violação da lei reguladora do financiamento de campanhas. A acusação tinha por base, entre outras provas, a confissão de Salvatore Ligresti, suposto amigo pessoal de Craxi preso em julho de 1992, de que o grupo empresarial de sua propriedade teria pago, aproximadamente, US$ 500 mil desde 1985 ao PSI para ingressar e manter- se em grupo de empresários amigos do PSI.
Na segunda semana de janeiro de 1993, Craxi recebeu o segundo "avviso di garanzia", com acusações de que a propina teria também como beneficiário o próprio Craxi, não só o PSI.
Os pagamentos seriam feitos a Silvano Larini, que seria amigo próximo de Craxi. Larini e Filippo Panseca seriam os proprietários da empresa da qual Craxi alugaria suas mansões opulentas em Como e Hammamet. Craxi ainda recebeu novos "avvisi de garanzia" antes de renunciar ao posto de líder do PSI, em fevereiro de 1993. Sua popularidade logo se transformou em repúdio, e certa ocasião foi alvejado por uma chuva de moedas na rua.
Também viu seu nome envolvido no escândalo da Enimont, empresa química formada por joint venture da Ente Nazionale Idrocarburi ( ENI), a empresa petrolífera estatal italiana, e a Montedision, empresa química subsidiária do grupo Ferruzi ( considerado o segundo maior da Itália, após a Fiat). O governo acabou comprando a parte da empresa privada, mas a preço superestimado que gerou o pagamento de cerca de cem milhões de dólares a vários líderes políticos, dentre eles Craxi.
A operação "mani pulite" também revelou que a ENI funcionaria como uma fonte de financiamento ilegal para os partidos e teria efetuado pagamentos mensais aos principais partidos políticos durante anos. Bettino Craxi, diante das acusações e condenações, autoexilouse, em 1994, na Tunísia, onde faleceu em 2000.
O PSI sofreu uma grave crise financeira e, em 1994, o 47 º Congresso resolveu dissolver o partido. Seus seguidores acabam divididos ente o Forza Italia, de centro- direita, liderado por Berlusconi, e o Partido Democrático, de esquerda. Mais tarde, em 1998, surge o Socialisti e Democratici Italiani, que em 2009 voltou a ser o PSI.
Dez anos depois... - JOSÉ CASADO
O GLOBO - 08/03
Lula se acha injustiçado no inquérito sobre a corrupção na Petrobras, mas nunca pediu desculpas a Francenildo, cujo direitos foram violados e a vida foi devassada pelo seu governo
Dilma Rousseff, ontem, em Caxias do Sul (RS), para militantes do Partido dos Trabalhadores: — O presidente Lula, justiça seja feita, nunca se julgou melhor do que ninguém.
Lula, sexta-feira, em São Paulo: — Antes deles (policiais, procuradores e juízes) já fazíamos as coisas corretas nesse país... Eu fui melhor que todos. Eu fui melhor que todos cientistas políticos, fazendeiros, advogados e médicos que governaram este país.
Lula é um hábil ator da política-espetáculo. Soube com antecedência e reagiu de forma estudada. “Vou ser preso ou vão fazer a minha condução coercitiva”, avisou na véspera a Gilberto Carvalho — contou o ex-secretário presidencial à repórter Natuza Nery.
O momento mais espontâneo da sexta talvez tenha sido a conversa gravada e divulgada pela aliada Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Ao telefone com a presidente, Lula disse o que pensa sobre as instituições, sugerindo um rumo para o processo sobre corrupção na Petrobras: “Que enfiem...” Não se conhece resposta de Dilma.
Lula sabe, também, que deverá ser denunciado. É a tendência da procuradoria com base em evidências sobre as finanças de cinco grandes empreiteiras, responsabilizadas por quase 70% da corrupção comprovada em negócios da Petrobras durante o governo Lula. Entre outras transações, os procuradores descreveram pagamentos de R$ 560 mil mensais ao ex-presidente, de 2011 a 2014. Lula defendeu-as: “Já se deram conta de que o salário de muita gente na Justiça vem dos impostos que pagam essas empresas?”
Preferiu dever respostas substantivas, como se desejasse entregar-se às suspeitas. Reverberou contra as instituições e voltou a sinalizar que a História é ele. Arrematou com seu estado de espírito: “Indignado”, “magoado” e “perseguido”.
Por coincidência, neste março completam-se dez anos daquela que talvez tenha sido a maior das injustiças cometidas pelo Estado brasileiro contra um cidadão comum: Francenildo dos Santos. Aos 24 anos, ganhava por mês (R$ 370) quase 1.500 vezes menos do que Lula recebeu das cinco empreiteiras do caso Petrobras.
Caseiro no Lago Sul, em Brasília, em 2006 testemunhou cenas dos porões do poder, como o trânsito de malas de dinheiro em ambiente de festas libertinas. Num ano eleitoral marcado pelo inquérito do mensalão, confirmou à repórter Rosa Costa que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, frequentava a casa.
Convocado à CPI, foi silenciado pelo senador Tião Vianna (PT), que obteve uma liminar no Supremo. O número do seu CPF foi levado da Secretaria da Receita, comandada por Jorge Rachid, para o Palácio do Planalto. Ali, Lula se reunia com o ministro Palocci e o presidente da Caixa, Jorge Mattoso. À noite, o ministro recebeu de Mattoso um envelope com a violação do sigilo bancário de Francenildo na Caixa, relatou o repórter João Moreira Salles.
O governo espalhou cópias de extrato bancário onde constava depósito de R$ 30 mil. Tornou o caseiro suspeito de corrupção, a soldo dos “inimigos” eleitorais. A farsa não durou. Foi comprovado que o dinheiro fora doado pelo pai do caseiro, em parcelas, para ajudá-lo a comprar uma casa.
Desempregado e com a vida vasculhada, Francenildo aguentou firme. Até sugeriu que a devassa se estendesse ao seu voto na eleição de 2002: ajudara a eleger Lula presidente, de quem jamais recebeu sequer um pedido de desculpas.
Lula se acha injustiçado no inquérito sobre a corrupção na Petrobras, mas nunca pediu desculpas a Francenildo, cujo direitos foram violados e a vida foi devassada pelo seu governo
Dilma Rousseff, ontem, em Caxias do Sul (RS), para militantes do Partido dos Trabalhadores: — O presidente Lula, justiça seja feita, nunca se julgou melhor do que ninguém.
Lula, sexta-feira, em São Paulo: — Antes deles (policiais, procuradores e juízes) já fazíamos as coisas corretas nesse país... Eu fui melhor que todos. Eu fui melhor que todos cientistas políticos, fazendeiros, advogados e médicos que governaram este país.
Lula é um hábil ator da política-espetáculo. Soube com antecedência e reagiu de forma estudada. “Vou ser preso ou vão fazer a minha condução coercitiva”, avisou na véspera a Gilberto Carvalho — contou o ex-secretário presidencial à repórter Natuza Nery.
O momento mais espontâneo da sexta talvez tenha sido a conversa gravada e divulgada pela aliada Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Ao telefone com a presidente, Lula disse o que pensa sobre as instituições, sugerindo um rumo para o processo sobre corrupção na Petrobras: “Que enfiem...” Não se conhece resposta de Dilma.
Lula sabe, também, que deverá ser denunciado. É a tendência da procuradoria com base em evidências sobre as finanças de cinco grandes empreiteiras, responsabilizadas por quase 70% da corrupção comprovada em negócios da Petrobras durante o governo Lula. Entre outras transações, os procuradores descreveram pagamentos de R$ 560 mil mensais ao ex-presidente, de 2011 a 2014. Lula defendeu-as: “Já se deram conta de que o salário de muita gente na Justiça vem dos impostos que pagam essas empresas?”
Preferiu dever respostas substantivas, como se desejasse entregar-se às suspeitas. Reverberou contra as instituições e voltou a sinalizar que a História é ele. Arrematou com seu estado de espírito: “Indignado”, “magoado” e “perseguido”.
Por coincidência, neste março completam-se dez anos daquela que talvez tenha sido a maior das injustiças cometidas pelo Estado brasileiro contra um cidadão comum: Francenildo dos Santos. Aos 24 anos, ganhava por mês (R$ 370) quase 1.500 vezes menos do que Lula recebeu das cinco empreiteiras do caso Petrobras.
Caseiro no Lago Sul, em Brasília, em 2006 testemunhou cenas dos porões do poder, como o trânsito de malas de dinheiro em ambiente de festas libertinas. Num ano eleitoral marcado pelo inquérito do mensalão, confirmou à repórter Rosa Costa que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, frequentava a casa.
Convocado à CPI, foi silenciado pelo senador Tião Vianna (PT), que obteve uma liminar no Supremo. O número do seu CPF foi levado da Secretaria da Receita, comandada por Jorge Rachid, para o Palácio do Planalto. Ali, Lula se reunia com o ministro Palocci e o presidente da Caixa, Jorge Mattoso. À noite, o ministro recebeu de Mattoso um envelope com a violação do sigilo bancário de Francenildo na Caixa, relatou o repórter João Moreira Salles.
O governo espalhou cópias de extrato bancário onde constava depósito de R$ 30 mil. Tornou o caseiro suspeito de corrupção, a soldo dos “inimigos” eleitorais. A farsa não durou. Foi comprovado que o dinheiro fora doado pelo pai do caseiro, em parcelas, para ajudá-lo a comprar uma casa.
Desempregado e com a vida vasculhada, Francenildo aguentou firme. Até sugeriu que a devassa se estendesse ao seu voto na eleição de 2002: ajudara a eleger Lula presidente, de quem jamais recebeu sequer um pedido de desculpas.
Pausa nas planilhas e olho na Lava-Jato - FERNANDO TORRES
VALOR ECONÔMICO - 08/03
Quando cai na boca do povo uma expressão como "condução coercitiva", que boa parte das pessoas tem dificuldade até mesmo para pronunciar em voz alta, não há como fugir do assunto.
Nas redes sociais, mesas de bar e almoços de família ou de trabalho, não se fala de outra coisa que não da Lava-Jato.
Mesmo entre investidores e agentes do mercado financeiro, as ações recentes da força-tarefa e seus desdobramentos tornaram-se não apenas o assunto mais recorrente, como também aquele que mais tem influenciado os preços dos ativos.
Desde a prisão do marqueteiro das últimas campanhas petistas, João Santana, na segunda-feira retrasada, o Ibovespa saltou mais de 18%, enquanto o dólar Ptax afundou quase 7%, de mais de R$ 4 para perto de R$ 3,75.
É importante dizer que essa primeira estilingada dos preços é amplificada por um ajuste técnico decorrente do desmonte de posições de quem apostava contra o real e na queda das ações das empresas brasileiras.
Mas o movimento não é totalmente desprovido de fundamento. Como disse um gestor ao Valor, "política é fundamento na veia".
Ou seja, os agentes de fato mudarão seus cenários macroeconômicos - o que inclui projeções para PIB, dólar, inflação e superávit fiscal - se passarem a contar com a saída da presidente Dilma Rousseff do cargo antes do fim de 2018. E isso influencia os juros de longo prazo, cotações de ações etc.
Em síntese, se essas notícias foram capazes de fazer as ações de Petrobras, Usiminas, Gerdau e outras saltarem mais de 50% em pouco mais de cinco pregões, não convém ignorar a agenda política neste momento.
E isso vale mesmo para aqueles que se sentem mais a vontade diante de tabelas de Excel com modelos de fluxos de caixa descontado à sua frente.
A necessidade de seguir as recentes operações policiais se justifica não apenas pelo impacto que elas podem ter sobre os preços de maneira geral, como também pelo risco de atingirem em cheio (justa ou injustamente) a empresa na qual se investe - vide os casos da prisão do então controlador do BTG em novembro e a busca feita na Gerdau há duas semanas, esta última no âmbito da operação Zelotes. Banco e siderúrgica negam irregularidades.
Mas quais são as chances reais de que ocorra aquilo que os agentes do mercado financeiro parecem desejar - a julgar pelo comportamento dos preços dos ativos -, que é a saída do PT do governo?
Antecipar o futuro da Lava-Jato é mais difícil que acertar a taxa de câmbio ou a projeção do preço do petróleo.
Mas talvez ajude na análise separar o caso em duas frentes - frentes essas que se conversam, mas têm dinâmicas distintas.
A primeira é a policial e judicial contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tiraria o PT do jogo em 2018. A segunda é a saída antecipada de Dilma da presidência, seja por impeachment ou via cassação da chapa da eleição de 2014 pelo Tribunal Superior Eleitoral.
No primeiro caso, a questão é: existe chance de Lula ser preso ou de ser legalmente impedido de disputar a presidência em 2018, depois de ter lançado a candidatura na última sexta?
A resposta talvez dependa da ambição do Ministério Público Federal e do juiz Sergio Moro.
O relatório de 89 páginas em que o MPF fundamenta a condução coercitiva de Lula revela várias frentes de investigação. A acusação mais grave é a de que Lula era o chefe do esquema que assaltou a Petrobras. Ainda que a linha de raciocínio apresentada convença muita gente, inclusive os próprios procuradores, não há provas tipo "batom na cueca" até agora, o que leva o MPFa recorrer para algo na linha do domínio do fato. "Considerando que todas essas figuras, diretamente envolvidas no estratagema criminoso, orbitavam em volta de Lula e do PT, não é crível que ele desconhecesse a existência dos ilícitos", diz um trecho.
Já entre os casos menos ambiciosos, mas que envolvem Lula diretamente e com provas mais fortes, estão o do sítio em Atibaia e do guarda-móveis custeado pela OAS entre janeiro de 2011 e janeiro de 2016.
O sítio foi comprado em 29 de outubro de 2010, quando Lula ainda era presidente, e a reforma teve início antes do fim do ano, sendo custeada por uma empresa de José Carlos Bumlai e com gestão e mão de obra fornecidas sem custo pela Odebrecht ainda em dezembro (Se a lei anticorrupção estivesse em vigor na época, as duas empresas estariam enquadradas civilmente, mesmo sem prova de contrapartida).
O fato de Lula frequentar o sítio regularmente evidencia que ele usufruiu dessas vantagens que lhe foram oferecidas - ainda que ele negue ser dono do local, como alega o Ministério Público.
A defesa do ex-presidente diz que ele só soube do "presente" que recebeu de "amigos" no início de 2011. Mas se o destino do acervo recebido ao longo dos anos de presidência era uma preocupação da família, como alegou à "Folha" o ex-chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, alguém teria tomado outra providência para guardá-lo se o sítio fosse um segredo.
Estaria caracterizada então, na esfera cível, a improbidade administrativa, e uma condenação em segunda instância tiraria Lula da disputa pela Lei da Ficha Limpa. O problema é o prazo de prescrição, que por regra é de cinco anos, mas que poderia aumentar se for comprovado envolvimento de servidor público, como parece ter havido, segundo o MPF.
A força-tarefa também traz inúmeras provas de que a OAS preparou o triplex do Guarujá para a família de Lula, seja como presente ou para venda. Mas a defesa vai alegar que as obras ocorreram em 2014, que não há crime em ex-presidente receber presentes, e que Lula nunca usufruiu do apartamento - ao contrário do sítio.
As acusações contra Lula não afetam a presidente Dilma juridicamente. Mas têm poder de lhe tirar o pequeno apoio político que lhe resta no Congresso e nas ruas. E essa interação é perversa: o Congresso parado agrava a crise econômica, que aumenta a desaprovação de Dilma e dá mais respaldo político para a interrupção de mandato.
Outra frente que pode afetar Dilma são as delações que em breve se tornarão públicas, como a de executivos da Andrade Gutierrez e a do senador Delcídio do Amaral, caso tragam provas de que a campanha de 2014 teve dinheiro ilícito ou que ela tentou atrapalhar as investigações.
Quando cai na boca do povo uma expressão como "condução coercitiva", que boa parte das pessoas tem dificuldade até mesmo para pronunciar em voz alta, não há como fugir do assunto.
Nas redes sociais, mesas de bar e almoços de família ou de trabalho, não se fala de outra coisa que não da Lava-Jato.
Mesmo entre investidores e agentes do mercado financeiro, as ações recentes da força-tarefa e seus desdobramentos tornaram-se não apenas o assunto mais recorrente, como também aquele que mais tem influenciado os preços dos ativos.
Desde a prisão do marqueteiro das últimas campanhas petistas, João Santana, na segunda-feira retrasada, o Ibovespa saltou mais de 18%, enquanto o dólar Ptax afundou quase 7%, de mais de R$ 4 para perto de R$ 3,75.
É importante dizer que essa primeira estilingada dos preços é amplificada por um ajuste técnico decorrente do desmonte de posições de quem apostava contra o real e na queda das ações das empresas brasileiras.
Mas o movimento não é totalmente desprovido de fundamento. Como disse um gestor ao Valor, "política é fundamento na veia".
Ou seja, os agentes de fato mudarão seus cenários macroeconômicos - o que inclui projeções para PIB, dólar, inflação e superávit fiscal - se passarem a contar com a saída da presidente Dilma Rousseff do cargo antes do fim de 2018. E isso influencia os juros de longo prazo, cotações de ações etc.
Em síntese, se essas notícias foram capazes de fazer as ações de Petrobras, Usiminas, Gerdau e outras saltarem mais de 50% em pouco mais de cinco pregões, não convém ignorar a agenda política neste momento.
E isso vale mesmo para aqueles que se sentem mais a vontade diante de tabelas de Excel com modelos de fluxos de caixa descontado à sua frente.
A necessidade de seguir as recentes operações policiais se justifica não apenas pelo impacto que elas podem ter sobre os preços de maneira geral, como também pelo risco de atingirem em cheio (justa ou injustamente) a empresa na qual se investe - vide os casos da prisão do então controlador do BTG em novembro e a busca feita na Gerdau há duas semanas, esta última no âmbito da operação Zelotes. Banco e siderúrgica negam irregularidades.
Mas quais são as chances reais de que ocorra aquilo que os agentes do mercado financeiro parecem desejar - a julgar pelo comportamento dos preços dos ativos -, que é a saída do PT do governo?
Antecipar o futuro da Lava-Jato é mais difícil que acertar a taxa de câmbio ou a projeção do preço do petróleo.
Mas talvez ajude na análise separar o caso em duas frentes - frentes essas que se conversam, mas têm dinâmicas distintas.
A primeira é a policial e judicial contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tiraria o PT do jogo em 2018. A segunda é a saída antecipada de Dilma da presidência, seja por impeachment ou via cassação da chapa da eleição de 2014 pelo Tribunal Superior Eleitoral.
No primeiro caso, a questão é: existe chance de Lula ser preso ou de ser legalmente impedido de disputar a presidência em 2018, depois de ter lançado a candidatura na última sexta?
A resposta talvez dependa da ambição do Ministério Público Federal e do juiz Sergio Moro.
O relatório de 89 páginas em que o MPF fundamenta a condução coercitiva de Lula revela várias frentes de investigação. A acusação mais grave é a de que Lula era o chefe do esquema que assaltou a Petrobras. Ainda que a linha de raciocínio apresentada convença muita gente, inclusive os próprios procuradores, não há provas tipo "batom na cueca" até agora, o que leva o MPFa recorrer para algo na linha do domínio do fato. "Considerando que todas essas figuras, diretamente envolvidas no estratagema criminoso, orbitavam em volta de Lula e do PT, não é crível que ele desconhecesse a existência dos ilícitos", diz um trecho.
Já entre os casos menos ambiciosos, mas que envolvem Lula diretamente e com provas mais fortes, estão o do sítio em Atibaia e do guarda-móveis custeado pela OAS entre janeiro de 2011 e janeiro de 2016.
O sítio foi comprado em 29 de outubro de 2010, quando Lula ainda era presidente, e a reforma teve início antes do fim do ano, sendo custeada por uma empresa de José Carlos Bumlai e com gestão e mão de obra fornecidas sem custo pela Odebrecht ainda em dezembro (Se a lei anticorrupção estivesse em vigor na época, as duas empresas estariam enquadradas civilmente, mesmo sem prova de contrapartida).
O fato de Lula frequentar o sítio regularmente evidencia que ele usufruiu dessas vantagens que lhe foram oferecidas - ainda que ele negue ser dono do local, como alega o Ministério Público.
A defesa do ex-presidente diz que ele só soube do "presente" que recebeu de "amigos" no início de 2011. Mas se o destino do acervo recebido ao longo dos anos de presidência era uma preocupação da família, como alegou à "Folha" o ex-chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, alguém teria tomado outra providência para guardá-lo se o sítio fosse um segredo.
Estaria caracterizada então, na esfera cível, a improbidade administrativa, e uma condenação em segunda instância tiraria Lula da disputa pela Lei da Ficha Limpa. O problema é o prazo de prescrição, que por regra é de cinco anos, mas que poderia aumentar se for comprovado envolvimento de servidor público, como parece ter havido, segundo o MPF.
A força-tarefa também traz inúmeras provas de que a OAS preparou o triplex do Guarujá para a família de Lula, seja como presente ou para venda. Mas a defesa vai alegar que as obras ocorreram em 2014, que não há crime em ex-presidente receber presentes, e que Lula nunca usufruiu do apartamento - ao contrário do sítio.
As acusações contra Lula não afetam a presidente Dilma juridicamente. Mas têm poder de lhe tirar o pequeno apoio político que lhe resta no Congresso e nas ruas. E essa interação é perversa: o Congresso parado agrava a crise econômica, que aumenta a desaprovação de Dilma e dá mais respaldo político para a interrupção de mandato.
Outra frente que pode afetar Dilma são as delações que em breve se tornarão públicas, como a de executivos da Andrade Gutierrez e a do senador Delcídio do Amaral, caso tragam provas de que a campanha de 2014 teve dinheiro ilícito ou que ela tentou atrapalhar as investigações.
A vassalagem de Dilma a Lula - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 08/03
Quando decidiu oferecer solidariedade a Luiz Inácio Lula da Silva, visitando o chefão petista com estardalhaço um dia depois que ele se viu como alvo central da Operação Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff amesquinhou vergonhosamente a Presidência da República, reduzindo-a a um mero puxadinho de um dos tantos imóveis de que o ex-presidente usufrui graças a favores de amigos do peito.
Fazendo uso pessoal e político-partidário do aparato presidencial, como o avião e o helicóptero oficiais, Dilma foi a São Bernardo para prestar vassalagem pública a Lula, num ato de sabujice que, além de ilegal, desonra o cargo que ela ocupa. De quebra, a presidente se prestou a engrossar o coro dos que enxergam na Justiça o centro de um “golpe” contra seu governo e contra Lula, configurando inaceitável desrespeito do Executivo pelo Judiciário.
Esse comportamento grotesco serve somente para confirmar aquilo que os brasileiros já sabem: Dilma não existe mais como presidente. Sua insistência em permanecer nesse cargo, para o qual nunca teve aptidão e já não tem legitimidade, apenas piora uma situação já de si muito grave. Para que não se atinja o temido ponto de ruptura, em que a violência toma o lugar do debate político, Dilma deveria ter a decência de renunciar, abrindo caminho para a necessária normalização das relações institucionais e para a retomada da confiança na capacidade do governo de governar.
No entanto, em diversas oportunidades, Dilma já avisou que jamais tomará a iniciativa de abreviar seu mandato. Ela costuma vincular essa disposição a seu passado de guerrilheira que suportou a tortura nos porões da ditadura – como se o impeachment, que está previsto na Constituição, ou os movimentos que democraticamente defendem sua renúncia fossem comparáveis aos absurdos do regime militar.
Mas foi a um absurdo que Dilma e os petistas reduziram o debate político atual. Para salvar o ex-presidente Lula da cadeia e Dilma do impeachment, o PT tenta transformar o País numa rinha de galos, isto é, pretende arrastar os indignados brasileiros de bem para o mesmo nível de truculência ao qual a tigrada está habituada. A confusão moral é o que aduba a erva daninha petista.
Enquanto isso, o País segue sem rumo, em profunda crise, graças a uma presidente que não governa mais – isso depois de ter condenado a economia a uma retração que só se costuma observar em tempos de guerra ou de grandes catástrofes. Restou a Dilma caçar “mosquitas”, entregar casas do Minha Casa, Minha Vida e defender Lula.
Ao usar o avião e o helicóptero presidenciais para fazer uma visita particular a seu padrinho e ao aparecer em público em clima de comício, com o braço erguido, ao lado de Lula, suspeito de chefiar uma grande quadrilha de corruptos que assaltaram o País, Dilma fez sua opção: decidiu ficar contra a maioria absoluta dos brasileiros, incompatibilizando-se de vez para o exercício da Presidência.
Do ponto de vista político, é sua última cartada. Mesmo depois que Lula e seus apaniguados se posicionaram publicamente contra o governo de Dilma, considerado por muitos petistas como “neoliberal”, a presidente concluiu que ela não é nada sem seu chefe. Conforme esse cálculo, sua sobrevivência no cargo depende do apoio de Lula e do partido que lhe virou as costas, mesmo que isso signifique total subserviência ao PT – cujos líderes, se não estão presos, enfrentam hostilidade em locais públicos – e, principalmente, a seu líder, em cujos calcanhares está a Justiça. Não é uma boa perspectiva.
Do ponto de vista legal e moral, o caminho trilhado por Dilma não tem volta. A presidente faz prevalecer seu interesse pessoal em detrimento do interesse público. Deixou de ser a governante de todos os brasileiros para servir a Lula. Misturou-se à tigrada que hoje pretende intimidar aqueles que estão empenhados no cumprimento da lei.
Assim, cresce a percepção, inclusive no Congresso, de que Dilma está no cargo apenas para salvar Lula, e nada mais. O País e suas instituições não podem se curvar a isso.
Quando decidiu oferecer solidariedade a Luiz Inácio Lula da Silva, visitando o chefão petista com estardalhaço um dia depois que ele se viu como alvo central da Operação Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff amesquinhou vergonhosamente a Presidência da República, reduzindo-a a um mero puxadinho de um dos tantos imóveis de que o ex-presidente usufrui graças a favores de amigos do peito.
Fazendo uso pessoal e político-partidário do aparato presidencial, como o avião e o helicóptero oficiais, Dilma foi a São Bernardo para prestar vassalagem pública a Lula, num ato de sabujice que, além de ilegal, desonra o cargo que ela ocupa. De quebra, a presidente se prestou a engrossar o coro dos que enxergam na Justiça o centro de um “golpe” contra seu governo e contra Lula, configurando inaceitável desrespeito do Executivo pelo Judiciário.
Esse comportamento grotesco serve somente para confirmar aquilo que os brasileiros já sabem: Dilma não existe mais como presidente. Sua insistência em permanecer nesse cargo, para o qual nunca teve aptidão e já não tem legitimidade, apenas piora uma situação já de si muito grave. Para que não se atinja o temido ponto de ruptura, em que a violência toma o lugar do debate político, Dilma deveria ter a decência de renunciar, abrindo caminho para a necessária normalização das relações institucionais e para a retomada da confiança na capacidade do governo de governar.
No entanto, em diversas oportunidades, Dilma já avisou que jamais tomará a iniciativa de abreviar seu mandato. Ela costuma vincular essa disposição a seu passado de guerrilheira que suportou a tortura nos porões da ditadura – como se o impeachment, que está previsto na Constituição, ou os movimentos que democraticamente defendem sua renúncia fossem comparáveis aos absurdos do regime militar.
Mas foi a um absurdo que Dilma e os petistas reduziram o debate político atual. Para salvar o ex-presidente Lula da cadeia e Dilma do impeachment, o PT tenta transformar o País numa rinha de galos, isto é, pretende arrastar os indignados brasileiros de bem para o mesmo nível de truculência ao qual a tigrada está habituada. A confusão moral é o que aduba a erva daninha petista.
Enquanto isso, o País segue sem rumo, em profunda crise, graças a uma presidente que não governa mais – isso depois de ter condenado a economia a uma retração que só se costuma observar em tempos de guerra ou de grandes catástrofes. Restou a Dilma caçar “mosquitas”, entregar casas do Minha Casa, Minha Vida e defender Lula.
Ao usar o avião e o helicóptero presidenciais para fazer uma visita particular a seu padrinho e ao aparecer em público em clima de comício, com o braço erguido, ao lado de Lula, suspeito de chefiar uma grande quadrilha de corruptos que assaltaram o País, Dilma fez sua opção: decidiu ficar contra a maioria absoluta dos brasileiros, incompatibilizando-se de vez para o exercício da Presidência.
Do ponto de vista político, é sua última cartada. Mesmo depois que Lula e seus apaniguados se posicionaram publicamente contra o governo de Dilma, considerado por muitos petistas como “neoliberal”, a presidente concluiu que ela não é nada sem seu chefe. Conforme esse cálculo, sua sobrevivência no cargo depende do apoio de Lula e do partido que lhe virou as costas, mesmo que isso signifique total subserviência ao PT – cujos líderes, se não estão presos, enfrentam hostilidade em locais públicos – e, principalmente, a seu líder, em cujos calcanhares está a Justiça. Não é uma boa perspectiva.
Do ponto de vista legal e moral, o caminho trilhado por Dilma não tem volta. A presidente faz prevalecer seu interesse pessoal em detrimento do interesse público. Deixou de ser a governante de todos os brasileiros para servir a Lula. Misturou-se à tigrada que hoje pretende intimidar aqueles que estão empenhados no cumprimento da lei.
Assim, cresce a percepção, inclusive no Congresso, de que Dilma está no cargo apenas para salvar Lula, e nada mais. O País e suas instituições não podem se curvar a isso.
Sair às ruas, entrar para a história - KIM KATAGUIRI
FOLHA DE SP - 08/03
O PT nunca viveu momento tão desesperador. As explosivas revelações dadelação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e a Polícia Federal batendo à porta de Lula foram os mais duros reveses que o partido sofreu em sua história. As manifestações pró-impeachment marcadas para o dia 13 de março, alimentadas pelo momento político e pela crise econômica, têm tudo para ser maiores do que os protestos do ano passado.
É a tempestade perfeita. A maior dificuldade que movimentos como o MBL, do qual faço parte, tinham para mobilizar a população desapareceu na última semana.
A insatisfação da maioria esmagadora da população com o governo Dilma já estava consolidada por causa do desastre econômico de 2015 e das revelações da Operação Lava Jato. O problema é que essa insatisfação estava se tornando desesperança.
A sociedade não tinha perspectivas de mudança no cenário político. Com os acontecimentos recentes, o impeachment voltou a ser o rito necessário, sem o qual o país não se reconcilia com o seu futuro. Além disso, é uma clara vitória para as instituições o fato de que Lula, finalmente, não está acima da lei.
A delação de Delcídio amarrou alguns fios que pareciam soltos no petrolão. Era o que faltava para que parlamentares, empresários e setores organizados da sociedade civil descessem do muro. O impeachment não é "a" solução. Mas não há solução sem impeachment.
Para Lula, as revelações, somadas à mais recente fase da Operação Lava Jato, foram ainda mais destrutivas. No caso do mais ilustre de todos os petistas, não há precedente que sirva de comparação. Nossa democracia já viu um presidente passar por um processo de impeachment, mas nunca viu um ex-líder de tal envergadura ser tão humilhado por suas próprias escolhas.
O fato é que agora temos a oportunidade de fazer ruir o império da quadrilha que transformou o Estado brasileiro numa máquina de financiamento de um projeto de poder. Apesar da militância inflamada, o PT nunca esteve tão fraco.
As ameaças seguem o padrão conhecido: "Vamos colocar o exército do Stedile nas ruas!"; "Pegaremos em armas para defender o governo se preciso for!"; "O enfrentamento vai ser nas ruas!"...
Essa linguagem de resistência, hoje em dia, não passa de um teatrinho encenado por grupelhos que se transformaram em repartições da burocracia petista, alimentados com dinheiro público. MST, UNE, CUT e MTST são apenas siglas que contam a história da impostura. Quem sabe, fora do poder, consigam encontrar um pouco de dignidade ao menos, já que não há milagre que possa lhes corrigir a pauta deformada.
Temos de resgatar aquilo que o petismo nos roubou. E não me refiro apenas aos bilhões de reais subtraídos do Estado. Falo das nossas instituições e da integridade da nossa democracia.
Há mais de uma década, vivemos sob a ditadura da propina. Os Três Poderes perderam sua independência. A República tornou-se propriedade de um partido político. Quando os petistas dizem que não inventaram a corrupção, falam uma verdade ao menos. O que não admitem é o fato de que o partido é o único que, além de saquear os cofres públicos, saqueia as instituições democráticas.
Dia 13 de março estarei nas ruas para tomar de volta aquilo que me foi roubado. Espero que você, caro leitor, esteja também. O lema escolhido para as manifestações, "Ou você vai, ou ela fica", não é uma mera frase de efeito. Tampouco é mera dramatização da realidade. Trata-se da constatação de um fato.
O governo Dilma é um dragão muito ferido, mas ainda é um dragão. Se não aproveitarmos o momento para aniquilá-lo, segundo os instrumentos que a democracia oferece, continuará a cuspir fogo nas instituições, mesmo agonizante. Quanto mais destruição causar, mais difícil será a reconstrução.
Governos não caem de podre mesmo quando podres. Dilma ainda está com a caneta na mão. Cabe a nós ir para a rua no dia 13 de março e escrever um futuro diferente com a tinta que resta.
O PT nunca viveu momento tão desesperador. As explosivas revelações dadelação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e a Polícia Federal batendo à porta de Lula foram os mais duros reveses que o partido sofreu em sua história. As manifestações pró-impeachment marcadas para o dia 13 de março, alimentadas pelo momento político e pela crise econômica, têm tudo para ser maiores do que os protestos do ano passado.
É a tempestade perfeita. A maior dificuldade que movimentos como o MBL, do qual faço parte, tinham para mobilizar a população desapareceu na última semana.
A insatisfação da maioria esmagadora da população com o governo Dilma já estava consolidada por causa do desastre econômico de 2015 e das revelações da Operação Lava Jato. O problema é que essa insatisfação estava se tornando desesperança.
A sociedade não tinha perspectivas de mudança no cenário político. Com os acontecimentos recentes, o impeachment voltou a ser o rito necessário, sem o qual o país não se reconcilia com o seu futuro. Além disso, é uma clara vitória para as instituições o fato de que Lula, finalmente, não está acima da lei.
A delação de Delcídio amarrou alguns fios que pareciam soltos no petrolão. Era o que faltava para que parlamentares, empresários e setores organizados da sociedade civil descessem do muro. O impeachment não é "a" solução. Mas não há solução sem impeachment.
Para Lula, as revelações, somadas à mais recente fase da Operação Lava Jato, foram ainda mais destrutivas. No caso do mais ilustre de todos os petistas, não há precedente que sirva de comparação. Nossa democracia já viu um presidente passar por um processo de impeachment, mas nunca viu um ex-líder de tal envergadura ser tão humilhado por suas próprias escolhas.
O fato é que agora temos a oportunidade de fazer ruir o império da quadrilha que transformou o Estado brasileiro numa máquina de financiamento de um projeto de poder. Apesar da militância inflamada, o PT nunca esteve tão fraco.
As ameaças seguem o padrão conhecido: "Vamos colocar o exército do Stedile nas ruas!"; "Pegaremos em armas para defender o governo se preciso for!"; "O enfrentamento vai ser nas ruas!"...
Essa linguagem de resistência, hoje em dia, não passa de um teatrinho encenado por grupelhos que se transformaram em repartições da burocracia petista, alimentados com dinheiro público. MST, UNE, CUT e MTST são apenas siglas que contam a história da impostura. Quem sabe, fora do poder, consigam encontrar um pouco de dignidade ao menos, já que não há milagre que possa lhes corrigir a pauta deformada.
Temos de resgatar aquilo que o petismo nos roubou. E não me refiro apenas aos bilhões de reais subtraídos do Estado. Falo das nossas instituições e da integridade da nossa democracia.
Há mais de uma década, vivemos sob a ditadura da propina. Os Três Poderes perderam sua independência. A República tornou-se propriedade de um partido político. Quando os petistas dizem que não inventaram a corrupção, falam uma verdade ao menos. O que não admitem é o fato de que o partido é o único que, além de saquear os cofres públicos, saqueia as instituições democráticas.
Dia 13 de março estarei nas ruas para tomar de volta aquilo que me foi roubado. Espero que você, caro leitor, esteja também. O lema escolhido para as manifestações, "Ou você vai, ou ela fica", não é uma mera frase de efeito. Tampouco é mera dramatização da realidade. Trata-se da constatação de um fato.
O governo Dilma é um dragão muito ferido, mas ainda é um dragão. Se não aproveitarmos o momento para aniquilá-lo, segundo os instrumentos que a democracia oferece, continuará a cuspir fogo nas instituições, mesmo agonizante. Quanto mais destruição causar, mais difícil será a reconstrução.
Governos não caem de podre mesmo quando podres. Dilma ainda está com a caneta na mão. Cabe a nós ir para a rua no dia 13 de março e escrever um futuro diferente com a tinta que resta.
Faltaram a Lula os conselhos de uma criança - JOSIAS DE SOUZA
O BLOG DO JOSIAS DE SOUZA
No teatro infantil, com seus enredos básicos, sua comédia ingênua e seus exageros trágicos, as crianças se integram à catarse. Elas participam do espetáculo. Interferem na história, vaiam os vilões e torcem pelos herois. Avisam para a Chapeuzinho Vermelho, aos berros, que o Lobo Mau vai atacar. Às vezes, invadem o palco para evitar o ataque. O que faltou a Lula foi uma criança de cinco anos que saltasse da poltrona do teatro e gritasse para o mito do PT, a plenos pulmões: “Fuja dos seus amigos!”
Não bastasse o tríplex no Guarujá, que Lula alega ter desistido de comprar depois que virou escândalo; e o sítio de Atibaia, que virou escândalo porque o ex-soberano utiliza mesmo sem comprar, surge agora a cobertura de São Bernardo. Fica ao lado de outra cobertura, onde mora Lula. No papel, o imóvel foi “comprado” em 2011 por Glaucos da Costamarques, um primo do amigo José Carlos Bumlai, preso em Curitiba. Foi “alugado” para Lula, que prefere não ter vizinhos.
Presidente do Instituto Lula, o faz-tudo Paulo Okamotto explicou que o ex-soberano petista não quer ter ninguém morando do seu lado porque sabe do “desconforto” que é ter um vizinho político. Desconforto?!? Decerto Okamotto se refere ao risco de abrir a porta e dar de cara com agentes da Polícia Federal no hall do elevador. Mas as dúvidas continuam boiando no ar.
Por que diabos Lula não comprou, ele próprio, a cobertura ao lado? O primo de Bumlai afirma que pagou cerca de R$ 500 mil pelo imóvel. Isso é dinheiro de troco para Lula, um gênio das palestras invisíveis, que diz ter feito fortuna equiparando o preço de sua lábia à tabela de Bill Clinton, o conferencista mais caro do planeta.
Se houvesse uma criança de cinco anos na plateia, ao perceber que um primo de Bumlai entrara em cena, ela teria se esgoelado: “Não, não. Isso não!” Durante as visitas de Lula e Marisa Letícia às obras da reforma do tríplex do Guarujá, a criança teria entrado em desespero: “Pelo amor de Deus, do lado de Leo Pinheiro, dono da OAS, não!” Ao cruzar o portão do sítio de Atibaia, cedido pelos sócios de Lulinha e reformado pelo pool Odebrechet-OAS-Bumlai, a família Lula da Silva ouviria da criança: “Isso vai dar merda!”
Ah, que político imaculado seria Lula se tivesse do seu lado um conselheiro mirim, com cinco anos de idade!
No teatro infantil, com seus enredos básicos, sua comédia ingênua e seus exageros trágicos, as crianças se integram à catarse. Elas participam do espetáculo. Interferem na história, vaiam os vilões e torcem pelos herois. Avisam para a Chapeuzinho Vermelho, aos berros, que o Lobo Mau vai atacar. Às vezes, invadem o palco para evitar o ataque. O que faltou a Lula foi uma criança de cinco anos que saltasse da poltrona do teatro e gritasse para o mito do PT, a plenos pulmões: “Fuja dos seus amigos!”
Não bastasse o tríplex no Guarujá, que Lula alega ter desistido de comprar depois que virou escândalo; e o sítio de Atibaia, que virou escândalo porque o ex-soberano utiliza mesmo sem comprar, surge agora a cobertura de São Bernardo. Fica ao lado de outra cobertura, onde mora Lula. No papel, o imóvel foi “comprado” em 2011 por Glaucos da Costamarques, um primo do amigo José Carlos Bumlai, preso em Curitiba. Foi “alugado” para Lula, que prefere não ter vizinhos.
Presidente do Instituto Lula, o faz-tudo Paulo Okamotto explicou que o ex-soberano petista não quer ter ninguém morando do seu lado porque sabe do “desconforto” que é ter um vizinho político. Desconforto?!? Decerto Okamotto se refere ao risco de abrir a porta e dar de cara com agentes da Polícia Federal no hall do elevador. Mas as dúvidas continuam boiando no ar.
Por que diabos Lula não comprou, ele próprio, a cobertura ao lado? O primo de Bumlai afirma que pagou cerca de R$ 500 mil pelo imóvel. Isso é dinheiro de troco para Lula, um gênio das palestras invisíveis, que diz ter feito fortuna equiparando o preço de sua lábia à tabela de Bill Clinton, o conferencista mais caro do planeta.
Se houvesse uma criança de cinco anos na plateia, ao perceber que um primo de Bumlai entrara em cena, ela teria se esgoelado: “Não, não. Isso não!” Durante as visitas de Lula e Marisa Letícia às obras da reforma do tríplex do Guarujá, a criança teria entrado em desespero: “Pelo amor de Deus, do lado de Leo Pinheiro, dono da OAS, não!” Ao cruzar o portão do sítio de Atibaia, cedido pelos sócios de Lulinha e reformado pelo pool Odebrechet-OAS-Bumlai, a família Lula da Silva ouviria da criança: “Isso vai dar merda!”
Ah, que político imaculado seria Lula se tivesse do seu lado um conselheiro mirim, com cinco anos de idade!
Escalada irresponsável - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 08/03
Diante das demolidoras evidências a cada dia reveladas pelas investigações policiais, de que o ex-presidente Lula e o PT estão comprometidos até o pescoço com a corrupção no governo, o lulopetismo decidiu apelar para a melhor defesa que conhece: o ataque.
Em desespero, mobiliza suas tropas – constituídas basicamente pela militância paga de entidades e organizações sociais como CUT, UNE, MTST, entre outras – exortando-as ao confronto nas ruas com os opositores do governo. E chegou à criminosa irresponsabilidade de convocar seus apoiadores a se manifestarem, em São Paulo, em plena Avenida Paulista, no próximo domingo, dia 13, data há meses anunciada pelos movimentos de oposição ao governo e ao lulopetismo para protestar contra o descalabro político, econômico e moral em que Lula e Dilma Rousseff mergulharam o Brasil e apoiar o impeachment da presidente da República.
Desde que foi levado coercitivamente a depor na Polícia Federal na sexta-feira passada e reagiu fazendo o papel de vítima não dos policiais federais que o interrogaram, mas de uma conspiração armada para condená-lo, ficou claro que, sem argumentos legais suficientemente fortes para se defender, Lula optou pelo ataque, como sempre faz quando se sente acuado. Obedientes a essa tática, os militantes petistas tentam exacerbar o confronto para que dele, se possível, surja um mártir, uma vítima da sanha assassina das elites apoiadas pela mídia golpista.
É isso o que pode acontecer se o lulopetismo lograr o intento de colocar na Avenida Paulista, no próximo domingo – ou em qualquer outra cidade, mas o evento de São Paulo tem relevante sentido emblemático –, um bando de baderneiros dispostos a hostilizar a massa que estará exercendo o legítimo direito de se manifestar em paz e deverá ser, de acordo com a previsão dos organizadores, uma das mais numerosas dos últimos tempos.
Mesmo que acabem cedendo ao bom senso e não concretizem o intento temerário de “botar a tropa na rua”, os petistas esperam que a simples hipótese da ocorrência de conflitos seja suficiente para desencorajar os antigovernistas e esvaziar a manifestação do dia 13.
Articulado com a estratégia da exortação ao confronto, um dos mais proeminentes líderes do lulopetismo, o ex-ministro Gilberto Carvalho, em entrevista publicada ontem na Folha de S.Paulo, advertiu aqueles que, na tentativa de envolver Lula na Lava Jato, estão “brincando com fogo”: “Espero que haja bom senso e que a Lava Jato volte ao seu leito natural de combater a corrupção real e se desteatralize (sic), que as delações premiadas deixem de ser instrumento de perseguição de um partido político”.
Combater a “corrupção real”, na opinião do piedoso Gilbertinho, é deixar Lula e os petistas em paz, pois “(...) os campeões da corrupção estão soltos, tendo suas penas reduzidas escandalosamente (...). Quem está ficando na cadeia em Curitiba é o Marcelo Odebrecht, que se negou a fazer delação, e os políticos. Isso é combater a corrupção?”.
Por esse raciocínio, quem colaborou com as investigações deveria ser castigado com penas mais pesadas e quem respeitou a omertà mereceria a liberdade e, quem sabe, uma condecoração.
Carvalho é categórico: “O doutor Sérgio Moro tem uma necessidade de provar que os agentes do PT formam uma quadrilha e que o capo dessa quadrilha agora é o presidente Lula”. Pelo peculiar raciocínio do ex-ministro, Lula é intocável e mexer com ele é “brincar com fogo”.
Mas a ameaça para valer vem em seguida: se continuar a perseguição a Lula e ao PT, “aí eu temo muito um processo que nos leve ao que acontece na Venezuela, porque você vai levando ao processo de justiçamento, de justiça com as próprias mãos, e haverá um ódio progressivo”. Ou seja, o piedoso Gilbertinho nos ameaça com um golpe de Estado e uma ditadura de fato, pois foi isso o que aconteceu e ainda acontece na Venezuela. Grande democrata, esse Gilbertinho!
Diante das demolidoras evidências a cada dia reveladas pelas investigações policiais, de que o ex-presidente Lula e o PT estão comprometidos até o pescoço com a corrupção no governo, o lulopetismo decidiu apelar para a melhor defesa que conhece: o ataque.
Em desespero, mobiliza suas tropas – constituídas basicamente pela militância paga de entidades e organizações sociais como CUT, UNE, MTST, entre outras – exortando-as ao confronto nas ruas com os opositores do governo. E chegou à criminosa irresponsabilidade de convocar seus apoiadores a se manifestarem, em São Paulo, em plena Avenida Paulista, no próximo domingo, dia 13, data há meses anunciada pelos movimentos de oposição ao governo e ao lulopetismo para protestar contra o descalabro político, econômico e moral em que Lula e Dilma Rousseff mergulharam o Brasil e apoiar o impeachment da presidente da República.
Desde que foi levado coercitivamente a depor na Polícia Federal na sexta-feira passada e reagiu fazendo o papel de vítima não dos policiais federais que o interrogaram, mas de uma conspiração armada para condená-lo, ficou claro que, sem argumentos legais suficientemente fortes para se defender, Lula optou pelo ataque, como sempre faz quando se sente acuado. Obedientes a essa tática, os militantes petistas tentam exacerbar o confronto para que dele, se possível, surja um mártir, uma vítima da sanha assassina das elites apoiadas pela mídia golpista.
É isso o que pode acontecer se o lulopetismo lograr o intento de colocar na Avenida Paulista, no próximo domingo – ou em qualquer outra cidade, mas o evento de São Paulo tem relevante sentido emblemático –, um bando de baderneiros dispostos a hostilizar a massa que estará exercendo o legítimo direito de se manifestar em paz e deverá ser, de acordo com a previsão dos organizadores, uma das mais numerosas dos últimos tempos.
Mesmo que acabem cedendo ao bom senso e não concretizem o intento temerário de “botar a tropa na rua”, os petistas esperam que a simples hipótese da ocorrência de conflitos seja suficiente para desencorajar os antigovernistas e esvaziar a manifestação do dia 13.
Articulado com a estratégia da exortação ao confronto, um dos mais proeminentes líderes do lulopetismo, o ex-ministro Gilberto Carvalho, em entrevista publicada ontem na Folha de S.Paulo, advertiu aqueles que, na tentativa de envolver Lula na Lava Jato, estão “brincando com fogo”: “Espero que haja bom senso e que a Lava Jato volte ao seu leito natural de combater a corrupção real e se desteatralize (sic), que as delações premiadas deixem de ser instrumento de perseguição de um partido político”.
Combater a “corrupção real”, na opinião do piedoso Gilbertinho, é deixar Lula e os petistas em paz, pois “(...) os campeões da corrupção estão soltos, tendo suas penas reduzidas escandalosamente (...). Quem está ficando na cadeia em Curitiba é o Marcelo Odebrecht, que se negou a fazer delação, e os políticos. Isso é combater a corrupção?”.
Por esse raciocínio, quem colaborou com as investigações deveria ser castigado com penas mais pesadas e quem respeitou a omertà mereceria a liberdade e, quem sabe, uma condecoração.
Carvalho é categórico: “O doutor Sérgio Moro tem uma necessidade de provar que os agentes do PT formam uma quadrilha e que o capo dessa quadrilha agora é o presidente Lula”. Pelo peculiar raciocínio do ex-ministro, Lula é intocável e mexer com ele é “brincar com fogo”.
Mas a ameaça para valer vem em seguida: se continuar a perseguição a Lula e ao PT, “aí eu temo muito um processo que nos leve ao que acontece na Venezuela, porque você vai levando ao processo de justiçamento, de justiça com as próprias mãos, e haverá um ódio progressivo”. Ou seja, o piedoso Gilbertinho nos ameaça com um golpe de Estado e uma ditadura de fato, pois foi isso o que aconteceu e ainda acontece na Venezuela. Grande democrata, esse Gilbertinho!
Pressa, sem atropelo - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 08/03
Para usar uma expressão popular, partidos de oposição e movimentos contra a presidente Dilma Rousseff (PT) atiraram no que viram, acertaram no que não viram.
No final do ano passado, mesmo antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) botar freios no rito de impeachment adotado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, líderes oposicionistas mostravam-se dispostos a, de forma temporária, diminuir a pressão sobre o governo.
Calculavam que três meses de inevitável paralisia provocariam o agravamento da crise econômica; o apoio ao afastamento de Dilma, que parecia refluir em dezembro, voltaria com toda a força em março.
Por motivos muito diversos, os dias que antecedem as manifestações do próximo dia 13 têm sido marcados por grande agitação política. O combustível, entretanto, não veio exatamente da divulgação do PIB ou dos dados sobre a inflação e o desemprego, mas das frentes investigativa e judicial.
À recente prisão de João Santana, marqueteiro das campanhas de Dilma, somou-se a notícia, conhecida na quinta-feira (3), de que Delcídio do Amaral (PT-MS) fechara acordo de delação premiada. Um dia depois, o ex-presidente Lula viu-se obrigado a comparecer perante a autoridade policial.
Seguiram-se, e ainda não cessaram, discursos inflamados acerca da condução coercitiva de Lula. Num exagero retórico, Dilma a classificou como "violência injustificável"; o ex-presidente aproveitou a ocasião para assumir o papel de vítima e atiçar a militância.
Por coincidência, Michel Temer (PMDB) tinha agenda pública no domingo (6). Tietê, cidade do interior paulista onde o vice-presidente nasceu, comemorava 174 anos.
Na solenidade, sem transparecer a mesma ânsia de agosto ou dezembro, Temer novamente defendeu a união para tirar o país da crise, num esforço para o qual contribuiria "a iniciativa privada, prestigiada pelo poder público". A jogada estava feita; o vice quer soar como a voz ponderada num ambiente cada vez mais conflagrado.
Parte do PMDB também se mexeu. Alguns diretórios planejam discutir, no próximo final de semana, a ruptura com o PT.
Enquanto isso, vendo o governo acuado, oposicionistas abandonam qualquer compromisso com a responsabilidade e anunciam a intenção de bloquear a pauta do Congresso até que se constitua a comissão especial para discutir o impeachment de Dilma na Câmara.
Nesta segunda-feira (7), dois novos lances abriram o tabuleiro. Eduardo Cunha, cuja presença tem contaminado o processo de impeachment, foi notificado do processo de cassação no Conselho de Ética. O STF, por sua vez, começou a liberar os votos que definiram o rito do afastamento presidencial.
Em ritmo frenético, as peças se movem. Desde que não haja atropelos, é melhor assim. Seja qual for o desenlace, o Brasil não pode continuar refém da crise política.
Para usar uma expressão popular, partidos de oposição e movimentos contra a presidente Dilma Rousseff (PT) atiraram no que viram, acertaram no que não viram.
No final do ano passado, mesmo antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) botar freios no rito de impeachment adotado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, líderes oposicionistas mostravam-se dispostos a, de forma temporária, diminuir a pressão sobre o governo.
Calculavam que três meses de inevitável paralisia provocariam o agravamento da crise econômica; o apoio ao afastamento de Dilma, que parecia refluir em dezembro, voltaria com toda a força em março.
Por motivos muito diversos, os dias que antecedem as manifestações do próximo dia 13 têm sido marcados por grande agitação política. O combustível, entretanto, não veio exatamente da divulgação do PIB ou dos dados sobre a inflação e o desemprego, mas das frentes investigativa e judicial.
À recente prisão de João Santana, marqueteiro das campanhas de Dilma, somou-se a notícia, conhecida na quinta-feira (3), de que Delcídio do Amaral (PT-MS) fechara acordo de delação premiada. Um dia depois, o ex-presidente Lula viu-se obrigado a comparecer perante a autoridade policial.
Seguiram-se, e ainda não cessaram, discursos inflamados acerca da condução coercitiva de Lula. Num exagero retórico, Dilma a classificou como "violência injustificável"; o ex-presidente aproveitou a ocasião para assumir o papel de vítima e atiçar a militância.
Por coincidência, Michel Temer (PMDB) tinha agenda pública no domingo (6). Tietê, cidade do interior paulista onde o vice-presidente nasceu, comemorava 174 anos.
Na solenidade, sem transparecer a mesma ânsia de agosto ou dezembro, Temer novamente defendeu a união para tirar o país da crise, num esforço para o qual contribuiria "a iniciativa privada, prestigiada pelo poder público". A jogada estava feita; o vice quer soar como a voz ponderada num ambiente cada vez mais conflagrado.
Parte do PMDB também se mexeu. Alguns diretórios planejam discutir, no próximo final de semana, a ruptura com o PT.
Enquanto isso, vendo o governo acuado, oposicionistas abandonam qualquer compromisso com a responsabilidade e anunciam a intenção de bloquear a pauta do Congresso até que se constitua a comissão especial para discutir o impeachment de Dilma na Câmara.
Nesta segunda-feira (7), dois novos lances abriram o tabuleiro. Eduardo Cunha, cuja presença tem contaminado o processo de impeachment, foi notificado do processo de cassação no Conselho de Ética. O STF, por sua vez, começou a liberar os votos que definiram o rito do afastamento presidencial.
Em ritmo frenético, as peças se movem. Desde que não haja atropelos, é melhor assim. Seja qual for o desenlace, o Brasil não pode continuar refém da crise política.
segunda-feira, março 07, 2016
Até os orixás estão de saco cheio - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 07/03
A crença nos espíritos data da pré-história. E tudo que data da pré-história e dura até hoje implica razoável sucesso evolucionário. Levo a pré-história muito a sério e a julgo tão importante quanto os últimos 200 anos para que possamos entender os humanos. Só pessoas superficiais em repertório e pobres de espírito avaliam a humanidade sem levar em conta o Alto Paleolítico (nosso melhor momento).
A escuridão do mundo e seus ruídos, a presença dos sonhos à noite e o medo da morte seguramente pavimentaram o caminho para o mundo dos espíritos.
Uma coisa que sempre me chamou a atenção na crença nos espíritos é como eles estão sempre envolvidos com as coisas terrenas. Afinal, se já desencarnaram, qual a razão de ficarem se enrolando com os assuntos dos encarnados? Sei da resposta padrão: missão.
Muitos desses espíritos precisam cuidar dos assuntos terrenos para que eles mesmos ganhem alguma luz em suas evoluções espirituais. Como parte importante dessa evolução espiritual está a necessidade de nos ajudar em nossos rolos. Seres humanos sempre patinam nas mesmas coisas.
Já tive algumas oportunidades de ver orixás e entidades variadas, como Exu (em si um orixá), Pombagira, Caboclo, Preto Velho e outros, em ação. Em algumas dessas vezes cheguei a conversar com eles, e impressiona uma certa sabedoria popular presente em suas falas. Na realidade, existem três grande áreas de choque na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença, 3. amor e família.
Se você pensar um pouco, verá que a maioria das coisas que nos afetam, transita, pelo menos, por uma dessas três áreas.
Muitas vezes, suspeito que algumas dessas entidades entendem melhor sobre humanos do que muitos professores e "cientistas" das humanidades.
Por isso, talvez, as falas desses espíritos nos soem tão significativas. Seja porque eles (os espíritos) de fato entendem das nossas agonias, seja porque os pais de santo e as mães de santo é que entendem dessas nossas agonias, como pensa o cético. De qualquer forma, não me interessa a crítica cética aqui. Interessa-me apenas como muitas dessas entidades falam de coisas que de fato nos tocam no dia a dia. Talvez mesmo porque sejamos banais e comuns: todos nós vivemos quase o tempo todo passando por aquelas três grandes áreas de choque descritas acima.
Numa conversa familiar e entre amigos, uma dessas pessoas muito conhecedoras "do ramo" soube de um relato que me chamou a atenção, e que quero partilhar com você aqui, cara leitora e caro leitor.
O relato é o seguinte. Numa gira (evento em que entidades da umbanda atendem pessoas em suas agonias cotidianas), um Caboclo (caboclos são da linhagem de Oxóssi) de grande experiência em atendimento (cujo "cavalo" é um pai de santo de enorme sucesso no ramo) se aborreceu profundamente com as demandas de seus "clientes" ali presentes. Vale salientar para os especialistas que se tratava de um terreiro de candomblé que tem giras de umbanda também, o que é cada vez mais comum.
Precisamos lembrar que, mesmo no ramo de atendimento espiritual, você deve tomar cuidado para não "chutar o saco do cliente", porque ele pode procurar outro orixá, de outro terreiro, para se consultar. E, normalmente, consultas assim podem se transformar em "trabalhos" de todos os tipos, "trabalhos" esses que giram a economia do terreiro e de quem se dedica a essa profissão. Nem só do verbo vive o homem, mas também do pão e da carne.
A irritação do Caboclo (eu sei o nome dele, mas não quero expô-lo aqui) foi com as "conversinhas" de seus clientes ali presentes. Segundo o Caboclo, todo mundo só queria falar com ele sobre "bobagens mesquinhas". E ele, vindo de "tão longe", perdera a paciência para atender pessoas tão bobas. Para nosso Caboclo, o irritante era a "infantilidade" das pessoas ali presentes.
Posso imaginar a irritação de um ser que já passou pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados em rede que hoje assola o mundo. Até os orixás estão de saco cheio. Caboclo de coragem esse. E sábio.
A crença nos espíritos data da pré-história. E tudo que data da pré-história e dura até hoje implica razoável sucesso evolucionário. Levo a pré-história muito a sério e a julgo tão importante quanto os últimos 200 anos para que possamos entender os humanos. Só pessoas superficiais em repertório e pobres de espírito avaliam a humanidade sem levar em conta o Alto Paleolítico (nosso melhor momento).
A escuridão do mundo e seus ruídos, a presença dos sonhos à noite e o medo da morte seguramente pavimentaram o caminho para o mundo dos espíritos.
Uma coisa que sempre me chamou a atenção na crença nos espíritos é como eles estão sempre envolvidos com as coisas terrenas. Afinal, se já desencarnaram, qual a razão de ficarem se enrolando com os assuntos dos encarnados? Sei da resposta padrão: missão.
Muitos desses espíritos precisam cuidar dos assuntos terrenos para que eles mesmos ganhem alguma luz em suas evoluções espirituais. Como parte importante dessa evolução espiritual está a necessidade de nos ajudar em nossos rolos. Seres humanos sempre patinam nas mesmas coisas.
Já tive algumas oportunidades de ver orixás e entidades variadas, como Exu (em si um orixá), Pombagira, Caboclo, Preto Velho e outros, em ação. Em algumas dessas vezes cheguei a conversar com eles, e impressiona uma certa sabedoria popular presente em suas falas. Na realidade, existem três grande áreas de choque na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença, 3. amor e família.
Se você pensar um pouco, verá que a maioria das coisas que nos afetam, transita, pelo menos, por uma dessas três áreas.
Muitas vezes, suspeito que algumas dessas entidades entendem melhor sobre humanos do que muitos professores e "cientistas" das humanidades.
Por isso, talvez, as falas desses espíritos nos soem tão significativas. Seja porque eles (os espíritos) de fato entendem das nossas agonias, seja porque os pais de santo e as mães de santo é que entendem dessas nossas agonias, como pensa o cético. De qualquer forma, não me interessa a crítica cética aqui. Interessa-me apenas como muitas dessas entidades falam de coisas que de fato nos tocam no dia a dia. Talvez mesmo porque sejamos banais e comuns: todos nós vivemos quase o tempo todo passando por aquelas três grandes áreas de choque descritas acima.
Numa conversa familiar e entre amigos, uma dessas pessoas muito conhecedoras "do ramo" soube de um relato que me chamou a atenção, e que quero partilhar com você aqui, cara leitora e caro leitor.
O relato é o seguinte. Numa gira (evento em que entidades da umbanda atendem pessoas em suas agonias cotidianas), um Caboclo (caboclos são da linhagem de Oxóssi) de grande experiência em atendimento (cujo "cavalo" é um pai de santo de enorme sucesso no ramo) se aborreceu profundamente com as demandas de seus "clientes" ali presentes. Vale salientar para os especialistas que se tratava de um terreiro de candomblé que tem giras de umbanda também, o que é cada vez mais comum.
Precisamos lembrar que, mesmo no ramo de atendimento espiritual, você deve tomar cuidado para não "chutar o saco do cliente", porque ele pode procurar outro orixá, de outro terreiro, para se consultar. E, normalmente, consultas assim podem se transformar em "trabalhos" de todos os tipos, "trabalhos" esses que giram a economia do terreiro e de quem se dedica a essa profissão. Nem só do verbo vive o homem, mas também do pão e da carne.
A irritação do Caboclo (eu sei o nome dele, mas não quero expô-lo aqui) foi com as "conversinhas" de seus clientes ali presentes. Segundo o Caboclo, todo mundo só queria falar com ele sobre "bobagens mesquinhas". E ele, vindo de "tão longe", perdera a paciência para atender pessoas tão bobas. Para nosso Caboclo, o irritante era a "infantilidade" das pessoas ali presentes.
Posso imaginar a irritação de um ser que já passou pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados em rede que hoje assola o mundo. Até os orixás estão de saco cheio. Caboclo de coragem esse. E sábio.
Reservada a bacanas - RUY CASTRO
Folha de SP - 07/03
Foi-se o tempo em que ser corrupto no Brasil estava ao alcance de qualquer um.
Numa das fabulosas boates do Rio nos anos 50, um boêmio sentado ao lado da mesa de um assessor do ministro da Agricultura, por exemplo, ouvia-o dizer que o governo iria fazer uma importação de tratores. O sujeito puxava conversa e convencia o assessor de que, se essa importação incluísse discretamente 50 Cadillacs rabo-de-peixe, eles poderiam ganhar um bom dinheiro revendendo-os na praça e dividindo a féria. Era assim nos governos Dutra, Getúlio, Juscelino.
No tempo da ditadura, muitos generais trocaram a agrestia dos quartéis, com seu perfume de estrebaria, pela presidência de órgãos públicos, com salários que lhes permitiam pedir reforma do Exército e trocar a casinha no Maracanã pelo apartamento em Copacabana. As obras do "Brasil grande" também podiam não sair das pranchetas, mas, enquanto estavam em estudos, socorriam muitos coronéis desamparados.
Nos governos Sarney, Collor e FHC, foi preciso ser mais criativo para ser corrupto.
Políticos e empresários desenvolveram afinidades jamais sonhadas, donde surgiram as concorrências com cartas marcadas, o loteamento dos cargos públicos e as privatizações marotas. Ali a corrupção começou a encarecer.
Sob Lula e Dilma, explodiu. Nunca neste país foi preciso pagar tanta propina, superfaturar transações, investir em refinarias falidas, subornar políticos, nomear ministros, lubrificar tribunais, silenciar aliados, socorrer amigos, comprar medidas provisórias, pagar por palestras fantasmas e bancar a tomada do Estado por um partido. Para não falar nas boquinhas -é um filho aqui, outro ali, um instituto, um sítio, um tríplex, um pedalinho. E tudo em milhões, nada abaixo de sete dígitos.
Haja dinheiro. Hoje, só bacana pode ser corrupto.
Foi-se o tempo em que ser corrupto no Brasil estava ao alcance de qualquer um.
Numa das fabulosas boates do Rio nos anos 50, um boêmio sentado ao lado da mesa de um assessor do ministro da Agricultura, por exemplo, ouvia-o dizer que o governo iria fazer uma importação de tratores. O sujeito puxava conversa e convencia o assessor de que, se essa importação incluísse discretamente 50 Cadillacs rabo-de-peixe, eles poderiam ganhar um bom dinheiro revendendo-os na praça e dividindo a féria. Era assim nos governos Dutra, Getúlio, Juscelino.
No tempo da ditadura, muitos generais trocaram a agrestia dos quartéis, com seu perfume de estrebaria, pela presidência de órgãos públicos, com salários que lhes permitiam pedir reforma do Exército e trocar a casinha no Maracanã pelo apartamento em Copacabana. As obras do "Brasil grande" também podiam não sair das pranchetas, mas, enquanto estavam em estudos, socorriam muitos coronéis desamparados.
Nos governos Sarney, Collor e FHC, foi preciso ser mais criativo para ser corrupto.
Políticos e empresários desenvolveram afinidades jamais sonhadas, donde surgiram as concorrências com cartas marcadas, o loteamento dos cargos públicos e as privatizações marotas. Ali a corrupção começou a encarecer.
Sob Lula e Dilma, explodiu. Nunca neste país foi preciso pagar tanta propina, superfaturar transações, investir em refinarias falidas, subornar políticos, nomear ministros, lubrificar tribunais, silenciar aliados, socorrer amigos, comprar medidas provisórias, pagar por palestras fantasmas e bancar a tomada do Estado por um partido. Para não falar nas boquinhas -é um filho aqui, outro ali, um instituto, um sítio, um tríplex, um pedalinho. E tudo em milhões, nada abaixo de sete dígitos.
Haja dinheiro. Hoje, só bacana pode ser corrupto.
O fim e o começo - AÉCIO NEVES
Folha de SP - 07/03
Vivemos um momento especialmente difícil da vida nacional. Um capricho do destino combinou o agravamento da crise econômica com o pior momento do terremoto político que ameaça o governo.
De um lado, a constatação de que, na economia, a queda vertiginosa do PIB configura anos de crescimento perdido para o país. De outro, as revelações vindas à tona na Operação Lava Jato lançam luzes sobre o mundo de sombras no qual opera o grupo instalado no poder. Trata-se de uma combinação letal. De certo, não sobreviverão nem mesmo algumas biografias.
O fracasso na gestão econômica e as impropriedades cometidas pelo grupo no poder –cada dia elas estão mais expostas– não são uma invenção da oposição e nem fruto de uma conjuntura adversa. O conjunto da obra tem DNA e carteira de identidade petistas. A crise na qual estamos mergulhados é resultado de crenças equivocadas, valores desvirtuados e ambições desmedidas.
Infelizmente o PT não entende a crise, sequer a reconhece. Faz o pior: parece querer aprofundá-la, com uma sucessão de atitudes que beiram a irresponsabilidade cívica, como as pressões a favor de troca de ministros, a crítica contumaz à independência das instituições e da imprensa e a divulgação recente de um programa econômico alternativo ao do próprio governo que preside.
À deriva e maculado por escândalos cada vez mais próximos do seu núcleo de poder, este governo não está apto a restaurar a confiança essencial à reconstrução do país.
A hora que vivemos exige coragem e serenidade de todos os democratas.
Serenidade para não aceitar as provocações que nascem da intolerância daqueles que, sem argumentos, insistem em disseminar o ódio e dividir o Brasil para tentar esconder a realidade. Palavras de ordem ensaiadas não vão calar o país.
Não se trata de quem grita mais ou mais alto. Os brasileiros aprenderam a ouvir uma nova voz: a da Justiça.
Coragem para continuar a busca da verdade. A sociedade não merece menos do que isso. Devemos apoiar os trabalhos do Ministério Público, da Polícia Federal e das demais instituições que zelam pela democracia. É hora de assegurar que elas continuem trabalhando sem constrangimentos, sempre nos limites da ordem constitucional. Afronta a democracia quem, dizendo agir em seu nome, quer destruir seus pilares.
Mas, apesar de tudo o que enfrentamos, nosso olhar não pode ficar refém dos dias que vivemos. É preciso enxergar mais adiante. Do encontro com a verdade nascerá um novo Brasil. Confiante, fortalecido na sua esperança como povo e nação.
Um país com credibilidade, capaz de retomar o crescimento e recuperar o respeito da nossa gente e do mundo. É nessa direção que precisamos caminhar.
Vivemos um momento especialmente difícil da vida nacional. Um capricho do destino combinou o agravamento da crise econômica com o pior momento do terremoto político que ameaça o governo.
De um lado, a constatação de que, na economia, a queda vertiginosa do PIB configura anos de crescimento perdido para o país. De outro, as revelações vindas à tona na Operação Lava Jato lançam luzes sobre o mundo de sombras no qual opera o grupo instalado no poder. Trata-se de uma combinação letal. De certo, não sobreviverão nem mesmo algumas biografias.
O fracasso na gestão econômica e as impropriedades cometidas pelo grupo no poder –cada dia elas estão mais expostas– não são uma invenção da oposição e nem fruto de uma conjuntura adversa. O conjunto da obra tem DNA e carteira de identidade petistas. A crise na qual estamos mergulhados é resultado de crenças equivocadas, valores desvirtuados e ambições desmedidas.
Infelizmente o PT não entende a crise, sequer a reconhece. Faz o pior: parece querer aprofundá-la, com uma sucessão de atitudes que beiram a irresponsabilidade cívica, como as pressões a favor de troca de ministros, a crítica contumaz à independência das instituições e da imprensa e a divulgação recente de um programa econômico alternativo ao do próprio governo que preside.
À deriva e maculado por escândalos cada vez mais próximos do seu núcleo de poder, este governo não está apto a restaurar a confiança essencial à reconstrução do país.
A hora que vivemos exige coragem e serenidade de todos os democratas.
Serenidade para não aceitar as provocações que nascem da intolerância daqueles que, sem argumentos, insistem em disseminar o ódio e dividir o Brasil para tentar esconder a realidade. Palavras de ordem ensaiadas não vão calar o país.
Não se trata de quem grita mais ou mais alto. Os brasileiros aprenderam a ouvir uma nova voz: a da Justiça.
Coragem para continuar a busca da verdade. A sociedade não merece menos do que isso. Devemos apoiar os trabalhos do Ministério Público, da Polícia Federal e das demais instituições que zelam pela democracia. É hora de assegurar que elas continuem trabalhando sem constrangimentos, sempre nos limites da ordem constitucional. Afronta a democracia quem, dizendo agir em seu nome, quer destruir seus pilares.
Mas, apesar de tudo o que enfrentamos, nosso olhar não pode ficar refém dos dias que vivemos. É preciso enxergar mais adiante. Do encontro com a verdade nascerá um novo Brasil. Confiante, fortalecido na sua esperança como povo e nação.
Um país com credibilidade, capaz de retomar o crescimento e recuperar o respeito da nossa gente e do mundo. É nessa direção que precisamos caminhar.
Juntos = complicação - VALDO CRUZ
Folha de São Paulo - 07/03
A crise ganha contornos infernais, Lula entra de vez no olho do furacão da Lava Jato, Dilma vai sendo sugada também e a presidente, num instinto de sobrevivência, se reaproxima do criador.
O gesto natural da petista, neste momento de encruzilhada em que se encontra, pode ser uma solução no curtíssimo prazo. Envolve, contudo, riscos que podem agravar o cenário de crise e piorar ainda mais a situação caótica do país.
Dilma vinha se distanciando tanto de Lula como do PT. Seus dois principais pontos de apoio exigiam da presidente ajustes e mudanças que ela resistia e resiste a entregar.
Num deles foi obrigada a ceder. Tirou José Eduardo Cardozo da Justiça, o petista acusado pelo partido de não controlar a Polícia Federal. Mas Dilma o manteve por perto, na Advocacia-Geral da União.
Depois disto, o cenário só fez piorar. A delação da Andrade Gutierrez revelou caixa dois na campanha da petista em 2010; veio a público o roteiro da delação do senador Delcídio do Amaral, citando a presidente em relações complicadas. E a Lava Jato focou de vez no ex-presidente.
Tudo numa só semana, jogando Dilma de novo nos braços de Lula e do PT. Até quando, não se sabe. Dentro do governo, há quem aposte que não por muito tempo. Afinal, os petistas defendem uma guinada na política econômica e querem engavetar a reforma da Previdência.
Se ceder neste campo também a seus aliados, a presidente vai ficar bem na foto com sua turma, unindo ainda mais sua tropa em torno de sua defesa e de seu criador. Mas vai jogar a economia brasileira num buraco ainda mais profundo.
Primeiro, porque a oposição vai infernizar cada vez mais a vida do governo no Congresso, acentuando sua paralisia e obstruindo votações de interesse do Palácio do Planalto.
Segundo, porque Lula e o PT não compreendem que o mundo mudou, o país quebrou e não dá para ajustar as coisas sem dor. É a real.
A crise ganha contornos infernais, Lula entra de vez no olho do furacão da Lava Jato, Dilma vai sendo sugada também e a presidente, num instinto de sobrevivência, se reaproxima do criador.
O gesto natural da petista, neste momento de encruzilhada em que se encontra, pode ser uma solução no curtíssimo prazo. Envolve, contudo, riscos que podem agravar o cenário de crise e piorar ainda mais a situação caótica do país.
Dilma vinha se distanciando tanto de Lula como do PT. Seus dois principais pontos de apoio exigiam da presidente ajustes e mudanças que ela resistia e resiste a entregar.
Num deles foi obrigada a ceder. Tirou José Eduardo Cardozo da Justiça, o petista acusado pelo partido de não controlar a Polícia Federal. Mas Dilma o manteve por perto, na Advocacia-Geral da União.
Depois disto, o cenário só fez piorar. A delação da Andrade Gutierrez revelou caixa dois na campanha da petista em 2010; veio a público o roteiro da delação do senador Delcídio do Amaral, citando a presidente em relações complicadas. E a Lava Jato focou de vez no ex-presidente.
Tudo numa só semana, jogando Dilma de novo nos braços de Lula e do PT. Até quando, não se sabe. Dentro do governo, há quem aposte que não por muito tempo. Afinal, os petistas defendem uma guinada na política econômica e querem engavetar a reforma da Previdência.
Se ceder neste campo também a seus aliados, a presidente vai ficar bem na foto com sua turma, unindo ainda mais sua tropa em torno de sua defesa e de seu criador. Mas vai jogar a economia brasileira num buraco ainda mais profundo.
Primeiro, porque a oposição vai infernizar cada vez mais a vida do governo no Congresso, acentuando sua paralisia e obstruindo votações de interesse do Palácio do Planalto.
Segundo, porque Lula e o PT não compreendem que o mundo mudou, o país quebrou e não dá para ajustar as coisas sem dor. É a real.
À sombra da história - MARCELO AGNER
CORREIO BRAZILIENSE - 07/03
Um detalhe chamou a minha atenção durante a declaração de guerra de Lula aos inimigos no dia em que teve que se explicar à PolíciaFederal. Atrás do ex-presidente, destacavam-se duas jovens. Uma delas vestia a camiseta da UNE. A outra, a de uma entidade de estudantes secundaristas - acredito que seja a Ubes.
Lula convocou a tropa de choque para enfrentar o que seus partidários chamam de "golpe e perseguição". Pediu ajuda à CUT, ao MST, ao PT e ao PCdoB para uma cruzada contra a direita e os conservadores - na avaliação do petismo, quem não está com ele se enquadra em um desses dois grupos. UNE e Ubes não estavam na lista. Mas não era necessário citá-las. As duas entidades já se apresentaram para a empreitada. Em nota divulgada no site, a UNE afirma, timidamente, reconhecer a importância das investigações da Justiça, mas sai em defesa de Lula, atacando desde a PF até a imprensa.
Houve um tempo em que gritar "a UNE somos nós, nossa força, nossa voz" era motivo de orgulho. Mesmo sem militar no movimento estudantil, eu sabia da importância dele para o país e para todos os que repudiavam a ditadura militar - e na época em que os militares estavam no poder, é bom lembrar.
Mas o movimento se perdeu no tempo. Ficou deslumbrado com a chegada do PT ao poder, acreditando que a esquerda, enfim, ditaria novos rumos do país. A UNE acabou estatizada. Hoje, ataca instituições republicanas para defender as efêmeras benesses que recebe do Estado. Faltam lideranças e bom senso. Sobra oportunismo.
Ao cerrar fileiras com o governo, a UNE se esqueceu totalmente da educação no país. Seus diretores poucos se importam com a falta de rumos da "Pátria educadora", que deixou universidades à míngua e à beira do colapso. Não há passeatas, protestos ou mobilizações contra o Estado. Muitos podem argumentar que a pauta da UNE sempre excedeu as reivindicações pela melhoria do ensino.
Mas, ao defender veementemente Lula contra a Lava-Jato, a UNE dá o salto mais questionável e perigoso de sua história recente. A entidade que nasceu com a democracia no DNA prefere ficar hoje ao lado do investigado e não do da Justiça, sem esperar o fim das investigações de denúncias que são graves e merecem ser apuradas, explicadas. O Brasil trava sua maior guerra à corrupção e aos malfeitos.
No entanto, muitos tentam transformar o atual momento brasileiro numa luta ideológica e de classes. Acreditar nisso é flertar com o autoritarismo. E a UNE, por representar (ou tentar fazê-lo) nossos estudantes, não tem o direito de fazer escolhas tão açodadas.
Um detalhe chamou a minha atenção durante a declaração de guerra de Lula aos inimigos no dia em que teve que se explicar à PolíciaFederal. Atrás do ex-presidente, destacavam-se duas jovens. Uma delas vestia a camiseta da UNE. A outra, a de uma entidade de estudantes secundaristas - acredito que seja a Ubes.
Lula convocou a tropa de choque para enfrentar o que seus partidários chamam de "golpe e perseguição". Pediu ajuda à CUT, ao MST, ao PT e ao PCdoB para uma cruzada contra a direita e os conservadores - na avaliação do petismo, quem não está com ele se enquadra em um desses dois grupos. UNE e Ubes não estavam na lista. Mas não era necessário citá-las. As duas entidades já se apresentaram para a empreitada. Em nota divulgada no site, a UNE afirma, timidamente, reconhecer a importância das investigações da Justiça, mas sai em defesa de Lula, atacando desde a PF até a imprensa.
Houve um tempo em que gritar "a UNE somos nós, nossa força, nossa voz" era motivo de orgulho. Mesmo sem militar no movimento estudantil, eu sabia da importância dele para o país e para todos os que repudiavam a ditadura militar - e na época em que os militares estavam no poder, é bom lembrar.
Mas o movimento se perdeu no tempo. Ficou deslumbrado com a chegada do PT ao poder, acreditando que a esquerda, enfim, ditaria novos rumos do país. A UNE acabou estatizada. Hoje, ataca instituições republicanas para defender as efêmeras benesses que recebe do Estado. Faltam lideranças e bom senso. Sobra oportunismo.
Ao cerrar fileiras com o governo, a UNE se esqueceu totalmente da educação no país. Seus diretores poucos se importam com a falta de rumos da "Pátria educadora", que deixou universidades à míngua e à beira do colapso. Não há passeatas, protestos ou mobilizações contra o Estado. Muitos podem argumentar que a pauta da UNE sempre excedeu as reivindicações pela melhoria do ensino.
Mas, ao defender veementemente Lula contra a Lava-Jato, a UNE dá o salto mais questionável e perigoso de sua história recente. A entidade que nasceu com a democracia no DNA prefere ficar hoje ao lado do investigado e não do da Justiça, sem esperar o fim das investigações de denúncias que são graves e merecem ser apuradas, explicadas. O Brasil trava sua maior guerra à corrupção e aos malfeitos.
No entanto, muitos tentam transformar o atual momento brasileiro numa luta ideológica e de classes. Acreditar nisso é flertar com o autoritarismo. E a UNE, por representar (ou tentar fazê-lo) nossos estudantes, não tem o direito de fazer escolhas tão açodadas.
Crise política paralisa tudo - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 07/03
As turbulências do ambiente político, marcado nos últimos dias pela aceitação de denúncia contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) pelo Supremo, pela delação premiada de Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado, e pela condução coercitiva do ex-presidente Lula, para prestar depoimento à Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato, contribuíram para lançar mais dúvidas sobre a possibilidade de um acerto do governo com o Congresso, com vistas a destravar o diálogo em torno de medidas de retomada da economia.
A histórica queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 e o consequente empobrecimento da população brasileira - a renda per capita diminuiu 4,6% - não deixam dúvida quanto à urgência de se encontrarem saídas para evitar que esse desastroso desempenho contamine 2016. Caso isso ocorra, o país vai experimentar a mais grave recessão da história recente, com consequências ainda mais danosas para o emprego e a renda das pessoas, além da perda total de tudo o que o país vinha conquistando desde a estabilização da moeda, há 20 anos.
Entre os dados do PIB informados na semana passada pelo IBGE, está o preocupante mergulho dos investimentos, que registraram queda 14,1% em 2015, o maior tombo em 18 anos. Trata-se de indicador que reflete com exatidão o ânimo dos agentes econômicos. Para um país como o Brasil, são necessários investimentos anuais que correspondam a pelo menos 22% do PIB para garantir a expansão da oferta de infraestrutura, bem como a expansão e a modernização do parque industrial. Esse nível de investimento, no caso brasileiro, deveria ser mantido por cerca de 10 anos. O Brasil nunca conseguiu manter essa recomendação técnica por mais de dois ou três anos.
Entre 2010 e 2014, os investimentos ficaram em 20% do PIB ou muito próximos disso. A queda de 2015 baixou esse patamar para 18% e, até agora, são pessimistas as previsões para 2016. A falta de investimentos sinaliza baixo crescimento da produção nos próximos anos, além de recuo no processo de modernização, inovação e, portanto, de aumento da produtividade da economia. É consenso entre empresários e economistas não vinculados ao governo que a retomada do dinamismo na atividade econômica passa necessariamente pela volta do investimento, tanto público quanto privado. Mas, no Brasil, essa retomada está bloqueada por pelo menos dois fatores.
O primeiro é consequência dos últimos anos da política econômica equivocada que levou à quase destruição do parque industrial do país. Depois de um período relativamente longo de câmbio desfavorável, a indústria nacional, além da dificuldade para exportar, perdeu boa parte do mercado interno para a importação. Em 2015, a indústria teve, segundo o IBGE, perda de 6,2%. Com isso, o setor acumula uma custosa ociosidade que, enquanto não for superada, vai contribuir para o engavetamento dos projetos de investimento.
O segundo fator é a falta de percepção de que o governo, de fato, caminha para equilibrar suas contas, condição inicial para a volta dos investimentos públicos, para o controle da inflação e o consequente recuo nas taxas de juros. Depende tudo isso da volta à normalidade na política e da credibilidade do governo, o que parece ainda distante.
As turbulências do ambiente político, marcado nos últimos dias pela aceitação de denúncia contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) pelo Supremo, pela delação premiada de Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado, e pela condução coercitiva do ex-presidente Lula, para prestar depoimento à Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato, contribuíram para lançar mais dúvidas sobre a possibilidade de um acerto do governo com o Congresso, com vistas a destravar o diálogo em torno de medidas de retomada da economia.
A histórica queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 e o consequente empobrecimento da população brasileira - a renda per capita diminuiu 4,6% - não deixam dúvida quanto à urgência de se encontrarem saídas para evitar que esse desastroso desempenho contamine 2016. Caso isso ocorra, o país vai experimentar a mais grave recessão da história recente, com consequências ainda mais danosas para o emprego e a renda das pessoas, além da perda total de tudo o que o país vinha conquistando desde a estabilização da moeda, há 20 anos.
Entre os dados do PIB informados na semana passada pelo IBGE, está o preocupante mergulho dos investimentos, que registraram queda 14,1% em 2015, o maior tombo em 18 anos. Trata-se de indicador que reflete com exatidão o ânimo dos agentes econômicos. Para um país como o Brasil, são necessários investimentos anuais que correspondam a pelo menos 22% do PIB para garantir a expansão da oferta de infraestrutura, bem como a expansão e a modernização do parque industrial. Esse nível de investimento, no caso brasileiro, deveria ser mantido por cerca de 10 anos. O Brasil nunca conseguiu manter essa recomendação técnica por mais de dois ou três anos.
Entre 2010 e 2014, os investimentos ficaram em 20% do PIB ou muito próximos disso. A queda de 2015 baixou esse patamar para 18% e, até agora, são pessimistas as previsões para 2016. A falta de investimentos sinaliza baixo crescimento da produção nos próximos anos, além de recuo no processo de modernização, inovação e, portanto, de aumento da produtividade da economia. É consenso entre empresários e economistas não vinculados ao governo que a retomada do dinamismo na atividade econômica passa necessariamente pela volta do investimento, tanto público quanto privado. Mas, no Brasil, essa retomada está bloqueada por pelo menos dois fatores.
O primeiro é consequência dos últimos anos da política econômica equivocada que levou à quase destruição do parque industrial do país. Depois de um período relativamente longo de câmbio desfavorável, a indústria nacional, além da dificuldade para exportar, perdeu boa parte do mercado interno para a importação. Em 2015, a indústria teve, segundo o IBGE, perda de 6,2%. Com isso, o setor acumula uma custosa ociosidade que, enquanto não for superada, vai contribuir para o engavetamento dos projetos de investimento.
O segundo fator é a falta de percepção de que o governo, de fato, caminha para equilibrar suas contas, condição inicial para a volta dos investimentos públicos, para o controle da inflação e o consequente recuo nas taxas de juros. Depende tudo isso da volta à normalidade na política e da credibilidade do governo, o que parece ainda distante.
Procura-se um presidente - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo 07/03
A petista Dilma Rousseff ocupa apenas formalmente o cargo de presidente da República, para o qual foi reeleita em 2014. Na prática, ela já não consegue exercer nenhum poder, salvo o previsto no protocolo – sempre haverá alguém no Palácio do Planalto para lhe servir um cafezinho. Mas a autoridade para governar de fato, conferida pelo voto popular, a presidente não tem mais, nem mesmo diante daqueles que, em tese, deveriam apoiá-la, quer porque integram seu partido, quer porque formam o condomínio que a sustenta. Formou-se um vácuo no Executivo, a tal ponto que, hoje, se pode dizer que falta um presidente no governo que aí está. Como política é ocupação de espaços, esse vazio institucional deixado pela incapacidade de Dilma já está sendo preenchido pelo Congresso, que assume cada vez mais ares de governo, como se no parlamentarismo estivéssemos.
Vendo o Planalto desnorteado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), planejam impor uma extensa pauta de votações com temas que não são considerados prioritários pelo governo e que contrariam tanto Dilma como o PT.
Entre os projetos que deverão ser levados a plenário no Senado estão a proposta de autonomia do Banco Central, a proibição de mudanças em contratos de concessão, a reforma tributária e a fixação de teto para o endividamento da União, além da reforma da Previdência, que Dilma até quer, mas o PT repudia.
Na Câmara, Eduardo Cunha planeja criar comissões para discutir assuntos que são de interesse direto do governo, como o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal. “A resultante da comissão especial é que será levada ao plenário”, informou Cunha. Ou seja, o governo perdeu totalmente a influência sobre a agenda legislativa mesmo em assuntos que considera de importância estratégica.
Já as propostas da lavra do governo são tratadas com incontido desdém. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), por exemplo, classificou de “doidice” a intenção do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de criar uma “banda fiscal” para o superávit primário, que automaticamente afrouxaria a meta fiscal em caso de desaceleração da economia. “Precisamos ter realismo fiscal”, ponderou o parlamentar, como se o Congresso fosse um exemplo de dedicação ao equilíbrio das contas públicas.
Portanto, sem força para retomar a iniciativa característica da Presidência, Dilma depende da boa vontade de grupos políticos sobre os quais não exerce nenhuma influência, apesar de ainda deter a poderosa caneta que distribui cargos e verbas. Nem mesmo o modelo de “presidencialismo de cooptação”, resultante da transformação do “presidencialismo de coalizão” em um grosseiro toma lá da cá, tem funcionado. Dilma só conseguiu arregimentar algum apoio na segunda divisão do PMDB, e mesmo assim ao custo de entregar anéis e dedos – como o importantíssimo Ministério da Saúde – a políticos de baixa extração.
Todo esse esforço tem sido incapaz de restituir a Dilma o poder inerente a seu cargo. Sua cruzada em favor da volta da CPMF, hoje praticamente a única pauta que ocupa a agenda presidencial, não encontra respaldo sério em nenhum recanto no Congresso. Ao contrário: sempre que podem, os críticos do governo lembram que, antes de defender a CPMF, Dilma deveria convencer seu próprio partido a aprovar as reformas essenciais para a retomada da economia.
Mas é justamente aí que está o maior problema de Dilma: a petista não governa porque é bisonhamente fraca – e não se fortalece porque, além de ser como é, enfrenta a sabotagem de seus correligionários, a começar pelo chefão do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A título de “ajudar” Dilma a governar, como disse em discurso à militância petista, Lula tratou de desmoralizar de vez a presidente, ao derrubar seus principais ministros – o da Casa Civil, o da Fazenda e, agora, o da Justiça.
Assim, está claro que, politicamente, Dilma já é passado. Enquanto ela estiver na Presidência, esta será exercida na prática por terceiros – Renan, Cunha, Wagner, Lula et caterva –, com claros prejuízos para o equilíbrio institucional e o futuro imediato do País.
A petista Dilma Rousseff ocupa apenas formalmente o cargo de presidente da República, para o qual foi reeleita em 2014. Na prática, ela já não consegue exercer nenhum poder, salvo o previsto no protocolo – sempre haverá alguém no Palácio do Planalto para lhe servir um cafezinho. Mas a autoridade para governar de fato, conferida pelo voto popular, a presidente não tem mais, nem mesmo diante daqueles que, em tese, deveriam apoiá-la, quer porque integram seu partido, quer porque formam o condomínio que a sustenta. Formou-se um vácuo no Executivo, a tal ponto que, hoje, se pode dizer que falta um presidente no governo que aí está. Como política é ocupação de espaços, esse vazio institucional deixado pela incapacidade de Dilma já está sendo preenchido pelo Congresso, que assume cada vez mais ares de governo, como se no parlamentarismo estivéssemos.
Vendo o Planalto desnorteado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), planejam impor uma extensa pauta de votações com temas que não são considerados prioritários pelo governo e que contrariam tanto Dilma como o PT.
Entre os projetos que deverão ser levados a plenário no Senado estão a proposta de autonomia do Banco Central, a proibição de mudanças em contratos de concessão, a reforma tributária e a fixação de teto para o endividamento da União, além da reforma da Previdência, que Dilma até quer, mas o PT repudia.
Na Câmara, Eduardo Cunha planeja criar comissões para discutir assuntos que são de interesse direto do governo, como o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal. “A resultante da comissão especial é que será levada ao plenário”, informou Cunha. Ou seja, o governo perdeu totalmente a influência sobre a agenda legislativa mesmo em assuntos que considera de importância estratégica.
Já as propostas da lavra do governo são tratadas com incontido desdém. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), por exemplo, classificou de “doidice” a intenção do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de criar uma “banda fiscal” para o superávit primário, que automaticamente afrouxaria a meta fiscal em caso de desaceleração da economia. “Precisamos ter realismo fiscal”, ponderou o parlamentar, como se o Congresso fosse um exemplo de dedicação ao equilíbrio das contas públicas.
Portanto, sem força para retomar a iniciativa característica da Presidência, Dilma depende da boa vontade de grupos políticos sobre os quais não exerce nenhuma influência, apesar de ainda deter a poderosa caneta que distribui cargos e verbas. Nem mesmo o modelo de “presidencialismo de cooptação”, resultante da transformação do “presidencialismo de coalizão” em um grosseiro toma lá da cá, tem funcionado. Dilma só conseguiu arregimentar algum apoio na segunda divisão do PMDB, e mesmo assim ao custo de entregar anéis e dedos – como o importantíssimo Ministério da Saúde – a políticos de baixa extração.
Todo esse esforço tem sido incapaz de restituir a Dilma o poder inerente a seu cargo. Sua cruzada em favor da volta da CPMF, hoje praticamente a única pauta que ocupa a agenda presidencial, não encontra respaldo sério em nenhum recanto no Congresso. Ao contrário: sempre que podem, os críticos do governo lembram que, antes de defender a CPMF, Dilma deveria convencer seu próprio partido a aprovar as reformas essenciais para a retomada da economia.
Mas é justamente aí que está o maior problema de Dilma: a petista não governa porque é bisonhamente fraca – e não se fortalece porque, além de ser como é, enfrenta a sabotagem de seus correligionários, a começar pelo chefão do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A título de “ajudar” Dilma a governar, como disse em discurso à militância petista, Lula tratou de desmoralizar de vez a presidente, ao derrubar seus principais ministros – o da Casa Civil, o da Fazenda e, agora, o da Justiça.
Assim, está claro que, politicamente, Dilma já é passado. Enquanto ela estiver na Presidência, esta será exercida na prática por terceiros – Renan, Cunha, Wagner, Lula et caterva –, com claros prejuízos para o equilíbrio institucional e o futuro imediato do País.
Cassação e impeachment - DENIS LERRER ROSENFIELD
ESTADÃO - 07/03
O governo acabou! Resta determinar como se dará o seu fim! A experiência petista está terminando na delegacia!
Lula foi conduzido coercitivamente à Policia Federal. Terminou a impunidade.
Não é possível governar com escândalos de corrupção produzidos em maior parte pelo PT, com seus dirigentes e líderes presos, condenados ou sob inquéritos e denúncias.
Não é possível governar com o ex-presidente Lula preocupado apenas com a sua própria sobrevivência.
Não é possível governar na mais profunda crise econômica, sem nenhuma ideia nem condições para dela sair.
Não é possível governar sem nenhum apoio partidário (nem do PT) e sem nenhuma popularidade.
Não é possível governar de costas para a sociedade, em meio a crises política, econômica e social, com o PIB despencando e o desemprego adquirindo grandes proporções.
Várias saídas são possíveis. O mais conveniente para o país seria a renúncia ou o afastamento da presidente para tratamento de saúde. Porém, tal posição esbarra em dois grandes problemas.
O primeiro deles consiste em que a própria presidente deveria tomar a iniciativa de tal ato. Porém, para isto, seria necessário um gesto de grandeza que não faz parte de suas qualidades. Nem seus erros consegue admitir. É dominada por uma espécie de autismo em relação à própria realidade por ela criada. Talvez, agora, possa ser pressionada a isto, considerando a nova situação política.
O segundo deles reside em que o ex-presidente Lula poderia tê-la convencido a tomar tal atitude, mas isto, aparentemente, não lhe interessava. Agora, perdeu qualquer condição de tal iniciativa. E a imagem que possui de si, desproporcional aos seus feitos, porém talvez equivalente aos seus malfeitos, não permitiria tal gesto.
Lula e o PT ficaram sem nenhuma narrativa. Logo, o impeachment ou a cassação poderiam lhes ser adequados, pois seriam incorporados ao discurso alicerçado em ideias do tipo “contra a direita”, “contra o golpe” e “contra a mídia golpista”. A nova: “preso político”. São, evidentemente, bobagens, mas é o que restou de um partido sem ideias.
Sobram duas alternativas: a cassação e o impeachment.
As provas de envolvimento da campanha da presidente Dilma em corrupção e em desvio de recursos públicos estão se avolumando. As novas delações, dentre as quais a do senador Delcídio Amaral, fazem crescer ainda mais a fervura. As chances de cassação aumentam em muito, pois o governo e o PT conseguem cada vez menos se defender. E a Lava-Jato não dá tréguas, passando o país a limpo.
Ocorre que um julgamento pelo TSE, por vias normais e sem protelações, demoraria em torno de um ano. Se houver impugnações, diligências e recursos dos mais diferentes tipos, pode se prolongar por dois anos. Estaríamos no final de 2017 ou no início de 2018.
Note-se, aqui, que há questões, pertinentes, quanto a se o TSE poderia cassar uma chapa presidencial sem passar pelo Congresso, pois não está prevista a cassação na Constituição, mas em lei complementar. Em todo caso, tal tipo de processo não deixaria de ensejar dúvidas.
O vice-presidente, por sua vez, teria fundadas justificativas para pleitear uma individualização da chapa, dentre outras razões por haver julgamentos distintos da presidente e do vice, prestações de contas apresentadas separadamente, com doadores diferentes, juramentos distintos, citações diferentes, estruturas jurídicas diferentes da Presidência e da Vice-Presidência, não transferência da culpa e assim por diante.
Considere-se, contudo, a título de hipótese, que haveria a cassação da chapa. Se ocorresse ainda neste ano, o deputado Eduardo Cunha assumiria a Presidência por um período de 90 dias, presidindo o processo eleitoral, com todos os seus problemas de legitimidade. Acrescente-se, ainda, o descrédito total da classe política, de tal maneira que poderíamos ter o seguinte cenário.
Nem Aécio nem Lula seriam provavelmente os vencedores. Um tertius qualquer poderia ganhar o pleito, mergulhando o país em uma nova incerteza e instabilidade. O país continuaria, sob outras roupagens, envolvido em intermináveis crises econômica, política e social.
Por esta razão, voltaria a ganhar força a tese do impeachment, abreviando o processo e assegurando uma tranquila transição do ponto de vista constitucional. O Brasil poderia resgatar-se a curto prazo, o que, hoje, parece impossível.
Nos meios políticos e na sociedade em geral, observa-se um clima muito mais favorável ao sucesso de um eventual impeachment da presidente da República. A percepção de que o barco está naufragando e de que o PMDB e outros partidos tudo podem perder acrescenta ainda mais força a esta alternativa.
Deputados, antes contrários ou indecisos, já se manifestam favoravelmente a esta opção. Estão sendo pressionados pela opinião pública, por suas bases eleitorais e estão cientes de que, com o atual governo, não há saída à vista. Temem cair com Dilma e o PT.
Os senadores, sobretudo do PMDB, já estão dando sinalizações de que poderão abandonar o barco de Dilma. O próprio senador Renan Calheiros já manifestou apoio ao vice-presidente à presidência do partido e o convidou a fazer campanha em Alagoas.
Note-se que o vice-presidente conseguiu reunificar e pacificar o PMDB em uma chapa consensual, algo em que poucos apostavam até algumas semanas atrás. E tal fato é da maior importância, porque é uma resposta política à desunião fomentada pela presidente Dilma e pelo próprio PT. Nesta perspectiva, poderia reunificar e pacificar o país.
Por último, devemos atentar ao fato de o impeachment ser uma solução prevista na própria Constituição, assegurando uma transição propriamente institucional. Ele é, neste sentido, menos traumático do que a cassação. As instituições republicanas seriam totalmente preservadas e um novo caminho poderia se vislumbrar para todo o país.
Em todo o caso, o país não aguenta mais três anos imerso em uma crise que parece não ter fundo!
Urge que o impeachment volte a ser prioritário. Para o bem do Brasil.
O governo acabou! Resta determinar como se dará o seu fim! A experiência petista está terminando na delegacia!
Lula foi conduzido coercitivamente à Policia Federal. Terminou a impunidade.
Não é possível governar com escândalos de corrupção produzidos em maior parte pelo PT, com seus dirigentes e líderes presos, condenados ou sob inquéritos e denúncias.
Não é possível governar com o ex-presidente Lula preocupado apenas com a sua própria sobrevivência.
Não é possível governar na mais profunda crise econômica, sem nenhuma ideia nem condições para dela sair.
Não é possível governar sem nenhum apoio partidário (nem do PT) e sem nenhuma popularidade.
Não é possível governar de costas para a sociedade, em meio a crises política, econômica e social, com o PIB despencando e o desemprego adquirindo grandes proporções.
Várias saídas são possíveis. O mais conveniente para o país seria a renúncia ou o afastamento da presidente para tratamento de saúde. Porém, tal posição esbarra em dois grandes problemas.
O primeiro deles consiste em que a própria presidente deveria tomar a iniciativa de tal ato. Porém, para isto, seria necessário um gesto de grandeza que não faz parte de suas qualidades. Nem seus erros consegue admitir. É dominada por uma espécie de autismo em relação à própria realidade por ela criada. Talvez, agora, possa ser pressionada a isto, considerando a nova situação política.
O segundo deles reside em que o ex-presidente Lula poderia tê-la convencido a tomar tal atitude, mas isto, aparentemente, não lhe interessava. Agora, perdeu qualquer condição de tal iniciativa. E a imagem que possui de si, desproporcional aos seus feitos, porém talvez equivalente aos seus malfeitos, não permitiria tal gesto.
Lula e o PT ficaram sem nenhuma narrativa. Logo, o impeachment ou a cassação poderiam lhes ser adequados, pois seriam incorporados ao discurso alicerçado em ideias do tipo “contra a direita”, “contra o golpe” e “contra a mídia golpista”. A nova: “preso político”. São, evidentemente, bobagens, mas é o que restou de um partido sem ideias.
Sobram duas alternativas: a cassação e o impeachment.
As provas de envolvimento da campanha da presidente Dilma em corrupção e em desvio de recursos públicos estão se avolumando. As novas delações, dentre as quais a do senador Delcídio Amaral, fazem crescer ainda mais a fervura. As chances de cassação aumentam em muito, pois o governo e o PT conseguem cada vez menos se defender. E a Lava-Jato não dá tréguas, passando o país a limpo.
Ocorre que um julgamento pelo TSE, por vias normais e sem protelações, demoraria em torno de um ano. Se houver impugnações, diligências e recursos dos mais diferentes tipos, pode se prolongar por dois anos. Estaríamos no final de 2017 ou no início de 2018.
Note-se, aqui, que há questões, pertinentes, quanto a se o TSE poderia cassar uma chapa presidencial sem passar pelo Congresso, pois não está prevista a cassação na Constituição, mas em lei complementar. Em todo caso, tal tipo de processo não deixaria de ensejar dúvidas.
O vice-presidente, por sua vez, teria fundadas justificativas para pleitear uma individualização da chapa, dentre outras razões por haver julgamentos distintos da presidente e do vice, prestações de contas apresentadas separadamente, com doadores diferentes, juramentos distintos, citações diferentes, estruturas jurídicas diferentes da Presidência e da Vice-Presidência, não transferência da culpa e assim por diante.
Considere-se, contudo, a título de hipótese, que haveria a cassação da chapa. Se ocorresse ainda neste ano, o deputado Eduardo Cunha assumiria a Presidência por um período de 90 dias, presidindo o processo eleitoral, com todos os seus problemas de legitimidade. Acrescente-se, ainda, o descrédito total da classe política, de tal maneira que poderíamos ter o seguinte cenário.
Nem Aécio nem Lula seriam provavelmente os vencedores. Um tertius qualquer poderia ganhar o pleito, mergulhando o país em uma nova incerteza e instabilidade. O país continuaria, sob outras roupagens, envolvido em intermináveis crises econômica, política e social.
Por esta razão, voltaria a ganhar força a tese do impeachment, abreviando o processo e assegurando uma tranquila transição do ponto de vista constitucional. O Brasil poderia resgatar-se a curto prazo, o que, hoje, parece impossível.
Nos meios políticos e na sociedade em geral, observa-se um clima muito mais favorável ao sucesso de um eventual impeachment da presidente da República. A percepção de que o barco está naufragando e de que o PMDB e outros partidos tudo podem perder acrescenta ainda mais força a esta alternativa.
Deputados, antes contrários ou indecisos, já se manifestam favoravelmente a esta opção. Estão sendo pressionados pela opinião pública, por suas bases eleitorais e estão cientes de que, com o atual governo, não há saída à vista. Temem cair com Dilma e o PT.
Os senadores, sobretudo do PMDB, já estão dando sinalizações de que poderão abandonar o barco de Dilma. O próprio senador Renan Calheiros já manifestou apoio ao vice-presidente à presidência do partido e o convidou a fazer campanha em Alagoas.
Note-se que o vice-presidente conseguiu reunificar e pacificar o PMDB em uma chapa consensual, algo em que poucos apostavam até algumas semanas atrás. E tal fato é da maior importância, porque é uma resposta política à desunião fomentada pela presidente Dilma e pelo próprio PT. Nesta perspectiva, poderia reunificar e pacificar o país.
Por último, devemos atentar ao fato de o impeachment ser uma solução prevista na própria Constituição, assegurando uma transição propriamente institucional. Ele é, neste sentido, menos traumático do que a cassação. As instituições republicanas seriam totalmente preservadas e um novo caminho poderia se vislumbrar para todo o país.
Em todo o caso, o país não aguenta mais três anos imerso em uma crise que parece não ter fundo!
Urge que o impeachment volte a ser prioritário. Para o bem do Brasil.
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