terça-feira, março 08, 2016

Déjà vu - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/03

No artigo que escreveu em 2004 para a Revista Jurídica do Centro de Estudos Judiciários ( CEJ) do Conselho de Justiça Federal sobre a Operação Mãos Limpas, ocorrida na Itália nos anos 1990, o juiz Sérgio Moro a classifica como "uma das mais impressionantes cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa".

Quando destaca "a relevância da democracia para a eficácia da ação judicial no combate à corrupção e suas causas estruturais", Moro diz que "se encontram presentes várias condições institucionais necessárias para a realização de ação semelhante no Brasil, onde a eficácia do sistema judicial contra os crimes de " colarinho branco", principalmente o de corrupção, é no mínimo duvidosa".

Depois disso, já marcado como especialista no combate à lavagem de dinheiro, ele assessorou a ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal. Hoje, está à frente da Operação Lava- Jato, que caiu em seu colo em Curitiba por uma associação de fatores que levaram a investigação quase banal de doleiros ao centro de um dos maiores escândalos de corrupção política do mundo, como o caso da Petrobras foi classificado recentemente pela ONG Transparência Internacional.

No artigo, ele analisa o caso de Bettino Craxi, líder do Partido Socialista Italiano ( PSI) e ex-primeiro-ministro, um dos principais alvos da Operação Mãos Limpas. Moro ressalta que Craxi, já ameaçado pelas investigações e depois de negar várias vezes seu envolvimento, reconheceu cinicamente a prática disseminada das doações partidárias ilegais, em famoso discurso no Parlamento italiano, em 3 de julho de 1992, usando argumentos muito semelhantes aos que o PT vem usando: "(...) Mais, abaixo da cobertura do financiamento irregular dos partidos, casos de corrupção e extorsão floresceram e tornaram- se interligados. (...) O que é necessário dizer e que, de todo modo, todo mundo sabe, é que a maior parte do financiamento da política é irregular ou ilegal. Os partidos e aqueles que dependem da máquina partidária ( grande, média ou pequena), de jornais, de propaganda, atividades associativas ou promocionais... têm recorrido a recursos adicionais irregulares (...)".

Em dezembro de 1992, relata Moro, Craxi recebeu seu primeiro "avviso di garanzia", um documento de dezoito páginas, no qual era acusado de corrupção, extorsão e violação da lei reguladora do financiamento de campanhas. A acusação tinha por base, entre outras provas, a confissão de Salvatore Ligresti, suposto amigo pessoal de Craxi preso em julho de 1992, de que o grupo empresarial de sua propriedade teria pago, aproximadamente, US$ 500 mil desde 1985 ao PSI para ingressar e manter- se em grupo de empresários amigos do PSI.

Na segunda semana de janeiro de 1993, Craxi recebeu o segundo "avviso di garanzia", com acusações de que a propina teria também como beneficiário o próprio Craxi, não só o PSI.

Os pagamentos seriam feitos a Silvano Larini, que seria amigo próximo de Craxi. Larini e Filippo Panseca seriam os proprietários da empresa da qual Craxi alugaria suas mansões opulentas em Como e Hammamet. Craxi ainda recebeu novos "avvisi de garanzia" antes de renunciar ao posto de líder do PSI, em fevereiro de 1993. Sua popularidade logo se transformou em repúdio, e certa ocasião foi alvejado por uma chuva de moedas na rua.

Também viu seu nome envolvido no escândalo da Enimont, empresa química formada por joint venture da Ente Nazionale Idrocarburi ( ENI), a empresa petrolífera estatal italiana, e a Montedision, empresa química subsidiária do grupo Ferruzi ( considerado o segundo maior da Itália, após a Fiat). O governo acabou comprando a parte da empresa privada, mas a preço superestimado que gerou o pagamento de cerca de cem milhões de dólares a vários líderes políticos, dentre eles Craxi.

A operação "mani pulite" também revelou que a ENI funcionaria como uma fonte de financiamento ilegal para os partidos e teria efetuado pagamentos mensais aos principais partidos políticos durante anos. Bettino Craxi, diante das acusações e condenações, autoexilouse, em 1994, na Tunísia, onde faleceu em 2000.

O PSI sofreu uma grave crise financeira e, em 1994, o 47 º Congresso resolveu dissolver o partido. Seus seguidores acabam divididos ente o Forza Italia, de centro- direita, liderado por Berlusconi, e o Partido Democrático, de esquerda. Mais tarde, em 1998, surge o Socialisti e Democratici Italiani, que em 2009 voltou a ser o PSI.

Dez anos depois... - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 08/03

Lula se acha injustiçado no inquérito sobre a corrupção na Petrobras, mas nunca pediu desculpas a Francenildo, cujo direitos foram violados e a vida foi devassada pelo seu governo


Dilma Rousseff, ontem, em Caxias do Sul (RS), para militantes do Partido dos Trabalhadores: — O presidente Lula, justiça seja feita, nunca se julgou melhor do que ninguém.

Lula, sexta-feira, em São Paulo: — Antes deles (policiais, procuradores e juízes) já fazíamos as coisas corretas nesse país... Eu fui melhor que todos. Eu fui melhor que todos cientistas políticos, fazendeiros, advogados e médicos que governaram este país.

Lula é um hábil ator da política-espetáculo. Soube com antecedência e reagiu de forma estudada. “Vou ser preso ou vão fazer a minha condução coercitiva”, avisou na véspera a Gilberto Carvalho — contou o ex-secretário presidencial à repórter Natuza Nery.

O momento mais espontâneo da sexta talvez tenha sido a conversa gravada e divulgada pela aliada Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Ao telefone com a presidente, Lula disse o que pensa sobre as instituições, sugerindo um rumo para o processo sobre corrupção na Petrobras: “Que enfiem...” Não se conhece resposta de Dilma.

Lula sabe, também, que deverá ser denunciado. É a tendência da procuradoria com base em evidências sobre as finanças de cinco grandes empreiteiras, responsabilizadas por quase 70% da corrupção comprovada em negócios da Petrobras durante o governo Lula. Entre outras transações, os procuradores descreveram pagamentos de R$ 560 mil mensais ao ex-presidente, de 2011 a 2014. Lula defendeu-as: “Já se deram conta de que o salário de muita gente na Justiça vem dos impostos que pagam essas empresas?”

Preferiu dever respostas substantivas, como se desejasse entregar-se às suspeitas. Reverberou contra as instituições e voltou a sinalizar que a História é ele. Arrematou com seu estado de espírito: “Indignado”, “magoado” e “perseguido”.

Por coincidência, neste março completam-se dez anos daquela que talvez tenha sido a maior das injustiças cometidas pelo Estado brasileiro contra um cidadão comum: Francenildo dos Santos. Aos 24 anos, ganhava por mês (R$ 370) quase 1.500 vezes menos do que Lula recebeu das cinco empreiteiras do caso Petrobras.

Caseiro no Lago Sul, em Brasília, em 2006 testemunhou cenas dos porões do poder, como o trânsito de malas de dinheiro em ambiente de festas libertinas. Num ano eleitoral marcado pelo inquérito do mensalão, confirmou à repórter Rosa Costa que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, frequentava a casa.

Convocado à CPI, foi silenciado pelo senador Tião Vianna (PT), que obteve uma liminar no Supremo. O número do seu CPF foi levado da Secretaria da Receita, comandada por Jorge Rachid, para o Palácio do Planalto. Ali, Lula se reunia com o ministro Palocci e o presidente da Caixa, Jorge Mattoso. À noite, o ministro recebeu de Mattoso um envelope com a violação do sigilo bancário de Francenildo na Caixa, relatou o repórter João Moreira Salles.

O governo espalhou cópias de extrato bancário onde constava depósito de R$ 30 mil. Tornou o caseiro suspeito de corrupção, a soldo dos “inimigos” eleitorais. A farsa não durou. Foi comprovado que o dinheiro fora doado pelo pai do caseiro, em parcelas, para ajudá-lo a comprar uma casa.

Desempregado e com a vida vasculhada, Francenildo aguentou firme. Até sugeriu que a devassa se estendesse ao seu voto na eleição de 2002: ajudara a eleger Lula presidente, de quem jamais recebeu sequer um pedido de desculpas.

Pausa nas planilhas e olho na Lava-Jato - FERNANDO TORRES

VALOR ECONÔMICO - 08/03

Quando cai na boca do povo uma expressão como "condução coercitiva", que boa parte das pessoas tem dificuldade até mesmo para pronunciar em voz alta, não há como fugir do assunto.

Nas redes sociais, mesas de bar e almoços de família ou de trabalho, não se fala de outra coisa que não da Lava-Jato.

Mesmo entre investidores e agentes do mercado financeiro, as ações recentes da força-tarefa e seus desdobramentos tornaram-se não apenas o assunto mais recorrente, como também aquele que mais tem influenciado os preços dos ativos.

Desde a prisão do marqueteiro das últimas campanhas petistas, João Santana, na segunda-feira retrasada, o Ibovespa saltou mais de 18%, enquanto o dólar Ptax afundou quase 7%, de mais de R$ 4 para perto de R$ 3,75.

É importante dizer que essa primeira estilingada dos preços é amplificada por um ajuste técnico decorrente do desmonte de posições de quem apostava contra o real e na queda das ações das empresas brasileiras.

Mas o movimento não é totalmente desprovido de fundamento. Como disse um gestor ao Valor, "política é fundamento na veia".

Ou seja, os agentes de fato mudarão seus cenários macroeconômicos - o que inclui projeções para PIB, dólar, inflação e superávit fiscal - se passarem a contar com a saída da presidente Dilma Rousseff do cargo antes do fim de 2018. E isso influencia os juros de longo prazo, cotações de ações etc.

Em síntese, se essas notícias foram capazes de fazer as ações de Petrobras, Usiminas, Gerdau e outras saltarem mais de 50% em pouco mais de cinco pregões, não convém ignorar a agenda política neste momento.

E isso vale mesmo para aqueles que se sentem mais a vontade diante de tabelas de Excel com modelos de fluxos de caixa descontado à sua frente.

A necessidade de seguir as recentes operações policiais se justifica não apenas pelo impacto que elas podem ter sobre os preços de maneira geral, como também pelo risco de atingirem em cheio (justa ou injustamente) a empresa na qual se investe - vide os casos da prisão do então controlador do BTG em novembro e a busca feita na Gerdau há duas semanas, esta última no âmbito da operação Zelotes. Banco e siderúrgica negam irregularidades.

Mas quais são as chances reais de que ocorra aquilo que os agentes do mercado financeiro parecem desejar - a julgar pelo comportamento dos preços dos ativos -, que é a saída do PT do governo?

Antecipar o futuro da Lava-Jato é mais difícil que acertar a taxa de câmbio ou a projeção do preço do petróleo.

Mas talvez ajude na análise separar o caso em duas frentes - frentes essas que se conversam, mas têm dinâmicas distintas.

A primeira é a policial e judicial contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tiraria o PT do jogo em 2018. A segunda é a saída antecipada de Dilma da presidência, seja por impeachment ou via cassação da chapa da eleição de 2014 pelo Tribunal Superior Eleitoral.

No primeiro caso, a questão é: existe chance de Lula ser preso ou de ser legalmente impedido de disputar a presidência em 2018, depois de ter lançado a candidatura na última sexta?

A resposta talvez dependa da ambição do Ministério Público Federal e do juiz Sergio Moro.

O relatório de 89 páginas em que o MPF fundamenta a condução coercitiva de Lula revela várias frentes de investigação. A acusação mais grave é a de que Lula era o chefe do esquema que assaltou a Petrobras. Ainda que a linha de raciocínio apresentada convença muita gente, inclusive os próprios procuradores, não há provas tipo "batom na cueca" até agora, o que leva o MPFa recorrer para algo na linha do domínio do fato. "Considerando que todas essas figuras, diretamente envolvidas no estratagema criminoso, orbitavam em volta de Lula e do PT, não é crível que ele desconhecesse a existência dos ilícitos", diz um trecho.

Já entre os casos menos ambiciosos, mas que envolvem Lula diretamente e com provas mais fortes, estão o do sítio em Atibaia e do guarda-móveis custeado pela OAS entre janeiro de 2011 e janeiro de 2016.

O sítio foi comprado em 29 de outubro de 2010, quando Lula ainda era presidente, e a reforma teve início antes do fim do ano, sendo custeada por uma empresa de José Carlos Bumlai e com gestão e mão de obra fornecidas sem custo pela Odebrecht ainda em dezembro (Se a lei anticorrupção estivesse em vigor na época, as duas empresas estariam enquadradas civilmente, mesmo sem prova de contrapartida).

O fato de Lula frequentar o sítio regularmente evidencia que ele usufruiu dessas vantagens que lhe foram oferecidas - ainda que ele negue ser dono do local, como alega o Ministério Público.

A defesa do ex-presidente diz que ele só soube do "presente" que recebeu de "amigos" no início de 2011. Mas se o destino do acervo recebido ao longo dos anos de presidência era uma preocupação da família, como alegou à "Folha" o ex-chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, alguém teria tomado outra providência para guardá-lo se o sítio fosse um segredo.

Estaria caracterizada então, na esfera cível, a improbidade administrativa, e uma condenação em segunda instância tiraria Lula da disputa pela Lei da Ficha Limpa. O problema é o prazo de prescrição, que por regra é de cinco anos, mas que poderia aumentar se for comprovado envolvimento de servidor público, como parece ter havido, segundo o MPF.

A força-tarefa também traz inúmeras provas de que a OAS preparou o triplex do Guarujá para a família de Lula, seja como presente ou para venda. Mas a defesa vai alegar que as obras ocorreram em 2014, que não há crime em ex-presidente receber presentes, e que Lula nunca usufruiu do apartamento - ao contrário do sítio.

As acusações contra Lula não afetam a presidente Dilma juridicamente. Mas têm poder de lhe tirar o pequeno apoio político que lhe resta no Congresso e nas ruas. E essa interação é perversa: o Congresso parado agrava a crise econômica, que aumenta a desaprovação de Dilma e dá mais respaldo político para a interrupção de mandato.

Outra frente que pode afetar Dilma são as delações que em breve se tornarão públicas, como a de executivos da Andrade Gutierrez e a do senador Delcídio do Amaral, caso tragam provas de que a campanha de 2014 teve dinheiro ilícito ou que ela tentou atrapalhar as investigações.

A vassalagem de Dilma a Lula - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 08/03

Quando decidiu oferecer solidariedade a Luiz Inácio Lula da Silva, visitando o chefão petista com estardalhaço um dia depois que ele se viu como alvo central da Operação Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff amesquinhou vergonhosamente a Presidência da República, reduzindo-a a um mero puxadinho de um dos tantos imóveis de que o ex-presidente usufrui graças a favores de amigos do peito.

Fazendo uso pessoal e político-partidário do aparato presidencial, como o avião e o helicóptero oficiais, Dilma foi a São Bernardo para prestar vassalagem pública a Lula, num ato de sabujice que, além de ilegal, desonra o cargo que ela ocupa. De quebra, a presidente se prestou a engrossar o coro dos que enxergam na Justiça o centro de um “golpe” contra seu governo e contra Lula, configurando inaceitável desrespeito do Executivo pelo Judiciário.

Esse comportamento grotesco serve somente para confirmar aquilo que os brasileiros já sabem: Dilma não existe mais como presidente. Sua insistência em permanecer nesse cargo, para o qual nunca teve aptidão e já não tem legitimidade, apenas piora uma situação já de si muito grave. Para que não se atinja o temido ponto de ruptura, em que a violência toma o lugar do debate político, Dilma deveria ter a decência de renunciar, abrindo caminho para a necessária normalização das relações institucionais e para a retomada da confiança na capacidade do governo de governar.

No entanto, em diversas oportunidades, Dilma já avisou que jamais tomará a iniciativa de abreviar seu mandato. Ela costuma vincular essa disposição a seu passado de guerrilheira que suportou a tortura nos porões da ditadura – como se o impeachment, que está previsto na Constituição, ou os movimentos que democraticamente defendem sua renúncia fossem comparáveis aos absurdos do regime militar.

Mas foi a um absurdo que Dilma e os petistas reduziram o debate político atual. Para salvar o ex-presidente Lula da cadeia e Dilma do impeachment, o PT tenta transformar o País numa rinha de galos, isto é, pretende arrastar os indignados brasileiros de bem para o mesmo nível de truculência ao qual a tigrada está habituada. A confusão moral é o que aduba a erva daninha petista.

Enquanto isso, o País segue sem rumo, em profunda crise, graças a uma presidente que não governa mais – isso depois de ter condenado a economia a uma retração que só se costuma observar em tempos de guerra ou de grandes catástrofes. Restou a Dilma caçar “mosquitas”, entregar casas do Minha Casa, Minha Vida e defender Lula.

Ao usar o avião e o helicóptero presidenciais para fazer uma visita particular a seu padrinho e ao aparecer em público em clima de comício, com o braço erguido, ao lado de Lula, suspeito de chefiar uma grande quadrilha de corruptos que assaltaram o País, Dilma fez sua opção: decidiu ficar contra a maioria absoluta dos brasileiros, incompatibilizando-se de vez para o exercício da Presidência.

Do ponto de vista político, é sua última cartada. Mesmo depois que Lula e seus apaniguados se posicionaram publicamente contra o governo de Dilma, considerado por muitos petistas como “neoliberal”, a presidente concluiu que ela não é nada sem seu chefe. Conforme esse cálculo, sua sobrevivência no cargo depende do apoio de Lula e do partido que lhe virou as costas, mesmo que isso signifique total subserviência ao PT – cujos líderes, se não estão presos, enfrentam hostilidade em locais públicos – e, principalmente, a seu líder, em cujos calcanhares está a Justiça. Não é uma boa perspectiva.

Do ponto de vista legal e moral, o caminho trilhado por Dilma não tem volta. A presidente faz prevalecer seu interesse pessoal em detrimento do interesse público. Deixou de ser a governante de todos os brasileiros para servir a Lula. Misturou-se à tigrada que hoje pretende intimidar aqueles que estão empenhados no cumprimento da lei.

Assim, cresce a percepção, inclusive no Congresso, de que Dilma está no cargo apenas para salvar Lula, e nada mais. O País e suas instituições não podem se curvar a isso.


Sair às ruas, entrar para a história - KIM KATAGUIRI

FOLHA DE SP - 08/03

O PT nunca viveu momento tão desesperador. As explosivas revelações dadelação do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e a Polícia Federal batendo à porta de Lula foram os mais duros reveses que o partido sofreu em sua história. As manifestações pró-impeachment marcadas para o dia 13 de março, alimentadas pelo momento político e pela crise econômica, têm tudo para ser maiores do que os protestos do ano passado.

É a tempestade perfeita. A maior dificuldade que movimentos como o MBL, do qual faço parte, tinham para mobilizar a população desapareceu na última semana.

A insatisfação da maioria esmagadora da população com o governo Dilma já estava consolidada por causa do desastre econômico de 2015 e das revelações da Operação Lava Jato. O problema é que essa insatisfação estava se tornando desesperança.

A sociedade não tinha perspectivas de mudança no cenário político. Com os acontecimentos recentes, o impeachment voltou a ser o rito necessário, sem o qual o país não se reconcilia com o seu futuro. Além disso, é uma clara vitória para as instituições o fato de que Lula, finalmente, não está acima da lei.

A delação de Delcídio amarrou alguns fios que pareciam soltos no petrolão. Era o que faltava para que parlamentares, empresários e setores organizados da sociedade civil descessem do muro. O impeachment não é "a" solução. Mas não há solução sem impeachment.

Para Lula, as revelações, somadas à mais recente fase da Operação Lava Jato, foram ainda mais destrutivas. No caso do mais ilustre de todos os petistas, não há precedente que sirva de comparação. Nossa democracia já viu um presidente passar por um processo de impeachment, mas nunca viu um ex-líder de tal envergadura ser tão humilhado por suas próprias escolhas.

O fato é que agora temos a oportunidade de fazer ruir o império da quadrilha que transformou o Estado brasileiro numa máquina de financiamento de um projeto de poder. Apesar da militância inflamada, o PT nunca esteve tão fraco.

As ameaças seguem o padrão conhecido: "Vamos colocar o exército do Stedile nas ruas!"; "Pegaremos em armas para defender o governo se preciso for!"; "O enfrentamento vai ser nas ruas!"...

Essa linguagem de resistência, hoje em dia, não passa de um teatrinho encenado por grupelhos que se transformaram em repartições da burocracia petista, alimentados com dinheiro público. MST, UNE, CUT e MTST são apenas siglas que contam a história da impostura. Quem sabe, fora do poder, consigam encontrar um pouco de dignidade ao menos, já que não há milagre que possa lhes corrigir a pauta deformada.

Temos de resgatar aquilo que o petismo nos roubou. E não me refiro apenas aos bilhões de reais subtraídos do Estado. Falo das nossas instituições e da integridade da nossa democracia.

Há mais de uma década, vivemos sob a ditadura da propina. Os Três Poderes perderam sua independência. A República tornou-se propriedade de um partido político. Quando os petistas dizem que não inventaram a corrupção, falam uma verdade ao menos. O que não admitem é o fato de que o partido é o único que, além de saquear os cofres públicos, saqueia as instituições democráticas.

Dia 13 de março estarei nas ruas para tomar de volta aquilo que me foi roubado. Espero que você, caro leitor, esteja também. O lema escolhido para as manifestações, "Ou você vai, ou ela fica", não é uma mera frase de efeito. Tampouco é mera dramatização da realidade. Trata-se da constatação de um fato.

O governo Dilma é um dragão muito ferido, mas ainda é um dragão. Se não aproveitarmos o momento para aniquilá-lo, segundo os instrumentos que a democracia oferece, continuará a cuspir fogo nas instituições, mesmo agonizante. Quanto mais destruição causar, mais difícil será a reconstrução.

Governos não caem de podre mesmo quando podres. Dilma ainda está com a caneta na mão. Cabe a nós ir para a rua no dia 13 de março e escrever um futuro diferente com a tinta que resta.

Faltaram a Lula os conselhos de uma criança - JOSIAS DE SOUZA

O BLOG DO JOSIAS DE SOUZA

No teatro infantil, com seus enredos básicos, sua comédia ingênua e seus exageros trágicos, as crianças se integram à catarse. Elas participam do espetáculo. Interferem na história, vaiam os vilões e torcem pelos herois. Avisam para a Chapeuzinho Vermelho, aos berros, que o Lobo Mau vai atacar. Às vezes, invadem o palco para evitar o ataque. O que faltou a Lula foi uma criança de cinco anos que saltasse da poltrona do teatro e gritasse para o mito do PT, a plenos pulmões: “Fuja dos seus amigos!”

Não bastasse o tríplex no Guarujá, que Lula alega ter desistido de comprar depois que virou escândalo; e o sítio de Atibaia, que virou escândalo porque o ex-soberano utiliza mesmo sem comprar, surge agora a cobertura de São Bernardo. Fica ao lado de outra cobertura, onde mora Lula. No papel, o imóvel foi “comprado” em 2011 por Glaucos da Costamarques, um primo do amigo José Carlos Bumlai, preso em Curitiba. Foi “alugado” para Lula, que prefere não ter vizinhos.

Presidente do Instituto Lula, o faz-tudo Paulo Okamotto explicou que o ex-soberano petista não quer ter ninguém morando do seu lado porque sabe do “desconforto” que é ter um vizinho político. Desconforto?!? Decerto Okamotto se refere ao risco de abrir a porta e dar de cara com agentes da Polícia Federal no hall do elevador. Mas as dúvidas continuam boiando no ar.

Por que diabos Lula não comprou, ele próprio, a cobertura ao lado? O primo de Bumlai afirma que pagou cerca de R$ 500 mil pelo imóvel. Isso é dinheiro de troco para Lula, um gênio das palestras invisíveis, que diz ter feito fortuna equiparando o preço de sua lábia à tabela de Bill Clinton, o conferencista mais caro do planeta.

Se houvesse uma criança de cinco anos na plateia, ao perceber que um primo de Bumlai entrara em cena, ela teria se esgoelado: “Não, não. Isso não!” Durante as visitas de Lula e Marisa Letícia às obras da reforma do tríplex do Guarujá, a criança teria entrado em desespero: “Pelo amor de Deus, do lado de Leo Pinheiro, dono da OAS, não!” Ao cruzar o portão do sítio de Atibaia, cedido pelos sócios de Lulinha e reformado pelo pool Odebrechet-OAS-Bumlai, a família Lula da Silva ouviria da criança: “Isso vai dar merda!”

Ah, que político imaculado seria Lula se tivesse do seu lado um conselheiro mirim, com cinco anos de idade!

Escalada irresponsável - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 08/03

Diante das demolidoras evidências a cada dia reveladas pelas investigações policiais, de que o ex-presidente Lula e o PT estão comprometidos até o pescoço com a corrupção no governo, o lulopetismo decidiu apelar para a melhor defesa que conhece: o ataque.

Em desespero, mobiliza suas tropas – constituídas basicamente pela militância paga de entidades e organizações sociais como CUT, UNE, MTST, entre outras – exortando-as ao confronto nas ruas com os opositores do governo. E chegou à criminosa irresponsabilidade de convocar seus apoiadores a se manifestarem, em São Paulo, em plena Avenida Paulista, no próximo domingo, dia 13, data há meses anunciada pelos movimentos de oposição ao governo e ao lulopetismo para protestar contra o descalabro político, econômico e moral em que Lula e Dilma Rousseff mergulharam o Brasil e apoiar o impeachment da presidente da República.

Desde que foi levado coercitivamente a depor na Polícia Federal na sexta-feira passada e reagiu fazendo o papel de vítima não dos policiais federais que o interrogaram, mas de uma conspiração armada para condená-lo, ficou claro que, sem argumentos legais suficientemente fortes para se defender, Lula optou pelo ataque, como sempre faz quando se sente acuado. Obedientes a essa tática, os militantes petistas tentam exacerbar o confronto para que dele, se possível, surja um mártir, uma vítima da sanha assassina das elites apoiadas pela mídia golpista.

É isso o que pode acontecer se o lulopetismo lograr o intento de colocar na Avenida Paulista, no próximo domingo – ou em qualquer outra cidade, mas o evento de São Paulo tem relevante sentido emblemático –, um bando de baderneiros dispostos a hostilizar a massa que estará exercendo o legítimo direito de se manifestar em paz e deverá ser, de acordo com a previsão dos organizadores, uma das mais numerosas dos últimos tempos.

Mesmo que acabem cedendo ao bom senso e não concretizem o intento temerário de “botar a tropa na rua”, os petistas esperam que a simples hipótese da ocorrência de conflitos seja suficiente para desencorajar os antigovernistas e esvaziar a manifestação do dia 13.

Articulado com a estratégia da exortação ao confronto, um dos mais proeminentes líderes do lulopetismo, o ex-ministro Gilberto Carvalho, em entrevista publicada ontem na Folha de S.Paulo, advertiu aqueles que, na tentativa de envolver Lula na Lava Jato, estão “brincando com fogo”: “Espero que haja bom senso e que a Lava Jato volte ao seu leito natural de combater a corrupção real e se desteatralize (sic), que as delações premiadas deixem de ser instrumento de perseguição de um partido político”.

Combater a “corrupção real”, na opinião do piedoso Gilbertinho, é deixar Lula e os petistas em paz, pois “(...) os campeões da corrupção estão soltos, tendo suas penas reduzidas escandalosamente (...). Quem está ficando na cadeia em Curitiba é o Marcelo Odebrecht, que se negou a fazer delação, e os políticos. Isso é combater a corrupção?”.

Por esse raciocínio, quem colaborou com as investigações deveria ser castigado com penas mais pesadas e quem respeitou a omertà mereceria a liberdade e, quem sabe, uma condecoração.

Carvalho é categórico: “O doutor Sérgio Moro tem uma necessidade de provar que os agentes do PT formam uma quadrilha e que o capo dessa quadrilha agora é o presidente Lula”. Pelo peculiar raciocínio do ex-ministro, Lula é intocável e mexer com ele é “brincar com fogo”.

Mas a ameaça para valer vem em seguida: se continuar a perseguição a Lula e ao PT, “aí eu temo muito um processo que nos leve ao que acontece na Venezuela, porque você vai levando ao processo de justiçamento, de justiça com as próprias mãos, e haverá um ódio progressivo”. Ou seja, o piedoso Gilbertinho nos ameaça com um golpe de Estado e uma ditadura de fato, pois foi isso o que aconteceu e ainda acontece na Venezuela. Grande democrata, esse Gilbertinho!


Pressa, sem atropelo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 08/03

Para usar uma expressão popular, partidos de oposição e movimentos contra a presidente Dilma Rousseff (PT) atiraram no que viram, acertaram no que não viram.

No final do ano passado, mesmo antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) botar freios no rito de impeachment adotado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, líderes oposicionistas mostravam-se dispostos a, de forma temporária, diminuir a pressão sobre o governo.

Calculavam que três meses de inevitável paralisia provocariam o agravamento da crise econômica; o apoio ao afastamento de Dilma, que parecia refluir em dezembro, voltaria com toda a força em março.

Por motivos muito diversos, os dias que antecedem as manifestações do próximo dia 13 têm sido marcados por grande agitação política. O combustível, entretanto, não veio exatamente da divulgação do PIB ou dos dados sobre a inflação e o desemprego, mas das frentes investigativa e judicial.

À recente prisão de João Santana, marqueteiro das campanhas de Dilma, somou-se a notícia, conhecida na quinta-feira (3), de que Delcídio do Amaral (PT-MS) fechara acordo de delação premiada. Um dia depois, o ex-presidente Lula viu-se obrigado a comparecer perante a autoridade policial.

Seguiram-se, e ainda não cessaram, discursos inflamados acerca da condução coercitiva de Lula. Num exagero retórico, Dilma a classificou como "violência injustificável"; o ex-presidente aproveitou a ocasião para assumir o papel de vítima e atiçar a militância.

Por coincidência, Michel Temer (PMDB) tinha agenda pública no domingo (6). Tietê, cidade do interior paulista onde o vice-presidente nasceu, comemorava 174 anos.

Na solenidade, sem transparecer a mesma ânsia de agosto ou dezembro, Temer novamente defendeu a união para tirar o país da crise, num esforço para o qual contribuiria "a iniciativa privada, prestigiada pelo poder público". A jogada estava feita; o vice quer soar como a voz ponderada num ambiente cada vez mais conflagrado.

Parte do PMDB também se mexeu. Alguns diretórios planejam discutir, no próximo final de semana, a ruptura com o PT.

Enquanto isso, vendo o governo acuado, oposicionistas abandonam qualquer compromisso com a responsabilidade e anunciam a intenção de bloquear a pauta do Congresso até que se constitua a comissão especial para discutir o impeachment de Dilma na Câmara.

Nesta segunda-feira (7), dois novos lances abriram o tabuleiro. Eduardo Cunha, cuja presença tem contaminado o processo de impeachment, foi notificado do processo de cassação no Conselho de Ética. O STF, por sua vez, começou a liberar os votos que definiram o rito do afastamento presidencial.

Em ritmo frenético, as peças se movem. Desde que não haja atropelos, é melhor assim. Seja qual for o desenlace, o Brasil não pode continuar refém da crise política.

segunda-feira, março 07, 2016

Até os orixás estão de saco cheio - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 07/03

A crença nos espíritos data da pré-história. E tudo que data da pré-história e dura até hoje implica razoável sucesso evolucionário. Levo a pré-história muito a sério e a julgo tão importante quanto os últimos 200 anos para que possamos entender os humanos. Só pessoas superficiais em repertório e pobres de espírito avaliam a humanidade sem levar em conta o Alto Paleolítico (nosso melhor momento).

A escuridão do mundo e seus ruídos, a presença dos sonhos à noite e o medo da morte seguramente pavimentaram o caminho para o mundo dos espíritos.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção na crença nos espíritos é como eles estão sempre envolvidos com as coisas terrenas. Afinal, se já desencarnaram, qual a razão de ficarem se enrolando com os assuntos dos encarnados? Sei da resposta padrão: missão.

Muitos desses espíritos precisam cuidar dos assuntos terrenos para que eles mesmos ganhem alguma luz em suas evoluções espirituais. Como parte importante dessa evolução espiritual está a necessidade de nos ajudar em nossos rolos. Seres humanos sempre patinam nas mesmas coisas.

Já tive algumas oportunidades de ver orixás e entidades variadas, como Exu (em si um orixá), Pombagira, Caboclo, Preto Velho e outros, em ação. Em algumas dessas vezes cheguei a conversar com eles, e impressiona uma certa sabedoria popular presente em suas falas. Na realidade, existem três grande áreas de choque na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença, 3. amor e família.

Se você pensar um pouco, verá que a maioria das coisas que nos afetam, transita, pelo menos, por uma dessas três áreas.

Muitas vezes, suspeito que algumas dessas entidades entendem melhor sobre humanos do que muitos professores e "cientistas" das humanidades.

Por isso, talvez, as falas desses espíritos nos soem tão significativas. Seja porque eles (os espíritos) de fato entendem das nossas agonias, seja porque os pais de santo e as mães de santo é que entendem dessas nossas agonias, como pensa o cético. De qualquer forma, não me interessa a crítica cética aqui. Interessa-me apenas como muitas dessas entidades falam de coisas que de fato nos tocam no dia a dia. Talvez mesmo porque sejamos banais e comuns: todos nós vivemos quase o tempo todo passando por aquelas três grandes áreas de choque descritas acima.

Numa conversa familiar e entre amigos, uma dessas pessoas muito conhecedoras "do ramo" soube de um relato que me chamou a atenção, e que quero partilhar com você aqui, cara leitora e caro leitor.

O relato é o seguinte. Numa gira (evento em que entidades da umbanda atendem pessoas em suas agonias cotidianas), um Caboclo (caboclos são da linhagem de Oxóssi) de grande experiência em atendimento (cujo "cavalo" é um pai de santo de enorme sucesso no ramo) se aborreceu profundamente com as demandas de seus "clientes" ali presentes. Vale salientar para os especialistas que se tratava de um terreiro de candomblé que tem giras de umbanda também, o que é cada vez mais comum.

Precisamos lembrar que, mesmo no ramo de atendimento espiritual, você deve tomar cuidado para não "chutar o saco do cliente", porque ele pode procurar outro orixá, de outro terreiro, para se consultar. E, normalmente, consultas assim podem se transformar em "trabalhos" de todos os tipos, "trabalhos" esses que giram a economia do terreiro e de quem se dedica a essa profissão. Nem só do verbo vive o homem, mas também do pão e da carne.

A irritação do Caboclo (eu sei o nome dele, mas não quero expô-lo aqui) foi com as "conversinhas" de seus clientes ali presentes. Segundo o Caboclo, todo mundo só queria falar com ele sobre "bobagens mesquinhas". E ele, vindo de "tão longe", perdera a paciência para atender pessoas tão bobas. Para nosso Caboclo, o irritante era a "infantilidade" das pessoas ali presentes.

Posso imaginar a irritação de um ser que já passou pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados em rede que hoje assola o mundo. Até os orixás estão de saco cheio. Caboclo de coragem esse. E sábio.


Reservada a bacanas - RUY CASTRO

Folha de SP - 07/03

Foi-se o tempo em que ser corrupto no Brasil estava ao alcance de qualquer um.

Numa das fabulosas boates do Rio nos anos 50, um boêmio sentado ao lado da mesa de um assessor do ministro da Agricultura, por exemplo, ouvia-o dizer que o governo iria fazer uma importação de tratores. O sujeito puxava conversa e convencia o assessor de que, se essa importação incluísse discretamente 50 Cadillacs rabo-de-peixe, eles poderiam ganhar um bom dinheiro revendendo-os na praça e dividindo a féria. Era assim nos governos Dutra, Getúlio, Juscelino.

No tempo da ditadura, muitos generais trocaram a agrestia dos quartéis, com seu perfume de estrebaria, pela presidência de órgãos públicos, com salários que lhes permitiam pedir reforma do Exército e trocar a casinha no Maracanã pelo apartamento em Copacabana. As obras do "Brasil grande" também podiam não sair das pranchetas, mas, enquanto estavam em estudos, socorriam muitos coronéis desamparados.

Nos governos Sarney, Collor e FHC, foi preciso ser mais criativo para ser corrupto.

Políticos e empresários desenvolveram afinidades jamais sonhadas, donde surgiram as concorrências com cartas marcadas, o loteamento dos cargos públicos e as privatizações marotas. Ali a corrupção começou a encarecer.

Sob Lula e Dilma, explodiu. Nunca neste país foi preciso pagar tanta propina, superfaturar transações, investir em refinarias falidas, subornar políticos, nomear ministros, lubrificar tribunais, silenciar aliados, socorrer amigos, comprar medidas provisórias, pagar por palestras fantasmas e bancar a tomada do Estado por um partido. Para não falar nas boquinhas -é um filho aqui, outro ali, um instituto, um sítio, um tríplex, um pedalinho. E tudo em milhões, nada abaixo de sete dígitos.

Haja dinheiro. Hoje, só bacana pode ser corrupto.


O fim e o começo - AÉCIO NEVES

Folha de SP - 07/03

Vivemos um momento especialmente difícil da vida nacional. Um capricho do destino combinou o agravamento da crise econômica com o pior momento do terremoto político que ameaça o governo.

De um lado, a constatação de que, na economia, a queda vertiginosa do PIB configura anos de crescimento perdido para o país. De outro, as revelações vindas à tona na Operação Lava Jato lançam luzes sobre o mundo de sombras no qual opera o grupo instalado no poder. Trata-se de uma combinação letal. De certo, não sobreviverão nem mesmo algumas biografias.

O fracasso na gestão econômica e as impropriedades cometidas pelo grupo no poder –cada dia elas estão mais expostas– não são uma invenção da oposição e nem fruto de uma conjuntura adversa. O conjunto da obra tem DNA e carteira de identidade petistas. A crise na qual estamos mergulhados é resultado de crenças equivocadas, valores desvirtuados e ambições desmedidas.

Infelizmente o PT não entende a crise, sequer a reconhece. Faz o pior: parece querer aprofundá-la, com uma sucessão de atitudes que beiram a irresponsabilidade cívica, como as pressões a favor de troca de ministros, a crítica contumaz à independência das instituições e da imprensa e a divulgação recente de um programa econômico alternativo ao do próprio governo que preside.

À deriva e maculado por escândalos cada vez mais próximos do seu núcleo de poder, este governo não está apto a restaurar a confiança essencial à reconstrução do país.

A hora que vivemos exige coragem e serenidade de todos os democratas.

Serenidade para não aceitar as provocações que nascem da intolerância daqueles que, sem argumentos, insistem em disseminar o ódio e dividir o Brasil para tentar esconder a realidade. Palavras de ordem ensaiadas não vão calar o país.

Não se trata de quem grita mais ou mais alto. Os brasileiros aprenderam a ouvir uma nova voz: a da Justiça.

Coragem para continuar a busca da verdade. A sociedade não merece menos do que isso. Devemos apoiar os trabalhos do Ministério Público, da Polícia Federal e das demais instituições que zelam pela democracia. É hora de assegurar que elas continuem trabalhando sem constrangimentos, sempre nos limites da ordem constitucional. Afronta a democracia quem, dizendo agir em seu nome, quer destruir seus pilares.

Mas, apesar de tudo o que enfrentamos, nosso olhar não pode ficar refém dos dias que vivemos. É preciso enxergar mais adiante. Do encontro com a verdade nascerá um novo Brasil. Confiante, fortalecido na sua esperança como povo e nação.

Um país com credibilidade, capaz de retomar o crescimento e recuperar o respeito da nossa gente e do mundo. É nessa direção que precisamos caminhar.

Juntos = complicação - VALDO CRUZ

Folha de São Paulo - 07/03

A crise ganha contornos infernais, Lula entra de vez no olho do furacão da Lava Jato, Dilma vai sendo sugada também e a presidente, num instinto de sobrevivência, se reaproxima do criador.

O gesto natural da petista, neste momento de encruzilhada em que se encontra, pode ser uma solução no curtíssimo prazo. Envolve, contudo, riscos que podem agravar o cenário de crise e piorar ainda mais a situação caótica do país.

Dilma vinha se distanciando tanto de Lula como do PT. Seus dois principais pontos de apoio exigiam da presidente ajustes e mudanças que ela resistia e resiste a entregar.

Num deles foi obrigada a ceder. Tirou José Eduardo Cardozo da Justiça, o petista acusado pelo partido de não controlar a Polícia Federal. Mas Dilma o manteve por perto, na Advocacia-Geral da União.

Depois disto, o cenário só fez piorar. A delação da Andrade Gutierrez revelou caixa dois na campanha da petista em 2010; veio a público o roteiro da delação do senador Delcídio do Amaral, citando a presidente em relações complicadas. E a Lava Jato focou de vez no ex-presidente.

Tudo numa só semana, jogando Dilma de novo nos braços de Lula e do PT. Até quando, não se sabe. Dentro do governo, há quem aposte que não por muito tempo. Afinal, os petistas defendem uma guinada na política econômica e querem engavetar a reforma da Previdência.

Se ceder neste campo também a seus aliados, a presidente vai ficar bem na foto com sua turma, unindo ainda mais sua tropa em torno de sua defesa e de seu criador. Mas vai jogar a economia brasileira num buraco ainda mais profundo.

Primeiro, porque a oposição vai infernizar cada vez mais a vida do governo no Congresso, acentuando sua paralisia e obstruindo votações de interesse do Palácio do Planalto.

Segundo, porque Lula e o PT não compreendem que o mundo mudou, o país quebrou e não dá para ajustar as coisas sem dor. É a real.

À sombra da história - MARCELO AGNER

CORREIO BRAZILIENSE - 07/03


Um detalhe chamou a minha atenção durante a declaração de guerra de Lula aos inimigos no dia em que teve que se explicar à PolíciaFederal. Atrás do ex-presidente, destacavam-se duas jovens. Uma delas vestia a camiseta da UNE. A outra, a de uma entidade de estudantes secundaristas - acredito que seja a Ubes.

Lula convocou a tropa de choque para enfrentar o que seus partidários chamam de "golpe e perseguição". Pediu ajuda à CUT, ao MST, ao PT e ao PCdoB para uma cruzada contra a direita e os conservadores - na avaliação do petismo, quem não está com ele se enquadra em um desses dois grupos. UNE e Ubes não estavam na lista. Mas não era necessário citá-las. As duas entidades já se apresentaram para a empreitada. Em nota divulgada no site, a UNE afirma, timidamente, reconhecer a importância das investigações da Justiça, mas sai em defesa de Lula, atacando desde a PF até a imprensa.

Houve um tempo em que gritar "a UNE somos nós, nossa força, nossa voz" era motivo de orgulho. Mesmo sem militar no movimento estudantil, eu sabia da importância dele para o país e para todos os que repudiavam a ditadura militar - e na época em que os militares estavam no poder, é bom lembrar.

Mas o movimento se perdeu no tempo. Ficou deslumbrado com a chegada do PT ao poder, acreditando que a esquerda, enfim, ditaria novos rumos do país. A UNE acabou estatizada. Hoje, ataca instituições republicanas para defender as efêmeras benesses que recebe do Estado. Faltam lideranças e bom senso. Sobra oportunismo.

Ao cerrar fileiras com o governo, a UNE se esqueceu totalmente da educação no país. Seus diretores poucos se importam com a falta de rumos da "Pátria educadora", que deixou universidades à míngua e à beira do colapso. Não há passeatas, protestos ou mobilizações contra o Estado. Muitos podem argumentar que a pauta da UNE sempre excedeu as reivindicações pela melhoria do ensino.

Mas, ao defender veementemente Lula contra a Lava-Jato, a UNE dá o salto mais questionável e perigoso de sua história recente. A entidade que nasceu com a democracia no DNA prefere ficar hoje ao lado do investigado e não do da Justiça, sem esperar o fim das investigações de denúncias que são graves e merecem ser apuradas, explicadas. O Brasil trava sua maior guerra à corrupção e aos malfeitos.

No entanto, muitos tentam transformar o atual momento brasileiro numa luta ideológica e de classes. Acreditar nisso é flertar com o autoritarismo. E a UNE, por representar (ou tentar fazê-lo) nossos estudantes, não tem o direito de fazer escolhas tão açodadas.

Crise política paralisa tudo - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 07/03

As turbulências do ambiente político, marcado nos últimos dias pela aceitação de denúncia contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) pelo Supremo, pela delação premiada de Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado, e pela condução coercitiva do ex-presidente Lula, para prestar depoimento à Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato, contribuíram para lançar mais dúvidas sobre a possibilidade de um acerto do governo com o Congresso, com vistas a destravar o diálogo em torno de medidas de retomada da economia.

A histórica queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 e o consequente empobrecimento da população brasileira - a renda per capita diminuiu 4,6% - não deixam dúvida quanto à urgência de se encontrarem saídas para evitar que esse desastroso desempenho contamine 2016. Caso isso ocorra, o país vai experimentar a mais grave recessão da história recente, com consequências ainda mais danosas para o emprego e a renda das pessoas, além da perda total de tudo o que o país vinha conquistando desde a estabilização da moeda, há 20 anos.

Entre os dados do PIB informados na semana passada pelo IBGE, está o preocupante mergulho dos investimentos, que registraram queda 14,1% em 2015, o maior tombo em 18 anos. Trata-se de indicador que reflete com exatidão o ânimo dos agentes econômicos. Para um país como o Brasil, são necessários investimentos anuais que correspondam a pelo menos 22% do PIB para garantir a expansão da oferta de infraestrutura, bem como a expansão e a modernização do parque industrial. Esse nível de investimento, no caso brasileiro, deveria ser mantido por cerca de 10 anos. O Brasil nunca conseguiu manter essa recomendação técnica por mais de dois ou três anos.

Entre 2010 e 2014, os investimentos ficaram em 20% do PIB ou muito próximos disso. A queda de 2015 baixou esse patamar para 18% e, até agora, são pessimistas as previsões para 2016. A falta de investimentos sinaliza baixo crescimento da produção nos próximos anos, além de recuo no processo de modernização, inovação e, portanto, de aumento da produtividade da economia. É consenso entre empresários e economistas não vinculados ao governo que a retomada do dinamismo na atividade econômica passa necessariamente pela volta do investimento, tanto público quanto privado. Mas, no Brasil, essa retomada está bloqueada por pelo menos dois fatores.

O primeiro é consequência dos últimos anos da política econômica equivocada que levou à quase destruição do parque industrial do país. Depois de um período relativamente longo de câmbio desfavorável, a indústria nacional, além da dificuldade para exportar, perdeu boa parte do mercado interno para a importação. Em 2015, a indústria teve, segundo o IBGE, perda de 6,2%. Com isso, o setor acumula uma custosa ociosidade que, enquanto não for superada, vai contribuir para o engavetamento dos projetos de investimento.

O segundo fator é a falta de percepção de que o governo, de fato, caminha para equilibrar suas contas, condição inicial para a volta dos investimentos públicos, para o controle da inflação e o consequente recuo nas taxas de juros. Depende tudo isso da volta à normalidade na política e da credibilidade do governo, o que parece ainda distante.

Procura-se um presidente - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo 07/03

A petista Dilma Rousseff ocupa apenas formalmente o cargo de presidente da República, para o qual foi reeleita em 2014. Na prática, ela já não consegue exercer nenhum poder, salvo o previsto no protocolo – sempre haverá alguém no Palácio do Planalto para lhe servir um cafezinho. Mas a autoridade para governar de fato, conferida pelo voto popular, a presidente não tem mais, nem mesmo diante daqueles que, em tese, deveriam apoiá-la, quer porque integram seu partido, quer porque formam o condomínio que a sustenta. Formou-se um vácuo no Executivo, a tal ponto que, hoje, se pode dizer que falta um presidente no governo que aí está. Como política é ocupação de espaços, esse vazio institucional deixado pela incapacidade de Dilma já está sendo preenchido pelo Congresso, que assume cada vez mais ares de governo, como se no parlamentarismo estivéssemos.

Vendo o Planalto desnorteado, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), planejam impor uma extensa pauta de votações com temas que não são considerados prioritários pelo governo e que contrariam tanto Dilma como o PT.

Entre os projetos que deverão ser levados a plenário no Senado estão a proposta de autonomia do Banco Central, a proibição de mudanças em contratos de concessão, a reforma tributária e a fixação de teto para o endividamento da União, além da reforma da Previdência, que Dilma até quer, mas o PT repudia.

Na Câmara, Eduardo Cunha planeja criar comissões para discutir assuntos que são de interesse direto do governo, como o fim da participação obrigatória da Petrobrás na exploração do pré-sal. “A resultante da comissão especial é que será levada ao plenário”, informou Cunha. Ou seja, o governo perdeu totalmente a influência sobre a agenda legislativa mesmo em assuntos que considera de importância estratégica.

Já as propostas da lavra do governo são tratadas com incontido desdém. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), por exemplo, classificou de “doidice” a intenção do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de criar uma “banda fiscal” para o superávit primário, que automaticamente afrouxaria a meta fiscal em caso de desaceleração da economia. “Precisamos ter realismo fiscal”, ponderou o parlamentar, como se o Congresso fosse um exemplo de dedicação ao equilíbrio das contas públicas.

Portanto, sem força para retomar a iniciativa característica da Presidência, Dilma depende da boa vontade de grupos políticos sobre os quais não exerce nenhuma influência, apesar de ainda deter a poderosa caneta que distribui cargos e verbas. Nem mesmo o modelo de “presidencialismo de cooptação”, resultante da transformação do “presidencialismo de coalizão” em um grosseiro toma lá da cá, tem funcionado. Dilma só conseguiu arregimentar algum apoio na segunda divisão do PMDB, e mesmo assim ao custo de entregar anéis e dedos – como o importantíssimo Ministério da Saúde – a políticos de baixa extração.

Todo esse esforço tem sido incapaz de restituir a Dilma o poder inerente a seu cargo. Sua cruzada em favor da volta da CPMF, hoje praticamente a única pauta que ocupa a agenda presidencial, não encontra respaldo sério em nenhum recanto no Congresso. Ao contrário: sempre que podem, os críticos do governo lembram que, antes de defender a CPMF, Dilma deveria convencer seu próprio partido a aprovar as reformas essenciais para a retomada da economia.

Mas é justamente aí que está o maior problema de Dilma: a petista não governa porque é bisonhamente fraca – e não se fortalece porque, além de ser como é, enfrenta a sabotagem de seus correligionários, a começar pelo chefão do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A título de “ajudar” Dilma a governar, como disse em discurso à militância petista, Lula tratou de desmoralizar de vez a presidente, ao derrubar seus principais ministros – o da Casa Civil, o da Fazenda e, agora, o da Justiça.

Assim, está claro que, politicamente, Dilma já é passado. Enquanto ela estiver na Presidência, esta será exercida na prática por terceiros – Renan, Cunha, Wagner, Lula et caterva –, com claros prejuízos para o equilíbrio institucional e o futuro imediato do País.

Cassação e impeachment - DENIS LERRER ROSENFIELD

ESTADÃO - 07/03

O governo acabou! Resta determinar como se dará o seu fim! A experiência petista está terminando na delegacia!

Lula foi conduzido coercitivamente à Policia Federal. Terminou a impunidade.

Não é possível governar com escândalos de corrupção produzidos em maior parte pelo PT, com seus dirigentes e líderes presos, condenados ou sob inquéritos e denúncias.

Não é possível governar com o ex-presidente Lula preocupado apenas com a sua própria sobrevivência.

Não é possível governar na mais profunda crise econômica, sem nenhuma ideia nem condições para dela sair.

Não é possível governar sem nenhum apoio partidário (nem do PT) e sem nenhuma popularidade.

Não é possível governar de costas para a sociedade, em meio a crises política, econômica e social, com o PIB despencando e o desemprego adquirindo grandes proporções.

Várias saídas são possíveis. O mais conveniente para o país seria a renúncia ou o afastamento da presidente para tratamento de saúde. Porém, tal posição esbarra em dois grandes problemas.

O primeiro deles consiste em que a própria presidente deveria tomar a iniciativa de tal ato. Porém, para isto, seria necessário um gesto de grandeza que não faz parte de suas qualidades. Nem seus erros consegue admitir. É dominada por uma espécie de autismo em relação à própria realidade por ela criada. Talvez, agora, possa ser pressionada a isto, considerando a nova situação política.

O segundo deles reside em que o ex-presidente Lula poderia tê-la convencido a tomar tal atitude, mas isto, aparentemente, não lhe interessava. Agora, perdeu qualquer condição de tal iniciativa. E a imagem que possui de si, desproporcional aos seus feitos, porém talvez equivalente aos seus malfeitos, não permitiria tal gesto.

Lula e o PT ficaram sem nenhuma narrativa. Logo, o impeachment ou a cassação poderiam lhes ser adequados, pois seriam incorporados ao discurso alicerçado em ideias do tipo “contra a direita”, “contra o golpe” e “contra a mídia golpista”. A nova: “preso político”. São, evidentemente, bobagens, mas é o que restou de um partido sem ideias.

Sobram duas alternativas: a cassação e o impeachment.

As provas de envolvimento da campanha da presidente Dilma em corrupção e em desvio de recursos públicos estão se avolumando. As novas delações, dentre as quais a do senador Delcídio Amaral, fazem crescer ainda mais a fervura. As chances de cassação aumentam em muito, pois o governo e o PT conseguem cada vez menos se defender. E a Lava-Jato não dá tréguas, passando o país a limpo.

Ocorre que um julgamento pelo TSE, por vias normais e sem protelações, demoraria em torno de um ano. Se houver impugnações, diligências e recursos dos mais diferentes tipos, pode se prolongar por dois anos. Estaríamos no final de 2017 ou no início de 2018.

Note-se, aqui, que há questões, pertinentes, quanto a se o TSE poderia cassar uma chapa presidencial sem passar pelo Congresso, pois não está prevista a cassação na Constituição, mas em lei complementar. Em todo caso, tal tipo de processo não deixaria de ensejar dúvidas.

O vice-presidente, por sua vez, teria fundadas justificativas para pleitear uma individualização da chapa, dentre outras razões por haver julgamentos distintos da presidente e do vice, prestações de contas apresentadas separadamente, com doadores diferentes, juramentos distintos, citações diferentes, estruturas jurídicas diferentes da Presidência e da Vice-Presidência, não transferência da culpa e assim por diante.

Considere-se, contudo, a título de hipótese, que haveria a cassação da chapa. Se ocorresse ainda neste ano, o deputado Eduardo Cunha assumiria a Presidência por um período de 90 dias, presidindo o processo eleitoral, com todos os seus problemas de legitimidade. Acrescente-se, ainda, o descrédito total da classe política, de tal maneira que poderíamos ter o seguinte cenário.

Nem Aécio nem Lula seriam provavelmente os vencedores. Um tertius qualquer poderia ganhar o pleito, mergulhando o país em uma nova incerteza e instabilidade. O país continuaria, sob outras roupagens, envolvido em intermináveis crises econômica, política e social.

Por esta razão, voltaria a ganhar força a tese do impeachment, abreviando o processo e assegurando uma tranquila transição do ponto de vista constitucional. O Brasil poderia resgatar-se a curto prazo, o que, hoje, parece impossível.

Nos meios políticos e na sociedade em geral, observa-se um clima muito mais favorável ao sucesso de um eventual impeachment da presidente da República. A percepção de que o barco está naufragando e de que o PMDB e outros partidos tudo podem perder acrescenta ainda mais força a esta alternativa.

Deputados, antes contrários ou indecisos, já se manifestam favoravelmente a esta opção. Estão sendo pressionados pela opinião pública, por suas bases eleitorais e estão cientes de que, com o atual governo, não há saída à vista. Temem cair com Dilma e o PT.

Os senadores, sobretudo do PMDB, já estão dando sinalizações de que poderão abandonar o barco de Dilma. O próprio senador Renan Calheiros já manifestou apoio ao vice-presidente à presidência do partido e o convidou a fazer campanha em Alagoas.

Note-se que o vice-presidente conseguiu reunificar e pacificar o PMDB em uma chapa consensual, algo em que poucos apostavam até algumas semanas atrás. E tal fato é da maior importância, porque é uma resposta política à desunião fomentada pela presidente Dilma e pelo próprio PT. Nesta perspectiva, poderia reunificar e pacificar o país.

Por último, devemos atentar ao fato de o impeachment ser uma solução prevista na própria Constituição, assegurando uma transição propriamente institucional. Ele é, neste sentido, menos traumático do que a cassação. As instituições republicanas seriam totalmente preservadas e um novo caminho poderia se vislumbrar para todo o país.

Em todo o caso, o país não aguenta mais três anos imerso em uma crise que parece não ter fundo!

Urge que o impeachment volte a ser prioritário. Para o bem do Brasil.

Quem é Lula? - PAULO GUEDES

O GLOBO - 07/03

O ex-presidente vai desmerecer sua luta pela redemocratização se incitar militantes à violência em vez de enfrentar serenamente a Justiça


A Polícia Federal avança em busca da verdade disparando Aletheia, a mais nova e politicamente complexa fase da Operação Lava-Jato. Lubrificadas pela delação premiada de Delcídio Amaral, as investigações exigiam o depoimento do ex-presidente Lula, o que foi previamente assegurado por eventual condução coercitiva autorizada pelo juiz federal Sergio Moro. A delação de Delcídio embola os governos Lula e Dilma em uma engrenagem única em sinistra associação com piratas privados e criaturas do pântano político para a apropriação indébita de recursos públicos e para a permanência no poder. O mensalão e o petrolão seriam duas faces do mesmo fenômeno. E a autorização da condução coercitiva por Sergio Moro irritou o ex-presidente e inflamou a militância que o esperava na sede do PT após o depoimento.

Olívio Dutra, um dos fundadores do PT, diz que quem mudou foi o partido, e não seus adversários, atribuindo práticas degeneradas à política do pragmatismo, o “enorme guarda-chuva aberto por Lula”. O líder maior de seus adversários, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, parece concordar com essa avaliação: “É preciso abrir o jogo: não se trata só de Dilma ou do PT, mas da exaustão do atual arranjo político brasileiro.” Compreendem os leitores o profundo silêncio das oposições? Entendem por que a defesa da República depende agora da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário?

Seremos testados nos próximos meses. Não apenas nossas instituições mas também o próprio Lula. Sua biografia não é a de Chávez, e o Brasil não é a Venezuela. Lula prestará um desserviço ao país, desmerecendo sua luta pela redemocratização, se incitar militantes à violência, em vez de enfrentar serenamente uma avaliação de suas responsabilidades perante a Justiça. Seria desesperada e temerária qualquer ameaça de convocar camisas negras, pardas ou vermelhas, “o exército de Stédile” e militantes de organizações sociais para brigar nas ruas. Seria uma provocação ao Exército de Caxias. Nossa democracia dispensa tanto a violência de milícias partidárias quanto as práticas transgressoras de bandos políticos, em que a cumplicidade e o silêncio solidário com os malfeitos colidem com a transparência e a integridade exigidas no trato da coisa pública.

Nunca mais! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 07/03

Pensei: o cara pirou. Só pode ser. Tudo bem que tenha se sentido ofendido pela reportagem do "The New York Times" sobre seu gosto por bebidas alcoólicas.
Pega mal para um governante ser citado assim. Mas o presidente russo Boris Yeltsin também o fora. E na rede de televisão CNN protagonizara cena memorável dançando em um palco no centro de Moscou depois de ter bebido todas as vodcas possíveis.

DAÍ A LULA determinar a expulsão do país do correspondente do jornal, Larry Rother? Sinto muito, era exagero. E também um abominável ato de arbítrio. Foi isso o que ele ouviu dos poucos assessores com alguma gota de coragem para enfrentar seus costumeiros ataques de cólera - "exagero" Em público, ele vestia a fantasia do "Lulinha paz e amor" com a qual se elegera pela primeira vez.

UM DOS ASSESSORES, em reunião no gabinete presidencial do Palácio do Planalto, sacara de um exemplar da Constituição e apontara o artigo que garantia ao jornalista o direito de permanecer no Brasil. Então Lula cometeu a célebre frase que postei no meu blog no dia 12 de maio de 2004, poucas horas depois de ela ter sido pronunciada: "Foda-se a Constituição!"

NAQUELE DIA, mais de um deputado e senador discursaram no Congresso a propósito do que Lula dissera a respeito da Constituição, embora nenhum, por pudor ou receio de ferir o decoro, tenha reproduzido a frase ofensiva e grosseira. Diretores de jornais e revistas me telefonaram perguntando se eu estava seguro do que publicara. Nenhum ousou escrever sobre o episódio. Eram outros os tempos.

NOS TEMPOS das redes sociais, a imprensa não é mais reverente com os poderosos até porque perdeu o monopólio da informação. Algo que não se dê, a internet dá. Palavras e frases consideradas chulas antigamente foram assimiladas pela linguagem corrente. De resto, como ignorá-las quando saem da boca de homens públicos e têm a ver com fatos públicos relevantes? Foi o que aconteceu outra vez com Lula.

UM VÍDEO postado na internet deu conta do que ele disse em conversa com a presidente Dilma poucos minutos depois do fim do seu depoimento forçado à Lava-Jato na última sexta-feira. Lula disse: "Eles que enfiem no cu todo o processo." Referia-se, certamente, aos procuradores que o haviam interrogado. E ao processo que apura a roubalheira na Petrobras e a sua eventual culpa por ela.

A SAÍDA encontrada por Lula para sobreviver foi se declarar desde já candidato a presidente da República em 2018, correr assustado para o colo do PT, anunciar seu retorno às ruas e reconciliar-se com o discurso incendiário da época em que era inimigo das elites e a elas não se associara ainda, adotando apenas o que elas têm de pior. Dará certo? Difícil que dê. Seria preciso combinar antes com vários adversários.

COM A LAVA-JATO. Com a crise econômica que se anunciou no seu segundo governo. Com a sucessora eleita e reeleita, sem talento para administrar, sequer, uma loja de produtos baratos, quanto mais um país. Com o PT devastado pela corrupção e em queda acelerada no ranking dos partidos mais admirados. E com a maioria dos brasileiros que diz rejeitar a hipótese de votar nele, Lula, novamente.

SÓ HÁ UM RESPONSÁVEL pela tragédia política e pessoal que Lula enfrenta: ele mesmo. Lula está quase nu. E o que já se vê não é recomendável para eleitores com 16 anos ou mais.

domingo, março 06, 2016

Dilma, e agora? - MIRIAM LEITÃO

O Globo -06.03

O governo Dilma está diante do fim antecipado, independentemente de quanto tempo ela fique no cargo. Um governante se sustenta em apoios, e hoje concretamente ela não os tem. A base política há muito tempo desmoronou, o PMDB tem seu próprio projeto, que só se encontra com o de Dilma quando a mesma ameaça paira sobre ambos. Até o PT se afastou. A presidente não tem, há muito tempo, apoio popular.
Seu governo é altamente impopular. Qualquer pesquisa de opinião mostra que pouco mais de 10% acham seu governo bom ou ótimo e sobe de 60% a 70% os que a rejeitam. A situação econômica torna pouco provável qualquer recuperação dessa popularidade que se esvaiu rapidamente após a reeleição. Seu mago publicitário permanece na prisão, sem poder ensinar para ela qualquer outro dos seus truques, que ademais não estavam mais funcionando.
Sem apoio popular, sem base parlamentar, sem partido que a sustente e diante de uma devastadora crise econômica é a hora de perguntar, como nos versos de Drummond: Dilma, e agora?
Há um equívoco sobre a relação causal entre a crise política e a econômica. A economia foi ferida pelos erros na condução da política econômica, ela não foi vitimada pela política e muito menos pela Lava-Jato. A política também entrou em seus próprios descaminhos por outros motivos que não a crise econômica, mas um ambiente de recessão de dimensão histórica, aumento do desemprego, de quebra de empresas, certamente piora qualquer crise política. Se o país estivesse crescendo, ou revertendo situação desfavorável, seria mais fácil para a presidente recuperar um pouco a popularidade e a partir daí se fortalecer para o diálogo político. Tudo está ligado de certa forma, mas sem que um seja a causa do outro. A economia criou a sua crise; a política criou a sua crise. São dois tornados que se encontraram e viraram gêmeos. Agora um agrava o outro.
Nessa complexidade, a Lava-Jato tem efeitos econômicos sim e abala a política. A investigação não é a culpada, porque ela apenas procura saber, e punir, os que cometeram os mais diversos crimes contra a ordem política e econômica do país.
Neste quadro em que tudo se liga, mesmo que tenha origem diversa, produzindo uma crise de dimensões gigantescas, a presidente foi perdendo aos poucos a capacidade de iniciativa política. Ela apenas reage aos eventos. Ela não governa. O ex-presidente Lula disse que não a deixam governar, e assim terceirizou, novamente, a culpa que é do governo.
A situação econômica é lastimável. Empresas estão vendo sumir os consumidores e contratantes, a produção está sendo reduzida, os empregos estão sendo cortados, a renda, caindo, e a arrecadação, diminuindo. O efeito dominó das dores econômicas está se espalhando como foi previsto tantas vezes por tantos. Tudo está dando errado porque o governo errou. A dívida pública aumentou de forma assustadora e não há perspectiva de estabilização e queda. Isso alimenta a incerteza. Quanto mais o governo erra nas decisões que toma — ou adia as medidas necessárias — mais fundo fica o fundo do poço; mais longa será a caminhada até a recuperação.
Diante disso, o governo Dilma esgotou-se muito tempo antes do seu fim. Esta é a armadilha na qual o país está. Uma presidente sem força e sem poder é um lame duck, como se diz em inglês, mas só se pode estar assim quando o governo apenas conta o tempo para passar a faixa.
De tudo o que disse Lula na sexta-feira, o mais importante talvez seja que ele quer de novo viajar pelo Brasil. Sonha assim em recriar o ambiente da caravana da cidadania em que viajava atacando o governo de então e prometia que mudaria tudo. Ele tenta recriar o ambiente de campanha eleitoral no qual se sente imbatível — apesar das várias derrotas eleitorais que amargou — e poderá defender sua tese de autolouvação. “Eu fui o melhor que todos os presidentes, melhor que os cientistas políticos, melhor que os advogados...”, disse Lula. Poderá também defender sua tese distorcida de que a elite não o aceitou, apesar de ele, o PT e o governo estarem em apuros pelas relações promíscuas com empresas e empresários da elite brasileira. Se Lula tiver sucesso nesse ilusionismo populista, no qual, de fato, é bom, ele estará tornando ainda mais pálida a figura da presidente Dilma.

E a orquestra já não toca - CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo - 06/03

O Brasil como Titanic é a comparação de Judd Webber, na newsletter sobre América Latina do "Financial Times".

Depois de informar que, em um dos luxuosos shoppings que pontuam o cenário do país tropical, toma-se sorvete a US$ 4 a casquinha, ele afirma: "Mas, ao contrário da orquestra tocando enquanto o transatlântico afundava, a aparência de normalidade não pode durar".

Judd vai ao exagero de sugerir ao vendedor de sorvetes que aceite apenas pagamento em dinheiro, porque "a taxa de cheques devolvidos no Brasil é a maior desde que as estatísticas começaram".

De acordo, Judd, com uma ressalva: é evidente que, se por orquestra se tomar o governo, ela já parou de tocar faz algum tempo.

Meses atrás, um inquilino importante do Palácio do Planalto desabafou comigo: "É muito difícil governar quando o horizonte que se tem é de apenas uma semana".

De lá para cá, ficou pior.

Breve recapitulação: na quinta-feira (3) cedinho, chegava à minha caixa de correspondência eletrônica boletim da "Economist" em tom tão lúgubre quanto o de Judd Webber.

Dizia: "Os estatísticos confirmarão hoje [quinta] que o PIB encolheu cerca de 4% no ano passado [foi, na verdade, 3,8%]. Cerca de 100 mil empregos foram perdidos em janeiro, além de mais de 1,5 milhão em 2015. O gasto dos consumidores está se contraindo: vendas no varejo caíram 7% em dezembro. A inflação, correndo a 11%, está comendo os salários daqueles que ainda têm emprego. A treva estagflacionária persistirá até que Dilma Rousseff enfrente o deficit orçamentário que mina a confiança, agora em chocantes 10,8% do PIB".

Termina com a previsão de que, do jeito que as coisas vão, as notícias sobre o PIB de 2016 serão igualmente lúgubres.

Parecia, pois, a descrição perfeita do fundo do poço, mas eis que, nas horas seguintes, vieram informações que demonstram que o excelente colunista Vinicius Torres Freire estava certo ao imaginar que o fundo do poço tem um alçapão.

Primeiro, o vazamento da delação premiada do senador Delcídio do Amaral, apontando o dedo para a presidente e para seu antecessor e padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais 24 horas e a Polícia Federal leva Lula, sob vara, para prestar depoimento sobre as inúmeras suspeitas que pesam sobre o ex-presidente.

É a tempestade perfeita, dificultando ou, no limite, impedindo o resgate dos passageiros do Titanic Brasil, agora que a orquestra já não toca e não há salva-vidas para todos.

Pode ser que Delcídio do Amaral esteja mentindo, pode ser que ele não tenha provas, o que será fundamental no âmbito jurídico. Mas, no âmbito político, o "iceberg" já bateu no navio.

É como no caso Roberto Jefferson/mensalão: ele tampouco ofereceu provas, na entrevista que deu à Folha, mas o desfecho acabou sendo a prisão de uma parte da cúpula do PT.

A diferença entre o mensalão e o petrolão é o estado da economia (saudável à época) e a popularidade do presidente de turno, inexistente agora. O comandante irá ao fundo com o navio?

Moro deu a Lula o papel de coitadinho - ELIO GASPARI

Folha de São Paulo - 06/03

Realizou-se parcialmente o primeiro objetivo dos procuradores da Lava Jato: o juiz Sergio Moro determinou a condução coercitiva de Lula a uma delegacia. Ele não foi preso, foi submetido a um constrangimento inédito: um ex-presidente da República entrou numa viatura policial. É bom lembrar que, quando os coronéis de IPMs da ditadura chamavam Juscelino Kubitschek para depor num quartel, marcavam hora e ele ia. O grande JK deixava-se fotografar entrando no prédio com seu inesquecível sorriso.

Há mais de um ano, Moro e os procuradores mostram que sabem o que estão fazendo. Indicações de contas mal explicadas envolvendo Nosso Guia, eles as têm, e podem ser encontradas nas 89 páginas em que o Ministério Público mostrou como o dinheiro de empresas metidas em petrorroubalheiras ia para as arcas do Instituto Lula e da família Silva. Como indício não é prova, podem ter dado um passo maior que a perna. Sobretudo porque a condução coercitiva deu ao episódio uma teatralidade desnecessária.

Lula foi presenteado com o papel de vítima, que desempenha há 40 anos com maestria. Como o marqueteiro João Santana já explicou, ele alterna a condição de coitadinho com a de poderoso. O coitadinho é perseguido pela elite. O poderoso defende as empreiteiras.

Lula teve seu mau momento quando respondeu a uma pergunta sobre os pedalinhos de Atibaia dizendo que ela não honrava a Polícia Federal. Deu-se ares de poderoso quando na verdade está diante de um caso em que um suboficial do Exército pagou do seu bolso brinquedos caros para os netos do chefe. O que não honra a Presidência da República é a família Silva ter se metido nesse tipo de transações. Os policiais fizeram muito bem ao perguntar e Lula continua devendo diversas respostas.

Uma conjunção dos astros fez com que, no mesmo dia em que se soube da colaboração de Delcídio do Amaral, o IBGE divulgasse uma contração de 3,8% da economia.

Governo em crise política é coisa comum. Crise política junto com recessão é coisa mais rara. Ambas, somadas a um governo catatônico, ecoam o ocaso do mandato de Fernando Collor de Mello.

O JOGO DA TROCA DE PRESIDENTE

Quem não torce pela sobrevivência do mandato de Dilma Rousseff deve saber o que quer. Tirar a doutora da cadeira é uma coisa. Quem colocar no lugar, e como, é outra.
Pelo caminho do impeachment, o vice-presidente Michel Temer assume no dia seguinte.
Pelo caminho da cassação da chapa de Dilma e Temer, assumirá o presidente da Câmara (hoje, Eduardo Cunha), obrigado a convocar eleições em até 90 dias. Se a lâmina do TSE cair depois do início de julho, o pleito poderá coincidir com a eleição municipal de outubro. Candidatos? Marina Silva, sem dúvida. Além dela, quem sobreviver na briga dos tucanos, e resta a possibilidade de aparecimento de um meteoro. Esta opção expressaria diretamente a vontade popular.
Se o TSE cassar a chapa Dilma-Temer a partir de 1º de janeiro, deputados e senadores elegerão, 30 dias depois, o seu substituto, para concluir o mandato. Votam todos aqueles que estiverem no exercício de suas funções. Se continuarem nas cadeiras, Eduardo Cunha presidirá a eleição e Delcídio do Amaral votará.
Esse colégio eleitoral será composto de 594 pessoas. Deles, 99 têm processos à espera de julgamento no STF e são 500 os inquéritos em andamento envolvendo parlamentares.
Vinte e um anos depois da campanha das Diretas, o regime democrático brasileiro corre o risco de eleger indiretamente um presidente da República.

JOÃO SANTANA

As eventuais colaborações de Léo Pinheiro da OAS e de diretores da Odebrecht poderão colocar mais um magano na fila: João Santana.
O marqueteiro do PT foi surpreendido pelo acervo de informações que os investigadores reuniram a respeito de suas transações com a Odebrecht. Essa é a parte mais simples.
Santana é um arquivo vivo dos métodos e das manhas do mercado que fez dele um milionário. Desde sua chegada à carceragem de Curitiba, ele está em outro mundo, diante da estratégia do Ministério Público. De um lado, os procuradores acumulam provas para buscar condenações. De outro, não se contentam com confissões. Se um preso quer colaborar, precisa botar na mesa coisas novas.
Por exemplo: diretores da Andrade Gutierrez destamparam a panela das pesquisas eleitorais pagas pela empresa para atender às necessidades de candidatos. Esse é um costume velho e multipartidário. A empreiteira mostrou uma árvore, Santana poderá mostrar a floresta.

ODEBRECHT

Em outubro, quando a Camargo Corrêa fechou seu acordo de colaboração, a Odebrecht desmentiu categoricamente que caminhasse na mesma direção.
Acreditava que antes das festas de Natal o STJ soltaria seu presidente. Confiava na macumba palaciana narrada por Delcídio do Amaral e divulgada pela repórter Débora Bergamasco. Tinham uma conta fechada, na ponta do lápis. Deu água.
Apesar da ênfase do desmentido da Odebrecht, ela vinha testando as águas para seguir no mesmo caminho, já aceito pela Andrade Gutierrez.

DILMÊS

A doutora Dilma disse, no ano passado, que os problemas da Petrobras eram "página virada", depois informou que "não respeito delator". Agora, indignada, repudiou o que chama de "uso abusivo de vazamentos".
Ela pode ter dito o certo, mas, se a Lava Jato não tivesse continuado a folhear o livro da Petrobras, a roubalheira teria ido para baixo do tapete e, se os colaboradores não tivessem sido ouvidos, as empreiteiras continuariam caladas.
Um vazamento pode ser irregular, mas isso não exclui a possibilidade de ele ser verdadeiro. É melhor haver uma verdade vazada do que blindá-la com mentiras.

VALÉRIO DE VOLTA

O empresário Marcos Valério continua na penitenciária. Ele poderá desempatar uma parte das revelações de Delcídio do Amaral.
O senador deve lembrar que, na primeira vez em que mencionou as ansiedades de Valério, Lula, calado, olhava para as próprias meias. Na segunda, mandou que procurasse Paulo Okamotto.

BOA NOTÍCIA

Depois de seu magnífico retrato de Stálin e de seu comissariado, o historiador Simon Montefiore mandará às livrarias em maio uma história dos czares Romanov, que governaram a Rússia até 1917.
Tem tudo para ser coisa fina, pois antes de se meter com os bolcheviques, Montefiore escreveu uma elegante biografia de Grigory Potemkin, o poderoso primeiro-ministro e namorado de Catarina, a Grande. Uma história de poder e amor.
O tio-avô de Montefiore foi sócio dos banqueiros Rothschild e ele tem um olho de lince para observar o poder e as elites. Essa foi uma das virtudes do retrato de Stálin com sua "corte do Czar Vermelho".

Em busca da saída - MERVAL PEREIRA

O Globo - 06/03

Se a política não resolver a crise, a crise vai resolver a política. Mais que um jogo de palavras que o deputado Raul Jungman gosta de usar, esta é uma constatação que fica mais evidente ainda diante da iniciativa de militares de contatarem na sexta-feira autoridades civis - governadores de Estados estratégicos como Rio e São Paulo, ministros, líderes partidários - para colocarem à disposição tropas em caso de necessidade de garantir a ordem pública, conforme Ricardo Noblat noticiou em seu blog.

Os confrontos entre petistas e seus adversários políticos nas ruas de diversas capitais do país, enquanto Lula depunha na Polícia Federal, insuflados por uma convocação do presidente do PT, Rui Falcão, acendeu a luz amarela nas instituições militares, que pelo artigo 142 da Constituição têm a missão de garantir a ordem pública.

O fato de terem oferecido apoio às autoridades civis mostra que, ao contrário de outras ocasiões, os militares não estão dispostos a uma intervenção, mas se preocupam com a crise e se dispõem a auxiliar as autoridades civis em caso de necessidade.

Já há algum tempo, diante do agravamento da crise político-econômica, militares de alta patente estão conversando com lideranças civis de diversos setores da sociedade, e agora consideram que está na hora de o mundo político encontrar saídas constitucionais para o impasse em que estamos metidos, com o Congresso, que é o único caminho para uma solução em moldes democráticos, paralisado diante de sua própria crise: um presidente da Câmara tornado réu pelo Supremo Tribunal Federal, um presidente do Senado alcançado por nada menos que seis processos, cerca uma centena de deputados e senadores envolvidos de alguma maneira em problemas com a Justiça e tantos outros sujeitos ao imponderável das delações premiadas da Lava-Jato.

Mesmo soluções constitucionais como o impeachment ficam contaminadas pela presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara, e a perspectiva de que ele possa assumir a presidência da República, por poucos meses que seja, para convocar novas eleições - no caso de uma impugnação da chapa PT-PMDB até o fim desse ano, o que é improvável - é no mínimo desanimador.

Nos bastidores do Congresso negocia-se de tudo, desde a implantação de um semipresidencialismo de ocasião, até a sugestão mais recente da Rede de Marina Silva de aprovar uma emenda constitucional com o instituto do recall, pelo qual a presidente Dilma poderia ser retirada do poder através de uma consulta popular.

Houve há poucos dias a tentativa de fazer com que Dilma rompesse com o PT e partisse para uma nova coalizão partidária, que poderia contar até mesmo com setores da oposição. Os fatos, porém, atropelaram essas negociações, e hoje Dilma e Lula estão juntos no que pode ser um abraço de afogados, mas é a única maneira de os dois tentarem sair vivos politicamente dessa crise.

A oposição, por seu turno, começa a deixar a dubiedade para apoiar o impeachment , pois um processo de impugnação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral pode levar mais um ano, com marchas e contramarchas no STF e, mais complicado que tudo, no terceiro ano de mandato um novo governo seria eleito de maneira indireta por este Congresso sem credibilidade diante da população.

A pressão agora é para que o PMDB rompa o mais rápido possível com o governo e entre de cabeça no processo de impeachment. Ao mesmo tempo, arma-se na Câmara uma ação conjunta para obstruir as sessões até que a permanência de Cunha na presidência se torne inviável.

Alguma coisa terá que ser feita, e rápido, diante da deterioração do ambiente econômico e da mudança de patamar da crise política, com a Lava-Jato tendo chegado literalmente às portas do ex-presidente Lula. Se as forças políticas que representam a maioria do país, hoje claramente posicionada contra o PT, não se unirem em busca de uma saída democrática para a crise, estaremos diante de uma ameaça de retrocesso institucional.

As milícias petistas mobilizadas na confrontação física nas ruas podem transformar o país em uma Venezuela, e quanto mais os fatos forem sendo desvelados, mais a resposta violenta será a única saída.

O Congresso tem que encontrar rapidamente uma saída constitucional que possibilite a formação de um governo de transição democrática, e o caminho mais viável parece ser o impeachment, já que a presidente Dilma não se mostra capaz de articular essa transição, e se revela comprometida cada dia mais com as ações criminosas que a levaram ao governo.

De volta ao palanque - BERNARDO MELLO FRANCO

Folha de S. Paulo - 06/03

A sexta-feira quente fez as peças avançarem no tabuleiro da crise. A Lava Jato ensaiou seu movimento mais ousado ao obrigar Lula a depor sob condução coercitiva da polícia. O ex-presidente reagiu com fúria e convocou a tropa para defendê-lo. A tensão transbordou para as ruas, com cenas de pancadaria que podem se repetir nos próximos dias.

Em Curitiba, Sergio Moro abandonou de vez o discurso de que Lula não seria alvo das investigações. O juiz deixou claro que o petista está em sua mira e já indicou que pretende condená-lo. Em decisão, apontou "fundada suspeita" de que o ex-presidente recebeu "benefícios materiais" de fornecedoras da Petrobras.

Curiosamente, Moro não esperou o petista se defender nos autos. Ele contestou uma nota enviada à imprensa sobre o tríplex do Guarujá. A seu juízo, apresentaria um "álibi" de "pouca consistência com os fatos".

Em São Paulo, Lula se pintou para a guerra. Reuniu aliados, criticou o juiz e prometeu reagir. "Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo, porque a jararaca está viva", desafiou.

A ofensiva da Lava Jato pôs o ex-presidente de volta no palanque. Em tom de campanha, ele escancarou o discurso de candidato ao Palácio do Planalto. "O que aconteceu hoje era o que precisava acontecer para o PT levantar a cabeça", afirmou. "Estou disposto a andar por este país."

Aos 70 anos, Lula mostrou que ainda tem força para mobilizar aliados a defendê-lo de forma incondicional. No dia em que acordou com a polícia na porta, ele voltou para casa nos braços de seguidores.

Resta saber se o discurso aplaudido pelos petistas será capaz de hipnotizar plateias mais amplas no Brasil de 2018. O país está mudando, e a imagem do ex-presidente também. Ele não está fora do jogo, mas terá dificuldade de sustentar o velho figurino de vítima das elites. Pelo menos enquanto não explicar bem a relação de simpatia, quase amor, que manteve com empreiteiras do petrolão.

O adversário é a lei - DORA KRAMER

O Estado de S. Paulo - 06/03
Triste do homem público cujo adversário é a lei. Desalento visto com nitidez no semblante do ex-presidente Luiz Inácio da Silva depois do interrogatório de sexta-feira quando, num angustiado esforço para se manter altivo, manifestou-se contra o perfeito funcionamento de instituições do País que presidiu.

Mais tarde, no Sindicato dos Bancários – aquele que deixou a ver navios vazios os bancários que viram suas economias desviadas de uma cooperativa habitacional para o cofre do PT e para o bolso de petistas –, atirou-se ao ato patético de anunciar a candidatura à Presidência em 2018. Ocasião em que tanto poderá estar na batalha para convencer uma população já devidamente informada a colocá-lo de novo no topo de uma cadeia alimentar de corrupção, quanto poderá ser um réu ou um condenado.

Em razão das perspectivas desfavoráveis, Lula da Silva tenta circunscrever suas agruras e embates ao campo da política, quando os dados objetivos transportam seu infortúnio para as alçadas da polícia e da Justiça. Foi-se o tempo em que Lula e o PT podiam brigar na arena e com as regras sob as quais detêm total domínio, a disputa política e, sobretudo, eleitoral.

Não é disso o que se trata no presente. Não está na oposição a raiz dos problemas do ex-presidente, de seu partido e de sua sucessora. Por seus erros e também por seus acertos de conduta, o PSDB nunca se mostrou nem se mostra agora um adversário à altura. A oposição formal perdeu todas quando tentou enfrentar os mestres da manipulação do peso da consciência alheia, da condescendência dos ingênuos, das conveniências dos aproveitadores e da omissão dos covardes.

Agora o tucanato dá sinal de racionalidade ao perceber o lance e se recusar a entrar no jogo da provocação. Enquanto o PT aposta na radicalização nas ruas para tentar intimidar as forças contrárias, o senador Aécio Neves faz um apelo à moderação e ao respeito às investigações, sabedor de que poderia ser responsabilizado por males maiores se incitasse protestos.

Deu corda ao enforcado. Optou por deixar o PT brigar sozinho e, assim, pagar a conta por eventuais danos à civilidade. Prejuízos estes que poderão ser maiores ou menores, dependendo da disposição de Lula de prosseguir na mesma incitação ao confronto que marcou a conduta dele à frente da Presidência da República. Na época era movido pela soberba. Hoje é motivado pelo ódio aos que não se rendem à sua presumida (e já perdida) majestade.

Nesse cenário de articulada radicalização, seria de esperar da presidente da República uma posição apaziguadora. Não foi, contudo, o que se viu no pronunciamento de Dilma Rousseff no final da tarde de sexta-feira. Ela, ao contrário, deu gás à (falsa) polêmica, desqualificou o trabalho da Polícia Federal e desclassificou decisão da Justiça ao se dizer “absolutamente inconformada” com a condução coercitiva de Lula.

Nada fez contra a suposta ilegalidade, porque nada havia a fazer além de falar como quem dá salvo-conduto a um personagem perdido em seu labirinto. Dele, Lula tentará sair por meio da intimidação e da violência. Não vai conseguir porque já não combate em campo conhecido.

O ex-presidente trava, sim, uma batalha. Guerra, no entanto, perdida para a legalidade, a impessoalidade, a probidade e a transparência de um grupo de policiais argutos e de procuradores muito bem preparados para fazer frente a uma gente que só tem em mente as conveniências e o bem estar da própria gente.
Para Dilma só restam duas escolhas: ou embarca ou deixa o barco correr.

As portas de março - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 06/03

O sítio Santa Bárbara, em Atibaia, tem um caseiro chamado Maradona e é um autêntico gol de mão, desses que se fazem na esperança de enganar o juiz. O sítio foi reformado, assim como o tríplex de Guarujá, por duas empreiteiras envolvidas no Petrolão: OAS e Odebrecht. É um enigma como o tríplex do Guarujá. Estávamos nos divertindo com os pedalinhos do sítio Santa Bárbara, quando surgiu a delação premiada de Delcídio do Amaral, ex-líder do governo. São revelações tenebrosas de sabotagem da Lava-Jato. Lula pagando à família de Nestor Cerveró para proteger seu amigo Bumlai. Dilma nomeando um ministro do STJ para libertar os empreiteiros.

Tudo isso acontece depois de o PT derrubar um ministro da Justiça e colocar outro com as iniciais WC para tentar conter a lama que chega ao Palácio do Planalto. O que significa controlar a Lava-Jato, nesta altura das investigações? Há uma fila de delatores no pipeline. Novas informações virão à tona, as coisas ficarão mais claras ainda, como se ainda não fossem suficientemente claras. Na sexta, com novo ministro e tudo, a Polícia Federal, cumprindo determinações da Justiça, fez uma devassa no Instituto Lula e nas casas da família. Uma pessoa sensata diria que não é hora de brigar com a polícia e sim discutir coisas mais práticas com ela, como banho de sol, visita íntima.

O filme está acabando, e as revelações de Delcídio mostram uma realidade que já intuíamos: a luta surda contra a Lava-Jato. Diziam que José Eduardo Cardozo caiu porque não controlava a Polícia Federal. Caiu, na verdade, depois de tentar o controle e fracassar. Esse juiz, Marcelo Navarro, que teria sido nomeado para liberar no STJ, já foi denunciado inúmeras vezes no site “O antagonista” como o homem que iria dar os habeas corpus. Bem que ele tentou: perdeu por 4 a 1.

Tentaram controlar o Supremo, a julgar pela delação de Delcídio, e falharam. Tentaram o STJ, perderam de 4 a 1. Fizeram de tudo e se esborracharam. As portas estão se abrindo. A começar pela tarefa urgente de derrubar Eduardo Cunha, transformado em réu pelo Supremo Tribunal Federal.

Cunha é um imenso trambolho no caminho. Se a Câmara não destitui da presidência um réu na Lava Jato, acusado em depoimentos de delatores e com contas na Suíça, então é uma tarefa que os próprios ministros precisam executar. Mas isso pode ser feito rapidamente na Câmara. Basta parar tudo e forçá-lo a sair. A oposição tem o dever de fazer isso e realizar uma nova eleição. Como conviver com a ideia de que um presidente da Câmara é, ao mesmo tempo, réu no maior processo de corrupção do país? É tão grave quanto conviver com um governo que se elegeu usando dinheiro do Petrolão para pagar seu marqueteiro. E tentou de várias maneiras sabotar as investigações da Lava-Jato. Dilma e Cunha estão queimados, há um rastro de fumaça nos poderes da República. Os tribunais, Superior e Eleitoral, são as únicas forças de pé. Têm que dar uma resposta.

O que está se passando no Brasil pode ser visto de muitas formas. Mas é também humilhante viver num país em que dois poderes estão afundados no escândalo. Daí a importância de domingo que vem, dia 13 de março. É o momento em que a sociedade tem chance de mostrar como vê tudo isso. As pesquisas já indicam o sentimento majoritário.

Manifestações são diferentes de cifras: pessoas de carne e osso expressando sua vontade de resolver a crise política. Elas sabem que desatar esse nó traz um alento para o combate em outro front assustador: a economia. Já se fala num cenário de moratória, no qual o Brasil não terá condições de saldar os seus compromissos. Quebradeira. Ainda é um cenário no horizonte. Torna-se mais provável quanto mais demorar a solução da crise política com a saída de Dilma e Cunha.

Dessa maneira vejo o 13 de março. Um dia não apenas para protestar contra Dilma e Cunha, pateticamente agarrados aos seus cargos, enquanto o país afunda. Mas para afirmar que esse é o passo inicial de um longo e áspero caminho para soerguer a economia. O PIB caiu 3,8% em 2015. As perspectivas são piores em 2016. As respostas positivas do mercado ao fim do governo indicam como o colapso dos dois podres poderes será um passo adiante. Entre outras, a vantagem de mudanças impulsionadas pela sociedade é a consciência coletiva da amplitude da crise econômica. Não posso garantir que esse será o caminho vitorioso. Apenas afirmo que as possibilidades de saída são muito maiores quando há sintonia entre um governo respeitável e uma população consciente da gravidade do momento.

Já disse isso de muitas formas. O Brasil está parecendo um pouco com aquele personagem do Castelo do Kafka que esperou anos diante de uma porta, para descobrir que estava aberta.

Quem sabe, domingo que vem?

Lula fortão, Lula fraquinho e a crise - VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de S.Paulo - 06/03
Lula no papel de vítima é uma personagem que mais preocupa do que anima a oposição, o PSDB pelo menos; prejudica o plano de deposição de Dilma Rousseff. Lula na delegacia e o tumulto decorrente vão fazer o PMDB deixar como está para ver como é que fica até os protestos contra a presidente, no dia 13. Vai à breca a discussão parlamentar de planos para conter a ruína econômica, que assim mais ruína será.

Essas parecem ser algumas consequências do transe da semana passada e de Lula ter sido levado, sob vara, a uma delegacia.

Lula vítima das elites, o "Lula fraquinho", a seguir pode se tornar o "Lula fortão", o pobre que venceu na vida, vingador do povo. Relembra-se aqui uma mistura de teoria com roteiro de cinema inventada lá por 2006 por João Santana. "Fortão" e "fraquinho" eram os papéis subliminares desempenhados pelo ex-presidente em campanhas e discursos orientados pelo marqueteiro.

O Lula "fraquinho" que, tal como o Hulk dos quadrinhos, se torna "fortão", assusta oposicionistas. Mais que isso, embates contra Lula tiram o foco da derrubada de Dilma, na análise de senadores tucanos.

"Bater em Lula é desperdiçar energia. Não resolve o problema do país. Lula não está no poder, é um problema da Justiça. Dilma é o foco", diz um líder tucano. Pior ainda, os ataques a Lula podem reaproximá-lo da presidente e reunificar o "campo petista" ou da esquerda. Movimentos sociais, partes do PT e o governo vinham se insultando.

Na sexta-feira de noite, movimentos sociais que andavam chamando Dilma Rousseff de "traidora" da esquerda juntaram-se para saudar Lula e "barrar o golpe", no comício de desagravo no Sindicato dos Bancários de São Paulo.

A "condução coercitiva" levou Lula a relançar sua candidatura para 2018 e prometer uma "caravana" pelo país. O PT prepara protestos para esta semana e para 31 de março, data do golpe que derrubou João Goulart. A princípio, essa manifestação deve se chamar "1964 Nunca Mais".

O PMDB fica quieto, por ora. Antes de tomar um rumo, até o do impeachment, a ideia é: 1) Continuar o programa de pacificação até a convenção do partido, no dia 12: passar uma cola na relação entre Renan Calheiros e Michel Temer; 2) Esperar o que "será das ruas": avaliar a força de Lula e, principalmente, o tamanho do protesto do dia 13 contra Dilma.

Segundo o pessoal do PSDB, praticamente foi por água abaixo a ideia de "colaborar" com programas de reformas ou remendos econômicos do governo. O plano é atravancar tramitações e insistir em destravar o processo de impeachment. Eduardo Cunha vai pelo mesmo caminho, emperrando a Câmara enquanto o Supremo não der definições sobre o rito de impeachment.

Um trio de empresários e banqueiros relevantes ficou incomodado com o cerco a Lula, uma "irresponsabilidade, vai insuflar os ânimos e aumentar o conflito no país arrasado, como se já não bastasse a Dilma", no dizer de um deles, de resto nem favorável ao impeachment. O resumo da ópera dessa visão é que os processos "precisam ser resolvidos", com o mínimo de conflito, rapidamente, para que o país possa tomar um rumo, o que de qualquer modo julgam improvável –a crise ainda iria longe. Mas conflito na rua preocupa muito essas pessoas.