quarta-feira, janeiro 27, 2016

Pero sin perder la ternura jamás - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP -27.01
A decisão de política monetária foi surpreendente e justificada pelo temor da desaceleração da economia global, acerca da qual dirigentes do BC foram alertados em reunião do Banco de Compensações Internacionais (BIS) e cujo efeito mais direto, em sua opinião, seria reduzir a inflação.
Eu me refiro, claro, à reunião do Copom de agosto de 2011, quando o Banco Central, sob a suposição de um "cenário alternativo" (segundo o qual "a deterioração do cenário internacional [causaria] um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009"), iniciou um processo de redução da taxa de juros que só cessaria em outubro de 2012, embora expectativas de inflação e as próprias projeções do BC se encontrassem acima da meta.
Não há a menor dúvida de que se tratou de um movimento desastroso: a partir daí o BC perdeu de vez a batalha das expectativas, que jamais voltaram a se aproximar da meta de inflação. O tal impacto da crise internacional nunca se materializou e a inflação superou a meta em todos os anos desde então.
Sim, usei um truque retórico barato, mas a verdade é que não há como deixar de notar as semelhanças entre o que ocorreu à época e a decisão da semana passada, em particular o apelo a fenômenos internacionais para justificá-la aos olhos do público, retórica ainda mais mixuruca do que a minha.
Isto dito, além de o Banco Central ter requentado a desculpa de 2011, a forma pela qual o processo se desenrolou foi vexaminosa. Seu presidente, no dia da reunião, ressaltou o rebaixamento das projeções do FMI para o crescimento brasileiro, aparentemente ignorando que o boletim Focus (publicado, a propósito, pelo BC) já mostrava a mesma piora das expectativas sobre o desempenho nacional.
Não bastasse isso, veio em seguida à reunião, por meio de porta-voz não oficial, com mais um pretexto por ter violado o silêncio às vésperas do encontro: seria para "assegurar que todas as opções estivessem na mesa no dia de abertura do Copom", pois, "se não tivesse feito uma sinalização prévia, a repercussão da decisão (...) teria sido ainda mais negativa". A preocupação comovente com o mercado de renda fixa e seus pobres operadores chega a me enternecer...
Melhor seria, porém, ter se preocupado com outra reação de mercado, já devidamente documentada aqui na Folha: a elevação das expectativas de inflação que se seguiu à decisão do Copom, num eco desconfortável do erro de 2011.
Com efeito, comparando o rendimento dos títulos do Tesouro com e sem proteção contra a inflação, é possível estimar a chamada "inflação implícita", medida imperfeita, mas rapidamente disponível, das expectativas inflacionárias, com a vantagem de representar apostas em que dinheiro está em jogo, quando preconceitos são deixados de lado diante da possibilidade de ganho e perda.
Assim, entre segunda-feira, antes da "sinalização" do Banco Central, e quinta-feira, o dia imediatamente posterior à reunião do Copom, essas medidas subiram em todos os horizontes, mas em particular para os próximos dois a três anos, revelando a piora da percepção quanto à inflação.
A inevitável conclusão é que o BC repetiu o erro de 2011; plagiar a desculpa esfarrapada de 2011 (em que só Delfim Netto acredita) é apenas reflexo da parca imaginação do BC.

Saldo revelador - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 27/01
Ninguém deve se iludir. As contas externas do país fecharam 2015 menos ruins do que as de 2014, mas não há o que comemorar. Pelo contrário, a melhora se resume à redução do deficit. Apesar das razões que levaram nossas contas com o resto do mundo a aparentar avanço, elas são, na verdade, mais uma coleção de reflexos do naufrágio no qual a economia brasileira se debate.
Conforme o Banco Central (BC) divulgou ontem, o rombo nas contas externas em 2015 somou US$ 58,942 bilhões, o mais baixo em seis anos. Um alívio: foi possível cobrir contabilmente o deficit com a entrada de Investimentos Diretos no País (IDP), de US$ 75 bilhões - antes conhecido como Investimento Direto Estrangeiro (IDE), que, em nova metodologia, passou a considerar o intercâmbio de recursos entre empresas brasileiras e suas filiais no exterior. Não quer dizer que o IDP tenha sido grande sucesso, já que foi o menor valor desde 2013.
É fato que o deficit veio menor do que esperava o próprio BC, que trabalhava com estimativa de US$ 62 bilhões para 2015. Também é verdade que o rombo deixou longe o recorde registrado em 2014, de US$ 104 bilhões. Mas continua muito acima do que especialistas consideram tecnicamente saudável. Como proporção do Produto Interno do Bruto (PIB) do país, o deficit em contas externas do Brasil em 2015 correspondeu a 3,32%, mas não deveria ultrapassar os 2,5%.
Um dos fatores que contribuíram para reduzir o tamanho do deficit externo do ano passado foi o saldo da balança comercial. Ou seja, a soma de tudo que o país exportou menos o quanto pagou pelo que importou ficou positiva em US$ 17,670 bilhões. Também aí sobram motivos para governo e agentes econômicos se preocuparem. É que a balança comercial melhorou por motivos tortos. Não houve aumento das exportações, como seria desejável.
Em vez disso, as vendas externas do país tiveram importante queda de 15,2% em relação a 2014. O saldo positivo foi possível porque as importações brasileiras, antes vigorosas para atender à expansão da produção e ao consumo das pessoas, despencaram, registrando queda ainda maior que a das exportações: recuo de 25,3% ante 2014, pelos critérios do BC, que incluem operações como a compra de energia de Itaipu.
A queda expressiva nas importações não pode ser atribuída apenas à desvalorização do real ante o dólar. Estão em queda preocupante as importações de insumos e de equipamentos para a expansão e modernização da produção, especialmente por parte da indústria. Além disso, revela o recuo na aquisição de bens de consumo e gastos com viagens ao exterior em razão da perda de emprego e renda da população.
Não menos preocupante é a constatação de que, apesar do câmbio favorável, as exportações não ganharam fôlego suficiente para ajudar o país a sair da recessão. Portanto, em vez de festa, o que as contas externas sugerem é que o Brasil não pode mais esperar para reagir com reformas que reduzam a burocracia e o custo de produzir no país com mais competitividade. O Brasil precisa se organizar para ocupar o lugar que merece na economia mundial. Se não o fizermos, a concorrência o fará.

Governo de algemas - ROSANGELA BITTAR

Valor Econômico - 27.01

Lula acha que não há uma alma mais honesta que ele nessa terra brasilis, e a terra acha que não há uma alma brasileira feliz, neste momento, com sua vida financeira, profissional, social, ética, política.
Nem o Carnaval é capaz de melhorar esse estado de espírito. O desconforto é diversificado, pode-se fazer a pesquisa em diferentes universos que ora irão cravar o desemprego como o maior problema do país, outro momento será o da corrupção, ora é a saúde que, em qualquer nível, esfera administrativa ou partido na gestão é o que arrefece o entusiasmo com a vida de todo cidadão responsável. Há enquetes que mostram grupos numerosos preocupados com transporte, outras revelam terror com a ausência das obras de infraestrutura que poderiam conter os desastres naturais mas as providência para evitá-los não aparecem antes. E como a presença do governo na vida do cidadão é por aqui sufocante, a responsabilidade por todos os males, omissão e ação, é mesmo do governo. No caso do governo Dilma, omissão, pois a paralisia é total.
O governo está no segundo ano do segundo mandato e não começa. A presidente é movida por um festival de negações, de sustos, de respostas vazias quando resolve fornecê-las, de lugares comuns, sentenças carentes de sentido. Passa a maior parte do tempo enfurnada. De vez em quando, tocada por uma ameaça forte de ser defenestrada, reúne grupos, mobiliza, discursa, viaja. Mas na maior parte do tempo se preserva. Se explode, é internamente, nem isso se vê. O problema é sempre o outro, ou não há problema.
O professor Delfim Netto fez uma boa síntese em entrevista à jornalista Claudia Safatle, publicada no Valor de segunda-feira: não existe presidencialismo sem presidente. Já havia ele próprio, em manifestações anteriores, destacado a falta de protagonismo de Dilma Rousseff. Eufemismos. Aconselhou-a a assumir sua responsabilidade, mas o fez por vias tortas. Sugeriu que ela coloque o Congresso contra a parede exigindo que aprove reformas de fundo ou assuma a culpa pelo caos.
Jogar a responsabilidade de governo sobre o Congresso é só o que este governo tem feito, desde sempre. Embora esteja com o principal partido da aliança que o sustenta, o PT, o confronto das ideias de reforma sugeridas por Delfim. Pode ser a técnica da psicologia de dizer a ela para agir mesmo que seja para por peso nas costas do próximo.
A presidente passou pelo espasmo das providências com relação ao desastre ambiental que atingiu várias cidades de Minas, passou pelo espasmo das providências de combate ao Aedes aegypti, a maior vergonha nacional e o maior risco à população no momento, e agora se prepara para enfrentar outro espasmo de ação, o da ressurreição do Conselhão, de cuja eficácia o Brasil está livre desde sua gênese. Como um conselho de 80 pessoas nada resolve, já se pode prever, por exemplo, o resultado de sua primeira reunião, na quinta-feira. Dilma encontrou-se com oito ministros de Estado, ontem, para preparar medidas a serem anunciadas aos ilustres integrantes do grupo, entre elas a retomada do crédito como motor do crescimento. De novo. Além de outras que também acha o governo que vale a pena reiterar, reiterar, reiterar.
Em contrapartida espera ouvir dos conselheiros o apoio ao governo na sua campanha para aprovar a CPMF no Congresso e levar adiante a reforma da Previdência. Dilma não tem demonstrado força nem criatividade para sair do redemoinho.
Sabe que o impeachment acabou, mas no lugar da guerra que travava para se manter no cargo a presidente não tem o que colocar.
Não há também mais a disputa Nelson Barbosa versus ministro da Fazenda, vez que ele assumiu o posto de seu próprio freguês de contendas. Então, em lugar de apresentar novas armas, será mais um para voltar seus mísseis ao Congresso.
No meio desse nevoeiro, a presidente está sempre perplexa: com o FMI, com a corrupção, com seus assessores diretos envolvidos em suspeita de irregularidades nos processos correntes, com o desleixo do governo, com a falta de iniciativas que tirem o país do ciclo de calamidades.
Agora deve estar estarrecida, um estágio mais avançado do que perplexa, com seu ministro da Saúde, de uma franqueza desconcertante, que diz, como a OMS, que estamos perdendo a guerra para o mosquito Aedes aegypti, e numa nova versão do dito malufista "estupra mas não mata", disse que torce para que as mulheres peguem a doença que provoca microcefalia antes de engravidar.
Esse ministro da Saúde, porém, é o de menos. Ele entrou em outubro para a história do Brasil, ao ingressar no governo quando a dengue, a zika e a chikungunya já eram epidemia. Nos governos Lula e Dilma o PT colocou na Saúde seus ministros politicamente mais fortes. Alexandre Padilha de lá saiu para disputar o governo de São Paulo; Humberto Costa foi enfrentar Eduardo Campos em Pernambuco, e hoje é senador que volta e meia assume a liderança dos interesses do governo; e o último, Arthur Chioro, o mais enraizado no partido, que ampliou os tentáculos petistas pelo ministério inteiro, fazendo uma administração por conferências e assembleias, foi provavelmente o mais inerte.
Se for possível deixar o pensamento dar um voo daqui para trás, não é possível deter a atenção em uma única providência inovadora, séria, competente para resolver o dramático problema da saúde. Para um único Mais Médicos, há centenas de redes falidas de atendimento à saúde como a do Rio e a de Brasília.
O futuro que se vem desenhando também não é atraente. Procura-se uma ideia de Ciro Gomes, por exemplo, o último candidato a presidente lançado esta semana, um único plano ou medida para o governo do Brasil, e não se acha; procura-se um caminho apontado por Dilma para a Petrobras, em que é especialista, sair do buraco onde a jogaram, e não se vê; procura-se uma fonte de recursos para o governo meter a mão que não seja o FGTS, uma espécie de fundo de pensão dos novos tempos a sofrer sangria, não há. Passado, presente e futuro sem perspectiva.
Encurralado pelas denúncias e suspeitas, processos e delações, Lula resolveu cuidar da vida, da sobrevivência política, das campanhas eleitorais, e deve parar de ficar tutelando Dilma a cada nova rodada de crise. Só Dilma pode libertar seu governo das algemas.

Banco Central: a falta que a autonomia faz - CRISTIANO ROMERO

Valor Econômico - 27/01

Quanto mais o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, tenta explicar a decisão de mudar subitamente o rumo da política de juros no último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), menos convincente a história fica. Tombini alega que, ao participar de reunião na Basileia nos dias 9 e 10, foi informado da forte desaceleração da economia chinesa e da queda dos preços do petróleo. Ele teria constatado que os dois movimentos produziriam efeitos desinflacionários na economia mundial e que o certo seria, então, o Copom manter a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano, em vez de elevá-la, como vinha sendo sinalizado pelo próprio BC há alguns meses.
Daquele domingo até o primeiro dia da reunião do Comitê, passaram-se nove dias. Tombini, mesmo assustado com os prognósticos de seus colegas banqueiros centrais reunidos no Banco de Compensações Internacionais, resolveu avisar ao distinto público, apenas na véspera da decisão, que levaria o Copom a tomar uma decisão diferente daquela que vinha sendo antecipada em documentos e discursos oficiais.
No dia 14, o presidente do BC teria recebido do Fundo Monetário Internacional (FMI), cinco dias antes da divulgação oficial, as novas projeções para o crescimento do Brasil e do mundo em 2016 e 2017. Os números eram revisões para baixo do que o Fundo havia divulgado em setembro. Mais uma vez, o presidente do BC ficou atemorizado com o que viu.
É curioso que Tombini não tenha se apavorado antes com as projeções do mercado divulgadas semanalmente pelo BC e que há tempos já previam queda de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, apenas 0,5 ponto percentual abaixo do que diz o FMI. "A ideia de que o FMI sabe mais do que nós sobre o estado da economia é extravagante", disse, em entrevista à Cláudia Safatle, o ex-ministro Delfim Netto.
O que se sabe é que, um dia antes do encontro do Copom, quando anunciou seu espanto com as projeções do FMI, Tombini se reuniu com a presidente da República. Alguém tem dúvida sobre a opinião de Dilma Rousseff acerca do tema taxa de juros?
O que está em discussão não é a decisão da semana passada. Economistas de perfil ortodoxo defenderam publicamente a manutenção da taxa Selic em 14,25%. O que precisa ser debatido é a débil institucionalidade do Banco Central, que produz episódios como o da última reunião do Copom e é responsável em grande medida pela tragédia econômica vivida pelo Brasil neste e nos últimos cinco anos.
Há vários fatores concorrendo para o fato de o país conviver com os juros mais altos do planeta. Um deles é, sem dúvida, a ausência de independência formal da instituição. Apenas isso já responde por alguns pontos percentuais da taxa Selic - três, segundo estimativas de estudiosos do tema.
Quando era ministra do governo Lula, a presidente acreditou na tese de que os juros são altos no Brasil porque alguns diretores do BC são provenientes do mercado financeiro. Com sua influência crescente, ela conseguiu que esses diretores fossem substituídos por funcionários de carreira. Ao chegar ao Palácio do Planalto, fechou as portas do BC a nomes da academia ou do mercado e nomeou Tombini para comandá-lo.
A ascensão do atual presidente do BC foi facilitada por uma conversa que ele teve com Dilma durante a transição de governo em 2010. No colóquio, ela perguntou se seria possível chegar a 2014 com juro real de 2% ao ano. O futuro presidente do BC respondeu prontamente: "Sim".
Economista de formação rigorosa, com doutorado pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e conhecimento profundo tanto de micro quanto de macroeconomia, Tombini foi o primeiro chefe do Departamento Econômicos (Depec), criado para amparar com estudos e estatísticas confiáveis o regime de metas para inflação, adotado em meados de 1999. Ele tem experiência e dispõe de conhecimento técnico para lidar com os temas mais complexos de uma autoridade monetária.
O que Tombini e seus colegas de diretoria não têm é independência para cumprir o mandato constitucional do BC - zelar pelo poder de compra da moeda, reduzindo a inflação para a meta (4,5%). Como funcionários públicos, eles são constrangidos publicamente e perseguidos politicamente, como ocorreu recentemente com o próprio Tombini. Na mesma situação, diretores vindos de fora podem pedir as contas e ir embora - hoje, apenas um diretor (Tony Volpon, da área internacional) é oriundo do mercado.
Em agosto de 2011, Tombini fez alegações parecidas com a de agora para embarcar numa aventura que está custando muito caro ao país. O enredo é muito parecido: depois de participar de uma "terrível" reunião na Basileia, ele teria ido à presidente Dilma para informá-la de que a Europa mergulharia novamente numa recessão e que isso teria efeitos desinflacionários em todo o mundo; diante desse quadro, seria possível reduzir drasticamente a taxa de juros.
Na ocasião, o BC vinha comunicando que, graças a pressões inflacionárias e especialmente à deterioração das expectativas, os juros continuariam subindo. Sem emitir qualquer sinal ao mercado (leia-se: à sociedade), Tombini e seus diretores reduziram a taxa Selic no fim de agosto, iniciando um processo que a levou para 7,25% ao ano em 2012. Aquela decisão foi o marco inicial do que ficou conhecido como Nova Matriz Econômica, um conjunto de medidas que destruiu o bem-sucedido arcabouço macroeconômico adotado pelo país em 1999.
Na gestão Tombini, a média inflacionária anual aumentou para 7,07%, acima do teto permitido (6,5%); as expectativas de inflação, desde 2011, estiveram sempre acima da meta; a volatilidade da taxa de juros é a maior da história do regime; a comunicação com o mercado é deficiente, o que dificulta ainda mais a gestão das expectativas etc.
O Brasil tem hoje o juro mais alto do mundo, uma das inflações mais elevadas e está em recessão há dois anos. Não tem o único benefício dos juros altos, que seria inflação baixa ou pelo menos em torno da meta. O juro alto, além de inibir a atividade econômica, provoca uma enorme despesa aos cofres públicos - nos 12 meses até novembro, chegou a R$ 496,9 bilhões (8,42% do PIB). A quem interessa, portanto, que o BC não tenha autonomia? O que a sociedade ganha com o atual modelo?

Tem boi na linha e na polícia - VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de SP - 27/01
Parece inédito o número de grandes empresas brasileiras envolvidas em rolos medonhos e que estão sendo investigadas por policiais, promotores e procuradores.

De qualquer modo, não há memória anedótica ou jornalística de que tantos rolos tenham parado simultaneamente na polícia ou no xadrez.

Parênteses: sim, o motivo desta nota é o caso dos grupos JBS ("Friboi") e Banco Rural (notório no mensalão). Soube-se ontem que a cúpula dessas empresas foi acusada pelo Ministério Público Federal de fraude financeira.

Então, em vez de lavar as mãos, a ideia agora é ter mãos limpas?

Esse assunto deriva rapidamente para a politização barata e para debates débeis sobre copos meio vazios ou meio cheios de água suja. Suscita também aquelas comparações algo provincianas, pelo imediatismo ou mera ignorância: "só no Brasil...".

Essa conversa mais jeca morre logo quando se recorda a sujeira que é boa parte da grande banca global, que assina termos confessando ter formado quadrilha (sic) para fraudar o fisco dos EUA e paga bilhões de dólares de multa para limpar a barra ou que manipula taxas de juros centrais do mercado etc., para citar apenas poucos episódios.

Ainda assim, não é o caso de ficarmos animados de estarmos em tão má ou boa companhia.

Primeiro, porque não há muitas grandes empresas no Brasil. Uma olhada rápida nas 20 maiores do país indica que quase metade está envolvida em algum rolo.

Segundo, porque o governo é sócio ou dono de várias dessas companhias (embora nada tenha a ver com vários dos crimes). O BNDESPar (braço de investimentos do BNDES) tem 25% do capital da JBS, por exemplo, 35% de todo o investimento da empresa em companhias coligadas (sobre as quais tem influência significativa das decisões).

Terceiro, porque os casos mais teratológicos foram propiciados ou tiveram parte ativa de gente do governo, que recriou um sistema de proteções e favores vários para oligopólios apadrinhados pelo Estado com leis e dinheiros baratos.

Este caso foi o da Petrobras e complexo associado, obviamente, uma versão grotesca de perversões do nacional-desenvolvimentismo, ressuscitada mesmo depois de desastres vistos, por exemplo, na ditadura militar, besteira analisada e provada, no Brasil e no mundo, em extensa bibliografia.

Lembre-se ainda de que há grandes empresas acusadas de pagar propina para escapar de imposto no "tribunal" da Receita, caso muito emperrado, aliás, o que não cheira bem (Operação Zelotes). Há a ciranda do petrolão e escândalos conexos (anda mal parada também a investigação no setor elétrico). Quase todas as incorporadoras imobiliárias da rica e privatista São Paulo pagavam propina na prefeitura. Etc.

Nem toda a imundície é parceria público-privada; há muito caso de pura iniciativa privada, mas os limites são incertos.

A nova Lei Anticorrupção, progressos no Ministério Público e na Polícia Federal desde os anos 2000 e maior pressão internacional contribuem para dificultar a fraude.

Porém, dada a extensão do rolo, o tamanho dos envolvidos e os crimes que são cometidos mesmo nesse novo ambiente, a gente se pergunta se as mudanças serão suficientes para evitar uma nova geração de empreendimentos criminosos.

Causa e consequência - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 27/01

Toda essa polêmica sobre as gafes cometidas em série pelo ministro da Saúde Marcelo Castro, até chegar ao “sincericídio” de admitir que perdemos a guerra contra o mosquito da dengue, da zika e da chicumgunha, só tem importância por um aspecto: a maneira como os cargos são preenchidos.
Juntar causa e consequência não é um esporte muito praticado no Brasil, mas o fato de que a corrupção já aparece como o principal problema do país pode indicar que os brasileiros finalmente estão descobrindo que ela é uma das causas da crise em que estamos metidos.
Não adianta a presidente Dilma ficar nervosa com os desacertos verbais de seu ministro – logo quem –, se o substituto também será escolhido da mesma maneira e, pior que isso, provavelmente não haverá substituto, pois Marcelo Castro foi nomeado por indicação do então líder do PMDB na Câmara Leonardo Picciani, que não pode abrir mão de seu apoio, pois continua lutando para se manter no cargo.
A presidente Dilma sabe que, na atual circunstância, é melhor para ela continuar com um ministro da Saúde ineficiente e boquirroto do que perder o apoio do líder do PMDB. O deputado Hugo Motta, colocado pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha na presidência da CPI da Petrobras e agora disputando a liderança na Câmara sob os mesmos auspícios, já saiu em defesa do ministro da Saúde, nomeado pelo mesmo Picciani com quem disputa agora a liderança na Câmara.
Isso quer dizer que Motta já vislumbra na crise da Saúde uma boa oportunidade para arrebanhar alguns votos na bancada peemedebista que apóia o ministro Castro, que deve estar muito irritado com as críticas que vem recebendo do Palácio do Planalto.
Não será surpresa se nos próximos dias, a pedido de Picciani, a própria presidente Dilma ou seu ministro principal Jaques Wagner sejam obrigados a dar declarações favoráveis a Marcelo Castro. Isso porquê a disputa pela liderança do PMDB está acirrada, e Picciani corre o risco de perder a eleição, o que vai levar novamente o impeachment para o centro do debate político.
Até aqui, tratamos de dois aspectos da crise brasileira: as negociações internas do PMDB, e a maneira como os governos nomeiam seus principais ministros. Digamos que as áreas da Saúde e da Educação fossem prioritárias para esse governo. Se pegarmos os critérios utilizados nas indicações de seus condutores, veremos que não pode dar certo esse sistema deturpado de presidencialismo de coalizão, que se transforma em cooptação pura e simples.
Em nenhum momento se fala sobre projeto de governo, sobre programa para a Saúde e a Educação. A “Pátria Educadora” não passou de um slogan vazio, e a escolha do filósofo Renato Janine apenas uma propaganda enganosa dessa prioridade. Não havia intenção de implementar nada, nem foi dada ao ministro condição mínima de atuação nos cerca de 5 meses em que esquentou a cadeira do ministério da Educação.
Logo um arranjo político obrigou a sua saída para acomodar o então Chefe do Gabinete Civil, Aluizio Mercadante, que voltou para a Educação como uma espécie de castigo por má atuação na coordenação política do Palácio do Planalto.
Então, não adianta a presidente Dilma ficar irritada com as tiradas do ministro da Saúde, assim como não deve esperar nada de um ministro como o da Ciência e Tecnologia, Celso Pansera, cujo maior mérito é ser “muito simpático, um gringão”, como o definem no PMDB do Rio, e ter sido dono de um restaurante rodízio na Baixada Fluminense.
Escolhido pelo PMDB do Rio, ele está lá da mesma maneira que Marcelo Castro está na Saúde, escolhido por Picciani para fortalecer a ala do PMDB que é contra o impeachment de Dilma. E como agora vão exigir deles o que não podem oferecer?
Já estamos vendo uma nova edição da mesma novela. Newton Cardoso Junior anuncia que em troca de apoio a Picciani, Minas exige a nomeação do ministro da Aviação Civil “antes da eleição”.
Do jeito como as negociações partidárias são feitas, é impossível imaginar uma saída a curto prazo dessa situação de anomia, onde ninguém é de ninguém e não se sabe quem manda, e com que objetivo.

O presépio da doutora Dilma - ELIO GASPARI

O GLOBO - 27/01

O Conselhão que se reúne amanhã é um retrato da capacidade do governo de viver no mundo da sua fantasia


O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi criado em 2003 e é composto por 90 membros. Para a reunião de amanhã, dois titulares tiveram que ser substituídos, pois Marcelo Odebrecht e José Carlos Bumlai estão na cadeia. Também estão trancados o ex-conselheiro João Vaccari Neto e José Dirceu, que assinou o ato de criação do organismo. É difícil imaginar outro grupo de 90 pessoas com semelhante desempenho. Para se ter uma ideia do que significa uma porcentagem de 2% de presos, vale lembrar que a taxa de brasileiros encarcerados para cada cem habitantes é de 0,3%.

O Conselhão pretendia ser um foro de debates. Tornou-se um pastel de vento a serviço da propaganda de um governo cuja titular diz que “o Brasil não parou, nem vai parar”. Os pibinhos e a recessão aconteceram no Burundi. É marquetagem tão inútil que desde julho de 2014 a doutora Dilma não o convocava. Uma reunião de 88 pessoas serve apenas para fotografias de um consenso inexistente. A menos que se considere consenso o fato de estarem todas sentadas.

Quando o Conselho foi criado, nele estava a atriz Lucélia Santos. Foi substituída por Wagner Moura. Pelo lado dos empresários, lá estará Jorge Paulo Lemann. Certamente, ele tem algo a dizer, mas, da última vez que foi ao Planalto, a doutora deu-lhe um chá de cadeira de mais de uma hora. Até aí pode-se pensar que tenha surgido algum imprevisto. O problema muda de figura quando se sabe que mandaram uma funcionária fazer-lhe sala, e ela dirigiu-se a Lemann em inglês. Coube a ele explicar que foi criado nas ondas de Ipanema. O surfista do século passado tornou-se o homem mais rico do Brasil porque a InBev produz e exporta gestão, exatamente o que falta ao governo da doutora.

Ele acaba de anunciar que adiou o cumprimento da meta anunciada em novembro de visitar todos os domicílios do país até o fim deste mês para combater o mosquito da zika. Lorota. O que houve foi o colapso de uma promessa impossível de ser atingida. Na melhor das hipóteses, foram a 15% das casas. Houve burocrata sugerindo que, para evitar o risco da microcefalia, as mulheres não engravidem. Como o mosquito está no Brasil há mais de um século, a providência extinguiria a população de Pindorama. Depois, veio o ministro da Saúde, torcendo para que as jovens sejam infectadas pelo vírus antes da idade fértil, pois assim adquiririam imunidade.

Como Brasília comanda espetáculos, em dezembro a doutora assinou o Decreto 8.612, criando uma Sala Nacional de Coordenação e Controle, para cuidar do mosquito. Ela funcionaria no Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional. A sala mágica seria habitada por representantes de seis ministérios, dentro do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, que, por sua vez tem três “eixos”: “Mobilização e combate ao mosquito, atendimento a pessoas e desenvolvimento tecnológico”.

Aí está a essência da gestão da doutora: havendo um problema (o mosquito), lança-se um plano de enfrentamento, cria-se uma sala de controle anexa a um centro de gerenciamento e, daí em diante, o assunto é dos outros. Se nada der certo, convoca-se uma reunião do Conselhão para mudar de assunto em busca do que o Planalto chama de “agenda positiva”.

Se tudo vai mal, logo... - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 27/01

Roubar para ostentar é um ato falho do nosso inconsciente aristocrático

A lógica nacional sempre foi sensata. Ela rezava assim: se tudo vai mal e, se o Brasil também vai mal, então tudo vai bem. Este princípio — hoje em suspeição — permeia o nosso pensamento. Está tão dentro de nós quanto o melado que nos lambuza. Prestigiado, ele foi encampado pela esquerda como um valor. O roubo dos outros, vociferam, legitima o nosso. Ademais, roubar aquilo que seria de todos para ajudar os pobres não é safadagem porque, até o advento desta desagradável era de transparência e de liberalismo golpista, o que era de todos não era de ninguém.

Pertencia aos que “subiam” e controlavam a “República”. Aliás, devo lembrar o nosso desgosto por tudo o que é “re-pública” (coisa pública), pois, sendo mais filhos de família do que cidadãos, temos horror à impessoalidade e ao anonimato, esses irmãos da igualdade. No país das celebridades e dos queridinhos, todo mundo quer, além da conta bancária na Suíça, uma coleção de carros de luxo ou um quarto secreto cheio de quadros tão falsos quanto o dono. Roubar para ostentar é um ato falho do nosso inconsciente aristocrático.

O de “todos” é negativo. Ou alguém vai casar com uma “mulher pública”? Não estaria aí o temor que, ao lado do nosso machismo, afasta as mulheres da política?

O fato é que a indiferença a “tudo que é de todos” define o que nós, brasileiros, entendemos por “política”. Para nós, a política é o túmulo do que não gostamos. Como nada temos a ver com ela, tudo o que diz respeito ao gerenciamento público é entregue aos políticos, que fazem o que bem entendem, desde que atendam aos nossos pleitos. Ou não nos perturbem com muitos deveres e impostos.

Enquanto isso, nós jogamos o nosso lixo na rua certos de que cabe ao “governo” resolver o assunto, mas a maldita “política” não deixa. Tudo vai bem até o dia em que descobrimos que o descaso em massa, ao lado de incompetência administrativa e da má-fé ideológica, levam o país à ruína.

E se países não são empresas, eles só prestam quando gastam menos do que arrecadam. Mas se a nossa utopia é todo mundo virar funcionário público, bolsista ou aposentado e, como prêmio, todo “político” ter o direito de roubar sem ser punido, então o Brasil vai pro brejo!

E, se ele não é de ninguém, hoje nós temos certeza que ele não pode mais ser de Lula, do PT, da dona Dilma e do lambuzado Jaques Wagner.

Há uma cadeia. A indiferença que é o maior fosso entre o Estado e a sociedade começa a acabar quando o colapso da saúde, da segurança e da educação vira calamidades. Ao lado das catástrofes climáticas e dos abismos sociais ainda puerilmente tratados como dependentes de “vontade política”, e não de uma moralidade engendrada pela escravidão negra, comandada por uma aristocracia branca, entramos no vermelho.

Mas, se somarmos a tudo isso a incompetência e a roubalheira, temos o nó de porco perfeito.

O que me intriga, porém, não é somente o roubo; é achar que há roubo de direita e roubo de esquerda. O primeiro é errado, o segundo é certo. Curiosa essa inversão carnavalesca já anunciada quando o líder do partido e um dos que mais lucraram com a ladroagem — Lula, o probo — desafia-nos publicamente afirmando que não há “viva alma” mais honesta que ele. Só mesmo pensando no carnaval pode-se ouvir essa bazófia de um sujeito capaz de desconstruir-se com tanta competência.

Eis o operário pobre que virou o presidente mais amigo dos ricos da história deste país. E, não satisfeito com essa mascarada, deu aos seus novos amigos mais que dinheiro, pois num feito digno de sua patológica onipotência, entregou-lhes o Brasil. Para tanto, tornou-se um misto de presidente-garoto-propaganda e criou uma rede de favores nacionais e internacionais com todo tipo de gente, preferencialmente com “pluto-cleptocratas”. Seu governo criou uma imensa e incompetente máquina estatal voltada para a reação anti-igualitária, com o devido abandono dos idiotas que, por amor, esperança, honestidade, ideologia e utopia, o elegeram. Voltado para o poder do dinheiro, o lulopetismo fabricou uma nova elite e um novo discurso, não mais baseado no velho marxismo libertador da Guerra Fria, mas num populismo de massa unipartidário, capaz de comprar legislação e legisladores, no que se transformou na mais grave roubalheira da história do capitalismo: o assalto que arruinou a Petrobras.

A parceria de um partido dito revolucionário com setores tradicionais do empresariado resultou em ganhos eleitorais, num fardo impossível de administrar e num incrível embaralhamento institucional. Hoje, ser de esquerda é impedir o funcionamento da Justiça. Hoje, buscar o rumo é ser golpista.

Criamos mais um brasileirismo: o “capitalismo de esquerda”. Aquele que rouba e não faz. Ao fim e ao cabo, quem paga somos nós. Mas, como tais arranjos ocorrem em toda parte e, além disso, como disse a presidenta, todo mundo erra, se tudo vai mal, logo...

terça-feira, janeiro 26, 2016

Que coisa feia, Boulos! - KIM KATAGUIRI

Folha de SP - 26/01

Guilherme Boulos, o burguês revolucionário, decidiu dedicar sua coluna do dia 21, nesta Folha, a mim. Senti-me honrado. Afinal, para lembrar Nelson Rodrigues, de certos tipos, só quero vaias. E o artigo foi uma bela tentativa de vaia.

O coxinha vermelho disse que "não é exatamente uma surpresa" a Folha ter me contratado, pois "a maior parte de seus colunistas é liberal em economia e politicamente conservadora, assim como sua linha editorial".

Como a gente nota, o propósito de divertir o leitor não se resume a humoristas como Gregório Duvivier, Marcelo Freixo e Vladimir Safatle. Boulos também está no time, com a pequena diferença de que o movimento que ele lidera pratica crimes, que é coisa um pouco diferente de apenas justificá-los.

Depois da graciosa piada, Boulos afirma que "talvez a surpresa de muitos fique por conta [sic]" do meu "despreparo". É claro que o líder do MTST tem o direito de escrever asneira. Mas deve fazê-lo em bom português. Eu posso dizer que a prática de ações de caráter terrorista em São Paulo fica "por conta" de Boulos.

Acerto no fato e na gramática. Ao escrever sobre mim, nosso amiguinho empregou "por conta" em lugar de "por causa". Errou na gramática e no fato. Despreparo.

Boulos se diz surpreso porque eu e o MBL somos "tratados por alguns como representantes do 'novo'". Pergunto: o que há de novo em invadir a propriedade alheia? O que há de novo em pagar militantes para que defendam uma causa na qual não acreditam? Parece-me que a única novidade é que a rebeldia revolucionária hoje é apadrinhada pelo próprio governo.

O líder do MTST fala de um tal modelo econômico que "só atende aos interesses privilegiados do 1%". É famoso o "estudo" que sustenta que 1% da população mundial é mais rica do que os outros 99%. Mas nosso querido poodle do adesismo esqueceu de dizer que, segundo a metodologia dessa pesquisa, um mendigo sem dívidas é mais rico do que 2 bilhões de pessoas somadas. Isso porque a riqueza é calculada subtraindo-se as dívidas do patrimônio. Como 2 bilhões de pessoas têm dívida, sua riqueza é negativa. Não é estudo. É lixo.


Seguindo essa lógica, todos nós já fomos mais ricos do que o Eike Batista quando quebrou. Tomando cotovelada nos ônibus lotados, estávamos mais ricos do que o Eike comendo lagosta numa lancha.

Na sua compulsão invencível por passar vergonha, Boulos escreveu que o "Podemos", partido de esquerda, surgiu da energia do povo espanhol que "tomou as ruas e praças contra as políticas liberais de austeridade (...)".

Desculpo-me por acabar com seu mundo de unicórnios voadores, mas a energia que criou o Podemos é a mesma que o sustenta, caro Boulos: o dinheiro. Desde 2002, a Venezuela pagou mais de 3 milhões de euros para uma fundação que tinha entre seus gestores diversos líderes do partido. Você certamente sabe como isso funciona porque, afinal, comanda o MTST, também ele cheio de "energia".

Outro trecho de sua coluna me chamou a atenção. Escreveu ele, tentando atacar o Movimento Brasil Livre: "Defender os mecanismos sociais que produzem desigualdades, a ideologia meritocrática e a repressão a quem luta é o que há de mais velho".

Durante mais de um mês, coordenadores e apoiadores do MBL acamparam em frente ao Congresso Nacional para pressioná-lo a levar à frente a denúncia contra a presidente Dilma Rousseff, que pode resultar no seu impeachment.

No dia 27 de outubro, uma terça-feira, quando protestávamos nas galerias da Câmara, o deputado Sibá Machado (AC), líder do PT, nos chamou de "vagabundos", disse que iria "para o pau" com a gente. Na quarta, militantes do MTST, que Boulos comanda com mão de ferro e cabeça de jerico, nos atacaram a pauladas, pedradas, socos e chutes. Vários de nós ficaram feridos. Apesar disso, não reagimos, demos as mãos e ficamos de costas para os criminosos.

De fato, "a repressão a quem luta é o que há de mais velho" na história.

Especialmente, Boulos, quando os bárbaros que atacam estão falando em nome das ideias que eram vanguarda no fim do século 19.

Boulos finaliza citando uma tal "classe média sem projeto nem visão de país".

Acho que se referia a si mesmo. Já vi o MTST espancando pessoas inocentes, invadindo prédios e queimando pneus. Lembro-me de um debate do grupo, que eu mesmo presenciei, que é um emblema do "projeto de Boulos": a grande questão era que deputado iria pagar a marmita dos militantes a soldo.

Não vou convidar Boulos a deixar de ser autoritário e rançoso porque, aos 19 anos, já aprendi o que ele ignora aos 34: as coisas têm a sua natureza. E é da natureza de uma milícia como o MTST e de seu miliciano-chefe linchar fatos e pessoas.
Como eu não quero calar Boulos, não sou obrigado a engoli-lo. Como ele certamente gostaria de me calar, vai ter de me engolir.

PS - Boulos, se você não entendeu aquele negócio do 1% e da dívida, peça o meu telefone aí na Folha e me ligue. Explico. Nunca é cedo para ensinar alguma coisa nem tarde para aprender.

PS2 - A ombudsman da Folha, Vera Guimarães, escreveu no domingo uma ótima coluna sobre as reações à contratação deste colunista, inclusive a de Boulos.
Concordo com quase tudo. Ela me censura por eu não ter me redimido de uma piada postada há dois anos, que teria caráter machista. Repito o que disse em entrevista à TV Folha, Vera: "Piada não é uma forma de pensamento, não é uma ideologia". Salvo engano, não conheço nenhuma piada cem por cento justa. Aliás, deixemos as injustiças para o mundo do humor. Sejamos nós os justos.

Vidas negras - JOÃO PEREIRA COUTINHO

Folha de SP - 26/01

Há falta de negros em Hollywood? Parece que sim. A Academia indicou 20 nomes para o Oscar de melhor ator, melhor atriz e melhores atores coadjuvantes. E, entre os eleitos, não há um único negro.

Quando li o nome dos indicados, confesso que não pensei no assunto. Quando começaram a surgir as primeiras críticas, limitei-me a fazer a mesma pergunta que a atriz Charlotte Rampling (indicada ao Oscar por um papel notável no bergmaniano "45 Anos") partilhou com uma rádio francesa: e se os desempenhos dos atores negros não atingiram em 2015 certos patamares de excelência?

Heresia. Se não existem negros na corrida, isso demonstra o intrínseco racismo de Hollywood, que persiste em desprezar as minorias. A solução passa pelo boicote à cerimônia.

Respeito a indignação dos simples. Mas, depois da indignação, talvez não fosse inútil olhar para alguns fatos. A revista "The Economist" fez o trabalho duro e chegou a uma conclusão severa: o número de atores negros indicados ao Oscar durante o presente século está em sintonia com o número de negros que compõem a sociedade americana.

Se os negros, demograficamente falando, constituem 12,6% dos habitantes do país, a verdade é que tiveram 10% das indicações ao Oscar de interpretação nos últimos 15 anos.

Se existem minorias sub-representadas na conta final, são os hispânicos, e não os negros, os verdadeiros perdedores: representam 16% da população geral —e apenas contam para 3% das indicações ao Oscar em igual período.

Claro que, para a "Economist", a existência de discriminação não estará na Academia propriamente dita, embora a composição dos membros (6.000, dos quais 94% são brancos) deveria ter acompanhado a evolução demográfica da nação.

A discriminação, a existir, está nas escolas de formação dramática e nas agências de casting. Mais números: o Screen Actors Guild (ou, para facilitarmos o latim, o sindicato de atores) é majoritariamente composto de brancos (70%), o que reflete bem a cor da pele dos profissionais que saem das escolas dramáticas.

Além disso, e em matéria de "top roles" (papéis principais), só 15% das minorias (hispânicos, negros, asiáticos etc.) estrelaram os filmes desde o início do século.

Agradeço os números. Mas, em relação a eles, confesso dúvidas. Será assim tão bizarro que 70% do sindicato de atores seja composto de brancos —quando, escusado será dizer, os Estados Unidos são uma nação majoritariamente branca (acima dos 63%)?

Em relação aos "top roles", é um fato que as minorias só conseguiram 15% dos papéis principais, o que se traduziu em 15% das indicações ao Oscar e 17% das vitórias.

Mas, ao mesmo tempo, os atores negros estão sobrerrepresentados nessa cota:

eles ocupam 9% dos "top roles", com 10% das indicações ao Oscar e 15% das vitórias. Se alguém merece protestar na noite do Oscar, não são os negros. São os hispânicos, os asiáticos e, convém não esquecer, os povos nativos.

Seja como for, os delírios do pensamento politicamente correto sempre foram imunes à realidade. E a Academia já prometeu repensar as indicações ao Oscar de interpretação. Exemplo: será razoável indicar cinco atores quando é possível estender o manto para dez?

Boa pergunta. Imperiosa resposta: por que motivo ficamos nos dez e não avançamos imediatamente para 50? Ou cem? Ou até 500?

Aliás, para evitar qualquer discriminação, a Academia deveria indicar todos os atores que trabalharam no ano anterior, o que permitiria não esquecer ninguém e incluir todo o mundo.

Naturalmente que um esquema radicalmente igualitário como esse poderia inaugurar novas polêmicas: como falar de igualdade quando 70% dos atores continuariam sendo brancos?

Talvez a única solução seja estabelecer limites para o número de atores brancos que podem atuar em filmes.

Os restantes, se quisessem continuar em jogo, poderiam sempre pintar o rosto com graxa e imitar, no fundo, uma prática corrente da Hollywood primitiva: o "black face".

O que não deixaria de ser irônico: nas primeiras décadas do século passado, o "black face" era a suprema forma de exclusão e racismo.

Em 2016, pode ser a solução perfeita para o equilíbrio dermatológico perfeito.

Reação previsível - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 26/01

A carta de advogados com críticas à Operação Lava-Jato e ao juiz Sérgio Moro - já identificada como estratégica saída da defesa de Marcelo Odebrecht, e uma possível "campanha de comunicação" para tentar influenciar a opinião pública contra os procuradores e melhorar a imagem dos envolvidos nos escândalos da Petrobras - são reações já esperadas à medida que as investigações avançam e chegam mais perto do momento da denúncia contra grandes empresários e políticos.

Na contabilidade do chefe da equipe de procuradores da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, estão envolvidas "mais de 60 bancas de advogados que dominam o discurso jurídico, da melhor qualidade técnica, pessoas altamente influentes politicamente, poderosas economicamente, e é natural que em algum momento esse discurso ganhe volume" Eles têm em mente o que aconteceu na Itália durante a Operação Mãos Limpas, que teve um apoio popular grande durante os primeiros momentos e acabou sendo envolvida por diversas denúncias que, mesmo não tendo sido comprovadas, corroeram a confiança popular.

A reação do sistema político teve seu auge com a eleição de Silvio Berlusconi como primeiro-ministro em 1994. Os juízes Di Pietro - que mais tarde entraria na política - e Davigo foram convidados para serem seus ministros, mas recusaram diante da evidência de que o que Berlusconi queria mesmo era desmobilizar a Operação Mãos Limpas.

Tomou corpo, então, uma campanha de difamação contra as principais figuras da Mãos Limpas, em especial o juiz Di Pietro, e acusações de abuso de poder nas investigações. Não é novidade, portanto, a campanha que vem sendo desenvolvida pelos advogados de defesa contra os procuradores e a Polícia Federal, da mesma maneira que o Supremo Tribunal Federal (STF) sofreu críticas devido a decisões tomadas durante o julgamento do mensalão.

O conselho de ministros do novo governo italiano aprovou um decreto-lei impedindo prisão cautelar para a maioria dos crimes de corrupção, a partir do que grande parte dos presos foi solta. O decreto, que ficou conhecido como "salva ladrões" causou tanta indignação popular que acabou sendo revogado poucos meses depois de editado, mas provocou retrocesso nas investigações.

Por isso o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos membros da Lava-Jato, já fez críticas ao STF quando decidiu pelo desmembramento de alguns processos, alertando que a decisão poderia significar "o fim da Lava-Jato" e deu entrevistas identificando "dedo do governo" na edição de medidas que beneficiam investigados da operação, como as mudanças nas regras de leniência e a repatriação de recursos ilegais no exterior.

Assim como o juiz Di Pietro abandonou a Operação Mãos Limpas, fragilizando-a politicamente, há boatos de que o procurador Carlos Fernando ameaça deixar a Lava-Jato "por cansaço" Seja verdade ou simples "guerra na internet" como classificam os procuradores, sua exasperação é visível nas entrevistas, e a maneira desabrida com que trata as questões tem provocado mal-estar entre alguns companheiros de investigação, que não querem dar pretexto para os que objetivam boicotar a Operação Lava-Jato.

A Mãos limpas durou dez anos, mas foi nos três primeiros que teve ação mais efetiva, condenando, inclusive, políticos importantes como Bettino Craxi, do Partido Socialista Italiano, que acabou se asilando na Tunísia, onde morreu, para não ir para a cadeia.

Em vez de terem aprovado reformas que evitariam a corrupção, na Itália acabou se assistindo a uma reação do sistema, dos próprios investigados, pessoas poderosas e influentes, e foram aprovadas leis para garantir a impunidade. Por isso os procuradores da Operação Lava-Jato propuseram as "10 medidas contra a corrupção" que pretendem apresentar como projeto de iniciativa popular ao Congresso ainda no primeiro semestre deste ano.

Já tem nos primeiros dias de janeiro 1,2 milhão de assinaturas, e para tanto precisa de 1,5 milhão.

A desastrosa política econômica de Dilma - ANDRÉ ROCHA

VALOR ECONÔMICO - 26/01

Pode se dizer que, em seu primeiro mandato, a presidente Dilma Rousseff errou praticamente tudo o que tentou em termos de política econômica. Sua reeleição lhe deu a oportunidade de consertar os desacertos. Contudo, uma visão econômica intervencionista e dificuldades na composição de sua base econômica a impedem de implementar uma agenda econômica positiva.

Muito se comenta sobre os montantes desviados da Operação Lava-Jato, mas os erros de condução da economia acarretaram perdas muito maiores à sociedade brasileira. Como Delfim Netto nos lembra semanalmente, a economia é movida pelo espírito animal do empreendedor. Mas a presidente dificilmente conseguirá restabelecer a confiança, embora ainda faltem três anos para o fim do mandato.

Dilma já pode ser considerada uma das piores, se não a pior, presidente da história. E olha que os competidores são fracos como, por exemplo, Deodoro da Fonseca e sua política do encilhamento, Collor e os desmandos de sua administração e Sarney e a hiperinflação do seu governo. Resta saída?

O mercado de capitais, assunto preferencial dessa coluna, encontra-se paralisado, especialmente em emissão de ações e dívida. A única atividade que ainda gera negócios é a de fusões e aquisições. Com a desvalorização cambial, nossas empresas ficaram baratas em dólares para o investidor estrangeiro. Fina ironia para um governo de esquerda que entrega de bandeja nossas depreciadas empresas ao capital externo.

Mas não são apenas as empresas privadas que são vítimas do governo. A Petrobras também sofre com a administração do PT. O leigo pode considerar que isso tenha ocorrido principalmente em decorrência dos desvios tornados públicos pela Operação Lava-Jato. Ledo engano. A política de preços no primeiro mandato gerou um rombo de caixa de R$ 60 bilhões em decorrência do preço de importação dos derivados de petróleo ser superior ao preço interno mantido subsidiado pelo conselho de administração da empresa liderado por membros indicados pelo governo.

Essa perda derivada da política equivocada de preços representa dez vezes o valor contabilizado como propina. Como disse um amigo: "o ´rombo´ de caixa oi bem maior do que o ´roubo´ de caixa". Contudo, esse não foi apenas o único erro no setor de petróleo. A alteração da regulamentação das áreas do pré sal com a mudança do sistema de concessões para o regime de partilha travou a realização de novos leilões. A vulnerabilidade financeira da Petrobras não permite que a companhia atenda à obrigatoriedade e participação societária mínima e à exigência de que seja a única operadora nos novos blocos. Assim, a queda do preço do petróleo, a nova regulação e a Operação Lava-Jato fizeram os investimentos no segmento reduzirem-se.

Além disso, a obrigatoriedade da contratação de produtos com conteúdo nacional também elevou o custo dos investimentos.

Mas os erros não se restringiram à microeconomia. O arrefecimento da economia alimentou a ânsia intervencionista do governo que promoveu desonerações tributárias que tiveram efeito nefasto sobre a formação dos superávits primários. O único efeito prático foi a elevação da dívida bruta do país. Mas o eleitor brasileiro é compreensivo e lhe concedeu mais um mandato para desfazer esse equívoco, o que ocorreu em 2015.

Outra intervenção na economia foi o incremento do crédito por intermédio dos bancos públicos: BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], Banco do Brasil e Caixa Econômica.

No caso do BNDES, o lastro foi concedido pelo Tesouro Nacional, o que também fez elevar a dívida bruta.

As chamadas pedaladas fiscais do primeiro mandato, questionadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), reduziram a transparência da contabilidade pública e a confiança dos agentes econômicos no governo. Será que os responsáveis esperavam que o mercado acreditasse nesse superávit primário maquiado? Mas o tolerante eleitorado concedeu à presidente mais um mandato para consertar mais um erro. O Tesouro começou a desconstruir as pedaladas ao longo de 2015.

O setor de energia elétrica, no qual em teoria Dilma Rousseff mais teria conhecimento, também foi vítima durante a renovação das concessões das geradoras. A Eletrobrás, controlada pela União, aceitou as novas regras que objetivava a redução da tarifas, o que deveria ser preocupação do governo e não da estatal. Quem pagou a conta? Os minoritários da empresa que nem dividendos recebem mais devido aos seguidos prejuízos e à extinção das reservas.

No momento, sem qualquer convicção, o governo busca a qualquer custo retomar a credibilidade. A presidente fala em reformar a Previdência, mas, por outro lado, tenta reativar a economia com ma pratica que já fracassou: utilizar os bancos públicos para alavancar o crédito. Nenhuma novidade para um governo errático na política econômica. Dilma já garantiu o título de uma das piores presidentes da história. Para ter um governo considerado medíocre, ela teria que melhorar muito, mas já demonstrou falta de competência para tanto. Renunciar seria uma das poucas possibilidades de melhorar sua imagem. Mas será que terá discernimento suficiente para tomar essa decisão?

André Rocha é analista certificado pela Apimec e atua há 20 anos como especialista na avaliação de companhias listadas na bolsa.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Depois da farsa, a tragédia... - JOSEF BARAT

ESTADÃO - 22/01

O que acontece quando um governo populista quer agradar ao povo, sem preocupação com a origem e as limitações dos recursos disponíveis? Certamente, um desastre, pois em algum momento as contas não fecham. O desastre é ainda maior quando oferece mimos a grandes empresas. A atitude de agradar, tanto a um povo carente quanto aos empresários amigos – para preservar o poder –, acaba por desagradar a todos. Ou seja, torna-se obsoleta a velha e recorrente estratégia de “subir no caminhão” e falar o que agrada aos peões e, depois, na “sala da diretoria”, falar o que os patrões querem ouvir, pois não há mais o que oferecer para ficar bem com todos. Tal estratégia, como sempre, é boa enquanto mantém partidos populistas no poder e, na hora de fechar as contas, argumenta que liberais malvados querem tirar o que progressistas bonzinhos oferecem ao povo.

Essa é a triste sina de uma América Latina tão distante de Deus e do mundo adulto e tão incapaz de assumir a culpa por seus próprios desastres. Em vez de aproveitar seus ciclos de bonança com a exportação de grãos, minérios e petróleo para investir e modernizar suas infraestruturas e indústrias, prefere queimar os recursos obtidos com estímulos ao consumo e um assistencialismo que não incorpora efetivamente as pessoas à educação moderna e ao processo produtivo. Nenhuma economia se sustenta, em prazo mais longo, com base na ignorância, na exacerbação do consumo e em baixos níveis de investimento. Tentativas de breves ciclos de ajustes e correção de distorções nas contas públicas são sempre seguidas de longos ciclos de irresponsabilidade fiscal e devastação de fundamentos econômicos básicos. O velho fetiche de estimular o crescimento pelo aumento do consumo e “um pouquinho” de inflação se torna incontrolável e todos acabam sofrendo com a conjugação de inflação alta e crescimento baixo.

A nova matriz econômica do primeiro governo Dilma foi uma tentativa de dar sobrevida a algo que já se mostrava inviável no segundo governo Lula. Após um período de estabilidade da moeda, aumento do poder de compra, previsibilidade e confiança nos negócios, equilíbrio fiscal e ordenamento das contas públicas – proporcionado pelo Plano Real e mantido no primeiro governo Lula –, seguiu-se um movimento oposto, que desagregou todo o esforço anterior.

Essa desagregação comprometeu, inclusive, um processo continuado de melhoria na distribuição da renda, por causa da inflação. Afetou, ainda, a credibilidade internacional, em razão dos rebaixamentos nas avaliações de risco. Desnecessário acrescentar a óbvia deterioração do ambiente político, resultante da estratégia de poder baseada no princípio do “eu pago, eu mando”. Tanto a inevitável explosão de sucessivos escândalos de corrupção como a radicalização irresponsável do projeto de dominação do poder desfiguraram todo o comedimento e a antiga sabedoria de contornar crises políticas.

Inflação e desemprego de dois dígitos, com longa recessão e queda do PIB, são ingredientes que levam a graves crises políticas e ao desmonte das instituições de Estado. A história do País mostra isso desde a crise de 1929-32, passando pelas de 1954-56, 1960-62, 1980-82, 1990-92. Com exceção da de 1929 e, em parte, da de 1982, pelo forte impacto do fator externo, são recorrentes o abandono de cuidados com ajuste fiscal, ordenamento das contas públicas e controle da inflação, além da falência de modelos baseados no fetiche do desenvolvimento a qualquer preço e/ou exacerbação do consumo.

Como existe aquele outro fetiche de que a História se repete, primeiro como tragédia e, depois, como farsa, é bom atentar para o fato de que, ao contrário, no Brasil as tragédias se repetem monotonamente como decorrência de farsas. A repetição resulta tanto de erros trágicos do próprio fazer como da escassez de prudência, bom senso e comedimento. Erros e húbris sempre dissimulados pela farsa e o burlesco, como convém ao exuberante e irresponsável ambiente tropical...

No mato sem cachorro - VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de SP - 22/01

Economistas do governo de Dilma Rousseff diziam ontem que foi mesmo a piora da situação da economia mundial que levou o Banco Central à reviravolta sobre a taxa de juros que tanto bafafá tem causado –e ainda causará.

Os motivos do BC talvez fiquem menos obscuros apenas na semana que vem, quando se divulga uma espécie de explicação do que se decidiu fazer a respeito dos juros, a "Ata do Copom".

Sejam quais forem as razões e as consequências da decisão, ao menos nos próximos meses o Brasil terá entrado em um universo de política econômica em que não há mapa, bússola ou mesmo controle da direção.

Esses economistas do governo afirmam, claro, que não houve pressão da presidente para que se evitasse um aumento da taxa "básica" de juros (Selic) na reunião do BC de quarta. Até a primeira semana de janeiro, pelo menos, o BC na prática dizia que era necessário elevar a Selic.

Explicam que "a maioria" dos diretores do BC mudou de ideia nos últimos dez dias, por aí, porque houve "precipitação de acontecimentos e intensificação das dúvidas" sobre a economia e finança mundiais. São citados o caso de China, petróleo e fuga de capitais dos países "emergentes", além do risco de deflação mundial e, pois, de redução de crescimento também no mundo rico.

Qual o efeito preciso disso no Brasil e na política do Banco Central? Não querem adiantar a explicação.

Em teoria, não se aumenta a taxa de juros, mesmo com inflação indesejável, quando, por exemplo, se imagina que o remédio vai matar o paciente por outras vias: juros mais altos arrebentam os gastos do governo. Ou quando se acredita que o remédio vai fazer efeito contrário: a inflação vai subir (teoricamente, acredita-se que é possível).

Ou, então, quando se imagina que o efeito combinado da taxa de juros no nível em que está com o efeito daninho do tumulto mundial vai fazer o serviço. Isto é, recessão ainda maior e quedas mundiais de preços vão conter a nossa inflação. Nesse caso, espera-se uma queda bem horrenda dos salários.

Seja como for, estamos agora em um universo desconhecido de política econômica, se algum.

Não haverá tempo para se inventar e menos ainda consolidar um modo diferente, ora misterioso, de lidar com as alavancas básicas da economia. Não haverá tão cedo como recuperar as ferramentas antigas, danificadas ou perdidas.

Isto é, não há vontade ou possibilidade de controlar o aumento da dívida pública (o que não soa bem para o destino dos juros e para a inclinação a investir em novos negócios, para fazer um resumo grosso).

Não se sabe mais nada do que será da taxa de juros que "orienta" todas as demais (Selic). Não há instrumentos críveis para tentar controlar a inflação dentro de certos limites, nem a inclinação a utilizar os que havia. Em suma, não se sabe bem qual é a política monetária (juros, crédito) e, voltando-se a saber, levará um tempo para se acreditar que é para valer.

Por ora, não há nem mesmo como remediar parte dessa situação por meio de terapias heroicas, tal como tentar fixar a desordem por meio de uma taxa de câmbio mais ou menos controlada, o que tenderia a provocar apenas uma corrida de pânico em direção à porta de saída (grande desvalorização do real).

Governo sem trégua - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 22/01


Não haverá trégua para a presidente Dilma Rousseff em 2016, no que depender da economia. A situação, que estava ruim, ficou ainda mais difícil com o vacilo do Banco Central, porque isso elevou o risco inflacionário. Ontem, o dólar bateu no maior nível do real, o que provoca aumento de vários custos. Esse e outros problemas da economia manterão a pressão contra o governo.

Se o ambiente fosse de retomada do crescimento, seria possível uma mitigação da crise política. Mas com a deterioração concreta das condições de vida da população, a possibilidade de melhora política fica mais remota. Economistas acham que dificilmente haverá recuperação durante o mandato da presidente Dilma porque ela está fazendo o que acredita, e isso não tem dado certo.

O economista José Márcio Camargo, da PUC-Rio e da Opus Gestão de Recursos, prevê uma inflação de mais de 1% em janeiro.

- Na Opus, nós estávamos prevendo 8% no ano, mas a partir da decisão do BC vamos rever – disse, numa entrevista que me concedeu na Globonews.

A maioria dos economistas não está com previsão de inflação em dois dígitos, mas vários consideram que a atuação vacilante do Banco Central ajuda a passar o sinal de que não haverá combate à inflação eficiente. Não porque os juros foram mantidos, mas pela forma desencontrada como se comunicou.

O economista Márcio Garcia explica que é delicada essa relação entre o BC e os sinais que ele emite.

- Eu achava que os juros deveriam subir, mas Affonso Celso Pastore, por exemplo, achava que não deveria. Não é a decisão em si o problema. O BC se amarrou ao dar tantos sinais de que elevaria fortemente os juros e, depois, durante a reunião indicou o contrário. A política de metas precisa desses sinais e quanto mais eles são entendidos, e o BC vai acertando, mais consegue agregar credibilidade. E quanto mais ele perde credibilidade maior terá que ser a dose do remédio amargo que é o juro alto.

José Márcio havia dito em meados do ano passado que o crescimento só ocorreria em 2018. Márcio Garcia concorda com essa previsão porque não acredita que o governo Dilma consiga reverter o quadro.

- Como ninguém sofre impeachment por patente incompetência, o meu cenário é que a presidente Dilma ficará até o fim do mandato. A política econômica será mais do mesmo. Vai oferecer crédito, mas não vai adiantar; vai tentar gastar mais, mas não terá como. Ninguém muda. A presidente é a mesma e vai continuar fazendo aquilo no qual ela acredita – diz Márcio Garcia.

José Márcio acha que o BC errou duplamente, ao se comunicar e ao manter os juros:
- A economia está ofertando menos e as pessoas estão consumindo menos, não adianta tentar crescer a demanda se as empresas estão diminuindo a oferta. Só se consegue com isso gerar inflação. É preciso que a queda da demanda seja maior do que a queda da oferta. Dificilmente a inflação ficará abaixo de 10% este ano.
Além disso, o problema fiscal permanece. Márcio Garcia acha que o pagamento das pedaladas também foi feito de forma equivocada, e que o descontrole fiscal continuará alimentando a crise:

- O problema fiscal é sempre o pano de fundo da crise brasileira e piorou muito no governo Dilma, que gastou demais e gastou por fora do Orçamento. Quando pagou aos bancos com recursos da Conta Única do Tesouro Nacional, é como se ele tivesse sacado dos recursos que poupou no passado para fazer superávit primário. Ou seja, é como se estivesse descumprindo as metas anteriores. E isso gera mais incerteza.

José Márcio também não acredita em melhora da economia durante o atual governo:
- É impossível. Ela perdeu qualquer capacidade de recuperar a credibilidade por tudo o que fez, pelos erros que cometeu no passado. E não é apenas a presidente. É uma forma de pensar que está levando o país ao desastre. O Brasil fez uma revolução pacífica entre 1994 e 2005. Espetacular. Fez várias reformas, reduziu a pobreza, privatizou. De 2005 para cá, fizemos uma contrarrevolução.

Com cenários econômicos negativos, a presidente continuará tendo dificuldade no Congresso. É difícil para um político apoiar um chefe de governo que provocou inflação, recessão, crise fiscal e desemprego.


Banco Central vê o mundo em espiral - CLAUDIA SAFATLE

Valor Econômico - 22/01

Após participar da reunião do Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia (Suíça), nos dias 9 e 10, Alexandre Tombini mudou de ideia sobre o que deveria ser a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), esta semana. Ali ele se informou melhor sobre os rumos da desaceleração da China e sobre o futuro dos preços internacionais do petróleo. Ambos com consequências desinflacionárias para o restante do mundo.

Embora os documentos oficiais do Copom e os pronunciamentos do presidente do BC tivessem formado a percepção no mercado de que o Copom aumentaria a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, ainda dava tempo de comunicar uma mudança de rota ao mercado, ao deixar claro que todas as informações, inclusive as do Fundo Monetário Internacional (FMI), seriam avaliadas pelo Copom.

Na quinta-feira da semana passada Tombini foi avisado pelo FMI da revisão para pior que a instituição faria, em comunicado na terça feira desta semana, nas projeções de crescimento do Brasil para este (-3,5%) e para o ano que vem (zero).

O presidente do BC cogitou deixar os dados do FMI falarem por si, mas acabou decidindo usá-los como justificativa para um novo comunicado ao mercado. Chamou Anthero de Moraes Meirelles, diretor de Fiscalização, e ambos redigiram na noite de segunda-feira a nota que foi divulgada na manhã de terça, uma hora após o anúncio das novas projeções do Fundo.

Se entre os economistas, mesmo os mais conservadores, havia forte questionamento sobre a utilidade da elevação da taxa de juros, a grande maioria dos operadores do mercado financeiro convergiam para um aumento de 0,5 ponto percentual, que elevaria a taxa Selic para 14,75% ao ano.

Reunir o Copom na terça e quarta feira e não subir a Selic, sem dar um sinal prévio ao mercado, poderia gerar comoção nacional e até despertar suspeitas de vazamento de informações. Tombini optou por divulgar a nota mesmo sabendo que receberia severas críticas e que essa iniciativa arranharia a credibilidade do BC.

Convencido de que o mundo entrou em uma "espiral", ele resolveu arriscar, conta uma fonte. "É melhor ter perda de credibilidade do que fazer uma coisa sabendo que está equivocada", comentou.

As pressões políticas do PT e do ex-presidente Lula contra o aumento dos juros estavam estampadas diariamente nos jornais. Os pronunciamentos da presidente Dilma Rousseff e do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, de que o BC tem autonomia para decidir sobre juros foram, em geral, de pouca valia para os agentes do mercado. Têm a mesma força de persuasão de quando se declara que o técnico de futebol "está prestigiado".

"Aqui ninguém se move por pressão política ou por pressão do mercado", costumam afirmar os membros do Copom a cada suspeita de que a presidente passou alguma determinação para a política monetária.

Dilma achava que o comitê aumentaria a Selic em 0,5 ponto percentual, rezava para que fosse apenas 0,25 ponto percentual e foi surpreendida tanto pela nota de terça-feira quanto pela manutenção dos juros, sustentavam fontes oficiais ontem. Para esses informantes há uma grande diferença entre como as coisas ocorrem no governo e como a opinião pública suspeita que elas ocorram. Nas conversas entre a presidente e Tombini não há uma terceira pessoa para testemunhar o que de fato acontece. Sabe-se, também, que poucos vão acreditar nesses argumentos.

O BC divulgou no dia 8 a carta aberta ao ministro da Fazenda explicando por que a inflação fugiu da meta no ano passado, chegando a 10,67% para um teto de 6,5%.

Embora as notícias vindas da China já chacoalhassem os mercados desde o dia 4 de janeiro, todos leram a carta como mais uma reiteração de que os juros subiriam 0,5 pontos esta semana. Ontem, porém, estudiosos da política monetária no governo comentavam que a carta já indicava algumas pistas "dovish". Entre os parágrafos 30 e 38 o BC mencionava pelo menos três elementos que poderiam ser interpretados como sinal de que não era líquido e certo o aumento dos juros de 0,5 ponto percentual. Eram eles: "efeitos cumulativos que se manifestam com defasagem", um desenho de "política fiscal convincente e sustentável" e a referência ao "hiato do produto em território desinflacionário".

Na avaliação dos economistas oficiais, a atividade ainda não chegou ao fundo do poço. A retração continua, mas o ajuste externo impulsionado pela desvalorização cambial tem sido forte, e o ingresso de investimentos para a aquisição de negócios que ficaram baratos é substancial. Só na quarta-feira houve entrada líquida de US$ 850 milhões.

Nas reuniões da Basileia os dois assuntos mais discutidos a portas fechadas foram a piora da situação da economia na China - que em 12 meses até dezembro já perdeu US$ 900 bilhões em investimentos - e as razões para a queda de 15% nos preços do petróleo este ano.

A derrubada do preço do petróleo é preocupante, explica o corte de cerca de 50% nos investimentos norte-americanos nesse setor e a liquidação de ativos por parte de fundos soberanos. Os efeitos foram mais rápidos sobre os investimentos que sobre o consumo de derivados.

China e petróleo produziram queda de 13% do Ibovespa e no índice Dow Jones e queda de cerca de 20% nas bolsas chinesas neste início de ano. As bolsas dão a dimensão da confiança dos empresários.

Mas se há alguns supostos efeitos desinflacionários vindos do exterior, aqui a situação está longe de um conforto.

Pelo menos dois riscos inflacionários à frente podem atrapalhar os prognósticos do Copom para limitar a inflação de 2016 ao teto de 6,5%: a elevação da Cide e o preço da energia.

O BC não conta mais com a entrada em vigor da bandeira verde nas contas de energia este ano, prevista para abril ou maio. A informação é que a bandeira vermelha prevalecerá por todo o ano. Mesmo com toda a chuva no país, o custo da energia para consumidores residenciais e industriais se manterá elevado, pela continuidade do uso das usinas térmicas. Isso mostra que o curso da política monetária, agora, é uma questão em aberto.


Em boca própria - MERVAL PEREIRA

O Globo - 22/01

A partir da declaração bombástica do ex-presidente Lula de que não existe ninguém no Brasil mais honesto do que ele, é possível constatar que a Operação Lava-Jato, assim como já acontecera com o mensalão, provoca em caciques petistas uma autorreferente sinceridade que chega às raias da comicidade.

Para começar, sem querer, Lula repetiu, anos depois, a mesmíssima frase que o deputado Paulo Maluf cunhou para se defender das acusações de corrupção. A tal ponto que na internet já surgem montagens afirmando que Maluf queixou-se de que Lula roubara-lhe a frase, logo num debate sobre roubalheiras.

Esquecendo-se do ditado que diz que “elogio em boca própria é vitupério”, Lula foi tão convincente quanto quando se diz pioneiro da boa governança no país: “Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da Igreja Católica, nem dentro da Igreja Evangélica. Pode ter igual, mas eu duvido”. Disse a blogueiros aliados, sem corar e nem provocar em seus “entrevistadores” reações de espanto ou risos.

Embora beire o ridículo, a frase de Lula tem o objetivo de criar constrangimento às investigações que se aproximam dele, tanto que o ex-presidente continuou em tom de desafio: “Duvido que exista um promotor, um delegado, com a coragem de afirmar que me envolvi em algo ilícito”.

A postura de Lula tem antecedentes em diversos companheiros petistas, alguns deles na cadeia depois de pronunciá-las. A mais famosa e hilária pertence ao ex-ministro todo poderoso José Dirceu, ainda quando estava sendo investigado pelos crimes do mensalão, pelos quais foi condenado. “Estou a cada dia mais convencido de minha inocência”, disse Dirceu, como se a cada reminiscência do que fizera como chefe da Casa Civil de Lula, mais elementos absolutórios fossem agregados à sua memória.

O resultado final dessa revisão foi que Dirceu acabou condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo do mensalão, e está novamente na cadeia, ainda sem condenação, devido à sua atuação nos escândalos do petróleo. E, a cada dia, deve estar mais convencido de sua inocência.

Também a presidente Dilma teve sua oportunidade de dar declarações assertivas sobre seu próprio comportamento. Ao responder a uma pergunta de jornalistas estrangeiros sobre como reagiria se fosse constatado seu envolvimento nos escândalos da Lava-Jato, ela teve uma reação muito semelhante à do exministro José Dirceu. Disse Dilma: "Eu sei que não estou nisso. É impossível. Eu sei o que eu faço”, assegurou ao canal francês TV France 24.

Não fosse sua proverbial dificuldade em se expressar, a presidente Dilma poderia ter respondido a perguntas desse tipo de maneira direta, sem necessitar dar testemunho a seu próprio favor. O mesmo vício de linguagem pode ser encontrado em declarações do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, antes de ser preso na Operação Lava-Jato.

Em uma reunião do PT, ele disse ao microfone a seguinte pérola, sendo muito aplaudido, a respeito da quebra de seu sigilo telefônico: “Eu sei o que fiz. Não vão encontrar nada”. O que tanto pode significar que ele não fez nada de ilegal, como também que está convencido de que escondeu tão bem suas falcatruas que não há chance de ser descoberto.

Depois disso, Vaccari não apenas foi preso, como já foi condenado em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro a 15 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Essa reação conjunta de lapsos e atos falhos de petistas graduados só pode ter origem na ansiedade de se livrar de acusações que a cada dia se mostram mais comprováveis, através das delações premiadas que fornecem informações confiáveis aos investigadores.


Vacas macérrimas - HÉLIO SCHWARTSMAN

Folha de SP - 22/01

Numa situação em que falta dinheiro até para manter hospitais funcionando, você ampliaria as verbas destinadas a políticos para usarem em suas campanhas? Pois Dilma acaba de conceder quase R$ 1 bilhão aos partidos.

Eu sei, apelei. Pelo menos até agora, são Estados e municípios que enfrentam problemas de caixa que batem em serviços ao cidadão. E também não me parece muito exato afirmar que Dilma tenha dado esse dinheiro. Ela apenas deixou de vetar o aumento do fundo partidário que havia sido aprovado pelo Congresso. Especialmente agora que o Supremo proibiu doações de empresas, ela teria pouca ou nenhuma condição política de bancar esse veto.

Em termos de resultado, porém, não faz muita diferença. Num momento de vacas macérrimas, o poder público fez crescer a parte do bolo reservada aos partidos políticos, o que contraria noções elementares de prioridade. A manobra fica ainda mais grave quando se considera que não haveria grande prejuízo para a democracia se todos os partidos passassem ao mesmo tempo a fazer campanhas eleitorais franciscanas.

O que de pior poderia acontecer é caírem um pouco as taxas de renovação (candidatos menos conhecidos dependem mais de exposição para ter sucesso), mas baixos índices de troca não estão entre os problemas da política brasileira. A renovação do Congresso, por exemplo, tem variado entre os 40% e os 60%, valores altos na comparação internacional, e nem por isso temos assistido a uma melhora qualitativa na representação. A tendência é que o eleitor troque seis por meia dúzia.

Meu ponto aqui é que o governo Dilma chegou a um ponto em que não tem mais força nem para fazer o óbvio, que seria vetar o despropositado aumento. E, num cenário de impeachment, a situação de Temer não seria melhor. Ao que tudo indica, infelizmente, a crise política continuará pelo menos até a próxima eleição.


BC se descredencia ao sinalizar submissão - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 22/01

Tombini poderia ter defendido a manutenção dos juros com argumentos técnicos, mas errou na comunicação e reforçou a imagem de um funcionário do Planalto



O desastre para a imagem do Banco Central de Alexandre Tombini, e, por tabela, do governo Dilma Rousseff, não se deve apenas a uma inusitada nota divulgada pelo presidente da instituição, na terça, no início da reunião de dois dias do Conselho de Política Monetária. A gravidade do fato está no conjunto da obra. Isso, não bastasse a liturgia do cargo limitar declarações sobre o Copom. Mais exótico ainda foi soltar a nota na abertura da reunião do conselho, periodicamente realizada para avaliar a taxa básica de juros da economia, a Selic, se ela deve ser recalibrada ou não.

Curto, o comunicado de Tombini considerava “significativas” as revisões das estimativas do FMI para a evolução da economia brasileira este ano e em 2017, publicadas naquele dia: de uma recessão de 1% para 3%, e de um crescimento de 2,3% para estagnação.

Nenhuma novidade. O presidente do BC, com acesso fácil a toda sorte de indicadores, não deveria ficar surpreso. O relatório Focus, elaborado semanalmente pelo próprio Banco Central com estimativas dos maiores departamentos de análise do mercado, já apontava na mesma direção.

Por que alardear o já sabido? A interpretação corrente foi que Tombini se sentiu obrigado a justificar formalmente a decisão de propor no Copom manter os juros em 14,15%, depois de ter indicado que o BC apertaria a política monetária, apesar da recessão. Uma das indicações estava na carta aberta ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, exigência legal quando o BC não evita que a inflação estoure o teto da meta.

A atitude patética funcionou como um bumerangue e atingiu o próprio Tombini e o BC, por reforçar a ideia de que o Banco Central jamais teve autonomia desde que Dilma assumiu a Presidência. E nunca terá. Causa avarias também no governo, ao realçar sua faceta intervencionista.

Foi lembrado que o BC de Tombini começou a cortar juros em 2011, em Dilma 1, quando a inflação não estava dominada. A Selic chegou a 7,12%, sob aplausos do PT e entre sorrisos no Planalto, mas as taxas tiveram de voltar a subir em 2013. A inflação jamais voltou à meta de 4,5%, nem a economia chegou a um crescimento sustentado, justificativa “desenvolvimentista” para menos juros.

A imagem de um BC submisso é reforçada pela pressão explícita do PT contra a política monetária, alvo também do ex-presidente Lula. E Tombini poderia ter feito tudo dentro do rito normal, pois até mesmo economistas ortodoxos defendiam a manutenção da Selic, temerosos da “dominância fiscal”, situação em que os juros altos, por aumentarem muito os gastos públicos, perdem eficácia como terapia anti-inflacionária.

Reforça-se, cada vez mais, a imperiosidade de um programa sério de corte de despesas públicas, para tirar o país deste beco sem saída. A situação se agrava porque, não bastasse o governo não ter compromisso confiável com um efetivo ajuste fiscal, o BC parece ter perdido de vez as condições de ancorar os preços.

Golpe de misericórdia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 22/01

Perguntaram a Aristóteles a diferença entre história e literatura. A história, respondeu o mestre grego, olha os fatos. Mostra a realidade. No presente, o que os homens são e fazem. No passado, o que foram e fizeram. A literatura lida com os mesmos acontecimentos. Mas os mira com olhar diferente. Revela o que os homens gostariam de ser e de fazer. Ou o que gostariam de ter sido ou de ter feito.

Vem à tona a sabedoria do filósofo estagirita em razão dos malabarismos do governo brasileiro. Como se usasse os óculos de lentes verdes de Oz e desembarcasse no País das Maravilhas, a presidente Dilma Rousseff teima em apresentar enredos que não conversam com a verdade. Ao contrário das obras de ficção, falta-lhes coerência interna - pacto não escrito estabelecido entre autor e consumidor. Um finge que diz a verdade. O outro finge que acredita.

A história ficou clara na campanha eleitoral. Discursos e imagens marqueteiros iam de encontro à verdade escancarada nos hospitais, nas escolas, nos transportes, nas estradas, na segurança. Esperava-se que a vitória nas urnas representasse o retorno ao mundo real. A indicação de Joaquim Levy para o comando da economia justificou a esperança. Mas, boicotado pelos próprios petistas, o ministro abandonou a pasta.

Nelson Barbosa ficou longe de apontar rumo para a falta de rumo nacional. Em Davos, no primeiro dia oficial do Fórum Econômico Mundial, ele apostou no ovo ainda na barriga da galinha. Contou com a volta da CPMF para o reequilíbrio das contas públicas. Inspirou-se, por certo, na Lei Orçamentária Anual (LOA), em que figura o imposto que taxa a movimentação financeira como se estivesse em vigor.

O governo prevê aprová-lo até maio para ser cobrado em setembro. Se a ficção coincidir com a realidade, a arrecadação deve atingir R$ 10 bilhões, cujo montante ajudaria o cumprimento da meta de superavit primário de 0,5% do PIB em 2016. O condicional impressiona, mas não convence. Dilma Rousseff precisa de um choque de realidade.

Em 2015, o país perdeu 1,5 milhão de postos de trabalho - o pior resultado desde o início da série histórica em 1992. A taxa de desemprego, hoje superior a 8%, poderá fechar 2016 em acima de 12%. O deficit primário deverá chegar a R$ 68,2 bilhões.

Após encolher cerca 4% no ano passado, a economia, como um todo, ficará 3,5% menor, conforme projeção do FMI. A inflação encerrou 2015 em 10,67% e segue em ritmo ascendente. A taxa de juros em 14,25% torna o valor do crédito exorbitante, o que desestimula os investidores. No ambiente de incertezas, o Executivo resiste aos cortes necessários na máquina pública para frear o aumento do deficit fiscal. Persistir nesse roteiro é levar o Brasil à falência e torná-lo a Grécia da América Latina.

A desmoralização do BC - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 22/01

Ao manter em 14,25% a taxa básica de juros, o Banco Central (BC) comprometeu sua credibilidade, o ativo mais importante da autoridade monetária. O presidente da instituição, Alexandre Tombini, terá muita dificuldade para contestar a humilhante versão corrente no mercado. Segundo todas as aparências, a decisão sobre os juros foi determinada pela presidente Dilma Rousseff, interessada em afrouxar a política econômica para reconquistar popularidade. Numa versão ainda mais desmoralizante, o episódio teria marcado uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da cúpula do PT. Até agora inúteis contra a Operação Lava Jato, as pressões do partido seriam muito eficazes quando aplicadas sobre o BC.

Tombini chocou o mercado ao indicar, na véspera da decisão, uma reviravolta na estratégia de combate à alta de preços. Durante um mês e meio dirigentes do BC haviam deixado clara a intenção de elevar os juros na reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom).

O compromisso com uma política severa foi reafirmado na carta enviada ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, com a explicação sobre o enorme desvio da inflação, em 2015, em relação à meta de 4,5%. Tombini reiterou, no texto, a disposição dos membros do Copom de tomar as medidas necessárias para conter a alta de preços, independentemente das demais políticas da área econômica. A carta ressaltou o efeito inflacionário do desajuste das contas do governo.

Durante semanas predominou no mercado a expectativa de uma alta de juros de meio ponto porcentual, justificada tanto pela persistência de uma inflação elevada como pela insegurança sobre a evolução das contas públicas neste ano. Como levar a sério um orçamento aprovado e sancionado com a previsão de receita de um tributo inexistente, o imposto sobre o cheque? Como acreditar nas promessas de ajuste de um governo gastador, populista e com um currículo de enormes desmandos na área fiscal?

Com a imagem de seriedade restaurada, gradualmente, a partir de 2013, quando foi retomada com algum empenho a política de combate à inflação, o BC permaneceu, até há poucos dias, como um raro fator de segurança num ambiente governamental de incompetência e de irresponsabilidade. Também isso acabou.

A reviravolta foi anunciada de forma escandalosa na véspera da decisão sobre os juros. Uma breve nota divulgada pelo BC resumiu um comentário de Tombini sobre a atualização das projeções globais do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o comentário, as mudanças na avaliação do cenário brasileiro, com estimativa de contração econômica de 3,5% neste ano e de crescimento nulo no próximo, haviam sido significativas.

A piora das expectativas em relação ao Brasil foi considerável, mas nada surpreendente, quando se considera a deterioração das condições políticas e econômicas desde o fim do ano. Surpreendente, mesmo, foi a divulgação do comentário do presidente do BC, como se a sua reação imediata fosse indispensável e normal. Não era, especialmente na véspera de uma deliberação do Copom, quando deve prevalecer a regra do silêncio.

Só havia uma explicação plausível: Tombini tentava justificar uma decisão contrária àquela indicada anteriormente. O recurso ao FMI para fundamentar a mudança foi especialmente estranho. O Fundo estaria mais informado a respeito do Brasil do que o BC? Poderia haver argumentos técnicos a favor da decisão, mas foram inutilizados com esse lance.

O comentário de Tombini concentrou-se nas previsões para o Brasil, mas a ênfase mudou no comunicado distribuído depois da reunião do Copom. Para justificar a manutenção da taxa de 14,25%, os autores do texto mencionaram a “elevação das incertezas domésticas e, principalmente, externas”. A ênfase se deslocou para as incertezas externas, nem sequer mencionadas na declaração de Tombini. Insegurança internacional certamente existe, como indicam os tombos das bolsas de valores, mas, apesar disso, o FMI projeta para a economia global crescimento continuado em 2016 e 2017, com desempenho imensamente melhor que o do Brasil. Terá o BC aderido ao costume da presidente Dilma Rousseff de atribuir os males brasileiros às perversidades de um mundo cruel? Seria a cereja no bolo da desmoralização.