segunda-feira, junho 08, 2015

Crianças, gatinhos e patinhos - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 08/06
 

O mundo fica a cada dia mais ridículo. Hoje, para provar essa tese, darei três exemplos de ideias equivocadas que assumem ares de coisa séria.

Duas delas vêm da pedagogia, das escolas de crianças, um dos campos em que o absurdo tomou conta das pessoas. As escolas viraram laboratórios de "experiências" em muitas áreas. Em vez de ensinar as capitais dos Estados e dos países, querem ensinar as crianças como elas devem se sentir (o que é "correto" sentir) diante das coisas. Muita dessa gente nem tem "moral" para pregar para os outros. Não confio em ninguém que posa de "correto".

Vamos ao primeiro exemplo. Tenho ouvido falar que em muitas escolas virou costume fazer um dia em que meninos vão vestidos de meninas e meninas vão vestidas de meninos.

Na cabeça desse povo, esse dia deve ser dedicado ao combate à violência de gênero. O que esses professores não sacam é que um pedido desse para crianças é em si uma violência de gênero e uma covardia, levando-se em conta que são crianças e que não têm como se defender dos delírios de teóricos bobos. E o pior é que pais inteligentinhos acham essa bobagem a última palavra em "ética". Risadas?

Outro dia ouvi de um menino de sete anos da classe C que sua professora pensava que ele era uma travesti porque tinha dito na classe que no dia X os meninos deviam ir vestidos de meninas e vice-versa. Mas, como ele não era uma travesti, recusou-se a ir vestido de mulher e me falou: "Eu não fui porque não sou travesti".

Veja, isso nada tem a ver com travestis adultos ou o direito de o ser (que julgo inquestionável, do ponto de vista do contrato democrático em que vivemos). Isso tem a ver com taras teóricas de professoras autoritárias que infernizam a vida das crianças com suas ideias descabidas.

Digamos de uma vez por todas: ninguém entende patavina de sexualidade. Mas ficou na moda dizer que entende.

Imagino que a autoritária de gênero, a professora desse menino (e de outros tantos e tantas), veja preconceito na fala dele. Eu vejo nessa professora a alma totalitária típica desses comissários do bem social. Uma praga que infesta as escolas e o mundo como um todo.

O mundo está cheio desses comissários, uma espécie de gente mandona que atormenta os outros com suas taras teóricas.

A verdade é que o mundo sempre foi um poço de loucuras, taras e incoerências. Por que agora passamos a achar que basta se dizer a favor do bem social e essa pessoa está a salvo de ser um obcecado qualquer exercendo suas taras teóricas sobre crianças que não têm como se defender diante dessas bobagens? E o pior é que muitos psicólogos abraçam essa baboseira.

O segundo exemplo também vem da educação: a decisão de mudar letras de músicas como "atirei o pau no gato" para coisas como "não atirei o pau no gato", a fim de fazer com que as crianças não maltratem os gatinhos. Crianças, na sua maioria esmagadora, sempre amaram gatinhos. Mas crianças não são anjinhos e, quando o são, são doentes. Por que psicólogos, pedagogos e pais se unem numa prática ridícula como essa? Ninguém mais quer ter filhos, e os poucos que têm os torturam com essas ideias bobas.

Duvido que músicas assim nos façam amar mais os gatinhos, assim como acredito que existam veganos infames e carnívoros malvados no meio da humanidade. Penso mais que músicas assim visam apenas satisfazer a tara teórica de algum pedagogo ou psicólogo que, em vez de estudar a sério, fica embarcando em modinhas. É mais um exemplo de comissários do bem social.

Esses caras devem achar que assim não existirão mais guerras no mundo e não precisaremos mais matar seres vivos para viver. Eis os famosos idiotas do bem.

E, por último, a terceira ideia: os mandões que querem nos proibir de comer foie gras em nome do bem dos patinhos. Adoro patinhos. A forma de produzir foie gras é mesmo feia. Mas, pergunto-me: quem ou o que esses santos contra o foie gras torturam por trás das cortinas?

Aposto que a mesma moçada que chora por gatinhos e patinhos não chora por bebês abortados. Interessante esse cruzamento de (in)sensibilidades, não?

Desemprego na veia - PAULO GUEDES

O GLOBO - 08/06

Queremos todos os brasileiros empregados. Precisamos assegurar empregos para aquela parte da população "que é a mais frágil" explicava a presidente Dilma Rousseff quando, ainda em seu primeiro mandato, examinava a desoneração das folhas de pagamentos das empresas por meio da redução de encargos sociais e trabalhistas que incidem sobre o custo da mão de obra. Esses encargos são armas de destruição em massa das oportunidades de emprego no Brasil. Sua redução protegeria milhões de empregos formais na economia, com custos mais baixos para as empresas e melhores salários para os trabalhadores. A guerra mundial por empregos, a nossa gradual desindustrialização pela perda de competitividade e por excesso de impostos, bem como nossa rápida desaceleração econômica, explicavam a tentativa de proteger a criação de empregos por meio da redução dos encargos.

Agora, a necessidade de implementar o ajuste fiscal leva o governo à tentativa de aprovar na Câmara de Deputados a reoneração das folhas de pagamento. É devastador o impacto dos encargos sociais e trabalhistas sobre a geração de empregos formais na economia brasileira. O excesso de impostos que incidem diretamente sobre o uso da mão de obra tornou-se um mecanismo sistêmico de exclusão social, dando origem a um gigantesco mercado de trabalho informal, com dezenas de milhões de trabalhadores que, por sua vez, não contribuem para a previdência social. O atual sistema funciona como se tivéssemos de condenar ao desemprego por toda a sua vida um trabalhador brasileiro para que outro possa desfrutar um emprego formal e usufruir os benefícios previdenciários.

A cumplicidade dos economistas com a reoneração das folhas, essa injeção de desemprego na veia, é inaceitável, pois o silêncio dos especialistas permite a perpetuação de uma enorme injustiça: são exatamente os mais frágeis, os menos preparados, que se tornam vítimas das demissões. Um cínico explicaria a insensibilidade dos economistas por sua remuneração sob forma de dividendos ou pagamentos a suas pessoas jurídicas. Um político diria que é mais fácil aumentar impostos sobre os mais fracos do que cortar gastos públicos. Um economista de boa estirpe indicaria a mãe de todos estes males: é por ignorância que não ousamos as reformas. 

Levy, o Solitário - LUÍS EDUARDO ASSIS

O Estado de S.Paulo - 08/06

Ufa, ainda bem que passou. Feito o ajuste fiscal, agora cabe esperar pela volta do crescimento econômico, certo? Errado. É nula a probabilidade de que o Brasil possa iniciar no segundo semestre uma recuperação vigorosa. O ajuste fiscal não foi feito. Há medidas paliativas para nos curar da ressaca de 2014, mas nada foi feito para nos livrar do alcoolismo.

As despesas públicas continuam com a tendência de subir a um ritmo superior ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o que nos conduz ao aumento contínuo da carga tributária. As poucas medidas aprovadas são parciais, insatisfatórias e de má qualidade. Cortam investimentos e seguram gastos na boca do caixa - o que é insustentável a longo prazo. Mas é o ajuste que temos para hoje. É o máximo que a sociedade brasileira está disposta a conceder. É o máximo que o Congresso pode aprovar. A cruzada solitária do ministro Joaquim Levy é suficiente para nos desviar da rota do descalabro que se esboçava em 2014, mas não resolve o grave problema fiscal que teremos, um dia, de enfrentar. Fica para depois.

A meta anunciada para 2015 não será atingida. O resíduo que falta para fechar as contas foi preenchido com uma estimativa de crescimento da receita claramente superestimada. Sem um superávit primário suficiente para fazer frente ao pagamento de juros, a relação dívida/PIB subirá novamente em 2015 e as agências internacionais de rating estão de olho nesse indicador para eventualmente rebaixarem a nota de crédito do Brasil. A capacidade analítica destas agências é medíocre, mas elas continuam influenciando os mercados.

Nos últimos 12 meses, a relação dívida/PIB saltou quase cinco pontos porcentuais. Parte significativa desse crescimento veio do aumento do custo da própria dívida. Há três razões para isso. A primeira e mais evidente é a própria taxa Selic. Com o fervor dos recém-convertidos, o Banco Central tem praticado taxas de juros crudelíssimas. O subsídio do Tesouro para financiar o BNDES é outro erro do passado que agora cobra seu preço. Por fim, a valorização do dólar tem gerado despesas gigantescas com os swaps cambiais. Apenas em março, mês em que a desvalorização foi mais forte, o custo do swap alcançou R$ 34,5 bilhões, metade do corte do Orçamento retirado a fórceps.

Por outro lado, se a desaceleração dos gastos públicos não é o suficiente para equacionar o problema fiscal, seu impacto sobre as expectativas e o nível de atividade tem sido avassalador. O IBGE prefere destacar o dado dessazonalizado (0,2% de queda), mas sem este filtro o PIB caiu mais de 3% no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior. Os investimentos caíram o dobro e registraram o menor nível desde junho de 2010. A indústria de bens de capital não deixou por menos: caiu 14,5% nos 12 meses até abril em relação a igual período anterior. A produção de automóveis nos 12 meses anteriores a abril somou 2,24 milhões de unidades, o menor número desde agosto de 2007. O nível de emprego também foi atingido. Nos últimos 12 meses até abril, 419 mil postos de trabalho foram cancelados, o pior indicador desde 1999. Apenas o setor de construção civil cortou 287 mil vagas, o que indica que o rastilho de pólvora já alcançou a base de eleitores que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff em 2014. A inflação erode os salários e o desemprego avança. Menos pessoas têm emprego e quem tem ganha menos.

Recuperação. Não há por que imaginar uma rápida recuperação. De onde ela viria? O consumo das famílias está exaurido pelo alto endividamento, pela queda real da massa de salários e pela inadimplência. Os gastos do governo, por definição, estarão pressionados pelo corte do Orçamento. Mesmo os Estados e municípios, que não têm compromisso com metas macroeconômicas, sofrem com a queda na arrecadação. Poderíamos crescer pelas exportações, mas não só elas pesam relativamente pouco na economia, como isso exigiria uma nova rodada de desvalorização cambial, o que eleva o custo dos swaps e aumenta o déficit público, como visto.

Sobram os investimentos privados. O mantra oficial é de que a recuperação dos investimentos acontecerá quando o equilíbrio das finanças públicas trouxer de volta a confiança. Confiança é muito, mas não é tudo. É impossível imaginar uma empresa privada tomando decisões de investimento que se desdobram por anos apenas porque o ajuste fiscal supostamente foi feito (e não foi) e porque a dívida pública em relação ao PIB se estabilizou (não estabilizou). Enquanto não houver perspectiva de recuperação do emprego e da renda, o investimento ficará acuado. Para romper este círculo vicioso, o governo conta com um novo programa de concessões. Mas é no mínimo improvável que o sucesso desta rodada seja maior que o modesto programa anterior, até porque os principais atores - as empreiteiras - estão preocupados com sua sobrevivência, e a expansão de suas atividades agora ou não é viável ou não é prioritária.

Por mais importante que seja, o ajuste fiscal hoje interessa a poucos. Todos são a seu favor, desde que o ônus recaia sobre algum outro setor. Todos são a favor, desde que seja rápido e indolor. Todos são a favor, desde que seja apenas o rápido prelúdio de um ciclo vigoroso de crescimento.

Um crescimento econômico vigoroso só será possível quando houver liderança política e disposição da sociedade para pactuar um novo acordo que faça o Estado brasileiro caber dentro do Brasil. Na ausência dessa discussão mais profunda, o que nos aguarda é um longo período de baixo crescimento permeado por crises políticas constantes. Neste contexto, a queda de Levy, o Solitário, será apenas uma consequência tão natural quanto lamentável.

Cuspindo no prato em que comeu - VALDO CRUZ

Folha de S.Paulo - 08/06

Dilma, todos sabem, sempre teve uma relação para lá de conflituosa com o seu atual partido, o PT. Só que os dois, hoje, dependem mais do que nunca um do outro para sobreviver à crise atual.

É o que a cúpula do PT, depois de ensaiar torpedear a presidente, com ajuda até do seu criador, Lula, busca convencer petistas às vésperas de mais um Congresso da sigla, que acontece nesta semana na Bahia.

O PT, hoje, não se enxerga no governo Dilma. Algumas alas do partido resistem ao pedido de trégua articulado nos bastidores. Querem bater pesado no rumo adotado no segundo mandato. Para eles, isto sim é que vai causar a ruína do partido.

Engraçado que, no fundo, o que a turma do PT anda fazendo é algo como cuspir no próprio prato que andou comendo e que, sem ele, estaria hoje fora do Palácio do Planalto.

Não fossem a gastança desenfreada do final do primeiro mandato, as tentativas artificiais de segurar a inflação e a concessão generosa de benefícios trabalhistas numa fase de quase pleno emprego, dificilmente Dilma teria sido reeleita.

Só que, agora, é hora de lavar o prato sujo deixado em cima da pia depois da reeleição. Não dá para ignorá-lo. Sua sujeira entupiu os canos da economia. A conta está aí, inflação alta, juros nas alturas, desemprego elevado, país estagnado.

Enquanto a faxina está em curso, Dilma vai tentar reduzir a chiadeira de sua turma dando uma lustrada na casa para torná-la mais atraente. Vai lançar seu novo programa de concessões nesta terça-feira (9).

Aí, as queixas são do setor privado, desconfiado do que será divulgado. Falta crédito, e o empresariado quer saber se a Dilma intervencionista ficará de fora desta vez.

Enfim, a vida da presidente petista não está nada fácil. A economia deve parar de piorar só no segundo semestre. Até lá, o fogo amigo tende a aumentar. Mas não há outra saída a não ser, primeiro, arrumar a bagunça deixada pelo próprio PT.

Estatais sob controle - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP  - 08/06

Até um passado recente, marcas como Petrobras e Correios eram sinônimo de excelência em suas áreas de atuação, com uma qualidade de serviços prestados ao mercado e à sociedade que dava orgulho aos brasileiros. Este tempo se foi.

Transformadas em instrumentos de ação política e servindo prioritariamente a interesses partidários e pessoais, essas e outras empresas estatais tornaram-se, lamentavelmente, exemplos de gestão inepta. Escândalos revelados na Lava Jato mostraram o quanto o debate sobre governança precisa ser aprofundado.

Mais que nunca, é preciso profissionalizar a gestão das empresas públicas. Dentre as propostas que trouxemos para debate na campanha eleitoral, esse tema ocupava lugar de relevância. Infelizmente, não houve interesse do PT em avançar nesse campo.

Na última semana, apresentei um projeto de lei que estabelece requisitos de experiência e aptidão técnica para a ocupação de diretorias e conselhos de administração em empresas estatais e sociedades de economia mista. O projeto elenca ainda uma série de mecanismos obrigatórios de gestão, controle e prestação de contas e condutas éticas.

Na mesma direção, os presidentes da Câmara e do Senado apresentaram iniciativa para ampliar o controle da sociedade sobre a administração estatal. Há um sentimento geral e suprapartidário (do qual o PT se exclui) de que é preciso construir um novo padrão de empresa pública no país.

As estatais representam uma parte importante dos empregos gerados, atuam em serviços essenciais e têm papel estratégico na competitividade geral do país. Não devem servir a governos e partidos políticos, mas à sociedade.

O grupo político no poder foi pródigo no loteamento de cargos públicos e na politização da administração direta e indireta, além de ocupar os fundos de pensão e diversas instâncias gerenciais. Há dezenas de empresas estatais sob controle da União, e nada sabemos sobre como se deu a indicação de seus dirigentes. Ou melhor, sabemos que a carteirinha do PT é mais valiosa que qualquer currículo qualificado.

Basta. É preciso coibir a avidez do governo de plantão e criar mecanismos que preservem as estatais das tentativas de cooptação por interesses político-partidários.

O que precisa ser feito é claro: recrutamento profissional dos dirigentes, transparência na gestão, definição de metas de desempenho, prestação de contas periódicas. Mais meritocracia, menos ingerência política sobre a distribuição de cargos e verbas públicas.

Trata-se de uma mudança cultural expressiva nos moldes da gestão pública praticada no país. É um novo Brasil que precisa se projetar, mais transparente, mais eficiente, que olha para o futuro.

Ação contra a letargia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 08/06

O governo federal prepara para amanhã o lançamento de pacote de medidas para infraestrutura e logística. Falta dinheiro público para tocar novas obras, mas o país não pode continuar letárgico. É preciso atrair grupos privados nacionais e estrangeiros e levá-los a investir no Brasil, e, assim, impulsionar o desenvolvimento nacional.

A equipe do ministro Joaquim Levy está diante da difícil tarefa de demonstrar, com muita clareza, que as medidas voltadas à estabilização das contas públicas e as regras para aplicação em portos, aeroportos, ferrovias e rodovias alicerçam as condições adequadas de investimento com retorno garantido.

Ao contrário do modelo adotado até recentemente, os leilões de concessões deverão ser regidos por normas coerentes com a economia de mercado, em que o Estado não deve tomar decisões pelas empresas. Os lucros não poderão ser limitados, como pretendeu o governo federal até o ano passado. Nem deverá ser exigido dos investidores sociedade com as estatais dos respectivos setores.

As imposições levaram ao fracasso os certames promovidos para recuperação e exploração, por exemplo, de rodovias em Mato Grosso do Sul. Redundaram em fiasco os destinados às ferrovias. Vários projetos nem sequer saíram do papel. Quem, em sã consciência, colocaria dinheiro em projeto para dividir o lucro com empresas governamentais que não emprestaram nenhum esforço para o resultado positivo?

Hoje, a possibilidade de suspensão do crédito fácil e barato, até então ofertado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), é obstáculo a ser contornado. O governo propõe a emissão de debêntures incentivadas pelas empresas e espera que a iniciativa ajude a suprir a necessidade de dinheiro. Não se sabe, por ora, se a opção será suficiente.

Diante das elevadas taxas de juros, entre investir em grandes obras e aplicar em papéis do governo com a certeza de que a remuneração será alta, o empresariado pensará duas vezes antes de abraçar uma obra pública. A confiança que Joaquim Levy inspira, como homem de mercado, não basta.

O pacote deverá ter mecanismos que mitiguem os efeitos dos juros e da inflação altos, a insegurança, o encarecimento do crédito, a impopularidade da presidente. O antídoto são regras claras que restabeleçam a credibilidade no potencial do Brasil como país com perspectivas de crescimento e de retorno aos que nele acreditam.O Congresso Nacional tem papel importante no processo. O conflito permanente com o Executivo reverbera a insegurança e refreia o ânimo dos empresários. O momento exige que a recuperação da economia se sobreponha aos interesses político-partidiários. Em jogo estão o bem-estar da sociedade e a performance da nação frente ao panorama mundial.

Il Padrino (II) - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 08/06

Por que Lula, no segundo semestre de 2006, ouviu sem estranhar o senador Delcídio Amaral (PT-MS) dizer que o publicitário mineiro Marcos Valério queria dinheiro para não contar o que sabia sobre o mensalão - esquema de pagamento de propinas a deputados federais para que votassem como mandava o governo? E, além de não estranhar, por que ainda perguntou assim a Delcídio: "Você falou com Okamotto?"

LULA ESTAVA no seu gabinete de presidente da República no terceiro andar do Palácio do Planalto. Delcídio respondeu que não falara com Okamotto. Lula mais não disse e nem Delcídio lhe perguntou. Paulo Okamotto era uma espécie de tesoureiro informal da família Lula. Hoje, é o presidente do Instituto Lula, local de despacho do ex-presidente em São Paulo.

QUER SABER se Okamotto socorreu Valério, um dos operadores do mensalão junto com Delúbio Soares, na época tesoureiro do PT? Okamotto admite que Valério procurou-o mais de uma vez ao longo da crise do mensalão, mas nega que o ajudou. Quanto a Lula... Nos últimos dez anos se acumularam perguntas que nunca lhe fizeram, e outras às quais ele deu um jeito de não responder.

HOJE, LULA repete que o mensalão jamais existiu. Tudo não passou de uma invenção da direita para destruir seu governo. No máximo, reconhece que o PT cometeu crime de caixa dois - o uso de dinheiro ilegal para pagar despesas de campanha. Com a maioria dos seus ministros nomeada por Lula, o Supremo Tribunal Federal confirmou que o mensalão existiu, sim. Não foi caixa dois.

LULA SEMPRE posou de inocente. E para convencer disso os brasileiros, convocou uma cadeia nacional de rádio e de televisão e pediu desculpas pelo que outros fizeram. Que outros? Não os identificou. Limitou-se a chamá-los de "traidores" Ora, se mais tarde passou a tratar o mensalão como uma "farsa" por que Lula se desculparia por ele? Não faz o menor sentido.

POR DIVERSAS VEZES, advertiram Lula sobre a compra de votos de deputados. A primeira advertência foi do jornalista Carlos Chagas em sua coluna de 28 de fevereiro de 2004 publicada na "Tribuna da Imprensa" Ex-diretor de "O Estado de S. Paulo" em Brasília, Chagas antecipou quase tudo o que Roberto Jefferson (PTB) só denunciaria dali a 16 meses.

ENTREGOU A DUPLA Delúbio-Valério, a agência de Valério amparada por contratos com órgãos públicos no valor aproximado de R$ 150 milhões, e contou que Belo Horizonte funcionava como "uma espécie de caixa central do PT" no caso "até servindo a outros partidos como PP, PL e PTB, cujos emissários não raro deixam o aeroporto da Pampulha com malas recheadas, em espécie"

LULA NÃO LEU a coluna de Chagas? Ninguém com acesso a Lula leu? Ninguém achou que Lula deveria saber o que Chagas sabia com detalhes? Os órgãos de informação do governo não assinavam a "Tribuna da Imprensa"? Nem o "Jornal do Brasil"? Porque em 24 de setembro de 2004, o JB foi o primeiro jornal a falar em "mensalão" Em janeiro de 2005, Jefferson esteve com Lula e também falou.


EM MARÇO, esteve de novo e voltou a falar. O então governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), avisou Lula que o PT oferecia dinheiro para parlamentares trocarem de partido. Lula ouviu em silêncio. Afinal, em junho, Jefferson detonou o escândalo. Lula foi leniente com os mensaleiros? Ou foi cúmplice? Quem mais do que ele se beneficiou com a compra de apoios ao governo?

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

MPF segue o dinheiro e abre caixa preta do BNDES
Para abrir a “caixa preta” do BNDES e investigar minuciosamente mais de 50 contratos, metade deles no exterior, encontrando motivos para os mais de 60 pedidos de prisão de diretores e executivos do banco e de empresários beneficiados por financiamentos, procuradores do MPF (Ministério Público Federal) adotaram a antiga estratégia preconizada por investigadores de crimes financeiros: seguiram o dinheiro.


Dinheiro de graça
Com longo prazo de carência, juros irrisórios e contratos secretos, os financiamentos do BNDES no exterior são considerados irrecusáveis.

Venda casada
O MPF apura se obras com financiamento de pai para filho no exterior foram condicionadas à contratação de empreiteiras como a Odebrecht.

O crime perfeito
Obras bancadas pelo BNDES no exterior não são auditadas no Brasil, nem órgãos de controle como TCU ou MPF podem fiscalizá-las lá fora.

Alma lavada
A devassa do MPF no BNDES lava a alma dos ministros do Tribunal de Contas da União. A caixa preta do banco parecia ter algo a esconder.

Custo das bancadas é alto em qualquer partido
Deputados federais têm até R$ 45 mil por mês de verba indenizatória, valor cedido a cada parlamentar para “compensar” gastos aleatórios. Até maio deste ano, a “cota parlamentar” custou ao contribuinte R$ 46 milhões. As bancadas petista e tucana gastaram R$ 6,4 milhões e R$ 4,3 milhões, respectivamente. Sibá Machado, líder do PT, já pediu R$ 158,1 mil em ressarcimentos e o líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), R$ 110,2 mil. O DEM já utilizou R$ 1,9 milhão e PCdoB, R$ 1,3 milhão.

Nos dois lados
O deputado Mendonça Filho (DEM-PE), líder dos democratas, usou R$ 82.329,18; e a líder do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), R$ 97.596,53.

Gastos nanicos
O PEN, formado por apenas dois deputados, gastou R$ 222,6 mil, mais da metade na conta do líder, Júnior Marreca (MA): R$ 139,2 mil.

Na nossa conta
Se o ritmo de gastança da cota continuar, a Câmara vai torrar cerca de R$ 140 milhões até o fim do ano só em gastos aleatórios de deputados.

Pulando do barco
Declarações do governador Geraldo Alckmin (SP) contra o fim da reeleição expõem o desgaste entre deputados e senadores tucanos. Parlamentares começam a abandonar o barco de Aécio Neves.

Também lá
O banqueiro André Esteves enfrenta uma bronca judicial na China. Seu banco BTG Pactual é objeto de carta rogatória recebida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) do Alto Juizado de Hong Kong.

Ousadia petista
Petistas são ousados, como mostram seus escândalos. Integra agora o Conselho de Recursos da Previdência Complemenar, o “Carf” dos fundos de pensão, Gema de Jesus Ribeiro Martins, mulher de Sérgio Rosa, que presidiu a Previ, o enroladíssimo fundo do Banco do Brasil.

Tá feia coisa
Alô, Banco Central: o banco Santander deve estar com a corda no pescoço. Contratou biroscas de cobrança não para cobrar clientes em atraso, mas para atormentá-los no exato dia do vencimento de boletos.

Conta outra, BB
O Banco do Brasil desocupou um edifício de 20 andares em Brasília e alugou torre inteira em um shopping novo em São Paulo, mas nega planos de esvaziar a sede da Capital. Ninguém acredita em duendes.

Chacrete
Depois do PR lançar o fenômeno puxador de votos Tiririca e o PRB conseguir emplacar Sérgio Reis na Câmara, o PTB já tem uma celebridade para chamar de sua, Rita Cadillac se filiou ao partido.

Lista tríplice
O ex-juiz do TRE-DF Evandro Pertence, filho do ministro Sepúlveda Pertence, a advogada Daniane Maangia Furtado e o próprio ministro Admar Gonzaga, que hoje ocupa a vaga, estarão na lista tríplice para a vaga de ministro-substituto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Crime hediondo
Está na pauta do plenário, no Senado, o projeto que torna crime hediondo o assassinato de policiais e seus familiares. As penas por lesão corporal grave também serão aumentadas de um a dois terços.
Ele é o cara O escândalo do mensalão completa dez anos, e começou quase simultaneamente ao petrolão. Ambos no primeiro governo Lula

domingo, junho 07, 2015

Desesperança com o futuro - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S. PAULO - 07/06
 
Pior do que a retração de 0,2% do PIB no primeiro trimestre é a crescente desesperança com uma revirada na economia prometida pelo ministro Joaquim Levy para começar no segundo semestre. Em quase dois anos e sete trimestres seguidos - comprova o IBGE - os investimentos não param de cair e as empresas contraem a produção diante de um cenário recessivo, com aumento do desemprego, queda da renda salarial, famílias consumindo menos e crescimento da inadimplência. Arrecadação de impostos em queda, os governos (federal, estadual e municipal) cortam antigos e novos projetos de investimento.

No plano político, o Congresso e o PT mais atrapalham do que ajudam o ministro Levy a recolocar a economia nos trilhos e dar início à retomada do crescimento. Parcela expressiva do PT quer ver o ministro da Fazenda demitido, inclusive a corrente do ex-secretário do Tesouro Arno Augustin, aquele que inventou a "nova matriz econômica", as pedaladas fiscais, os empréstimos entre o governo e bancos públicos e o que mais servisse para maquiar a contabilidade pública, cuja legalidade é hoje questionada pelo Tribunal de Contas da União e ameaça reprovar as contas do primeiro mandato de Dilma.

Se o presente vai mal, a saída é cobri-lo com um véu não muito transparente, deixá-lo de lado e dar visibilidade a um discurso otimista com o futuro, seja ou não ele viável. Lula fez isso em 2003. Prometeu o "espetáculo do crescimento" para julho de 2003, errou na data, mas acertou no ano seguinte (em 2003 o PIB cresceu 1,1%, mas avançou para 5,7% em 2004). Agora Lula quer repetir o feito, mas ignora que há um abismo entre os dois momentos (em 2003 a economia externa ajudou e muito, o ex-ministro Palocci rapidamente recuperou a confiança no governo, o PT ficou quietinho vendo desmoronar as maluquices do passado e Lula cumpriu com talento o papel de showman - tudo muito diferente de 2015).

Nos últimos dias, parece ter partido do Palácio do Planalto a ordem: parem de falar do presente, falem do futuro com otimismo. No mesmo dia em que o IBGE anunciou um recuo de 0,2% do PIB, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, prometia que os leilões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos começam já em 2015 e serão seguidos e contínuos (não forneceu cronogramas e datas para acontecerem). Haja investidores para tanto leilão. Os de sempre estão neutralizados: as empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, os fundos de pensão de estatais descapitalizados às voltas com déficits gigantes e o BNDES com orçamento encolhido e limites para financiar projetos licitados.

A agenda positiva continuou na terça-feira, com o anúncio do plano de safra, que elevou em 20% os recursos para a agricultura. A presidente Dilma, o vice, Michel Temer, e o ministro Mercadante foram lá prestigiar o grande ato. Declarações aqui e ali de ministros e de dirigentes de estatais tentam reforçar o otimismo com o futuro. Só que a população vive a realidade do presente com perda de quase 1 milhão de empregos formais em um ano, a inflação comendo o poder de compra, a indústria encolhendo produção e empregos e reajustes salariais abaixo da inflação.

Em 2003 o "espetáculo do crescimento" de Lula funcionou, mas agora o momento é outro, muito diferente. Além de as crises econômicas, interna e externa, não ajudarem - tantos foram os erros do primeiro mandato de Dilma e as tentativas de enganar e driblar a realidade -, a população ficou ressabiada, desconfiada quando ouve o governo falar do futuro.

Recuperara confiança agora implica reconhecer esses erros, corrigi-los e mostrar caminhos confiáveis e competentes para retomar os investimentos. Mas sem enganar, dentro do real, sem discursos ilusórios e vazios em relação ao futuro. É seguir contra a corriqueira e desacreditada reação do ex-ministro Guido Mantega todas as vezes que analisava publicamente indicadores econômicos negativos: sem fundamentos para argumentar, ele garantia que o futuro reservava dias melhores para o País e os brasileiros. E o futuro de Mantega não chegava, só piorava.


Criminocracia - TONY BELLOTTO

O GLOBO - 07/06

Para a roubalheira nunca escasseiam recursos e soluções criativas



“Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e povo estavam todos pervertidos.”

Joaquim Manuel de Macedo, “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro” (1862-3)

Ufane-se, leitor. Estamos afanando como nunca. A República das Bananas foi promovida a República dos Ladrões. Se nossos índices de desenvolvimento são pífios, continuamos referência mundial em roubo, corrupção, sonegação, propina, apropriação indébita, furto, desvio de dinheiro público, latrocínios variados, homicídios diversos e picaretagens em geral. E agora estamos bombando também na modalidade “esfaqueamentos públicos”. Falta dinheiro para educação, saúde, transporte, segurança etc., mas para a roubalheira nunca escasseiam os recursos e as soluções criativas. O crime se espalha por todas as camadas de nossa sociedade, comprovando o teor suprapartidário e ecumênico da rapinagem brasileira. A desonestidade grassa nas artes, ciências e profissões liberais. Há bandidos nas classes altas — empresários sonegadores, banqueiros ladrões, executivos corruptos e administradores propineiros —; abundam criminosos na política e governantes foliões do bloco do “rouba mas faz”; multiplicam-se criminosos na polícia e ladrões no clero, coroinhas desonestos, padres vigaristas, pastores safados, sargentos achacadores, cabos assassinos e juízes larápios; perambulam por nossas ruas estelionatários de classe média, traficantes playboys, bandidos de classe C, punguistas miseráveis, mendigos homicidas e ladrões de toda espécie, além dos contraventores, traficantes, criminosos de colarinho branco e matadores profissionais de praxe. Somos uma potência na roubalheira e na bandidagem. Do rico empresário flagrado em propinas internacionais ao adolescente que assassinou a facadas o médico Jaime Gold na Lagoa, o crime se impõe democraticamente como o inexorável destino da Pátria Esfaqueadora. Venha, leitor, permita-me conduzi-lo a um rápido passeio pelo sinistro panteão dos bandidos pátrios. Por aqui, por favor.

Lampião
Note, à direita, Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro que barbarizou o interior de estados do Nordeste brasileiro no início do século XX. Cometeu roubos, sequestros, assassinatos, torturas, mutilações, estupros e saques. Pelo conjunto da obra, tornou-se nosso bandido essencial, um mito com ares de revolucionário político.

Gino Meneghetti
Veja ali, no outro lado, o italiano que chegou a São Paulo em 1913 já com a reputação de ladrão perigoso, tornou-se famoso por seu temperamento afável e foi apelidado pela imprensa de “bom ladrão”. Era também conhecido como o “gato de telhado” pela facilidade com que se locomovia pelos telhados paulistanos em fuga da polícia. Um simpático Fred Astaire da ladroagem

Cara de Cavalo
Vamos andar mais rápido, venha. Durante a ditadura militar, por afrontarem o governo golpista, bandidos comuns, ainda que facínoras banais, ganhavam status de heróis. Manoel Moreira era um proxeneta ligado ao jogo do bicho que nas horas vagas vendia maconha na Central do Brasil. Em 1964 matou o detetive que organizara o Scuderie Le Cocq, que, ao contrário do que o nome sugere, não era um salão de beleza, mas um esquadrão clandestino especializado em eliminar bandidos. Um mês depois, Cara de Cavalo era executado pela polícia. Foi imortalizado pelo artista plástico Hélio Oiticica no poema-bandeira “seja marginal, seja herói”.

O Bandido da Luz Vermelha
Ali, veja. João Acácio Pereira da Costa assaltava casas em São Paulo munido de uma lanterna de bocal vermelho, que lhe rendeu o apelido. Foi preso em 1967 e só saiu da prisão 30 anos depois, para morrer no ano seguinte numa briga de bar em Joinville. Inspirou o filme “O bandido da luz vermelha”, de Rogério Sganzerla, um clássico do cinema underground nacional.

Ronald Biggs
Venha, olhe ali, à esquerda. O mais popular dos ladrões internacionais que recebemos com nossa brejeira hospitalidade! Biggs participara do famoso assalto ao trem postal em Buckinghamshire, Inglaterra, em 1963, mas foi preso no ano seguinte. Em 1965 fugiu de uma penitenciária em Londres e na década de 1970 veio parar no Rio de Janeiro. Aqui tornou-se uma celebridade, e costumava dar autógrafos e posar para fotos com turistas. Participou do documentário “The great rock’n’roll swindle”, de Julian Temple, sobre os Sex Pistols.

Escadinha
José Carlos dos Reis Encina, traficante de drogas nos anos 1970 e 1980, foi o fundador, junto com o irmão Paulo Maluco, da Falange Vermelha, organização criminosa que mais tarde se tornou o Comando Vermelho. Outro grande feito de Escadinha foi a fuga do presídio de Ilha Grande, em 1986, resgatado por um helicóptero. O episódio inspirou a música “Sambadrome”, da banda inglesa Big Audio Dynamite.

Chega.
Cansou? Eu também. Mas não consigo achar a saída desse panteão, desculpe. Caímos num labirinto. Teremos de nos acostumar a cidadãos indefesos esfaqueados e iates comprados com dinheiro público desviado. Por aqui, por favor…

E depois da recessão? - AFFONSO CELSO PASTORE

O ESTADO DE S. PAULO - 07/06

Ajuste fiscal vem sendo feito por um governo enfraquecido
 
Em um artigo publicado na revista Econométrica, em 1937 (The Summation of Random Causes as the Source of Cyclic Processes), Eugen Slutzky deu contribuição importante para estabelecer qual é a natureza dos ciclos econômicos, que é muito diferente da natureza dos ciclos na física. Ele demonstrou que uma série de choques independentes entre si podem ser somados reproduzindo as propriedades cíclicas de variáveis econômicas, o que adicionado à contribuição de Ragnar Frisch estabeleceu que os ciclos econômicos são a consequência da superposição de "choques" seguidos de "mecanismos de propagação".

Naquele artigo, através da aplicação de uma média móvel a uma série de números ao acaso - as extrações da loteria de Moscou-, Slutzky gerou uma série que foi comparada com a produção industrial na Inglaterra entre 1855 e 1878.A correspondência entre as duas séries é verdadeiramente assombrosa! Contrariamente aos ciclos na física, que têm periodicidade e amplitudes de oscilação fixas, a trajetória dos ciclos econômicos é probabilística e não passível de previsão usando fórmulas matemáticas.

No Brasil, a tarefa de datação dos ciclos econômicos é realizada pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, com base em estatísticas econômicas expressas em nível, dentre as quais se sobressai o PIB. O ponto de máximo local (o pico) do ciclo marca o final de um período de expansão, que é seguido no próximo trimestre pelo início de uma recessão, cujo ponto de mínimo local (o vale) marca o seu final, quando se inicia uma fase de expansão. Nos últimos 30 anos, o Codace encontrou oito ciclos de negócios completos no Brasil. A recessão mais longa, medida pelo período entre o pico e ovale, durou 11 trimestres, mas ocorreram recessões de 9,6,5 e 3 trimestres, além de outras três com duração de apenas dois trimestres, embora com distâncias verticais entre o pico e o vale muito diferentes. A história relatada pelo Codace mostra que o caso brasileiro não é exceção à caracterização de Slutzky e Frisch, e reforça que não existem dois ciclos econômicos iguais.

Essa caracterização dos ciclos econômicos, contudo, não inibiu o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, quando do anúncio do contingenciamento de R$ 69,9 bilhões, de usar o exemplo de como o Brasil saiu da crise de 2008/2009 para afirmar que, de uma forma quase mecânica, estaremos repetindo o passado e retomando o crescimento ainda na segunda metade de 2015. Recessões não são eternas, e esta também chegará ao final. Mas todas as indicações são de que ela será mais longa do que a de 2008/2009, e quando encerrada - em data incerta - não dará lugar a um período de crescimento econômico mais elevado, e sim a um período de crescimento muito baixo,próximo da estagnação. Por quê?

Primeiro, a crise de 2008/2009 pegou o Brasil com a "casa macroeconômica" arrumada, dando-lhe amplas alternativas para reagir ao "choque" vindo de fora. Entre 2003 e 2007, os superávits primários flutuavam em torno de 3,5% do PIB, permitindo que o governo lançasse mão de reduções de impostos e elevações de gastos para estimular a demanda agregada. Como a inflação era baixa e as expectativas de inflação estavam firmemente ancoradas, o Banco Central podia baixara taxa de juros e reduzir o recolhimento compulsório sobre depósitos, estimulando o crédito. Finalmente, a queda dos preços internacionais de commodities e do volume mundial de comércio tiveram durações muito curtas, sendo seguidas de uma explosão de crescimento, estimulando as nossas exportações que contribuíram para expandir ainda mais a demanda agregada, sustentando o crescimento acelerado em 2010.

Nada disso ocorre atualmente. No plano externo, assistimos a uma tendência de queda de preços de commodities aliado ao medíocre crescimento das exportações mundiais, que não deverá se alterar tão cedo, levando à queda das exportações brasileiras. No plano interno, o governo foi forçado a reconstruir o regime macroeconômico que havia sido destruído com a adesão à "nova matriz de política econômica", entre 2011 e 2014. O ajuste se iniciou comum a forte correção na política fiscal, cujas metas de superávit primário ainda são insuficientes para colocar a relação dívida/PIB em trajetória de queda. Tal ajuste está longe de ter se completado, devendo se aprofundar em 2016. Foi necessário um forte aperto monetário não somente para ancoraras expectativas, como para conter os efeitos da "inflação corretiva" que decorreu da eliminação da desastrada contenção dos reajustes dos preços administrados.

Fragilidade. O dramático é que esse ajuste vem sendo feito por um governo enfraquecido e fragmentado, cuja fragilidade tende a se acentuar com o aprofundamento das correções necessárias. Cada aperto adicional na política fiscal tem reflexos na atividade econômica e na arrecadação tributária, reduzindo-a e obrigando a novos cortes de gastos, que não somente geram maior resistência política à sua aprovação como acentuam a queda de receita, fechando-se um círculo vicioso no qual o apoio político ao ajuste se reduz, dificultando-o. Governos politicamente fortes teriam dificuldades em manter a rota de um ajuste dessa magnitude, e as dificuldades são bem maiores no caso de um governo como o atual, que não tem maior suporte político.

Até onde o governo está disposto a manter o ajuste? Se houvesse plena confiança no seu sucesso, as cotações do CDS brasileiro já teriam caído aos níveis atuais e, no entanto, se mantêm acima das cotações existentes em 2013 e 2014 quando a política fiscal ainda era comandada por Mantega dentro dos princípios da "nova matriz", que levou o Brasil à frágil situação atual. O veredicto do mercado se reflete nas cotações do CDS cujo preço não indica um risco imediato de perda de grau de investimento, mas que está longe de atestar um grau elevado de confiança no sucesso da tarefa que vem sendo executada pelo ministro Levy com grande competência, porém sem o apoio suficiente.

De onde virá o impulso ao crescimento? Não contando mais com o impulso da "bonança externa" que caracterizou os anos anteriores à crise de 2008/2009, o Brasil terá de buscar novos caminhos. Significa sua adesão a um novo "modelo de crescimento", que não implica em abandonar o esforço de prosseguir na rota da inclusão social ocorrida nos últimos anos, e sim no reconhecimento de que esta tem de vir com crescimento. Teria de ingressar em um ciclo de reformas no qual abandonasse a prática de "escolher os vencedores",premiando-os, entre outros, com tarifas sobre importações; crédito subsidiado por parte de bancos oficiais; reduções direcionadas de impostos.Teria de buscar os benefícios da abertura da economia ao comércio exterior, usando o aumento de importações para baratear os custos de produção, permitindo ganhos de competitividade que elevem as exportações. Os estímulos deveriam ser direcionados à busca por parte dos empresários de formas de elevar a produtividade e os lucros, através de ações dirigidas a todos, e não a alguns, apenas.

Mas isso seria uma guinada na direção de um modelo "liberal", que não traz para o governo o mesmo número de votos trazido pela política passada. Temo que o governo não tenha coragem de seguir esse caminho, ficando em um ajuste que evita que o Brasil perca o "grau de investimento", mas que não chegue ao ponto de redirecionar os estímulos para uma retomada do crescimento econômico em bases sólidas e sustentadas.A duras penas sairemos da recessão, mas o risco é que na sequência tenhamos um longo período de baixo crescimento econômico.

"SOLIDARIEDADE" OU HIPOCRISIA? - PERCIVAL PUGGINA

ZERO HORA - 07/03
 
Solidariedade é um estado de espírito que nos envolve com aflições alheias. Não é apenas condolência, mas algo “sólido”, que nos leva a ajudar concretamente os demais. A palavra é muito cara ao cristianismo, cuja doutrina a define como expressão social da caridade, amor ao próximo em dimensão comunitária.


Tenho ouvido falar em “solidariedade a Cuba”. Que significa isso, quando se manifesta em partidos políticos e atos de apoio ao regime? Solidariedade só pode existir em relação a pessoas ou grupos que sofrem, como é o caso do povo daquele país. A ligação sentimental de alguém ou de algum governo com a tirania que escraviza a ilha há 56 anos tem outro nome e é bem feio. Define, aliás, o que vem fazendo a esquerda mundial, desde o dia 2 de dezembro de 1961, quando Fidel descantou o verso da revolução e proclamou: “Soy marxista-leninista!”.
 

A partir de então, nunca lhe faltou “solidariedade” para fuzilar milhares de seus conterrâneos, encarcerar dezenas de milhares de pessoas apenas por divergirem do governo, manter a população refém, sem liberdade de opinião, sem espaço para oposição, sem Judiciário independente. Convalidar isso é solidariedade? O regime cubano manda prender por qualquer motivo, sentencia a longas penas e, de modo medieval, persegue as famílias dos que dele dissentem. Descaradamente, concede aos estrangeiros direitos e liberdades que veda a seus próprios cidadãos! Durante décadas, foi “solidário” com os soviéticos, a ponto de enviar milhares de jovens para morrer em revoluções comunistas. Sim, leitor, Fidel, o falso paladino da autonomia, muito se intrometeu em revoluções mundo afora, conforme exigisse a geopolítica da URSS.
 

Solidariedade que mereça a dignidade do termo deve convergir para os que sofrem a repressão porque não se calam. E para os que não sofrem a repressão porque se calam. Uns e outros merecem a solidariedade que não alcança as masmorras de um regime que perdeu o senso moral.
 

A mesma insólita afeição, aliás, é tributada à ditadura comunista bolivariana e não revela qualquer consideração pelas dificuldades que os venezuelanos enfrentam. O compadecimento das pessoas de bem deve convergir para esse povo, em suas crescentes carências e perda de direitos. Nunca para o fanfarrão Chávez e seu ainda mais ridículo herdeiro. Solidariedade foi o que faltou às senhoras Mitzy Capriles e Lilian Tintori, cujos maridos foram presos por Maduro. Ambas vieram buscar ajuda da presidente Dilma, mas foram recebidas pelo sub do sub, a quem transmitiram apelo que entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

O ponto a que chegamos - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O GLOBO - 07/06

Os brasileiros sentem a dor das oportunidades perdidas. Olhando em retrospectiva, não há dúvidas de que nos últimos anos houve uma guinada. Para a esquerda? Não, para o despropósito. O que havia sido penosamente reconstruído na década de 1990, o Plano Real; a responsabilidade com as finanças públicas; o incentivo à iniciativa privada (sem subsídios descabidos); a manutenção do setor produtivo e financeiro estatal longe do alcance dos interesses clientelísticos; em suma, o início da reorganização do Estado e, ao mesmo tempo, a reformulação e universalização do atendimento à saúde e à educação, bem como do acesso à terra, perdeu-se por “desmesura”. Em política econômica tão importante quanto o rumo é a dosagem. No caso, o rumo foi perdido e o limite da prudência na dosagem, ultrapassado.

Até quase o fim do primeiro mandato de Lula, o mantra de uma política econômica adequada (o tripé metas de controle inflacionário, flutuação da taxa de câmbio e política monetária sem interferências políticas) se mantivera, embora sinais preocupantes já começassem a aparecer. Beneficiado o País pelo boom mundial a partir de 2004, especialmente pelo alto preço das commodities e pela abundância de capital, até aquele momento muito havia a louvar na expansão das políticas sociais. Abandonado o Fome Zero, houve a aceitação silenciosa do programa “neoliberal” de transferências de rendas (bolsas sem contrapartida). Na ação internacional do governo era de esperar mais de um país que, desde 1999, se elevara à categoria de um dos Brics, nos quais os mercados viam um futuro promissor e as potências, um parceiro a considerar.

O início da derrapada se deu com a substituição de Palocci por Mantega, com a falta de dosagem e com as concessões populistas que jogaram fumaça no escândalo do mensalão. A partir daí, a penetração partidária na máquina pública, que sempre esteve no DNA do PT por ele se considerar “herdeiro histórico” e principal agente do progressismo, se ampliou para abrigar a “base aliada”. Aos poucos, surgiu outra formulação “teórica” para o descontrole financeiro do governo: a dita “nova matriz econômica”. Esta substituiu a visão do governo do PSDB, que era social-democrática contemporânea, isto é, entendia que o bom governo, para atender ao longo do tempo às demandas sociais, requer previsibilidade na condução das políticas econômicas.

O processo de erosão simultânea do “presidencialismo de coalizão” e do bom senso na economia, embora originário do governo Lula, tornou-se mais claro no primeiro mandato de Dilma: o “presidencialismo de coalizão” - no qual se supõe a aliança entre um número limitado de partidos para apoiar a agenda do governo no Congresso - transformou-se em “presidencialismo de cooptação”. Nele, grandes e pequenos partidos (meros agregados de pessoas que visam o controle de um pedaço do Orçamento) ideologicamente díspares passam a tão somente carimbar as decisões do Executivo no Congresso em troca de penetração cada vez maior na máquina governamental e participação nos contratos públicos.

Tão grave quanto o desvio das políticas macroeconômicas saudáveis foi o desmazelo nas políticas setoriais, do petróleo ao etanol, passando pelo setor elétrico. Não me refiro à corrupção desvendada pela Lava Jato - em si já muito grave -, mas aos erros de decisão: refinarias e complexos petroquímicos projetados com megalomania (Comperj, Abreu e Lima, etc.) ou sem viabilidade econômica (no Ceará e no Maranhão), assim como um conjunto de estaleiros (11!) construídos para fornecer a custos altíssimos e por meio de engenharias financeiras duvidosas, do tipo Sete Brasil, navios, plataformas e sondas para a Petrobrás, com o sacrifício dos interesses da própria empresa e do País.

O mesmo exagero na dosagem se viu no Fies (deixando agora as universidades e os alunos na rua da amargura), no falecido trem-bala, nas concessões de aeroportos à custa do BNDES e também na política de “campeões nacionais”, financiada à custa da emissão de dívida cara pelo Tesouro para empréstimo a juros subsidiados de centenas de bilhões de reais a algumas empresas, sem transparência alguma. Políticas em si justificáveis e preexistentes, de estímulo ao “conteúdo nacional” e apoio ao empresariado brasileiro, foram deturpadas. Os erros são inumeráveis, como o controle do preço da gasolina, que levou usinas de cana à ruína, ou a redução demagógica das tarifas de energia elétrica quando a escassez de água já se desenhava no horizonte. Tudo isso revestido de uma linguagem “nacionalista” e de grandeza.

Em suma: não houve apenas roubalheira, mas uma visão política e econômica equivocada, desatenção ao bê-á-bá do manejo das finanças públicas e erros palmares de política setorial. Sabemos quais foram os responsáveis pelo estado a que chegamos. Cobra-se agora das oposições: o que fazer? É preciso primeiro reconhecer que, dada a reeleição de Dilma e do PT, há que dizer: quem pariu Mateus que o embale. Tudo bem, é verdade. Mas o Brasil não é do governo ou da oposição, é de todos. A oposição de hoje será governo amanhã. Portanto, não deve escorregar para o populismo, e sim apontar caminhos para superar os problemas acima citados. O fator previdenciário, por exemplo, é indispensável, no longo prazo, para o equilíbrio das finanças públicas. Se for para mudá-lo, que se encontre um substituto à altura. Pensando no Brasil, não cabe simplesmente fazer o seu funeral. Não nos aflijamos eleitoralmente antes do tempo. Neste momento o que importa é que o povo veja quem foram os verdadeiros responsáveis pelo desastre que aí está. Ele é fruto de decisões desatinadas do lulopetismo e da obsessão pela permanência no poder, com a ajuda da corrupção e de medidas populistas que nada têm a ver com desenvolvimento econômico e social ou com os interesses nacionais e populares.

BNDES, o banco camarada - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 07/06

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) publicou anúncio nos jornais em que diz ser “um livro aberto para os brasileiros”, acentua seu “compromisso com a transparência” e oferece ao público a possibilidade de conhecer “detalhes sobre nossos financiamentos, inclusive operações internacionais”.

Trata-se de uma reação às suspeitas de que o BNDES usava o sigilo bancário para não ter de explicar aos contribuintes os obscuros critérios que adota ao conceder financiamentos. No entanto, as primeiras luzes lançadas sobre seus negócios, em lugar de acabar com as dúvidas, aumentaram a sensação de que o banco tornou secundárias as ponderações técnicas ao fazer suas escolhas, deixando prevalecer critérios ideológicos e políticos.

Na terça-feira passada, o BNDES tornou disponíveis em seu site informações sobre os financiamentos concedidos nos últimos oito anos para obras no exterior. Os dados indicam que o total chegou a US$ 11,9 bilhões, nas operações de “exportações de serviços”, que beneficiam empresas vencedoras de licitações no exterior. As operações são garantidas pelo Tesouro.

Os juros, na maior parte dos casos, variam de 4% a 6% ao ano. Mas há contratos em que a taxa chegou a 2,8% ao ano, como o negócio com a empreiteira Andrade Gutierrez para fazer uma obra em Gana e o da OAS para realizar um projeto em Honduras. No Brasil, as empresas envolvidas no Programa de Investimento em Logística, que prevê os menores juros cobrados pelo BNDES, pagam 7% ao ano.

Os casos são notáveis, como o financiamento do BNDES para a Odebrecht tocar a obra do Porto de Mariel, em Cuba. Segundo o que agora informa o banco, a ditadura cubana paga juros entre 4,4% e 7% pelos US$ 642,97 milhões financiados entre 2009 e 2013, com prazo de até 25 anos.

É função do BNDES fomentar a participação de empresas brasileiras no exterior, inclusive em Cuba, mas chama a atenção o fato de as condições oferecidas à Odebrecht e aos cubanos poderem ser chamadas, sem exagero, de presente de pai para filho. “Cuba tem um dos piores riscos de crédito do mundo e recebeu condições extremamente vantajosas”, disse ao Estado o economista Sérgio Lazzarini. Segundo ele, os juros desse financiamento deveriam estar entre 11,5% e 12,5%, em razão da fragilidade da economia cubana. “Mas é um valor hipotético, porque Cuba nem consegue fazer uma emissão (de títulos) para que se possa saber de verdade”, afirmou o economista.

Sendo assim, a “transparência” do BNDES permitiu que se constatasse aquilo que já se sabia: a decisão de financiar o Porto de Mariel e outras obras em países que o governo petista considera amigos não é técnica, pois não há retorno que compense tamanha generosidade e tamanho risco.

Ademais, confirma-se que há empresas no Brasil - empreiteiras, em particular - que sempre estarão na vanguarda quando se trata de obter privilégios dos bancos públicos. Dos negócios divulgados pelo BNDES, contratados entre 2007 e 2015, nada menos que 99% envolvem empreiteiras, e 70% desse volume ficou nas mãos de uma só, a Odebrecht. É difícil de imaginar um critério que não seja político para explicar esses números.

Isso explica a resistência do BNDES em revelar detalhes desses contratos, embora o dinheiro utilizado nas transações seja público. Mas nos últimos meses a pressão para que a caixa-preta fosse aberta tornou-se irresistível. No fim de maio, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o BNDES não pode se escorar no sigilo bancário para impedir que o Tribunal de Contas da União tenha acesso a informações sobre suas operações de crédito. Além disso, a oposição no Congresso está prestes a convocar uma CPI para investigar os negócios do banco, incluindo o financiamento público das chamadas “campeãs nacionais”, empresas que teriam plenas condições de obter empréstimos no mercado, mas que foram bafejadas pelas graças do governo petista.

Medo de morrer - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 07/06

Aos 35 anos de idade, o PT está com medo de morrer. Vítima de inanição eleitoral, caso as coisas não melhorem para o lado do partido e o ex-presidente Luiz Inácio da Silva não seja candidato à Presidência em 2018.

E por “coisas” entendam-se circunstâncias econômicas, políticas, sociais - por consequência, eleitorais - favoráveis a uma possibilidade concreta de vitória. Lula avisou e o partido já entendeu (isso inclui a gama de legendas aliadas à esquerda) que não embarcará em causa perdida nem em bola dividida. Sacrifício inadmissível para quem saiu do poder no auge.

Nesse clima o PT realiza nesta semana seu 5º congresso nacional, de 11 a 13 de julho, em Salvador (BA), ciente de que vislumbra a aproximação do precipício. É forte o termo? Pois o porta-voz da expressão é parlamentar e dirigente do partido. Legenda cuja trajetória desde 1980 vinha sendo ascendente e agora, pela primeira vez, toma o rumo contrário correndo o risco de entrar por um caminho sem volta.

A “construção das condições de vitória” em 2018 é o pano de fundo dos embates do partido com o governo da presidente Dilma Rousseff. É também a razão de todas as críticas às medidas de ajuste fiscal e ao “estelionato eleitoral” que não incomodou ao PT quando o que estava em jogo era ganhar a eleição de 2014. Bem como motiva teses e posições a serem debatidas no congresso entre as diversas variantes de petistas.

Há os ideológicos, que ensaiam um discurso sobre reformulação de conduta tendo como linha a retomada dos princípios éticos a fim de reconquistar o eleitorado “de raiz”. Prevalecem, contudo, os pragmáticos. Estes só pensam na produção de algum ambiente confortável que melhore o humor daquele tipo de eleitor/consumidor.

Na realidade, a preocupação central é com o efeito politicamente depressivo de uma possível recessão. Basta ver que enquanto a economia ia bem, a direção do PT não se dedicou às questões de conduta. Ao contrário, as ignorou e defendeu os seus que foram réus. Portanto, a questão em foco não é a correção dos erros cometidos. Em aspecto algum.

O objetivo é, mais uma vez, encontrar uma maneira de criar artifícios pelos quais o governo (para beneficiar o partido) convença as pessoas de que vai tudo bem e que remédios amargos não são fruto da necessidade fática criada pelo próprio governo. Nesta versão, produto da visão “equivocada” de um representante de Satã no ministério da Fazenda.

O problema em tal equação está no enunciado: Se Lula é a solução, foi Lula quem inventou Dilma, a presidente que desestruturou a economia, cujo ‘reconstrutor’ seria Joaquim Levy por indicação de Lula, que posa como se não tivesse nada com isso e ainda é tido por seus seguidores como o salvador da pátria petista.

Ver para crer. Há dois pré-requisitos a serem cumpridos antes de se comprar pelo valor de face essa proposta dos presidentes da Câmara e do Senado de submeter as estatais ao controle do Congresso, com a finalidade de melhorar a transparência e a governança nas empresas.

Antes de qualquer coisa é preciso que o projeto “ande”. Por ora o que se tem é a criação de uma comissão para estudar o assunto e a impressão de que se trata de mais um lance na batalha de demonstração de força ante o Palácio do Planalto para impressionar a arquibancada, distraída do fato de o deputado Eduardo Cunha e o senador Renan Calheiros serem investigados na Operação Lava Jato.

Caso a tramitação prossiga, um artigo nessa espécie de novo código de conduta será imprescindível: partidos e políticos abrem mão de indicações para cargos de quaisquer das instituições incluídas no projeto, onde o mérito passará a valer como critério único para nomeações. É isso ou estarão automaticamente revogadas todas as disposições em contrário.

A revoada dos cartolas - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 07/06
 
Está acabando uma era no esporte mundial

Passei o fim de semana, a trabalho, observando pássaros numa fazenda do interior de São Paulo. Usei o tempo vago para observar também o escândalo da Fifa. Notícias de corrupção explodiram aqui e ali. O inesperado foi a maneira como os dirigentes caíram, num hotel cinco estrelas, à beira do lago. Presos no mesmo lugar, como se prende uma quadrilha organizada. No Brasil, em 2001, houve uma CPI sobre corrupção na CBF. Foi bombardeada pela bancada da bola, deputados ligados à cúpula do esporte.

Nosso nível de tolerância com a corrupção é alto. Convivemos com os cartolas, elegemos alguns deles, mas todos sabem que há algo de errado nesse mundo. Numa certa escala, a sociedade os absorveu como absorve os bicheiros.

Realizada pela polícia suíça em sintonia com o FBI, a operação foi realizada num estilo diferente das que se fazem nos EUA ou no Brasil: prisão discreta, sem algemas, com um mínimo de exposição, cela com condições dignas e nenhuma contemplação com a idade ou artimanhas jurídicas.

Pelé defendeu Blatter em Cuba. Blatter renunciou em seguida. Pelé usou argumentos típicos de um lugar de fronteiras difusas: experiência no cargo, eleição recente, como se isso fosse uma blindagem inexpugnável.

Os índios cherokees tinham medo de pinturas em cavernas profundas porque ali era muito tênue a conexão entre o mundo e o além. Fronteiras difusas são um risco. Um outro exemplo delas está no uso da expressão “colaborador” nos EUA e de “delator” na imprensa brasileira. São dois verbos bem diferentes. Delatar tem uma conotação negativa, envolve no mesmo conceito Judas e Joaquim Silvério dos Reis, o da Inconfidência Mineira.

A luta contra o colonialismo foi um momento em que as fronteiras entre lei e crime podiam ser trocadas. O delator estava colaborando com um opressor estrangeiro que nos sobrecarregava de impostos.

No passado, os americanos tinham um programa de prevenção ao uso de drogas que consistia em palestras de policiais nas escolas. O programa chegou a ser tentado no Brasil, mas era evidente que não funcionaria. A imagem do policial brasileiro era vista de maneira diversa.

Fomos soterrados de leis opressivas no período colonial e nas ditaduras. Convivemos diariamente com notícias negativas sobre a polícia, sobretudo espancamento e extorsão. Minha suposição é que trouxemos essa desconfiança ao longo dos séculos e ainda temos dificuldade de adaptar essas a um sistema democrático.

Essa tensão entre as fronteiras se estende também ao mundo das artes. Nele, de um modo geral comovidos com as desigualdades e a hipocrisia, artistas chegam a formulações como as de Hélio Oiticica: seja marginal, seja herói. O assaltante Lúcio Flávio Lírio tentou resolver essa ambivalência, traçando seu mundo ideal: polícia é polícia, bandido é bandido.

Está acabando uma era no esporte mundial. O Brasil deveria investigar não apenas a CBF, mas também o nosso papel na economia esportiva mundial. Somos exportadores de craques. O comércio internacional tem um lado sombrio que precisa ser desvelado. Um exemplo recente de uma certa indiferença: a transferência de Neymar para o Barcelona.

Na Espanha, o tema foi amplamente divulgado, rolaram cabeças. É natural que a história repercuta no país que comprou. Mas Neymar é o maior craque brasileiro da atualidade. Não houve uma intensa troca de dados sobre o caso. A impressão que tenho é a de que já nos acostumamos com transações suspeitas no futebol: são uma parte do jogo.

Isso me leva para fora do campo, perguntar se todas essas névoas na fronteira entre crime e lei não têm um peso também na tolerância em conviver tanto tempo com um sistema político corrompido.

Na cabeça de alguns defensores do governo isso não é problema. Os teóricos garantem que a corrupção é um debate secundário, uma nota de pé de página na história do país. Os ideológicos garantem que os fins justificam os meios. E quando a coisa aperta mesmo, surge alguém como o Ministro da Justiça para lembrar que as prisões brasileiras são masmorras medievais.

A verdade é que numa democracia é ilegal roubar dinheiro público ou mesmo formar uma quadrilha na cúpula do futebol. O único caminho é o da prisão. Por que não melhorá-las para todos? Tantos anos de PT e apesar do esforço de alguns ex-petistas, como Marcos Rolim e Domingos Dutra, as coisas só pioram nas cadeias.

Esses argumentos furados — eu não sabia, sou vítima de perseguição, o colaborador é um simples delator — desembocam nas condições carcerárias: as prisões são desumanas.

Mas sempre foram. Só se tornaram desumanas porque medidas com outros padrões: agora são os ricos empreiteiros, dirigentes do PT, cartolas. É a miséria de uma política de direitos humanos originalmente fundada num conceito universal.

Para os cartolas, o jogo está acabando; já o governo está perto do apito final.

Qual foi, algoritmo?! - ANTONIO PRATA

FOLHA DE SP - 07/06

Li numa revista, outro dia, que um dos grandes desafios do mundo digital é aperfeiçoar os algoritmos capazes de entender o gosto do internauta. São programas que bisbilhotam as nossas ações online (sites visitados, likes, retuítes, compras etc.) e, a partir dessas informações, descobrem exatamente quais produtos nos oferecer.

Se, por exemplo, você passou três horas no YouTube assistindo a shows do Raul, compartilhou via Facebook o texto “Como curar dengue, depressão e lumbago com chá de berinjela!!!” e comprou na reggaero-ots.com.br uma pochete com as cores da Jamaica, o computador entende que, talvez, seja mais indicado te sugerir o livro Os Florais de Bach na Prática da Ioga do que, digamos, o blu-ray As Patricinhas de Beverly Hills 2. Segundo a matéria, os algoritmos estão evoluindo tão rápido que, logo, logo, mal sentiremos uma coceirinha no nariz, o computador já vai nos desejar saúde – e nos oferecer Rinosoro.

Há quem tema a chegada deste dia: o dia em que o Big Brother lerá nas pupilas do cidadão os seus desejos mais profundos, mas confesso que, diante dos spams desvairados que chegam a este velho PC, aqui pros lados de Cotia, o que mais quero é que o Grande Irmão entenda um pouquinho melhor meus gostos e necessidades.

Lembro ainda hoje quando, no fim do século passado, recebi meu primeiro “Enlarge your penis”. Olhei pros lados, nervoso: por que haviam me mandado aquilo? Eu não me encontrava, pensava, entre o público alvo daquele tipo de e-mail. Ou me encontrava? Teria eu vivido, até ali, em autoengano? Seria aquela mensagem o toque de uma ex-namorada, tipo um recado anônimo na secretária eletrônica: “Você tem bafo!”? A dúvida desapareceu dias depois, ao receber meu primeiro “Enlarge your tits”. Naquele dia, conversei com um amigo e aprendi um novo termo: “spam”.

De lá pra cá, a quantidade de mensagens inúteis só aumentou. Teve a época dos Rolex, da caneta espiã, dos aparelhos para abdominal, dos feromônios, das pílulas para perder peso, das dicas para ganhar dinheiro sem sair de casa – sem falar, é claro, nos velhos companheiros Abdul, da Arábia Saudita, ou Mr. Murukubuku, da Nigéria, que toda semana imploram por minha conta bancária, loucos para depositar milhões em meu nome.

Ultimamente, estamos na fase dos currículos. Marlene Araújo, administração. Anderson Nonato, webdesign. Raul Boucinhas, contabilidade. Recebo também dicas para “aprimorar a logística de distribuição” da minha empresa, para “otimizar a engenharia da minha área financeira”. Diante desses e-mails, fico com a impressão de que, ao contrário do que dizia a revista, os algoritmos não evoluíram nada, do século 20 pra cá.

Ou será que quem não evoluiu fui eu? Será que, depois de cálculos complexos, os computadores intuam que, a esta altura do campeonato, eu já deveria ser um empresário de sucesso, recrutando funcionários, distribuindo produtos, redesenhando minha área financeira? É, talvez os programas estejam certos, talvez o errado seja eu, que sigo aqui, sozinho, pros lados de Cotia, batucando no meu velho PC. Tudo bem, não me importo, sou feliz assim – só vou me preocupar se, dia desses, abrir o Outlook e encontrar, de novo, um “Enlarge your penis”. Qual foi, algoritmo?! Tá me zoando?!

Revendo a reforma - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/06

A segunda rodada de votação na Câmara da emenda constitucional que põe fim à reeleição dará um bom indicativo de como a medida, vitoriosa por larga margem na primeira votação, repercutiu na sociedade.

Os deputados certamente tiveram contato com seus eleitores e puderam sentir que o fim da reeleição não é um anseio nacional. Se o número de votos favoráveis for reduzido nessa segunda votação, estará dado o sinal para que o Senado reveja a decisão da Câmara.

Esse é um caso em que o interesse partidário falou mais alto do que o nacional, e o fim da reeleição foi aprovado mais para acomodar facções dentro dos partidos do que para buscar uma solução institucional melhorada. Foi também o caso das cláusulas de barreira, que devem ser mais rigorosas a partir de uma modificação já prevista no Senado.

A 2ª rodada de votação será também afetada pela decisão, que será tomada anteriormente, sobre a duração dos mandatos de presidente, governadores e prefeitos.

Uma das consequências deve ser a derrota da tese da coincidência de mandatos, outra mudança constitucional que não encontra apoio majoritário entre os parlamentares, coincidindo com uma rejeição previsível da sociedade.

Nada indica que deixando de votar de dois em dois anos o brasileiro ficará mais politizado. Ao contrário, se houver a coincidência de mandatos, as eleições acontecerão de cinco em cinco anos, muito tempo de separação entre elas, significando que o debate político público que as eleições provocam ficará congelado por muito tempo.

A separação de tempo muito grande entre as eleições e o fim do voto obrigatório, outra emenda constitucional que estará em votação a partir da próxima semana, moldam um sistema político-eleitoral que não favorece a politização dos cidadãos.

O voto opcional é, teoricamente, um avanço democrático, pois votar passa a ser um direito, e não um dever, do cidadão. Mas, na prática, já existe essa possibilidade de não votar sem ser punido. Dá apenas um pouco mais de trabalho justificar não ter votado, ou pagar uma multa irrisória para ficar quite com a Justiça Eleitoral.

Em democracias ainda em formação como a nossa, o voto obrigatório tem um papel educativo importante, dando ao cidadão comum o valor da importância de seu gesto.

Se ainda temos no país diversos casos de compra de votos e troca de favores para que o eleitor vote neste ou naquele candidato, é preciso um continuado trabalho educativo por parte do Tribunal Superior Eleitoral para que o eleitor entenda a importância de seu voto, e transforme esse entendimento em instrumento de inserção social.

Os debates políticos durante as campanhas eleitorais colaboram para tal amadurecimento do eleitor brasileiro, e por isso as eleições deveriam continuar sendo realizadas de dois em dois anos.

Os temas municipais nas eleições de prefeito e vereador ganham também a dimensão necessária para que sejam debatidos pelos eleitores. Caso contrário, seriam engolidos pelos temas nacionais.

O financiamento privado aos partidos, aprovado pela Câmara em primeira votação, é outro tema polêmico que será revisitado por deputados e analisado por senadores. Como parece ser majoritário o desejo de ter financiamento privado nas eleições, o Senado deverá aprovar a decisão, mas a legislação terá que regulamentar com muito rigor os procedimentos para que os limites das doações não sejam tão amplos quanto hoje - 2% do faturamento das empresas -, e para que não seja permitido a empresas que tenham algum tipo de vínculo com governos participar desse financiamento.

Todos esses pontos estarão em discussão na Câmara a partir da próxima semana, e mais adiante serão abordados novamente pelos senadores, que terão tempo para corrigir erros provocados pela maneira como foram votados os tópicos do que seria uma reforma política, sem que os temas fossem interligados como conviria. Do jeito que está sendo feita, a reforma já começa necessitando de uma revisão. 

Pelo fim dos privilégios - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 07/06

Chamou a atenção a notícia da troca de carros do Superior Tribunal Militar. A modernização da frota, que implica a compra de 17 sedãs ao custo unitário de R$ 116 mil, passaria despercebida em outras épocas. Senão despercebida, pelo menos rotineira, nada digno de registro além do burocrático. Em tempos de crise, porém, o fato traz à tona velha questão que precisa ser enfrentada com determinação.

Trata-se de privilégios que fincam raízes no setor público. Carro com motorista talvez seja o mais simbólico. Mas não é o único. A ele se somam cartões corporativos, residências oficiais, combustível, garçons, elevadores privativos, verbas de representação. Difícil encontrar justificativa para a manutenção de mordomias ultrapassadas que, além de onerar o erário, servem de mau exemplo para as três esferas do poder.

Estados e municípios reproduzem as benesses com a naturalidade de quem dá bom dia ao entrar no elevador ou diz até logo ao se despedir. Prefeituras que sobrevivem à custa do Fundo de Participação dos Municípios não abrem mão de benefícios anacrônicos usufruídos em âmbito estadual e federal. ONGs que recebem dinheiro proveniente de impostos cobrados dos contribuintes também sofrem o contágio do mau exemplo. Instituições que embolsam contribuições parafiscais não ficam atrás.

A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. A prática do setor público, porém, teima em provar que se trata de princípio que não pega. No século 21, nada mais retrógrado do que sustentar o modelo de casa grande e senzala. Quem ostenta o cartão de autoridade se vacina contra o povo. Isola-se. Não usa transporte público, não se trata em hospital público, não se satisfaz com a segurança pública, não matricula os filhos em escola pública. Até o tratamento muda. O democrático senhor cede lugar ao aristocrático excelência.

Crise, dizem os chineses, é oportunidade. As agruras por que passa a economia obrigam o governo a cortar gastos. Educação, saúde, saneamento, mobilidade sofrem na carne e nos nervos a redução no orçamento. As vítimas são estudantes, enfermos, trabalhadores - pessoas que constroem o futuro da nação. Dilma Rousseff, primeira mulher a presidir o país, pode deixar marca capaz de diferenciá-la dos antecedentes. Acabar com os privilégios é passo importante para sintonizar o país com a contemporaneidade.


O tempo se encarregou de relegar ao passado práticas que fizeram sentido em determinado contexto, mas se tornaram inaceitáveis com as mudanças da sociedade. É o caso da escravidão, da homofobia, da corrupção, da discriminação da mulher, da intolerância étnica, cultural e religiosa. É o caso, também, dos privilégios no serviço público. Como o Estado não planta dinheiro, sustenta mordomias com o meu, o teu, o nosso trabalho. Passou da hora de dar o salto para o século 21. Com a palavra, a presidente Dilma Rousseff.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

FACÇÃO LULISTA PRESSIONA CONTRA AJUSTES DE LEVY

A numerosa facção lulista trabalha para apresentar no 5º Congresso do PT, agora em junho, documento de repúdio à política econômica de Dilma. Com anuência de Lula, os torpedos atingem em cheio o ministro Joaquim Levy (Fazenda) e é um aceno aos sindicalistas.

Lula gosta cada vez mais da ideia de candidatar-se em 2018. A pelegada se reuniu com Lula, no fim do mês, e desceu a borduna em Levy.

LULA NO MURO
No encontro, na sede da CUT, sindicalistas cobraram posição pública de Lula contra o projeto da terceirização e o fim do fator previdenciário.

NA PRESSÃO
As centrais alertaram Lula sobre possível greve geral para pressionar Dilma a vetar o projeto da terceirização, caso o Senado o aprove.

MUDANÇA
Aos mais próximos, Lula defende Nelson Barbosa, do Planejamento, no lugar de Levy. Estaria mais afinado com o plano econômico petista.

AMOR E ÓDIO
Agora persona non grata, Joaquim Levy chefiou o Tesouro Nacional no primeiro governo de Lula.
Aquele do mensalão, do petrolão...

GOVERNO JÁ TORROU R$ 14 MILHÕES COM CARTÕES
Nem parece que o País vive uma grave crise na economia: nos quatro primeiros meses do ano, o governo Dilma conseguiu gastar R$ 14,3 milhões com os cartões de pagamento, os “cartões corporativos”. Apesar do exagero e dos sinais de farra, o Palácio do Planalto se recusa a informar como gastou todo esse dinheiro, alegando “garantia da segurança da sociedade e do Estado”. Ou seja, da própria Dilma.

VAI UMA TAPIOCA?
Antes de o então presidente Lula tornar “secretos” os gastos, ministros foram flagrados comprando até tapioca com cartões corporativos.

NOSSA CONTA
Cartões corporativos do governo também são usados para pagar despesas com combustível e seguranças de familiares de presidentes.

GASTOS MODESTOS
O vice Michel Temer dá sinais exteriores de pobreza, para os padrões Dilma: de janeiro a abril, gastou R$ 172,7 mil usando o cartão.

AÍ, DOUTOR
Eduardo Cunha só tolera falta de deputados ao trabalho por razões médicas ou por integrar missões ao exterior. E tem mandado descontar nos salários. Os atestados médicos já se multiplicaram.

SINAL DE ALERTA
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) leu com lupa a pesquisa do Vox Populi indicando que o governo de Geraldo Alckmin (SP) é ruim ou péssimo para 25% dos entrevistados. Não achou tão ruim assim...

TREMENDO DE MEDO
Com votação do relatório na terça, a MP do Futebol está tirando o sono dos cartolas, pois o clube que continuar ignorando as obrigações pode ser rebaixado à divisão inferior, como aconteceu na Espanha este ano.

FARRA EM VITÓRIA
Durante a XIX Conferência Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais, na linda Vitória, entre quarta (10) e sexta (12), o contribuinte pode constatar como se desperdiça dinheiro publico. Vai ser uma farra.

BLINDAGEM
Aliados de Robinson Faria têm reclamado do deputado Fábio Faria (PSD-RN), filho do governador do Rio Grande do Norte.
O rapaz não estaria deixando ninguém chegar ao pai sem antes passar por ele.

FALTA DO QUE FAZER
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresentou projeto que acaba com o dinheiro em espécie. Quer que tudo seja feito digitalmente. Diz que a medida poderá reduzir a sonegação de impostos.

BLOCO NA RUA
O deputado Damião Feliciano (PDT-PB) não esconde sua aptidão por uma festinha.
Na quinta, fez uma festança, com a presença de vários deputados, para celebrar a prévia do casamento da filha.

ABRAÇO DOS AFOGADOS
O Planalto trabalha para a Lava Jato esmagar Eduardo Cunha, mas sem ajuda de deputados do PP. Até porque o primeiro vice-presidente, Waldir Maranhão (PP-MA), também poderá estar entre os denunciados.

PENSANDO BEM...
...Dilma bem que poderia ir pedalando até o Tribunal de Contas da União, para tentar explicar as manobras fiscais do seu governo.


PODER SEM PUDOR

DEDO ACUSADOR
O Brasil ainda estava sob o regime militar, em 1982, quando o País realizou suas primeiras eleições livres. Em um debate na TV Globo, o candidato do PDT em São Paulo, Rogê Ferreira, sorteado, dispara a pergunta a Lula:
- Afinal, você é socialista, comunista ou trabalhista?
Lula arrancou risadas e deixou Ferreira envergonhado dele mesmo:
- Eu sou torneiro mecânico.

sábado, junho 06, 2015

Blatter abre caminho para Dilma - GUILHERME FIUZA

O GLOBO - 06/06

FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses



Joseph Blatter deu no pé porque sentiu o FBI nos seus calcanhares. Como os investigadores americanos já sabem que a Fifa é uma central de negociatas, o presidente reeleito da entidade achou melhor botar a viola no saco. No Brasil é diferente. Dilma Rousseff sentiu a Polícia Federal nos seus calcanhares, e os investigadores brasileiros já sabem que o governo do PT é uma central de negociatas. Mas a presidente reeleita não deu no pé, porque aqui não tem FBI. E com o silêncio das panelas, está dando até para ouvir o ronco do gigante.

Uma década após o estouro do mensalão, o Brasil ameaça engolir também o petrolão — o que seria o salvo-conduto definitivo para a ladroagem progressista e humanitária. Nestor Cerveró, o primeiro brasileiro a proibir uma máscara de carnaval, foi condenado por comprar um apartamento em Ipanema com propina do petrolão. O ex-tesoureiro Vaccari está preso, acusado de ajudar Dilma Rousseff a alugar um palácio em Brasília (temporada de quatro anos) com propina do petrolão. Mas, nesse caso, a inquilina não está sendo sequer investigada. Como se vê, há propinas e propinas.

As delações premiadas da Lava-Jato já se cansaram de apontar que seria impossível operar um esquema com a dimensão do petrolão, por mais de dez anos, sem a cobertura do Planalto. O FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses. Ainda mais havendo indícios claros de dinheiro do esquema em suas duas campanhas presidenciais. E fartas evidências de formação de caixa pelo seu partido com dinheiro roubado da maior empresa nacional — graças a diretores protegidos pelo grupo governante.

Nota de esclarecimento ao FBI: a presunção de inocência da presidente é absolutamente normal na conjuntura institucional brasileira. A Corte Suprema é bem fornida de militantes premiados por anos de lealdade aos seus padrinhos. E o processo da operação Lava-Jato é presidido segundo esse padrão de isenção. Entenderam, prezados ianques? De que vocês estão rindo?

Em perfeita sintonia com os puxa-sacos petistas que foram ser felizes para sempre no Supremo, o procurador-geral da República arremata a ópera da inocência — diante da qual a opinião pública se curva, reverente, babando na gravata. Resta a Dilma subir em sua bicicleta e pedalar solene diante de uma imensa placa “Lava-Jato” — proporcionando a foto emblemática do Brasil-2015. Segue a legenda oficial: “Obrigada, otários, pela sua compreensão”.

Deve ser uma delícia sentir o vento do Planalto no rosto ao ritmo das pedaladas ciclísticas e fiscais ladeira abaixo (rumo à recessão), sem o menor risco de topar com a gangue da faca. Além de mais quatro anos para reger a orgia petista, o mandato presidencial dá direito a pedalar com um aparato de seguranças — e a escolta de um carro oficial, caso sua excelência se canse e prefira as facilidades do petróleo (sem precisar chamar o Vaccari). Quem sabe até dando uma carona ao companheiro Blatter, que ficou a pé.

Seria o mínimo, considerando a carona valiosa que a Fifa deu ao governo petista. Além da oportunidade de construir os estádios mais caros da história das Copas, com a bolsa BNDES irrigando empreiteiras amigas, o balcão do companheiro Blatter fez o favor de tirar o Morumbi da Copa do Mundo. Assim abriu-se o caminho para o milagre do Itaquerão, mais um sonho bilionário de Lula realizado pela Odebrecht — ou o contrário, dá no mesmo. A CPI do Futebol pode ser mais uma oportunidade para o gigante abrir um dos olhos, ver que os companheiros estão metendo a mão no seu bolso, bocejar uma palavra de ordem e voltar aos seus sonhos de anão.

Blatter pediu o boné porque seus cúmplices deram com a língua nos dentes, expondo seu esquema de eternização no poder. Já o esquema de eternização do PT no poder vai bem, obrigado — e os cúmplices podem dar com a língua nos dentes à vontade. O homem-bomba das empreiteiras, Ricardo Pessoa, disse aos investigadores da Lava-Jato que deu R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma no ano passado para não perder negócios com a Petrobras. Aí o barulho foi grande: era o gigante roncando.

Indignados com a indiferença da plateia, Dilma e seus amigos da pesada subiram o tom: depois de Erenice estrelar o escândalo tributário da Operação Zelotes e Rosemary ser denunciada por improbidade administrativa, Fernando Pimentel roubou a cena. O governador de Minas — também conhecido como consultor sobrenatural — teve seu braço-direito, o empresário Bené, preso por suspeita de associação criminosa. Entre as acusações contra o amigo do amigo de Dilma está a origem suspeita de dezenas de milhões de reais em receita de sua gráfica, que atende ao PT. Diante do presépio petista, talvez o FBI achasse que está sendo injusto com a Fifa.

A renúncia de Joseph Blatter após sua reeleição foi um gesto pedagógico. Ou o Brasil se inspira nele, ou assume que quer tomar mais quatro anos de pedaladas. E facadas.

GOSTOSA


Paudurecência matinal


Pizzolato de volta para casa - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

 GAZETA DO POVO - PR - 06/06

Será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades no Brasil
 


A decisão final da Justiça italiana de extraditar o mensaleiro Henrique Pizzolato, tomada na quinta-feira (4), tem significado mais importante do que pode imaginar a vã filosofia: foi uma lição que o Brasil recebeu sobre como respeitar tratados quando diante de casos em que se requer que cidadãos condenados por crimes cometidos em seus países de origem neles cumpram a pena. Exatamente como no caso de Pizzolato, o ex-diretor do Banco do Brasil incluído entre os membros da quadrilha de mensaleiros condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, no histórico julgamento relatado e presidido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa.

Do mesmo modo não procedeu o Brasil em 2010 quando solicitado a extraditar para a Itália o homicida Cesare Battisti. Mesmo após entendimento favorável do STF à extradição, por decisão do então presidente Lula em seu último dia de mandato, foi dada a Battisti a condição de refugiado político, evitando assim seu envio ao seu país natal. Já o Ministério da Justiça da Itália no caso Pizzolato preferiu respeitar à risca o acordo bilateral de extradição com Brasil. Na decisão, a corte levou em conta que, mesmo possuindo cidadania italiana, Pizzolato não é um cidadão com residência fixa na Itália, ou seja, não tem vínculo com o país a não ser de origem.

Condenado a 12 anos e 7 meses de prisão por ter se utilizado do cargo para alimentar o mensalão com R$ 74 milhões nos anos de 2003 e 2004 e se apropriar de propina pessoal de R$ 336 mil, Henrique Pizzolato serviu-se de passaporte falso para fugir para a Itália, onde imaginava estar a salvo em razão da dupla cidadania. Descoberto em fevereiro de 2013 em seu esconderijo em Maranello, Norte da Itália, acabou preso pelas autoridades locais para responder, entre outros crimes, por falsidade ideológica. Enquanto isso, os juízes decidiam sobre a legalidade do pedido de extradição feito pelo Brasil.

Após inúmeras apelações do réu e correspondentes recursos brasileiros, a Justiça da Itália por fim confirmou, a extradição de Pizzolato – com a única condição de que ele cumpra sua pena em condições dignas, isto é, sem se misturar aos presos comuns que habitam o Presídio da Papuda, em Brasília. Os advogados do brasileiro ainda ensaiavam um novo recurso, desta feita ao Conselho de Estado italiano, providência que desde logo foi considerada incabível pelo Judiciário do país.

Deu-se, deste modo, o penúltimo capítulo da saga que envolveu Henrique Pizzolato, militante petista que construiu sua carreira política no Paraná. Além de presidir no estado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, concorreu por três vezes a eleições majoritárias – uma a vice-prefeito do município de Toledo, uma a governador em 1990 e a última a vice-governador no pleito de 1994, na chapa liderada por Jorge Samek, atual presidente da Itaipu Binacional.

Pelos serviços prestados ao partido, em 2003 foi guindado pelo então presidente Lula à diretoria de marketing do Banco do Brasil, a partir do que – segundo os inquéritos que instruíram a Ação Penal 470 – pode transferir dinheiro público para contas do publicitário Marcos Valério, principal operador do mensalão e condenado a mais de 40 anos de prisão, juntamente com outros 23 réus envolvidos na compra de parlamentares para garantir a maioria da base do governo federal.

Nos próximos dias deveremos assistir ao último capítulo desta novela, ou seja, a viagem de volta de Pizzolato da Itália para o Brasil para cumprir a condenação, que, provavelmente, será acrescida de penas complementares decorrentes da fuga e da perda de benefícios de progressão. Benefícios dos quais, aliás, já se valeu a maioria dos mais notórios participantes do esquema – dentre eles o ex-ministro José Dirceu e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, que já alcançaram o privilégio de poderem trabalhar fora e de não passarem o dia recolhidos à Papuda. De qualquer modo, será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades.

Promiscuidade - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - PR - 06/06

Com apenas uma hora de depoimento numa delegacia no Brooklyn nova-iorquino, atraiu o FBI americano, desmontou a Fifa, enfiou no xilindró suíço quase uma dezena de cartolas da periferia futebolística mundial, no meio da qual se exibia impune e lampeiro uma estrela de primeira grandeza: o ex-governador do maior e mais rico estado brasileiro, ex-presidente da CBF e agora seu vice, José Maria Marin. Seis dias depois, o terremoto destronou o indestronável imperador do futebol, Joseph “Sepp” Blatter.  


O autor desta formidável façanha não é cartola, não é político, não se escondia na sombra: jornalista esportivo no interior de São Paulo (São José do Rio Preto) ralou, ralou, ralou, subiu, subiu, subiu, criou uma empresa de marketing esportivo com o sugestivo nome de Traffic, traficou favores,intermediou negócios de milhões, converteu-se em baronete da mídia interiorana e com o aval do Congresso e do governo obteve em 2003 uma rica concessão de televisão (TV Tem, afiliada da prestigiosa Rede Globo). Segunda a Folha de S. Paulo desta sexta, a emissora atende 318 municípios no rico interior paulista.

J. (de José) Hawilla – Jotinha para os íntimos –“colabora” com o FBI desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois, acertava com as autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões de dólares.

Quando a direção da entidade suíça passou a exigir dos países-sede das Copas do Mundo estádios, equipamentos e serviços urbanos de altíssima qualidade estabeleceu-se o padrão Fifa. O megaescândalo agora revelado tem exatamente este extravagante e formidável padrão e só começou a ser desmontado graças a uma casualidade: além da mansão de 15 mil metros quadrados em Rio Preto, o exigente Jotinha reside numa propriedade avaliada em oito milhões de dólares na exclusiva Sunset Island, Miami, Flórida, Estados Unidos da América do Norte – paisinho onde há 241 anos as promiscuidades, por mais extensas e sólidas que sejam, costumam ser atalhadas pelas autoridades.

O segredo que tornou a sucursal brasileira da Fifa invencível e inexpugnável é exatamente a promiscuidade. Convivência espúria, conivência despudorada, a CBF é uma traficante de vantagens e privilégios. Embora conste no artigo 1.º dos Estatutos que “goza de peculiar autonomia não estando sujeita a qualquer ingerência estatal”, a CBF tem efetivamente mais poder do que o Ministério dos Esportes. Entidade de direito privado, suas veladas conexões com o Judiciário e o Legislativo a colocam acima do bem e do mal, imune a CPI’s e investigações do Ministério Público.

Blindagem decisiva para garantir sua imunidade, impunidade e sobrevida são os laços que a CBF mantém com a mídia, especializada ou não. A fulgurante carreira do Jotinha Hawilla é paradigmática: em apenas 36 anos o indomável profissional demitido por participar de uma greve delirante que tanto prejudicou a categoria, acerta com a Justiça americana o pagamento de uma multa de quase R$ 500 milhões.

Por mais animado que esteja o Congresso neste momento dificilmente conseguirá identificar, enquadrar e desmontar a promiscuidade que intoxica a mais importante instituição da vida nacional – quase uma religião – o futebol. Para recuperá-la, desintoxicá-la e injetar um pouco de otimismo será indispensável o empenho de outra lendária instituição que carece de façanhas para tirá-la de uma de suas maiores crises: a mídia.

Coisa nossa - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/06

Condenado fazendo comício político, usando blog para comentar os acontecimentos, dando orientações sobre votações no Congresso, são coisas nossas e apartidárias. Não é apenas José Dirceu quem tem blog, seu delator Roberto Jefferson também, e ambos participam ativamente da política, dando palpites sobre o que está acontecendo, contra ou a favor do governo.

Jefferson, mesmo em prisão domiciliar, está de bem com a vida depois de ter casado em grande estilo, com direito a tirar um sarro de seu mais famoso inimigo. Ao lembrar a frase emblemática dirigida a Dirceu em transmissão pela televisão - "Você provoca em mim os instintos mais primitivos" -, ele disse a sua noiva que ela lhe inspirava "os mais deliciosos instintos primitivos".

Em seu blog, ele afirma através de interpostas pessoas que o governo beneficiou a empreiteira Odebrecht com os financiamentos do BNDES. Já Dirceu tem aparecido abatido, e continua às voltas com outro processo, o do petrolão, onde é investigado pelo Ministério Público pelas consultorias que deu a empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, que seriam meros disfarces para propinas vindas da Petrobras.

Ele tem usado seu blog para se defender, acusando o doleiro Alberto Youssef de inventar as denúncias contra ele. Mas também participa da discussão política, ora defendendo a posição do governo contra o aumento da maioridade penal, ora rebatendo a tentativa do Congresso de controlar as nomeações nas estatais.

Mas pelo menos eles fingem algum constrangimento, e os blogs são escritos por "amigos" e "assessores", mesmo que o que se lê ali seja claramente a opinião pessoal dos condenados.

Pois o petista João Paulo Cunha, o ex-presidente da Câmara condenado por peculato e corrupção no processo do mensalão, foi flagrado pela "Folha" em uma reunião política em Osasco, seu reduto eleitoral. Digo flagrado porque os companheiros que atenderam ao convite para "bater um papo ao sabor da conjuntura e outras lembranças" recebiam instruções para não fotografar nem postar notícias nas redes sociais, e, portanto, o encontro não era para se tornar público.

Ele cumpre a pena em regime aberto em Brasília e recebeu permissão para ir a São Paulo comemorar seu aniversário. Os condenados pelo mensalão tiveram seus direitos políticos suspensos e não podem se candidatar a nada. Mas, ironicamente, há uma discussão sobre se podem ou não se filiar a partidos políticos, ou se podem participar de reuniões partidárias.

Outro condenado, Valdemar Costa Neto ignora eventuais restrições e faz reuniões políticas do PR, que ainda controla, orientando o partido sobre como votar no Congresso. Ao que se sabe, apenas as transgressões mais óbvias são punidas.

Flagrado tomando cerveja com amigos em um bar da Zona Sul de BH, o ex-deputado federal Romeu Queiroz, condenado a seis anos e seis meses de prisão por envolvimento no mensalão, perdeu os benefícios de trabalho externo e saídas temporárias.

João Paulo Cunha, por exemplo, fez ampla análise política da situação, admitindo até que o PT errou no mensalão, e voltou a errar no petrolão. Não entrou em detalhes sobre esses erros, sem deixar claro se estava admitindo os crimes pelos quais foi condenado, ou se o erro a que se referia era o de terem sido apanhados.

De qualquer maneira, a comemoração do aniversário de João Paulo Cunha foi bastante proveitosa para ele como líder político. Reuniu sua tropa política para estabelecer estratégias para a eleição municipal de 2016, e, hoje, tinha marcada reunião com grupos de sindicalistas.

Na eleição de 2012, ele era candidato favorito à prefeitura de Osasco quando teve que renunciar devido à condenação no mensalão. O então prefeito Emídio de Souza hoje é presidente do PT paulista e também esteve com João Paulo Cunha trocando ideias sobre "a conjuntura".

As atividades políticas, encobertas ou não, não são restringidas pela Justiça, que tende a ser condescendente com esse tipo de burla da punição. Mas, se os políticos foram condenados justamente por terem atividades políticas irregulares, misturadas a diversos crimes, como permitir que continuem a manter tal atividade que está no cerne de suas condenações?