sábado, fevereiro 07, 2015

Já vimos esse filme - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/02


Quando a nomeação de um Aldemir Bendine para presidir a Petrobras é considerada uma ação de resistência esquerdista da presidente Dilma, e aplaudida como tal pela militância partidária; quando o tesoureiro João Vacari Neto, acusado de desviar até U$ 200 milhões para o partido e levado coercitivamente a depor na Polícia Federal, é aplaudido pelos militantes, aí vemos que o caminho do PT está definitivamente obstruído pelos interesses internos, e ele não tem qualquer capacidade (ou vontade) de se reinventar.

Revendo um velho preceito jurídico que manda “na dúvida, a favor do réu”, Lula disse: “Na dúvida, fique com o companheiro”, já colocando indiretamente Vacari como réu nesse processo. Mais um tesoureiro do PT encalacrado com métodos nada ortodoxos de recolher doações políticas. 

Delúbio Soares, de triste memória, achava que tudo terminaria em piada, e ele terminou na cadeia. Mas não abriu o bico, o que parece ser condição sine qua non para assumir essa tarefa partidária.

Não há mais volta nesse pântano em que o PT se encalacrou, e o que vier daí será apenas para aumentar o ridículo da situação, dar o tom escandaloso dessa tragicomédia em que nos meteram.

Quando a presidente Dilma Rousseff, a grande muda nesses dias de crises, sai de seus cuidados para dar posse no ministério das ações estratégicas a Mangabeira Unger, e fala da importância do pré-sal para nossa educação, aí vemos que ela está fora de órbita.

Fala de uma situação que já está superada pela conjuntura internacional, assim como, por exemplo, os sonhos megalômanos de Mangabeira Unger para os BRICS, ou o aqueduto para levar água do Amazonas para o nordeste.

Quando o ex-presidente Lula, como um Jim Jones aloprado, leva ao suicídio político seus seguidores repetindo na festa dos 35 anos do PT o mesmo discurso da festa dos 25 anos, em que o mensalão estava em evidência, vemos que o partido não saiu do lugar onde sempre esteve. Dez anos depois, o petrolão rebobina o filme para contar novamente a mesma história. 

O PT manteve os mesmos instrumentos de fazer política que sempre usou, transformando o cenário brasileiro em uma baixa disputa sindicalista, em que valem todos os métodos para vencer, e em que o adversário torna-se inimigo e precisa ser destruído, não apenas derrotado.

Quando um executivo petista como Aldemar Bendini é visto como um adepto de políticas progressistas, e o que de mais progressista que se vê em sua biografia foi afrontar as normas internas do Banco do Brasil para conceder um empréstimo milionário para uma socialite deslumbrada, vemos que não há mais saída para esses que militam por uma causa que é apenas uma frase no programa partidário vazio.

Val Merchiori é a versão real de Dorinha, a socialite socialista de Luis Fernando Veríssimo. O progressismo representado pela nomeação de um Aldemir Bendini para presidir a Petrobras é uma tragédia tornada farsa pela repetição de um truque mal feito.

Ainda mais quando se constata que mesmo no atual Conselho de Administração houve votos contrários à sua nomeação, assim como os novos diretores receberam o veto de conselheiros. Os representantes dos minoritários foram atropelados pela maioria governista, que manteve sob controle a gestão da Petrobras, não para defendê-la do ataque dos privatistas, essa bobagem de militantes fora do eixo ou de má-fé, mas para blindar o Palácio do Planalto, repentinamente desguarnecido com a demissão antecipada de Graça Foster e parte de sua diretoria.

Bendine é o primeiro presidente da Petrobras desde que o PT chegou ao poder que não é filiado ao partido, mas tornou-se petista “de coração”. Primeiro José Eduardo Dutra, depois José Sérgio Gabrielli, dois sindicalistas da área, e em seguida Graça Foster, o PT perdeu a condição política de indicar o substituto, e se preparava para abrir mão do controle da estatal para um executivo do mercado. 
Não foi por falta de convite, mas não apareceu ninguém interessado nesse emprego, com os problemas colaterais que ele traz consigo. Paradoxalmente, a recusa ajudou Dilma a buscar no seu entorno o substituto, dando uma saída política para a crise que se no momento interessa ao Palácio do Planalto, a médio prazo deve lhe trazer mais dores de cabeça.

A pátria deseducadora - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 07/02

O Brasil ainda tem jeito? Temo que não. Houve um tempo em que os ladrões, inclusive os de colarinho branco, ficavam envergonhados quando eram pilhados em flagrante e seus nomes apareciam estampados nos jornais. Hoje, eles nem se constrangem mais. Pelo contrário. Seus roubos bilionários são denunciados num dia, e eles fazem festa no outro. Pior: são ovacionados como "heróis" do povo brasileiro. Saquear os cofres públicos, "em nome da causa" - sabe-se lá que "causa" - é revolucionário. Cobrar ética dos gatunos é reacionarismo, udenismo, golpismo, coisa de direita.

Ainda esta semana, ao prender novos integrantes da quadrilha que afundou a Petrobras, um dos procuradores que investiga a roubalheira se disse estarrecido: o esquema criminoso, disse ele, continua a desviar recursos da estatal e de suas subsidiárias até hoje! É um poço sem fundo de maracutaias na companhia que era orgulho nacional. Estimativas da própria petroleira indicam que as perdas com corrupção e má gestão chegam a superar R$ 86 bilhões. E o Planalto fez de tudo para esconder esse número, que só veio à tona graças à pressão de acionistas minoritários que têm assento no conselho da empresa. É dinheiro demais. Faça as contas: bastavam R$ 6 bilhões para tirar o GDF do maior buraco da história!

Na "pátria educadora", onde professores ganham uma miséria e as escolas públicas estão sucateadas, um ex-gerente da Petrobras que fez acordo de delação premiada promete devolver US$ 100 milhões aos cofres públicos. Ele confessou à Justiça que o PT recebeu até US$ 200 milhões desviados da estatal. A conta parece subestimada. Afinal, só ele, que era um reles gerente, levou ao menos metade da bolada! Outro, um executivo de empreiteira, afirmou que uma das formas de lavar o dinheiro roubado era fazendo "doações legais" ao PT. O partido, claro, refuta todas as acusações.

Aos delatores, cabe provar tudo o que dizem. Pelo acordo de delação, eles não podem mentir. Caso não falem apenas a verdade, perderão o benefício de redução da pena. As denúncias são gravíssimas. Se for confirmado que dinheiro roubado da Petrobras foi parar na campanha de Dilma, a temperatura política no Brasil este ano vai subir, ainda que a oposição ao governo quase não exista. Só não subirá mais, claro, do que o preço da gasolina e da tarifa de energia elétrica. Quer apostar?


Novos direitos - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 07/02

De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões


O problema do ajuste fiscal está na falta de ajustes sociais, que substituam direitos velhos por novos direitos estruturais, assegurando bem-estar social permanente aos cidadãos. Ao longo dos últimos anos, o Brasil optou por uma verdadeira folia de gastos públicos, consumismo exacerbado, baixo nível de poupança e investimento, irresponsabilidade fiscal, preços administrados, contabilidade criativa escondendo a realidade, desonerações fiscais em dimensões escandalosas. Ignorando os alertas, os partidos no governo comemoravam euforicamente os benefícios do curto prazo. De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões: o pré-sal resolveria tudo, empresas como o grupo X colocariam o país no cenário mundial, o BNDES construiria a nação emergente mais dinâmica do século 21.

A realidade desfez as ilusões, os alertas se mostraram proféticos, mas a eleição não permitia que se admitisse a crise. A folia econômica que se esgotava chegou à política e as ilusões foram ampliadas pelo marketing. Os eleitores passaram a acreditar que nunca o Brasil fora tão rico, dinâmico e sem pobreza, e que o país daria passos para trás se não reelegesse o grupo no poder.

O resultado é que a economia brasileira chegou a 2014 em uma situação de crise de proporções catastróficas: déficit em transações correntes de 4,2%, déficit nominal de 6,7% e dívida pública bruta de 6,3% (em relação ao PIB); além de inflação persistente acima da meta.

Agora, passadas as eleições, o governo faz tudo o que acusava seus opositores de pretenderem fazer contra o povo e o país: elevação da taxa de juros, controle de gastos, redução de direitos e realismo nos preços passaram a ser defendidos como ajustes necessários. A fala do novo ministro da Fazenda, carregada de medidas antifolia, passou a ser aceita pelos que as criticavam, enquanto outros que antes se beneficiavam da folia começam a criticar os ajustes.

O problema das últimas medidas não está na fala do ministro Levy controlando ou eliminando direitos trabalhistas, mas na falta de falas ousadas dos demais ministros, como do Trabalho, da Educação e da Saúde, oferecendo novos direitos. Alguns ajustes nos chamados benefícios sociais são necessários para corrigir os desastres criados pela folia fiscal, mas, em vez de repudiá-los ou de se conformar a eles, é preciso atualizá-los e fazê-los avançar. Alguns dos antigos direitos trabalhistas não têm como ser mantidos, mas novos direitos devem ser implementados.

Alguns dos atuais direitos precisarão ser moralizados, modificados e substituídos por direitos contemporâneos, como: direito do filho do trabalhador à mesma escola de qualidade do filho do patrão; licenças periódicas para efetiva capacitação; direito do trabalhador à licença para ir à escola do filho e para cuidar preventivamente de sua saúde.

A solução petista - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 07/02

BRASÍLIA - Como seria previsível, o PT na sua festa de 35 anos ofertou ao governo Dilma a saída da radicalização para enfrentar a crise existencial que se abate sobre o partido e sua gestão na esfera federal.

Seus caciques defenderam João Vaccari Neto, o tesoureiro mais do que suspeito segundo a Polícia Federal apura, e o próprio acusou o famoso golpe das elites contra o probo governo dos trabalhadores ao ser apontado como parte da gatunagem que assola a Petrobras.

É uma furada. Um filme velho que remonta a 2004, quando na comemoração dos 24 anos do petismo foi feita a defesa de José Dirceu, acertado pelo petardo Waldomiro Diniz (o seu faz-tudo no Congresso, pego cobrando propinas, sempre elas).

A narrativa ganhou corpo em 2005, com a reação à revelação do mensalão. "Todo mundo faz caixa 2", disseram Lula e o PT. O STF não comprou a balela e a cúpula do partido, Dirceu à frente, foi parar na cadeia.

O que ouvimos de Lula e companhia agora? Que o financiamento de campanhas pelas empreiteiras investigadas no escândalo da Petrobras era legal e para todos os partidos, como se o PT e aliados fossem virgens a passear em um prostíbulo.

Há duas mistificações aqui. Empreiteiras doam para todo mundo, só que dão mais para quem está no poder e pode usar de esquemas de favorecimento. A graça da história é que a Lava Jato descobriu que propinas foram dadas dentro da lei.

A segunda observação peca pela obviedade. Ainda que grana suja tenha abastecido aqui e ali partidos de oposição, o grosso absoluto do apurado aponta para o PT e os seus. A oposição não indicava diretores corruptos na Petrobras.

Ao indicar Aldemir Bendine para descascar o abacaxi gigante da Petrobras, Dilma mostrou-se sozinha em suas opções. Resta saber se daqui para a frente ela irá seguir o receituário petista do negativismo e correr o risco de isolar-se ainda mais.

Lição do avesso - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 07/02

É um caso para estudo em escolas de administração. Pelo avesso. Ensina tudo sobre o que não se deve fazer. Este é o resumo desta desastrada intervenção da Presidente Dilma na Petrobras. Mas uma coisa se diga: foi coerente. Improvisada e insensata do começo ao fim. Há três meses, o então ministro da Fazenda Guido Mantega desmentia que Aldemir Bendine estivesse demissionário do Banco do Brasil.

Bendine tentava, no dia 7 de novembro, explicar o inexplicável caso do empréstimo de R$ 2,7 milhões concedido com juros camaradas a uma amiga que deu como garantia a pensão alimentícia dos filhos menores. No dia 6 de fevereiro, está ele alçado pela presidente Dilma ao posto de presidente da Petrobras. Na presidência do conselho de administração, confirmando indicação, o mesmo Guido Mantega.

Imaginemos, para alimentar algum otimismo, que reste provado que Bendine nem sabia do tal empréstimo à amiga. Ele precisará ficar se explicando deste e de outros casos. E se existe uma coisa que a Petrobras não precisa neste momento é de um presidente que tenha que ficar se defendendo. Todos os esforços devem ser para defender a Petrobras.

O perfil ideal para o cargo é ser uma pessoa que simbolize independência. O que a estatal precisa é de um executivo com autonomia. O problema da Petrobras não será resolvido por um presidente que aceite pressões políticas e cumpra ordens que contrariem os interesses da empresa. O melhor seria evitar pessoas do grupo dos amigos do governo.

O que espanta neste caso é como nenhuma solução foi pensada com antecedência. Tão longa crise e não foi tempo suficiente para o governo ter uma saída estratégica. A presidente convocou a ex-presidente Graça Foster para demiti-la e, ao mesmo tempo, pedir que ela permanecesse no cargo até a publicação do balanço. Pelo andar dos trabalhos com a PricewaterhouseCoopers (PwC), se a diretoria permanecesse, seria possível ter o resultado financeiro auditado em maio. Ou seja, Dilma estava pedindo à Graça que ficasse dependurada por mais quatro meses no cargo do qual fora demitida. Em seguida, o governo confirmou a informação de que Graça sairia, a diretoria se rebelou e pediu demissão coletiva naquela mesma noite de segunda-feira.

Contudo, na manhã da terça, o ministro da Energia, Eduardo Braga, disse que a diretoria ficaria até março. Ainda que eles aceitassem permanecer, quem, com o mínimo de bom senso, imaginaria que uma empresa em crise poderia ser comandada por uma equipe enfraquecida pela demissão anunciada?

Hoje a Petrobras é uma empresa que não sabe o valor do seu patrimônio, está no meio da mais profunda e extensa investigação policial por corrupção. A companhia tem que administrar a crise e ao mesmo tempo fazer uma gestão de dano. A imagem da empresa sofreu sério estrago junto aos seus credores, auditores, investidores, acionistas e precisa reduzir esses danos. Ao mesmo tempo, precisa se proteger contra os riscos futuros de novos rebaixamentos ou cobrança antecipada de dívida.

A demissão que causou tanto reboliço esta semana não foi causada pelo escândalo. Mas sim pela divulgação do número de R$ 88,6 bilhões de diferença entre o valor real e o valor contábil de alguns dos ativos da Petrobras. A diretoria poderia ter sido trocada por outros motivos, mas, ao ser trocada por esse, a mensagem que a presidente da República passou é de que continuará interferindo nos rumos da empresa. O risco Dilma permanece.

O governo nem fez esforço para cumprir a legislação do mercado de capitais. Deixou vazar o nome de Aldemir Bendine bem antes que ele fosse anunciado como o escolhido do controlador. Mas essa foi apenas mais uma trapalhada. Coerente até o fim.

O choque da realidade - ANDRÉ LARA RESENDE

O ESTADO DE S.PAULO - 07/02

O quadro político e econômico agrava-se desde o fim do primeiro mandato de Lula. A revelação da sistemática compra de apoio ao governo por meio de um esquema de desvio de recursos públicos - o "mensalão" - foi um marco divisor. Ainda não estava claro o grau do estrago que a ocupação do Estado por militantes e simpatizantes viria a fazer, mas estava quebrado o encanto.

A condução da política macroeconômica sofreu uma inflexão a partir de 2008. Sob pretexto de praticar uma política anticíclica keynesiana - que a grande crise financeira justificava nos países centrais, mas não nos países periféricos -, acelerou-se o processo de expansão dos gastos diretos e indiretos, explícitos e implícitos, do setor público. A política macroeconômica perdeu toda a racionalidade e tornou-se manifestamente voluntarista.

O desajuste fiscal e os desmandos administrativos, associados à distribuição de benefícios demagógicos, de vantagens e subsídios, ficaram mascarados pelo ciclo de alta das commodities, pelo o ganho nos termos de troca com o exterior. O País cresceu relativamente pouco, mas enriqueceu muito. A riqueza não depende só do crescimento, mas também das expectativas. O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza.

No ano passado, a aceleração da piora nas condições tanto econômicas como políticas não deu tempo para que as percepções pudessem acompanhar o agravamento da realidade. As eleições contribuíram para atrasar a convergência das expectativas. O clima de campanha eleitoral tornou difícil separar os fatos da propaganda. O País saiu das eleições dividido e com um fosso entre as condições objetivas e a percepção da realidade. O choque da realidade está agora em curso.

No ano passado, a economia não cresceu, o superávit fiscal primário desapareceu e o déficit externo passou de 4% do produto interno bruto (PIB). Apesar dos preços administrados defasados e dos juros em alta, a inflação vai superar o teto da meta. A infraestrutura está obsoleta e o racionamento de água e energia elétrica será inevitável. A Petrobrás está paralisada, incapaz de acessar os mercados de capitais. Sua viabilidade está ameaçada. Os investimentos privados devem colapsar.

A surpreendente nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda impediu que o ajuste das expectativas levasse a uma crise cambial e financeira. Sua presença foi crucial para que a crise não explodisse com toda a sua força logo nos primeiros dias do segundo mandato de Dilma Rousseff. O PT poderia então explorar mais facilmente a tese da sabotagem dos "mercados" a um governo que acabara de ser democraticamente eleito. Isolado num Ministério de inédita incompetência, Levy corre o risco em alguns meses se defrontar com apenas duas alternativas: a demissão, diante da inviabilidade política do ajuste necessário, ou a desmoralização.

Some-se às dificuldades macroeconômicas o racionamento de água e energia para que as perspectivas se configurem dramáticas. O racionamento racional deveria considerar as repercussões do corte para os diferentes setores. Para minimizar o impacto sobre o PIB os cortes deveriam ser definidos a partir da matriz de insumos-produtos. Numa economia de guerra, que exija o racionamento de bens essenciais, não é possível utilizar apenas o sistema de preços para alocar recursos. O racionamento planejado exige, pois, planejamento e execução centralizada, o que não pode prescindir de autoridade e comando.

O País está acéfalo. O Executivo, atordoado e acuado, está aparentemente preocupado exclusivamente em minimizar as possibilidades de impeachment. Os quadros do serviço público estão desmoralizados e desmotivados. A percepção popular do Congresso Nacional, envolvido no esquema da corrupção sistematizada pelo governo na Petrobrás, nunca foi tão negativa. Desmoralizado com a população, o Legislativo corre ainda o risco de colisão com o Judiciário. Não há novas lideranças nem sinais de que possam surgir da política partidária, cujos canais estão entupidos. Dada a desmoralização da política, abre-se a possibilidade de lideranças externas a ela, populistas e inimigas das instituições.

A combinação da economia submetida a um racionamento drástico com a falta de autoridade institucional é o caminho para se chegar aos chamados "Failed States". Caminho que a Venezuela parece ter começado a trilhar e no qual países como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, entre outros, estão avançados. Sem autoridade institucional constituída e reconhecida, forças paralelas passam a controlar o racionamento e os mercados negros. Numa fase aguda, diante da revolta popular e da generalização dos saques, surgem milícias armadas, inicialmente para vender segurança, mas que se transformam em poderes paralelos.

Entre os "Failed States" e a situação brasileira ainda há uma grande distância, mas mesmo que não sejamos pessimistas o horizonte não é promissor. Na melhor das hipóteses, teremos quatro anos de um governo acuado e paralisado, diante da pior crise política e econômica em décadas. A possibilidade de um tumultuado impeachment da presidente não pode ser descartada. Em tese, basta o fundamento jurídico para o impeachment, mas na prática é preciso o apoio político "das ruas".

Diante da gravidade do quadro, não é hora de dividir, mas de reconciliar o País em torno de uma coalizão suprapartidária, com apoio de todos os segmentos da sociedade. É preciso reconstruir o Estado, resgatar a capacidade de formular e implementar políticas para enfrentar a crise. Infelizmente, parecemos caminhar no sentido oposto, o da radicalização da divisão do País.

Quem calcula esse balanço? - ANA MARIA MACHADO

O GLOBO - 07/02

Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição


Início de mês e de ano. O cidadão é daqueles que procuram estar sempre em dia com suas obrigações. Organizadíssimo. Mas em poucos dias vive três situações exemplares.

Primeira: precisa renovar a carteira de motorista, porque o exame de vista venceu. Vai ao banco e paga o Duda. Liga para o teleagendamento do Detran. Depois de perder um tempo enorme ouvindo a irritante musiquinha de espera, finalmente é atendido. Informam-lhe que só há horário vago daí a dias. Preocupa-se porque o prazo fica apertado demais. A atendente, solícita, lhe faz uma sugestão. Por que não recorrer ao “Poupa-Tempo”? É um serviço ótimo, economiza tempo e esforço. Num só lugar se entregam os documentos e se faz o exame. Dá-lhe o endereço. O contribuinte agradece. Que bom saber que agora há essas coisas, e as autoridades se preocupam com o cidadão! Só que o serviço não marca exames pelo telefone. Precisa fazer isso em pessoa. Fornecem-lhe o endereço e o horário de funcionamento. Até marcam a hora em que será recebido: 13h, daí a poucos dias. Vai perder só mais meia tarde de trabalho. Na data e horário, comparece mas descobre que foi mal informado: naquela unidade não se faz mais exame de vista. Dão-lhe um papel para tentar marcar com o médico, que só podia em outra semana. E lhe passam um pito: na certa entendeu mal, ninguém lhe informaria errado. Ignora a provocação. Precisa renovar o exame. Não pode dirigir sem carteira de habilitação válida. Engole em seco e espera que agendem o exame. É sorteado para um ponto que não lhe convém. Pede para trocar. Não pode. O sistema já sorteou, não aceita mudanças. Que jeito? Vai ter de perder mais uma manhã de trabalho.

Segunda: como tem um apartamento na serra, recebeu a cobrança do IPTU, enviada pela prefeitura de Petrópolis. Vai fazer como todos os anos, pagar em cota única, adiantado, e aproveitar o desconto para quem faz isso. Ao abrir o carnê, constata que falta uma página, justamente a da cota única. Só estão lá as das cotas parceladas. O que terá havido? Examinando com atenção, verifica uma observação impressa, acusando-o de estar devedor, por não ter pago o imposto em 2014. Não é possível. Tem certeza de que pagou. Será que aquela tripinha amarela que agora o banco dá como recibo já terá se apagado e ele não terá como provar? Mas não, pode ficar tranquilo. Como é organizadíssimo, não apenas pagou em dia o imposto de 2014 (e os de todos os anos anteriores), como tirou cópia do comprovante bancário e o guardou grampeado no carnê. Mas não pode pagar o imposto em cota única. Falta-lhe a guia correspondente, que a prefeitura não enviou, em represália por considerá-lo o mau pagador que não é. Perde a tarde ao telefone tentando falar com alguém lá. Inutilmente. Deus do céu, vai ter de ir a Petrópolis em pessoa para resolver! Em dia útil. Mas só depois que estiver com a carteira de motorista, pois está impedido de dirigir enquanto não renovar o exame de vista , esperar seu resultado e receber a nova carteira. Que jeito?

Terceira: recebeu um aviso da Companhia de Gás, em tom um tanto ameaçador. Dizem que sua conta, vencida desde novembro, não foi paga. Sorri, superior. Engano deles. Não pode ser. Há mais de 15 anos tem em débito automático todas as suas contas. Nem se preocupa em pagá-las, são descontadas diretamente. Passam-se alguns dias, vem novo aviso. Vai verificar no extrato e constata que, realmente, há dois meses esse desconto não está sendo feito, como lhe confirmara por telefone a companhia de gás — depois de uma tarde inteira de varias ligações e da indefectível musiquinha. Como pode o banco suspender um serviço desses unilateralmente? Perde o sono, de raiva, frustração, estresse. Vai ao banco, furioso. Outra tarde de trabalho perdida. Descobre que, realmente, o débito foi suspenso. Como? Quem deu a ordem? Esmiúça daqui e dali, descobrem: ninguém suspendeu. Mas a CEG mudou unilateralmente o número do código do cliente em sua conta, sem avisar a ninguém. Nem a ele, nem ao banco. Pode? Não, não pode. Mas fizeram. E ainda cobram multa pelo atraso nos pagamentos. Vai brigar?

Bem que dá vontade. Mas só quer cuidar da vida. Deixa pra lá. Há um limite para o acúmulo de aborrecimentos de cada um. Já perdeu tempo demais do trabalho, com tudo isso. E no momento, cruzes!, está às voltas com a renovação de seu passaporte.

Não há limite, porém, para quanto esses esforços desperdiçados podem roubar da vida econômica de uma nação. Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição. É o preço da incompetência, da perda de tempo com inutilidades, da educação precária, da má gestão, da condescendência com erros inadmissíveis. Alguém consegue calcular esse prejuízo num balanço?

Desastres em série - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 07/02

Nomeação do novo presidente da Petrobras conseguiu provocar desconfianças tanto no mercado financeiro como no aparelho petista


A sequência de infortúnios que se abateu sobre a Petrobras nos últimos meses não se interrompe com a nomeação do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para o posto que vinha sendo ocupado por Graça Foster.

Embora exista o risco de cometer injustiças, é difícil escapar à impressão de que o nome de Bendine consegue a proeza de suscitar reservas tanto entre investidores do mercado como entre membros do aparelho petista.

Desgastado por denúncias relativas a sua atuação no BB, Bendine não teria "perfil para gerenciar uma crise dessa dimensão", confidenciou um alto dirigente do PT à reportagem da Folha.

Afinal, ele chegou a ser investigado pela Receita Federal, intrigada por variações em seu patrimônio e pela aquisição, em dinheiro vivo, de um apartamento --bastante inusitado, aliás, que o responsável pela mais importante instituição financeira do país prefira guardar economias debaixo do colchão.

Ainda nessa área, causa estranheza o empréstimo de R$ 2,7 milhões, com juros subsidiados, autorizado por Bendine à apresentadora de TV Val Marchiori, a quem faltavam qualificações para a obtenção de tão volumoso aporte creditício.

Enquanto no PT --que é o PT--há quem se assuste com as implicações da nomeação, o mercado se comporta de forma semelhante, embora mais precisa e imediata. Caíram fortemente as ações da Petrobras, tão logo veio à tona a decisão de Dilma Rousseff (PT).

Mais uma vez, a presidente da República se vê assoberbada por uma crise à qual, por falta de inteligência política e talvez de simples contato com a realidade, só tem contribuído para intensificar.

Em tese, ao Planalto caberia transmitir uma imagem de inflexível disposição para passar a limpo todo o escândalo da Petrobras.

Dilma poderia ter tomado a iniciativa de realizar demissões fulminantes; viu-se, ao contrário, na situação de pedir a Graça Foster que continuasse por algum tempo até conseguir nome mais adequado.

A contemporização não deu certo, uma nova urgência se impôs à pauta da chefe de governo. Ironicamente, o nome do economista Paulo Leme, da Goldman Sachs, era visto como uma possibilidade.

Leme, que já havia sugerido a privatização da estatal, atestaria a vontade de emancipar a empresa das conhecidas pressões que sofre do petismo. Mas a alternativa ultraliberal desaparece do horizonte, e Bendine é o nomeado.

A oscilação diz mais sobre Dilma Rousseff, seu isolamento, sua visão da política, do que sobre o que significa, ou deixa de significar, a presença desta ou daquela figura menor nos quadros da Petrobras.

Escolha temerária - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 07/02

Muito mais do que amadorismo e improvisação, a escolha do novo comando da Petrobras, vago desde quarta-feira com a renúncia de Graça Foster, expôs a inépcia do governo Dilma Rousseff para administrar crises e entender o tamanho e a gravidade da situação em que se encontra a maior empresa do país.

A escolha de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, é quase tudo o que o bom senso não recomenda. Afinal, não se trata de nomear o chefe de uma repartição qualquer. A missão do novo presidente da estatal do petróleo não é apenas a de evitar que a casa fique sem alguém para assinar papéis importantes. É muito mais. É a de retirar um gigante de profundo atoleiro de dívidas, corrupção e perda de credibilidade.

O que a escolha não poderia deixar de levar em conta é que a Petrobras não chegou a ponto de não poder nem sequer publicar balanço auditado por obra do acaso. Pelo contrário. É mais do que sabido e alardeado por especialistas que a empresa foi vítima do acionista controlador, o governo, que, nos últimos anos, vem fazendo dela instrumento político.

Desde o início da administração Lula da Silva, a empresa foi obrigada a cometer o suicídio comercial de comprar gasolina cara no exterior para vendê-la mais barata no mercado interno. Assim, ajudou a criar controle artificial da inflação. Por pressão do ex-presidente, a Petrobras gastou dinheiro sem volta em projetos de refinarias economicamente inviáveis no Ceará e no Maranhão.

A sangria foi grande com a compra da refinaria em Pasadena (EUA) por preço muito superior ao que o vendedor tinha pago por ela. Ainda pior foram os golpes perpetrados por dirigentes da empresa, nomeados ou mantidos por influência política, na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De lá, bilhões foram desviados pela via do superfaturamento e de serviços pagos e não executados.

Esse é um dos focos da Operação Lava-Jato, que vêm revelando a ação de corruptos que, ao longo de pelo menos uma década, transformaram a Petrobras numa coleção de escândalos. Consequência do enorme desarranjo, a empresa vem perdendo rapidamente valor de mercado, aqui e nos Estados Unidos, onde tem papéis cotados, a ponto de levar grupos de investidores a pedirem investigação às autoridades do mercado de capitais norte-americano.

Sobram, portanto, razões para que o novo executivo da Petrobras fosse alguém independente das más orientações da presidente e do antecessor, além de ser alguém absolutamente livre de suspeita de desvios de conduta. Funcionário de carreira na instituição financeira estatal, Bendine é ligado ao ex-presidente Lula, a quem deve a nomeação para a presidência do BB em 2009.

Ele não tem currículo de quem já salvou qualquer empresa e muito menos que tenha trabalhado numa exploradora de petróleo e derivados. Pior: já começa tendo de esclarecer a suspeita de favorecimento à amiga e apresentadora de TV Val Marchiori com empréstimo de R$ 2,7 milhões, tendo como garantia a pensão alimentícia que recebe por dois filhos menores.

Não foi sem motivo, portanto, que as ações da Petrobras despencaram mais de 7% depois do anúncio do nome de Bendine. A queda refletiu a frustração com o descaso com o qual a presidente conduziu a questão e a certeza de que ela não pretende abrir mão de continuar impondo suas equivocadas decisões à Petrobras.

O petrolão chegou de vez ao PT - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/02

O depoimento do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco colocou o foco em propinas doadas de forma ‘legal’ ao partido, uma diferença desse caso em relação ao mensalão


O PT já viveu momentos mais festivos do que nestes 35 anos de existência, comemorados ontem em Belo Horizonte. Pois, além de todo o desgaste causado no partido por mais um escândalo, o do petrolão, o tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, um dos investigados no caso, foi levado, na quarta-feira, por policiais federais a depor. A cena de agentes pulando o portão da casa do petista, que resistia a ir à PF, reflete bem a situação em que se encontra o PT, nos seus 12 anos de Planalto.

O baque começou na quarta, com a revelação de que, no depoimento prestado em regime de delação premiada, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco afirmou que o partido, em dez anos, de 2003 a 2013, recebeu, em propinas garimpadas na estatal, entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, cifras majestosas em qualquer lugar. E desses, US$ 50 milhões teriam sido coletados por Vaccari. O testemunho de Barusco levou à convocação do tesoureiro.

Do inventário das piores situações passadas pelo PT desde a chegada de Lula ao Planalto, em 2003, constará esse depoimento de Barusco, ao lado de um outro, prestado em 2005 na CPI dos Correios, pelo marqueteiro da campanha de Lula, Duda Mendonça, em que ele afirmou ter recebido pagamento do partido em paraíso fiscal no exterior. Era a prova de que o PT já se lançara a traficâncias financeiras ilegais em dólares.

O petrolão, por sua vez, mostra-se um caso bem mais robusto que aquele, o mensalão. A diferença mais evidente está no volume de dinheiro surrupiado dos cofres públicos. Estima-se que o mensalão desviou algo como R$ 150 milhões, enquanto no petrolão o Ministério Público contabilizou até agora mais de R$ 2 bilhões.

Outra diferença é que enquanto no primeiro o objetivo era comprar literalmente parlamentares e irrigar alguns partidos aliados, o assalto à Petrobras, além disso, abasteceu, tudo indica com muito dinheiro, os cofres do próprio PT. Há depoimentos sobre a conversão de propinas pagas por empreiteiras em doações ao partido.

O PT se defende com o argumento de que foram doações “legais”. Sim, mas com dinheiro ilegal. Trata-se, à primeira vista, de uma forma engenhosa de lavagem por meio de doações registradas na Justiça eleitoral. Nesse caso, os recursos precisariam ser devolvidos à Petrobras. Como os denunciados, pelas regras da delação premiada, precisam provar o que dizem, há grande expectativa sobre como tudo isso será comprovado.

Barusco, nos testemunhos, ampliou o papel na rapina do ex-diretor Renato Duque, indicado pelo PT/José Dirceu, e reforçou o entendimento de que propinas se tornaram parte do cotidiano na estatal. Não que o lulopetismo tenha inventado a corrupção na estatal. O próprio Barusco confessa ter cobrado “por fora" durante o governo FH. Mas sem dúvida o PT criou um esquema amplo de corrupção na empresa, algo jamais visto na história do país. Por tudo isso, há mesmo poucos motivos para alegria nas hostes petistas.

A frustrante escolha para a Petrobras - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/02

A crise exige uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal, mas a escolha de Dilma mostra que a presidente vai interferir ainda muito na empresa



O mundo do petróleo tem particularidades que limitam a entrada de altos executivos procedentes de outras áreas. Desde os anos 1990, o setor passou por muitas fusões e incorporações, que redesenharam internacionalmente o mapa das grandes corporações. Mas nesse processo não houve uma significativa renovação de executivos. No Brasil mesmo as companhias que estrearam depois da abertura do mercado foram basicamente alicerçadas na contratação de ex-funcionários da Petrobras, e não por executivos oriundos de segmentos sem relação direta com o setor. Nas telecomunicações, por exemplo, após a privatização as antigas estatais não ficaram restritas a ex-dirigentes da Telebrás.

Companhias estatais nacionais do petróleo são um pouco exceção à regra, devido às nomeações políticas em seus quadros dirigentes. Nos governos do PT, até que Graça Forster assumisse a companhia, a presidência da Petrobras teve esse caráter político, pois desde que Lula tomou posse ficou claro que a companhia passaria a ser um instrumento voltado para o atendimento dos propósitos do grupo que passou a ocupar o poder, e deseja mantê-lo a qualquer custo, como se vê.

Tal estratégia empurrou a Petrobras para a mais grave crise da sua história, e sem paralelo em qualquer outra grande empresa brasileira. Tirar a companhia dessa situação de calamidade exigiria uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal.

Daí a reação negativa do mercado de ações (com uma queda que chegou a 7% nas cotações dos papéis da estatal) ao anúncio do nome de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras. Respondendo até agora pelo Banco do Brasil, Bendine tem uma ligação com o Palácio do Planalto que torna improvável o fim da forte ingerência da presidente Dilma nos rumos e no cotidiano da Petrobras. A solução encontrada para a substituição de Graça Foster parece ser mais do mesmo, ainda que Bendine transite pelo mundo das finanças, o que, neste momento, é necessário para que a Petrobras consiga superar impasses que podem paralisar parte de seus atividades e inviabilizar investimentos.

Por esse vínculo com o Planalto e mais alguns episódios que protagonizou no Banco do Brasil, Aldemir Bendine chegará à Petrobras já tendo que dar muitas explicações, perdendo um tempo que seria precioso para a recuperação da companhia.

Não está claro se será uma interinidade ou se, com sua escolha, a presidente Dilma quis afirmar que houve substituição de nomes, mas não da essência dos planos que o governo tem para a Petrobras. Pela importância que a empresa tem para o país, espera-se que, internamente ou não, os novos gestores sejam bem-sucedidos em sua missão, e que a opção feita por Dilma não sirva para agravar ainda mais a crise da companhia. Mas não há um clima de otimismo.

A herança da inflação - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 07/02

Mais uma vez o Brasil deixa americanos, europeus e japoneses para trás, conseguindo em apenas um mês uma inflação muito maior que a exibida no mundo rico em um ano. A vida terá voltado ao normal nos países avançados quando os preços no varejo subirem no ritmo anual de 2% - pelo menos segundo os padrões de avaliação dos bancos centrais. A zona do euro tem sido assombrada pelo espectro da deflação, bem conhecido na economia japonesa. Pelo menos desse problema os brasileiros continuam muito distantes, graças à gastança, aos erros e aos truques de circo mambembe de seus governantes. No mês passado, os preços de bens e serviços comprados pelas famílias subiram em média 1,24%, de acordo com dados incluídos no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Em 12 anos, foi a maior alta desse indicador num mês de janeiro. Em 12 meses, a variação acumulada chegou a 7,14%, número superado apenas pela alta de 7,31% no período até setembro de 2011, primeiro ano da presidente Dilma Rousseff.

A meta anual de 4,5% foi sempre superada com folga nos últimos quatro anos. O desvio para cima, em 2015, deverá ser bem maior, segundo as previsões correntes. No mercado financeiro, a mediana das apostas era uma alta de 7,01% neste ano, de acordo com a sondagem realizada pelo Banco Central (BC). Para isso será necessário, naturalmente, garantir de agora em diante resultados bem menores que o de janeiro. É muito difícil de imaginar esse quadro sem pelo menos mais uma alta, provavelmente de 0,5%, dos juros básicos.

A inflação do mês passado refletiu, como se previa, a correção ainda parcial de preços contidos politicamente nos últimos anos. O item habitação, com alta de 2,42% e impacto de 0,35 ponto porcentual na formação do IPCA, foi fortemente influenciado pelo aumento médio de 8,27% do custo da energia elétrica. Em 9 das 13 áreas metropolitanas cobertas pela pesquisa o aumento das contas de luz ficou acima de 7,6%. A maior alta, de 11,66%, ocorreu em Porto Alegre. A segunda maior, de 11,46%, ocorreu em São Paulo. As tarifas de eletricidade foram congeladas há pouco mais de dois anos por decisão da presidente Dilma Rousseff e começaram a ser liberadas em 2014. A correção continua incompleta. Além disso, novos ajustes foram anunciados durante a semana pelo ministro de Minas e Energia, porque a seca se prolonga e será preciso continuar usando a energia mais cara das termoelétricas.

Também a correção das tarifas de transporte coletivo, contidas por influência do governo federal, afetou o IPCA em janeiro. No grupo transportes, o aumento médio ficou em 1,83% e foi determinado principalmente pelos ajustes das passagens de ônibus urbano e de metrô.

Esses ingredientes bastam para tornar indigesta uma sopa de números, mas servem para evidenciar, mais uma vez, o esforço do governo para disfarçar as pressões de custos e maquiar os índices de preços. Apesar desse esforço, os índices de inflação foram sempre ruins nos últimos anos e a variação anual do IPCA sempre esteve próxima - e algumas vezes acima - de 6,5%, limite superior da margem de tolerância.

A correção de preços contidos politicamente é inevitável e mais dolorosa quanto mais prolongado tenha sido o artifício. Além de inútil no combate à inflação, essa ação distorce a operação dos mercados. Ao transmitir um sinal errado sobre os preços, estimula o consumo, quando o correto seria o incentivo à economia. Ao mesmo tempo, a intervenção nos preços afeta a situação de caixa, a saúde financeira e a capacidade de investimento das empresas fornecedoras do bem ou serviço. O caso da Petrobrás, com a contenção política dos preços de combustíveis, era bem conhecido. O das empresas do setor elétrico ampliou o histórico e as consequências das intervenções desastradas.

Mas os preços administrados são uma pequena parte da história. Mesmo sem aumento desses preços, a inflação tem sido sustentada por outros fatores, como a gastança pública e o incentivo maior ao consumo que a produção. A herança dos erros é muito mais ampla.

As causas da corrupção - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 07/02

A presidente Dilma Rousseff utilizou a mensagem anual ao Congresso Nacional para insistir numa intencional confusão entre as deficiências do atual sistema de representação e as causas da corrupção. Ao se referir ao esforço para combater a corrupção e a impunidade - esforço este que, para ser mais fiel à realidade, deveria vir acompanhado de aspas, por seu caráter duvidoso ou, ao menos, bastante ineficaz até o momento -, a presidente Dilma disse que tal esforço "produzirá resultados apenas parciais, caso o Brasil não enfrente a fonte principal dos desvios e dos desmandos: as insuficiências e distorções do nosso sistema de representação política".

É mais que evidente a necessidade de uma reforma política. Os resultados do atual sistema de representação são apresentados diariamente aos olhos de todos os brasileiros. É um sistema que serve muito bem aos interesses de alguns, e muito mal ao interesse público. Exemplo disso é a proliferação de partidos, que não atende à diversidade de pensamento e opinião de uma sociedade vibrante e plural. Essa proliferação satisfaz a ambições e interesses particulares. Produz partidos que não representam parcelas ou minorias, organizando o povo, porque são legendas de aluguel, à disposição de quem mais pague ou melhores condições ofereça.

Outra coisa, muito diversa dos problemas de representação, é a corrupção estonteante da qual se vai tendo mais detalhes a cada dia. No entanto, a presidente Dilma parece querer tratar as duas como se fossem muito próximas.

De acordo com a mensagem da presidente ao Congresso, o culpado pela corrupção seria o sistema político. E, pelo que se pode deduzir do enviesado raciocínio presidencial, as pessoas que praticam corrupção não seriam tão corruptas assim. Seriam, antes, reféns de um perverso sistema.

Naturalmente, esse modo de pensar é benéfico à presidente, já que ela simplesmente lava as mãos pelo que de ruim acontece em seu governo. Para acabar com a corrupção, seria preciso mudar o sistema representativo, mas o que ela pode fazer se o Congresso Nacional - que é quem tem competência constitucional para fazer a reforma política - sempre a adia? A culpa seria do sistema, e subsidiariamente do Congresso. Já a presidente estaria isenta de responsabilidade no que se refere à corrupção.

Essa linha de raciocínio pretende vender também um mundo irreal. Agora, há muita corrupção. Mas, quando for feita a reforma política, tudo se ajeitará e o Brasil já não terá mais problemas desse tipo. Escapa-se, pensando assim, de um diagnóstico realista sobre o presente, oferecendo-se um mundo cor-de-rosa no futuro. E justifica-se a inação.

Pena que os fatos desmintam o raciocínio da presidente Dilma. O sistema político brasileiro é o mesmo de 20 anos atrás. No entanto, a corrupção expandiu-se exponencialmente nos últimos anos. Dessa simples constatação - da qual nem a presidente pode fugir -, surgem algumas perguntas. Se o sistema representativo não mudou nesse período, por que será que a corrupção aumentou tanto? Qual culpa tem o sistema representativo pelos desvios de dinheiro praticados por diretores da maior estatal brasileira? Aqueles que ocuparam ou ocupam cargos de responsabilidade na administração pública não têm nenhuma responsabilidade pelo escândalo do petrolão?

O sistema de representação precisa melhorar, e é um dever do Congresso Nacional fazer a tão esperada reforma política. Mas, seja qual sistema for, sempre haverá a possibilidade de corrupção. Isso não significa, no entanto, desistir de combater a corrupção, como parece insinuar a presidente. Significa que, mesmo agora, com uma representação política deficiente, é possível combater eficazmente a corrupção. A começar por não atribuir falsas causas à roubalheira. No caso presente, roubou-se desbragadamente não porque a isso o sistema político levou, mas porque políticos, funcionários e empreiteiros corruptos se reuniram para sangrar a Petrobrás e o Tesouro em benefício de um projeto de poder.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

'My way' - ELIANE CANTANHÊDE

O Estado de S. Paulo - 06/02

Hoje é dia de festa, com Lula e Dilma Rousseff na reunião do diretório nacional do PT. Que festa?! Dificilmente haveria momento pior para encontros do gênero e para comemorar os 35 anos do partido. Aliás, para comemorar qualquer coisa.

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, acaba de sofrer uma "condução coercitiva", algo ali entre depor espontaneamente e ser preso, pura e simplesmente. Em bom português, ele foi arrastado para depor.

Não bastasse, o ex-gerente executivo da Petrobrás Pedro Barusco revelou que o PT recebeu até US$ 200 milhões de propina. Espantoso.

Para completar, o novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acatou o pedido de abertura de uma nova CPI da Petrobrás. Se há algo que nenhum governo quer, é uma CPI na sua cola.

Alguns podem ponderar que Dilma já matou no peito duas CPIs da Petrobrás. Sim, mas o momento era outro e Dilma estava bem mais parruda politicamente. A crise econômica não estava tão escancarada, a crise política era apenas latente, a conta de luz não tinha disparado, a ameaça de falta de luz e de água não contaminava o ambiente. E... as investigações da PF estavam apenas começando.

Hoje, a situação do governo e do PT é de isolamento e perplexidade. A diferença é que o governo está só isolado, mas o PT está também dividido. A cada sorriso, cochicho e abraço entre Dilma e Lula na festa de hoje, os petistas lembrarão quanto os dois, acuados, empurram as culpas um para o outro. Dilma empurra a culpa pela Petrobrás. Lula, a culpa pela economia.

Só resta ao partido - que completou 12 anos no poder e acaba de conquistar o quarto mandato nas urnas - torcer para ninguém sair cantando My Way (Meu jeito). Eternizada por Frank Sinatra, a música chegou à política brasileira quando o delator do mensalão, Roberto Jefferson, recitou ao ser preso no Rio: "E agora o fim está próximo". Estava mesmo. "Arrependimentos, eu tive alguns". Teve mesmo. E hoje?

My Way é o nome da nova etapa da Operação Lava Jato, porque o delator Barusco, que está aumentando o buraco - e os valores - do PT, chamava assim o colega de Petrobrás e de traquinagens Renato Duque, ex-diretor de Serviços da companhia.

Enquanto o partido de Lula e Dilma se debate sem saber para onde ir, o governo tenta desesperadamente achar um incauto do mercado que tenha um super nome, um currículo robusto e uma coragem de ferro para assumir a presidência da Petrobrás.

Vai ser difícil. O mais provável é que Dilma tenha de recorrer à lista de sempre com os economistas alinhados. Quem de fora é tão temerário a ponto de assumir uma companhia que perdeu bilhões em ativos nos últimos anos, foi tomada de assalto por partidos políticos, virou rendez-vous de doleiros, diretores e executivos da iniciativa privada? E que não é capaz de apresentar um balanço auditado e, last but not least, responde a processo na Justiça dos Estados Unidos.

Depois de nomear Joaquim Levy como salvador da Pátria, Dilma bem poderia resgatar Henri Philippe Reichstul, que fez uma gestão moderna, pragmática e séria na Petrobrás. Mas Dilma não chegaria a tanto.

Aliás, ela já tinha destacado Levy para operar a substituição de Graça Foster, mas, bastou a informação sair na imprensa, empurrou Aloizio Mercadante para o meio das negociações. Seria dar excesso de poderes ao tucano, ops!, ao ministro Levy.

Na festa de hoje, o PT, de tão bela origem e de tão boas intenções, vai brindar com amargura o seu próprio destino e com constrangimento os seus Vaccari, André Vargas e tantos outros que foram caindo pelo caminho e pelo "Meu jeito" de Lula governar.

Muitos, intimamente, já cantam: "Teve horas/ Eu tenho certeza de que você sabe/ Quando eu mordi mais do que podia mastigar".

Sim, nós sabemos.

O câmbio e a indústria - CELSO MING

O ESTADÃO - 06/02

O problema de um certo número de dirigentes da indústria é que pretendem ditar as políticas parciais, sem enxergar o todo


O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, está pregando agora a plena flutuação do câmbio: “Libera o câmbio e diminui a carga tributária e aí, com certeza, a competitividade (da indústria) vai aumentar”, disse nesta quinta-feira à Agência Estado. É um tema que pede alguma análise.

Velloso só disse isso porque trabalhou com os faróis baixos. Ele quer livre flutuação quando a cotação do dólar tende a subir, como agora. Quando acontece o oposto, quer intervenção do Banco Central (BC).

Durante oito anos, o BC fez o contrário do que está fazendo hoje. Comprou moeda estrangeira no câmbio interno para impedir a derrubada das cotações e a supervalorização do real, o que puxou as reservas externas a US$ 370 bilhões. A Abimaq aplaudiu a intervenção e até quis mais.

Hoje, o BC usa o câmbio para combater a inflação, o que não deixa de ser política distorcida, porque este conserto, ou seja a contenção das cotações do dólar para impedir a disparada da inflação, não procura a solução.

A inflação está dando esses pinotes porque o governo gastou e ainda gasta demais. O despejo desses recursos na economia vem aumentando a demanda, sem contrapartida de oferta. O resultado é a inflação saindo pelo ladrão – como se confirmará, nesta sexta-feira, com a divulgação do IPCA de janeiro pelo IBGE.

Há outros fatores que explicam a forte flutuação do câmbio. Entre 2008 e 2014 a grande entrada de dólares no País foi consequência da política de relaxamento quantitativo do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que emitiu US$ 4,5 trilhões em seis anos, para comprar títulos. Uma fração desses dólares veio ao Brasil e forçou a política anterior.

Agora, a ação do BC tomou direção oposta porque a deterioração das condições da economia, conjugada com a baixa das matérias-primas, provocou relativa escassez de dólares no câmbio interno. Mas, outra vez, a vulnerabilidade às flutuações do câmbio do Brasil deve-se aos desequilíbrios na economia do País e não no câmbio em si.

O problema de José Velloso e de um certo número de dirigentes da indústria é que pretendem ditar as políticas parciais, sem enxergar o todo.

A carga tributária é uma enormidade? Claro que é. A infraestrutura brasileira é uma vergonha? Sim. Grande parte da baixa competitividade da indústria tem a ver com as políticas equivocadas adotadas até agora? Certíssimo. Então, a recuperação da indústria começa com a eliminação das distorções e com o fortalecimento dos fundamentos da economia e não com a distribuição de pacotes de bondades tributárias e de controles artificiais do câmbio e de outros preços, que as lideranças da indústria sempre reivindicaram e sempre aplaudiram.

CONFIRA:



Em janeiro, os depósitos em caderneta de poupança foram menores do que as retiradas.

Caderneta
Há certa sazonalidade nesse movimento. Em dezembro, o assalariado deposita parte do 13º salário na caderneta e, em janeiro, precisa sacar para enfrentar as despesas novas, como impostos (IPVA, IPTU), mensalidades escolares e pagamento de despesas que vencem no cartão. Mas não é só isso. A crise e a inflação estão pressionando mais o orçamento do consumidor, que tende a recorrer aos saques da poupança para pagar suas contas.

Crise política e pepinos caros - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 06/02

Tensão política tende a esfriar mais a economia; sangria desatada da Petrobras azeda ambiente


O PT AINDA terá ânimo de fazer festa pelos seus 35 anos, a partir de hoje, quando então também aproveitará para dar uma força ("desagravo") a João Vaccari Neto, seu ex-tesoureiro, acusado ontem por um ex-gerente ladrão da Petrobras de levar para o partido o equivalente a no mínimo uns R$ 400 milhões em propinas e assemelhados.

A torrente de novas delações e o que começa a vazar da nova onda de investigações da PF, outra fase da Lava Jato, deve provocar paralisia ou até quebras de empresas relacionadas à Petrobras. Empresa grande.

Ainda ontem, foi aprovada a CPI da Câmara para investigar a Petrobras, o que tende a dar em quase nada, a não ser no incremento do salseiro político.

E a economia?

Se a leitora, que é perspicaz, já sabe que o clima não está bom, imagine com esse crescendo de tensão e os confrontos entre PT e o resto, e mesmo dentro do PT, pois a cada dia aparecem petistas que batem pesado em Dilma Rousseff.

A economia está basicamente no pântano. Sair do atoleiro depende ainda mais, se não quase totalmente, de decisões políticas. Melhor dizendo, depende de:

Um: que a presidente jogue a toalha e reconheça outros erros. Parece já tê-lo feito ou o faz por ora na política macroeconômica e em parte da política de energia, aceitando o tarifaço. Falta a Petrobras, para citar um exemplo maior.

Murilo Ferreira, presidente da Vale, até a noite de ontem o mais cotado para assumir a petroleira, vai ter liberdade para fazer a reforma profunda?

Dois: que a tensão política não produza pânico paralisante entre os "agentes econômicos". Isto é, o mero risco de terra em transe, de confronto terminal e de outras ameaças à continuidade do governo, vai congelar o restante dos planos de investimento, para não dizer coisa pior.

O governo precisa imediatamente de uma câmara de gerenciamento de crise ou algo assim. Está desnorteado.

CHUCHU E PEPINO

Kátia Abreu, a ministra da Agricultura, estuda se será preciso substituir a produção paulista de legumes e verduras pela nordestina. Sério. Motivo: a seca prejudica a produção, o racionamento pode provocar escassez. Regiões de agricultura irrigada poderiam compensar o problema.

Aliás, o problema já está evidente em São Paulo. O índice Ceagesp de preços subiu 2,81% em janeiro; em 2014 inteiro, subiu 8,9%. O Ceagesp é o grande mercado atacadista de legumes, verduras, frutas e pescado de São Paulo.

O chuchu subiu 118%. O pepino japonês, 100%.

Nos próximos dias, a ministra vai levar a Dilma um mapa do risco de desabastecimento devido à seca e a seus impactos possíveis na inflação.

Chuchu? Alface? Pepino? Sim. A vida cotidiana não está fácil, com falta d'água, alta em torno de 50% na conta de luz, racionamentos etc. Comida mais cara vai ser a cereja ou o pepino desse bolo de crises.

As primeiras irritações mais generalizadas com o governo Dilma em 2013 foram detonadas pela inflação da comida, que chegou a bater em 14% ao ano. O símbolo da carestia foi o preço do tomate. Era metáfora, piada. Mas degringolou em mau humor maior.

Os fatos já começam a atropelar as metas - CLAUDIA SAFATLE

VALOR ECONÔMICO - 06/02


A cada dia que passa ficam mais incertas as condições de cumprimento das duas principais metas econômicas: o superávit primário de 1,2% do PIB em 2015 e a inflação em 4,5% em 2016. Os fatos estão atropelando os prognósticos.

Quando Joaquim Levy, ministro da Fazenda, estabeleceu a meta fiscal, no fim do ano passado, não tinha conhecimento integral das "pedaladas" de Arno Augustin no Tesouro Nacional. Além do resultado de 2014 ter sido muito pior do que se imaginava, novas descobertas foram ocorrendo ao longo do mês de janeiro. O Tesouro não estava pagando em dia nem mesmo os professores do Pronatec.

O Banco Central também está sendo surpreendido com a magnitude dos aumentos de preços administrados. Começou prevendo reajuste de 17% nas tarifas de energia elétrica. Revisou para 27,6%, mas as indicações já estão para algo na casa dos 40%.

As projeções para o PIB este ano se deterioram rapidamente. Embora o relatório Focus ainda mencione crescimento de 0,03% - ou seja, estagnação - economistas do setor privado e do governo já enxergam a recessão. A diferença está na intensidade e duração.

Em 2015 a retração da atividade pode se situar no intervalo de 0,5% a 2%, em comparação com crescimento muito próximo a zero no ano passado. Os economistas das maiores casas bancárias estão migrando para 1% a 1,5% negativo, já levando em conta um racionamento de água e energia elétrica da ordem de 10%.

A economia abaixo do nível do mar dificulta sobremaneira o cumprimento da meta fiscal e constrange, de certa forma, um maior aperto monetário.

O novo cenário explica a mudança na comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) entre o Relatório Trimestral de Inflação de dezembro e a ata da última reunião, divulgada no dia 29 de janeiro, que elevou a taxa Selic para 12,25% ao ano. No relatório, o Copom dizia que faria "o que for necessário" para levar a inflação para a meta de 4,5% em 2016. Na ata, subtraiu essa afirmativa e a substituiu por "avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes", sugerindo a leitura de possível redução do ritmo de aumento dos juros para 0,25 ponto percentual na próxima reunião do comitê, em março. E, no mais, deixou as portas abertas para parar ou não o ciclo de aperto monetário.

Paralelamente aos sinais emitidos pelo BC, o mercado revigora as projeções de inflação do ano. O Focus traz previsão de 7,01% para o IPCA de 2015, podendo chegar a 7,28% conforme a mediana do Top 5. Quanto maior a inflação deste ano, maior será o peso da inércia para o período seguinte. A cada nova notícia sobre reajustes de preços administrados, porém, as pressões inflacionárias vão piorando e dificultando a ancoragem das expectativas para 2016.

Com inflação na casa dos 7% a 7,5% em 2015, a possibilidade de derrubá-la para 4,5% em 2016 fica mais distante.

Não há dúvida de que a inflação, depois do tarifaço e da desvalorização do câmbio, vai entrar em curva descendente, com alguns repiques temporários. O problema é o tempo. Quem busca replicar o modelo de projeções do BC encontra o IPCA na casa dos 4% em 2017, mas não em 2016, quando ainda estaria acima da meta.

Além de incertezas em relação à velocidade da desinflação, outras dúvidas do mercado não encontram respostas como, por exemplo, sobre qual será a ação do Banco Central diante do aumento das pressões inflacionárias. Há o risco de dois eventuais choques, um de oferta (com o racionamento) e outro de demanda (com o Petrolão e consequente paralisia dos investimentos). O BC pode vir a enfrenta-los prolongando o ciclo de aperto monetário ou desincentivando uma maior desvalorização cambial.

As projeções do Focus para a inflação em 2016, da ordem de 5,6%, trazem embutida a perspectiva de que o Copom começará a cortar os juros no fim deste ano.

O fato é que as condições objetivas para o governo cumprir as duas principais metas da economia esbarram em uma pesada herança do mandato anterior.

O jogo, se não está ganho também não está totalmente perdido. Mas a partida ocorre em campo esburacado, o adversário bate na canela e a torcida começa a ficar impaciente.

É inegável que o clima durante a transição no Ministério da Fazenda estava longe de ser amigável. Quem participou do processo conta que em uma reunião com técnicos do Tesouro Nacional, em dezembro, na presença de Guido Mantega, Arno Augustin e Joaquim Levy, um dos participantes dirigiu-se a Levy chamando-o de ministro. Mantega imediatamente reagiu: "O ministro aqui sou eu".

Abreu ou Caffarelli no BB: eis a questão

0 ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, apoia Alexandre Abreu para a presidência do Banco do Brasil. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sugeriu Paulo Rogério Caffarelli para o cargo. Por enquanto, o pêndulo se volta para Abreu, mas não estão esgotadas as chances de Caffarelli. Ambos são funcionários de carreira e chegaram à vice-presidência da instituição.

Caffarelli trabalhou de fevereiro a até dezembro de 2014 como secretário-executivo do Ministério da Fazenda, com Guido Mantega. No Palácio do Planalto dizia-se que nesse posto ele estava sendo preparado para alçar voos mais altos. No dia 12 de janeiro, com a nomeação de Tarcísio Godoy para o cargo, Caffarelli ficou com o cargo de secretário-adjunto. No dia 3, foi exonerado a pedido.

O contraponto se repete na presidência da Petrobras. Mercadante estaria apoiando a indicação de alguém como Murilo Ferreira, presidente da Vale, e Levy preferiria um nome mais ligado ao mercado financeiro, embora não seja dele a indicação de Paulo Leme, do Goldman Sachs.

O destino de Caffarelli e a escolha do presidente da Petrobras podem ser um bom termômetro da influência de Levy no governo.

A economia americana volta ao normal - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SP - 06/02

O capitalismo é capaz de criar grandes crises, mas ele mesmo sabe corrigir os seus erros


Depois de cinco anos na UTI, a maior economia do mundo volta a funcionar normalmente. Embora ainda com o aparelho dos juros baixos ligado ao seu sistema sanguíneo, o metabolismo do doente começa a seguir os padrões de normalidade das economias de mercado. Os sinais vitais mais importantes em uma economia de consumo --afinal, os gastos das famílias representam 70% do PIB americano-- já mostram o vigor perdido desde a crise de 2008.

No último trimestre do ano passado, o consumo cresceu a uma taxa anual de 4,3% e as empresas passaram a aumentar seus estoques de produtos para atender a demanda crescente do mercado interno. Em sequência, a geração de postos de trabalho acelerou-se e a taxa de desemprego iniciou uma tendência continuada de redução.

Apesar desses sinais, a palavra CAUTELA ainda domina o comportamento dos agentes mais conservadores, principalmente os empresários. O investimento privado ainda patina, e o aumento dos salários está abaixo da tendência histórica para os padrões do PIB crescendo 3% ao ano. O mesmo ocorre com o ritmo da inflação. Mesmo excluindo os efeitos da queda do preço do petróleo, a inflação ao consumidor está rodando a uma taxa anual de apenas 1,3% ao ano.

Recentemente, com a incrível queda dos preços do petróleo, a recuperação da economia recebeu outra grande dose de estimulantes. Em uma sociedade de consumo e que usa no limite o transporte individual baseado no automóvel, a queda do preço dos derivados de petróleo tem o mesmo efeito expansionista de uma redução de impostos e alta da renda disponível para o consumo.

Essa calma de monastério no campo da inflação e dos aumentos salariais tem permitido ao Fed manter sua terapia de juros baixos, o que reforça a recuperação da economia e fortalece o metabolismo do capitalismo americano. Os juros dos títulos do Tesouro de dez anos de prazo estão sendo negociados a uma taxa anual de apenas 1,75%, também muito abaixo dos valores históricos.

Mas outros sinais importantes merecem a consideração do analista que tem seu olhar voltado para o resto do mundo. As importações americanas estão crescendo a taxas bem mais elevadas do que as exportações, o que faz com que a força da economia nos EUA sirva como alavanca para outras economias. No último trimestre de 2014, esse vazamento do consumo americano representou 1% do PIB segundo números preliminares, o que, dado o tamanho da economia americana, não é pouco.

Nesta quinta-feira (5), o Departamento do Comercio divulgou os números de dezembro, e a diferença entre exportações e importações foi ainda maior do que o estimado anteriormente. Em razão disso, os economistas estão revendo para baixo o crescimento do último trimestre para cerca de 2% do PIB.

O dólar valorizou-se em quase 20% em relação a uma cesta de moedas --o real inclusive-- desde julho de 2014, quando o Fed iniciou o movimento de aperto lento nas condições monetárias. A conjugação do crescimento do consumo dos americanos com a redução de preços dos produtos importados provocada pelo dólar mais forte representa estímulo forte para as economias da Europa, da China, do Japão e de países emergentes como o Brasil.

De certa forma, os Estados Unidos começam a pagar --via importações mais fortes-- os custos que o colapso dos últimos anos do governo Bush impuseram a outras sociedades.

Com o passar do tempo, essas condições benignas nos EUA vão se alterar, e o Fed terá que iniciar um ciclo longo de normalização dos juros. Os mais afobados acham que essa mudança deve ocorrer ainda em 2015, enquanto outros visualizam juros mais elevados apenas no próximo ano. Mas é quase unanimidade dos analistas o reconhecimento de que a crise iniciada em 2008 em Wall Street --e que quase levou o mundo ao precipício de uma grande depressão-- chegou ao fim.

Como disse há muito tempo o grande Lorde Keynes, o capitalismo é capaz de criar grandes crises em razão de ideias e comportamentos errados de seus dirigentes, mas --desde que administrados com inteligência e coragem-- ele mesmo sabe corrigir seus erros. E foi o que aconteceu nos EUA a partir de 2009/2010.

Fora de controle - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/02

A nota oficial em que o PT tenta rebater as denúncias de que recebeu dinheiro dos recursos desviados nos escândalos da Petrobras é uma demonstração de como o partido está desnorteado. Afirmar que o "partido recebe apenas doações legais e que são declaradas à Justiça Eleitoral" só pode ser brincadeira, depois que, para se defender no escândalo do mensalão, o PT tentou alegar oficialmente que se tratava "apenas de caixa 2", prática comum na política brasileira, segundo o então presidente Lula. O "dinheiro não contabilizado", na expressão do ex-tesoureiro Delúbio Soares, tornou-se uma pérola inesquecível da baixa política.

Acada dia surge uma nova revelação no escândalo da Petrobras que nos vai dando uma dimensão real do que acontecia na maior estatal brasileira. O que espanta não são os números superlativos, nem o fato de a roubalheira correr solta, pois, com relação à área do petróleo, os contratos são realmente astronômicos, e a corrupção, infelizmente, não é coisa nova entre nós.

Saber, por exemplo, que já em 1997 o ex-gerente Pedro Barusco recebia propina da SBM holandesa não é surpreendente. O que espanta no relato do ex-gerente é como o esquema de corrupção existente anteriormente, em que funcionários corruptos se aproveitavam de sua posição para fazer negócios, transformou-se, a partir de 2004, em política, digamos assim, oficial, com o objetivo de financiar partidos políticos da base aliada do governo, que passaram a ser os canais para a nomeação de diretores e gerentes nas áreas mais vitais da empresa.

E, num ambiente desses, mais que nunca o PT se sobressaiu, recebendo a cifra nada desprezível de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões durante esse período, segundo Barusco. O problema para o PT é que a delação premiada pressupõe provas, e Barusco deu várias delas, inclusive uma planilha detalhada com a divisão do butim. E os relatos que se cruzam tornam verossímeis as versões apresentadas por diversos personagens dessa trama macabra.

Augusto Ribeiro Mendonça Neto, proprietário do grupo Toyo Setal, por exemplo, confirmou em audiência na 13ª Vara Federal de Curitiba, na segunda-feira, que o então diretor da área de Engenharia e Serviços da Petrobras, Renato Duque, mandou pagar parte da propina negociada nos contratos fechados com a Petrobras em forma de doação oficial ao PT, e entregou à Polícia Federal depósitos realizados ao PT no valor de R$ 4,26 milhões.

Desde os percentuais que caberiam a cada um, que já haviam sido revelados pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa, até detalhes pitorescos, como os apelidos, tudo vai sendo confirmado. O tesoureiro do PT, João Vaccari, levado ontem coercitivamente a depor na Polícia Federal, era o Moch, porque andava sempre com uma mochila. Não é preciso dizer o que levava dentro dela, não é mesmo? Ontem, ao ser encaminhado à Polícia Federal, Vaccari usava a sua indefectível mochila.

My Way, o nome da operação, foi colocado pela PF em homenagem ao apelido de Renato Duque, o diretor que representava os interesses do PT na partilha do butim, o que significa que Duque, mesmo ainda estando em liberdade, já é figura carimbada na investigação.

O ex-gerente que já entrou para o folclore da corrupção ao aceitar devolver US$ 100 milhões (na verdade, pela delação premiada a cifra real é US$ 67 milhões) revela que o seu diretor, Renato Duque, exigia "quinzenadas" de R$ 50 mil retiradas das propinas negociadas. Esse "argent de poche", dinheiro para os gastos mais imediatos, parece nada diante do montante do dinheiro desviado, mas dá a dimensão da grandeza do assalto e da farra com o dinheiro público.

Os 35 anos de criação do PT serão festejados em Belo Horizonte num momento em que o partido chega ao fundo do poço em termos de credibilidade. Claro que Vaccari e outros companheiros serão ovacionados, e provavelmente exortados pelo ex-presidente Lula a não baixarem a cabeça e não se envergonharem da atuação do partido.

Mas nada apagará o fato de que o PT perdeu o controle do Congresso, perdeu o controle da economia e está perdendo o controle da maior estatal brasileira, a Petrobras.

O chefe do galinheiro - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 06/02

As empreiteiras são, até aqui, as vilãs do petrolão. Mas é o Estado quem foi tomado de assalto


Uma espécie de jacobinismo sem utopia --formado de preconceitos contra o capital e sem nenhuma imaginação-- estava tomando conta do noticiário sobre a Operação Lava Jato. Alguém ainda acabaria sugerindo que se enforcasse o último defensor do Estado burguês com a tripa do último empreiteiro. A distorção era fruto da hegemonia cultural das esquerdas no geral e do petismo em particular, financiada, em parte, pelos... empreiteiros! A história não é plana.

Era assim até ontem --refiro-me ao tempo físico propriamente, não ao histórico. Nesta quinta, veio à luz parte do conteúdo do depoimento de Pedro Barusco à Justiça. Ele estima que, entre 2003 e 2013, João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT, recebeu entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões de propina decorrente de contratos das empreiteiras com a Petrobras.

As empreiteiras são, até aqui, as vilãs do petrolão --e não sugiro que sejam transformadas nem em vítimas nem em heroínas. A questão é saber quem dispõe do aparato legal para regular, punir e reprimir. É o Estado. E esse Estado, fica cada vez mais evidente, foi tomado de assalto.

Permito-me uma citação em texto próprio. Na sexta passada, escrevi aqui: "É preciso distinguir a ilegalidade como desvio da norma --por obra de salafrários agindo sozinhos ou em bando-- daquela outra, sistêmica, que se revela como forma de conquista do Estado, com a constituição de um governo paralelo, gerenciado por um ente de razão degenerado."

No meu blog, enrosquei com a página do Ministério Público que está na internet. Segundo o que vai lá, as empreiteiras teriam se organizado num cartel para corromper servidores públicos. Depreende-se que a safadeza envolveu, sim, partidos, mas que as ações penais que correm na 13ª Vara da Justiça Federal apuram crimes que poderiam ter existido sem os políticos. É uma fantasia. Querem saber? Chamar a roubalheira institucionalizada, liderada por um partido, de "cartel" ou é erro de tipo criminal ou é licença poética.

Ao arrolar como testemunhas de defesa os petistaços Jaques Wagner, José de Filippi Júnior e Paulo Bernardo, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC, deve estar querendo algo mais do que anunciar que esses três indivíduos podem abonar a sua conduta.

Barusco --que aceitou devolver US$ 97 milhões aos cofres públicos-- afirma que Vaccari foi uma espécie de celebrante de um acordo entre a quadrilha que tomava conta da Petrobras e agentes de estaleiros nacionais e estrangeiros. Em pauta, 21 contratos, orçados em US$ 22 bilhões, para a construção de navios-sonda. Um por cento teria de ser convertido em propina: dois terços para o tesoureiro e um terço dividido entre Paulo Roberto Costa e agentes da Sete Brasil.

Dilma quer socorrer a Sete Brasil com quase R$ 9 bilhões de dinheiro público. Barusco foi diretor de operações da empresa entre 2011 e 2013. Nesta quarta, Rui Falcão, presidente do PT, veio a público para defender a política de "conteúdo nacional" da Petrobras, que deu origem à Sete Brasil.

Não se trata de saber se empreiteiros corrompem porque o PT se deixa corromper ou se o PT se deixa corromper porque empreiteiros corrompem. É besteira indagar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. A resposta não está entre a ontologia e a zoologia. A questão que importa é saber quem mandava no galinheiro.

Infeliz aniversário - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 06/02 

A condução coercitiva de alguém para depor no âmbito de uma investigação criminal significa que contra essa pessoa pesam evidências graves. Insuficientes para um pedido de prisão temporária, mas fortes o bastante para levar a polícia a solicitar à Justiça algo além de uma simples intimação.

Nessa condição é que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi conduzido ontem à Polícia Federal para prestar depoimento na nova e nona fase da Operação Lava Jato. Logo de manhã, representantes da PF e do Ministério Público esclareceram qual era a situação.

Vaccari foi chamado para contar o que sabia sobre doações (legais e ilegais) feitas por empresas que mantinham contratos com a Petrobras, pois os investigadores o identificaram como o principal dos 11 operadores que atuavam na Diretoria de Serviços da estatal, comandada por Renato Duque por indicação do PT.

O nome do tesoureiro apareceu na rede dos depoimentos feitos sob os acordos de delação premiada. Aqueles em que o depoente precisa provar o que diz para obter os benefícios pretendidos. Portanto, é de se supor que João Vaccari tenha alguma dificuldade em continuar sustentando as negativas sobre quaisquer relações de proximidade com o esquema de propinas, diante das provas já coletadas.

Pedro Barusco, ex-gerente da Diretoria de Serviços, informou em seu acordo que Vaccari recebia dinheiro fruto de desvios. É claro que a polícia e a Justiça não se fiam apenas na palavra dele. Exigem provas. Ou não lhe conferem benefício algum.

O tesoureiro do PT até então nada havia dito a não ser repetir negativas sobre quaisquer envolvimentos e assim, pelo que transpirou, se manteve em seu depoimento à PF, repetindo o comportamento de seu antecessor Delúbio Soares, hoje em cumprimento de pena de prisão domiciliar. Os tempos, contudo, são outros.

De onde se acreditar na declaração do ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas, segundo a qual não há o “menor constrangimento” para o partido nem para o governo com a condução coercitiva do tesoureiro à PF, há uma distância amazônica.

Até porque partido e governo deveriam ser os primeiros a manifestar desconforto moral. Seria positivo para ambos uma vez na vida demonstrar alguma dignidade. Ainda que para constar. Não se constranger com acontecimentos dessa natureza realmente é comportamento de quem não se acanha diante de coisa alguma.

Verdade que o ministro é o mesmo que equiparou a derrota na disputa à Presidência da Câmara a episódio superável com uma rodada de “cervejinha”. Mas, para o PT não poderia haver momento pior que a ocasião dos 35 anos de fundação do partido a serem comemorados hoje em Belo Horizonte diante de um triste paradoxo: de um lado a conquista do quarto mandato presidencial consecutivo, de outro uma crise profunda.

A cabeça no Planalto e o restante do corpo atolado no pântano até o pescoço.

Realidade que não foge ao alcance do ministro, da presidente da República nem de nenhum integrante do partido, cujos problemas internos e externos são inúmeros, sucessivos e tão grandes que não há tapete capaz de cobrir a quantidade da poeira acumulada.

Cenografia
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cumpriu o compromisso com os eleitores de não criar obstáculo à instalação de nova CPI da Petrobras. Daqui em diante, no entanto, não é com ele. Uma coisa é a formação, outra bem diferente é o funcionamento, a eficácia da comissão de inquérito.

Frente ao adiantado dos trabalhos da Polícia Federal e da Justiça, a CPI fará, como se dizia antigamente, “visagem”.

O monopólio do petróleo foi um erro - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 06/02

“Se a Petrobras é eficiente, ela não precisa do monopólio; se é ineficiente, não o merece”, costumava dizer o presidente Castelo Branco. Ele via acerto na decisão de criar uma empresa estatal de petróleo, mas não via razão para aprovar o monopólio e impedir que empresas privadas nacionais ou estrangeiras atuassem no setor.

Ao criar a Petrobras em 1951, Getúlio Vargas não queria uma empresa monopolista. Ele queria uma estatal, mas sem monopólio. A proposta original enviada ao Congresso não propunha o monopólio e admitia, inclusive, a participação estrangeira na Petrobras. A emenda feita no Congresso introduziu a cláusula monopolista, sob discursos inflamados dos que julgavam estar defendendo a pátria, quando na verdade estavam condenando o país a seguir na dependência do fornecimento externo.

A liberdade de ingresso teria gerado quatro benefícios: A Petrobras seria submetida à competição (o que seria bom para a própria estatal), haveria entrada de tecnologia estrangeira, seriam atraídos capitais internacionais para o Brasil (algo importante para uma nação pobre e carente de investidores) e seria reduzida a dependência em relação ao petróleo importado.

Os monopólios são de dois tipos. Os naturais, aqueles que dependem da rede de distribuição tecnicamente impraticável de ser feita por várias empresas, como é o caso da oferta de energia, água e esgoto. Esses são justificáveis. E os monopólios legais, que dão a uma só empresa o direito de explorar determinada atividade, protegendo-a da concorrência. Neste caso, por não ser obrigada a competir, é impossível saber se a empresa é eficiente ou não, além de ser uma proteção para o desperdício, o atraso tecnológico e a corrupção.

O monopólio do petróleo foi um erro, resultante da aliança entre militares nacionalistas, intelectuais comunistas e políticos oportunistas, em uma mistura de fanatismo ideológico e ignorância econômica. Nos anos 40, a implantação da indústria nacional revelou o quanto o Brasil era dependente de suprimentos externos. Aço, celulose, papel, produtos químicos, máquinas e equipamentos eram importados, e a economia brasileira literalmente paralisaria se não fossem os fornecimentos norte-americanos. Como agravante, o país tinha fundamental dependência em relação ao petróleo importado.

Produzir petróleo nacional era necessidade urgente, não importando a origem dos capitais. Melhor seria produzir internamente, ainda que por capitais estrangeiros, porquanto era extrema a vulnerabilidade energética do Brasil, situação que preocupava o próprio governo dos Estados Unidos. A fórmula racional teria sido absorver investimentos e dividir riscos, que eram imensos no setor, deixando os escassos capitais nacionais para atividades de menor risco e remuneração certa.

O monopólio manteve o Brasil atrasado na prospecção e retardou a autossuficiência. Em 1973, quando os preços do barril explodiram, a Petrobras completava 22 anos com o país importando 75% do petróleo consumido internamente. O país, que era um pobre dependente do suprimento externo, viu sua economia ser lançada em grave crise que resultou na explosão da dívida externa, seguida de recessão e desemprego.

A autossuficiência somente viria a ser alcançada após 45 anos da aprovação do monopólio, e só foi possível pela estagnação da economia brasileira. Se a Petrobras tivesse de competir num mercado concorrencial, a corrupção e o desperdício agora revelados teriam lançado a empresa na insolvência econômica. Privá-la de competir fez mal a ela própria e ao Brasil.

O PT e as freiras - BERNARDO MELLO FRANCO

FOLHA DE SP - 06/02

BRASÍLIA - O PT celebra seu aniversário nesta sexta (6) com uma festa em Belo Horizonte. O noticiário sobre o partido deveria envergonhar os militantes que participaram de sua fundação há 35 anos, no auditório de um colégio de freiras.

Não há outra reação aceitável diante das novas revelações que vinculam a legenda à roubalheira na Petrobras. Em depoimento à Polícia Federal, o ex-gerente Pedro Barusco afirmou que as propinas destinadas ao PT foram de até US$ 200 milhões. Ele disse que os desvios ocorreram de 2003 a 2011, do início do governo Lula ao início do governo Dilma.

As afirmações do delator são reforçadas por documentos apreendidos pela PF. Em uma planilha que registra a partilha do dinheiro, o PT aparece como destinatário de comissões em nada menos que 71 contratos. A lista inclui obras bilionárias como as construções da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

O protagonista desse enredo é o tesoureiro do PT, João Vaccari. Com Barusco, já são três os integrantes da quadrilha que o apontam como o responsável por recolher propina para a sigla. O tesoureiro nega tudo, mas o que ele diz não condiz com o que faz.

Após prestar depoimento à PF, na manhã desta quinta (5), Vaccari afirmou em nota que "há muito ansiava pela oportunidade de prestar os esclarecimentos que nesta data foram apresentados à Polícia Federal".

Poucas horas antes, agentes da PF haviam tocado sua campainha na zona sul de São Paulo. Embora os visitantes tivessem em mãos um mandado judicial, o petista se recusou a abrir a porta. Os policiais tiveram que pular o muro da casa para conduzi-lo à força até a delegacia.

Na mesma nota, Vaccari declarou piamente que o PT "não tem caixa dois nem conta no exterior", "não recebe doações em dinheiro e somente recebe contribuições legais". Com o histórico recente do partido, não conseguirá convencer nem as freiras do Colégio Sion.

O escândalo lulopetista - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 06/02

Seria considerado lunático ou alarmista mal-intencionado quem tivesse afirmado, dois ou três anos atrás, que o espírito do mensalão baixaria novamente, ampliado a ponto de colocar em risco o futuro da maior estatal brasileira e complicar gravemente a situação político-institucional do País. Pois o escândalo da Petrobrás está aí para comprovar que, na espantosa surrealidade fomentada pelo lulopetismo, nada é impossível.

O assalto à Petrobrás não é o resultado da associação casual de eventos de geração espontânea. Tampouco é apenas o produto da cumplicidade de funcionários corruptos com empresários inescrupulosos. O escândalo da Petrobrás é o efeito de uma fria e ousadamente elaborada estratégia de consolidação de hegemonia política. Uma armação urdida à sombra do poder, com muitos protagonistas - os mais importantes ainda ocultos. É, enfim, a obra do lulopetismo na ocupação do aparelho estatal por uma nomenklatura a serviço de si mesma.

A Petrobrás, que antes de ter seu valor de mercado reduzido a menos da metade ostentava o porte de uma das maiores corporações do planeta, sempre teve uma enorme importância estratégica não apenas no campo vital da energia, mas para o desenvolvimento econômico do País. Como empresa de economia mista e capital aberto de grande prestígio internacional, a petroleira propiciava ao País, além de tecnologia de ponta criada por seu quadro técnico, importantes investimentos privados, nacionais e estrangeiros, provenientes das mais variadas fontes.

Ao assumirem o poder com planos de não mais largar o osso, Lula e o PT rapidamente se deram conta de que a riqueza da Petrobrás teria um importante papel a desempenhar nesse ambicioso projeto. E trataram logo de aumentar o poder de fogo da empresa, trocando o sistema de concessão para a exploração de petróleo - até então vigente - pelo controvertido sistema de partilha, que aumentou o controle estatal sobre a extração e assim a perspectiva de lucros mirabolantes provenientes dos campos do pré-sal.

O pré-sal, aliás, foi politicamente apropriado e explorado por Lula. O então presidente da República vestiu um macacão da Petrobrás, sujou as mãos de óleo e saiu a anunciar a nova era de prosperidade como resultado da autossuficiência energética do país que se tornaria grande exportador de petróleo, e da cornucópia que a partir daí se abriria para realizar todos os sonhos dos brasileiros. Prognósticos que também a incompetência de gestão, no governo e na empresa, se encarregou de frustrar.

Além da falta de cerimônia com que a Petrobrás foi colocada a serviço da promoção da imagem do lulopetismo, a empresa, já no primeiro mandato de Dilma Rousseff, foi descaradamente usada como instrumento de apoio ao controle da inflação, mediante a contenção artificial do preço dos derivados de petróleo. Esse desrespeito às regras do mercado - mas, principalmente, às leis das sociedades anônimas e de criação da Petrobrás - resultou, obviamente, em prejuízos bilionários para a companhia, para seus acionistas e para o Tesouro Nacional.

Mas nada se compara à sangria a que a Petrobrás foi submetida pelo esquema de propinas implantado para captar recursos destinados a financiar as atividades político-eleitorais do PT e de seus aliados, de acordo com a estratégia de perpetuação no poder da qual o mensalão tinha sido a primeira experiência. Depois de um curto período de aparente recuo em que Lula chegou a se declarar traído pelos mensaleiros, a reeleição de 2006 surgiu como que um sinal verde para a continuidade do projeto e os petistas se adonaram completamente da Petrobrás, contando com a muito bem recompensada colaboração de diretores da empresa e de um bando de empreiteiros desonestos.

Os envolvidos no escândalo - todos, enfim, que urdiram e deram aval à trama criminosa - brevemente estarão enfrentando as consequências de seus atos. Um a um, eles vão aparecendo. Sua identificação é fácil: no histórico da corrupção e dos desmandos administrativos que ameaçam o futuro da Petrobrás ficaram, indeléveis, as impressões digitais do lulopetismo.

O cerco se fecha - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 06/02

Nova fase da Operação Lava Jato e divulgação de depoimento de ex-gerente da Petrobras deixam exposta a participação de partidos políticos no esquema do petrolão



Aos poucos, a Operação Lava Jato vai fechando o cerco sobre todos os protagonistas da sangria a que foi (e talvez ainda esteja sendo) submetida a Petrobras. Nesta quinta-feira, 62 mandados começaram a ser cumpridos, incluindo prisões preventivas e temporárias. Um dos alvos é o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que tem contra si mandado de condução coercitiva – quando se leva alguém à delegacia para prestar depoimento, o que Vaccari fez no fim da manhã em São Paulo.

Segundo o procurador regional da República em São Paulo, Carlos Fernando dos Santos Lima, o objetivo do depoimento de Vaccari era conseguir informações sobre doações ao partido, legais ou ilegais, “envolvendo pessoas que mantinham contato com a Petrobras”. Afinal, também nesta quinta-feira veio à tona o depoimento de um ex-gerente da estatal, Pedro Barusco Filho. Em novembro do ano passado, ele disse à Polícia Federal que, entre 2003 e 2013, o PT teria recebido entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões em propinas ligadas a grandes contratos da Petrobras, inclusive o da superfaturadíssima refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Vaccari foi nominalmente citado por Barusco como beneficiário de parte desse valor.

O ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas, despistou e disse que o mandado contra Vaccari não constrange o governo. “Se houver algum envolvimento de alguma pessoa do PT, o PT vai ter que tomar as atitudes que têm de ser tomadas”, afirmou, jogando a “batata quente” para o partido que ocupa o Planalto desde 2003 (ou seja, é o governo) e aparelhou furiosamente a Petrobras desde então. Estas são exatamente as peças que ainda não foram tornadas públicas no quebra-cabeças da Lava Jato. A operação começou com a prisão dos operadores, intermediários entre corruptores e corruptos. As etapas seguintes consistiram na ação contra donos e presidentes de grandes empreiteiras, ou seja, aqueles que teriam fornecido o dinheiro das propinas e doações. Falta, obviamente, conhecer aqueles – pessoas e partidos – que se beneficiaram desses recursos. São informações como essas que as delações de Barusco e de outros investigados estão ajudando a elucidar.

Aqui, é preciso ressaltar a forma como as investigações estão sendo conduzidas pelo juiz Sérgio Moro e por todos os órgãos responsáveis pela apuração do escândalo. Por maior que seja a avidez do público por saber os nomes de parlamentares e ministros que estão sob suspeita, essa curiosidade não pode ser satisfeita atropelando-se as instituições – o depoimento de Barusco, inclusive, foi divulgado por iniciativa do próprio Moro. Cabe ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, elaborar a denúncia envolvendo os detentores do foro privilegiado e encaminhá-la ao Supremo Tribunal Federal, que terá diante de si um trabalho igual ou maior que o do processo do mensalão, mais um desafio de vulto para a corte.

Aliás, não deixa de ser sintomático que tanto no mensalão quanto no petrolão estejam envolvidos tesoureiros do PT – Delúbio Soares no primeiro caso, e Vaccari Neto no segundo. No mensalão, a frase “o PT vai ter que tomar as atitudes que têm de ser tomadas”, dita agora por Pepe Vargas, ganhou um significado muito peculiar: o partido rasgou o estatuto, que previa a expulsão de filiados condenados em última instância por “práticas administrativas ilícitas”, mas não se contentou com isso: elevou seus membros na Papuda a “guerreiros do povo brasileiro”, organizou eventos de desagravo e insultou o STF ao afirmar que eles foram vítimas de um “julgamento político”. A cúpula do partido fará o mesmo caso alguns (ou vários) de seus membros graúdos forem implicados no petrolão?

O 'jilozinho' da Esplanada - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 06/02

É reconhecidamente limitado, para dizer o mínimo, o Ministério que Dilma Rousseff montou para seu segundo mandato. Em defesa da presidente, pode-se argumentar que ela não tinha alternativa senão submeter-se às exigências fisiológicas dos partidos aliados, pois é esse o espírito do presidencialismo de coalizão, sem o qual o lulopetismo não teria sobrevivido tanto tempo no poder. Contudo, mesmo nesse sistema tão rígido, Dilma teve espaço para nomear assessores de sua confiança - a chamada "cota pessoal". Era a sua chance de, nestes tempos bicudos, escolher gente que tivesse algo a oferecer a um governo que precisa desesperadamente revelar alguma competência. Mas algumas escolhas de Dilma, feitas à sua imagem e semelhança, comprovam a estreiteza de seus horizontes, mostrando sua opção preferencial pela mediocridade.

A "cereja do bolo" foi a recente nomeação de Roberto Mangabeira Unger para a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). "Renomeação", seria mais apropriado dizer, porque o acadêmico já ocupou a pasta, durante o governo de Lula, e lá deixou um rastro de megalomania e extravagância. Lula o nomeou para fazer um favor a seu vice, José Alencar, que queria dar um emprego no governo a seu correligionário de PRB - o quarto partido de Unger, que passou também por PMDB, PDT e PPS. Já Dilma, até onde se sabe, reconduziu o indigitado à SAE simplesmente porque quis.

Diante de tantos problemas mais urgentes que o País ora enfrenta, a escolha de Unger para a SAE pode ser vista até como inofensiva, e por razões lamentáveis. Em primeiro lugar, a Secretaria não é o que deveria ser. Em vez de atuar como um centro de planejamento de estratégias de longo prazo, algo que é comum em países sérios e competitivos, a SAE, em seu atual formato, foi um arranjo meramente político feito por Lula justamente para acomodar Unger.

Desde então, com orçamento baixíssimo e pouca visibilidade, a SAE ganhou o apelido de "jilozinho da Esplanada" - aquele que nenhum partido aliado quer. Além disso, a volta de Unger significa que a SAE continuará a ser irrelevante, pois não se espera que seus planos tenham a mínima chance de prosperar.

Se a escolha de Dilma para a SAE tem pouca importância, o mesmo não se pode dizer de suas nomeações para cargos estratégicos, como a Casa Civil e as Relações Institucionais. Essas duas pastas, mais do que quaisquer outras, são cruciais para a articulação do governo com o Congresso e com o próprio Ministério. Logo, se o objetivo fosse sinalizar a vontade de construir pontes, seria desejável que Dilma preenchesse essas vagas com políticos com perfil talhado para essa espinhosa tarefa.

No entanto, ao colocar Pepe Vargas nas Relações Institucionais e ao manter Aloizio Mercadante na Casa Civil, Dilma fez uma aposta no confronto.

Integrante de facção esquerdista dentro do PT, Vargas acreditou que fosse possível dobrar a Câmara dos Deputados com o peso do governo, cobrando a conta da distribuição de cargos federais para fazê-la eleger como seu presidente alguém da confiança do Planalto. Sem nenhuma experiência nessa seara, e movido pela proverbial arrogância petista, Vargas foi engolido pelos governistas. Desafeto de Dilma, o presidente eleito, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), resumiu o fiasco de Vargas, de Dilma e dos petistas: "Eu não impus essa derrota ao PT. Eles é que se derrotaram".

Mas Vargas não agiu por conta própria. Por trás dele estava o ministro Aloizio Mercadante - que se tornou o homem forte do governo Dilma por razões que apenas ela pode explicar. Visto no PMDB como o cérebro da desastrada articulação que visou a derrotar Cunha, o ministro-chefe da Casa Civil demonstrou toda a sua incapacidade de conduzir a coalizão governista.

Como o segundo mandato está apenas começando, Dilma ainda tem a oportunidade de mudar o rumo de seu governo. Mas, a julgar pelas escolhas que faz, não há nenhuma razão para acreditar nisso.