quinta-feira, janeiro 15, 2015

Falta um - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 15/01

A prisão de Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional da Petrobras indicado pelo PMDB, coloca na cadeia o segundo dos três ex-diretores da estatal envolvidos nos escândalos da empresa. Paulo Roberto Costa, ligado ao PP, já estava preso, e falta agora Renato Duque, indicado pelo ex-ministro José Dirceu para a Diretoria de Serviços da Petrobras. Umbilicalmente ligado ao PT, teve o que poderia se interpretar como um tratamento diferenciado, ao receber habeas corpus para se livrar da prisão.

Cerveró, antevendo uma condenação, transferiu bens para terceiros, buscando livrá-los do confisco, na tentativa de fazer letra morta dispositivos legais como os incisos I e II, alínea b, e parágrafo primeiro do artigo 91 do Código Penal, que dizem: "São efeitos da condenação: I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime; II - a perda em favor da União, ressalvado o direto do lesado ou de terceiro de boa-fé: (..) b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso. § 1*? Poderá ser decretada a perda de bens ou valores equivalentes ao produto ou proveito do crime quando estes não forem encontrados ou quando se localizarem no exterior"

Esse artigo do Código Penal trata do confisco de bens auferidos pelo condenado com a prática do crime. Agiu bem, portanto, o Judiciário ao decretar a sua prisão preventiva, com fundamento no artigo 312, caput, do Código de Processo Penal, assim redigido: "A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, ou da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria"

O delegado Igor Romário de Paula, da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, afirma que Cerveró fez movimentações financeiras para conseguir dinheiro vivo, e que isso poderia indicar que o ex-diretor planejaria uma fuga, ou tentaria tornar seu patrimônio mais líquido, o que, dessa forma, o protegeria.

A prisão teve como fundamento "negócios que ele fez posteriormente à saída do Brasil, que financeiramente eram inviáveis e indicavam a tentativa de liquidar o patrimônio para enviar ao exterior ou aplicar em outros negócios" Esses negócios foram detectados em dezembro do ano passado pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão ligado ao Ministério da Fazenda) quando ele já estava em Londres; o Coaf alertou a Polícia Federal sobre a solicitação de Cerveró de resgate de uma operação ligada à previdência privada que inicialmente tinha valor de R$ 600 mil, mas que no momento registrava prejuízo de R$ 200 mil.

A investigação da Lava-Jato tem outros pontos estranháveis além da liberdade de Renato Duque, e todos ligados ao PT.

Além de Duque ser o único dos ex-diretores não presos, outro ponto que causa estranheza é que, segundo as delações premiadas, seriam três os negociadores dos partidos políticos dentro da Petrobras. Pelo PT, agia João Vaccari, tesoureiro do partido; pelo PMDB, Fernando Baiano; pelo PP, Adarico Negromonte, irmão do ex-ministro Mario Negromonte. Baiano e Negromonte foram presos, mas nada aconteceu até agora com Vaccari.

Finalmente, estranha-se a ausência da Odebrecht, de todas as empreiteiras a mais ligada ao ex-presidente Lula, e uma das maiores do país, na relação das que têm seus diretores presos no Paraná. Esses fatos podem indicar uma tentativa de blindagem para que as investigações não cheguem aos principais responsáveis pelo petrolão - ou, como circula à boca pequena, um cuidado especial da Polícia Federal, do Ministério Público e do juiz Sérgio Moro no recolhimento de provas para o envolvimento de autoridades maiores. Uma investigação especial estaria sendo feita sobre a Odebrecht.


O povo não é bobo - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 15/01

Os que estão no governo querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia


“Sim, eu sei o que fazem os editores, eles separam o joio do trigo e publicam o joio". A frase clássica de Adlai Stevenson, político americano do Pós-Guerra, pode ser utilizada com variadas intenções. Trata-se, claro, de uma divertida crítica à qualidade da imprensa. Por aí, as verdadeiras notícias estariam na lata de lixo das redações e, lógico, a sociedade ficaria sempre mal informada.

Mesmo quando não admitem, políticos de todas as tendências concordam com Stevenson. Os que estão no governo, então, acham que a frase é perfeita e justifica medidas corretivas. Não é censura, dizem, apenas encontrar meios para melhorar a qualidade da imprensa.

Conversa. O que querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia.

Jornalistas estão o tempo todo decidindo, primeiro, o que se vai apurar, segundo, o que se vai publicar e, terceiro, como se vai apresentar a notícia.

Tudo considerado, caímos na mais antiga questão da profissão: o que é notícia? Há várias respostas clássicas produzidas por jornalistas:

— Se o cachorro morde o homem, não é notícia, se o homem morde o cachorro, é;

— Notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado, o resto é propaganda;

— Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados (Millôr Fernandes);

Examinamos essas teses em coluna aqui publicada em 22/12/2011, com o título “O povo não é bobo". Também pode ser encontrada no arquivo de www.sardenberg.com.br.

A questão hoje é anterior: quem decide o que é notícia? Os patrões, os donos dos jornais, rádios, TVs e sites — diz o pessoal que quer introduzir a censura prévia, perdão, o controle social.

Sim, há veículos nos quais as redações são instruídas a publicar apenas o que os patrões consideram a notícia correta. Exemplo? Todos os veículos cujo patrão é o governo — a conhecida imprensa chapa-branca.

Somos contra a censura prévia e/ou “controle social" — o leitor já terá notado — mas se a regra for introduzida, a aplicação tem que começar pelos veículos do governo. Estes publicam um enorme joio, as versões oficiais: ninguém rouba nada, não há mensalões nem petrolão, tudo funciona e, se não funciona, é por causa da seca, do azar, do mundo, da oposição ou da imprensa do contra.

Ainda tem aí uma baita farsa. O verdadeiro patrão é o povo, que paga os impostos e assim financia a chapa-branca. Mas os políticos, governantes de plantão, usurpam o papel de patrões e controlam essa mídia no interesse dos respectivos partidos. Sim, foram eleitos, e por isso representam a população. Mas, numa democracia, não podem esquecer que tiveram o voto de parte dos eleitores, havendo, pois, uma outra parte que merece respeito — e informação não partidária.

A saída — segundo uma velha tese — é colocar os veículos do governo sob controle de um comitê com representantes dos diversos partidos, em número proporcional aos votos por eles conseguidos.

Esqueçam. Não funciona. Um veículo público assim dirigido vai noticiar não uma, mas várias versões oficiais, o joio do governo e o da oposição. Duplo desperdício de dinheiro do povo.

Há quem recomende a proibição legal: governos, federal, estaduais ou municipais, não poderiam editar veículos de informação geral — de suposta informação geral, no caso. A TV pública, por exemplo, divulgaria apenas programas educativos, cursos e informação efetivamente pública, como campanhas para combater a dengue, chamada para vacinação, previsão do tempo, instruções para agricultores e assim por diante.

Seria mais barata e mais útil.

Outros sugerem que os veículos do governo sejam, afinal, dirigidos como os da imprensa privada de qualidade — aquela cujos jornalistas são guiados por um código formal ou informal, com o objetivo de apurar e publicar o que é notícia ou opinião relevante.

Na prática, é difícil conseguir tal isenção no setor público. Além disso, se a TV pública vai fazer a mesma coisa que a TV privada faz, por que gastar dinheiro do contribuinte com a primeira?

O que retorna a questão: como garantir que os jornalistas escolham o trigo? Ou como a lei pode garantir a qualidade da imprensa?

Não pode. A lei tem que garantir a liberdade da imprensa e, sim, dos jornalistas. A qualidade — ou, a notícia de interesse, publicada de forma correta, isenta e independente —, isso depende do público, do leitor, ouvinte, telespectador e internauta.

O povo não é bobo, sabe onde buscar a informação. Olhem as audiências. É eloquente a audiência zero dos noticiários das TVs púbicas. É evidente a baixa credibilidade dos veículos que só divulgam a voz do dono, seja o governo ou a empresa privada.

O tema seguinte é: como distinguir e quem pode distinguir entre ofensa e crítica? Na próxima.

Professor aloprado - DORA KRAMER

O Estado de S. Paulo - 15/01

É a velha, batida, mas imprescindível lição que político bom no ramo não dispensa: a esperteza quando é muita vira bicho e come o dono. Há outras duas a completar uma trinca de ouro: só bobo briga e segredo é a alma do negócio.

No afã de pôr em prática um plano para enfraquecer o PMDB a fim de retirar oxigênio do partido, reformular o perfil da aliança, reforçar partidos até então periféricos e alimentar a criação de novas legendas, o governo violou as três regras.

Os articuladores do Planalto só faltaram anunciar no Diário Oficial suas pretensões, tão atabalhoados e explícitos foram os gestos para alijar o principal aliado. A presidente Dilma Rousseff cuidou da arrumação na área econômica e deixou a política a cargo do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Jogou o PMDB para a periferia ministerial, concentrou no Palácio o poder decisório político e de interlocução com o Congresso com pessoas da estrita confiança presidencial, mas sem a necessária experiência nem o indispensável trânsito no Parlamento.

A prova na incompetência está na queimada na largada. O PMDB captou de início o plano. E, ao perceber, se uniu. O movimento para enfraquecer, fortaleceu como se viu na manifestação da executiva do partido em prol das candidaturas às presidências da Câmara e do Senado. O recado foi direto: quaisquer hostilidades dirigidas aos candidatos, notadamente ao deputado Eduardo Cunha, serão interpretadas como agressões ao conjunto dos pemedebistas.

Em miúdos, disse o seguinte: "Mexeu com ele, mexeu conosco". A declaração de guerra de quem pode estar prestes a renovar a posse do comando de um dos Poderes da República não seria necessária se entre os arquitetos palacianos não vigorasse a enganosa tese de que os líderes do PMDB são provincianos a serem passivamente passados para trás em troca de migalhas de fisiologismo.

Pois se a ideia era enfraquecer, os fatos mostram que o Planalto até agora só conseguiu fortalecer o partido. Por exemplo, a manobra trouxe de volta à cena o ex-deputado Geddel Vieira Lima, oposicionista até então atuando só nos bastidores e desde ontem autorizado a dar em nome do partido declarações tais como "o PMDB vai olhar com lupa" as atitudes do governo a partir do momento em que assumir o comando do Congresso.

A manifestação da executiva quer dizer também que os ministros do PMDB, mesmo os nomeados à revelia da direção, não fiquem à vontade para atuar em prol dos interesses do governo quando esses contrariarem os do partido, pelo simples fato de que não se respeitou a regra do segredo como a alma do negócio.

Gilberto Kassab e Valdemar Costa Neto, patrocinadores de novas legendas a serem criadas com o objetivo de aliciar parlamentares da oposição e do PMDB, podem até ser braços armados pelo Planalto. Mas, diante de urdidura tão explícita, é de se perguntar se raposas desse jaez estariam dispostas a brigar com os presidentes da Câmara e do Senado para prestar serviço ao Planalto.

Talvez prometam, mas provavelmente não entreguem a mercadoria.

Inglórios. Antigamente a chefia da Casa Civil era um trampolim para o sucesso. Na administração do PT passou a ser uma máquina de moer carne. À exceção de Dilma Rousseff, todos os que chegaram ao posto cobertos de glórias saíram moídos de lá.

Dos soberbos aos discretos: José Dirceu, Antônio Palocci, Erenice Guerra e Gleisi Hoffmann deram-se mal.

Cerveró. Com a queda, um a um, dos personagens do escândalo da Petrobrás, outros galos cantariam na hipótese de uma nova CPI sobre a estatal.

O preço do erro - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 15/01

É incrível, mas houve quem comemorasse a alta de 6,41% da inflação em 2014, mesmo com o PIB perto de zero. Esse é um resultado muito ruim e não é toda a verdade, porque parte dos reajustes ficou para 2015. Há uma grande batalha neste ano para inverter a tendência da inflação. Em janeiro, o número deve ficar em torno de 1%, o que deve levar o dado em 12 meses para perto de 7%.

No ano passado, o índice ficou acima do teto da meta por cinco meses; no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff foram 15 meses. Esse resultado é preocupante porque a economia cresceu muito pouco e terminou 2014 estagnada. Há muitas pressões de preço este ano, e uma delas, como todos sabem, é das tarifas de energia. O governo terá que enfrentar o problema acumulado para alcançar o "realismo tarifário".

Durante a campanha, Dilma acusou os adversários de estarem preparando um tarifaço. Pois é. O jornal "Valor Econômico" disse o preço da energia pode subir 40%, o ministro Eduardo Braga disse que não chegará a tanto. O especialista Paulo Steele, da consultoria TR Soluções, ouvido em meu blog, calcula que na média nacional será 28%, mas em alguns estados, como Rio Grande do Sul, pode chegar a 55%.

A atual equipe econômica não pode ser acusada por estes problemas, porque ela está corrigindo erros e eliminando os "jeitinhos" dados na economia e que minavam a confiança na sua solidez. Houve "pedaladas" fiscais e de preços: ou seja, custos e correções foram jogados para os exercícios futuros, para construir falsos números.

O fato é que a taxa de 6,41%, apesar de ser alta, não reflete totalmente as pressões sobre a inflação de 2014. Além da energia, a gasolina foi mantida em valores artificiais durante o primeiro governo. A alta do dólar vem sendo contida pelo programa de swaps do Banco Central. Mesmo assim, a moeda americana subiu bastante e já afeta os índices.

Para janeiro, a projeção do mercado é uma inflação em torno de 1%, por causa da alta do preço da energia e também do reajuste das passagens de ônibus. Com isso, o IPCA acumulado em 12 meses romperá novamente o teto, podendo chegar perto de 7%, de acordo com algumas projeções.

A inflação brasileira está muito acima da média de países desenvolvidos e de outros países emergentes, sejam da América Latina ou da Ásia. O risco mundial hoje é outro, de deflação, como se vê na Europa, no Japão e nos Estados Unidos. Exceto Argentina e Venezuela, os outros países da região têm desempenho melhor do que o Brasil.

Em seis capitais, o índice de 2014 ficou acima do teto. No Rio de Janeiro, chegou a 7,6%. Em Goiânia, 7,2%. A taxa mais baixa foi a de Salvador, com variação de 5,76%, ainda distante da meta, que é 4,5%. Os alimentos subiram 8%, as despesas pessoas, 8,39%, e os gastos com educação aumentaram 8,45%. O grupo saúde e cuidados pessoais aumentou 6,97%.

A melhor notícia para a inflação deste ano vem de fora. O derretimento do preço do petróleo no mercado internacional. Em situações normais, o preço da gasolina despencaria no Brasil - como está caindo em outros países - mas aqui, se cair, será pouco porque o governo deve aumentar a Cide, e a Petrobras precisa recuperar o que perdeu em anos anteriores, quando vendeu gasolina abaixo do preço que teve que pagar.

Os novos ministros da Fazenda e do Planejamento e o presidente do Banco Central terão um duro trabalho pela frente para corrigir os problemas que se acumularam na economia. A boa notícia é que eles estão determinados a enfrentar e corrigir distorções, mudar as escolhas e buscar uma inflação mais baixa e maior crescimento. Não conseguirão isso da noite para o dia. É fácil fazer o errado; o certo leva mais tempo.


O Brasil muito mal na economia regional - ROBERTO MACEDO

O ESTADO DE S.PAULO - 15/01

A Comissão Econômica da América Latina (Cepal), da ONU, divulgou no mês passado o seu Balanço Preliminar das Economias da América Latina e Caribe - 2014 (em espanhol e resumo em português). Nos últimos anos esse balanço mostrou contínua deterioração da economia brasileira nesse contexto regional. O de 2014 novamente deixa ainda mais clara essa percepção.

É muito importante que esse documento receba maior divulgação, pois por muito tempo aqui se difundiu no público em geral uma imagem muito enganosa da economia brasileira, particularmente na propaganda eleitoral da presidente Dilma Rousseff em 2014. Ela e seus marqueteiros insistiram então numa visão da economia que exagerava poucos aspectos positivos e pintava muitos negativos como favoráveis.

Quanto ao baixo crescimento do PIB, o governo Dilma escolheu como bode expiatório a crise que, com suas sequelas, assolou a economia mundial a partir de 2008. Mas essa economia já está em recuperação há tempos. E o que os relatórios da Cepal vêm mostrando é que muitos países da América Latina (AL) e do Caribe têm desempenho bem melhor que o do Brasil, embora enfrentando as mesmas circunstâncias internacionais. O que há mesmo é uma crise econômica "made in Brazil" e resultante de uma política econômica equivocada.

O balanço de 2014 da Cepal mostra que a economia mundial cresceu à taxa média de 1,8% entre 2007 e 2010, quando a crise econômica teve maior força. Mas seguiram-se taxas médias de 2,8% (2011), 2,3% (2012), 2,4% (2013) e previsões de 2,6% (2014) e 3,1% (2015), evidenciando sua recuperação. Neste último biênio, prevê-se que o Brasil cresça 0,2% e 1%, respectivamente. Ora, com taxas tão abaixo da média internacional, no curso que tomou de política econômica o governo brasileiro foi reprovado.

Passando a outros contrastes, essa taxa de crescimento do nosso PIB em 2014, de 0,2%, está abaixo das previstas para 29 entre 34 países das duas regiões! Com tal desempenho e sua população crescendo mais que o PIB, nosso país deverá ser um dos cinco a mostrar redução do PIB por habitante. Ou seja, na média, em lugar de aumentar a renda, seu povo empobreceu no ano passado!

Quanto à inflação medida por preços ao consumidor, o Brasil também destoa, pois entre 33 países das duas regiões só 5 têm previsões de taxas anuais em 2014 maiores que a do Brasil!

Nas contas públicas, um gráfico do relatório mostra, como proporção do PIB, números da dívida pública bruta e do resultado anual para 19 países da AL, conforme previsões para 2014. O Brasil tem a maior dívida e seu déficit só é menor que o de três países!

E é campeão de taxa de juros do crédito ao consumidor! Também se prevê que aqui a expansão do crédito interno tenha ocorrido à taxa de 8,7% em 2014, taxa essa superada em 14 países da AL.

Algo de que o governo federal sempre se vangloriou é a baixa taxa de desemprego medida nas seis regiões metropolitanas mais importantes do País. De fato, as previsões dessa taxa em 2014 colocam o Brasil no grupo de cinco países com taxas inferiores a 5% da população economicamente ativa, de pessoas ocupadas ou à procura de trabalho. Mas quando se mira a taxa de emprego, a da população empregada como proporção daquela em idade de trabalho, num levantamento relativo a 2013, alcançando 22 países, o Brasil aparece como um dos quatro países com menor taxa!

Como se explica uma baixa taxa de desemprego ao lado de uma também menor taxa de emprego? Acontece que a taxa com que a população participa da força de trabalho, seja trabalhando ou procurando trabalho, está também entre as mais baixas, o que não é uma notícia boa. Assim, a baixa taxa de desemprego no Brasil esconde um problema por resolver, esse da baixa participação na força de trabalho. Inclusive de muitos jovens que nem trabalham nem estudam, a chamada geração nem-nem. Coisas boas muitos não fazem ou farão.

O fraco crescimento do PIB sintetiza os males da economia brasileira. O que fazer? Quem acompanha meus textos sabe que sempre defendi medidas para estabilizar a economia diante de seus desequilíbrios, como o mau estado das contas governamentais e uma inflação alta.

Mas estabilizar a economia não basta para fazê-la crescer. Isso se dá com investimentos para ampliar sua capacidade produtiva e gerar renda para trabalhadores e fornecedores envolvidos nessa ampliação, o que multiplica os bons efeitos do que foi investido. Os investimentos também incorporam novas tecnologias, que ampliam a produtividade dos fatores produtivos, a qual, no caso do trabalho, também pode crescer mediante educação e treinamento profissional.

Quanto a investimentos, seria fundamental que o governo fizesse a sua parte, mas aí também se sai mal na foto da Cepal. Nas previsões para 2014 sobre investimentos de governos centrais - o federal, no caso brasileiro -, de 29 governos nas duas regiões o nosso está entre os três com menores taxas de investimento público como proporção do PIB!

Com sua gastança noutras áreas, incluídos juros da dívida pública num valor próximo do triplo do que gasta com investimentos, e passando por um indispensável ajuste de suas contas, nosso governo federal revela enorme carência de recursos para investir, o que vale também para os estaduais e municipais. Nessas condições a saída, na qual há tempos insisto, é desenvolver um audacioso programa de concessões de serviços públicos e parcerias público-privadas. Também colocaria na lista um programa de desestatizações, que abordarei noutro artigo, mas adianto que incluirá algumas atividades hoje exercidas pela Petrobrás.

O Enem e a Pátria educadora - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 15/01

Os números do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014 mostram a importância do slogan escolhido pela presidente Dilma Rousseff para seu segundo mandato - "Brasil, Pátria Educadora" - e, ao mesmo tempo, são reveladores do fracasso de seu primeiro mandato no campo da educação.

Ao todo, 8,7 milhões de alunos da última série do ensino médio inscreveram-se no Enem de 2014, mas só 6,2 milhões compareceram às provas. Em matemática, a média foi de 476,6 pontos, ante 514,1 pontos na prova de 2013 - queda de 7,3%. Em redação, a situação foi ainda pior. Na prova de 2013, a média foi de 521,2 pontos e, em 2014, de 470,8 pontos (menos da metade da nota máxima), com queda de 9,7%.

Além disso, 529.374 alunos - ou 8,54% dos participantes do Enem - tiveram nota zero em redação, cujo tema tratou da ética na publicidade infantil. Entregaram a prova em branco 280.903 estudantes. São, em grande parte, analfabetos funcionais, que não conseguiram sequer entender o enunciado da prova. Dos 6,2 milhões de participantes, só 250 conseguiram obter a pontuação máxima. Na prova de 2013, cujo tema dizia respeito às restrições impostas pela lei seca, 106.742 receberam nota zero.

Em Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Linguagens e Códigos, as médias foram um pouco superiores às registradas em 2013. As variações foram de 2,3%, 5,4% e 3,9%, respectivamente. No quadro geral, considerando as cinco provas aplicadas, a média de 2014 foi de 499 pontos, ante 504,3 pontos na prova anterior - uma queda de 1%.

Na prática, os números do Enem - que serão utilizados para ingresso no ensino superior - apontam as deficiências dos alunos da 3.ª série do ensino médio em capacidade de leitura e escrita e no domínio de técnicas matemáticas elementares. Mostram ainda que, além de não saber escrever e compreender o que leem e de conhecer pouco mais do que as quatro operações aritméticas, os estudantes chegam ao fim do ensino básico sem dominar conceitos fundamentais de ciência e sem saber aplicar o que aprendem na resolução de problemas práticos da vida cotidiana. "Não dá para fugir ou camuflar", disse o ministro da Educação, Cid Gomes, depois de reconhecer que a qualidade da rede de ensino público está "aquém do desejável".

Apesar de retratar um quadro trágico, os resultados do Enem não são novidade. A perda de qualidade da educação brasileira já atingiu todos os níveis de ensino, como comprovam mecanismos nacionais de avaliação e rankings comparativos dos organismos multilaterais. No Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que é coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, tanto em leitura e linguagem quanto em matemática e em ciências o Brasil tem ficado no batalhão dos piores classificados entre mais de 65 países.

Como consequência, o Brasil não produz o capital humano necessário à redução da pobreza e ao crescimento econômico. Permanece, assim, muito abaixo dos padrões necessários a uma economia competitiva e capaz de conquistar espaços no mercado mundial. Nossos principais competidores no comércio internacional têm padrões educacionais muito melhores.

Nos últimos anos, o governo da presidente Dilma deixou-se levar pela ilusão de que esse quadro poderia ser revertido com aumento dos recursos para o setor educacional, graças aos royalties do petróleo e aos ganhos do pré-sal. Mas o que a educação precisa é de gestão competente e de um conjunto integrado de ações que envolvam planejamento, metas realistas, prêmios para os melhores professores, remuneração atraente e melhor avaliação de resultados. A escolha do slogan "Brasil, Pátria Educadora", feita por Dilma para marcar seu segundo mandato, não significa necessariamente que ela conseguirá promover essas ações. Mas é uma forma indireta de reconhecer a maneira inepta com que administrou o setor em seu primeiro mandato, quando teve três ministros da Educação, dos quais só um era especialista na área.


Enem: crônica da tragédia anunciada - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 15/01

Assusta, mas não surpreende o anúncio de que 529 mil estudantes tiraram zero na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Maus desempenhos têm se sucedido ano após ano. A diferença é que o mal se agrava. Em 2013, 106 mil estudantes não pontuaram, cinco vezes menos que na edição de 2014.

Os números do Enem nada mais são do que o retrato da degradação do ensino ao longo dos anos. Apesar de o diagnóstico ser amplamente conhecido, não se adota nenhuma medida eficaz para evitar o avanço da doença. Esperar resultado diferente com o mesmo jogo e as mesmas regras é acreditar em milagre ou em Papai Noel.

Da engrenagem que compõe o sistema de ensino, o professor ganha relevo. Dele depende não só o encaminhamento da aula mas também a seleção do conteúdo, a escolha do livro didático e o preparo dos recursos necessários à aprendizagem. Aí reside a maior tragédia da tragédia em que se transformou a educação nacional.

Décadas de negligência tornaram o magistério carreira de segunda classe. Os talentos que sobressaem no ensino médio fogem dos cursos de letras, história, geografia, matemática. Com raras exceções, só se candidata a uma vaga nessas especialidades quem fracassa nas demais. A demanda diminui a cada semestre.

Não é outra a razão por que universidades de norte a sul do país anunciaram o fechamento das faculdades que preparam docentes. Algumas mantêm apenas o ensino a distância. Resultado: faltam professores. Escolas passam meses e meses sem oferecer disciplinas das áreas biológicas ou exatas por não conseguirem atrair interessados nas vagas.

A dificuldade não se restringe às escolas públicas. Atinge também as particulares. O problema exige medidas urgentes e sérias sob pena de comprometer - ainda mais - o futuro nacional. Profissional incapaz de entender um manual de instrução ou de se expressar oral e por escrito com correção e clareza não tem vez no mercado de trabalho. Nem o país tem vez no disputado clube globalizado.

Impõe-se atrair as melhores inteligências para o magistério. O ímã vai além de salário similar ou superior ao pago às mais promissoras carreiras de nível superior. Passa, necessariamente, por plano de carreira que estimule a constante qualificação e premie resultados. Sem encarar com firmeza a questão, continuaremos o jogo do faz de conta.

É o caso do exame on-line anunciado pelo ministro da Educação. Fazer o teste no papel ou na tela equivale a substituir o livro pelo tablet. Com os mesmos professores, mesmos alunos, mesmo ensino, mesmo material didático, atualiza-se a frase de Albert Einstein. "Loucura", disse o criador da teoria da relatividade, "é fazer tudo do mesmo jeito e esperar resultado diferente."


Como está fica - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 15/01

Dilma Rousseff decidiu ontem manter, por ora, as cúpulas dos três principais bancos públicos federais. Com isso, Luciano Coutinho continua à frente do BNDES, Aldemir Bendine fica na presidência do Banco do Brasil e Jorge Hereda permanece no comando da Caixa. A decisão de Dilma deixa dúvida sobre o futuro da ex-ministra Miriam Belchior, que era cotada para a presidência da Caixa. Alexandre Abreu e Paulo Caffarelli, que podiam ir para os outros bancos, também têm destino incerto.


Efeito... A prisão de Nestor Cerveró despertou entre caciques do PMDB e do PT o receio de que a Justiça leve para a cadeia também Jorge Zelada e Renato Duque --este pela segunda vez.

... dominó Para petistas e peemedebistas, a prisão é sinal de que a força-tarefa da Operação Lava Jato mantém no alvo os ex-diretores da Petrobras. Eles temem que a investigação avance sobre a relação estreita de Zelada com o PMDB e de Duque com o PT.

Mira Solto em dezembro, Duque foi acusado de receber propina "em mais de sessenta contratos", segundo o ex-gerente Pedro Barusco, seu auxiliar. Barusco também disse que Zelada recebeu dinheiro do esquema de corrupção "excepcionalmente".

Sabático Assim como Ricardo Pessoa, da UTC, o presidente da OAS, Léo Pinheiro, enviou carta aos acionistas e diretores da empreiteira em dezembro comunicando seu afastamento "das atividades executivas das empresas do grupo".

Todos por um PSDB, DEM e PPS coletaram assinaturas em dezembro para abrir uma nova CPI da Petrobras, mas cada partido redigiu uma justificativa diferente para a investigação. O trabalho precisará ser unificado.

Agora vai Um petista ironiza o anúncio de apoio do PMDB a Eduardo Cunha (RJ): "Quer dizer que, depois de todos os meses de campanha, ele finalmente conseguiu adesão do próprio partido?".

Folia Articuladores do PSDB na Câmara admitem que será impossível impedir votos em Cunha, apesar do apoio oficial a Julio Delgado (PSB-MG). "Com voto secreto, vai ser o samba do crioulo doido", prevê um tucano.

Poço O governo federal não recebeu do governo de São Paulo qualquer plano de contingência para o caso de desabastecimento no Estado, apesar de a Sabesp admitir que o Cantareira pode secar.

Aridez Autoridades federais acreditam que o nível do Cantareira vai cair em um ritmo mais rápido do que o projetado, uma vez que dados meteorológicos apontam que janeiro deve ser mais seco que o mesmo mês de 2014.

Contingência Aliados de Geraldo Alckmin (PSDB) se alarmaram com a fala do governador de que "já existe" racionamento de água em São Paulo e saíram a campo para tentar dizer que o tucano foi "mal interpretado".

Despejo A nova Executiva do PP-SP, presidida pelo deputado Guilherme Mussi, trocou as fechaduras da sede do partido, deixando aliados de Paulo Maluf sem a chave.

Uma coisa... Ao contrário da nomeação de Gabriel Chalita (PMDB) para Educação, a ida do PSD para a gestão Fernando Haddad não sinaliza aliança em 2016.

... é uma coisa O objetivo é melhorar a relação do Executivo com a bancada de sete vereadores da sigla.

Visita à Folha Júlio Delgado (MG), líder do PSB e candidato à presidência da Câmara dos Deputados, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Sandra Brasil, assessora de imprensa.

com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA


TIROTEIO

"Alckmin já deveria ter aprendido que mentira tem perna curta. E, infelizmente para a população, o sistema Cantareira também."

DO EX-MINISTRO ALEXANDRE PADILHA (PT-SP), sobre Geraldo Alckmin ter admitido ontem, pela primeira vez, que 'já existe racionamento' de água.

CONTRAPONTO

O batutinha

Na movimentada posse no Ministério da Cultura, no início da semana, o novo titular da pasta, Juca Ferreira, fez os cumprimentos e saudações habituais. No momento em que agradecia à própria família, chamou a atenção do público para uma ausência:

--Eu queria agradecer à minha mulher, Celina, a meu filho Vicente, à minha filha Dandara. Só não está aqui o pequenininho, que fez ontem quatro anos...

Diante da curiosidade da plateia, explicou:

--Um evento desse tipo é muito maçante para ele. Ele iria quebrar o protocolo excessivamente!

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

Preço do asfalto dispara e para obras pelo País

A Petrobras impôs desde dezembro dois reajustes no preço do asfalto, totalizando 40%, na venda direta, e provocou uma das mais graves crises nas empresas de pequeno e médio portes que trabalham na construção e recuperação de rodovias. As empresas alegam que não podem cumprir contratos em vigor com aumento tão expressivo do produto. Agora pedem ao DNIT “readequação” dos seus contratos.

Demissões

O desequilíbrio provocado pelo novo preço do asfalto vai provocar um corte que pode chegar a 90% dos trabalhadores, nos canteiros de obra, Brasil afora.

Petróleo caiu

O aumento da Petrobras ocorre no período em que o petróleo, do qual o asfalto é derivado, tem hoje o menor valor dos últimos seis anos.

Caso sério

DNIT e TCU já discutem a crise gerada pelo aumento do preço do asfalto, mas ainda não há solução para evitar a paralisação das obras.

À espera

O governo do DF espera até o dia 1º que a ex-primeira-dama Karina Rosso assuma a boquinha na qual foi nomeada. Ela já viajou em férias.

desinformação da Abin irrita Dilma. Dilma anda tão irritada com seus arapongas que – segundo adverte um ministro com gabinete no Planalto – se alguém apresentar a ideia de extinguir a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ela topa na hora. Dilma reclama que até hoje a Abin não conseguiu antecipar, antes da imprensa, qualquer detalhe da operação Lava Jato. “É o órgão de informação mais desinformado que existe”, disse ela a assessores.

Às cegas

Dilma se irrita ao lembrar que teve de definir o ministério ainda sem saber se alguns escolhidos correm o risco de sair do cargo algemado.

Fonte de irritação

As trapalhadas da Abin são antigas. O caso envolvendo sindicalistas no porto do Suape, em 2013, causou grande constrangimento a Dilma.

Sem retorno

Difícil é saber o que os arapongas fazem com um orçamento, na Abin, que é superior ao de ministérios como os do Turismo, Esporte e Pesca.

Olhar vigilante

Quando alguém insiste para Dilma “regular” ou controlar a mídia, ela deveria repetir a célebre frase de Dom Pedro II, diante de idêntica pressão: “De que forma eu saberia como os ministros se comportam?”

Jogo do empurra

Há tensão no PT e no PMDB com a prisão de Nestor Cerveró. Delcídio Amaral (PT-MS) tentou disfarçar, dizendo que o padrinho do ex-diretor da Petrobras era Renan Calheiros, mas é ele o pai da formosura.

Costura feita

A bancada do PT se reunirá no próximo dia 31 para definir seu próximo líder e declarar apoio ao senador Renan Calheiros (AL), que deverá ser indicado pelo PMDB candidato à reeleição na presidência do Senado.

Intensivão

Alguém precisa informar o ex-vendedor de carros Eduardo Braga a denominação correta da repartição que ele chefia: é Ministério de Minas e Energia e não “das Minas e Energia”, como ele tem dito na TV.

Aviso à praça

A notícia de que o ministro Jaques Wagner (Defesa) viveria sozinho em Brasília alertou sua mulher, Fatima Mendonça. Preocupada com eventual assédio do mulherio, avisa: “Ficarei entre Brasília e Salvador!”.

Aplicativo Rose

O Facebook lançou ferramenta que ajuda a encontrar crianças. Deveria ter outra para desvendar o paradeiro de Rose Noronha, amiga muito íntima de Lula processada por tráfico de influência em seu governo.

Portas fechadas

Marta Suplicy não tem chance de se filiar ao PMDB paulistano. Ela precisaria do aval de Gabriel Chalita, presidente municipal da legenda, já convidado para ser vice do prefeito Fernando Haddad em 2016.

Contra o aliciador

O deputado Darcísio Perondi (RS) defendeu ontem na executiva nacional do PMDB uma reação à tentativa do ministro Gilberto Kassab (Cidades) de aliciar peemedebistas para o novo Partido Liberal.

Pensando bem...

...foi de cair o olho a surpresa da prisão de Nestor Cerveró em plena madrugada, no aeroporto internacional do Rio.


PODER SEM PUDOR

Aliança árabe-judaica

O então presidente nacional da OAB, Cezar Britto, e Wadih Damous, da OAB-Rio, deixavam o Supremo Tribunal Federal, onde se queixaram de "abusos" da Polícia Federal contra o direito de defesa de presos pela Operação Hurricane.

À saída, aguardaram o secretário-geral adjunto da OAB, Alberto Toron, que ficara para trás. Wadih brincou com Toron:

- Agradeça-me por não ficar à pé: eu pedi para esperar você.

- É a primeira vez que um árabe ajuda um judeu - respondeu Toron, na bucha - Eu jamais esquecerei esse gesto...

domingo, janeiro 04, 2015

O novo Flamengo - PAULO VINÍCIUS COELHO

FOLHA DE SP - 04/01

Pagando dívidas e com salários em dia, a Gávea virou um bom lugar para se trabalhar no futebol


HÁ DOIS meses, o agente de jogadores Eduardo Uram fez uma observação importante sobre o futuro dos clubes brasileiros: "Ninguém está prestando atenção, mas daqui a dois anos o Flamengo será muito forte". Sua percepção era de que o rubro-negro está pagando dívidas e salários em dia. Diferentemente de outras épocas --e de outros clubes--, a Gávea virou um bom lugar para se trabalhar.

A contratação do atacante Marcelo, do Atlético-PR, confirma a teoria. É o melhor negócio do verão. Marcelo era pretendido por todos os grandes clubes do Brasil e confiou no Flamengo.

Parece incrível, mas o Flamengo de hoje é bom pagador.

A outra razão para o Flamengo ser o destino de Marcelo, em vez do São Paulo, do Corinthians ou do Cruzeiro, é a participação do fundo de investimentos Doyen, o mesmo parceiro do Santos para comprar Leandro Damião. A sociedade provocou comparações entre o fiasco santista com Damião e a dívida que restará ao Flamengo se Marcelo não emplacar.

Há diferenças fundamentais.

Damião era um jogador em declínio, autor de 38 gols em 2011 e de apenas 13 em 2013. Pelo Santos, foram onze gols em 44 partidas. Marcelo tem 23 anos, pode aprimorar suas finalizações, mas é um jogador em crescimento.

Se não vender Damião em três anos, o Santos terá de pagar R$ 40 milhões à Doyen. O Flamengo terá de reembolsar R$ 13 milhões ou vender Marcelo. A quem critica a hipótese da venda vale lembrar que seria também o destino provável de qualquer revelação da Gávea, com ou sem sócio.

Mas a sociedade com a Doyen é um símbolo, por mais extrativista que seja o fundo de investimento do português Nélio Lucas. O Flamengo hoje encontra sócios e atrai jogadores. Está de volta ao mercado.

A visão dos jogadores e empresários sobre os clubes muda rápido. Logo depois de romper com a MSI, em 2007, o Corinthians não era atraente. No fim de 2008, representava a perspectiva de participar de um projeto vencedor. Ronaldo Fenômeno topou o desafio.

Hoje, há empresários negociando com o Palmeiras, porque Paulo Nobre paga em dia. O Corinthians segue sendo um destino atraente, mas não tão seguro quanto era há três anos.

O São Paulo negocia a compra do atacante Dudu e oferece 30% do contrato à vista. O Corinthians tinha a faca e o queijo na mão, mas não o dinheiro. Seu desejo é pagar a primeira parcela somente em maio.

Em 2011, quando os clubes negociaram individualmente os contratos de TV e os acordos deixaram Corinthians e Flamengo muito acima dos demais, apostava-se que o clube paulista poderia se tornar hegemônico --o Flamengo sofria com suas dívidas e os outros recebiam muito menos dinheiro de TV.

Quatro anos depois, os empresários, os fundos de investimento e os jogadores sinalizam apostar no contrário. O Flamengo virou um clube sério.

O anjo exterminador - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 04/01

Graça Foster, a incompetente presidente da Petrobras, deve responder pela roubalheira ali fincada, por motivos político-partidários, desde 2004 a esta data. Não tem como escapar ao indiciamento, por ser monstruosamente grande o crime de omissão a ela imputável. Nem sempre o crime exige ação, mas o seu contrário. E imaginem uma pessoa que assiste passivamente a um vizinho invadir e furtar a casa de outros (na espécie, a Petrobras, supostamente pertencente ao povo brasileiro) e não faz nada para evitar o crime nem denuncia o agente da ação delituosa? Caso vertente, a situação é mais grave. Os delitos foram cometidos por seus colegas, depois a ela subordinados, incumbidos de gerenciar com honra e eficiência o maior patrimônio público do Brasil.

Aliás, nem ela, nem os membros do Conselho de Administração, nem as diretorias da Petrobras, nas gestões Gabrielli e Maria das Graças Foster, deveriam sair ilesos desse monstruoso episódio. Não me excedo! No mundo empresarial, inclusive nos Estados Unidos e União Europeia, há corruptos ativos e passivos; mas uma vez descobertos os autores dos crimes, as consequências são fatais. As leis anticorrupção são duras, as penas altíssimas, as multas milionárias. Executivos omissos são apenados com dureza muito maior. Lei sábia! De se notar que as empresas estatais ou de economia mista naquelas plagas são pouquíssimas. Aqui são várias, por interessar ao conúbio político-partidário. Partidos no poder e coligados, querem cargos, empregos, sinecuras e negócios com as empresas estatais e de economia mista, daí o caldo de cultura da corrupção. Quanto mais Estado e mais empresas ele tiver, maior é a corrupção. O que é do governo não é de ninguém e todos metem a mão, a menos que haja uma governança eficaz e governos honestos. Vimos que o Tribunal de Contas da União (TCU), órgão auxiliar do Poder Legislativo, na missão institucional de fiscalizar o Executivo, em vão, o alertou anos a fio. Vale dizer, os poderes políticos (Executivo e Legislativo) são coniventes e a governança da Petrobras revelou-se a pior possível.

Acresce que o país tem uma lei anticorrupção em vigor e dela os gestores não quiseram saber, fiados nos seus protetores políticos aboletados nos mais elevados cargos da República. Veio à tona o que já supúnhamos. O Estado de Minas de 22/12/2014 trouxe à baila o depoimento de Venina Velosa da Fonseca, o anjo exterminador: "As declarações foram feitas em entrevista exclusiva ao Fantástico, da Rede Globo. Venina disse que as irregularidades nos contratos da empresa foram identificadas desde 2008 e todos os seus superiores também foram informados dos problemas.

A geóloga afirmou ter, inclusive, entregue a Graça documentação que comprovam os desvios. "Num primeiro momento, em 2008, como gerente executiva, eu informei ao então diretor Paulo Roberto Costa. Informei a outros diretores, como a Graça Foster, e em outro momento, como gerente-geral, eu informei aos meus gerentes-executivos, José Raimundo Brandão Pereira e o Abílio [Paulo Pinheiro Ramos], que era meu atual gerente-executivo. Informei ao diretor [José Carlos] Cosenza (atual diretor de Abastecimento). (...) Informei ao presidente [José Sérgio] Gabrielli. Informei a todas as pessoas que eu achava que poderiam fazer alguma coisa para combater aquele processo que estava se instalando dentro da empresa"", garantiu.

Venina afirma que as irregularidades na área de comunicação da Diretoria de Abastecimento da estatal incluíam pagamentos por serviços que não foram prestados, contratos superfaturados e negociações que envolviam comissões para envolvidos no contrato. Segundo ela, havia "esquartejamentos de projetos", como forma de dificultar a fiscalização. "Estive com a presidente pessoalmente quando ela era diretora de Gás e Energia. Naquele momento, nós discutimos o assunto. Foi passada uma documentação para ela sobre processo de denúncia na área de comunicação". A geóloga foi gerente-executiva da Petrobras de 2005 a 2009, quando foi transferida para Cingapura, numa tentativa de, segundo ela, afastá-la da gestão da empresa. Ela também fez apelo aos funcionários da estatal e pede que outras pessoas que tenham provas sobre os desvios contribuam com a força-tarefa da Operação Lava-Jato. "Eu tenho medo? Tenho. Mas eu não vou parar. Espero que os empregados da Petrobras, porque eu tenho certeza que não fui só eu que presenciei, eu espero que os empregados da Petrobras criem coragem e comecem a reagir"." Mulher de coragem!

Que venham agora as contrapartes políticas que serão julgadas pelo supremo tribunal Federal. Depois de tudo que já sabemos, mantida a presidente da Petrobras no cargo, aqui e no exterior, todos dirão da suposta grande gestora: é conivente ou incompetente. Talvez as duas coisas juntas.

Quem é o inimigo? - MARCELO AGNER

CORREIO BRAZILIENSE - 04/01

O tom eleitoral do discurso de posse da presidente Dilma em seu segundo mandato reciclou promessas da campanha e repetiu a necessidade de o país priorizar a educação - um lugar comum entre os políticos e que raramente termina em ações efetivas -, desta vez com um slogan confuso: "Brasil, pátria educadora". Mas o ponto alto do palanque do 1º de janeiro foi a defesa enérgica do combate à corrupção na Petrobras.

Dilma prometeu proteger a estatal dos "inimigos externos e dos predadores internos". Mas a presidente deliberadamente não disse quem são essas pessoas. A frase de efeito, típica dos marqueteiros eleitorais, tenta induzir os brasileiros a acreditarem que a crise na estatal é uma ação organizada para destruir um patrimônio do país. E, ao deixar dúvidas sobre a identidade dos malfeitores, busca afastar do governo qualquer tipo de responsabilidade.

A Petrobras sangra hoje por obra de conhecidos ladrões do dinheiro público, nomeados e mantidos nos cargos pela direção da própria empresa, com o suporte político de vários partidos, entre eles o PT. Muitas irregularidades foram cometidas em outros governos, não há dúvida. Mas há a certeza de que a apoteose da corrupção ocorreu nas últimas administrações da empresa.

Ao ser imprecisa na definição dos "inimigos e dos predadores", Dilma dá um passo atrás no combate aos malfeitos. Para salvar a Petrobras, a presidente não precisa de frases de efeito. Ela tem que agir. Muitos corruptos e corruptores estão presos ou já foram denunciados e processados. Falta agora nomear os políticos que sustentaram o esquema de desvio do dinheiro público, seja recebendo as propinas, seja mantendo os ladrões em cargos estratégicos na Petrobras. E a maioria deles ainda vive à sombra do Planalto. Dilma sabe disso.


À beira da irrelevância - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 04/01

O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, terá uma tarefa árdua pela frente: tirar o Brasil da quase irrelevância nas relações políticas e econômicas internacionais. Ele destacou no discurso de posse a necessidade de ampliar o comércio internacional, o que parece indicar que o Itamaraty dará mais atenção ao comércio exterior - uma necessidade - do que à política, que pode vir a ser uma consequência. A quase irrelevância política brasileira, dentro e fora dos Brics, foi confirmada em recente pesquisa do Ash Center para Governança Democrática e Inovação, da Harvard Kennedy School, que perguntou a cidadãos de 30 países suas opiniões sobre 10 influentes líderes nacionais que têm impacto global.

Enquanto Rússia e China surgem como lideranças reconhecidas, Brasil e África do Sul aparecem entre as menos importantes do grupo. As notas médias mais altas de conhecimento são para o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos (93,9%), para o presidente Vladimir Putin, da Rússia (79,3%), e para o presidente Xi Jinping, da China (59,12%).

Os líderes nacionais menos conhecidos são o presidente da África do Sul, Jacob Zuma (27,8%), e Dilma Rousseff, do Brasil (25,4%). O diretor do Ash Center, Tony Saich, comenta que "claramente nenhum dos dois é visto como capaz de desempenhar um papel importante".

O primeiro-ministro da Índia, Narandra Modi, recebe um tratamento neutro na interpretação de Tony Saich, pois, ao mesmo tempo em que aparece em antepenúltimo lugar na percepção dos cidadãos de outros países, está em terceiro lugar como um dos líderes mais bem avaliados por sua própria população.

Saich atribui essas contradições ao fato de que Modi foi eleito no início de 2014 e, se ainda vive uma lua de mel com seus eleitores, é desconhecido no resto do mundo. Putin divide opiniões com apenas um terço dos países dando a ele nota acima de 6, mas é bem visto no Vietnã e na China.

Essa opinião dividida faz com que a média para Putin entre os 30 países (6) seja a mais baixa entre os 10 líderes. O presidente chinês Xi Jinping tem a nota mais alta (7,5) porque, com exceção do Japão, ele é razoavelmente bem recebido em todos os países da pesquisa. Obama aparece em sexto lugar, com nota 6,6, ficando abaixo de Dilma, que obteve 6,8.

A presidente consegue uma média mais alta na avaliação dos cidadãos de outros países do que no Brasil (6,3), em especial porque recebe nota 7 ou pouco mais nos países dos Brics e nos EUA.

A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, obtém o melhor resultado na avaliação de quem tem mais condições de lidar com as questões domésticas e internacionais por ter sido colocada entre os três primeiros por 23 dos países pesquisados, sendo que em 13 deles fica em primeiro.

Merkel não é bem vista, no entanto, na Rússia, país que ela tem criticado muito, e na Espanha, devido à sua liderança europeia pela contenção de gastos. Obama, apesar de notas desfavoráveis dos próprios americanos, tem boas notas em outros países, com exceção da Rússia e do Paquistão.

Tony Saich diz que, se por um lado essas notas são esperáveis, a avaliação baixa (5,8) no Japão é surpreendente. A pesquisa define que existem quatro líderes que têm altos níveis de confiança pela maneira como lidam com questões internas e externas: o chinês Xi Jinping; o russo Vladimir Putin; o indiano Narandra Modi e a alemã Angela Merkel.

Os presidentes Dilma Rousseff, do Brasil, François Hollande, da França, e Jacob Zuma, da África do Sul não inspiram confiança na maneira como lidam com estas matérias.

Mau sinal

O recuo do Ministério do Planejamento com relação à mudança da fórmula para definir o aumento do salário mínimo é um mau sinal. Ou o ministro Nelson Barbosa falou demais, antes do tempo, e mostrou que não tem sensibilidade política, ou a presidente Dilma voltou atrás da autorização que dera para rever a fórmula, que o ministro considera equivocada.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

PARLAMENTARES NÃO DEVEM ESCAPAR

O Conselho de Ética da Câmara já decidiu que deputados podem ser cassados pelo envolvimento no esquema do Petrolão, mesmo que toda a roubalheira tenha acontecido antes do mandato que irão assumir em fevereiro. De acordo com o posicionamento do conselho, ato ilícito que não era conhecido à época da eleição e fere a imagem do Parlamento pode levar à cassação do parlamentar, mesmo em outra Legislatura.

REGRA AGORA É CLARA

A questão foi levantada pelo deputado Miro Teixeira (Pros-RJ) quando Jaqueline Roriz usou essa tática para escapar da cassação, em 2011.

SENADORES TREMEM

Petistas citados no listão, Gleisi Hoffmann, Humberto Costa, Lindbergh Farias e Delcídio Amaral estão no meio do mandato e na linha de tiro.

PMDB IDEM

Renan Calheiros, Edison Lobão, Romero Jucá e Valdir Raupp estão na mesma situação e vão passar o ano desconfiando até das sombras.

TODO COMPROMETIDO

Figuras constantes em delações, Benedito de Lira e Ciro Nogueira não se identificaram quando Youssef disse que só se salvam dois no PP.

FHC É ‘HOMEM DO ANO’

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, hoje aos 83 anos de idade, vai receber o título de “homem do ano” mais de doze anos depois de entregar o poder ao sucessor Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro de 2003. O título, o mais concorrido do gênero, é concedido em Nova York, todos os anos, pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. A solenidade de entrega será realizada em maio.

ÍCONE TUCANO

O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) não poupa elogios ao amigo FHC: “Ele é o homem do século! Preparou o Brasil para o século 21”.

MAU SINAL

A nota das escolas estaduais de Ensino Médio no Ceará caiu de 3,4 para 3,3 na gestão de Cid Gomes, novo ministro da Educação.

DIVISÃO DA ESQUERDA

Das siglas que integram o Bloco da Esquerda, só o SD apoia Eduardo Cunha ao comando da Câmara. PSB, PPS e PV vão de Júlio Delgado.

BIGODES LUSTRADOS

Considerado exímio nas artes e manhas da corte, o novo chanceler Mauro Vieira, na definição de experiente embaixador, “vai dar lustre aos bigodes oliva do primeiro-ministro Aloizio Mercadante”.

BNDES PEQUENO

Na lista de prioridades do governo em 2014, Caixa e Banco do Brasil colocam a concorrência no chinelo: levaram R$ 125,4 bilhões contra R$ 17 bilhões do BNDES que, na teoria, promove o desenvolvimento.

ONDE MORA O PERIGO

Para o líder do SD, Arthur Maia (BA), as investigações feitas pelos EUA sobre a corrupção na Petrobras oferecem mais riscos de desgaste à presidente Dilma do que a delações premiadas da Operação Lava Jato

ÚLTIMA CARTADA

Depois de fingir que não quer nada, o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), sem mandato para este ano, investiu forte durante a posse de Dilma com conversa ao pé do ouvido. Faltou chorar no ombro

BASE NO RIO

Eduardo Cunha diz que o PMDB não tem operador em esquema na Petrobras. Mas que o lobista Fernando Baiano gera tremeliques no PMDB do Rio, isso nem os próprios deputados são capazes de negar.

NA FILA

Eleito suplente na coligação, o presidente do PV, José Luiz Penna, está na expectativa de assumir mandato caso o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) nomeie mais um deputado federal no secretariado.

#DEVOLVEGILMAR

Já chega a 7,4 mil o número de participantes de evento no Facebook pressionando pelo julgamento de ação que proíbe doação de empresas a campanhas. O ministro Gilmar Mendes (STF) pediu vista há 9 meses.

OLHO VIVO

O Itamaraty afirmou que o Consulado em Zurique acompanha de perto a situação da brasileira Monica Vieira, expulsa da Suíça depois de ficar tetraplégica e passar a dormir na casa do tutor, que mora na Itália.

PENSANDO BEM...

... o susto de Henrique Alves não deve ter sido com os tiros de canhão disparados, mas com a ausência de público na posse de Dilma.


PODER SEM PUDOR

O GATO É BRAVO...

Três dias após renúncia de Jânio Quadros (28 de agosto de 1961), o deputado udenista Adauto Lúcio Cardoso subiu à tribuna para atacar os ministros militares que se opunham à posse do vice João Goulart, que visitava a China. Adauto, adversário de Jango, propôs enquadrar os militares na Lei de Segurança Nacional e por crime de responsabilidade. Seu colega Aliomar Baleeiro (UDN) pediu um aparte para concordar com ele "em gênero, número e grau", mas fez uma pergunta incômoda: - Quem é que vai colocar guizo no gato? Eu é que não vou...

O ano começou com uma boa notícia - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 04/01

Graça Foster mudou seu jogo nas investigações das petrorroubalheiras, resta saber se é para valer


A melhor notícia de 2015 veio nos últimos dias de 2014: a Petrobras suspendeu novos negócios com as 23 empreiteiras apanhadas na Operação Lava Jato e abriu uma investigação nas contas da Transpetro, da BR Distribuidora e no fundo de pensão Petros. Com quase um ano de atraso, o comissariado partiu para o ataque, se é que partiu. Nesse período, a empresa perdeu 37% do seu valor de mercado e danificou sua credibilidade.

Assim como sucedeu com a seleção brasileira na Copa, a defesa da Petrobras sofreu um apagão. No início de 2014 sabia-se que estourara um escândalo nas suas operações com a companhia holandesa SBM, que lhe alugara sete navios-plataformas. Falava-se de um pagamento de comissões que chegavam a US$ 139 milhões. A doutora Graça Foster poderia ter soado algum alarme. Deu-se o contrário. Uma delegação da empresa foi a Amsterdã e concluiu que nada houvera de errado. Em novembro a SBM foi multada, na Holanda, em US$ 240 milhões pelas propinas que distribuiu mundo afora.

As petrorroubalheiras tinham três vértices: o comissariado, funcionários corruptos e empresas corruptoras. Durante todo o ano o governo e as empresas acreditaram que prevaleceria algum tipo de código de silêncio. O "amigo Paulinho" não contaria o que sabia. Muito menos Alberto Youssef, seu operador financeiro. Empreiteiras? Nem pensar, isso jamais acontecera.

Em março a doutora Graça Foster anunciou que a Petrobras investigaria as roubalheiras e "não ficará pedra sobre pedra". Parolagem. A essa época a Polícia Federal e o Ministério Público já puxavam os fios da meada das roubalheiras e, paralelamente, sabia-se que o fundo Petros fechara 2013 com um rombo de R$ 7 bilhões, corrigido para R$ 2,8 bilhões. O comissariado e as empreiteiras acreditavam que ninguém desafiaria seus poderes e seria possível conter as denúncias brandindo-se o santo nome da Petrobras. Lula chegou a marcar um fracassado ato público em frente à sede da empresa. A casa começou a cair em agosto, quando o "amigo Paulinho" passou a colaborar com as investigações. Num de seus depoimentos, ele mencionou uma propina de US$ 23 milhões da empreiteira Odebrecht. Foi rebatido pelo presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, que classificou a afirmação como "denúncia vazia de um criminoso confesso". O ano terminou com pelo menos nove "criminosos confessos" entre os quais, pela primeira vez, havia uma empreiteira, a Toyo Setal.

Documentos apreendidos pela polícia revelaram a estratégia de defesa dos envolvidos. Tratava-se de conseguir um acordo com o Ministério Público e de tirar o processo das mãos do juiz Sergio Moro. Afinal, mexer com as empreiteiras significaria "parar o país". Um escritório fixou seus honorários em R$ 2 milhões, mais R$ 1,5 milhão caso o estratagema fosse bem-sucedido. Como no fatídico jogo do Brasil contra a Alemanha, deu tudo errado.

A doutora Dilma disse que a Petrobras "já vinha passando por um aprimoramento de gestão". Cadê? Durante todo esse tempo o governo e a Petrobras foram agentes passivos da crise. Paulinho, Youssef e Pedro Barusco, um felizardo do segundo escalão que entesourara R$ 252 milhões, eram velhos conhecidos da rede petista, mas fazia-se de conta que eram marcianos. Durante quase um ano as poucas iniciativas tomadas pela Petrobras foram provocadas por fatores externos, sobretudo depois da abertura da investigações e processos nos Estados Unidos.

A decisão de Graça Foster ao final do ano passado pode significar uma mudança de comportamento. Em vez de jogar com uma defesa bichada, a empresa partiria para o ataque contra as roubalheiras. A entrada do fundo Petros no elenco pode ser um sinal disso, desde que se coloque mercadoria na vitrine. A doutora Dilma disse que vai "investigar a fundo, doa a quem doer". Dor mesmo, seu governo só deu aos acionistas da empresa, que perderam uma parte de seus investimentos. Ela assumiu seu segundo mandato dizendo que é preciso defender a Petrobras dos "inimigos externos". Doze anos de poder petista mostraram que Lula e ela cevaram "predadores internos".

LEI DA ANISTIA
Foram para o fundo do mar as possibilidades de qualquer revisão da Lei da Anistia.
As chances de que o Supremo Tribunal Federal mexesse na questão eram quase nulas, mas uma discreta movimentação dos comandantes militares, somada ao desinteresse do Planalto, tornaram-nas inexistentes.

O EFEITO MARTA
Quando a doutora Dilma resolveu colocar Juca Ferreira no Ministério da Cultura sabia exatamente o tamanho da encrenca que compraria com a senadora Marta Suplicy.
É enorme.

TUCANOS PRUDENTES
Um pedaço do PSDB já fez saber ao PT que não gosta da ideia de apoiar o deputado Eduardo Cunha para a presidência da Câmara.
Se as coisas continuarem como estão, Cunha deverá sua eventual escolha ao comando político do Planalto, ou à falta de comando político no Planalto.

PAPA FRANCISCO
O papa Francisco anunciou que em fevereiro sagrará novos cardeais e a qualquer momento, a partir de hoje, o Vaticano poderá divulgar seus nomes. Bergoglio é argentino, mas, se Deus é brasileiro, preencherá as sés cardinalícias de Salvador e de Brasília.

SYLVESTER STALIN
O filme "A Entrevista", que causou uma crise entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, não chega a ser uma esquadra inglesa, mas é divertido. Tem uma ótima piada, sinal dos tempos.
Quando o ditador Kim Jong-un diz ao jornalista David Skylark que o tanque de guerra guardado na sua coleção de automóveis foi "um presente de Stalin" ao seu pai, o americano corrige:
"Nós pronunciamos Stallone."

O ÚLTIMO PALANQUE DA DOUTORA
Tomara que os dois discursos de Dilma Rousseff durante as cerimônias de sua posse tenham sido os últimos lances de uma campanha eleitoral que acabou no ano passado. Se não fossem tão longos e defensivos, poderiam ser atribuídos ao marqueteiro João Santana. Prova da sua falta de assunto foi a enésima defesa de uma reforma política. (Há um projeto no Congresso, cuja discussão é obstruída pelo PT.) "Pátria Educadora" é um slogan, ruim, que parece ter saído dos versos oitocentistas do Hino Nacional.

O comissariado acusa a oposição de não ter saído do palanque. Viu-se em Brasília que quem não quer deixá-lo é o governo. Repetindo o Lula de 2003, apropriou-se da agenda econômica dos tucanos, no que pode ter feito bem. Quem falou aos brasileiros como presidente da República foi a representante de uma facção, porta voz dos "nossos governos" (o dela e o de Lula).

Tudo bem, mas a partir de amanhã ela e seus 39 ministros terão um serviço para tocar.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Abismo moral - PAULO GUEDES

O GLOBO - 29/12

A roubalheira na Petrobras é a conexão entre sua banda podre, saqueadores privados e criaturas do pântano da " velha política"


A presidente da República reafirma sua confiança na presidente da Petrobras. Dilma Rousseff acredita que Graça Foster não participou nem mesmo tinha conhecimento da bilionária roubalheira que se instalou na estatal, destruindo a credibilidade e o valor de mercado da companhia. A oposição diz que Dilma mantém Graça no cargo como sua própria linha de defesa, para que a culpa pelos colossais desvios de recursos ou mesmo pela omissão em coibi-los não transborde para o Palácio do Planalto. Afinal, como presidente do Conselho de Administração da empresa, ministra de Minas e Energia e depois presidente da República, Dilma precisaria de um dique de contenção contra o escândalo.

A empatia, a boa-fé e principalmente o acaso tornaram essa defesa de Graça por Dilma um episódio compreensível para mim. É que Almir Barbassa, diretor financeiro da Petrobras, foi meu colega da turma de mestrado em Economia. Dificilmente poderia Dilma fazer de Graça como pessoa uma melhor avaliação do que fiz de Barbassa à época. Apesar de nossa convivência de menos de dois anos e de não termos mais nos encontrado, acredito ainda em minha avaliação quanto à sua boa índole. Se não forem desonestos, Dilma Rousseff, Graça Foster e Almir Barbassa estariam desinformados e seriam, portanto, despreparados para o cumprimento de suas responsabilidades? Teriam sido enganados por uma conspiração entre a banda podre da estatal, grupos de saqueadores privados e as criaturas do pântano da "velha política"? 

"Esses fenômenos não são acidentais. Há um enorme abismo moral entre regimes estatizados e uma sociedade aberta. Agindo em nome de um grupo com nobres ideais, os mais inescrupulosos se libertam das restrições morais e chegam ao topo, pois os fins justificam os meios. Como é o líder supremo que estabelece os fins, seus instrumentos não devem exercer suas próprias convicções morais. Precisam estar, acima de tudo, incondicionalmente comprometidos com a figura do líder. Seus auxiliares devem ser literalmente capazes de tudo, sem quaisquer ideias sobre certo e errado. É o fim da verdade e a destruição da moral", registrava Friedrich von Hayek, em seu clássico "O caminho da servidão" (1944), dedicado com muita compreensão e sem ironia "aos socialistas de todos os partidos".

Fios desencapados - RENATO ANDRADE

FOLHA DE S. PAULO - 29/12


BRASÍLIA - O setor elétrico virou uma emaranhado de fios desencapados que promete muita dor de cabeça para o governo em 2015.

A manobra feita pelo Planalto para promover uma redução na conta de luz há dois anos gerou um passivo para as empresas que distribuem energia aos consumidores no país.

O governo teve que colocar muito dinheiro para evitar que o desconto virasse pó do dia para a noite. Ainda assim, a ajuda não foi suficiente.

As empresas tiveram que tomar empréstimos bilionários para continuar tocando a vida porque choveu pouco e o país teve que usar uma energia mais cara para manter as geladeiras funcionando em 2014.

A fatura dessa bagunça começa a ser paga agora. Manter os aparelhos eletrônicos ligados vai custar 8,3% mais a partir de janeiro. E essa é apenas a primeira parcela.

As distribuidoras terão que começar a pagar os empréstimos feitos. Pelas contas oficiais, isso representa mais 8% de aumento na conta de luz. O novo valor da energia produzida por Itaipu --que responde por algo próximo a 10% da eletricidade usada no Brasil-- também vai pesar na fatura a partir de janeiro.

Para complicar um pouco mais, o governo precisa repassar para essas empresas cerca de R$ 5 bilhões que foram retidos ao longo do ano e resolver quem vai bancar a conta de R$ 3 bilhões gerada pela compra de energia feita nos dois últimos meses para atender a população.

A nova equipe econômica já se comprometeu a segurar as despesas em 2015. A mão aberta do Tesouro, portanto, vai começar a fechar. Sem essa ajudinha, sobrará para o consumidor mais um papagaio.

O efeito dessa limpeza pode comprometer o trabalho do Banco Central de manter a inflação dentro dos limites fixados. A solução para o problema pode ser um aperto maior nos juros ou mais um ano de preços corroendo a capacidade de compra dos brasileiros. As duas alternativas estão longe de ser boas notícias.

Ajuste sim, CPMF não - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 29/12

As trapalhadas do governo federal na gestão das contas públicas obrigaram a presidente Dilma a forçar a aprovação pelo Congresso Nacional de uma inusitada alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). A Nação distraída, como diz uma canção popular, se deu conta de que há um preço a pagar quando o governo gasta muito mais do que arrecada.

Se a economia do país está estagnada por causa de erros grosseiros da política econômica interna, agravada por quadro internacional negativo, é claro que a arrecadação de impostos e taxas também deixará de crescer. Nesse caso, o mais prudente é conter o crescimento dos gastos, pelo menos na mesma proporção da queda da receita.

Se isso não for feito, no mínimo duas consequências virão. A primeira é o aumento da dívida pública, já que o governo terá que financiar seus excessos no mercado. A segunda é o aumento da inflação, pois o gasto público também gera demanda e pressiona os preços.

São capítulos dos mais singelos manuais de economia. Mas nem por isso foram observados pelo governo brasileiro nos últimos anos, especialmente em face do recente calendário eleitoral. Uma terceira consequência, tão negativa quanto as duas primeiras, é a necessidade de um ajuste severo para estancar a hemorragia do deficit público.

Sobre isso parece haver a concordância da maioria das pessoas de bom senso. Foi por essa concordância que a escolha do economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda foi aplaudida. Mas, mesmo disposta a enfrentar um período de cintos apertados, a sociedade não pode dar tudo como resolvido. Não pode descansar.

Convém à cidadania ficar atenta ao que vem sendo tramado nos corredores do poder. O ajuste pode ser feito por corte de gastos ou por aumento de impostos. Ou ainda pelas duas coisas ao mesmo tempo. Gato escaldado, o contribuinte brasileiro não pode esquecer sobre quem costuma recair a pior parte.

Há um lobby se formando com o propósito de tirar proveito da boa vontade de todos para com o ajuste. E, aos poucos, a banda que toca o aumento de impostos começa a tocar mais alto. Já se tem como decidida a volta da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre os preços dos combustíveis. Em 2008, ela acrescentava 28 centavos ao preço da gasolina e 7 centavos ao do diesel. Foi suspensa em 2012, para segurar a inflação. Pode render R$ 14 bilhões por ano.

Pior: para não desgastar a presidente, um grupo de governadores recém-eleitos por partidos da base governista levantou a bandeira da volta da malfadada Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF), que já mordeu 0,38% sobre o valor de todos os cheques, saques eletrônicos e transferências de valores entre contas bancárias. Arrecadava cerca de R$ 42 bilhões por ano até dezembro de 2007, quando o Senado se recusou a prorrogá-la pela enésima vez.

Ora, o brasileiro já suporta uma das maiores cargas tributárias do mundo em troca de péssimos serviços públicos de educação, saúde, segurança e infraestrutura. Atualmente, quase 36% de toda a riqueza produzida pela sociedade é consumida pela governo. Nesta altura, aumentar impostos é punir o cidadão pelos erros do governo. Mais justo é cortar gorduras, diminuir o tamanho e o custo da máquina pública, escolhendo gestores capazes de torná-la mais eficiente.

Panetones, cosméticos e a institucionalização da irresponsabilidade - JOÃO ALFREDO LOPES NYEGRAY

GAZETA DO POVO - PR

Após acaloradas discussões, o Congresso Nacional aprovou o projeto de lei que autoriza o governo a fechar o ano com as contas no vermelho. A mensagem de tal aprovação parece ser: responsabilidade fiscal passa longe, e a lei só deve ser respeitada quando favorável ao governo. O preço dessa votação? Cerca de R$ 444 milhões, através da mesada de R$ 748 mil de que cada parlamentar passa a dispor. Paralelamente a esse absurdo, entrava na pauta de discussões do Congresso o aumento do salário de seus membros, aprovado pouco antes do Natal. Aparentemente, os atuais R$ 26,7 mil, além das verbas indenizatórias, não são suficientes a nossos nobres representantes.

Enquanto de um lado o governo não consegue pagar suas próprias contas, do outro aumenta os próprios gastos. Por causa dessa irracionalidade financeira, volta à pauta o aumento dos impostos, ainda que já sejamos o país que mais os paga, ainda que nosso governo seja o que mais arrecada. A nova equipe econômica avalia, além do retorno da Cide (a contribuição sobre os combustíveis), o aumento do PIS/Cofins sobre produtos importados e também o aumento da tributação sobre os cosméticos. É impossível não lembrar do pensamento de Adam Smith, que nos fala que os “impostos que visem a prevenir, ou mesmo diminuir a importação são evidentemente tão destrutivos das rendas alfandegárias quanto da liberdade de comércio”.

E assim, para sustentarmos um governo que não consegue ou não sabe administrar o imenso montante que arrecada, sufocamos nossos próprios gastos. Talvez por isso o consumo das famílias tenha tido a maior queda desde 2008. Os panetones, um dos vários símbolos da época natalina, ficam mais caros ano após ano. De acordo com dados divulgados semanas atrás, o panetone brasileiro é mais barato no Japão do que aqui. Mesmo com a ida do produto ao outro lado do mundo, ainda assim é mais barato lá. Mesmo sendo, para os japoneses, um produto importado.

Há cerca de dois ou três meses, foi divulgada na mídia uma comparação entre Brasil e Azerbaijão. Por mais que o país asiático conste apenas como a 75ª economia, sua inflação é de 2,4%, a taxa de juros está em 3,5% e o PIB encerrará o ano com crescimento de 2,4%, o que fecha os últimos dez anos com crescimento acumulado de 182%, contra apenas 25% do Brasil. Se o governo já importou médicos de Cuba, que tal importar também uma nova equipe econômica do Azerbaijão?

Mais do mesmo - RICARDO BALTHAZAR

FOLHA DE S. PAULO - 29/12

Quando a presidente Dilma Rousseff anunciou Joaquim Levy como seu novo ministro da Fazenda, a escolha soou auspiciosa: encerrada a campanha eleitoral, Dilma parecia convencida da necessidade de tomar medidas duras para consertar o estrago feito na economia em seu primeiro mandato.

Os petistas resmungaram, mas logo os insatisfeitos pararam de questionar a indicação. É cedo para saber se Levy justificará tanta expectativa. O certo é que ninguém veio a público lançar dúvidas sobre o passado do novo ministro ou sua competência profissional.

Na semana passada, quando Dilma anunciou mais 13 ministros, o efeito foi outro. Soube-se que o novo ministro do Esporte, o deputado e pastor evangélico George Hilton, foi apanhado pela polícia há dez anos carregando caixas de dinheiro no aeroporto de Brasília. Indicado para a Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo foi recebido a pedradas pela comunidade científica.

Cinco novos ministros são políticos que ficaram sem emprego após as últimas eleições. Quatro foram derrotados nas urnas. Indicado para a Educação, o governador Cid Gomes passou semanas dizendo que não queria o cargo. Acomodado na Defesa, um ministério politicamente insípido, o petista Jaques Wagner se esforça para convencer a plateia de que nunca desejou outra coisa.

Os assessores de Dilma dizem que as mudanças mostram a disposição da presidente para se reaproximar do Congresso no segundo mandato, abrindo espaço no ministério para políticos influentes nas bancadas de seus partidos. Pode ser. Mas para aprovar o quê mesmo no Congresso? Ninguém tem a menor ideia.

Em outubro, após a confirmação de sua vitória nas eleições, Dilma disse que a reforma do sistema político brasileiro seria uma de suas prioridades. Com a chegada do pastor Hilton ao time, talvez tenha chegado a hora de a presidente esclarecer o que queria dizer com isso.

Ja vi esse filme. No fim, o bandido ganha - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 29/12

A campanha da presidente Dilma, ela mesma, Lula e boa parte do PT debocharam do que disse a candidata Marina Silva (PSB) sobre como montaria seu governo caso se elegesse.

Marina afirmou que simplesmente governaria com os melhores elementos de cada partido sem discriminar nenhum partido.

É uma boba, garantiram alguns. Uma sonhadora, acusaram outros. Governar com os melhores é impossível, apenas isso.

Ou Marina dominava uma receita que só ela conhecia ou então se pautaria pelo bom senso. E o bom senso lhe aconselhava a procurar gente decente, comprometida com a ética e talentosa para ocupar cargos do primeiro e do segundo escalão da República.

E se essa gente fosse incapaz de lhe garantir a maioria dos votos no Congresso? E se por causa disso o governo capengasse?

Marina confiava que não passaria sufoco porque, em primeiro lugar, governaria apenas por quatro anos. Descartara a reeleição.

O que a seu ver seria o bastante para apaziguar os ânimos no Congresso e refrear as ambições, por suposto.

Segundo porque governaria com transparência, prestando contas aos eleitores de todos os seus passos e discutindo com eles suas dificuldades.

Fernando Collor se elegeu presidente em 1989 sem maioria no Congresso. Quis cooptar o PSDB e não conseguiu.

Chamou de “único tiro” contra a inflação o plano econômico que garfou a poupança dos brasileiros.

Por mais estúpido que tenha sido o plano, o Congresso não se negou a aprová-lo. Caso desse certo, o Congresso ficaria bem na foto. Se desse errado, o presidente é que ficaria mal.

Não foi por falta de apoio do Congresso que Collor acabou deposto. Foi por falta de apoio popular.

O Congresso é sensível ao sentimento das ruas. E todo presidente, a princípio, se beneficia de um período de lua de mel com a opinião pública.

Até que o período se esgote, ele pode se comportar com um grau de liberdade que mais tarde se estreitará. A não ser que o sucesso bata à sua porta.

Ninguém mais do que Lula reuniu condições para governar sem ser obrigado a fazer concessões que por fim o apequenassem, e ao seu partido.

Foi o primeiro nordestino ex-pau de arara, ex-líder sindical, ex-preso político a subir a rampa do Palácio do Planalto.

Ocupou o principal gabinete do terceiro andar com crédito para gastar por muito tempo. Encrencou-se porque piscou primeiro.

Sob pressão para lotear o governo como seus antecessores haviam feito por hábito ou necessidade, Lula subestimou o apoio das ruas.

Preferiu apostar no apoio do Congresso. Logo ele, que no final dos anos 80 do século passado, enxergara ali pelo menos 300 picaretas.

Foi atrás dos picaretas. Beijou a cruz – e de quebra a mão de Jáder Barbalho. O mensalão quase o derrubou.

Dilma atravessou a metade do seu primeiro governo resistindo à ideia de ceder ao “pragmatismo político”.

Em conversa, certo dia, com um amigo, ouviu dele: “Tirando três ou quatro, só tem desonesto no Congresso”. Ela respondeu: “E eu não sei?”

Para se reeleger, cedeu ao apetite dos desonestos. Beijou a cruz. E de quebra a mão de Helder Barbalho, filho de Jáder, seu futuro ministro da Pesca.

Foi medíocre o primeiro ministério de Dilma O governo que resultou disso foi naturalmente medíocre.

Pois bem: ela está perto de cometer o prodígio de montar outro ministério igual ou talvez pior.

O que a diferenciava dos políticos a quem tanto desprezava é, hoje, o que a torna cada vez mais parecida com eles.

Feliz Ano Novo para todos!

Ninguém me tira - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 29/12

A disputa entre PT e PDT pelo Ministério do Trabalho deve obrigar o Palácio do Planalto a adiar mais uma vez a conclusão da reforma ministerial, que Dilma Rousseff previa para hoje. Em conversas com articuladores políticos do governo, dirigentes pedetistas se recusaram a abrir mão da vaga. O impasse travou a definição do espaço do PT na Esplanada, uma vez que a pasta era considerada uma peça-chave para compensar a retirada do Ministério da Educação da cota petista.


Rede furada 

Dilma decidiu que o Ministério do Trabalho terá uma atribuição a menos a partir de 2015: a fiscalização do seguro defeso, benefício pago a pescadores em época de pesca proibida ou baixa temporada.

Arrastão 
O monitoramento passará a ser feito pelo INSS, vinculado à Previdência Social. O governo quer implantar um sistema de fiscalização pesada para acabar com fraudes no pagamento.

Motim 
A insatisfação do PT com a reforma ministerial cresceu tanto que dirigentes da sigla ensaiam uma reação mais clara à escolha de Pepe Vargas para a Secretaria de Relações Institucionais.

Fritura 
Deputados da corrente petista Construindo um Novo Brasil, majoritária no partido, dizem que Vargas, da tendência Democracia Socialista, "não tem capacidade de articulação política" e que sua indicação vai rachar a bancada do PT na Câmara.

Tudo... 
Também insatisfeita com o novo desenho do governo, a cúpula do PMDB vai exigir de Dilma a verticalização de suas seis pastas.

... dominado 
Sob o Ministério do Turismo, peemedebistas querem comandar a Embratur, hoje controlada pelo PC do B. Também pedirão a Conab, vinculada ao Ministério da Agricultura.

Última chamada 
Com a indefinição do anúncio de novos ministros, alguns candidatos à Esplanada compraram passagens para voar a Brasília na manhã de hoje. Querem estar a postos caso sejam convocados.

Bolsa cimento 
O PSD começou a usar a indicação de Gilberto Kassab para o Ministério das Cidades para atrair deputados de outros partidos para a nova sigla do ex-prefeito, o PL. O argumento é que a pasta dará mais força política aos aliados de Kassab.

Recado dado 
Emissários do governo procuraram o Ministério Público Federal há cerca de um mês para manifestar sua preocupação com o impacto das denúncias contra empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato. O cenário apresentado foi de consequências catastróficas para a economia do país.

Sem recibo 
Procuradores reagiram com ressalvas. "É inegável que haverá um impacto econômico, mas não se pode criar uma imunidade jurídica por esse motivo", diz um membro do MPF.

Mais que restrito 
Apenas três integrantes da cúpula da Procuradoria-Geral da República tiveram acesso à lista de políticos citados tanto por Paulo Roberto Costa quanto por Alberto Youssef. Um dos leitores foi o procurador-geral, Rodrigo Janot.

Na conta 
Responsável pela repatriação do dinheiro desviado pelo esquema na Petrobras, a Secretaria Nacional de Justiça começará 2015 sem titular. José Eduardo Cardozo (Justiça) quer escolher a dedo o substituto de Paulo Abrão, que deixou o cargo.

Na fila 
Também está na lista de prioridades do ministro a indicação da nova cúpula da Funai.

Natal do pibinho 
Em ano de crise econômica, deputados e senadores lamentam que seus colegas tenham economizado nos presentes que costumam distribuir no Congresso em dezembro. As garrafas de champanhe Veuve Clicquot sumiram dos gabinetes, que até agora só receberam "lembrancinhas".com BRUNO BOGHOSSIAN, PAULO GAMA e ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER


TIROTEIO

"Promovido para a Esplanada, Jaques Wagner deixou duas marcas na Bahia: a maior greve da PM e o aumento da violência em Salvador."

DO DEPUTADO VANDERLEI MACRIS (PSDB-SP), sobre a escolha do governador baiano, Jaques Wagner (PT), para o Ministério da Defesa de Dilma Rousseff.


CONTRAPONTO

Fora da área de cobertura

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, participou de uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado no dia 11 de dezembro para apresentar informações sobre o relatório final do trabalho do grupo, que havia sido entregue na véspera ao Palácio do Planalto. Depois de detalhar os resultados no Congresso, o advogado pediu desculpas por ter que deixar a reunião antes do fim:

--Vocês não sabem o que é coordenar um órgão público que vai ser extinto. Em cinco dias você tem que devolver tudo, até o celular. Eu praticamente deixo de existir no mundo! --brincou Dallari.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

MINISTROS DE DILMA RECEBEM ATÉ R$ 62 MIL POR MÊS

Oficialmente, ministros do governo Dilma recebem salários “comuns” de R$ 26,7 mil por ocuparem cargos na Esplanada. Mas um terço dos 39 ministros ganham “jetons”, bônus salariais, por integrarem conselho de empresas estatais e outros órgãos do governo federal. O Conselho de Administração da Petrobras, por exemplo, rende R$ 10 mil por mês. “Jetons” são pagos nos Correios, Finep, BNDES, Itaipu, Sesc, BB etc.

É CAMPEÃO
O ministro Mauro Borges (MDIC) ganha R$ 21,6 mil líquidos e mais R$ 40 mil com “jetons” do Conselho do BNDES e do BNDESPar: R$ 62 mil

VICE CAMPEÃ
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, tem recebido em torno de R$ 46,8 mil com salário mais jetons da Petrobras e da BR distribuidora.

FECHANDO O PÓDIO
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) vem logo atrás com R$ 42 mil incluindo o “honorário” de R$ 20.904,99 que recebe do BNDES.

PRATA DA CASA
O jeton é uma remuneração por representar a União em Conselhos de Administração ou Fiscal de empresas controladas… pela União.

DILMA PODE REPETIR ATO NAPOLEÔNICO NA REPOSSE
A presidenta Dilma cogita encampar ideia, que ganha força no Palácio do Planalto, de colocar a faixa presidencial em si mesma durante a posse do seu segundo mandato. Por sugestão do cerimonial, Dilma subiria a rampa e se auto-imputaria a faixa, considerada símbolo da passagem de poder, assim como fez Napoleão Bonaparte ao tirar o diadema das mãos do papa Pio VII e coroar-se a si mesmo, em 1804.

FALTA PROTOCOLO
O cerimonial da Presidência da República não tem protocolo para o recebimento da faixa presidencial, em caso de reeleição.

PRECIOSA
O ex-presidente Lula preferiu aparecer já com a faixa presidencial, com a qual subiu a rampa para o pronunciamento na posse da reeleição.

RECORDAR É VIVER
Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso optou por receber a faixa do chefe de cerimonial em 1998, após sua reeleição no cargo.

SAMBA DO DEPUTADO DOIDO
Ninguém sabe o que será das cassações de Luiz Argôlo (SD-BA) e Jair Bolsonaro (PP-RJ) em 2015. Apesar de o regimento interno da Câmara prever o arquivamento de processos, o Conselho de Ética questionou a mesa diretora. No entanto o recesso chegou antes da resposta.

PRESTÍGIO DE VOLTA
Em 2010, o futuro ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha não gozava de tanto prestígio quanto hoje junto ao seu partido, o PMDB. O partido doou apenas R$ 142,52 para a campanha do agora deputado eleito.

SEM PRESTÍGIO
Desde que assumiu o Itamaraty em agosto de 2013, o chanceler Luiz Figueiredo não se reuniu uma vez sequer com a ex-chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann. Com Dilma, só teve dois encontros durante todo 2014.

HABEMUS QUÓRUM
Cotado para disputar a Presidência da Câmara dos Deputados em 2015, Arlindo Chinaglia (PT-SP) quer aproveitar a cerimônia de posse da presidenta Dilma para reunir deputados do PT em Brasília, na sexta-feira (2). Resta saber se haverá quórum.

SEIS POR MEIA DÚZIA
A bancada do PDT reagiu com mau humor à proposta do Planalto de trocar o “fraco” Ministério do Trabalho pelo “abacaxi” da Previdência. O deputado André Figueiredo (CE) resiste em assumir ambos os cargos.

CONCORRÊNCIA
O PMDB está com a pulga atrás da orelha diante da força de Cid Gomes (PROS-CE) e Gilberto Kassab (PSD-SP) no governo Dilma II. Indicados para cargos importantes, eles ameaçam enfrentar o PMDB.

COTADO
O PT-SP tem defendido o nome do sociólogo Juca Ferreira para o Ministério da Cultura no governo de Dilma II. A indicação de Juca fará frente à senadora Marta Suplicy, que saiu do governo atirando.

JÁ PRA FORA!
O Ministério da Fazenda não comenta episódio vexatório que o ministro Guido Mantega teria vivido no bar Astor, em São Paulo. O pré-demitido ministro da Fazenda teria sido hostilizado, xingado e vaiado no sábado (20), até se retirar do bar. No Ministério, ninguém sabe, ninguém viu.

PENSANDO BEM…
…a lancha que a Dilma usou com a família no litoral da Bahia é batizada de “Amazônia Azul”. Correligionários prefeririam “Amazônia Vermelha”.

domingo, dezembro 28, 2014

Crise da Petrobrás, crise de um estilo de governo - ROLF KUNTZ

O ESTADO DE S.PAULO - 28/12

Dólar em alta, crise na Rússia, estagnação na Europa, ajuste na China, preços de exportação em queda, tudo isso é fichinha, em comparação com a maior fonte de risco para o Brasil - o governo federal, chefiado formalmente pela presidente reeleita, subordinado à fome de poder do PT e com escalação incompleta a poucos dias da posse. A maior parte dos ministros confirmados até o Natal foi escolhida pelo critério do loteamento, com alguma alteração nas cotas partidárias. A noção de competência pode ter influído na seleção de alguns nomes para a área econômica, mas só aí. Os demais postos foram distribuídos para atender às ambições de partidos e de líderes aliados. Alguém terá pensado na competência de cada um para o cargo? Mas o serviço ficou incompleto. Devorados os perus natalinos, faltava preencher 22 postos do Ministério, uma tarefa aparentemente perigosa. Sem a cooperação do Ministério Público, seria difícil puxar a capivara - a folha de antecedentes, na velha linguagem policial - dos possíveis indicados.

A preocupação com a folha corrida dos ministeriáveis é explicável, e até justificável, pela multiplicação de denúncias ligadas ao escândalo da Petrobrás. Algumas pessoas poderão achar louvável esse cuidado. Mas a cautela seria tão importante, se o risco de escolha de algum implicado fosse muito baixo? Não bastaria a verificação rotineira, realizada pelo serviço de informação do gabinete presidencial? A presidente parece insegura em relação ao campo de escolha de colaboradores. Esse campo, no Brasil, tem sido muito restrito, porque o presidencialismo de coalizão foi convertido, na prática, numa partilha de butim.

A limitação do campo combina com uma peculiaridade notável da política e das finanças brasileiras. A economia nacional é uma das dez maiores do mundo. A soma de exportações e importações, a chamada corrente de comércio, supera US$ 450 bilhões. O Brasil capta cerca de US$ 60 bilhões de investimentos diretos e recebe um enorme fluxo de outros financiamentos. Apesar de tantos dólares movimentados, parece haver uma estranhíssima escassez de operadores de câmbio. Sem essa hipótese, como explicar a numerosa e luzida clientela servida por um único operador, Alberto Youssef?

Nesse estranho mundo, a escolha de ministros deve ser mesmo complicada. Com tantos aliados e companheiros listados entre os clientes de Youssef e mencionados pelos beneficiários da delação premiada, fica difícil dizer quem permanece fora da ilustre confraria.

Em outros tempos, a presidente poderia, sem grande risco aparente, nomear clientes do mesmo doleiro para postos importantes da administração direta e das grandes estatais. Estaria apenas seguindo o padrão nacional, consolidado especialmente nos últimos 12 anos, de partilha do poder. Ou, em linguagem mais precisa, estaria repartindo os benefícios proporcionados por um poder estatal convertido em ativo privado, negociável e transferível em arrendamento a partidos e políticos aliados. Esse estilo de administração continua em vigor, mas agora certos cuidados são necessários.

Para começar, alguns membros do serviço público - na Polícia Federal, na Procuradoria da República e no Judiciário - têm agido como funcionários do Estado, sem levar em conta, aparentemente, as conveniências do grupo governante. Isso pode ser chocante para muitos políticos brasileiros, principalmente para aqueles incapazes de distinguir partido e Estado.

Em segundo lugar, as pressões do mercado sobre o governo e as estatais têm ficado mais intensas. A rolagem de títulos públicos tornou-se mais custosa em 2014. As agências de classificação de risco têm intensificado a vigilância. Pouco antes do Natal a Moody's apontou, pela segunda vez em 20 dias, o risco de um novo rebaixamento da nota da Petrobrás. Sem a publicação de um balanço auditado, a empresa poderá ser forçada a antecipar o pagamento de US$ 17,6 bilhões de dívidas. Mas como conseguir o aval de uma auditoria, se o tamanho dos danos causados pelas bandalheiras é ignorado?

Nos Estados Unidos, na véspera do Natal, a cidade de Providence, capital do Estado de Rhode Island, iniciou processo contra a Petrobrás, sua administração, duas subsidiárias internacionais e 15 bancos envolvidos na distribuição de papéis da companhia. As acusações atingem a presidente da estatal, Graça Foster, e o diretor financeiro, Almir Barbassa. Em Nova York, três outras ações coletivas já haviam sido abertas em dezembro. Ninguém está reclamando de um fenômeno típico de mercado, a depreciação das ações, mas da corrupção, só denunciada recentemente, e das informações enganosas.

As investigações sobre a Petrobrás e sobre as pessoas envolvidas na pilhagem da empresa ainda poderão avançar muito mais do que até agora. A devassa realizada pela Polícia Federal e pela Promotoria manterá o caso em evidência mesmo depois de publicadas - ninguém sabe quando - as contas do terceiro trimestre.

O escândalo internacional evidencia mais uma vez a arrogância de quem se apropriou do Estado e se julgou capaz de mandar e desmandar sem consequências. Os promotores da bandalheira superestimaram sua influência dentro e fora do País. Nem todos os envolvidos, é verdade, foram denunciados. Mas ninguém pode seriamente duvidar da responsabilidade de quem exerceu o poder de aparelhar e lotear a administração e de reunir companheiros e aliados num grande saque. A investigação apenas começou.

Até agora, a presidente deu poucos sinais de haver ponderado esses fatos. Alguns ministros poderão esforçar-se para consertar as bases da economia e repô-la em crescimento. Será um trabalho desperdiçado, se a presidente for incapaz de romper com o estilo de governo consolidado na última década. O mau estado da economia é só mais uma consequência desse estilo autoritário, arrogante e irresponsável.

O reatamento Cuba-EUA - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 28/12

A boa notícia deste fim de ano - entre tantas coisas ruins no plano interno e externo, como um governo a iniciar-se envelhecido e a crescente tensão na Eurásia - foi, indubitavelmente, o reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, processo iniciado há mais de um ano entre delegados dos dois países, com a intermediação do papa Francisco. Por isso, o anúncio do reatamento ocorreu no dia de aniversário do pontífice romano. Para as mentes estreitas, os EUA deveriam, em troca, exigir a democratização da ilha. Ora, a Arábia Saudita, o Egito, a China, países com os quais os EUA mantêm laços econômicos e até militares (os americanos dão dinheiro ao exército egípcio) são democráticos? A objeção é hipócrita!

Cuba deixou de ser inimiga militar dos Estados Unidos por dois motivos. O primeiro foi o desaparecimento do socialismo na União Soviética e na China. A ilha quedou-se isolada no mar do Caribe, a 96 km dos EUA. O segundo motivo - até mesmo pelo fracasso do modelo econômico adotado - diz com o fomento outrora patrocinado por Cuba aos movimentos esquerdistas na América Latina. Nicarágua, Honduras, Colômbia, Bolívia foram alvos da influência cubana. Hoje, resta o aspecto icônico - prestes a desaparecer - do comandante Fidel Castro, cujo carisma acrisola os sonháticos movimentos filossocialistas do continente (anacronismo ideológico).

O reatamento diplomático e o afrouxamento de políticas restritivas foi um primeiro passo. O segundo processo, sem o qual não deslanchará, é a queda do embargo econômico, que só faz o povo cubano sofrer, sem nenhum ganho político para os EUA. A América Latina inteira quer o seu fim. Prejudica a política americana no continente, tanto é que os chefes de Estado declararam, há meses, que sem Cuba não haveria a cúpula das nações americanas em 2015. De resto, o mundo vê como covarde e mesquinho o embargo (sanções econômicas são detestáveis). São, como no passado, cercos que impedem a chegada à população de água, alimentos e remédios, para dobrar soberanias, uma forma cruel de atingir civis. Em Israel, por exemplo, até os impostos pagos pelos palestinos podem ser retidos, ao revés de repassados à Autoridade Palestina.

Com a proximidade das eleições presidenciais, o Congresso americano revogará a lei do embargo, ante a pressão do voto hispânico e da opinião mundial. Os republicanos não são idiotas. Mas esperar que Cuba se torne capitalista e democrática imediatamente é irrealístico. Primeiro virá a liberalização comercial, depois a de investimentos e, finalmente, a da produção, sob o controle férreo do Partido Comunista cubano, após a sucessão de Raul Castro, em andamento.

Aliás, a liberalização política antes da econômica, como aconteceu na Rússia, foi catastrófica, financeira e estrategicamente. A União Soviética se desfez e ocasionou o colapso da Rússia. A glasnost (transparência) e a perestroika (reestruturação) fracassaram. O Ocidente não ajudou; aprofundou a crise, e até hoje hostiliza a Rússia, como recentemente escreveu Gorbachev para o Financial Time, em sofrida mea-culpa. O processo cubano será, antes de tudo, econômico, como na China, sob o controle do Partido Comunista. Se os cubanos ricos de Miami pensam que vão exercitar o buyback (comprar suas antigas propriedades) e tomar a ilha economicamente, estão enganados. Como na China, o processo econômico será intenso, mas sob controle, à medida que novas instituições sejam construídas. Um Banco Central, para exemplificar, técnicas cambiais, sistema bancário etc.

Dado o primeiro passo, o processo seguirá normalmente. A China dará a consultoria necessária. Os EUA devem continuar nas mãos do partido democrata. Se Obama assinar um acordo com o Irã, absorver o plebiscito (87%) da Crimeia (que sempre foi russa, anexada à Ucrânia por Kruschev, nascido ucraniano) - e iniciar a reunificação da Coreia, fará por merecer o cognome de o pacificador, apanágio dos grandes estadistas. A vitória da democracia estará completa. A China, por si só, encontrará o seu destino de tolerância e igualdade. O Ocidente sempre foi um acidente recentíssimo na história da humanidade.

O mundo, daqui a 40 anos, será bem diferente. Quem diria que os EUA manteriam sem acusação gente presa em Guantamano? Que torturava sistematicamente pessoas? Que não indicia policiais brancos que assassinam negros? A Europa é cada vez mais xonofoba! Entre a Rússia e a China, um espaço político novo e decisivo está em formação, poucos se apercebam. De outro lado, os cubanos são os latino-americanos mais educados e possuem um bom sistema de saúde, eficaz e igualitário. Ainda será um grande país, após o comunismo cuja transformação teve início.