segunda-feira, outubro 27, 2014

Sonhos complacentes - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 27/10


Não ficamos mais bobos quando somos mais complacentes com as bobagens em que cremos?


Não sou um daqueles céticos que acham que religião é coisa de gente boba. Apesar de ter aprendido já no jardim da infância a crítica que os três cavaleiros do ateísmo contemporâneo fizeram à religião, Marx, Nietzsche e Freud, e de já tê-la assimilado ao café da manhã, estudo o bastante da produção filosófica de algumas religiões pra saber que nem tudo nelas é bobagem.

Portanto, não sou aquele tipo de ateu chato que ridiculamente mede a inteligência de uma pessoa por sua "crença na ciência".

E qual é essa crítica dos cavaleiros do ateísmo contemporâneo? De modo sintético, seria a seguinte: depois de Marx, se você é religioso, você é um alienado explorado por picaretas espirituais. Não podemos não concordar em grande parte com o que o velho barbudo diz sobre isso.

Depois de Nietzsche, se você é religioso, você é um covarde ressentido que não aceita a falta de sentido da vida e o abandono cósmico. Não podemos não concordar em grande parte com o que o filósofo do martelo diz sobre isso.

Depois de Freud, se você é religioso, você é um adulto bobo que não conseguiu lidar com os fatos de que seu pai não é o pica das galáxias e sua mãe não te ama incondicionalmente, daí Deus ser esses pais ideais. Não podemos não concordar em grande parte com o que o sábio de Viena diz sobre isso.

Preocupo-me aqui, especificamente, com um fenômeno que chamaria, carinhosamente, de "masturbação espiritual", e que se caracteriza por um enorme narcisismo a serviço de uma falsa busca espiritual do tipo: o universo conspira a meu favor e Deus trabalha pra minha felicidade. A "masturbação", aqui, representa exatamente o fato de que a masturbação é uma "relação" entre você e você. Na busca espiritual narcísica não existe qualquer transcendência, só a imanência entediante de um "eu mesmo" deslumbrado consigo mesmo.

Quando você ouvir falar, num jantar inteligente, que alguém acha todo mundo lindo, que os jovens hoje são mais inteligentes e abertos à espiritualidade (quando nem conseguem criar vínculos mais duradouros com nada) e nada no "relato dessa busca espiritual" trair uma certa percepção de desespero, uma crise de fé em si mesmo, uma angústia moral, um horror qualquer, você está assistindo a uma sessão de masturbação espiritual.

Outro dia, conversando sobre isso com minha mulher, que faz doutorado sobre o psicanalista inglês D. W. Winnicott e o sofisticado sociólogo alemão Norbert Elias, ela me leu esse maravilhoso trecho de um livro de Elias, "A Solidão dos Moribundos", da editora Zahar. Leia comigo:

"Hoje, com o imenso acúmulo de experiência, não podemos mais deixar de nos perguntar se esses sonhos complacentes não têm, a longo prazo, consequências bem mais indesejáveis e perigosas para o seres humanos em sua vida comunal que o conhecimento bruto e sem retoques".

Elias, neste período, discute em que medida o aumento da imaginação, como fruto da evolução, não teria vindo em socorro da incômoda e crescente consciência da finitude e da morte, nossos fantasmas humanos, demasiado humanos. A questão, dita de outra forma, seria: não estamos ficando mais bobos à medida que somos mais complacentes com as bobagens em que acreditamos? Alguns exemplos de bobagens: "energias do universo", "criança cristal", "geração índigo", "pedras energéticas", "xamãs da Vila Madalena".

Ouso responder que sim. Essa moçada é, na verdade, gente sem compromisso com nada e complacente com suas manias egóicas.

Passam a vida "buscando a si mesmos" assim como quem vai a Orlando brincar de ser criança (nada contra Orlando, tudo contra a punheta espiritual).

Morrendo de medo da responsabilidade pela vida, diante do horror ao silêncio de um universo indiferente (Nietzsche), agoniados com a "castração" dos pais (Freud), preferindo gastar dinheiro com gurus inócuos (Marx), essa turma faz mais mal ao mundo do que quem diz diretamente na sua cara: o que você acredita é uma bobagem!

Mas, de repente, paro e penso: não estarei eu caindo na velha arrogância cética? Não deve a filosofia nos ensinar a humildade diante da dor?

Um mandato inédito - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 27/10


Em 2002, na versão 1.0, Romanée-Conti; em 2014, na 2.0, a suíte do Copa, com direito a mordomo


Os eleitores deram ao PT um mandato inédito na história nacional. Um mesmo partido ficará no poder nacional por 16 anos sucessivos. A doutora Dilma reelegeu-se num cenário de dificuldades econômicas e políticas igualmente inéditas. Lula recebeu de Fernando Henrique Cardoso um país onde se restabelecera o valor da moeda. Ela recebe dela mesma uma economia travada. Tendo percebido o tamanho da encrenca, em setembro anunciou a substituição do ministro Guido Mantega. Por quem, não disse. Para quê, muito menos.

A dificuldade política será maior. As petrorroubalheiras devolveram o PT ao pesadelo do mensalão. Em 2005 o comissariado blindou-se e desde então fabrica teorias mistificadoras, como a do caixa dois, ou propostas diversionistas como a da necessidade de uma reforma política. Pode-se precisar de todas as reformas do mundo, mas o que resolve mesmo é a remessa dos ladrões para a cadeia. O Supremo Tribunal Federal deu esse passo, formando a bancada da Papuda. Foi a presença de Marcos Valério na prisão que levou o "amigo Paulinho" a preferir a colaboração à omertà mafiosa.

Dilma teve uma atitude dissonante em relação às condenações do mensalão. Protegeu-se sob o manto do respeito constitucional às decisões do Judiciário. No debate da TV Globo, quando Aécio Neves perguntou-lhe se achou "adequada" e pena imposta ao comissário José Dirceu, tergiversou. Poderia ter seguido na mesma linha: a decisão da Justiça não deve ser discutida. Emitiu um péssimo sinal para quem sabe que as petrorroubalheiras tomarão conta da agenda política por muito tempo.

Será muito difícil, e sobretudo arriscado, tentar jogar o que vem por aí para baixo do tapete. Ou a doutora parte para a faxina, cortando na carne, ou seu governo vai se transformar num amestrador de pulgas, de crise em crise, de vazamento em vazamento, até desembocar nas inevitáveis condenações.

O comissariado acreditou na mágica e tolerou o contubérnio do PT com o PP paranaense do deputado José Janene. A proteção dada aos mensaleiros amparou o doutor e ele patrocinou a indicação do "amigo Paulinho" para uma diretoria da Petrobras. Ligando-se ao operador Alberto Youssef, herdeiro dos contatos de Janene depois que ele morreu, juntaram-se aos petropetistas e a grandes empresas. O resultado está aí.

Em 2002, depois do debate da TV Globo, Lula foi para um restaurante do Rio e comemorou seu desempenho tomando de uma garrafa de vinho Romanée-Conti que custava R$ 9.600. A conta ficou para Duda Mendonça, o marqueteiro da ocasião. Quem achou a cena esquisita pareceu um elitista que não queria dar a um ex-metalúrgico emergente o direito de tomar vinho caro. Duda confessou que fazia suas mágicas com o ervanário do mensalão. Passaram-se doze anos e os repórteres Cleo Guimarães e Marco Grillo mostraram que, na semana passada, Lula esteve em São Gonçalo, onde disse que "a elite brasileira não queria que pobre estudasse". Seguiu da Baixada Fluminense para a avenida Atlântica e hospedou-se no Copacabana Palace, subindo para a suíte 601, de 300 metros quadrados, com direito a mordomo. Outros sete apartamentos estavam reservados para sua comitiva.

Recados da sociedade - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O ESTADÃO - 27/10

Escrevo este artigo antes da abertura das urnas. Mas o tom do segundo turno, marcado por intensa participação da sociedade, sobretudo na internet, transmite um forte recado aos políticos. A eleição despertou algo que estava adormecido na alma dos brasileiros: o exercício da cidadania. O povo percebeu, finalmente, que os governantes são representantes da sociedade, mas não são donos do poder. Assistimos ao estertor dos feudos da opinião pública. Daqui para a frente, com crescente intensidade, os políticos serão cobrados e confrontados. Felizmente. Além disso, os brasileiros, mesmo os que foram seduzidos pelo rolo compressor do marketing político, não estão dispostos a renunciar aos valores que compõem a essência da nossa história: a paixão pela liberdade, a defesa da dignidade humana e a prática da tolerância.

Um país não pode se apresentar como democrático e livre se pedir à imprensa que não reverbere os problemas do país. O governo petista frequentemente manifestou insatisfação com o trabalho da imprensa. Para o PT, lamentavelmente, jornalismo bom é o que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda, irrita e provoca azia. Está, na visão de seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva, a serviço da “elite brasileira”. Reconheço, no entanto, que Lula, Dilma e seus companheiros não são críticos solitários da mídia. Políticos, habitualmente, não morrem de amores pelo trabalho dos jornalistas.

A simples leitura dos jornais oferece um quadro assustador do cinismo que se instalou na entranha do poder. O que fazer quando um ex-presidente da República faz graça com a corrupção e incinera a ética no forno do pragmatismo e da suposta governabilidade? O que fazer quando políticos se lixam para a opinião pública? Só há um caminho: informação livre e independente. Não se constrói um grande país com mentira, casuísmos e esperteza. Edifica-se uma grande nação, sim, com o respeito à lei e à ética. A transparência informativa, de que os políticos não gostam, representa o elemento essencial de renovação do Brasil.

Mas o recado mais forte, claro e nítido, foi o do repúdio à intolerância. A agressividade de Dilma e de Lula e seus destemperos verbais também empurraram a eleição para o segundo turno. A radicalização ideológica não tem a cara do brasileiro. O PT tenta dividir o Brasil ao meio. Jogar pobres contra ricos, negros contra brancos, homos contra héteros. Quer substituir o Brasil da alegria pelo país do ódio e da divisão. Tenta arrancar com o fórceps da luta de classes o espírito mágico dos brasileiros. Procura extirpar o DNA, a alma de um povo bom, aberto e multicolorido. Não quer o Brasil café com leite. A miscigenação, riqueza maior da nossa cultura, evapora nos rarefeitos laboratórios arianos do radicalismo petista.

Assistimos ao surgimento, de forma acelerada e preocupante, de uma nova “democracia” totalitária e ditatorial, que pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura politicamente correta constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e redações. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, homossexuais ou raciais. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo não há vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético. E ninguém impedirá o cumprimento do primeiro mandamento da nossa profissão: transmitir a verdade dos fatos.

Contenha-se, presidente - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 27/10


SÃO PAULO - O Brasil desta década, em vários aspectos, é quase outra nação se for comparado ao do início dos anos 2000. Cada US$ 100 do PIB de 2002 se tornaram US$ 190.

Para cada R$ 100 que o governo federal gastava na época, desembolsa R$ 200 agora. Para cada 100 pessoas empregadas, hoje há 130.

Se fosse um país, o mercado de trabalho brasileiro, de quase 100 milhões de indivíduos, seria maior que qualquer nação da Europa. O crédito explodiu, o consumo foi catapultado, a atividade empresarial foi catalisada e o empreendedorismo floresceu. Multiplicou-se o acesso à informação.

Estão matriculados na faculdade 180 brasileiros para cada 100 há dez anos. O ensino básico atinge picos de universalização, e melhora o desempenho no principal teste mundial de conhecimento, apesar de os alunos ainda mostrarem domínio sofrível dos principais conteúdos.

Foram às urnas neste pleito 120 eleitores para cada 100 que compareceram ao escrutínio de 2002, expansão de 20 milhões de almas.

O Brasil mudou de escala. Deu um salto quântico para outra realidade, embora esteja ainda muito distante do portal do desenvolvimento, humano e econômico.

Deve ser difícil para o PT e a presidente reeleita, Dilma Rousseff, reconhecer que a maior parte do crédito pelo notável avanço é da sociedade, e não do governo. A riqueza que levou a esse salto surgiu da labuta diária de homens e mulheres, e as determinantes de sua partilha foram cimentadas na constituição da democracia ao longo de 30 anos.

Que a vitória apertadíssima deste domingo e as condições agrestes de governo que se apresentam sirvam de alerta para a necessidade de contenção no exercício da Presidência. O presidente da República no Brasil pode muito, mas não pode tudo. A presidente Dilma, dado o contexto econômico e político em que se reelegeu, poderá menos.

Discriminação disfarçada - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 27/10

Em nome de alegadamente superar dificuldades ditadas por demandas estruturais, de soluções mais complexas, o país tem sido pródigo em recorrer a medidas imediatistas, rasas — que não atacam a raiz dos problemas e propõem saídas pontuais, epidérmicas. Cria-se, com isso, a sensação de que se removeram obstáculos, quando, na verdade, fica apenas a falsa impressão de que grupos até então atingidos por algum tipo de conflito terão ingressado no melhor dos mundos. As dificuldades persistem, mas se vende a ideia de que elas estão ultrapassadas em definitivo.

É o terreno em que prospera o populismo, na política, na cultura ou outros setores. Uma dessas manifestações, em que há um receituário contra as consequências, em lugar da mais árdua opção por atacar as causas, ganhou abrigo no Senado. Por meio de sua Comissão de Educação, a Casa discute uma reforma ortográfica que mal disfarça o viés populista. A ideia central dos patrocinadores dessa causa é a adoção, na língua escrita, do princípio de “se escrever como se fala". O substrato seria uma pretensa necessidade de simplificar a ortografia para facilitar a alfabetização.

Em nome disso, o grupo que defende a reforma propõe a supressão de letras que não se pronunciam nas palavras (como o “h” em “hoje”) e a duplicidade da grafia para o mesmo som. A História está cheia de supostos bons propósitos que, deliberadamente ou não, surgem, como ideia, com objetivos nobres, mas que, na prática, se revelam nocivos. Este é um deles. Mira-se uma pretensa inclusão social, mas a proposta mal disfarça seu caráter discriminatório, pois parte do princípio de que as pessoas a quem se pretenderia beneficiar com as mudanças não teriam condições de se educar para alcançar novo patamar cultural.

A deterioração da norma culta, portanto, se manifesta como metástase da perigosa doença do populismo. É sintomático que, contra essa iniciativa, tenham se levantado vozes representativas da inteligência nacional. A preocupação imediata é que, tendo alcançado o Legislativo, o movimento prospere a ponto de tais ideias chegarem ao plenário em forma de projeto de lei.

A presidente da Associação Brasileira de Linguística, Marília Ferreira, enviou à comissão do Senado um texto alertando que dificuldades de alfabetização não são provocadas pela ortografia, mas pelas escassas oportunidades que segmentos de estratos sociais mais baixos, supostos beneficiários, têm de acesso a experiências educacionais e culturais paralelas ao processo de aprendizado formal. O filólogo Evanildo Bechara atribui a defesa da simplificação a um equívoco. E, em artigo recente no GLOBO, a escritora Ana Maria Machado deu a receita: o remédio é qualidade na educação.

São opiniões que não podem ser desprezadas pelo Senado, caso se pretenda de fato levar à frente, até o imprevisível crivo do plenário, o absurdo que se discute na Casa.

Uma nova chance - EDITORIAL GAZETA DO POVO -PR

GAZETA DO POVO -PR - 27/10


A campanha de Dilma foi marcada pela baixaria. Mas, uma vez vitoriosa, que ela conduza seu segundo mandato com sabedoria


Escândalos sucessivos de corrupção e uma economia cambaleante não foram suficientes para que os eleitores brasileiros optassem pela alternância de poder. Ontem, Dilma Rousseff foi reeleita para um segundo mandato, o que levará o PT a 16 anos no Palácio do Planalto. Se programas como o Bolsa Família, o Pronatec, o Mais Médicos e o Minha Casa, Minha Vida tiveram influência no ânimo do eleitor, não se pode descartar um outro aspecto. Afinal, tão digna de nota quanto o resultado da eleição é a maneira como ele foi obtido.

O PT praticou, nesses meses, a campanha eleitoral mais sórdida dos últimos anos. Cheios daquele “ardor apaixonado” do qual “os piores estão cheios”, nas palavras do poeta irlandês William Butler Yeats, marqueteiros, candidata e, principalmente, o ex-presidente Lula se entregaram à baixaria, não pensando duas vezes antes de promover a desconstrução mentirosa dos adversários. Primeiro, com Marina Silva, que após a morte de Eduardo Campos despontou como aquela que tinha mais chances de vencer. Sua proposta de independência do Banco Central chegou a ser diretamente associada à falta de comida na mesa do brasileiro.

Com Marina derrotada no primeiro turno, foi a vez de Aécio Neves receber o bombardeio petista. Acusações de caráter pessoal e afirmações explícitas de que em seu governo os programas sociais seriam extintos se tornaram frequentes. Mas Aécio reagiu com firmeza, o que gerou uma nova onda de agressões, agora de um Lula ensandecido: como o tucano falava duro com Dilma nos debates, Lula resolveu acusá-lo de “desrespeitar mulheres” (embora Lula não tenha pensado muito em “respeito às mulheres” quanto atacou a jornalista Miriam Leitão, nem quando pediu a cabeça de uma analista do banco Santander). Na semana passada, o ex-presidente chegou a afirmar que os tucanos estavam “agredindo a gente como os nazistas agrediam no tempo da Segunda Guerra Mundial” – o que levou a Confederação Israelita Brasileira a manifestar seu repúdio. A vitória nas urnas dessa estratégia suja manda o pior recado que a jovem democracia brasileira poderia receber: a de que “fazer o diabo”, como havia prometido Dilma em 2013, compensa.

Mas a vontade das urnas tem de ser respeitada, e só podemos esperar que o segundo mandato de Dilma seja melhor que o primeiro, tanto no campo moral quanto no econômico, pois o país já não aguenta mais ver os recursos públicos seguidamente desviados – aos milhões e, às vezes, bilhões – em benefício do PT e de seus aliados. E também teme a volta da inflação, acompanhada da estagnação econômica marcada pelo crescimento pífio que coloca o país na rabeira da América Latina. São justamente os mais pobres as grandes vítimas da inflação, como lembramos ontem. A presidente já havia dito que Guido Mantega, hoje motivo de piada internacional, não seguiria à frente da equipe econômica. Mas, se “Dilma é seu próprio ministro da Fazenda”, como disse Delfim Netto à revista The Economist, o país só teria, no máximo, um novo copiloto, enquanto o verdadeiro responsável pela pilotagem permanece o mesmo. E, a julgar pela campanha, a presidente não parece considerar equivocado o rumo que deu ao país, abandonando o tripé macroeconômico.

Se desejamos a Dilma sucesso na tarefa de recolocar a economia nos eixos, não o fazemos por concordar com a corrupção desenfreada que grassa nos governos petistas, nem com o hábito de considerar “heróis” criminosos condenados, nem com a cumplicidade histórica do partido com as mais abjetas ditaduras, nem com o aparelhamento de estatais e órgãos públicos para transformá-los em braços do partido, nem com o ataque sistemático às instituições e liberdades democráticas promovido por pessoas como Lula ou Rui Falcão. É simplesmente por querer o bem do nosso país e por acreditar que as pessoas podem mudar para melhor. Nesse sentido, é preciso dar um voto de confiança à presidente Dilma. Que ela saiba governar com sabedoria ao longo dos próximos quatro anos, curando as feridas destes últimos meses.


Os desafios de Dilma - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 27/10


Reeleita por pequena margem, presidente deve desanuviar o ambiente político e atender a expectativas de mudança


Numa disputa milimétrica, que galvanizou a atenção --e as emoções-- da maioria dos brasileiros durante o início da noite de ontem (26), Dilma Rousseff (PT) foi reeleita presidente da República.

O resultado apertado não se reproduziu, contudo, em todas as unidades da Federação. Nos Estados do Sul e em São Paulo, Aécio Neves (PSDB) levou larga vantagem, enquanto a petista teve amplo apoio no Norte e no Nordeste.

As diferenças regionais e sociais entre os apoiadores de um e outro candidato não têm como abolir, de qualquer modo, um fato essencial: à presidente da República cabe governar o conjunto do país.

Não serão pequenos os desafios políticos e administrativos que estão à frente. Nada pior do que imaginar, dada a estreita margem a garantir a vitória petista, que se tenha concedido uma carta branca ao comportamento e à gestão de Dilma Rousseff até aqui.

Ao mesmo tempo em que as urnas expressam o desejo de continuidade dos programas sociais, uma profunda expectativa de mudança de rumos não pode ser descartada da equação de poder.

A economia necessita de ajustes, e a necessidade de uma equipe nova, capaz de reconfigurar o diálogo entre o Planalto e os setores produtivos, impõe-se com clareza.

A reforma política passou, desde os últimos momentos da campanha, a ser admitida como prioridade pela presidente --ao que tudo indica para efeito retórico.

Externamente, as relações com o Congresso e com os poderes regionais se tornam mais delicadas do que nunca; mas, ao mesmo tempo, uma composição partidária esfacelada no Legislativo e um quadro em que o PSDB sai vencedor em Estados importantes aumentam os anteparos ao poder federal.

No curtíssimo prazo, cumpre dissipar o clima de confronto e sectarismo que marcou as últimas semanas da vida política brasileira.

Sinal inequívoco do clima de radicalização deste final de campanha, o ataque realizado por uma minoria de militantes contra a sede da revista "Veja", em São Paulo, suscita firme repúdio e fundamentadas preocupações.

Não foi este o único arranhão que se infligiu à liberdade de imprensa. Numa decisão monocrática e questionável --ainda mais porque partiu de um ex-advogado da campanha de Dilma em 2010--, o ministro Admar Gonzaga impôs, sobre a mesma revista semanal, a obrigação de conceder direito de resposta à coligação do PT por noticiar fatos desfavoráveis aos interesses da candidatura.

Proibiu, ademais, a divulgação de publicidade da revista, na interpretação de que constituiria uma forma de propaganda eleitoral disfarçada, numa decisão sem dúvida inconstitucional.

Se, nesses casos, o calor eleitoral predominou sobre a institucionalidade democrática, abre-se agora uma fase de reconciliação e, sobretudo, de reconstrução administrativa, política e econômica.

Que a presidente Dilma Rousseff, eleita para governar por mais quatro anos, tenha sorte, talento e humildade para levá-la adiante.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

YOUSSEF ENTREGA PROVAS SOBRE POLÍTICOS QUE CITOU

Além de entregar comparsas no governo e no Congresso Nacional, o megadoleiro Alberto Youssef também está mostrando à Polícia e ao Ministério Público Federal todas as provas documentais que acumulou e deixou em mãos de pessoas de sua confiança. Ele promete revelar os bens usados pelo esquema do Petrolão para presentear corruptos, além dos números das contas do desses políticos em paraísos fiscais.


VAREJÃO DA CORRUPÇÃO

Paulo Roberto Costa tratava com a cúpula do poder (Lula o chamava de “Paulinho”) e Youssef fazia o “varejo”, pagando propina a políticos.


BANCADA DO PETROLÃO

Alberto Youssef já revelou à PF e ao MPF que pelo menos 28 membros do Congresso recebiam propinas mensais de R$ 100 mil a R$ 150 mil.


ELES SABIAM DE TUDO

Na terça-feira, 30, Youssef revelou à PF e ao MPF, em depoimento, que Lula e Dilma sempre souberam da roubalheira na Petrobras.


PF BEM QUE AVISOU

Ainda no início das investigações, a Polícia Federal concluiu que uma quadrilha se instalou na Petrobras para roubá-la. Estava corretíssima.


DESAFIO DE DILMA SERÁ APROXIMAR O PAÍS DIVIDIDO

Reeleita com grande votação nos grotões, a presidenta Dilma (PT) terá uma tarefa difícil em seu segundo mandato: buscar a reconciliação com a metade do País que a rejeitou nas urnas. Após campanha agressiva, multidões passaram a hostilizá-la nas grandes cidades, durante eventos em estádios, ginásios esportivos etc., o desafio de Dilma será usar muita política e menos propaganda para reconquistar os corações.


ANTIPETISMO

Maior Estado do País, São Paulo definitivamente não quer papo com o PT: 65% votaram em Aécio Neves.


ALVES SEM MANDATO

Depois de 44 anos, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), fica sem mandato após sua derrota ontem.


MINAS E PERNAMBUCO

A presidenta Dilma Rousseff (PT), reeleita na noite de ontem, venceu Pernambuco, reduto do falecido governador Eduardo Campos (PSB), com mais de 70% dos votos. Em Minas Gerais, reduto do tucano Aécio Neves, Dilma teve 52,4% contra 47,6%. Aécio cresceu em SP.


SOSSEGA LEÃO

Homem forte na campanha da presidente Dilma, Giles Azevedo deixou a equipe de sobreaviso ontem para um encontro a fim de acompanhar a apuração dos votos. A turma estava à base do calmante.


PESQUISAS DERROTADAS

Os pesquiseiros do Ibope e Datafolha erraram de novo nos Estados, nas vitórias de José Ivo Sartori (PMDB-RS), Simão Jatene (PSDB-PA) e Marconi Perillo (PSDB-GO), bem mais expressivas que o previsto.


NOVES FORA, ZERO

O deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) acredita que as abstenções em Belo Horizonte devido às fortes chuvas ontem não ajudaram nem prejudicaram Aécio ou Dilma: “Como havia empate, perderam os dois”.


BOTA FORA

O senador Cristovam Buarque (PDT) diz que ficou “satisfeito” com eleição de Rodrigo Rollemberg (PSB), no DF, deixando de fora a turma de José Roberto Arruda e Joaquim Roriz: “Dos antigos, só sobrou eu”.


MESMO AVIÃO

Aliado histórico do PSDB, o DEM descolou um avião ontem a fim de levar políticos potiguares e pernambucanos para acompanhar, em MG, o resultado das eleições. Foram no mesmo voo José Agripino (RN), Felipe Maia (RN), Mendonça Filho (PE) e Bruno Araújo (PE).


ANO DE CRISE

Será perdido o ano de 2015, segundo líderes do Congresso. É que a revelação dos ladrões do Petrolão provocará abertura de processos de cassação e ações criminais na Justiça. E isso deve paralisar o País.


COTADOS

O vice-presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, e o relator da CPMI da Petrobras, Marco Maia (RS), são cotados no PT para encarar Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na briga pela presidência da Câmara em 2015.


PARA ALÍVIO GERAL

Hospitalizado, o megadoleiro Alberto Youssef ganhou bom motivo para não aparecer na CPI do Petrolão, na quarta (29).

domingo, outubro 26, 2014

A tragédia petista - ZANDER NAVARRO

O ESTADO DE S.PAULO - 26/10


Peço licença, inicialmente, para um breve relato pessoal. Nos anos 1980 contribuí mensalmente com parte do meu salário para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os depósitos duraram de dois a três anos, quando a campanha foi encerrada, por falta de adesão. Com sacrifício, cheguei a oferecer até 10% do meu ganho e ainda guardo os recibos. Por que fiz isso? Naqueles anos, saindo do ciclo militar e ansioso pela democracia, ingenuamente entendi ser o MST uma força que renovaria a oligárquica política rural. Como os seus militantes passaram a ameaçar as famílias em assentamentos, o sonho desmoronou e retornei à vida universitária.

Na época, quase todos nós apoiávamos o PT, mesmo não sendo filiados. Imaginávamos que o partido também forçaria transformações em alguma direção positiva. Ou a reforma social ou, ao menos, a democratização da sociedade. Vivíamos então um período febril de debates plurais e de experiências práticas. Lembram-se do "modo petista de governar"? Era simbolizado pelo orçamento participativo, que prometia a livre participação dos cidadãos em decisões públicas sobre os orçamentos municipais. Na campanha de 2002, contudo, o candidato petista mal falou do assunto e, no poder, o tema se esfumaçou.

O assombroso escândalo da Petrobrás, que nos deixa estupefatos, é apenas o efeito inevitável da história do Partido dos Trabalhadores. A causa original é um mecanismo que o diferencia das demais agremiações partidárias. Trata-se de um processo de mobilidade social ascendente, inédito em sua magnitude. Movimento que poderia ser virtuoso, se aberto a todos, pois seria a consequência do desenvolvimento social. Mas, na prática, vem sendo uma odiosa discriminação, pois é processo atado à filiação partidária.

O núcleo pioneiro do PT recrutou segmentos das classes baixas e mais pobres, mobilizados pelo campo sindical, pelos setores radicalizados das classes médias, incluindo parte da intelectualidade, e pela esquerda católica, ampliando nacionalmente o grupo petista inicial. À medida que o partido, já nos anos 90, foi conquistando nacos do aparato estatal, vieram os cargos para os militantes e, assim, a chance arrebatadora de ascender às vias do dinheiro, do poder, das influências e do mando pessoal. Esse foi o degenerativo fogo fundador que deu origem a tudo o que aconteceu posteriormente.

Inebriados, cada vez mais, pelo irresistível prazer do novo mundo aberto a essas camadas, até mesmo impensáveis formas de consumo, todos os sonhos fundacionais de mudança foram sendo estilhaçados ao longo do caminho, incluídos a razoabilidade e os limites éticos. O PT gerou dentro de si uma incontrolável ânsia de mobilidade, uma voragem autodestruidora inspirada na monstruosa desigualdade que sempre nos caracterizou. Conquistado o Planalto, não houve nem revolução nem reforma e o fato serviu, particularmente, para saciar a fome histórica dos que vieram de baixo.

Instalou-se, em consequência, o arrivismo e a selva do vale-tudo: foi morrendo o padrão Suplicy e entrou o modelo Delúbio-Erenice. Logo a seguir, ante a inépcia da ação governamental, também foi necessário impor a mentira como forma de governo. Por fim, o PT mudou de cabeça para baixo o seu próprio financiamento. Abandonou o apoio miúdo e generoso dos milhões que o sustentaram na primeira metade de sua história, pois se tornara mais cômodo usar o atacado para ancorar-se no poder. Primeiro, o mensalão e, agora, os cofres da Petrobrás.

Nessa espiral doentia de mudanças, a partir de meados dos anos 1990 o partido enterrou o seu passado. Sua capacidade de reflexão, por exemplo, deixou de existir e o imediatismo passou a prevalecer. Assim, um projeto de nação ou uma estratégia de futuro não interessavam mais. O pragmatismo tornou-se a máxima dessa nova elite e sob esse caminho o subgrupo sindical e seus militantes vêm pilhando o que for possível dentro do Estado. Examinados tantos escândalos, invariavelmente a maioria veio do campo sindical. E foi assim porque da tríade original dos anos 80, a classe média radicalizada e os religiosos abandonaram o partido. Deixaram de reconhecê-lo como o vetor que faria a reforma, sobretudo moral, da política brasileira.

Entrando neste século, o PT não tinha nada mais para oferecer de distintivo em relação aos demais partidos. A aliança com o PMDB ou Lula abraçando Maluf foram decorrências naturais. Também por tudo isso, o campo petista reivindicar o monopólio da virtude é o mesmo que fazer de idiotas todos os cidadãos. No primeiro turno, a fúria das urnas demonstrou a reação indignada dos eleitores à falsidade.

O que vemos atualmente é a soma dessa descrição com as nossas incapacidades políticas de construção democrática em favor do bem comum. O PT é hoje uma neo-Arena que promove, sobretudo, o clientelismo nos grotões. Não aqueles definidos geograficamente, mas os existentes nos interstícios sociais, confundindo as pessoas por meio da mentira, do bolsismo e das mistificações de toda ordem. É uma trajetória vergonhosa para um partido que prometeu a lisura republicana, o aprofundamento democrático, a reforma de nossas muitas iniquidades e, especialmente, prometeu corrigir a principal deformação de nossa História, que é um padrão de desigualdade que nos infelicita desde sempre. É ação que igualmente vem abastardando o Estado, atualmente tornado disfuncional e semiparalisado em inúmeros setores.

Por todas essas razões, incluindo o benéfico aperfeiçoamento que, fora do poder, sofrerá o próprio PT, é preciso mudar. E com urgência, pois o Brasil se esfarinhará sob outros quatro anos dessa gigantesca manipulação política, o desprezo pela democracia, o primado da lealdade partidária sobre a meritocracia e a fulgurante incompetência técnico-administrativa do campo petista no poder.

SOCIÓLOGO, É PROFESSOR APOSENTADO DA UFRGS (PORTO ALEGRE) EMAIL: Z.NAVARRO@UOL.COM.BR

Por que quero ser presidente - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 26/10


Para fazer a grande mudança que o país exige, será preciso mais do que propostas inovadoras de boa governança. Temos que construir uma agenda para o futuro do Brasil


Chego ao final desta longa caminhada honrado pela livre vontade dos brasileiros de representar o sonho da mudança que move o país. Em cada pedaço de chão por onde caminhei, tive o privilégio de me encontrar com o Brasil de verdade e de ver transmudadas frustrações e desalento em indignação e novas esperanças, que alimentaram meu espírito e tornaram ainda mais vivas as nossas grandes causas.

Obstinadamente, procuramos cumprir o nosso dever. Mergulhamos na realidade nacional e em problemas gigantescos, que se eternizaram pela incúria do atual ciclo de poder. Repete-se hoje o que já vimos: uma década perdida e sonhos de futuro adiados pelas circunstâncias ou pela conveniência.

Ao final, a constatação é a de que há quase tudo a ser feito e resta intocada uma grandiosa dívida social para com os brasileiros que querem melhorar de vida. Um novo e definitivo salto de desenvolvimento acabou engolfado pela má gestão, pelo desapreço ao planejamento, pelo aparelhamento do Estado, nenhum compromisso com o resultado e um projeto de país.

O nosso povo cobra uma nova e corajosa condução da economia nacional, capaz de reverter a posição do mais promissor entre os países emergentes, agora adernado na lanterna do crescimento, sem credibilidade e confiança, em plena recessão.

A estabilidade duramente conquistada fraqueja, atingida pela inflação. A balança comercial no vermelho e a desindustrialização em curso destroem a nossa indústria e nos roubam os melhores empregos.

Quase nenhum passo foi dado para resgatar da precariedade a nossa infraestrutura. Nesse campo, a paisagem é desoladora: obras pela metade, com orçamentos decuplicados, abandonadas pelo caminho.

No campo social, crises desrespeitam os cidadãos que mais precisam: hospitais públicos afundados em insuficiências, repletos de doentes sem atendimento digno! Persistem as filas para consultas, exames, cirurgias e remédios.

No campo da segurança, prevalece a omissão. O governismo abdicou da responsabilidade de coordenar uma efetiva política nacional e assiste, impassível, à tragédia de 56 mil assassinatos por ano, terceirizando responsabilidades a Estados e municípios endividados. Estamos perdendo uma geração inteira de jovens brasileiros, vítimas ou aliciados pelo crime.

Dos gabinetes em Brasília anunciou-se o fim da miséria, atropelando a realidade de um país ainda desigual. Essas, entre outras, são realidades do Brasil que hoje define seu futuro. Contentaram-se com a gestão diária da pobreza para instrumentalizá-la, como fazem agora, chantageando os beneficiários dos programas sociais com o tradicional terrorismo petista.

Para fazer a grande mudança que o país exige, será preciso mais do que propostas inovadoras e eficientes de boa governança. O primeiro passo é o resgate de princípios e valores cruciais --ética, transparência e planejamento público, qualidade dos gastos do Estado, do controle de resultados e tolerância zero com a corrupção. Acrescento ainda uma inédita audição da nossa sociedade, para tornar efetiva a participação dos cidadãos nos destinos do país.

Uma nova agenda se impõe.

No plano da gestão, é preciso acabar com o gigantismo e desperdícios de um governo com 39 ministérios e milhares de cargos de confiança, que servem a todos os interesses, menos ao interesse público.

A prioridade é cuidar das grandes emergências em duas áreas capitais --saúde e segurança--, que não podem esperar. Delas depende a vida das pessoas.

A retomada do crescimento demanda uma economia saudável e previsível, que não penaliza quem trabalha e produz, e um governo que guarda com zelo as políticas que estão sob sua responsabilidade. A primeira delas é gastar menos com o governo para poder investir mais na população.

Simultaneamente, temos que construir uma agenda para o futuro, que depende de uma nova escola e de um salto na qualidade da educação pública. Sem educação transformadora, nenhum sonho de desenvolvimento se tornará real e possível.

Um voto pelo Brasil - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 26/10


Reconstruir pontes derrubadas por um discurso de animosidade, recuperar uma economia cambaleante e fortalecer as instituições são prioridades de quem vencer hoje



Neste domingo, os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) disputam o voto de dezenas de milhões de brasileiros no segundo turno da eleição presidencial. A campanha girou em torno de avaliações de desempenho – Dilma disputa a reeleição, e seu partido ocupa o Planalto há 12 anos; o PSDB esteve na Presidência entre 1995 e 2001, e Aécio foi governador de Minas Gerais – e teve lá seus pontos baixos, como o terrorismo eleitoral petista, que mereceu resposta enérgica do tucano, recebida com vitimismo de gênero. Mas hoje queremos propor aos eleitores três pontos que, acreditamos, todo brasileiro concordará que são parte de um plano para que o Brasil seja um país melhor nos próximos anos.

Quem ocupar o Palácio do Planalto entre 2015 e 2018 precisa ter plena consciência de que está governando para todos os brasileiros. Esta campanha presidencial mostrou que o país está altamente polarizado, e de uma maneira prejudicial à busca do bem comum. O brasileiro, tradicionalmente tolerante e cordial, mostrou grandes doses de uma incomum agressividade ao longo destes meses, seja em defesa de seu candidato, seja contra o adversário (e seus eleitores). Mas tal situação não surge do nada: ela foi sendo cultivada ao longo de anos de discurso de “nós contra eles” – discurso esse cultivado especialmente pelo partido que está no poder desde 2002 –, criando diversas clivagens na sociedade brasileira: brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres, empresários e assalariados, homossexuais e heterossexuais, locais e imigrantes, nordestinos e sulistas... bem sabemos que algumas dessas categorias são importantes na criação da identidade pessoal ou de grupo. Mas o problema começa quando se coloca na cabeça de determinada categoria que seu “antagonista” é um inimigo que só quer destruí-lo e humilhá-lo. Cortam-se, assim, as pontes que permitiriam um trabalho conjunto por um país melhor. Reconstruí-las é obrigação do vencedor de hoje.

Outro compromisso do presidente da República precisa ser o de fortalecer as instituições e as liberdades democráticas. Aqui, falamos especialmente da independência entre os poderes e das liberdades de expressão, de associação e de imprensa. Temos exemplos muito próximos de países que ou já vivem em ditaduras ou se encaminham para tal, e todos têm aspectos em comum: Legislativos e Judiciários subservientes ao Executivo, imprensa sufocada e hostilizada pelo governo, a introdução cada vez mais frequente de novos “crimes de opinião”, que vão da crítica pura e simples ao governo até a divulgação de estatísticas independentes de inflação. Essas tentações seguem presentes no Brasil, que mal saiu de um regime autoritário e tem uma democracia ainda jovem, chegando aos 30 anos.

A economia deve ser outra preocupação prioritária de quem for eleito neste domingo, especialmente no que diz respeito à inflação, ao crescimento e ao emprego. O IPCA acumulado em 12 meses já está acima do teto da meta do Banco Central, e isso sem considerar aumentos de preços controlados pelo governo, que terão de vir mais cedo ou mais tarde. A inflação corrói especialmente os rendimentos dos mais pobres, que não veem seu dinheiro sobrar no fim do mês e não têm como se defender da desvalorização da moeda por meio de investimentos. O crescimento do PIB em 2014 muito provavelmente ficará abaixo de 1%, e situações como as prolongadas suspensões de contratos de trabalho nas montadoras mostram que já não é mais possível seguir insistindo na estratégia do aumento do PIB por meio do consumo. É preciso buscar outras alternativas, especialmente com o estímulo à poupança e ao investimento.

Que neste domingo os eleitores possam refletir com serenidade e escolher o candidato que, na sua avaliação, é o mais capaz de cumprir essas tarefas – a de reconstruir pontes derrubadas por um discurso violento de animosidade social, a de recuperar uma economia cambaleante e a de fortalecer nossas instituições e liberdades democráticas.


Um voto pela reconciliação nacional - EDITORIAL O ESTADÃO



O ESTADO DE S.PAULO - 26/10

A responsabilidade que a eleição presidencial de hoje coloca sobre os ombros dos cidadãos brasileiros se estende para muito além dos quatro anos do novo mandato do chefe de governo. Ao cabo de 12 anos do PT no poder e de uma campanha eleitoral em que predominou o mais inescrupuloso marketing em prejuízo do embate de ideias, o Brasil se acha dividido. Por enquanto, apenas em termos eleitorais.

Mas o terreno está ameaçadoramente preparado para fazer germinar a cizânia social. Mais quatro anos de PT podem significar a transformação da cada vez mais aguda hostilidade da polarização "nós" versus "eles" num conflito social escancarado cuja primeira vítima será a democracia.

Essa perspectiva assustadora será a consequência natural da política de deliberada divisão da Nação sobre a qual o lulopetismo tenta consolidar seu projeto de poder. O PT, criado há 35 anos com a generosa ideia de promover o fim das injustiças sociais, perdeu-se ao longo da jornada. Seus melhores quadros, plenos de idealismo político, abandonaram a legenda ou foram dela descartados ao sabor das conveniências dos donos do partido.

O PT transformou-se numa enorme máquina que, para permanecer no poder, se aliou àqueles que antes combatia ferozmente como inimigos do povo. E, nessa linha, não tem o menor escrúpulo de focar sua ação, tanto na vida partidária como no exercício do poder, tão somente naquilo que rende votos. O discurso petista, do qual Lula é o principal mentor e melhor exemplo, tem três matrizes: dizer exclusivamente o que as pessoas desejam ouvir; quando na defensiva, assumir o papel de vítima; e, na ofensiva, tratar os adversários como inimigos a serem destruídos.

Em sua defesa, o PT não pode nem mais alegar que a mudança de rota em relação ao curso originalmente traçado ocorreu por imposição das circunstâncias e da necessidade de garantir com pragmatismo a governabilidade em benefício dos despossuídos. A tal história dos fins que justificam os meios.

Esse argumento desmorona quando todos os indicadores sociais e econômicos revelam que os últimos quatro anos de governo petista, sob o comando de Dilma Rousseff, significaram retrocesso. O Brasil está hoje muito pior do que quando a atual candidata à reeleição assumiu o poder.

Nessas circunstâncias, manipular importantes realizações petistas dos últimos 12 anos - pois é claro que existem, principalmente na área social - como se fossem obras do incompetente governo Dilma é um dos embustes a que o marketing eleitoral companheiro recorreu durante a atual campanha. Mas a peça de resistência da campanha eleitoral petista é aquela estocada no departamento dos recursos escusos. Primeiro, a tentativa - que contra Marina Silva deu certo no primeiro turno - de destruir a imagem do adversário com ataques infames e mentirosos. A tática foi insistentemente repetida agora contra Aécio Neves.

O mais infame da campanha lulopetista, no entanto, é o discurso em que os dirigentes do partido, imitando Lula, se especializaram: a instigação do conflito social, colocando "nós" contra "eles", e situando o PT como o último bastião de resistência do povo oprimido contra a ambição desmedida e a insensibilidade das "elites".

Qual o sentido de Lula declarar, desnudando sua natureza, que ao "agredir as mulheres" nos debates eleitorais Aécio Neves demonstrou que é capaz também de "pisar nos pobres"? Ou ao classificar o candidato tucano de "filhinho de papai"? E de equiparar seus adversários eleitorais a nazistas? É assim que se dissemina o ódio entre pessoas que deveriam, civilizadamente, apenas expor firmemente suas divergências programáticas com adversários políticos.

Quando a divergência se transforma em ódio, o caminho está aberto para o agravamento de tensões sociais e elas podem se tornar explosivas.

Hoje, cada brasileiro tem a oportunidade de conter essa ameaça, votando no candidato que se propõe - e está credenciado para a tarefa - a reconciliar o Brasil consigo mesmo: Aécio Neves.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

Petrolão: gang pouco operou com dinheiro vivo

Na CPMI da Petrobras, a quebra de sigilo bancário do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do megadoleiro Alberto Youssef revela que os saques não eram muito expressivos considerando os R$10 bilhões que, diz a Polícia Federal, foram roubados da estatal pelo esquema do “petrolão”. Isso confirma uma tese do juiz Sergio Moro: a maior parte do desfalque era enviada ao exterior mediante contratos falsos de importação.

Contratos fajutos

OAS, Camargo Corrêa, Odebrecht etc faziam depósitos de valores por “serviços” jamais prestados. Dinheiro vivo só em casos excepcionais.

Paraísos fiscais

Youssef também transferia o dinheiro roubado para contas controladas por políticos em paraísos fiscais, se eles assim o preferissem.

Presentes caros

O esquema subornava autoridades, oferecendo-lhes presentes caros, viagens em jatinhos, carros de luxo, imóveis no exterior, lanchas etc.

Dinheiro comprado

Havia casos também em que o esquema “internalizava” dinheiro vivo, em reais, comprado em bancos paraguaios, para distribuir em malas.

Bolsa Família distribui R$ 17,7 bilhões em 2014

O governo Dilma distribuiu neste ano eleitoral, até setembro, quase R$ 18 bilhões a beneficiários do Bolsa Família, segundo dados do Portal Transparência. Em três meses foram injetados “na veia” dos assistidos R$ 2,5 bilhões ao mês, em média. A Bahia, onde o PT obteve sua mais importante vitória no 1º turno, é o estado que mais recebeu verbas do programa: R$ 2,28 bilhões. São Paulo, o maior do País, R$ 1,5 bilhão.

Lula x Dilma

No último ano do governo Lula, o ex-presidente distribuiu R$ 14,3 bilhões com o Bolsa Família, bem menos que Dilma.

Bolsa de valores

Desde que assumiu a Presidência em 2011, os valores gastos com a Bolsa Família cresceram em média 17% ao ano. Em bilhões, claro.

Previsão

Em 2013, o governo distribuiu um total de R$ 24,9 bilhões. Se o ritmo deste ano continuar, o total de 2014 deve passar dos R$ 27 bilhões.

Perspectivas sombrias

Ferido de morte na era PT, o Itamaraty terá o tiro de misericórdia em 2015: continua sob domínio tacanho do aspone Marco Aurélio Top-Top Garcia ou do embaixador tucano Rubens Barbosa. Ninguém merece.

Mapa da mina

Vice de Marina no 1º turno, Beto Albuquerque (PSB-RS) acredita que o tucano Aécio Neves tem chance de ganhar se mantiver 65% das intenções em São Paulo, e continuar crescendo em Minas e no Sul.

Cenário Dilma

O gaúcho Gilson Dipp, ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça (STJ), é cotadíssimo para ocupar o cargo de ministro da Justiça, em eventual segundo governo Dilma.

Cenário Aécio

Eliana Calmon e Carlos Veloso, aposentados no STJ e no Supremo, são cotados para o Ministério da Justiça em eventual governo Aécio. Outro citado é o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP).

PDT dividido

Assim como os deputados do PMDB na Câmara, os do PDT também ignoram solenemente a desmoralizada direção nacional e chegam divididos neste domingo: reeleger Dilma ou eleger Aécio, eis a questão.

Conto do vigário

A pedido de sindicalistas do PT, o Ministério do Planejamento aprovou um pacote de concursos ainda este ano, a fim de facilitar a tarefa de pedir votos para Dilma. Mas é tudo lorota: a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe aumentar despesas com pessoal em final de mandato.

Enganação

A “estupenda” valorização dos carteiros na era petista deveria explicar o engajamento dos Correios na campanha de reeleição de Dilma. Em 12 anos, os salários na ECT subiram raquíticos 0,4% acima do mínimo.

Que campanha?

O site do PMDB ignora o segundo turno na medida em que seu maior representante, Michel Temer, vice-presidente da República e candidato à reeleição, é solenemente ignorado pela campanha de Dilma (PT).

Pergunta no Petrolão

Assim como MEC, Receita e Ipea esconderam indicadores negativos, o PT queria que a revista Veja omitisse que Dilma e Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras?


PODER SEM PUDOR

Gazeteiros históricos

Não é de hoje a falta de disposição dos deputados para o trabalho. Campos Salles, que presidiu o Brasil entre 1898 e 1902, enviou uma carta ao então presidente da Câmara, ex-deputado Xavier da Silveira, em que solicita sua "intervenção" para "obter o comparecimento dos deputados na sessão da Câmara". Campos Salles se queixa em sua carta de 8 de abril de 1901 que "até hoje não temos um Orçamento sequer votado pela Câmara". E adverte: "Nada pode ser mais grave do que isto". Vai mais além: "É preciso não só que (os deputados) compareçam, mas que permaneçam durante a sessão, pois a praga é: entrar por uma porta e sair pela outra".

Mais de um século depois, continua tudo igual.

DIA DE CAÇAR OS RATOS



VAMOS DEDETIZAR O BRASIL VOTE 45

sábado, outubro 25, 2014

Ignorantes do bem - GUILHERME FIUZA



O GLOBO - 25/10

A nova elite vermelha não protagonizou casos de corrupção. Ela criou, sob a propaganda da bondade, um sistema de corrupção


O Sudeste decidirá a eleição presidencial mais disputada da história recente. E o Rio de Janeiro poderá ser o fiel da balança. O fator decisivo para esse resultado será a famosa tradição carioca de ser oposição — que ultimamente tem se transformado em oposição a favor.

Os ânimos estão exaltados, mas é o destino do país que está sendo decidido palmo a palmo. Demarcada a fronteira da estupidez, ninguém precisa se envergonhar de ser aguerrido. E ninguém precisa se envergonhar do voto que escolher. A não ser que esse voto esteja baseado em premissas hipócritas. Aí é o caso de se envergonhar.

Boa parte do eleitorado carioca resolveu fazer poesia numa hora dessas. Na falta de miragem nova, muita gente boa embarcou na toada de que a disputa entre Dilma e Aécio é um confronto esquerda x direita — a esquerda sendo o bem, e a direita o mal, claro. Muitos repetem até que é uma espécie de reedição do embate Lula x Collor. Só três hipóteses podem explicar a defesa dessa tese: distração, ignorância ou desonestidade.

Em 1989, o Brasil tinha sua primeira eleição direta para presidente depois da ditadura. Collor era identificado com as elites que sustentaram o regime militar. O voto contra Collor, portanto, era um voto contra o autoritarismo. O que as crianças do balneário não querem perceber é que esse filme passou há um quarto de século. E o autoritarismo mudou de lugar.

Arrancado do poder por corrupção, Collor hoje apoia Dilma. Mas isso é o de menos (por incrível que pareça). Dilma e todo o PT apoiam, desinibidamente, os condenados pelo escândalo do mensalão. É como se os presidentes das associações de medicina apoiassem Roger Abdelmassih, o devorador de gestantes. Dilma Rousseff, a candidata do bem contra o mal, apoia pelo menos meia dúzia de governos autoritários na América do Sul e no Oriente Médio, oferecendo-lhes até colaboração econômica — com o dinheiro dos progressistas que votam no PT contra o autoritarismo. Quando Mahmoud Ahmadinejad massacrou manifestantes de oposição, Lula socorreu o ditador iraniano declarando que aquilo era normal, como “briga entre flamenguistas e vascaínos”.

Os progressistas com alma de oposição têm todo o direito de votar em Dilma. Só não fica bem fingirem que estão votando contra as elites reacionárias e autoritárias, sentindo-se humanos e sensíveis. O que há de mais reacionário, autoritário, insensível e desumano no país hoje é o assalto ao Estado brasileiro. Não só o do mensalão, mas o da fraude que o governo Dilma instituiu na contabilidade pública: maquiagem dos balanços para esconder déficits e gastar mais — com uma máquina sem precedentes que acomoda os companheiros e simpatizantes.

Quem são hoje, 25 de outubro de 2014, as elites que se organizam para sugar o que é do povo? Não, meu caro progressista do bem, não dá mais para você olhar no espelho e dizer que é a “direita conservadora” — ou qualquer desses apelidos feios para quem não usa a estrelinha vermelha. A elite egoísta e predadora hoje é essa que você ajudou a vitaminar, achando que estava votando num livro de García-Marquez, numa canção de Chico Buarque ou num poema de Neruda. Traficaram o seu romantismo, caro eleitor de esquerda, e o transformaram na maior indústria parasitária que este país já viu.

O doleiro acaba de revelar que Dilma e Lula sabiam do esquema de saque à Petrobras. O que você fará diante disso, caro progressista do bem? Colocará para tocar um disco de Mercedes Sosa? Ou fechará os olhos e ficará repetindo para si mesmo que casos de corrupção existem em todos os governos? Não, meu caro, a nova elite vermelha não protagonizou casos de corrupção. Ela criou, sob a propaganda da bondade, um sistema de corrupção.

O mensalão foi montado dentro do Palácio do Planalto pelo principal ministro de Estado, fazendo uma transfusão de dinheiro público para o partido do presidente. O tesoureiro desse partido, condenado e preso, foi sucedido por outro tesoureiro que está no centro do escândalo do petrolão. Esse outro, João Vaccari Neto, é o homem forte da campanha de Dilma Rousseff. Será que o doleiro ainda precisa lhe dizer, prezado e orgulhoso eleitor de esquerda, que todos os seus heróis sabiam de tudo? Ou mais claramente: que eles arranjaram um jeito esperto de transformar a política em meio de vida?

São 12 anos de erosão nas contas públicas, o que qualquer economista sério atesta. Gastança sem critério (ou com os critérios acima descritos) que travam o crescimento e geram inflação. Traduzindo: empobrecimento. O país resiste com seu fôlego próprio, mas não há programa assistencial que compense: todos perderão.

O PT está tomando providências: some com os indicadores que fazem mal à sua propaganda — como acaba de fazer com os dados do Ipea sobre a miséria. É a mesma tecnologia da contabilidade criativa. Uma usina de versões, que faz a presidente da República atolar em sua própria fala ao vivo. Um vexame, caro eleitor do bem, um show de impostura.

Exija respeito pela sua escolha na urna. Mas procure um jeito honesto de se orgulhar dela.


Hoje é dia de pensar no Brasil FERNÃO LARA MESQUITA



O ESTADO DE S.PAULO - 25/10


Há um estranho distanciamento entre os temas debatidos na campanha que desaguará na eleição de amanhã e o que de fato está em jogo na escolha que ela decidirá.

Para além dos ataques pessoais que dominaram a cena e das diferenças inerentes ao tema da corrupção, tudo se passou como se não houvesse escolha mais arriscada em jogo para o Brasil do que optar entre dosagens ligeiramente diferentes de intervenção na economia por cima de políticas sociais rigorosamente idênticas, dentro de um ambiente institucional perfeitamente consolidado.

Só que isso não corresponde à realidade. Na verdade, tudo está em aberto. Nem mesmo os itens básicos da Declaração Universal dos Direitos do Homem são incondicionalmente acatados pelo atual governo do País, que há 30 anos clamava em uníssono por "Diretas Já" e nos pede mais quatro anos de mandato.

Em plena revolução tecnológica não há "verdade absoluta" que tenha ficado em pé. A dúvida, cada vez mais, é senhora, e essa ausência de certezas é o pressuposto da liberdade que é, antes de mais nada, a liberdade de dissentir.

Há muito tempo já que não há mais enganos perdoáveis a esse respeito. Não há como não repudiar, de boa-fé, as afirmações categóricas do passado, o apriorismo político e as concepções tendentes a deformar as sociedades humanas e o indivíduo segundo modelos preconcebidos.

A flexibilidade política deixou de ser uma opção para se transformar num imperativo de sobrevivência.

Não obstante o que o PT trata de fazer o Brasil tragar por baixo de um discurso que nunca penetra claramente nessas profundidades, é de impedir o País de navegar conforme a onda que venha e o vento que sopre, livre para mudar de rumo e mudar de prumo; é de fechar a porta de saída - ou, no mínimo, antepor a ela um labirinto virtualmente intransponível - depois de ter aceito o convite para passar pela de entrada.

Os fatos são os fatos.

No plano internacional, o governo do PT alinha-se automaticamente com todas as ditaduras e com os mais notórios violadores dos direitos humanos deste e de outros continentes, muitas das quais, ao arrepio da lei, financia com dinheiro público em contas dadas como "secretas". Chegou até ao extremo de exigir que a ONU desse mais tempo e largueza aos degoladores do Estado Islâmico.

No plano nacional, o partido manipula os números que medem o desempenho da economia, censura as instituições públicas encarregadas dessa medição quando os dados lhe são adversos, financia com dinheiro público uma vasta rede de difamadores assalariados para promover o linchamento moral nas redes sociais de quem quer que divulgue fatos que considere prejudiciais às suas pretensões eleitorais ou manifeste opiniões diferentes das suas e promete solenemente, em caso de vitória, passar a "controlar" o que os brasileiros poderão ver, ouvir ou dizer daqui por diante também na "mídia tradicional".

Num plano mais concreto e efetivo, a própria candidata que pede votos aos brasileiros dentro do sistema ainda em vigor assina o Decreto n.º 8.243 da Presidência da República que revoga a exclusividade do poder de legislar dos representantes eleitos por todos os brasileiros e transfere parte dele a grupos de militantes do seu partido com os quais se reuniu cerimonialmente na sede do governo às vésperas do 1.º turno para reiterar oficialmente seu compromisso de, à revelia do Congresso Nacional e contra a eventual resistência dele, submeter a plebiscito a continuação ou não do regime de democracia representativa eleita pelo voto universal.

Para a massa dos eleitores o volume e a intensidade com que são divulgadas as "mordidas" e os "assopros" da proposta petista são monitorados com o mesmo ajuste fino de modulação com que, na sua sempre reveladora obsessão com os falsos silogismos, contaminam com meias-verdades ou mentiras inteiras as ações e declarações dos adversários, sempre de modo a poder afirmar mais adiante que, seja o adversário, seja o eleitor, disse o que não disse ou votou no que não votou.

Todas essas manobras se dão sob a regência pessoal de um Luiz Inácio Lula da Silva que, à medida que avança a campanha eleitoral, vem recrudescendo seus votos de ódio e suas ameaças de vinganças "inimagináveis" contra quem ousar resistir-lhes, e seguem à risca o roteiro por ele pessoalmente prescrito ao Foro de São Paulo, a entidade que ele próprio criou e congrega em torno desse mesmo esquema tático todos os ditadores em projeto ou já instalados no poder na América do Sul e no Caribe, com a expressa recomendação de que "não permitam recuos" após cada "conquista".

Não obstante tudo isso, acuada pela máquina de mentiras e intrigas que vem semeando a cizânia e empurrando um povo que já foi definido por sua cordialidade para a beira da conflagração, a candidatura de Aécio Neves escolheu trabalhar exclusivamente os temas que menos a diferenciam da blitz lulista, deixando fora do debate a única diferença de fato irreconciliável entre o PSDB e o PT, que é o compromisso de um com a democracia e o compromisso do outro contra a democracia ou pelo menos contra a democracia desadjetivada, o que parece ter desmobilizado uma parcela daquele eleitorado que, sentindo instintivamente o perigo que continua no ar, se aliou no 1.º turno, por cima de suas diferenças, no voto antipetista e a favor da democracia.

Afinal, se as diferenças não passam de nuances, segundo os próprios interessados em ressaltá-las, por que arriscar os incômodos todos de uma troca de governo?

Seria um trágico engano. Acreditar nisso é ignorar o que se passa à nossa volta no continente sul-americano, descrer de tudo quanto o PT afirma sobre si mesmo e suas intenções, relevar o ambiente de violência moral - quase física - em que transcorreu a campanha eleitoral e arriscar-se a descer até à profundidade a partir da qual não há mais retorno nos sistemas de socialização da corrupção e seleção negativa dos parasitas no controle deles em que, década após década numa espiral sem fim, vêm dando voltas, soçobrados, tantos dos países vizinhos do Brasil.

O pau que bate em Chico... - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA



CORREIO BRAZILIENSE - 25/10

Quando surgiu a informação de que o homem-bomba Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, teria dito em depoimento que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra recebeu dinheiro do esquema de corrupção montado na estatal, toda a mídia estampou a notícia. Na tevê - antes mesmo de admitir as falcatruas na empresa -, Dilma disse que pau que bate em Chico também bate em Francisco. Referia-se ao envolvimento do nome de Guerra, que já morreu, entre os beneficiários da ladroagem. Tucanos pediram a investigação do caso.

Eis que agora surge a denúncia, publicada pela Veja, de que Dilma e Lula sabiam de tudo sobre a roubalheira na Petrobras. Desta vez, a presidente não quis saber se o pau que bate em Chico também bate em Francisco. Em vez de pedir que se apure tudo, bateu na revista. Acusou-a de fazer terrorismo e recorreu à Justiça para tentar tirá-la de circulação. Ao desbaratar a quadrilha e colocar Costa e Youssef na cadeia, a PF estimou que a organização criminosa havia movimentado pelo menos R$ 10 bilhões. Isso quando se imaginava que a maracutaia resumia-se à Diretoria de Abastecimento, então chefiada por Paulo Roberto.

Após a delação premiada - acordo em que os réus se comprometem a confessar o crime em troca de perdão judicial -, sabe-se que o desvio de recursos da Petrobras era bem maior. Eles contaram que parte do dinheiro roubado também jorrava de outras áreas da empresa e ia parar nos cofres do PT, do PP e do PMDB. Em tese, trata-se de confissão, não de denúncia. Se mentirem, além de perder o benefício da delação, eles têm a pena aumentada. Resolveram falar porque - assim como Marcos Valério, no mensalão - temem ser os únicos a pegar uma pena alta e a mofar na cadeia.

A pergunta que não quer calar é: como se monta uma máquina de roubar dessa magnitude, com a distribuição de bilhões roubados aos aliados, e ninguém na cúpula do governo sabe de nada? O estranho é que um dos acusados - por Costa e Youssef - de atuar como operador do esquema é justamente o atual tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. O antecessor dele no partido, Delúbio Soares, teve de passar uma temporada na Papuda depois de condenado pelo STF no escândalo do mensalão. Dirceu e Genoino, também. À epoca do escândalo, Lula jurou não saber de nada. Agora, quem também jura é a presidente. Acredite: pau que bate em Chico pode não bater em Dilma e em Luiz Inácio.

Para frente é que se caminha - LUCIANO NAKABASHI



GAZETA DO POVO - PR - 25/10

Nesta semana, percebo um momento único em minha (não muito vasta) memória. Não me lembro de uma eleição tão disputada e com a população tão dividida entre PT e PSDB nas rodas de conversa, na imprensa e, sobretudo, nas redes sociais.

Uma das estratégias adotadas é a comparação entre o que ocorreu nos anos do ex-presidente Fernando Henrique em relação aos 12 anos do PT. Não acho que essa seja uma boa comparação, visto que o país tende a andar para a frente seja a passos mais largos, em alguns momentos, ou mais lentos, em outros.

Certamente, os indicadores estão melhores, na média, hoje em relação ao período FHC, assim como estavam melhores nos anos FHC em relação aos anos 80. O fato é que Fernando Henrique teve grandes méritos em pegar um país com vários problemas, solucionar alguns deles e entregar o país em uma situação melhor do que pegou. Ele, sua equipe e sua base de apoio foram capazes de debelar a inflação; realizar reformas na previdência (o que melhorou a situação fiscal futura); sancionar a Lei de Responsabilidade Fiscal de estados e municípios – dando mais estabilidade ao orçamento dos mesmos –; sanear o sistema bancário, que era muito dependente de receitas decorrentes da alta inflação; adotar o sistema de metas de inflação, que deixou o país menos dependente da entrada de capitais externos para controlar a inflação; e formar a base para programas de transferência de renda focados em famílias que de fato são mais vulneráveis, entre outros avanços.

O ex-presidente Lula também fez reformas importantes no primeiro mandato e que favoreceram o sistema imobiliário e de crédito. Elas foram muito importantes na melhora do crescimento econômico, na ampliação dos programas de transferência de renda e na manutenção da política econômica que estava dando certo. Os avanços sociais foram consideráveis, além da melhora nas contas externas. No segundo mandato, pouco foi feito, até por um cenário externo favorável e que não pressionava pela manutenção de reformas para que o país continuasse crescendo. De qualquer forma, ele também entregou um país melhor do que pegou.

O problema do governo Dilma é que está entregando um país em condições piores em relação a 2010. Hoje a economia cresce menos e indicadores econômicos importantes vêm apresentando deterioração, como o déficit nas contas externas, a piora nas contas do governo federal (com consequente aumento da dívida interna), certo descontrole inflacionário mesmo segurando vários preços administrados, além da piora no ambiente de negócios devido à falta de transparência e maior intervenção direta do governo. Esses problemas vêm segurando o crescimento da economia brasileira e gerando passivos que teremos de pagar mais à frente, além de tornar mais difíceis os avanços sociais, sendo que os dados já mostram que também paramos de avançar nessa frente.

Pela dificuldade do governo Dilma em enxergar que os principais problemas da economia têm raízes internas e não externas, não vejo grandes mudanças em mais quatro anos do PT e, desse modo, uma deterioração gradativa nos avanços econômicos e sociais dos governos FHC e Lula. Espero que o eleitor não se engane pelas comparações que estão sendo feitas e, caso o PT vença nas urnas, que eu esteja errado.


Uma eleição de recordes - FERNANDO RODRIGUES



FOLHA DE SP - 25/10

BRASÍLIA - Como a democracia brasileira é jovem, a cada eleição registram-se alguns ineditismos. Será assim amanhã, com a escolha do próximo presidente da República.

Se Dilma Rousseff (PT) ganhar mais quatro anos no Planalto, ela será a primeira mulher a conseguir tal feito. Estará também consignada uma outra lógica: presidentes que disputam a reeleição têm sucesso nas urnas. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e com Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006.

Em caso de vitória, Dilma governará até 2018, quando o PT completará 16 anos no poder. Nunca na história verdadeiramente democrática do Brasil um único partido comandou o país por tanto tempo.

Na hipótese de Aécio Neves (PSDB) ganhar, sua vitória significará a chegada ao poder do primeiro político que fez carreira majoritariamente no Brasil pós-ditadura. Seria uma troca geracional relevante num país que muitas vezes vive mais do passado do que do presente ou do futuro.

Mas o maior recorde talvez seja a realização das eleições em si. Apesar do clima beligerante entre os candidatos a presidente, não há dúvidas na sociedade a respeito da lisura da disputa --o nível de fraudes ou urnas com defeito fica sempre perto de 0,5% do total.

Tampouco se coloca em dúvida a solidez das instituições: ganhe quem for, tomará posse no dia 1º de janeiro de 2015. Nessa data, escrevo isso sempre e acho importante repetir, o país terá realizado sete eleições presidenciais diretas consecutivas com a posse do eleito. O fato é único na história brasileira.

O aspecto negativo da atual corrida presidencial fica para o quadro político fracionado que vai emergir na segunda-feira. O próximo presidente terá enormes dificuldades na construção de algum consenso. É um desafio que nenhum dos anteriores enfrentou e será mais um teste sobre o grau de maturidade da democracia local.

Confronto inédito - MERVAL PEREIRA



O GLOBO - 25/10

País que sairá das urnas estará dividido.


Mesmo que não se confirmem os boatos de que pesquisas não divulgadas mostram resultados muito mais próximos de um empate técnico do que uma vitória folgada da presidente Dilma - hoje saem as últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha -, nunca uma eleição brasileira nos últimos tempos teve tanta disputa quanto esta, que entra no fim de semana decisivo sem um vencedor claramente identificado.

Na melhor das hipóteses para o PT, a presidente Dilma será reeleita com uma votação menor do que a que o partido vinha tendo até 2010. E Aécio Neves, mesmo que não vença, deve ter a melhor performance de um candidato tucano nos últimos tempos, o que o credenciará como um líder incontestável de uma oposição que será muito mais aguerrida, pelas próprias circunstâncias da campanha atual.

O clima de agressividade que marcou a disputa, plantado no 1º e elevado ao extremismo neste 2º turno, dificultará a conciliação nacional, e certamente precisaremos de um governo com legitimidade para levar o país adiante em meio a previsíveis crises institucionais, mais graves ainda, pois turbinadas por problemas econômicos que só os que acreditam no mundo cor de rosa do marqueteiro João Santana desconhecem.

E o país que sairá das urnas estará irremediavelmente dividido. A legitimidade de um eleito não se deve apenas ao número de votos que teve nas urnas, mas à maneira com que os conquistou. Esta sem dúvida será a mais rasteira das campanhas eleitorais dos últimos anos, só comparável com a que elegeu Collor em 1989. Não à toa ele teve o fim que se sabe, pois alcançou a vitória usando manobras baixas, e não conseguiu nunca mais se aprumar como um presidente respeitável.

A começar pelo estelionato eleitoral caracterizado pelo confisco da poupança dos brasileiros, que ele acusava Lula de premeditar. Na eleição de 2002, o candidato derrotado do PSDB José Serra fez um discurso de despedida onde marcou com a expressão "estelionato eleitoral" o primeiro governo Lula, vencedor naquela eleição depois de ter perdido quatro eleições seguidas para Collor e Fernando Henrique.

Os eleitores petistas naquele ano, que acreditavam em grandes mudanças na economia, foram realmente enganados, pois Lula adotou práticas ortodoxas na economia e seguiu à risca o receituário do governo tucano, até nomeando para o Banco Central Henrique Meirelles, banqueiro internacional eleito deputado federal pelo PSDB.

Mas aquele parecia ter sido um estelionato "do bem", pois o PT abriu mão de teses radicais como o calote da dívida externa para colocar o país no rumo do crescimento. No segundo governo, quando a hoje presidente Dilma assumiu o Gabinete Civil em lugar de José Dirceu, em meio ao escândalo do mensalão, o PT retomou aos poucos suas teses econômicas, aprofundadas pela troca do ministro Antonio Palocci por Guido Mantega.

Um novo estelionato eleitoral está sendo montado agora caso a presidente Dilma se reeleja amanhã. Sua campanha esconde o fato de que a crise econômica está se agravando e que terá que adotar medidas amargas para que o país não perca seus fundamentos e não se veja novamente às voltas com uma inflação sem controle e uma economia estagnada.

Mesmo os programas sociais que são o sustentáculo de sua votação correrão perigo com a economia sem produzir riqueza para ser distribuída. O aumento real do salário mínimo, por exemplo, depende por lei do crescimento econômico dos últimos anos, e por isso não acontecerá em 2015.

A queda da desigualdade foi interrompida no último ano exatamente devido à falta de crescimento econômico, mas os números não foram divulgados para não manchar a campanha eleitoral, que mostra um país pujante que só existe na propaganda do PT.

Os últimos dias de campanha estão marcados por denúncias de práticas ilegais e imorais da militância petista, e acusações de tentativa de golpe por parte dos petistas, que atribuem intenções eleitoreiras à reportagem da revista "Veja" revelando que o doleiro Alberto Yousseff afirmou em sua delação premiada que Dilma e o ex-presidente Lula sabiam da corrupção na Petrobras e se beneficiaram dela em campanhas eleitorais. Caberá ao eleitor avaliar as informações ao seu dispor e decidir em quem votar. Só não é possível exigir que casos polêmicos não sejam julgados ou reportagens não sejam publicadas quando há eleição por perto.


Pela vitória do Brasil, não existe gol feio - SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.



GAZETA DO POVO - PR - 25/10


Em 1946, Perón assumiu o poder argentino com um golpe, apoiado pelo exército e pela classe trabalhadora contra um regime tido por conservador. Tendo os sindicatos como importante base de sustentação política, o governo de Juan Perón promulgou extensa legislação social em benefício dos trabalhadores, apresentando-se como uma espécie de pai dos pobres. Usando e abusando das técnicas de demagogia populista, o peronismo exacerbou a figura do líder carismático que, da noite para o dia, caiu nas graças das camadas populares. Mesmo após sua queda, em 1955, sua aura de representante do povo foi mantida e permanece idealizada entre os trabalhadores argentinos.

Se trocássemos as datas e substituíssemos os personagens, praticamente tudo que foi dito caberia na recente história política do Brasil. A única diferença é que o populismo argentino tinha o apoio das armas, enquanto aqui a pólvora fardada foi substituída pelo fogo insaciável da marquetagem oficial. No fim, a estratégia política era a mesma: saciar o povo com efêmeras conquistas de forte apelo eleitoral. Coincidentemente, apesar de toda a teatralidade retórica, o cerrar de ambas as cortinas foi marcado pelo tom de sérias denúncias de corrupção, indignidade no exercício da função pública e um progressivo desarranjar da situação econômica real.

Certa vez, uma prestigiada inteligência advertiu que insanidade seria repetir a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Ora, a vida ensina que a melhora das condições de vida do povo é uma consequência do aprimoramento institucional de um país e não da suposta vinda de um líder messiânico. Política responsável se faz com trabalho sério, responsabilidade e observância das regras do jogo. Quando a atividade política se transforma em um teatro de palavras fáceis e uma peça de fragilidade ética, o resultado é o enfraquecimento das instituições do Estado com o consequente comprometimento das condições dinâmicas da economia.

Dito e feito. Os sintomas de que a situação brasileira é periclitante são absolutamente palpáveis: inflação alta, câmbio em disparada e famílias endividadas. Abandonando a demagogia e voltando a administrar o país com prudência e seriedade, ainda temos tempo de manter a estrutura econômica em ordem. Sem cortinas, precisamos retomar o bom hábito de fazer o certo, olhar com rigor para os problemas da realidade e deixar de dizer que os problemas são os outros. Enfim, está chegada a hora de um governo competente que ponha um basta nos descaminhos e ineficiências da máquina pública brasileira.

Ato contínuo, não podemos mais continuar dividindo o país e divorciando a nação. Independentemente de loiro ou moreno, branco ou preto, homem ou mulher, pobre ou rico, somos todos só, e somente só, cidadãos brasileiros e, assim, merecedores de igual respeito e atenção. A velha máxima do dividir para governar está vencida. Um bom governo deve unir pontos diferentes em vez de cavar valas separatistas entre iguais. Aliás, os divorcistas políticos apenas representam a flagrante inabilidade de formar os consensos necessários às boas soluções democráticas.

Ao fim e ao cabo, o Brasil precisa de um novo modelo de gestão pública, pautado por eficiência, legalidade e meritocracia. Não podemos mais aceitar o improviso, a incoerência e a mentira. Não podemos mais tratar criminosos como heróis de uma causa perdida. Não podemos mais tolerar a corrupção como um modus operandi de uma política rasteira e distanciada da ética. Não podemos mais condenar nossas crianças à miséria da ignorância e da incultura. Não podemos mais abandonar nossos idosos na solidão de um sistema de saúde pública sucateado. Enfim, precisamos resgatar o amor próprio e o orgulho de sermos cidadãos do Brasil.

O peronismo brasileiro tem de acabar. Assim como no futebol, dá para vencer os hermanos de plantão. Basta entrar em campo, jogar com seriedade e deixar aflorar o talento que pulsa em nosso peito. Temos plenas e totais condições de vencer a partida contra a imoralidade política desbragada que aí está. A bola da vez é o voto. Votando bem, vamos levantar o caneco e festejar a vitória na rampa do Planalto.

Como disse um grande goleador e agudo poeta futebolístico, “não existe gol feio; feio é não fazer o gol”. Falando nisso, quantos gols você prefere fazer: 13 ou 45?

Não é João Santana - DEMÉTRIO MAGNOLI



FOLHA DE SP - 25/10


A publicidade de Dilma é superior pois opera no universo da política, não no do marketing


"É Duda Mendonça!", exclamaram tantos analistas em 2002, quando Lula conquistou o Planalto. "É João Santana!", começam a dizer agora, no rastro das pesquisas que indicam uma dianteira de Dilma. O diagnóstico estava errado ontem --e continua errado hoje. A campanha eletrônica da presidente-candidata é muito melhor que a de Aécio, mas por razões estranhas às técnicas de marketing. No fundo, o predomínio de Dilma na telinha deve-se, justamente, à sábia descrença do lulopetismo nos poderes encantatórios do marqueteiro.

"O que parece, é!", ouvi de um publicitário, anos atrás, numa mesa-redonda sobre o valor da Copa do Mundo para o Brasil. O brilho exterior do evento da Fifa justificava-o automaticamente, gerando por si mesmo efeitos benéficos em diversos níveis, argumentava o profissional do marketing. Ele não sabia que a ciência só existe porque as aparências enganam: afinal, não é o Sol que gira ao redor da Terra. As ferramentas do marketing funcionam bem no universo do consumo, mas não no da política. O primeiro tem como centro o indivíduo e seus desejos de consumo. O segundo estrutura-se em torno da sociedade e dos valores coletivos. A publicidade de Dilma é superior pois opera no universo da política, não no do marketing.

"Nós contra eles": pobres versus ricos, povo versus elite. O tema invariável do lulopetismo brota da extensa tradição populista, inaugurada no Senado romano. Mesmo enveredando pelas trilhas da difamação e da mentira, a propaganda de Dilma jamais renunciou ao registro da política. A propaganda de Aécio, pelo contrário, apenas roçou as fronteiras do discurso político, esterilizando-se no registro do marketing. O candidato oposicionista não soube dizer que Dilma não é o que parece.

"Aécio é o Brasil sem medo do PT." Na sua melhor frase, a campanha dos tucanos contrapôs "o Brasil" ao "PT", utilizando a ideia de unidade como antídoto contra o discurso da divisão ("nós contra eles"). É política, mas só até a página 3. Segundo a lógica binária dos marqueteiros, existem apenas as alternativas do discurso "positivo" (propostas) e do "negativo" (ataques). Aécio oscilou entre os comportamentos polares, ao sabor das pesquisas qualitativas. A lógica conflitiva da política, contudo, exige o emprego da crítica, um recurso situado além do espectro de opções do marketing.

"Os ricos nunca ganharam tanto dinheiro quanto no meu governo." Na frase de Lula encontram-se as chaves para a crítica dos governos lulopetistas --isto é, para desvendar a empulhação veiculada pelo discurso populista. Aécio martelou o prego da inflação crônica, mas não esclareceu suas relações com a persistência de taxas de juros que desviam a riqueza social para o sistema financeiro. O candidato também não acendeu um holofote sobre o "bolsa empresário" do BNDES, iluminando a face oculta da "mãe dos pobres". Ele insistiu no escândalo da Petrobras, mas não explorou seu potencial pedagógico, explicando o lugar ocupado pela estatal na santa aliança da coalizão governista com as grandes empreiteiras. O marketing está para a política como o ensino fundamental está para a universidade.

"Escolas e hospitais padrão Fifa." Os manifestantes das Jornadas de Junho ofereceram uma bússola para as oposições, gritando nas ruas que a função do Estado é gerar bens públicos, não soprar bolhas de consumo com os foles do crédito, dos subsídios e da dívida. Os tucanos deixaram passar a oportunidade de mostrar as imagens das manifestações e de abrir um diálogo honesto com a maioria dos brasileiros, que as apoiaram. Provavelmente, escutaram o alerta de marqueteiros sobre os riscos de avivar a memória de um movimento avesso ao conjunto da elite política. O marketing teme a incerteza, que é inerente ao mundo da política.

João Santana não ganha eleições. No máximo, empacota um discurso eficaz.

Apagão de informações e uso da máquina pública - EDITORIAL O GLOBO



O GLOBO - 25/10

Apuradas as urnas, é possível que se constate que nestas eleições houve a mais escandalosa manipulação de recursos públicos a favor da candidatura oficial


Transcorria o governo Itamar Franco, o Plano Real havia começado a ser implementado, quando o ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, ao se preparar para conceder uma entrevista à Globo, não percebeu que os microfones estavam abertos e verbalizou o enunciado dos governos: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde".

Era setembro de 94, FH estava em campanha para ganhar sua primeira eleição presidencial. Ricupero entregou o cargo a Itamar, mas suas palavras nunca deixaram de, volta e meia, ser confirmadas.

É o que acontece, duas décadas depois, nesta campanha das eleições de 2014, em que o governo do PT evita divulgar pesquisas, informações em geral de interesse da população, para proteger a presidente Dilma na campanha de reeleição.

Em mais uma prova de que todo o governo subiu ao palanque da presidente, o Ministério da Educação adiou a liberação da listagem do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) referente ao rendimento em Português e Matemática, em 2013. Em setembro, foram divulgados os índices para as redes pública e particular. O resultado nos anos finais do ensino fundamental e em todo o ciclo médio não foi bom, tendo ficado abaixo das metas. Deduz-se que as informações agora sonegadas confirmem este cenário pouco animador. Para não dar munição ao candidato da oposição, Aécio Neves, segurou-se o dado, como estabelece o enunciado de Ricupero.

Também foi postergado o relatório de setembro sobre a arrecadação tributária, campo em que o governo também não se sai bem, devido aos efeitos da atividade lenta na economia. A coleta fraca de impostos projeta ainda mais preocupações sobre as contas públicas, equilibradas apenas devido à aplicação de técnicas de “contabilidade criativa”. Pura fantasia.

O apagão eleitoreiro de informações também atinge o desmatamento da Amazônia. A ONG Imazon indica haver crescimento da destruição da floresta. Mas apenas em novembro o governo liberará o que aconteceu na Amazônia em agosto e setembro.

O flanco social da pobreza e miséria, muito explorado por Dilma e adversários, também tem sido bem protegido: a direção do Instituto de Pesquisa Ecônomica Aplicada (Ipea), subordinada à Secretaria de Assuntos Estratégicos, vetou a divulgação de análise de estatísticas sobre a miséria, feita com base na última Pnad. Por isso, um diretor, Herton Ellery Araújo, entregou o cargo, assim como o pesquisador Marcelo Medeiros. Nem na ditadura militar houve esse tipo de ingerência no instituto.

Apuradas as urnas amanhã, é possível que se constate que nestas eleições houve talvez o mais escandaloso uso da máquina e de recursos públicos a favor da candidatura oficial, pelos menos desde a redemocratização.

O tamanho da crise do etanol - EDITORIAL O ESTADÃO



O ESTADO DE S.PAULO - 25/10

A crise que afeta as usinas de açúcar e álcool está longe do fim. Com a dívida 10% maior do que o faturamento que poderão alcançar, as usinas terão uma de suas piores safras dos últimos anos. A crise financeira mundial iniciada em 2008 tornou ainda mais difícil a situação das empresas brasileiras do setor sucroalcooleiro, que já começavam a pagar o preço da errática política do governo do PT para o etanol. Esse preço continua a aumentar. Como mostrou reportagem do Estado (21/10), com faturamento de R$ 70 bilhões no ciclo 2014-2015, as usinas deverão encerrar a safra devendo R$ 77 bilhões, de acordo com estimativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Tendo acreditado nas promessas do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tornar o Brasil o líder e o exemplo mundial na produção de energia limpa e renovável, as usinas investiram pesadamente entre 2003 e 2008 na expansão da capacidade de produção do etanol e, para isso, contraíram dívidas pesadas, que a maioria ainda não quitou.

O discurso ufanista do governo - que apontava as vantagens econômicas, ambientais e sociais do etanol de cana-de-açúcar sobre o similar americano produzido a partir do milho (com o desvio de boa parte da safra do grão que seria destinada para outras finalidades) - estimulava esses investimentos. Ao mesmo tempo, a política do governo de exigir das montadoras a produção de veículos bicombustíveis (flex) - que podem utilizar etanol, gasolina ou a mistura dos dois combustíveis em qualquer proporção - parecia assegurar um grande volume de vendas para o mercado doméstico. Somadas às possibilidades de conquista de fatias maiores no exterior, com a transformação do etanol brasileiro de cana em commodity negociável em qualquer mercado do planeta, as possibilidades de crescimento do setor pareciam imensas.

Tudo mudou de repente. Com a descoberta, em 2007, de grandes acumulações de petróleo e gás em águas profundas, na camada do pré-sal, o governo Lula viu ali um potencial político-eleitoral muito maior, e de efeitos mais rápidos, do que o oferecido pelo etanol. Até então no centro das preocupações do governo petista, a energia limpa e renovável, que vinha sendo alardeada como o combustível do futuro, do qual o Brasil seria o grande fornecedor mundial, deixou de merecer a atenção das autoridades.

Mas o pior ocorreu no governo Dilma. Com o aumento das pressões inflacionárias a partir de 2011, o governo passou a conter o preço da gasolina. Com isso, também o preço do etanol adicionado à gasolina passou a ser comprimido. Já o preço do etanol vendido na bomba, embora teoricamente livre, é dependente de uma relação inescapável: a eficiência energética do álcool corresponde a cerca de 70% da da gasolina, o que condiciona seu preço ao do derivado do petróleo.

Somada à excessiva e danosa interferência do governo no setor, a gestão financeira em muitos casos imprudente de muitas usinas - que continuaram a tomar dívidas para a mecanização da colheita, renovação do canavial e até expansão da capacidade - tornou os problemas ainda mais graves.

De acordo com o diretor técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues, há cerca de 375 usinas em operação no País. Dessas, ele estima que 30 talvez não tenham condições de moer cana na próxima safra, por causa de seu alto nível de endividamento. Desde 2008, entre 60 e 70 usinas encerraram suas atividades por problemas financeiros. Cerca de outras 70 operam em regime de recuperação judicial. Estima-se que, desde o início da crise, o setor de açúcar e álcool fechou 100 mil empregos diretos e 250 mil indiretos (de um total, respectivamente, de 1,5 milhão e 2,5 milhões).

Além da crise que se arrasta há seis ou sete anos, a seca reduziu a colheita de cana no Centro-Sul para 545 milhões ou 55o milhões de toneladas, cerca de 40 milhões do que se previa. Com isso, o fim da moagem será antecipado e, sem produtos para comercializar, o setor pode estar prestes a enfrentar uma das piores entressafras de sua história.