quarta-feira, outubro 22, 2014

O herói sem caráter - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 22/10

Lula tenta vender a tese de que alternância de poder faz mal à democracia brasileira



Remexendo na gaveta de recortes de jornais – valorosos e não raro mais úteis que o Google – encontro um texto escrito em 7 de setembro de 2010. Apenas coincidência a data da Independência. O título, Macunaíma. O herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade.

Faltava pouco menos de um mês para o primeiro turno da eleição em que o então presidente Luiz Inácio da Silva fazia o “diabo” e conseguiria na etapa final realizada em 31 de outubro eleger uma incógnita como sua sucessora.

Deu todas as garantias de que a chefe de sua Casa Civil, Dilma Rousseff, seria uma administradora de escol para o Brasil. Não foi, conforme comprovam os indicadores de um governo que se sustenta no índice positivo do emprego formal, cuja durabilidade depende do rumo da economia.

Como ex-presidente, Lula agora pede que se renove a aposta. Sem uma justa causa, apenas baseado na ficção por ele criada de que a alternância de poder faz mal à democracia brasileira. A propósito de reflexão a respeito da nossa história recente, convido a prezada leitora e o caro leitor ao reexame daquele texto.

“Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?

Um artista não poderia fazer, nem sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda. A menos que tivesse respaldo, que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos por intimidação ou cansaço.

A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes; oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes diante do adversário atrevido, eivado por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e assim nominados ignorantes.

O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido – abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar – sem que ninguém consiga lhe impor paradeiro, não foi criado da noite para o dia. Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu por obra da fragilidade da oposição.

Esse ambiente é fruto de uma criação coletiva. Produto da tolerância dos informados que puseram seus atributos e respectivos instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem vergonha de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do país, mas não parece se importar de lidar com quem não tem pudor algum.

Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto em que estavam já caminhando para o ostracismo. Foram ressuscitados e por isso estão gratos.

Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado.

Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.

Do despeito dos ressentidos.

Do complexo de culpa dos mal resolvidos.

Da torpeza dos oportunistas.

Da superioridade dos cínicos.

Da falsa isenção dos preguiçosos.

Da preguiça dos irresponsáveis.

Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte não fosse a permissividade geral. Se não conseguir eleger a sucessora não deixará o próximo governo governar. Importante pontuar que só fará isso se o país deixar que faça; assim como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.”


Contra o ódio e o preconceito JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADO DE S.PAULO - 22/10

Meu amigo Luiz Guimarães, engenheiro, financista, aposentado, sonha ter acesso a qualquer hora aos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves, que disputam o segundo turno no domingo, para lhes sugerir um ritual: estender uma Bandeira Nacional defronte à cama para refletir todo dia, ao acordar, sobre seu dístico, Ordem e Progresso. Petistas, que se dizem socialistas, e tucanos, que se creem social-democratas, poderão pensar que é uma sugestão conservadora, de direita, neoliberal. Na verdade, é um lema positivista, adotado por influência dos seguidores de Auguste Comte entre os fundadores de nossa República. Para Luiz, a reflexão deve começar pela ordenação das palavras: "Sem ordem não há progresso". É, faz sentido!

A sugestão vale para todos os eleitores que irão às urnas em quatro dias. Ainda que se altere a sequência dos vocábulos, convém que o brasileiro se lembre do hino, da bandeira, do sentido de pátria e de comunidade antes que ódio e preconceito contaminem as relações entre amigos e parentes, separando pais e filhos, irmãos e primos, sócios e parceiros. Na segunda-feira, entre as lágrimas dos derrotados e os fogos dos vitoriosos, seria muito bem-vinda uma convocação à reconciliação de todos. Como escreveu Ana Maria Machado no Globo de domingo, "discordando, mas trocando ideias para vencer os problemas do país. Que não são poucos. Não precisamos acrescentar a eles a intolerância, o ressentimento, a baixaria que busca se vingar".

Papisa da literatura infantojuvenil no Brasil, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, ela sabe o que escreve. E poderá praticar a ideia em família: seu irmão, Franklin Martins, é o guerrilheiro que imaginou, planejou e comandou na rua o sequestro do embaixador americano no Brasil Charles Elbrick, na ditadura militar. Hoje ele é um dos assessores que ajustam a mira da metralhadora giratória da presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, do PT, primeiro contra Marina Silva, do PSB, e agora contra o tucano Aécio Neves.

Com a enxurrada de porcaria despejada no horário que nada tem de gratuito no rádio e na TV e no debate do SBT, Jovem Pan e UOL, seis dias atrás, ficou uma impressão de que aqui se pratica uma política de terra arrasada, na qual nada sobrará para os derrotados e tampouco para os vencedores. A estes talvez nem restem as batatas, troféus da guerra das tribos na fábula escrita por outro Machado, o de Assis. Vencedores e vencidos mostram-se dispostos a negar tudo uns aos outros, nada lhes restando, mesmo que o dilúvio universal desabe sobre as nascentes dos rios que formam as represas do sistema Cantareira, quase totalmente exaurido, no momento em que este texto é lido, sob sol forte e aridez.

Este jornal publicou domingo evidências de que há uma forte tendência política em crescimento no Brasil: o antipetismo. Caudatária dessa há outra, subterrânea e sub-reptícia: é a dos anti-Lula. Ela começou, sorrateira, nas manifestações de rua de junho de 2013, em que multidões reclamaram da péssima gestão pública em serviços públicos essenciais à sobrevivência e à dignidade do cidadão. Essa não é obra exclusiva do PT nem dos herdeiros de Lula, mas há indicações seguras no noticiário recente de que se agravou muito sob a égide de uma aristocracia socialista que se considera acima do bem e do mal e acha que pode tudo. Até mesmo reduzir pela metade o patrimônio da maior empresa estatal do País, a Petrobrás, sem que ninguém perceba, proteste ou cobre.

Sem organização política nem propostas concretas, as massas rebeladas refluíram ao impacto de pedradas e coquetéis molotov de anarquistas que deturparam as manifestações quebrando tudo, violando a lei e desafiando o Estado Democrático de Direito. O movimento desfigurou-se, mas abriu uma porta de saída para antigos enfants gatés do lulopetismo. Primeiro, Marina Silva. Depois, Eduardo Campos.

A queda do avião particular em que este viajava foi uma espécie de senha para permitir a ressurreição e, depois, a organização das forças políticas contra o lulopetismo na sociedade. A volta da disputa direta entre PSDB e PT, que pareciam, de início, fadados ao convívio forçado na luta contra a direita egressa do regime autoritário, permitiu definir em definitivo os contendores. De um lado, os trabalhadores de todas as rendas, que sustentam um Estado estroina, voraz, corrupto e ineficaz, resolveram votar a contragosto em Aécio, que passou a simbolizar a insatisfação generalizada contra "tudo o que está aí". A ele se juntaram lideranças que antes sempre se reuniram sob as asas do profeta, e agora magnata, do agreste, Lula da Silva: Campos, Marina, Eduardo Jorge, etc. Do outro, a ex-guerrilheira Dilma congrega os assistidos pelo Bolsa Família e os socialistas de conveniência, que trocaram as cobranças de moralidade pelo usufruto de propinas justificadas pela secular retórica antiburguesa, que não só permite e perdoa, mas até abençoa o furto como justa expropriação. Se as pesquisas desta vez estiverem certas, o Brasil está dividido ao meio entre duas bandas radicais e inconciliáveis.

A passeata de Aécio domingo em Copacabana, com bandeiras do Brasil substituindo cartazes partidários, lançou-o como herdeiro da reconciliação feita sob Dutra após o Estado Novo e por seu avô, Tancredo Neves, no fim do regime pós-1964. O PT de Lula investe em Dilma contra a composição com intransigência feroz. Como antes: três deputados foram expulsos do partido porque votaram em Tancredo no Colégio Eleitoral. E Luiza Erundina, que costurou a aliança do PSB com Marina, foi expelida dele porque aceitou dirigir a Secretaria de Administração Pública no governo de coalizão de Itamar Franco, do qual Fernando Henrique foi alçado à glória de dois mandatos ganhos em primeiro turno graças ao real. Esse grupo se candidata a substituir o Ordem e Progresso por Ódio e Preconceito na bandeira do Brasil. É isso aí.


O PT, 25 anos depois - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 22/10


BRASÍLIA - A única certeza sobre a atual corrida presidencial é a volatilidade nesta reta final entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Estará dando apenas uma opinião pessoal quem disser ter certeza sobre qual dos dois candidatos sairá vencedor no domingo, dia 26.

Mas, no meio de tanta incerteza, há um dado cristalizado a respeito do maior partido de esquerda do Brasil, o PT. Basta comparar as pesquisas Datafolha de hoje, a poucos dias do segundo turno, com o que se passou nesta mesma época em 1989.

Assim como agora, o candidato a presidente pelo PT há 25 anos, Luiz Inácio Lula da Silva, estava colado ao seu adversário, Fernando Collor de Mello (então no PRN; hoje no PTB). Havia muitas dúvidas sobre quem poderia vencer aquela disputa.

A diferença entre 2014 e 1989 é que um quarto de século atrás quase todos os descolados votavam no PT. Só que esse eleitorado era muito concentrado. Lula estava à frente de Collor com folga apenas em uma região, o Sudeste. O PT perdia feio no Nordeste. Hoje, essa situação se inverteu de forma radical.

Há outro fator curioso instalado na política nacional. Em São Paulo, em 1989, havia um certo orgulho petista ao declarar voto. Era "cool". Agora, para alguns, é algo quase secreto. Diferentemente do Nordeste, região na qual o petismo adquiriu status próximo ao de uma religião.

Depois de ter governado o país 12 anos, as políticas sociais do PT são ao mesmo tempo o seu maior sucesso e o maior fracasso. É uma vitória porque a sigla chegou ao governo e implantou parte das propostas que defendia desde sempre --de buscar formas de reduzir a assimetria existente entre ricos e pobres no Brasil. Mas trata-se de uma derrota por ter resultado também numa divisão política perversa num país ainda tão longe do desenvolvimento sustentável.

Ganhe quem for, o próximo presidente terá a duríssima missão de unificar um pouco mais a nação.

Margem de erro - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 22/10


Tudo indica que a margem de erro das pesquisas vai perseguir os cidadãos até o dia da eleição, domingo que vem. Nada está definido, a tendência de alta de Dilma ainda tem de ser confirmada por novas pesquisas que serão feitas diariamente até sábado, o último dia possível de publicá-las (hoje, aliás, deve estar saindo uma nova do Datafolha), e os candidatos estão lutando por territórios, especialmente Rio e MG.

A Região Sudeste, a de maior eleitorado, é onde Dilma cresce, mesmo que Aécio continue na frente. Mas os 5 pontos que a candidata do PT cresceu foram suficientes para fazê-la ultrapassar seu concorrente no cômputo geral, na explicação do diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.

Aécio já superou Dilma em MG, mas não conseguiu ainda abrir frente suficientemente ampla para compensar perdas em outros locais. A previsão é que tire cerca de 1,8 milhão de votos de dianteira, bem menos que os 3 milhões a 4 milhões previstos inicialmente.

No Rio, Aécio andou empatado tecnicamente com Dilma, mas agora já foi superado por boa margem (48% a 37%). Aqui no Rio, vigora situação exemplar de como a base aliada do governo é tão ampla e heterogênea: ela apoia os dois candidatos que se digladiam pelo governo do estado, um atacando o outro impiedosamente. E os outros dois derrotados também a apoiam.

São máquinas poderosas trabalhando a favor da reeleição, e a dissidência do PMDB - o Aezão, mistura de Aécio com Pezão - não parece ser forte o suficiente para manter votação capaz de competir com a da presidente, embora desta vez a diferença a favor de Dilma seja bem menor do que da vez anterior, em que ela abriu mais de 1,5 milhão de votos de frente no estado.

Além do mais, há uma máquina oficial em favor de Pezão, que trabalha também a favor de Dilma - a quem o governador que tenta a reeleição se refere sempre como "presidenta", o que demonstra uma proximidade que se choca com o movimento dissidente que ele também alimenta. Coisas do modelo de coalizão presidencial mais apropriadamente chamado de "modelo de cooptação".

Vamos ver esta disputa voto a voto provavelmente até o final desta semana, com Aécio tentando ampliar sua votação em Minas, o que seria mais natural se não tivesse cometido um dos poucos erros de sua campanha ao abandonar seu estado no 1º turno, como se os votos a seu favor caíssem por gravidade no seu colo.

Quando se deu conta do prejuízo, Aécio dedicou-se a Minas como deveria ter feito desde o início e conseguiu reverter a situação no 2º turno, depois de o PSDB ter perdido a eleição para o governo do estado.

Outra preocupação, esta nova, é não perder votos em SP, onde a situação de crise do abastecimento de água pode estar afetando a imagem dos tucanos, a grande máquina do PSDB que reelegeu Alckmin no 1º turno e deu a Aécio cerca de 45% dos votos.

Neste 2º turno, o candidato do PSDB à Presidência já estava chegando a uma votação correspondente a 60% dos votos, mesma margem por que foi eleito José Serra senador. A piora da situação hídrica do estado, no entanto, pode estar afetando a votação de Aécio, assim como afetaria a de Alckmin caso tivesse havido 2º turno em SP.

A recente pesquisa do Datafolha mostra que hoje haveria segundo turno para governador, reflexo da piora da situação de escassez de água que está sendo muito explorada pela campanha de Dilma Rousseff.

Nesta reta final, as campanhas deverão ser mais propositivas, ficando, de parte do PT, o papel sujo a cargo do ex-presidente Lula, que está se excedendo no cumprimento da função. O debate da TV Globo sexta-feira ganhou relevo especial com a disputa apertada, e os indecisos, que participarão com perguntas aos candidatos, podem ser decisivos na definição do vencedor.

Irresponsável

"Daqui para frente, é a Míriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela (Dilma) na periferia. É o (William) Bonner falando mal dela no "Jornal Nacional", e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles [...]". 


Essa fala irresponsável é do ex-presidente Lula no seu papel de língua de trapo da campanha petista. O PT deu agora para nomear seus "inimigos", incentivando assim ações radicais contra jornalistas que consideram adversários do "projeto popular". 

Recentemente, um dirigente do partido havia nomeado sete jornalistas numa espécie de "lista negra". É uma típica ação fascista, que está sendo usada já há algum tempo na Argentina de Cristina Kirchner. É neste caminho que vamos, caso Dilma se reeleja.

O preço de eleger 'postes' - CARLOS MATHEUS

 ESTADO DE S.PAULO - 22/10

Logo depois de ser eleito prefeito de São Paulo, Fernando Haddad declarou ser "o segundo poste de Lula". Modéstia? Presunção? Nada disso. Não passava de uma ironia contra seus adversários e também um modo de agradecer ao seu "patrono". Ser o "segundo" era o mesmo que colocar-se numa fila na qual atribuía a Dilma Rousseff o lugar de "primeiro poste".

Eleger postes é uma antiga gíria política para dar um significado popular àquilo que em Ciência Política se denomina transferência de voto - processo em que um líder com alguma ou muita popularidade sugere aos seus eleitores a adesão a alguém de sua confiança. Para que haja a transferência de voto é necessário forte empenho pessoal de quem dispõe de suficiente popularidade para tanto.

Dilma e Haddad não foram os primeiros "herdeiros" de votos no Brasil contemporâneo. Getúlio Vargas influiu na eleição de Eurico Dutra. Ademar de Barros transferiu sua influência política para Lucas Garcez e Carvalho Pinto fez o mesmo em relação a José Bonifácio Coutinho Nogueira. Com todos esses que foram apoiados por seus respectivos antecessores houve problemas: Dutra realizou um governo tão medíocre a ponto de favorecer o retorno de Vargas; Garcez entrou em conflito direto com seu patrono, ganhando a imagem de ingratidão e até de traição; e Coutinho Nogueira foi derrotado por Ademar. Algo semelhante ocorreu depois da ditadura militar. Fleury tornou-se inimigo de Quércia, seu patrono eleitoral; a eleição de Pitta contribuiu para o declínio da imagem de Maluf, seu padrinho político.

Algo semelhante ocorreu com a atual presidente da República. Eleita por transferência de voto de seu antecessor, tornou-se devedora e dependente do apoio recebido. Seu mandato foi uma continuidade do governo do seu patrono político, mas sua popularidade inicial desmoronou subitamente, depois das manifestações de 2013, sem retornar aos níveis anteriores. E, às vésperas do segundo turno, corre risco de ser derrotada por um candidato até então desconhecido da maioria dos brasileiros, já que detinha menos de 20% dos votos no primeiro turno. Os motivos estão na fragilidade inerente ao processo de transferência de voto. Segundo Maquiavel, há duas vias de acesso ao poder: pela força e pelo mérito. Nos sistemas democráticos, o mérito pessoal dos candidatos é fundamental e se relaciona a serviços anteriormente prestados e suficientemente conhecidos pelo eleitorado.

A transferência de voto é bem mais do que um apoio: é um atestado de confiança semelhante ao que é dado por um avalista ou um fiador. É uma garantia de sucesso sem prova anterior. Por isso toda transferência de voto é fraca. Não tem a força de quem conquista prestígio popular por mérito próprio. É um empréstimo de popularidade sujeito a comprovação. É um desafio para quem recebe porque cria uma fragilidade difícil de ser superada em momentos de crise, por suspeita de incapacidade e de autonomia na tomada de decisões.

Esse é o caso de Dilma Rousseff. Saiu das sombras do ministério que ocupava para se tornar candidata de seu antecessor. A este coube a tarefa de revelá-la ao eleitorado brasileiro. Lula empenhou-se pessoalmente na justificação de sua escolha e contribuiu decisivamente para que fosse eleita, ficando ela dependente dos méritos e deméritos de seu avalista político. Os transtornos que atingiram o governo de seu antecessor fragilizaram sua imagem, acentuando sua dependência de quem a elegeu.

Todo político eleito por transferência de voto se torna vítima desse desgaste decorrente da falta de méritos próprios. Antes de chegar à Presidência da República, Dilma só ocupara cargos nomeados. Jamais concorrera a um cargo público em eleição popular. Sua carreira política fora feita nas sombras da ditadura militar e também do período de retorno à democracia.

Toda eleição tem o papel de exaltar ou condenar a carreira política de seus competidores. Há candidatos que, sendo eleitos, acabam decepcionando e há candidatos que, sendo derrotados, se tornam vitoriosos posteriormente. Esse foi o caso de Lula: derrotado três vezes, ganhou crescente prestígio que, finalmente, o conduziu à Presidência. A diferença entre Dilma e Aécio Neves reside nisso. Aécio teve uma carreira política própria, sem depender de apoios alheios. Depois de ter sido prefeito e governador, tornou-se candidato à Presidência da República, numa carreira semelhante à de outro mineiro que chegou à Presidência: Juscelino Kubitschek.

Quem é eleito pelo voto popular adquire algo significativo quanto aos méritos pessoais apontados por Maquiavel. São méritos que passam a fazer parte de sua imagem pública. Esse foi o fator que levou Leonel Brizola à vitória em 1982. Concorrendo com candidatos que jamais haviam sido eleitos pelo voto popular, demonstrou ter méritos próprios ao bradar pela TV a frase "eu já estive lá" para informar aos cariocas e fluminenses que já havia sido eleito governador do Rio Grande do Sul.

Ser eleito por transferência de voto gera uma ambiguidade incômoda: tudo o que fizer com aprovação popular agrega méritos ao antecessor, mas sofre também o declínio da imagem deste. Dilma vive um difícil dilema político: não se afastar de Lula nem pedir novamente seu apoio, o que deixa exposta sua fragilidade pessoal. O voto nos regimes democráticos tem o papel de um julgamento em que os vitoriosos precisam provar que mereceram ser eleitos e os derrotados passam pelo crivo dos julgamentos futuros que lhes abrirão ou fecharão as portas de acesso ao poder.

Ter sido eleita por méritos de Lula tornou-se para Dilma mais obstáculo do que vantagem: se reeleita, o mérito será de Lula e, se derrotada, será por falta de méritos próprios.

Por que voto em Aécio - EDMAR BACHA

FOLHA DE SP - 22/10

Aécio sabe que políticas de inclusão são um imperativo, pois o país continua a ser uma Belíndia, e que é preciso retomar o crescimento


Meu voto em Aécio se justifica de duas maneiras. A primeira é que, se Dilma tiver mais quatro anos, acabará de quebrar o país e nos encaminhará para uma séria crise política e social. Não é difícil ver o porquê. Nos quatro anos de seu governo, o crescimento da economia foi o menor de todos os períodos presidenciais completos de nossa história republicana desde Floriano Peixoto.

A culpa desse desempenho medíocre não vem de fora, pois nossos vizinhos sul-americanos (exceto pela Argentina e Venezuela que seguem políticas parecidas com as de Dilma) vão muito bem, obrigado. Neste ano, o crescimento do PIB brasileiro deverá ser zero, algo inédito na história do país em períodos sem crise cambial.

A culpa também não é da equipe econômica, pois ela apenas executa com docilidade a política determinada em cada detalhe pela presidente. Foi Dilma quem retirou a autonomia do Banco Central; criou um orçamento paralelo de alquimias contábeis entre o Tesouro e os bancos públicos; destruiu a capacidade de investimento da Petrobras e da Eletrobras; aparelhou partidariamente as agências reguladoras; fez os leilões de concessão de infraestrutura se tornarem um fiasco quando não uma fonte adicional de corrupção.

O resultado disso é a queda do PIB, a alta da inflação, a derrubada do investimento, a desindustrialização, o deficit externo e o aumento da dívida pública.

Dilma promete um governo novo, com ideias novas. Mas como faria isso se está convencida de estar no caminho certo? Se fosse reeleita, continuaria colocando em prática suas arraigadas convicções equivocadas sobre economia e administração pública. O resultado seria manter o país ladeira abaixo, com frustração popular, recessão, desemprego e inflação.

Felizmente, isso não vai acontecer porque tem Aécio Neves no meio do caminho.

Após 12 anos de "nós contra eles", que lembram o "ame-o ou deixe-o" da ditadura, Aécio é a esperança de reconciliação nacional. Sua história política é similar à de seu avô, Tancredo Neves, que sempre buscou a união dos extremos, o apaziguamento das diferenças, o convencimento pelo argumento, e não pela força.

Todo o ódio que o marqueteiro de Dilma fez destilar nessa campanha eleitoral sórdida será apagado, e Aécio, como fez em Minas Gerais, governará com competência, sem rancores ou partidarismos.

Por sua experiência no governo de Minas, Aécio sabe que políticas de inclusão social são um imperativo. Apesar da propaganda do governo sobre "a nova classe média", o Brasil continua a ser uma Belíndia --uma mistura da pobreza da Índia com a riqueza da Bélgica. Dados do Banco Mundial mostram que o Brasil mantém uma das mais desiguais distribuições de renda no mundo.

As informações que a Receita Federal finalmente começa a liberar revelam que a concentração de renda no país é bem maior do que a indicada pelas pesquisas domiciliares (Pnad) e ela não está sendo reduzida, ao contrário do que dizem os arautos do governo Dilma.

Aécio sabe também que para superar a pobreza, ao lado de uma política de transferência de renda, é fundamental ter uma estratégia de crescimento --equitativa e sustentável-- que leve o país, ao longo de uma geração, ao nível de renda do mundo desenvolvido.

Para isso precisamos restabelecer a estabilidade econômica e o equilíbrio das contas públicas e externas. Precisamos atrair o setor privado para investimentos maciços em infraestrutura, dar a nossas indústrias condições de competir no mercado internacional e, principalmente, melhorar nossos sistemas de educação, segurança e saúde.

Em seu programa de governo, Aécio tem propostas exequíveis para enfrentar esses desafios. Contará com uma equipe de auxiliares à altura da nobre tarefa de refazer a união entre os brasileiros e recolocar o país na rota do desenvolvimento.

Conselho de Itaipu é típico cabide de empregos - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 22/10

Nomeado pela ministra Dilma, João Vaccari Neto, personagem do escândalo na Petrobras, ocupa cargo de conselheiro na usina binacional



Seria injusto acusar apenas o PT de utilizar-se de conselhos de administração de estatais para abrigar correligionários, aliados políticos e similares. Outros governos foram pelo mesmo caminho, incluindo os da ditadura militar.

O artifício costuma ser usado para melhorar o rendimento de ministros, obrigados, assim como o presidente da República, a obedecer a limites salariais hipócritas. O mesmo vale para parlamentares, induzidos a se valer de copiosas verbas de gabinete para complementar os subsídios.

Mas se o PT não foge à regra, ele exagera. O que acontece no Conselho de Administração da usina Itaipu Binacional é exemplar — do que não deve ser feito, por suposto.

Este conselho entrou no noticiário porque lá se encontra, desde 2003, nomeado pela então ministra das Minas e Energia Dilma Rousseff, João Vaccari Neto, estrela em ascensão no escândalo da Petrobras, personagem também de outras histórias estranhas.

Oriundo do braço sindical petista, com atuação na categoria dos bancários — origem também, entre outros, do mensaleiro foragido Pizzolato, de Berzoini, e do falecido Gushiken — o discreto Vaccari, desde 2010, responde pela acusação de ter desviado dinheiro da Bancoop, cooperativa habitacional de sindicalizados. É acusado de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

À folha corrida de Vaccari serão acrescentadas outras denúncias ao ser encerrado o inquérito da Operação Lava-Jato, em que ele aparece, segundo testemunhos do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, como recolhedor da parte do leão que cabia ao PT no pagamento de propinas por empreiteiras contratadas pela estatal.

João Vaccari, portanto, parecia dono de um currículo à altura do cargo de tesoureiro da legenda, já ocupado por Delúbio Soares, mensaleiro condenado em fase de cumprimento de pena. O “secretário financeiro” do PT foi tirado de um semianonimato ao ser citado por Aécio Neves no debate com Dilma promovido pela Record. “Semi” porque Vaccari já fora citado também como intermediário em negócios pouco claros com fundos de pensão de estatais, bilionário braço financeiro do sindicalismo petista.

O ex-bancário não está sozinho no conselho de Itaipu. Lá também se encontram o ministro-chefe da casa Civil, Aloizio Mercadante, petista; o pedetista histório Alceu Collares, ex-governador do Rio Grande do Sul e, entre outros, o filho do ex-governador do Paraná Orlando Pesutti, do PMDB. Todos recebendo R$ 20.804,31 por participação nas reuniões do conselho.

Mais um caso para sedimentar a ideia de que esses conselhos são sinecuras indevidamente financiadas pelo contribuinte. O escândalo na Petrobras levou à redescoberta de Vaccari e, por tabela, jogou luz sobre o conselho de Itaipu. Esta história não para de produzir surpresas.

Lula desce mais um degrau - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 22/10


O ex-presidente, em comício em São Paulo, reforça explicitamente o “nós contra eles” e faz novo ataque à imprensa


Decididamente, Lula não pertence àquele reduzido time de pessoas públicas que atualmente estão no topo da política nacional e que se mostram comprometidas com a seriedade. É mais que frequente o hábito (ou seria vício?) do ex-presidente de descambar para a demagogia barata, ultrapassando quaisquer limites – desde o do simples bom senso até o do respeito à ética e às instituições. O discurso de campanha que pronunciou em São Paulo na última segunda-feira, ao lado da presidente-candidata Dilma Rousseff, inscreve-se como um dos mais emblemáticos excessos de sua loquacidade.

É certo que a presente campanha eleitoral para a Presidência já está marcada na história como uma das mais renhidas e, por que não dizer?, sórdidas. Disputa-se não apenas o mais alto cargo da República, mas a prevalência de quem é o pior entre “nós e eles”. Estrategistas de campanha conseguiram incutir na sociedade, com elevados graus de fanatismo fundamentalista, discussões sobre qual dos lados é o mais corrupto, qual deles é o mais incompetente e qual deles mente mais. Chegamos ao ponto extremo de que a decisão de voto se dará por um terrível critério: o eleitorado está sendo chamado não a escolher o melhor, mas o menos pior.

Lula pode até não ter sido o inventor dessa estratégia, mas foi por sua voz carrascante que ela foi amplificada e aprimorada ao longo do tempo. Não apareceu agora, pois há muito se ouve dele o discurso de uma pretensa luta de classes, não com o objetivo idealista de buscar a superação das desigualdades, mas como instrumento puramente eleitoreiro. De um lado, os pobres e os trabalhadores assalariados e explorados; de outro, o que genericamente chama de “azelite” para nela incluir a “imprensa golpista”, os bancos e tantos quantos pretendam democraticamente divergir “deles”.

No comício de São Paulo, no entanto, Lula se superou. Deixou de lado suas convenientes generalidades para dar nomes aos “inimigos” que a ocasião eleitoral lhe permite. Citou nominalmente, por exemplo, a jornalista Miriam Leitão, comentarista de economia dos mais importantes veículos de comunicação do país – aquela mesma que foi vítima de manipulações sorrateiras que servidores do Palácio do Planalto promoveram para distorcer sua biografia profissional na enciclopédia aberta Wikipedia. Citou também William Bonner, apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional. Textualmente, pediu Lula à plateia presente ao comício: “Daqui para a frente é a Miriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela [Dilma] na periferia. É o [William] Bonner falando mal dela no Jornal Nacional, e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles”.

O ex-presidente desceu ao nível do inimaginável para alguém que já ocupou, por dois mandatos, o cargo de líder supremo da nação. Reduziu-se a um animador de palanque, não dispensando ataques também ao adversário “deles”, o senador tucano Aécio Neves: “Esse rapaz não teve educação de berço para respeitar as mulheres. E, sobretudo, uma presidente, mãe e avó. Esse cidadão agrediu, com seu cinismo, tentando deixar Dilma temerosa”, referindo-se à postura mais ofensiva de Aécio no debate da última quinta-feira.

Lula se esqueceu de que mãe e avó é também a jornalista Miriam Leitão, igualmente vítima das mesmas masmorras da ditadura em que penou a presidente Dilma. Quando da falsificação da biografia da profissional feita nas antessalas do Palácio do Planalto, não se ouviu de Lula qualquer defesa do respeito que se deve às mulheres. O mesmo ocorreu quando a máquina de marketing petista empregou todo tipo de terrorismo eleitoral contra outra mulher, Marina Silva. “Elas”, assim como “eles”, quando criticam ou discordam, passam a não fazer parte da classe do “nós”.

É lastimável que o futuro do país seja discutido neste nível.

O fiasco dos investimentos - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 22/10

De fracasso em fracasso, a presidente Dilma Rousseff completará em dezembro quatro anos de fiascos no PAC 2, a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento. Até o réveillon, só terá conseguido inaugurar 2 de 11 grandes obras com conclusão prometida para o trimestre final de seu mandato. Neste ano, o governo até acelerou os desembolsos para investimentos, como ocorre em todo período eleitoral, mas sem desemperrar a execução da maior parte dos projetos. Desde a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, orçamentos e prazos têm sido rotineiramente estourados. Esse resultado é explicável por uma invulgar incompetência administrativa temperada com boas pitadas de corrupção. A faxina realizada em 2011 no Ministério dos Transportes e a longa saga de escândalos na Petrobrás são episódios importantes e instrutivos dessa história.

Com operação recém-iniciada, a Hidrelétrica de Santo Antônio do Jari, no Amapá, é um dos dois projetos com entrega atualmente prevista para este fim de ano. O outro é a Hidrelétrica Ferreira Gomes, no mesmo Estado. Deverá funcionar em breve, se nenhuma surpresa ocorrer. As duas usinas são empreendimentos privados.

Os outros nove projetos, com prazos alongados para os próximos dois anos, incluem a transposição do Rio São Francisco, grandes obras de saneamento no Nordeste, investimentos em rodovias e a famigerada Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Esta é uma das mais vistosas gemas da coroa de escândalos da Petrobrás.

Bastaria o estouro de seu orçamento - de US$ 2,4 bilhões na previsão inicial para cerca de US$ 20 bilhões nas últimas estimativas - para converter em personagens históricas dignas de estudo as principais figuras envolvidas no projeto. A lista incluiria, naturalmente, o presidente da República, o ministro de Minas e Energia e vários dirigentes da Petrobrás.

Em 2011, quando a presidente Dilma Rousseff iniciou seu mandato, ainda se previa o começo das operações da Abreu e Lima em 2012. No fim de 2014, a obra deveria estar completa. Um dia essa história poderá ser contada a estudantes de administração como exemplo da desastrosa mistura de irresponsabilidade, incompetência gerencial, asneira ideológico-diplomática (a aliança entre lulismo e chavismo) e corrupção.

O atraso dessas nove obras prioritárias é um capítulo especialmente interessante da história iniciada em 2003, com a chega do PT ao governo federal, e ainda sem conclusão. Mas é só isso, uma coleção de exemplos particularmente interessantes de ações desastrosas. Administração e investimento nunca foram pontos fortes dos três mandatos petistas.

Neste ano, o governo federal aplicou, até setembro, R$ 45,3 bilhões em obras e na compra de equipamentos. Investiu, portanto, 30,5% mais que nos nove meses correspondentes do ano anterior. Maiores desembolsos para investimentos têm ocorrido repetidamente em anos de eleições, tanto na administração federal como nos governos estaduais e municipais.

Nem assim o governo da presidente Dilma Rousseff conseguiu tornar muito melhor a execução de projetos dependentes da União. Boa parte das obras prometidas para a Copa do Mundo de Futebol ficou sem conclusão. O caso dos aeroportos é um exemplo muito claro. Até abril deste ano, só foi concluído um terço dos empreendimentos previstos para o setor no PAC 2, segundo o último balanço divulgado pelo governo. De acordo com esse levantamento, 23 das 108 obras programadas continuavam no papel.

Além disso, nos primeiros três bimestres de 2014 a Infraero investiu mais que no ano anterior. No quarto, aplicou menos que em julho e agosto de 2013. Explicação mais plausível: depois da Copa, as obras ficaram menos urgentes. "Pela primeira vez neste ano a Infraero reduziu o ritmo dos investimentos", noticiou a organização Contas Abertas, dedicada ao exame das contas públicas.

A política de investimentos vai mal em todo o setor de infraestrutura. O PAC continua sendo principalmente um programa de obras imobiliárias e de financiamentos habitacionais. Sem estes componentes, seria mais difícil atenuar o vexame em cada balanço periódico.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

IBOPE GANHOU R$ 5,2 MILHÕES PARA MEDIR ‘TRAÇO’

Dos R$ 12,7 milhões pagos pelo governo Dilma Rousseff (PT) a institutos de pesquisa, R$ 11 milhões foram destinados somente a empresas do grupo Ibope. E sempre sem licitação. O Ibope embolsou R$ 5,2 milhões, por exemplo, somente nos últimos três anos e dez meses, para confirmar o que todo mundo já sabe, principalmente no governo: não sai do “traço” a audiência da TV Brasil, a “tevê do Lula”.

TV TRAÇO

A TV Brasil, em Brasília sintonizada no canal 2, é mantida pela estatal Empresa Brasil de Comunicação (EBC), criada no governo Lula.

PUBLICIDADE?

Os pagamentos do governo Dilma a institutos de pesquisa saíram da verba publicitária da Secretaria de Comunicação da Presidência.

TRABALHO FÁCIL

Em 2013, por exemplo, o Ibope recebeu do governo federal mais de R$ 1 milhão para aferir a audiência da TV Lula.

LÍDER DE AUDIÊNCIA

Outros institutos, como Datafolha e MDA, ganharam um bom dinheiro no governo Dilma, mas quase dez vezes menos que o Ibope.

DEPUTADO PETISTA PERDE SEGURANÇA PESSOAL DA PF

O deputado Luiz Couto (PT-PB) foi informado pela Polícia Federal, sexta (17), da suspensão de sua escolta policial, motivada por supostas ameaças de morte de grupos de extermínio na Paraíba. Couto obteve a segurança em 2010, com interveniência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e atribui as ameaças a uma milícia que teria assassinado mais de 200 pessoas, inclusive um ativista, Manoel Matos.

CARA SEGURANÇA

É caro manter equipes de segurança como a de Luiz Couto por 4 anos, sobretudo porque a PF enfrenta hoje a maior pindaíba de sempre.

COUTO VÊ ‘RETALIAÇÃO’

Luiz Couto suspeita de “retaliação” de delegados, pelo apoio a projetos que favorecem agentes da PF, e se queixou ao ministro da Justiça.

PISTOLEIROS

Em outubro de 2013, a PF descobriu suposto plano de um ex-policial militar, que teria contratado dois pistoleiros para matar Luiz Couto.

DEPOIMENTO

O Solidariedade e o PSDB pedem na CPMI da Petrobras, nesta quarta, a oitiva da ex-ministra Gleisi Hoffmann e o marido, ministro Paulo Bernardo (Comunicações), para explicar suas relações com o petrolão.

A COISA TÁ FEIA, MADAME

Dias antes de ser acusada de envolvimento no petrolão, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) passeava tranquilamente com seu cachorro de estimação na 309 Sul, quadra onde moram senadores em Brasília.

CONDE PROBLEMA

O conde e vereador Andrea Matarazzo (PSDB), que tomou uma “surra” do deputado Arlindo Chinaglia (PT) diante de alunos da FGV, tem sido criticado até por tucanos, que atribuem à sua influência no marketing político a derrota de Serra em 2010 e o papel de Aécio no 2º turno.

PARA SORRIR E CHORAR

Seja para comemorar ou se lamuriar, parlamentares e servidores da Câmara terão dia de folga após eleições de domingo: o feriado de terça (28), Dia do Servidor, foi antecipado para segunda (27).

NEM PRECISAM IR

O comitê de Dilma no Rio decidiu cancelar a participação dela e de Lula em evento nesta quarta na Cinelândia. O PT acha que não precisam ir porque é “sólida” a liderança sobre o tucano Aécio Neves no Estado.

FRAUDE INVESTIGADA

Condenado a 2 anos e 6 meses, ontem, no Supremo, por violação de sigilo funcional qualificado na operação Satiagraha, o deputado e delegado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) diz que foi derrotado por fraude, que está sob investigação no Ministério Público paulista.

BLOCO NO INTERIOR

Candidato ao governo do Ceará, o senador Eunício Oliveira (PMDB) focará a campanha nesta reta final em municípios do interior, onde o adversário Camilo Santana (PT) tem maior intenção de votos.

INFRAESTRUTURA

O membro da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB e diretor jurídico da Universidade Mackenzie, José Francisco Siqueira Neto participa nesta quarta da Conferência Nacional dos Advogados, no Rio. Ele vai falar sobre “A organização jurídica da infraestrutura”.

PENSANDO BEM…

… o dólar e Bolsa de Valores parecem mais cabos eleitorais que índices e instituições de mercado.


PODER SEM PUDOR

SENTENÇA NA FRALDA

O italiano Piero Luigi Vigna, o procurador antimáfia que comandou a Operação Mãos Limpas, visitou certa vez o então presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Paulo Costa Leite, e sustentou que não se pode dar mole para mafioso.

Contou que certa vez obteve permissão para que os presos pudessem ao menos abraçar os filhos, nos momentos de visita. Mas ao segurar o filho nos braços (um bebê de apenas 6 meses), um mafioso colocou na sua fralda uma lista de inimigos a serem assassinados.

A tática foi descoberta e o contato físico novamente proibido.


terça-feira, outubro 21, 2014

Heróis do mensalão tentam sobreviver ao petrolão - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA


Luiz Inácio da Silva está de saco cheio - nas palavras dele, naturalmente. Caprichando no timbre pré-histórico que o Brasil consagrou, Lula atacou mais uma vez o denuncismo da imprensa burguesa, que fica publicando coisas desagradáveis sobre a Petrobras. O ex-presidente em exercício disse que não aguenta mais a mesma coisa em toda eleição. De fato, se não fosse essa mídia golpista a serviço da elite branca, os companheiros poderiam continuar a roubar a maior empresa brasileira de forma silenciosa e discreta, sem esse falatório todo que só atrapalha os bons negócios privados feitos dentro da estatal (abaixo da camada pré-sal).

O mais estranho de tudo é que, pelo cenário da corrida presidencial, parece que o eleitorado começou a acreditar nas manchetes da imprensa golpista - um absurdo, pois Lula já cansou de avisar aos brasileiros para não acreditar no que sai na mídia.

Eles nunca acreditaram, como se viu na reeleição dele em pleno mensalão e na eleição da sucessora, em pleno escândalo Erenice Guerra. Para corrigir essa perigosa distorção, segue um retrato do segundo turno da eleição mais surpreendente da história em manchetes elaboradas especialmente para não transbordar o saco de Luiz Inácio:

O presidente dos Correios que distribui panfletos de Dilma é ligado ao tesoureiro do PT que está no petrolão. Vote 13 pela coerência.

Dilma calou os críticos. Mesmo com os preços de energia amordaçados, ela acaba de estourar o teto da meta de inflação. Pensam que é fácil?

O despachante de José Dirceu na Papuda, e governador do DF nas horas vagas, não foi nem ao segundo turno. Infelizmente, há unhas que nem Delúbio desencrava.

Fantasmas do passado assombram a elite vermelha (aterrorizada com a ideia de ter de trabalhar a partir de 2015).

A Bolsa subiu, o dólar caiu, as ações da Petrobras dispararam. Volta, Dilma!

Com a boa votação de Luciana Genro, o Brasil enfim discutirá a sério a reforma agrária, o imperialismo ianque e, quem sabe, até as Diretas Já.

Marcelo Freixo, o revolucionário do bem, já declarou seu voto para Dilma. O recado das ruas em junho de 2013, portanto, foi o seguinte: deixa pra lá.

Lá vem a direita gritar que mais um petista (ligado ao governador eleito de MG, Fernando Pimentel) foi pego com uma montanha de dinheiro. Pura inveja da elite vermelha. Eduardo Jorge apoia Aécio e pira o GPS dos bonzinhos. Fica a dica: a esquerda éado relógio, e a direita a da caneta.

Falando em pureza, Luciana Genro liberou seus fiéis para votar em Dilma. Pela margem de erro, os puros poderão escolher de Collor a Sarney.

Mantega diz que Armínio cortará programas sociais. É verdade. O Bolsa Ministro Ocioso, por exemplo, desaparecerá.

Delatores revelam: Vaccari, tesoureiro do PT, regia o petrolão. Delúbio está morrendo de ciúmes.

Armínio ao PT: "Comparações com FH precisam ser mais honestas". Pedir honestidade ao PT? É um fanfarrão, esse Armínio.

O Brasil aguarda ansiosamente o manifesto dos intelectuais de esquerda em defesa da Petrobras e dos heróis que fizeram dela um anexo do PT.

Dilma diz que o petrolão só apareceu porque ela investigou. As cabeças cortadas também só apareceram porque o Estado Islâmico filmou.

Dilma disse que acha "muito estranha" a história contada pelos delatores da Petrobras. Bota estranha nisso, presidenta.

Dilma denuncia: divulgação dos podres da Petrobras é golpe. Cadê o manifesto dos intelectuais petroprogressistas contra o novo golpe da elite branca?

E os sonháticos... Cada vez mais erráticos. Nenhuma surpresa. A coletiva de Marina pós-eleição parecia um almoço de domingo. Haja poesia.

Um lembrete: nenhum jornalista, cientista político ou tucano genérico apostou em Aécio. Diziam que ele não batia no PT e estava no tom errado.

Aécio esterilizará as nordestinas (essa manchete é para poupar trabalho à central de inteligência dos companheiros).

Dilma reclamou das delações na Petrobras em época de eleição. É mesmo um absurdo. Mas roubar a empresa está liberado em qualquer época.

Se você também não suporta mais ver o filho do Brasil de saco cheio em véspera de eleição, siga @GFiu-za_Oficial: a política brasileira em manchetes que não ardem nos olhos e não irritam a alma sensível dos companheiros (só um pouco).


Leite derramado - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 21/10


Evidentemente não se pode atribuir à Justiça os defeitos nem se resolvem por meio de interferência legal os problemas decorrentes do uso de mistificação e da mentira nas campanhas eleitorais. Mas há parâmetros a serem observados a fim de se resguardar os limites da legalidade e, com eles, um grau razoável de civilidade entre os concorrentes.

Essa percepção parece ter levado o Tribunal Superior Eleitoral a adotar, desde a semana passada, uma atitude mais rigorosa nesta eleição. Suspendeu peças publicitárias dos candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves por serem consideradas de conteúdo meramente ofensivo e que fugiam do objetivo do horário eleitoral da apresentação das propostas e do perfil dos oponentes.

Decisão algo questionável, por inédita, uma vez que há exemplos de casos de propagandas agressivas em outras campanhas que não foram suspensas, e também por ensaiar um flerte com o controle de conteúdo - em português claro, censura.

Na realidade, o que o TSE fez foi tentar passar a tranca depois de a porta ter sido arrombada. Por falta de aviso não foi. Desde o início do ano passado o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello, por três vezes presidente do TSE nos últimos 20 anos, vem alertando para os riscos de uma tendência mais "flexível" em relação à legislação existente entre os integrantes do tribunal.

Vários deles se manifestaram contrários à interferência da Justiça no processo político, defendendo que o debate eleitoral transcorresse de maneira mais livre. Era a teoria da atuação mínima. Materializada, por exemplo, na liberdade dada à realização campanha antecipada. Quase um ano e meio antes das eleições, não obstante a lei só permita o início a três meses da data do primeiro turno da votação.

Os horários reservados aos partidos para que apresentem seus programas - e exclusivamente para isso - foram todos usados para enaltecer as figuras daqueles que viriam a ser oficializados candidatos nas convenções de junho último. Isso sem serem importunados pelo Judiciário.

No ano passado o ministro Marco Aurélio chamava atenção para o fato de que esse tipo de distanciamento por parte da Justiça abriria espaço para que nas eleições deste ano prevalecesse "a lei do mais ousado, do mais esperto". Assim ocorreu no primeiro turno com o PT em relação à candidata Marina Silva. Já no segundo, com o PSDB, o ambiente foi de "bateu levou".

Na opinião de Marco Aurélio, o TSE acordou tarde para o problema. "Pelo visto arrependeu-se, mas o fez em cima da hora, o que não permite a atuação da Justiça ser tão eficaz como poderia", diz ele, acrescentando que o limite às transgressões deveria ter sido imposto antes.

"A eleição é um período que se presta a paixões e se os candidatos percebem que a Justiça não age, a tendência é a de abusarem. Por isso consignei à época que deixei o TSE que o momento não seria o mais adequado para se aplicar flexibilidade com as normas jurídicas. Afinal, não vivemos na Suíça."

O ministro não concorda que o TSE esteja praticando censura ao vetar conteúdo de programas, pois na opinião dele a prática de "enxovalhar o perfil do adversário" conflita com a legislação e, portanto, sua proibição tem legitimidade. "O espaço reservado à discussão de ideias não abre campo para a desqualificação pessoal, muito menos de caráter calunioso."

Marco Aurélio envereda por um terreno tão delicado quanto polêmico ao aventar outra hipótese para o aumento da temperatura entre os candidatos à Presidência da República: "A perda de parâmetros em passado recente no Supremo Tribunal Federal". Refere-se aos debates acalorados comandados pelo ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento do processo do mensalão.

"Os termos das discussões na Corte não contribuíram para dar um bom exemplo aos demais cidadãos".

A hora da onça beber água - ARNALDO JABOR

O ESTADÃO - 21/10


Dilma Rousseff: seu duro passado de militância e luta lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela foi uma típica "tarefeira" da VAR-Palmares e hoje, como tarefeira do PT, ela quer realizar o sonho de sua juventude. Por isso, quer estatizar o que puder na economia, restos de sua formação... (eu ia dizer "leninista", mas é "brizolista").

Seus olhos fuzilam certezas sobre como converter (ou subverter) a pátria amada. Petistas e brizolistas acham que democracia é "papo para enrolar as massas", como já declarou um professor emérito da USP; ela idealiza o antigo "proletariado" e despreza a classe média "fascista", como acha outra emérita professora.

Ela desconfia dos capitalistas e empresários, ela quer se manter no poder e virar o PT num PRI mexicano; ela finge ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria, ela ama o Lula, seu operário mágico que encarnou o populismo "revolucionário".

Conheci muitas "dilmas" na minha juventude. As "dilmas" eram voluntariosas, com uma coragem irresponsável diante da muralha da ditadura. Professavam uma liberdade mais grave do que os hippies da época; era uma liberdade dolorosa, perigosa, sacrificial, suicida, sem prazer, liberdade e luta. Até respeitável.

Mas, para as "dilmas" e "dirceus" do passado, a democracia era uma instituição "burguesa". Ela se considerava e se acha ainda "membro" (ou "membra"?) de uma minoria que está "por dentro" da verdade, da chamada "linha justa" que planejava um outro tipo de "liberdade" (Lenin: "É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente" ).

Ela se julgava e se julga superior - como outros e outras que conheci (inclusive eu mesmo - oh, delícia de ser melhor que todos; oh, que dor eu senti ao perder essa certeza...). Nós éramos os fiéis de uma "fé cientifica", uma espécie de religião da razão que salvaria o mundo pelo puro desejo político - éramos o "sal da terra", os "sujeitos da história". Toda a luta progressista de hoje se trava entre a esquerda que amadureceu e ficou socialdemocrata e a esquerda que continua na ilusão de 63. A velha esquerda brasileira existe como nostalgia de uma esquerda que desapareceu.

Dilma foi executiva da comissão de frente que organizou a aliança de Lula com a liderança sindicalista pelega e com a direita mais vergonhosa do País, liderada por Sarney et caterva. Como era "trabalhadeira", Lula se impressionava com ela (ele que odeia o batente) e transformou-a em um "poste" que se revelou persistente no erro, com a típica burrice dos teimosos.

E aí ela começou a governar com um medidas e táticas pretensamente "socialistas" em um país capitalista. Dá em bolivarianismo, esse terror contra o povo da Venezuela.

A "claque" sindicalista que subiu ao poder nunca desistiu de seus planos; suas mentes são programadas para repetir as mesmas táticas. A esquerda velha continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", de Estado-pai, ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições.

Muitos riquinhos e mauricinhos hoje dizem que votam na Dilma porque ela seria "contra a pobreza". Não sabem de nada, tinham 10 anos quando FHC fez o Plano Real contra a vontade do PT e seus aliados. Hoje, esses mauricinhos se dão ao luxo de se sentirem de "esquerda", antes de irem para a balada.

São absolutamente ignorantes sobre política e acham o PT um partido de "esquerda", quando é claramente de "direita" ("É a economia, estúpidos!" - James Carville, assessor do Clinton contra Bush).

O povão do Bolsa Família não pode entender isso, mas esses babacas que estudaram deviam ser menos primitivos. Os petistas dão graças a Deus que muitos de seus eleitores não sabem ler. Por exemplo, eles não têm ideia do que seja o escândalo da Petrobrás e do aparelhamento do Estado cleptomaníaco que foi montado. Não entenderam nem o mensalão, pois, como disse o Lula, "povo pensa que dossiê é doce de batata". Votarão no escuro de suas vidas. Como se explica isso?

Resposta: o País tem um movimento "regressista" vocacional. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista, para gáudio dos seus exploradores. E o PT aproveita.

A crescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: "complexidade é frescura, o negócio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista" (Lenin: "Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país").

O Plano Real e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos são tratados como se fossem uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas públicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. Não houve um lampejo de reconhecimento pelo país que FHC deixou pronto para decolar e que foi desfeito (Stalin: "A gratidão é um sentimento de cachorros...").

Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático. Querem fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um "patrimonialismo de Estado". Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica.

Não esqueçamos que o PT não assinou a Constituição de 88, combateu a Lei de Responsabilidade Fiscal, foi contra o Plano Real para depois roubá-lo como se fosse obra do Lula. Alardeiam coisas novas que "vão" fazer, se eleitos de novo mas, pergunta-se: por que não fizeram nada durante doze anos?

É isso aí, bichos... Se Dilma for eleita, teremos o início de um bolivarianismo "cordial".

Voto a voto - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 21/10
A virada na eleição presidencial constatada pelo Datafolha na pesquisa divulgada ontem ainda não é definitiva a favor da presidente Dilma, mas sinaliza uma tendência que pode ganhar velocidade até o próximo domingo, dia da eleição. Mesmo essa tendência, porém, precisa ser ainda confirmada, e as próximas pesquisas, quase diárias e de institutos diferentes, marcarão a evolução do eleitorado nestes últimos dias de campanha.

Ganha relevância maior, neste caso, o debate a ser promovido pela Rede Globo na sexta- feira, último dia da campanha eleitoral. Além desse detalhe de calendário, o debate terá a novidade em relação aos demais de colocar eleitores indecisos para fazer perguntas aos candidatos, o que pode ser fundamental na hora de definir o voto. Pesquisa recente do Datafolha mostra que parte do eleitorado decidiu no primeiro turno entre o sábado e o domingo da eleição, o que teria provocado os erros dos institutos de pesquisa.

O empate técnico ainda se mantém, mas o fato é que houve uma inversão de posições na liderança que demonstra uma alteração de quadro importante. Dilma Rousseff ganhou 3 pontos percentuais nos votos válidos, que, tirados do concorrente direto, podem significar um ponto de inflexão.

Mesmo que já não seja mais aquela militância aguerrida de outros tempos, a do PT tem mais história que a do PSDB, cujos eleitores serão testados nestes últimos dias de campanha. Há uma tese de que parte dos eleitores tucanos não revela seu voto nem nas pesquisas, para não sofrer pressão, e esse "voto oculto" poderia fazer a diferença na hora decisiva.

Nunca houve tanta chance de derrotar o PT quanto agora, mas a resiliência da candidatura de Dilma Rousseff, que não é a mais carismática das candidatas nem a mais amada entre seus próprios pares, mostra que ainda existe um forte sentimento petista no eleitorado, que mistura os ideológicos com os beneficiários dos programas sociais temerosos de perder as vantagens, e uma classe média que não quer arriscar o que já ganhou, os dois últimos grupos influenciados pela propaganda negativa desencadeada pela campanha petista.

Caberá à campanha de Aécio Neves tentar convencer os eleitores de que essa propaganda de boatos e ameaças do PT não corresponde à realidade, além de não deixar seus eleitores desanimarem na reta final. A propaganda petista teve sucesso em dois pontos cruciais até o momento: conseguiu reduzir a rejeição à presidente Dilma Rousseff, melhorando a aceitação de seu governo, e aumentar a rejeição a seu adversário, embora isso tenha sido alcançado através da mistificação e da boataria.

A disputa, neste momento, está sendo travada em estados em que o eleitorado mostrou-se dividido no primeiro turno: Rio de Janeiro e Minas Gerais. A presidente conseguiu manter uma pequena diferença no Rio, crescendo nesta reta final o suficiente para não deixar que o candidato tucano a superasse; e, em Minas, Aécio Neves ainda não abriu uma diferença tal que compense derrotas em outros estados e a melhoria da presidente Dilma em regiões onde o tucano vence, como no Sul.

Ganha enorme importância mais uma vez São Paulo, onde o PSDB está abrindo grande vantagem. Por isso a campanha petista nos últimos dias voltou a atacar o PSDB pela crise da água, um tema que não vingou na campanha para governador, mas que, com o agravamento da situação, pode tirar votos preciosos do tucano Aécio Neves.

Sai de baixo! - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 21/10

BRASÍLIA - Aécio Neves saiu bem do primeiro turno, como a grande novidade, e abriu bem o segundo, ultrapassando numericamente Dilma no primeiro Datafolha. A reviravolta desta segunda (20) vem numa hora muito ruim para o tucano --a hora da consolidação dos votos.

Essa pesquisa: 1) mostra que os ataques de Dilma estão dando certo; 2) pode mover milhões de indecisos ou votos infiéis pelo país afora. A dias da eleição, o ímpeto é votar em quem está na frente.

A campanha de Aécio estima crescer e até ultrapassar Dilma em Estados chaves como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de reduzir bastante a vantagem em Pernambuco, onde o tucano conquistou o apoio da viúva, dos filhos e dos aliados de Eduardo Campos.

É nesses quatro focos que Aécio pensa contrabalançar a desvantagem no Norte e Nordeste, redutos petistas, mas a estratégia parte da premissa de que os votos nos demais Estados estão cristalizados. Estão?

Dilma investe nos mesmos quatro --MG, RJ, PE e RS--, mas não descuida daqueles em que o PT é forte e nos quais ela já saiu vitoriosa no primeiro turno. Além de evitar a sangria em redutos que podem oscilar, como o Rio, quer se fortalecer (ou enfraquecer Aécio...) onde ela já é forte.

O interessante é que São Paulo, maior colégio eleitoral do país, entra de forma enviesada, mas é central na estratégia. É a maior vitrine da campanha de Aécio (que passou a se referir a Alckmin e a Serra nos debates), mas começou a ser também uma perigosa vidraça, por causa da crise da água. O confronto de Dilma não é mais com o governo FHC, é com o governo do PSDB em São Paulo, bem mais atual, convenhamos.

A campanha petista tem rumo, sabe aonde quer chegar e não tem o menor prurido de usar todo e qualquer meio para chegar lá. Está bem mais difícil dar certo com Aécio do que deu com Marina. Mas, com empate técnico, esses últimos dias serão de vida e morte. Sai de baixo!

Fora da cadeia - CELSO MING

O ESTADÃO - 21/10


A indústria brasileira não está apenas perdendo importância no PIB do País. Também vem perdendo participação nas cadeias globais de valor, se é que já esteve bem nesse filme. É o que apontou nesta segunda-feira em relatório a Organização Mundial do Comércio, a OMC, hoje presidida pelo diplomata brasileiro Roberto Azevedo.

O importante hoje não é propriamente produzir da matéria-prima ao produto acabado, como se pensava há alguns anos. A Tecnologia da Informação e as grandes inovações no transporte internacional criaram um novo ambiente e uma nova arrumação da produção, altamente fragmentados.
É mais importante produzir um chipezinho à toa ou até mesmo prestar um serviço que faça parte de um produto global do que seguir fabricando todos os componentes de uma mercadoria de consumo apenas local.

O Brasil está perdendo esse bonde porque, há mais de dez anos, o governo não entendeu esse processo. Aferrado a uma visão nacional-sindicalista da produção, aprofundou uma política industrial conservadora e protecionista que vai desembocando nas particularidades do consumo interno e não na integração global.

Na medida em que se baseia na proteção alfandegária e na criação de reservas de mercado, que abrangem quase sempre da matéria-prima ao produto final, o processo industrial brasileiro enfrenta custos altos demais, que tiram competitividade do setor. E, como não têm nem preço e quase sempre nem qualidade para competir internacionalmente, não há como produto intermediário e produto final se inserirem nas cadeias globais de valor.

A participação nessas cadeias exige uma estrutura de tarifas alfandegárias baixas, para que a indústria possa incorporar matérias-primas e produtos intermediários importados que depois serão reexportados. No entanto, como mostra o estudo da OMC, o País acabou sendo relegado à posição dos lanternas das cadeias globais de valor. (Veja a tabela do Confira)

A explicação para mais esse mau desempenho do Brasil não está no relatório da OMC, mas é conhecida. Agarrado a seus parceiros do Mercosul, principalmente a Argentina, o País continua se fechando comercialmente e, na medida em que se fecha, vai ficando fora do jogo.

Durante todos esses anos, o governo Dilma não percebeu a importância do novo processo. Não apenas desestimulou a costura de novos acordos comerciais que abrissem o mercado do setor produtivo a novos negócios, como tratou de defender o mercado interno para o produtor nacional, no pressuposto de que, dessa maneira, criaria condições para o aumento de escala para a indústria.

Aconteceu o contrário. Travado pelos custos, o setor não conseguiu competir lá fora e perdeu cada vez mais fatias de mercado para o produto importado, apesar do forte protecionismo interno.

Em geral, os dirigentes da indústria e alguns dos seus economistas continuam argumentando que esse alijamento do setor produtivo se deve à “persistência de um câmbio fora de lugar” e não à baixa competitividade, resultado causado por outros fatores, que nenhum câmbio possível será capaz de compensar.

Amplos desdobramentos do escândalo na Petrobras - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/10

A SEC, agência do mercado de ações e títulos nos EUA, abriu investigação sobre o caso, e ainda falta conhecer a lista de políticos do esquema de corrupção



A visão conspiratória de que o escândalo na Petrobras obedeceria a um enredo sob encomenda para desestabilizar a candidatura de Dilma Rousseff não sobrevive a um mínimo de bom senso. O andamento das investigações da Operação Lava-Jato, da PF — a que devassou os laços entre o doleiro Alberto Yousseff e o diretor da estatal Luís Roberto Costa —, precisaria se articular com o calendário de interrogatórios na Justiça e MP, alguns sob supervisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo, para produzir um noticiário negativo ao governo do PT em setembro e outubro.

O noticiário existe, mas por outro simples motivo: porque o escândalo do superfaturamento de contratos de empreiteiras com a Petrobras, para financiar propinas e caixa dois de políticos e campanhas, se configura mesmo como de grandes proporções. Tanto que se prevê a divulgação de informações ainda mais danosas ao PT — e não apenas para ele — tão logo o segredo de justiça sobre depoimentos que envolvam acusados com foro privilegiado, políticos em cargos eletivos, seja suspenso. O pior ainda estaria por acontecer.

A amplitude do escândalo é tal que, segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, Roberto testemunhou que até mesmo o então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, teria recebido suborno do esquema, em 2009, para ajudar a inviabilizar uma CPI sobre a Petrobras. Morto há sete meses, Guerra não pode se explicar.

A história ficou ainda mais séria porque Dilma, no sábado, admitiu que houve “desvio de dinheiro público” na Petrobras, ao afirmar em entrevista que se desdobrará para “ressarcir o país”. É algo inédito, porque nunca foi admitido formalmente por alguém do PT qualquer malfeito de militantes. Até hoje, com mensaleiros em cumprimento de penas, não se reconhece sequer que houve o mensalão. Pode ser uma manobra eleitoreira para tentar reduzir danos à campanha de Dilma, causados pela pecha de corrupto que parece pespegar no PT, não bastasse ter sido ela presidente do conselho de administração da empresa. O resultado prático da afirmação da candidata, porém, é a confirmação definitiva do escândalo.

Desdobramentos começam a ocorrer. Nos Estados Unidos, a SEC (Securities and Exchange Commission), agência responsável pela fiscalização do mercado de ações e títulos, instaurou investigação sobre o caso. Afinal, recibos de ações da Petrobras são negociados em Nova York, e seus detentores terão sido lesados pela retirada fraudulenta de recursos do caixa da estatal. Entre as vítimas também estão os acionistas brasileiros, em que se destacam trabalhadores que investiram o FGTS nas ações da empresa. Missão para a CVM.

Para o ano que vem, primeiro do próximo governo, já está contratada a turbulência a ser causada pela divulgação da lista de políticos financiados por esse dinheiro sujo, a ser avaliada pelo Supremo e Ministério Público. O escândalo, então, ainda evoluirá bastante.

O perigo da volta da indexação salarial - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/10

A experiência prática mostra que uma alta de preços de até 5% é o limite tolerável pela sociedade. Por isso, é importante buscar a meta (4,5%)


A meta de inflação estabelecida pelo governo, há anos, é de 4,5%, com dois pontos percentuais de tolerância para menos ou mais. Não se trata de um percentual escolhido abstratamente. A experiência prática mostra que, quando a inflação ultrapassa os 5%, a sociedade passa a buscar em mecanismos de indexação uma forma de se defender da corrosão do valor da moeda. E, com isso, a inflação acaba se tornando mais resistente, com a alta de preços incorporando um componente de autoalimentação.

Assim, 4,5% seria o limite que a sociedade é capaz de suportar. Devido a problemas estruturais crônicos da economia, haveria também dificuldade de se perseguir uma inflação mais baixa. O centro da meta deveria ser, então, buscado obstinadamente pelo governo. No entanto, desde o início do mandato da presidente Dilma, o índice oficial que baliza a meta (o IPCA, que mede a variação média do custo de vida de famílias com renda de até 40 salários mínimos mensais), apurado pelo IBGE, tem permanecido no intervalo superior de tolerância de dois pontos percentuais, chegando, em vários momentos, a ultrapassar o teto de 6,5% em doze meses, como acontece agora.

Em uma conjuntura de baixos índices de desemprego, a pressão por mais indexação se torna crescente nas negociações salariais, restivando a antiga corrida entre preços e salários.

Com exceção do salário mínimo, todos os demais estão hoje desindexados por força de lei. São definidos por livre negociação, com reajustes coletivos com prazo mínimo de um ano. A regra foi definida pelo Plano Real exatamente para desarmar um dos mais resistentes mecanismos de indexação com forte efeito de autoalimentação da inflação.

No entanto, o fato de o IPCA ficar acima de 5% ser mais uma constante do que uma exceção fez com as negociações salariais muitas vezes caiam em impasse, cabendo à Justiça trabalhista arbitrar o valor do reajuste, que nunca é inferior à inflação.

A única maneira de desarmar novamente esse processo perigoso de reindexação é a política de metas de inflação recuperar credibilidade. Para tal, os agentes econômicos e a sociedade em geral precisam ser convencidos de que não só o Banco Central mas todo o governo esteja efetivamente empenhado em fazer com que a inflação convirja para a meta dentro de um horizonte realista e viável, em vez de se constituir apenas numa promessa.

O Banco Central até que elevou as taxas básicas de juros para 11% ao ano, que não é um patamar desprezível em termos de aperto monetário. No entanto, na outra ponta o governo não para de pisar no acelerador dos gastos públicos, executando uma política fiscal claramente expansionista. Nesse contexto, as autoridades não podem se queixar da volta da indexação. Era previsível.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

PERDA SALARIAL NA PETROBRAS SOMA 35% NA ERA PT

Consulta aos Acordos Coletivos de Trabalho revela que os salários dos empregados da Petrobras perderam 35% do poder de compra desde que o PT chegou ao poder. Remuneração do “nível 201” da estatal era R$ 341,49 em 2002 e equivalia a 1,4 salário mínimo da época (R$ 240), mas o acordo que vigorou até 31 de agosto de 2014 garantia só R$ 669,21 aos empregados, bem menos que o atual mínimo de R$724.

NATA TAMBÉM PERDEU

Empregados do “nível 774” recebiam R$ 4.603,52 ou 19,1 mínimos em 2002. Hoje, recebem R$ 9.021,50, equivalente a 12,4 mínimos.

NEM A INFLAÇÃO

Durante os 12 anos de PT, a Petrobras não conseguiu repor sequer as perdas com inflação. O salário subiu 96%, com inflação de 108,8%.

OVO GARANTIDO

O único item com ganho real foi alimentação. Em 2002, auxílio-almoço na Petrobras era de 99% do mínimo. Hoje equivale a 106%.

TUDO DIMINUIU

Como a maioria dos benefícios e vantagens concedidos pela Petrobras equivalem a percentual do salário, tudo é comprometido.

BAIXARIAS TERÃO DIREITO DE RESPOSTA

O ministro Dias Toffoli, presidente do TSE, decidiu convocar plantão a partir da noite de sexta-feira (24), último dia de propaganda eleitoral no rádio e TV. Ele também abriu prazo de quatro horas, a partir da exibição dos últimos programas, para o caso de desrespeito à proibição de baixarias. Direitos de resposta podem ser concedidos para serem exibidos no sábado, véspera do segundo turno.

EFEITO DOMINÓ

Deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) acha que “é só o começo” a denúncia envolvendo a ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT) no Petrolão.

DELAÇÃO PREMIADA

O delator Paulo Roberto Costa revelou que o esquema corrupto destinou R$ 1 milhão para Gleisi e o marido Paulo Bernardo, em 2010.

QUEM?

Gleisi e o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) afirmam, como os demais delatados, que nem conhecem Youssef ou Paulo Roberto.

PARTIDO MILIONÁRIO

Dinheiro para o PT não é problema, como diriam Alberto Youssef, o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o tesoureiro petista João Vaccari. O partido aumentou em R$ 40 milhões a previsão de gastos nos últimos 5 dias. No total, serão R$ 338 milhões. Isso no caixa 1.

CAMPANHA CARA

A campanha do PSDB a presidente não fica muito atrás, em termos de gastos previstos. O partido informou ao TSE a previsão de gastos de até R$ 290 milhões para tentar eleger Aécio Neves presidente.

OTIMISMO TUCANO

Os tucanos começaram a semana otimistas: ontem, no começo da noite, o candidato Aécio Neves liderava com 52 x 48% no tracking interno. Trata-se de medição diária de até 2 mil entrevistas, que apontaria a tendência do eleitorado.

DIFERENÇAS

A ministra da Economia do Japão renunciou após denúncia de uso abusivo de verbas para despesas pessoais. No Brasil, desde o governo Lula, cartões corporativos são usados para pagar tapioca, hotéis e restaurantes de luxo, salão de beleza, gasolina, reforma de casa...

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

A turma da teoria da conspiração está a mil. Surgiram boatos de internação hospitalar de Lula, para provocar comoção, e até mesmo da simulação de um atentado contra Dilma.

CISCANDO PARA DENTRO

Após receber Aécio, Alckmin e Beto Richa, o candidato ao governo do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB) terá apoio do senador eleito José Serra e do governador eleito Pedro Taques (PDT).

EU ACHO É POUCO

Apesar de liquidado em Pernambuco, sem eleger um único deputado federal, o PT tenta promover ato expressivo pró-Dilma no Recife, nesta terça-feira (21), com o apoio do bloco carnavalesco “Eu acho é pouco”.

SEGURAR A VOTAÇÃO

O vice Michel Temer espera levar Dilma esta semana a eventos de campanha no Norte, onde o PMDB disputa segundo turno com Helder Barbalho (PA), Confúcio Moura (RO) e Eduardo Braga (AM).

PENSANDO BEM…

…que atire a primeira pedra o candidato que não tiver parentes agarrados em boquinhas no serviço público.


PODER SEM PUDOR

IDENTIDADE REVELADA

O jornalista Carlos Zarur era presidente da Radiobrás e devedor da família e de si mesmo alguns momentos de descanso. Escolheu o paradisíaco litoral de Maceió, onde alugou uma casa que era um achado: mobiliada, bem conservada, redes na varanda e o mar de Ipioca beijando-lhe o jardim.

Quando abriram um armário, Zarur e a esposa caíram na gargalhada: lá encontraram, digamos assim, a identidade da dona da casa.

Eram toalhas bordadas com o nome de Denilma, a ex-primeira-dama de Alagoas que - reza a lenda - foram muito úteis para manter na linha o maridão Geraldo Bulhões.


segunda-feira, outubro 20, 2014

Molecagem! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 20/10

Qual Lula é o verdadeiro? O bem-educado que aparece no programa de propaganda eleitoral de Dilma na televisão, defende os 12 anos de governos do PT e, ao cabo, sorridente, pede votos para reeleger sua sucessora? Ou o moleque de rua que pontifica em comícios país afora, sugerindo, sem ter coragem de afirmar diretamente, que Aécio é capaz, sim, de dirigir embriagado, agredir mulheres e se drogar?

O SEGUNDO É o mais próximo do verdadeiro Lula. Digo porque o conheço desde quando era líder sindical. Lula é uma metamorfose ambulante. Não foi ninguém quem o disse, foi ele quem se rotulou assim. A esquerda tudo perdoaria a Lula desde que chegasse ao poder. Chegou, cavalgando-o. Urna vez lá, corrompeu-se. Quanto a ele... Não sabia de nada. Nunca soube.

JUSTIÇA SEJA FEITA a Lula: por desconhecimento de causa e preguiça, ele jamais compartilhou as ideias da esquerda. Assim como ela se aproveitou dele, Lula se aproveitou dela. Um casamento não por amor, mas por interesse. Na primeira reunião ministerial do seu governo em 2003, Lula se irritou com um ministro e desabafou: "Toda vez que me guiei pela esquerda me dei mal"

RETIFICO: ELE NÃO disse que se deu mal. Usou um palavrão. Nada de mais para o sujeito desbocado que nunca pesou o que diz. Grossura nada tem a ver com infância pobre. Lula é um sucesso do jeito que é. Mudar, por quê? Todos admiram sua astúcia. Muitos se curvam à sua sabedoria. E outros tantos temem ser apontados como desafetos do retirante nordestino que se deu bem.

UMA DAS CHAVES do sucesso de Lula é a coragem de dizer o que lhe apetece - às favas a verdade. No último sábado, em comício em Belo Horizonte, Lula disse que nunca foi grosseiro com adversários. Textualmente: "Não tive coragem de ser grosseiro contra Collor, Serra, Alckmin, Fernando Henrique. Pega uma palavra minha chamando candidato de mentiroso e leviano" É fácil.

LULA CHAMOU SARNEY de ladrão. E Itamar Franco de filho da puta. Resposta de Itamar em maio de 2003: "Gostaria de saber o que aconteceria se a situação fosse inversa, ou seja, se esse indivíduo arrogante e elitista fosse o presidente da República, e alguém lhe chamasse disso. (...) Minha mãe se chamava Itália Franco. Mas, fosse um filho da p., certamente teria por ela o mesmo amor filial'!

VOCÊ PENSA QUE Lula ficou constrangido com a resposta de Itamar? Foi ao velório dele. Assim como foi ao velório de Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique. Chorando, lançou-se aos braços do ex-presidente. Pouco antes da morte de Ruth, a Casa Civil da então ministra Dilma montara um dossiê sobre despesas com cartão de crédito do casal FH. Depois, a ministra se desculpou.

LULA NÃO É HOMEM de se desculpar. Nem mesmo quando trata um assessor a pontapés. Como governador de Minas Gerais, no auge do escândalo do mensalão, Aécio lutou para que o PSDB não pedisse o impeachment de Lula. Conseguiu. Mais tarde, Lula tentou convencê-lo a aderir ao PMDB para disputar a Presidência com o seu apoio. Aécio não quis.

DE VOLTA AO COMÍCIO de Belo Horizonte. Antes de Lula falar, foi lida a carta de uma psicóloga acusando Aécio de espancar mulheres e de ser megalomaníaco. Ele ainda foi chamado de "coisa ruim'," "cafajeste" e "playboy mimado" Por fim, a plateia foi ao delírio ao ouvir Lula dizer sobre o comportamento de Aécio em debates: "A tática dele é a seguinte: vou partir para a agressão. Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo"

domingo, outubro 19, 2014

Ataques à História - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 19/10

Como na obra de George Orwell, governo tenta reescrever a História recente do Brasil. Deveria ser a safra dos debates profundos sobre o país, sobre suas dificuldades reais e a procura de solução para os inúmeros problemas que já existem e os que podem ser previstos. Mas os marqueteiros vestem a realidade com frases de fantasia, confortáveis para os candidatos, e afiam armas. Alguns fatos são deturpados e a história recente é reescrita até ficar irreconhecível.

É óbvio que foi o ex-presidente Fernando Henrique quem venceu a hiperinflação. Foi ele quem levou para o governo Itamar Franco os economistas com a tecnologia e a destreza para montar um plano que atendia a dois pedidos dos cidadãos: ser feito às claras, sem sustos e perdas, e matar o dragão que sobrevivera a cinco planos e devorava as finanças das famílias. Foi FH quem superou os desafios para consolidar o real e começou a reorganizar o estado. Acusar aquele governo de inflação alta é desonestidade.

Na distopia de George Orwell, 1984, os poderosos reescrevem a história. Quem viu a longa luta do Brasil para ter uma moeda estável sabe quem liderou a vitória sobre a inflação e lembra dos benefícios dessa conquista para as pessoas.

As ideias do PT sobre o combate à inflação eram toscas e perigosas. Seus economistas defenderam teses que nunca deram nem dariam certo; ou, o que é pior, um plebiscito sobre pagar ou não a dívida interna. Não pagá-la seria tomar o dinheiro de quem investiu em títulos públicos, como fez o ex-presidente Collor. O plebiscito e uma auditoria nas aplicações dos brasileiros foram defendidos pelo PT dois anos antes de assumir o poder. Se aplicasse o programa em 2003 teria destruído o real. Cotejar números descarnados dos fatos é um desrespeito à memória do país.

O PT não faria a estabilização e hoje a ameaça. Não são "choques de preços" que explicam a inflação estar acima do teto da meta. Inesperados sempre ocorrem e é por isso que existe a margem de flutuação. O governo atual aceitou uma inflação mais alta. A taxa passou o mandato inteiro arranhando ou furando o teto, porque perdeu o espaço para acomodar os choques. O PT deve a Antonio Palocci e à ajuda de Arminio Fraga ter vencido as naturais desconfianças sobre a capacidade do partido de conduzir a economia. Arminio socorreu o país em dois momentos-chave: ao assumir o Banco Central no meio da crise cambial, em 1999, e na transição política, em 2002. Ninguém é obrigado a gostar dele, mas esses são os fatos.

Da mesma forma que o PSDB tem o mérito de ter atendido a demanda do país por uma moeda estável; o PT tem o mérito de ter atendido a demanda do país por redução da pobreza e da miséria, e por ter ampliado os programas de renda mínima. Quem começou a defendê-los como política pública foi o senador Eduardo Suplicy. Repórteres iam ouvi-lo sobre qualquer assunto, e tinham uma aula sobre as políticas de transferência de renda.

Estudos foram feitos por especialistas em combate à pobreza. A política foi testada em municípios dirigidos por partidos diferentes: Campinas, PSDB; Brasília, PT; Belo Horizonte, PSB. Quando chegou ao governo federal, o valor da bolsa era pequeno. Mas aquela experiência trouxe dois avanços: iniciou a montagem de um cadastro dos beneficiários e vinculou o benefício à presença na escola. Outra preocupação do governo FH é que a bolsa não fosse vista como uma concessão partidária, mas um direito do cidadão.

A ideia inicial do PT, o Fome Zero, seria um retrocesso: era entregar selos para serem trocados por comidas, como os "food stamps", política testada nos Estados Unidos na Depressão e que virou programa social a partir dos anos 1960. O Fome Zero não saiu do papel, o governo corrigiu a rota e criou o Bolsa Família. A presidente Dilma colocou os focos nos mais pobres e o governo dedicou-se à busca ativa, que é procurar os que mais precisam. Prisioneiros das armadilhas do Brasil profundo, eles não tinham sequer noção dos seus direitos. A estabilização e a redução da pobreza são conquistas do país que nenhum governo deve ameaçar.

O combate à corrupção é uma demanda do Brasil e a presidente Dilma a enfraquece quando bate no peito e diz "a minha Polícia Federal". Lembra muito a frase: "o Estado sou eu".


Voto de cabresto oficial - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 19/10


A primeira pauta pós-eleições será necessariamente a Petrobrás, diante da perspectiva da publicidade da delação premiada do ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, cujos vazamentos parciais indicam um escândalo político sem precedentes.

Juntados esses vazamentos, que incluem nomes expressivos do quadro partidário brasileiro, com o depoimento de Costa não submetido ao segredo de justiça, tem-se um duto de recursos públicos desviados para irrigar campanhas e políticos de PT,PMDB e PP, o que pode alcançar as campanhas da presidente Dilma de 2010 e a atual, ainda que à revelia da candidata.

É um quadro que seria avassalador para qualquer governo em campanha pela reeleição, dado que o tempo de mandato do PT soma 12 anos, dando-lhe o monopólio dessa gestão marginal em favor do partido e de aliados. Com um tesoureiro cumprindo pena pelo mensalão, o partido já tem o segundo na mira da justiça.

O que diferencia o esquema sob investigação de outros ao longo da história política nacional é a sua característica sistêmica, como pilar de um processo de sustentação política de um projeto de permanência no poder, abrangendo três grandes partidos da base governista.

A recente informação de que a Petrobrás poderá sofrer sanções nos Estados Unidos, onde a legislação prevê consequencias mesmo para empresas estrangeiras lá sediadas, estende as investigações ao plano internacional, um sólido sinal de consistencia do conteúdo da delação do ex-diretor da estatal no Brasil.

Tal cenário leva a outra questão: como o governo, em condições tão adversas que inclui ainda a economia em recessão técnica e alta rejeição da candidata, pode alcançar índice próximo a 50% na disputa e aponto de torná-la tão acirrada?

Aqui entra o dado essencial: o bolsa família. O programa dá ao PT o conforto de um patamar de largada eleitoral de 34,6% em qualquer eleição. São 13.738.798 famílias beneficiadas, estimando-se 1,6 eleitor por cada uma, e considerando-se que 85% dos beneficiários votam com o governo, tem-se aí 14,9 milhões dos 43,3 milhões de votos obtidos por Dilma no primeiro turno, já subtraídas as abstenções totais.

É o maior voto de cabresto de que se tem notícia e que explica a falsa conotação ideológica no confronto sul-sudeste versus nordeste, que o PT explora como a luta entre ricos e pobres, a partir do monopólio do programa que se tornou arrimo eleitoral do partido.

Por isso, a oposição considera indispensável que já no próximo ano seja feita uma reforma conceitual no programa Bolsa Família, de maneira que ele se torne uma ação de Estado e não de governo, via emenda constitucional.


Entre a promessa e a propina - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 19/10


Paremos para pensar: Paulo Roberto Costa só terá sua pena reduzida se o que disser for verdade


Faltando sete dias para que decidamos, com nosso voto na urna, quem governará o país, parece-me necessário nos lembrarmos de que nem sempre o nosso interesse pessoal imediato corresponde ao interesse da sociedade.

E que, por isso mesmo, muitas vezes, ao votarmos só pensando em nosso interesse próprio, votamos contra nós mesmos.

É exatamente desse equívoco que se valem os políticos espertos, que visam o poder pelo poder. A nós, cidadãos, cabe distinguir entre esse tipo de político e o outro, imbuído de espírito público, que deve merecer nosso voto.

Entendo que nem sempre é fácil perceber, no que dizem os candidatos, o que é sincero e o que corresponde a intenções honestas do que é mera embromação. Mas não é impossível, desde que avaliemos, com objetividade, as promessas que fazem, se o que prometem é factível, como têm atuado e quais são os seus aliados.

Dá trabalho, mas compensa, porque só assim se evita que mais vigaristas se tornem legisladores ou governantes.

Esse cuidado, infelizmente, não tem estado presente na escolha que os eleitores fazem dos candidatos. A prova disso está no que a imprensa tem divulgado e que, por incrível que pareça, ainda nos espanta.

Um jornal publicou recentemente a seguinte notícia: quase metade dos candidatos mais votados nestas eleições de agora estão sob investigação policial.

A reportagem informava que 40 dos 108 deputados federais mais votados e senadores eleitos para a próxima legislatura estão sendo investigados pela polícia ou pelo Ministério Público.

As acusações vão desde o desvio de recursos públicos e improbidade administrativa a crime de tortura e falsidade ideológica. Entre os suspeitos, estão ex-governadores, ex-ministros, parlamentares reeleitos e que foram eleitos pela primeira vez.

Todos eles, portanto, detentores de mandatos populares para fazer leis que pautarão a vida de todos nós. E isso, muito embora exista a Lei da Ficha Limpa, que pretende impedir a eleição desse tipo de políticos.

O que se pode esperar de pessoas como essas, transgressoras das leis e dos princípios éticos?

São personagens como esses que se valem da autoridade que lhes foi delegada para infiltrar-se nas empresas estatais e nos ministérios e usá-los em proveito próprio e dos partidos a que pertençam.

É o caso espantoso do que ocorreu na Petrobras e que, a cada dia, escandaliza mais a nação. Às revelações envolvendo figuras e partidos do governo, a presidente da República alegou não poder levar em conta acusações sem prova.

Por sua vez, o PT, principal implicado, tratou de qualificar as denúncias de calúnias.

Paremos para pensar. Essas acusações foram feitas por Paulo Roberto Costa, como delação premiada, que só terá sua pena reduzida se o que disser for verdade.

Se não for, ele não ganhará nada com isso, a não ser, para o resto da vida, o ódio daqueles que acusou injustamente. Para fazer isso, o cara, além de corrupto, teria que ser débil mental.

Sucede que, depois daquelas denúncias, foi divulgado um vídeo em que Paulo Roberto confirma o que foi divulgado antes, acrescentando que as propinas eram de 3% do valor dos contratos firmados entre as empreiteiras e a Petrobras, o que montava a muitos milhões de reais, dinheiro esse que era dividido entre PT, PMDB e PP.

O PT ficava com a maior parte (2%), que era entregue a João Vaccari Neto, tesoureiro do partido. Esse dinheiro, em 2010, financiou a campanha eleitoral do partido, cuja candidata à Presidência da República era Dilma Rousseff.

Sem mais poder negar a procedência das acusações, Dilma passou a afirmar que é graças a ela que a Polícia Federal tem combatido a corrupção, embora seja essa função da polícia que, para exercê-la, não necessita da permissão de ninguém.

Como se não bastasse, passou ela a pôr em dúvida a isenção da Justiça do Paraná, que apura os escândalos da Petrobras.

A Associação de Juízes Federais contestou a acusação de Dilma e a Procuradoria Geral da República, no Paraná, afirmou em nota oficial que a atuação da Polícia Federal e do Judiciário é "estritamente técnica, imparcial e apartidária".

Aconteceu há 12 anos... - SUELY CALDAS

O ESTADÃO - 19/10


O ex-presidente Lula negou ter convidado o economista Armínio Fraga para permanecer na presidência do Banco Central (BC) por mais algum tempo, quando se elegeu em 2002. A reconstituição dos fatos da época ajuda a entender por que Lula cogitou mas não oficializou o convite - erroneamente revelado pelo candidato Aécio Neves no debate da TV Band. Na verdade, a ideia de prolongar o mandato de Armínio no BC partiu de Antonio Palocci - principal coordenador da campanha de Lula e, depois, seu ministro da Fazenda - e ganhou força e adesões na cúpula do PT. Nas duas funções, Palocci teria de enfrentar a dificílima tarefa de acalmar empresários, investidores e o turbulento mercado financeiro, que ameaçavam jogar o Plano Real despenhadeiro abaixo e transformar a economia do País, sob Lula, num verdadeiro inferno.

A continuidade de Armínio no BC funcionaria como uma espécie de seguro, uma garantia para o mercado de que Lula não levaria adiante as maluquices que o PT pregou antes e durante os oito anos de governo FHC. Conversas com Armínio na civilizada transição de FHC para Lula (se Aécio vencer, Dilma Rousseff fará o mesmo?) convenceram Palocci da ideia, mas ela ganhou um opositor tão poderoso quanto ele: o ex-ministro José Dirceu, hoje prisioneiro em Brasília. Os dois alimentavam antiga rivalidade, acirrada na campanha, intensificada no governo e volta e meia intermediada por Lula. Este quase sempre dava razão a Palocci, mas desta vez acatou os argumentos de Dirceu: seria capitular diante do adversário e rival PSDB reconhecer a incompetência do PT de conduzir a economia e aderir sem disfarces ao que chamavam de neoliberalismo, tão criticado na campanha.

Aos fatos. Final de 2002. Ao longo do ano, o Plano Real viveu sua pior e mais grave crise: a Bovespa não parava de despencar, o dólar chegou a R$ 3,95 e o risco Brasil, a 2.500 pontos (comparando, no auge da crise de 2008 a taxa não passou de 250 pontos). As crises importadas do México, da Ásia, da Rússia, do ataque às Torres Gêmeas e da moratória argentina foram um leve sopro diante do vendaval destruidor do que ficou conhecido como "efeito Lula". De fora e dentro do País o ataque ao Real ficava mais forte a cada pesquisa eleitoral, a cada certeza da vitória do petista. As previsões para o ano eram terroristas: a inflação não ficaria abaixo de 50% (terminou o ano em 12,5%), tão cedo o Brasil não voltaria a tomar empréstimos no exterior e recessão e desemprego eram inevitáveis.

O candidato Lula percebeu o inferno que viveria seu governo e divulgou, em junho, a Carta ao Povo Brasileiro, em que assumia compromissos de respeitar contratos, combater a inflação e gerar superávits primários. Mas não convenceu o mercado, que só intensificava o ataque e tirava proveito do caos para especular e realizar lucros com a gangorra dos indicadores econômicos. Era uma situação que não interessava a FHC, que cumpria seu último ano de mandato e era obrigado a administrar uma crise que não criou, muito menos a Lula, que precisava do mínimo de estabilidade econômica para começar a governar.

Foi diante desse quadro que Palocci marcou um encontro entre Lula e Armínio Fraga, numa sala reservada do Aeroporto de Brasília. "Estou te entregando um país na UTI", avisou Armínio a Lula, descrevendo o quadro econômico e o que deveria ser feito para o doente melhorar e ganhar condições de, pelo menos, trocar a UTI pelo quarto. Lula e Palocci ouviram assustados e atentos. E Lula se convenceu a buscar um nome do mercado para o BC. Encontrou o tucano Henrique Meirelles.

Meses depois, já presidente, Lula relatou a sua versão da conversa com Armínio a um grupo de deputados. E gabou-se no costumeiro estilo fanfarrão: "Eles colocaram e eu tirei o País da UTI". Irritado com o relato parcial de Lula, o ex-presidente do BC respondeu em entrevista ao Estadão: "O País estava na UTI porque havia medo em relação ao futuro, e o futuro não estava em nossas mãos".

Já ministro, por vezes Palocci consultou Armínio para problemas que encontrava e ele nunca se negou a ajudar.