sexta-feira, setembro 19, 2014

Getúlio 'modernizou o Brasil'? - FERNÃO LARA MESQUITA

PARA PRESIDENTE VOTE AÉCIO NEVES 45


O ESTADO DE S.PAULO - 19/09


Com a chegada às livrarias do terceiro e último volume do Getúlio de Lira Neto, que começa com Gregório Fortunato comandando mais uma das sessões de "degolas sistemáticas", ao estilo Estado Islâmico, das sucessivas guerras da fronteira gaúcha e termina com o tiro no peito a que o encurralou esse mesmo filho da antiga cozinheira da família Vargas feito chefe da guarda pessoal do presidente ao levar o tradicional método de solução de problemas com desafetos de São Borja para a então capital federal no atentado contra Carlos Lacerda, já não há como sustentar enganos sobre o que foram Getúlio Vargas e os 24 anos que o Brasil viveu sob a mais longeva, violenta e corrupta das ditaduras de sua História.

Mesmo assim, Getúlio segue, nas discussões de muita gente séria, sendo apresentado como "o homem que modernizou o Brasil".

Não quero negar a Getúlio os traços de personalidade que pudessem tê-lo feito simpático e mesmo fascinante para aqueles que ele nunca teve motivos para temer ou de quem nunca tenha querido se livrar, mesmo não comungando a admiração que parece ter a maioria dos jornalistas brasileiros pela "matreirice" e pelo "embaçamento" sistemáticos diante de qualquer situação que exigisse uma tomada de posição clara, esse modo enviesado de cultivar a mentira tida como a sua maior qualidade "política".

Mas a pergunta é: "modernizou" quem, cara-pálida?

O homem que esteve no poder de 1930 até 1954 presidiu o Brasil no período em que o mundo inteiro passou por um processo intensivo de industrialização e urbanização. O que se quer insinuar, portanto, é que o Brasil não se teria industrializado se Getúlio não estivesse ali? Teria continuado para sempre agrário e quase medieval? Não se teria apercebido do que estava acontecendo à sua volta? Não conseguiria caminhar pelo novo padrão de desenvolvimento que se impunha ao mundo sem ele?

Essa, parece-me, é a visão dos que foram treinados desde sempre na visão distorcida de nossos primeiros historiadores pseudomarxistas que criaram a falácia de um Brasil sem empreendedores, só com demiurgos a moldar-lhe as decisões e o destino, que Jorge Caldeira, no seu brilhante e amplamente fundamentado estudo Um Brasil com empreendedores, provou com documentação abundante e demonstrações aritméticas conclusivas que nunca existiu, nem antes nem muito menos depois da onda de imigração europeia.

Petrobrás? Volta Redonda?

Que "modernização" foi essa, considerado tudo o mais com que nos foram servidas as nossas duas primeiras estatais, tumores que se têm provado até hoje inextirpáveis?

O que é que ele mirava quando instalou no País o sindicalismo e o capitalismo "pelegos", copiados da Itália de Mussolini: o Brasil para os brasileiros do futuro ou apenas a maneira mais segura de se manter indefinidamente no poder?

A verdade é o inverso: Getúlio condenou-nos ao atraso. Entortou irremediavelmente o Brasil no momento do nascimento da modernidade. Violentou a criança. Moldou-a para o crime.

Plantou uma forma sistêmica de corrupção da base da sociedade brasileira oferecendo-lhe, com a dobradinha do sindicalismo pelego com uma "Justiça do Trabalho" irreversivelmente torta, pautada por imperativos "classistas" - na verdade, tão aritméticos e eleitoreiros quanto as "bolsas" de Lula -, em lugar dos imperativos da verdade e da justiça, um apelo irresistível para a venalidade: "traia, minta, falseie que o governo garante".

Como resistir, no país onde o que foi contratado e acertado entre dois homens, por escrito ou no "fio do bigode", é letra que já nasce morta, quando o colega do lado, ao ceder à sedução de um advogado corrupto, aciona o patrão com base numa coleção de mentiras e arranca-lhe, sem medo de errar, mais do que ganhou trabalhando anos a fio?

Lula tem razão: somos todos corruptos no Brasil que Getúlio nos legou. Daí a corrupção "não colar" como fator decisivo de eleições: é contra a lei ser honesto no Brasil. Não se consegue transitar por suas instituições sem se corromper.

Contratar trabalho no que Getúlio fez do Brasil é condenar-se à chantagem certa. Têm custado a cada ano, somente as condenações passadas a cada 365 dias, R$ 50 bilhões às empresas brasileiras os litígios com seus empregados e ex-empregados. Mas o passivo acumulado, só nesse quesito, é maior que o PIB nacional. Bem mais que a metade dos advogados do Brasil, os supostos agentes da Justiça, aliás, dedicam-se a operar diuturnamente essa ordenha certa; a levar cada brasileiro pela mão pela trilha que Getúlio abriu e dividir com ele o produto do assalto.

Na ponta de cima não é diferente. Lá, no território do sucesso, onde a presença do dinheiro grosso já tem o efeito corrosivo natural que tem em toda parte, nos aproximamos do que é o resto do mundo, em matéria de corrupção, só que com os agravantes da impunidade ampla, geral e irrestrita. Nossos corruptos seguem podendo exibir livremente o seu sucesso, o que é altamente subversivo.

Mas também aí Getúlio inovou ao sinalizar que o grande capitalismo, aqui, é só o de compadrio. Não é apenas depois do sucesso, com o dinheiro que dele advém, que a corrupção pesada se instala. É antes. Da outorga das indústrias de base aos amigo do regime da "Era Getúlio" aos "campeões do BNDES" de hoje há um caminho reto que torna facilmente possível - descartadas as raras exceções que confirmam a regra - traçar a genealogia de cada grande fortuna privada do País até a raiz do governante que proporcionou a algum amigo/financiador de campanhas a oportunidade de amealhá-la sem fazer muita força.

Até há pouco tempo, em economias nacionais "fecháveis" e "protegíveis", deu pra ir indo assim, apesar da miséria que isso custa. Mas dará para seguirmos refestelados nas nossas mentiras na economia globalizada, competindo com o mundo?

É hora de encarar a verdade: Getúlio não modernizou o Brasil. Ele o mantém preso ao passado como uma gigantesca e irremovível âncora. E não haverá hipótese de nos livrarmos dela antes que reconheçamos a sua existência.


Dilma, ignorância e espanto - REINALDO AZEVEDO

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FOLHA DE SP - 19/09


Se o PT não quiser cometer erro brutal, convém não se comportar como expressão de uma elite insensível


Ao combater Marina Silva com truculência, Dilma Rousseff mexe com forças cujo poder ignora. Consta que, na juventude, a presidente-candidata foi professora de marxismo. Huuummm...

Dada a sua inclinação para anacolutos, imagino que a tarefa dos alunos não fosse fácil. Até porque há dois Marx, né? O de "O 18 de Brumário" e "A Ideologia Alemã", por exemplo, é brilhante, goste-se ou não do que lá vai. O de "O Capital", ao qual Dilma se dedicava, é intragável e, já conversei com especialistas, às vezes, não faz sentido nem em alemão. Imagino o bruto traduzido para o português e depois filtrado pelo "dilmês castiço". É bem possível que a luta armada só tenha sido tentada no Brasil por erro de tradução e de leitura.

O povo que aparece nos manuais de esquerda é o inventado pela taxidermia socialista. Não tem vísceras nem alma, só palha. Faltar-lhe-ia um conteúdo, a ser preenchido pelas utopias redentoras. É destituído de verdade e de história.

Sua consciência possível, segundo essa visão, é a de classe, que lhe seria fornecida pelas vanguardas revolucionárias. A alternativa é a falsa consciência.

O que vai acima é uma caricatura realista de um partido socialista à moda antiga, como o PSTU, o PCO ou mesmo o PSOL, esses pterodáctilos que voejam na bondade do Fundo Partidário do "Estado burguês" que querem destruir. Lixo. O PT é outra coisa, bem mais pragmática, mas conserva a visão autoritária do que seja o povo.

Lula só representou um sopro de renovação nas esquerdas porque trazia um pouco de verdade à luta política. À época, eu tinha 16 anos e era da Convergência Socialista (origem do PSTU). Malhávamos sem dó aquele sindicalista porque o considerávamos reformista, despolitizado, cooptável, não revolucionário.

Eu endossava a crítica, mas... O que me incomodava um pouco é que ele lembrava meu pai, um operário. Os meus amigos socialistas da época, a exemplo de Dilma, nunca tinham visto o povo de perto.

Marina pertence à Família Silva, uma força política inventada por Lula. Ela não respondeu à pregação terrorista do PT sobre a suposta extinção do Bolsa Família com uma simples negativa. Foi buscar na memória o tempo em que os pais dividiam com uma penca de filhos um ovo, um pouco de farinha e algumas lascas de cebola. Quase chorou.

Pobreza pregressa não é categoria de pensamento nem fonte legitimadora de convicções e utopias. Mas, se o PT não quiser cometer um erro brutal (do seu ponto de vista; do meu, resta o divertimento), convém Dilma não se comportar como a expressão de uma elite insensível (outra criação de Lula), que reage com truculência quando o povo -Marina!- acorda e fala.

A procuradora de um ente de razão chamado "PT", onde o povo está empalhado, é, sem dúvida, Dilma. Mas a herdeira do Lula da Silva, com vísceras e história, que não cabe nos manuais esquerdopatas, é Marina Silva. O PT não tem como apagar da história de sua adversária o ovo, a farinha e as lascas de cebola. Marina sabe ser Lula. Mas Dilma só sabe ser Dilma.

É grande a chance de Marina segurar a cabeça de Dilma com a férrea placidez com que Davi exibe a de Golias num quadro de Caravaggio. No rosto do morto, um misto muito humano de ignorância e espanto.

A vaca e o brejo - MERVAL PEREIRA

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O GLOBO - 19/09
Como não existe almoço de graça, a conta começou a chegar. O resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) referente a 2013 mostra aumento da desigualdade de renda do trabalho, que estava estagnada em 2011 e 2012, e crescimento do desemprego no país, o que não acontecia desde 2009.
s críticos da atual política econômica se utilizam de urna definição sarcástica, em linguagem vulgar, para relacionar a crise que vivemos com a sucessão presidencial. Se referindo ao governo Dilma, dizem que "não há dúvida de que a vaca está indo paia o brejo. A questão é saber a distância do brejo e a velocidade da vaca"

Isto é, os resultados negativos desses quatro anos de desaceleração econômica são inevitáveis. O que não se sabe é se sua concretização no dia a dia do eleitor se dará a tempo de afetar a possibilidade de reeleição da presidente ou se os efeitos perversos do baixo crescimento dos últimos anos, com inflação em alta, só se farão sentir num próximo governo, talvez com Dilma à frente.

Para o economista Reinaldo Gonçalves, professor da UFRJ, a trajetória de distribuição foi influenciada pela conjuntura internacional favorável entre 2003 e 2008 e, a partir da crise internacional, desacelerou no Peru, interrompeu no Brasil ou reverteu, no Paraguai, a tendência de redução da desigualdade na América Latiria, fenômeno praticamente generalizado na região nesse período.

O Brasil experimentou melhora apenas marginal na sua posição no ranking mundial dos países com maior grau de desigualdade, entre meados da última década do século XX e meados da primeira década do século XXI, já que saiu da 4a posição no ranking mundial dos países mais desiguais para a 5ª posição.

No conjunto dos países que mostram melhores resultados quanto à redução da desigualdade, o Brasil ocupou, enquanto esse processo esteve em curso, a 3a posição, atrás da Venezuela (projeto de orientação socialista) e do Peru (projeto liberal), o que, para Gonçalves, demonstra que os programas sociais não encontraram barreiras ideológicas à sua execução.

Na redução da desigualdade de renda brasileira de 2001 a 2009, o fator fundamental foi que a renda per capita dos 10% mais ricos aumentou apenas 1,5% ao ano, e a dos 10% mais pobres, 6,8% por ano, o que era motivo de orgulho paia os técnicos do governo.

A piora em 2013 se deveu ao fato de que o aumento na renda dos 10% mais ricos ocorreu com mais velocidade do que entre os 10% mais pobres. Os rendimentos dos que ganham em média R$ 11.758 cresceram 6,3%, enquanto os com renda inferior a um salário mínimo avançaram 3,5%.

A Pnad mostra que o índice de Gini - indicador usado pela ONU para medir a desigualdade de renda nos países, e que quanto mais próximo de 0 indica melhor distribuição de renda - se mantinha estagnado desde 2011, tendo subido ligeiramente em 2013, após avanços continuados nos anos anteriores.

Para Gonçalves, não será surpresa se, no futuro próximo, ocorrer o aumento dos índices de desigualdade da renda no Brasil. Ele elenca uma série de razões para isso acontecer: a distribuição da renda foi incipiente no século XXI na América Latina; a redução da desigualdade se refere, em grande medida, aos rendimentos recebidos pela classe trabalhadora e não ao capital; não há registro de mudanças, nem mesmo incipientes, na distribuição funcional da renda (salários, lucros, juros e aluguéis); na ausência de mudanças na distribuição da riqueza e da renda (distribuição funcional), o poder econômico e o poder político continuam extraordinariamente concentrados e, de modo geral, alimentam sistemas políticos patrimonialistas, nepotistas e corruptos e geram subdesenvolvimento social e institucional em muitos países.

Gonçalves analisa as trajetórias de redução da desigualdade da renda na América Latina e constata que seguiram a "linha de menor resistência" Segundo ele, a queda vinha sendo determinada, em grande medida, pela interação dos seguintes fatores: transferências públicas de assistência social; política de salário mínimo; crescimento econômico; expansão do mercado de trabalho, num contexto internacional favorável até 2008.

Na fase descendente da economia mundial pós-2008, o Brasil se tornou vulnerável aos efeitos da situação econômica externa, que um dia o ex-presidente Lula classificou de "marolinha"," por uma razão, segundo Gonçalves: "Não há registro, pelo menos no Brasil, de mudanças estruturais" 

Gato por lebre - DORA KRAMER

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O ESTADÃO - 19/09


A eleição presidencial ainda está para entrar na fase da reta quase final para o primeiro turno de votação e o PMDB já ocupa espaço no noticiário com pose de fiador da estabilidade política, garantidor da boa governança.

“Sem o PMDB não se governa”, disseram nesta semana em entrevistas distintas o vice-presidente da República e presidente do partido, Michel Temer, e o candidato a vice na chapa do PSB, Beto Albuquerque. Tangenciaram a realidade e afirmaram ambos uma meia-verdade.

Caso seja sobre apoio institucional que falaram, Itamar Franco não o teve e governou. Fernando Henrique Cardoso, tampouco. Contou com uma ala do partido, mas teve oposição ferrenha de outra.

Mas também podemos examinar a questão pelo aspecto do peso do partido nas decisões de governo. Quando aderiu ao PT de corpo e alma, na reeleição de Luiz Inácio da Silva, em 2006, recebeu do então presidente tratamento social e político de luxo, mas jamais dividiu verdadeiramente o poder com o PT.

No ato de adesão, apresentou uma carta-compromisso com sete pontos “exigidos” pelo partido, entre os quais crescimento do PIB acima de 5%, reformas política e tributária e redução dos gastos públicos.

Ninguém se emocionou com as exigências nem as comprou pelo valor de face. O PMDB continuou onde estava sem dar um pio a despeito de contrariado sobre os itens que considerava indispensáveis à boa governança.

Veio o governo Dilma Rousseff e com ele a explicitação do racha do partido em função da contrariedade extrema com o Palácio do Planalto. Motivo: o PMDB conquistou a vice-presidência, cinco ministérios e logo percebeu que, de concreto, havia recebido uma casa de reu­niões com vista para o lago Paranoá (o Palácio do Jaburu, residência do vice) e nada mais.

Segundo relatos dos peemedebistas, eles nunca tiveram poder real nos ministérios nem influência de fato. Situação corroborada por Michel Temer em recente entrevista, ao falar sobre o papel do ministro Edison Lobão no Ministério das Minas e Energia: “Formalmente ele é o responsável pelo setor, mas na realidade não tem o controle geral”.

Ora, se é assim, de onde vem a ideia de que “não se governa sem o PMDB?” Governa-se. Tanto se governa mal quanto se governa bem.

A questão é outra e não diz respeito à qualidade de administração das políticas públicas no Poder Executivo. Tem a ver, isto sim, com o menor ou maior grau de resguardo que o partido é capaz de dar ao Palácio do Planalto no Legislativo e, a depender da extensão e da longevidade das ligações de integrantes da cúpula, até no Poder Judiciário.

O PMDB é importante porque tem poder local. Prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores, bancadas amplas que lhe garantem o comando do Legislativo, tempo de televisão em períodos eleitorais e disposição de negociar (ou não) esses ativos. Oferece proteção em troca da renovação dos instrumentos desse tipo de sobrevivência.

A isso dá o nome de governabilidade. Mas quem não nasceu ontem não é obrigado a acreditar.

Tempo do onça. Numa curiosa sequência, Luiz Inácio da Silva, José Sarney e João Pedro Stédile trataram Marina como “dona” naquele sentido pejorativo que certos homens de antigamente chamavam de “dona Maria” qualquer mulher ao volante.

No sábado passado, Lula disse que nunca falou mal de “dona Marina” e acrescentou: “Dona Marina não precisa contar inverdades a meu respeito para chorar”. Na segunda-feira, Stédile ameaçou: “A dona Marina que não invente de botar as mãos na Petrobras que estaremos aqui todos os dias [em protesto na sede da empresa]”. Na quarta, Sarney, por sua vez, afirmou: “Com essa cara de santinha, ninguém é mais radical e raivosa que dona Marina”.

Um jeito rudimentar, antiquado e mal-educado de demonstrar menosprezo.


É bom, mas é ruim - ELIANE CANTANHÊDE

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FOLHA DE SP - 19/09


BRASÍLIA - Na contramão das estatais e dos órgãos de governo, o IBGE resistiu ao aparelhamento e às ingerências indevidas e continua dando valiosas contribuições para a compreensão do país e para detectar o ritmo dos avanços nas mais diferentes áreas. Doa a quem doer.

Em plena campanha eleitoral, ao largo de palanques partidários e troca de ataques, o IBGE deu duas das piores notícias não só para a presidente Dilma, mas principalmente para a candidata Dilma. O Brasil entrou em recessão técnica, com dois trimestres consecutivos de crescimento negativo. E, depois de anos de queda, a Pnad de 2013 mostra que a desigualdade social parou de cair.

São dois golpes para Dilma. Um, o pibinho devagar quase parando, ratifica a crítica generalizada de que a política econômica dos últimos quatro anos deu errado. Outro, a desigualdade estacionada, enfraquece muito o discurso petista. Lula deve estar arrancando os cabelos.

O IBGE, porém, é um copo meio cheio, meio vazio. Se contém motivos de ataque contra Dilma, inclui também argumentos de defesa.

Exemplos. A oposição pode dizer que o desemprego subiu (e deve subir mais em 2014). Mas Dilma pode alegar que, apesar disso, a renda aumentou. A oposição pode dizer que há 13 milhões de analfabetos no país. Mas Dilma pode rebater dizendo que, apesar disso, eles continuam diminuindo. A oposição pode dizer que 43% das residências até hoje não têm esgoto, outra grande tragédia. Mas Dilma pode alegar que, apesar disso, houve uma redução acentuada no total. Ou, ao contrário: Dilma se elogiar, a oposição retrucar.

Ou seja, a Pnad contém dados para todos os gostos e ângulos. O que importa é que o IBGE resistiu à pressão do Planalto, via senadores amigões, e continua cumprindo seu papel de pesquisar, divulgar, analisar e, assim, contribuir para o entendimento e o planejamento do país, seja quem for o (a) presidente. O IBGE é nosso! Como a Petrobras um dia foi.

O segredo de Gisele - JOSÉ PIO MARTINS

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GAZETA DO POVO - PR - 19/09


Nestes tempos tristes, em que dia após dia vemos desfilar diante de nossos olhos uma legião de homens poderosos pegos em fraudes bilionárias, picaretagens indecentes e atos de corrupção intermináveis, oferecendo-nos uma realidade pavorosa parecida com um filme de terror moral, vale a pena observar aqueles que, com mérito e decência, atingiram o sucesso e tornaram-se exemplo de competência e dignidade.

Conversando sobre isso, levantei a seguinte questão: qual é o segredo do estrondoso sucesso de Gisele Bündchen? Essa brasileira tomou o posto de modelo mais importante de todos os tempos e se mantém no topo há quase 20 anos. De onde vem esse sucesso? Muitos diriam: é o excesso de beleza. Claro, Gisele é de uma beleza estonteante, não há dúvida quanto a isso. Mas será que ela é realmente a mulher mais bonita do mundo?

Certamente há, no mundo, mulheres tão ou até mais belas que Gisele. Então, se não é a beleza, que razões podem explicar o sucesso dessa mulher? As respostas não são curtas, mas vejo alguns elementos no êxito dela: talento imenso; esforço incansável; dedicação extrema; profissionalismo na carreira; autoconfiança inabalável; comportamento irrepreensível; simpatia contagiante; e carisma de sobra.

Os fotógrafos dizem que ela é uma artista e suas fotos não captam apenas belos traços faciais e um corpo esguio; captam, também, expressões que só os artistas conseguem apresentar. Os estilistas dizem que 100 mulheres podem entrar na passarela, porém lá, no meio delas, Gisele se destacará, e sua imagem irá sobressair, única e incomparável.

Vi na televisão uma entrevistada tentando explicar por que Gisele transforma em sucesso de vendas os produtos que ela veste e divulga. É uma espécie de rei Midas: tudo o que toca vira ouro. A entrevistada dizia que os homens e as mulheres admiram e gostam de Gisele, e todos são atraídos por ela e por sua figura. Seu prestígio é tanto que é quase impossível andar pelos países ocidentais e não ver um outdoor ou uma capa de revista com a foto da modelo.

À moda dos gurus de administração, dá para identificar nos atributos e nas atitudes de Gisele as razões que a colocaram na posição de modelo número 1 do mundo. Estudar aqueles oito atributos citados e, sobretudo, observá-los quando estão presentes na mesma pessoa pode ajudar a explicar por que alguém chega tão longe, enquanto outros mal conseguem prosseguir em uma carreira medíocre.

Entre os fatores de sucesso referidos vale destacar o talento (que nada mais é que a capacidade que alguém tem de fazer com naturalidade e alta qualidade aquilo que outros mal conseguem fazer mesmo com um esforço sobre-humano) e a dedicação firme e persistente. Quando essas duas marcas se juntam, e se a elas ainda se somam outras capazes de conduzir ao êxito, então o sucesso é decorrência natural.

O Brasil precisa de exemplos de pessoas que, com talento e decência, conseguiram vencer na vida, já que exemplos de corruptos e malandros temos de sobra. Esses procriam de forma exuberante, muitos deles chafurdando nas sombras do poder, onde abandonam a decência e a moral para amealhar milhões que os transformam em ricos de dinheiro, porém miseráveis de virtudes.

O caso de Gisele Bündchen é emblemático. Ela é a maior top model do mundo. É recomendável estudar as qualidades que a levaram tão longe. Aprender com as qualidades e os méritos dos outros, eis aí um ato de inteligência.


Em eleição tudo pode acontecer - ALBERTO GOLDMAN

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FOLHA DE SP - 19/09


O que vemos hoje é o embate entre Dilma e Marina, um espetáculo pouco edificante. Enquanto isso, Aécio Neves apresenta suas propostas


A disputa eleitoral começa a entrar em sua fase aguda. Como sempre, em função das pesquisas, que mostram um quadro momentâneo, alguns cantam vitória antecipada. Outros, quando a derrota lhes parece inevitável, entregam-se, seja por desânimo, por indigência intelectual ou por puro oportunismo, e passam a procurar o "menos pior".

É o que acontece com a disputa presidencial deste ano. Em razão de um triste episódio --a morte de Eduardo Campos--, surgiu uma nova candidata, Marina Silva (PSB), que aparece em primeiro ou segundo lugares nas pesquisas, como se fosse uma das contendoras inevitáveis no segundo turno.

Minha experiência é repleta de episódios de disputas em que profundas modificações se dão no processo eleitoral, produzindo grandes mudanças na intenção de voto dos eleitores até o dia da votação. Já assisti a isso em eleições em todos os níveis. Fernando Henrique perdeu a eleição para prefeito de São Paulo nas 48 horas que antecediam a eleição de 1985. Luiza Erundina venceu o pleito municipal em São Paulo, em 1988, na última semana, atropelando Paulo Maluf e João Leiva.

Em 1989, na sucessão de José Sarney, tudo fazia crer que Brizola venceria. Para surpresa geral, o desconhecido Fernando Collor cresceu, acompanhado de Lula. Os dois foram para o segundo turno e Brizola ficou de fora. Na última disputa municipal em São Paulo, o azarão Celso Russomano parecia imbatível, disputaria sem qualquer dúvida o segundo turno. Não foi o que ocorreu.

O caso mais emblemático que vivi semelhante com o que está ocorrendo até agora foi em 1986, na disputa ao governo de São Paulo. O quadro no início da campanha era Maluf em primeiro, Orestes Quércia logo atrás. Inesperadamente, e já próximo à data da eleição, o PTB lançou Antônio Ermírio de Moraes, empresário de respeito, que imediatamente apareceu em segundo, muito perto de Maluf, jogando Quércia para baixo (com 9 % nas pesquisas).

Quércia parecia liquidado, a questão seria escolher Maluf ou Antônio Ermírio (não havia segundo turno) e muitos bandearam-se para o empresário, considerado o "mal menor". O resultado final foi Quércia vitorioso, Antônio Ermírio em segundo e Maluf lá atrás.

O processo eleitoral é complexo e muitos fatores alteram a intenção dos eleitores expressa nas pesquisas quase que de um dia para o outro. A pesquisa não tem o dom de prever o futuro, apenas retrata o presente. Na atual eleição presidencial, a mobilidade das intenções de voto dos eleitores é patente, e não poderia ser de outra forma.

Alguns números são relativamente estáveis, como o índice de rejeição da presidente Dilma Rousseff, que fica acima de 30%, com menos de 40% das intenções de voto a seu favor e a vontade de mudança expressa por 70% do eleitorado. Mas está em evolução o nível de conhecimento de Aécio Neves, ainda baixo, ao contrário dos índices altos de Dilma e Marina.

O que se vê hoje é o embate em que se meteram as duas respeitáveis candidatas que, se de um lado mostra um espetáculo pouco edificante na disputa eleitoral, por outro mostra o caráter e a personalidade de cada uma. Enquanto isso, Aécio acertadamente apresenta sua história e suas propostas.

Haverá um momento em que o eleitor se perguntará sobre quem é o melhor, levando em conta seus perfis e o que pensam das questões que são realmente importantes para a vida dos brasileiros e para o futuro da nação: petróleo, infraestrutura, preços, salários, inflação, crescimento econômico, democracia, valores éticos, escândalos. Tudo isso há de influir na decisão do eleitor.

Essa mobilidade já se mostrou nas primeiras semanas de campanha e se aprofundará nas seguintes à medida que a data fatal se aproxima. Quanto mais perto dela, mais a atenção do eleitor e mais decidida passa a ser sua intenção de voto. Até os últimos dias tudo pode acontecer.

O terceiro turno - NELSON MOTTA

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O ESTADÃO - 19/09

‘No dia seguinte à posse de Marina ou Aécio, começariam as greves, as badernas, as avenidas das grandes cidades bloqueadas diariamente por manifestações de sindicatos’



Apesar de detestar Lula e o PT e considerar desastroso o governo Dilma, meu tio Paulão, de 90 anos, que votou em todas as eleições desde 1942 e se diz um velho cínico e pragmático, embora pela idade esteja dispensado, está na firme disposição de votar em Dilma:

— No dia seguinte à posse da Marina ou do Aécio, começariam as greves, as badernas, as avenidas das grandes cidades bloqueadas diariamente por manifestações de sindicatos, o Stédile já disse que vai botar o MST na rua todo dia, a CUT já está preparando os ônibus e os lanches, o Gilberto Carvalho agora vai ter todo o seu tempo para cobrar dos “movimentos sociais” por todas as ajudas que lhes deu para infernizar a vida e inviabilizar o governo dos “usurpadores da causa popular e lacaios do capital internacional”.

— Menos, tio, menos, nem a Luciana Genro fala assim, há o Congresso, o Judiciário, a mídia, uma nova correlação de forças…

— Como você pode ser tão ingênuo com quase 70 anos? Você ainda duvida que eles são capazes de tudo pelo poder? Eles chamam esse vale-tudo de “luta politica” e vale até votar contra o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Constituição de 88. Se fizeram essa escrotice pelo partido, imagine o que não farão para não perder as suas boquinhas e bocadas? Só em cargos de confiança serão 25 mil na rua da amargura e você acha que esse pessoal vai chorar em casa e procurar trabalho?

— Calma, tio, você está meio paranoico, parece o Mário Amato dizendo que 800 mil empresários iam fugir do Brasil se o Lula fosse eleito em 1989, o Collor dizendo que o Lula ia sequestrar as poupanças, o Lula dizendo que o Alckmin ia privatizar a Petrobras…

— Se, em vez de tentar desconstruir a Marina, ou culpar o Aécio por tudo de ruim da era FH, o João Santana fizesse um filme de terror mostrando o inferno que será a vida dos brasileiros com o PT na oposição, como uma fera ferida, movido a ódio e rancor, sabotando todas as iniciativas do governo no Congresso, paralisando a administração, denunciando tudo e todos, parando o país …

Soltou uma gargalhada sinistra:

— Ia ser Dilma no primeiro turno!

A injustiça social de Dilma - VINICIUS TORRES FREIRE

PARA PRESIDENTE VOTE AÉCIO NEVES 45


FOLHA DE SP - 19/09

No que depende da renda, bem-estar ainda aumentou em 2013, mas país vai parando


A DESIGUALDADE DE RENDA no Brasil ficou na mesma entre 2011 e 2013, os três primeiros anos de governo de Dilma Rousseff. O bem-estar social no entanto aumentou bem nesses anos, inclusive no fraquinho 2013. Isto é, a renda de todas as classes cresceu. Ainda assim, a candidata-presidente Dilma Rousseff (PT) será avacalhada de modo extremo, portanto oportunista, culpada pelo fato de que a distribuição de renda parou de melhorar (não piorou).

A campanha petista vai provar um pouco do gosto do lixo ignaro que despejou na campanha marinista com aquela história de banqueiros do demo.

Isto posto, nem de longe está tudo azul ou rosa no Brasil que aparece no balanço anual da situação socioeconômica, publicado ontem pelo IBGE, a Pnad 2013.

Primeiro, porque em uma país ainda muito iníquo como o Brasil não é possível aceitar sem mais que a desigualdade deixe de diminuir. Segundo, porque ao menos parte dessa estagnação se deve ao baixo crescimento da economia dos anos Dilma. Terceiro, porque o governo não teve imaginação ou capacidade de alterar algumas características sociais e econômicas do país, as quais produzem desigualdade.

Repita-se que o bem-estar social, no que depende da renda, pode melhorar mesmo sem redução da desigualdade. Talvez a melhora se torne assim desnecessariamente mais lenta. A renda de todas as "classes" aumentou em 2013 ("classe" aqui é cada décimo em que é dividida a população). Mas os rendimentos dos 10% ou 20% mais pobres cresceram menos.

O que pegou? Provavelmente, reajustes menores do salário mínimo devido ao crescimento menor da economia, do PIB (o mínimo reajusta benefícios previdenciários e assistenciais, embora não o Bolsa Família). O crescimento menor do emprego também deve ter feito estragos.

É possível ainda que a redução adicional e rápida da desigualdade dependa agora de programas política e economicamente mais difíceis de implementar. Para dar dois exemplos elementares:

1) Mexer nos impostos de modo a favorecer os mais pobres, assim como melhorar a redistribuição de renda (as transferências de renda nem sempre favorecem os mais pobres);

2) Melhorar a educação e a infraestrutura de modo a retirar os mais pobres de trabalhos improdutivos, quando há trabalho, em especial em cafundós sem infraestrutura (sem estrada, sem acesso a mercados etc.): agricultores de subsistência, catadores em geral, prestadores de serviços primitivos, empregados do microcomércio precário, para ficar apenas em casos aberrantes.

Mas há mais: o Brasil tolera que se empreguem pessoas em ocupações de produtividade e salários baixos (para não falar do desperdício humano): frentista, cobrador de ônibus, porteiro, segurança. Falta de escola e baixo investimento dá nisso.

O governo até que se mexeu um pouquinho, com Pronatec, subsídios para faculdades (ruins...) e microcrédito. Mas é muito pouquinho. A escola básica é o que sabemos, e o investimento em infraestrutura (ou quase qualquer outro) decresceu devido à política econômica ruim.

A Pnad aliás diz coisas interessantes sobre escola, infraestrutura social e consumo. Mas isso fica para outro dia.

No trombone - LUIZ GARCIA

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O GLOBO - 19/09

Decisão de juíza ampliou consideravelmente o número de cidadãos que ficarão sabendo que Cid Gomes está entre os citados por Paulo Roberto em suas denúncias


A liberdade de imprensa, como a maioria das pessoas sabe — mas às vezes esquece —, tem dois beneficiários: aquele que diz aquilo que pensa ou relata o que sabe e a sociedade em geral, que precisa da informação para tomar suas decisões e escolher seus caminhos.

É dever do Judiciário, provocado por algum cidadão ou, em alguns casos, espontaneamente, decidir se a imprensa está usando corretamente o seu direito e dever de colocar a boca no trombone — ou se está abusando dele.

Alguma forma de censura sempre existe, mesmo nos regimes mais democráticos. Mas, principalmente nestes, decisões do Judiciário sempre estarão sujeitas à análise severa e, eventualmente, crítica e combate. No momento, há um caso ainda no ar.

Aconteceu no Ceará. A juíza Maria Marleide Maciel Queiroz tomou uma decisão de amplo alcance: proibiu a circulação no país inteiro do último número da revista “IstoÉ”. Ela atendeu prontamente a um pedido do governador Cid Gomes, do PROS. Motivo: a revista registrara que o seu nome estava incluído entre os delatados por um ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, envolvido em bandalheiras financeiras — como se dizia antigamente — na empresa estatal.

Depois disso, no entanto, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a validade da decisão da juíza.

Cid Gomes tem, é óbvio, pleno direito de defesa. Basta provar que é inocente. Pode, inclusive, processar a revista e levar para casa um bom dinheiro. Se ganhar a causa, claro. Mas o que ele e a juíza fizeram foi algo considerado bastante feio em regimes democráticos: atende pelo nome de censura prévia, o que só não é um palavrão em ditaduras.

E também não é uma reação inteligente, porque amplia consideravelmente o número de cidadãos que ficarão sabendo que Cid está entre os cidadãos citados por Paulo Roberto em suas denúncias.

No fim das contas, a “IstoÉ” pode agradecer: o governador acabou soprando no seu trombone.

Persiste a falta de clareza e precisão dos candidatos - EDITORIAL O GLOBO

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O GLOBO - 119/09


Com propostas genéricas e imprecisas, candidatos passam a impressão que tentam esconder a própria fragilidade de seus projetos



A primeira vítima numa campanha eleitoral é a verdade. A sentença, como toda frase feita, é arbitrária. Mas serve para resumir o teor de ataques petistas a Marina Silva (PSB), a maior ameaça, até agora, ao projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Diante do escasso efeito, porém, a agressiva estratégia seria revista. Também porque surgiram sinais na última pesquisa Ibope-Rede Globo de que as distorções maniqueistas de filmetes produzidos para “desconstruir” Marina estariam prejudicando a própria Dilma. Um tiro pela culatra.

A candidata-presidente, então, tenderia a ser mais propositiva. Se assim for, ganharão os eleitores. Dilma já tem feito a defesa de políticas e programas isolados, enquanto dá balanços positivos de atos do governo. Ao tratar, por exemplo, do Supersimples — desburocratiza a vida do pequeno empreendedor e estabelece uma carga tributária leve sobre ele —, a candidata se compromete a criar uma “rampa” tributária, a fim de o pequeno empresário não ser punido punido se crescer. É boa iniciativa.

Mas o que se quer saber mesmo são questões macroeconômicas, da própria filosofia de condução do país por Dilma: insistirá no intervencionismo? O Banco Central continuará uma espécie de sucursal do Planalto? Vai combater como preciso a inflação, ou a elevada taxa de 6,5% anuais foi mesmo convertida em centro da meta? A contabilidade criativa persistirá tornando cada vez menos transparente as contas públicas? É ingênuo esperar que haja respostas diretas. Mas PT e candidata podem ter certeza que a omissão em torno desses e outros assuntos cruciais soará como confirmação de que o segundo mandato será um videoteipe do primeiro, apesar do fracasso da política econômica, expresso na elevada inflação, no baixo crescimento — que já começa a afetar o emprego —, nos investimentos anêmicos, nos desequilíbrios externos e na hemorragia fiscal.

Marina Silva e Aécio Neves (PSDB) também precisam expor com clareza, e aos detalhes, qual o programa de seu eventual governo. Marina divulgou uma primeira versão de propostas e promete uma nova, mais detalhada.

Pode aproveitar para explicar de onde virão os R$ 150 bilhões que, se estima, custarão, em quatro anos, propostas que faz, sem incluir um amplo programa de mobilidade urbana para cidades com mais de 200 mil habitantes. Deveria, ainda, esclarecer a cariocas e fluminenses se irá mesmo tirar royalties do Rio, reduzir investimentos no pré-sal e interromper as obras de Angra3.

Aécio deve divulgar seu programa semana que vem. Mas anuncia-se que será genérico — um erro. Paira a sensação de que a falta de objetividade e clareza em propostas esconde a sua própria fragilidade. Tem sido assim em eleições. Mas hoje a situação do país exige uma dose bem maior de franqueza e honestidade.

'Nova política' e vida real - EDITORIAL O ESTADÃO

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O ESTADO DE S.PAULO - 19/09


Sabatinado por este jornal, o candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, deputado federal Beto Albuquerque, do PSB gaúcho, tentou aparentemente transformar um círculo em um quadrado, ao reconhecer que "ninguém governa sem o PMDB", ressalvando, porém, que "não é preciso entregar o governo para ter governabilidade". A questão foi levantada porque toca no nervo exposto da candidatura Marina - o disseminado ceticismo sobre as suas chances, se eleita, de formar uma equipe de governo que não seja um ajuntamento de estranhos no ninho e de construir uma base parlamentar que lhe permita aprovar os projetos que lhe forem mais caros.

O que se pode chamar de bancada marineira na Câmara dos Deputados - as cadeiras hoje ocupadas pela coligação que reúne, além do PSB do falecido Eduardo Campos, o PPS e quatro siglas nanicas - soma 32 em um total de 513. Na melhor das hipóteses, segundo projeções publicadas pelo jornal Valor, os socialistas sairão das urnas com o mesmo número de vagas (34) conquistadas em 2010 para fazer parte de uma Casa provavelmente ainda mais fragmentada que a atual, de 22 siglas. Diz a candidata, em desespero de causa, que fará um governo com os "melhores" nomes do espectro partidário que compõe o Legislativo. É de rogar aos céus que ela própria descreia de suas palavras.

Do contrário revelará um desconhecimento abissal de como funciona a política, não obstante seus dois mandatos de senadora. Melhores, piores e mais ou menos, os parlamentares vivem todos numa teia de lealdades a quem os tenha feito chegar ao Congresso Nacional. E ali estão sujeitos a uma complexa estrutura de poder alicerçada no sistema de lideranças que mantêm a coesão interna das bancadas. Uma coisa e outra restringem a liberdade de movimentos de seus membros mais do que possa conceber a vã filosofia da "nova política". Descartada, por ingênua ou insincera, a retórica do tal governo dos melhores, resta o governo possível com a expressão organizada do Parlamento.

No "presidencialismo de coalizão" brasileiro, essa fórmula leva uma dose de afinidade programática, outra de convergência com os grupos de interesses do Congresso e oito partes de realpolitik - o acatamento da relação de forças entre os partidos, resultante de cada ciclo eleitoral. O que, teoricamente, abriria três possibilidades para Marina em 2015: fazer as pazes com o PT, achegar-se ao PMDB ou se aliar à frente PSDB-DEM. Na primeira e mais remota hipótese, será mais do que mais do mesmo para o País: o pior dos dois mundos. Na terceira, que poderá começar pelo apoio tucano à candidata que ameaça despejar Dilma Rousseff - a menos que o senador Aécio Neves consiga superá-la -, o produto será um governo de minoria, mas com razoável grau de coerência e capacidade de atração de outras legendas médias.

Já um acerto com um PMDB - que deverá continuar com a segunda maior bancada da Câmara, depois do PT, e com a maior do Senado - equivalerá a um pedido de Marina para que esqueçam o que não se cansou de repetir sobre a renovação dos costumes políticos nacionais. E não será nenhuma pechincha, diga o que disser o deputado Beto Albuquerque sobre governar com o PMDB sem lhe dar o governo. Na entrevista ao Estado, ele perguntou retoricamente por que teria de consultar o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre quem deveria ser indicado para uma Transpetro, por exemplo. Porque é disso que os oligarcas do PMDB alimentam o seu poder, antes e depois das urnas. Nesse jogo duro, o conselho que deixou de ser solicitado é um ato de menoscabo que não pode passar em branco.

"Nosso governo", promete o candidato a vice, "não vai indicar gente inapta porque é pedido de alguém." Na vida real, é mais complicado. No mercado de apoios políticos, o interessado pode sair com o filé que desejava, desde que leve também uma porção de carne de pescoço. Enquanto o PMDB for o partido que trocou a disputa pelo Planalto por estar no Planalto em qualquer governo - embora os seus hierarcas falem em lançar um nome em 2018 -, e enquanto for hegemônico no Congresso, só restará a uma presidente Marina tentar a proeza de se entender com o diabo sem sair abrasada do entendimento.

Descaso programático - EDITORIAL FOLHA DE SP

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FOLHA DE SP - 19/09


Dilma e Aécio ainda não apresentaram documentos oficiais com todas as suas propostas, deixando eleitor em dúvida sobre seus planos


As erratas de Marina Silva em relação ao seu programa de governo, quem diria, não foram o que de pior aconteceu nesse capítulo da disputa presidencial. A candidata do PSB, afinal, ao menos entregou à Justiça Eleitoral um documento que consolida suas propostas.

Verdade que as emendas à carta diminuíram-lhe a credibilidade. No episódio mais polêmico, itens que versavam sobre a criminalização da homofobia e a regulamentação do casamento gay não resistiram às críticas de pastores evangélicos. Em menos de 24 horas, Marina desautorizou as passagens.

Ainda assim, e mesmo considerando o quanto recuos dessa natureza acrescentam de incerteza a sua postulação, é salutar que a ex-ministra do Meio Ambiente tenha apresentado sua agenda, permitindo que a sociedade conheça e debata um catálogo oficial.

Aécio Neves (PSDB) não chegou a tanto. O senador ainda promete finalizar seu programa de governo, mas até hoje, faltando 16 dias para a votação, não avançou além das diretrizes gerais que todo candidato deve, por lei, protocolar ao registrar sua postulação.

Diga-se, quanto a isso, que o compêndio do tucano alcança um nível de detalhamento que o esquálido congênere petista nem resvala. É pouco, porém, para que Aécio se sinta confortável a ponto de alfinetar Marina, dizendo que entregará um documento escrito a caneta, e não "feito a lápis, para apagar a depender de pressões".

Desconfortável mesmo deveria estar a presidente Dilma Rousseff (PT), que teve atitude bastante distinta. Diante das divergências entre o que defende seu partido e o que pretende seu governo, a mandatária considerou oportuno suspender a divulgação de seu programa.

Para ela, talvez seja conveniente evitar esse tipo de atrito. Quem conhece sua intransigência quase folclórica sabe que Dilma sairia perdendo se aceitasse discutir sua relação com o PT em meio a uma eleição tão apertada. A presidente não pode se dar ao luxo de brigar com a própria legenda.

Ao eleitor, por óbvio, essa lógica mesquinha de nada serve. Como saber de que maneira Dilma planeja se comportar num eventual segundo mandato se nem aceita assumir compromissos formais?

A presidente quer ser reconduzida ao Planalto para, entre outras medidas, tentar reduzir a jornada de trabalho, como quer o PT, ou para bloquear essa votação no Congresso, como tem feito seu governo? Propugnará a revisão da Lei da Anistia, seguindo orientações do partido, ou se esquivará do tema?

Dilma, infelizmente, prefere silenciar, oferecendo à população apenas o mundo mágico, e mentiroso, da propaganda eleitoral.

Mercado controlado - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

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GAZETA DO POVO - PR - 19/09

O “efeito Orloff” dos anos 80 agora parece se aplicar a Venezuela e Argentina


O Legislativo argentino deu um grande impulso ao intervencionismo estatal na economia do país na madrugada desta quinta-feira, quando a Câmara dos Deputados aprovou a reforma da Lei de Abastecimento, que já havia passado pelo Senado e agora só depende da sanção de Cristina Kirchner para entrar em vigor.

A nova legislação dá ao Estado um poder tão grande que praticamente coloca em risco a existência de um mercado livre no país. O governo argentino poderá fixar valores mínimos e máximos para o preço dos produtos, além de “dispor sobre a continuidade de produção, industrialização, comercialização, transporte, distribuição ou prestação de serviços, assim como a fabricação de determinados produtos, dentro de níveis ou cotas mínimas estabelecidas pela autoridade de aplicação, que vai considerar o volume habitual de produção e a capacidade produtiva” – em outras palavras, o governo poderá intervir sobre praticamente todas as etapas da cadeia produtiva, inclusive impondo cotas de produção que obrigariam determinada companhia a seguir fabricando algo mesmo que isso lhe cause prejuízo (a lei prevê a possibilidade de subsídios nesses casos).

A lei não obriga o Estado a colocar em prática todas essas possibilidades, mas a mera permissão para que o faça já é suficientemente preocupante. As punições para as empresas que desrespeitarem os limites impostos pelo Executivo vão de multas leves ao fechamento da companhia por 90 dias ou à suspensão do seu registro por cinco anos. O estabelecimento de cotas ficará a cargo da Secretaria de Comércio do Ministério da Economia – o mesmo órgão que, em 2012, passou a centralizar as decisões sobre o que podia ou não ser importado pelas empresas argentinas, obrigadas a enviar e-mails ao titular da pasta sempre que quisessem trazer algo do exterior.

Representantes do setor produtivo argentino manifestaram sua oposição à lei e tentarão derrubá-la nos tribunais – o que, dada a influência do kirchnerismo no Judiciário argentino, soa improvável. O deputado de oposição Mario Negri resumiu perfeitamente o espírito da nova legislação ao dizer que o governo pensa que se pode gerar disciplina gerando o temor.

Nos anos 80, graças a um anúncio de vodca que continha a frase “eu sou você amanhã”, economistas brasileiros cunharam a expressão “efeito Orloff”, que à época se referia aos erros no combate à hiperinflação cometidos pela Argentina e, depois, repetidos pelo Brasil. Desta vez, o fenômeno é o mesmo, mas é a Argentina que imita a Venezuela do falecido Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro. O país que exporta autoritarismo pela América do Sul – promovendo “liquidações bolivarianas”, reduzindo arbitrariamente o preço de produtos e estatizando estabelecimentos – vive hoje com inflação descontrolada e escassez de produtos, chegando ao ponto de proibir consumidores de comprar mais de uma vez o mesmo produto na mesma semana.

Na Argentina, a inflação está tomando o mesmo rumo, e o governo mascara os dados para fazer a situação parecer melhor do que realmente é. O contrabando cresce a olhos vistos, Cristina Kirchner briga com credores que não aceitaram a reestruturação da dívida externa após o calote de 2001, e o dólar no câmbio negro vale quase 80% mais que pela cotação oficial – quando alcançou 15 pesos, comediantes o apelidaram de “dólar debutante”, mas ressaltaram que um dia ele ainda chegará à maioridade. A seguir nesse caminho, não surpreenderá se os argentinos forem os próximos a fazer fila diante de supermercados para conseguir abastecer suas casas com papel higiênico.

O alerta da desigualdade - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

PARA PRESIDENTE VOTE AÉCIO NEVES 45


CORREIO BRAZILIENSE - 19/09
Qual a cara do Brasil? A pergunta procede. Em constante mobilidade, o país apresenta mudanças cujo acompanhamento constitui importante bússola para as políticas públicas. Aplicar os recursos em setores corretos evita desperdícios e otimiza o retorno dos investimentos. É, pois, bem-vinda a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com dados de 2013, o estudo mostra retrato de corpo inteiro das condições de vida dos mais de 201 milhões de brasileiros. Há que comemorar a queda do analfabetismo, a redução do trabalho infantil e o aumento da formalidade nas relações de trabalho. Mas nem tudo são flores. Item preocupante que chama a atenção é a interrupção de ciclo de redução da desigualdade.

Depois de 12 anos de avanços, aumentou o abismo entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres. O Índice de Gini, que mede a concentração de renda, passou de 0,498 para 0,496 (quanto menor o número, maior é o distanciamento). O retrocesso significa que voltamos ao patamar de 2011. Em português claro: os ricos ficaram mais ricos; os pobres, mais pobres.

Não por acaso a Região Nordeste exibiu os piores resultados (0,523). O Piauí ficou no topo do ranking nacional - 0,566. As variações mais substantivas ficaram com os rendimentos mais elevados. A parcela menos favorecida da população recebeu, em média, R$ 235 por mês pelo trabalho - valor 3,5% superior ao do ano anterior. Os mais favorecidos, por seu lado, ganharam, em média, R$ 6.930 - montante 6,4% maior do que em 2012.

Considerados os rendimentos além da renda do trabalho, como patrimônios e investimentos, a Região Sul ficou no polo oposto à Nordeste (0,463). Santa Catarina sobressaiu, com 0,438. O Distrito Federal ostenta a taça da concentração brasileira (0,570). O índice da capital da República contaminou a Região Centro-Oeste, que registra 0,519.

A pesquisa confirma outras desigualdades históricas. É o caso da renda por gênero. A distribuição foi mais desigual entre os homens (0,503) do que entre as mulheres (0,477). O Piauí, também nesse indicador, manteve a dianteira no aumento da distância entre os que ganham mais e os que ganham menos. O Amapá, ao contrário, diminuiu o hiato.

O aumento da desigualdade acende a luz amarela nas conquistas sociais dos últimos anos. O baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), aliado à inflação que corrói a renda dos mais pobres, responde pelo resultado. A redução foi pequena. É importante que não avance.

quinta-feira, setembro 18, 2014

Propaganda de Dilma ultrapassa limites - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/09

Ameaça de Marina leva a campanha do PT e a própria candidata a mandar às favas os escrúpulos e a fazer acusações muito além do aceitável


A entrada de Marina Silva nas eleições presidenciais de maneira fortuita, devido à morte trágica de Eduardo Campos, era tudo o que o PT não queria. Não interessava aos petistas que a ex-ministra e senadora conseguisse constituir seu partido, a Rede, a tempo de entrar na disputa de 2014. Ninguém esquecera os 20 milhões de votos arrebanhados por Marina em 2010.

Parece ter faltado competência aos marineiros para conseguir todas as 492 mil assinaturas de eleitores e registrar a Rede nos prazos legais. Mas, embora reclamações tenham sido arquivadas, sempre existirão suspeitas de interferências alopradas em cartórios eleitorais do ABC, onde milhares de assinaturas foram glosadas.

Uma trapaça do destino colocou Marina na corrida presidencial, na cabeça da chapa do PSB, e o medo petista se confirmou. Como reza a tradição da legenda, o partido preparou agressiva campanha contra Marina. Mas ultrapassou todos os limites: da ética, da seriedade, do cinismo.

Antigas armas têm sido acionadas pelos marqueteiros petistas. A do medo, até mesmo usada contra Lula em 2002, logo foi colocada para funcionar. Marina se esquivou com agilidade, ao se comparar a Lula, a quem defendeu naquela campanha, quando era militante petista, futura ministra do meio ambiente.

Mas o rolo compressor petista cresceu, tão logo foi constatado que manobras que funcionaram contra tucanos — apresentados pelo PT como perigosos “privatistas” — seriam inócuas contra a ambientalista e ex-petista.

O maniqueísmo e a dose de inverdades contidas no filmete produzido para atacar a proposta de Marina de autonomia formal do Banco Central são exemplares do vale-tudo petista. A decisão da campanha de Dilma e da própria candidata de mandar às favas os escrúpulos fica exposta em vários aspectos deste e outros ataques a Marina.O primeiro, que a própria Dilma, na campanha de 2010, apoiou a autonomia formal do BC.

O filmete panfletário diz que, num governo Marina, “banqueiros” controlarão o BC e, assim, farão desaparecer a comida da mesa do povo. Ora, o mesmo não acontece nos EUA, Inglaterra, Japão, Alemanha etc. — onde há BCs autônomos. E se algum banqueiro dirigiu o BC, foi nos governos Lula, quando o ex-CEO do Bank Boston, Henrique Meirelles, presidiu a instituição.

Justifica-se, então, o parecer do Procurador-Geral da União, Rodrigo Janot, junto ao TSE, pela suspensão da propaganda, por “criar estados mentais, emocionais ou passionais” nos eleitores. Ministro do Tribunal, Herman Benjamin disse, ao vetar outra publicidade, esta do PSDB, que um pecado mortal dessas peças de propaganda eleitoral é confundir o eleitor. De fato. Mas a última pesquisa Ibope/Rede Globo demonstrou que o dom de iludir desta campanha não tem produzido o efeito desejado pelos marqueteiros. A Justiça e o MP precisam estar ainda mais atentos.

Uma mistura explosiva - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 18/09


Não se pode dizer que foi uma surpresa a baderna que tomou conta do centro da cidade durante 12 horas, na terça-feira - das 6 horas até o começo da noite -, provocada pela resistência à reintegração de posse, ordenada pela Justiça, do imóvel no antigo Hotel Aquarius, na Avenida São João, esquina com a Avenida Ipiranga, ocupado por 200 famílias de sem-teto ligadas à Frente de Luta por Moradia (FLM). Tais episódios vêm se tornando corriqueiros. Mas esse, além de particularmente violento, apresentou características que mostram para que terreno perigoso essas ações, promovidas pelos ditos movimentos sociais, estão caminhando.

Segundo o comandante do policiamento da capital, coronel Glauco Araújo de Carvalho, a tropa da Polícia Militar (PM) chegou ao local às 6 horas e até as 8 horas tentou convencer os sem-teto a deixarem pacificamente o local. Tanto o que diz é procedente que o tumulto só começou por volta das 8 horas, quando os ocupantes do imóvel começaram a atirar pedras, móveis e até aparelhos eletrodomésticos sobre os policiais, que reagiram com bombas de gás lacrimogêneo. A alegação dos sem-teto para sua resistência à desocupação foi de que a PM não levou ao local os 40 caminhões prometidos para ajudar na mudança. A PM assegura que os caminhões estavam lá, embora uma parte deles, nas imediações, pois não havia como estacionar todos perto do imóvel.

Até aí, esse lamentável afrontamento parecia estar dentro dos limites do que vem ocorrendo nesses casos. A situação degenerou quando entraram em cena outros atores, os mais diversos - integrantes de outros movimentos, estudantes, black blocs, usuários de drogas, ladrões e infratores. Um ajuntamento explosivo que levou a atos de violência que se espalharam pelas imediações, do Viaduto do Chá à Praça da República, e que nada tinham a ver com a desocupação daquele imóvel - depredações e saques de lojas e agências bancárias e incêndio de ônibus. A PM respondeu, além das bombas de gás, com balas de borracha.

A desordem tomou conta da região, levou o comércio a baixar as portas e tumultuou o trânsito numa ampla área da cidade. Uma situação que perdurou até o fim da tarde e começo da noite, com momentos alternados de baderna de maior e menor intensidade. Ao final, 9 pessoas haviam sido presas e 75 levadas a delegacias e soltas pouco depois. Outras 12 ficaram feridas, entre elas 5 PMs, o que torna inconsistente a acusação de excesso repressivo da polícia. O que houve foi uma verdadeira batalha, iniciada pelos sem-teto, da qual a PM, evidentemente, não podia fugir.

Há duas coisas altamente preocupantes nesse episódio. Uma é a reunião de um grupo heterogêneo como esse - de sem-teto a bandidos, passando por black blocs - numa situação como essa, que pode se repetir tanto no centro como em outras regiões onde existem imóveis invadidos. É uma combinação explosiva que, além de contaminar qualquer reivindicação, tem tudo para semear o pânico e o vandalismo na cidade, como já se viu, e cedo ou tarde acabar em tragédia.

Outra é o caráter marcadamente político e partidário que vem adquirindo a ação de grupos como a FLM, que tem notórias ligações com políticos petistas, como os deputados Adriano Diogo (estadual) e Renato Simões (federal). Ficar repetindo, como eles fazem, que os imóveis ocupados não cumprem função social só serve para incentivar novas ocupações e tentar atribuir a culpa pelo problema habitacional ao governador do Estado, que é do PSDB e comanda a PM. Ora, ele não tem nada a ver com a reintegração de posse. Ela é uma ordem judicial que o governador - seja Geraldo Alckmin ou qualquer outro - é obrigado a cumprir, acionando a PM. E, diante da resistência dos ocupantes, só resta à PM retirá-los do local pela força. Não há outra saída para esse tipo de situação.

Se os petistas ligados aos sem-teto quisessem mesmo resolver o seu problema, poderiam começar pressionando o prefeito Fernando Haddad, que é seu correligionário, a investir mais em programas habitacionais. Deixar Haddad de lado e insinuar que a culpa é de Alckmin não é sério.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Isto aqui não é teatro”
Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) fingindo acreditar na seriedade da CPMI da Petrobras


HOMEM-BOMBA VIRA HOMEM-TRAQUE E ALIVIA CPMI

Foi tudo uma encenação patética: apresentado como “homem-bomba”, o potencial “explosivo” do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa mais se assemelhou a um “traque”, trouxinha inofensiva utilizada por crianças nos festejos juninos do Nordeste. O ex-diretor entrou mudo e saiu calado da CPMI, proporcionando alívio em boa parte do plenário, onde estavam alguns suspeitos do Petrolão dos governos Lula e Dilma.

BLINDAGEM

Tropa de choque do Planalto estava pronta para “blindar” o governo, caso o delator jogasse a roubalheira da Petrobras no ventilador.

OPERAÇÃO ABAFA

Envolvidos até o pescoço, parlamentares do PT e do PMDB atuaram para impedir tentativa da oposição de ouvir o ex-diretor em reunião secreta.

OLHO DO FURACÃO

Com vários dirigentes citados na delação premiada de Paulo Roberto Costa, o PP não deu as caras ontem na CPMI da Petrobras.

JUNTOS CONTRA UM

Deputado do PDT, aliado de Dilma, Ênio Bacci (RS) seguiu exemplo do senador Gim Argello (PTB-DF) e votou com a oposição na CPMI.

ESPECTRO DE VALÉRIO ASSOMBRA SUCESSÃO MINEIRA

Conexões de Marcos Valério, do mensalão do PT, assombram o PSDB na sucessão estadual, em Minas. Indiciado pela PF por ter recebido R$ 300 mil, ocandidato Pimenta da Veiga (PSDB) mudou a versão que apresentou dois anos depois, ao retificar o imposto de renda de pessoa física: a grana seria pagamento de consultoria, por meio de “pareceres verbais”. Agora, ele atribui a consultoria a sua “pessoa jurídica”.

SIGILO QUEBRADO

Pimenta da Veiga somente faria retificação do seu imposto de renda quando foi quebrado o sigilo bancário de Marcos Valério.

PESSOA JURÍDICA

Esta semana, Pimenta disse que não fez a declaração no prazo porque não havia constituído pessoa jurídica: “Precisava fazer por ela”.

‘EMPRÉSTIMO’

Faltou Pimenta da Veiga combinar com Marcos Valério: o tesoureiro do mensalão justificou o dinheiro como “empréstimo pessoal” ao amigo.

JÁ ERA

O PT dá como certa a derrota de Armando Monteiro (PTB), na disputa pelo governo de Pernambuco. Vai tentar “salvar” o petista João Paulo, empatado com Fernando Bezerra (PSB) na briga pelo Senado.

EFEITO TRATOR

O Planalto mobilizou ontem parlamentares do PDT, PR e PCdoB, que nem sequer integram a CPMI, para lotar o plenário e ajudar o PT e o PMDB a “melar” o depoimento do ex-diretor corrupto da Petrobras.

A VIÚVA SUMIU

Viúva do ex-deputado José Janene (PP-PR), estrela do mensalão, Stael Janene chegou a ensaiar denúncia, mas submergiu após ganhar proporções o escândalo envolvendo Alberto Youssef e Petrobras.

A VIDA COMO ELA É

A declaração de votos para Dilma dos reitores que ela nomeou, nasuniversidades, só foi superada pelo apoio de supostos “líderes” dos protestos de 2013 que chefiam ONGs bancadas com dinheiro público.

GASTOS SECRETOS

O Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento deixou de ser atualizado. Ninguém sabe ao certo quanto foi gasto com salários de servidores nos últimos meses. Dados mais recentes são de junho.

APAGÃO NO PARÁ

Belém se viu mergulhada nas trevas desde terça-feira, sem internet, sem celular, sem acesso a pagar contas com cartão de crédito ou débito, nem fazer saques nos caixas. Caos total. E sem explicações.

MULHERES VETADAS

Na negociação para definir o substituto de Arruda na disputa pelo governo do DF, o escaldado Joaquim Roriz fez apenas uma imposição: manter as respectivas mulheres, e até filhas, fora da cabeça de chapa.

PODE ISSO, TRE?

Passeata do PT no início da noite, ontem, em Brasília, parecia desfile de servidores do governo do DF. Sempre ausente onde é necessário, o Detran-DF se fez representar por cinco viaturas e mais cinco motos.

PENSANDO BEM...

...depois de jogarem um deputado numa lixeira, na Ucrânia, não será surpresa se começarem a sumir latas de lixo em Brasília, Rio, São Paulo...


PODER SEM PUDOR

O FOGO DA JUVENTUDE

Representando o regime militar, Eliseu Resende foi candidato ao governo de Minas, em 1982, contra Tancredo Neves (PMDB). Pouco conhecido e sem experiência, ele cometeu um erro: centrou sua campanha na crítica à idade do adversário:

- Não podemos entregar o Estado a quem, numa idade provecta, não pode sustentar o peso da administração - declarou na TV.

Tancredo ficou ofendido, mas não passou recibo. Dois dias depois, foi à televisão, elogiou o adversário para depois acabar com ele:

- Konrad Adenauer deixou o governo da Alemanha aos 80 anos, após reconstruir o país. Já o jovem Nero, aos 31, tocou fogo em Roma...

quarta-feira, setembro 17, 2014

Demolição de valores - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 17/09


Mantido o rumo pelo qual enveredou a campanha à Presidência da República, o que se pode esperar dos próximos 18 dias até o primeiro turno e depois mais 20 antes da etapa final não é um clima emocionante típico das eleições bem disputadas, como pareceu quando Marina Silva entrou na competição.

Disputas pressupõem confrontações de argumentos, embates travados mediante a observância de determinadas regras. Pois o que temos no cenário desde que o governo decidiu mandar às favas os escrúpulos e fazer o diabo para tentar vencer as eleições não guarda a menor relação com troca de argumentos e muito menos com obediência a qualquer tipo de regra.

Por ora há uma perplexidade. Um pouco pela falta de cerimônia no uso de mentiras tão deslavadamente mentirosas, um pouco pelo fato de ainda haver um contingente disposto a acreditar nelas.

Daqui a pouco poderá haver um cansaço com a atuação de uma gente que mente e reiteradamente se desmente sem a preocupação de preservar a própria biografia ou respeitar a liturgia do cargo.

Além de candidata, Dilma Rousseff é presidente da República. Ao mesmo tempo em que ter certas prerrogativas que lhe dão vantagens inerentes ao posto, tem deveres decorrentes da função que a diferenciam dos demais concorrentes.

O grau irrepreensível “no que se refere” à compostura é um deles. O comedimento, a austeridade sempre invocada como uma de suas qualidades não autoriza sua chancela no uso de mentiras. Muito menos que se faça pessoalmente porta-voz delas. Embora não condiga com seu discurso de correção é o que vem fazendo.

A presidente está dizendo ao povo que governa que os adversários vão acabar com esse ou aquele benefício social, que vão tirar verbas da saúde e da educação, que empresários e banqueiros se regozijam com a fome do brasileiro, que o governo do PT combate como ninguém a corrupção.

Ainda que os adversários quisessem mesmo acabar com os benefícios, vender a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, reduzir os investimentos em saúde e educação. De onde a presidente tirou isso se nunca disseram nada parecido? Da cabeça de seus conselheiros que a mandaram repetir tudo isso.

E o combate à corrupção? Tema evitado a todo custo pelo governo. Se fosse tão espetacular como se diz agora no horário eleitoral, o assunto já estaria muito antes entre os “grandes feitos” e não deixado para ser incluído quando começa a se fechar o cerco a respeito dos esquemas na Petrobras.

Isso dito quando se viram tantos escândalos serem abafados. Sem contar o fato de a antiga cúpula do partido estar quase toda na cadeia por força de um julgamento tido pelo PT como produto de um “tribunal de exceção”.

Nessa nova fase até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que andava meio arisco, se animou a aparecer exercendo seu conhecido dom de iludir – quem quer ser iludido, bem entendido. No ato público desta segunda-feira, no Rio, onde se pretendia “abraçar” a Petrobras, mas que o público presente não foi suficiente para um aperto de mão, Lula voltou a atacar o financiamento privado de campanhas. Disse que deveria ser crime inafiançável.

No mesmo dia circulava um e-mail do PT a empresários apresentando, em nome de Dilma, “a oportunidade de contribuir financeiramente para a campanha da reeleição da presidenta da República”, no que a correspondência qualificava como uma “ação empresarial cidadã”.

É de se imaginar que o governo queime pontes confiando que, reeleito, poderá reconstruí-las pelo poder que a vitória tem de curar feridas. Agora pensa exclusivamente nas eleições. Por dever de responsabilidade conviria pensar que além de uma eleição há um país a ser governado e que não merece assistir a tão completa e definitiva escalada de demolição de valores.


Haja Prozac - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 17/09


BRASÍLIA - Ouvi uma frase sobre a corrida presidencial que me pareceu perfeita: "Em 2002, achei que o PT estava despreparado para assumir o governo. Mas eu não sabia que o PT estaria agora tão despreparado para deixar o governo".

É uma avaliação tão cruel quanto verdadeira. Revela também o grau de subdesenvolvimento institucional do país. É claro que não há risco de disrupção, mas parece um pouco incompatível com a regra democrática que um partido entre em desespero frenético apenas porque existe a possibilidade de sair do poder a partir de 1º de janeiro de 2015.

A aparição do ex-presidente Lula, suado e descabelado, fazendo uma manifestação em frente à Petrobras é a síntese do clima atual no PT. E nem está claro que Dilma Rousseff perderá a disputa contra Marina Silva (aliás, a presidente está à frente nas pesquisas). Mas em Brasília é possível respirar um certo pânico no ar.

Só na capital da República há mais de 20 mil cargos de confiança, todos ocupados pelo petismo e adjacências. Uma derrota de Dilma Rousseff obrigará essas pessoas e suas famílias a deixarem a cidade. Por baixo, serão de 40 a 50 mil desamparados. Voltarão a seus Estados para pedir trabalho na iniciativa privada ou em algum governo, prefeitura ou sindicato sob o comando do PT.

Serão milhares de dramas pessoais. Em Harvard, nos EUA, a universidade oferece um serviço gratuito de atendimento psicológico a estudantes estrangeiros que passam um tempo por lá e depois têm de retornar para seus países. Dilma poderia pensar no assunto. Uma "bolsa psicólogo" ajudaria a manter mais calmas as pessoas ao seu lado.

Como o problema é estrutural, uma vitória dilmista só atrasará a crise existencial dos petistas. Até porque, em 2018, 2022 ou em outro momento, o partido sairá do poder. Quando esse dia chegar, as farmácias de Brasília terão de reforçar os estoques de Prozac em suas prateleiras.

Lula requenta o truque de 2006 - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 17/09


Nosso Guia quer confundir a Petrobras com a gestão do comissariado petista com que aparelhou a empresa


Lula fez uma involuntária defesa do voto útil, aquele que vai para qualquer lugar, desde que o PT vá embora. Foi para a frente do prédio da Petrobras e disse o seguinte:

"Já houve três pedidos de CPI só na Petrobras. Eu tenho a impressão de que essas pessoas pedem CPI para, depois, os empresários correrem atrás delas e achacarem esses empresários para ganhar dinheiro. (...) Se alguém roubou, esse alguém tem mais é que ser investigado, ser julgado. Se for culpado, tem que ir para a cadeia."

A Petrobras petista apareceu em várias CPIs. A primeira, de 2005, foi a do mensalão. Duas outras foram específicas e, com a ajuda do comissariado, deram em nada. Se Nosso Guia acha (e tem motivos para isso) que, incentivando-as, há "pessoas" achacando empresários que correm "atrás delas", não se conhece uma só fala de petista denunciando achacados ou achacadores. O relator da comissão que está funcionando é o petista Marco Maia.

O primeiro comissário apanhado em malfeitorias relacionadas com a Petrobras foi o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. "Silvinho" fez um acordo com o Ministério Público e trocou o risco de uma condenação por 750 horas de trabalho comunitário. Ele ganhara um reles Land Rover de um fornecedor da Petrobras. Nem Lula nem o PT condenaram-no publicamente. Se o tivessem feito, teriam emitido um sinal. Afinal, dissera o seguinte: "Há cem Marcos Valério por trás do Marcos Valério". Ele está na cadeia. Salvo a bancada da Papuda, os demais estão soltos.

Em 2009, quando foi instalada a primeira CPI para tratar exclusivamente da Petrobras, o comissariado disse que a iniciativa tentava tisnar a imagem da empresa. Resultou que ela tisnou a imagem do instituto da CPI e os petrocomissários continuaram nos seus afazeres. Paulo Roberto Costa estava na diretoria da Petrobras desde 2004. Em oito anos, amealhou pelo menos US$ 23 milhões.

A CPI de hoje é abrilhantada também pelos petistas Humberto Costa, José Pimentel e Sibá Machado. Nenhum deles, nem Marco Maia, deve vestir a carapuça da fala de Lula, mas jamais apontaram um achacador. "Paulinho" foi preso em abril pela Polícia Federal e, em seu escritório, foram recolhidos abundantes provas de seus malfeitos. Ele prestou um depoimento à CPI em junho e o senador Humberto Costa considerou-o "satisfatório". "Paulinho" disse o seguinte: "A Petrobras não é uma empresa bandida nem tem bandidos em seus quadros". Tinha pelo menos um, hoje confesso: ele próprio.

Nessa comissão, como na anterior, a bancada governista não se deu conta do risco que corria. Descobriu-o há poucas semanas, quando "Paulinho" começou a colaborar com a Viúva. De saída, devolverá os US$ 23 milhões guardados em sua conta suíça, revelação ocorrida no dia seguinte ao seu depoimento. Nessa faxina não houve a colaboração do PT.

Durante a campanha eleitoral de 2006, o comissariado encurralou o tucanato, acusando-o de ter tentado privatizar a Petrobras. Era mentira, mas deu certo. Passados oito anos, Lula requentou o truque, mas há uma diferença: uma pessoa de boa-fé podia acreditar que os tucanos quisessem privatizar a Petrobras, mas fica-lhe difícil achar que falar em petrorroubalheiras possa prejudicar a empresa.

Rodada ruim para Dilma - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 17/09
A nova pesquisa do Ibope divulgada ontem pelo "Jornal Nacional" e pelo "Estado de S. Paulo" só trouxe notícias ruins para a presidente Dilma Rousseff, e notícias boas para Marina e Aécio Neves, mais para ela do que para ele. A estratégia de atacar Marina sem dó nem piedade parece que passou do ponto, e reverteu contra a própria candidata à reeleição, que caiu além da margem de erro.
Não é à toa, portanto, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deu parecer favorável à retirada da propaganda eleitoral do filmete do PT que faz uma ligação completamente mentirosa entre o Banco Central autônomo e a falta de comida na casa dos brasileiros. E também o Tribunal Superior Eleitoral retirou do ar o site comandado pelo ex-ministro Franklin Martins.

O tucano Aécio Neves subiu quatro pontos percentuais, reflexo da melhoria de pontuação em Minas Gerais, seu território, e, de maneira geral, em todas as regiões do país, com exceção do Nordeste. Como sua campanha é mais propositiva, embora bastante crítica em relação à capacidade de Marina governar e representar realmente uma mudança de rumos, Aécio cresceu em cima de Marina e Dilma especialmente em Minas, o segundo colégio eleitoral do país. Aécio ainda reduziu sua diferença para Dilma no segundo turno, com a presidente em queda.

Paradoxalmente, o candidato do PSDB para o governo de Minas, Pimenta da Veiga, caiu em relação a seu concorrente Fernando Pimentel, do PT, e corre o risco de perder no primeiro turno. Para reverter os 20 pontos que os separam, Aécio terá que passar a presidente Dilma em Minas e carregar consigo seu candidato a governador, num esforço final que pode lhe acrescentar pontos preciosos.

Marina Silva, apesar de toda campanha agressiva contra ela, principalmente pelo PT, mas em boa medida também pelo candidato do PSDB, caiu apenas 1 ponto, mas viu sua vantagem em relação a Aécio Neves diminuir de 16 para 11 pontos. Ainda no plano das boas notícias, Marina viu confirmar-se fora da margem de erro sua vantagem sobre a presidente Dilma no segundo turno, que passou a ser de 3 pontos (43% contra 40%).

Segundo o Ibope, Aécio chegou a um empate técnico com Marina no Sul, com 23% contra 26% da candidata do PSB. Dilma continua tendo o Nordeste como seu grande bastião eleitoral, onde lidera isolada com 48%. Na região, o candidato do PSDB tem sua pior atuação, com 9%, enquanto Marina consegue barrar um pouco o avanço de Dilma, com 29% dos votos nordestinos. Na eleição de 2010, Dilma teve nada menos que 70% dos votos do Nordeste.

Ela lidera também no Sul, com 34%, e, nas demais regiões, aparece empatada tecnicamente com Marina: no Sudeste, onde se concentram cerca de 44% dos eleitores, a candidata do PSB tem 31%, e a do PT, 30%. No Norte/Centro-Oeste, Dilma tem 35%, e Marina, 32%.

O desempenho da incumbente Dilma Rousseff é melhor nas cidades menores, com até 50 mil habitantes, onde ela alcança 42%. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, sua votação cai 10 pontos percentuais. Nelas, quem lidera é Marina Silva, que tem também o maior eleitorado entre os eleitores de curso superior.

Dilma tem seu melhor desempenho entre eleitores menos escolarizados (até a 4a série: 51%) e no eleitorado mais pobre, com renda de até um salário mínimo, em que fica com 46% das preferências. Aécio tem mais eleitores entre os mais ricos (renda familiar superior a 5 salários: 28%). A presidente tem uma liderança incômoda no quesito rejeição: 32% afirmam que não votariam nela de jeito nenhum.

A presidente Dilma aparentemente superou o índice mínimo de avaliação para ser competitiva na reeleição: hoje, 37% dos eleitores classificam seu governo como ótimo e bom, um pouco acima da taxa de 35% considerada básica para se apresentar à reeleição. Esse índice, porém, também limita sua votação geral, que fica aquém da votação dos candidatos do PT nas últimas eleições. 

Confiança quebrada - CELSO MING

O ESTADÃO - 17/09

O empresário está desanimado porque não vê reação na atividade econômica e, mais do que isso, porque não identifica nenhuma indicação de que o próximo governo seja capaz de virar esse jogo ruim



O Índice de Confiança do Empresário, medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), continua no nível mais baixo da série.

São advertências que se repetem tanto quanto os discursos de decepção, como o pronunciado segunda-feira pelo presidente em exercício da Fiesp, Benjamin Steinbruch. O empresário está desanimado não porque seus negócios estejam passando por mau momento. Isso é do jogo e é parte de suas expectativas. O empresário está desanimado porque não vê reação na atividade econômica e, mais do que isso, porque não identifica nenhuma indicação de que o próximo governo seja capaz de virar esse jogo ruim.



É verdade que o governo Dilma não vem ajudando. Parece não se dar conta de que seu discurso cor-de-rosa, que nega a realidade e não reconhece nem a paradeira nem as distorções, prostra ainda mais porque não acena com mudanças. É pura lógica: se tudo vai bem, não precisa de conserto e, sem conserto, não dá para contar com a retomada sustentável da atividade econômica.

O empresário também não sente firmeza num possível governo Marina, não propriamente pelas suas posições em matéria de política econômica, mas porque tem dúvidas sobre as condições de governabilidade.

A presidente Dilma tem dito que bastará apresentar-se no final de outubro com o renovado cacife de votos para que um novo vento de otimismo passe a soprar por todo o País. Também aí ela está enganada. Não bastará apenas a eleição para que o futuro chefe de Estado ganhe a confiança do empresário brasileiro.

Quem for eleito terá de apresentar diretrizes de uma política econômica confiável, capaz de proporcionar crescimento sustentável e inflação sob controle. Se as mudanças não vierem nessa direção, eventual reanimação cairá, imediatamente, no vazio.

Até agora a presidente Dilma tem-se recusado a aceitar uma política econômica que dê solidez aos fundamentos da economia. Promete apenas mais do mesmo. No entanto, se estiver mesmo disposta a enfrentar os problemas imediatos que estão aí, como o atraso dos preços administrados e necessária correção no câmbio, terá de produzir forçosamente um ajuste nas contas públicas e tratar de implantar algumas das reformas que estão em todas as pautas.

Este não pode ser o caminho da chamada Nova Matriz Macroeconômica, adotada neste primeiro mandato com os resultados já conhecidos. Tem de corrigir o rumo e caminhar na direção da ortodoxia.

Se der Marina, ela terá também de definir uma política econômica diferente da que está aí – mais ou menos na linha do que já está no seu programa. O problema dela não será apenas a maneira como vai organizar as contradições de sua biografia com os compromissos que tem de assumir como chefe de governo, mas, como já está na expectativa geral, será a construção de uma razoável base política que garanta a governança.

Enfim, seja quem estiver à frente do governo, a confiança poderá ser prontamente recuperada se houver comando firme e se a política econômica for consistente.

CONFIRA:

Aí está o comportamento do emprego na indústria em São Paulo. 31,5 mil perderam o emprego nos primeiros oito meses do ano. Só em agosto foram 15 mil.

Demissões e pleno-emprego
Ficaram para trás os tempos em que a indústria só parou de contratar pessoal. A indústria já começou a demitir, como o gráfico acima está mostrando, o que reforça o desânimo, assunto desta Coluna. Essa situação não reflete o nível geral do País, que continua sendo de pleno-emprego, porque o setor de serviços continua abrindo mais postos de trabalho.

Além do duplipensar e da aposta no gogó - MARCELO DE PAIVA ABREU

O ESTADÃO - 17/09

Impressiona a fragilidade das ideias sobre política externa nos programas dos candidatos presidenciais. Mesmo que se leve em conta que plataformas de política externa costumam ter impacto eleitoral bem modesto.

O caso extremo é o programa de Dilma Rousseff, que, depois de quatro anos de diplomacia inoperante, apenas repete velhos chavões. Promete dar continuidade ao processo de "profunda mudança na presença do Brasil no mundo com ênfase na América do Sul e na África (...) o que não significa desconsiderar os países desenvolvidos". Afinal, a política externa é um "elemento fundamental do novo projeto de nação". É o enraizamento da diplomacia de gogó.

As candidaturas de oposição explicitam preocupações quanto ao "isolamento do Brasil" (Aécio) e propõem "superar o imobilismo" (Marina), buscando novos parceiros com nova estratégia de negociações comerciais. Aécio enfatiza a necessidade de recuperar os objetivos inicias do Mercosul e de revalorizar o Itamaraty. Marina propõe "reacender o dinamismo das trocas" (?) com os EUA e a União Europeia, a associação do Mercosul com a Aliança do Pacífico e dá uma barretada em relação a Ibas, Brics e África.

Qualquer proposta sólida quanto à política externa deve partir da constatação de que o poder de barganha e a atratividade do Brasil dependerão de suas políticas internas. Quanto pior for a percepção externa sobre essas políticas, menos viável será a ruptura do isolamento em que o País mergulhou. Não basta querer novos parceiros, é importante ter algo a oferecer. Nos mandatos de Lula, a diplomacia presidencial minorou tais dificuldades. Com a posse de Dilma e a contínua deterioração do desempenho da política econômica, só restou ao governo comemorar "feitos" de natureza estritamente política. O Brasil ficou cada vez mais próximo da Argentina e mais longe do mundo.

A campanha de reeleição da presidente Rousseff está sendo conduzida com extrema agressividade, na tentativa de desmoralizar adversários e sem preocupação quanto à verdade ou com coerência com posições externadas no passado. A fonte de inspiração poderia ser a crença nazista de que, se mentiras forem exageradas e reiteradas, tenderão a ser aceitas como verdade. Ou talvez o "duplipensar", proposto por George Orwell em 1984: o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e, ao mesmo tempo, acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que se tenha tornado inconveniente.

Tal cortina de fumaça não oculta a deterioração pós-mensalão, agravada desde 2010, do compromisso com políticas macroeconômicas prudentes. As atuais políticas relacionadas ao papel do Estado e à abertura da economia também indicam retrocesso em relação à herança recebida pelo PT.

A reorientação da política externa depende de choque de credibilidade gerado pela reversão de políticas econômicas nefastas. É essencial que se reflita sobre novos arranjos institucionais envolvendo a Presidência da República, o Itamaraty com - quem sabe? - realocação de atribuições levando em conta requisitos específicos da política econômica externa. Mas é essencial que isso se dê na esteira da implementação de políticas econômicas que voltem a enfatizar o compromisso com estabilidade macroeconômica, o ajuste no papel do Estado e a integração à economia mundial.

Banco Central. Lamentável a iniciativa do Banco Central do Brasil de processar Alexandre Schwartzman por ter externado críticas veementes - e pertinentes - à atuação do banco. Menos mal que o banco, derrotado em primeira instância, tenha arrepiado caminho e desistido de recorrer, em clara admissão da insensatez da iniciativa. Mas não é que o processo estava em perfeita sintonia com as posições estapafúrdias da candidata Dilma Rousseff sobre as funções de um banco central e sua autonomia?


No palanque - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 17/09

O insignificante ganha importância na campanha


Temos significado (a ideia de uma coisa), significante (como essa ideia é proclamada em sons ou sinais) e insignificante. As duas primeiras palavras formam um par de opostos complementares e interdependentes decisivo para o entendimento da vida coletiva. Ele foi trazido à consciência dos estudiosos das línguas por Ferdinand Saussure, um dos inventores da linguística moderna e do estruturalismo. Já o terceiro termo — o insignificante — surge com a leitura do novo livro-parábola de Milan Kundera, “A festa da insignificância”.

Nele, Kundera faz Ramon, um dos seus personagens-marionetes, declarar: “A insignificância, meu amigo, é a essência da existência.” Uma afirmação espantosa porque, sendo essência, o insignificante passa a ser esplendorosamente significativo. É como mentir e insultar em disputas eleitorais porque vencer é tudo. O insulto e a mentira passam a ser a roupagem moral de quem os usa sem reserva.

Foi exatamente isso que ouvi de um cabo eleitoral. Estávamos encarapitados num palanque desequilibrado que ia para a direita ou para a esquerda, para frente e para trás, como se fosse um barômetro a seguir as denúncias e as propostas dos candidatos. Descobri que os palanques agasalhavam muito mais do que pensavam minha vã e pobre antropologia e as profecias dos que disputam cargos eleitorais.

Para quem vê no aparelho do Estado a solução para todos os problemas, nada pode ter autonomia, a não ser o Estado e, controlando-o, os políticos de plantão ou os donos do poder. Mas, mesmo assim, e por isso mesmo, sabemos que o Estado tem seu lado humano pois, não sendo uma máquina, embora alguns falem de uma “máquina estatal”, ele não funcionaria sem pessoas que, ao fim e ao cabo, não são estrangeiros ou marcianos, mas nossos irmãos, filhos, tios, pais, amigos e compadres. No Brasil, demora coisa de cinco minutos para se saber quem é quem em alguma parada, cargo ou projeto de modo que o nome descobre imediatamente uma rede de relações, sinaliza o nosso lugar e o mundo entra nos eixos. “Sei...”, murmura uma voz dentro de cada um de nós.

Se o cargo estatal está estruturalmente ligado a um ator que, como todo mundo, tem uma família, amigos e partido, então a autonomia ou independência atribuída ao Estado é muito relativa. E fica ainda mais discutível quando o estilo de viver coletivamente é enfaticamente fundado em simpatias e lealdades pessoais porque, no Brasil, os laços institucionais não agem com força fora das torcidas de futebol.

Se isso é aceito como um argumento sociológico realista e relativamente importante, as autonomias têm que ser discutidas. Elas dependem da instituição e do contexto; das competências e também do prestígio político. E do projeto de poder. Se ele for incomensurável como é claro no lulopetismo, então não há o que discutir, exceto o tipo de “capitalismo de Estado” que se deseja implementar no Brasil. Porque não há nenhuma sociedade, nem mesmo as que estariam contra o Estado, como no conhecido ensaio de Pierre Clastres, que não tenha uma agenda capaz de governar suas rotinas, mas esse sistema pode não estar organizado como um Estado. Ele não se encerra num organograma de posições devidamente legalizadas e escritas em mármore ou bronze, como dizia Rousseau.

Aliás, um dos maiores problemas sociológicos do nosso tempo é entender os elos entre costumes, regimes políticos e leis. Montesquieu e Tocqueville perseguiram essa questão com afinco e ela retorna todas as vezes que o dogma estatizante surge enfaticamente como no lulopetismo e nas reações do governo com analistas que criticam o governo Dilma por ter instalado viés de notório anticrescimento no Brasil que governa.

Meu velho mestre falava isso anteontem no mesmo palanque frágil onde vaidades, egos e projetos eram sacudidos por medos, acusações, ódios e esperanças. A cada movimento do palanque eu dizia a mim mesmo: espero que aguente. Depois de tomar umas e outras, o professor soltou o refrão do “salvar o Brasil dos canalhas que, como piolhos, infestam a nossa vasta cabeleira histórica!” Adorei a expressão...

O que define o radicalismo é a recusa a calibrar meios e fins porque nele só existem os fins, os fundamentos. Qualquer sistema não referido a crenças político-religiosas é rejeitado. Um sistema relativamente autorreferido tem uma relativa autonomia. Por isso, o mercado, a moeda estável, um sistema legal com razoável previsibilidade, perturbam tanto os autoritários quanto os formalistas (que só falam dos meios ou dos métodos). Ambos recusam discutir eficiência ou resultados (que levam a mudança) porque essas dimensões calibram meios e fins. Se os fatos nos desmentem, mudem-se os fatos. E que se escreva e discuta apenas o permitido.

Não há — continuava o mestre — como ter um mundo em pleno equilíbrio quando se é finito e não pode viver os momentos finais da finitude plenamente. Somos uma poeira de uma subpoeira. Morremos sempre sem saber e eventualmente de modo trivial. Como um fruto que cai sem aviso de uma árvore.