quinta-feira, setembro 18, 2014

Propaganda de Dilma ultrapassa limites - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/09

Ameaça de Marina leva a campanha do PT e a própria candidata a mandar às favas os escrúpulos e a fazer acusações muito além do aceitável


A entrada de Marina Silva nas eleições presidenciais de maneira fortuita, devido à morte trágica de Eduardo Campos, era tudo o que o PT não queria. Não interessava aos petistas que a ex-ministra e senadora conseguisse constituir seu partido, a Rede, a tempo de entrar na disputa de 2014. Ninguém esquecera os 20 milhões de votos arrebanhados por Marina em 2010.

Parece ter faltado competência aos marineiros para conseguir todas as 492 mil assinaturas de eleitores e registrar a Rede nos prazos legais. Mas, embora reclamações tenham sido arquivadas, sempre existirão suspeitas de interferências alopradas em cartórios eleitorais do ABC, onde milhares de assinaturas foram glosadas.

Uma trapaça do destino colocou Marina na corrida presidencial, na cabeça da chapa do PSB, e o medo petista se confirmou. Como reza a tradição da legenda, o partido preparou agressiva campanha contra Marina. Mas ultrapassou todos os limites: da ética, da seriedade, do cinismo.

Antigas armas têm sido acionadas pelos marqueteiros petistas. A do medo, até mesmo usada contra Lula em 2002, logo foi colocada para funcionar. Marina se esquivou com agilidade, ao se comparar a Lula, a quem defendeu naquela campanha, quando era militante petista, futura ministra do meio ambiente.

Mas o rolo compressor petista cresceu, tão logo foi constatado que manobras que funcionaram contra tucanos — apresentados pelo PT como perigosos “privatistas” — seriam inócuas contra a ambientalista e ex-petista.

O maniqueísmo e a dose de inverdades contidas no filmete produzido para atacar a proposta de Marina de autonomia formal do Banco Central são exemplares do vale-tudo petista. A decisão da campanha de Dilma e da própria candidata de mandar às favas os escrúpulos fica exposta em vários aspectos deste e outros ataques a Marina.O primeiro, que a própria Dilma, na campanha de 2010, apoiou a autonomia formal do BC.

O filmete panfletário diz que, num governo Marina, “banqueiros” controlarão o BC e, assim, farão desaparecer a comida da mesa do povo. Ora, o mesmo não acontece nos EUA, Inglaterra, Japão, Alemanha etc. — onde há BCs autônomos. E se algum banqueiro dirigiu o BC, foi nos governos Lula, quando o ex-CEO do Bank Boston, Henrique Meirelles, presidiu a instituição.

Justifica-se, então, o parecer do Procurador-Geral da União, Rodrigo Janot, junto ao TSE, pela suspensão da propaganda, por “criar estados mentais, emocionais ou passionais” nos eleitores. Ministro do Tribunal, Herman Benjamin disse, ao vetar outra publicidade, esta do PSDB, que um pecado mortal dessas peças de propaganda eleitoral é confundir o eleitor. De fato. Mas a última pesquisa Ibope/Rede Globo demonstrou que o dom de iludir desta campanha não tem produzido o efeito desejado pelos marqueteiros. A Justiça e o MP precisam estar ainda mais atentos.

Uma mistura explosiva - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 18/09


Não se pode dizer que foi uma surpresa a baderna que tomou conta do centro da cidade durante 12 horas, na terça-feira - das 6 horas até o começo da noite -, provocada pela resistência à reintegração de posse, ordenada pela Justiça, do imóvel no antigo Hotel Aquarius, na Avenida São João, esquina com a Avenida Ipiranga, ocupado por 200 famílias de sem-teto ligadas à Frente de Luta por Moradia (FLM). Tais episódios vêm se tornando corriqueiros. Mas esse, além de particularmente violento, apresentou características que mostram para que terreno perigoso essas ações, promovidas pelos ditos movimentos sociais, estão caminhando.

Segundo o comandante do policiamento da capital, coronel Glauco Araújo de Carvalho, a tropa da Polícia Militar (PM) chegou ao local às 6 horas e até as 8 horas tentou convencer os sem-teto a deixarem pacificamente o local. Tanto o que diz é procedente que o tumulto só começou por volta das 8 horas, quando os ocupantes do imóvel começaram a atirar pedras, móveis e até aparelhos eletrodomésticos sobre os policiais, que reagiram com bombas de gás lacrimogêneo. A alegação dos sem-teto para sua resistência à desocupação foi de que a PM não levou ao local os 40 caminhões prometidos para ajudar na mudança. A PM assegura que os caminhões estavam lá, embora uma parte deles, nas imediações, pois não havia como estacionar todos perto do imóvel.

Até aí, esse lamentável afrontamento parecia estar dentro dos limites do que vem ocorrendo nesses casos. A situação degenerou quando entraram em cena outros atores, os mais diversos - integrantes de outros movimentos, estudantes, black blocs, usuários de drogas, ladrões e infratores. Um ajuntamento explosivo que levou a atos de violência que se espalharam pelas imediações, do Viaduto do Chá à Praça da República, e que nada tinham a ver com a desocupação daquele imóvel - depredações e saques de lojas e agências bancárias e incêndio de ônibus. A PM respondeu, além das bombas de gás, com balas de borracha.

A desordem tomou conta da região, levou o comércio a baixar as portas e tumultuou o trânsito numa ampla área da cidade. Uma situação que perdurou até o fim da tarde e começo da noite, com momentos alternados de baderna de maior e menor intensidade. Ao final, 9 pessoas haviam sido presas e 75 levadas a delegacias e soltas pouco depois. Outras 12 ficaram feridas, entre elas 5 PMs, o que torna inconsistente a acusação de excesso repressivo da polícia. O que houve foi uma verdadeira batalha, iniciada pelos sem-teto, da qual a PM, evidentemente, não podia fugir.

Há duas coisas altamente preocupantes nesse episódio. Uma é a reunião de um grupo heterogêneo como esse - de sem-teto a bandidos, passando por black blocs - numa situação como essa, que pode se repetir tanto no centro como em outras regiões onde existem imóveis invadidos. É uma combinação explosiva que, além de contaminar qualquer reivindicação, tem tudo para semear o pânico e o vandalismo na cidade, como já se viu, e cedo ou tarde acabar em tragédia.

Outra é o caráter marcadamente político e partidário que vem adquirindo a ação de grupos como a FLM, que tem notórias ligações com políticos petistas, como os deputados Adriano Diogo (estadual) e Renato Simões (federal). Ficar repetindo, como eles fazem, que os imóveis ocupados não cumprem função social só serve para incentivar novas ocupações e tentar atribuir a culpa pelo problema habitacional ao governador do Estado, que é do PSDB e comanda a PM. Ora, ele não tem nada a ver com a reintegração de posse. Ela é uma ordem judicial que o governador - seja Geraldo Alckmin ou qualquer outro - é obrigado a cumprir, acionando a PM. E, diante da resistência dos ocupantes, só resta à PM retirá-los do local pela força. Não há outra saída para esse tipo de situação.

Se os petistas ligados aos sem-teto quisessem mesmo resolver o seu problema, poderiam começar pressionando o prefeito Fernando Haddad, que é seu correligionário, a investir mais em programas habitacionais. Deixar Haddad de lado e insinuar que a culpa é de Alckmin não é sério.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Isto aqui não é teatro”
Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) fingindo acreditar na seriedade da CPMI da Petrobras


HOMEM-BOMBA VIRA HOMEM-TRAQUE E ALIVIA CPMI

Foi tudo uma encenação patética: apresentado como “homem-bomba”, o potencial “explosivo” do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa mais se assemelhou a um “traque”, trouxinha inofensiva utilizada por crianças nos festejos juninos do Nordeste. O ex-diretor entrou mudo e saiu calado da CPMI, proporcionando alívio em boa parte do plenário, onde estavam alguns suspeitos do Petrolão dos governos Lula e Dilma.

BLINDAGEM

Tropa de choque do Planalto estava pronta para “blindar” o governo, caso o delator jogasse a roubalheira da Petrobras no ventilador.

OPERAÇÃO ABAFA

Envolvidos até o pescoço, parlamentares do PT e do PMDB atuaram para impedir tentativa da oposição de ouvir o ex-diretor em reunião secreta.

OLHO DO FURACÃO

Com vários dirigentes citados na delação premiada de Paulo Roberto Costa, o PP não deu as caras ontem na CPMI da Petrobras.

JUNTOS CONTRA UM

Deputado do PDT, aliado de Dilma, Ênio Bacci (RS) seguiu exemplo do senador Gim Argello (PTB-DF) e votou com a oposição na CPMI.

ESPECTRO DE VALÉRIO ASSOMBRA SUCESSÃO MINEIRA

Conexões de Marcos Valério, do mensalão do PT, assombram o PSDB na sucessão estadual, em Minas. Indiciado pela PF por ter recebido R$ 300 mil, ocandidato Pimenta da Veiga (PSDB) mudou a versão que apresentou dois anos depois, ao retificar o imposto de renda de pessoa física: a grana seria pagamento de consultoria, por meio de “pareceres verbais”. Agora, ele atribui a consultoria a sua “pessoa jurídica”.

SIGILO QUEBRADO

Pimenta da Veiga somente faria retificação do seu imposto de renda quando foi quebrado o sigilo bancário de Marcos Valério.

PESSOA JURÍDICA

Esta semana, Pimenta disse que não fez a declaração no prazo porque não havia constituído pessoa jurídica: “Precisava fazer por ela”.

‘EMPRÉSTIMO’

Faltou Pimenta da Veiga combinar com Marcos Valério: o tesoureiro do mensalão justificou o dinheiro como “empréstimo pessoal” ao amigo.

JÁ ERA

O PT dá como certa a derrota de Armando Monteiro (PTB), na disputa pelo governo de Pernambuco. Vai tentar “salvar” o petista João Paulo, empatado com Fernando Bezerra (PSB) na briga pelo Senado.

EFEITO TRATOR

O Planalto mobilizou ontem parlamentares do PDT, PR e PCdoB, que nem sequer integram a CPMI, para lotar o plenário e ajudar o PT e o PMDB a “melar” o depoimento do ex-diretor corrupto da Petrobras.

A VIÚVA SUMIU

Viúva do ex-deputado José Janene (PP-PR), estrela do mensalão, Stael Janene chegou a ensaiar denúncia, mas submergiu após ganhar proporções o escândalo envolvendo Alberto Youssef e Petrobras.

A VIDA COMO ELA É

A declaração de votos para Dilma dos reitores que ela nomeou, nasuniversidades, só foi superada pelo apoio de supostos “líderes” dos protestos de 2013 que chefiam ONGs bancadas com dinheiro público.

GASTOS SECRETOS

O Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento deixou de ser atualizado. Ninguém sabe ao certo quanto foi gasto com salários de servidores nos últimos meses. Dados mais recentes são de junho.

APAGÃO NO PARÁ

Belém se viu mergulhada nas trevas desde terça-feira, sem internet, sem celular, sem acesso a pagar contas com cartão de crédito ou débito, nem fazer saques nos caixas. Caos total. E sem explicações.

MULHERES VETADAS

Na negociação para definir o substituto de Arruda na disputa pelo governo do DF, o escaldado Joaquim Roriz fez apenas uma imposição: manter as respectivas mulheres, e até filhas, fora da cabeça de chapa.

PODE ISSO, TRE?

Passeata do PT no início da noite, ontem, em Brasília, parecia desfile de servidores do governo do DF. Sempre ausente onde é necessário, o Detran-DF se fez representar por cinco viaturas e mais cinco motos.

PENSANDO BEM...

...depois de jogarem um deputado numa lixeira, na Ucrânia, não será surpresa se começarem a sumir latas de lixo em Brasília, Rio, São Paulo...


PODER SEM PUDOR

O FOGO DA JUVENTUDE

Representando o regime militar, Eliseu Resende foi candidato ao governo de Minas, em 1982, contra Tancredo Neves (PMDB). Pouco conhecido e sem experiência, ele cometeu um erro: centrou sua campanha na crítica à idade do adversário:

- Não podemos entregar o Estado a quem, numa idade provecta, não pode sustentar o peso da administração - declarou na TV.

Tancredo ficou ofendido, mas não passou recibo. Dois dias depois, foi à televisão, elogiou o adversário para depois acabar com ele:

- Konrad Adenauer deixou o governo da Alemanha aos 80 anos, após reconstruir o país. Já o jovem Nero, aos 31, tocou fogo em Roma...

quarta-feira, setembro 17, 2014

Demolição de valores - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 17/09


Mantido o rumo pelo qual enveredou a campanha à Presidência da República, o que se pode esperar dos próximos 18 dias até o primeiro turno e depois mais 20 antes da etapa final não é um clima emocionante típico das eleições bem disputadas, como pareceu quando Marina Silva entrou na competição.

Disputas pressupõem confrontações de argumentos, embates travados mediante a observância de determinadas regras. Pois o que temos no cenário desde que o governo decidiu mandar às favas os escrúpulos e fazer o diabo para tentar vencer as eleições não guarda a menor relação com troca de argumentos e muito menos com obediência a qualquer tipo de regra.

Por ora há uma perplexidade. Um pouco pela falta de cerimônia no uso de mentiras tão deslavadamente mentirosas, um pouco pelo fato de ainda haver um contingente disposto a acreditar nelas.

Daqui a pouco poderá haver um cansaço com a atuação de uma gente que mente e reiteradamente se desmente sem a preocupação de preservar a própria biografia ou respeitar a liturgia do cargo.

Além de candidata, Dilma Rousseff é presidente da República. Ao mesmo tempo em que ter certas prerrogativas que lhe dão vantagens inerentes ao posto, tem deveres decorrentes da função que a diferenciam dos demais concorrentes.

O grau irrepreensível “no que se refere” à compostura é um deles. O comedimento, a austeridade sempre invocada como uma de suas qualidades não autoriza sua chancela no uso de mentiras. Muito menos que se faça pessoalmente porta-voz delas. Embora não condiga com seu discurso de correção é o que vem fazendo.

A presidente está dizendo ao povo que governa que os adversários vão acabar com esse ou aquele benefício social, que vão tirar verbas da saúde e da educação, que empresários e banqueiros se regozijam com a fome do brasileiro, que o governo do PT combate como ninguém a corrupção.

Ainda que os adversários quisessem mesmo acabar com os benefícios, vender a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, reduzir os investimentos em saúde e educação. De onde a presidente tirou isso se nunca disseram nada parecido? Da cabeça de seus conselheiros que a mandaram repetir tudo isso.

E o combate à corrupção? Tema evitado a todo custo pelo governo. Se fosse tão espetacular como se diz agora no horário eleitoral, o assunto já estaria muito antes entre os “grandes feitos” e não deixado para ser incluído quando começa a se fechar o cerco a respeito dos esquemas na Petrobras.

Isso dito quando se viram tantos escândalos serem abafados. Sem contar o fato de a antiga cúpula do partido estar quase toda na cadeia por força de um julgamento tido pelo PT como produto de um “tribunal de exceção”.

Nessa nova fase até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que andava meio arisco, se animou a aparecer exercendo seu conhecido dom de iludir – quem quer ser iludido, bem entendido. No ato público desta segunda-feira, no Rio, onde se pretendia “abraçar” a Petrobras, mas que o público presente não foi suficiente para um aperto de mão, Lula voltou a atacar o financiamento privado de campanhas. Disse que deveria ser crime inafiançável.

No mesmo dia circulava um e-mail do PT a empresários apresentando, em nome de Dilma, “a oportunidade de contribuir financeiramente para a campanha da reeleição da presidenta da República”, no que a correspondência qualificava como uma “ação empresarial cidadã”.

É de se imaginar que o governo queime pontes confiando que, reeleito, poderá reconstruí-las pelo poder que a vitória tem de curar feridas. Agora pensa exclusivamente nas eleições. Por dever de responsabilidade conviria pensar que além de uma eleição há um país a ser governado e que não merece assistir a tão completa e definitiva escalada de demolição de valores.


Haja Prozac - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 17/09


BRASÍLIA - Ouvi uma frase sobre a corrida presidencial que me pareceu perfeita: "Em 2002, achei que o PT estava despreparado para assumir o governo. Mas eu não sabia que o PT estaria agora tão despreparado para deixar o governo".

É uma avaliação tão cruel quanto verdadeira. Revela também o grau de subdesenvolvimento institucional do país. É claro que não há risco de disrupção, mas parece um pouco incompatível com a regra democrática que um partido entre em desespero frenético apenas porque existe a possibilidade de sair do poder a partir de 1º de janeiro de 2015.

A aparição do ex-presidente Lula, suado e descabelado, fazendo uma manifestação em frente à Petrobras é a síntese do clima atual no PT. E nem está claro que Dilma Rousseff perderá a disputa contra Marina Silva (aliás, a presidente está à frente nas pesquisas). Mas em Brasília é possível respirar um certo pânico no ar.

Só na capital da República há mais de 20 mil cargos de confiança, todos ocupados pelo petismo e adjacências. Uma derrota de Dilma Rousseff obrigará essas pessoas e suas famílias a deixarem a cidade. Por baixo, serão de 40 a 50 mil desamparados. Voltarão a seus Estados para pedir trabalho na iniciativa privada ou em algum governo, prefeitura ou sindicato sob o comando do PT.

Serão milhares de dramas pessoais. Em Harvard, nos EUA, a universidade oferece um serviço gratuito de atendimento psicológico a estudantes estrangeiros que passam um tempo por lá e depois têm de retornar para seus países. Dilma poderia pensar no assunto. Uma "bolsa psicólogo" ajudaria a manter mais calmas as pessoas ao seu lado.

Como o problema é estrutural, uma vitória dilmista só atrasará a crise existencial dos petistas. Até porque, em 2018, 2022 ou em outro momento, o partido sairá do poder. Quando esse dia chegar, as farmácias de Brasília terão de reforçar os estoques de Prozac em suas prateleiras.

Lula requenta o truque de 2006 - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 17/09


Nosso Guia quer confundir a Petrobras com a gestão do comissariado petista com que aparelhou a empresa


Lula fez uma involuntária defesa do voto útil, aquele que vai para qualquer lugar, desde que o PT vá embora. Foi para a frente do prédio da Petrobras e disse o seguinte:

"Já houve três pedidos de CPI só na Petrobras. Eu tenho a impressão de que essas pessoas pedem CPI para, depois, os empresários correrem atrás delas e achacarem esses empresários para ganhar dinheiro. (...) Se alguém roubou, esse alguém tem mais é que ser investigado, ser julgado. Se for culpado, tem que ir para a cadeia."

A Petrobras petista apareceu em várias CPIs. A primeira, de 2005, foi a do mensalão. Duas outras foram específicas e, com a ajuda do comissariado, deram em nada. Se Nosso Guia acha (e tem motivos para isso) que, incentivando-as, há "pessoas" achacando empresários que correm "atrás delas", não se conhece uma só fala de petista denunciando achacados ou achacadores. O relator da comissão que está funcionando é o petista Marco Maia.

O primeiro comissário apanhado em malfeitorias relacionadas com a Petrobras foi o secretário-geral do PT, Silvio Pereira. "Silvinho" fez um acordo com o Ministério Público e trocou o risco de uma condenação por 750 horas de trabalho comunitário. Ele ganhara um reles Land Rover de um fornecedor da Petrobras. Nem Lula nem o PT condenaram-no publicamente. Se o tivessem feito, teriam emitido um sinal. Afinal, dissera o seguinte: "Há cem Marcos Valério por trás do Marcos Valério". Ele está na cadeia. Salvo a bancada da Papuda, os demais estão soltos.

Em 2009, quando foi instalada a primeira CPI para tratar exclusivamente da Petrobras, o comissariado disse que a iniciativa tentava tisnar a imagem da empresa. Resultou que ela tisnou a imagem do instituto da CPI e os petrocomissários continuaram nos seus afazeres. Paulo Roberto Costa estava na diretoria da Petrobras desde 2004. Em oito anos, amealhou pelo menos US$ 23 milhões.

A CPI de hoje é abrilhantada também pelos petistas Humberto Costa, José Pimentel e Sibá Machado. Nenhum deles, nem Marco Maia, deve vestir a carapuça da fala de Lula, mas jamais apontaram um achacador. "Paulinho" foi preso em abril pela Polícia Federal e, em seu escritório, foram recolhidos abundantes provas de seus malfeitos. Ele prestou um depoimento à CPI em junho e o senador Humberto Costa considerou-o "satisfatório". "Paulinho" disse o seguinte: "A Petrobras não é uma empresa bandida nem tem bandidos em seus quadros". Tinha pelo menos um, hoje confesso: ele próprio.

Nessa comissão, como na anterior, a bancada governista não se deu conta do risco que corria. Descobriu-o há poucas semanas, quando "Paulinho" começou a colaborar com a Viúva. De saída, devolverá os US$ 23 milhões guardados em sua conta suíça, revelação ocorrida no dia seguinte ao seu depoimento. Nessa faxina não houve a colaboração do PT.

Durante a campanha eleitoral de 2006, o comissariado encurralou o tucanato, acusando-o de ter tentado privatizar a Petrobras. Era mentira, mas deu certo. Passados oito anos, Lula requentou o truque, mas há uma diferença: uma pessoa de boa-fé podia acreditar que os tucanos quisessem privatizar a Petrobras, mas fica-lhe difícil achar que falar em petrorroubalheiras possa prejudicar a empresa.

Rodada ruim para Dilma - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 17/09
A nova pesquisa do Ibope divulgada ontem pelo "Jornal Nacional" e pelo "Estado de S. Paulo" só trouxe notícias ruins para a presidente Dilma Rousseff, e notícias boas para Marina e Aécio Neves, mais para ela do que para ele. A estratégia de atacar Marina sem dó nem piedade parece que passou do ponto, e reverteu contra a própria candidata à reeleição, que caiu além da margem de erro.
Não é à toa, portanto, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deu parecer favorável à retirada da propaganda eleitoral do filmete do PT que faz uma ligação completamente mentirosa entre o Banco Central autônomo e a falta de comida na casa dos brasileiros. E também o Tribunal Superior Eleitoral retirou do ar o site comandado pelo ex-ministro Franklin Martins.

O tucano Aécio Neves subiu quatro pontos percentuais, reflexo da melhoria de pontuação em Minas Gerais, seu território, e, de maneira geral, em todas as regiões do país, com exceção do Nordeste. Como sua campanha é mais propositiva, embora bastante crítica em relação à capacidade de Marina governar e representar realmente uma mudança de rumos, Aécio cresceu em cima de Marina e Dilma especialmente em Minas, o segundo colégio eleitoral do país. Aécio ainda reduziu sua diferença para Dilma no segundo turno, com a presidente em queda.

Paradoxalmente, o candidato do PSDB para o governo de Minas, Pimenta da Veiga, caiu em relação a seu concorrente Fernando Pimentel, do PT, e corre o risco de perder no primeiro turno. Para reverter os 20 pontos que os separam, Aécio terá que passar a presidente Dilma em Minas e carregar consigo seu candidato a governador, num esforço final que pode lhe acrescentar pontos preciosos.

Marina Silva, apesar de toda campanha agressiva contra ela, principalmente pelo PT, mas em boa medida também pelo candidato do PSDB, caiu apenas 1 ponto, mas viu sua vantagem em relação a Aécio Neves diminuir de 16 para 11 pontos. Ainda no plano das boas notícias, Marina viu confirmar-se fora da margem de erro sua vantagem sobre a presidente Dilma no segundo turno, que passou a ser de 3 pontos (43% contra 40%).

Segundo o Ibope, Aécio chegou a um empate técnico com Marina no Sul, com 23% contra 26% da candidata do PSB. Dilma continua tendo o Nordeste como seu grande bastião eleitoral, onde lidera isolada com 48%. Na região, o candidato do PSDB tem sua pior atuação, com 9%, enquanto Marina consegue barrar um pouco o avanço de Dilma, com 29% dos votos nordestinos. Na eleição de 2010, Dilma teve nada menos que 70% dos votos do Nordeste.

Ela lidera também no Sul, com 34%, e, nas demais regiões, aparece empatada tecnicamente com Marina: no Sudeste, onde se concentram cerca de 44% dos eleitores, a candidata do PSB tem 31%, e a do PT, 30%. No Norte/Centro-Oeste, Dilma tem 35%, e Marina, 32%.

O desempenho da incumbente Dilma Rousseff é melhor nas cidades menores, com até 50 mil habitantes, onde ela alcança 42%. Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, sua votação cai 10 pontos percentuais. Nelas, quem lidera é Marina Silva, que tem também o maior eleitorado entre os eleitores de curso superior.

Dilma tem seu melhor desempenho entre eleitores menos escolarizados (até a 4a série: 51%) e no eleitorado mais pobre, com renda de até um salário mínimo, em que fica com 46% das preferências. Aécio tem mais eleitores entre os mais ricos (renda familiar superior a 5 salários: 28%). A presidente tem uma liderança incômoda no quesito rejeição: 32% afirmam que não votariam nela de jeito nenhum.

A presidente Dilma aparentemente superou o índice mínimo de avaliação para ser competitiva na reeleição: hoje, 37% dos eleitores classificam seu governo como ótimo e bom, um pouco acima da taxa de 35% considerada básica para se apresentar à reeleição. Esse índice, porém, também limita sua votação geral, que fica aquém da votação dos candidatos do PT nas últimas eleições. 

Confiança quebrada - CELSO MING

O ESTADÃO - 17/09

O empresário está desanimado porque não vê reação na atividade econômica e, mais do que isso, porque não identifica nenhuma indicação de que o próximo governo seja capaz de virar esse jogo ruim



O Índice de Confiança do Empresário, medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), continua no nível mais baixo da série.

São advertências que se repetem tanto quanto os discursos de decepção, como o pronunciado segunda-feira pelo presidente em exercício da Fiesp, Benjamin Steinbruch. O empresário está desanimado não porque seus negócios estejam passando por mau momento. Isso é do jogo e é parte de suas expectativas. O empresário está desanimado porque não vê reação na atividade econômica e, mais do que isso, porque não identifica nenhuma indicação de que o próximo governo seja capaz de virar esse jogo ruim.



É verdade que o governo Dilma não vem ajudando. Parece não se dar conta de que seu discurso cor-de-rosa, que nega a realidade e não reconhece nem a paradeira nem as distorções, prostra ainda mais porque não acena com mudanças. É pura lógica: se tudo vai bem, não precisa de conserto e, sem conserto, não dá para contar com a retomada sustentável da atividade econômica.

O empresário também não sente firmeza num possível governo Marina, não propriamente pelas suas posições em matéria de política econômica, mas porque tem dúvidas sobre as condições de governabilidade.

A presidente Dilma tem dito que bastará apresentar-se no final de outubro com o renovado cacife de votos para que um novo vento de otimismo passe a soprar por todo o País. Também aí ela está enganada. Não bastará apenas a eleição para que o futuro chefe de Estado ganhe a confiança do empresário brasileiro.

Quem for eleito terá de apresentar diretrizes de uma política econômica confiável, capaz de proporcionar crescimento sustentável e inflação sob controle. Se as mudanças não vierem nessa direção, eventual reanimação cairá, imediatamente, no vazio.

Até agora a presidente Dilma tem-se recusado a aceitar uma política econômica que dê solidez aos fundamentos da economia. Promete apenas mais do mesmo. No entanto, se estiver mesmo disposta a enfrentar os problemas imediatos que estão aí, como o atraso dos preços administrados e necessária correção no câmbio, terá de produzir forçosamente um ajuste nas contas públicas e tratar de implantar algumas das reformas que estão em todas as pautas.

Este não pode ser o caminho da chamada Nova Matriz Macroeconômica, adotada neste primeiro mandato com os resultados já conhecidos. Tem de corrigir o rumo e caminhar na direção da ortodoxia.

Se der Marina, ela terá também de definir uma política econômica diferente da que está aí – mais ou menos na linha do que já está no seu programa. O problema dela não será apenas a maneira como vai organizar as contradições de sua biografia com os compromissos que tem de assumir como chefe de governo, mas, como já está na expectativa geral, será a construção de uma razoável base política que garanta a governança.

Enfim, seja quem estiver à frente do governo, a confiança poderá ser prontamente recuperada se houver comando firme e se a política econômica for consistente.

CONFIRA:

Aí está o comportamento do emprego na indústria em São Paulo. 31,5 mil perderam o emprego nos primeiros oito meses do ano. Só em agosto foram 15 mil.

Demissões e pleno-emprego
Ficaram para trás os tempos em que a indústria só parou de contratar pessoal. A indústria já começou a demitir, como o gráfico acima está mostrando, o que reforça o desânimo, assunto desta Coluna. Essa situação não reflete o nível geral do País, que continua sendo de pleno-emprego, porque o setor de serviços continua abrindo mais postos de trabalho.

Além do duplipensar e da aposta no gogó - MARCELO DE PAIVA ABREU

O ESTADÃO - 17/09

Impressiona a fragilidade das ideias sobre política externa nos programas dos candidatos presidenciais. Mesmo que se leve em conta que plataformas de política externa costumam ter impacto eleitoral bem modesto.

O caso extremo é o programa de Dilma Rousseff, que, depois de quatro anos de diplomacia inoperante, apenas repete velhos chavões. Promete dar continuidade ao processo de "profunda mudança na presença do Brasil no mundo com ênfase na América do Sul e na África (...) o que não significa desconsiderar os países desenvolvidos". Afinal, a política externa é um "elemento fundamental do novo projeto de nação". É o enraizamento da diplomacia de gogó.

As candidaturas de oposição explicitam preocupações quanto ao "isolamento do Brasil" (Aécio) e propõem "superar o imobilismo" (Marina), buscando novos parceiros com nova estratégia de negociações comerciais. Aécio enfatiza a necessidade de recuperar os objetivos inicias do Mercosul e de revalorizar o Itamaraty. Marina propõe "reacender o dinamismo das trocas" (?) com os EUA e a União Europeia, a associação do Mercosul com a Aliança do Pacífico e dá uma barretada em relação a Ibas, Brics e África.

Qualquer proposta sólida quanto à política externa deve partir da constatação de que o poder de barganha e a atratividade do Brasil dependerão de suas políticas internas. Quanto pior for a percepção externa sobre essas políticas, menos viável será a ruptura do isolamento em que o País mergulhou. Não basta querer novos parceiros, é importante ter algo a oferecer. Nos mandatos de Lula, a diplomacia presidencial minorou tais dificuldades. Com a posse de Dilma e a contínua deterioração do desempenho da política econômica, só restou ao governo comemorar "feitos" de natureza estritamente política. O Brasil ficou cada vez mais próximo da Argentina e mais longe do mundo.

A campanha de reeleição da presidente Rousseff está sendo conduzida com extrema agressividade, na tentativa de desmoralizar adversários e sem preocupação quanto à verdade ou com coerência com posições externadas no passado. A fonte de inspiração poderia ser a crença nazista de que, se mentiras forem exageradas e reiteradas, tenderão a ser aceitas como verdade. Ou talvez o "duplipensar", proposto por George Orwell em 1984: o poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e, ao mesmo tempo, acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que se tenha tornado inconveniente.

Tal cortina de fumaça não oculta a deterioração pós-mensalão, agravada desde 2010, do compromisso com políticas macroeconômicas prudentes. As atuais políticas relacionadas ao papel do Estado e à abertura da economia também indicam retrocesso em relação à herança recebida pelo PT.

A reorientação da política externa depende de choque de credibilidade gerado pela reversão de políticas econômicas nefastas. É essencial que se reflita sobre novos arranjos institucionais envolvendo a Presidência da República, o Itamaraty com - quem sabe? - realocação de atribuições levando em conta requisitos específicos da política econômica externa. Mas é essencial que isso se dê na esteira da implementação de políticas econômicas que voltem a enfatizar o compromisso com estabilidade macroeconômica, o ajuste no papel do Estado e a integração à economia mundial.

Banco Central. Lamentável a iniciativa do Banco Central do Brasil de processar Alexandre Schwartzman por ter externado críticas veementes - e pertinentes - à atuação do banco. Menos mal que o banco, derrotado em primeira instância, tenha arrepiado caminho e desistido de recorrer, em clara admissão da insensatez da iniciativa. Mas não é que o processo estava em perfeita sintonia com as posições estapafúrdias da candidata Dilma Rousseff sobre as funções de um banco central e sua autonomia?


No palanque - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 17/09

O insignificante ganha importância na campanha


Temos significado (a ideia de uma coisa), significante (como essa ideia é proclamada em sons ou sinais) e insignificante. As duas primeiras palavras formam um par de opostos complementares e interdependentes decisivo para o entendimento da vida coletiva. Ele foi trazido à consciência dos estudiosos das línguas por Ferdinand Saussure, um dos inventores da linguística moderna e do estruturalismo. Já o terceiro termo — o insignificante — surge com a leitura do novo livro-parábola de Milan Kundera, “A festa da insignificância”.

Nele, Kundera faz Ramon, um dos seus personagens-marionetes, declarar: “A insignificância, meu amigo, é a essência da existência.” Uma afirmação espantosa porque, sendo essência, o insignificante passa a ser esplendorosamente significativo. É como mentir e insultar em disputas eleitorais porque vencer é tudo. O insulto e a mentira passam a ser a roupagem moral de quem os usa sem reserva.

Foi exatamente isso que ouvi de um cabo eleitoral. Estávamos encarapitados num palanque desequilibrado que ia para a direita ou para a esquerda, para frente e para trás, como se fosse um barômetro a seguir as denúncias e as propostas dos candidatos. Descobri que os palanques agasalhavam muito mais do que pensavam minha vã e pobre antropologia e as profecias dos que disputam cargos eleitorais.

Para quem vê no aparelho do Estado a solução para todos os problemas, nada pode ter autonomia, a não ser o Estado e, controlando-o, os políticos de plantão ou os donos do poder. Mas, mesmo assim, e por isso mesmo, sabemos que o Estado tem seu lado humano pois, não sendo uma máquina, embora alguns falem de uma “máquina estatal”, ele não funcionaria sem pessoas que, ao fim e ao cabo, não são estrangeiros ou marcianos, mas nossos irmãos, filhos, tios, pais, amigos e compadres. No Brasil, demora coisa de cinco minutos para se saber quem é quem em alguma parada, cargo ou projeto de modo que o nome descobre imediatamente uma rede de relações, sinaliza o nosso lugar e o mundo entra nos eixos. “Sei...”, murmura uma voz dentro de cada um de nós.

Se o cargo estatal está estruturalmente ligado a um ator que, como todo mundo, tem uma família, amigos e partido, então a autonomia ou independência atribuída ao Estado é muito relativa. E fica ainda mais discutível quando o estilo de viver coletivamente é enfaticamente fundado em simpatias e lealdades pessoais porque, no Brasil, os laços institucionais não agem com força fora das torcidas de futebol.

Se isso é aceito como um argumento sociológico realista e relativamente importante, as autonomias têm que ser discutidas. Elas dependem da instituição e do contexto; das competências e também do prestígio político. E do projeto de poder. Se ele for incomensurável como é claro no lulopetismo, então não há o que discutir, exceto o tipo de “capitalismo de Estado” que se deseja implementar no Brasil. Porque não há nenhuma sociedade, nem mesmo as que estariam contra o Estado, como no conhecido ensaio de Pierre Clastres, que não tenha uma agenda capaz de governar suas rotinas, mas esse sistema pode não estar organizado como um Estado. Ele não se encerra num organograma de posições devidamente legalizadas e escritas em mármore ou bronze, como dizia Rousseau.

Aliás, um dos maiores problemas sociológicos do nosso tempo é entender os elos entre costumes, regimes políticos e leis. Montesquieu e Tocqueville perseguiram essa questão com afinco e ela retorna todas as vezes que o dogma estatizante surge enfaticamente como no lulopetismo e nas reações do governo com analistas que criticam o governo Dilma por ter instalado viés de notório anticrescimento no Brasil que governa.

Meu velho mestre falava isso anteontem no mesmo palanque frágil onde vaidades, egos e projetos eram sacudidos por medos, acusações, ódios e esperanças. A cada movimento do palanque eu dizia a mim mesmo: espero que aguente. Depois de tomar umas e outras, o professor soltou o refrão do “salvar o Brasil dos canalhas que, como piolhos, infestam a nossa vasta cabeleira histórica!” Adorei a expressão...

O que define o radicalismo é a recusa a calibrar meios e fins porque nele só existem os fins, os fundamentos. Qualquer sistema não referido a crenças político-religiosas é rejeitado. Um sistema relativamente autorreferido tem uma relativa autonomia. Por isso, o mercado, a moeda estável, um sistema legal com razoável previsibilidade, perturbam tanto os autoritários quanto os formalistas (que só falam dos meios ou dos métodos). Ambos recusam discutir eficiência ou resultados (que levam a mudança) porque essas dimensões calibram meios e fins. Se os fatos nos desmentem, mudem-se os fatos. E que se escreva e discuta apenas o permitido.

Não há — continuava o mestre — como ter um mundo em pleno equilíbrio quando se é finito e não pode viver os momentos finais da finitude plenamente. Somos uma poeira de uma subpoeira. Morremos sempre sem saber e eventualmente de modo trivial. Como um fruto que cai sem aviso de uma árvore.

A autonomia do BC e o homem do saco - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA D SP - 17/09

É preciso um debate adulto sobre o tema: objetivo do BC é definido pelo Executivo, que é quem escolhe os dirigentes


Mesmo com muita gente boa já escrevendo sobre a autonomia do BC, não posso ficar sem me manifestar. Principalmente porque, mesmo para os padrões nada elevados como os que caracterizam as campanhas eleitorais em geral, a atitude da propaganda situacionista tem sido de uma infantilidade atroz. Só falta afirmar que a autonomia implicará a legalização do "homem do saco": o BC mesmo cuidaria de raptar as crianças para servi-las a banqueiros em banquetes macabros.

A presidente participa ativamente da criancice ao afirmar que "o BC não é o quarto poder", reiterando que tal medida tiraria comida do prato dos brasileiros (e possivelmente traria também o bicho-papão) apenas quatro anos após ter criticado seu então oponente por afirmação semelhante, mas até aí eu jamais a acusei de coerência.

Cabe, em primeiro lugar, eliminar fontes comuns de mal-entendidos, que só servem a quem teme um debate adulto sobre o tema. Autonomia do BC não implica que este se converta num quarto poder, ou mesmo na Santa Sé.

A começar porque todas as propostas colocadas em discussão definem, a zero de jogo, que o objetivo do BC, por exemplo, a meta para a inflação, continuaria a ser prerrogativa do Executivo, como hoje o é, por meio do Conselho Monetário Nacional, cujos membros são todos escolhidos pelo presidente da República, justamente aquele que não se elege sem o apoio da maioria absoluta dos votantes.

Obviamente a presidente pode determinar ao BC que busque uma meta mais elevada de inflação, mas terá também que explicar à população o motivo pelo qual fez esta escolha. Aliás, deveria ter a coragem de explicar hoje sua opção por permitir que o Banco Central persiga --como se depreende de suas próprias afirmações-- uma meta de 6,5%, mas me desvio...

É também bom deixar claro que não seriam os banqueiros, os maçons ou os illuminati os responsáveis pela indicação dos dirigentes do BC, mas sim o presidente, passando, aliás, pelo crivo do Senado Federal, como ocorre hoje em dia.

Por fim, isto também não significa falta de transparência ou responsabilidade, pois, da mesma forma que acontece atualmente, o BC teria que prestar contas periódicas (por exemplo, duas vezes por ano) ao Congresso Nacional, seja ao Senado, seja à Câmara.

A diferença no caso seria que, ao contrário da situação atual, o indicado ao BC teria um mandato fixo, não coincidente com o do presidente. Ao longo deste mandato o dirigente só poderia ser demitido em situações previstas em lei, e não pela simples vontade do governante de plantão.

Este arranjo básico, com algumas variantes, é o que vigora em países de escassa tradição democrática, como os EUA, o Reino Unido (enquanto ainda é Unido), o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, o Japão e outros tantos pobres e instáveis. Já bancos centrais subordinados ao Executivo são privilégio de países do naipe da Rússia, da China, da Argentina, da Venezuela, do Zimbábue e de outros titãs da democracia mundial.

Isso não ocorreu por acaso, mas sim porque naqueles países se percebeu que um banco central livre das pressões políticas de curto prazo costuma obter resultados melhores em termos de inflação mais baixa, sem prejudicar em prazo mais longo o ritmo de crescimento ou a taxa de desemprego.

Já bancos centrais subordinados aos objetivos políticos do governo tipicamente geram inflação mais elevada, que, por vezes, pode inclusive reduzir a taxa de crescimento, normalmente devido às distorções geradas por formas desastradas de tentar evitar a manifestação do fenômeno inflacionário, como controles de preços. Há aqui um paralelo evidente ou seria apenas minha paranoia fora de controle?

De qualquer forma, o tema merece um debate informado e adulto, longe de estereótipos e slogans, praticamente o oposto do que se observa na campanha, em particular no que se refere ao campo situacionista. Se não melhorarem seu comportamento, serei obrigado a chamar o homem do saco...

A democracia fragilizada - RÔMULO BINI PEREIRA

O ESTADO DE S.PAULO - 17/09


Mais uma vez uma grande decepção se delineia para o povo brasileiro. Em depoimentos à Polícia Federal, o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa declarou que políticos da base de apoio ao governo central participavam de um esquema de corrupção envolvendo aquela empresa e grandes empreiteiras. O fato implica nomes de expressão no cenário político atual e põe o nosso governo no centro de um escândalo idêntico ou até maior que o "mensalão".

Advogados renomados e regiamente pagos certamente entrarão nesse processo e, com base em trâmites jurídicos longos, prolongarão no tempo os possíveis julgamentos finais. O povo brasileiro, conforme experiências vividas no passado, já se manifesta com a costumeira assertiva: "Não vai dar em nada!" - selo de descrédito em nossas instituições. É neste ambiente conturbado que a eleição presidencial e as legislativas se aproximam. Com o auxílio de marqueteiros e homens de comunicação social, prevê-se um verdadeiro "vale-tudo", recomendado até mesmo por lideranças políticas que nos governam.

A propaganda eleitoral mostra ainda o nível daqueles que comporão o nosso Congresso e as Assembleias Legislativas. Com exceções, são participações hilárias em que predominam excentricidades, direitos inatingíveis e assistencialismos exacerbados. São representantes de 32 partidos com os costumeiros objetivos de aproveitamento de futuros cargos públicos ou de benesses dos governos central ou estaduais. Agora, com este novo escândalo, está bem claro que a "base governamental" sempre teve como objetivo evidente o apoio ao governo central em troca de favores e dinheiro público. Fatos que causam indignação e revolta no nosso povo, que não merece um Legislativo encabrestado pelo Executivo. Assim, a pobreza política do nosso país continuará!

E o que se pode dizer do nosso Poder Judiciário? Com o êxito alcançado nos julgamentos do "mensalão" e da atuação ímpar de seu antigo presidente, tornou-se uma esperança para os brasileiros. Entretanto, a presença ideológica e partidária em todos os seus níveis, uma execução penal complexa e prolixa, ininteligível para a maioria do povo, são alguns dos aspectos que comprometem a sua credibilidade. Sem contar o predomínio da ab-rogação do mérito e as inúmeras indicações políticas que ferem o artigo 101 da Constituição da República. Neste país continental, com 200 milhões de habitantes, onde imperam a permissividade e a impunidade, necessitamos de um Judiciário que marque sua presença não só com justiça e isenção, mas também com celeridade e punições mais severas no rigor da lei.

Talvez em razão dos fatos apresentados, as indagações quanto às posições das Forças Armadas no atual sistema democrático em que vivemos se avolumam nas redes sociais. "Só Deus e os militares nos poderão salvar!" é o que se lê e se ouve nestes tempos de descrédito. E isso se repete agora, como já ocorreu em épocas pretéritas.

O desmando dos governos, a corrupção em todos os níveis das instituições, a situação econômica frágil, a Justiça comprometida, o nepotismo, as mordomias, a falta de segurança são aspectos que, entre outros, fazem o povo clamar. Aliás, tal clamor não vem somente da "zelite", como diz um político e filósofo popular. Vem também das classes mais simples do povo.

Mesmo com uma campanha difamatória conduzida por alguns órgãos de imprensa, ideólogos e intelectuais de esquerda e ainda integrantes do mundo artístico, os militares continuam com a sua credibilidade em alta, acima até de entidades religiosas; e estão se transformando em "válvula de escape" do clamor popular, fora e dentro dos quartéis. Como fazem parte da sociedade, os militares tudo ouvem, pelo menos, por enquanto, permanecendo o silêncio obsequioso que adotaram. Esse silêncio, entretanto, está provocando situações preocupantes. Nos programas dos candidatos presidenciais pouco se diz a respeito das Forças Armadas.

Como se não fossem bastantes as ações unilaterais da Comissão da Verdade, agora surge o parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República defendendo a revisão da interpretação atual da Lei da Anistia. Quanto a esta nova interpretação - contrária à definição propalada pelo STF em 2010 -, é de perguntar se ela também abrangerá os diversos crimes praticados pelos radicais de esquerda, muitos deles imprescritíveis.

A continuarem essa exclusão e atitudes revanchistas flagrantes, as Forças Armadas, em 2015, também poderiam participar da Marcha dos Excluídos, realizada em várias capitais do País logo após os desfiles do 7 de Setembro. Poderiam expor suas apreensões, seus anseios e vindícias, como protesto contra as ações deletérias que vêm sofrendo.

É ainda pertinente falar do controverso Decreto 8.243/2014 - também chamado de bolivariano -, elaborado pelo atual governo e que será analisado pelo Congresso. Ele abre as portas para o ingresso de reais "sovietes" no Ministério da Defesa e, em consequência, em nossas Forças Armadas. O citado decreto consta dos programas das duas candidatas que lideram as pesquisas e é uma das principais orientações dos intelectuais gramscistas do Foro de São Paulo.

Em nosso país, para aqueles que não viveram o período que antecedeu o movimento de 1964, políticos inescrupulosos fomentaram a divisão entre oficiais e praças de nossas Forças, objetivando ferir frontalmente os princípios basilares das instituições militares: a disciplina e a hierarquia. Essas ações desagregadoras foram decisivas para a atitude adotada pelos líderes militares da época.

Espera-se que nossas autoridades políticas estejam atentas para os fatos assinalados e que atendam aos clamores de nosso povo. Ou, então, tempos incertos e de descrenças estarão presentes em nossas instituições. E aí a nossa democracia estará inexoravelmente fragilizada.

Inclua Jesus fora dessa - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 17/09


Algumas das mais bárbaras atrocidades deste século foram cometidas em nome de Deus: extermínio de populações, decapitações, infanticídios


Por ter ironizado a atitude de um candidato, que por se julgar perseguido evocou o precedente de Jesus, recebi mensagem me acusando de antievangélico. Quero dizer que não sou, e já elogiei o trabalho de mediação e evangelização em favela, junto a traficantes, feito por pastores de várias denominações. Também sempre admirei a atitude (pelo menos essa) do general Ernesto Geisel, que governou o país de 1974 a 79. Ditador com poder absoluto, que fazia e acontecia, nunca tentou impor sua crença, o luteranismo, e sempre respeitou a natureza laica do Estado, jamais misturando religião e política. Essa mistura é que oferece perigo. Levada ao extremo, ao fundamentalismo, sabe-se até onde pode chegar. Algumas das mais bárbaras atrocidades deste século foram cometidas em nome de Deus: extermínio de populações, decapitações, enforcamentos, infanticídios. Claro que nem de longe há esse risco entre nós. Mas é bom evitar outros efeitos menos radicais e perversos, mas também nocivos.

Analisando a crescente influência dos evangélicos no processo eleitoral, a professora Magali Cunha, que entende do assunto, citou há dias um levantamento que registra a existência de 327 candidatos crentes a diversos cargos (hoje são três senadores e 70 deputados, terceira bancada da Câmara), um indício, segundo ela, de avanço da democracia, embora preocupe a presença de líderes religiosos “fazendo as vezes dos clássicos coronéis da política”, os do “voto de cabresto”. A força eleitoral desse movimento foi detectada pelos marqueteiros, que estão levando seus clientes ao exagero de posarem que nem fieis, como Dilma, reverente, ao lado do pastor Edir Macedo na inauguração do suntuoso Templo de Salomão, depois de subir três andares de escada, coitada, porque faltou luz. Ou Aécio Neves, com os braços estendidos, o rosto voltado para cima em êxtase religioso. De fazer inveja a Marina, a única dos três que é de fato crente.

Mas mesmo ela, mais discreta, cometeu um ato falho ao atribuir à “providência divina” o acaso de não ter viajado no avião que matou Eduardo Campos, o que deu margem na internet à interpretação grosseira de que o acidente foi um desígnio superior para fazer de uma evangélica a presidente do país. Pior do que a leitura primária e obscurantista da religião, como capaz de favorecer discutíveis interesses particulares, são o desvirtuamento e o abuso da fé usada como moeda de troca em época de campanha, quando muitas igrejas — nem todas, evidentemente — são transformadas em verdadeiros currais eleitorais, a pretexto de que “irmão vota em irmão” e de que Jesus, dependendo da oferta, pode eleger este e não aquele candidato.

Difícil tentativa de agradar o empresariado - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 17/09


Baixo crescimento, inflação, desequilíbrio externo e nas contas públicas são problemas os quais empresários não confiam que possam ser resolvidos por Dilma


O governo acaba de tomar mais uma decisão tópica na tentativa de amenizar as dificuldades do setor produtivo, pressionado por aumento de custos salariais, uma taxa de câmbio programada para combater a inflação — portanto, valorizada — e as dores de cabeça de sempre com a infraestrutura e a burocracia. Apenas para citar algumas agruras do empresariado.

De aviso prévio em contagem regressiva, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a redução do Imposto de Renda, de 34% para 25%, sobre o lucro de subsidiárias de grupos nacionais no exterior. Visa a mitigar uma das grandes dificuldades enfrentadas por pessoas jurídicas e físicas, a carga tributária.

Na realidade, o objetivo da candidata à reeleição é, a menos de um mês do primeiro turno das eleições, dar um aceno aos empresários, já há algum tempo descrentes da capacidade de o governo Dilma Rousseff corrigir os erros cometidos na política econômica. Daí sua cautela, expressa na baixa taxa de investimento na economia — 17% do PIB, aproximadamente, quando são necessários cerca de 25% para o país crescer numa velocidade de cruzeiro de 4% a 4,5% ao ano, o ideal.

O aceno amistoso é inútil, mais ainda neste momento em que fica cada vez mais evidente que o PT deverá enfrentar a eleição presidencial mais difícil desde 1998, quando Lula foi derrotado pela segunda vez consecutiva por Fernando Henrique (PSDB).

Já era tempo de o Planalto ter percebido que ações dirigistas, tópicas, são inócuas. Ao ampliar a desoneração da folha de pagamentos, parecia que o governo havia se curvado ao bom senso. Mas não.


A história deste governo Dilma é a história do desdobramento de uma política econômica "desenvolvimentista", cujas fundações começaram a ser lançadas na fase final do primeiro governo Lula, quando, em 2005, José Dirceu deixou a Casa Civil, devido ao mensalão, sendo substituído por Dilma. O afastamento da Fazenda de Antonio Palocci, no ano seguinte, colocou neste ministério Guido Mantega, o executor disciplinado de ideias da economista Dilma.

Eleita presidente, ela teve espaço livre para arriscar o tal "novo marco macroeconômico", o suprassumo do intervencionismo: juros no chão, câmbio desvalorizado e pé no acelerador dos gastos. Tudo na base do voluntarismo, nos atos de vontade de quem manda.

O poder, no entanto, não é suficiente para mudar a realidade, mostra de maneira copiosa a História. Foi assim que o país chegou à incômoda mistura de virtual estagnação com inflação elevada e resistente, além de contas externas no vermelho e as internas caminhando na mesma direção, tanto que piruetas contábeis são realizadas para maquiar a preocupante realidade. Não será um alívio tributário isolado que retocará este cenário.

O atirador da presidente - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 17/09


Causando estragos a torto e a direito na campanha presidencial, a entrada em cena de Marina Silva como candidata do PSB e a sua imediata disparada nas pesquisas de intenção de voto reduziram as chances do tucano Aécio Neves de ser o contendor da presidente Dilma Rousseff no segundo turno e fizeram descarrilar a estratégia petista de campanha. Tendo se preparado, antes da tragédia que matou o pernambucano Eduardo Campos, para soltar os cachorros em cima do senador mineiro - tornando a enveredar pelo caminho seguido pelo partido em 2006 contra Geraldo Alckmin e em 2010 contra José Serra -, o comando da operação Dilma+4 trabalhava, não obstante, com a hipótese realista de que, na segunda volta, ele aglutinaria com força total o sentimento de rejeição à herdeira de Lula, agravado pela convicção de que, ao cabo de 12 anos, o PT no poder já deu o que tinha para dar.

Com o quadro eleitoral de ponta-cabeça, os condutores da campanha dilmista parecem ter chegado à conclusão de que só lhes restava uma alternativa para enfrentar a reviravolta - transformar desde logo a disputa em um segundo turno. A nova tática solaparia os ganhos obtidos por Marina, a ponto de fazê-la perder a parada de 5 de outubro, com o que ela começaria debilitada o embate para o verdadeiro tira-teima de três semanas adiante, depois de lhe terem servido o pão que o diabo amassou. Na prática, a mudança significaria duas coisas - ou duas faces de uma coisa só: antecipar tanto o início da "campanha negativa", a temporada de agressões à rival, como a subida aos palanques, dia sim, o outro também, do ex-presidente patrono de Dilma. Com a esperteza adicional de que ele e não mais a sua afilhada é quem apertaria o gatilho para "desconstruir" a imagem de Marina.

Uma segunda novidade reforçaria o plano de não deixar para amanhã as baixarias que podem ser cometidas hoje. Trata-se das revelações atribuídas ao ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, nos depoimentos que tinha se oferecido a dar ao Ministério Público e à Polícia Federal (PF) para ver reduzidas ou anuladas as penas a que está sujeito pelos crimes cometidos na estatal, em conexão com o tráfico de divisas do cambista seu parceiro Alberto Youssef. A sociedade foi desbaratada pela Operação Lava Jato, da PF. Na sequência de suas "delações premiadas", Costa teria citado mais de 30 beneficiários do esquema, entre eles o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, o do Senado, Renan Calheiros, e pencas de outros políticos também alinhados com Dilma. Ela sentiu o golpe e perdeu o prumo. Tentando abrigar-se da tormenta, alegou, em um assomo de cinismo, que "não tinha a menor ideia de que isso ocorria dentro da empresa".

Mais uma missão para Lula. Secar o escândalo torrencial, fazendo um cavalo de batalha com o fato de o programa de Marina citar somente uma vez o pré-sal, enquanto valoriza outras fontes de energia. (Nas imagens da propaganda dilmista, a posição da adversária literalmente tira a comida da mesa dos brasileiros.) E eis que anteontem o ex-presidente, enfiado em um macacão laranja da Petrobrás, comandou um ato de campanha travestido de manifestação sindicalista de solidariedade à empresa, diante da sua sede no centro do Rio. O palanqueiro se desdobrou. Ora equiparou as denúncias de corrupção na estatal a um "erro qualquer", ora disse que a CPI da Petrobrás serve para "achacar empresários", ora ainda se pôs a dar lições a Marina. Ela deveria proibir os seus economistas de falar, porque "um fala mais bobagem que o outro", e deveria saber que "se tem cargo que você não pode terceirizar é o de presidente da República".

A tarefa de fazer terrorismo eleitoral ele terceirizou para um veterano da violência, o líder do MST, João Pedro Stédile, de quem Dilma mantém prudente distância. O ferrabrás ameaçou infernizar um eventual governo da ex-ministra que amalgamava a causa ecológica com a dos sem-terra. "A dona Marina que invente de colocar a mão na Petrobrás", trovejou, "que voltaremos aqui todos os dias." Resta ver se a ideia de pôr Lula a bater já agora na candidata não se voltará contra Dilma quando ela mais precisará de eleitores.

De bobagem em bobagem - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 17/09

Lula, ao dizer que Marina Silva devia “proibir seus economistas de falar”, dá novas mostras de não ter o menor apreço pelo debate de ideias


O Brasil inteiro conhece muito bem o ex-presidente Lula. Sobretudo, conhece e incorporou ao folclore nacional as inesgotáveis pérolas que ele costuma produzir em seus copiosos discursos. A mais recente delas veio na segunda-feira, em recente manifestação política no Rio de Janeiro: a candidata adversária Marina Silva (PSB) deveria “proibir seus economistas de falar, porque cada um fala mais bobagem que o outro”. Lula participava de um “abraço” à sede da Petrobras, um ato de solidariedade aos seus trabalhadores e de repúdio aos que, supostamente, se mostram contrários à exploração do pré-sal – postura que, segundo o PT, incluiria Marina por ela não fazer referência, em seu programa de governo, a políticas destinadas a desenvolver o filão submarino riquíssimo em óleo, teoricamente capaz de levar o país ao restrito grupo dos maiores produtores mundiais de petróleo.

Não foram especificadas, no discurso de Lula, as “bobagens” de autoria dos assessores econômicos de Marina Silva, daí a dificuldade de uma análise mais profunda a respeito da afirmação do ex-presidente. O que se sabe, sim, é que os economistas costumam fazer críticas ao modelo econômico adotado pelo atual governo. No domingo, o jornal O Globo publicou entrevista de Alexandre Rands, coordenador econômico do programa de Marina, em que ele ataca a maneira como Dilma trata os empresários. Eduardo Giannetti, outro economista que assessora a candidata do PSB, vem criticando o abandono do tripé macroeconômico que garantiu a estabilidade do país conquistada no Plano Real.

Não é impossível que, de fato, os economistas que assessoram Marina falem bobagens eventualmente, assim como bobagens saem cotidianamente de inúmeras bocas que verbalizam posições de diferentes segmentos de opinião e de partidos políticos. Mas é bem provável que Lula esteja apenas se referindo às críticas feitas por Rands e Giannetti. Críticas, aliás, que não são exclusividade deles, como mostramos em editorial no domingo passado.

Justiça seja feita: o ex-presidente não disse, como alguns mais afoitos chegaram a insinuar, que os economistas deviam ser formalmente censurados. Mas a disposição de, diante das críticas, mandar calar em vez de ouvir e debater não é nova no discurso de Lula (basta lembrar sua reação no caso dos economistas que prepararam um relatório para clientes do banco Santander), refletindo o autoritarismo retrógrado de alguns de seus colaboradores – como o ex-ministro Franklin Martins e o presidente do PT, Rui Falcão – que, diante de manifestações de pensamento diferentes das suas, pregam a censura. Defendem, por exemplo, o tal “controle social da mídia”, eufemismo que utilizam para garrotear a liberdade de imprensa e de expressão no país.

Estamos vivendo os dias finais de um período importante para o futuro do Brasil. Dentro de duas semanas, mais de 100 milhões de brasileiros irão às urnas para decidir quem será o próximo presidente da República. Mas, à exceção do heroico esforço da imprensa para desvendar o que os candidatos realmente pensam, os eleitores têm poucas oportunidades de, mediante debate mais profundo das ideias e propostas de cada um, saber qual deles defende menos bobagens que os demais. Na verdade, o que mais temos visto nesta campanha presidencial é justamente a pobreza de debate de ideias e proposições sensatas, equilibradas e centradas no desenvolvimento social e econômico do país, prevalecendo os ataques pessoais, exagerando-se na exploração publicitária do medo e da insegurança. E, quando emerge qualquer tentativa de discutir seriamente o modelo econômico escolhido pelo atual governo, Lula quer cortar o debate no nascedouro. Isso, sim, é bobagem.

Silêncio conveniente - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 17/09


Ex-diretor da Petrobras dará novo depoimento no Congresso, mas políticos não têm interesse real em levar adiante investigação rigorosa


Será curioso observar o comportamento dos congressistas na sessão da CPI mista da Petrobras que ocorre hoje (17).

Constituída por deputados e senadores e encarregada de investigar desvio de recursos da empresa, a Comissão Parlamentar de Inquérito receberá Paulo Roberto Costa. O ex-diretor de Abastecimento da estatal dará seu segundo depoimento em menos de quatro meses.

Na primeira ocasião, em 10 de junho, não teve dificuldades. Perante uma comissão formada só por senadores e boicotada pela oposição, Costa minimizou a importância de suas declarações: "Não me considero homem-bomba".

Seus inquiridores acreditaram --ou assim fingiram. Deram-se por satisfeitos com o que lhes disse o ex-diretor, inclusive quando, sustentando que a Petrobras não era um balcão de negócios, repudiou a alegação de que a estatal abrigaria uma organização criminosa.

O próprio Costa, porém, encarregou-se de mostrar o quanto os senadores, por comodismo governista ou interesses escusos, exageravam na demonstração de candura.

Preso no dia 11 de junho, após terem sido descobertas contas secretas que possuía na Suíça, o ex-diretor da Petrobras aceitou um acordo de delação premiada. Ou seja, em troca de reduzir sua pena, revelaria em juízo o que sabe. E deu a entender que sabe muito.

Trânsito na empresa ele tinha. Começou a trabalhar na Petrobras em 1977. Alcançou a diretoria de Abastecimento, por indicação do PP. Permaneceu no posto de 2004 a 2012, com apoio do PT e do PMDB.

Nem por isso é necessariamente verdade o que disse na delação. Segundo se noticiou, o equivalente a 3% dos contratos da estatal eram desviados. Estariam envolvidos governadores, senadores, deputados e ex-ministros de Estado --todos aliados da gestão petista.

Factível o esquema é; comprovado, contudo, não está. A mesma pessoa que negou a corrupção com uma mão a afirmou com a outra. Essa contradição ainda precisa ser esclarecida, e os congressistas da CPI mista terão a oportunidade de fazê-lo. Não há razão, todavia, para crer que isso aconteça.

Primeiro, Costa poderá exercer o direito de nada responder, a fim de não sacrificar a delação premiada, que exige sigilo sobre as informações prestadas. Mais importante, os parlamentares não têm interesse em uma investigação rigorosa.

Grandes financiadores de campanha negociam com a Petrobras, e não será em meio à eleição que políticos tocarão em tema espinhoso para tantos partidos. No máximo haverá o conhecido teatro das CPIs, no qual congressistas simulam indignação, e o depoente pouco acrescenta ao que já se sabe.

O silêncio de Paulo Roberto Costa, como se vê, é conveniente para a situação e para a oposição, que estarão livres para fazer as perguntas mais duras --mesmo as que jamais gostariam de ver respondidas.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Sei o que é passar fome”
Marina Silva (PSB), desmentindo fofoca petista de que acabaria com o Bolsa Família


PETROLÃO: ALIADOS SUSPEITAM QUE PT VAZOU NOMES

As cúpulas do PMDB, do PP e do PROS desconfiam que o PT estaria na origem do último vazamento de nomes revelados pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso na Operação Lava Jato. O objetivo do PT seria retirar o foco do governo Dilma, maior atingido pela delação premiada, e pressionar os aliados a participarem da “operação abafa” durante o depoimento do ex-diretor na CPMI da Petrobras.

NOVOS NOMES

Além de Delcídio Amaral (PT), vazaram os nomes de Eduardo Cunha (PMDB), Cid Gomes (PROS) e Francisco Dornelles (PP).

BOM MOTIVO

O PMDB vê ainda outro motivo para o PT incentivar o vazamento: minar candidatura de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara.

CONFIDENCIAL

A expectativa na CPMI da Petrobras é que Costa alegue compromisso de sigilo com o Ministério Público Federal e se mantenha em silêncio.

PANFLETO CENSURADO

Funcionários da Petrobras foram impedidos de jogar das janelas papéis com a imagem de algemas, durante ato petista “em defesa” da estatal.

CONGRESSO ‘TRABALHA’ MENOS DA METADE DO ANO

A Câmara e o Senado custarão mais de R$ 8,7 bilhões, em 2014, mas trabalham tão pouco que deveriam indenizar os contribuintes que os sustentam: os dias de fato trabalhados nas duas casas não chegarão à metade dos 365 dias do ano – em razão dos recessos, oficiais ou “brancos”, Copa e eleições. Os políticos não aparecem para trabalhar, mas recebem os salários de R$ 26.723,13 rigorosamente em dia.

LETRA MORTA

A Constituição prevê perda do mandato de quem faltar a um terço das sessões. Mas, no Congresso, os presidentes fecham os olhos.

PARA INGLÊS VER

Os parlamentares definem quando há sessão, mas eles adequam o calendário institucional à conveniência pessoal, sem cerimônia.

VADIAGEM

Após o recesso do meio do ano, os parlamentares “trabalharam” dois dias em agosto, outros dois em setembro. Agora, só em outubro.

ATO DE VIOLÊNCIA

Não surpreende que o governador cearense Cid Gomes, aprendiz de tiranete, tente censurar a revista IstoÉ por denunciar seus malfeitos, mas espanta que a Justiça o ajude a fazer da democracia uma piada.

BLACK OPS

Não é só o delegado e deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) que suspeita de atentado na morte de Eduardo Campos. Wayne Madsen, do Strategic Culture Foundation, acredita em atentado da CIA. Pela sua teoria conspiratória, o objetivo seria prejudicar a reeleição de Dilma.

PRESTÍGIO ADQUIRIDO

Com doações de R$ 2,39 milhões a candidatos só entre julho e agosto, a banqueira socialista Neca Setúbal, herdeira do Itaú, adquire baratinho o posto de uma das pessoas mais influentes no futuro Congresso.

ALDO É GRACILIANO

O ministro Aldo Rebelo (Esporte), alagoano como Graciliano Ramos, é o brasileiro com o tom de voz mais parecido com o genial autor de Vidas Secas, segundo revelaram seus familiares à produção de um programa da Globonews que vai ao ar na próxima sexta-feira (19).

FORA DO AR

O falecimento do presidente do Santander deve ter afetado seu pessoal no Brasil. Ontem, suas operações on-line não funcionaram, tampouco o banco informou se vai arcar com os prejuízos causados à clientela.

BOMBA? ARMA? UM LIVRO

Ministro de Dilma, que pediu para não ser identificado, fez encomenda numa livraria de Buenos Aires, e no dia seguinte o livro lhe foi enviado. Mas ficou retido na burocracia dos Correios e da Receita brasileira por 40 dias. Certamente tentavam decifrar que objeto estranho era aquele.

VEXAME A CAMINHO

No PSDB, o temor é que a contínua lipoaspiração de votos, decorrente da polarização entre Dilma e Marina, conduza o candidato Aécio Neves a um vexame histórico. Tipo Alemanha 7 x 1 Time do Felipão.

ROMBO BILIONÁRIO

Vinte entidades, lideradas pelo Instituto de Ética Concorrencial e Fórum Contra Pirataria, esperam dos presidenciáveis o combate à pirataria e ao contrabando, que geram prejuízo de R$ 30 bilhões ao País.

OLHANDO BEM...

...algumas figuras no “ato em defesa da Petrobras”, estes dias, fizeram lembrar a piada do suspeito em fuga gritando “pega ladrão!” para despistar.


PODER SEM PUDOR

EMPREGO DE ÍNDIO

Antônio Anastasia era secretário executivo do Ministério da Justiça, no governo FHC, quando foi designado presidente interino da Funai. Ele quis assumir logo na manhã seguinte. Mal seu carro entrou na garagem da Funai, reparou num grupo de índios xavantes. O motorista gelou:

- Acho que eles esperam alguém...

- Vamos embora, rápido! - ordenou Anastasia, ao notar que os índios usavam pinturas de guerra e tinham bordunas nas mãos.

De volta ao civilizado prédio do Ministério da Justiça, Anastasia implorou ao chefe, ministro José Gregori, muy amigo, a substituição.

terça-feira, setembro 16, 2014

O risco de Lula se perder a eleição - ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR


O ESTADO DE S.PAULO - 16/09


É muito provável que o ex-presidente Lula esteja vivendo o mais tormentoso período de sua vida política, porque pela primeira vez, desde que assumiu a Presidência da República, 12 anos atrás, percebe que o plano de perpetuação no poder existente nas raízes de seu partido ameaça ir por água abaixo.

Realmente, nunca Lula e o seu partido viveram antes incerteza igual à que se instalou no quadro político brasileiro com a morte do candidato Eduardo Campos e o consequente crescimento de Marina Silva. As coisas sempre transcorreram suaves para o Partido dos Trabalhadores desde que ganhou a primeira eleição que o levou ao Palácio do Planalto.

Houve um momento de risco, quando Lula disputava o segundo mandato, e se deu mal, muito mal, num debate pela televisão com outros candidatos. Naquela ocasião, amaldiçoou ele os assessores, em quem pôs a culpa, e permaneceu em estado de insegurança, mas não tão acentuada como a dos dias presentes.

Agora, é curioso perceber que a sua sucessora, a quem ele atribuía enorme competência, vem mostrando um despreparo de assustar, pois desde que assumiu o cargo atua de forma tão desastrosa que coloca o País no plano inclinado, ladeira abaixo. No exterior, principalmente, percebe-se que o Brasil encolhe de tamanho e perde credibilidade, sobretudo em face de dever muito mais do que dispõe nas reservas e de viver inflação alta com baixíssimo crescimento econômico.

É possível admitir que Lula realmente acreditasse na competência de Dilma Rousseff, mas agora, vendo suas atrapalhadas, talvez esteja arrependido da escolha feita quatro anos atrás. O pior é que não pode deixar transparecer isso, sob pena de fortalecer ainda mais os dois candidatos concorrentes.

Vê-se obrigado, enfim, a jogar todas as suas fichas em Dilma, porque essa é a única forma de salvar a própria pele. Ele sabe que eventual derrota dela poderá significar o ocaso da carreira política de ambos, bem como o encolhimento do Partido dos Trabalhadores e do sonho de perpetuação no poder, cujo objetivo final sempre pareceu ser fazer do Brasil uma enorme Cuba.

Não há exagero quando se afirma que o propósito dos petistas sempre foi realmente nos impor uma República popular e sindical governada pelo partido. Na visão petista, quem tem de mandar é o partido, e não "a elite branca e reacionária". Como parte principal do programa está a necessidade de disciplinar a imprensa, ou seja, torná-la dócil e obediente como a imprensa cubana.

Em Cuba há mais de 20 jornais de maior importância, porém em nenhum deles se lê notícia alguma sobre descontentamento dos seus habitantes. Tudo naquela ilha está uma maravilha e o que não está bom é culpa dos Estados Unidos. Lá foi totalmente sufocada a "elite branca e reacionária", aquela que no linguajar petista não aceita a participação do povo na missão de governar. Quem manda é o partido - e por isso mesmo a ilha, tão bonita, ficou pobre e sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento.

A elite incômoda, segundo os adeptos de Lula, precisará se submeter a necessárias modificações nas leis que regulamentam o exercício das atividades de comunicações no País. Sim, seria necessário fazer que obedeçam ao poder central e passem a divulgar o que interessa ao partido que está no poder, como ocorre em Cuba.

A pressão por tais mudanças transcorria nessa direção - inclusive com o estímulo de exemplos de sufocação de jornais na Venezuela, na Argentina e no Equador - até que a própria imprensa brasileira, a "elite branca e reacionária", passou a denunciar e a ridicularizar o plano.

Num país onde a imprensa é livre as forças totalitárias não conseguirão jamais manter-se no poder. Isso porque as injustiças e os desmandos, quando perpetrados, são denunciados para o grande público, o que provoca revolta e faz ampliar os ressentimentos contra os governantes.

Exemplo claro disso está na circunstância de o Partido dos Trabalhadores haver transformado a Petrobrás, a maior empresa do Brasil e uma das maiores do mundo, num cabidão de empregos e de negócios sujos. Ali, atividades que deveriam ser exercidas unicamente por pessoas comprovadamente habilitadas acabaram delegadas a apaniguados políticos, com voo livre para atos de corrupção e de enriquecimento pessoal.

Isso teve começo quando Lula era presidente da República, mas Dilma Rousseff estava lá e agora procura figurar como inocente ou desinformada, circunstância que faz lembrar o milenar princípio jurídico, insculpido em nosso Código Penal, de que existe crime tanto por ação como por omissão.

Algumas pessoas conseguem escapar da penalidade por omissão, como o próprio Lula no caso do mensalão, em que autorizou pelo consentimento tácito o avanço no dinheiro público para seduzir os congressistas e fazê-los aprovar as leis de interesse do programa político petista de perpetuação no poder.

Dilma também está escapando, mas tão somente quanto ao aspecto penal. Do ponto de vista político e eleitoral tornou-se evidente que os exemplos de corrupção na Petrobrás a atingem em cheio, sobretudo agora, quando é candidata de si mesmo e tem de contar com as próprias pernas. Na eleição anterior Dilma era tão somente a figura feminina de Lula e ganhou a eleição sem fazer nenhum esforço.

No momento presente o quadro é outro e para sair vitoriosa a candidata à reeleição precisa demonstrar melhor preparo do que seus dois principais concorrentes - e isso não está nada fácil, pois o que a atrapalha é o seu próprio despreparo. Não há como esconder que a sua gestão na Presidência da República está afundando o Brasil. Nós hoje somos muito menores e menos importantes do que dez anos atrás.

domingo, setembro 14, 2014

Direito ao delírio - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 14/09


Não se trata de realismo mágico, mas sim de um delírio defensivo, maneira provisória de enfrentar o real



No passado tratei de vários temas polêmicos que hoje aparecem até nas campanhas presidenciais. Um deles, entretanto, jamais consegui defender com clareza: o direito ao delírio. Ninguém levou muito a sério, acabei desistindo. O delírio para mim não é alucinação. As visões ou vozes na alucinação não existem na realidade. Oliver Sachs descartou a tese corrente de que expressam loucura. Ele mostrou que algumas visões alucinatórias são uma reação do cérebro à falta de estímulo. Acontecem mais em cegos e pessoas perdendo a visão.

O delírio embaralha uma realidade, extrai conclusões fantásticas dos fatos que estão diante de nós. Ele nos liberta diante de um bloco de governo que nos assalta, sugando recursos de uma empresa nacional.

Não se trata de realismo mágico, gênero que os grandes romancistas recriaram em seus países. Mas sim de um delírio defensivo, maneira provisória de enfrentar o real. Nada me impede de ver uma onda gigante de óleo varrendo o Congresso, inundando os caracóis do cabelo de Renan Calheiros, tingindo de preto os do ministro Lobão. Uma onda varrendo gente abraçada na bandeira do Brasil, gritando “o petróleo é nosso”. Na realidade, o petróleo é deles, muito mais deles que nosso. Você pode escolher o caminho racional, dissertar sobre o respeito aos bens públicos, mas acredita mesmo que os argumentos os impressionam?

No meu delírio, vejo Dilma como uma replicante. Em “Blade Runner”, os replicantes se revelavam em pequenos gestos mecânicos, buscando o cigarro na boca com o isqueiro. Dilma se revela, no meu delírio, quando começa a falar. Quando diz “no que se refere” tenho a sensação nítida de que apertaram a tecla play.

No meu delírio vejo o general Horta Barbosa, por sinal sogro de um amigo da juventude, caminhando com seu bastão, diante de milhares de estudantes da época, gritando “o petróleo é nosso”, e a onda invadindo o Congresso e o Planalto. E vejo intelectuais ocupando tribunas e blogs para nos garantir que sempre foi assim, a corrupção é incontrolável.

E vejo o velho Pedro Simon gritando: “as empreiteiras, as empreiteiras, lembrem-se: os políticos não se corrompem sozinhos, alguém os paga”. Irmanados no mesmo escândalo, Renan e Henrique caminham sobre a onda de óleo que se estende pelo tapete do salão verde, cruzando todas as divisões do parlamento. Pastoso, escorregadio, o óleo se avoluma, Romero Jucá pegou um tubo e fotografa sua manobra com uma câmera GoPro.

O óleo avança no Planalto, e no que se refere a Dilma, ela não sabia de nada, jamais soube, e o óleo escorre pelos gabinetes. País oleoso, o nosso.

Esta semana me veio à cabeça o livro de Marie Cardinal que em francês se chamou “Les mots pour le dire” (Palavras para dizer). Mas o livro de Marie Cardinal sugeria na minha memória algo mais denso do que apenas um desabafo. O livro conta a historia de Cardinal, que perdia muito sangue, como se estivesse continuamente menstruada. Livres dos médicos que a queriam operar, ela resolveu narrar sua infância, seus traumas, e só assim superou a doença.

Pensei, delirantemente, que a receita de Marie Cardinal talvez se aplicasse ao país: conter a sangria através das palavras claras. Para começar, quando falarmos de governo, Congresso e empreiteiras compreendermos que estamos diante de um grande sistema de assalto. O governo governa, as empreiteiras constroem. Mas não estava combinado que 3% dos contratos seriam pagos a um grupo político. Se isso for encarado como algo tolerável e rotineiro, o delírio talvez seja a única forma de sobreviver, porque o país mesmo teria enlouquecido mansamente.

Minhas retinas fatigadas não vão esquecer a onda de óleo. Usando faixas, oferecendo coquetéis, abraçando bebês, presidindo sessões solenes, em todos os rituais do governo, verei o óleo enegrecendo os colarinhos brancos, transbordando as taças de champanhe, afogando os camarões da salada. Delirando pelo menos estarei com a minha realidade, respeitando o delírio dos outros, que acham que isso é um governo e isso é um Congresso. No fundo, sei o que são. Só os chamarei de governo e Congresso para estabelecer uma linguagem comum.

As investigações não servem apenas para punir, mas para refazer nossa relação com o Brasil. Que país é esse? Como viver essa farsa política? Como resistir a um governo cínico e impermeável às regras republicanas? Li um pouco sobre a relação do povo com os governos no Leste Europeu e bastante sobre a saga dos intelectuais em Cuba. São condições muito diferentes da nossa, mas sua experiência ensina a viver, quando não se tem ilusões sobre a natureza do governo. Eles têm algo a ensinar. Mas só voltarei ao manual de sobrevivência se toda essa onda de óleo se tornar uma gigantesca pizza de alcatrão.

O galão d’água - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 14/09


Reproduzo o relato que minha filha recebeu pelo whatsapp de uma garota brasileira que mora no Japão: Ontem veio um homem aqui e deixou um galão dágua na frente da minha porta. Disse que durante a madrugada eles fariam uma vistoria nos encanamentos de água do bairro e por isso estavam passando para avisar, deixar o galão e pedir desculpas por terem que desligar o registro de água por algumas horas.

Eu disse para ele que não precisava deixar a água, afinal, estaríamos dormindo nesse horário, mas ele respondeu: Você paga suas contas todos os meses e nós temos obrigação de não deixar você sem água nem por um minuto. E ainda disse: Se precisar de mais, pode pedir. E assim seguiu a distribuir nas outras casas. Durante a madrugada, olhei pela janela e havia um grupo trabalhando nas ruas em silêncio. Hoje vieram novamente, casa por casa, só para agradecer.

Pois é. Não é assim que deveria ser tudo na vida? Decência, responsabilidade e educação: por que é tão raro, tão complicado? A simplicidade da cena: um galão d’água deixado de porta em porta para o caso de os moradores terem alguma eventual necessidade às duas horas da manhã, às três horas da manhã.

Não é caridade, e sim direito do cidadão que paga taxas e impostos. Eu não deveria me comover com isso, mas me comovo, porque a gente cumpre com os compromissos como qualquer japonês, qualquer sueco, qualquer canadense, mas onde está a contrapartida?

Acho que isso explica nossa desesperança de que uma eleição mude alguma coisa. Já não acreditamos que um candidato consiga não se deixar corromper pelo poder, que possa governar sem dever favores para outros partidos, que solucione as mazelas do povo em detrimento das negociatas de gabinete. Política passou a ter um sentido desvirtuado.

Ninguém obriga um homem ou uma mulher a se candidatar a um cargo público. Se ele se oferece para a missão de governar, deveria fazer isso unicamente por seu espírito altruísta. Mas soa como piada. Altruísmo na política brasileira? Tem graça.

Um galão d’água na porta. Um serviço de atendimento ao consumidor que funcione de forma fácil. Um policial em cada esquina. Nota fiscal entregue em todas as transações comerciais. Lixeiras por toda parte. Ruas bem sinalizadas. Transporte farto, barato e que cumpra horários. Hospitais com vagas dia e noite. Escolas eficientes. Confiança em vez de burocracia. Sinceridade em vez de enrolação. Agilidade em vez de empurrar com a barriga. Se todo mundo concorda que é assim que tem que ser, por que não acontece, quem emperra?

Não é só culpa de quem governa, mas dos governados também. Viciados em retórica, seduzidos por vantagens exclusivas e não coletivas, sempre nos perguntando “como posso faturar com essa situação?”, não permitimos que o Brasil se moralize e avance.

Galão d’água na porta de casa? Só com um troquinho por fora, meu irmão.

Antes da bomba - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 14/09


Tanto Dilma quanto Aécio terão de encontrar um meio de desmanchar a aura quase mística que envolve Marina


Como cidadão que sou, preocupado com o rumo que tomará o Brasil, tenho procurado acompanhar a campanha eleitoral para a Presidência da República. Indiscutivelmente, é nos debates com os principais candidatos, promovidos pela televisão, que melhor se pode conhecê-los, sacar quem na verdade são, o que dizem pensar e o que fariam à frente do governo.

De fato, dos onze, só três --Dilma, Marina e Aécio-- oferecem alguma consistência no que afirmam e prometem. Os outros, se algo representam, é uma parcela insignificante da opinião pública e a representam mal, ou porque mal sabem o que dizem ou porque apenas repetem atitudes políticas e ideológicas ultrapassadas.

Devem ter alguma razão especial para se candidatarem, pois sabem muito bem que pouquíssimos votos lhes serão dados pelos eleitores. É certo que só aparecer perante o país como candidato à Presidência da República, já é, por si só, uma distinção especial (ainda que, para muita gente, seja motivo de gozação).

Os outros três candidatos, pelo contrário, representam, de uma maneira ou de outra, parte considerável do eleitorado, conforme indicam as pesquisas de opinião.

Certamente, cada um deles ganhou significação e força eleitoral por razões diversas, relacionadas com suas respectivas atuações no plano político, suas ideias e atuações que, de modo ou outro, as distinguem no contexto social.

Durante os debates, as qualidades e defeitos se revelam, muito embora os três busquem mostrar-se à altura da função governamental a que aspiram.

Até onde consigo perceber, Aécio Neves é o candidato mais consistente no que afirma e no modo como o faz. Vale-se de um discurso bem articulado e da experiência administrativa de governador, que foi, do Estado de Minas Gerais.

Por outro lado, Dilma Rousseff não se expressa bem, chegando mesmo a gaguejar quando se aventura a improvisar em vez de ler o que trouxe escrito. Não obstante, argumenta consistentemente quando cita obras realizadas por Lula e por ela.

Já quando tenta responder às críticas a seu governo, afirma qualquer coisa, mesmo que contradiga a realidade: afirmou que a inflação está próxima de zero, que o país está crescendo, muito embora os próprios dados oficiais digam o contrário. Por isso mesmo, os adversários acusam-na de inventar um Brasil em tecnicolor, que só ela conhece. Apesar disso, deu sinal de recuperação nas últimas pesquisas.

Quanto a Marina Silva, pode-se dizer que é a própria figura de brasileira que comeu mal na infância, não ganhou carnes nem força nem voz. É uma sobrevivente. Não obstante, fala fluentemente, pensa claro e parece saber o que pretende fazer para mudar o Brasil.

Sua imagem é a de uma visionária que promete um milagre. Essa imagem ganhou maior expressão com a morte trágica (e absolutamente imprevisível) de Eduardo Campos, de quem ela se tornou a herdeira política.

Tudo isso emprestou à sua candidatura tal força que a emparelhou, inicialmente, com Aécio Neves, e a colocou à frente de Dilma Rousseff no segundo turno. Penso que nem ela, Marina, imaginava que isso fosse acontecer tão cedo. E isso se mantém até o momento em que escrevo esta crônica.

Mas muita água ainda vai rolar até o dia 5 de outubro.

Sem qualquer dúvida, tanto Dilma quanto Aécio terão de encontrar um meio de desmanchar essa aura quase mística que envolve a figura de Marina e a torna uma candidata acima da realidade objetiva, ou seja, para além das condições que normalmente regem a disputa eleitoral.

Era, portanto, inevitável que Dilma e Aécio tentassem desfazer essa aura, apontando as carências de Marina. Um dos argumentos, usados por ambos, é que não será possível a ela governar o país sem um partido político importante e sem uma base parlamentar.

E que ninguém nos ouça, mas o risco seria constituir uma base semelhante à montada por Lula e herdada por Dilma, às custas de inventar ministérios para cedê-los aos aliados. Tudo o que ela promete --dizem os oponentes-- não irá além de palavras.

Não acho possível e, fora isso, não deixaria de ser uma experiência fascinante ter no governo uma mulher visionária disposta a mudar o país. Mas ninguém sabe o que vai acontecer, depois da bomba da delação premiada, cujo pavio foi aceso.

Ilusões eleitorais - SUELY CALDAS

O ESTADÃO - 14/09


Lula e dona Marisa enviaram carinhosa mensagem de condolências à família do banqueiro espanhol Emilio Botín, dono do Santander, pela passagem de sua morte, na quarta-feira. Se a mensagem tivesse partido de Marina Silva ou de Aécio Neves, eles não escapariam de ser apresentados como representantes do capital financeiro internacional no programa eleitoral da candidata do PT. É triste, mas é este o nível desta campanha eleitoral. Para ganhar eleição vale tudo. Vale enganar a população distorcendo o significado da independência do Banco Central (BC) e vale até demitir publicamente o ministro mais importante do governo, desautorizando suas ações nos próximos meses de mandato.

A presidente Dilma Rousseff odeia quando questionam sua competência como economista, mas nesta eleição ela escolheu rasgar seu diploma ao corroborar com a propaganda enganosa em seu programa de TV. O comercial de 30 segundos afirma que independência do BC significa "entregar aos banqueiros o poder de decisão sobre sua vida e sua família, decisões sobre juros que você paga, seu emprego, preços e até salário". Nada mais disparatado e absurdo. Por que será que o ex-presidente Lula deu garantias ao ex-presidente do BC Henrique Meirelles de que ele teria total autonomia para tomar decisões durante seu mandato? Foram os banqueiros que governaram o País nos oito anos de Lula? Foram eles os responsáveis por demissões e reajustes de salário dos trabalhadores?

É, no mínimo, primário e inconsistente um economista ignorar que todos os países onde a autonomia do banco central virou lei hoje a valorizam como um bem público, importante avanço institucional para proteger a população contra influências e demandas políticas, que sempre se traduzem em liberação de verba, emissão de dinheiro e aumento da inflação. A história do Brasil está repleta de exemplos.

Nas gestões Sarney e Collor, era comum governadores endividados correrem à Brasília e arrancar do presidente amigo permissão para contrair mais dívidas, com a devida autorização do Banco Central. Quase sempre para gastar em campanhas eleitorais. Os bancos estaduais financiavam a farra dos políticos e a fiscalização do BC fazia vista grossa, não agia por temer retaliação e demissão de diretores. A partir de FHC, o BC passou a atuar sem interferência política e com autonomia, respeitada por ele e por Lula, mas sem o respaldo de uma lei específica, agora proposta pela candidata Marina Silva.

No mundo inteiro a missão central do BC é "assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda", como está escrito em destaque no site do BC brasileiro. A inflação é um imposto desumano, que empobrece os pobres e enriquece os ricos. Nos anos 80, de hiperinflação, os banqueiros ganharam muito com rendosas aplicações financeiras e quem nem conta bancária tinha via seu dinheirinho ser devorado pela inflação.

Afirmar que a autonomia do BC dá poderes aos banqueiros até para governar o País é inverter valores, enganar, tirar proveito da ingenuidade de quem desconhece o assunto.

Já demitir o ministro Guido Mantega em público, além de deselegante, não vai produzir efeito algum. Desta vez Dilma não fala com desavisados, mas com o mercado financeiro e investidores muito bem avisados e informados. E todos eles sabem que a verdadeira autora da fracassada política econômica dos últimos quatro anos é ela. Partiu dela a ideia de escolher empresas campeãs para receber dinheiro do BNDES, o que só resultou em dívidas transferidas ao banco, que delas virou sócio sem desejar. Também o fiasco da nova matriz econômica, que produziu juros altos, mais inflação e recessão; o represamento das tarifas de combustível, que desarticulou a Petrobrás, e de energia elétrica, que desorganizou e endividou as empresas do setor; a maquiagem fiscal, que agravou a falta de confiança de investidores; e, ainda, o PIB medíocre e a menor taxa de investimento da história são resultados de uma política econômica que tem na presidente a responsável maior.

Ela precisa, agora, dizer o que vai mudar nessa política, se for reeleita.

A independência do BC - GUSTAVO FRANCO

O GLOBO - 14/09


A politização do tema, no entanto, serve para mostrar que o debate eleitoral nem sempre engrandece seus participantes


Os conselheiros de agências reguladoras possuem um mandato fixo. Isso significa que, se o presidente da República quiser substituir alguma dessas pessoas (que ele mesmo escolheu) antes do fim de seu termo, teria que submeter seu desejo a uma votação no Senado. Assim como conduz sabatinas e, ao fim, autoriza a nomeação dos indicados, o Senado também deve ser consultado no caso de demissão antes do encerramento do mandato.

A única “agência reguladora” onde os dirigentes não têm mandato fixo é o Banco Central do Brasil.

Em todos os outros casos, os mandatos servem para proteger os diretores da influência política de seus regulados, geralmente monopólios e invariavelmente potentados econômicos, e assegurar a integridade técnica de decisões que devem transcender os interesses de um governo e alinhar-se com os interesses maiores e difusos na população afetada pelo serviço.

É claro que o mesmo vale para o BC, ou deveria valer, pois é de interesse da população manter os responsáveis pela condução da moeda protegidos tanto das pressões dos bancos quanto dos conflitos de interesse com o Tesouro.

Este conflito reside no simples fato que o BC dispõe de uma máquina de pintar papel que pode ser usada para o mal, pelo próprio controlador da instituição, interessado em pagar suas contas com papel pintado, pensando fazer o bem, mas produzindo inflação, ou seja, tributando a população menos favorecida sem passar pelo rito legislativo próprio para o aumento de impostos.

O mesmo vale quando o controlador resolve quebrar um banco público a fim de assegurar uma eleição, como num caso célebre ocorrido em um estado da federação, e uma tentação permanente.

É dever do BC evitar esses incidentes, e para isso o dirigente pode ser forçado a contrariar o seu acionista controlador, em nome de um bem maior, quando se configurar o abuso de poder de controle. A legitimidade conferida pelas urnas não faz do presidente uma encarnação do interesse público, mas apenas um custodiante deste, e por tempo determinado e dentro de limites, como em qualquer democracia.

Temos aqui um problema clássico de governança. O BC não tem minoritários, mas possui cerca de 180 milhões de “preferencialistas”, que são os “acionistas” sem direito a voto que carregam papéis ao portador, emitidos em pequenas denominações pelo BC, de aceitação obrigatória fixada em lei, cujo valor é fixado livremente no comércio. Quem zela pelo preferencialista?

O mandato ajuda a resolver o conflito de interesse, mas não é tudo. É importante, por exemplo, a exclusão do Tesouro do comitê que decide sobre juros, e de ministros gastadores do Conselho Monetário Nacional.

Pois bem, é disso que se trata a independência do BC, mandatos fixos, junto com impedimentos (restrições para recrutar no sistema bancário) e quarentena (vedação temporária a trabalhar no sistema financeiro depois de exercer cargo de direção no BC).

O Senado nunca teve maiores restrições ao tema, pelo contrário: sempre houve contrariedade com o fato de que é chamado a sabatinar e aprovar, mas não é consultado na hora de demitir. Talvez o assunto já pudesse ter sido fixado em lei há tempos. Só não foi porque é matéria de lei complementar, debaixo do artigo 192 da Constituição, e até a Emenda Constitucional 40, de 2003, não era possível fazer uma lei complementar para o tópico específico dos mandatos sem regulamentar todos os outros assuntos mencionados no artigo 192.

Desde então, o caminho está aberto, alguns projetos já andaram, mas não houve interesse no tema, e a principal explicação para isso é que ninguém acredita que alguma transformação espetacular vá se operar por conta dos mandatos, pois, na prática, é mais ou menos o que já vem ocorrendo.

A politização do tema, no entanto, serve para mostrar que o debate eleitoral nem sempre engrandece seus participantes. A propaganda governamental afirmando que a independência equivale a entregar o BC aos banqueiros e a tirar comida da mesa do trabalhador, sem dúvida, é um dos momentos mais lamentáveis de todas as campanhas dos últimos tempos.

Foram anos para o Banco Central do Brasil construir sua credibilidade ao vencer a hiperinflação, devolver ao Brasil uma moeda digna e manter a inflação sob controle, graças ao fato de ter se comportado de forma independente, conforme determinado pelos presidentes Fernando Henrique e Lula.

Esse acervo pode ser destruído rapidamente quando o próprio governo afirma em rede nacional de TV, em inserções repetidas, que a independência significa a captura pelos bancos e prejuízo ao trabalhador. Não se poderia imaginar maior desserviço à construção institucional da moeda.

É de se presumir que, em um governo que pensa assim, a presidente é quem manda na política monetária, de modo que fica ainda mais deslocada a queixa-crime proposta pela procuradoria do BC contra um economista, ex-diretor da casa, que acusou a instituição de “subserviente” e de trabalhar mal. A propaganda e as declarações da presidente servem como confissão para a primeira acusação. A segunda, como o episódio ajudou a aclarar, é matéria de opinião e não de direito penal.

De forma não menos equivocada, também aparece o argumento segundo o qual os mandatos aos dirigentes do Banco Central subtrairiam poder das autoridades eleitas, do presidente e do Congresso, a favor de burocratas, o que é uma falácia muito comum nesse debate.

Para começar, os ditos burocratas são escolhidos pelo presidente (como ministros e secretários) e aprovados pelo Congresso, um rito comum para o exercício de diversas funções de estado. Não se concebe que haja eleições para a Anatel ou para o BC, bem como para promotor ou para a magistratura. Tampouco que esses cargos tenham que ser exercidos por parlamentares, e por indicados pelos partidos políticos, ou que tenham seus titulares escolhidos em assembleias de conselhos populares ou de representantes da sociedade civil.

O fato é que há uma prática internacional solidamente estabelecida e consagrada sobre independência do BC. Por isso, e também pela percepção de que o Brasil estaria apenas formalizando o que já praticava há vários anos, a independência do BC vinha se tornando um tema banal, que ia acabar formalizado por gravidade.

Quem ouvia o presidente Lula falar do assunto tinha a sensação de que era um assunto pacificado, mais simbólico que prático, e de certa relevância apenas para um público especializado, de modo que ficava guardado como uma espécie de “carta aos brasileiros”, versão 2.0, em caso de necessidade. Foi mais ou menos assim que o assunto reapareceu, pela manifestação de Marina Silva, mas ninguém poderia imaginar a catastrófica resposta da campanha oficial. Em duas semanas, a evolução das instituições monetárias brasileiras regrediu uma década ou mais.