domingo, setembro 07, 2014

O 'verdadeiro' mensalão - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 07/09

A história política no Brasil não deixa dúvidas quanto aos danos eleitorais provocados por denúncias de corrupção, especialmente aquelas com elementos que lhes dotam de consistência, ainda que dependente de investigações mais aprofundadas.

Não só nas campanhas esse efeito se verifica. Atinge também governos já eleitos, com maior ou menor intensidade, durante ou após seus mandatos, como no impeachment de Fernando Collor e no mensalão, que enterrou o sonho de reeleição no primeiro turno acalentado pelo PT, para ficar nos exemplos recentes.

A campanha atual, já nos seus 30 dias finais, é alcançada pelas primeiras consequências de uma investigação sob condução judicial, que o governo tentou a todo custo, com êxito, sustar na instância parlamentar, obstruindo a CPI da Petrobrás.

As informações prestadas pelo ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, sob o regime da delação premiada, tem potencial devastador e sua influência na eleição começa agora. O dano só poderá ser medido após conhecida a extensão de suas denúncias.

Pelo que já se sabe, o que Costa narra aos seus inquiridores é que a operação montada dentro da Petrobrás reproduz o mecanismo do mensalão, em volume bem maior, com os mesmos partidos da base governista - PT, PP e PMDB -, que tiveram dirigentes condenados e presos.

Por isso, nos meios políticos , o esquema da Petrobrás é tratado como uma extensão do mensalão, por reproduzir meios, fins e personagens envolvidos em desvios de recursos públicos para financiamento de campanhas e também para enriquecimento pessoal.

O processo do mensalão foi conduzido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa com base em valores amplamente comprovados, o que reduziu significativamente o montante real desviado. Foi uma opção por trabalhar judicialmente com o que efetivamente se tinha e não com aquilo que se sabia, mas que demandaria mais tempo para materializar.

Por essa razão, o que desponta das investigações na Petrobrás, tem dimensão muito maior que o escândalo de compra de apoio parlamentar. Já vinha sendo chamado de "o verdadeiro mensalão" nos ambientes políticos da capital.

É bastante provável que o temido depoimento de Costa, finalmente iniciado, atinja em cheio a candidatura governista, ampliando o apoio à candidata do PSB, Marina Silva.

A menos que a menção do ex-diretor a Eduardo Campos se desdobre em revelações graves sobre o ex-governador, a partir da refinaria de Abreu e Lima.

A campanha, já influenciada pelo acidente aéreo de Campos, pode recomeçar pela segunda vez, para vertigem geral de partidos e candidatos.

O fato novo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/09

Não podia ter chegado em pior momento para a presidente Dilma a bomba sobre o esquema de corrupção de políticos montado na Petrobras durante 8 anos em governos petistas. A presidente esboçava uma reação para resistir à investida de Marina, e agora está novamente travada pelos fatos.

Marina tem no episódio a prova material de que a “velha política” transformou o Congresso em um balcão de negócios, mas a confirmação de suas denúncias veio junto com a inclusão do ex-governador Eduardo Campos na lista dos beneficiários das negociações do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Esse é um empecilho e tanto para a exploração do caso, mesmo que esteja implícito que a candidata não tem nada a ver com os fatos acontecidos antes de ela, por constrangimentos políticos que lhe foram impostos, aderir ao PSB, inclusive o jato que veio junto, ao que tudo indica, nesse mesmo pacote.

Se fosse a candidata da Rede Sustentabilidade, Marina estaria hoje livre, leve e solta para empunhar a bandeira da nova política em contraponto às nebulosas transações que seus adversários comandam nos bastidores políticos de Brasília. Mas terá que pisar em ovos para usar a artilharia pesada que lhe caiu no colo sem que o fogo amigo a atinja.

Quem poderá se beneficiar da situação é o candidato do PSDB Aécio Neves, que precisava de um fato novo para turbinar sua campanha, e ele chegou pela delação premiada do ex-diretor da Petrobras. Não é possível dizer agora se mais essa denúncia de roubalheira institucional será suficiente para recolocá-lo na disputa, mas ele tem a vantagem no momento de poder atacar tanto Marina quanto Dilma, reforçando a ideia central de sua campanha de que ele é a mudança segura.

A presidente Dilma dificilmente perderá votos do núcleo duro petista, que vota nela mesmo de olhos e narizes fechados, e considera normais esses esquemas corruptos. Veremos agora de que tamanho é o apoio da candidata Marina Silva, e qual a intensidade da revolta de eleitores que estavam fora da eleição por vontade própria e retornaram devido à sua presença.

Aécio poderá tentar retomar eleitores que foram para Marina, que também receberá eleitores que voltaram para Dilma e poderão ficar sensíveis a mais esses escândalo. Tudo dependerá de como Marina usará esse episódio.

Quem é Marina de fato, desde a eleição de 2010, já estará convencido de que ela foi apanhada em uma armadilha montada pela “velha política” de que Eduardo Campos se utilizava antes de romper com o governo petista. E a perdoará por isso, entendendo que não tem condições de romper agora com o esquema político que a acolheu em momento difícil.

Ainda mais tendo como vice um político orgânico do PSB. Muitos que foram para ela em busca de um refúgio poderão se convencer de que Aécio Neves é a melhor oposição, e muitos outros podem desistir mais uma vez de votar, convencidos pelos fatos de que são todos farinha do mesmo saco.

O certo é que a presidente Dilma, que ensaiava uma reação levada pela máquina partidária e pelos militantes petistas, está novamente enredada em um esquema político deletério. Se é verdade que ensaiava retirar do fundo da gaveta a imagem da faxineira ética do início de seu governo para reforçar o combate à corrupção, agora vai ter que desistir da ideia.

Já era uma proposta desesperada, pois as contradições são evidentes entre a faxineira e a atual presidente que colocou de volta no ministério praticamente todos os que enxotara, e agora é inviável.

Também fica sem sentido a tentativa do presidente do PT Rui Falcão de insinuar que Marina pretende privatizar a Petrobras e os bancos públicos, uma acusação reciclada que por si só mostra a falta de argumentos do partido na disputa política com Marina.

O novo escândalo da Petrobras vai reviver a ideia de Aécio Neves de reestatizar a Petrobras, que foi tomada de assalto por forças políticas da base aliada governista, sob o comando do PT.

Como disse muito bem o presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves, aliás um dos acusados de estar envolvido no esquema de corrupção, “a Petrobras é petista”.

Cai o pano - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 07/09


O efeito da delação do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa no resultado das eleições realmente é o menor dos problemas diante do conteúdo do que ele tem revelado à polícia e ao Ministério Público na última semana.

A preocupação deve pertencer a quem precise arcar com as consequências. O importante para o País é que uma situação dessa gravidade produza consequência à altura.

Em resumo, durante oito anos - de 2004 a 2012 - os contratos da maior empresa brasileira com grandes empreiteiras eram usados como fonte de propina para funcionários, partidos e políticos. Uma espécie de mensalão 2.0.

Desta vez, no entanto, o acusador envolve em sua rede de relações gente grande da República: os presidentes da Câmara e do Senado, ministros de Estado, senadores, governadores e até o ex-presidente Luiz Inácio da Silva com quem, segundo ele, costumava se reunir frequentemente.

Quando Roberto Jefferson denunciou o esquema do mensalão, numa entrevista à Folha de S.Paulo, a primeira reação dos acusados foi desmentir e tentar desqualificar a denúncia. Até que veio a CPI dos Correios.

Escaldado, no início deste ano o governo não deixou que prosperassem as duas comissões de inquérito instaladas no Congresso para investigar os negócios da Petrobrás. Lula mesmo aconselhou o PT a "ir para cima" da oposição a fim de evitar a repetição do episódio.

Agora a coisa é mais complicada. Enquanto a história estava no âmbito do Congresso saiu tudo como planejado. Deputados e senadores da base governista prestaram-se à farsa de maneira obediente. A ponto de deixarem que depoimentos de ex-diretores, presidente e ex-presidente da Petrobrás tivessem perguntas e respostas previamente combinados.

No dia 10 de junho, no intervalo entre uma prisão e outra, Costa foi à CPI. Fez uma defesa ardorosa da lisura ética vigente na empresa e disse o seguinte: "Pode se fazer uma auditoria por 50 anos na Petrobrás que não vai se achar nada de ilegal porque não há nada de ilegal". Suas excelências mais que depressa se deram por satisfeitas.

Teria ficado tudo por isso mesmo se dias depois o juiz Sérgio Moro não tivesse mandado prender Paulo Roberto Costa de novo. Ele havia ficado na cadeia durante 59 dias, foi solto por ordem do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, e preso em 19 de junho por ter escondido a existência de uma conta na Suíça e um passaporte português.

Em dois meses Costa se convenceu de que poderia ir pelo mesmo caminho de Marcos Valério, condenado a 40 anos de prisão. Quando quis fazer acordo de delação premiada, o operador do mensalão não tinha mais nada a oferecer à Justiça porque o esquema já estava desvendado.

No dia 22 de agosto, o ex-diretor da Petrobrás decidiu fazer o acordo. Com o processo no início, não havendo ninguém denunciado, era o momento propício para ele oferecer o que os investigadores precisavam: os autores e as provas dos crimes.

Por isso é que as coisas agora ficam mais complicadas para o lado dos acusados. Os desmentidos serão difíceis. Para que obtenha o benefício da redução da pena ou mesmo o perdão judicial, Paulo Roberto Costa terá necessariamente de fornecer informações verdadeiras, comprovadas, que sirvam para provar a materialidade e a autoria dos crimes.

Por menos do que isso não sairá da prisão. Depois que forem encerrados os interrogatórios e apresentadas as provas o Ministério Público examinará e cruzará todos os dados. Em seguida, dará seu parecer sobre a concessão do benefício que será maior ou menor dependendo da contribuição que a delação tiver dado para a elucidação do caso, cabendo a decisão final ao ministro Teori Zavascki.

Um país não é uma empresa - ODEMIRO FONSECA

O GLOBO - 07/09

Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia 2008) publicou, em janeiro de 1996, artigo com o título acima, na “Harvard Business Review”. Concluía que executivos e empresários não deveriam aconselhar políticas econômicas, pois nada entendiam da complexidade da economia, com seus balanços e preços agregados e seu sofisticado equilíbrio geral. Empresários teriam um viés cognitivo de pedir incentivos ao governo e aconselhar em causa própria. A tarefa era para outros conselheiros, os economistas. Krugman chamava o testemunho de Keynes, para o qual, “economia é assunto técnico e difícil”. Keynes achava que a qualidade dos conselheiros era condição necessária ao sucesso dos governos e que o fracasso dos Stuarts era um grande exemplo de maus conselheiros.

Krugman pressupunha a ausência de um governo empresário e sua argumentação é música para empresários que não gostam das antessalas de Brasília e gostam de competição. Segundo Krugman, o papel dos governos (não entendido pelos empresários) era estabelecer regras do jogo econômico claras e iguais para todos, sair da frente e deixar os mercados funcionarem. Zombava de políticas protecionistas, incentivadoras com subsídios ou que “escolhiam ganhadores”. Parecia escrever sobre o Brasil de hoje.

Mas um país é diferente de uma empresa por motivos muito mais bicudos. Um país não precisa de gerência, como uma empresa, mas de governança política. Um grande gerente (Abilio Diniz) tocou neste ponto recentemente, ao mencionar que “o Brasil não é ingovernável, mas ingerenciável".

O marketing da presidente Dilma pintou-a como boa gerente, motivo de chacota hoje, sendo alguém que se embrulha no próprio discurso. Mas serve à presidente o consolo que nem mesmo Abilio Diniz seria um bom gerente para o Brasil. Por isso, criticar a Marina por falta de experiência gerencial é bobagem. Se os brasileiros correm atrás de um bom gerente para presidente, a frustração vai continuar. A dúvida é se Marina vai poder escolher bons conselheiros e querer ou poder usar seus conselhos.

Quando não em franca desconfiança e confronto, o que governos buscam com empresários é ajuda sobre como tocar a máquina pública com maior eficiência. Apesar de louváveis esforços de empresários, os resultados são frustrantes.

A principal busca dos governos por mais eficiência é na arrecadação, que, junto com custos de transação imbecilizantes, são as principais fontes de conflito com empresários. Mas a mais intratável questão é a do erro gerencial. Empresários sabem e entendem que o erro com o qual mais convivem é o erro de julgamento, que vem da necessidade de inovar e da ausência do conhecimento perfeito. O erro de julgamento não existe na administração pública, que só reconhece o erro por ineficiência ou má-fé.

Por isso, quando o governo desestatiza alguma de suas atividades gerenciais, criando competição ao vender empresas ou fazer concessões, resolve sérios problemas políticos. Além de tirar o foco de si, retira a pressão por subsídios, por arrecadação e pode baixar a carga fiscal e os custos de transação, concentrando-se no seu papel, que é governar. Existe uma lista longa de atividades que os governos podem deixar de gerenciar e o setor privado poderá então entrar, inovar e gerar progresso, sem medo do erro de julgamento.

O novo mensalão - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 07/09


BRASÍLIA - Se a Petrobras entrou na eleição de 2010 para aniquilar as chances do PSDB, ela já entrava na de 2014 para enfraquecer a posição do PT e se torna agora um canhão contra o governo e os governistas.

O ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, que sabe das coisas, aproximou-se do PT, mas está longe de ser um quadro do partido como Delúbio Soares, que aguentou o tranco e foi para o abatedouro sem entregar o resto da boiada.

Com a delação premiada, o ex-diretor deixou claro que sua prioridade é salvar o que for possível da própria pele. Joga uma profusão de nomes e siglas nas páginas da Justiça e nos ares da eleição. Aliás, já que falamos de Delúbio, uma peça-chave nas denúncias é o novo tesoureiro do PT. Está um salve-se quem puder.

Na reta final da campanha, com Marina Silva na cola de Dilma Rousseff e ameaçando o seu antigo partido, o PT. Haja coração! Lula que o diga. Se está complicado para Dilma, seu primeiro poste, e péssimo para Alexandre Padilha, sua derradeira tentativa de poste, pode ficar pior. Tende a chegar no coração do PT e é improvável que Lula passe incólume.

Se a Petrobras já era um campo minado para a imagem de gestora de Dilma, as novas histórias que saem da boca de Paulo Roberto explodem num outro campo muito delicado para os governos do PT: o da ética. Certo ou errado, o fato é que o mensalão, o deputado amigão do doleiro, o vereador aliado ao PCC e as peripécias dos aliados minaram a aura e o discurso petista construídos em décadas. Cada coisa nova só reforça a sensação que se generalizou. E a "coisa", desta vez, é cabeluda.

O único e frágil alívio para Lula, Dilma e o PT é que a citação a Eduardo Campos embaralha as cartas e deixa Marina sem artilharia para atacar, sobretudo depois da história mal contada do avião da campanha do PSB. É difícil reverter o quadro crítico para Aécio Neves, mas, no mínimo, o tucano deve estar pensando: quem ri por último ri melhor.

As coisas podem não ser o que parecem - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 07/09


É cada vez menor o número dos que duvidam hoje da derrota de Dilma Rousseff nas urnas de outubro. Mas a probabilidade da vitória de Marina Silva poderá resultar em enorme decepção para quem acredita que o voto na ex-senadora é o melhor caminho para livrar o País do lulopetismo. Esta é a conclusão a que têm chegado, nos círculos políticos de Brasília, petistas e não petistas com algum acesso a Lula, a partir da análise de seu comportamento diante de um quadro eleitoral que era impensável pouco tempo atrás.

Não é de hoje, garantem seus seguidores mais chegados, que Lula perdeu a paciência com a campanha da reeleição de Dilma. E não se trata nem de discordar da estratégia, se é que se pode chamar assim, que a presidente e seu círculo de assessores diretos impuseram à disputa. Aos mais íntimos o ex-presidente se tem permitido expressar irritada decepção com a falta de competência política e de carisma de sua criatura. Afirma mesmo, como se não tivesse nada a ver com isso, que ela "não é do ramo".

Diante do provável revés, Lula se esforça para disfarçar o mau humor com um comportamento discreto que o tem levado, para usar uma expressão futebolística tão a seu gosto, a simplesmente "cumprir tabela" na campanha. Mesmo porque uma omissão ostensiva seria inadmissível e a estridência crítica seria contraproducente.

Lula, portanto, parou para pensar em si mesmo, entregar os anéis para salvar os dedos e se concentrar em 2018, quando ele próprio poderá tentar, com o prestígio popular que lhe tiver restado, uma volta triunfal ao Palácio do Planalto. E, pelo que dizem ser seus cálculos, a eleição de Marina Silva agora pode ser mais útil a esse objetivo do que a reeleição de Dilma.

Dilma Rousseff entregará a seu sucessor um país em situação muito pior do que aquele que recebeu de Lula há quatro anos. Os indicadores econômicos, financeiros e sociais revelam essa lamentável realidade. O próximo ocupante da cadeira presidencial receberá uma verdadeira herança maldita. Reeleita, Dilma terá de mostrar uma competência que já provou não ter para evitar que a inflação estoure, a recessão econômica se instale, os programas sociais definhem e a companheirada em desespero piore as coisas tentando "salvar o seu". E aí provavelmente nem mesmo Lula seria capaz de operar o milagre de manter o PT no poder em 2018.

Já Marina Silva na Presidência, com um programa repleto de boas intenções, mas sem nenhuma perspectiva concreta de apoio parlamentar para aprová-lo e de uma ampla e competente equipe técnica para realizá-lo, seria presa fácil de um PT que, na oposição, estaria à vontade para fazer aquilo em que é especialista: atacar, destruir. E depois de devidamente demolida a imagem de Marina, Lula poderia surgir, mais uma vez, como salvador da pátria.

Mas haveria ainda, segundo essas maquinações, uma segunda hipótese: governar com o PT. Marina não ignora as dificuldades que terá pela frente e tentará garantir o apoio de forças políticas que possam fazer diferença em seu governo. Petistas ou tucanos dariam a Marina apoio decisivo semelhante àquele que o PMDB oferece hoje a Dilma. Mas PT e PSDB dificilmente comporiam juntos uma base de apoio confiável. E, mesmo que os tucanos venham a apoiar Marina num eventual segundo turno contra Dilma, toda a história política da ex-senadora dentro do PT e a aversão aos tucanos que ela não se preocupa em disfarçar indicam que seus parceiros preferenciais seriam os petistas.

Reforçaria essa hipótese o fato de que Marina tem feito acenos de boa vontade a Lula, como a reiterada manifestação de que não seria candidata à reeleição em 2018 e de que estaria disposta a não desalojar completamente o PT de seu governo, promessa implícita na garantia de que pretende governar "com todos os partidos".

Seja como for, Lula parece estar assimilando bem - e talvez até desejando - uma vitória de Marina Silva, que trabalharia para caracterizar como uma derrota de Dilma e não do PT. E o PT estaria, tanto quanto seu líder máximo, preservado do inevitável desgaste de mais quatro anos de barbeiragens políticas e administrativas.

A ser isso verdade, votar em Marina com a intenção de cravar uma bala de prata no coração do lulopetismo seria comprar gato por lebre.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Nenhuma das negociações de hoje passa a ter credibilidade’
Aécio Neves sobre a demissão do ministro da Fazenda 4 meses antes de sair do cargo


LIBERAÇÃO DE INIBIDORES PODE SER LOBBY DE YOUSSEF

Documentos apreendidos pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, aos quais esta coluna teve acesso, revelam grande interesse de uma empresa investigada, Piroquímica, no sal químico sibutramina, inibidor de apetite. O megadoleiro Alberto Youssef fazia lobby para reverter a proibição desse comércio bilionário. Investigadores suspeitam que ele está por trás da liberação de inibidores, definida pelo Senado no dia 2.

PROIBIÇÃO

Por oferecerem riscos à saúde, os inibidores tiveram a comercialização proibida em 2011, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

ARRUMADINHO

O laboratório Labogen, de Youssef, importava químicos, revendia à Piroquímica, que revendia a outra empresa, que vendia ao governo.

A FAVORITA

A empresa Labogen é uma das principais investigadas na Operação Lava Jato, envolvendo inclusive o deputado André Vargas (ex-PT-PR).

ELES SABEM MAIS

Os senadores alegaram que a Anvisa “extrapolou” ao proibir inibidores de apetite. A Anvisa, na verdade, exerceu suas prerrogativas.

PMDB PODE CONQUISTAR OITO GOVERNOS ESTADUAIS

Maior aliado do governo Dilma, o PMDB pode ser o grande vencedor da eleição 2014, nos estados. Se os cenários previstos nas pesquisas se mantiverem, o partido de Michel Temer pode eleger até oito governadores, dois a mais que o PSDB, segundo colocado nas projeções das pesquisas de Ibope e Datafolha. O PT lidera em quatro estados, o PSB de Marina Silva não lidera, mas pode levar três.

QUATRO NO NORDESTE

No Nordeste, o PMDB tem grande chance de eleger Renan Filho (AL), Eunício Oliveira (CE), Henrique Alves (RN) e Jackson Barreto (SE).

TRÊS NO NORTE

No Norte, são favoritos Eduardo Braga (AM) e Marcelo Miranda (TO). Helder Barbalho (PA) não lidera, mas tem chance. Todos do PMDB.

MÃO NA TAÇA

No Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB) lidera com folga espantosa, em relação ao rival Renato Casagrande (PSB), o atual governador.

AERO-CORRUPA

Chegam a ser engraçados os codinomes utilizados pelos envolvidos no escândalo de corrupção revelado pela Operação Lava Jato. Há emissários batizados de “Grandão” e “Careca”, que faziam o transporte do dinheiro sujo, em jatos, para o exterior e de lá para o Brasil.

RIGIDEZ

Uma das empreiteiras investigadas pela Polícia Federal na Operação Lava Jato também tem nome esquisito: Rigidez. Nome que certamente não foi inspirado na atitude eticamente rígida dos responsáveis.

FIGURÕES NA ESCUTA

A Operação Lava Jato leva pânico a vários figurões do Paraná que aparecem em escutas, ora em conversas indecorosas com o megadoleiro Alberto Youssef, ora com o deputado André Vargas (ex-PT).

LULA CANDIDATO?

Os aliados do governo no Nordeste, inclusive petistas, estão se lixando para a candidatura de Dilma à reeleição. Nem usam sua imagem, nem pedem votos para ela. Só querem saber de Lula.

PT LIPOASPIRADO

O PT deve eleger a 2ª maior bancada de deputados federais, segundo políticos experientes. A Operação Lava Jato inibiu o “caixa 2” e Dilma não abriu o cofre. O PMDB sairá das urnas com a maior bancada.

PROPAGANDA ENGANOSA

O Itaú anunciou redução para 0,99% ao mês os juros do financiamento de veículos, até o dia 10. No rodapé do anúncio, em letras miúdas, a real: a taxa soma 12,55% ao ano, mas, somadas tarifas e otras cositas, vai a 27,66%, mais que o dobro. E 27,66% ao ano são 2,06% ao mês.

VASSALAGEM

Ao atacar Marina Silva (PSB), apostando na sua “derrubada”, caso eleita, o governador do Ceará, Cid Gomes (Pros) prestava vassalagem à presidenta Dilma. Na visita a Fortaleza, ela desabafou que não se sentia bem atacando Marina. Ele se prontificou a fazer o serviço.

DESCONSTRUÇÃO

Os ataques do ex-ministro Ciro Gomes a Marina fazem parte do “pacote” oferecido à presidenta Dilma pelo irmão governador. Até se dispôs a percorrer o País tentando “desconstruir” a candidata do PSB.

ÚLTIMOS A SABER

Se Lula demitiu Cristovam Buarque da Educação por telefone e Dilma demitiu Guido Mantega pela imprensa, os ministros devem ficar ligados para não serem demitidos por sinais de fumaça.



PODER SEM PUDOR

CONVERSA DE PESCADOR

Nos tempos de ditadura, dois candidatos da Arena disputavam a prefeitura de Conceição do Mato Dentro (MG), onde vivia Chiquito, cabo eleitoral particularmente esperto. Na campanha, ele não hesitou em subir no palanque e pedir votos para Sebastião Soares, da Arena 2, mas uma semana depois lá estava ele no outro palanque, de José Mascarenhas, da Arena 1, implorando os votos dos conterrâneos. Um deles, curioso, questionou a repentina mudança. Chiquito não se fez de rogado:

- Eu não mudei, pesquei. Joguei o anzol no ceveiro do Soares, esperei e não deu peixe. Joguei no ceveiro do Mascarenhas, logo veio peixe.

sábado, setembro 06, 2014

Velha política em xeque - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/09

O que na verdade vai movimentar a campanha presidencial nos próximos dias, podendo até mesmo definir as reais possibilidades competitivas da presidente Dilma, é o depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que já começou a denunciar deputados, senadores e governadores que estavam no esquema de corrupção na estatal dominada pelos interesses políticos do PT.
A candidata Marina Silva se tornou necessariamente o alvo de seus adversários, a presidente Dilma, a quem venceria no 2º turno hoje, e o senador Aécio Neves, a quem deslocou do 2º lugar. Há quem veja um erro de estratégia de Aécio nos ataques que vem desferindo contra Marina, como se a tentativa de desconstruir a candidata do PSB só ajudasse o PT.

Aécio estaria fazendo o mesmo esforço inútil que o tucano José Serra fez em 2002, destruindo, com sucesso, as candidaturas de Roseana Sarney e Ciro Gomes para depois ser derrotado por Lula no segundo turno. Há no entorno do PSDB quem defenda uma "renúncia branca" de Aécio, que deveria se dedicar mais à eleição de Minas para garantir seu cacife político.

Melhorando em Minas, onde segundo o Datafolha está em 3º lugar, Aécio melhoraria indiretamente no plano nacional, já que Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país. Também em São Paulo haveria espaço a recuperar ao lado do governador Geraldo Alckmin. Na realidade, os ataques que Aécio vem fazendo a Marina são sinalizações de que não pretende desistir da candidatura, mas sua tarefa principal a essa altura é mesmo garantir que Minas não caia nas mãos do PT.

Vencer a eleição para presidente por lá também seria fundamental para melhorar seu cacife político para futuros acordos internos dentro do PSDB e no apoio a Marina no 2º turno. O fato é que Marina, transformada no alvo preferencial dos adversários, está assumindo o papel de representante da sociedade contra os velhos métodos de fazer política no país.

A candidata do PSB já se utiliza da vitimização para se defender, e lança ao eleitorado a tarefa de defendê-la pelo boca a boca, já que tem menos tempo de propaganda oficial que os adversários. Marina acena com a chegada ao 2º turno para equilibrar a disputa, pois nele os tempos são iguais para os dois pretendentes.

Marina caracterizou os ataques que vem recebendo como oriundos de um sentimento de desespero de seus adversários que fizeram "uma frente" para tirá-la da competição, na tentativa de colocar à margem a sociedade civil organizada que ela representaria.

Os integrantes da "velha política" teriam receio de disputar com movimentos espontâneos do eleitorado, e gostariam de circunscrever as possibilidades de chegar ao poder aos dois partidos que polarizam as disputas desde 1994, PT e PSDB, um preferindo ter o outro como opositor, e os dois temendo enfrentar Marina e a espontaneidade da sociedade organizada.

Ela citou ontem especificamente a ação de seus adversários no Rio, onde lidera a recente pesquisa Datafolha com 37% no estado e 41% na capital. Enfrentando as máquinas estadual e federal, que têm como candidatos a presidente Dilma e o senador Aécio, Marina vem confirmando o caráter libertário do eleitorado do Rio, que já deu a ela em 2010 uma votação expressiva.

Marina se mostrou irritada especialmente com o que chamou de "máquina de boatos" que tem espalhado que ela é contra a distribuição dos royalties do petróleo em proporção maior para o Rio, uma antiga disputa no Congresso que agora surge na campanha presidencial.

Esse seria um tema obrigatório caso Eduardo Campos estivesse na disputa, pois ele foi um dos defensores da distribuição mais igualitária dos royalties, em defesa dos interesses do Nordeste. Marina acabou sendo atacada por outro flanco, o da prioridade do pré-sal.

Alegam que ao reduzir a importância do petróleo na estratégia de energia do país, Marina acabará reduzindo o valor dos royalties para estados e municípios. Há ainda a esperteza política de sindicatos de petroleiros ligados à CUT que querem fazer um protesto contra a suposta política do pré-sal de Marina, o que não passa de um ato politiqueiro.

Discutir os programas partidários, atacar suas contradições e imperfeições e mostrar as debilidades de Marina faz parte do jogo. Mas tentar usar a religião como instrumento de desqualificação política ou inventar posições inexistentes para fazer a "luta política" é realmente usar o pior da velha política. Que estará mais uma vez em xeque a partir deste fim de semana com as revelações da delação premiada do ex-diretor da Petrobras.

Fogueiras da Razão - DEMÉTRIO MAGNOLI

FOLHA DE SP - 06/09


Fundamentalistas querem substituir o livro das leis pela Lei do Livro. Marina não é, portanto, fundamentalista


Política, ao menos na democracia, é diálogo. A condição para o diálogo é a disposição genuína de ouvir --isto é, de mudar de ideia. O fanático não dialoga, prega. Ele pretende converter o interlocutor, mas não contempla a hipótese de rever suas próprias convicções. No fundo, almeja um poder absoluto: moldar o outro segundo o figurino de crenças que selecionou como verdadeiro. O artigo "Desvendando Marina", de Rogério Cezar de Cerqueira Leite (Folha, 31/8), não desvenda a candidata do PSB/Rede, mas atesta a virulência antidemocrática dos fanáticos da Razão.

O articulista classifica Marina Silva como uma fundamentalista cristã. No universo da ciência política, o conceito de fundamentalismo religioso aplica-se às correntes que exigem a subordinação das instituições públicas e da vida civil aos dogmas de uma fé. Os fundamentalistas querem substituir o livro das leis (o contrato constitucional) pela Lei do Livro (a Bíblia, o Corão ou a Torá). Marina não é, portanto, uma fundamentalista --e, assim como a teoria da evolução, tal conclusão não é uma questão de opinião.

O pensamento científico assenta-se sobre modelos e evidências, abrindo-se ao teste da falseabilidade. Do alto de uma torre erguida com a argamassa da arrogância, o fanático da Razão viola as regras que simula seguir, operando por espasmos de subjetividade. Cerqueira Leite escandaliza-se com as "crenças íntimas" de Marina, mas nem tenta apontar nas propostas políticas da candidata alguma contaminação fundamentalista. Marina defende a laicidade do Estado, sugere submeter o tema do aborto a plebiscito e alinha-se com a decisão do STF sobre a união civil de homossexuais. São posições semelhantes às de Dilma e Aécio, que também não reproduzem o catecismo do movimento LGBT. No fim, o "desconforto" do Inquisidor da Razão é com a liberdade de religião.

As grandes fogueiras da Igreja apagaram-se no passado, ainda que suas brasas continuem queimando aqui e ali. No Ocidente, as fogueiras do último século foram acesas por Estados totalitários que falavam a linguagem da Razão. A URSS de Stálin e a China de Mao eliminaram milhões de pessoas em nome da Ciência da História, que decifrara o enigma do futuro da humanidade. A Alemanha de Hitler construiu as engrenagens do exterminismo sobre o alicerce da Ciência da Raça, que prometia a salvação nacional no Reich de mil anos. O fanático da Razão, tanto quanto o da religião, quer um governo que administre as almas, não as coisas. Na democracia, contudo, as almas não fazem parte da esfera de autoridade do Estado.

A pecha de fundamentalista religiosa lançada contra Marina circula no submundo da internet, propagada por blogueiros governistas sustentados por patrocínios de empresas estatais. Simultaneamente, e de acordo com uma calculada lógica da duplicidade, o governo ensaia reativar um projeto de lei que concede benefícios tributários às igrejas. Mas o Inquisidor da Razão parece não sentir "desconforto" com a privatização partidária da máquina pública nem com a transgressão do princípio elementar da separação entre Estado e religião. Ele se incomoda, de fato, com "crenças íntimas".

Sou agnóstico. Acho graça nos mitos religiosos da Criação --e aborreço-me com pregadores que têm a exagerada pretensão de retificar minhas "crenças íntimas". Só existem superficiais diferenças de linguagem entre eles e os intragáveis pregadores do ateísmo, que querem matar Deus, erradicando-o da mente dos seres humanos. Uns e outros sonham com um Estado inquisitorial, aparelhado para desentranhar as "ideias daninhas" que envenenam seus concidadãos.

Marina já não é uma esfinge. A candidata divulgou um extenso programa de governo, atravessado por tensões e não isento de contradições. Melhor criticá-lo que acender uma fogueira com os galhos secos da árvore da intolerância.

O repique da inflação - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 06/09


Contrariando as profecias do governo, a inflação deu um repique, voltou a subir e atingiu 0,25% em agosto, ponto inicial de uma nova escalada, segundo projeções do setor financeiro. A taxa prevista para setembro é 0,41% e o ano será fechado, pelos cálculos correntes, com um resultado acima de 6%, pouco pior que o de 2013, de 5,91%. Como no ano passado, a inflação declinou durante algum tempo e em seguida ganhou impulso. Neste ano, o ponto mais baixo, de 0,01%, foi atingido em julho. Na quarta-feira, os dirigentes do Banco Central (BC) decidiram por unanimidade manter em 11% a taxa básica de juros, a Selic, seu principal instrumento de política anti-inflacionária. Foram prudentes e tomaram a decisão mais segura - criticada, como sempre, por líderes empresariais defensores da tolerância à inflação.

O número oficial de agosto foi pouco maior que o previsto, uma semana antes, pelos economistas consultados pelo BC na pesquisa Focus. A mediana de suas estimativas havia ficado em 0,22%. Talvez algum ministro ou funcionário do governo acreditasse, de fato, numa forte redução das pressões inflacionárias, depois da acomodação dos indicadores a partir de maio. No mercado financeiro e nas consultorias, a maior parte dos economistas previu uma evolução parecida com a de 2013, quando a inflação chegou a 0,03% em julho e em seguida embicou para cima.

Afinal, nenhum grande fator inflacionário foi eliminado, mesmo com a elevação dos juros em abril. Os consumidores ficaram mais cautelosos e menos dispostos, mas o crédito permaneceu em expansão, aumentos salariais continuaram superando os ganhos de produtividade e, acima de tudo, as contas públicas pioraram a cada mês, porque a gastança prosseguiu e a receita decepcionou.

A queda dos preços por atacado foi apontada pelos mais otimistas como um prenúncio de inflação domada. Mas previsões desse tipo são geralmente baseadas em uma confusão. Oscilações de mercado podem pressionar alguns preços por algum tempo, mas só alimentam a espiral inflacionária quando há condições especiais para isso - excesso de crédito ou de gasto público, por exemplo. Errou, no passado recente, quem atribuiu a inflação brasileira à elevação dos preços das commodities no mercado internacional. Essa elevação afetou também outros países, mas poucos tiveram inflação tão alta quanto a do Brasil. Errou também - e a explicação é a mesma - quem previu o fim das pressões inflacionárias quando os preços das commodities caíram por alguns meses.

De julho para agosto a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), passou de 0,01% para 0,25%, num salto considerável, embora o custo de alimentos e bebidas tenha diminuído 0,15%. O custo do vestuário também recuou, com variação negativa de 0,15%. Os outros sete grandes componentes do índice aumentaram.

O quadro parece menos mau quando se examina a porcentagem de itens com variação positiva. Esse indicador, conhecido como coeficiente de difusão, diminuiu de 59% em julho para 55% em agosto. Mas isso se explica basicamente pela queda dos preços de muitos alimentos e bebidas e também do vestuário. No caso dos alimentos, só a lista das "principais quedas" apontadas no informe oficial do IBGE inclui 24 produtos. Seria irrealista apostar na continuação dessa tendência ainda por muito tempo.

Em agosto, a alta do IPCA acumulada em 12 meses bateu em 6,51% e superou pela segunda vez no ano o limite de tolerância, de 6,5%. O governo tem prometido manter a inflação dentro dessa margem. A insistência nessa promessa, e em nada mais sério, confirma a desistência de buscar a meta efetiva, de 4,5%. A meta real do governo tem sido e continua a ser qualquer número até o limite de 6,5%. É um número muito alto pelos padrões internacionais.

Se depender do governo e de seus interesses eleitorais, haverá muito combustível para a inflação. Desde agosto o Tesouro abandonou o precário represamento e voltou a soltar grandes volumes de dinheiro para os programas oficiais. É hora de investir em votos.


Inflação é coisa séria - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 06/09

O governo insiste em dar à inflação tratamento de campanha eleitoral. Compreende-se o sufoco que a equipe da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, vem passando ante os resultados das últimas pesquisas de intenção de voto. Tudo o que o governo não quer é ter de enfrentar o debate sobre a situação da economia, especialmente quanto ao crescimento e à inflação.
"Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição", disse a presidente em março do ano passado, em evento político em João Pessoa. Ela e a equipe têm levado essa "máxima" ao pé da letra, sobretudo quando se trata de explicar maus resultados. Mais fácil tem lhes parecido fazer de conta que o fato não ocorreu, que tudo não passa de má vontade da mídia ou de conspiração da oposição.

Mas, como dinheiro não aceita desaforo, os desmentidos têm sido inexoráveis. O ministro da Fazenda repete o mantra de que a inflação está controlada e segue trajetória de queda. A presidente aproveitou a queda sazonal do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em julho (cresceu apenas 0,01%) para dizer que "a inflação é quase zero", o que é menos do que meia verdade, já que em 12 meses está distante da meta de 4,5% ao ano.

Passada a temporada de alta nos preços dos alimentos in natura, não significa que a alimentação está mais barata do que no ano passado, mas apenas que os preços deixaram de subir todos os meses. E quando eram esses itens os vilões, especialistas respeitáveis lembravam que, além deles, outros fatores puxavam os preços na direção oposta aos salários do trabalhador.

Ou seja, a inflação vem sendo movida por algo mais do que a sazonalidade da feira. Os analistas estavam certos. Em agosto, a estabilidade nos preços dos alimentos ajudou a segurar a inflação. Mas outros aumentos conspiraram. A conta de luz começou a refletir as falhas na gestão do setor elétrico. Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) revela que 79% das obras de construção de hidrelétricas e 83% das de linhas de transmissão estão fora do cronograma.

Com isso, o sistema está sendo obrigado a manter as termelétricas (mais caras) ligadas por mais tempo. Já houve impacto em agosto que, somado aos aumentos de salários da empregada doméstica e das passagens aéreas, fez o IPCA subir 0,25% no mês passado, empurrando o acumulado em 12 meses para 6,51%, deixando ainda mais longe a meta de 4,5% e superando o teto de 6,50%.

A maioria dos consumidores percebe que a vida está mais cara no país do que há três anos. Pior. O consumidor anda desconfiado de que a coisa não vai parar por aí. A conta de luz deve subir mais e não faz uma semana que o ministro da Fazenda admitiu que "todo ano tem aumento da gasolina, e este ano não será diferente". Sofredor experiente com a inflação, o brasileiro médio não sabe, mas imagina o que vai ocorrer com os preços depois das eleições. E nem é preciso entrar na sofisticação do controle artificial do dólar pelo Banco Central para segurar os preços internos.

A redução do valor dos salários é ruim, mas a perda da credibilidade das autoridades é igualmente nefasta para o país, pois afeta a esperança de dias melhores.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

EX-DIRETOR ENTREGOU PELO MENOS 4 EMPREITEIRAS

Além de entregar políticos, em depoimentos ao Ministério Público Federal, o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também apontou os dirigentes de empreiteiras beneficiadas por contratos superfaturados, principalmente na construção da refinaria petrolífera de Abreu e Lima (PE). Entre as empreiteiras envolvidas em negócios com o ex-diretor estão a Mendes Junior, UTC, OAS e a Camargo Correa.

VALOR DA PROPINA

Paulo Roberto Costa contou que pagava aos políticos 3% do valor dos contratos da Petrobras, quando ele foi diretor, entre 2004 e 2012.

TRIANGULAÇÃO

As empreiteiras repassariam o dinheiro sujo ao doleiro Alberto Youssef, que por sua vez se encarregava de fazê-lo chegar aos políticos.

SÓ O COMEÇO

Foram delatados pelo ex-diretor 12 senadores, 49 deputados federais e um governador filiados ao PT, PMDB e PP. E tem mais.

BC DA LADROAGEM

Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef são suspeitos de chefiar uma espécie de “banco central da corrupção” no Brasil.

PIOR QUE MANTEGA É A ALTERNATIVA: ARNO AUGUSTIN

Vencendo a eleição e trocando ministros, como anunciou, um dos nomes mais fortes para substituir Guido Mantega no Ministério da Fazenda provoca arrepios: Arno Augustin, o secretário do Tesouro. É do tipo que se vê ainda em meio à “guerra fria” e com certeza adoraria criminalizar o lucro. Na prática, Augustin e Dilma já tocam a política econômica. Há dois anos Mantega tem apenas papel coadjuvante.

MAGOOU

Mantega ficou sabendo pelas notícias na internet da decisão de Dilma de substituí-lo, em eventual segundo governo. Ficou magoado.

PERDEU O RESPEITO

Dilma não respeita Guido Mantega, por isso resolveu tomar decisões na área econômica, delegando a Arno Augustin providências práticas.

PROTEGIDO DE LULA

Dilma até pediu a Lula que compreendesse a necessidade de demitir Mantega, seu protegido. Lula não aceitou e Mantega foi ficando.

ÀS ESCONDIDAS

Guido Mantega chegou ao trabalho pela garagem, nessa sexta-feira, sorrateiramente, para evitar os jornalistas. E para não comentar o fato de haver recebido pela imprensa o seu “aviso prévio”.

DIAS DE TENSÃO

Por suas conhecidas relações com a Petrobras, onde já foi diretor, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) é um dos políticos mais tensos com a delação premiada do ex-diretor Paulo Roberto Costa. Foi Delcídio quem indicou Nestor Cerveró, outro diretor enrolado no escândalo.



Gilberto Carvalho é outro ministro de quem a presidente Dilma está louca para se livrar, num eventual segundo governo. Ele se presta ao papel de porta-recados e “olheiro” de Lula no Palácio do Planalto.

FILA NA PORTA

Diplomatas em busca de promoção fazem fila na porta de Giles Azevedo, porta-agenda de Dilma. Até porque, em eventual segundo governo, ele pode substituir Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral.

PENDÊNCIA

Metade dos estados passa pelo processo de judicialização das eleições para governador. Postulantes ao cargo de 14 estados ainda lutam na Justiça Eleitoral para aprovar a candidatura.

O PAPA POP

O papa Francisco continua um fenômeno de popularidade no Twitter. Ontem, ele fez o primeiro tweet com foto. As contas, com posts em diferentes línguas, já possuem mais de 15 milhões de seguidores.

SORRISO AMARELO

Depois que o livro da ex-mulher revelou que François Hollande chama pobres de “desdentados”, o presidente da França enfrentou protesto do sindicato dos dentistas pedindo que devolva o sorriso aos franceses.

GRITO NA REDE

Viciada em mídias sociais (que inspiraram seu projeto de partido “Rede”), Marina Silva utilizou o Twitter para reclamar da “indústria de boatos e mentiras” que lhe tira a paz. Ela diz sentir-se injustiçada.

PENSANDO BEM...

... se a qualidade do ensino caiu em quase todo o País, talvez o problema não seja com os alunos, mas com a dona da escola.


PODER SEM PUDOR

O PISTOLÃO CERTO

O talentoso jornalista Mauro Santayana acabara de ser nomeado adido cultural à embaixada do Brasil em Roma, nos anos 80. Um belo cargo, na mais impressionante representação diplomática em solo italiano - o Palácio Doria Pamphilij, na Piazza Navova, centro de Roma.

Um amigo encontrou Santayana e foi logo gozando:

- Puxa, esse é o emprego que pedi a Deus!...

O jornalista respondeu na bucha:

- Acho que você pediu ao cara errado. Quem me nomeou foi o presidente José Sarney.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Petrodelação despeja óleo queimado na eleição - JOSIAS DE SOUZA

BLOG DO JOSIAS DE SOUZA


Como previsto, Paulo Roberto Costa, o ex-diretor preso da Petrobras, moveu a língua. Em troca de redução da pena, ele revela à Justiça segredos que estavam armazenados abaixo da camada pré-moral da maior estatal brasileira. O repórter Mario Cesar Carvalho conta que pingaram dos lábios do delator os nomes de 62 políticos que morderam propinas. São 12 senadores, 49 deputados e um governador. Gente filiada a três partidos: PT, PMDB e PP.

Na cadeia, Paulinho, como o depoente é chamado na intimidade, vinha dizendo que não haveria eleições em 2014 se ele contasse tudo o que sabe. Enquanto espera pelas novidades, resta à plateia raciocinar com hipóteses, desde as mais amplas —na pior das hipóteses, a sucessão presidencial será engolfada pelo óleo queimado, na melhor das hipóteses ficará com óleo pelo nariz— até as mais específicas.

No caso do que o país pode esperar com uma delação à vera de Paulinho, o leque das hipóteses é enorme, já que todo mundo tem uma noção do que foi feito da Petrobras depois que os partidos tomaram a estatal de assalto. A melhor das hipóteses é que o ex-diretor confirme que o dinheiro saía mesmo pelo ladrão nos contratos da Petrobras. A pior das hipóteses é que ele informe que os ladrões entraram nos contratos da Petrobras com autorização superior.

Dependendo do que está por vir, é possível que os protagonistas do governo tenham que se reposicionar na cena eleitoral. Talvez precisem fazer pose de administradores ingênuos ou políticos distraídos sendo usados por salteadores. Este é um governo dos patrimonialistas do PT, do PMDB e congêneres. Mas quem bota a cara na tevê por eles é a Dilma, quem fica com a má fama é a esquerda guerrilheira, que combateu a ditadura para acabar como marionete.

Por sorte, João Santana dispõe de um bom tempo de propaganda. Na pior das hipóteses, o marqueteiro de Dilma disfarçará os interesses escusos que se escondem atrás da boa biografia. Na melhor das hipóteses, ele ajuda a manter a ilusão de que há em Brasília alguém que comanda.

CAPA DA REVISTA VEJA

Paulo Roberto Costa começa a revelar nomes dos beneficiários do esquema de corrupção da Petrobras

Rodrigo Rangel





Preso em março pela Polícia Federal, sob a acusação de participar de um mega esquema de lavagem de dinheiro comandado pelo doleiro Alberto Youssef, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa aceitou recentemente os termos de um acordo de delação premiada – e começou a falar.

No prédio da PF em Curitiba, ele vem sendo interrogado por delegados e procuradores. Os depoimentos são registrados em vídeo — na metade da semana passada, já havia pelo menos 42 horas de gravação. Paulo Roberto acusa uma verdadeira constelação de participar do esquema de corrupção. Aos investigadores, ele disse que três governadores, seis senadores, um ministro de Estado e pelo menos 25 deputados federais embolsaram ou tiraram proveito de parte do dinheiro roubado dos cofres da estatal.

Ele esmiúça, além disso, a lógica que predominava na assinatura dos contratos bilionários da Petrobras – admitindo, pela primeira vez, que as empreiteiras contratadas pela companhia tinham, obrigatoriamente, que contribuir para um caixa paralelo cujo destino final eram partidos e políticos de diferentes partidos da base aliada do governo. Conheça, nesta edição de VEJA, detalhes dos depoimentos que podem jogar o governo no centro de um escândalo de corrupção de proporções semelhantes às do mensalão.

Conheça nesta edição de VEJA os nomes dos políticos mencionados por Paulo Roberto Costa e outros detalhes do depoimento.

Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet ou nas bancas, neste sábado.

EVITE FILA


                                                  

                           VIDEO ENVIADO POR APOLO

Dilma, Marina e o diabo - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 05/09


Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar das tentações do demônio do autoritarismo


Por mais que alguns torçam por isto, ainda não chegou a hora de eu ir criar galinhas, mas a tentação é grande. Às vezes, vem aquela preguiça enorme, a acídia, que alguém definiu certa feita como "entristecer-se do bem divino"... O Brasil fica muito chato com os mortos que procriam, a reivindicar mais quatro anos para que possam fabricar mais 40 de atraso. A alternativa são ilusões redentoras não menos defuntas a disputar um lugar no futuro. Não nos dispersemos, no entanto. Mas sem essa de "vamos juntos, de mãos dadas". Tou fora! Pensamento em grupo é formação de quadrilha intelectual.

Não achei que viveria o bastante para ver um argumento meu no horário eleitoral do PT, mas vi. Justo eu, o cara que cunhou o termo "petralha", que foi parar na lista negra, elaborada pelo sr. Alberto Cantalice, chefão do partido, das nove pessoas que fazem mal ao país. Sabem como é... Não sou herói do povo brasileiro, como José Dirceu e Delúbio Soares. Só dois presidentes foram eleitos acima dos partidos, notei no meu blog: Jânio Quadros e Fernando Collor. O primeiro deu no que deu. O segundo também. É claro que eu estava criticando o discurso de Marina Silva. Os petistas gostaram e levaram a observação ao ar. Franklin Martins e os blogueiros sujos não conseguiram ter uma ideia melhor do que a minha. O ex-ministro estava ocupado demais escrevendo asnices no site "Muda Mais" sobre a independência do Banco Central...

"Terrorismo!", gritaram os marineiros. Não! É história. O chamado "Eixo 01" do programa de Marina, intitulado "Estado e Democracia de Alta Intensidade", deixa no chinelo o Decreto 8.243, o destrambelho de sotaque bolivariano de Gilberto Carvalho --Dilma só é a "laranja" da proposta. Lá no tal "eixo" está escrito que "a política brasileira vive, atualmente, uma das crises de legitimidade mais agudas da democratização". E o texto prossegue: "Tornou-se comum a ocupação do espaço público por cidadãos que não pretendem mais delegar tudo a seus governantes". Então tá.

Esse modelo "em crise" mandou pra casa o primeiro presidente eleito depois da ditadura; deu posse ao vice; abrigou o Plano Real --que levou o povão a conviver com duas moedas, fato raro na história mundial; elegeu um sociólogo de esquerda (que apelou aos conservadores para fazer reformas vitais para o país); deu posse a um ex-operário, com baixa instrução, oriundo de uma região pobre (que apelou aos conservadores para não fazer reformas vitais para o país); elegeu uma ex-terrorista e tem, no momento, duas mulheres liderando a disputa presidencial: uma delas, a ex-seringueira dos pés descalços, ambientalista e sem partido, é justamente quem acusa a... crise do "modelo".

Que coisa, né? O PT chegou ao poder por intermédio da democracia representativa e propõe um simulacro de democracia direta, via decreto, para que seus "conselhos populares" possam, definitivamente, tomar conta do Estado. Esse mesmo sistema fez da Marina Descalçada uma figura mundialmente conhecida e pode lhe render até a Presidência da República, mas também ela não já não vê virtudes no modelo e pretende abrir o caminho para que suas ONGs substituam o povo.

É um escândalo intelectual que aquela glossolalia autoritária, disfarçada de "democracia de alta intensidade", não tenha sido destrinchada pela imprensa. Em vez disso, preferiu-se dar destaque à religiosidade de Marina. Suas considerações sobre o universo LGBT --e não consigo, de fato, imaginar nada mais urgente no Brasil...-- em nada diferem, em substância, das feitas por Dilma ou Aécio. Mas a máquina de difamação petista resolveu caracterizá-la como homofóbica. Parece que ela lê a Bíblia antes de tomar decisões. E daí? Logo se viu nisso um mal terrível. Bem fazia Stálin, por exemplo, que lia livros de linguística antes de mandar matar.

Acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Não acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar crentes e ateus das tentações do demônio do autoritarismo.

Ainda sobre a verdade no debate público - ARMINIO FRAGA

FOLHA DE SP - 05/09


Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com os fatos no debate público


Estamos em época de debate. Como mencionado em meu artigo "Mitos do PT", publicado na quinta-feira (28/8) nesta página, alguns simpatizantes daquele partido insistem em distorcer os fatos. Um perfeito exemplo surge no artigo desta última segunda-feira (1º), de Jorge Mattoso e Pedro Rossi, no qual manipulam duas frases minhas e erram, propositalmente ou não, sobre um dado público e fundamental. Não por acaso, essas criações são pilares da argumentação dos autores.

Os autores põem duas vezes entre aspas que acusei o governo de "preconceito ideológico com o investimento", quando escrevi que "falta investimento (no Brasil), vítima de preconceitos ideológicos e má gestão". Trata-se de tema de artigos e entrevistas que concedi ao longo de quatro anos.

Registre-se aqui também meu protesto contra outras aspas indevidas com que me brindou recentemente a deputada Margarida Salomão do PT em uma rede social. Ela pôs em minha boca que "o salário mínimo subiu demais", quando eu disse, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" que tinha subido "muito". Sutil talvez, mas bem diferente. Essa mesma frase é convenientemente repetida pelos autores citados acima em seu artigo, demonstrando um padrão de desonestidade ou, no mínimo, de descuido.

Ainda sobre o investimento, constatei apenas que os resultados foram pífios, pois permanece deprimido como porcentagem do PIB. Não há preconceito ideológico contra o investimento, apenas contra o mercado, e incompetência em mobilizá-lo. O governo mascara seu fracasso quando a candidata oficial lista com valores inúmeros investimentos e programas, sem registrar que no agregado foi pouco. Equivale a dizer que fez dois gols e omitir que levou cinco. A propósito, cabe registrar que, de acordo com o IBGE, a taxa de investimento em 2013 foi de 17,9% do PIB, e não de 20,9%, como publicado no artigo dos autores (chegando hoje a 16,5% do PIB).

Os autores prosseguem cobrando uma série de respostas a perguntas que, para um leitor desavisado, podem dar a impressão de que tudo vai bem na economia, e que nós somos uma ameaça, uma certa cara de pau dado que a economia está em recessão, inclusive com perda de emprego na indústria.

Uma dessas perguntas liga a falsa referência aos salários à nossa postura quanto à distribuição de renda no Brasil. Aqui faltou reconhecerem os ganhos sociais do fim da hiperinflação e os ganhos de produtividade das muitas reformas de FHC, da mesma maneira que nós reconhecemos o mérito de Lula ao turbinar os programas sociais (alguns criados por FHC) e preservar em seu primeiro mandato os fundamentos da estabilidade macroeconômica e a agenda de reformas.

No campo da distribuição e igualdade de oportunidade, além de continuar com bons programas como o Bolsa Família, pretendemos se nos for dada a chance focar na qualidade da educação, saúde, transportes e segurança públicos. Pretendemos também eliminar ao longo do tempo a parte injustificada das medidas de proteção, subsídio e desoneração voltadas a empresas (o chamado bolsa empresário do atual governo) e direcionar esses recursos para programas de maior retorno social, com relevantes benefícios distributivos.

Nem tudo deu errado no âmbito da economia durante os anos do PT no poder, mas o modelo de Dilma nos deixou mal parados, precisando urgentemente de uma correção de rumo. No mais, sigo enjoado com a maneira desonesta pela qual pessoas como Mattoso e Rossi se colocam. Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com as palavras e os fatos no debate público.

'Recessão técnica' - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE

O ESTADO DE S.PAULO 05/09


"O Brasil está em recessão técnica", disse-nos o IBGE na semana passada. Para os iniciados, recessão técnica é nada mais do que a constatação de que a atividade econômica do País se retraiu pelo segundo trimestre consecutivo. Para os incautos, "recessão técnica" é um péssimo termo para expressar as mazelas que nos afligem. Lembra "parada técnica", aquela regra que a Fifa inventou e que vimos na Copa, quando a temperatura excedia os 32° e os jogadores precisavam parar para dar aquela respirada, aquela hidratada, para então retornar ao campo a pleno vapor.

A economia brasileira não há de voltar ao campo a pleno vapor. Há quatro anos a coitada tenta se reerguer e dá de cara com os obstáculos que o governo impõe, inadvertidamente. Inadvertidamente porque pensa estar fazendo o melhor para o País e se recusa a perceber que nada funcionou até agora. Culpa a "crise externa" - ainda que os EUA estejam se recuperando e a China, crescendo -, secas e caprichos da natureza. Culpa até a Copa das Copas: "Foi a falta de dias úteis", diz Guido Mantega, e ecoa a presidente Dilma Rousseff.

Por certo, o mundo não está fácil. Problemas geopolíticos são muitos, das ameaças de Vladimir Putin às investidas do movimento islâmico Isis. A Europa está à beira de tornar-se um novo Japão: economia que não cresce, risco de deflação ou de queda generalizada dos preços. Nada disso, entretanto, tem impedido nossos pares de crescer. Podem até não estar se expandindo no ritmo que gostariam, mas crescem ainda assim. Afora as Argentinas e Venezuelas do mundo - casos escrachados de má gestão econômica -, os demais países emergentes têm conseguido contornar os problemas globais com alguma destreza. Não o Brasil. O Brasil do investimento que "ia se recuperar", mas que caiu 11% no segundo trimestre de 2014. Brasil, país da poupança de míseros 14% do PIB, montante que não dá nem para o começo dos ambiciosos planos de desenvolvimento do atual governo.

As políticas do governo deram errado. E agora? Como sair do atoleiro criado pelas supostas boas intenções que resultaram no pior resultado para a atividade desde 2009, ano das sequelas da maior crise financeira internacional do século? Essas são as questões que o próximo governo deverá enfrentar. Não nos iludamos: os próximos quatro anos hão de ser dedicados a consertar os estragos provocados pela má condução econômica do atual governo. A infraestrutura, o resgate da competitividade da economia brasileira, as reformas estruturais relativas à estrutura tributária e ao mercado de trabalho ficarão para depois. Não importa o que digam os candidatos hoje. A verdade inconveniente é que nenhum esforço para resolver os problemas estruturais do País resultará em algo se a estabilidade macroeconômica - hoje desmontada - não estiver consolidada.

Promessas sobre o que um ou outro fará para melhorar a saúde, a educação, a segurança nada significam se o País não voltar a crescer com inflação baixa, o que só pode ocorrer se a política fiscal for aprumada e a política monetária, resgatada. A política monetária, como comentei recentemente em entrevista para este jornal, é a parte fácil. Difícil mesmo é desembaralhar os balanços do Tesouro, das empresas do setor elétrico, do BNDES, da Caixa Econômica Federal. Sem isso, não há saneamento fiscal possível. Por onde começar? Confesso que não sei.

O que sei é que as promessas do atual governo perderam o sentido, as explicações fracassaram e não há mais espaço, tempo ou paciência para aguentar o discurso enfadonho que nos levou à "recessão técnica". O PT teve a sua era e deixou seu legado - uma melhora passageira da distribuição de renda. Passageira porque não souberam fazer a economia crescer e pouco se importaram com a inflação em alta. Repetem à exaustão que o mercado de trabalho está bem, mas a verdade é que o país que encolhe perde empregos, mais cedo ou mais tarde. Se nem sempre é vantajoso mexer em time que está ganhando, em time que está perdendo essa é uma necessidade premente. Está na hora de mexer.

Os empresários, os banqueiros e as pessoas - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 05/09


“Difícil não é matar o monstro; difícil é remover-lhe os escombros.” Essa frase do grande Goethe me veio à mente após ouvir um candidato dizer que o governo tem de parar de governar para os empresários e os banqueiros, e passar a governar para as pessoas. A frase sugere que os empresários e os banqueiros não são pessoas. Mas, mesmo entendendo o espírito da coisa, há algo de contraditório na afirmação.

Tornou-se consenso nacional que o país precisa muito de empreendedores e, por isso, a população deve ser educada e treinada para ter iniciativa e empreender. As escolas estão sendo convocadas a educar mais para o empreendedorismo do que para a busca de emprego, mesmo porque somente haverá empregos se houver empreendedores e empresários.

O mundo precisa de inventores e investidores com iniciativa e capacidade de correr riscos, produzir, gerar empregos e pagar impostos. Quanto mais deles houver, mais riqueza será produzida e maior será o bem-estar social. O próprio governo, para existir, depende de impostos gerados pela produção; logo, é necessário haver produtores. O discurso antiempresarial é uma dessas coisas totalmente ultrapassadas, mas que ainda fazem sucesso no Brasil.

Tomemos o caso dos bancos. Estes existem desde que a humanidade inventou a moeda como instrumento de troca. Na sociedade do escambo (troca de mercadoria por mercadoria), os bancos não eram necessários. Muitos críticos não são contra a existência dos bancos. São contra bancos privados e querem apenas bancos estatais. Fui diretor e presidente de banco estatal e aprendi que, com raras exceções, colocar banco nas mãos de políticos é um perigo; é como dar uma espada a uma criança.

Quando um banco quebra e o Banco Central (BC) o socorre, as críticas pululam. O banco é uma instituição que faz intermediação financeira, ou seja, capta depósitos de pessoas e empresas e faz empréstimos a pessoas, empresas e governos. Em geral, de tudo o que um banco empresta, menos de 10% é capital do banqueiro. O resto vem dos depósitos do público. Se o banco quebra, mais de 90% da perda é de quem depositou seu dinheiro lá. Ademais, bancos trabalham sob concessão estatal e normas baixadas pelo governo, a fiscalização é feita pelo BC e existe o Fundo Garantidor de Depósito, destinado a reembolsar os depositantes em caso de quebra bancária.

Banqueiros são vistos como gananciosos. Mas eles não diferem das pessoas, pois estas, quando depositam dinheiro no banco ou aplicam suas reservas, também querem receber a maior taxa de juros possível, e isso é normal; porquanto, o juro é a recompensa pela renúncia ao consumo presente em favor do consumo futuro.

Poder-se-ia argumentar que o banco paga 11% ao ano por minha poupança e cobra 40% de meu vizinho no financiamento de uma geladeira. Ocorre que, no cálculo da taxa de juros bancários, entram pelo menos cinco fatores: a taxa juro paga ao poupador, os custos administrativos do banco, a inadimplência de parte dos devedores, os tributos cobrados pelo governo e o lucro bancário. Quanto aos lucros dos bancos, fonte de críticas, existe a crença de que eles são astronômicos. São altos, sim, mas cabem ressalvas.

O lucro de uma empresa deve ser comparado com o capital investido pelos acionistas. Nesse sentido, os lucros bancários relativos não são muito diferentes das empresas saudáveis de tamanho equivalente. E uma economia saudável exige um sistema financeiro forte e lucrativo. Mas a crença no inverso é um monstro cujos escombros, no Brasil, tornaram-se irremovíveis.

Alívio relativo - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 05/09


Não resta dúvida de que as duas pesquisas divulgadas nesta semana trouxeram boas notícias para a presidente Dilma Rousseff e que levaram ao adversário tradicional, o tucano Aécio Neves, informações desanimadoras. Ocorre, porém, que os institutos Datafolha e Ibope* deram à candidata Marina Silva ótimas informações.

Disseram a ela o seguinte: não obstante seus parcos minutos no horário eleitoral, sua frágil estrutura partidária, as divergências internas, as cobranças por objetividade nas propostas, os ataques, os recuos nas questões programáticas e a enorme diferença entre o arsenal publicitário do governo e o alcance da propaganda do PSB, ela continua praticamente empatada com a presidente da República na disputa do primeiro turno.

Mais: mantida essa tendência, vence Dilma na etapa final. Consta que o resultado das pesquisas provocou um alívio nas hostes petistas. Refresco este decorrente da expectativa presente em todas as campanhas de que a candidata do PSB nessas pesquisas já aparecesse à frente da presidente. Não aconteceu assim. Os números frios e a realidade quente, contudo, não autorizam grandes comemorações. Dilma mostra que tem um eleitorado sólido, notadamente no Norte e Nordeste. Conta com a estrutura do governo, com 11 minutos de propaganda eleitoral, com o “recall” de toda a exposição nos últimos quatro anos e a sustentação dos programas sociais. Não é pouco.

Ainda assim, Marina encosta no primeiro turno e ganha no segundo É de se perguntar: numa disputa em igualdade de condições, como seria? Na etapa final, ao menos o tempo de televisão será o mesmo. Note-se o detalhe: do primeiro para o segundo turno Dilma sobe dois pontos porcentuais no Ibope e seis no Datafolha. Marina registra sete no Ibope e 14 no Datafolha. Se for para usar imagem bíblica ao gosto de Marina, é situação comparável à disputa entre Davi e Golias.

Se o PSDB realmente ficar de fora da etapa final pela primeira vez em 20 anos, confirmadas as tendências das pesquisas, os tucanos não se omitirão como Marina em 2010. Aquele pode ter sido por parte dela um lance esperto na ocasião, mas com duração de mais longo prazo não foi um gesto adequado a quem agora reconhece méritos no candidato à época, José Serra.

Cobranças que vão requerer revisões de posições. Com mais força para Marina, mostrando que não é só uma terceira força bamba, mas uma alternativa forte de oposição.

Multiúso. Não é a primeira vez que o PT recorre à comparação de adversários com Fernando Collor. O próprio Lula o fez várias vezes, sendo a última em março, ao insinuar que a candidatura de Eduardo Campos poderia representar uma aventura. “A minha grande preocupação é repetir o que aconteceu em 1989: que venha um desconhecido, que se presente muito bem, jovem e nós vimos no que deu”, disse ele, numa reunião com empresários. Collor serve como arma de ataque e ao mesmo tempo tem serventia como aliado. O mesmo se pode dizer de Fernando Henrique Cardoso, cujo governo é usado para comparações negativas, mas cuja política econômica sustentou o sucesso da economia no governo primeiro Lula.

Na real. O temor da direção atual do PMDB não é só que a derrota de Dilma resulte da perda do poder para o PT, mas que repercuta na correlação interna nas forças do partido. Ao ponto, por exemplo, de ameaçar as eleições de Renan Calheiros e Eduardo Cunha para as eleições das presidências da Câmara e do Senado em 2015..

Polarizações regionais - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 05/09
Pesquisas do Datafolha em seis estados e no Distrito Federal ajudam a entender melhor as razões por que os três principais candidatos à Presidência da República se encontram na situação atual de empate técnico entre a presidente Dilma Rousseff e a candidata do PSB, Marina Silva, deslocando para o terceiro lugar o candidato tucano, Aécio Neves
Marina está à frente em dois dos três principais colégios eleitorais do país (São Paulo e Rio), enquanto Dilma lidera em Minas Gerais.

Em Pernambuco e no Ceará, dois dos principais estados nordestinos, Dilma tem uma votação expressiva no Ceará, atingindo 57% das intenções de votos, como nos melhores momentos de sua votação em 2010, e Marina tem quase metade dos votos de Pernambuco, terra de Eduardo Campos.

Como se vê, o candidato do PSDB perde terrenos nos redutos que deveriam ser suas principais fontes de votos. Em Minas, está em terceiro lugar com apenas 22%, acima de sua média nacional de 14% mas bem abaixo de seu potencial. Em São Paulo, outro território do PSDB, Aécio Neves está com apenas 18% das intenções de voto, enquanto no Rio, onde montou um esquema paralelo de apoio com os partidos da base do governo, o Aezão (apoio a Aécio e Pezão) não funcionou até o momento. Aécio tem apenas 11% de votos no estado.

A disputa entre Dilma e Marina está bem expressa nos números estaduais. Onde uma vence com votação forte, como é o caso de Marina em São Paulo com 42%, Dilma vem bem votada com 23%, mesmo que seja uma votação abaixo de sua média nacional de 35%. Em Minas, dá-se o contrário: Dilma, que é mineira e venceu lá a eleição de 2010, está com 35% dos votos e Marina tem 27%.

A estratégia básica de Aécio Neves, que determinava toda a sua campanha, era tirar em Minas e em São Paulo uma votação suficiente para neutralizar a grande votação de Dilma Rousseff na região, que lhe deu em 2010 cerca de 10 milhões de votos de dianteira contra o PSDB. Na verdade, porém, até o momento quem está conseguindo neutralizar a influência da presidente no Nordeste é a candidata do PSB Marina Silva, que tem uma votação média de 30% nos estados nordestinos, baixando a média da presidente para 45% dos votos, e coloca uma dianteira em dois dos três maiores colégios eleitorais do país.

No Rio Grande do Sul, onde a senadora Ana Amélia lidera a corrida pelo governo do estado contra o candidato petista Tarso Genro, quem lidera a disputa presidencial é a presidente Dilma, apesar de a candidata do PP apoiar o tucano Aécio Neves. Dilma tem 38% das preferências e Marina, 30%, enquanto Aécio Neves fica em 15%. De maneira geral, as melhores taxas de intenção de votos da presidente Dilma correspondem aos estados onde a aprovação de seu governo é maior.

No Ceará, por exemplo, Dilma obtém seu melhor desempenho, tanto na simulação de 1º turno quanto na de 2º turno. Chega no 2º turno, contra Marina, a ter 60% dos votos. A aprovação ao governo Dilma no Ceará e em Fortaleza chega a 57% e 45%, ante 36% nacional.

O Datafolha destaca que Dilma apresenta intenção de voto semelhante a sua média nacional em Minas Gerias (estado onde nasceu) no Rio Grande do Sul (onde exerceu parte da sua carreira profissional) e em Pernambuco (terra do seu padrinho político Lula).

Por outro lado, obtém taxas de intenção de voto menores nos estados onde a aprovação ao seu governo é mais baixa: em São Paulo e no Distrito Federal, o governo Dilma é reprovado, respectivamente, por 36% e 40% dos eleitores. A candidata Marina Silva recolhe seus melhores índices nas capitais, especialmente no Rio (41%) e no Recife (52%). A presidente Dilma vence em Porto Alegre (37%) e em Fortaleza (42%).

Também no Distrito Federal, onde Aécio Neves chegou a liderar a corrida presidencial quando competia com Eduardo Campos pelo PSB, Marina retomou a dianteira que já tivera em 2010, quando venceu a eleição na capital do país. Aécio hoje está empatado tecnicamente com a presidente Dilma em Brasília.

Segurando a soberba - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 05/09


A presidente Dilma Rousseff parece que só pega no tranco. Ao que tudo indica, foi preciso que o seu criador, Luiz Inácio Lula da Silva, desse enfáticos sinais de que se cansara de aconselhá-la a se achegar ao empresariado que quer vê-la pelas costas para a criatura se tocar. Até ele, o do "nunca antes neste país", já há tempos via com clareza e crescente desconforto a sua recusa ao imperativo eleitoral de mudar o disco arranhado dos seus êxitos na gestão da política econômica - limitados, na narrativa dilmista, apenas pela "crise externa" e negados apenas pelo "pessimismo" desinformado ou de má-fé.

Finalmente, a realidade conteve a soberba. E, pela primeira vez, a candidata admitiu que a economia brasileira anda devagar, quase parando. "Eu gostaria que o Brasil estivesse crescendo num ritmo mais acelerado", disse, ao discursar anteontem em um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Belo Horizonte. E pela primeira vez também fez uma promessa diferente da modalidade mais do mesmo para o segundo mandato que um dia, não faz muito, ela imaginava conquistar de uma tacada só. "Obviamente, novo governo, novas e necessariamente atualização (sic) das políticas e das equipes", enunciou, como quem declara que o prazo de validade do economista Guido Mantega no Ministério da Fazenda expira em 31 de dezembro, ainda que o dela vá até 1.º de janeiro de 2019.

Obviamente, como ela diria, não há como saber se acredita no que disse - ou melhor, se, acreditando, terá a determinação e a competência para não repetir, caso as urnas lhe derem uma segunda chance, a coleção de erros que esfiaparam a sua credibilidade a ponto de 8 em cada 10 eleitores desejarem mudanças na condução do governo. Desde logo, porém, é de recear que a "atualização" venha a ser tão trôpega como o fraseado a que ela recorreu para formulá-la, no pedregoso português que é um de seus vícios insanáveis. O outro, de que não consegue se livrar nem quando se trata de ganhar votos, como se viu nos debates pela televisão, é a mistura de enfado e impaciência que exibe diante de opiniões que não ecoam as suas próprias. Isso importa porque tal característica de personalidade, a julgar por estes quatro anos que se aproximam do fim, condiciona a sua conduta e pesa nas suas decisões como presidente da República.

A Dilma confeccionada em estúdio, para figurar no horário eleitoral, é outra coisa. Assim também o Brasil que desfila ao longo dos 11 minutos ao seu dispor duas vezes por dia, três vezes por semana, graças à opulenta coligação de nove partidos que os recursos de poder do Planalto lhe permitiram arregimentar. "Hollywoodiano" foi como a rival Marina Silva qualificou o País da propaganda dilmista - sem contar os dois dentes frontais que a afortunada sertaneja Marinalva Gomes Filha ganhou, além de um upgrade no fogão a lenha, para aparecer "produzida" ao lado da presidente. Ela pode maquiar os fatos, mas os seus críticos não podem brigar com eles. Os mais recentes desta campanha sucessória marcada indelevelmente pelo imponderável sugerem que está dando resultados o embelezamento publicitário da paisagem social brasileira e do desempenho do "poste" que Lula fincou em Brasília há quatro anos.

As novas pesquisas do Ibope e do Datafolha indicam que o bastião de Dilma resistiu à primeira arremetida do "furacão Marina". Dizia-se há pouco que a sua ascensão teria gás para prosseguir pelo menos até o primeiro turno, dado o tempo presumivelmente escasso entre a irrupção de seu nome e a inevitável estabilização de sua popularidade. Os números de agora põem em xeque o prognóstico. No Ibope, os quatro pontos ganhos por Marina desde a sondagem anterior foram neutralizados pelos três da presidente, que assim manteve a liderança, embora no limite da margem de erro. No Datafolha, continuam empatadas. A presidente, por sinal, parece ter mais eleitores convictos (61% das intenções declaradas) do que a oponente (50%). O seu pesadelo é o segundo turno: entra pesquisa, sai pesquisa, Marina segue favorita. E ela, Marina, com o seu voluntarismo, parece crer que ganhar a eleição é um fim em si - e não a condição necessária, porém insuficiente, para governar.


Reflexos no IBGE - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/09


Principal fornecedor de dados e estatísticas sobre o Brasil, o IBGE tem enfrentado dias difíceis. Não é de hoje que se registra no respeitável órgão a insatisfação de funcionários com a escassez de recursos e os indícios de sucateamento do instituto --para nada dizer de apreensões com os sinais de partidarização do serviço público.

Durante dois meses, parte dos servidores entrou em greve para reivindicar valorização salarial, orçamento condizente com as tarefas do órgão, garantia de autonomia técnica e menos interferência governamental no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O movimento terminou em agosto, mas os problemas continuam. No início desta semana, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, anunciou novo corte de verbas.

O instituto pleiteava R$ 776 milhões para 2015, tendo em vista o preparo de dois levantamentos relevantes: a Contagem da População e o Censo Agropecuário. No entanto, o projeto de lei orçamentária enviado pelo governo ao Congresso prevê apenas R$ 204 milhões.

O valor é pouco superior ao efetivamente chancelado para 2014, após contingenciamento determinado pelo ministério --R$ 193 milhões, o suficiente para o custeio das atividades no período.

De acordo com a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, a tesourada provocará o adiamento das pesquisas e trará o risco de perda de qualidade das estimativas anuais, em especial no caso da contagem populacional, feita a cada dez anos.

Projeções menos precisas, embora possam ser corrigidas no futuro, dificultam o planejamento de medidas em áreas importantes, como educação e saúde.

Além disso, podem levar a contestações políticas e judiciais, já que esses dados servem de referência para a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios.

As restrições financeiras ao IBGE decorrem de ações equivocadas que levam ao oposto do que pregam seus artífices. A ideia de valorizar o serviço público, sempre presente no discurso de fundo estatista do PT, esbarra no aparelhamento de órgãos, inclusive técnicos, e na falta de investimento.

Num ambiente de estagnação econômica, inflação elevada e descaso com a eficiência do Estado, o governo Dilma Rousseff (PT) vê-se compelido a promover ajustes de todos os tipos para remendar o descontrole de suas contas. A crise do IBGE é somente mais um triste reflexo desse estado de coisas.

O Ideb atrasado - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 05/09


A cada dois anos, o Ministério da Educação divulga o mais importante indicador da qualidade das escolas brasileiras, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), um dado precioso para orientar as políticas educacionais de estados e municípios. Em 2008, os dados vieram em junho; dois anos depois, em julho; o Ideb seguinte saiu em agosto de 2012 e, neste ano, a promessa era de que não entraríamos em setembro sem que os dados fossem divulgados. No entanto, já se passou quase uma semana do fim do prazo e nem sequer há previsão segura de quando o Ideb será publicado.

O ministro da Educação, Henrique Paim, atribui a demora à burocracia que analisa os dados para conferir a eles o devido grau de segurança. O levantamento já está pronto, já passou pela avaliação do Inep e pode ser divulgado nos próximos dias, afirma o ministro, embora o processo esteja ainda embaraçado em razão de recursos impetrados por escolas de todo o país, alega.

Estaria o Ideb sendo vítima do clássico “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”? Teriam as notas da educação nacional caído tanto que, politicamente, seria inconveniente divulgar o Ideb neste período pré-eleitoral? Houve quem fizesse ilações sobre o atraso de acordo com esse raciocínio, mas, como não se conhecem os números, é impossível tê-las como verdadeiras neste momento.

O atraso em si mesmo é um mal menor. O mal maior que ele faz é provocar a desorientação dos gestores públicos da educação básica que, desconhecendo o desempenho (bom ou ruim) das escolas situadas em suas jurisdições, não têm tempo para planejar medidas de correção de rumos a implantar já no próximo ano. O mal, portanto, se faz contra toda a educação nacional, condenada à cegueira por falta de diagnóstico precoce.

O Paraná, por exemplo, que em 2012 viu sua posição no ranking nacional cair nos ensinos fundamental e médio em relação ao Ideb de 2010, certamente deve ter tomado medidas para melhorar a situação. Deram resultado as medidas adotadas? Outras correções de rumo precisam ser tomadas? Sem se saber em que média se situam as escolas paranaenses; sem se saber quais são as melhores e as piores; sem se saber onde deram melhor resultado as providências tomadas, veem-se as secretarias estadual e municipais de Educação em dificuldade para planejar os próximos passos.

Independentemente da grave perturbação que causa ao planejamento a demora do Ideb deste ano, não custa lembrar que outros índices importantes para o país também vêm sofrendo ultimamente do mesmo mal. É o caso da Pnad Contínua, a pesquisa domiciliar do IBGE, cuja divulgação foi suspensa em abril por pressão do Planalto – os dados do 4.º trimestre de 2013, por exemplo, indicavam desemprego de 6,2%, bem acima dos 4,3% da Pesquisa Mensal de Emprego. A decisão levou uma das diretoras a pedir exoneração. Depois, o IBGE decidiu seguir em frente com a pesquisa, mas os dados que deveriam ter sido divulgados em 28 de agosto só serão conhecidos em novembro, devido à greve dos servidores do instituto, que durou quase 80 dias e foi encerrada no mês passado – greve, aliás, que, entre outras razões, era uma maneira de resguardar a autonomia do órgão. Mostraria a última Pnad Contínua números desanimadores sobre a economia e o emprego que pudessem ser usados contra o governo neste período de campanha eleitoral?

Adiar ou manipular dados por razões políticas é prática que levaria o Brasil ao mesmo descrédito internacional de sua vizinha Argentina. Oxalá não seja esse o ânimo que move os responsáveis pela divulgação de estatísticas tão importantes para setores como a educação.

O conto do horário premiado - NELSON MOTTA

O GLOBO - 05/09

A essas alturas, talvez os estrategistas dilmistas estejam questionando o tempo, dinheiro e cargos que gastaram para conseguir 12 minutos na propaganda eleitoral



Cerca de 30 milhões de pessoas estão vendo o horário eleitoral na TV aberta, informa o Ibope. Mas quase metade diz que vê “sem nenhum interesse”, um terço diz que tem “um pouco” de interesse, e só 20%, cerca de seis milhões de eleitores, entre uma garfada e outra, estão prestando alguma atenção às pirotecnias e armadilhas publicitárias dos filmes que custam fortunas e são os maiores gastos das campanhas.

Mas, além das maiores despesas, os filmes para TV são sempre as maiores esperanças das campanhas, “vocês vão ver quando entrar o horário eleitoral, vamos poder mostrar o que fizemos” ou “com o horário eleitoral vão me conhecer melhor e saber minhas propostas de mudanças”.

A essas alturas, talvez os estrategistas dilmistas estejam questionando o tempo, dinheiro e cargos que gastaram para conseguir 12 minutos no horário eleitoral. Sem falar no que custa produzir esses 12 minutos por dia, embora dinheiro não seja o problema da campanha. Tudo isso só para reiterar a esses seis milhões, nas faixas de menor escolaridade e renda, que o Bolsa Família vai continuar, que Dilma é sua pastora e nada lhes faltará?

Não é muito caro para chover no molhado? Não estão pagando cada vez mais e fazendo maiores bandalhas por um tempo que vale cada vez menos?

Será que só os spots de 30 segundos, que são vistos por todos os segmentos sociais durante a programação, serão capazes de decidir o jogo e justificar seu preço? Há controvérsias. Além dos 60 milhões que assistem à TV por assinatura, todo mundo está ligado na internet, as redes sociais são incontroláveis. Será que vale a pena pagar tropas digitais para virarem dia e noite trolando ofensas, difamações e slogans nas redes e pregando para convertidos? Todos já sabem: nem tudo que cai na rede é pixel.

Se Marina for ao segundo turno com dois minutos de TV, produzidos com alguns trocados, ou se vencer a eleição, esse formato do horário eleitoral gratuito, que virou moeda de troca dos partidos ao custo de 700 milhões de reais ao contribuinte, estará com os minutos contados na reforma eleitoral que a sociedade está exigindo.

O que se espera de Marina - JOÃO MELLÃO NETO

O ESTADÃO - 05/09


Aconteceu o que ninguém esperava. Com a inesperada morte de Eduardo Campos, a candidata a vice em sua chapa, Marina Silva, assumiu a vaga do ex-governador de Pernambuco e com isso embaralhou todos os prognósticos até então existentes sobre a sucessão presidencial.

Nesse aspecto, o único órgão de imprensa que acertou o futuro próximo nem sequer é brasileiro. Trata-se do Financial Times, da Inglaterra. Em sua edição eletrônica - redigida no calor da hora -, seus editores ousaram afirmar que a morte de Campos traria consequências imprevisíveis para o quadro sucessório brasileiro. Todos nós, ainda discutindo as circunstâncias do fatídico acidente, lemos a manchete do jornal britânico com ceticismo. No que, afinal, o falecimento de Eduardo Campos poderia afetar as eleições brasileiras? Campos estava em terceiros lugar nas pesquisas de intenção de voto e sua posição parecia já consolidada. Não havia nenhum fato que o fizesse superar a linha dos 10%.

Naquela altura ninguém pensou no fator Marina. Havia até mesmo quem acreditasse que, ainda que fosse convidada, ela dificilmente aceitaria ser candidata na vaga deixada por Eduardo Campos. Novamente todos subestimaram a sua tenacidade. Mas bastava que se dessem ao trabalho de reler a sua biografia para constatarem que a carreira de Marina Silva demonstrava ainda mais resiliência e espírito de superação que a do próprio Lula.

O ex-presidente apaixonou-se por sua própria história e se vendeu ao mundo como exemplo de sucesso e vitória contra as adversidades. Nem Lula teria percebido que a trajetória de Marina era ainda mais épica que a dele. Ambos nasceram pobres e desesperançados. Mas enquanto Lula fazia carreira no sindicalismo, Marina tratou de estudar - formou-se em História na Universidade Federal do Acre e especializou-se em Teoria Psicanalítica e em Psicopedagogia na Universidade de Brasília.

Quando foi nomeada ministra do Meio Ambiente, no governo Lula, entrou em conflito aberto com a então também ministra Dilma Rousseff por questões ambientais. A essa altura, era senadora eleita pelo Estado do Acre e ao Senado voltou depois de ter apresentado a sua carta de renúncia ao presidente. Jamais abriu mão de suas convicções, o que lhe tem garantido prestígio internacional. Também, ao que se sabe, ninguém ligado a ela se envolveu em escândalos como o do mensalão e, aos olhos de seus eleitores (34%, segundo o Instituto Datafolha), isso lhe garante uma imagem de quem "não rouba nem deixa roubar".

Quanto à eventual equipe de governo de Marina, sobressaem nomes como André Lara Rezende, um dos formuladores do Plano Real, e Eduardo Gianetti da Fonseca, economista que se destaca como sendo um dos melhores do Brasil, segundo a opinião de muitos.

Esta semana surgiram nos jornais especulações sobre uma possível volta de Lula para disputar a Presidência da República no lugar de Dilma. Até agora ele tem relutado a aceitar a ideia, embora o prazo para fazê-lo vá até 15 de setembro, de acordo com a legislação. Para Lula, essa seria uma aposta arriscada, pois implicaria pôr o seu inegável prestígio em jogo: se ganhasse, seria uma vitória humilde; se perdesse, uma derrota humilhante. Enquanto isso, ele aguarda...

O choque de honestidade que os eleitores esperam de Marina, em caso de vitória, significará defenestrar dezenas de milhares de pessoas do serviço público, em especial das empresas estatais. O fato é que o PT empregou à vontade gente não qualificada, em prejuízo do bom funcionamento da máquina pública. Calcula-se o número desses "militantes profissionais" em, no mínimo, 20 mil. É gente eficiente para organizar passeatas, mas incapaz de organizar governos. No mercado de trabalho privado não existe colocação para "profissionais" desse tipo. É por isso que todos temem a eventual derrota de Dilma. Trava-se um desesperado diálogo entre os pescoços e a guilhotina.

A vitória de Marina, no entanto, não representa nenhuma garantia de sossego e paz. Basta-lhe ter uma recaída e voltar-se para seu "alter ego de fada do bosque" para criar encrencas que ela nem imagina. Por exemplo, com o agronegócio, que é hoje a principal fonte de renda do Brasil e o único setor produtivo em que nosso país compete com vantagens com a concorrência estrangeira. Querer mexer com isso, na vã imaginação de ser possível reflorestar todo o território nacional, é um mau negócio, representa um tiro no pé para a nossa economia. Os ideais "sonháticos" de que Marina tem falado tampouco são exequíveis ou viáveis.

Marina Silva representa hoje mais uma aspiração do que uma realidade concreta. Ela mantém a sua popularidade menos pelo que promete e mais pela repulsa a Dilma, que, além de todas as atitudes erradas que tomou, está literalmente se liquefazendo por um problema de "fadiga de material". O povo que foi às ruas em junho do ano passado, embora em muito instigado pelo próprio PT, saiu de casa motivado pelo desejo de "mudanças". Embora ninguém saiba ao certo que mudanças seriam essas, todos concordam que como está não dá mais. Dilma, mesmo que recauchutada, está longe de representar uma mudança, por menos significativa que seja. As pessoas, agora, estão vendo em Marina o símbolo da mudança.

Eu ainda prefiro não me envolver com ideais utópicos e discursos inspiracionais. Confio mais em preparo e experiência. Mas o que se há de fazer? É o povo que haverá de decidir. E o povo, certo ou errado, é a última instância da vontade coletiva.

Como desfecho, lembro-me agora de um pensamento que li num livro antigo, cujo teor anotei porque muito me impressionou: "Um país assim, que ria das roubalheiras oficiais; que achava graça nas vigarices governamentais; não haveria de aceitar, sem incômodo e sem dor, uma passagem violenta para a moralidade no trato do dinheiro público, do direito de cada um e nos deveres de todos".