sexta-feira, setembro 05, 2014

Petrodelação despeja óleo queimado na eleição - JOSIAS DE SOUZA

BLOG DO JOSIAS DE SOUZA


Como previsto, Paulo Roberto Costa, o ex-diretor preso da Petrobras, moveu a língua. Em troca de redução da pena, ele revela à Justiça segredos que estavam armazenados abaixo da camada pré-moral da maior estatal brasileira. O repórter Mario Cesar Carvalho conta que pingaram dos lábios do delator os nomes de 62 políticos que morderam propinas. São 12 senadores, 49 deputados e um governador. Gente filiada a três partidos: PT, PMDB e PP.

Na cadeia, Paulinho, como o depoente é chamado na intimidade, vinha dizendo que não haveria eleições em 2014 se ele contasse tudo o que sabe. Enquanto espera pelas novidades, resta à plateia raciocinar com hipóteses, desde as mais amplas —na pior das hipóteses, a sucessão presidencial será engolfada pelo óleo queimado, na melhor das hipóteses ficará com óleo pelo nariz— até as mais específicas.

No caso do que o país pode esperar com uma delação à vera de Paulinho, o leque das hipóteses é enorme, já que todo mundo tem uma noção do que foi feito da Petrobras depois que os partidos tomaram a estatal de assalto. A melhor das hipóteses é que o ex-diretor confirme que o dinheiro saía mesmo pelo ladrão nos contratos da Petrobras. A pior das hipóteses é que ele informe que os ladrões entraram nos contratos da Petrobras com autorização superior.

Dependendo do que está por vir, é possível que os protagonistas do governo tenham que se reposicionar na cena eleitoral. Talvez precisem fazer pose de administradores ingênuos ou políticos distraídos sendo usados por salteadores. Este é um governo dos patrimonialistas do PT, do PMDB e congêneres. Mas quem bota a cara na tevê por eles é a Dilma, quem fica com a má fama é a esquerda guerrilheira, que combateu a ditadura para acabar como marionete.

Por sorte, João Santana dispõe de um bom tempo de propaganda. Na pior das hipóteses, o marqueteiro de Dilma disfarçará os interesses escusos que se escondem atrás da boa biografia. Na melhor das hipóteses, ele ajuda a manter a ilusão de que há em Brasília alguém que comanda.

CAPA DA REVISTA VEJA

Paulo Roberto Costa começa a revelar nomes dos beneficiários do esquema de corrupção da Petrobras

Rodrigo Rangel





Preso em março pela Polícia Federal, sob a acusação de participar de um mega esquema de lavagem de dinheiro comandado pelo doleiro Alberto Youssef, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa aceitou recentemente os termos de um acordo de delação premiada – e começou a falar.

No prédio da PF em Curitiba, ele vem sendo interrogado por delegados e procuradores. Os depoimentos são registrados em vídeo — na metade da semana passada, já havia pelo menos 42 horas de gravação. Paulo Roberto acusa uma verdadeira constelação de participar do esquema de corrupção. Aos investigadores, ele disse que três governadores, seis senadores, um ministro de Estado e pelo menos 25 deputados federais embolsaram ou tiraram proveito de parte do dinheiro roubado dos cofres da estatal.

Ele esmiúça, além disso, a lógica que predominava na assinatura dos contratos bilionários da Petrobras – admitindo, pela primeira vez, que as empreiteiras contratadas pela companhia tinham, obrigatoriamente, que contribuir para um caixa paralelo cujo destino final eram partidos e políticos de diferentes partidos da base aliada do governo. Conheça, nesta edição de VEJA, detalhes dos depoimentos que podem jogar o governo no centro de um escândalo de corrupção de proporções semelhantes às do mensalão.

Conheça nesta edição de VEJA os nomes dos políticos mencionados por Paulo Roberto Costa e outros detalhes do depoimento.

Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet ou nas bancas, neste sábado.

EVITE FILA


                                                  

                           VIDEO ENVIADO POR APOLO

Dilma, Marina e o diabo - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 05/09


Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar das tentações do demônio do autoritarismo


Por mais que alguns torçam por isto, ainda não chegou a hora de eu ir criar galinhas, mas a tentação é grande. Às vezes, vem aquela preguiça enorme, a acídia, que alguém definiu certa feita como "entristecer-se do bem divino"... O Brasil fica muito chato com os mortos que procriam, a reivindicar mais quatro anos para que possam fabricar mais 40 de atraso. A alternativa são ilusões redentoras não menos defuntas a disputar um lugar no futuro. Não nos dispersemos, no entanto. Mas sem essa de "vamos juntos, de mãos dadas". Tou fora! Pensamento em grupo é formação de quadrilha intelectual.

Não achei que viveria o bastante para ver um argumento meu no horário eleitoral do PT, mas vi. Justo eu, o cara que cunhou o termo "petralha", que foi parar na lista negra, elaborada pelo sr. Alberto Cantalice, chefão do partido, das nove pessoas que fazem mal ao país. Sabem como é... Não sou herói do povo brasileiro, como José Dirceu e Delúbio Soares. Só dois presidentes foram eleitos acima dos partidos, notei no meu blog: Jânio Quadros e Fernando Collor. O primeiro deu no que deu. O segundo também. É claro que eu estava criticando o discurso de Marina Silva. Os petistas gostaram e levaram a observação ao ar. Franklin Martins e os blogueiros sujos não conseguiram ter uma ideia melhor do que a minha. O ex-ministro estava ocupado demais escrevendo asnices no site "Muda Mais" sobre a independência do Banco Central...

"Terrorismo!", gritaram os marineiros. Não! É história. O chamado "Eixo 01" do programa de Marina, intitulado "Estado e Democracia de Alta Intensidade", deixa no chinelo o Decreto 8.243, o destrambelho de sotaque bolivariano de Gilberto Carvalho --Dilma só é a "laranja" da proposta. Lá no tal "eixo" está escrito que "a política brasileira vive, atualmente, uma das crises de legitimidade mais agudas da democratização". E o texto prossegue: "Tornou-se comum a ocupação do espaço público por cidadãos que não pretendem mais delegar tudo a seus governantes". Então tá.

Esse modelo "em crise" mandou pra casa o primeiro presidente eleito depois da ditadura; deu posse ao vice; abrigou o Plano Real --que levou o povão a conviver com duas moedas, fato raro na história mundial; elegeu um sociólogo de esquerda (que apelou aos conservadores para fazer reformas vitais para o país); deu posse a um ex-operário, com baixa instrução, oriundo de uma região pobre (que apelou aos conservadores para não fazer reformas vitais para o país); elegeu uma ex-terrorista e tem, no momento, duas mulheres liderando a disputa presidencial: uma delas, a ex-seringueira dos pés descalços, ambientalista e sem partido, é justamente quem acusa a... crise do "modelo".

Que coisa, né? O PT chegou ao poder por intermédio da democracia representativa e propõe um simulacro de democracia direta, via decreto, para que seus "conselhos populares" possam, definitivamente, tomar conta do Estado. Esse mesmo sistema fez da Marina Descalçada uma figura mundialmente conhecida e pode lhe render até a Presidência da República, mas também ela não já não vê virtudes no modelo e pretende abrir o caminho para que suas ONGs substituam o povo.

É um escândalo intelectual que aquela glossolalia autoritária, disfarçada de "democracia de alta intensidade", não tenha sido destrinchada pela imprensa. Em vez disso, preferiu-se dar destaque à religiosidade de Marina. Suas considerações sobre o universo LGBT --e não consigo, de fato, imaginar nada mais urgente no Brasil...-- em nada diferem, em substância, das feitas por Dilma ou Aécio. Mas a máquina de difamação petista resolveu caracterizá-la como homofóbica. Parece que ela lê a Bíblia antes de tomar decisões. E daí? Logo se viu nisso um mal terrível. Bem fazia Stálin, por exemplo, que lia livros de linguística antes de mandar matar.

Acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Não acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar crentes e ateus das tentações do demônio do autoritarismo.

Ainda sobre a verdade no debate público - ARMINIO FRAGA

FOLHA DE SP - 05/09


Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com os fatos no debate público


Estamos em época de debate. Como mencionado em meu artigo "Mitos do PT", publicado na quinta-feira (28/8) nesta página, alguns simpatizantes daquele partido insistem em distorcer os fatos. Um perfeito exemplo surge no artigo desta última segunda-feira (1º), de Jorge Mattoso e Pedro Rossi, no qual manipulam duas frases minhas e erram, propositalmente ou não, sobre um dado público e fundamental. Não por acaso, essas criações são pilares da argumentação dos autores.

Os autores põem duas vezes entre aspas que acusei o governo de "preconceito ideológico com o investimento", quando escrevi que "falta investimento (no Brasil), vítima de preconceitos ideológicos e má gestão". Trata-se de tema de artigos e entrevistas que concedi ao longo de quatro anos.

Registre-se aqui também meu protesto contra outras aspas indevidas com que me brindou recentemente a deputada Margarida Salomão do PT em uma rede social. Ela pôs em minha boca que "o salário mínimo subiu demais", quando eu disse, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" que tinha subido "muito". Sutil talvez, mas bem diferente. Essa mesma frase é convenientemente repetida pelos autores citados acima em seu artigo, demonstrando um padrão de desonestidade ou, no mínimo, de descuido.

Ainda sobre o investimento, constatei apenas que os resultados foram pífios, pois permanece deprimido como porcentagem do PIB. Não há preconceito ideológico contra o investimento, apenas contra o mercado, e incompetência em mobilizá-lo. O governo mascara seu fracasso quando a candidata oficial lista com valores inúmeros investimentos e programas, sem registrar que no agregado foi pouco. Equivale a dizer que fez dois gols e omitir que levou cinco. A propósito, cabe registrar que, de acordo com o IBGE, a taxa de investimento em 2013 foi de 17,9% do PIB, e não de 20,9%, como publicado no artigo dos autores (chegando hoje a 16,5% do PIB).

Os autores prosseguem cobrando uma série de respostas a perguntas que, para um leitor desavisado, podem dar a impressão de que tudo vai bem na economia, e que nós somos uma ameaça, uma certa cara de pau dado que a economia está em recessão, inclusive com perda de emprego na indústria.

Uma dessas perguntas liga a falsa referência aos salários à nossa postura quanto à distribuição de renda no Brasil. Aqui faltou reconhecerem os ganhos sociais do fim da hiperinflação e os ganhos de produtividade das muitas reformas de FHC, da mesma maneira que nós reconhecemos o mérito de Lula ao turbinar os programas sociais (alguns criados por FHC) e preservar em seu primeiro mandato os fundamentos da estabilidade macroeconômica e a agenda de reformas.

No campo da distribuição e igualdade de oportunidade, além de continuar com bons programas como o Bolsa Família, pretendemos se nos for dada a chance focar na qualidade da educação, saúde, transportes e segurança públicos. Pretendemos também eliminar ao longo do tempo a parte injustificada das medidas de proteção, subsídio e desoneração voltadas a empresas (o chamado bolsa empresário do atual governo) e direcionar esses recursos para programas de maior retorno social, com relevantes benefícios distributivos.

Nem tudo deu errado no âmbito da economia durante os anos do PT no poder, mas o modelo de Dilma nos deixou mal parados, precisando urgentemente de uma correção de rumo. No mais, sigo enjoado com a maneira desonesta pela qual pessoas como Mattoso e Rossi se colocam. Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com as palavras e os fatos no debate público.

'Recessão técnica' - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE

O ESTADO DE S.PAULO 05/09


"O Brasil está em recessão técnica", disse-nos o IBGE na semana passada. Para os iniciados, recessão técnica é nada mais do que a constatação de que a atividade econômica do País se retraiu pelo segundo trimestre consecutivo. Para os incautos, "recessão técnica" é um péssimo termo para expressar as mazelas que nos afligem. Lembra "parada técnica", aquela regra que a Fifa inventou e que vimos na Copa, quando a temperatura excedia os 32° e os jogadores precisavam parar para dar aquela respirada, aquela hidratada, para então retornar ao campo a pleno vapor.

A economia brasileira não há de voltar ao campo a pleno vapor. Há quatro anos a coitada tenta se reerguer e dá de cara com os obstáculos que o governo impõe, inadvertidamente. Inadvertidamente porque pensa estar fazendo o melhor para o País e se recusa a perceber que nada funcionou até agora. Culpa a "crise externa" - ainda que os EUA estejam se recuperando e a China, crescendo -, secas e caprichos da natureza. Culpa até a Copa das Copas: "Foi a falta de dias úteis", diz Guido Mantega, e ecoa a presidente Dilma Rousseff.

Por certo, o mundo não está fácil. Problemas geopolíticos são muitos, das ameaças de Vladimir Putin às investidas do movimento islâmico Isis. A Europa está à beira de tornar-se um novo Japão: economia que não cresce, risco de deflação ou de queda generalizada dos preços. Nada disso, entretanto, tem impedido nossos pares de crescer. Podem até não estar se expandindo no ritmo que gostariam, mas crescem ainda assim. Afora as Argentinas e Venezuelas do mundo - casos escrachados de má gestão econômica -, os demais países emergentes têm conseguido contornar os problemas globais com alguma destreza. Não o Brasil. O Brasil do investimento que "ia se recuperar", mas que caiu 11% no segundo trimestre de 2014. Brasil, país da poupança de míseros 14% do PIB, montante que não dá nem para o começo dos ambiciosos planos de desenvolvimento do atual governo.

As políticas do governo deram errado. E agora? Como sair do atoleiro criado pelas supostas boas intenções que resultaram no pior resultado para a atividade desde 2009, ano das sequelas da maior crise financeira internacional do século? Essas são as questões que o próximo governo deverá enfrentar. Não nos iludamos: os próximos quatro anos hão de ser dedicados a consertar os estragos provocados pela má condução econômica do atual governo. A infraestrutura, o resgate da competitividade da economia brasileira, as reformas estruturais relativas à estrutura tributária e ao mercado de trabalho ficarão para depois. Não importa o que digam os candidatos hoje. A verdade inconveniente é que nenhum esforço para resolver os problemas estruturais do País resultará em algo se a estabilidade macroeconômica - hoje desmontada - não estiver consolidada.

Promessas sobre o que um ou outro fará para melhorar a saúde, a educação, a segurança nada significam se o País não voltar a crescer com inflação baixa, o que só pode ocorrer se a política fiscal for aprumada e a política monetária, resgatada. A política monetária, como comentei recentemente em entrevista para este jornal, é a parte fácil. Difícil mesmo é desembaralhar os balanços do Tesouro, das empresas do setor elétrico, do BNDES, da Caixa Econômica Federal. Sem isso, não há saneamento fiscal possível. Por onde começar? Confesso que não sei.

O que sei é que as promessas do atual governo perderam o sentido, as explicações fracassaram e não há mais espaço, tempo ou paciência para aguentar o discurso enfadonho que nos levou à "recessão técnica". O PT teve a sua era e deixou seu legado - uma melhora passageira da distribuição de renda. Passageira porque não souberam fazer a economia crescer e pouco se importaram com a inflação em alta. Repetem à exaustão que o mercado de trabalho está bem, mas a verdade é que o país que encolhe perde empregos, mais cedo ou mais tarde. Se nem sempre é vantajoso mexer em time que está ganhando, em time que está perdendo essa é uma necessidade premente. Está na hora de mexer.

Os empresários, os banqueiros e as pessoas - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 05/09


“Difícil não é matar o monstro; difícil é remover-lhe os escombros.” Essa frase do grande Goethe me veio à mente após ouvir um candidato dizer que o governo tem de parar de governar para os empresários e os banqueiros, e passar a governar para as pessoas. A frase sugere que os empresários e os banqueiros não são pessoas. Mas, mesmo entendendo o espírito da coisa, há algo de contraditório na afirmação.

Tornou-se consenso nacional que o país precisa muito de empreendedores e, por isso, a população deve ser educada e treinada para ter iniciativa e empreender. As escolas estão sendo convocadas a educar mais para o empreendedorismo do que para a busca de emprego, mesmo porque somente haverá empregos se houver empreendedores e empresários.

O mundo precisa de inventores e investidores com iniciativa e capacidade de correr riscos, produzir, gerar empregos e pagar impostos. Quanto mais deles houver, mais riqueza será produzida e maior será o bem-estar social. O próprio governo, para existir, depende de impostos gerados pela produção; logo, é necessário haver produtores. O discurso antiempresarial é uma dessas coisas totalmente ultrapassadas, mas que ainda fazem sucesso no Brasil.

Tomemos o caso dos bancos. Estes existem desde que a humanidade inventou a moeda como instrumento de troca. Na sociedade do escambo (troca de mercadoria por mercadoria), os bancos não eram necessários. Muitos críticos não são contra a existência dos bancos. São contra bancos privados e querem apenas bancos estatais. Fui diretor e presidente de banco estatal e aprendi que, com raras exceções, colocar banco nas mãos de políticos é um perigo; é como dar uma espada a uma criança.

Quando um banco quebra e o Banco Central (BC) o socorre, as críticas pululam. O banco é uma instituição que faz intermediação financeira, ou seja, capta depósitos de pessoas e empresas e faz empréstimos a pessoas, empresas e governos. Em geral, de tudo o que um banco empresta, menos de 10% é capital do banqueiro. O resto vem dos depósitos do público. Se o banco quebra, mais de 90% da perda é de quem depositou seu dinheiro lá. Ademais, bancos trabalham sob concessão estatal e normas baixadas pelo governo, a fiscalização é feita pelo BC e existe o Fundo Garantidor de Depósito, destinado a reembolsar os depositantes em caso de quebra bancária.

Banqueiros são vistos como gananciosos. Mas eles não diferem das pessoas, pois estas, quando depositam dinheiro no banco ou aplicam suas reservas, também querem receber a maior taxa de juros possível, e isso é normal; porquanto, o juro é a recompensa pela renúncia ao consumo presente em favor do consumo futuro.

Poder-se-ia argumentar que o banco paga 11% ao ano por minha poupança e cobra 40% de meu vizinho no financiamento de uma geladeira. Ocorre que, no cálculo da taxa de juros bancários, entram pelo menos cinco fatores: a taxa juro paga ao poupador, os custos administrativos do banco, a inadimplência de parte dos devedores, os tributos cobrados pelo governo e o lucro bancário. Quanto aos lucros dos bancos, fonte de críticas, existe a crença de que eles são astronômicos. São altos, sim, mas cabem ressalvas.

O lucro de uma empresa deve ser comparado com o capital investido pelos acionistas. Nesse sentido, os lucros bancários relativos não são muito diferentes das empresas saudáveis de tamanho equivalente. E uma economia saudável exige um sistema financeiro forte e lucrativo. Mas a crença no inverso é um monstro cujos escombros, no Brasil, tornaram-se irremovíveis.

Alívio relativo - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 05/09


Não resta dúvida de que as duas pesquisas divulgadas nesta semana trouxeram boas notícias para a presidente Dilma Rousseff e que levaram ao adversário tradicional, o tucano Aécio Neves, informações desanimadoras. Ocorre, porém, que os institutos Datafolha e Ibope* deram à candidata Marina Silva ótimas informações.

Disseram a ela o seguinte: não obstante seus parcos minutos no horário eleitoral, sua frágil estrutura partidária, as divergências internas, as cobranças por objetividade nas propostas, os ataques, os recuos nas questões programáticas e a enorme diferença entre o arsenal publicitário do governo e o alcance da propaganda do PSB, ela continua praticamente empatada com a presidente da República na disputa do primeiro turno.

Mais: mantida essa tendência, vence Dilma na etapa final. Consta que o resultado das pesquisas provocou um alívio nas hostes petistas. Refresco este decorrente da expectativa presente em todas as campanhas de que a candidata do PSB nessas pesquisas já aparecesse à frente da presidente. Não aconteceu assim. Os números frios e a realidade quente, contudo, não autorizam grandes comemorações. Dilma mostra que tem um eleitorado sólido, notadamente no Norte e Nordeste. Conta com a estrutura do governo, com 11 minutos de propaganda eleitoral, com o “recall” de toda a exposição nos últimos quatro anos e a sustentação dos programas sociais. Não é pouco.

Ainda assim, Marina encosta no primeiro turno e ganha no segundo É de se perguntar: numa disputa em igualdade de condições, como seria? Na etapa final, ao menos o tempo de televisão será o mesmo. Note-se o detalhe: do primeiro para o segundo turno Dilma sobe dois pontos porcentuais no Ibope e seis no Datafolha. Marina registra sete no Ibope e 14 no Datafolha. Se for para usar imagem bíblica ao gosto de Marina, é situação comparável à disputa entre Davi e Golias.

Se o PSDB realmente ficar de fora da etapa final pela primeira vez em 20 anos, confirmadas as tendências das pesquisas, os tucanos não se omitirão como Marina em 2010. Aquele pode ter sido por parte dela um lance esperto na ocasião, mas com duração de mais longo prazo não foi um gesto adequado a quem agora reconhece méritos no candidato à época, José Serra.

Cobranças que vão requerer revisões de posições. Com mais força para Marina, mostrando que não é só uma terceira força bamba, mas uma alternativa forte de oposição.

Multiúso. Não é a primeira vez que o PT recorre à comparação de adversários com Fernando Collor. O próprio Lula o fez várias vezes, sendo a última em março, ao insinuar que a candidatura de Eduardo Campos poderia representar uma aventura. “A minha grande preocupação é repetir o que aconteceu em 1989: que venha um desconhecido, que se presente muito bem, jovem e nós vimos no que deu”, disse ele, numa reunião com empresários. Collor serve como arma de ataque e ao mesmo tempo tem serventia como aliado. O mesmo se pode dizer de Fernando Henrique Cardoso, cujo governo é usado para comparações negativas, mas cuja política econômica sustentou o sucesso da economia no governo primeiro Lula.

Na real. O temor da direção atual do PMDB não é só que a derrota de Dilma resulte da perda do poder para o PT, mas que repercuta na correlação interna nas forças do partido. Ao ponto, por exemplo, de ameaçar as eleições de Renan Calheiros e Eduardo Cunha para as eleições das presidências da Câmara e do Senado em 2015..

Polarizações regionais - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 05/09
Pesquisas do Datafolha em seis estados e no Distrito Federal ajudam a entender melhor as razões por que os três principais candidatos à Presidência da República se encontram na situação atual de empate técnico entre a presidente Dilma Rousseff e a candidata do PSB, Marina Silva, deslocando para o terceiro lugar o candidato tucano, Aécio Neves
Marina está à frente em dois dos três principais colégios eleitorais do país (São Paulo e Rio), enquanto Dilma lidera em Minas Gerais.

Em Pernambuco e no Ceará, dois dos principais estados nordestinos, Dilma tem uma votação expressiva no Ceará, atingindo 57% das intenções de votos, como nos melhores momentos de sua votação em 2010, e Marina tem quase metade dos votos de Pernambuco, terra de Eduardo Campos.

Como se vê, o candidato do PSDB perde terrenos nos redutos que deveriam ser suas principais fontes de votos. Em Minas, está em terceiro lugar com apenas 22%, acima de sua média nacional de 14% mas bem abaixo de seu potencial. Em São Paulo, outro território do PSDB, Aécio Neves está com apenas 18% das intenções de voto, enquanto no Rio, onde montou um esquema paralelo de apoio com os partidos da base do governo, o Aezão (apoio a Aécio e Pezão) não funcionou até o momento. Aécio tem apenas 11% de votos no estado.

A disputa entre Dilma e Marina está bem expressa nos números estaduais. Onde uma vence com votação forte, como é o caso de Marina em São Paulo com 42%, Dilma vem bem votada com 23%, mesmo que seja uma votação abaixo de sua média nacional de 35%. Em Minas, dá-se o contrário: Dilma, que é mineira e venceu lá a eleição de 2010, está com 35% dos votos e Marina tem 27%.

A estratégia básica de Aécio Neves, que determinava toda a sua campanha, era tirar em Minas e em São Paulo uma votação suficiente para neutralizar a grande votação de Dilma Rousseff na região, que lhe deu em 2010 cerca de 10 milhões de votos de dianteira contra o PSDB. Na verdade, porém, até o momento quem está conseguindo neutralizar a influência da presidente no Nordeste é a candidata do PSB Marina Silva, que tem uma votação média de 30% nos estados nordestinos, baixando a média da presidente para 45% dos votos, e coloca uma dianteira em dois dos três maiores colégios eleitorais do país.

No Rio Grande do Sul, onde a senadora Ana Amélia lidera a corrida pelo governo do estado contra o candidato petista Tarso Genro, quem lidera a disputa presidencial é a presidente Dilma, apesar de a candidata do PP apoiar o tucano Aécio Neves. Dilma tem 38% das preferências e Marina, 30%, enquanto Aécio Neves fica em 15%. De maneira geral, as melhores taxas de intenção de votos da presidente Dilma correspondem aos estados onde a aprovação de seu governo é maior.

No Ceará, por exemplo, Dilma obtém seu melhor desempenho, tanto na simulação de 1º turno quanto na de 2º turno. Chega no 2º turno, contra Marina, a ter 60% dos votos. A aprovação ao governo Dilma no Ceará e em Fortaleza chega a 57% e 45%, ante 36% nacional.

O Datafolha destaca que Dilma apresenta intenção de voto semelhante a sua média nacional em Minas Gerias (estado onde nasceu) no Rio Grande do Sul (onde exerceu parte da sua carreira profissional) e em Pernambuco (terra do seu padrinho político Lula).

Por outro lado, obtém taxas de intenção de voto menores nos estados onde a aprovação ao seu governo é mais baixa: em São Paulo e no Distrito Federal, o governo Dilma é reprovado, respectivamente, por 36% e 40% dos eleitores. A candidata Marina Silva recolhe seus melhores índices nas capitais, especialmente no Rio (41%) e no Recife (52%). A presidente Dilma vence em Porto Alegre (37%) e em Fortaleza (42%).

Também no Distrito Federal, onde Aécio Neves chegou a liderar a corrida presidencial quando competia com Eduardo Campos pelo PSB, Marina retomou a dianteira que já tivera em 2010, quando venceu a eleição na capital do país. Aécio hoje está empatado tecnicamente com a presidente Dilma em Brasília.

Segurando a soberba - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 05/09


A presidente Dilma Rousseff parece que só pega no tranco. Ao que tudo indica, foi preciso que o seu criador, Luiz Inácio Lula da Silva, desse enfáticos sinais de que se cansara de aconselhá-la a se achegar ao empresariado que quer vê-la pelas costas para a criatura se tocar. Até ele, o do "nunca antes neste país", já há tempos via com clareza e crescente desconforto a sua recusa ao imperativo eleitoral de mudar o disco arranhado dos seus êxitos na gestão da política econômica - limitados, na narrativa dilmista, apenas pela "crise externa" e negados apenas pelo "pessimismo" desinformado ou de má-fé.

Finalmente, a realidade conteve a soberba. E, pela primeira vez, a candidata admitiu que a economia brasileira anda devagar, quase parando. "Eu gostaria que o Brasil estivesse crescendo num ritmo mais acelerado", disse, ao discursar anteontem em um evento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Belo Horizonte. E pela primeira vez também fez uma promessa diferente da modalidade mais do mesmo para o segundo mandato que um dia, não faz muito, ela imaginava conquistar de uma tacada só. "Obviamente, novo governo, novas e necessariamente atualização (sic) das políticas e das equipes", enunciou, como quem declara que o prazo de validade do economista Guido Mantega no Ministério da Fazenda expira em 31 de dezembro, ainda que o dela vá até 1.º de janeiro de 2019.

Obviamente, como ela diria, não há como saber se acredita no que disse - ou melhor, se, acreditando, terá a determinação e a competência para não repetir, caso as urnas lhe derem uma segunda chance, a coleção de erros que esfiaparam a sua credibilidade a ponto de 8 em cada 10 eleitores desejarem mudanças na condução do governo. Desde logo, porém, é de recear que a "atualização" venha a ser tão trôpega como o fraseado a que ela recorreu para formulá-la, no pedregoso português que é um de seus vícios insanáveis. O outro, de que não consegue se livrar nem quando se trata de ganhar votos, como se viu nos debates pela televisão, é a mistura de enfado e impaciência que exibe diante de opiniões que não ecoam as suas próprias. Isso importa porque tal característica de personalidade, a julgar por estes quatro anos que se aproximam do fim, condiciona a sua conduta e pesa nas suas decisões como presidente da República.

A Dilma confeccionada em estúdio, para figurar no horário eleitoral, é outra coisa. Assim também o Brasil que desfila ao longo dos 11 minutos ao seu dispor duas vezes por dia, três vezes por semana, graças à opulenta coligação de nove partidos que os recursos de poder do Planalto lhe permitiram arregimentar. "Hollywoodiano" foi como a rival Marina Silva qualificou o País da propaganda dilmista - sem contar os dois dentes frontais que a afortunada sertaneja Marinalva Gomes Filha ganhou, além de um upgrade no fogão a lenha, para aparecer "produzida" ao lado da presidente. Ela pode maquiar os fatos, mas os seus críticos não podem brigar com eles. Os mais recentes desta campanha sucessória marcada indelevelmente pelo imponderável sugerem que está dando resultados o embelezamento publicitário da paisagem social brasileira e do desempenho do "poste" que Lula fincou em Brasília há quatro anos.

As novas pesquisas do Ibope e do Datafolha indicam que o bastião de Dilma resistiu à primeira arremetida do "furacão Marina". Dizia-se há pouco que a sua ascensão teria gás para prosseguir pelo menos até o primeiro turno, dado o tempo presumivelmente escasso entre a irrupção de seu nome e a inevitável estabilização de sua popularidade. Os números de agora põem em xeque o prognóstico. No Ibope, os quatro pontos ganhos por Marina desde a sondagem anterior foram neutralizados pelos três da presidente, que assim manteve a liderança, embora no limite da margem de erro. No Datafolha, continuam empatadas. A presidente, por sinal, parece ter mais eleitores convictos (61% das intenções declaradas) do que a oponente (50%). O seu pesadelo é o segundo turno: entra pesquisa, sai pesquisa, Marina segue favorita. E ela, Marina, com o seu voluntarismo, parece crer que ganhar a eleição é um fim em si - e não a condição necessária, porém insuficiente, para governar.


Reflexos no IBGE - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/09


Principal fornecedor de dados e estatísticas sobre o Brasil, o IBGE tem enfrentado dias difíceis. Não é de hoje que se registra no respeitável órgão a insatisfação de funcionários com a escassez de recursos e os indícios de sucateamento do instituto --para nada dizer de apreensões com os sinais de partidarização do serviço público.

Durante dois meses, parte dos servidores entrou em greve para reivindicar valorização salarial, orçamento condizente com as tarefas do órgão, garantia de autonomia técnica e menos interferência governamental no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O movimento terminou em agosto, mas os problemas continuam. No início desta semana, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, anunciou novo corte de verbas.

O instituto pleiteava R$ 776 milhões para 2015, tendo em vista o preparo de dois levantamentos relevantes: a Contagem da População e o Censo Agropecuário. No entanto, o projeto de lei orçamentária enviado pelo governo ao Congresso prevê apenas R$ 204 milhões.

O valor é pouco superior ao efetivamente chancelado para 2014, após contingenciamento determinado pelo ministério --R$ 193 milhões, o suficiente para o custeio das atividades no período.

De acordo com a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, a tesourada provocará o adiamento das pesquisas e trará o risco de perda de qualidade das estimativas anuais, em especial no caso da contagem populacional, feita a cada dez anos.

Projeções menos precisas, embora possam ser corrigidas no futuro, dificultam o planejamento de medidas em áreas importantes, como educação e saúde.

Além disso, podem levar a contestações políticas e judiciais, já que esses dados servem de referência para a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios.

As restrições financeiras ao IBGE decorrem de ações equivocadas que levam ao oposto do que pregam seus artífices. A ideia de valorizar o serviço público, sempre presente no discurso de fundo estatista do PT, esbarra no aparelhamento de órgãos, inclusive técnicos, e na falta de investimento.

Num ambiente de estagnação econômica, inflação elevada e descaso com a eficiência do Estado, o governo Dilma Rousseff (PT) vê-se compelido a promover ajustes de todos os tipos para remendar o descontrole de suas contas. A crise do IBGE é somente mais um triste reflexo desse estado de coisas.

O Ideb atrasado - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 05/09


A cada dois anos, o Ministério da Educação divulga o mais importante indicador da qualidade das escolas brasileiras, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), um dado precioso para orientar as políticas educacionais de estados e municípios. Em 2008, os dados vieram em junho; dois anos depois, em julho; o Ideb seguinte saiu em agosto de 2012 e, neste ano, a promessa era de que não entraríamos em setembro sem que os dados fossem divulgados. No entanto, já se passou quase uma semana do fim do prazo e nem sequer há previsão segura de quando o Ideb será publicado.

O ministro da Educação, Henrique Paim, atribui a demora à burocracia que analisa os dados para conferir a eles o devido grau de segurança. O levantamento já está pronto, já passou pela avaliação do Inep e pode ser divulgado nos próximos dias, afirma o ministro, embora o processo esteja ainda embaraçado em razão de recursos impetrados por escolas de todo o país, alega.

Estaria o Ideb sendo vítima do clássico “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”? Teriam as notas da educação nacional caído tanto que, politicamente, seria inconveniente divulgar o Ideb neste período pré-eleitoral? Houve quem fizesse ilações sobre o atraso de acordo com esse raciocínio, mas, como não se conhecem os números, é impossível tê-las como verdadeiras neste momento.

O atraso em si mesmo é um mal menor. O mal maior que ele faz é provocar a desorientação dos gestores públicos da educação básica que, desconhecendo o desempenho (bom ou ruim) das escolas situadas em suas jurisdições, não têm tempo para planejar medidas de correção de rumos a implantar já no próximo ano. O mal, portanto, se faz contra toda a educação nacional, condenada à cegueira por falta de diagnóstico precoce.

O Paraná, por exemplo, que em 2012 viu sua posição no ranking nacional cair nos ensinos fundamental e médio em relação ao Ideb de 2010, certamente deve ter tomado medidas para melhorar a situação. Deram resultado as medidas adotadas? Outras correções de rumo precisam ser tomadas? Sem se saber em que média se situam as escolas paranaenses; sem se saber quais são as melhores e as piores; sem se saber onde deram melhor resultado as providências tomadas, veem-se as secretarias estadual e municipais de Educação em dificuldade para planejar os próximos passos.

Independentemente da grave perturbação que causa ao planejamento a demora do Ideb deste ano, não custa lembrar que outros índices importantes para o país também vêm sofrendo ultimamente do mesmo mal. É o caso da Pnad Contínua, a pesquisa domiciliar do IBGE, cuja divulgação foi suspensa em abril por pressão do Planalto – os dados do 4.º trimestre de 2013, por exemplo, indicavam desemprego de 6,2%, bem acima dos 4,3% da Pesquisa Mensal de Emprego. A decisão levou uma das diretoras a pedir exoneração. Depois, o IBGE decidiu seguir em frente com a pesquisa, mas os dados que deveriam ter sido divulgados em 28 de agosto só serão conhecidos em novembro, devido à greve dos servidores do instituto, que durou quase 80 dias e foi encerrada no mês passado – greve, aliás, que, entre outras razões, era uma maneira de resguardar a autonomia do órgão. Mostraria a última Pnad Contínua números desanimadores sobre a economia e o emprego que pudessem ser usados contra o governo neste período de campanha eleitoral?

Adiar ou manipular dados por razões políticas é prática que levaria o Brasil ao mesmo descrédito internacional de sua vizinha Argentina. Oxalá não seja esse o ânimo que move os responsáveis pela divulgação de estatísticas tão importantes para setores como a educação.

O conto do horário premiado - NELSON MOTTA

O GLOBO - 05/09

A essas alturas, talvez os estrategistas dilmistas estejam questionando o tempo, dinheiro e cargos que gastaram para conseguir 12 minutos na propaganda eleitoral



Cerca de 30 milhões de pessoas estão vendo o horário eleitoral na TV aberta, informa o Ibope. Mas quase metade diz que vê “sem nenhum interesse”, um terço diz que tem “um pouco” de interesse, e só 20%, cerca de seis milhões de eleitores, entre uma garfada e outra, estão prestando alguma atenção às pirotecnias e armadilhas publicitárias dos filmes que custam fortunas e são os maiores gastos das campanhas.

Mas, além das maiores despesas, os filmes para TV são sempre as maiores esperanças das campanhas, “vocês vão ver quando entrar o horário eleitoral, vamos poder mostrar o que fizemos” ou “com o horário eleitoral vão me conhecer melhor e saber minhas propostas de mudanças”.

A essas alturas, talvez os estrategistas dilmistas estejam questionando o tempo, dinheiro e cargos que gastaram para conseguir 12 minutos no horário eleitoral. Sem falar no que custa produzir esses 12 minutos por dia, embora dinheiro não seja o problema da campanha. Tudo isso só para reiterar a esses seis milhões, nas faixas de menor escolaridade e renda, que o Bolsa Família vai continuar, que Dilma é sua pastora e nada lhes faltará?

Não é muito caro para chover no molhado? Não estão pagando cada vez mais e fazendo maiores bandalhas por um tempo que vale cada vez menos?

Será que só os spots de 30 segundos, que são vistos por todos os segmentos sociais durante a programação, serão capazes de decidir o jogo e justificar seu preço? Há controvérsias. Além dos 60 milhões que assistem à TV por assinatura, todo mundo está ligado na internet, as redes sociais são incontroláveis. Será que vale a pena pagar tropas digitais para virarem dia e noite trolando ofensas, difamações e slogans nas redes e pregando para convertidos? Todos já sabem: nem tudo que cai na rede é pixel.

Se Marina for ao segundo turno com dois minutos de TV, produzidos com alguns trocados, ou se vencer a eleição, esse formato do horário eleitoral gratuito, que virou moeda de troca dos partidos ao custo de 700 milhões de reais ao contribuinte, estará com os minutos contados na reforma eleitoral que a sociedade está exigindo.

O que se espera de Marina - JOÃO MELLÃO NETO

O ESTADÃO - 05/09


Aconteceu o que ninguém esperava. Com a inesperada morte de Eduardo Campos, a candidata a vice em sua chapa, Marina Silva, assumiu a vaga do ex-governador de Pernambuco e com isso embaralhou todos os prognósticos até então existentes sobre a sucessão presidencial.

Nesse aspecto, o único órgão de imprensa que acertou o futuro próximo nem sequer é brasileiro. Trata-se do Financial Times, da Inglaterra. Em sua edição eletrônica - redigida no calor da hora -, seus editores ousaram afirmar que a morte de Campos traria consequências imprevisíveis para o quadro sucessório brasileiro. Todos nós, ainda discutindo as circunstâncias do fatídico acidente, lemos a manchete do jornal britânico com ceticismo. No que, afinal, o falecimento de Eduardo Campos poderia afetar as eleições brasileiras? Campos estava em terceiros lugar nas pesquisas de intenção de voto e sua posição parecia já consolidada. Não havia nenhum fato que o fizesse superar a linha dos 10%.

Naquela altura ninguém pensou no fator Marina. Havia até mesmo quem acreditasse que, ainda que fosse convidada, ela dificilmente aceitaria ser candidata na vaga deixada por Eduardo Campos. Novamente todos subestimaram a sua tenacidade. Mas bastava que se dessem ao trabalho de reler a sua biografia para constatarem que a carreira de Marina Silva demonstrava ainda mais resiliência e espírito de superação que a do próprio Lula.

O ex-presidente apaixonou-se por sua própria história e se vendeu ao mundo como exemplo de sucesso e vitória contra as adversidades. Nem Lula teria percebido que a trajetória de Marina era ainda mais épica que a dele. Ambos nasceram pobres e desesperançados. Mas enquanto Lula fazia carreira no sindicalismo, Marina tratou de estudar - formou-se em História na Universidade Federal do Acre e especializou-se em Teoria Psicanalítica e em Psicopedagogia na Universidade de Brasília.

Quando foi nomeada ministra do Meio Ambiente, no governo Lula, entrou em conflito aberto com a então também ministra Dilma Rousseff por questões ambientais. A essa altura, era senadora eleita pelo Estado do Acre e ao Senado voltou depois de ter apresentado a sua carta de renúncia ao presidente. Jamais abriu mão de suas convicções, o que lhe tem garantido prestígio internacional. Também, ao que se sabe, ninguém ligado a ela se envolveu em escândalos como o do mensalão e, aos olhos de seus eleitores (34%, segundo o Instituto Datafolha), isso lhe garante uma imagem de quem "não rouba nem deixa roubar".

Quanto à eventual equipe de governo de Marina, sobressaem nomes como André Lara Rezende, um dos formuladores do Plano Real, e Eduardo Gianetti da Fonseca, economista que se destaca como sendo um dos melhores do Brasil, segundo a opinião de muitos.

Esta semana surgiram nos jornais especulações sobre uma possível volta de Lula para disputar a Presidência da República no lugar de Dilma. Até agora ele tem relutado a aceitar a ideia, embora o prazo para fazê-lo vá até 15 de setembro, de acordo com a legislação. Para Lula, essa seria uma aposta arriscada, pois implicaria pôr o seu inegável prestígio em jogo: se ganhasse, seria uma vitória humilde; se perdesse, uma derrota humilhante. Enquanto isso, ele aguarda...

O choque de honestidade que os eleitores esperam de Marina, em caso de vitória, significará defenestrar dezenas de milhares de pessoas do serviço público, em especial das empresas estatais. O fato é que o PT empregou à vontade gente não qualificada, em prejuízo do bom funcionamento da máquina pública. Calcula-se o número desses "militantes profissionais" em, no mínimo, 20 mil. É gente eficiente para organizar passeatas, mas incapaz de organizar governos. No mercado de trabalho privado não existe colocação para "profissionais" desse tipo. É por isso que todos temem a eventual derrota de Dilma. Trava-se um desesperado diálogo entre os pescoços e a guilhotina.

A vitória de Marina, no entanto, não representa nenhuma garantia de sossego e paz. Basta-lhe ter uma recaída e voltar-se para seu "alter ego de fada do bosque" para criar encrencas que ela nem imagina. Por exemplo, com o agronegócio, que é hoje a principal fonte de renda do Brasil e o único setor produtivo em que nosso país compete com vantagens com a concorrência estrangeira. Querer mexer com isso, na vã imaginação de ser possível reflorestar todo o território nacional, é um mau negócio, representa um tiro no pé para a nossa economia. Os ideais "sonháticos" de que Marina tem falado tampouco são exequíveis ou viáveis.

Marina Silva representa hoje mais uma aspiração do que uma realidade concreta. Ela mantém a sua popularidade menos pelo que promete e mais pela repulsa a Dilma, que, além de todas as atitudes erradas que tomou, está literalmente se liquefazendo por um problema de "fadiga de material". O povo que foi às ruas em junho do ano passado, embora em muito instigado pelo próprio PT, saiu de casa motivado pelo desejo de "mudanças". Embora ninguém saiba ao certo que mudanças seriam essas, todos concordam que como está não dá mais. Dilma, mesmo que recauchutada, está longe de representar uma mudança, por menos significativa que seja. As pessoas, agora, estão vendo em Marina o símbolo da mudança.

Eu ainda prefiro não me envolver com ideais utópicos e discursos inspiracionais. Confio mais em preparo e experiência. Mas o que se há de fazer? É o povo que haverá de decidir. E o povo, certo ou errado, é a última instância da vontade coletiva.

Como desfecho, lembro-me agora de um pensamento que li num livro antigo, cujo teor anotei porque muito me impressionou: "Um país assim, que ria das roubalheiras oficiais; que achava graça nas vigarices governamentais; não haveria de aceitar, sem incômodo e sem dor, uma passagem violenta para a moralidade no trato do dinheiro público, do direito de cada um e nos deveres de todos".

Dilma e Marina não decantam - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 05/09


BRASÍLIA - Numa eleição tão destrambelhada, um dado tem grande significado: a desconexão entre a eleição presidencial e as eleições estaduais. A presidencial parece definitivamente embicada para o PT e o PSB, mas os dois não estão surfando nessa onda nos Estados.

O PT atolou nas pesquisas de intenção de voto em São Paulo e no Rio, dois dos três maiores colégios eleitorais. E, se está na dianteira em Minas, o candidato tucano está crescendo, e o segundo turno será pauleira, com resultado imprevisível.

Ainda sobre o PT de Dilma: não consegue liderar nem mesmo onde já tem a máquina e disputa a reeleição ou a manutenção nos palácios. Os governadores petistas ou seus candidatos na Bahia, no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul estão levando um suadouro dos adversários.

E o PSB? Fora do jogo em São Paulo, Rio e Minas, só tem praticamente a comemorar a disparada do seu candidato em Pernambuco. Também, só faltava essa. Trata-se do Estado de Eduardo Campos, que foi não apenas campeão de votos, mas o governador mais aprovado e vive seu momento mito após a morte recente.

Já o PSDB vive uma situação inversa à dos dois partidos hoje favoritos para subir a rampa do Planalto. Apesar de empurrados para o terceiro lugar das eleições presidenciais, os tucanos têm boa chance de vencer no principal Estado da Federação, que é São Paulo, já no primeiro turno.

Mesmo estando em segundo lugar, não podem ser menosprezados em Minas, onde a polarização PT-PSDB insiste, apesar de não estar sobrevivendo para a eleição presidencial. E, no Paraná e em Goiás, por exemplo, uma boa aposta é a reeleição dos governadores tucanos.

Nessa barafunda, só não há uma surpresa: vem PSDB, vai PSDB; vem PT, ameaça ir-se o PT; e lá está o velho PMDB de guerra. Devagar e sempre, caminha para a vitória no Rio e não está fazendo feio em São Paulo. Ganhar a eleição é improvável, mas já venceu o PT. É um bom troféu.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Vamos multiplicar a nossa presença em Minas’
Aécio Neves (PSDB), sinalizando que pretende se dedicar mais à campanha em Minas



PT PODE SER ‘VARRIDO’ DOS ESTADOS QUE GOVERNA

O PT vive maus bocados. Como se não bastasse Marina (PSB) dando um calor na nuca de Dilma (PT), na corrida presidencial, as pesquisas mostram chances modestas para candidatos petistas nos estados. Há o risco de o PT ser “varrido” de quase todos os governos estaduais que o partido conquistou. Dos cinco governadores eleitos pelo PT em 2010, apenas Tião Viana, do Acre, tem chances reais de vitória no 1º turno.

BATALHAS ÁRDUAS

Estão atrás nas pesquisas os candidatos à reeleição Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, e Agnelo Queiroz (DF), no Distrito Federal.

A VOLTA DO CARLISMO

Na Bahia, governada pelo PT, o petista Rui Costa tem 15%, segundo o ultimo Ibope, contra eloquentes 44% do adversário Paulo Souto (DEM).

SEM CANDIDATO

Em Sergipe, com o falecimento de Marcelo Deda, o PT nem disputa o governo. Jackson Barreto (PMDB), atual governador, tenta a reeleição.

APOSTAS ERRADAS

Grandes apostas do PT, os ex-ministros Alexandre Padilha, em São Paulo, e Gleisi Hoffman, no Paraná, patinam em 3º lugar.

ARRUDA ADOTA ESTRATÉGIA DE ‘CUTUCAR’ MAGISTRADOS

Candidato ao governo do DF à frente nas pesquisas, mas “pendurado” na Justiça, José Roberto Arruda (PR) gosta de cutucar magistrados que julgam seus processos. Primeiro, tentou desqualificar o juiz Álvaro Ciarlini, que o condenou por improbidade, mas perdeu no Tribunal de Justiça. Ontem, tentou afastar o ministro Napoleão Nunes da relatoria de processo contra ele no Superior Tribunal de Justiça. Perdeu de novo.

COMO PEIXE

Tem gente que “morre” como peixe: pela boca. Dias atrás, um vídeo mostrou Arruda contabilizando votos de ministros no TSE. Pegou mal.

JULGAMENTOS

Arruda enfrentará julgamentos no STJ e no Tribunal Superior Eleitoral, na próxima semana, que definirão seu futuro.

CHANCE

Se conseguir anular a sentença de primeira instância por improbidade, Arruda terá chance de reverter seu enquadramento na Lei Ficha Suja.

CHEIRO DE DERROTA

Lula já não sabe o que fazer para melhorar o desempenho do PT, Brasil afora. Está feia a coisa. Ele vem socorrendo campanhas petistas nos estados, inclusive com sacrifício pessoal, mas isso não tem sido suficiente para afastar o que ele chama de “cheiro de derrota”.

CANDIDATO LULA

Marina deixou mesmo o PT desnorteado. Ontem, o partido trombeteava em Pernambuco: “Hoje é dia de vermelho: tem Lula em Petrolina!” Com direito ao jingle “Lulalá”, de 1989. Sobre Dilma, nada.

INTENSIVÃO

Dilma e o ministro Guido Mantega (Fazenda) receberam ontem o brasileiro Artur Ávila, ganhador da Fields Medal, Nobel da Matemática. Boa chance para aprender a fazer contas de somar e multiplicar.

TEM DE TUDO

O ministro Luís Roberto Barroso (STF) dava aula sobre “Judicialização da Política” para alunos da Faculdade de Direito da USP, e arrancou gargalhadas ao afirmar que “a Constituição brasileira só não traz a pessoa amada em três dias, mas, fora isso, quase tudo está lá”.

MULTIPLICADOR DE VOTOS

Orgulho de Alagoas, onde já fez quase 30 mil cirurgias do coração, incluindo dezenas de transplantes, o ex-governador José Wanderley Neto, é o “cabo eleitoral” mais ambicionado pelos políticos, no estado.

NÃO SE EMENDAM

As vendas de automóveis “nacionais” continuam despencando, mas as montadoras insistem em não reduzir seus preços, tampouco melhorar a qualidade dos produtos. Preferem apostar em nova renúncia fiscal.

OUTRO ESCÂNDALO

A ação de despejo do Sesc-RJ contra Senac-RJ tem sido interpretada como manobra para justificar o projeto de nova sede que, orçada em R$ 120 milhões, vai virar um escândalo até pelo seu perfil faraônico.

OUTRA MORTE

Na último domingo o Sindicato dos Policiais Federais confirmou a morte do agente da Polícia Federal Marcelo Clay Chen. Segundo relatório, Chen se enforcou em casa. É o 16º suicídio na PF nos últimos anos.

TUCANO E ANTA ABATIDOS

Piada na internet: “Marina Silva poderá ficar inelegível! É que, segundo o Ibama, ela abateu um tucano e liquidou uma anta em uma semana”.



PODER SEM PUDOR

LONGE É MELHOR

Jânio Quadros só perdeu no Maranhão, na disputa presidencial de 1960, contra Henrique Teixeira Lott, graças ao apoio que o pesadíssimo marechal recebeu do cacique Vitorino Freire. Um pouco antes da eleição, um repórter perguntou a Vitorino:

- Há perigo de o Jânio ganhar no Maranhão?

Ele não precisou pensar muito para responder, convicto:

- Perigo, existe. Basta que o Lott volte duas vezes ao Maranhão.

Não voltou, e venceu.

quinta-feira, setembro 04, 2014

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

DELAÇÃO DE EX-DIRETOR TIRA O SONO DOS POLÍTICOS

A expressão fechada dos principais líderes do Congresso, ontem, não tinha relação com a campanha eleitoral, tampouco com a pauta de votações do “esforço concentrado”. Eles estão na expectativa dos depoimentos, já iniciados, do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa ao Ministério Público Federal (MPF), em Curitiba, delatando muitos figurões da política, na tentativa de obter redução de pena.

OS DOIS PRIMEIROS

Circulou ontem que Paulo Roberto faz depoimentos minuciosos, por enquanto concentrados em dois importantes senadores, não revelados.

PROPOSTA SOB EXAME

Somente depois de Paulo Roberto Costa contar o que sabe é que o MPF avaliará a proposta de “delação premiada” feita pelo ex-diretor.

NINGUÉM VAI SABER

Delação premiada pressupõe sigilo absoluto, até mesmo sobre o fechamento ou não do acordo com o MPF, autorizado pela Justiça.

ACERTO DE CONTAS

Figurões dizem temer algum “acerto de contas” de Paulo Roberto Costa, com acusações sem provas, mas suficientes para destruí-los.

MARINA SILVA PODE LEVAR O LENDÁRIO PRC AO PODER

A eventual vitória de Marina Silva em outubro representaria a chegada ao poder do lendário Partido Revolucionário Comunista (PRC), onde a hoje candidata do PSB militou ao lado do ambientalista Chico Mendes. O PRC viu eleitas prefeitas em Fortaleza, Maria Luiza Fontenelle e Luizianne Lins, filiadas oficialmente ao PT, e o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), além do governador gaúcho Tarso Genro (PT).

TEM MENSALEIRO

Outro ilustre membro do PRC é o ex-deputado José Genoino, que até presidiu o PT e hoje cumpre pena por integrar a quadrilha do mensalão.

ASSASSINATO

O PRC voltou a ser lembrado após o achamento, dias atrás, dos restos do militante Epaminondas Oliveira, 68, torturado e morto pelo Exército.

FINANCISTAS OTIMISTAS

O fenômeno Marina Silva foi registrado no Bank of America, que em relatório atribui a ela a melhoria da expectativa externa para o Brasil.

TIRO DE INQUIETAÇÃO

Petistas espalham em Roraima que “articularam” operação da Polícia Federal para desgastar o governador Chico Rodrigues (PSB), que disputa a reeleição, e dar força a Ângela Portela (PT), em 3º. Outro candidato, Neudo Campos (PP), ficha suja, deve ser impugnado.

AÇÃO BIZARRA

O interventor do Sesc-RJ move ação de despejo contra o irmão-gêmeo Senac-RJ. É uma jogada para tentar fragilizar seu presidente, Orlando Diniz, opositor de Antônio Santos, carrapato agarrado à presidência da confederação do comércio (CNC) há 33 anos, e patrão do interventor.

O MÉTODO DA KGB

Em 1986, a KGB encontrou uma maneira de fazer do Hezbollah parar de sequestrar diplomatas russos: prendia e castrava familiares dos terroristas, e enviava os órgãos genitais aos familiares. Santo remédio.

OLHO NO BOLSO

Em oposição à reforma nos seguros de saúde de Barack Obama nos EUA, a Wal-Mart lançou as “Care Clinics”, postos de saúde dentro das lojas, cobrando US$ 4 de funcionários e US$ 40 para clientes.

PERGUNTA NA ARQUIBANCADA

Será que o Fluminense vai recorrer ao amigo Tapetão para herdar a vaga do Grêmio, que foi excluído da Copa do Brasil como punição pela atitude racistas de torcedores?

LULA VS. JOAQUIM

Em dois dias, o ex-presidente Lula conseguiu 10,5 mil seguidores no Twitter, ritmo bem menor que o do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa, que ganhou 10,9 mil seguidores na metade do tempo..

QUE ACORDO?

Somente o Brasil adotou (apressadamente) o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor há vinte meses. Portugal o rejeita e os demais países lusófonos relutam. O fracasso parece inevitável.

DEVERIA SER FERIADO

Em 4 de setembro de 1998, portanto há 16 anos, era criada na internet, nos Estados Unidos, a ferramenta que rapidamente se tornou imprescindível e hoje ninguém vive sem ela: a página de buscas Google.

A ESCOLHA DE MARINA

Marina diz que fará parte do que fez FHC e parte de Lula. Se imitar o segundo governo de FHC e o primeiro de Lula, será um desastre.


PODER SEM PUDOR

MEMÓRIA CURTA

Foi uma surra memorável. Candidato a vice-governador na chapa de Virgílio Távora em 1958, o ex-prefeito de Fortaleza Acrísio Moreira da Rocha não tinha o direito de esquecer aquela sova cívica. Mas esqueceu. Anos depois, numa entrevista, ele garantiu que jamais havia sido derrotado nas urnas.

- E a eleição de 58? - insistiu o repórter inconveniente.

Acrísio não perdeu a pose:

- Como é que eu poderia ganhar levando nas costas um piano pesado como Virgílio? Nem se fosse guindaste...

À margem da campanha eleitoral - EVERARDO MACIEL

O ESTADÃO - 04/09


A campanha eleitoral deste ano já nos permite extrair algumas ilações: o modelo de propaganda eleitoral, que torna caras as campanhas e faz a fortuna dos marqueteiros, parece esgotado, pois a população já não atura mais clichês, truísmos, excentricidades, rimas pobres e discursos vazios; a democracia não pode conviver com uma miríade de partidos políticos (32) constituídos quase sempre com o objetivo de angariar recursos do Fundo Partidário e de negociar tempo para a propaganda eleitoral, e registrados no pouco plausível pressuposto de que receberam o apoiamento mínimo (hoje, 491.656 eleitores, com registro em pelo menos 9 unidades federativas, contando em cada uma delas com o apoio correspondente a, no mínimo, 0,5% dos votos válidos na última eleição para a Câmara dos Deputados). Também a qualidade da maioria dos candidatos é deplorável, além dos apelidos ridículos e da imprópria referência à atividade profissional ou à confissão religiosa do candidato.

As preferências nos pleitos majoritários têm sido formadas a partir de matérias, inclusive debates, veiculadas pela mídia, discussões nas redes sociais e uma espécie de sentimento difuso que perpassa a sociedade, correspondendo a uma insatisfação generalizada, ainda que não tão recente, com a política, os serviços públicos e a economia.

Não temos a tradição de realizar discussões substantivas sobre temas que interessam à sociedade, à exceção de algumas iniciativas patrocinadas por grupos organizados.

É certo que seria difícil de tratar alguns temas durante a campanha eleitoral, em virtude de sua complexidade ou delicada sensibilidade, a exemplo das questões decorrentes do mal assimilado processo de urbanização no Brasil e dos problemas de uma juventude massacrada por apelos consumistas e hedonistas.

O Brasil, em cinco décadas, deixou de ser majoritariamente rural para converter-se num país francamente urbano, com 85% de sua população residindo nas cidades. A despeito disso, continuamos a cultuar a agenda caduca da reforma agrária, em franco contraste com o sucesso de um agronegócio altamente tecnológico e competitivo.

A intensa urbanização gerou deseconomias de aglomeração, traduzidas pela precariedade da mobilidade urbana e do saneamento, e mal atendidas demandas por serviços públicos de educação e saúde.

Essas questões jamais poderão ser resolvidas com a atual estrutura federativa. É preciso conceber uma nova forma de repartição dos encargos públicos e articulação intergovernamental. Para tal, é necessário investir em modelos de cooperação e construir paradigmas que possam ser replicados. Certamente, esse caminho não passa pela distribuição de recursos por meio de emendas parlamentares e ministérios das cidades ou equivalentes.

Impressiona muito a desatenção com a juventude. Segundo o IBGE, 1 em cada 5 jovens de 15 a 29 anos nem estuda nem trabalha. São os nem-nem, sem presente e, talvez, sem futuro.

A tragédia das drogas não é suficientemente discutida e muito menos cuidada. Qualquer pessoa provida de mínima sensibilidade fica perplexa com as "cracolândias" de São Paulo.

Uns defendem a liberalização do consumo da maconha, no propósito de enfraquecer o tráfico, esquecendo que existem outras drogas. Outros postulam, mais ousadamente, a liberalização de todas as drogas, confiando em que os traficantes ingressarão num programa de ressocialização ou na vida monástica. Há, ainda, os que entendem que a formalização do mercado de drogas geraria receitas tributárias. Estes desconhecem os fenômenos da sonegação, do contrabando e do descaminho, sem falar de uma improvável e patética discussão, no Conselho de Política Fazendária, sobre a alíquota efetiva e a substituição tributária aplicáveis às drogas.

É óbvio que não se deve criminalizar o consumo de drogas. O País carece, entretanto, de uma política pública de drogas que propicie tratamento digno ao usuário e prevenção do uso.

Em outro artigo, tratarei das eleições e a reforma tributária.-margem-da-campanha-eleitoral-imp-,1554550

quarta-feira, setembro 03, 2014

Bismarck, Pedro II e Lula - GASTÃO REIS RODRIGUES PEREIRA

O ESTADÃO - 03/09

Karl Popper, um dos maiores pensadores do século 20, em célebre conferência proferida em agosto de 1982, em Alpbach, na Áustria, nos fala de três mundos. O primeiro é o mundo físico, dos corpos e dos estados, eventos e forças físicas. O segundo é o psíquico, das vivências e dos eventos inconscientes. E o terceiro é o que abarca os produtos do espírito humano, tais como livros, sinfonias, esculturas, sapatos, aviões, computadores, etc. Para ele, este último é o que nos diferencia no mundo animal. Só nós, os humanos, conseguimos "verificar nossas próprias teorias quanto à sua verdade por meio de argumentos críticos". Trata-se da nobre função argumentativa da linguagem: cré com cré e lé com lé, na expressão popular.

Quando pensamos em figuras como Bismarck e Pedro II, salta aos olhos o fato de se sentirem inteiramente à vontade neste mundo 3 de Popper, onde impera o registro escrito de ideias e fatos. Quanto a Lula, é evidente a sua falta de familiaridade com tais proezas da mente devidamente treinada, aquela que não sente sono ao ler um bom livro, como já confessou candidamente o próprio ex-presidente.

O que teria, então, Lula a aprender nesse domínio com figuras como o chanceler alemão Otto von Bismarck e o nosso Pedro II, além de compostura e respeito no trato do dinheiro público? Muita coisa. Mas antes cabe mencionar sua desinformação e sua falta de modéstia. É mais que reveladora sua língua solta ao se jactar de ter chegado à Presidência sem estudar. E seu conhecido pouco apetite de ler um livro e aprender com quem sabe mais do que ele até mesmo em benefício próprio, do País e do seu tão caro (caríssimo para nosso bolso!) PT. Apenas pensar dessa forma (iletrada) já seria temeroso, mas dizer isso em público é inaceitável pelo efeito deletério na cabeça da juventude, já tão sem referenciais pelos quais se pautar. Em especial num país que perdeu o rumo em matéria de ética na vida pública. Afinal, que país chegou ao pleno desenvolvimento "pensando" desse modo?

Nessa linha, vem a propósito uma citação de Bismarck: "Com leis ruins e funcionários bons ainda é possível governar. Mas com funcionários ruins as melhores leis não servem para nada". O que Bismarck não previu e Lula implementou, ajudado por Dilma, foi a maquiavélica combinação de leis ruins com funcionários piores ainda. A proposta de emplacar os conselhos populares e os inúmeros cargos comissionados (e como!) por companheiros da pior qualidade exemplificam bem esse estratagema pernicioso. Poderia também ter aprendido com Lincoln a máxima de que ninguém engana todos o tempo todo. A diferença é que o lenhador americano que chegou à Presidência dos EUA nunca se descuidou de se educar e ler muito. E ainda deu uma resposta de imenso significado humano ao senador oposicionista que fez questão de lembrar-lhe, no dia de sua posse, que era filho de um simples sapateiro: "Agradeço, senador, ter me lembrado do meu saudoso pai neste momento. Torço para que eu tenha a mesma competência dele como presidente como ele a teve em seu oficio de sapateiro". Estivesse onde estivesse, o pai de Lincoln muito se orgulharia dessa resposta. Já à dona Lindu, dadas as circunstâncias atuais de grossa bandalheira, restaria enrubescer de vergonha...

No plano institucional da preservação da democracia e da liberdade de pensamento e de expressão (pobre funcionária do Santander!), a visão de Pedro II em relação à imprensa lhe faria muito bem, se tivesse lido um pouco mais. Para Pedro II, a imprensa se combate com a própria imprensa. Ou seja, é o livre trânsito das ideias e da informação que fará a verdade vir à tona. Mais de um século depois, Lula ainda não aprendeu a lição, haja vista as repetidas tentativas, vale reiterar, de aprovar a lei de controle social dos meios de comunicação. Embarcou na canoa furada de que a verdade nada mais é do que a verdade da classe social que está no poder, como propagava Gramsci, o teórico comunista italiano. Lula ainda se vangloria de ter aprendido com Marx, por certo de orelhada, que a luta de classes é o motor da História. Pelo jeito, não se deu conta de todo que é a colaboração inteligente entre classes sociais que leva ao pleno desenvolvimento não só material, como espiritual.

Muito já foi dito sobre a demora de 20 a 30 anos das novas ideias em aportar no Brasil e mesmo na América Latina. Muito mais precisa ser dito sobre a lentidão com que nos livramos das ideias carcomidas do pensamento ideológico, aquelas que tendem a levar países inteiros à bancarrota. Além do que ocorre com a Venezuela e Cuba, outro triste exemplo são as livrarias de Buenos Aires, talvez a única grande capital do mundo onde textos marxistas ainda as inundam. Pelo que se sabe, os argentinos leem mais do que nós, mas estão lendo a coisa errada. Será que tomaram conhecimento da guinada da ex-URSS e da China em direção à economia de mercado?

Bismarck e Pedro II sabiam, como estadistas que eram, que a política e as políticas públicas precisam ser conduzidas com visão de longo prazo. Quando os interesses escusos de curto prazo predominam, é certo que a coisa vai desandar, como está ocorrendo. Basta ler os jornais e as revistas. Ou ir ao supermercado conferir os preços. Forças da sociedade civil organizada, intelectuais, artistas de renome, dentre muitos, vêm, cada vez mais, se afastando do PT. O que restou foi gente condenada pelo mensalão, outros (muitos) encastelados no aparelhamento do Estado e os que não querem ver a malversação atroz do dinheiro público. Lula, Dilma e o PT ficaram tão espertos politicamente que é difícil diferenciá-los dos Sarneys e Malufs da vida. Karl Popper nos alerta que o fundamental é que um mau governo dure pouco. Um regime parlamentarista bem estruturado nos teria livrado dos governos que já acabaram, mas continuam, como o de Dilma, porque o mandato ainda não terminou.

domingo, agosto 31, 2014

Recessão e outros problemas no palanque de Dilma - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 31/08


A retração da economia no primeiro semestre se torna mais grave quando se constata que, no segundo trimestre, houve grande queda nos investimentos


Se fosse possível, os responsáveis pelas campanhas de Dilma e Aécio eliminariam do calendário a semana que passou. Não teriam a má notícia da lépida subida de Marina Silva na última pesquisa do Ibope, confirmada na noite de sexta pelo Datafolha. E a presidente e candidata à reeleição, em particular, escaparia do dissabor de manchar a biografia com a primeira recessão da economia brasileira desde o último trimestre de 2008. A queda de 0,6% do PIB no segundo trimestre em relação ao primeiro — quando já houve uma retração de 0,2%, numa sequência que configura a recessão — consolida, por enquanto, a expectativa do mercado de que a economia não deve conseguir crescer sequer 1% este ano.

“Recessão” é termo forte, de fácil exploração política. Mas estão no palanque de Dilma vários outros problemas, nem todos de fácil entendimento, mas nem por isso menos espinhosos. A baixa confiabilidade do governo Dilma se expressa na queda de 5,3% dos investimentos, no trimestre, também calculada pelo IBGE. É nítida a postura de “esperar para ver” do empresariado neste ano eleitoral.

Há problemas semeados pelo próprio governo. Um deriva da decisão de Dilma/Mantega de manter valorizado o real, para segurar uma inflação renitente. Para isso, o Banco Central executa as tais operações de “swaps”, pelas quais oferece dólares com compromisso de recompra futura. Não gasta o dólar físico das reservas — bastante altas, em mais de US$ 300 bilhões —, mas assume bilionários compromissos futuros. O saldo líquido dessas operações, no momento, seria de US$ 90 bilhões. Tudo isso faz a alegria de especuladores, que realizam a seguinte arbitragem, em explicação simplificada: financiam-se lá fora a juros muito baixos, pegam o dólar e o vendem no “spot”; com os reais, adquirem títulos no Brasil que rendem 11% ao ano. Fazem ainda “hedge” para garantir dólares a uma determinada cotação, num determinado prazo. E toda essa ciranda quase não tem risco porque o BC evita a desvalorização do real, com os “swaps”. Consta que muitos dos bilhões que entram hoje como “investimento externo direto” de multinacionais vêm, na verdade, participar desta ciranda. Eis porque, numa economia em recessão, bilhões de dólares chegam como se fossem investimento. E cuja taxa continua baixa, em relação ao PIB (14%).

Trata-se de uma manobra que não pode durar muito, até porque o Fed está prestes a anunciar que voltará a subir os juros nos EUA. Isso deflagrará mais uma onda de desvalorização de moedas, e o nosso BC não poderá enfrentar essa queda de braço cambial. Na verdade, os “swaps” são mais um puxadinho de política econômica. E com efeitos contraditórios: seguram artificialmente a inflação, junto com o congelamento de tarifas, mas desestimulam as exportações de manufaturados, já com dificuldade de competição por problemas de infraestrutura, burocracia, etc. Dilma e assessores devem torcer para chegar logo outubro.

A derrota de Dilma - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 31/08


BRASÍLIA - Ganhe ou perca a reeleição, Dilma Rousseff não escapa mais de uma derrota no seu primeiro mandato: na economia. Não foi por falta de aviso. Até Lula alertou.

Enquanto Dilma usa a propaganda de TV, debates e entrevistas para falar de programas pontuais, como o Pronatec, que qualquer gerente faz, a economia brasileira continua dando uma notícia ruim atrás da outra.

O desafio da oposição não é bater na tecla de PIB, controle fiscal e contas externas (a maioria das pessoas nem sabe o que é isso), mas ensinar que não se trata só de números nem atinge só o "mercado" e a "elite". Afeta o desenvolvimento, a indústria, os investimentos, a competitividade e, portanto, a vida de todo mundo e o futuro do Brasil.

O super Guido Mantega, que sempre prevê PIBs estratosféricos e acaba se esborrachando com os resultados, conseguiu adicionar uma pitada de ridículo nas novas notícias ruins. Na quinta (28), ele disse que os adversários de Dilma levariam o país "à recessão". Na sexta (29), o governo anunciou que o risco já chegou: o recuo da atividade econômica pelo segundo trimestre consecutivo caracteriza... "recessão técnica". Ou "herança maldita", segundo Aécio. Não há Pronatec que dê jeito...

Para piorar as coisas, vamos ao resultado fiscal anunciado na mesma sexta: o governo federal (Tesouro, BC e INSS) teve o maior rombo do mês de julho desde 1997. A presidente candidata anda gastando muito.

Passado o trauma da morte de Eduardo Campos e assimilada a chegada triunfal de Marina Silva, a economia retoma o centro do debate eleitoral. Não há uma crise, mas há má gestão. Como Campos dizia, Dilma é "a primeira presidente a entregar o país pior do que encontrou".

Dilma e Mantega culpam o cenário internacional. Marina, rumo à vitória, e Aécio dizem que não é bem assim e apontam quem vai arranhar o joelho, cortar o cotovelo e talvez machucar a cabeça se a economia for ladeira abaixo. O eleitor, claro.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Vai ser como massa de pão: quanto mais baterem, mais ela sobe’
Deputado Júlio Delgado (PSB-MG), otimista com os números de Marina nas pesquisas


APRESENTAR PRESO AO JUIZ EM 24H PREJUDICA O RÉU

O projeto de lei do Senado, que obriga a apresentação de presos em flagrante a um juiz, no prazo máximo de 24h, é no mínimo impraticável, por atentar contra o direito de defesa do réu, além do “incomensurável custo de deslocamento”, segundo entendimento de pelos menos duas entidades que representam os profissionais envolvidos no assunto: as associações de Magistrados do Brasil (AMB) e de Delegados (Adepol).

CHOVENDO NO MOLHADO

Relator, o senador Humberto Costa (PT-PE) nem percebe que o projeto é inócuo: prisões já são notificadas imediatamente ao juiz e à família.

IMPRATICÁVEL

Em julho, se essa lei existisse, só em São Paulo seriam necessárias mais de 350 audiências por dia com juízes, para apresentar presos.

PERNAS CURTAS

Entidades de juízes e delegados negam que a Convenção de Direitos Humanos determine apresentação ao juiz em 24h, como diz o projeto.

SÓ UM FACTOIDE

No Senado, o projeto é recebido com reservas pela estranha pressa da ministra Ideli Salvatti (Direitos Humanos), ansiosa por uma “bandeira”.

MARINA ‘BOMBA’ EM PESQUISAS E NAS REDES SOCIAIS

Nas pesquisas e nas redes sociais, os eleitores mal conseguem esconder o encantamento pela candidata do PSB a presidente, Marina Silva. Além da pesquisa Datafolha de sexta-feira, que aponta seu crescimento estonteante, ela lidera os números nas redes sociais. Sua página oficial no Facebook, de longe a mais acessada nos últimos dias, acumulou quase 700 mil “curtidas” desde a morte de Eduardo Campos.

ATÉ NO TWITTER

Marina (PSB) e Dilma (PT) são mencionadas no Twitter entre 30 e 60 vezes por hora. Já Aécio (PSDB) não passa de dez menções.

FENÔMENO

No Facebook, Marina rivaliza com grandes páginas da rede: acumulou 280 mil likes na última semana. A página oficial do Barcelona, 400 mil.

DECEPÇÃO

O ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa prometeu barbarizar no Twitter, mas até agora tem só 30 mil seguidores.

TRAIÇÕES A GALOPE

Perplexos com o crescimento da candidatura de Marina Silva, agora empatada em primeiro lugar nas pesquisas com Dilma Rousseff, petistas ilustres já começam a buscar “convergências” com ela.

DIFERENÇAS

Marina foi chamada de “Lula de saias” por José Dirceu, até porque sua trajetória é semelhante à do ex-presidente, mas só na origem humilde. Ela aprendeu a ler só aos 16 anos de idade, mas, além disso, e ao contrário de Lula, tomou gosto pelos estudos e pela leitura.

É BRASIL, MARINA

Quando lhe contaram, sexta-feira, que tinha 34% no Datafolha, empatando com Dilma, Marina Silva achou que os números se referiam somente a São Paulo. “É Brasil?”, exultou. Mal acreditava.

PROJETOS DE PRESIDENTE

O votenaweb.com.br, que avalia o trabalho de políticos, classifica Aécio (PSDB) como o de melhores projetos entre os presidenciáveis, 88% de aprovação. Dilma, 82%. Marina teve só dois projetos no Senado.

ESFORÇO DESCONCENTRADO

Apesar do número de sequestros-relâmpago disparar em todo o País, está parado na Câmara o projeto 6.726, que autoriza as operadoras a informar a localização de celulares às polícias, mediante requisição.

FAZ SENTIDO

O site da Secretaria Geral da Presidência foi infectado por um vírus. Ao ser acessado, o domínio www.secretariageral.gov.br é congelado, com o aviso: “invasores podem estar roubando suas informações”.

OBSTRUÇÃO À VISTA

Na pauta do “esforço concentrado” da primeira semana de setembro está prevista a votação, na Câmara dos Deputados, do projeto que anula a criação dos “conselhos populares”. O PT promete obstruir.

PROMESSA É DÍVIDA

De 2007 a 2013, o governo federal diz ter investido R$ 9 bilhões em creches, mas das 6.427 prometidas pela então candidata Dilma (PT), na campanha de 2010, ela só entregou cerca de 500.

PENSANDO BEM...

...em vez da frustração porque não lhe faziam perguntas, no debate da Band, Luciana Genro (PSOL) deveria se sentir frustrada por sua carência de votos.


PODER SEM PUDOR

CRUEL RECEPÇÃO

Duas dezenas de jornalistas aguardavam no aeroporto Santos Dumont, no Rio, a chegada de Ulysses Guimarães, candidato do PMDB à presidência da República, naquele ano de 1989. Mas, no desembarque, eles se depararam com outro candidato, Aureliano Chaves (PFL), que chegara antes. As chances dos dois eram mínimas, mas Ulysses sempre gerava boas notícias, ao contrário de Aureliano. Ninguém se mexeu e a saia já era demasiado justa quando o pefelista pediu:

- Sei que vocês esperam o Ulysses, mas podem perguntar que eu falo.

Como jornalista é bicho muito mal educado, ninguém perguntou nada e Aureliano foi embora, cabisbaixo e constrangido.

sábado, agosto 30, 2014

Pânico na elite vermelha - GUILHERME FIUZA

O GLOBO - 30/08

Armínio Fraga foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — a última coisa séria feita no Brasil



Pela primeira vez em 12 anos, os companheiros avistam a possibilidade real de ter que largar o osso. Nem a obra-prima do mensalão às vésperas da eleição de 2006 chegara a ameaçar a hegemonia dos coitados sobre a elite branca. A um mês da votação, surgem as pesquisas indicando que o PT não é mais o favorito a continuar encastelado no Planalto. Desespero total.

Pode-se imaginar o movimento fervilhante nas centrais de dossiês aloprados. Há de surgir na Wikipédia o passado tenebroso dos adversários de Dilma Rousseff. Logo descobriremos que foram eles que sumiram com Amarildo, que depenaram a Petrobras, que treinaram a seleção contra os alemães. É questão de vida ou morte: como se sabe, a elite vermelha terá sérias dificuldades de sobrevivência se tiver que trabalhar. Vão “fazer o diabo”, como disse a presidente, para ganhar a eleição e não perder a gerência da boca.

O Brasil acaba de assistir à queda de um avião sobre o castelo eleitoral do PT. Questionada sobre as investigações acerca da situação legal da aeronave que caiu, Dilma respondeu que não está “acompanhando isso”, e que o assunto não é do seu “profundo interesse”. Altamente coerente. Se a presidente e seu padrinho não “acompanharam” as tragédias no governo popular — mensalão, Rosemary e grande elenco — não haveria por que terem “profundo interesse” numa tragédia que veio de fora. Eles sempre fingiram que estava tudo bem e o povo acreditou, não há por que acusar o golpe agora. Avião? Que avião?

Melhor continuar arremessando gaivotas de papel, para distrair o público. Até o ministro decorativo da Fazenda foi chamado para atirar a sua. Guido Mantega, como Dilma e toda a tropa, é militante de Lula. O filho do Brasil ordena, eles disparam. Mantega já chegou a apresentar um gráfico amestrado relacionando o PAC com o PIB — um estelionato intelectual que o Brasil, como sempre, engoliu. Agora o homem forte (?) da economia companheira entra na campanha para dizer que Armínio Fraga desrespeitou as metas de inflação. Uma gaivota pornográfica.

Para encurtar a conversa, bastaria dizer que Armínio Fraga foi um dos homens que construíram aquilo que Mantega e seu bando há anos tentam destruir. Inclusive a meta de inflação. Armínio foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — última coisa séria feita no Brasil — enfrentando o efeito devastador da crise da Rússia, que teria reduzido a economia nacional a pó se ela estivesse nas mãos de um desses bravateiros com estrelinha. Mantega e padrinhos associados devem a Armínio Fraga e aos realizadores do Plano Real a vida mansa que levaram nos últimos 12 anos. E deve ser mesmo angustiante desconfiar pela primeira vez que essa moleza vai acabar.

Se debate eleitoral tivesse alguma ligação com a realidade, bastaria convidar os companheiros a citar uma medida de sua autoria que tenha ajudado a estruturar a economia brasileira. Uma única. Mas não adianta, porque, como o eleitorado viaja na maionese, basta aos petistas dizer — como passaram a última década dizendo — que eles livraram o Brasil da inflação de Fernando Henrique. A própria Dilma foi eleita em 2010 com esse humor negro, e jamais caiu no ridículo por isso. Com a fraude devidamente avalizada pelo distinto público, Guido Mantega pode se comparar a Armínio Fraga e entrar em casa sem ter que esconder o rosto.

Em meio às propostas ornamentais, aliás, Armínio é o dado concreto da corrida presidencial até aqui. Nada de poesia, de “nova política”, de arautos da “mudança” — conceito tão específico quanto “felicidade”, que enche os olhos da Primavera Burra e dos depredadores do bem. Armínio não é terceira, quarta ou quinta via, nem a mediatriz mágica entre o passado e o futuro. É um economista testado e aprovado no front governamental, que não ficará no Ministério da Fazenda transformando panfleto em gaivota.

O PSDB, como os outros partidos, adora vender contos de fadas. Mas seu candidato, Aécio Neves, resolveu anunciar previamente o seu principal ministro. Eis a sutil diferença entre o compromisso e a conversa fiada.

Marina Silva também é uma boa notícia. Só o fato de ser uma pessoa íntegra já oferece um contraponto valioso à picaretagem travestida de bondade. Nunca é tarde para o feminismo curar a ressaca dos últimos quatro anos. O que seria um governo Marina, porém, nem ela sabe. Se cumprir a promessa de Eduardo Campos e empurrar o PMDB S.A. para a oposição, que grande partido comporia a sua sustentação política? Olhe em volta e constate, com arrepios, a hipótese mais provável: ele mesmo, o PT — prontinho para a mudança, com frete e tudo.

Marina vem do PT e está no PSB, cujo ideário é de arrepiar o maior sonho cubano de José Dirceu. E tentar governar acima dos partidos foi o que Collor fez. Que forças, afinal, afiançariam as virtudes de Marina?

A elite vermelha está pronta para se esverdear.

A onda se forma - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 30/08
Ontem deve ter sido o dia mais difícil da presidente Dilma nos últimos tempos, só teve notícia ruim. Pela manhã, o anúncio oficial de uma recessão econômica, à noite a pesquisa Datafolha no "Jornal Nacional" anunciando o que a maioria já previa: Marina Silva alcançou-a no primeiro turno, preparando a ultrapassagem previsível nas próximas sondagens, e tem vitória confirmada no segundo turno por dez pontos de vantagem.
Para o tucano Aécio Neves, sobra a constatação de estar no lugar certo no momento errado, pois antes do acidente trágico que matou o ex-governador Eduardo Campos tinha condições de chegar ao segundo turno, e até mesmo ganhar a eleição.

Preparado para uma disputa que tinha como mote o fim da era PT, de repente o candidato do PSDB foi atirado em meio a uma nova eleição, que abriu outra perspectiva eleitoral, com o mesmo sentido mas com outros ingredientes: a emoção superando a razão, os símbolos ganhando dimensões de realidade, trocada pelos sonhos.

Basicamente, o programa lançado ontem pela candidata Marina Silva é o mesmo programa econômico que o PSDB apresentou, já defendido em diversas ocasiões tanto pelo candidato quanto por aquele que seria (será?) seu ministro da Fazenda, o economista Armínio Fraga.

Natural, pois Campos e Aécio estiveram muito próximos no início da campanha, e a própria Marina tem em sua equipe economistas de pensamentos similares aos dos do PSDB, inclusive um, André Lara Resende, que já esteve no governo de Fernando Henrique Cardoso. Outro, Giannetti da Fonseca, já disse que um eventual governo Marina a economia poderia ser comandada pelo mesmo Armínio, o que, mais que uma revelação de decisão, é uma indicação da proximidade na visão econômica dos dois partidos.

O ponto talvez mais polêmico do programa do PSB seja o deslocamento de prioridades na política energética, com o incentivo para fontes de energia alternativas ao petróleo. O pré-sal, que se transformou em ponta de lança dos governos petistas, passaria a ter um papel secundário, dentro do entendimento de que o crescimento econômico deve obedecer à preservação do meio ambiente.

O petróleo seria "um mal necessário" para Marina, e o país deve preparar-se para viver sem ele, que é um insumo finito e poluidor.

Implícito nessa política está também que o incentivo ao consumo de automóveis, com isenção de impostos e controle do preço da gasolina, será abandonada.

Há outro ponto de aproximação importante entre PSB e PSDB: a intenção de retirar a centralidade do Mercosul na nossa política de comércio exterior, abrindo espaços para acordos bilaterais como vêm fazendo os países da Aliança Atlântica, como Peru e Chile. Além dos aspectos econômicos, está embutida nessa decisão estratégica uma mudança geopolítica importante, que nos afastaria dos países chamados "bolivarianos" da América Latina.

Essa coincidência de pontos de vista pode facilitar um acordo com o PSDB no segundo turno.

Ontem, até mesmo o mote de Aécio de chamar o eleitorado "para conversar" foi utilizado por Marina no Twitter, se propondo a conversar com os eleitores para esclarecer as denúncias que estão pipocando nas redes sociais.

Para a presidente Dilma, em queda e com uma crise econômica pela frente, uma visão esquizofrênica: para explicar o fracasso da economia, seus aliados dizem que a recessão ficou para trás nos dois primeiros trimestres e já estamos crescendo novamente, embora nada indique que isso seja verdade.

Com relação à pesquisa que mostra Dilma sendo alcançada por Marina, uma caindo, a outra em ascensão, veem uma situação imutável, com seu favoritismo mantido. A pesquisa Datafolha indica que Marina vem crescendo e já superou Dilma no Sudeste e no Centro-Oeste (regiões em que o PSDB venceu nas eleições presidenciais anteriores) e nas cidades médias e grandes em todo o país.

Não parece uma mera onda passageira.

Recessão e incompetência - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 30/08


Está confirmado oficialmente: a presidente Dilma Rousseff conseguiu levar o Brasil a uma recessão, com dois trimestres consecutivos de produção em queda. Depois de encolher 0,2% no primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu mais 0,6% no período de abril a junho. Mas o governo, além de trapalhão, foi criativo na incompetência. Enfiou a economia brasileira no atoleiro enquanto os países desenvolvidos, com Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido à frente, começavam a vencer a crise. Mas quem, na cúpula federal, se dispõe a reconhecer o desastre e sua causa, o rosário de erros agravados a partir de 2011? A presidente Dilma Rousseff e seus ministros continuam culpando o mundo pelo desempenho brasileiro abaixo de pífio. Esse mundo malvado só existe como desculpa chinfrim para um fiasco indisfarçável. O comércio internacional voltou a crescer, a China continua comprando um volume enorme de matérias-primas e até os países mais afetados pela crise global, como Espanha, Portugal e Grécia, saíram da UTI e estão em movimento. Mesmo em desaceleração, outros emergentes estão mais saudáveis que o Brasil.

No segundo trimestre, o PIB dos Estados Unidos cresceu em ritmo equivalente a 4,2% ao ano. A rápida melhora da maior e mais desenvolvida economia é boa notícia para todo o mundo, mas desmente a lengalenga da presidente Rousseff e de sua equipe. O crescimento americano foi puxado, principalmente, pelo investimento produtivo, base para novos avanços.

No Brasil ocorreu o contrário. O investimento em máquinas, equipamentos, instalações e infraestrutura foi 5,3% menor que no primeiro trimestre do ano e 11,2% inferior ao de um ano antes. No segundo trimestre de 2013, o total investido correspondeu a 18,1% do PIB. Outros emergentes têm exibido taxas frequentemente acima de 24%. Mas o governo ainda conseguiu piorar esse indicador, derrubando a formação bruta de capital fixo para 16,5% do PIB. Foi uma taxa igual à do segundo trimestre de 2009, quando o Brasil estava em recessão, arrastado - naquele momento, sim - pela crise global.

O governo é obviamente culpado pela indigência na formação de capital fixo. Os seus erros prejudicam as ações oficiais - o fiasco do Programa de Aceleração do Crescimento é uma prova disso - e ainda criam insegurança entre os empresários. Empresário assustado com as intervenções do governo e muito inseguro quanto à evolução da economia só investe em máquinas, equipamentos e instalações se for irresponsável.

O investimento baixo e ainda em queda compromete o potencial de crescimento econômico. A recessão no primeiro semestre é parte de um desastre incompleto e ainda em curso. A produção industrial diminuiu 1,5% no trimestre e ficou 3,4% abaixo da de um ano antes. No Brasil, a indústria é a principal fonte de empregos decentes e o mais poderoso motor para o conjunto da economia. Há anos o governo tem cuidado muito mais do consumo que do investimento e, de modo especial, do fortalecimento da indústria. O resultado é inconfundível.

A criatividade na incompetência é evidenciada também pela combinação de baixo crescimento com inflação elevada e contas públicas em deterioração. Em julho, o setor público teve déficit primário de R$ 4,7 bilhões. Pelo terceiro mês consecutivo esse indicador ficou no vermelho. Isso é uma enorme anomalia. Incapaz de equilibrar suas contas, o governo tem-se comprometido, há muito tempo, a separar pelo menos o dinheiro suficiente para pagar juros e estabilizar ou reduzir sua dívida. Esse dinheiro posto de lado é o superávit primário.

A equipe econômica prometeu um resultado primário de R$ 99 bilhões para todo o setor público. O governo central - Tesouro, Previdência e Banco Central - deveria contribuir com R$ 80,7 bilhões. Até julho, o governo central acumulou apenas R$ 13,47 bilhões. O setor público total, R$ 24,68 bilhões. Alcançar a meta, só com muita criatividade e muitos truques. O desastre fiscal combina os efeitos de dois fracassos - da política econômica em geral e, de modo especial, dos incentivos tributários concedidos a setores selecionados. Não funcionaram.


Antessala do desemprego - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 30/08
A verdade dos fatos volta a avisar que a economia brasileira vai muito mal. O Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,6% no segundo trimestre, derrubando previsões cor-de-rosa que o governo insistia em fazer ante o mau resultado (crescimento de 0,2%) dos três primeiros meses. Até então, o país estaria em trajetória de crescimento, ainda que lento. Era esse o discurso, mas nem isso se sustentou: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo cálculo, revisou para -0,2% a taxa.
Essa revisão é normal e tecnicamente recomendável. Dela resultou que a economia brasileira, que nos últimos três anos vinha desacelerando, está há seis meses andando para trás. A esta altura, é ocioso discutir se estamos ou não em recessão técnica (quando a taxa de crescimento é negativa por dois trimestres seguidos). O que importa é que, mesmo que haja algum refresco no terceiro e no quarto trimestres, 2014 está fadado a fechar um ciclo de quatro anos de baixo desempenho econômico.

No trimestre encerrado em junho, os feriados da Copa do Mundo e supostos respingos da crise mundial estão sendo culpados pelo desastre. É certamente um exagero de quem não pretende, por motivos de calendário eleitoral, reconhecer erros de condução da política econômica, que se acumularam nos últimos anos. Mais sensato e mais construtivo será encarar o problema e buscar coesão para corrigir o rumo e inverter a escalada que põe em risco os empregos e a renda, conquistas que precisam ser mantidas.

Olhar mais crítico sobre os números do trimestre constata mais uma queda na atividade da indústria, que recuou 1,5%, ampliando o já longo ciclo de perdas de competitividade do setor. Além de grande geradora de empregos formais, a indústria é tradicional investidora em expansão e em modernização de equipamentos.

Mas não é isso o que vem ocorrendo: os investimentos, que deveriam ser um dos motores do crescimento do PIB, recuaram 5,3% no trimestre, na comparação com o trimestre anterior. Pior: na comparação com igual período de 2013, a queda foi 11,3%. Isso revela o nível da desconfiança da indústria numa reação da economia brasileira e na capacidade do governo de criar as condições para a retomada do crescimento em prazo razoável.

Outro dado preocupante que merece reflexão foi o desempenho dos serviços. Como ocorre com a maioria das economias de nações mais urbanizadas, esse é o setor que cresce mais rápido e mais aumenta a participação relativa no PIB. No Brasil, enquanto a indústria vem perdendo espaço (responde hoje por pouco mais de 16% da economia), a expansão dos serviços garantiu participação próxima de 70%. No segundo trimestre, o despenho dos serviços foi negativo em 0,5%, o pior desempenho desde o auge da crise mundial de 2008 (-2,8%).

Parte do recuo pode ter sido um dos efeitos perversos da Copa. Só parte. É relevante lembrar que se trata de atividade diretamente ligada ao aumento da renda da população. Nele estão as faculdades e colégios particulares, os restaurantes, o entretenimento, os cuidados com a saúde e com a beleza, para citar algumas demandas, que, não faz muito tempo, passaram a fazer parte da vida de milhões de consumidores. Será imperdoável perder tudo isso por omissão ou incapacidade de conduzir política econômica que favoreça o crescimento.