sexta-feira, junho 20, 2014

O Nacional-Socialismo Petista - REINALDO AZEVEDO

O GLOBO - 20/06

O PT pode se perder nos fatos, e está perdido, mas sempre se arranja nas versões


Sim, eu estava perplexo com o "Dilma, vai tomate cru"! Pensava: "O que aconteceu com o povo cordial dos que não leram Sérgio Buarque de Holanda e dizem que o nosso povo é cordial?". Muitos cronistas se arrepiaram de emoção com o hino a capela e de horror com o protesto, especialmente porque quem cantou uma coisa também cantou outra. Deve ser bom se arrepiar por tão tolos motivos... De súbito, apareceu o coro dos Catões dispostos a moralizar a República, rebaixando os torcedores a uma "elite branca sem calo na mão". Houve até quem pedisse desculpas a Dilma em nome dos brasileiros! Em meu nome? Não endosso xingamentos. Mas eu é que espero que a Soberana se desculpe por ter usado o meu dinheiro para tirar uma casquinha eleitoral da Copa. Ela não tem o direito moral de recorrer à Rede Nacional para não ouvir o Itaquerão.

O PT pode se perder nos fatos, e está perdido, mas sempre se arranja nas versões. Esta semana foi tomada por uma avalanche de notícias assegurando que as vaiais foram excelentes para a presidente porque ela pôde, assim, exercer o poder da vítima. Não é Nietzsche, mas malandragem política. As vaias e os xingamentos teriam servido à estratégia petista de fazer a luta do "nós" (a turma do amor) contra "eles" (a turma do ódio). Então tá!

Se assim é; se, há tempos, os petistas esperavam uma boa notícia para a campanha eleitoral, e se as vaias e os xingamentos ajudaram o PT a encontrar um discurso, o que dizer? Vai ver os companheiros decidiram se comportar como Odorico Paraguaçu, de "O Bem-Amado", de Dias Gomes. Quando ele queria um pretexto para empastelar o jornal da oposição, mandava pichar na parede: "Odorico é ladrão". Se as ofensas são um ativo eleitoral, quanto mais, melhor! O PT me obriga a ser binário: então quem vaia vira cabo eleitoral de Dilma. Qual é a razão do chororô?

É evidente que o lado positivo da vaia é cascata. Essa versão é obra de "spin doctors", cujo trabalho só é efetivo quando conta com a opinião abalizada de "especialistas" e com a sujeição voluntária ou involuntária da imprensa.

No dia seguinte à vaia, o PT e suas franjas no jornalismo e no subjornalismo a soldo já espalhavam a versão de que a hostilidade era obra da "elite branca", em conluio com a oposição e com a imprensa. Desta feita, o partido inovou. O sr. Alberto Cantalice, seu vice-presidente, publicou no site da legenda uma primeira lista de profissionais do mal: Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Demétrio Magnoli, Danilo Gentili, Guilherme Fiuza, Marcelo Madureira e Arnaldo Jabor.

Segundo ele, nossas "pregações nas páginas dos veículos conservadores estimulam setores reacionários e exclusivistas da sociedade brasileira a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes", de sorte que "o subproduto dos pittbuls (sic) do conservadorismo teve seu ápice nos xingamentos torpes e vergonhosos à presidenta (...)" --aqueles mesmos que, dizem os próprios petistas, fizeram um imenso bem a Dilma...

É calúnia e difamação, mas isso é para o tribunal. Falas como a do sr. Cantalice têm história. Fiz uma tradução (is.gd/iOAfO5) do discurso proferido por Goebbels no dia 10 de fevereiro de 1933, 11 dias depois de Hitler ter assumido o cargo de chanceler. Seu alvo era a "imprensa judaica", que acusava de "ameaçar o movimento Nacional-Socialista". Advertiu: "Um dia nossa paciência vai acabar, e calaremos esses judeus insolentes, bocas mentirosas!" Cumpriu a ameaça.

À lista de Cantalice seguiu-se um previsível silêncio na própria imprensa --vai ver somos mesmo os "judeus insolentes" da hora. Mais uma advertência de Goebbels para quem está aliviado por ter sido poupado: "E, se outros jornais judeus acham que podem, agora, mudar para o nosso lado com as suas bandeiras, então só podemos dar uma resposta: Por favor, não se deem ao trabalho!'".

Pronto! Já escrevi o que queria, menos uma coisa: "Goebbels, vai tomate cru!".

Show de bola - NELSON MOTTA

O GLOBO - 20/06

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da ‘sua’ Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção e ovacionado pela multidão, vendo TV em São Bernardo com dona Marisa



Os estádios estão lindos e cheios, os jogos de ótimo nível, com muitos gols e surpresas, as torcidas animadas e pacíficas, as ruas fervilhando de gringos e de alegria. Independentemente da performance da seleção brasileira, a Copa é um sucesso. Quem ama o futebol está feliz.

Assaltos, arrastões, tiroteios, roubos e furtos, achaques policiais, saidinhas de banco, sequestros-relâmpago — o habitual cotidiano urbano brasileiro — sumiram dos noticiários e, aparentemente, das ruas. Com o Congresso em recesso futebolístico, cessam temporariamente as negociatas vergonhosas, as tenebrosas transações políticas e as propostas indecentes que prejudicam o país. Quem ama o Brasil está feliz.

Todo mundo que ama futebol e já foi a um estádio sabe que nada se compara a ver um jogo ao vivo, no meio do calor da torcida. Mesmo com todos os fabulosos recursos da televisão, o espetáculo no estádio ainda é insuperável. Enquanto a câmera apenas segue a bola, da arquibancada se vê a totalidade do campo e a movimentação dos jogadores, as manobras táticas e as possibilidades de jogadas e lançamentos, que são parte importante da emoção do futebol.

Agora que se pode assistir ao jogo no estádio ouvindo rádio e conferindo no celular os replays e os detalhes da transmissão da televisão — e ainda comentando cada lance com os amigos, um dos maiores prazeres do futebol, pelas redes — é show de bola.

Quem não deve estar tão feliz é Lula, que trabalhou tanto pela Copa e ajudou o seu Corinthians a construir um estádio, que adora futebol, mas não vai assistir a nenhum jogo porque tem medo de ser vaiado, como nos Jogos Pan-Americanos de 2007, embora atribua a vaia a uma conspiração de César Maia, que teria até treinado milhares de militantes da prefeitura para vaiá-lo… rsrs.

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da “sua” Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção brasileira e ovacionado pela multidão, vendo televisão em São Bernardo com dona Marisa. Para quem adora futebol não pode haver pior castigo.

A vaidade vai vencer a paixão? O que é uma vaiazinha diante de um jogão? Vai, Lula, vai!

Grandes jogos nos esperam - FERNANDO GABEIRA

O ESTADÃO - 20/06

Fiquei triste em 50 e pensei em torcer contra o Brasil em 70. Inutilmente.

Tenho várias Copas na bagagem. Esta é realizada no Brasil sem que os brasileiros fossem consultados. Mesmo assim nos envolve. Resistir é tão difícil como distribuir panfletos políticos nas vésperas do Natal - essa lição aprendi em dezembro de 68, protestando contra o AI-5.

Sigo a Copa como torcedor apaixonado, mas com uma ponta de razão anoto meus limites. Força, Brasil! Porém não posso comprar tudo o que o Neymar anuncia porque estaria quebrado em pouco tempo. Tampouco posso comer os frangos e lasanhas que o Felipão nos oferece na TV porque engordaria uns dois quilos nesta Copa.

Também sou brasileiro, mas não consigo achar, como os locutores de TV, ter sido uma indelicadeza escalar um árbitro japonês para apitar Brasil x Croácia. Afinal, ele expulsara Felipe Melo em 2010 na partida contra a Holanda, e o fez com absoluta correção. Por que despertaria más lembranças, por que deveria ser evitado? Yuichi Nishimura marcou um pênalti duvidoso a favor do Brasil. Agora consideram uma delicadeza escalá-lo para apitar nossos jogos.

Moreno como vocês, não posso embarcar nessa. Muito menos nos insultos a Dilma.

Sou oposição desde cedo, meio de 2003. Mas acho que as circunstâncias eram especiais. Uma abertura de Copa do Mundo revela um pouco o País. Não precisava uma festa tão mixuruca. Nem, por mais ásperos que sejam os estádios, dizer aquilo a uma senhora, em voz alta, diante de bilhões de espectadores.

Capitão do time que trouxe a Copa ao Brasil, Lula assistiu ao jogo diante de uma televisão, possivelmente na tranquilidade do lar, ou num refúgio petista.

Não se xinga uma senhora, mas também é preciso alguma eficácia para executar a tarefa de enfrentar um estádio num momento em que o País está enfurecido com a política. Dilma foi xingada em três estádios no início da Copa. No ano passado houve apenas o que chamamos de uma vaia básica. Ninguém notou gradação, a passagem de uma etapa para outra, que, aliás, já estava aparecendo em alguns shows musicais.

Tenho insistido na tese da separação radical entre políticos e a sociedade. O Brasil é um carro sem as molas da mediação parlamentar, sem o lubrificante do diálogo democrático: marcha aos solavancos. Mostramos isso ao mundo, ao vivo e em cores.

Em Brasília os políticos querem que o povo se estrepe, com um verbo começado com f. Nos estádios parcela do povo quer que os políticos tomem naquele lugar. É simples assim, apesar da vulgaridade do enunciado.

Pelos descaminhos da nossa História recente passamos a nos detestar. E pelos labirintos da nossa cultura erotizamos nossa antipatia recíproca. Supondo que os repórteres tenham o hábito de traduzir as coisas (era assim no passado), grande parte do mundo ficará sabendo a que ponto chegamos. E lamentará, como muitos brasileiros lamentam, que para tanto futebol tão pouco avanço político.

Quando um governante abraça a ideia da Copa do Mundo em seu país, pensa na sua própria glória. É irônico ser hostilizado na abertura do evento. Lula soube tirar o corpo da reta, deixando Dilma ouvindo frases que não se podem dizer diante das crianças. O ideal seria fingir que não houve nada, seguir com a festa. Nas minhas análises, a explosão de parte do público é o resultado de um longo processo de desgaste. Outros políticos que ali se apresentassem teriam destino semelhante ao de Dilma.

Lula e o PT não interpretam assim. Continuam se achando populares e bem-amados. Tanto que pretendem radicalizar, a julgar pelas notícias, caso vençam as eleições de novo. Eles acham, como Lula declarou, que os palavrões contra Dilma foram estimulados pela imprensa. Num momento de sua fala menciona o PT na oposição e diz que nunca fez o que fizeram com Dilma. Ora, a imprensa jamais defendeu xingar alguém, apenas despertou a curiosidade para a roubalheira entre o governo e aliados. E os gritos no estádio não podem ser atribuídos a algo organizado pela oposição.

Lula usou o episódio para fortalecer sua vontade de controlar a mídia e isolar a oposição. É uma reação clássica: supor que as coisas não andam bem por falta de mais repressão e controle.

A partir dessa lógica, é possível prever dias piores. O PT escolheu os culpados pela reação a Dilma e, como sempre, vai partir para cima. Não se pode dizer que seja uma saída brilhante. Mas foi Isaac Deutscher, na sua trilogia sobre Trotsky, que lembrou bem: as pessoas parecem burras, mas não são; apenas não têm mais margem de manobra.

Criar conselhos populares numa época informatizada, em que todos podem participar, faria Lenin mexer-se no túmulo, apesar de sua rigidez de corpo e alma. Em pleno século 21, estabelecer o controle da mídia e cair de pau na oposição vai ser muito difícil: pede quadros dispostos a matar ou morrer. Conheço apenas alguns no PT, assim mesmo sobreviventes dos anos 60. Será que a maioria deles, perdida em seus empreguinhos, seus gadgets, suas escapadas à Disneylândia, vai encarar essa tarefa, quase impossível hoje em dia?

No futebol temos visto a derrota de alguns favoritos, algumas zebras e até a humilhação de grandes times, como o da Espanha. Na política, o ano eleitoral está só começando. Com tantas Copas na bagagem e a lembrança das revoluções do século 20, é preciso sempre cantar para os detentores do poder o verso de Jimmy Cliff: "Ooh, the harder they come, the harder they fall, one and all". Quanto mais forte vierem, mais forte eles cairão, todos e cada um. O que a muitos pareceu um episódio marginal, o clima da abertura da Copa, com as pessoas cantando apaixonadamente o Hino Nacional e insultando a presidente, é um grande sintoma de mal-estar na vida cotidiana brasileira.

Vinicius falava da grande ilusão do carnaval: a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho e tudo acaba na quarta-feira. Como no carnaval, tudo acaba com o apito encerrando a Copa. Aí virão os duros meses da ressaca e, lamento prever, o jogo feio e sujo do poder a qualquer custo. Quem seremos no final disso tudo, como revigorar a terra arrasada da nossa convivência política?

Grandes jogos nos esperam.

Pior do que empatar - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 20/06

Em todo este mês, o Senado terá apenas três dias de trabalho. A Câmara, até agora, foi um pouco mais patriótica, com a programação de quatro exaustivos dias de sessões



Um mandato legislativo, pelo menos em tese, não é um prêmio concedido aos políticos do país por bom comportamento ou por seu prestígio junto ao eleitorado. Trata-se, simplesmente, de uma oportunidade para que mostrem seu empenho e sua eficiência na defesa dos interesses e esperanças da sociedade.

Coisa muito séria, portanto. E é desanimadora, portanto, a notícia, no jornal de quarta-feira, de que senadores e deputados federais, neste mês, trabalharão, respectivamente, apenas três e quatro dias. É muito pouco num país que, pode-se dizer, ainda está bastante longe de ser considerado pronto.

Nas duas casas do Legislativo, estavam previstas poucas sessões em junho e julho: 15 no Senado e 18 na Câmara dos Deputados. Era o suficiente, com sobras, para que os nossos legisladores se dedicassem também ao objetivo patriótico de torcer pela vitória do Brasil na Copa. No dia do jogo contra o México, em grande parte do Congresso simplesmente não houve expediente, com o pretexto de que o futebol causaria um incontornável engarrafamento de trânsito na cidade. Não é, claro, uma explicação aceitável: Brasília, principalmente na área de largas avenidas que abriga o Legislativo não impede o acesso dos seus membros ao local de trabalho.

Isso não impediu, claro, que senadores e deputados recebessem, integralmente, seus vencimentos mensais: a modesta quantia de R$ 26.700. E mesmo assim o chamado “calendário light” não está sendo obedecido. Em todo este mês, o Senado terá apenas três dias de trabalho. A Câmara, até agora, foi um pouco mais patriótica, com a programação de quatro exaustivos dias de sessões.

Não podemos ser reféns do extremismo - EDSON JOSÉ RAMON

GAZETA DO POVO - 20/06

A pergunta que não quer calar é: quem irá se responsabilizar pelas consequências da paralisação de uma cidade da relevância econômica de São Paulo, por exemplo, em função da greve promovida por uma categoria de trabalhadores, no caso os metroviários, em detrimento de milhões de outros, que, privados do transporte público para chegar a seus locais de trabalho, foram afrontosamente esbulhados em seu direito fundamental de ir e vir?

Diante do anárquico cenário dos últimos meses em várias cidades brasileiras, há quem busque na agricultura um velho símile para a melhor compreensão do que ocorre, lembrando que se colhe aquilo que foi plantado, e quase sempre em quantidades muito maiores do que foi semeado.

O pior dos desdobramentos recentes é que a colheita semeada nos últimos anos demonstra de forma indubitável a péssima qualidade dos frutos, em sua maioria degenerados pela ausência, especialmente da parte do governo da União, de autoridade e responsabilidade no combate e gerenciamento das crises instaladas aqui e ali.

Ainda está na memória a ameaça feita pelo MST de invadir dependências do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de protestar contra o que classifica como leniência governamental na condução da reforma agrária. Diante da estupefação da cidadania tão vilipendiada na véspera, no dia seguinte um grupo de integrantes do MST liderados por João Pedro Stedile, peça-chave da coordenação nacional do movimento, cujos métodos não raro confundem liberdade de expressão com balbúrdia e agressão ao patrimônio físico, foi recebido em palácio por ninguém menos que a presidente Dilma Rousseff, para uma conversa em que não faltaram largos sorrisos e descontração, como se todos estivessem participando de fagueira roda de chimarrão. Em outro momento, o ex-presidente Lula chegou a vestir o boné do MST.

O cidadão honesto que empreende com o objetivo de contribuir com a geração de empregos e renda, além de arcar com sufocante carga tributária, indaga a seus próprios botões, sem obter a resposta, até onde irão os limites da insensatez e da frouxidão com que os transgressores são tratados, instigando categorias profissionais manipuladas por líderes impostos por vergonhosas chicanas, ou pela força bruta, a paralisarem serviços essenciais à população, como transporte, saúde, educação e segurança.

Dado emblemático da desfaçatez que se apodera das instituições foi registrado também em São Paulo, a dois dias do jogo de abertura da Copa do Mundo, quando dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) anunciaram o fim das manifestações que infernizaram a cidade nos últimos três meses. Para isso, bastou a presidente Dilma anunciar a mudança do Minha Casa, Minha Vida para viabilizar a construção de 2 mil casas no terreno onde está a Ocupação Copa do Mundo, em Itaquera.

A sensação é de que o país está sob risco de tornar-se refém de grupos com interesses escusos, estimulados não se sabe ao certo por quem a dar curso à tese do quanto pior melhor, ou seja, a desordem que penaliza a coletividade. Obviamente, isso reflete a exagerada complacência com que o governo trata os movimentos de minorias, desestabilizadores da ordem.

No clima de insolência aos postulados morais, decisões da Justiça são válidas e aplicáveis apenas sobre cidadãos comuns, e só em situações irreversíveis de transgressão à lei alcançam os espertalhões abrigados em instituições instrumentalizadas por partidos que parasitam o poder.

Por que essas coisas ainda acontecem em um país que está entre as principais economias do mundo? Somos uma democracia ou uma anarquia? Sem ordem não vamos a lugar algum. Não podemos permitir que a nação se submeta ao extremismo.

Quem representa a sociedade - CLAUDIO WEBER ABRAMO

FOLHA DE SP - 20/06

É uma virtual certeza que o governo coopte o sistema de conselhos e o use como caixa de ressonância para seus desígnios. É fácil controlá-los


Os confrontos propiciados pelo decreto presidencial que institui uma política nacional para a "participação social" têm servido para exibir a extensão a que chegou o enfraquecimento das instituições políticas.

Caso houvesse razoável segurança de que partidos e Legislativo representam a população, não haveria espaço para a hipervalorização do espontaneísmo que o decreto, embora aproveite, não inventou.

Tampouco haveria motivos para recear que investidas na direção da democracia direta viessem a ameaçar o processo republicano de representação pelo voto e consequente resolução parlamentar de conflitos de opinião.

É óbvio que qualquer governante pode consultar quem quer que seja a respeito de assuntos que lhe aprouver, não necessitando de autorização especial para fazê-lo.

Reciprocamente, ninguém pode proibir um governante de conversar com quem desejar. É também difícil enxergar como se poderia impedir que interlocutores sejam organizados em um "sistema", conforme o decreto estabelece, desde que não se pretenda, com tudo isso, transformar exercícios consultivos em mecanismo deliberativo, ou quase isso.

O risco de que o sistema venha a ser usado pelos governantes para passar por cima do Parlamento só existe porque os verdadeiros representantes da sociedade civil, a saber, os indivíduos eleitos em eleições universais, pouco representam segmentos sociais.

Nunca é demais frisar que ONGs, "coletivos" etc. não são "representantes da sociedade civil", como tantos de seus integrantes apreciam dizer de si próprios e muitos mais ecoam sem reflexão. Essas organizações representam interesses variados, os quais, a despeito de sua possível respeitabilidade, não são necessariamente compartilhados por massas populacionais relevantes.

Sem esquecer que ONGs são notoriamente vulneráveis a captura por interesses partidários, governamentais, religiosos, empresariais e corporativos. Muitas não são capturadas, mas muitas são.

Seja o que for que ONGs proponham, isolada ou coletivamente, decerto merece ser ponderado, mas nunca tomado como reflexo acabado da "vontade popular". No caso em questão, é uma virtual certeza que o governo coopte o sistema de conselhos e o use como caixa de ressonância para seus desígnios.

É de fato muito fácil controlar conselhos. Alguns anos atrás, a Controladoria-Geral da União realizou um estudo sobre eficácia de conselhos gestores de políticas públicas, cuja existência é obrigatória em Estados e municípios para planejar e acompanhar a aplicação de dinheiro de transferências constitucionais (saúde, educação etc.).

Resultado: mais de 90% desses conselhos são inoperantes. Auditorias do Tribunal de Contas da União apontam na mesma direção. Pesquisadores que estudaram o assunto apontam como principais motivos para isso a baixa qualificação dos conselheiros e a facilidade com que são cooptados pelo Poder Executivo.

É claro que é péssimo que conselheiros sejam incompetentes e que prefeitos e governadores neutralizem organismos que existem para vigiá-los. Lamentá-lo, contudo, não muda a realidade.

Se os partidos políticos e o Parlamento brasileiros se aproximassem daquilo que o desenho republicano preconiza, não haveria por que recear atropelamentos e o decreto planaltino poderia, com mais plausibilidade, ser tomado por seu valor de face --propiciar uma comunicação mais ágil entre anseios fracionados e aqueles que tomam decisões administrativas no Executivo.

De modo que o problema em mãos extrapola em muito o decreto em si, originando-se na crise de representatividade política que o Brasil vive.

Há, naturalmente, uma multiplicidade de razões que explicam essa crise. Os próprios diagnósticos diferem entre si, como também diferem os remédios sugeridos. O que não se pode é ignorar a existência da crise.

Ilusionismo com contas de padeiro - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 20/06

A presidente Dilma recorre a truque grosseiro para subestimar a relevância dos gastos com a Copa do Mundo



Nas últimas semanas o país tomou conhecimento de duas contas de padeiro que, devido a razões distintas, merecem cuidadosa atenção.

A expressão ganhou destaque na mídia desde que foi usada por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, para explicar a diferença abismal entre os US$ 2,5 bilhões, em que foi inicialmente orçada a Refinaria Abreu e Lima, e os mais de US$ 18 bilhões que afinal serão gastos no projeto. O que o ex-diretor alegou é que, de início, a Petrobras estava muito mal informada sobre quanto de fato custaria a nova refinaria. E que os US$ 2,5 bilhões teriam resultado de uma simples conta de padeiro.

A outra conta que merece consideração foi a apresentada pela presidente Dilma Rousseff, há poucos dias, em pronunciamento oficial à nação, para tentar desmistificar a ideia de que os investimentos necessários para a realização da Copa do Mundo no Brasil poderiam ter tido uso mais defensável, se destinados à educação e à saúde.

É bom deixar claro que não há nada de errado com contas de padeiro. Muito pelo contrário. A expressão alude a contas rabiscadas em papel de embrulho de padaria, mas é usada para designar qualquer conta feita às pressas, no primeiro papel ao alcance da mão. E é exatamente essa a conotação da expressão equivalente em inglês, cuja tradução literal faz perfeito sentido em português: conta de verso de envelope.

Em muitas áreas, profissionais se veem com frequência obrigados a recorrer a contas de verso de envelope para obter, a partir de hipóteses simplificadoras e valores plausíveis de variáveis e parâmetros, estimativas preliminares aceitáveis de resultados que, em princípio, exigiriam cálculos bem mais rigorosos. Inclusive em áreas especialmente respeitáveis. Entre os físicos, é bem conhecido o talento especial com que o famoso físico nuclear Enrico Fermi sabia recorrer a contas de verso de envelope para obter estimativas aceitáveis de resultados de problemas extremamente complexos.

O que há de tão errado com as duas contas mencionadas acima? A alegação do ex-diretor da Petrobras é de que teria havido só incompetência na conta de padeiro que levou à estimativa inicial de quanto custaria a Refinaria Abreu e Lima. Na verdade, as investigações têm mostrado que houve muito mais. E revelado, com riqueza de detalhes, aspectos tenebrosos do lado escuro do modo de gestão petista.

O mais preocupante é quão longe foi a construção da refinaria com base nessa mera conta incompetente de padeiro. Sabe-se agora que, bem antes de contar com um estudo de viabilidade econômico-financeira, a refinaria já havia sido contemplada com um financiamento de R$ 10 bilhões do BNDES.

Na conta de padeiro apresentada pela presidente Dilma, a incompetência adveio de indisfarçável e mal-intencionada manipulação marqueteira. A opção relevante era entre construir estádios, de um lado, e escolas, hospitais e postos de saúde, do outro. Mas em vez de comparar os supostos R$ 8 bilhões que foram gastos nos estádios da Copa comdespesas de investimento em educação e saúde, a presidente permitiu-se compará-los com despesas totais dos três níveis de governo com educação e saúde de 2010 a 2013. Despesas da ordem de R$ 1,7 trilhão, que, além de investimentos em educação e saúde, incluem, por exemplo, toda a folha de pagamento do funcionalismo ligado à educação e à saúde nas três esferas de governo.

A conta que faz sentido é a que foi feita por Gil Castello Branco (O Globo, 17/6): “O custo dos estádios equivale a dois anos de investimentos federais em Saúde ou à instalação de 2.263 escolas". Não seria surpreendente se, diante dessa conta honesta, a maioria do eleitorado ainda se mostrasse favorável à construção dos estádios. Mas a presidente não quis correr o risco. Para poder arguir de forma peremptória que a questão levantava um “falso dilema", preferiu apresentar uma conta ridícula que faz crer que os gastos com os estádios foram equivalentes a menos de 0,5% do investido em educação e saúde. Um espantoso desrespeito ao eleitorado.

O pior já passou? - ELIANE CANTANHÊDE

 FOLHA DE SP - 20/06

BRASÍLIA - A campanha oficial ainda nem começou (só a partir de julho), mas a convenção nacional do PT neste sábado (21/6) ocorrerá sob a sensação de que o pior para a candidatura Dilma já passou.

A tragédia anunciada reverteu para uma boa Copa, com estádios e aeroportos funcionando e protestos sob controle. Além, claro, de todo mundo estar satisfeito com o espetáculo em si: torcidas multicoloridas e pacíficas nas arquibancadas, muitos gols e grandes surpresas nos gramados.

Confirma-se, assim, a previsão palaciana de "reversão de expectativas" favorável a Dilma: esperava-se um fiasco, tudo, então, parece magnífico.

O PT e Dilma precisam, agora, de uma outra reversão de expectativas --na política. Se a candidata continua bem à frente dos adversários, a nova pesquisa CNI-Ibope comprova que a aprovação do governo e da presidente continua em queda e que o índice de confiança nela é menor do que o de desconfiança. Isso, é óbvio, tem peso imenso em reeleições.

Os bodes expiatórios que Lula e as duas cúpulas de campanha (a lulista e a dilmista) amplificarão na convenção são o "ódio ao PT", a "elite branca", a "direita perversa" e sobretudo a "mídia". Como se PT, governo e Dilma fizessem tudo certo...

Mas, nas reuniões a portas fechadas, em especial sem ouvidos e vozes dilmistas, o tom é outro: as culpas recaem também sobre a economia, os erros de gestão, os descuidos políticos e a teimosia de Dilma. Mais a Petrobras e os Andrés Vargas.

O pior, porém, passou. A Copa e os xingamentos revertem a favor, o Congresso entra em recesso, saiu "pacote de bondades" para a indústria e os aliados dão o tempo de TV. Daí em diante, a tese do "ódio ao PT" serve para justificar o "ódio a todo mundo" --a quem ouse criticar o PT, o governo, Dilma e Lula-- e para o ataque pesado contra a oposição.

Ok, mas o PT e a Dilma-presidente precisam parar de atrapalhar a Dilma-candidata.

Ilusão de ótica - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 20/06

Não parou em pé uma semana a justificativa de que os insultos dirigidos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa foram obra de ação orquestrada pela "elite branca" presente ao estádio.

E quem a derrubou foi o mesmo Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, que em janeiro último pôs abaixo a versão oficial sobre os protestos de junho de 2013. Segundo o governo e o PT, a ebulição era produto do êxito das administrações petistas que tornaram as pessoas mais exigentes e o "Brasil mais forte", na expressão da presidente.

Na ocasião, Carvalho falava no Fórum Social, em Porto Alegre, e desabafou com franqueza sobre as manifestações: "Ficamos perplexos, fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós". Ele se dirigia a uma plateia amiga, como anteontem, quando disse a um grupo de blogueiros e militantes governistas que no Itaquerão "não tinha só elite branca".

Nesse movimento de duas avaliações diversas para um mesmo fato, o ministro relatou que viu "muito moleque" nas imediações do estádio falando palavrão. Pôde constatar, portanto, que "a coisa desceu".

Por "coisa" ele entende o seguinte: "A história de que não combatemos a corrupção, que aparelhamos o Estado, que somos um bando de aventureiros que veio aqui para se locupletar".

Não é exatamente uma "história", mas sim o que se ouve em toda parte, de todo tipo de gente que nos últimos 12 anos viu o PT contrariar antigas bandeiras, proteger corruptos, abafar escândalos, se aliar ao que de pior existe na política, zombar da ética, ter sua antiga cúpula condenada à prisão, tratar a Petrobrás com desmazelo, ser tolerante com a inflação, irresponsável com o gasto público e governar pela lógica eleitoral.

Nessa mesma reunião, o ministro defendeu a tese para lá de controversa segundo a qual o governo perdeu a batalha da comunicação para a "mídia conservadora" porque não soube "fazer o debate" da maneira correta. Como não houve uma defesa competente, pelo raciocínio de Gilberto Carvalho abriu-se o espaço para a alteração da correlação de forças políticas que resulta agora na "eleição mais dura para o PT".

Ora, o que o PT mais teve nesses anos todos foi espaço nos meios de comunicação tanto para defesa quanto para ataque. Nos dois governos de Lula, o presidente discursava todos os dias. Quando o partido e o governo acharam desnecessário explicar suas propostas, ou apresentá-las à sociedade de qualquer maneira na base da pura enganação, como fez com os "pactos" de junho de 2013, foi em decorrência da soberba sustentada na certeza da popularidade inesgotável.

Esse mesmo governo que agora atribui suas dificuldades eleitorais à influência da "pancadaria" dos meios de comunicação quando estava com altos índices de aprovação jactava-se de "derrotar" sistematicamente a imprensa num combate que só existia na cabeça do partido e do Planalto.

As agruras, a mudança na correlação de forças referida por Gilberto Carvalho tem origem nos fatos. O acúmulo de desmandos formou um passivo em que a realidade venceu o marketing. Simples assim.

Às turras. O clima entre PT e PMDB em São Paulo desmente a assertiva da presidente Dilma de que o governo federal conta com "dois candidatos, Alexandre Padilha e Paulo Skaf" para enfrentar, juntos, a eleição no Estado.



Primeiro, o próprio Skaf tratou de dizer que na Pauliceia o PT é "adversário", e agora Padilha acusa o PMDB de ter plagiado o slogan de sua campanha e ameaça ir à Justiça.


Cesta básica. De um espectador engajado: "Dilma não precisa de mais tempo de televisão; precisa é de votos".

Caindo na real - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 20/06
Num ataque de "sincericídio" que desmontou o álibi de Lula, o ministro Gilberto Carvalho afirmou, diante de blogueiros chapa-branca e ativistas petistas, que "no Itaquerão não tinha só elite branca, não. Não fui pro jogo, mas estive ao lado [do Itaquerão], numa escola (.), fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca"
Constatar a realidade é uma ação política muito mais eficaz do que criar uma realidade, é o que parece estar dizendo aos petistas o ministro mais ligado a Lula. A verdade é que o PT está tateando em busca de uma narrativa que compense as evidentes falhas do governo de Dilma Rousseff e até agora não encontrou.

Tentou primeiro a tática do medo naquela propaganda que ameaçava com o fim do mundo se Dilma perder a eleição e não colou. Inventou agora a campanha do ódio, jogando uma pretensa "elite intolerante" contra os "pobres e feios", revelando nesse ato falho o preconceito do próprio Lula.

Como o país não vive uma "luta de classes", essa tática também falhou, e o resultado da nova pesquisa Ibope divulgada ontem pela CNI demonstra que a vitimização da presidente não teve consequência na avaliação do governo, que sofreu queda em rigorosamente todos os quesitos analisados.

Já são, por exemplo, 52% dos brasileiros a dizerem simplesmente que não confiam na presidente da República.

Não seria a tentativa de transformar Dilma de gerentona exigente e rigorosa em uma senhora frágil e digna de pena que faria mudar o sentimento dos brasileiros.

A propósito da tentativa de vitimização por causa dos xingamentos a Dilma no Itaquerão, vale a pena abrir um parêntese para contar a história da reação do então presidente Itamar Franco ao xingamento de Lula, que o chamou de "filho da p..." em 1993, numa conversa com jornalistas.

Sagaz, o político mineiro soltou uma nota oficial em que chama Lula de "elitista e arrogante" e, em suma, dizia o seguinte: "Mesmo que minha mãe fosse uma p..., eu teria por ela o mesmo amor filial". Em matéria de vitimização, muito mais elegante do que o que os petistas tentaram fazer.

Como constatou Gilberto Carvalho, diante de militantes petistas atônitos, "a coisa desceu. Isso foi gotejando, de água mole em pedra dura, esse cacete diário de que inventamos a corrupção, de que nós aparelhamos o Estado brasileiro, de que somos um bando de aventureiros que veio aqui para se locupletar, essa história pegou. Na elite, na classe média, e vai gotejando, vai descendo".

É claro que o objetivo final de Gilberto Carvalho era, como sempre, atacar o que chamam de mídia: "Nós não fizemos o debate na mídia pra valer; nós passamos esse tempo todo com uma pancadaria diária que deu resultado.

E que resulta no palavrão para a Dilma".

De maneira enviesada, Carvalho está fazendo o mesmo que Alberto Cantalice, vice-presidente do PT e coordenador de redes sociais fez na página oficial do partido, nomeando alguns jornalistas como responsáveis em última análise pelos xingamentos a Dilma, numa atitude irresponsável que merece repúdio.

"Fazer o debate da mídia para valer" significa tentar por todos os meios aprovar o tal "controle social da mídia", o que dá margem a que se vincule a criação por decreto presidencial dos tais "conselhos populares" a uma tentativa repetida de aparelhamento pelo PT, desde que chegou ao poder central, das diversas instâncias institucionais do país.

A pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem mostra que o governo Dilma está no momento vivendo uma crise que o coloca em pelo menos dois parâmetros que definem a impossibilidade de ser reeleito: a popularidade do governo da presidente Dilma Rousseff caiu de 36% em março para 31% em junho, computados aqueles que consideram o governo ótimo ou bom.

Há pesquisas que indicam que com menos de 35% de ótimo e bom é praticamente impossível se reeleger. A presidente Dilma Rousseff tem também o maior índice de rejeição entre os candidatos, com 43% afirmando que não votariam na petista "de jeito nenhum".

É unânime entre os especialistas que com uma rejeição igual ou maior que 40%, um candidato perde a condição de se eleger.

Pacote ruim e requentado - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 20/06

Em mais um esforço para reconquistar o apoio do empresariado, a presidente e candidata Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lançaram um pacote requentado de medidas para "reforçar", segundo a explicação oficial, "a competitividade da indústria brasileira". Alguns benefícios foram remodelados e poderão impor maiores custos ao Tesouro, mas o conjunto dificilmente produzirá resultados melhores que os obtidos nos últimos anos, quando a produção industrial ficou estagnada. Além disso, os investimentos têm permanecido na vizinhança de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), muito abaixo do padrão observado em economias emergentes mais dinâmicas, incluídas várias sul-americanas. Antes do anúncio público das bondades, a presidente reuniu-se com 34 empresários no Palácio do Planalto.

"A gente podia ter eleição a cada seis meses", disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato. A frase pode ter sido uma brincadeira, mas brincadeiras também contam verdades. Nem um marciano recém-chegado poderia desconhecer o sentido eleitoral do encontro e do pacote. Também ficaram evidentes a improvisação das medidas e a pouca ambição da pauta de reivindicações empresariais - algo do tipo "qualquer coisa é melhor que nada".

O componente mais velho do pacote é o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), criado em 2009, quando o Brasil começava a emergir da recessão. A ideia inicial era usá-lo como instrumento de reativação econômica e abandoná-lo em seguida. Mas o PSI, prorrogado várias vezes, ainda deveria valer até o fim deste ano. O governo acaba de esticá-lo novamente, desta vez até o fim de 2015.

O Tesouro seguirá fornecendo o dinheiro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) continuará, provavelmente, a aplicá-lo com a mesma eficácia dos últimos anos. Pode-se medir essa eficácia pelo baixo nível do investimento privado e pelo desempenho de uma indústria batida pelos concorrentes em todos os mercados - até na América do Sul e no Brasil.

Os números do comércio exterior e a participação crescente dos produtos estrangeiros no mercado interno mostram também a ineficácia do Reintegra, em vigor desde 2012. Na versão recauchutada, esse programa será permanente e garantirá ao exportador um benefício fiscal entre 0,1% e 3% do valor faturado. A alíquota será fixada anualmente pelo governo e ficará, neste ano, em 0,3%. Com essa medida, o governo contorna, mais uma vez, a tarefa muito mais complexa de propor e negociar uma reforma tributária.

Essa reforma é necessária para eliminar uma das principais desvantagens do produtor nacional diante dos competidores estrangeiros. Deveria servir também para eliminar a guerra fiscal entre Estados e racionalizar a tributação, mas nada disso ocorrerá, se depender da disposição do governo e da articulação do trabalho parlamentar.

Além de ser um pobre substituto para uma reforma tributária séria, o Reintegra beneficia, por enquanto, um número limitado de setores. Segundo o ministro da Fazenda, o governo poderá estudar a inclusão de outros segmentos da indústria, mas nada foi prometido. Também é limitado, por enquanto, o alcance da desoneração dos encargos trabalhistas. Antes do pacote dessa quarta-feira, o governo já se havia prometido tornar permanente essa desoneração.

Todos esses benefícios, permanentes ou passageiros, são retalhos mal costurados e tornam mais frágil e confuso um sistema fiscal já em más condições e especialmente prejudicado, nos últimos anos, pela contabilidade criativa.

Com a mudança do Refis, também anunciada, o governo reduziu o pagamento inicial exigido no refinanciamento de dívidas tributárias. Ampliou, portanto, o estímulo à sonegação, conhecido efeito do programa.

O resto também é o de sempre. A uniformização da margem de preferência para produtos nacionais, nas compras do governo, é mero protecionismo, sem efeito sobre a competitividade internacional. Favorece os acomodados, sem benefício real para a economia.


Convocar fantasmas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 20/06

Pressões para a revisão da Lei de Anistia, a fim de que agentes públicos responsáveis por crimes cometidos na “guerra suja” travada, na ditadura, com grupos armados da esquerda sejam punidos na Justiça crescem à medida que, no trabalho da Comissão da Verdade, surgem revelações sobre aqueles tempos, feitas por militares e policiais que atuaram no aparelho de repressão política do Estado. Mudar esta lei, porém, não é apenas uma aberração jurídica, como também um erro político.

A chegada ao poder de partido mais à esquerda, o PT, no qual há vítimas da ditadura militar, colocou na pauta de discussões em Brasília mudanças na anistia de 1979. Antes, na Era FH, do PSDB, outro partido de esquerda, porém mais ao centro no mapa das ideologias, também perseguidos pelos militares assumiram cargos no Executivo e se elegeram para o Congresso, sem, no entanto, que os termos da anistia fossem contestados. Na gestão FH instituiu-se uma Comissão da Verdade e se aprovou legislação para se indenizarem vítimas da ditadura.

Em 2010, ação movida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para alterar a lei e permitir o indiciamento de agentes públicos foi rejeitada pelo Supremo, por sete votos a dois. Confirmou-se, portanto, a amplitude do perdão concedido pelo Congresso, por proposta do último dos governos militares, do presidente-general João Baptista Figueiredo.

Vários argumentos embasaram o veredicto. Eles continuam válidos. Um deles: não bastasse a anistia ter sido aprovada livremente pelo Congresso, ela emergiu de uma negociação da oposição com os generais. Mais do que isso, uma negociação incluída como parte de um processo mais amplo de transição da ditadura para o retorno à democracia, sem violência e maiores transtornos institucionais.

A Lei de Anistia, portanto, não pode ser vista de forma isolada, fora do contexto de uma redemocratização sem turbulências, sem vencidos e vencedores. Embora ficasse evidente a derrota do projeto militar de poder, nutrido a partir de uma geração de tenentes na década de 20, quando patrocinaram rebeliões contra a República Velha.

Outro aspecto é que a Anistia, ao contrário do que aconteceu em alguns países da América Latina, não beneficiou apenas um lado. Ela foi recíproca. Revê-la é ir contra a ideia de que a concessão da anistia ampla pressupunha a impossibilidade de revanchismo. Este mesmo princípio é que permitiu que um dos políticos aliados aos militares, José Sarney, viesse a ser peça-chave na transição. Ele tem sido, não por acaso, fiel parceiro do PT.

A Lei, portanto, se assenta sobre uma construção política tal que revê-la para punir agentes públicos por crimes cometidos até 79 é como se fosse reaberto o processo de transição pacífica para a democratização. Como isto é impossível, a revisão se choca com a própria evolução da História. Não bastasse o movimento ir contra uma decisão do Supremo, acabar com a lei é convocar fantasmas de um passado já longínquo.

Trapalhadas argentinas - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 20/06
Se pudesse contar com a genialidade de Lionel Messi e com a reconhecida capacidade técnica dos demais jogadores de sua seleção para enfrentar os problemas que ameaçam atirá-la na vala comum dos párias do mercado financeiro, a Argentina certamente não estaria vivendo o pesadelo que a atormenta desde quarta-feira e que promete se estender por longo e sofrido tempo.
Mas, bem diferente do que ocorre no futebol, em que os argentinos construíram reputação de competidores eficientes, os atuais ocupantes da Casa Rosada, sede do governo, gostam de tomar decisões perigosas. Ora movidos por velho populismo herdado do peronismo, ora por puro voluntarismo, próprio dos latino-americanos mais inflamados, os Kirchner - primeiro Néstor e, depois, a viúva, Cristina - não param de dar exemplos que não devem ser seguidos por governantes sérios.

A história recente de equívocos portenhos começou em 2001, com um ato vendido ao povo como atitude corajosa: o governo anunciou o calote de sua dívida com bancos e instituições financeiras internacionais de aproximadamente US$ 100 bilhões. Nessa hora, sempre aparece um bando de sonhadores que acreditam ser possível dar o cano em quem teve a coragem de emprestar dinheiro ao país necessitado de financiamento e ficar tudo por isso.

Mesmo no Brasil, nos anos 1990, não faltaram economistas de formação dita desenvolvimentista e políticos que sabiam apenas que soava bonito e patriótico ser contra o pagamento da dívida do país e, em vez disso, usar o dinheiro para tirar parte da população da pobreza. Ou não foram às aulas de economia ou simplesmente não entenderam nada.

Cinco anos depois, a Argentina, vendo o erro que foi o calote, pois não tinha dinheiro nem para bancar suas importações nem muito menos para investir no desenvolvimento, abriu ampla negociação com os credores, resultando numa clássica reestruturação da dívida, com prazos definidos de pagamento em troca de um bom desconto (chegou a 70% em alguns casos).

Mas nem todos os credores aceitaram esse jogo. Um grupo deles, que tem a receber US$ 1,5 bilhão, foi à Justiça dos Estados Unidos para obrigar a Argentina com um "paga lo que debes". Na quarta-feira, o grupo ganhou em última instância todos os direitos, inclusive o de "sequestrar" pagamentos que a Argentina fizer em bancos norte-americanos. O pior é que um desses pagamentos vence em 30 de junho e fica desde já impedido.

É, pois, uma bela enrascada. Em vez de enfrentá-la com serenidade e transparência, o governo argentino inundou Buenos Aires com cartazes com os dizeres "Basta, abutres", aplicados sobre as cores da bandeira dos EUA. É uma tentativa de enganar o povo com o velho truque de desqualificar o oponente, mesmo que ele tenha sido alguém que confiou na Argentina e está apenas querendo reaver o dinheiro.

Pode render votos, mas nem de longe melhora a situação do país, que não soube aproveitar o tempo que ganhou sem pagar para melhorar a economia. Em vez disso, distribuiu benesses para garantir resultados eleitorais. Esse é um filme velho que sempre acaba mal.

Argentina pressionada - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 20/06

Decisão da Justiça dos Estados Unidos determina o pagamento de credores que não aceitaram renegociar dívidas após o calote de 2001


Foi uma bomba. Na segunda-feira, a Suprema Corte dos EUA rejeitou recurso da Argentina e manteve decisão da Justiça de Nova York segundo a qual a Casa Rosada deve pagar US$ 1,3 bilhão a alguns credores que não aderiram à renegociação da dívida externa do país, realizada entre 2005 e 2010.

São os chamados fundos "abutres", que mantêm papéis da dívida externa desde que a Argentina anunciou o calote, em 2001. Anos depois, o governo fez novos acordos em boa parte de seus compromissos internacionais: cerca de 93% de seus títulos, que totalizavam quase US$ 100 bilhões, foram trocados com até 70% de desconto.

Desde então a Argentina vem pagando a dívida reestruturada; além disso, o país procurou dar passos concretos para superar contenciosos com entidades e empresas internacionais. Eram esforços com vistas a normalizar suas relações financeiras com o restante do mundo e, assim, reabrir o acesso aos mercados e a novos meios para financiar seu desenvolvimento.

A decisão da Justiça americana, ao menos a princípio, turva o cenário. A sentença estabelece que o pagamento das parcelas fruto da renegociação --agendadas para o final deste mês-- deve ser simultâneo ao desembolso aos credores que ficaram de fora desse processo e obtiveram vitória judicial.

Se a Casa Rosada não quiser pagar esses antigos credores, estará configurado novo calote. Nesse caso, especula-se que o país ficará sujeito até a arrestos de bens em qualquer parte do mundo, algo incomum quando se trata de um Estado soberano. É fácil adivinhar o debate intrincado que se abrirá no plano do direito internacional.

Por outro lado, obedecer à determinação do Judiciário americano também tem consequências negativas. Todos os credores que não participaram da renegociação na década passada poderão pleitear o mesmo tratamento. Incluindo juros, a conta a ser quitada poderia chegar perto de US$ 15 bilhões --a Argentina tem US$ 28 bilhões em reservas internacionais.

O governo argentino mencionou a possibilidade de manobrar para levar as dívidas renegociadas à jurisdição de Buenos Aires, escapando da americana. Não seria algo simples, contudo.

Em seguida, manifestou disposição para negociar com os credores rebeldes. Ainda assim, há dificuldades: devido a cláusulas contratuais, na prática o governo não pode oferecer, até o fim deste ano, condições mais vantajosas do que as pactuadas entre 2005 e 2010.

Apesar da grita da presidente Cristina Kirchner, a verdade é que interessa à Argentina dar cabo dessas antigas pendências --e a Justiça norte-americana pode ter dado o impulso que faltava para forçar uma solução.

O decreto e a realidade - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 20/06


Os sofismas são distorções da realidade. Captam um aspecto e extrapolam o seu âmbito, começam com uma meia-verdade e terminam com uma mentira completa. E esse é o percurso que o governo federal tem seguido na defesa do Decreto 8.243. Cria ele novos conselhos? Não. Se apenas criasse conselhos, não haveria maiores problemas. Seria "apenas" uma burocratização a mais na já burocratizada administração pública federal. Mas não foi isso que provocou reações contrárias a ele no Congresso. O decreto cria algo de extremo interesse dos atuais ocupantes do Poder Executivo - uma "política de participação social" gerenciada por ele.

É algo mais profundo do que a mera existência de conselhos, e o seu perigo reside nas segundas intenções. Nada é dito explicitamente. E o governo trata os seus opositores como ignorantes, alegando que existem conselhos desde 1937. Só para lembrar: 1937 foi o ano em que o Brasil mergulhou na ditadura do Estado Novo. É assim que quer defender o decreto?

O governo sustenta que é piada de mau gosto da oposição chamar o Decreto 8.243 de bolivariano. Infelizmente não é. Alegar que são conselhos consultivos é fugir do problema, escorregando novamente para o sofisma. Chávez e seus "muchachos" não estrangularam a democracia em seus países dizendo que assim o fariam. Sufocaram a democracia com as mais belas palavras, "conferindo o máximo poder ao povo".

É verdade que o decreto não iguala Dilma a Chávez. O decreto está vigente e isso não nos transformou ipso facto numa Venezuela. Mas o decreto traz no seu bojo a mesma lógica, idêntica retórica. "A representação tem muitos defeitos", afirmou o ministro Gilberto Carvalho. É óbvio, mas não pode ser um ato do Executivo o meio legal para corrigir essa representação, e ainda por cima encarregando o próprio Executivo de coordenar essa nova representação, com a sua "política de participação social". Aí está o problema.

Na cortina de fumaça que é a defesa do decreto pelo Executivo, afirma-se que a oposição está criando um problema político. Não se trata de um "problema político", mas de um problema institucional, que logicamente afeta a vida política. A questão institucional, em sua essência, é a vontade do Executivo de "alterar" (se vai piorar ou melhorar é uma questão sobre a qual cada um terá sua opinião) a forma de participação social. Ora, não cabe a ele "reequilibrar" representação política nem muito menos proclamar-se gerente dessa nova "política de participação social".

Representantes do governo afirmam que estão dispostos a dar todas as explicações necessárias ao Congresso. Até o momento, tiveram inúmeras oportunidades para fazê-lo, mas o que deles só se ouviu foi mais do mesmo. Na prática, dizem: "Acreditem em nós, não faremos nenhum mal à democracia representativa com a nossa política de participação social". As instituições de um país são organizadas para diminuir a arbitrariedade pessoal, não para criar feudos e atribuí-los a "bonzinhos". A constitucionalidade de um decreto não depende das declarações de boa intenção dos seus criadores. Decorre do que está posto no papel, e o que lá está não é nada republicano.

Não é o medo da voz popular que leva o Congresso a se opor ao Decreto 8.243. É o receio de que alguns, sob a batuta do Executivo, se sirvam dele para monopolizar a voz da sociedade. Uma rendição dos deputados e senadores a este ato da Presidência significaria ferir o mandato que a sociedade brasileira lhes conferiu. É seu dever garantir a pluralidade de vozes da população, não apenas alguns corais ensaiados.

Criar e organizar os Conselhos pretendidos por projeto de lei - como sugerem alguns congressistas - não resolve o problema. Por lei ou por decreto, a ideia é ruim e perigosa, porque atropela as instituições ao dar ao Executivo o direito de organizar - ou melhor, domesticar - a "participação social". Por lei, o máximo que o Congresso poderá fazer é maquiar a ideia, dando-lhe ares de respeitabilidade e legitimidade. Por isso, a emenda poderá ser pior do que o soneto.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Quem está preso tem pressa”
Ministro Luís Barroso (STF), novo relator do mensalão, levando euforia à Papuda


GERALDO ALCKMIN PRESSIONA KASSAB A APOIAR AÉCIO

O governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) entrou na briga para convencer o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, a quebrar o compromisso com o PT para apoiar a reeleição da presidente Dilma e apostar na candidatura do tucano Aécio Neves à Presidência. Em troca, Kassab sairia candidato a vice na chapa de Alckmin, que o apoiaria na disputa pela sucessão no governo paulista em 2018. 

COPA PARA QUEM?

Orientado por Aécio, Alckmin conversou com Kassab na última terça (17) logo depois do jogo da seleção brasileira contra o México. 

OFENSIVA 

Já Aécio se reuniu no domingo com Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, a quem ofereceu a vice, mas só se levar junto o apoio do PSD.

CABEÇA DE MINHOCA

Lula culpa “os que nunca pegaram na enxada” pelos xingamentos a Dilma nos estádios. Ele deveria mostrar as próprias mãos primeiro.

MEU INGRESSO, MINHA VIDA

A venda ilegal de ingressos para jogos do Brasil na Copa do Mundo já virou piada em grupos do WhatsApp: tem cambista estudando “troca por imóvel”. 

MEDALHA DE GENOINO PODE RENDER DOR DE CABEÇA 

O comandante do Exército, general Enzo Peri, nem sequer foi amolado pelo Ministério Público Militar por não cumprir o dever de cassar, de ofício, a Medalha do Pacificador do mensaleiro José Genoino, mas está sujeito a rebordosa. O decreto 4.207/02 prevê a perda da medalha de agraciado que for condenado na Justiça por crime contra o erário. E o general corre o risco de ser enquadrado no Código Penal Militar (CPM).

OLHO VIVO, GENERAL

O CPM descreve como crime “retardar ou deixar de praticar ato de ofício”. A pena é de seis meses a 2 anos de detenção. 

ME ERREM

O general Enzo Peri se recusa a explicar por que preserva a honraria de um condenado cumprindo pena na Papuda por crime de corrupção.

SIM, SENHORA

Segundo quem o conhece de perto, o general Enzo Peri tem muito mais medo de uma bronca de Dilma do que de uma punição judicial.

SAINDO DE CENA

Joaquim Barbosa livrou-se do Supremo e do processo do mensalão, para flanar numa boa, mas adoraria não se livrar de uma candidatura em outubro próximo, caso fosse legalmente possível. 

ORBITANDO NA MAIONESE

Aposentado na sombra após o mico de plantar feijão no espaço para Lula ao custo de R$ 10 milhões para o contribuinte brasileiro, o astronauta-camelô Marcos Pontes mostra na internet vídeo “inédito” para a seleção em 2006, na estação espacial. 

COMPAÑEROS

Com o quase total desabastecimento na ilha, os correios de Cuba (sim, existem) pifaram, diante da avalanche de envios dos médicos cubanos do programa Mais Médicos no Brasil. São piores que a ECT, acredite.

O FEITIÇO DO TEMPO

A agenda do comandante Moura Neto, no site da Marinha, continua a mesma desde 17 de janeiro, quando teve audiência com o ministro da Defesa e se dedicou a “despachos internos”. 

NEM AÍ

O Itamaraty continua despreocupado, após a paralisação inédita dos contratados locais de 13 missões diplomáticas por melhores salários. O chanceler Luiz Figueiredo mandou procurarem a Justiça. E olhe lá. 

EM FAMÍLIA

Antônio Oliveira Santos, que há 34 anos se agarra como carrapato à presidência da Confederação Nacional do Comércio, já tem um plano B para as eleições à própria sucessão, caso se inviabilize: Pedro Nadaf, presidente da Fecomércio-MS, que, para ele, é um genro de sonho. 

CAIXINHA, OBRIGADO

A CUT já festeja novos filiados ao cofrinho: a Comissão de Constituição e Justiça aprovou projeto da deputada Fátima Bezerra (PT-RN) regulamentando a profissão de historiador só com diploma, claro.

ALTERNATIVAS

Restam três opções para vice, ao pré-candidato a governador do DF José Roberto Arruda (PR): José Frejat, ex-deputado ligado a Joaquim Roriz, a deputada Jaqueline Roriz, que, como Arruda, apareceu em vídeo recebendo dinheiro sujo, e a deputada Eliana Pedrosa (PPS).

PENSANDO BEM...

...Dilma prometeu “fazer o diabo” para ganhar a eleição, mas é a torcida brasileira que está aprontando como o capeta nos estádios.


PODER SEM PUDOR

O CORAÇÃO DE DINARTE

Diziam do senador Dinarte Mariz que ele tinha um grande coração, principalmente quando se deparava com algum conterrâneo do Rio Grande do Norte perdido em Brasília. Não faltavam aproveitadores. Certa vez, ele recebeu um sujeito contando um drama capaz de levar qualquer um às lágrimas. Dinarte se comoveu e ordenou ao incrédulo chefe de gabinete, com a voz ainda embargada:

- Arrume um cargo aí para esse pobre homem, e se possível de chefia.

- Mas, senador, ele não tem o primeiro grau, nem ler...

Ainda emocionado, Dinarte Mariz insistiu:

- Então aposente esse infeliz.

quinta-feira, junho 19, 2014

Precisa ficar rico? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 19/06

Embora seja o quarto mercado em tamanho, o carro brasileiro vai lá para trás quando de trata de produto competitivo


As vendas de automóveis caíram neste ano. Ainda assim, o Brasil disputa com a Alemanha a posição de quarto mercado mundial de veículos. China (20 milhões/ano) e EUA (15 milhões) estão lá na frente. Depois vem o Japão, com produção superior a seis milhões e, pronto, logo chega o Brasil, na casa de 3,8 milhões de unidades produzidas e consumidas em 2013. Alemanha e Índia estão logo ali, na cola, mas reparem: aqui se produzem muito mais carros do que na Inglaterra, França, Itália e Coreia do Sul.

Em economia, tamanho é documento. E isso explica por que as grandes montadoras globais estão todas aqui. Os executivos sempre reclamam da dificuldade para se fazer negócio no país, queixam-se das normas tributárias, trabalhistas e ambientais, estão sempre pedindo (e conseguindo) ajuda do governo. E continuam investindo. Não podem ficar de fora de um mercado que é quase 5% do global.

Isso vale para os demais setores. Por exemplo: celulares. Chegamos aqui aos 280 milhões de linhas, de novo entre os cinco maiores mercados do mundo. Computadores? Terceiro ou quarto. Cerveja? Ali entre os cinco primeiros.

Muita gente acha que assim já está mais que bom. O Brasil é grandão, coloca-se entre as dez maiores economias do planeta, grande mercado interno, o pessoal tem que vir aqui para produzir e vender, certo?

Errado.

Na verdade, é um atraso pensar assim. Pode-se produzir aqui uma carroça ou um carrão, um modelo velho ou uma inovação gerada localmente. Pode-se ainda ficar limitado ao mercado local ou ganhar o mundo. E o Brasil está se isolando.

Há alguns anos, as empresas chinesas, estatais e privadas, colocaram-se um desafio: tornarem-se globais. Ora, não haverá maior mercado interno que o chinês, já grande e com enorme capacidade de expansão. Ou, perguntando de outro modo: se eles já dispõem lá de um mercado próximo dos 20 milhões de carros, por que querem disputar um pedaço dos nossos 3,8 milhões?

Porque não há progresso sem globalização — ou internacionalização, se não gostarem da outra palavra.

A demanda traz a oferta, o mercado traz o produto. Mas a qualidade da oferta, a boa qualidade, depende de uma economia aberta, exportadora e importadora, com um ambiente favorável aos negócios privados. Não custa repetir: o que gera riqueza não é o governo, mas o investimento privado.

Ou seja, embora seja o quarto mercado em tamanho, o carro brasileiro vai lá para trás quando de trata de produto competitivo. Além do Brasil, só se vende carro brasileiro na Argentina, cuja indústria, além de menor, é até mais atrasada.

Mas por que estamos falando disso? Porque a gente deveria buscar “padrão Fifa” para tudo, de estádios a automóveis e celulares. Quando se diz que já está bom o “padrão Brasil”, que não tem nada de mais oferecer aos torcedores um aeroporto ou metrô lotado e fazê-los caminhar uns poucos quilômetros — isso é conformar-se com a segunda classe.

O que queremos? Ser um país rico, uma sociedade afluente, ou está bom do que jeito que está?

Dizem que isso é reclamação da elite. Ao mesmo tempo, a presidente Dilma diz que um dos grandes avanços do país, um sinal de progresso, é a presença das classes C e D nos voos nacionais e internacionais.

Ora, por que esse pessoal, que trabalha pesado, não merece ou precisa de aeroportos classe A? Quando se diz que não precisamos de “padrão Fifa”, é como dizer: caramba, essa gente já escapou das rodoviárias e já está nos aeroportos. O que querem mais?

Ou ainda: já estão de carro, o que querem, uma Mercedes?

E mais: já têm celular, o que queriam — que a linha não caísse nunca?

O problema não é o aeroporto parecer uma rodoviária. O problema é que as rodoviárias não servem corretamente à população.

Dizer que o atual padrão brasileiro é o suficiente equivale a reconhecer a incapacidade de produzir um país rico. Ora, por que não podemos querer mais?

Ajuda

Parece que a indústria automobilística vai levar mais uma ajuda do governo. Parece também que o governo não vai colocar nenhuma condição séria em troca. O que seria condição séria? Por exemplo: produzir carros que sejam competitivos nos EUA e na Europa.

Impossível nas condições atuais do ambiente de negócios?

Impossível.

Mas as condições podem ser mudadas, não podem?

O miolo vazio da onda de consumismo MARCO ANTONIO ROCHA

O ESTADO DE S.PAULO - 19/06


Como é possível, ao governo, melhorar ainda mais rapidamente as coisas, depois de elas já terem melhorado bastante, num governo anterior?

A resposta é simples e ao mesmo tempo inútil: basta fazer muito mais do mesmo.

Simples, pois o que deu certo não deve mudar. Inútil, como a presidente Dilma está percebendo: o governo dela tem feito bem mais do mesmo do Lula. Mas as coisas estão piorando, em vez de melhorar ainda mais.

Para o ex-presidente, é porque Dilma está gastando pouco. Num seminário em Porto Alegre, promovido pelo jornal El País, com Dilma presente, ele deu a receita: "Se depender do pensamento do Arno (Agustin) você não faz nada. Não é por maldade dele, não. A nossa tesoureira em casa é a nossa mulher e também é assim. Elas não querem gastar, só querem guardar, mas tem que gastar um pouco também", disse Lula.

O Arno é o secretário do Tesouro. Será que gasta pouco? Só o que o Tesouro tem desperdiçado com o BNDES já encheria uma biblioteca.

Mas a visão de Lula sobre a economia não vai além de São Bernardo e da cesta de compras de dona Marisa. Aceitemos pois essa brilhante tese: é preciso gastar mais para irrigar a economia com dinheiro vivo e o povo poder consumir mais.

Essa foi a doutrina no mandato Lula. E, de fato, permitiu que o povo consumisse mais. Ele apostou - mesmo que não soubesse direito o que fazia - no consumer side da economia. Uma espécie de reaganomics (do ex-presidente Ronald Reagan, dos EUA). Só que muito estabanada, porque Reagan apostou foi no supply side da economia, na oferta. Reduzindo impostos e taxas de juros, as empresas produziriam mais a menores preços, criariam mais empregos e mais salários, os assalariados comprariam mais e a demanda aumentada puxaria a oferta.

Lula aumentou a renda da população como todo mundo constatou. O pobre ficou menos pobre, ou até mais rico, em certos casos, como reza a propaganda oficial. Em parte, é verdade. Houve um processo de emergência socioeconômica, com o povo comprando casas, comprando carros, comprando eletrodomésticos, cuidando melhor da saúde, procurando melhores escolas para os filhos, trocando o ônibus e o trem pelo avião nas suas viagens: "Os aeroportos viraram estações rodoviárias", disse alegremente a presidente Dilma. Também é verdade, em parte, embora quem já viajasse de avião não tenha gostado muito disso. A "elite" não gostou muito, diz Lula, na sua campanha permanente contra as classes altas, às quais ele atribui os males brasileiros.

Mas isso tudo foi muito bom, num primeiro momento. Reconheçamos. Para o povo em geral e para as empresas. A indústria vendeu mais, importou mais, o comércio vendeu mais, os serviços se expandiram. E o emprego também.

Só que na economia, como na física, a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Ou, numa linguagem apropriada ao Lula, tudo o que sobe tem de descer.

Estamos na descida. Não há dúvida. A indústria automobilística explodiu, pois quem não tinha carro pôde comprar seu primeiro carro, usado ou novo. Só que não vai comprar carro, de novo, todos os anos. Quem comprou geladeiras, máquinas de lavar, móveis, casas, etc., não vai comprar de novo todos os anos.

Enfim, quem estava carente de bens procurou suprir essa carência. E supriu em grande parte. As novas classes sociais emergentes, enfim... emergiram! Ingressaram nos estamentos inferiores da velha classe média e, em boa medida, estão felizes. Agora pensam em poupar, não só para pagar os bens adquiridos, inclusive casas, como para garantir melhor os filhos e a aposentadoria.

Era previsível que a "onda" de bem-estar lulista perdesse embalo. A base de continuidade desse processo seria o aumento dos investimentos, privados e públicos. Não houve. A doutrina do consumismo exibe agora o seu miolo vazio.


Nova política externa - MARCELO COUTINHO

O GLOBO - 19/06

O governo deu repetidas demonstrações de apreço a regimes autoritários e acelerou o processo de desindustrialização do país


Há um consenso crescente na sociedade de que a política externa brasileira deixou de atender aos interesses nacionais. Do comércio exterior aos direitos humanos, o Brasil hoje não aparece bem. Recuamos à era dos militares dos anos 1970 na agenda internacional da democracia e retrocedemos ainda mais nas exportações para um padrão anterior a JK.

Nos últimos anos, o governo deu repetidas demonstrações de apreço a regimes autoritários, inclusive na América do Sul, enquanto também tratou de acelerar o processo de desindustrialização nacional. O país foi resumido a uma fonte de produtos básicos que apoia ditaduras. Isso ocorreu porque desde a crise de 2008 palacianos e diplomatas do Itamaraty apostaram na derrocada dos EUA e em tudo o que a “América” representa em termos de regime político e econômico.

Daí vieram o apoio ao Irã, a embaixada na Coreia do Norte, a tentativa de piorar a situação em Honduras, a descompostura nos fóruns de direitos humanos na ONU e na OEA, o perdão de dívidas de antigas ditaduras na África, a recusa a apoiar a Primavera Árabe, a aceitar refugiados, o alinhamento incondicional ao Brics, o abandono do Mercosul e a cumplicidade com retrocessos autoritários em países como a Venezuela.

O último grande erro da nossa diplomacia foi a abstenção na resolução da ONU pela integridade territorial de uma nação soberana, apresentada pela Ucrânia. O Itamaraty deixou de reafirmar o princípio da inviolabilidade de espaços nacionais apenas para garantir a vinda do presidente russo ao Brasil. Ficamos isolados na Assembleia Geral das Nações Unidas. Foi a gota d’água. Chegou o momento de uma mudança profunda na política externa a partir de seis pontos principais.

Primeiro, flexibilizar a Tarifa Externa Comum do Mercosul, para que possamos estabelecer acordos comerciais livremente. Podemos revisitar a TEC de maneira permanente ou por um prazo de até cinco anos, preservando o restante do bloco. Com isso, fecharíamos de imediato o acordo com a Europa e daríamos início a outras negociações.

Segundo, integrar a nossa indústria ainda competitiva às redes globais de produção. Particularmente, deveríamos promover um programa de integração das cadeias produtivas industriais na América Latina, a começar pelo setor automotivo, dentro de uma estratégia bilateral eficiente.

Terceiro, fazer a reconciliação do Brasil consigo mesmo, da política externa com o que a população brasileira espera dela, defendendo com clareza os temas do meio ambiente, da democracia e dos direitos humanos no mundo, e fortalecendo suas instâncias multilaterais. Na maior parte das vezes, uma palavra contra os abusos já basta. Apenas com essas bandeiras valeria a pena lutar por um assento fixo no Conselho de Segurança da ONU.

Quarto, buscar para valer a reaproximação com os EUA e com o Ocidente em geral, sem prejudicar as relações com o mundo emergente, de uma maneira mais efetiva que ultrapasse as meras cordialidades de praxe. O Brics deve ser uma plataforma a mais da inserção brasileira no mundo, e não a suprema. O universalismo das nossas relações não pode ser confundido com antiamericanismo.

Quinto, desenvolver um plano regional de combate ao narcotráfico e ao tráfico de armas. A segurança humana assumiria bem mais importância do que tem hoje no Conselho de Defesa da Unasul. Países como Paraguai, Bolívia e Colômbia seriam alvos principais dessas articulações com os governos vizinhos.

Sexto e último, modernizar o Itamaraty, tornando-o menos insulado e mais permeável aos interesses da sociedade, bem como das análises dos melhores especialistas de área oriundos da academia. Essa nova agenda de trabalho recolocaria o Ministério das Relações Exteriores e o país em um patamar mais elevado.

Um agrado e uma paulada - CELSO MING

O ESTADÃO - 19/06

Enquanto recebia um agrado da presidente Dilma, o setor produtivo enfrentava ontem outra paulada para a qual o governo ainda não tem curativo.

O agrado foi o pacote de bondades destinado às empresas. Mais prazo e melhores condições para o pagamento de dívidas com a Receita Federal (o Refis) e ampliação do prazo do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que dá mais acesso à compra de máquinas, caminhões, tratores, etc. Sua natureza é eleitoral, mas sua principal característica foi a improvisação. Nem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estava ontem em condições de fornecer pormenores sobre essas decisões.

Poderá reduzir certos custos, mas, por ser limitado e temporário, não parece capaz de levar as empresas a investir com força no aumento da produção e da produtividade.

A paulada é o agravamento da crise cambial da Argentina. Como comentado ontem nesta Coluna, a Suprema Corte dos Estados Unidos exigiu que a Argentina pague integralmente os títulos de dívida cujos portadores não aceitaram os termos da reestruturação imposta a partir de 2001.

É grande a probabilidade de que esse benefício, no todo ou em parte, se torne extensivo até mesmo àqueles que aceitaram o desconto (calote) de aproximadamente 70%. Nessas condições, a Argentina poderá ficar impossibilitada de honrar compromissos, não só com seu passivo de longo prazo, mas até mesmo com o pagamento de suas importações.

Do ponto de vista da indústria brasileira, a questão é que a Argentina absorve nada menos que 8% das exportações do Brasil (US$ 19,6 bilhões em 2013) e 12% da produção brasileira de veículos.

Nenhuma das soluções aventadas para o problema comercial com a Argentina, que já se vinha arrastando antes mesmo do revés imposto segunda-feira pela Suprema Corte dos Estados Unidos, se mostrou viável. Uma delas pretendeu levar os bancos brasileiros a financiar as exportações do Brasil para lá. Ou seja, passariam o pagamento para os exportadores brasileiros e ficariam credores da Argentina. Para isso, seria necessário que o Banco Central assumisse o risco cambial, ou seja, aceitasse ser fiador desses recebíveis. Essa opção foi rejeitada porque, na condição de corresponsável, o Banco Central do Brasil estaria sujeito a sequestros de ativos argentinos em seu poder pelos credores que agora têm mandado judicial para isso.

Outra ideia é usar o Fundo de Garantia à Exportação (FGE) para dar cobertura a eventuais faltas de pagamentos de importações pela Argentina. É uma saída que exigiria cobertura do Banco da República Argentina e, por isso, aumento da dívida entre Estados soberanos (Clube de Paris), portanto considerada de pagamento prioritário, cláusula que o governo argentino se recusou a aceitar.

Uma terceira hipótese seria o aumento das importações de produtos argentinos pelo Brasil, de modo a zerar o superávit que no ano passado foi de US$ 3 bilhões. O problema aí está em que os produtos que o Brasil poderia importar mais da Argentina seriam veículos e autopeças. Nesse caso, a crise do setor no Brasil se agravaria.

É verdade que a Argentina ainda pode ganhar algum tempo e alguma margem de negociação. Mas o nível de incerteza aumentou dramaticamente para ela e para seus parceiros comerciais.


Risco cambial - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 19/06

O Banco Central decidiu manter, sem data para terminar, o programa de oferta de garantia cambial, o que tem provocado um debate no mercado. Há quem considere que isso aumenta o risco do Banco Central e o faz, na prática, manipular a taxa de câmbio. Mas o programa é elogiado no governo porque estaria dando garantia a quem precisa, por ter compromissos assumidos.

O Banco Central passou a operar mais diretamente no mercado de câmbio quando foi anunciada a retirada dos estímulos monetários americanos. De fato, foi um momento de muita volatilidade. Um ano depois, o estresse passou, mas ele continua atuando e anunciou agora que o programa permanece. No mercado, o que se diz é que a autoridade monetária está usando o câmbio para ajudar a política anti-inflacionária e que corre riscos por estar vendido em US$ 88 bilhões no mercado futuro.

As operações já superam o auge da crise de 2008. Isso quer dizer que o Banco Central fechou contratos com instituições financeiras atrelados à oscilação do câmbio. Se o real se valorizar, o BC tem lucro. Se perder valor, o BC tem prejuízo que precisará ser coberto pelo Tesouro. O que transforma a operação de evitar a oscilação cambial em um problema fiscal também.

O interessante da operação é que o Banco Central segura o dólar sem que as reservas cambiais brasileiras caiam, dos atuais US$ 380 bilhões, isso porque não atua no mercado à vista, mas sim através do swap cambial. O BC fecha contratos no mercado futuro, com bancos e agentes financeiros, atrelados ao valor do dólar, mas todas as negociações são em reais. Por exemplo, vende contratos com vencimento em um mês. Se hoje a moeda americana vale R$ 2,30 e daqui a um mês valer R$ 2,00, há uma diferença de trinta centavos que terá que ser paga pelo agente financeiro ao Banco Central. Da mesma forma, se estiver valendo R$ 2,50, o Banco Central terá que pagar a diferença.

As operações do BC no mercado de câmbio têm risco enorme, na opinião de analistas como Nathan Blanche, da Tendências Consultoria, porque expõem o Tesouro brasileiro às oscilações do dólar. Por enquanto, o Banco Central está tendo lucro de R$ 17 bilhões de janeiro a maio, pelas contas do economista Felipe Salto, da Tendências. O problema é que o país está com um déficit em conta-corrente na casa 4% do PIB, o que normalmente levaria o real a cair e o dólar a subir. Os fundamentos da economia provocariam naturalmente uma desvalorização da nossa moeda. Isso sem falar no fato de que a expectativa é que o mundo tenha menos liquidez de moeda americana nos próximos anos.

- Com esse déficit em conta-corrente, a flutuação livre levaria à perda de valor do real. Isso não acontece porque há uma flutuação cambial suja no país. Os contratos firmados são maiores do que no auge da crise em 2009. O risco é alto, e as agências de classificação e o mercado já perceberam isso - afirmou Nathan Blanche, especialista em mercado de câmbio.

O Banco Central defende sua atuação como parte do processo de evitar que instabilidades internacionais passageiras provoquem crise no país. Seria apenas um seguro contra a incerteza e a volatilidade. Um ano depois de operações constantes de vendas de swaps, o que o mercado diz é que, por um lado, o BC acumula risco alto demais de ter prejuízos na operação se o dólar subir, e, se ele não sobe, apesar do déficit em transações correntes, é porque o câmbio está sendo usado como política anti-inflacionária. Mas a atuação tem colhido elogios de analistas internacionais por exatamente reduzir a incerteza dos momentos de transição, como o da política monetária americana.

Por que um PIB bem maior - ROBERTO MACEDO

O ESTADO DE S.PAULO - 19/06

Este artigo é sobre algo que deveria ser óbvio, ao menos para economistas. Mas vi até uma conhecida economista menosprezando o crescimento do produto interno bruto (PIB), a professora Maria da Conceição Tavares.

Em artigo recente, A Era das Distopias, que pode ser encontrado pelo Google, ela disse: "Na verdade, se o PIB é 'pibinho' ou não, qual o problema? Vai ser 2%, 3% ou 4%? O problema é ter emprego. Para mim, os critérios clássicos são emprego, salário mínimo e ascensão social das bases. E também é sempre importante olhar os investimentos". Desta última frase não discordo. E numa entrevista ao jornal O Globo (14/3) também afirmou: "Ninguém come PIB, come alimentos".

Para aferir o grau de desenvolvimento econômico de um país o que conta é o PIB per capita, ou por habitante. O do Brasil deixa-nos no meio da corrida mundial por esse desenvolvimento, na qual se empenha a esmagadora maioria dos países.

Para prosseguir, tomarei dois países para mostrar diferenças de grandeza econômica, recorrendo a dados de 2012 do Banco Mundial (BM), os últimos disponíveis nessa fonte. O Brasil, que o BM classifica com de "renda média alta", mostrava então um PIB total de US$ 2,253 trilhões, e 198,7 milhões de habitantes, com o que seu PIB por habitante era de US$ 11.339. O Reino Unido (RU), que engloba Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, considerado pelo BM como de alta renda, tinha então um PIB total de US$ 2,476 trilhões, bem próximo do brasileiro, mas uma população de 63,6 milhões, ou cerca de um terço da nossa, e assim um PIB por habitante de US$ 38.931, perto de 3,5 vezes o do Brasil (!).

Não nos podemos conformar com essa diferença, e como o RU e outros ricos seguirão em frente, o Brasil precisa acelerar bastante o seu PIB para encurtá-la. Um PIB por habitante bem maior levaria os brasileiros a um padrão de vida médio bem superior ao atual. Sei de um economista brasileiro que viveu um ano no RU (Inglaterra) e relatou que lá, entre outros aspectos, as condições de educação, segurança e saúde eram muitíssimo melhores que as nossas. E não ficou só olhando. Embora estrangeiro, uma de suas filhas ingressou no ensino fundamental de uma excelente escola pública gratuita, em tempo integral. Para facilitar a adaptação da nova aluna à língua inglesa ela teve um professor para tutorá-la individualmente. Outra filha dele nasceu lá, num hospital do Serviço Nacional de Saúde do país, e por um mês houve várias visitas de enfermeiras à sua residência para examinar a criança e saber se vivia em boas condições. Na área da segurança ele ficou só olhando, mas sem a apreensão com que se vive no Brasil.

Com o PIB, a população e a carga tributária que o Brasil tem, não há como ele oferecer serviços públicos desse nível. Assim, predomina em vários círculos a visão de que faltam recursos para isto ou aquilo, o que poderia ser efetivamente melhorado se aumentadas as porcentagens da receita pública ou do PIB destinadas a este ou àquele serviço.

Por exemplo, o Congresso Nacional aprovou recentemente um Plano Nacional de Educação que tem como meta principal elevar o gasto público total em educação dos atuais 6% para 10% do PIB em dez anos. E há o Movimento Saúde + 10, que pressiona o Congresso a elevar o dispêndio do governo federal em saúde para um montante igual ou superior a 10% de suas receitas correntes brutas.

Com propostas desse tipo se vende a ilusão de que poderão resolver nossos problemas. Muitas vezes não se explicita de onde virá o dinheiro, mas o existente já está curto e há outros interessados a gritar "me dá (mais) um dinheiro aí", como empresários, juízes, professores, policiais, Estados e municípios. Na educação a aposta é no dinheiro que viria do pré-sal, que também não vejo suficiente, além depender de outra hipótese: a de que ele saia lá do fundo do fundo do mar e seja eficazmente utilizado.

O que ainda sustenta a reduzida expansão dos serviços públicos vem das taxinhas do PIB e do contínuo aumento da já enorme carga tributária que sobre ele incide. Em 2012 estava bem perto de 36% do PIB, o mesmo ocorrendo com a carga tributária do RU.

No Brasil, essa semelhança de carga tem levado a uma percepção enganosa. Ela é sintetizada na visão de um país imaginário que poderia ser chamado de Runganda, com carga tributária do RU e serviços públicos de Gana.

Ora, com um pouco de reflexão se percebe que, além do PIB, é indispensável levar em conta o tamanho da população dos países comparados. Ou seja, calcular quanto seus governos arrecadam por habitante e têm ao seu dispor para prover serviços públicos. Voltando aos números, como foi visto o Brasil e o RU têm PIBs totais de valor aproximado e sobre estes incidem cargas tributárias de porcentagem semelhante.

Mas, calculando essa carga de 36% sobre o PIB por habitante, em 2012 o setor público do RU contava com US$ 14.015 por habitante, enquanto o Brasil dispunha de apenas US$ 4.082. Em reais à taxa comercial de ontem, R$ 31.632 e R$ 9.213 respectivamente. Uma enorme diferença, que explica os melhores serviços públicos providos pelo RU.

Em conclusão, o povo brasileiro não come os números do PIB, mas come uma fatia dele em alimentação, recorre à do vestuário e faz uso dos serviços de saúde, educação e transporte - entre outras fatias.

Assim, há muito, muitíssimo que fazer pelo PIB brasileiro. Enquanto não crescer a taxas dignas das necessidades de seus habitantes o Brasil continuará nessa ilusória classe média alta, que só é alta quando se miram os países que estão lá muito abaixo do nosso, que ainda é bem pobre se comparado com os que permanecem por cima, como o RU. Estes são os que devemos mirar e correr mais rápido para alcançá-los, ou pelo menos para não ficarmos, como hoje, tão distantes deles.


Empurra-empurra - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 19/06
PROS e PSB do Rio estão insatisfeitos com a insistência do deputado Miro Teixeira de concorrer ao governo. Dirigentes dos dois partidos avaliam que a candidatura é inviável e que Miro pouco se movimentou para consolidá-la. Muitos já trabalham pelo apoio ao petista Lindbergh Farias e atribuem a Marina Silva forte pressão para mantê-lo no páreo, mesmo que goela abaixo da maioria

Fuga em massa
O PSB não quer apoiar Miro Teixeira (PROS) sob a justificativa de que sairia prejudicado na eleição para deputado federal, reduzindo a bancada. Como a decisão parece irreversível, já que a pressão de Marina Silva é intensa sobre os pessebistas, muitos estão desistindo de concorrer à Câmara porque acham que não conseguirão se eleger, caso do deputado Glauber Braga, que avalia disputar vaga na Assembleia. Soma-se a isso o assédio do PT ao PSB e ao PROS, oferecendo a vaga ao Senado e aceitando as condições que os partidos exigirem para fechar a aliança.



"Recebendo resposta como essa, a Comissão da Verdade deve mover ela própria a investigação. A Comissão já tem indícios de que houve desvio de finalidade." 
Maria do Rosário Deputada federal (PT-RS) e ex-ministra de Direitos Humanos, sobre sindicâncias das Forças Armadas


Sondando a área 
Após a desistência do deputado federal Gabriel Chalita (PMDB-SP) de concorrer ao Senado, o partido tem conversado com o PRB para achar um substituto na chapa de Paulo Skaf. Na última segunda-feira, o presidente do PRB, Marcos Pereira, reuniu-se com Michel Temer e sugeriu Celso Russomano, candidato à prefeitura em 2012.

Batido o martelo 
Em jantar recente na casa de Andrea Matarazzo, em SP, a cúpula tucana definiu que o vice do governador Geraldo Alckmin será do PSB, apesar da pressão do presidente do PSD, Gilberto Kassab, para integrar a chapa.

Melhor de três 
A indicação natural para a vice do PSDB de São Paulo é o deputado Márcio França. Mas Eduardo Campos prefere que ele se dedique à coordenação de sua campanha. França está conversando com Luiza Erundina e Dr. Ubiali.

Revezamento 
Os parlamentares que integram a CPI e a CPMI ainda não conseguiram ter acesso aos documentos liberados pela Justiça. Com os feriados por conta dos jogos da Copa, Curitiba e Porto Alegre não viabilizaram o envio. Enquanto não é feito o download, só há uma chave de acesso para todos os integrantes das comissões.

Bom menino 
Como um agrado ao bom comportamento na CPMI, o governo nomeou uma indicação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a Caixa Econômica Federal. Roberto Derziê assume a área de operações corporativas da estatal.

Alves e Dilma na frente 
Henrique Alves (PMDB) lidera a corrida no Rio Grande de Norte, com 38%. Robson Faria (PSD) tem 22%. A presidente Dilma tem 49%. Eduardo Campos, 12%, e Aécio Neves, 10%. A pesquisa é do Instituto Consult e ouviu 1.700 pessoas.

ROSEANA SARNEY (PMDB-MA) permanecerá morando em São Luís depois de deixar o governo e viajará por um mês de férias para lugar ainda incerto.