ZERO HORA - 16/03
Quando algo é subtraído da minha vida, logo lembro o poema de Elizabeth Bishop, A Arte de Perder, em que ela diz que perder não é nenhum mistério. Só perdi bobagens na minha infância e puberdade, nada que fizesse falta a ponto de me doer até hoje. Depois, adulta, perdi alguns afetos importantes (“tantas coisas contém em si o acidente”), e agora dei para perder itens materiais que desaparecem de uma hora para outra. Começou com minha carteira recheada de documentos e cartões, sumida num passe de mágica, nunca mais a vi.
Dia desses, bobeei de novo. Das primeiras horas da manhã até o início da noite, revirei a casa atrás do meu smartphone (“perca um pouquinho a cada dia”), e acabei encontrando-o muito tempo depois em cima da máquina de lavar, no modo silencioso, entre uma pilha de jornais – esquecido em algum momento em que fui dar de comer para o gato na área de serviço.
Comentei recentemente que estou entrando na fase de não juntar lé com cré (“depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subsequente”), as palavras evaporam da lembrança – isso durante conversas fiadas. Textos por escrito se salvam porque podem ser pensados e repensados antes de irem para o jornal.
Não perco a fé, pois um lampejo de crença é preciso ter para levantarmos da cama todas as manhãs, mas cada vez que assisto aos telejornais e suas más notícias, a esperança desaparece como uma carteira, um celular. Não sei se voltará.
“Aceite, austero. A chave perdida, a hora gasta bestamente”.
Perder chave não é problema, sempre há uma sobressalente, e a hora gasta bestamente é perda divertida, saudável, moleca, venero as horas gastas bestamente. Sou pontual não só por educação, mas para me sobrar tempo para o nada.
Mas andei perdendo meus óculos de grau. E isso mudou tudo, cara Elizabeth Bishop.
Encomendei um novo que levou 10 dias úteis para ficar pronto, 10 dias que para mim foram de imagens turvas, nebulosas. Não enxergava as mensagens que chegavam pelo celular (aquele que perdi e recuperei), nem os sensacionais contos de Nu, de Botas, do Antonio Prata (sobre a infância que perdemos e que no livro ele recupera), nem o aviso na parede do prédio sobre a próxima reunião de condomínio, que sempre perco e desse mal não me recupero. Meus óculos de grau, onde ficaram?
Perdi na beira de uma praia de Santa Catarina, ali, na areia, lugar da adolescência que perdi, mas também recuperei – a maturidade tem dessas proezas.
“É evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério”.
Escrevo. Meio cega às vezes, com menos poesia do que gostaria, aturdida com minhas distrações, mas ainda escrevo – para não me perder.
domingo, março 16, 2014
Como irritar as pessoas - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - PR - 16/03
Uma das esquetes mais divertidas do grupo inglês de comédia Monty Python se chama Como Irritar as Pessoas, no qual são retratados personagens e situações cujo único propósito e objetivo na vida parece ser irritar as pessoas. Pelo somatório de experiências que venho acumulando, John Cleese e seus companheiros encontrariam farta matéria-prima em nosso cotidiano tropical.
Tente ligar para uma central de táxis. Uma voz dirá automaticamente “um momento” e você cairá em uma espera de prazo indeterminado. Vencida a barreira, você será informado de que não há táxis disponíveis nos próximos 30 minutos e que, portanto, deve ligar para outra central, onde uma voz dirá automaticamente “um momento” e...
Aliás, nesse capítulo dos táxis de Curitiba, tudo me irrita, a começar pelo poder desmesurado da corporação dos taxistas, que consegue – com a conivência de políticos – fazer que o número de carros permaneça o mesmo durante dezenas de anos, enquanto a população se multiplica rapidamente. Depois, a exasperante lentidão do processo licitatório para colocar 750 carros na praça, que já dura mais de um ano e que tem remotas chances de ser concluído no primeiro semestre. Enquanto isso, quando vou para o Rio de Janeiro, sabidamente a capital mundial da bagunça do serviço de táxis, consigo chamar um deles em segundos a qualquer hora do dia e da noite. Que devo pensar? Viva a bagunça, pois ela é mais eficiente que nossa obsessiva organização curitibana?
Não vou falar no atendimento das companhias de telefonia e de cartões de crédito, que levam o pobre comunicante a um passeio numérico interminável (para tal coisa, disque 1, para tal outra coisa, disque 5... ligue novamente e comece tudo novamente pois sua senha não foi reconhecida...), que já são vilões muito manjados.
Tente viajar numa das maravilhas da tecnologia que são os aviões modernos. Na fila do check-in, o primeiro embate: sua mala de mão pesa 7,5 kg e o limite é 5 kg, donde há de despachar sua frágil maleta para ser submetida ao bullying dos carregadores que se esmerarão em colocá-la debaixo das malas mais pesadas para que cheguem você sabe-se como. Depois, sua raiva crescerá quando você entrar no avião e encontrar vários companheiros de voo carregando alegremente gigantescas mochilas, poupadas simpaticamente pelo pessoal do check-in do mesmo destino de sua indefesa mala de mão.
Mas você ainda não chegou lá. Antes há de passar pela revista das bagagens, cuja calibragem para a detecção de metais não perdoa nem obturações de ouro e amálgama. Ao que se segue o vai e vem de tirar os sapatos, o cinto, correntinhas e patuás metálicos e tudo o mais que apite. Eu, que tenho um pino de platina em um tornozelo, colocado pelo saudoso dr. Heinz Rucker, sempre cogito da possibilidade ter de me submeter a um raio-X in loco. Ah, mas meus tubos de creme de barbear com 120 gramas são invariavelmente confiscados pois o limite máximo é 100 gramas.
Não acabou. O avião tem poltronas desenhadas para jóqueis e pessoas desprivilegiadas verticalmente, como dizem os politicamente corretos. Fora desses grupos, viaja-se com o companheiro da frente literalmente em seu colo. Para compensar, você também viaja no colo do passageiro de trás.
Paciente leitor: este texto é uma obra aberta a ser completada por você, que, tenho certeza, terá seu estoque de experiências a relatar. Repito: matéria-prima é que não falta.
Uma das esquetes mais divertidas do grupo inglês de comédia Monty Python se chama Como Irritar as Pessoas, no qual são retratados personagens e situações cujo único propósito e objetivo na vida parece ser irritar as pessoas. Pelo somatório de experiências que venho acumulando, John Cleese e seus companheiros encontrariam farta matéria-prima em nosso cotidiano tropical.
Tente ligar para uma central de táxis. Uma voz dirá automaticamente “um momento” e você cairá em uma espera de prazo indeterminado. Vencida a barreira, você será informado de que não há táxis disponíveis nos próximos 30 minutos e que, portanto, deve ligar para outra central, onde uma voz dirá automaticamente “um momento” e...
Aliás, nesse capítulo dos táxis de Curitiba, tudo me irrita, a começar pelo poder desmesurado da corporação dos taxistas, que consegue – com a conivência de políticos – fazer que o número de carros permaneça o mesmo durante dezenas de anos, enquanto a população se multiplica rapidamente. Depois, a exasperante lentidão do processo licitatório para colocar 750 carros na praça, que já dura mais de um ano e que tem remotas chances de ser concluído no primeiro semestre. Enquanto isso, quando vou para o Rio de Janeiro, sabidamente a capital mundial da bagunça do serviço de táxis, consigo chamar um deles em segundos a qualquer hora do dia e da noite. Que devo pensar? Viva a bagunça, pois ela é mais eficiente que nossa obsessiva organização curitibana?
Não vou falar no atendimento das companhias de telefonia e de cartões de crédito, que levam o pobre comunicante a um passeio numérico interminável (para tal coisa, disque 1, para tal outra coisa, disque 5... ligue novamente e comece tudo novamente pois sua senha não foi reconhecida...), que já são vilões muito manjados.
Tente viajar numa das maravilhas da tecnologia que são os aviões modernos. Na fila do check-in, o primeiro embate: sua mala de mão pesa 7,5 kg e o limite é 5 kg, donde há de despachar sua frágil maleta para ser submetida ao bullying dos carregadores que se esmerarão em colocá-la debaixo das malas mais pesadas para que cheguem você sabe-se como. Depois, sua raiva crescerá quando você entrar no avião e encontrar vários companheiros de voo carregando alegremente gigantescas mochilas, poupadas simpaticamente pelo pessoal do check-in do mesmo destino de sua indefesa mala de mão.
Mas você ainda não chegou lá. Antes há de passar pela revista das bagagens, cuja calibragem para a detecção de metais não perdoa nem obturações de ouro e amálgama. Ao que se segue o vai e vem de tirar os sapatos, o cinto, correntinhas e patuás metálicos e tudo o mais que apite. Eu, que tenho um pino de platina em um tornozelo, colocado pelo saudoso dr. Heinz Rucker, sempre cogito da possibilidade ter de me submeter a um raio-X in loco. Ah, mas meus tubos de creme de barbear com 120 gramas são invariavelmente confiscados pois o limite máximo é 100 gramas.
Não acabou. O avião tem poltronas desenhadas para jóqueis e pessoas desprivilegiadas verticalmente, como dizem os politicamente corretos. Fora desses grupos, viaja-se com o companheiro da frente literalmente em seu colo. Para compensar, você também viaja no colo do passageiro de trás.
Paciente leitor: este texto é uma obra aberta a ser completada por você, que, tenho certeza, terá seu estoque de experiências a relatar. Repito: matéria-prima é que não falta.
Frentes frias - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 16/03
A semana passada começou com o Palácio do Planalto falando grosso e terminou com o governo falando fino para tentar conter a rebelião liderada pelo PMDB em sua base de suposto apoio do Congresso.
Na versão do departamento de propaganda oficial, o embate seria ótimo para a presidente Dilma Rousseff, que teria oportunidade de mostrar-se à opinião pública mais uma vez inflexível às demandas fisiológicas dos políticos, uma categoria em franca derrocada de imagem.
Na realidade, o governo viu-se obrigado a chamar os partidos menores da aliança para negociar caso a caso, cargo a cargo suas demandas fisiológicas a fim de tentar esvaziar o movimento dos rebeldes.
O que a presidente ganhou com isso, além de uma derrota humilhante? Absolutamente nada, uma vez que não poderá levar seu gesto de inflexibilidade à massa. O instrumento que teria para isso seria o horário eleitoral.
Nele, do total de 11 a 13 minutos dos quais poderá dispor se conseguir reeditar a aliança na última eleição, algo em torno de quatro minutos pertencem ao PMDB. Evidentemente estará impedida de atacar o aliado nessa tribuna.
Sendo assim, para que serviu o trato agressivo no Congresso? Se a ideia pretendida pelo marketing não for transmitida à massa, perde sua eficácia.
Mas, de outro lado, deixa como prejuízo um imenso mal-estar com os congressistas, cuja disposição de se empenhar pela reeleição da presidente junto aos eleitores será diretamente proporcional à má vontade com que foram tratados.
Pergunte-se a qualquer um dos deputados federais do PT o que acharam da condução do Planalto nesse episódio e se ouvirão críticas. Sob a proteção do anonimato, claro. O silêncio público da bancada na defesa da presidente nesse embate diz tudo.
Visto com especial desalento por ser mais um de uma série, iniciada com a "faxina ética" do primeiro ano de governo, desmentida com a volta de políticos e partidos então afastados.
Na sequência, a redução da tarifa dos bancos seguida por nove altas de juros e a queda no preço nas contas de luz de aumento já contratado para 2015.
X da questão. O cerne da crise do governo com o PMDB está na Câmara. É pelo número de deputados federais eleitos que se define o tempo de televisão destinado a cada legenda. Hoje com 75 parlamentares, o partido tem direito a cerca de quatro minutos.
O PT quer ajuda federal nos Estados para aumentar sua bancada na Câmara na próxima legislatura. Com isso, busca reduzir o tempo de TV e o poder do PMDB já nas eleições de 2016. Com um número maior de deputados, os petistas ficam em condições também de impor candidatura à Presidência da Casa.
Portanto, é de sobrevivência política que se trata. Se Dilma atende às demandas do PMDB por apoio nos Estados contraria os planos de hegemonia de seu partido; se não atende, põe em risco a construção desse projeto de poder, cujo pressuposto é o de que os aliados se contentem com o papel de subordinados.
Em ovos. A liderança do governo na Câmara não tem dúvida de que o PMDB votará contra o projeto que estabelece o chamado Marco Civil da Internet. Por essa avaliação, a bancada não tem como recuar da posição já anunciada.
Mais uma vez os parceiros de aliança serão adversários no plenário nesta semana. Se votação houver, bem entendido. Até sexta-feira o governo só tinha certeza de contar com os votos do PT, PC do B, PDT, PROS e PSB. Tinha esperança de conquistar o PTB e o PP, dúvidas sobre o PSD e quase certeza de que não teria o apoio do PR.
Este último está estressado com o ministro César Borges (Transportes), do partido, que tentou fazer a bancada abandonar o "blocão" e ouviu de volta que se alguém deveria sair de algum lugar era o ministro do cargo.
A semana passada começou com o Palácio do Planalto falando grosso e terminou com o governo falando fino para tentar conter a rebelião liderada pelo PMDB em sua base de suposto apoio do Congresso.
Na versão do departamento de propaganda oficial, o embate seria ótimo para a presidente Dilma Rousseff, que teria oportunidade de mostrar-se à opinião pública mais uma vez inflexível às demandas fisiológicas dos políticos, uma categoria em franca derrocada de imagem.
Na realidade, o governo viu-se obrigado a chamar os partidos menores da aliança para negociar caso a caso, cargo a cargo suas demandas fisiológicas a fim de tentar esvaziar o movimento dos rebeldes.
O que a presidente ganhou com isso, além de uma derrota humilhante? Absolutamente nada, uma vez que não poderá levar seu gesto de inflexibilidade à massa. O instrumento que teria para isso seria o horário eleitoral.
Nele, do total de 11 a 13 minutos dos quais poderá dispor se conseguir reeditar a aliança na última eleição, algo em torno de quatro minutos pertencem ao PMDB. Evidentemente estará impedida de atacar o aliado nessa tribuna.
Sendo assim, para que serviu o trato agressivo no Congresso? Se a ideia pretendida pelo marketing não for transmitida à massa, perde sua eficácia.
Mas, de outro lado, deixa como prejuízo um imenso mal-estar com os congressistas, cuja disposição de se empenhar pela reeleição da presidente junto aos eleitores será diretamente proporcional à má vontade com que foram tratados.
Pergunte-se a qualquer um dos deputados federais do PT o que acharam da condução do Planalto nesse episódio e se ouvirão críticas. Sob a proteção do anonimato, claro. O silêncio público da bancada na defesa da presidente nesse embate diz tudo.
Visto com especial desalento por ser mais um de uma série, iniciada com a "faxina ética" do primeiro ano de governo, desmentida com a volta de políticos e partidos então afastados.
Na sequência, a redução da tarifa dos bancos seguida por nove altas de juros e a queda no preço nas contas de luz de aumento já contratado para 2015.
X da questão. O cerne da crise do governo com o PMDB está na Câmara. É pelo número de deputados federais eleitos que se define o tempo de televisão destinado a cada legenda. Hoje com 75 parlamentares, o partido tem direito a cerca de quatro minutos.
O PT quer ajuda federal nos Estados para aumentar sua bancada na Câmara na próxima legislatura. Com isso, busca reduzir o tempo de TV e o poder do PMDB já nas eleições de 2016. Com um número maior de deputados, os petistas ficam em condições também de impor candidatura à Presidência da Casa.
Portanto, é de sobrevivência política que se trata. Se Dilma atende às demandas do PMDB por apoio nos Estados contraria os planos de hegemonia de seu partido; se não atende, põe em risco a construção desse projeto de poder, cujo pressuposto é o de que os aliados se contentem com o papel de subordinados.
Em ovos. A liderança do governo na Câmara não tem dúvida de que o PMDB votará contra o projeto que estabelece o chamado Marco Civil da Internet. Por essa avaliação, a bancada não tem como recuar da posição já anunciada.
Mais uma vez os parceiros de aliança serão adversários no plenário nesta semana. Se votação houver, bem entendido. Até sexta-feira o governo só tinha certeza de contar com os votos do PT, PC do B, PDT, PROS e PSB. Tinha esperança de conquistar o PTB e o PP, dúvidas sobre o PSD e quase certeza de que não teria o apoio do PR.
Este último está estressado com o ministro César Borges (Transportes), do partido, que tentou fazer a bancada abandonar o "blocão" e ouviu de volta que se alguém deveria sair de algum lugar era o ministro do cargo.
Eletrocutada, a inépcia vira empulhação - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 16/03
Se Dilma quer credibilidade, basta que diga por que o aumento da conta de luz fica para depois da eleição
Em dezembro a comissária Gleisi Hoffmann lastimou as inundações do verão dizendo o seguinte: "Não temos como evitar chuvas". Sábia senhora, reconheceu que até lá não vão os poderes petistas. O problema é que, não podendo também evitar a estiagem ("estresse hídrico", no dialeto do poder), o governo desorganizou o setor elétrico, apostou contra o clima, perdeu e, como não poderia deixar de ser, a conta vai para a patuleia.
Na hora de explicar, a doutora Dilma (ex-ministra de Minas e Energia) continuou cuidando do PMDB e mandou para a vitrine uma equipe de eletrotecas que fizeram o possível, mas não responderam à principal pergunta: Quem pagará o buraco de R$ 12 bilhões? (Ervanário equivalente a todos os investimentos do governo em janeiro).
Em fevereiro o ministro Edson Lobão já avisara: "A repercussão não será imediata". Óbvio, ela chegará no ano que vem, depois da eleição. É nesse ponto que a inépcia associa-se à empulhação. Um governo que mobilizou sua máquina de marquetagem quando baixou as tarifas não teve a lealdade de reconhecer que precisa aumentá-las logo.
Numa trapaça da fortuna, no dia em que os eletrotecas anunciaram as novidades, o ministro Guido Mantega recebia uma missão da Standard & Poor's que veio estudar as contas do país para avaliar a credibilidade do governo. Ecoava impropriamente o tempo das missões do FMI. Nem a S&P tem essa bola toda, nem deveria ser mimada com cerimonial e exibicionismo. Mesmo assim, infelizmente, se o negócio é credibilidade bastava que assistissem a entrevista dos eletroetecas.
REBELDIA MANSA
De uma raposa com décadas de experiência no Parlamento, no Executivo e na administração da bolsa da Viúva: "O PMDB não sai do governo nem a pontapés".
ELLEN GRACIE
A ex-ministra do STF Ellen Gracie continua sendo um sonho tucano para compor suas chapas. Primeiro houve a sugestão de que fosse candidata a vice-presidente na chapa de Aécio Neves. Agora circula a hipótese de ser a vice de Pezão, candidato ao governo do Rio.
Noutra raia, teriam chegado ao ministro Joaquim Barbosa os números que o colocam como barbada para disputar o Senado no Rio.
MADAME NATASHA
Madame Natasha concedeu sua primeira bolsa internacional aos gênios do Exército americano.
Eles passaram a chamar as greves de fome dos prisioneiros de Guantánamo de "jejuns não religiosos duradouros" e a atenção dada às suas consequências de "assistência médica para presos com perda de peso".
GERENTONA
Quem já foi a uma cidade, reservou apartamentos em dois hotéis e só usou um pode defender a qualidade da gerência da administração da doutora Dilma. Ela fez isso em Santiago.
Como diria a doutora, "no que se refere" ao paganini, foi para a Viúva.
*COMIGO, NÃO *
O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que cogitava chamar o Exército de volta ao morro do Alemão. Cinco dias depois, mudou de ideia.
No intervalo, percebeu que a ideia caiu mal na tropa. Afinal, o governo usa o Exército na marquetagem, descuida do resto e quando a encrenca recomeça, pede sua volta. Depois, a conta acaba indo para um tenentinho.
RECORDAR É VIVER
O Itamaraty suspendeu dois diplomatas acusados, entre outras impropriedades, de condutas homofóbicas. No início dos anos 60, um diplomata considerou-se preterido numa promoção e foi ao chefe do Departamento de Administração, para queixar-se com o embaixador Antonio Câmara Canto.
Ele, com seu falar gaúcho, perguntou-lhe:
- Queres saber porque não foste promovido? Aguentas uma verdade? Não fuiste promovido porque eres puto.
Câmara Canto celebrizou-se em 1973. Era embaixador em Santiago e fechou as portas da embaixada para brasileiros que viviam na cidade e precisavam de asilo depois que o general Pinochet tomou conta do país. Negou salvo-conduto a um preso que precisava só da sua assinatura para embarcar num voo da ONU. O exilado morreu. (A embaixada da ditadura militar boliviana refugiou seus cidadãos.)
Câmara Canto fez isso por convicção, mas até hoje não apareceu o telegrama de Brasília com instruções para que fizesse o contrário.
DESEJO PETISTA
O altíssimo comissariado tem duas esperanças e uma expectativa.
A primeira esperança é de que algum grande órgão de imprensa vá para o mercado.
A segunda é de que se consiga reunir um grupo de empresários-companheiros com verdadeiro peso, associados a nomes de prestígio.
A expectativa é de que se possam organizar operações triangulares de crédito de bancos oficiais capazes de equilibrar a conta e dar a devida compensação ao prestígio. A ideia não é nova. Num caso exemplar, pôs a pique o "Correio da Manhã".
AS MONTADORAS BRIGAM COM O PROGRESSO
Em 1903 havia nos Estados Unidos um sujeito que pretendia produzir carros baratos. Pelas regras do setor, só podia vender veículos quem fabricasse a maior parte dos seus componentes. Henry Ford fazia o contrário, montava o que os outros produziam e seu carro custava US$ 240. O cartel queria que ele cobrasse pelo menos US$ 1 mil. Como não tinha o selo da guilda, foi à Justiça. A briga durou oito anos.
Quem ouve falar nessa história acha que é coisa de um tempo superado. Algo semelhante está acontecendo no século 21. As grandes montadoras americanas querem blindar a alma eletrônica do seus carros. Sustentam que os painéis dos veículos são de sua propriedade e empresas como o Google e a Apple devem se limitar ao fornecimento de aplicativos.
Steve Jobs, Larry Page e Sergey Brin fizeram a Apple e o Google como Henry Ford: tinham uma ideia, mas não tinham dinheiro. Quando a banca negava empréstimos a Jobs, as montadoras nadavam em dinheiro. Se elas querem ligar seus carros ao mundo das comunicações, podem investir em pesquisa, mas preferem fechar as máquinas. Já existem carros que não precisam de motorista. O sistema de operação dessa máquina foi desenvolvido pelo Google. Depois do surgimento do GPS, há agora aplicativos que transformam os iPhones dos motoristas em sensores capazes de comunicar a uma rede a situação do trânsito numa determinada rota, aconselhando-os caminhos alternativos. Nesse mundo as montadoras não entraram. (No Brasil algumas delas conseguiram apoio no comissariado para tentar adiar a entrada em vigor da obrigatoriedade dos airbags. Felizmente, falharam.)
Nesse e em qualquer outro caso em que maganos tentam preservar seus negócios bloqueando ou torcendo contra inovações, vale o conselho do bilionário Warren Buffett: Quando surge uma nova tecnologia não é necessariamente um bom negócio investir nela, pois quase todas as fábricas pioneiras de automóveis quebraram. É sempre um bom negócio sair da tecnologia velha. Em 1910 não existiam mais fábricas de carruagens.
Se Dilma quer credibilidade, basta que diga por que o aumento da conta de luz fica para depois da eleição
Em dezembro a comissária Gleisi Hoffmann lastimou as inundações do verão dizendo o seguinte: "Não temos como evitar chuvas". Sábia senhora, reconheceu que até lá não vão os poderes petistas. O problema é que, não podendo também evitar a estiagem ("estresse hídrico", no dialeto do poder), o governo desorganizou o setor elétrico, apostou contra o clima, perdeu e, como não poderia deixar de ser, a conta vai para a patuleia.
Na hora de explicar, a doutora Dilma (ex-ministra de Minas e Energia) continuou cuidando do PMDB e mandou para a vitrine uma equipe de eletrotecas que fizeram o possível, mas não responderam à principal pergunta: Quem pagará o buraco de R$ 12 bilhões? (Ervanário equivalente a todos os investimentos do governo em janeiro).
Em fevereiro o ministro Edson Lobão já avisara: "A repercussão não será imediata". Óbvio, ela chegará no ano que vem, depois da eleição. É nesse ponto que a inépcia associa-se à empulhação. Um governo que mobilizou sua máquina de marquetagem quando baixou as tarifas não teve a lealdade de reconhecer que precisa aumentá-las logo.
Numa trapaça da fortuna, no dia em que os eletrotecas anunciaram as novidades, o ministro Guido Mantega recebia uma missão da Standard & Poor's que veio estudar as contas do país para avaliar a credibilidade do governo. Ecoava impropriamente o tempo das missões do FMI. Nem a S&P tem essa bola toda, nem deveria ser mimada com cerimonial e exibicionismo. Mesmo assim, infelizmente, se o negócio é credibilidade bastava que assistissem a entrevista dos eletroetecas.
REBELDIA MANSA
De uma raposa com décadas de experiência no Parlamento, no Executivo e na administração da bolsa da Viúva: "O PMDB não sai do governo nem a pontapés".
ELLEN GRACIE
A ex-ministra do STF Ellen Gracie continua sendo um sonho tucano para compor suas chapas. Primeiro houve a sugestão de que fosse candidata a vice-presidente na chapa de Aécio Neves. Agora circula a hipótese de ser a vice de Pezão, candidato ao governo do Rio.
Noutra raia, teriam chegado ao ministro Joaquim Barbosa os números que o colocam como barbada para disputar o Senado no Rio.
MADAME NATASHA
Madame Natasha concedeu sua primeira bolsa internacional aos gênios do Exército americano.
Eles passaram a chamar as greves de fome dos prisioneiros de Guantánamo de "jejuns não religiosos duradouros" e a atenção dada às suas consequências de "assistência médica para presos com perda de peso".
GERENTONA
Quem já foi a uma cidade, reservou apartamentos em dois hotéis e só usou um pode defender a qualidade da gerência da administração da doutora Dilma. Ela fez isso em Santiago.
Como diria a doutora, "no que se refere" ao paganini, foi para a Viúva.
*COMIGO, NÃO *
O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que cogitava chamar o Exército de volta ao morro do Alemão. Cinco dias depois, mudou de ideia.
No intervalo, percebeu que a ideia caiu mal na tropa. Afinal, o governo usa o Exército na marquetagem, descuida do resto e quando a encrenca recomeça, pede sua volta. Depois, a conta acaba indo para um tenentinho.
RECORDAR É VIVER
O Itamaraty suspendeu dois diplomatas acusados, entre outras impropriedades, de condutas homofóbicas. No início dos anos 60, um diplomata considerou-se preterido numa promoção e foi ao chefe do Departamento de Administração, para queixar-se com o embaixador Antonio Câmara Canto.
Ele, com seu falar gaúcho, perguntou-lhe:
- Queres saber porque não foste promovido? Aguentas uma verdade? Não fuiste promovido porque eres puto.
Câmara Canto celebrizou-se em 1973. Era embaixador em Santiago e fechou as portas da embaixada para brasileiros que viviam na cidade e precisavam de asilo depois que o general Pinochet tomou conta do país. Negou salvo-conduto a um preso que precisava só da sua assinatura para embarcar num voo da ONU. O exilado morreu. (A embaixada da ditadura militar boliviana refugiou seus cidadãos.)
Câmara Canto fez isso por convicção, mas até hoje não apareceu o telegrama de Brasília com instruções para que fizesse o contrário.
DESEJO PETISTA
O altíssimo comissariado tem duas esperanças e uma expectativa.
A primeira esperança é de que algum grande órgão de imprensa vá para o mercado.
A segunda é de que se consiga reunir um grupo de empresários-companheiros com verdadeiro peso, associados a nomes de prestígio.
A expectativa é de que se possam organizar operações triangulares de crédito de bancos oficiais capazes de equilibrar a conta e dar a devida compensação ao prestígio. A ideia não é nova. Num caso exemplar, pôs a pique o "Correio da Manhã".
AS MONTADORAS BRIGAM COM O PROGRESSO
Em 1903 havia nos Estados Unidos um sujeito que pretendia produzir carros baratos. Pelas regras do setor, só podia vender veículos quem fabricasse a maior parte dos seus componentes. Henry Ford fazia o contrário, montava o que os outros produziam e seu carro custava US$ 240. O cartel queria que ele cobrasse pelo menos US$ 1 mil. Como não tinha o selo da guilda, foi à Justiça. A briga durou oito anos.
Quem ouve falar nessa história acha que é coisa de um tempo superado. Algo semelhante está acontecendo no século 21. As grandes montadoras americanas querem blindar a alma eletrônica do seus carros. Sustentam que os painéis dos veículos são de sua propriedade e empresas como o Google e a Apple devem se limitar ao fornecimento de aplicativos.
Steve Jobs, Larry Page e Sergey Brin fizeram a Apple e o Google como Henry Ford: tinham uma ideia, mas não tinham dinheiro. Quando a banca negava empréstimos a Jobs, as montadoras nadavam em dinheiro. Se elas querem ligar seus carros ao mundo das comunicações, podem investir em pesquisa, mas preferem fechar as máquinas. Já existem carros que não precisam de motorista. O sistema de operação dessa máquina foi desenvolvido pelo Google. Depois do surgimento do GPS, há agora aplicativos que transformam os iPhones dos motoristas em sensores capazes de comunicar a uma rede a situação do trânsito numa determinada rota, aconselhando-os caminhos alternativos. Nesse mundo as montadoras não entraram. (No Brasil algumas delas conseguiram apoio no comissariado para tentar adiar a entrada em vigor da obrigatoriedade dos airbags. Felizmente, falharam.)
Nesse e em qualquer outro caso em que maganos tentam preservar seus negócios bloqueando ou torcendo contra inovações, vale o conselho do bilionário Warren Buffett: Quando surge uma nova tecnologia não é necessariamente um bom negócio investir nela, pois quase todas as fábricas pioneiras de automóveis quebraram. É sempre um bom negócio sair da tecnologia velha. Em 1910 não existiam mais fábricas de carruagens.
O nosso dinheiro - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 16/03
No momento em que a Polícia Civil de Brasília prendeu o economista e ex-chefe da Assessoria de Orçamento do Senado, José Carlos Alves dos Santos, exatos 21 anos depois de ter vindo à tona o escândalo dos Anões do Orçamento, outra data serve para abrir um debate sobre o próprio Orçamento: na terça-feira, o Instituto de Direito Público, presidido pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes, organizará uma série de palestras com especialistas e autoridades de várias áreas para marcar os 50 anos da Lei 4320, que promoveu uma reforma modernizadora neste processo.
Na ocasião, será distribuído o livro Orçamentos: Por que desinteresse? , de Fernando Rezende e Armando Cunha, da Fundação Getúlio Vargas. O Orçamento público é lei básica da democracia moderna, e historicamente foi a origem do Parlamento, pela necessidade de definir o financiamento das obras públicas e as prioridades de um governo.
O que é prioridade nos parlamentos das democracias desenvolvidas do mundo não passa de um detalhe da atividade parlamentar brasileira. A partir da ditadura militar, o Orçamento passou a ser tratado como um decreto-lei, o Congresso só podia aprová-lo ou rejeitá-lo, sem emendá-lo.
A Constituição de 1988 retomou o espírito da de 1946, com a capacidade de emenda do Congresso. Mas, no governo Collor, surgem os Anões do Orçamento , com o ex-deputado João Alves - que ganhou várias vezes na loteria - de relator, manipulando o Orçamento a favor de um pequeno grupo, em todos os sentidos, com a ajuda do João Carlos Alves dos Santos citado acima.
O Executivo voltou então a centralizar as decisões sobre o Orçamento, que passou a ser autorizativo, isto é, o governo central pode contingenciar determinadas verbas. O orçamento impositivo aprovado pelo Congresso diz respeito apenas às emendas dos parlamentares.
Coordenador dos debates no IDP em Brasília, o economista José Roberto Afonso diz que na prática o Orçamento ainda é um caixa preta, ignorada por muitos, e, o pior, sempre que há um escândalo de corrupção, no fim da meada está o orçamento . Ele diz que não há dúvida de que precisa ser remodelado todo o processo, mas ninguém quer tratar do assunto . A mais recente tentativa foi aprovar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado um projeto originário do ex-senador Tasso Jereissati, relatado por Francisco Dornelles. O governo manobrou e enviou-o para outra comissão.
Nos EUA, o Orçamento obedece ao princípio secular de que não pode haver tributação sem representação, a célebre máxima no taxation without representation , que marcou a revolta das colônias americanas contra o Congresso inglês, que assumia uma representação virtual das colônias e se sentia autorizado a definir seus impostos.
O economista da Fundação Getulio Vargas Fernando Rezende, coautor do livro que dá base ao seminário de Brasília, nota que, nos últimos anos, o peso dos impostos que recaem nas costas de todos os brasileiros é tema de debate permanente, mas o mesmo não ocorre com respeito à forma como os recursos oriundos desses impostos são utilizados .
O Orçamento, formado com o dinheiro que o governo extrai compulsoriamente dos cidadãos por meio de uma grande variedade de tributos, não é motivo de igual interesse, estranha ele, para lembrar que a indignação com a má qualidade dos serviços públicos deveria levar a uma preocupação maior com a maneira como é feito o Orçamento, que está por trás desta situação. É preciso provocar um debate sobre prioridades, beneficiários, desequilíbrios, resultados e desperdícios envolvidos nas decisões sobre o uso dos recursos públicos , diz ele.
As regras que comandam a elaboração e a execução do orçamento pressupõem que a sociedade deveria participar das decisões sobre o uso dos recursos que compõem o orçamento durante a tramitação da proposta que o governo elabora e envia ao Congresso para ser discutida e votada. Mas, ressalta Fernando Rezende, afora a mobilização de alguns setores que buscam preservar seu espaço no orçamento, a sociedade brasileira não se envolve nesse debate .
O Orçamento público é muito importante para ser ignorado, lamenta Rezende: Ele repercute no cotidiano dos cidadãos, afeta o comportamento da inflação, é fundamental para proporcionar iguais oportunidades de ascensão social para uma parcela expressiva da população e para melhorar as condições necessárias ao desenvolvimento do país .
Em suma, precisa ser conhecido e respeitado.
Na ocasião, será distribuído o livro Orçamentos: Por que desinteresse? , de Fernando Rezende e Armando Cunha, da Fundação Getúlio Vargas. O Orçamento público é lei básica da democracia moderna, e historicamente foi a origem do Parlamento, pela necessidade de definir o financiamento das obras públicas e as prioridades de um governo.
O que é prioridade nos parlamentos das democracias desenvolvidas do mundo não passa de um detalhe da atividade parlamentar brasileira. A partir da ditadura militar, o Orçamento passou a ser tratado como um decreto-lei, o Congresso só podia aprová-lo ou rejeitá-lo, sem emendá-lo.
A Constituição de 1988 retomou o espírito da de 1946, com a capacidade de emenda do Congresso. Mas, no governo Collor, surgem os Anões do Orçamento , com o ex-deputado João Alves - que ganhou várias vezes na loteria - de relator, manipulando o Orçamento a favor de um pequeno grupo, em todos os sentidos, com a ajuda do João Carlos Alves dos Santos citado acima.
O Executivo voltou então a centralizar as decisões sobre o Orçamento, que passou a ser autorizativo, isto é, o governo central pode contingenciar determinadas verbas. O orçamento impositivo aprovado pelo Congresso diz respeito apenas às emendas dos parlamentares.
Coordenador dos debates no IDP em Brasília, o economista José Roberto Afonso diz que na prática o Orçamento ainda é um caixa preta, ignorada por muitos, e, o pior, sempre que há um escândalo de corrupção, no fim da meada está o orçamento . Ele diz que não há dúvida de que precisa ser remodelado todo o processo, mas ninguém quer tratar do assunto . A mais recente tentativa foi aprovar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado um projeto originário do ex-senador Tasso Jereissati, relatado por Francisco Dornelles. O governo manobrou e enviou-o para outra comissão.
Nos EUA, o Orçamento obedece ao princípio secular de que não pode haver tributação sem representação, a célebre máxima no taxation without representation , que marcou a revolta das colônias americanas contra o Congresso inglês, que assumia uma representação virtual das colônias e se sentia autorizado a definir seus impostos.
O economista da Fundação Getulio Vargas Fernando Rezende, coautor do livro que dá base ao seminário de Brasília, nota que, nos últimos anos, o peso dos impostos que recaem nas costas de todos os brasileiros é tema de debate permanente, mas o mesmo não ocorre com respeito à forma como os recursos oriundos desses impostos são utilizados .
O Orçamento, formado com o dinheiro que o governo extrai compulsoriamente dos cidadãos por meio de uma grande variedade de tributos, não é motivo de igual interesse, estranha ele, para lembrar que a indignação com a má qualidade dos serviços públicos deveria levar a uma preocupação maior com a maneira como é feito o Orçamento, que está por trás desta situação. É preciso provocar um debate sobre prioridades, beneficiários, desequilíbrios, resultados e desperdícios envolvidos nas decisões sobre o uso dos recursos públicos , diz ele.
As regras que comandam a elaboração e a execução do orçamento pressupõem que a sociedade deveria participar das decisões sobre o uso dos recursos que compõem o orçamento durante a tramitação da proposta que o governo elabora e envia ao Congresso para ser discutida e votada. Mas, ressalta Fernando Rezende, afora a mobilização de alguns setores que buscam preservar seu espaço no orçamento, a sociedade brasileira não se envolve nesse debate .
O Orçamento público é muito importante para ser ignorado, lamenta Rezende: Ele repercute no cotidiano dos cidadãos, afeta o comportamento da inflação, é fundamental para proporcionar iguais oportunidades de ascensão social para uma parcela expressiva da população e para melhorar as condições necessárias ao desenvolvimento do país .
Em suma, precisa ser conhecido e respeitado.
Hegemonia perde força - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADÃO - 16/03
A luta, vista de perto, deixa ver um embate engalfinhado por espaços na estrutura governativa entre dois gigantes partidários, PMDB e PT. Sobre o primeiro se colou a pecha de fisiológico, onipresente em qualquer governo. Sobre o segundo se conta um pouco de tudo, desde a versão de que deixou de ser "vestal" para se transformar em pecador igual aos outros, ao mito de que, à moda do Criador, teria plasmado a abóbada que adorna os céus dos nossos trópicos e aberto, "pela primeira vez", a torneira da bem-aventurança, despejando felicidade em milhões de brasileiros saídos do inferno para o gozo do paraíso. Ambos são parceiros na construção da aliança que pôs Dilma Rousseff no comando da Nação.
Desde 1986, quando elegeu 22 dos 23 governadores, 260 deputados federais e 44 senadores, o PMDB tornou-se a maior organização partidária, elegendo, em pleitos seguintes, o maior número de prefeitos e as bancadas mais cheias nos Legislativos federal, estaduais e municipais. De lá para cá acumulou extraordinária capilaridade, fazendo-se presente nos rincões distantes e se tornando o pêndulo de qualquer governo.
Desde 1984, quando foi criado sob o epíteto do "socialismo democrático", que hoje se esconde sob o esparadrapo de feridas abertas pela Ação Penal 470, o PT se esforça para liderar o ranking da política. Puxando os cordões do poder pelas margens sociais, conseguiu chegar três vezes à Presidência da República e este ano busca a quarta vitória, com a qual reforçará a base do projeto mais longo (e vertical) de poder da História contemporânea: dirigir o Brasil por um tempão. Vertical na perspectiva de concentrar o poder nas próprias mãos, evitando dispersão de forças.
Vista de longe, a esganiçada contenda entre os dois atores mostra que eles não lutam apenas para conquistar espaço na Esplanada dos Ministérios (o PT comanda 17 pastas e o PMDB, apenas 5). Trata-se de algo mais abrangente e que, pouco a pouco, acirra os ânimos dos parlamentares plantados nas legendas governistas. O busílis tem nome: o projeto hegemônico do PT. O escopo pode ser assim descrito: alijar o principal parceiro, o PMDB, do centro do poder, deixá-lo à margem, transformando-o em partido médio igual aos outros; portanto, de arreio curto e sem condição de alçar voo em direção ao comando das duas Casas do Congresso Nacional, como hoje. A meta petista é eleger este ano 130 deputados federais, o maior número de governadores, a mais extensa bancada de deputados estaduais, pavimentando um gigantesco campo que servirá de base para a decolagem de candidatos a prefeito e vereador em 2016, com os quais a sigla resgataria, sob ecos triunfantes, o "volta Lula" em 2018, com direito a reprise na reeleição de 2022. O resto, SDS (Só Deus Sabe).
Hegemonia - eis o fulcro do imbróglio entre os maiores partidos políticos. O poder hegemônico engendrado pelo PT é que está em jogo. Tal estratégia começa a esquentar a peroração política. A sensação, no momento, é de que o domínio político e administrativo por uma sigla, que abre intensa polêmica, ameaça criar divisões profundas no meio da sociedade. Ortodoxos chegam a aventar a hipótese de mudança de regime e da instalação de um Estado com extensos braços intervencionistas, a par do controle dos meios de comunicação, caso os petistas consigam seu intento.
Vamos à análise. São tênues, para não dizer improváveis, alternativas que apontem para o estreitamento das colunas do nosso edifício democrático. Governos de partidos únicos, regimes totalitários, visões intervencionistas e modelagens que fecham as tubas de ressonância social são cada vez mais escassas na esfera planetária. A contemporaneidade abre-se para o respiro social e a hegemonia, ao menos nos termos do passado, não condiz com a atualidade. Hegemonia expressa domínio, força, poder de mudar, controlar e impor. Denota o predomínio de visão unilateral por um partido ou um grupo, engenharia que não condiz com o espírito de nosso tempo.
Não se divisa "o fim do poder" nas condições que Moisés Naim, editor-chefe da revista Foreign Policy, mostra em seu livro lançado em outubro, e, sim, sua degradação, seu arrefecimento. Basta enxergar a teia por onde se move a política. As crises econômicas em série, a organização das comunidades de todos os tipos, a elevação do conceito de igualdade entre gêneros, os conflitos no mundo do trabalho, a delinquência e a violência expandida nos centros urbanos, a queda dos mercados financeiros constituem, entre outros, fatores que alteram a maneira de agir dos poderes centrais. As dificuldades enfrentadas pelas administrações públicas, em todo o planeta, impõem novos paradigmas, levando os poderes a se tornar fragmentados. O palco da política está mudando. Na esteira da dispersão, antigos centros de poder perdem sua capacidade de coordenação e controle.
Os arsenais das democracias enchem-se de armas menores, mas tão eficientes como os grandes armamentos, tendo capacidade de vetar, contrapor, combater e limitar as margens de manobra dos grandes atores. Essa nova artilharia é composta e suprida por micropoderes, ajuntamentos de pessoas formados no interior de categorias profissionais, na escala dos gêneros, nas geografias regionais e no espaço das organizações intermediárias. E o que se vê? Governantes, mesmo os que detêm imenso poder, como os nossos, ancorados num modelo presidencialista de caráter imperial, enfrentam vulnerabilidades. A presidente Dilma, mesmo dispondo de formidável rolo compressor - uma base governista em torno de 350 parlamentares na Câmara -, não acaba de ver a aprovação da convocação de dez ministros?
Moisés Naim pinça um bom retrato: "A figura de Gulliver, amarrado no chão por milhares de minúsculos liliputianos, capta bem a imagem dos governos destes tempos - gigantes paralisados por uma multiplicidade de micropoderes".
A luta, vista de perto, deixa ver um embate engalfinhado por espaços na estrutura governativa entre dois gigantes partidários, PMDB e PT. Sobre o primeiro se colou a pecha de fisiológico, onipresente em qualquer governo. Sobre o segundo se conta um pouco de tudo, desde a versão de que deixou de ser "vestal" para se transformar em pecador igual aos outros, ao mito de que, à moda do Criador, teria plasmado a abóbada que adorna os céus dos nossos trópicos e aberto, "pela primeira vez", a torneira da bem-aventurança, despejando felicidade em milhões de brasileiros saídos do inferno para o gozo do paraíso. Ambos são parceiros na construção da aliança que pôs Dilma Rousseff no comando da Nação.
Desde 1986, quando elegeu 22 dos 23 governadores, 260 deputados federais e 44 senadores, o PMDB tornou-se a maior organização partidária, elegendo, em pleitos seguintes, o maior número de prefeitos e as bancadas mais cheias nos Legislativos federal, estaduais e municipais. De lá para cá acumulou extraordinária capilaridade, fazendo-se presente nos rincões distantes e se tornando o pêndulo de qualquer governo.
Desde 1984, quando foi criado sob o epíteto do "socialismo democrático", que hoje se esconde sob o esparadrapo de feridas abertas pela Ação Penal 470, o PT se esforça para liderar o ranking da política. Puxando os cordões do poder pelas margens sociais, conseguiu chegar três vezes à Presidência da República e este ano busca a quarta vitória, com a qual reforçará a base do projeto mais longo (e vertical) de poder da História contemporânea: dirigir o Brasil por um tempão. Vertical na perspectiva de concentrar o poder nas próprias mãos, evitando dispersão de forças.
Vista de longe, a esganiçada contenda entre os dois atores mostra que eles não lutam apenas para conquistar espaço na Esplanada dos Ministérios (o PT comanda 17 pastas e o PMDB, apenas 5). Trata-se de algo mais abrangente e que, pouco a pouco, acirra os ânimos dos parlamentares plantados nas legendas governistas. O busílis tem nome: o projeto hegemônico do PT. O escopo pode ser assim descrito: alijar o principal parceiro, o PMDB, do centro do poder, deixá-lo à margem, transformando-o em partido médio igual aos outros; portanto, de arreio curto e sem condição de alçar voo em direção ao comando das duas Casas do Congresso Nacional, como hoje. A meta petista é eleger este ano 130 deputados federais, o maior número de governadores, a mais extensa bancada de deputados estaduais, pavimentando um gigantesco campo que servirá de base para a decolagem de candidatos a prefeito e vereador em 2016, com os quais a sigla resgataria, sob ecos triunfantes, o "volta Lula" em 2018, com direito a reprise na reeleição de 2022. O resto, SDS (Só Deus Sabe).
Hegemonia - eis o fulcro do imbróglio entre os maiores partidos políticos. O poder hegemônico engendrado pelo PT é que está em jogo. Tal estratégia começa a esquentar a peroração política. A sensação, no momento, é de que o domínio político e administrativo por uma sigla, que abre intensa polêmica, ameaça criar divisões profundas no meio da sociedade. Ortodoxos chegam a aventar a hipótese de mudança de regime e da instalação de um Estado com extensos braços intervencionistas, a par do controle dos meios de comunicação, caso os petistas consigam seu intento.
Vamos à análise. São tênues, para não dizer improváveis, alternativas que apontem para o estreitamento das colunas do nosso edifício democrático. Governos de partidos únicos, regimes totalitários, visões intervencionistas e modelagens que fecham as tubas de ressonância social são cada vez mais escassas na esfera planetária. A contemporaneidade abre-se para o respiro social e a hegemonia, ao menos nos termos do passado, não condiz com a atualidade. Hegemonia expressa domínio, força, poder de mudar, controlar e impor. Denota o predomínio de visão unilateral por um partido ou um grupo, engenharia que não condiz com o espírito de nosso tempo.
Não se divisa "o fim do poder" nas condições que Moisés Naim, editor-chefe da revista Foreign Policy, mostra em seu livro lançado em outubro, e, sim, sua degradação, seu arrefecimento. Basta enxergar a teia por onde se move a política. As crises econômicas em série, a organização das comunidades de todos os tipos, a elevação do conceito de igualdade entre gêneros, os conflitos no mundo do trabalho, a delinquência e a violência expandida nos centros urbanos, a queda dos mercados financeiros constituem, entre outros, fatores que alteram a maneira de agir dos poderes centrais. As dificuldades enfrentadas pelas administrações públicas, em todo o planeta, impõem novos paradigmas, levando os poderes a se tornar fragmentados. O palco da política está mudando. Na esteira da dispersão, antigos centros de poder perdem sua capacidade de coordenação e controle.
Os arsenais das democracias enchem-se de armas menores, mas tão eficientes como os grandes armamentos, tendo capacidade de vetar, contrapor, combater e limitar as margens de manobra dos grandes atores. Essa nova artilharia é composta e suprida por micropoderes, ajuntamentos de pessoas formados no interior de categorias profissionais, na escala dos gêneros, nas geografias regionais e no espaço das organizações intermediárias. E o que se vê? Governantes, mesmo os que detêm imenso poder, como os nossos, ancorados num modelo presidencialista de caráter imperial, enfrentam vulnerabilidades. A presidente Dilma, mesmo dispondo de formidável rolo compressor - uma base governista em torno de 350 parlamentares na Câmara -, não acaba de ver a aprovação da convocação de dez ministros?
Moisés Naim pinça um bom retrato: "A figura de Gulliver, amarrado no chão por milhares de minúsculos liliputianos, capta bem a imagem dos governos destes tempos - gigantes paralisados por uma multiplicidade de micropoderes".
Pescaria de ministros - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 16/03
BRASÍLIA - O voto é secreto, mas o número de ex-ministros de Lula e Dilma que não devem apoiar a reeleição já passa de dez e continua crescendo, num movimento curioso.
Eduardo Campos e Marina Silva puxam a fila dos ex-ministros que caminham para a oposição e parecem preferir esses dois ex-colegas de ministério em governos do PT ao tucano Aécio Neves.
Essa fila dos que são pró Campos e Marina --logo, anti-Dilma-- acaba de incluir o embaixador José Viegas, mas já tinha o vice do PSB, Roberto Amaral, e o pernambucano Fernando Bezerra Coelho, que relutou, mas cedeu e, afinal, ficou com o governador do seu Estado.
Campos já se insinua para ex-ministros de Lula que têm menos identidade com o PT e mais com os tucanos, como Roberto Rodrigues e Luiz Fernando Furlan. Aécio está atrasado, ou muito discreto.
Não seria surpresa, portanto, que Campos investisse também em Nelson Jobim, que brilhou como ministro da Defesa de Lula, mas saiu do governo Dilma trocando desaforos com a presidente. Votaria nela agora? Amigos desse gaúcho sem papas na língua apostam que não. Ele é ligado a Serra, não tanto a Aécio.
Campos vai além e já até sondou a celebridade Gilberto Gil para concorrer no Rio. Como Gil pode voar para qualquer uma das três candidaturas, livre, leve e solto, Campos desviou o alvo para um outro ex-ministro de Lula, Miro Teixeira.
E o que fará, por exemplo, o senador Cristovam Buarque, que já foi, ele mesmo, candidato à Presidência? Seus interlocutores informam que ele não irá com Dilma e está a um passo de anunciar apoio ao conterrâneo Eduardo Campos.
São 39 ministérios, com um entra e sai razoável, e há ainda muito peixe a ser pescado: Miguel Jorge, Geddel Vieira Lima, Reinhold Stephanes, Mangabeira Unger...
Consultando-se a lista de ministros de Lula, Dilma só tem 100% garantidos... os do próprio PT.
Eduardo Campos e Marina Silva puxam a fila dos ex-ministros que caminham para a oposição e parecem preferir esses dois ex-colegas de ministério em governos do PT ao tucano Aécio Neves.
Essa fila dos que são pró Campos e Marina --logo, anti-Dilma-- acaba de incluir o embaixador José Viegas, mas já tinha o vice do PSB, Roberto Amaral, e o pernambucano Fernando Bezerra Coelho, que relutou, mas cedeu e, afinal, ficou com o governador do seu Estado.
Campos já se insinua para ex-ministros de Lula que têm menos identidade com o PT e mais com os tucanos, como Roberto Rodrigues e Luiz Fernando Furlan. Aécio está atrasado, ou muito discreto.
Não seria surpresa, portanto, que Campos investisse também em Nelson Jobim, que brilhou como ministro da Defesa de Lula, mas saiu do governo Dilma trocando desaforos com a presidente. Votaria nela agora? Amigos desse gaúcho sem papas na língua apostam que não. Ele é ligado a Serra, não tanto a Aécio.
Campos vai além e já até sondou a celebridade Gilberto Gil para concorrer no Rio. Como Gil pode voar para qualquer uma das três candidaturas, livre, leve e solto, Campos desviou o alvo para um outro ex-ministro de Lula, Miro Teixeira.
E o que fará, por exemplo, o senador Cristovam Buarque, que já foi, ele mesmo, candidato à Presidência? Seus interlocutores informam que ele não irá com Dilma e está a um passo de anunciar apoio ao conterrâneo Eduardo Campos.
São 39 ministérios, com um entra e sai razoável, e há ainda muito peixe a ser pescado: Miguel Jorge, Geddel Vieira Lima, Reinhold Stephanes, Mangabeira Unger...
Consultando-se a lista de ministros de Lula, Dilma só tem 100% garantidos... os do próprio PT.
Falta coragem para enfrentar caos energético - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 16/03
O pacote de salvação da lavoura - melhor, do setor elétrico nacional - chegou tarde, com caráter provisório e acovardado diante da proximidade das eleições. As fragilidades não são de hoje, assim como é de passado remoto a urgência de resposta definitiva para a crise, que avança celeremente. Não bastasse o descompasso entre a infraestrutura disponível (por pura incompetência no investimento dos recursos públicos) e as necessidades nacionais, agora é crescente o risco de colapso financeiro das distribuidoras de eletricidade. Isso, numa conjuntura agravada pelo pior regime de chuvas em décadas.
Pois é nesse quadro preocupante que o governo cede a interesses eleitorais e deixa para o próximo ano - portanto, para bem depois de o brasileiro depositar seus votos na urna, quando os eleitos já estiverem firmes nos cargos - a maior parte do aumento da conta de luz decidida na última semana. Mais: nem se fala em medida desgastante como o racionamento de energia. Tampouco se apela ao consumidor para que gaste menos, embora a economia popular, mesmo voluntária, incentivada por campanhas educativas, possa significar importante contribuição.
Até parece que a escuridão chegou antes para as autoridades, que não viram a ficha cair. Com o quadro hidrológico adverso, o apelo às termelétricas, poluentes e caras, foi a saída previsível. Mas o tempo passou, o rombo aumentou e o uso prolongado das usinas - que não foram projetadas para funcionar de forma ininterrupta por prazos longos, devendo ser paradas para manutenção - começa a dar problemas, como a perda de eficiência. Diversas unidades já não conseguem gerar a energia programada. Ou seja, é o esgotamento da alternativa B, sem volta segura para a A.
Não bastasse, busca-se saída pela tangente. É o prescrito no tal pacote, anunciado quinta-feira. Na emergência, destinaram-se mais R$ 12 bilhões para o setor. Como parte será bancada pelo Tesouro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antecipou que a compensação virá, entre outras fontes, na forma de "aumentos programados de alguns impostos". A conta de luz também subirá. A questão é: ou estanca-se de vez a sangria, ou o buraco não terá fundo e o consumidor terminará sendo convocado a assumir os gastos extras quantas vezes forem necessárias.
Lembre-se de que a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, prometeu baratear as tarifas, preços que, na verdade, vêm sendo represados artificialmente (pagando menos, o consumidor gasta mais), por motivos políticos e para conter a inflação. Lembre-se, ainda, de que a mandatária chegou aonde está carimbada pelo marketing político como gestora eficiente advinda justamente da área energética. Essa luz já se apagou. Resta saber se aquela ainda visível no fim do túnel, brilhando tênue nas eleições de outubro, permanecerá acesa ou sucumbirá diante das manobras eleitoreiras que elegem a maquiação em detrimento da solução. É preciso ter coragem para enfrentar e mudar de vez o panorama do setor elétrico.
Pois é nesse quadro preocupante que o governo cede a interesses eleitorais e deixa para o próximo ano - portanto, para bem depois de o brasileiro depositar seus votos na urna, quando os eleitos já estiverem firmes nos cargos - a maior parte do aumento da conta de luz decidida na última semana. Mais: nem se fala em medida desgastante como o racionamento de energia. Tampouco se apela ao consumidor para que gaste menos, embora a economia popular, mesmo voluntária, incentivada por campanhas educativas, possa significar importante contribuição.
Até parece que a escuridão chegou antes para as autoridades, que não viram a ficha cair. Com o quadro hidrológico adverso, o apelo às termelétricas, poluentes e caras, foi a saída previsível. Mas o tempo passou, o rombo aumentou e o uso prolongado das usinas - que não foram projetadas para funcionar de forma ininterrupta por prazos longos, devendo ser paradas para manutenção - começa a dar problemas, como a perda de eficiência. Diversas unidades já não conseguem gerar a energia programada. Ou seja, é o esgotamento da alternativa B, sem volta segura para a A.
Não bastasse, busca-se saída pela tangente. É o prescrito no tal pacote, anunciado quinta-feira. Na emergência, destinaram-se mais R$ 12 bilhões para o setor. Como parte será bancada pelo Tesouro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antecipou que a compensação virá, entre outras fontes, na forma de "aumentos programados de alguns impostos". A conta de luz também subirá. A questão é: ou estanca-se de vez a sangria, ou o buraco não terá fundo e o consumidor terminará sendo convocado a assumir os gastos extras quantas vezes forem necessárias.
Lembre-se de que a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, prometeu baratear as tarifas, preços que, na verdade, vêm sendo represados artificialmente (pagando menos, o consumidor gasta mais), por motivos políticos e para conter a inflação. Lembre-se, ainda, de que a mandatária chegou aonde está carimbada pelo marketing político como gestora eficiente advinda justamente da área energética. Essa luz já se apagou. Resta saber se aquela ainda visível no fim do túnel, brilhando tênue nas eleições de outubro, permanecerá acesa ou sucumbirá diante das manobras eleitoreiras que elegem a maquiação em detrimento da solução. É preciso ter coragem para enfrentar e mudar de vez o panorama do setor elétrico.
As lições que vêm do Uruguai - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 16/03
Presidente Mujica dá exemplo ao evitar revanchismo, defender revalorização da política e afirmar que América Latina precisa construir acordos para pesar no mundo
José “Pepe” Mujica, 79 anos, é o 40º presidente do Uruguai. Ex-guerrilheiro tupamaro, lutou contra a ditadura que comandou o país entre 1973 e 1985. Participou de assaltos, sequestros e da tomada de Pando, em 1969, quando os tupamaros ocuparam a delegacia, o quartel dos bombeiros, a central telefônica e vários bancos de uma cidade. Passou 14 anos preso, sendo libertado em 1985.
A princípio, sua simplicidade extrema beirava o exotismo. A casa modesta numa fazendola perto da capital uruguaia; seu carro, um velho fusca; as roupas simplórias mesmo em atos oficiais; os 90% do salário doados à caridade; um único carro de polícia na segurança de sua casa. Trata-se de um ato de protesto, revelou, em entrevista ao GLOBO. “As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes; nasceram para dizer que todos somos iguais (...)”.
Em 2013, ele pôs o pequeno Uruguai na vanguarda ao legalizar o aborto, o casamento gay e a maconha. Explicou: “Aplicamos um princípio muito simples: reconhecer os fatos”.
A frase vale tanto para as três ousadas iniciativas quanto para a postura do presidente uruguaio, livre do revanchismo que turva a visão política de outros líderes atuais que militaram na esquerda radical. E que dificulta consensos e a governabilidade. Mujica demonstra ter um senso realismo que falta, por exemplo, no outro lado do Rio da Prata, na Casa Rosada, sede do governo argentino.
Sobre seu passado de guerrilheiro, afirmou que “há 40 ou 50 anos, achávamos que chegar ao governo nos permitiria criar uma nova sociedade. Nossa maneira de pensar era ingênua, uma sociedade é muito complexa e o poder, muitíssimo mais complexo”. Se vê com simpatia movimentos de protesto, como a Primavera Árabe e mesmo as manifestações no Brasil, logo ressalva que “não levam a lugar nenhum”. Na sua opinião, “não construíram nada. Para construir, há que se criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina e método. Isto é antigo, ou parece antigo. Mas, sem interesses coletivos, é difícil mudar”. O presidente uruguaio não desfila a arrogância que alguns egressos da esquerda latino-americana da década de 70 ostentam hoje no poder.
Fato é que sob governos de uma esquerda que se revela moderna— ele sucedeu a Tabaré Vázquez, que deverá voltar à presidência —, organizada numa frente, o Uruguai, sem arroubos, salvacionismos e revanchismos se destaca no continente. Dos arredores de Montevidéu, Mujica envia a mensagem: “nós, latino-americanos, temos de ter a sabedoria de tratar de construir acordos para poder pesar neste mundo. Nós precisamos do Brasil, mas o Brasil necessita de nós todos, porque o desafio é de continentes.” Provavelmente, se ele tivesse mais voz no Mercosul, talvez o Brasil não estivesse preso num beco ideológico sem saída, emparedado entre a Argentina e a Venezuela. Mujica parece ser um dos raros estadistas na política latino-americana.
Presidente Mujica dá exemplo ao evitar revanchismo, defender revalorização da política e afirmar que América Latina precisa construir acordos para pesar no mundo
José “Pepe” Mujica, 79 anos, é o 40º presidente do Uruguai. Ex-guerrilheiro tupamaro, lutou contra a ditadura que comandou o país entre 1973 e 1985. Participou de assaltos, sequestros e da tomada de Pando, em 1969, quando os tupamaros ocuparam a delegacia, o quartel dos bombeiros, a central telefônica e vários bancos de uma cidade. Passou 14 anos preso, sendo libertado em 1985.
A princípio, sua simplicidade extrema beirava o exotismo. A casa modesta numa fazendola perto da capital uruguaia; seu carro, um velho fusca; as roupas simplórias mesmo em atos oficiais; os 90% do salário doados à caridade; um único carro de polícia na segurança de sua casa. Trata-se de um ato de protesto, revelou, em entrevista ao GLOBO. “As repúblicas não vieram ao mundo para estabelecer novas cortes; nasceram para dizer que todos somos iguais (...)”.
Em 2013, ele pôs o pequeno Uruguai na vanguarda ao legalizar o aborto, o casamento gay e a maconha. Explicou: “Aplicamos um princípio muito simples: reconhecer os fatos”.
A frase vale tanto para as três ousadas iniciativas quanto para a postura do presidente uruguaio, livre do revanchismo que turva a visão política de outros líderes atuais que militaram na esquerda radical. E que dificulta consensos e a governabilidade. Mujica demonstra ter um senso realismo que falta, por exemplo, no outro lado do Rio da Prata, na Casa Rosada, sede do governo argentino.
Sobre seu passado de guerrilheiro, afirmou que “há 40 ou 50 anos, achávamos que chegar ao governo nos permitiria criar uma nova sociedade. Nossa maneira de pensar era ingênua, uma sociedade é muito complexa e o poder, muitíssimo mais complexo”. Se vê com simpatia movimentos de protesto, como a Primavera Árabe e mesmo as manifestações no Brasil, logo ressalva que “não levam a lugar nenhum”. Na sua opinião, “não construíram nada. Para construir, há que se criar uma mente política, coletiva, de longo prazo, com ideias, disciplina e método. Isto é antigo, ou parece antigo. Mas, sem interesses coletivos, é difícil mudar”. O presidente uruguaio não desfila a arrogância que alguns egressos da esquerda latino-americana da década de 70 ostentam hoje no poder.
Fato é que sob governos de uma esquerda que se revela moderna— ele sucedeu a Tabaré Vázquez, que deverá voltar à presidência —, organizada numa frente, o Uruguai, sem arroubos, salvacionismos e revanchismos se destaca no continente. Dos arredores de Montevidéu, Mujica envia a mensagem: “nós, latino-americanos, temos de ter a sabedoria de tratar de construir acordos para poder pesar neste mundo. Nós precisamos do Brasil, mas o Brasil necessita de nós todos, porque o desafio é de continentes.” Provavelmente, se ele tivesse mais voz no Mercosul, talvez o Brasil não estivesse preso num beco ideológico sem saída, emparedado entre a Argentina e a Venezuela. Mujica parece ser um dos raros estadistas na política latino-americana.
O gosto amargo do mensalão - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 16/03
O legado do julgamento da Ação Penal 470 é acre. Embora possa ser visto como exemplar, pois afinal encarcerou políticos poderosos, entre os quais os chefes do partido ora no poder, o desenlace deixou a sensação de que o Supremo Tribunal Federal (STF) se contaminou por interesses político-partidários. Nada disso prenuncia boas coisas: nos quase 12 anos em que estão no governo, os petistas, após várias tentativas, enfim parecem ter encontrado a composição ideal - para seus propósitos - da maior corte de Justiça do País. Pois é essa a impressão que fica dos episódios que resultaram no abrandamento das penas impostas aos caciques do PT envolvidos no escandaloso esquema de corrupção denominado "mensalão".
No processo, que começou quando ainda faziam parte do STF os ministros Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, os líderes petistas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares foram condenados a penas entre 6 anos e 11 meses a 10 anos e 10 meses de prisão por formação de quadrilha e corrupção ativa. João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, foi condenado a 9 anos e 4 meses por crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.
Havia carradas de provas do "comportamento delinquencial gravíssimo" desses réus, conforme as palavras indignadas do ministro Celso de Mello, decano do tribunal. Foram mais de 60 sessões de um processo que se arrastou desde 2007, produzindo cerca de 50 mil páginas que reconstituíram aquilo que se configurou no plano de assalto ao poder republicano brasileiro articulado pelos indigitados líderes do PT junto com criminosos de outros partidos.
Aos réus foi concedido amplo direito à defesa, que foi exercido nos mais exaustivos detalhes - sempre na esperança, para eles, de que o atraso, a chicana e a procrastinação prescrevessem os crimes. No entanto, o árduo trabalho do colegiado de magistrados impediu que triunfasse a impunidade, fazendo avançar um processo que os céticos esperavam que caminhasse, a passos de cágado, para o esquecimento, até então a vala comum das ações contra políticos corruptos no Brasil.
Quando ficou claro que os líderes petistas seriam efetivamente condenados e teriam de ir para a cadeia, o PT deflagrou uma feroz campanha de intimidação contra a Suprema Corte, qualificando-a de "tribunal de exceção" - uma evidente ironia, considerando-se que grande parte dos ministros do STF fora nomeada por presidentes filiados ao partido. Foi especialmente vilipendiado o relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, eleito pela milícia petista para encarnar o "Mal", aquele que atropelara as leis para perseguir "democratas" como Dirceu e Delúbio e, assim, auferir popularidade para uma eventual candidatura política. O destempero de Barbosa, tanto em relação aos réus quanto a seus pares no STF, não ajudou a dissipar essa imagem.
Mas as decisões do Supremo não foram monocráticas, e sim colegiadas, conferindo-lhes indiscutível legitimidade. Restava apostar na mudança desse colegiado para reverter as penas, e isso aconteceu, efetivamente, quando o STF passou a contar com Luiz Roberto Barroso e Teori Zavascki.
Com os votos desses dois ministros, Dirceu, Delúbio e Genoino escaparam da condenação por formação de quadrilha, livrando os dois primeiros do regime fechado. Além disso, Barroso e Teori contribuíram decisivamente para absolver João Paulo da acusação de lavagem de dinheiro, o que também o livrará do regime fechado.
Pode-se dizer, ainda assim, que o simples fato de haver políticos graduados atrás das grades torna o caso do mensalão um marco na história do País. Isso é verdade, mas causa desconforto observar que o Supremo pode reformar suas próprias decisões - em um julgamento "plenamente legítimo e solidamente estruturado em provas lícitas, válidas e produzidas sob a égide do contraditório", como disse Celso de Mello - não de acordo com o que está nos livros jurídicos e nas leis e, sim. conforme entendimentos que, afinal, podem ser mutantes. Não é um bom augúrio.
O legado do julgamento da Ação Penal 470 é acre. Embora possa ser visto como exemplar, pois afinal encarcerou políticos poderosos, entre os quais os chefes do partido ora no poder, o desenlace deixou a sensação de que o Supremo Tribunal Federal (STF) se contaminou por interesses político-partidários. Nada disso prenuncia boas coisas: nos quase 12 anos em que estão no governo, os petistas, após várias tentativas, enfim parecem ter encontrado a composição ideal - para seus propósitos - da maior corte de Justiça do País. Pois é essa a impressão que fica dos episódios que resultaram no abrandamento das penas impostas aos caciques do PT envolvidos no escandaloso esquema de corrupção denominado "mensalão".
No processo, que começou quando ainda faziam parte do STF os ministros Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, os líderes petistas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares foram condenados a penas entre 6 anos e 11 meses a 10 anos e 10 meses de prisão por formação de quadrilha e corrupção ativa. João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, foi condenado a 9 anos e 4 meses por crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.
Havia carradas de provas do "comportamento delinquencial gravíssimo" desses réus, conforme as palavras indignadas do ministro Celso de Mello, decano do tribunal. Foram mais de 60 sessões de um processo que se arrastou desde 2007, produzindo cerca de 50 mil páginas que reconstituíram aquilo que se configurou no plano de assalto ao poder republicano brasileiro articulado pelos indigitados líderes do PT junto com criminosos de outros partidos.
Aos réus foi concedido amplo direito à defesa, que foi exercido nos mais exaustivos detalhes - sempre na esperança, para eles, de que o atraso, a chicana e a procrastinação prescrevessem os crimes. No entanto, o árduo trabalho do colegiado de magistrados impediu que triunfasse a impunidade, fazendo avançar um processo que os céticos esperavam que caminhasse, a passos de cágado, para o esquecimento, até então a vala comum das ações contra políticos corruptos no Brasil.
Quando ficou claro que os líderes petistas seriam efetivamente condenados e teriam de ir para a cadeia, o PT deflagrou uma feroz campanha de intimidação contra a Suprema Corte, qualificando-a de "tribunal de exceção" - uma evidente ironia, considerando-se que grande parte dos ministros do STF fora nomeada por presidentes filiados ao partido. Foi especialmente vilipendiado o relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, eleito pela milícia petista para encarnar o "Mal", aquele que atropelara as leis para perseguir "democratas" como Dirceu e Delúbio e, assim, auferir popularidade para uma eventual candidatura política. O destempero de Barbosa, tanto em relação aos réus quanto a seus pares no STF, não ajudou a dissipar essa imagem.
Mas as decisões do Supremo não foram monocráticas, e sim colegiadas, conferindo-lhes indiscutível legitimidade. Restava apostar na mudança desse colegiado para reverter as penas, e isso aconteceu, efetivamente, quando o STF passou a contar com Luiz Roberto Barroso e Teori Zavascki.
Com os votos desses dois ministros, Dirceu, Delúbio e Genoino escaparam da condenação por formação de quadrilha, livrando os dois primeiros do regime fechado. Além disso, Barroso e Teori contribuíram decisivamente para absolver João Paulo da acusação de lavagem de dinheiro, o que também o livrará do regime fechado.
Pode-se dizer, ainda assim, que o simples fato de haver políticos graduados atrás das grades torna o caso do mensalão um marco na história do País. Isso é verdade, mas causa desconforto observar que o Supremo pode reformar suas próprias decisões - em um julgamento "plenamente legítimo e solidamente estruturado em provas lícitas, válidas e produzidas sob a égide do contraditório", como disse Celso de Mello - não de acordo com o que está nos livros jurídicos e nas leis e, sim. conforme entendimentos que, afinal, podem ser mutantes. Não é um bom augúrio.
Criatividade nefasta - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 16/03
Falta de chuvas e decisão de Dilma de forçar redução na conta de luz geram graves problemas ao setor elétrico, que precisa de socorro
É preocupante o caminho escolhido pelo governo Dilma Rousseff (PT) para lidar com a alta dos custos da energia no país.
O problema decorre, em parte, da falta de chuvas. Com a menor geração hidrelétrica, as usinas térmicas, mais caras, precisam ser utilizadas. Como as distribuidoras vendem energia ao consumidor por um preço regulado, isso atualmente lhes proporciona prejuízo.
A situação ficou ainda mais grave porque a presidente decidiu, no ano passado, forçar uma redução na conta de luz.
As crescentes dificuldades das distribuidoras se tornaram insustentáveis, e o governo teve de agir. Imaginava-se que o equilíbrio seria alcançado por meio de um aumento moderado na tarifa somado a repasses do Tesouro --R$ 4 bilhões serão liberados para o setor.
Com relação ao aumento para o consumidor, no entanto, o governo, pautando-se por objetivos eleitorais, resolveu deixar o impacto para 2015. Para isso, recorreu, como tem sido comum nessa administração, a soluções criativas --no mau sentido do termo.
O pacote de socorro às distribuidoras será completado com empréstimos, no total de R$ 8 bilhões, a serem tomados pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), uma entidade privada mantida pelo setor. O financiamento, em tese, será pago pelas empresas a partir do próximo ano com a receita propiciada pelo aumento da conta de luz.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, um dos mais criativos membros da administração, afirma que não haverá impacto no Orçamento, já que não se trata de uma empresa pública.
Diante da incerteza que reina no sistema, todavia, pode ser difícil para a CCEE achar atores dispostos a bancar a aventura. Não será surpresa, portanto, se os bancos públicos acabarem sendo convocados para cuidar da fatura.
No afã de reduzir a conta de luz --o que em tese poderia favorecer a competitividade do setor privado brasileiro--, o governo ignorou a racionalidade econômica. Preços menores devem ser consequência de ganhos de eficiência, não de promessas populistas.
Ações concretas e planos de longo prazo para o setor, por enquanto, não constam da estratégia governista. Já seria de lamentar em qualquer hipótese, mas é ainda pior vindo de uma presidente que cultivou fama de boa gestora, não sem ironia, precisamente no Ministério de Minas e Energia.
Falta de chuvas e decisão de Dilma de forçar redução na conta de luz geram graves problemas ao setor elétrico, que precisa de socorro
É preocupante o caminho escolhido pelo governo Dilma Rousseff (PT) para lidar com a alta dos custos da energia no país.
O problema decorre, em parte, da falta de chuvas. Com a menor geração hidrelétrica, as usinas térmicas, mais caras, precisam ser utilizadas. Como as distribuidoras vendem energia ao consumidor por um preço regulado, isso atualmente lhes proporciona prejuízo.
A situação ficou ainda mais grave porque a presidente decidiu, no ano passado, forçar uma redução na conta de luz.
As crescentes dificuldades das distribuidoras se tornaram insustentáveis, e o governo teve de agir. Imaginava-se que o equilíbrio seria alcançado por meio de um aumento moderado na tarifa somado a repasses do Tesouro --R$ 4 bilhões serão liberados para o setor.
Com relação ao aumento para o consumidor, no entanto, o governo, pautando-se por objetivos eleitorais, resolveu deixar o impacto para 2015. Para isso, recorreu, como tem sido comum nessa administração, a soluções criativas --no mau sentido do termo.
O pacote de socorro às distribuidoras será completado com empréstimos, no total de R$ 8 bilhões, a serem tomados pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), uma entidade privada mantida pelo setor. O financiamento, em tese, será pago pelas empresas a partir do próximo ano com a receita propiciada pelo aumento da conta de luz.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, um dos mais criativos membros da administração, afirma que não haverá impacto no Orçamento, já que não se trata de uma empresa pública.
Diante da incerteza que reina no sistema, todavia, pode ser difícil para a CCEE achar atores dispostos a bancar a aventura. Não será surpresa, portanto, se os bancos públicos acabarem sendo convocados para cuidar da fatura.
No afã de reduzir a conta de luz --o que em tese poderia favorecer a competitividade do setor privado brasileiro--, o governo ignorou a racionalidade econômica. Preços menores devem ser consequência de ganhos de eficiência, não de promessas populistas.
Ações concretas e planos de longo prazo para o setor, por enquanto, não constam da estratégia governista. Já seria de lamentar em qualquer hipótese, mas é ainda pior vindo de uma presidente que cultivou fama de boa gestora, não sem ironia, precisamente no Ministério de Minas e Energia.
O papelão da diplomacia brasileira - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 16/03
O Brasil é protagonista no teatro latino-americano que pretende isentar Nicolás Maduro de responsabilidade pela violência na Venezuela
Já são 28 os mortos desde o início dos protestos contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, segundo dado atualizado pela Promotoria do país. Existem evidências suficientes de que por trás de muitas das mortes estão os chamados “coletivos”, milícias armadas e motorizadas que ganharam um endosso especial de Maduro quando, em 5 de março, primeiro aniversário da morte de Hugo Chávez, o ditador falou em cadeia nacional de rádio e televisão e pediu ao povo, em especial aos grupos chavistas, que seguissem “a ordem do comandante Hugo Chávez: vela que se acende, vela que apagamos com o povo organizado para garantir a paz a nosso país”. Não tanto um chamado à concórdia, mas à repressão contra os manifestantes para garantir uma paz baseada no silêncio da oposição. Enquanto a Venezuela sofre sob a ditadura chavista, a maioria dos vizinhos latino-americanos encena um teatro que faz deles cúmplices das mortes de venezuelanos. E nessa farsa o Brasil, infelizmente, exerce papel de protagonista.
Em fevereiro, a presidente Dilma já tinha dito, na Bélgica, que “não cabe ao Brasil discutir o que a Venezuela tem a fazer, até porque seria contra a nossa política externa. Não nos manifestamos sobre a situação interna de nenhum país” – hondurenhos e paraguaios certamente teriam muito a dizer sobre a “não interferência” brasileira em seus assuntos. O Brasil já tinha assinado uma nota absurda do Mercosul em apoio ao governo de Nicolás Maduro. Mas os acontecimentos dos últimos dias tornam ainda mais vergonhosa a atuação da diplomacia brasileira, que já foi uma das mais respeitadas do mundo, mas agora vive de joelhos diante da ideologia bolivariana.
O Brasil, por exemplo, ajudou a barrar, no dia 7, o envio de uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) à Venezuela. O argumento pífio do Itamaraty era o de que o fato de a entidade incluir os Estados Unidos desaconselhava uma ação da OEA. Em outras palavras, só os aliados ideológicos de Maduro teriam a isenção suficiente para analisar a convulsão social venezuelana. Em vez disso, foi aprovada uma resolução insossa, quase condescendente com o governo chavista, como se Maduro estivesse realmente disposto ao diálogo e à reconciliação – apenas Estados Unidos, Canadá e Panamá se opuseram ao texto.
Em vez da OEA, entrou em ação a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), quase uma organização-satélite do bolivarianismo, presidida pelo ex-ditador e atual presidente do Suriname, Dési Bouterse, contra o qual existe até um mandado internacional de prisão por tráfico de drogas. Na quinta-feira, os chanceleres dos países membros da entidade assinaram mais uma nota em que respaldam os “esforços do governo da República Bolivariana da Venezuela para promover um diálogo entre o governo, todas as forças políticas e atores sociais” – embora os únicos esforços governamentais feitos até agora são os de prender opositores e colocar os “coletivos” para disparar contra manifestantes, ações que não são nem sequer mencionadas no texto, duramente criticado pelo que sobrou da oposição venezuelana.
Agora, a Unasul pretende enviar “mediadores” à Venezuela, medida aplaudida pelo chanceler venezuelano, Elías Jaua. Antes da nota da entidade, a oposição venezuelana já havia pedido à Unasul que olhasse com objetividade para a aflição da Venezuela. A nota de quinta-feira mostrou que a súplica passou em branco, ampliando o temor de que o grupo de mediadores, influenciado pelo bolivarianismo, já tenha praticamente prontas suas conclusões antes mesmo de colocar os pés no país, dando seguimento à farsa de que a diplomacia brasileira parece participar com alegria.
O Brasil é protagonista no teatro latino-americano que pretende isentar Nicolás Maduro de responsabilidade pela violência na Venezuela
Já são 28 os mortos desde o início dos protestos contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, segundo dado atualizado pela Promotoria do país. Existem evidências suficientes de que por trás de muitas das mortes estão os chamados “coletivos”, milícias armadas e motorizadas que ganharam um endosso especial de Maduro quando, em 5 de março, primeiro aniversário da morte de Hugo Chávez, o ditador falou em cadeia nacional de rádio e televisão e pediu ao povo, em especial aos grupos chavistas, que seguissem “a ordem do comandante Hugo Chávez: vela que se acende, vela que apagamos com o povo organizado para garantir a paz a nosso país”. Não tanto um chamado à concórdia, mas à repressão contra os manifestantes para garantir uma paz baseada no silêncio da oposição. Enquanto a Venezuela sofre sob a ditadura chavista, a maioria dos vizinhos latino-americanos encena um teatro que faz deles cúmplices das mortes de venezuelanos. E nessa farsa o Brasil, infelizmente, exerce papel de protagonista.
Em fevereiro, a presidente Dilma já tinha dito, na Bélgica, que “não cabe ao Brasil discutir o que a Venezuela tem a fazer, até porque seria contra a nossa política externa. Não nos manifestamos sobre a situação interna de nenhum país” – hondurenhos e paraguaios certamente teriam muito a dizer sobre a “não interferência” brasileira em seus assuntos. O Brasil já tinha assinado uma nota absurda do Mercosul em apoio ao governo de Nicolás Maduro. Mas os acontecimentos dos últimos dias tornam ainda mais vergonhosa a atuação da diplomacia brasileira, que já foi uma das mais respeitadas do mundo, mas agora vive de joelhos diante da ideologia bolivariana.
O Brasil, por exemplo, ajudou a barrar, no dia 7, o envio de uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) à Venezuela. O argumento pífio do Itamaraty era o de que o fato de a entidade incluir os Estados Unidos desaconselhava uma ação da OEA. Em outras palavras, só os aliados ideológicos de Maduro teriam a isenção suficiente para analisar a convulsão social venezuelana. Em vez disso, foi aprovada uma resolução insossa, quase condescendente com o governo chavista, como se Maduro estivesse realmente disposto ao diálogo e à reconciliação – apenas Estados Unidos, Canadá e Panamá se opuseram ao texto.
Em vez da OEA, entrou em ação a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), quase uma organização-satélite do bolivarianismo, presidida pelo ex-ditador e atual presidente do Suriname, Dési Bouterse, contra o qual existe até um mandado internacional de prisão por tráfico de drogas. Na quinta-feira, os chanceleres dos países membros da entidade assinaram mais uma nota em que respaldam os “esforços do governo da República Bolivariana da Venezuela para promover um diálogo entre o governo, todas as forças políticas e atores sociais” – embora os únicos esforços governamentais feitos até agora são os de prender opositores e colocar os “coletivos” para disparar contra manifestantes, ações que não são nem sequer mencionadas no texto, duramente criticado pelo que sobrou da oposição venezuelana.
Agora, a Unasul pretende enviar “mediadores” à Venezuela, medida aplaudida pelo chanceler venezuelano, Elías Jaua. Antes da nota da entidade, a oposição venezuelana já havia pedido à Unasul que olhasse com objetividade para a aflição da Venezuela. A nota de quinta-feira mostrou que a súplica passou em branco, ampliando o temor de que o grupo de mediadores, influenciado pelo bolivarianismo, já tenha praticamente prontas suas conclusões antes mesmo de colocar os pés no país, dando seguimento à farsa de que a diplomacia brasileira parece participar com alegria.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Há pessoas felizes, outras menos felizes”
Ministro Gilberto Carvalho, proclamando suas obviedades sobre reforma ministerial
LULISTAS DO PT JOGAM DILMA AOS LEÕES NA CÂMARA
As sucessivas derrotas da presidente Dilma Rousseff na Câmara, semana passada, contaram com apoio não apenas da base aliada, chefiada pelo líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), como do próprio PT, onde vem crescendo o movimento "volta, Lula". Nas palavras de um líder do "blocão", o "PT lavou as mãos e jogou Dilma às feras" ao abandonar a sessão na qual o governo sofreu uma derrota de 28 votos contra 267.
PROBLEMA DA DILMA
Diferentemente de outras votações, em que petistas vão à tribuna para defender o governo, deputados simplesmente sumiram do Plenário.
O TROCO
De uma bancada de 87, apenas 11 deputados do PT votaram contra a criação de comissão externa para investigar denúncia contra a Petrobras.
ESCAFEDEU-SE
Na Comissão de Fiscalização e Controle, a habitual tropa de choque do PT também não deu as caras para impedir a convocação de ministros.
PARA NÃO ESQUECER
João Capiberibe (PSB- AP) propôs sessão do Senado para que o golpe de 1964 não seja esquecido: “Infelicitou a Nação por 21 anos”.
JADER TORRA CADA CENTAVO DA VERBA INDENIZATÓRIA
Apesar de ter sido o senador mais ausente do ano passado, Jader Barbalho (PMDB-PA) não economiza quando o assunto é verba indenizatória. Em 2013, torrou até o último centavo permitido da gorda cota de R$ 40.426,20 mensais. Gastos com “divulgação da atividade parlamentar” e consultorias, além de passagens aéreas, coincidiram, milagrosamente, até os centavos, com toda a grana disponível no ano.
ATÉ A ÚLTIMA PONTA
Senadores paraenses têm cota de R$ 485.114,40 ao ano, mas apenas o ausente Jader conseguiu gastar tudo. Tudo mesmo.
DISTÂNCIA É GRANA
A cota parlamentar depende do valor da passagem aérea entre seu estado e Brasília. Vai de R$ 252,5 mil a R$ 531,3 mil por ano.
UM POR TODOS
Entre os senadores do DF, apenas Gim Argello (PTB) gasta sua cota. Rollemberg (PSB) e Cristovam (PDT) não mexem no dinheiro.
DESFAÇATEZ
O diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, faz pouco da inteligência do contribuinte, ao dizer que a conta de luz só vai aumentar “quando o Tesouro cobrar” os bilhões liberados. Como se os recursos do Tesouro não fossem os impostos cobrados dos consumidores.
CHAPA PRONTA
Na política potiguar, é dada como certa a candidatura a governador do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), com o deputado João Maia (PR) na vice e a ex-governadora Wilma Faria (PSB) ao Senado.
DEIXA A ONDA PASSAR
O prefeito Eduardo Paes (PMDB-RJ) recuou de declarar apoio ao virtual candidato do PSDB, Aécio Neves (MG), à Presidência após desgaste na negociação para o fim da greve dos garis no Rio.
ME ERREM
Empenhadas em fazer reportagens sobre os 50 anos do golpe de 1964, emissoras de rádio e TV enfrentam dificuldade para encontrar militares da reserva que defendam o 31 de Março. Não querem dar a cara.
MARGEANDO O ALAMBRADO
Não basta ouvir vaia, tem que cercar: a Presidência da República reservou R$ 130 mil para comprar “alambrados disciplinadores” nas visitas de autoridades e contra “possíveis manifestações” em Brasília.
DEVAGAR, DEVAGARINHO
“Nunca antes” os Correios fizeram greve de quase dois meses em diversos estados, protestando contra o novo fundo privado Postalis, dirigido por um petista. No Rio Grande do Sul, acabou há três dias.
VAI QUE É TUA
Ligada à luta pelos direitos da mulher, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) tem recebido e-mails pedindo que defenda Rosemary Morais, a filha que o falecido ex-vice-presidente José Alencar renegou.
EFEITO SNOWDEN
Levantamento da PWC mostra aumento de 51% nos orçamentos para segurança da informação. No Brasil, 7% das empresas devem investir US$ 1 bilhão ou mais na área.
PERIGO AMARELO
Os satélites chineses são tão bons, que logo após “localizados”, os “destroços” do Boeing da Malásia viraram um pedido de desculpas.
Ministro Gilberto Carvalho, proclamando suas obviedades sobre reforma ministerial
LULISTAS DO PT JOGAM DILMA AOS LEÕES NA CÂMARA
As sucessivas derrotas da presidente Dilma Rousseff na Câmara, semana passada, contaram com apoio não apenas da base aliada, chefiada pelo líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), como do próprio PT, onde vem crescendo o movimento "volta, Lula". Nas palavras de um líder do "blocão", o "PT lavou as mãos e jogou Dilma às feras" ao abandonar a sessão na qual o governo sofreu uma derrota de 28 votos contra 267.
PROBLEMA DA DILMA
Diferentemente de outras votações, em que petistas vão à tribuna para defender o governo, deputados simplesmente sumiram do Plenário.
O TROCO
De uma bancada de 87, apenas 11 deputados do PT votaram contra a criação de comissão externa para investigar denúncia contra a Petrobras.
ESCAFEDEU-SE
Na Comissão de Fiscalização e Controle, a habitual tropa de choque do PT também não deu as caras para impedir a convocação de ministros.
PARA NÃO ESQUECER
João Capiberibe (PSB- AP) propôs sessão do Senado para que o golpe de 1964 não seja esquecido: “Infelicitou a Nação por 21 anos”.
JADER TORRA CADA CENTAVO DA VERBA INDENIZATÓRIA
Apesar de ter sido o senador mais ausente do ano passado, Jader Barbalho (PMDB-PA) não economiza quando o assunto é verba indenizatória. Em 2013, torrou até o último centavo permitido da gorda cota de R$ 40.426,20 mensais. Gastos com “divulgação da atividade parlamentar” e consultorias, além de passagens aéreas, coincidiram, milagrosamente, até os centavos, com toda a grana disponível no ano.
ATÉ A ÚLTIMA PONTA
Senadores paraenses têm cota de R$ 485.114,40 ao ano, mas apenas o ausente Jader conseguiu gastar tudo. Tudo mesmo.
DISTÂNCIA É GRANA
A cota parlamentar depende do valor da passagem aérea entre seu estado e Brasília. Vai de R$ 252,5 mil a R$ 531,3 mil por ano.
UM POR TODOS
Entre os senadores do DF, apenas Gim Argello (PTB) gasta sua cota. Rollemberg (PSB) e Cristovam (PDT) não mexem no dinheiro.
DESFAÇATEZ
O diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, faz pouco da inteligência do contribuinte, ao dizer que a conta de luz só vai aumentar “quando o Tesouro cobrar” os bilhões liberados. Como se os recursos do Tesouro não fossem os impostos cobrados dos consumidores.
CHAPA PRONTA
Na política potiguar, é dada como certa a candidatura a governador do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), com o deputado João Maia (PR) na vice e a ex-governadora Wilma Faria (PSB) ao Senado.
DEIXA A ONDA PASSAR
O prefeito Eduardo Paes (PMDB-RJ) recuou de declarar apoio ao virtual candidato do PSDB, Aécio Neves (MG), à Presidência após desgaste na negociação para o fim da greve dos garis no Rio.
ME ERREM
Empenhadas em fazer reportagens sobre os 50 anos do golpe de 1964, emissoras de rádio e TV enfrentam dificuldade para encontrar militares da reserva que defendam o 31 de Março. Não querem dar a cara.
MARGEANDO O ALAMBRADO
Não basta ouvir vaia, tem que cercar: a Presidência da República reservou R$ 130 mil para comprar “alambrados disciplinadores” nas visitas de autoridades e contra “possíveis manifestações” em Brasília.
DEVAGAR, DEVAGARINHO
“Nunca antes” os Correios fizeram greve de quase dois meses em diversos estados, protestando contra o novo fundo privado Postalis, dirigido por um petista. No Rio Grande do Sul, acabou há três dias.
VAI QUE É TUA
Ligada à luta pelos direitos da mulher, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) tem recebido e-mails pedindo que defenda Rosemary Morais, a filha que o falecido ex-vice-presidente José Alencar renegou.
EFEITO SNOWDEN
Levantamento da PWC mostra aumento de 51% nos orçamentos para segurança da informação. No Brasil, 7% das empresas devem investir US$ 1 bilhão ou mais na área.
PERIGO AMARELO
Os satélites chineses são tão bons, que logo após “localizados”, os “destroços” do Boeing da Malásia viraram um pedido de desculpas.
Poder sem pudor
LIÇÃO DOS QUARTÉIS
Ministro do Interior e dos Transportes nos governos militares, o coronel Mário Andreazza tinha o hábito, ao desembarcar em qualquer lugar, de procurar imediatamente o sanitário do aeroporto. Certa vez, ele explicou ao assessor de imprensa Luiz Mendonça por que fazia isso:
- Aprendi no Exército: quando encontrar um banheiro e comida, sirva-se logo, porque nunca se sabe quando poderá fazê-lo novamente…
LIÇÃO DOS QUARTÉIS
Ministro do Interior e dos Transportes nos governos militares, o coronel Mário Andreazza tinha o hábito, ao desembarcar em qualquer lugar, de procurar imediatamente o sanitário do aeroporto. Certa vez, ele explicou ao assessor de imprensa Luiz Mendonça por que fazia isso:
- Aprendi no Exército: quando encontrar um banheiro e comida, sirva-se logo, porque nunca se sabe quando poderá fazê-lo novamente…
sábado, março 15, 2014
Gênios impúberes - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 15/03
RIO DE JANEIRO - Um estudante inglês, Jamie Edwards, de 13 anos, construiu um reator nuclear --em casa, nas horas vagas, com um dinheiro que sua avó lhe deu no Natal. Há dias, na escola, ele apresentou o invento: fez dois átomos de hidrogênio se chocarem e provocou uma fusão nuclear, ou algo assim.
A ciência favorece a que certos garotos descubram ou inventem coisas espetaculares. Steve Jobs e Bill Gates, como se sabe, tinham menos de 20 anos quando pensaram no computador pessoal, na internet e em outras ferramentas que iriam mudar o mundo. E quem inventou o Google, o Facebook, o Twitter? Vários meninos também impúberes. Não por acaso, todos ficaram bilionários.
Na área da criação artística, isso é mais raro de acontecer. Supõe-se que, para fazer grande poesia, literatura ou música, exijam-se alguma idade, maturidade e experiência --pense em Dante, Stendhal, Beethoven. Claro, há exceções. Mozart, aos cinco anos, já podia dar aulas de piano a seu professor. Mary Shelley escreveu "Frankenstein" aos 19. E Rimbaud, antes dos 20, dissera tudo que tinha a dizer. Não por acaso, nenhum deles ficou bilionário.
E houve Orson Welles. Aos 25 anos, em 1941, ele revolucionou o cinema com "Cidadão Kane". Mas, antes disso, aos 22, já fora capa da "Time" por seu "Júlio César" de terno e gravata na Broadway. E, aos 23, aterrorizara os EUA com sua versão de "A Guerra dos Mundos" no rádio. Mesmo assim, um amigo da família comentou: "Quem conheceu Orson aos cinco anos sabe que ele é um fiasco aos 25".
O contrário também acontece. Meu tio-avô Benicio, um homem do século 19, levou seus mais de 80 anos de vida tentando construir o moto contínuo. E, a exemplo de milhares antes dele, fracassou. Dizem que o moto contínuo é uma impossibilidade. Mas isso porque, até hoje, nenhum menino de 11 anos resolveu construir um.
Malária, uma alpinista competente - FERNANDO REINACH
O ESTADÃO - 15/03
Sabendo que o aquecimento global é uma realidade, os cientistas tentam prever suas consequências. Uma das mais importantes é impacto das mudanças climáticas sobre doenças endêmicas, como a malária. Usando um método engenhoso, epidemiologistas conseguiram demonstrar que o aquecimento global vai facilitar o espalhamento da doença.
Apesar de as mudanças climáticas já estarem ocorrendo há algumas décadas, é praticamente impossível usar os dados de incidência da doença ao longo do tempo para descobrir se a malária se espalhou ou se contraiu com o recente aquecimento do planeta. Isso porque os fatores que determinam a incidência da malária são tantos que o efeito do clima fica totalmente obscurecido. O número de casos é afetado pela eficácia no combate dos mosquitos, pela intensidade e frequência das chuvas, pelo número de habitantes, e pelo uso extensivo de drogas que combatem a doença. Todos esses fatores mudam muito ao longo dos anos e impedem que o pequeno efeito do aquecimento global, que é lento, possa ser medido diretamente. Mas, agora, um grupo de cientistas descobriram um método capaz de medir o efeito da temperatura sobre a incidência da malária.
O estudo foi feito na Colômbia e na Etiópia. Nesses países, existem regiões em que a malária é endêmica e onde a altitude varia bastante. Na Etiópia, as partes baixas estão a 1.600 metros e, as mais altas, a 2.500 metros. Na Colômbia, a altitude varia de 50 a 2.200 metros. Em ambas regiões já se sabia que nos vilarejos localizados nos pontos mais altos não havia malária, pois a temperatura ao longo do ano é muito baixa, e tanto o inseto quanto o parasita têm dificuldade para se reproduzir. Já nos vilarejos mais baixos, onde a temperatura é alta o ano inteiro, tanto o mosquito quanto o parasita se reproduzem muito bem e a malária está sempre presente. Mas o que estaria ocorrendo nos vilarejos localizados entre os mais altos e os mais baixos? Será que a incidência da doença diminui gradativamente à medida que subimos a serra? Ou será que nesses vilarejos a incidência aumenta no verão e diminui no inverno?
Num primeiro passo, os cientistas identificaram a altitude em que ocorria a transição entre a área com malária e as áreas sem malária. Na Etiópia, isso ocorria entre 1.780 metros e 2.000 metros e, na Colômbia, entre 1.200 metros e 1.700 metros. Nessas regiões, a temperatura média durante o ano fica entre 17°C e 19,5°C. Numa segunda etapa, foram coletados todos os dados de incidência de malária nessas regiões, mês a mês, entre 1980 e 2005. Quando esses dados foram colocados num gráfico, foi possível observar que a incidência de malária aumenta e diminui a cada ano de maneira cíclica. Quando a temperatura cai, a quantidade de casos diminui, quando a temperatura aumenta, o número de casos também aumenta. A correlação entre a temperatura média de cada mês e a incidência de malária é muito alta
Esses resultados demonstram que, à medida que chega o verão, a malária sobe a montanha e ataca os moradores, mas, ao chegar o inverno, ela desce e permanece nas regiões mais baixas. De certa forma, a malária se comporta como os carneiros que pastam nas regiões altas no verão e voltam para os vales no inverno. Tal como os cabritos montanheses, a malária é um alpinista assíduo e competente.
O fato de esse fenômeno ter sido observado em dois continentes de maneira repetitiva por 25 anos sugere muito fortemente que o que limita o espalhamento da malária nessas regiões é somente a temperatura. É a primeira vez que uma relação direta entre o espalhamento da malária e a temperatura média de uma região é demonstrada de maneira direta. Com base nos resultados, os cientista preveem que a malária está entre as doenças que vão se espalhar conforme a temperatura do planeta for aumentando. As regiões mais altas, ao sofrerem com o aquecimento, passarão a ser atacadas pela malária da mesma maneira que as regiões mais baixas são atacadas hoje. E a fração da população mundial sujeita ao ataque da malária poderá aumentar.
Sabendo que o aquecimento global é uma realidade, os cientistas tentam prever suas consequências. Uma das mais importantes é impacto das mudanças climáticas sobre doenças endêmicas, como a malária. Usando um método engenhoso, epidemiologistas conseguiram demonstrar que o aquecimento global vai facilitar o espalhamento da doença.
Apesar de as mudanças climáticas já estarem ocorrendo há algumas décadas, é praticamente impossível usar os dados de incidência da doença ao longo do tempo para descobrir se a malária se espalhou ou se contraiu com o recente aquecimento do planeta. Isso porque os fatores que determinam a incidência da malária são tantos que o efeito do clima fica totalmente obscurecido. O número de casos é afetado pela eficácia no combate dos mosquitos, pela intensidade e frequência das chuvas, pelo número de habitantes, e pelo uso extensivo de drogas que combatem a doença. Todos esses fatores mudam muito ao longo dos anos e impedem que o pequeno efeito do aquecimento global, que é lento, possa ser medido diretamente. Mas, agora, um grupo de cientistas descobriram um método capaz de medir o efeito da temperatura sobre a incidência da malária.
O estudo foi feito na Colômbia e na Etiópia. Nesses países, existem regiões em que a malária é endêmica e onde a altitude varia bastante. Na Etiópia, as partes baixas estão a 1.600 metros e, as mais altas, a 2.500 metros. Na Colômbia, a altitude varia de 50 a 2.200 metros. Em ambas regiões já se sabia que nos vilarejos localizados nos pontos mais altos não havia malária, pois a temperatura ao longo do ano é muito baixa, e tanto o inseto quanto o parasita têm dificuldade para se reproduzir. Já nos vilarejos mais baixos, onde a temperatura é alta o ano inteiro, tanto o mosquito quanto o parasita se reproduzem muito bem e a malária está sempre presente. Mas o que estaria ocorrendo nos vilarejos localizados entre os mais altos e os mais baixos? Será que a incidência da doença diminui gradativamente à medida que subimos a serra? Ou será que nesses vilarejos a incidência aumenta no verão e diminui no inverno?
Num primeiro passo, os cientistas identificaram a altitude em que ocorria a transição entre a área com malária e as áreas sem malária. Na Etiópia, isso ocorria entre 1.780 metros e 2.000 metros e, na Colômbia, entre 1.200 metros e 1.700 metros. Nessas regiões, a temperatura média durante o ano fica entre 17°C e 19,5°C. Numa segunda etapa, foram coletados todos os dados de incidência de malária nessas regiões, mês a mês, entre 1980 e 2005. Quando esses dados foram colocados num gráfico, foi possível observar que a incidência de malária aumenta e diminui a cada ano de maneira cíclica. Quando a temperatura cai, a quantidade de casos diminui, quando a temperatura aumenta, o número de casos também aumenta. A correlação entre a temperatura média de cada mês e a incidência de malária é muito alta
Esses resultados demonstram que, à medida que chega o verão, a malária sobe a montanha e ataca os moradores, mas, ao chegar o inverno, ela desce e permanece nas regiões mais baixas. De certa forma, a malária se comporta como os carneiros que pastam nas regiões altas no verão e voltam para os vales no inverno. Tal como os cabritos montanheses, a malária é um alpinista assíduo e competente.
O fato de esse fenômeno ter sido observado em dois continentes de maneira repetitiva por 25 anos sugere muito fortemente que o que limita o espalhamento da malária nessas regiões é somente a temperatura. É a primeira vez que uma relação direta entre o espalhamento da malária e a temperatura média de uma região é demonstrada de maneira direta. Com base nos resultados, os cientista preveem que a malária está entre as doenças que vão se espalhar conforme a temperatura do planeta for aumentando. As regiões mais altas, ao sofrerem com o aquecimento, passarão a ser atacadas pela malária da mesma maneira que as regiões mais baixas são atacadas hoje. E a fração da população mundial sujeita ao ataque da malária poderá aumentar.
Cabeça de tirano - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 15/03
SÃO PAULO - Kim Jong-un, o ditador da Coreia do Norte, acaba de ser eleito deputado pela 111ª circunscrição com 100% dos votos e sem nenhuma abstenção, embora o sufrágio seja facultativo no país. O curioso é que é possível que os números propriamente ditos não tenham sido falsificados. É que pelo sistema local, há apenas um candidato por circunscrição, e o eleitor se limita a dar seu "sim" ou "não" ao nome proposto. O pulo do gato é que, para votar "não", o cidadão precisa dirigir-se a uma cabine separada.
Por que tiranos se dão ao trabalho de encenar farsas eleitorais? Kim Jong-un está longe de ser um caso isolado. Os há pouco depostos presidentes Zine el Abidine Ben Ali (Tunísia) e Hosni Mubarak (Egito) costumavam ser "eleitos" por margens superiores aos 94%. Na Síria, Bashar al-Assad ungiu-se em 2007 para mais sete anos de mandato com o apoio de 97,2% de seus compatriotas; hoje enfrenta uma guerra civil. Saddam Hussein também era um sujeito querido. Em 95 ele fora aprovado por 99,96% dos iraquianos e, em 2002, conseguiu a notável marca dos 100%.
É improvável que estes e tantos outros ditadores achem que vão enganar governos estrangeiros e a própria população divulgando números tão absurdos. Não obstante, insistem neles. Por quê? Penso que há aí dois sistemas psicológicos em operação.
De um lado, ao promover a farsa, os tiranos prestam tributo à democracia, admitindo que é a vontade popular que confere legitimidade a um governo. De outro, como ditadores não podem nem por hipótese demonstrar fraqueza, não resistem a apelar aos números superlativos. Mas como lidar com a contradição resultante? Isso não é um grande problema. Se há algo que nós, seres humanos, conseguimos fazer bem, é ir reprocessando mentalmente ideias incompatíveis até que elas deixem de causar dissonância cognitiva, isto é, que deixemos de senti-las como uma ameaça à lógica.
Ficção na energia - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 15/03
O malabarismo fiscal reapareceu no meio do pacote de energia. O mais grosseiro dos truques é a ideia de usar a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) para se endividar e emprestar às distribuidoras. Houve uma longa reunião na entidade. Nem todos concordam com a operação. Na assembleia, será fácil aprovar porque 46% dos votos são das geradoras estatais e distribuidoras.
Há prazos e rituais para serem aprovados “orçamentos para cobertura de despesas extraordinárias”. E o procedimento tem que começar já porque até o dia 9 de abril as distribuidoras precisam de socorro financeiro. Uma das dúvidas na reunião da Câmara é a mesma que todos têm: como uma instituição que não tem ativos pode tomar um empréstimo de R$ 8 bilhões? A garantia será uma anuência da Aneel no contrato, dando permissão de uso de parte da receita tarifária das distribuidoras para pagar esse empréstimo. A agência reguladora vai “anuir” que um percentual da receita futura, como o aumento das tarifas das distribuidoras, será usado para pagar à Câmara.
Achou confuso? Não há nada de errado com você ou sua capacidade de compreensão. É confuso mesmo porque o Tesouro está fazendo mais um dos seus truques. Se for a CCEE o tomador desse empréstimo não aumentará o gasto público ou o endividamento público. É para esconder das agências de risco. Mas é fácil ver a camuflagem no gasto que o governo está costurando nessa heterodoxa operação.
Tudo isso é para manter o preço artificial da energia à custa de subsídios com o objetivo de enganar o eleitor. O governo gastou R$ 9 bilhões no ano passado para cobrir os rombos das distribuidoras com a queda da energia. Eles iriam pagar este ano e repassar para as tarifas, mas deixou-se para 2015. No Orçamento de 2014, há outros R$ 9 bilhões. Com o pacote de R$12 bilhões de quinta-feira, serão, ao todo, R$ 30 bilhões para manter a ficção de que em tempos de escassez existe energia barata. As distribuidoras agora vivem de empréstimo do governo e não sabem quando pagar e como vão se ressarcir.
O mais perigoso é não encarar os riscos de racionamento de energia que o Brasil está vivendo neste momento. Segundo especialistas e técnicos do setor, caminha-se para o racionamento. Ele pode ser evitado este ano, mas a ameaça continuará em 2015. O país pode ter um início de mandato em que a pessoa eleita, seja ou não a atual presidente, terá que lidar com duas bombas: o enorme peso da correção das tarifas e riscos de suprimento no setor elétrico.
O clima é parte do problema, mas não todo. A desastrosa gestão do setor fez o resto. Ao não admitir que estamos em risco, o governo não faz campanha nem programas de uso mais eficiente, racional e cuidadoso da energia. Isso elevou o consumo, exigiu mais térmicas, subiu o custo, e diminuiu a água dos reservatórios.
Nesse contexto, é difícil comemorar o número que saiu ontem, do IBC-BR, o índice do Banco Central que tenta antecipar o número do PIB. Ele registrou que a economia cresceu 1,26% em janeiro. A semana trouxe outros números bons: o crescimento de 2,9% da produção industrial de janeiro, e as vendas de varejo, também do mesmo mês, em 0,4% e registrando uma alta de 6% em relação a janeiro do ano passado. Mostram que a economia conseguiu recuperar um pouco da queda da indústria no final de 2013, manteve o consumo porque a renda permanece crescendo, ainda que em ritmo menor. Mesmo assim, os economistas alertam que esses índices não são o início de uma nova tendência.
No meio do caminho da economia há muita incerteza que impede o país de manter o crescimento. A maior das pedras neste momento é a incerteza sobre o preço futuro da energia.
O malabarismo fiscal reapareceu no meio do pacote de energia. O mais grosseiro dos truques é a ideia de usar a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) para se endividar e emprestar às distribuidoras. Houve uma longa reunião na entidade. Nem todos concordam com a operação. Na assembleia, será fácil aprovar porque 46% dos votos são das geradoras estatais e distribuidoras.
Há prazos e rituais para serem aprovados “orçamentos para cobertura de despesas extraordinárias”. E o procedimento tem que começar já porque até o dia 9 de abril as distribuidoras precisam de socorro financeiro. Uma das dúvidas na reunião da Câmara é a mesma que todos têm: como uma instituição que não tem ativos pode tomar um empréstimo de R$ 8 bilhões? A garantia será uma anuência da Aneel no contrato, dando permissão de uso de parte da receita tarifária das distribuidoras para pagar esse empréstimo. A agência reguladora vai “anuir” que um percentual da receita futura, como o aumento das tarifas das distribuidoras, será usado para pagar à Câmara.
Achou confuso? Não há nada de errado com você ou sua capacidade de compreensão. É confuso mesmo porque o Tesouro está fazendo mais um dos seus truques. Se for a CCEE o tomador desse empréstimo não aumentará o gasto público ou o endividamento público. É para esconder das agências de risco. Mas é fácil ver a camuflagem no gasto que o governo está costurando nessa heterodoxa operação.
Tudo isso é para manter o preço artificial da energia à custa de subsídios com o objetivo de enganar o eleitor. O governo gastou R$ 9 bilhões no ano passado para cobrir os rombos das distribuidoras com a queda da energia. Eles iriam pagar este ano e repassar para as tarifas, mas deixou-se para 2015. No Orçamento de 2014, há outros R$ 9 bilhões. Com o pacote de R$12 bilhões de quinta-feira, serão, ao todo, R$ 30 bilhões para manter a ficção de que em tempos de escassez existe energia barata. As distribuidoras agora vivem de empréstimo do governo e não sabem quando pagar e como vão se ressarcir.
O mais perigoso é não encarar os riscos de racionamento de energia que o Brasil está vivendo neste momento. Segundo especialistas e técnicos do setor, caminha-se para o racionamento. Ele pode ser evitado este ano, mas a ameaça continuará em 2015. O país pode ter um início de mandato em que a pessoa eleita, seja ou não a atual presidente, terá que lidar com duas bombas: o enorme peso da correção das tarifas e riscos de suprimento no setor elétrico.
O clima é parte do problema, mas não todo. A desastrosa gestão do setor fez o resto. Ao não admitir que estamos em risco, o governo não faz campanha nem programas de uso mais eficiente, racional e cuidadoso da energia. Isso elevou o consumo, exigiu mais térmicas, subiu o custo, e diminuiu a água dos reservatórios.
Nesse contexto, é difícil comemorar o número que saiu ontem, do IBC-BR, o índice do Banco Central que tenta antecipar o número do PIB. Ele registrou que a economia cresceu 1,26% em janeiro. A semana trouxe outros números bons: o crescimento de 2,9% da produção industrial de janeiro, e as vendas de varejo, também do mesmo mês, em 0,4% e registrando uma alta de 6% em relação a janeiro do ano passado. Mostram que a economia conseguiu recuperar um pouco da queda da indústria no final de 2013, manteve o consumo porque a renda permanece crescendo, ainda que em ritmo menor. Mesmo assim, os economistas alertam que esses índices não são o início de uma nova tendência.
No meio do caminho da economia há muita incerteza que impede o país de manter o crescimento. A maior das pedras neste momento é a incerteza sobre o preço futuro da energia.
Encrenca adiada - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 15/03
O pacote para o setor de energia elétrica escancara fragilidades do governo Dilma e mais um adiamento da solução de problemas.
O governo vem sendo incapaz de assumir a vulnerabilidade da economia a um colapso no fornecimento de energia elétrica. Essa situação poderia ser mais bem evitada se a população fosse incentivada a reduzir o consumo ou por meio de estímulos ou por meio do aumento de preços. Mas, por uma reação narcisística que pretende evitar qualquer ideia que lembre racionamento ou algo parecido, decidiu por medidas paliativas e protelatórias cujo principal efeito é o aumento da desconfiança, e não o contrário. O investidor tem agora mais razões para se sentir inseguro em relação ao custo e ao fornecimento do insumo mais importante para a produção.
O pacote cuidou de repassar imediatamente R$ 12 bilhões às distribuidoras de energia sem repassar imediatamente essa despesa para o consumidor. O Tesouro se encarrega de uma despesa adicional de R$ 4 bilhões, 10% do que a presidente Dilma prometeu cortar há apenas 23 dias, a ser coberto com aumento de impostos, que ninguém explicou como será.
Outra decisão é levar a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica a contratar uma dívida de R$ 8 bilhões. Como esta é uma instituição sem ativos e, portanto, incapaz de fornecer garantias reais, não haverá instituição privada capaz de adiantar esses recursos. A saída será apelar para os bancos públicos de sempre: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, apenas para disfarçar o adiantamento de uma conta que, depois das eleições, será descarregada sobre o consumidor.
Outra decisão será a realização de um leilão de "energia existente" para tentar reforçar a oferta. Como quase tão somente a Petrobrás possui unidades termoelétricas que podem ser acionadas, embora a custos mais altos, o resultado será nova sobrecarga do caixa da empresa.
O governo se exime de responsabilidades pela crise. Argumenta que é vítima de uma fatalidade provocada por uma seca implacável. Não é assim. O colapso é o resultado de uma administração casuística e autoritária do setor, que não consegue nem sequer reconhecer que o sistema está vulnerável a apagões provocados por raios ou por ação de queimadas sob linhas de transmissão.
Culpar a falta de chuvas é o mesmo que descarregar a raiva sobre "esse juiz mal-intencionado (segue-se o palavrão de praxe)" pela inversão da marcação de uma falta que levou o time à derrota. Os problemas do perdedor são outros: mau preparo físico e técnico, falta de padrão de jogo, desmotivação dos atletas, etc.
A presidente Dilma interferiu autoritariamente no mercado com a Medida Provisória 579, de setembro de 2012, e desorganizou o sistema. A construção de hidrelétricas e de linhas de transmissão, que poderiam regularizar a oferta, está cronicamente atrasada. A queima de óleo diesel em termoelétricas ultrapassadas é mais um fator que provoca a deterioração do caixa da Petrobrás. E tem essa omissão incompreensível que bloqueia uma política de uso racional de energia em tempos de escassez.
O pacote para o setor de energia elétrica escancara fragilidades do governo Dilma e mais um adiamento da solução de problemas.
O governo vem sendo incapaz de assumir a vulnerabilidade da economia a um colapso no fornecimento de energia elétrica. Essa situação poderia ser mais bem evitada se a população fosse incentivada a reduzir o consumo ou por meio de estímulos ou por meio do aumento de preços. Mas, por uma reação narcisística que pretende evitar qualquer ideia que lembre racionamento ou algo parecido, decidiu por medidas paliativas e protelatórias cujo principal efeito é o aumento da desconfiança, e não o contrário. O investidor tem agora mais razões para se sentir inseguro em relação ao custo e ao fornecimento do insumo mais importante para a produção.
O pacote cuidou de repassar imediatamente R$ 12 bilhões às distribuidoras de energia sem repassar imediatamente essa despesa para o consumidor. O Tesouro se encarrega de uma despesa adicional de R$ 4 bilhões, 10% do que a presidente Dilma prometeu cortar há apenas 23 dias, a ser coberto com aumento de impostos, que ninguém explicou como será.
Outra decisão é levar a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica a contratar uma dívida de R$ 8 bilhões. Como esta é uma instituição sem ativos e, portanto, incapaz de fornecer garantias reais, não haverá instituição privada capaz de adiantar esses recursos. A saída será apelar para os bancos públicos de sempre: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, apenas para disfarçar o adiantamento de uma conta que, depois das eleições, será descarregada sobre o consumidor.
Outra decisão será a realização de um leilão de "energia existente" para tentar reforçar a oferta. Como quase tão somente a Petrobrás possui unidades termoelétricas que podem ser acionadas, embora a custos mais altos, o resultado será nova sobrecarga do caixa da empresa.
O governo se exime de responsabilidades pela crise. Argumenta que é vítima de uma fatalidade provocada por uma seca implacável. Não é assim. O colapso é o resultado de uma administração casuística e autoritária do setor, que não consegue nem sequer reconhecer que o sistema está vulnerável a apagões provocados por raios ou por ação de queimadas sob linhas de transmissão.
Culpar a falta de chuvas é o mesmo que descarregar a raiva sobre "esse juiz mal-intencionado (segue-se o palavrão de praxe)" pela inversão da marcação de uma falta que levou o time à derrota. Os problemas do perdedor são outros: mau preparo físico e técnico, falta de padrão de jogo, desmotivação dos atletas, etc.
A presidente Dilma interferiu autoritariamente no mercado com a Medida Provisória 579, de setembro de 2012, e desorganizou o sistema. A construção de hidrelétricas e de linhas de transmissão, que poderiam regularizar a oferta, está cronicamente atrasada. A queima de óleo diesel em termoelétricas ultrapassadas é mais um fator que provoca a deterioração do caixa da Petrobrás. E tem essa omissão incompreensível que bloqueia uma política de uso racional de energia em tempos de escassez.
Os desafios do varejo - RÔMULO DE MELLO DIAS
O ESTADÃO - 15/03
Nos dois anos que se seguiram à eclosão da crise global de 2008, o Brasil tornou-se o mercado preferido de analistas e investidores do mundo todo. Um dos efeitos desse movimento foi a expressiva valorização do real em relação a outras moedas. No início de março de 2010, o dólar americano, por exemplo, valia R$ 1,76, ante os cerca de R$ 2,40 de hoje. A quase euforia foi perdendo fôlego até se transformar numa enorme onda de pessimismo nos últimos meses.
A realidade da economia brasileira provavelmente está em algum ponto entre essas duas visões. Se, lá atrás, não havia justificativas para que fôssemos o "queridinho" dos mercados, tampouco existem hoje elementos para tamanho descrédito no potencial da sétima maior economia do planeta.
Tomemos como exemplo o comércio varejista, que segue como principal motor do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Segundo o IBGE, as vendas do setor cresceram, em média, 5,3% ao ano de 2001 a 2013. O desempenho é bem superior ao de outros países emergentes. O México, hoje um dos preferidos dos investidores internacionais, viu seu varejo crescer num ritmo anual de apenas 2,2% no mesmo período. Nos EUA, que sempre são parâmetro respeitável quando se trata de consumo, o varejo se expandiu 4,6% ao ano no mesmo intervalo de tempo.
Especificamente em 2013, o comércio varejista brasileiro teve alta real de 5,7% em receita de vendas, de acordo com o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), criado pela Cielo e obtido por meio das transações efetuadas nas plataformas de pagamento da companhia. Para os próximos anos, o foco desse crescimento deverá estar em regiões fora do eixo das grandes capitais, conforme indica tendência apurada também pelo ICVA. No ano passado, Estados das Regiões Norte e Nordeste, como Amapá e Piauí, foram os que apresentaram maior crescimento nominal do varejo, ambos com 21,2% em termos nominais.
O bom desempenho dos últimos anos não significa, evidentemente, que o céu será sempre livre de nuvens. O varejo, como de resto toda a economia brasileira, precisa superar uma série de desafios para se manter em alta. Em termos conjunturais, os recentes ajustes para cima na política monetária encarecem o custo do crédito, impondo um obstáculo para a manutenção dos bons níveis de demanda por empréstimos e financiamentos e, por tabela, para a expansão do mercado doméstico.
Também não se pode desprezar a alta do dólar, cuja valorização diante do real impacta diretamente os preços de muitos produtos que compõem a cesta de consumo de todas as classes sociais. Nos últimos anos, a participação dos importados no consumo dos brasileiros cresceu fortemente, alcançando o recorde de 21,8% em 2013, segundo estudo conduzido pela Funcex em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Saindo da esfera do varejo, o panorama é semelhante. Reduzir a inflação para o centro da meta de 4,5% ao ano é um desafio que já mobiliza o Banco Central. Mas os recentes aumentos da taxa básica de juros (Selic) ainda levarão tempo para surtir o efeito desejado. Na política fiscal, a despeito do compromisso assumido pelo governo federal com um superávit primário de 1,9% do PIB em 2014, ainda restam dúvidas entre investidores e analistas se esse nível de poupança pública será atingido num ano eleitoral. Por fim, não se pode esquecer do ambiente global ainda instável, com importantes incertezas em relação à performance das duas maiores economias do planeta, EUA e China.
Nesse cenário, o empresário e o lojista têm de apurar o faro para superar os desafios e aproveitar as boas chances que ainda estão no horizonte. O comércio varejista brasileiro permanece forte a ponto de muitos especialistas classificarem esta década como "a década do varejo". Na pior hipótese, deveremos assistir a uma desaceleração do crescimento do setor. Prova de que, apesar dos obstáculos, não há um desvio de rota.
Cadê a quadrilha que estava aqui? - GUILHERME FIUZA
O GLOBO - 15/03
Dilma tem razão: não há motivo para pessimismo. Basta olhar a situação dos seus amigos mensaleiros
Nelson Rodrigues foi novamente convocado por Dilma Rousseff. Sempre que tira os olhos do teleprompter, a presidente sofre em sua árdua missão de fazer sentido. Nelson foi o primeiro a satirizar essa esquerda parasitária escondida atrás de bandeirolas do bem. Hoje talvez o dramaturgo acrescentasse ao “padre de passeata” a “presidenta de teleprompter”. Alguém precisa avisar à assessoria de Dilma quem foi Nelson Rodrigues. Era mais honesto quando ela traficava a imagem de Norma Bengell.
Ao assinar contratos de concessão de rodovias, Dilma citou o companheiro Nelson para dizer que “os pessimistas fazem parte da paisagem, assim como os morros, as praças e os arruamentos”. Por que não acrescentar: assim como as estradas estouradas, os aeroportos em ruínas e o sistema elétrico em estado de coma. A paisagem da infraestrutura brasileira hoje é tão impactante que fica até difícil enxergar nela os pessimistas — mesmo que eles desfilem pelados contra a mentira da conta de luz barata, e o desfalque de 12 bilhões de reais do contribuinte para sustentá-la.
Dilma tem razão: não há motivo para pessimismo. Basta olhar a situação dos seus amigos mensaleiros. Eles montaram um duto de dinheiro público para o partido governista, na maior engenharia já vista para roubar o Estado de dentro do Palácio do Planalto. Mas o otimista, ao contrário do pessimista, sempre espera pelo milagre. E ele veio: rasurando a sua própria decisão, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o bando do mensalão, famoso pela monumental arquitetura do valerioduto, não era uma quadrilha.
O esquema que envolvia ministro de Estado, tesoureiro e presidente de partido, banqueiro, funcionário público graduado e outros companheiros fiéis, todos ligados por um mesmo despachante e uma mesma base operacional, agindo de forma orquestrada e sistemática para o mesmo e deliberado fim, não constituía uma quadrilha. Agora o Brasil já sabe: só há quadrilha quando os criminosos que fazem tudo isso juntos são pessimistas perdidos na paisagem.
O discurso épico do ministro Luís Roberto Barroso, inocentando os otimistas do crime de formação de quadrilha — e liberando-os da prisão em regime fechado — é um marco de esperança para os bandoleiros solidários, que abominam as trampolinagens individualistas e neoliberais. E assim chega ao fim o julgamento do mensalão, com a sentença histórica prenunciando os novos tempos: agir em bando com estrelinha no peito não é quadrilha, é socialismo.
Foi emocionante ver os ministros Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli — os já famosos Batman e Robin do PT no Supremo — voando com suas capas em defesa de Barroso e do seu Direito lírico. Todo esse otimismo permitia antever a chegada da sobremesa: a absolvição de João Paulo Cunha (o Mandela brasileiro) do crime de lavagem de dinheiro. A tese vencedora, mais uma vez esgrimida com arte por Barroso, foi de que o então presidente da Câmara dos Deputados participou da corrupção sem saber que o dinheiro que recebia era sujo. Era o dinheiro do mensalão, operado por seus companheiros de cúpula do PT, mas ele, assim como Lula, não sabia. Os otimistas são distraídos mesmo.
O ministro Luís Roberto Barroso chegou a dizer que João Paulo não sabia da origem ilícita do dinheiro porque não fazia parte da quadrilha. Logo retificou, dizendo que o réu não fora denunciado por formação de quadrilha. Nem precisava esclarecer, todo mundo já sabe que quadrilha não existe. Inclusive o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, considerando-se o seu rolezinho na prisão da Papuda para visitar José Dirceu, o chefe da ex-quadrilha.
Disse Agnelo: “Eu sou governador, vou ao presídio a qualquer hora e visito quem eu quiser.” Está certo. Se Deus e a quadrilha não existem, tudo é permitido. Agnelo deve ter ido levar umas palavras cruzadas a Dirceu.
O companheiro Nelson Rodrigues dizia que a única forma possível de consciência é o medo da polícia. A desinibição da ex-quadrilha mostra que, para o PT, Nelson está definitivamente superado.
O recado de Dilma aos pessimistas servia também como resposta às críticas feitas à sua política econômica no aniversário de 20 anos do Plano Real. Os autores do plano disseram que esse negócio de esconder inflação com tarifas inventadas e esconder déficit público com maquiagem de contas não vai acabar bem. Mas depende do ponto de vista.
As pesquisas apontam a reeleição de Dilma em primeiro turno, com toda a política monetária do crioulo doido, a infraestrutura em petição de miséria, a pilhagem do mensalão e do pós-mensalão, a contabilidade criativa, as ONGs piratas penduradas na floresta de ministérios, a sangria do BNDES para a Copa dos malandros e grande elenco de jogadas solidárias.
Isso não vai acabar bem para a paisagem brasileira. Mas não tem problema, porque os companheiros otimistas estão a salvo dela.
Dilma tem razão: não há motivo para pessimismo. Basta olhar a situação dos seus amigos mensaleiros
Nelson Rodrigues foi novamente convocado por Dilma Rousseff. Sempre que tira os olhos do teleprompter, a presidente sofre em sua árdua missão de fazer sentido. Nelson foi o primeiro a satirizar essa esquerda parasitária escondida atrás de bandeirolas do bem. Hoje talvez o dramaturgo acrescentasse ao “padre de passeata” a “presidenta de teleprompter”. Alguém precisa avisar à assessoria de Dilma quem foi Nelson Rodrigues. Era mais honesto quando ela traficava a imagem de Norma Bengell.
Ao assinar contratos de concessão de rodovias, Dilma citou o companheiro Nelson para dizer que “os pessimistas fazem parte da paisagem, assim como os morros, as praças e os arruamentos”. Por que não acrescentar: assim como as estradas estouradas, os aeroportos em ruínas e o sistema elétrico em estado de coma. A paisagem da infraestrutura brasileira hoje é tão impactante que fica até difícil enxergar nela os pessimistas — mesmo que eles desfilem pelados contra a mentira da conta de luz barata, e o desfalque de 12 bilhões de reais do contribuinte para sustentá-la.
Dilma tem razão: não há motivo para pessimismo. Basta olhar a situação dos seus amigos mensaleiros. Eles montaram um duto de dinheiro público para o partido governista, na maior engenharia já vista para roubar o Estado de dentro do Palácio do Planalto. Mas o otimista, ao contrário do pessimista, sempre espera pelo milagre. E ele veio: rasurando a sua própria decisão, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o bando do mensalão, famoso pela monumental arquitetura do valerioduto, não era uma quadrilha.
O esquema que envolvia ministro de Estado, tesoureiro e presidente de partido, banqueiro, funcionário público graduado e outros companheiros fiéis, todos ligados por um mesmo despachante e uma mesma base operacional, agindo de forma orquestrada e sistemática para o mesmo e deliberado fim, não constituía uma quadrilha. Agora o Brasil já sabe: só há quadrilha quando os criminosos que fazem tudo isso juntos são pessimistas perdidos na paisagem.
O discurso épico do ministro Luís Roberto Barroso, inocentando os otimistas do crime de formação de quadrilha — e liberando-os da prisão em regime fechado — é um marco de esperança para os bandoleiros solidários, que abominam as trampolinagens individualistas e neoliberais. E assim chega ao fim o julgamento do mensalão, com a sentença histórica prenunciando os novos tempos: agir em bando com estrelinha no peito não é quadrilha, é socialismo.
Foi emocionante ver os ministros Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli — os já famosos Batman e Robin do PT no Supremo — voando com suas capas em defesa de Barroso e do seu Direito lírico. Todo esse otimismo permitia antever a chegada da sobremesa: a absolvição de João Paulo Cunha (o Mandela brasileiro) do crime de lavagem de dinheiro. A tese vencedora, mais uma vez esgrimida com arte por Barroso, foi de que o então presidente da Câmara dos Deputados participou da corrupção sem saber que o dinheiro que recebia era sujo. Era o dinheiro do mensalão, operado por seus companheiros de cúpula do PT, mas ele, assim como Lula, não sabia. Os otimistas são distraídos mesmo.
O ministro Luís Roberto Barroso chegou a dizer que João Paulo não sabia da origem ilícita do dinheiro porque não fazia parte da quadrilha. Logo retificou, dizendo que o réu não fora denunciado por formação de quadrilha. Nem precisava esclarecer, todo mundo já sabe que quadrilha não existe. Inclusive o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, considerando-se o seu rolezinho na prisão da Papuda para visitar José Dirceu, o chefe da ex-quadrilha.
Disse Agnelo: “Eu sou governador, vou ao presídio a qualquer hora e visito quem eu quiser.” Está certo. Se Deus e a quadrilha não existem, tudo é permitido. Agnelo deve ter ido levar umas palavras cruzadas a Dirceu.
O companheiro Nelson Rodrigues dizia que a única forma possível de consciência é o medo da polícia. A desinibição da ex-quadrilha mostra que, para o PT, Nelson está definitivamente superado.
O recado de Dilma aos pessimistas servia também como resposta às críticas feitas à sua política econômica no aniversário de 20 anos do Plano Real. Os autores do plano disseram que esse negócio de esconder inflação com tarifas inventadas e esconder déficit público com maquiagem de contas não vai acabar bem. Mas depende do ponto de vista.
As pesquisas apontam a reeleição de Dilma em primeiro turno, com toda a política monetária do crioulo doido, a infraestrutura em petição de miséria, a pilhagem do mensalão e do pós-mensalão, a contabilidade criativa, as ONGs piratas penduradas na floresta de ministérios, a sangria do BNDES para a Copa dos malandros e grande elenco de jogadas solidárias.
Isso não vai acabar bem para a paisagem brasileira. Mas não tem problema, porque os companheiros otimistas estão a salvo dela.
O populismo e a lei da acumulação das burradas - ROLF KUNTZ
O ESTADÃO - 15/03
Burrada gera burrada e tende a crescer em espiral, como os preços inflados, quando a besteira é realimentada pela mentira. No Brasil, essa combinação de erros levou à superinflação, nome inventado para marcar a tênue diferença entre a hiperinflação e o desastre brasileiro dos anos 80 e começo dos 90. Proscrito por algum tempo, o jogo está consagrado, novamente, na rotina brasiliense. O socorro de R$ 12 bilhões às elétricas, para atenuar os efeitos de uma política populista de tarifas, é o mais novo lance desse jogo. O Tesouro gastará R$ 4 bilhões além dos R$ 9 bilhões previstos no Orçamento e a Câmara de Comercialização de Energia, um ente privado, tentará obter no mercado um financiamento de R$ 8 bilhões, pagando juros, naturalmente. Os consumidores serão mais uma vez poupados, neste ano, e só depois de votar receberão a conta aumentada.
Mentira é uma boa palavra para designar a maquiagem das contas fiscais e a tentativa de reprimir - e falsificar, portanto - os índices de preços. No caso das contas públicas, também tem sido usada, com sucesso internacional, uma expressão mais suave: contabilidade criativa. A nomenclatura faz pouca diferença. O importante é reconhecer a realimentação e a multiplicação dos erros quando se tenta disfarçar os problemas, em vez de resolvê-los. O efeito circular é claríssimo na crise argentina. Também é indisfarçável na baderna econômica da Venezuela, marcada nas páginas da História, de forma indelével, pela escassez de papel higiênico. Haja páginas.
O exemplo argentino é um modelo para os governantes populistas, em geral muito interessados nos benefícios políticos e pouco preocupados com os custos efetivos para a economia. Para disfarçar a inflação o governo da Argentina tem falsificado os indicadores e tentado tabelar ou congelar os preços. Como o fracasso é inevitável, amplia a vigilância e tenta levar o controle até a origem dos produtos. Com isso, impõe perdas a agricultores e pecuaristas e cria um conflito entre a administração central e o setor mais eficiente da economia. De passagem, cria algum obstáculo à exportação de alimentos, para derrubar os preços internos, e compromete a receita cambial. Como o Executivo também usa os dólares da reserva para liquidar contas fiscais, a combinação das trapalhadas produz ao mesmo tempo inflação crescente, insegurança na produção e escassez de moeda para os pagamentos internacionais.
Para poupar reservas o governo impõe controles severos às compras de moeda estrangeira e aumenta o protecionismo. Também esse esquema tende ao fracasso, mas produz algum efeito quando um governo amigo se dispõe a aceitar o desaforo comercial. Neste caso, esse governo amigo tem como endereço principal o Palácio do Planalto, em Brasília. A tolerância é praticada em nome de uma solidariedade nunca retribuída e, de forma implícita, de uma liderança regional imaginária e sempre desmentida na prática.
A solidariedade tem um claro componente ideológico. O estilo dos Kirchners tem sido uma evidente inspiração para o governo brasileiro. Mas as condições no Brasil são um tanto diferentes e têm sido menos propícias, pelo menos até agora, a algumas iniciativas mais audaciosas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda funciona sem interferência do Executivo. O PT conseguiu, pelo menos durante algum tempo, impor sua marca ao velho e respeitável Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mas a ação foi desastrada e desmoralizante. Não se conhece, até hoje, nenhuma tentativa semelhante em relação ao IBGE.
Sem manipulação direta dos índices, a maquiagem da inflação ocorre diretamente nos preços, por meio, por exemplo, da redução das contas de eletricidade, da imposição de perdas à Petrobrás e do congelamento das tarifas de transporte urbano. Seria politicamente muito mais complicado tentar mexer nos indicadores produzidos pelo IBGE. Mas a interferência direta na fixação de preços dispensa o governo desse risco. Impõe, em contrapartida, uma porção de outros problemas.
O congelamento de tarifas de transporte público resultou em perdas para governos municipais e estaduais, incluídos os do PT. Recursos para investimentos e até para ações rotineiras tornaram-se mais escassos, mas o reajuste de tarifas é hoje politicamente mais difícil do que no ano passado.
O esperado socorro do governo federal - uma das apostas do prefeito Fernando Haddad - também está atrasado e é pouco provável, porque as contas do Tesouro Nacional estão em más condições. Se algum socorro aparecer, será uma surpresa, porque a meta fiscal anunciada no mês passado pelo ministro da Fazenda parece cada dia mais inacessível. O aumento das despesas para socorrer o setor elétrico é uma sangria a mais para o Orçamento federal.
Se a presidente insistir em poupar os consumidores, será preciso compensar os gastos adicionais do subsídio às contas de eletricidade. O ministro da Fazenda mencionou o possível aumento de impostos e a reabertura do Refis, o refinanciamento de dívidas tributárias. Mais uma vez o balanço fiscal dependerá de receitas especiais, como os pagamentos iniciais do Refis, os dividendos do BNDES e o pedágio pago pelas concessões de infraestrutura. Se as agências classificadoras aceitarem a jogada, talvez se possa evitar a redução da nota de crédito soberano.
Um pouco mais de seriedade na gestão das contas públicas e no combate à inflação pouparia ao governo muitas complicações e livraria o País de perdas injustificáveis. Combate sério à inflação inclui o uso mais eficiente do dinheiro público e a ação realmente autônoma do Banco Central. O Brasil nada ganhou com a redução voluntarista dos juros. A inflação subiu e foi preciso apertar de novo a política monetária. Também nada ganhou com a manipulação de preços e tarifas. Burradas só geram problemas e o esforço para disfarçá-los envolve novas burradas, como a solução improvisada para o problema das elétricas.
Burrada gera burrada e tende a crescer em espiral, como os preços inflados, quando a besteira é realimentada pela mentira. No Brasil, essa combinação de erros levou à superinflação, nome inventado para marcar a tênue diferença entre a hiperinflação e o desastre brasileiro dos anos 80 e começo dos 90. Proscrito por algum tempo, o jogo está consagrado, novamente, na rotina brasiliense. O socorro de R$ 12 bilhões às elétricas, para atenuar os efeitos de uma política populista de tarifas, é o mais novo lance desse jogo. O Tesouro gastará R$ 4 bilhões além dos R$ 9 bilhões previstos no Orçamento e a Câmara de Comercialização de Energia, um ente privado, tentará obter no mercado um financiamento de R$ 8 bilhões, pagando juros, naturalmente. Os consumidores serão mais uma vez poupados, neste ano, e só depois de votar receberão a conta aumentada.
Mentira é uma boa palavra para designar a maquiagem das contas fiscais e a tentativa de reprimir - e falsificar, portanto - os índices de preços. No caso das contas públicas, também tem sido usada, com sucesso internacional, uma expressão mais suave: contabilidade criativa. A nomenclatura faz pouca diferença. O importante é reconhecer a realimentação e a multiplicação dos erros quando se tenta disfarçar os problemas, em vez de resolvê-los. O efeito circular é claríssimo na crise argentina. Também é indisfarçável na baderna econômica da Venezuela, marcada nas páginas da História, de forma indelével, pela escassez de papel higiênico. Haja páginas.
O exemplo argentino é um modelo para os governantes populistas, em geral muito interessados nos benefícios políticos e pouco preocupados com os custos efetivos para a economia. Para disfarçar a inflação o governo da Argentina tem falsificado os indicadores e tentado tabelar ou congelar os preços. Como o fracasso é inevitável, amplia a vigilância e tenta levar o controle até a origem dos produtos. Com isso, impõe perdas a agricultores e pecuaristas e cria um conflito entre a administração central e o setor mais eficiente da economia. De passagem, cria algum obstáculo à exportação de alimentos, para derrubar os preços internos, e compromete a receita cambial. Como o Executivo também usa os dólares da reserva para liquidar contas fiscais, a combinação das trapalhadas produz ao mesmo tempo inflação crescente, insegurança na produção e escassez de moeda para os pagamentos internacionais.
Para poupar reservas o governo impõe controles severos às compras de moeda estrangeira e aumenta o protecionismo. Também esse esquema tende ao fracasso, mas produz algum efeito quando um governo amigo se dispõe a aceitar o desaforo comercial. Neste caso, esse governo amigo tem como endereço principal o Palácio do Planalto, em Brasília. A tolerância é praticada em nome de uma solidariedade nunca retribuída e, de forma implícita, de uma liderança regional imaginária e sempre desmentida na prática.
A solidariedade tem um claro componente ideológico. O estilo dos Kirchners tem sido uma evidente inspiração para o governo brasileiro. Mas as condições no Brasil são um tanto diferentes e têm sido menos propícias, pelo menos até agora, a algumas iniciativas mais audaciosas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda funciona sem interferência do Executivo. O PT conseguiu, pelo menos durante algum tempo, impor sua marca ao velho e respeitável Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mas a ação foi desastrada e desmoralizante. Não se conhece, até hoje, nenhuma tentativa semelhante em relação ao IBGE.
Sem manipulação direta dos índices, a maquiagem da inflação ocorre diretamente nos preços, por meio, por exemplo, da redução das contas de eletricidade, da imposição de perdas à Petrobrás e do congelamento das tarifas de transporte urbano. Seria politicamente muito mais complicado tentar mexer nos indicadores produzidos pelo IBGE. Mas a interferência direta na fixação de preços dispensa o governo desse risco. Impõe, em contrapartida, uma porção de outros problemas.
O congelamento de tarifas de transporte público resultou em perdas para governos municipais e estaduais, incluídos os do PT. Recursos para investimentos e até para ações rotineiras tornaram-se mais escassos, mas o reajuste de tarifas é hoje politicamente mais difícil do que no ano passado.
O esperado socorro do governo federal - uma das apostas do prefeito Fernando Haddad - também está atrasado e é pouco provável, porque as contas do Tesouro Nacional estão em más condições. Se algum socorro aparecer, será uma surpresa, porque a meta fiscal anunciada no mês passado pelo ministro da Fazenda parece cada dia mais inacessível. O aumento das despesas para socorrer o setor elétrico é uma sangria a mais para o Orçamento federal.
Se a presidente insistir em poupar os consumidores, será preciso compensar os gastos adicionais do subsídio às contas de eletricidade. O ministro da Fazenda mencionou o possível aumento de impostos e a reabertura do Refis, o refinanciamento de dívidas tributárias. Mais uma vez o balanço fiscal dependerá de receitas especiais, como os pagamentos iniciais do Refis, os dividendos do BNDES e o pedágio pago pelas concessões de infraestrutura. Se as agências classificadoras aceitarem a jogada, talvez se possa evitar a redução da nota de crédito soberano.
Um pouco mais de seriedade na gestão das contas públicas e no combate à inflação pouparia ao governo muitas complicações e livraria o País de perdas injustificáveis. Combate sério à inflação inclui o uso mais eficiente do dinheiro público e a ação realmente autônoma do Banco Central. O Brasil nada ganhou com a redução voluntarista dos juros. A inflação subiu e foi preciso apertar de novo a política monetária. Também nada ganhou com a manipulação de preços e tarifas. Burradas só geram problemas e o esforço para disfarçá-los envolve novas burradas, como a solução improvisada para o problema das elétricas.
Quem manda nos morros? - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 15/03
Setores da sociedade se preocupam com o futuro das UPPs neste ano eleitoral
No momento em que traficantes tentam desestabilizar o projeto de pacificação do Rio, hostilizando as tropas de ocupação, montando barricadas, armando jovens e insuflando protestos de moradores, num ensaio de retomada de território, ou praticando o que o secretário de Segurança classifica de “terrorismo contra o Estado”, setores da sociedade se preocupam com o futuro das UPPs neste ano eleitoral (basta ver a quantidade de cartas que têm sido enviadas à Redação, compensando um pouco a generalizada indiferença que houve em relação à covarde execução de policiais). O que fazer, além de defendê-las, para melhorar seu desempenho? Será que elas vão resolver em definitivo o problema de comunidades aonde não chegam as conquistas elementares da cidadania? “Os candidatos ao governo do Estado têm, sim, de se comprometer com as UPPs, mas muito mais com a regularização fundiária e urbanística, já que elas não são uma finalidade em si, mas o meio de se preparar o terreno para a transformação das favelas em bairros.”
Essa é a opinião de Ignez Barreto, coordenadora do Projeto de Segurança de Ipanema (PSI), que, junto com a Associação dos Moradores do Cantagalo, o Instituto Atlântico e a Fundação Gerdau, vem cobrando do governo a entrega de títulos de propriedade definitivos aos moradores. Ela admite que existe um evidente grau de diferença entre o domínio do tráfico e o da polícia, embora essa esteja sempre sujeita a se corromper (“veja o caso Amarildo”). Mas a diferença, segundo ela, é insuficiente: “Uma comunidade só luta com garra pelo que é seu, não por um território que ora é do tráfico, ora da polícia.” A coordenadora do PSI acredita que enquanto houver um “dono” que não sejam os próprios moradores não haverá solução. “É impossível pensar uma cidade partida como uma colcha de retalhos, cheia de guetos por todos os lados.” Na visão do grupo que representa, “o erro das UPPs é pensar que vão substituir o tráfico. O papel da polícia é dar suporte à segurança da sociedade e não substituí-la em suas funções”.
Mas em última instância não será essa também a posição do secretário José Mariano Beltrame? É bom lembrar que ele sempre reivindicou, como complemento ao seu projeto, a “UPP social”, ou seja, a presença indispensável de serviços básicos como saneamento, saúde, educação, meio ambiente. Ainda ontem, em entrevista a Fernanda Pontes, ele fez mais um apelo para a implantação do que chama de “segunda onda, que talvez pudesse ter sido a primeira”. “Se ela existisse, talvez não houvesse necessidade de a polícia sangrar da maneira como está sangrando.”
É o caso de perguntar, não a ele, mas ao governador: por que não foram tomadas as providências para a implantação da segunda onda, a social?
Setores da sociedade se preocupam com o futuro das UPPs neste ano eleitoral
No momento em que traficantes tentam desestabilizar o projeto de pacificação do Rio, hostilizando as tropas de ocupação, montando barricadas, armando jovens e insuflando protestos de moradores, num ensaio de retomada de território, ou praticando o que o secretário de Segurança classifica de “terrorismo contra o Estado”, setores da sociedade se preocupam com o futuro das UPPs neste ano eleitoral (basta ver a quantidade de cartas que têm sido enviadas à Redação, compensando um pouco a generalizada indiferença que houve em relação à covarde execução de policiais). O que fazer, além de defendê-las, para melhorar seu desempenho? Será que elas vão resolver em definitivo o problema de comunidades aonde não chegam as conquistas elementares da cidadania? “Os candidatos ao governo do Estado têm, sim, de se comprometer com as UPPs, mas muito mais com a regularização fundiária e urbanística, já que elas não são uma finalidade em si, mas o meio de se preparar o terreno para a transformação das favelas em bairros.”
Essa é a opinião de Ignez Barreto, coordenadora do Projeto de Segurança de Ipanema (PSI), que, junto com a Associação dos Moradores do Cantagalo, o Instituto Atlântico e a Fundação Gerdau, vem cobrando do governo a entrega de títulos de propriedade definitivos aos moradores. Ela admite que existe um evidente grau de diferença entre o domínio do tráfico e o da polícia, embora essa esteja sempre sujeita a se corromper (“veja o caso Amarildo”). Mas a diferença, segundo ela, é insuficiente: “Uma comunidade só luta com garra pelo que é seu, não por um território que ora é do tráfico, ora da polícia.” A coordenadora do PSI acredita que enquanto houver um “dono” que não sejam os próprios moradores não haverá solução. “É impossível pensar uma cidade partida como uma colcha de retalhos, cheia de guetos por todos os lados.” Na visão do grupo que representa, “o erro das UPPs é pensar que vão substituir o tráfico. O papel da polícia é dar suporte à segurança da sociedade e não substituí-la em suas funções”.
Mas em última instância não será essa também a posição do secretário José Mariano Beltrame? É bom lembrar que ele sempre reivindicou, como complemento ao seu projeto, a “UPP social”, ou seja, a presença indispensável de serviços básicos como saneamento, saúde, educação, meio ambiente. Ainda ontem, em entrevista a Fernanda Pontes, ele fez mais um apelo para a implantação do que chama de “segunda onda, que talvez pudesse ter sido a primeira”. “Se ela existisse, talvez não houvesse necessidade de a polícia sangrar da maneira como está sangrando.”
É o caso de perguntar, não a ele, mas ao governador: por que não foram tomadas as providências para a implantação da segunda onda, a social?
Força e prudência na medida - KÁTIA ABREU
FOLHA DE SP - 15/03
Quanto ainda teremos de esperar até que os EUA honrem suas obrigações com o Brasil no caso do algodão?
Como dizia o poeta e pensador Píndaro, ainda na Grécia antiga, "quem quer vencer um obstáculo deve se armar da força do leão e da prudência da serpente". Na busca de soluções para o contencioso do algodão, que se arrasta há 12 anos, não houve esse equilíbrio. A prudência se sobrepôs à força do poder de retaliação do Brasil.
Em 2012, o Brasil apresentou queixa à OMC (Organização Mundial do Comércio), contestando subsídios da ordem de US$ 12,5 bilhões, concedidos pelos EUA à produção e à exportação de algodão no período de 1999 a 2002. Após sete anos de litígios, nosso país ganhou direito de impor sanções econômicas para produtos e serviços norte-americanos, que somam US$ 829,3 milhões anuais, até a eliminação dos programas condenados.
As punições que a OMC autorizou o Brasil a impor não ficariam restritas ao setor agropecuário. As altas sobretaxas de até 100% do Imposto de Importação e, em especial, a possibilidade de quebra de patentes para vários produtos e serviços originados dos Estados Unidos certamente trariam prejuízos à maior economia mundial.
Mais do que uma vitória econômica, a decisão da OMC teve significado político. Vencemos uma longa guerra em busca de um comércio justo, sem distorções. O adversário é poderoso. Mas a livre iniciativa e a justa concorrência prevaleceram.
O Brasil ganhou, mas não levou. Em 2010, após um ano de intensas negociações, optamos por um acordo com os Estados Unidos. As sanções foram substituídas por compromissos de ajustes na política agrícola norte-americana e pela criação de um fundo de compensação para apoiar os cotonicultores brasileiros, no valor de US$ 147,3 milhões anuais.
Há seis meses, porém, os EUA não honram seu compromisso de repassar o montante mensal ao IBA (Instituto Brasileiro do Algodão). Criaram, assim, uma dívida de quase US$ 60 milhões.
A frustração dos nossos produtores de algodão não parou aí. A solução definitiva para o impasse ocorreria com a aprovação da nova Lei Agrícola, que deveria ser livre de medidas distorcivas ao comércio internacional. Entretanto, a legislação aprovada em fevereiro deste ano ficou aquém de qualquer expectativa de solução.
Como se vê, são eles os devedores; não os brasileiros.
Desde a Guerra de Secessão, que acabou prejudicando em especial os produtores de algodão daquele país, o sentimento de reparação do Norte para com o Sul parece ter enraizado nos Estados Unidos um forte protecionismo a seus cotonicultores, que perdura há séculos. Se uma dívida história existe, cobrem do Norte, não do Sul.
A sanção da OMC foi aos Estados Unidos, mas é o Brasil que continua a ser punido. Pusemos de lado a força do leão e a prudência da serpente. No momento em que o Brasil tinha tudo para avançar, deixamo-nos acuar.
O acordo foi restrito demais para os cotonicultores brasileiros. Limitou a aplicação dos recursos somente à assistência técnica e à capa- citação do setor. Não pudemos investir os valores repassados por Washington em promoção comercial e pesquisa e desenvolvimento, áreas estratégicas que garantiram a competitividade do algodão norte-americano.
E não só os brasileiros têm amargado perdas. Os subsídios ao algodão também prejudicam --e muito-- algumas das economias mais pobres do mundo, como as dos países centro-africanos. É a raposa cuidando do galinheiro. E ainda matando a galinha dos ovos de ouro dos outros.
O acordo, que já era bom demais para os EUA, foi descumprido por eles próprios. Nossa paciência estratégica de esperar pela aprovação da nova Lei Agrícola norte-americana não nos garantiu os ganhos esperados. E mais. Perdemos duas vezes: A primeira, quando não optamos pela retaliação. Desde 2010, sentamos e confiamos que os americanos adequariam suas políticas às regras de comércio internacional.
Agora, uma segunda decepção. A nova Lei Agrícola não é clara o suficiente para solucionar em definitivo o conflito. Diante disso, o governo brasileiro optou por instituir outro painel de implementação na OMC. Quantos anos mais teremos de esperar que os EUA honrem suas obrigações com o Brasil?
A prudência da diplomacia acabou. Não podemos mais perdoar. É hora de prevalecer a força do leão.
Quanto ainda teremos de esperar até que os EUA honrem suas obrigações com o Brasil no caso do algodão?
Como dizia o poeta e pensador Píndaro, ainda na Grécia antiga, "quem quer vencer um obstáculo deve se armar da força do leão e da prudência da serpente". Na busca de soluções para o contencioso do algodão, que se arrasta há 12 anos, não houve esse equilíbrio. A prudência se sobrepôs à força do poder de retaliação do Brasil.
Em 2012, o Brasil apresentou queixa à OMC (Organização Mundial do Comércio), contestando subsídios da ordem de US$ 12,5 bilhões, concedidos pelos EUA à produção e à exportação de algodão no período de 1999 a 2002. Após sete anos de litígios, nosso país ganhou direito de impor sanções econômicas para produtos e serviços norte-americanos, que somam US$ 829,3 milhões anuais, até a eliminação dos programas condenados.
As punições que a OMC autorizou o Brasil a impor não ficariam restritas ao setor agropecuário. As altas sobretaxas de até 100% do Imposto de Importação e, em especial, a possibilidade de quebra de patentes para vários produtos e serviços originados dos Estados Unidos certamente trariam prejuízos à maior economia mundial.
Mais do que uma vitória econômica, a decisão da OMC teve significado político. Vencemos uma longa guerra em busca de um comércio justo, sem distorções. O adversário é poderoso. Mas a livre iniciativa e a justa concorrência prevaleceram.
O Brasil ganhou, mas não levou. Em 2010, após um ano de intensas negociações, optamos por um acordo com os Estados Unidos. As sanções foram substituídas por compromissos de ajustes na política agrícola norte-americana e pela criação de um fundo de compensação para apoiar os cotonicultores brasileiros, no valor de US$ 147,3 milhões anuais.
Há seis meses, porém, os EUA não honram seu compromisso de repassar o montante mensal ao IBA (Instituto Brasileiro do Algodão). Criaram, assim, uma dívida de quase US$ 60 milhões.
A frustração dos nossos produtores de algodão não parou aí. A solução definitiva para o impasse ocorreria com a aprovação da nova Lei Agrícola, que deveria ser livre de medidas distorcivas ao comércio internacional. Entretanto, a legislação aprovada em fevereiro deste ano ficou aquém de qualquer expectativa de solução.
Como se vê, são eles os devedores; não os brasileiros.
Desde a Guerra de Secessão, que acabou prejudicando em especial os produtores de algodão daquele país, o sentimento de reparação do Norte para com o Sul parece ter enraizado nos Estados Unidos um forte protecionismo a seus cotonicultores, que perdura há séculos. Se uma dívida história existe, cobrem do Norte, não do Sul.
A sanção da OMC foi aos Estados Unidos, mas é o Brasil que continua a ser punido. Pusemos de lado a força do leão e a prudência da serpente. No momento em que o Brasil tinha tudo para avançar, deixamo-nos acuar.
O acordo foi restrito demais para os cotonicultores brasileiros. Limitou a aplicação dos recursos somente à assistência técnica e à capa- citação do setor. Não pudemos investir os valores repassados por Washington em promoção comercial e pesquisa e desenvolvimento, áreas estratégicas que garantiram a competitividade do algodão norte-americano.
E não só os brasileiros têm amargado perdas. Os subsídios ao algodão também prejudicam --e muito-- algumas das economias mais pobres do mundo, como as dos países centro-africanos. É a raposa cuidando do galinheiro. E ainda matando a galinha dos ovos de ouro dos outros.
O acordo, que já era bom demais para os EUA, foi descumprido por eles próprios. Nossa paciência estratégica de esperar pela aprovação da nova Lei Agrícola norte-americana não nos garantiu os ganhos esperados. E mais. Perdemos duas vezes: A primeira, quando não optamos pela retaliação. Desde 2010, sentamos e confiamos que os americanos adequariam suas políticas às regras de comércio internacional.
Agora, uma segunda decepção. A nova Lei Agrícola não é clara o suficiente para solucionar em definitivo o conflito. Diante disso, o governo brasileiro optou por instituir outro painel de implementação na OMC. Quantos anos mais teremos de esperar que os EUA honrem suas obrigações com o Brasil?
A prudência da diplomacia acabou. Não podemos mais perdoar. É hora de prevalecer a força do leão.
O mundo de Putin - DEMÉTRIO MAGNOLI
FOLHA DE SP - 15/03
Atrás da insurreição de Kiev, o presidente enxergou os fantasmas superpostos do antigo reino da Lituânia
Depois de conversar com Putin, Angela Merkel disse a Obama que o presidente russo "está em outro mundo". No mundo de Putin, história é igual a geopolítica. Desde a dissolução da URSS, "a maior catástrofe do século 20", o Ocidente entrega-se noite e dia a conspirar contra a Rússia, imagina o chefe do Kremlin. A Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004, o desafio da Geórgia a Moscou, em 2008, e a insurreição de Kiev seriam componentes de uma persistente estratégia antirrussa. Na sua visão, a operação militar na Crimeia representa um gesto defensivo, pois a ruptura da Ucrânia com Moscou equivaleria a uma nova catástrofe: a destruição da Grande Rússia. De certo modo, Putin tem razão --mas suas ações precipitam o desenlace que ele quer evitar.
No mundo de Putin, a mão dos governantes faz (e desfaz) a história. Atrás da insurreição de Kiev, o presidente russo enxergou os fantasmas superpostos do antigo reino da Lituânia e das forças invasoras da Alemanha nazista. No mundo real, a história não é uma conspiração. A revolução ucraniana não obedeceu, obviamente, a um comando ocidental. Hoje, diante do punho cerrado de Moscou, borram-se as fronteiras entre os ucranianos de língua ucraniana e os de língua russa. Mesmo no leste russófono da Ucrânia, as manifestações pró-Rússia expressam aspirações minoritárias. "Você descobre que o mundo enlouqueceu quando ouve a Alemanha dizer à Rússia para não invadir a Ucrânia", exclamou um jovem na Universidade de Kharkov, sob aplausos e gargalhadas. Inadvertidamente, Putin empurra a Ucrânia na direção do Ocidente.
No mundo real, Putin tinha a chance de conservar alguma influência sobre a Ucrânia se colaborasse com a União Europeia (UE) para estabilizar o país. A UE não almejava mais que um tratado frouxo com a Ucrânia e a Alemanha resiste à pressão americana por uma reação mais forte à agressão russa. Mas, ameaçando sufocar a economia ucraniana, Moscou dinamita as pontes. Bruxelas, Washington e o FMI articulam um pacote financeiro de resgate da Ucrânia, enquanto a Otan ensaia uma cooperação com Kiev. Putin está convencendo os ucranianos de que sua almejada soberania só pode ser sustentada pelo alicerce das instituições ocidentais.
O mundo real e o mundo de Putin coincidem apenas na Crimeia. A península, que sedia a frota russa do mar Negro e é habitada por uma maioria de russos étnicos, não faz parte da Ucrânia histórica. Nikita Kruschev presenteou a Ucrânia com a Crimeia, em 1954, para soldar definitivamente o destino ucraniano ao da Rússia. Pela força ou pela persuasão, Moscou pode separar a Crimeia da Ucrânia, como fez com as regiões georgianas da Ossétia do Sul e da Abkhazia. A ironia é que as ações de Putin aceleram a implosão do mundo de Putin: sem a âncora da Crimeia, a Ucrânia derivaria mais rapidamente rumo à Europa.
O mundo de Putin é um edifício que desmorona em câmera lenta. O nome do edifício é Grande Rússia: o império dos czares que, graças à Revolução de 1917, escapou da implosão, convertendo-se no império vermelho dos czares soviéticos. Putin tem razão no diagnóstico de que, sem a Ucrânia, a Grande Rússia se reduz a uma imagem espectral. Mas aquilo que aparece como uma catástrofe existencial para o último czar descortina oportunidades históricas para a Rússia.
O mundo real não cabe no mundo de Putin. O triunfo da revolução ucraniana salvaria a Rússia do fardo imperial. Sem esse peso esmagador, a Rússia se inclinaria na direção da Europa, seguindo a trilha da Ucrânia. Mais que isso, uma Rússia pós-imperial teria que redefinir sua própria identidade, tornando-se um Estado-Nação. Impérios não precisam confrontar o enigma da democracia, mas o Estado-Nação não tem como circundá-lo impunemente. Os czares diziam que a Rússia nasceu em Kiev. Hoje, Kiev oferece à Rússia a chance de um novo começo
Atrás da insurreição de Kiev, o presidente enxergou os fantasmas superpostos do antigo reino da Lituânia
Depois de conversar com Putin, Angela Merkel disse a Obama que o presidente russo "está em outro mundo". No mundo de Putin, história é igual a geopolítica. Desde a dissolução da URSS, "a maior catástrofe do século 20", o Ocidente entrega-se noite e dia a conspirar contra a Rússia, imagina o chefe do Kremlin. A Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004, o desafio da Geórgia a Moscou, em 2008, e a insurreição de Kiev seriam componentes de uma persistente estratégia antirrussa. Na sua visão, a operação militar na Crimeia representa um gesto defensivo, pois a ruptura da Ucrânia com Moscou equivaleria a uma nova catástrofe: a destruição da Grande Rússia. De certo modo, Putin tem razão --mas suas ações precipitam o desenlace que ele quer evitar.
No mundo de Putin, a mão dos governantes faz (e desfaz) a história. Atrás da insurreição de Kiev, o presidente russo enxergou os fantasmas superpostos do antigo reino da Lituânia e das forças invasoras da Alemanha nazista. No mundo real, a história não é uma conspiração. A revolução ucraniana não obedeceu, obviamente, a um comando ocidental. Hoje, diante do punho cerrado de Moscou, borram-se as fronteiras entre os ucranianos de língua ucraniana e os de língua russa. Mesmo no leste russófono da Ucrânia, as manifestações pró-Rússia expressam aspirações minoritárias. "Você descobre que o mundo enlouqueceu quando ouve a Alemanha dizer à Rússia para não invadir a Ucrânia", exclamou um jovem na Universidade de Kharkov, sob aplausos e gargalhadas. Inadvertidamente, Putin empurra a Ucrânia na direção do Ocidente.
No mundo real, Putin tinha a chance de conservar alguma influência sobre a Ucrânia se colaborasse com a União Europeia (UE) para estabilizar o país. A UE não almejava mais que um tratado frouxo com a Ucrânia e a Alemanha resiste à pressão americana por uma reação mais forte à agressão russa. Mas, ameaçando sufocar a economia ucraniana, Moscou dinamita as pontes. Bruxelas, Washington e o FMI articulam um pacote financeiro de resgate da Ucrânia, enquanto a Otan ensaia uma cooperação com Kiev. Putin está convencendo os ucranianos de que sua almejada soberania só pode ser sustentada pelo alicerce das instituições ocidentais.
O mundo real e o mundo de Putin coincidem apenas na Crimeia. A península, que sedia a frota russa do mar Negro e é habitada por uma maioria de russos étnicos, não faz parte da Ucrânia histórica. Nikita Kruschev presenteou a Ucrânia com a Crimeia, em 1954, para soldar definitivamente o destino ucraniano ao da Rússia. Pela força ou pela persuasão, Moscou pode separar a Crimeia da Ucrânia, como fez com as regiões georgianas da Ossétia do Sul e da Abkhazia. A ironia é que as ações de Putin aceleram a implosão do mundo de Putin: sem a âncora da Crimeia, a Ucrânia derivaria mais rapidamente rumo à Europa.
O mundo de Putin é um edifício que desmorona em câmera lenta. O nome do edifício é Grande Rússia: o império dos czares que, graças à Revolução de 1917, escapou da implosão, convertendo-se no império vermelho dos czares soviéticos. Putin tem razão no diagnóstico de que, sem a Ucrânia, a Grande Rússia se reduz a uma imagem espectral. Mas aquilo que aparece como uma catástrofe existencial para o último czar descortina oportunidades históricas para a Rússia.
O mundo real não cabe no mundo de Putin. O triunfo da revolução ucraniana salvaria a Rússia do fardo imperial. Sem esse peso esmagador, a Rússia se inclinaria na direção da Europa, seguindo a trilha da Ucrânia. Mais que isso, uma Rússia pós-imperial teria que redefinir sua própria identidade, tornando-se um Estado-Nação. Impérios não precisam confrontar o enigma da democracia, mas o Estado-Nação não tem como circundá-lo impunemente. Os czares diziam que a Rússia nasceu em Kiev. Hoje, Kiev oferece à Rússia a chance de um novo começo
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