terça-feira, janeiro 28, 2014

Os verdadeiros motivos - LUIZA NAGIB ELUF

FOLHA DE SP - 28/01

A população protesta contra os desvios de dinheiro, mas muitos dos que reclamam, quando encontram uma chance, fazem o mesmo


Muito se fala que o Brasil tem problemas e precisa mudar. A cada dia, um escândalo diferente salta dos jornais. De fato, nosso sistema prisional é péssimo, medieval, injusto e vergonhoso, não apenas no Maranhão. Podemos dizer o mesmo dos nossos sistemas de saúde, educação, segurança pública, saneamento básico e preservação ambiental, bem como do planejamento urbano.

Quando tudo está errado, torna-se evidente que o problema não é setorizado, mas estrutural. Nossas dificuldades mais enraizadas são corrupção, incapacidade administrativa, irresponsabilidade, ignorância, burocracia e falta de respeito pelos bens públicos.

A população protesta contra os desvios de dinheiro, mas muitos dos que reclamam, quando encontram uma chance de fazer o mesmo, aproveitam-na sem titubear. A cultura do salve-se quem puder está consolidada e é ela que gera o caos. Mas se isso desagrada o povo, por que tudo continua sempre como dantes? Porque as pessoas dizem querer seriedade, mas sempre pensando na seriedade do outro, não na própria. E poucos percebem que essa é uma questão eminentemente política. Ou seja, tudo depende de quem vota em quem e por quê.

As camadas sociais menos informadas votam mediante benefícios pessoais imediatos; os setores com melhores condições de discernir o joio do trigo ou votam de acordo com as próprias conveniências ou nem se interessam em pesquisar a vida pregressa dos postulantes a cargos públicos antes do sufrágio.

Já os(as) eleitos(as), ao selecionar sua equipe de governo, muitas vezes usam critérios políticos que nada têm a ver com a competência funcional ou a lisura administrativa. Assim é que se escolhe, por exemplo, um secretário municipal, estadual ou federal que nada sabe sobre a área técnica que terá de administrar, mas foi indicado por determinado partido ou compadre que se precisa agradar. Se quem foi nomeado para cuidar da saúde da população nada entende de saúde pública ou está no cargo apenas para se locupletar, ocorre uma tragédia.

De tragédia em tragédia, chegamos à situação atual do país. É só somar corrupção com incompetência. E nada vai mudar enquanto a população não acordar para a importância de uma eleição, para a grande responsabilidade do exercício da cidadania e para o papel de cada um nos descalabros constantes.

Vemos que a Ordem dos Advogados do Brasil quer proibir as doações de empresas em campanhas eleitorais. O Supremo Tribunal Federal está votando a matéria, e compreendemos que o propósito é evitar o comprometimento dos agentes públicos, mas nossos problemas não são pontuais e não se resolvem com paliativos. Precisamos modificar os padrões culturais. Temos que aplicar os critérios de honestidade e responsabilidade em todos os momentos de nosso dia a dia para que isso gere uma alteração de mentalidade que atinja a todos.

Quando acontece um escândalo, além de vituperar contra as autoridades responsáveis, nosso povo precisa fazer uma reflexão sobre como alguém sem capacidade ou sem idoneidade foi parar no cargo que ocupa. Assim, ficará mais nítida a responsabilidade de cada um pelos rumos de seu próprio país.

O impacto da corrupção e as eleições - MARCELLO TERTO

CORREIO BRAZILIENSE - 28/01

A dignidade humana é um conceito aberto e plural, dotado de um conteúdo mínimo que tem como referência o ser humano como um fim em si mesmo, e não como mero instrumento para a realização de metas coletivas utilitaristas ou projetos pessoais. Traz em si a ideia de que o Estado existe para servir os indivíduos como seres humanos que são.

Não é o que denuncia, infelizmente, o caso da Penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, e de tantos outros presídios Brasil afora. Nesses estabelecimentos, práticas sanguinolentas e desumanas denunciam a nossa cupidez, apatia social e, sobretudo, a omissão política e administrativa das estruturas de poder responsáveis pelos destinos do progresso não apenas econômico - e até nisso caminhamos mal no momento -, mas social e cultural dos brasileiros.

Na atualidade, um governo não é legítimo só pela obediência à forma como alcança a sua posição, mas, sobretudo pelo que faz ou é capaz de realizar para os seus governados.

Quando perde a legitimidade, os acordos se quebram e produzem consequências indesejáveis, provavelmente a tirania, a revolução, a cisão ou qualquer outra forma de ruptura que põe em risco os valores fundamentais e universais, a começar pela dignidade humana e seus valores intrínsecos - a vida, a liberdade, a intimidade, a segurança.

Corremos esse risco, porque o Brasil está entre os países mais corruptos, com base em dados de percepção de abusos de poder, acordos clandestinos, superfaturamentos e subornos nos setores públicos.

Tudo isso é ainda fruto da baixa eficácia das leis brasileiras, que favorece a corrupção, gera redução do escore de eficiência e assim impacta de forma geral sobre indicadores sociais importantes, com destaque para a educação, a saúde, a segurança e a Justiça, os dois últimos diretamente relacionados às decapitações no Maranhão.

Estudo publicado no número 41 da Revista Planejamento e Políticas Públicas (PPP), editada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que, do ponto de vista do combate à corrupção, o país deve considerar pelo menos três fatores: ambiente burocrático/organizacional, qualidade da participação popular e convergência entre leis e demandas sociais. E o país anda mal em todos esses aspectos.

A corrupção tende a aumentar o investimento público, mas deteriora sua qualidade e retornos sociais com maior ineficiência. Assim, se a corrupção dobrasse em um estado tecnicamente eficiente, resultaria na redução grave do bem-estar da população.

Logo, têm razão aqueles que defendem ser a corrupção a base de todas as mazelas sociais. Entretanto, não se combate a corrupção vivendo de aparências e sob um modelo de atuação pública que nega a realidade e institucionaliza esse mal. É preciso investir na estruturação e controle de funções estratégicas e no imenso potencial que o país tem para crescer de forma sustentável, transparente, responsável e racional.

A começar pela discussão séria dos problemas, sem negar-lhes a existência, pela melhoria da educação da população e pelo fortalecimento do aparato legal e institucional, concluímos que o melhor cenário é investir em ética, não apostar na impunidade que produz o estado de terror que atemoriza não só os maranhenses, mas todos nós que dependemos de ações estatais para vivermos dignamente e felizes.

A tempo: em época de eleições democráticas, o povo pode começar essa revolução sem decapitar literalmente ninguém ou qualquer outra espécie de violência. O uso consciente do voto é a forma civilizada capaz de eliminar ou diminuir a influência dos agentes públicos fomentadores da nossa triste realidade. Façamos a nossa parte.

Brasil e Argentina, luz e sombra - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 28/01

Brasil e Argentina são tão diferentes quanto o dia e a noite e os mercados conhecem as diferenças, disse em Davos o professor e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Kenneth Rogoff. A comparação torna-se inevitável quando a segunda maior economia da América do Sul e principal parceira do Brasil na região entra de novo em turbulência. Com inflação próxima de 30%, reservas cambiais perigosamente baixas, indústria estagnada, problemas até de abastecimento e - mais importante - governo sem a mínima credibilidade, a Argentina é candidata natural ao desastre quando surge qualquer inquietação mais ou menos séria no mercado. Os vizinhos e parceiros mais próximos estarão em condições igualmente ruins?

Apesar da opinião de Rogoff, a indagação parece natural, quando se fala em risco de rebaixamento da nota de crédito soberano do Brasil, principal parceiro comercial da Argentina e notório - pela ação do governo - aliado ideológico. A presidente Dilma Rousseff e sua equipe têm procurado mostrar afinidade com os governos argentino e venezuelano e pouco interesse em maior aproximação com países mais estáveis, mais prósperos e mais abertos, como Chile, Peru e Colômbia. Se houver uma aproximação perigosa das imagens do Brasil e da Argentina, os responsáveis serão encontrados no Palácio do Planalto.

Rogoff tem razão, no entanto, quanto a várias importantes diferenças. Com reservas de US$ 375,54 bilhões, dado oficial de quinta-feira, o País tem como resistir por bom tempo a especulações de mercado. A inflação, próxima de 6%, é muito alta pelos padrões internacionais, mas muito menor que a argentina, próxima de 30%. A dívida pública, embora muito mais alta que a de outros emergentes, é financiada sem dificuldades especiais, porque o acesso aos mercados é amplo - o oposto da situação argentina.

Além disso, o sistema público de estatísticas continua funcionando tecnicamente, sem distorções impostas pelo Executivo. A imprensa consegue exercer as funções de vigilância e informação. As tentativas de maquiar resultados fiscais e administrar índices de inflação por meio do controle de preços têm sido denunciadas com rapidez. As estatísticas oficiais brasileiras são recebidas com respeito pelos mercados e pelas instituições internacionais, ao contrário das argentinas.

Os dois países são, de fato, diferentes como o dia e a noite, quando se consideram esses detalhes. Se o mercado conhecer essas distinções, o Brasil será menos atingido, no caso de turbulências motivadas pela redução dos estímulos monetários americanos, pela perda de impulso dos emergentes ou pela combinação desses fatores. Os investidores, disse em Davos a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, saberão distinguir os fundamentos econômicos e as qualidades da política de cada país. Somada ao comentário de Rogoff, a afirmação parece tranquilizante. A presidente Dilma Rousseff procurou reforçar a percepção positiva ao afirmar, no Fórum Econômico Mundial, um compromisso contra a inflação e a favor da melhora das condições fiscais do País.

Mas o compromisso com os bons fundamentos já havia sido afirmado muitas vezes. Apesar disso, a inflação continua longe de 4,5% e a presidente parece contentar-se com números bem mais altos, embora dentro da margem de tolerância (até 6,5%). Além disso, o Executivo tem administrado os índices pelo controle de preços. Ninguém desconhece esse fato. Do lado fiscal, o uso de receitas atípicas e de manobras contábeis tornou-se quase rotineiro. Tudo isso diminui perigosamente o contraste entre o dia e a noite.

Em Davos, dificilmente alguém criticaria de forma aberta a fala da presidente. Mas o governo ganharia credibilidade se o discurso fosse mais claro quanto a objetivos, problemas e linhas de ação. Um bom exemplo foi o do vice-presidente da Comissão de Planejamento da Índia, o respeitado economista Montek Singh Ahluwalia: o menor dinamismo de seu país se deve em parte a fatores externos, mas dois terços dos problemas são internos e o governo os reconhece. Essa conversa todos aceitam mais facilmente.

Mais Brasil, menos Cuba - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 28/01
A presidente Dilma Rousseff transformou em realidade ontem, em Cuba, o que no Brasil ainda não passa de discurso ou sonho distante. Ao inaugurar a primeira etapa do Porto de Mariel, a 45km de Havana, ela aumentou sua dívida com a dura verdade de atrasos e ineficiência do setor portuário brasileiro, um dos campeões mundiais em custos e falta de capacidade operacional.
O porto cubano, com moderno terminal de contêineres, custou US$ 957 milhões, dos quais nada menos do que US$ 683 milhões saíram de cofres brasileiros, financiados em condições favoráveis pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). E, segundo anunciou a presidente, para a segunda etapa do projeto, a ser implantada em seguida, não faltarão recursos: "Vamos financiar US$ 290 milhões para implantar zona especial de desenvolvimento". Sem dúvida, é o sonho de muitas cidades brasileiras, portuárias ou não.

A inauguração do porto cubano ocorre pouco menos de um ano depois que a Sunrise, uma das maiores tradings chinesas importadoras de soja, comunicou ao exportadores brasileiros o cancelamento de uma encomenda de 2 milhões de toneladas do grão, em razão de atrasos inaceitáveis no Porto de Santos. A mercadoria deveria iniciar viagem para a China em fevereiro, mas, na melhor das hipóteses, seria acomodada a bordo em abril. Os chineses, que já haviam tido prejuízos com o atraso de dois embarques anteriores, preferiram abrir mão do preço do grão brasileiro em favor do melhor funcionamento dos despachos pela Argentina.

Pior: na festa do Porto Mariel, não é certo que Dilma e sua alegre comitiva tenham se lembrado - menos ainda se constrangido - da distância que separa aquela celebração com a pompa e a circunstância que marcaram os primeiros dias de dezembro de 2012, quando foi lançado o até então ousado Programa de Investimentos em Logística (PIP). Somente para o setor portuário, estariam reservados R$ 54,2 bilhões.

A "salvação" dos portos brasileiros foi anunciada em detalhes em 6 de dezembro daquele ano. E a montanha de dinheiro não viria sozinha, pois obras de melhorias rodoviárias e ferroviárias dariam novo enredo ao escoamento da produção nacional, incluindo facilidades de acesso aos principais terminais portuários. Para isso, a iniciativa privada, que deixaria de ser vista como vilã, seria muito bem aceita.

Não foi o que aconteceu. Não houve até agora nada parecido com a boa vontade e a rapidez com que se viabilizou a aplicação do dinheiro do BNDES em Cuba. Pelo contrário, os exportadores brasileiros de soja já se preparam para mais uma safra de problemas a partir das porteiras de suas lavouras. Este ano, o Brasil vai colher mais uma supersafra de grãos (196,7 milhões de toneladas). Só a soja responderá por 90 milhões de toneladas, podendo superar, pela primeira vez, a colheita dos Estados Unidos.

A prioridade aos investimentos em infraestrutura, para destravar o crescimento da economia brasileira - que vai para o terceiro ano de taxas constrangedoras de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) -, foi uma das promessas da presidente aos investidores em Davos. O mundo, além dos brasileiros, está esperando que ela vá além do discurso e aplique mais no Brasil o dinheiro dos brasileiros e, com isso, recupere a confiança do capital internacional no país.

A falta de oposição - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 28/01

A inflação de 5,91% em 2013 é fabricada pelo governo, pois não resultou da livre flutuação de preços de todos os bens e serviços



Os governantes não gostam de ter seus poderes limitados e também não apreciam a existência de oposição política, sobretudo no parlamento. De fato, para os políticos no poder, seria mais cômodo que ninguém mostrasse seus erros, contestasse seus atos e lhes fizesse oposição. Entretanto, os interesses dos governantes não são necessariamente os interesses da nação e da democracia, pois ambas requerem oposição eficiente, cujo papel é fiscalizar o governo, criticar os erros e impedir que o Executivo se torne um poder imperial e absoluto.

No Brasil, a oposição ao governo no âmbito do parlamento é quase nenhuma. Os grandes temas de política macroeconômica fazem parte secundária e marginal na ação política dos partidos de oposição. As críticas que os oposicionistas não fazem podem ser lidas nas falas e nos relatórios dos analistas internacionais e de importantes publicações estrangeiras, que têm apontado equívocos cometidos pelo governo brasileiro.

A começar pela respeitada revista The Economist, a imprensa especializada mundial vem chamando a atenção para alguns erros graves na gestão de Dilma Rousseff, os quais podem levar o Brasil a dar passos atrás em relação ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social. Em outros tempos, sobretudo quando o PT era oposição, essa situação já teria provocado enfáticos debates e embates no Congresso Nacional, obrigando o governo a se explicar e, quem sabe, rever suas práticas.

Um equívoco sério refere-se à administração da inflação. O governo anunciou que a inflação de 2013, medida pelo IPCA, ficou em 5,91% – portanto, acima da meta de 4,5% fixada pelo Banco Central (BC). O grave nessa questão é que há três preços relevantes no cálculo da inflação anual que são administrados pelo governo e subiram, no conjunto, apenas 1,5% em 2013 (conforme o cálculo ponderado, a elevação no ano é de apenas 0,65%). Esses preços são os da energia, dos combustíveis e as tarifas de transportes públicos.

Se tais preços fossem reajustados em 4,5%, a inflação de 2013 passaria de 7%. Somente o grupo dos alimentos teve aumento médio acima de 10%. Ou seja, a inflação de 5,91% é fabricada pelo governo, pois não resulta da livre flutuação de preços de todos os bens e serviços. A denúncia dos analistas internacionais é quanto à falta de realismo do índice de inflação, pois o país vive uma espécie de congelamento parcial de preços.

Além de mascarar a inflação real, o represamento dos preços produz outras consequências nefastas para a economia, como o enfraquecimento que vem sendo imposto à Petrobras pela política de não reajuste dos preços dos combustíveis. Vale lembrar que não foi somente em 2013 que o governo segurou o preço dos combustíveis. Isso já vinha sendo feito em anos anteriores e é uma decisão pessoal da presidente Dilma; logo, a responsabilidade é dela, já que o ministro da Fazenda tornou-se mero executor das decisões presidenciais.

Outra denúncia atinge a prática sistemática do governo em manipular informações fiscais. O governo mexeu em tudo: no cálculo do superávit primário, no lançamento dos restos a pagar de gastos públicos e, agora, manipulou também as contas da balança comercial. O país, que já havia prejudicado a credibilidade das contas fiscais, está jogando fora também a confiança nos cálculos do balanço de pagamentos.

A demonstração de que o ministro da Fazenda e a presidente da República não entenderam a gravidade da prática de maquiar dados e contas públicas é assustadora. Depois de tantas críticas feitas por analistas internos, por analistas estrangeiros e pela imprensa especializada internacional, e ainda conhecendo os maus exemplos da Argentina e da Venezuela (países que não são modelo para nada), esperava-se que o governo brasileiro fosse abandonar as manipulações. Ledo engano! O governo repetiu tudo ao encerrar 2013, e isso vai custar caro ao país.

Ontem, nesse mesmo espaço, mostramos que o discurso da presidente Dilma em Davos parecia insinuar uma mudança de direção e um reconhecimento, finalmente, de que há erros na condução da política econômica. Mas ações valem mais que palavras, e aquelas, até o momento, não dão esperança de correção de rumos.

Apesar de o quadro ser lamentável e prejudicial ao país, a oposição no Congresso Nacional parece anestesiada, alheia a tudo. Praticamente não são vê movimento de parlamentares oposicionistas no sentido de denunciar e combater os graves erros perpetrados pelo governo no campo da economia. Se a pouca confiança que o Brasil conquistou acabar jogada no lixo, a oposição também terá sua parcela de culpa por ter sido omissa ao longo dessa última década.

A forte propensão da Argentina ao erro - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 28/01

A situação requereria uma política de choque, com juros elevados, corte de gastos e flutuação do peso. Mas Cristina prefere denunciar a ação de “especuladores”



Uma das dez maiores economias do mundo no início do século passado, com uma renda per capita equiparável às da França e Alemanha, superior às do Japão e Itália, a Argentina intriga historiadores pelo ineditismo de ter sido um país desenvolvido que retrocedeu.

É certo que não haverá uma explicação única para a tragédia, só possível de ser analisada com o uso de conceitos multidisciplinares, da economia, da ciência política, da antropologia.

Pois, no espaço de 13 anos, o país mergulha em mais uma crise cambial, devido a uma sucessão de erros até óbvios cometidos na política econômica deste período, cuja maior parte é dominada pelo kirchnerismo, a vertente peronista hegemônica até o programa populista do casal Néstor e Cristina começar a perder força, em função mesmo da crise que os dois semearam. Néstor, sucessor de Eduardo Duhalde, sobre o qual desabou a responsabilidade de começar a recuperar o país depois de outra tragédia, a explosão do câmbio fixo, em dezembro de 2001, enveredou pelo populismo, abraçado com entusiasmo pela mulher, sua sucessora, a senadora Cristina Kirchner.

Com o país alijado do mercado financeiro mundial, devido à impossibilidade de chegar a um acordo com todos os credores atingidos pelo calote dado devido ao fim do engessamento cambial, o casal Kirchner partiu para conhecidas heterodoxias. Câmbio desvalorizado, juros baixos, gastos públicos nas alturas — uma das maneiras mais eficazes de se fazer explodir a inflação. E quando ela acelerou os preços, o governo de Cristina passou a praticar uma “contabilidade criativa", mas sem as sutilezas com que ela é aplicada no Brasil nas contas públicas. Interveio no cálculo do índice oficial, tabelou-o em 10%, mesmo que hoje a taxa efetiva esteja próxima dos 30%. Com um governo desinteressado em dar segurança aos investidores, a economia com perda crescente de competitividade, também em função da inflação, a fuga em direção ao dólar ganhou velocidade — até porque o argentino nunca confiou plenamente no peso.

O resultado aí está: as reservas, hoje em US$ 29 bilhões, caíram mais de 40% em relação a 2011, o dólar no mercado paralelo (“blue”) está em mais de 12 pesos, enquanto a taxa oficial é de 8 pesos, mesmo assim depois de uma desvalorização de mais de 10% num único dia, quinta passada. A situação é típica: requereria um choque fiscal e monetário, corte de gastos, juros nas alturas e flutuação livre do peso. Como fez o Brasil em 1999, com êxito. E em 2003, idem. Mas é muito “neoliberalismo” para Cristina e seu jovem ministro Axel Kicillof, um peronista de esquerda. Eles preferem denunciar a ação de “especuladores”. Tanto pior para a Argentina.

Dez anos em Marte - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 28/01

Percorrer 39 km em dez anos não garante qualificação para nenhuma corrida na Terra, mas em Marte pode ser saudado como desempenho extraordinário. Vida longa ao jipe Opportunity, que desde 25 de janeiro de 2004 percorre a superfície do planeta vermelho.

A série de missões não tripuladas da Nasa ao vizinho de Sistema Solar proporcionou bons resultados. Pelo preço de um único ônibus espacial (US$ 1,7 bilhão), a agência americana enviou dois jipes a Marte, Spirit e Opportunity.

Sem pôr nenhuma vida humana em risco, os dois pousaram corretamente em solo marciano. Cada um deveria operar por três meses e direcionar instrumentos para buscar sinais de ambientes úmidos, propícios à vida, no passado do planeta no qual astrônomos do século 19 enxergavam "canais".

Tais canais eram uma fantasia, mas Spirit e Opportunity provaram que Marte, bilhões de anos atrás, teve abundância de água líquida em sua superfície. Ambos os veículos ultrapassaram, e muito, a longevidade programada, e o segundo se sagrou um campeão.

O Spirit funcionou até março de 2010, enviou à Terra 128 mil imagens e percorreu 8 km. Já o Opportunity opera até hoje, não tem data para parar, mandou 187 mil fotografias e está perto de completar os 42,2 km de uma maratona.

O sucesso da dupla ajudou a fazer decolar outra missão, a do laboratório sobre rodas Curiosity, que pousou em Marte em 2012. Ao custo de US$ 2,5 bilhões, o novo jipe tem por meta investigar se, além de água, os terrenos marcianos guardam compostos orgânicos complexos ou outros sinais da probabilidade de vida no planeta vermelho.

Por ora, os indícios são de ambientes inóspitos até para os microrganismos mais rústicos da Terra, que suportam níveis altos de temperatura e acidez e são por isso conhecidos como extremófilos.

Se vier a comprovar que Marte foi também habitável, o Curiosity dará novo passo na longa busca por vida fora da Terra, um tema popular da exploração do espaço.

Há quem veja nela pura inutilidade, desperdício bilionário em empreitada de resultados incertos. Mas é inegável que a aventura espacial --para além de seus subprodutos tecnológicos-- já contribuiu muito para alterar a imagem que a humanidade faz de si própria no cosmo, e não há limite para imaginar o que possa estar à frente.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Esse era o desejo nosso desde o fim do ano passado”
Washington Quaquá, presidente do PT-RJ, sobre o rompimento com Sergio Cabral


NINGUÉM FISCALIZA FINANCIAMENTO DO BNDES LÁ FORA

Obras bancadas pelo BNDES no exterior não são fiscalizadas pelo TCU, MPF ou qualquer órgão de controle. É o caso do financiamento de US$ 684 milhões do Porto de Mariel, em Cuba. A condição do BNDES sempre é a mesma, em países latino-americanos ou africanos: entregar a obra a empreiteira brasileira, cuja escolha não tem licitação, nem auditorias. Dilma ontem anunciou mais US$ 360 milhões para bancar o aeroporto de Havana.

ÚLTIMO A SABER

“Não há nem projeto”, diz o BNDES, surpreso com os 360 milhões para Cuba. Mas já há empreiteira, que soprou o valor no ouvido certo.

BYE, BYE, BRASIL

Só em 2012, US$ 2,17 bilhões do BNDES foram pagos a empreiteiras brasileiras no exterior. Em 2013, até setembro, foram US$ 1,37 bilhão.

SECRETOS E SUSPEITOS

Os contratos do BNDES no exterior são “secretos”: o teor dos contratos do Porto de Mariel, por exemplo, somente será conhecido em 2027.

GÊNIOS DO MAL

A fórmula “engenhosa”, de tirar montanhas de dinheiro do Tesouro sem licitação, controle ou fiscalização, foi criada no governo Lula.

AÉCIO JÁ APOSTA EM ALIANÇA COM PMDB DE CABRAL

Aspirante à Presidência, o senador Aécio Neves (PSDB) vê no rompimento entre PT e PMDB no Rio o primeiro passo para faturar o palanque de Luiz Pezão, candidato do governador Sergio Cabral à sua sucessão. Aécio aproveitou seu encontro ontem com o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira (SP), seu mais novo fiel escudeiro, para articular a negociação.

O Solidariedade já fechou apoio a Pezão.

NÃO É AUTOMÁTICO

Sergio Cabral ofereceu a Secretaria de Assistência Social ao Solidariedade, mas não deu qualquer garantia de apoio a Aécio Neves.

É DA NATUREZA DELE

Eventual apoio de Sergio Cabral a Aécio é visto sem estranhamento pela cúpula do PMDB, que sempre o considerou um “tucano enrustido”.

VAI TER REAÇÃO

O troco do PMDB ao PT no Rio poderá se repetir no Ceará, onde o senador Eunicio Oliveira cogita aliança com o tucano Tasso Jereissati.

TAPA NO VISUAL

A aparência de Dilma Rousseff na “escala técnica” de Lisboa chocou a imprensa local. Fotos do jornal Expresso (reproduzidas no diariodopoder.com.br), à saída do luxuoso restaurante Eleven, mostraram a presidente com olho roxo e abatida, sugerindo no mínimo recentíssima cirurgia plástica.

MANTRA PALACIANO

Sem explicações sobre a viagem da presidente Dilma Rousseff, a assessoria da Palácio do Planalto tinha apenas uma irritada resposta para qualquer pergunta, da provável plástica à farra com dinheiro público: “parada técnica”.

CHAMEM A POLÍCIA

A empresária Ana Cristina Aquino contou à revista IstoÉ que subornou o ex-ministro do Trabalho e Emprego Carlos Lupi.

Certa vez entregou a ele R$ 200 mil em uma bolsa Louis Vuitton, em troca de licença para criar um sindicato. O ministro Manoel Dias também é do esquema, diz ela.

QUE VEXAME...

Louco para ser líder do PDT, Vieira da Cunha (RS) bajula Carlos Lupi, dono do seu partido e da vontade da maioria da bancada: chamou de “vazias e fantasiosas” as denúncias de suborno ao ex-ministro.

LOBO DE CORDEIRO

Líderes desconfiam que a pressa do governo em liberar emendas impositivas não passa de uma tentativa de dificultar as prefeituras de cumprir os prazos, para reter a verba se isentando de responsabilidade.

REMENDANDO

O senador Cristovam Buarque (PDT) informa ter destinado 15 emendas no total de R$12,6 milhões ao DF, e só R$2,4 milhões aos programas nacionais Proantar - Reconstrução da Estação Antártica; Documentário sobre Zé Gotinha; Incor de SP; e Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

MAPEAMENTO

O núcleo do PV se reunirá nesta quarta (29) em Brasília para discutir alinhamento político nas eleições deste ano. O partido quer lançar à Presidência o ex-secretário Eduardo Jorge, que está em cima do muro.

DE OLHOS BEM ABERTOS

Chineses terão uma estrutura especial para assisti-los, nas cidades-sede da Copa. Eles não confiam na expertise brasileira de segurança e nem muito menos na organização do evento.

NOSSO DINHEIRO

Dilma inaugurou ontem a maior obra do governo Lula: o Porto de Mariel. Em Cuba. Já no Brasil...


PODER SEM PUDOR

IMPRENSA E MÁ FAMA

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), meliante condenado no processo do mensalão, sempre atribuiu a má fama dos políticos à imprensa, jamais ao comportamento deles. Ele fez esse desabafo, certa vez, ao reclamar que não havia sido ouvido por uma rádio paulista que divulgou um projeto que ele ignorava, anistiando multas eleitorais de 2002. A repórter da emissora reagiu na hora:

- Há dois dias, estamos tentando falar com o senhor, e nada...

João Paulo sorriu amarelo e encerrou a coletiva.

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Para acalmar o mercado, governo deve cortar R$ 30 bi
Folha: Homicídios caem e roubos crescem em SP em 2013
- O Estadão: Dilma dá US$ 290 mi a Cuba e vê 'parceria de 1ª ordem'
Correio: Protestos desafiam Planalto
Estado de Minas: Para inglês ver
Jornal do Commercio: Gargalos da Copa preocupam União
Zero Hora: Mensalidade escolar aumenta até 12%, o dobro da inflação
Brasil Econômico: Tombini diz que BC vai manter o aperto monetário

segunda-feira, janeiro 27, 2014

O alegre rolezinho dos hipócritas - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA


Os brasileiros, esses crédulos, achavam que o governo popular parasitário do PT jamais alcançaria os padrões de cara de pau do chavismo. Quando o governo venezuelano explicou que estava faltando papel higiênico no país porque o povo estava comendo mais, os brasileiros pensaram: não, a esse nível de ofensa à inteligência nacional os petistas não vão chegar. Mas o Brasil subestimou a capacidade de empulhação do consórcio Lula-Dilma. E o fenômeno dos rolezinhos veio mostrar que o céu é o limite para a demagogia dos oprimidos profissionais.

A parte não anestesiada do Brasil está brincando de achar que o populismo vampiresco do PT não faz tão mal assim. E dessa forma permite que a presidente da República passe o ano inteiro convocando cadeia obrigatória de rádio e TV. Como no mais tosco chavismo, Dilma governa lendo teleprompter. Fala diretamente ao povo, recitando os contos de fadas que o Estado-Maior do marketing petista redige para ela. Propaganda populista na veia, e gratuita, sem precisar incomodar Marcos Valério nenhum para pagar a conta.

Só mesmo numa república de bananas inteiramente subjugada é possível um escárnio desses. O recurso dos pronunciamentos oficiais do chefe da nação existe para situações especiais, nas quais haja uma comunicação de Estado de alta relevância (ou urgência) a fazer. Dilma aparece na televisão até para se despedir do ano velho e saudar o ano novo – ou melhor, usa esse pretexto para desovar as verdades de laboratório de seus tutores. Mas agora, com a epidemia dos rolezinhos, o canal oficial da demagogia está ligado 24 horas.

Eles não se importam de proclamar na telinha que a economia está indo de vento em popa, com os números da inflação de 2013 estourando a previsão e gargalhando por trás da TV. Mas a carona nos rolezinhos é muito mais simples. Basta escalar meia dúzia de plantonistas da bondade para dizer que as minorias têm direito à inclusão no mundo capitalista – e correr para o abraço. Não se pode esquecer que o esquema petista vive das fábulas dos coitados. Delúbio Soares, hoje condenado e preso por corrupção, disse que o mensalão era "uma conspiração da direita contra o governo popular".

O rolezinho é um ato de justiça social, assim como o papel higiênico acabou porque os venezuelanos comeram muito. E a desenvoltura dos hipócritas do governo popular no caso das invasões de shoppings está blindada, porque a burguesia covarde e culpada é presa fácil para o sofisma politicamente correto. Os comerciantes dos shoppings, lesados pela queda do consumo e até por furtos dos jovens justiceiros sociais, estão falando fininho. Estão sendo aviltados por uma brutalidade em pele de cordeiro, por uma arruaça fantasiada de expressão democrática, e têm medo de fazer cumprir a lei.

A ministra dos Direitos Humanos, como sempre, apareceu como destaque no desfile da demagogia petista. Maria do Rosário defendeu os rolezinhos nos shoppings e "o direito de ir e vir dessa juventude".

A ministra está convidada a passear num shopping onde esteja acontecendo o ir e vir de 3 mil integrantes dessa juventude. Para provar que suas convicções não são oportunismo ideológico, Maria do Rosário deverá marcar sua próxima sessão de cinema ou seu próximo lanche com a família num shopping center invadido por milhares de revolucionários do Facebook, protegidos seus. Se precisar trocar as lentes de seus óculos, Maria do Rosário está convidada a se dirigir à ótica num shopping que esteja socialmente ocupado por um rolezinho.

Se a multidão não permitir que a ministra chegue até a ótica, ou se a ótica estiver fechada por causa do risco de assalto, depredação ou pela falta de clientes, a ministra deverá voltar para casa com as lentes velhas mesmo. E feliz da vida, por não ter de enxergar seu próprio cinismo socialista.

Shoppings fechados em São Paulo e no Rio por causa dos rolezinhos são a apoteose da igualdade (na versão dos companheiros): todos igualmente privados do lazer, todos juntos impedidos de consumir cultura, bens e serviços num espaço destinado a isso. É a maravilhosa utopia do nivelamento por baixo. O jeito será importar shoppings cubanos – que vêm sem nada dentro, portanto são perfeitos para rolezinhos.

"Não fui eu" - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA


Nada como o fracasso para trazer à luz do sol alguns dos defeitos mais desagradáveis que o ser humano esconde nos subúrbios distantes da sua alma. Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem és — eis aí o resumo da ópera, numa adaptação do velho provérbio sobre as más companhias. De fato, é quando as coisas complicam que fica mais fácil dividir o bom do mau caráter. Personalidades construídas com material de primeira qualidade sabem que o fracasso, em si, não é fatal; é apenas o resultado dos erros de julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a disposição de fazer mudanças, adquirir mais conhecimento, ouvir mais gente e assim por diante. Mas sabem, também, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o seu autor não admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente um fracasso, ou, pior que tudo, põe a culpa do fracasso nos outros. Seu mandamento principal é uma frase muito ouvida nas salas de aula infantis: "Não fui eu". São pessoas fáceis de encontrar. Um dos seus habitats é o governo.

A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não perde nenhuma oportunidade de dizer "não fui eu". O ano de 2013, para ir direto ao assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5% — quase metade do que o governo tinha prometido no começo do ano. O saldo da balança comercial teve o pior resultado desde 2000, com uma queda de quase 90% em relação a 2012. Num tipo de molecagem contábil cada vez mais comum, registrou-se como "exportação" a venda de equipamento que nunca saiu do território nacional. Em dólar, mesmo, não entrou um centavo no Brasil. Mas no papelório oficial consta o ingresso de quase 8 bilhões, sem os quais, aliás, teria havido déficit na balança de 2013. Outros truques parecidos fazem do Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner.

Pela primeira vez em dez anos, caíram as vendas de carros. O contribuinte pagou 1,7 trilhão de reais em impostos — a maior soma de todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhões de dólares no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui — e qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do que em Botucatu? A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destruídos 40 bilhões de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006, proclamou "autônomo" em petróleo, e já pronto para "entrar na Opep") importou 40 bilhões de dólares em petróleo e derivados em 2013.

A presidente, cada vez mais, dá a a impressão de estar passeando num outro planeta. Segundo Dilma, 2013 até que foi um ano bem bonzinho, e o que pode ter acontecido de ruim não foi culpa dela, e sim da "guerra psicológica" que teria sofrido. Foram condenados, também, os "nervosinhos" — gente que, segundo o ministro Guido Mantega, fez cálculos pessimistas para as contas públicas de 2013. Veio, então, com uns miseráveis decimais acima das tais previsões — que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflação voltou a roncar e o Brasil pode perder o seu sagrado "grau de investimento" em 2014.

A estratégia econômica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre sobre o desemprego de "apenas 4,6%", que na verdade parece ser de 7%, e o aumento de renda que levou "milhões de brasileiros" a sair da miséria e subir à "classe média". Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no Brasil e em países do Primeiro Mundo, para vender a ilusão de que "estamos melhor que eles". O que adianta isso, quando o abismo entre nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual? Da "subida social" dos brasileiros, então, é melhor nem falar. Falar o quê, quando o governo decidiu que faz parte da classe média todo cidadão que ganha de 291 reais por mês a 1019? A presidente quer que acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe média se ganhar menos da metade do salário mínimo por mês; se ganhar 1020 reais, já fica rica.

A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral. Ninguém se torna um ser humano melhor porque acerta, ou pior porque erra. Mas no Brasil o que vale não é enfrentar o fracasso lutando pelo sucesso. Melancolicamente, o que funciona é negar a derrota e chamar a marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado são anos como 2013.

Imagina nas Olimpíadas - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA


"Eles tratam a gente igual a gado". Vanessa Rocha, cozinheira, foi uma das 600 mil vítimas do inferno do transporte no Rio de Janeiro. Um trem descarrilou, bateu num poste de energia e interrompeu todo o sistema sobre trilhos. Durante 11 horas! Sem plano alternativo, sem orientação, a multidão que sai de casa com o dinheiro contado para a passagem de ida e volta se sentiu desrespeitada. O caos se instalou sob uma sensação térmica e emocional de 50 graus.

Vanessa saiu da Zona Oeste do Rio às 4 horas, para chegar ao emprego às 5h30. Às 8 horas, ainda caminhava nos trilhos. Suada. Esgotada. Revoltada. Sem dinheiro para pagar uma passagem de ônibus. Sem informação da SuperVia, empresa que administra os trens do Rio e que ganhou a concessão até 2048. A Odebrecht é dona de 60% da concessionária. De super, a empresa não tem nada. Talvez apenas SuperIncompetente. Vanessa não chegou a ver a cena que revoltou ainda mais os cariocas: o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, esbanjando sorrisos com o presidente da SuperVia, Carlos José Cunha, nos trilhos vazios. Riam de quê?

Carlos José Cunha não mexe um músculo facial quando fala sobre descarrilamentos e problemas técnicos. Chegarão novos trens, estamos gastando não sei quantos bilhões, são investimentos "de longa maturação". A multa, quando é aplicada, nem faz cócegas. O secretário Júlio Lopes sai pela tangente: "Décadas de abandono". O Rio foi abandonado? Foi. Mas não dá para tratar a multidão como gado.

Muitos trens em decomposição. Sem ar-condicionado. Atrasos constantes. Péssimo sistema de som. Num acidente grave, passageiros ficam parados 40 minutos dentro do trem no calor. Gente passa mal. Jovens incitam ao quebra-quebra. Multidão é obrigada a descer. Alto-falante só diz: "A SuperVia agradece pela preferência".

Acidentes urbanos acontecem no mundo todo. O problema, tanto no Rio quanto em outras cidades brasileiras, é a falta de um plano imediato de contingência e a falta de informação. Não só nas grandes linhas. Lembra o trenzinho vermelho para o Corcovado? Parou na virada do ano. Durante duas horas, turistas brasileiros e estrangeiros ficaram na mata no escuro. Sem a menor ideia de quando o pesadelo acabaria. Era o reality "Brazil". Passaram para outro trenzinho usando a luz dos smartphones, porque nem lanterna havia. E o Cristo foi privatizado. Imagina nas Olimpíadas.

Quando há acidentes de carro nas avenidas do Rio – isto é, a cada minuto –, não há, como nas cidades civilizadas, painéis eletrônicos avisando para voltar ou pegar rotas alternativas. Só quem tem acesso ao Google dentro do carro consegue saber o que está bloqueando o trânsito. Para que serve a tecnologia do centro futurista da prefeitura? Imagina nas Olimpíadas.

A espuma espessa e a coloração marrom de nossos mares não fazem mal algum, diz o governo. São apenas algas, um fenômeno típico e sazonal do Rio de Janeiro! Saiu publicada a carinha das algas microscópicas que produzem a espuma nojenta quando o mar bate nas pedras. Biólogos desmentem a versão oficial. Segundo eles, a alga só vira espuma em blocos quando misturada à poluição humana. Na semana passada, vimos uma imagem assustadora: uma cachoeira de esgoto caindo do Morro do Vidigal direto no mar de São Conrado. Autoridades se apressaram a fechar o "cano rompido" e a prometer que o esgoto in natura seria lançado "lá fora". E de fora não vem para dentro?

Fico pensando nas modalidades esportivas nas águas – mar, lagos, lagoas, baía. Alguém viu as ilhas de cocô nas lagoas da Barra e do Recreio, em fotos aéreas? Para onde foram todos os bilhões e bilhões que iriam despoluir as lagoas e a Baía de Guanabara? Imagina nas Olimpíadas.

Alguém viu o teleférico parado no Morro da Providência? Ficou pronto em maio do ano passado. Custou R$ 75 milhões. Foi concebido para ligar a Cidade do Samba, a Central do Brasil e a Providência. Mas até hoje não saiu do lugar. As gôndolas estão lá há oito meses, como um monumento à incompetência. "É o museu do teleférico, só para a gente ver", disse Luciana Ribeiro, moradora da Providência, que sobe o morro a pé. O prefeito Eduardo Paes pessoalmente testou o bondinho em dezembro de 2012. A prefeitura esclareceu que está "finalizando o modelo de operação para atender à comunidade". Imagina nas Olimpíadas.

O alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, chegou ao Rio no dia da pane na SuperVia. "O que está acontecendo no Rio?", perguntou. Bach confia que, "se cada dia for utilizado adequadamente, tudo estará pronto" antes dos Jogos.

Nem é preciso imaginar o que vai acontecer na Copa. A gente já sabe. A criatividade anda solta. Aeroporto do Ceará poderá ter terminal de lona. O país do circo arrasa! Esqueça 2014, porque os prazos foram para o beleléu. Pense em 2016. Imagina nas Olimpíadas.

Menos Estado e mais mercado - RODRIGO CONSTANTINO

REVISTA VEJA


O preço das passagens aéreas no Brasil, impulsionado pela proximidade da Copa, disparou, e o governo ameaça as empresas do setor com uma possível abertura para a concorrência externa. Se o governo sabe que a entrada de novos competidores resultaria na queda das tarifas para os consumidores, por que não deixa que as empresas estrangeiras entrem logo de uma vez? O absurdo dessa situação salta aos olhos. Temos aqui um caso em que o próprio governo intervencionista reconhece que, deliberadamente, prejudica os consumidores brasileiros com o objetivo de proteger as empresas domésticas da competição externa.

A livre concorrência é o melhor aliado que os consumidores possuem. Quanto mais empresas tiverem de competir para atender à demanda, melhores terão de ser os serviços prestados, e menor terá de ser o preço cobrado. Poder trocar de fornecedor é a arma mais poderosa dos clientes.

Oligopólios, por outro lado, tendem a obter privilégios à custa de seus consumidores, e não precisam se preocupar tanto com a qualidade e o custo de seus produtos. Não se perca também de vista o fato de que oligopólios precisam da mão estatal para se manter. O protecionismo, portanto, é o melhor amigo das grandes empresas próximas do governo, e o maior inimigo dos consumidores e pagadores de impostos. Isso vale para diversos produtos. Recentemente, o vinho importado sofreu aumento de imposto para beneficiar produtores locais. Temos cotas para filmes nacionais. O BNDES destina bilhões de reais subsidiados para grandes grupos. Ser "amigo do rei" no Brasil vale mais que investir em eficiência.

A economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo. Por trás disso está a mentalidade obtusa segundo a qual tudo o que empresário quer é explorar o consumidor, que, coitado, só tem o governo para protegê-lo. Se for empresário estrangeiro, então, pior ainda: a xenofobia garante uma cota extra de aversão. As intenções não são relevantes. Decisivo mesmo é o mecanismo de incentivos em jogo. Depositar todas as esperanças nas ações que o governo pode tomar para proteger o consumidor é prejudicial ao próprio consumidor, mesmo assumindo a premissa, absurda de tão simplista, de que os empresários são egoístas e os governantes altruístas.

A experiência mostra que a livre concorrência é capaz de impor uma conduta de eficiência às empresas que, ao fim e ao cabo, beneficiará os consumidores. Caso tente escapar da disciplina imposta pelo mercado, o empresário terá a falência como destino. Por outro lado, mesmo o mais abnegado dos políticos, se quiser conservar seu mandato, precisará focar sempre as próximas eleições. Essa limitação encurta seu horizonte e o leva a tomar ou apoiar ações que, a despeito do interesse do consumidor, o ajudem a conseguir a reeleição, seu objetivo primordial.

No setor privado, a incompetência precisa ser punida e a eficiência recompensada. Sem adotar como norma a meritocracia, uma empresa não pode sobreviver no regime de mercado. Já no setor público, a norma é pôr nos outros a culpa pelos próprios erros e depois, na incapacidade de executar suas funções nas condições estabelecidas, pedir aumento de verba. O contraste é evidente. O setor privado precisa de competição para viver, enquanto o setor público vive para evitar a competição.

Pode-se argumentar que as empresas brasileiras precisam de proteção e subsídios para amenizar um pouco o "custo Brasil". É duro competir internacionalmente tendo sobre os ombros o peso de uma mão de obra pouco qualificada, leis trabalhistas obsoletas, infraestrutura capenga, carga tributária escandinava (para serviços africanos), um mercado de capitais subdesenvolvido e uma burocracia asfixiante. A maneira eficiente de combater esses males é atacá-los pela raiz. Ou seja, exigir reformas estruturais urgentes que equiparem o custo Brasil ao custo mundo. Não adianta contar com a boa vontade em conta-gotas e privilégios do governo. As benesses são apenas para os grandes grupos, enquanto o custo disso é pago pelas pequenas e médias empresas. Em suma, o Brasil precisa na economia do que talvez seja o único experimento ainda não tentado por aqui: um choque de capitalismo liberal. Precisa de mais concorrência e menos intervencionismo. De menos Estado e mais mercado.

A violência não é uma fantasia - LYA LUFT

REVISTA VEJA


A violência nasce conosco. Faz parte da nossa bagagem psíquica, do nosso DNA, assim como a capacidade de cuidar, de ser solidário e pacífico. Somos esse novelo de dons. O equilíbrio ou desequilíbrio depende do ambiente familiar, educação, exemplos, tendência pessoal, circunstâncias concretas, algumas escolhas individuais. Vivemos numa época violenta. Temos medo de sair às ruas, temos medo de sair à noite, temos medo de ficar em casa sem grades, alarmes e câmeras, ou bons e treinados porteiros. As notícias da imprensa nos dão medo em geral. Não são medos fantasiosos: são reais. E, se não tivermos nenhum medo, estaremos sendo perigosamente alienados. A segurança, como tantas coisas, parece ter fugido ao controle de instituições e autoridades.

Nestes dias começamos a ter medo também dentro dos shoppings, onde, aliás, há mais tempo aqui e ali vêm ocorrendo furtos, às vezes assaltos, raramente noticiados. O que preocupa são movimentos adolescentes que reivindicam acesso aos shoppings para seus grupos em geral organizados na internet.

É natural e bom que grupos de jovens queiram se distrair: passear pelos corredores, alegres e divertidos, ir ao cinema, tomar um lanche, fazer compras. Porém correr, saltar pelas escadas rolantes, eventualmente assumir posturas agressivas ou provocadoras e bradar palavras de ordem não é engraçado. Derrubar crianças ou outros jovens, empurrar velhos e grávidas, não medindo consequência de suas atitudes, não é brincadeira. Shoppings são lugares fechados, com grande número de pessoas, e portanto podem facilmente virar perigosos túneis de pânico.


Juventude não é sinônimo de grossura e violência (nem de inocência e ingenuidade). Neste caso, os que perturbam são jovens mal-educados (a meninada endinheirada também não é sempre refinada...) ou revoltados. Culpa deles? Possivelmente da sociedade, que por um lado lhes aponta algumas vantagens materiais, por outro não lhes oferece boas escolas, com muito esporte também em fins de semana, nem locais públicos de prática esportiva com qualidade (esportistas famosas como as tenistas irmãs Williams, meninas pobres, começaram em quadras públicas americanas).

Parece que ainda não se sabe como agir: alguns jornalistas ou psicólogos e antropólogos de plantão, e gente de direitos humanos às vezes tão úteis, acham interessante e natural o novo fenômeno, recorrendo ao jargão tão gasto de que "as elites" se assustam por nada, ou "as elites não querem que os pobres se divirtam", e "os adultos não entendem a juventude". Pior: falam em preconceito racial ou social, palavrório vazio e inadequado, que instiga rancores. As elites, meus caros, não estão nos nossos shoppings; estão em seus iates e aviões pelo mundo.

No momento em que as manifestações violentas de junho estão aparentemente calmas (pois queimam-se ônibus e crianças, há permanentes protestos menores pelo Brasil), achar irrestritamente bonito ou engraçado um movimento juvenil é irresponsabilidade. E é bom lembrar que, com shoppings fechando ainda que por algumas horas, os empregados perdem bonificações, talvez o emprego.

As autoridades (afinal, quem são os responsáveis?) às vezes parecem recear uma postura mais firme e o exercício de autoridade: como pode ocorrer na família e na escola, onde reinam confusão e liberalismo negativo, queremos ser bonzinhos, para desamparo dessa meninada.

Todos devem poder se divertir, conviver. Mas cuidado: exatamente por serem jovens, os jovens podem virar massa de manobra. Os aproveitadores de variadas ideologias, ou simplesmente os anarquistas, os violentos, estão sempre à espreita: já começam a se insinuai- entre esses adolescentes, ou a organizar grupos de apoio a eles — certamente sem serem por eles convidados.

Bandeiras, faixas, punhos erguidos e cerrados e palavras de ordem não são divertimento, e nada têm a ver com juventude. Não precisamos de mais violência por aqui. É bom abrir os olhos e descobrir o que fazer enquanto é tempo.

Euzinho - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 27/01

Tradição nada tem a ver com se pintar como aborígenes pra defender reservas indígenas


A modernidade é uma declaração de guerra à ideia de tradição. Mas nós, modernos, continuamos a não perceber isso, e o resultado é que suspiramos como bobos diante do que pensamos ser uma tradição, apesar de detestarmos qualquer sinal verdadeiro de tradição.

Procuramos tradições em workshops xamânicos, espaços budistas nas Perdizes, livros baratos sobre como viviam os druidas.

São muitas as definições de tradição. Não vou dar mais uma, mas sim elencar atitudes que estão muito mais próximas do que é uma tradição do que cursos de cabala nos Jardins. Nada tenho contra estudar culturas antigas, apenas julgo um equívoco confundir a ideia de tradição com modas de uma espiritualidade de consumo.

Não existe xamã na Vila Madalena. A cabala não vai salvar meu casamento. Meditação não fará de mim uma pessoa melhor no trabalho. Imitar a alimentação de monges tibetanos não aliviará minha inveja. Frequentar cachoeiras indígenas não fará de mim uma pessoa menos consumista. Tatuar palavras védicas não me impedirá de fazer qualquer negócio pra viver mais. Visitar templos no Vietnã não fará de mim alguém menos dependente das redes sociais. Desejar isso fará de mim apenas ridículo.

Uma tradição, pra começo de conversa, nada tem a ver com "escolha". Não se escolhe uma tradição. Neste sentido, muitos rabinos têm razão em desconfiar de conversos ao judaísmo por opção. Uma tradição funciona sempre contra sua vontade, à revelia de sua consciência, submetendo-a ao imperativo que escapa à razão mais imediata. A única forma de tradição a que a maioria de nós ainda tem acesso é a língua materna.

Colocar os filhos pra dormir todos os dias é mais próximo do que é uma tradição do que estudar velhos símbolos indígenas ou brincar com eles em pousadas nas chapadas. Não poder sair à noite porque um dos filhos tem febre é tradição. Velá-lo durante a noite é tradição. Morrer de medo durante esta noite é tradição. Nada menos tradicional do que uma mulher sem filhos. Ela até pode aprender capoeira, mas será apenas iludida, se sua intenção for experimentar a tradição afro.

Nada tenho contra mulheres não terem filhos, digo apenas, de forma modesta, o que é uma tradição.

Homens que sustentam sua mulher e filhos são tradicionais, mesmo em tempos como os nossos em que todo mundo mente sobre isso. Levar seus velhos ao hospital, enterrá-los, em agonia ou com absoluta indiferença, é tradição. Andar pela casa à noite pra ver se tem algum ladrão, enquanto sua mulher e filhos ficam protegidos no quarto, é tradição. Ser obrigado a ser corajoso é uma tradição, maldita, mas é.

Pular sete ondas numa Copacabana lotada nada tem de tradicional, é apenas chato. Tradição é ir pra guerra se não sua mulher achará você covarde. Lavar louça, fazer o jantar, lavar banheiros, morrer de medo diante do médico. Falar disso pra quem vive uma situação semelhante a você. Ter que passar nas provas na escola. Ter que ser melhor do que os colegas. Sangrar todo mês.

Tradição é pagar contas, enfrentar finais de semana vazios e não desistir. É sonhar com um futuro que nunca chega. Engravidar a namorada. Ter ciúmes. Odiar Deus porque somos mortais. Ter inveja da amiga mais bonita, do amigo mais forte e inteligente. É cuidar dos netos. É educar os mais jovens e não deixar que eles acreditem nas bobagens que inventam.

Tradição funciona como hábitos que se impõem com a força de um vulcão, de um terremoto, de um tsunami, de uma febre amarela. Nada tem a ver com se pintar como aborígenes pra defender reservas indígenas ou abraçar árvores.

Evolução espiritual é um dos top em quem quer "adquirir" uma tradição. Mas esta nada tem a ver com "buscar" uma evolução espiritual como forma de fugir de filhos que têm febre ou compromissos afetivos. A evolução espiritual verdadeira é algo que nos acomete como uma disciplina aterrorizante.

Teste definitivo: você busca evolução espiritual pra aperfeiçoar seu "euzinho"? Lamento dizer que qualquer evolução espiritual (se existir) começa com você esquecer que seu euzinho existe.

Disco ocupado - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 27/01

RIO DE JANEIRO - Na próxima vez que você esquecer o nome do seu neto, não tiver certeza se já tomou banho ou não se lembrar por que saiu de casa com um envelope endereçado e fechado contendo uma carta, não se desespere. Pode não ser --ainda-- a chegada do velho Al (Al Zheimer, conhece?) ou de alguma outra forma de demência senil. Estudos recentes de cientistas alemães indicam o contrário: quem mais esquece é o homem que sabe demais.

Segundo eles, o cérebro do idoso, se não reage de pronto a certas solicitações, não é porque esteja com as porcas e arruelas enferrujadas ou sendo apagado aos poucos como um quadro-negro. É porque levou décadas armazenando informações. E, por ele conter gigantescos blocos de informações, mais complexa e lenta será a busca entre elas de informações novas. É como o disco rígido do computador que, por estar "cheio", demora mais para processar os dados.

Essa não é uma imagem, mas um diagnóstico. Os alemães simularam em computador o desempenho de bancos de dados maiores e menores --esses últimos, equivalentes ao cérebro de um jovem adulto-- e constataram que a diferença não estava no desgaste do material, aliás inexistente, e sim na carga de dados.

Gostei dessa descoberta, mas eu próprio já havia chegado a ela sem precisar de simulações. Há tempos venho percebendo que minha lentidão para gravar certas informações se dá porque o espaço na cabeça está ocupado com detalhes da trama de romances como "Scaramouche", "O Pimpinela Escarlate" e "Elzira, a Morta-Virgem", gibis de Mandrake, Dick Tracy e Brucutu, cenas de beijo de filmes de Marisa Allasio, frases do Millôr, tratados de fenomenologia de Husserl e letras de marchinhas de Carnaval como "Aurora", "Saçaricando" e "Tem Nego Bebo Aí".

Não que as ditas informações novas merecessem ocupar o lugar dessas maravilhas.

Mortos de tédio - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 27/01

A té o cachorro do meu anfitrião deu um basta e me puxou de volta para dentro da casa. Sua atividade favorita do dia, a caminhada matinal que termina com a refeição, durou 5 minutos, a ventania jogando neve nos nossos olhos fechados. E olha que ele não leu o termômetro digital do canal do tempo marcando -15C. O cachorro, privado das corridas atrás da bola, me olha como se perguntasse o que você planejou para o meu domingo? "He's bored," (Está entediado), vem o diagnóstico do dono.

Pergunto ao meu anfitrião porque não fica mais tempo na casa. Argumento que a neve de Manhattan já adquiriu aquela cor cinza lama, com tons de amarelo do corrosivo sal químico que os edifícios jogam em quantidade absurda, para evitar processos por escorregões, e queima as patas dos bichos. "Se eu ficar aqui sozinho vai ser um tédio," ele responde, contemplando blasé a vista espetacular do inverno no campo. Lareira, excelente biblioteca e uma geladeira recheada não seguram um escritor neste paraíso.

Chegam os e-mails de domingo, o equivalente a espreguiçar com palavras, e me comunicam que a sensação térmica de 45º C no Rio vai prender todo mundo em casa. "Que tédio," reclamam.

Estamos mais vulneráveis ao tédio hoje? A fratura da atenção entre múltiplos gadgets eletrônicos, a expectativa de entretenimento externo constante, tudo isso nos tornou incapazes de resistir a breves momentos de enfado?

Não necessariamente, afirma Peter Toohey, um historiador especializado em literatura greco-romana da Universidade de Calgary, no Canadá. Você compraria um livro com a palavra tédio na capa? Pois Toohey escreveu um tratado sobre o tédio que pode ser lido sem o menor risco de sofrer do mal do título, um mal que o autor garante, em doses curtas vem para o bem. O livro de Toohey, Boredom, a Lively History (Tédio, uma História Animada) argumenta que, ao contrário da noção de que o tédio é um mal do Iluminismo e nasceu junto com o lazer, esta sensação é tão antiga quanto o homem urbano. A palavra 'boredom' só aparece na língua inglesa no século 19 e tem parentesco com o 'taedium' em latim, que vem de 'taedere', cansar.

Em 1854, uma escavação na Itália revelou uma inscrição em latim: "Para Tanonius Marcellinus", dizia, "porque ele resgatou a população do tédio interminável." Não se sabe quem foi Marcellinus, o eminente cidadão de Beneventum, mas a ideia de uma cidade inteira descontente a ponto de homenagear quem a livra do tédio está registrada.

Toohey trata dos diferentes tipos de tédio descritos nas últimas décadas, o simples, o crônico, que pode ser um sintoma da depressão, e o existencial, como o de A Nausea de Jean-Paul Sartre. Ele acha que, por falta de melhor conhecimento, colocamos tudo no mesmo saco da palavra tédio. O tédio crônico, por exemplo, vem de uma deficiência de dopamina, um neurotransmissor que tem papel importante na nossa motivação.

O autor explora o tédio na literatura e escreve que ninguém menciona tanto o assunto quando Chekhov, com seus personagens mortos de tédio nas vastas propriedades no campo. O personagem mais associado a tédio na literatura russa é o Oblómov, de Ivan Gontcharov, que decide não sair mais da cama quando a Rússia está para abolir a servidão. Mas há quem argumente que Oblómov é mais um niilista decadente do que um enfadado.

E por que Peter Toohey considera o tédio, em doses curtas, um importante aliado? Se quando sentimos um gosto esquisito não ingerimos um alimento estragado para não adoecer, ele acredita que o tédio é um sistema de alerta para uma situação psicológica, antes que ela se deteriore. Se você chega a uma festa e dá de cara com um conhecido que não para de falar, vai tentar ficar longe dele. Da mesma forma, vai tentar se defender de outras situações em que a monotonia ou a repetição traga enorme desprazer. A rotina confinada e previsível é a receita para o tédio. Depois de 6 dias presos em casa por causa de temperaturas extremas, a luz vermelha do enfado acende e nos faz recorrer a atividades com maior gasto de energia, além da leitura e de assistir à TV.

Peter Toohey não acredita que a nossa expectativa de engajamento externo constante tenha alterado fundamentalmente a sensação de tédio. O tédio existencial, como o descrito por Sartre, é mais fruto de um contexto cultural. Mas o 'bom' tédio que o autor defende continua conosco, tanto quanto outras emoções extremas e mais examinadas, como o ódio e o amor.

Mas acredito, sim, que temos mais medo do tédio comum. Quando vejo num restaurante um casal colocar o guardanapo no colo com a mesma naturalidade que coloca um tablet na mão do filho pequeno penso: ao proteger a paz da sua refeição, estão ensinando a ele que não é possível sobreviver a uma hora sem estímulo externo. Imaginem um cenário em que as crianças só pudessem se distrair com brinquedos disponíveis há 150 anos. Seria tema para um filme. De terror.

Pena de morte na Flórida: mitos e lições - GLÁUCIO ARY DILLON SOARES

CORREIO BRAZILIENSE - 27/01
Este ano, a Flórida completa 38 anos desde que a pena de morte foi relegalizada. Há mitos a respeito. Muitos acreditam que o número de execuções é da ordem de centenas ou milhares. Porém, o total, até 2012, inclusive, é 74: dois por ano. Há muito mais condenados do que executados. Há muitos apelos e recursos e o tempo médio entre a condenação e a execução é de mais de 13 anos. Muitos conseguem reduzir a pena para prisão perpétua. A grande maioria dos condenados não é executada, mas morre na cadeia.
Há perto de mil homicídios por ano. De 1992 a 2012, houve 21.384 assassinatos e 47 execuções. Uma para cada 455 homicídios, disparidade usada politicamente por grupos favoráveis e contrários à pena de morte. Um postula que o número de executados deveria ser muito maior - o sistema concede recursos em demasia, e o prazo entre condenação e execução deveria ser menor. O argumento central é baseado na Doutrina da Retribuição: as vítimas estão mortas; os algozes, vivos.

Os contrários à pena de morte não compartem um argumento central: uns acreditam que o Estado não tem o direito de tirar a vida de ninguém; outros são consistentemente favoráveis à vida. É a posição da Igreja Católica. O que acontece em cada caso depende das pressões de grupos organizados: a Justiça penal também responde a eles. Nos EUA, familiares e amigos se organizam para defender seus interesses, que incluem punições severas aos criminosos; em alguns estados, têm direito a expressar opinião nas audiências para discutir a parole, a liberdade condicional.

No Brasil, dois grupos menos organizados, mas influentes, protegem os criminosos: um argumenta com as condições abjetas e a violência que imperam nas prisões, e outro com a constatação de que a polícia é arbitrária e violenta e a Justiça parte das informações fornecidas por ela, o que significa que muitos foram presos injustamente. Em versão radical, considera a Justiça outro nome para a vingança. Alguns chegam a propor o fim das prisões.

Um forte argumento contrário à pena de morte deriva dos erros policiais e judiciais. A pena de morte impede a correção de qualquer erro. Quando o exame de DNA foi admitido, descobriram que muitos foram condenados erroneamente por diversos crimes - vários estavam no death row. A justificação do receio de erros irreparáveis se baseia na existência de países em que tanto a polícia quanto o Judiciário são mal preparados e/ou corruptos.

É mais que um argumento solto: o Innocence Project reavaliou centenas de prisões e condenações usando o DNA. É associado à Benjamin N. Cardozo School of Law da Yeshiva University. Demonstra muitos erros das condenações, sobretudo nas baseadas em testemunhos oculares, responsáveis por 75% das condenações erradas. Infelizmente, no Brasil ainda se ensina que a prova testemunhal é a "rainha" das provas. Várias décadas de pesquisas demonstraram que não é confiável. Há fraudes e há erros.

Muitos erros: desde 1989, a inocência de 312 condenados foi provada pelo DNA. Não é fenômeno restrito a estados atrasados: foram demonstrados erros em 36 estados - 18 haviam sido condenados à morte. Outros 16 foram condenados por crimes que poderiam ser punidos com a morte, mas receberam penas menores. A média do tempo passado erroneamente na prisão é de 13,5 anos.

Há, entre os defensores da pena de morte, uma corrente pragmática que a defende somente em casos comprovados de crimes múltiplos e por impedir que outros crimes violentos e graves, particularmente homicídios, sejam cometidos: presos (presos, mesmo) não matam fora da prisão. Esse caminho recebeu, nos Estados Unidos, um nome particularmente infeliz, a "incapacitation". A outra se baseia na Doutrina da Dissuasão, segundo a qual a impunidade estimula o crime e as penas rigorosas o desencoraja. Criminosos potenciais não cometeriam crimes, devido ao receio das punições duras. As pesquisas apoiam essa hipótese quando a polícia é eficiente e legítima.

A pena de morte seria poderoso fator de dissuasão. Empiricamente, essa relação é discutida e contestada, mesmo onde foi adotada. Daí a necessidade de estudá-la, sem que isso signifique acreditar que o que vale para outros lugares vale no Brasil.

Um argumento estatístico favorável à pena de morte afirma que condenados não deveriam ser assassinos comuns, mas os que cometeram os piores crimes, assassinatos múltiplos, contra vítimas indefesas, com uso de tortura ou outros sofrimentos etc. Muitos seguiriam carreiras criminosas. Soltos, voltariam a assaltar, roubar e matar.

Efetivamente, entre os executados na Flórida, há dos piores criminosos. No lugar mais alto, está Ted Bundy, assassino de dezenas de mulheres, que teria confessado a um companheiro de prisão que matou mais de 800. Danny Rowlings foi executado pelo assassinato de sete pessoas em Gainesville. Não só as esfaqueou e estripou, mas deixou as vítimas (ou partes delas) para serem encontradas em posições grotescas.

Há pressão sobre legisladores nos países que adotam um sistema de Civil Law, codificado, para endurecer a pena para certos tipos de crimes. No Brasil, foi criada a categoria de crime hediondo, e a atividade legislativa tem sido apenas a de aumentar os Crimes hediondos, sem princípio organizador. Nos sistemas de Common Law, direito comum, a pressão incide sobre o Judiciário, para que crie uma jurisprudence mais dura. Confuso? É para estar. Nossos legisladores devem ser cautelosos, porque não há política sem erros, e o preço dos erros na pena capital é muito alto. 

Fácil, mas nem tanto - BENITO PARET

O GLOBO - 27/01

Tecnologia de empresas é desafio para novo sistema


Com a implantação, prevista para culminar este ano, do Sistema Público de Escrituração Fiscal, o chamado “Sped Social”, o Estado dará um grande salto rumo à racionalização burocrática, mas existem ameaças à frente. Visando a simplificar e facilitar a vida das empresas na tarefa de prestar informações obrigatórias nos âmbitos fiscal e tributário, o novo sistema, criado em 2007, foi um passo importante no processo de transposição da burocracia estatal da Era Analógica para a Era Digital.

A partir de julho, as empresas que declaram o Imposto de Renda pelo lucro real passarão a enviar eletronicamente, por um só canal, de forma unificada e padronizada, todas as informações sociais que hoje são obrigadas a prestar, isoladamente, para quatro órgãos federais, em formatos e periodicidades diferentes: Ministério do Trabalho, Caixa Econômica Federal, INSS e Receita.

O conjunto de informações sociais obrigatórias é tão completo que, possivelmente, não há similar no mundo. Vai desde a folha de pagamentos a admissões, demissões, horas extras, diferenças salariais obtidas nos dissídios coletivos, acidentes de trabalho, informações ligadas à saúde do trabalhador, afastamentos do trabalho, controle das atividades desempenhadas, tributos retidos, informações para recolhimento do FGTS e INSS, serviços prestados por autônomos e demais prestadores de serviços, entre outras coisas.

Além de facilitar a vida das empresas, o “Sped social” permitirá, acima de tudo, um acompanhamento muito mais fiel do mundo do trabalho pela sociedade. O volume e a diversidade de dados qualificados que ele disponibilizará numa única plataforma serão ferramenta valiosa para o planejamento e estabelecimento de políticas públicas. Darão maior consistência à formulação de programas de desenvolvimento voltados, por exemplo, para a oferta de empregos, e até mesmo, entre outras possibilidades, melhor planejamento educacional, pela maior transparência das demandas profissionais.

Esse novo passo no âmbito do Sistema Público de Escrituração Digital, portanto, é um avanço inquestionável. O problema está em como conduzir sua implantação sem cometer injustiças ou exigir o impossível. Não se pode esquecer que este é um país de enormes diversidades regionais em termos de infraestrutura de comunicação e cultura tecnológica.

A partir de dezembro, as pequenas e médias empresas que declaram o IR pelo lucro presumido ou pelo Simples Nacional já serão obrigadas a prestar essas informações pelo novo formato. Isso requer uma estrutura tecnológica que vai do software à conexão com a internet, o que em muitas regiões será praticamente impossível ou, no mínimo, de difícil execução. Demandará, também, tempo suficiente de aprendizagem para as pequenas empresas e escritórios de contabilidade de áreas menos favorecidas.

Uma grande parcela desses pequenos escritórios de contabilidade e empresas enfrentará problemas de infraestrutura cuja solução não dependerá apenas deles. Essa realidade exigirá, portanto, boa dose de flexibilidade e compreensão da parte dos órgãos fiscalizadores para eventuais erros ou atrasos no cumprimento das obrigações, até que todas as pontas do sistema estejam ajustadas.

Que Copa, hein! - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 27/01

Veja só como o mercado imobiliário está superaquecido por causa da Copa. Um grupo de estrangeiros vai pagar 250 mil dólares, mais de meio milhão de reais, pelo aluguel de uma chácara no Alto da Boa Vista, no Rio, durante o período dos jogos.

Segue...
E um apartamento de quarto e sala, com 130 metros quadrados, no Leblon foi alugado por R$ 50 mil nos dias de Copa.

Diário de Justiça
A 3ª Turma do TRT do Rio condenou a Petrobras a pagar R$10 milhões por danos morais coletivos. A grana vai para o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). A estatal é acusada de ter tido condutas antissindicais e violado o direito de greve de funcionários da Reduc, em Caxias, RJ, em março de 2009.

Cadê a rampa?
Carmem Mayrink Veiga, que já foi uma das mulheres mais chiques do high-society, foi semana passada ao Largo do Machado e ao Catete comprar uma geladeira para seu apê da Avenida Rui Barbosa. Depois de rodar, rodar, desistiu: nenhuma loja tinha acesso para cadeirantes como ela, que sofre de uma doença degenerativa.

Caldinho de feijão
O Village Mall, shopping muito chique na Barra, cheio de estrangeirismos como os outros, sucumbiu à feijoada e ao samba. Nos sábados de fevereiro, além de seus restaurantes servirem versões especiais do prato, carrinhos circularão pelos corredores oferecendo caldinho de feijão, “de grátis”, a quem estiver por ali. E o samba será a trilha sonora do shopping.

Tráfico humano
Autoridades russas libertaram cerca de cem sérvios que trabalhavam ilegalmente em obras das instalações dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi. Reportagem da “Radio Free Europe” conta que estrangeiros vêm sendo recrutados em seus países com a promessa de bons salários. Mas quando chegam têm os passaportes confiscados, trabalham mais de 10 horas por dia e, às vezes, sequer recebem.

No mais...
Imagina na Copa... de 2018, lá na Rússia!

Outra Helena
Cláudia Ohana não será mais a Helena da montagem teatral de “Se eu fosse você”, com supervisão de Daniel Filho. Alegou estar difícil conciliar os ensaios para a peça, que estreia em março, no Rio, e as gravações da novela “Joia rara”. Vai ser substituída por Claudia Netto, famosa por seus trabalhos em musicais.

Garoto-propaganda
Rei Pelé vem ao Rio inaugurar a loja da Hublot, grife suíça de relógios de luxo, no Fashion Mall, em São Conrado. Será dia 5, com portas abertas para o público. De noite, tem festa na piscina do Fasano. Mas, aí, só para convidados.

Memória da resistência
Esta foto de Ziraldo com um cartaz mostra um gesto desesperado do cartunista na Câmara dos Deputados durante a ditadura. O esforço era para denunciar a censura aos jornais e às obras de arte. Ela estará na exposição “Resistir é preciso”, que o Instituto Vladimir Herzog organizou e chega ao CCBB do Rio em fevereiro.

Herzog...
A mostra passeia por capas de jornais e revistas proibidos, além de documentos como o atestado de óbito de Herzog, morto sob tortura em 1975.

Calma, gente!
Ontem, na praia lotada, por volta de 14h, no Arpoador, cinco pessoas saíram gritando da água. Muita gente achou que era arrastão, e houve correria, com banhistas fugindo sem pagar aos donos das barracas. Quando a polícia apareceu, descobriu, veja só, que o motivo da gritaria inicial era uma arraia que tinha aparecido no mar.

Passa a babá pra cá!
Duas dondocas da Zona Sul do Rio estão em pé de guerra. É que uma conseguiu, numa rede social que indica babás, contratar uma profissional. A outra não se conformou. Ofereceu salário de... R$ 5 mil. A babá topou. Agora, a ex-patroa acusa a mulher de “roubar sua babá” e, claro, inflacionar o mercado.

Cena carioca
Na fila de idosos e gestantes do supermercado Extra, no Largo do Machado, no Rio, umas tias mostraram, quarta passada, irritação após 45 minutos de espera. E uma delas, gaiata, sugeriu: — Vamos entrar na internet e marcar um rolezinho aqui? Há testemunhas.

Ponto Final
Como dólar desembestado na Argentina finalmente surgiu uma boa notícia para Cristina Kirchner. Um leitor, bom samaritano, enxerga semelhança física entre a presidente argentina (à esquerda) e a nossa MC Anitta, aquela que deixa os homens babando. Será?

PREÇOS ABUSIVOS - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 27/01

Empresas estão desistindo de trazer convidados para a Copa do Mundo em razão dos preços dos pacotes corporativos. Um grande grupo brasileiro, por exemplo, recuou após receber orçamento de R$ 777.200 para hospedar 18 estrangeiros durante seis dias no Rio (R$ 506.016), no período da final, e outros três na semifinal, em Belo Horizonte (R$ 206.184).

ABUSIVO 2
O valor no Rio chega a R$ 28.112 por pessoa. Inclui hospedagem em hotel quatro estrelas no centro, traslado para o estádio e "esquenta" antes das partidas. Ingressos à parte. A cotação é da agência Planeta Brasil, do Grupo Águia, que detém os direitos de venda dos camarotes corporativos para o Mundial. A agência informa que os pacotes estão esgotados.

ABUSIVO 3
O presidente da Embratur, Flávio Dino, diz que é hora de o Procon e o Ministério Público agirem com base no Código de Defesa do Consumidor para coibir "valores abusivos". "O momento do diálogo se encerrou", diz ele, que se reuniu com representantes do setor de hotelaria em dezembro. Segundo Dino, a reputação de destino caro terá repercussão negativa a longo prazo para o turismo no Brasil.

ABUSIVO 4
Para Enrico Fermi, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, os casos de desistência em função de preço são pontuais. Ele diz que "as tarifas estão dentro dos parâmetros aceitáveis para um evento desse porte". "É errada essa impressão de que há uma alta de preços", afirma. "A Embratur não deveria se intrometer no mercado. Nós não somos concessão."

MINA
A top Cara Delevingne faz pose ao lado dos integrantes do grupo de funk Os Leleks na favela Santa Marta, no Rio; a inglesa aproveitou a sessão de fotos para a "Vogue Brasil" para aprender coreografias de sucesso no morro

O PAI DA CRIANÇA
A exemplo de José Serra (PSDB), que deixou como marca de sua gestão no Ministério da Saúde os medicamentos genéricos, Alexandre Padilha quer sair do cargo para se candidatar ao governo de SP com o trunfo dos remédios similares. O ministro fez questão de participar do lançamento da consulta pública sobre a nova categoria de produtos a ser criada e que também custarão menos que os de referência. Na cerimônia, o petista não deu crédito ao tucano. Disse que os genéricos são do governo Itamar Franco.

PELO RALO
O Brasil perde 1,38% do PIB com a corrupção, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria). A entidade, que apresentou sete propostas para combater o problema, espera que elas sejam incluídas na lei que pune empresas envolvidas em prejuízos à administração pública. A regulamentação sairá nos próximos dias.

PARA TRÁS
Usuários esqueceram 9.905 objetos --entre documentos, cadeiras de rodas, troféus e até pranchas-- em Congonhas no ano passado, 12% a mais que em 2012. Os itens foram achados nas salas de embarque e desembarque, no check-in e nos banheiros do aeroporto, por onde passaram 17 milhões de pessoas. Cerca de 40% foram devolvidos.

RIO, MON AMOUR
Vanessa Paradis está no Brasil para filmar "Rio, Eu te Amo". A atriz e cantora francesa é protagonista de uma das histórias do próximo filme da franquia, que já retratou Paris e Nova York. A ex-mulher de Johnny Depp filma até quinta na ilha de Paquetá o curta dirigido pelo ator John Turturro, de "Transformers".

PEIXE GRANDE
O barco de Neymar, que não faz parte da Boat Xperience, tem chamado a atenção dos visitantes da feira. Atracado no Guarujá, na mesma marina da exposição, o iate de 38 pés, avaliado em R$ 12 milhões, virou ponto de parada para fotos de curiosos.

TANTAS LUAS
O produtor e diretor Roberto d'Avila, da Moonshot, recebeu convidados para sua festa de 50 anos, ao lado da mulher, Suraia Lenktaitis, no espaço Oca Tupiniquim, na Vila Madalena. Selton Mello e Adriana Lessa compareceram ao evento, que também contou com a presença do casal Kiko Bertholini e Clarissa Kiste e do ator e cenógrafo Giulio Lopes.

ENCONTRO DE COMADRES
O ator Blota Filho está em cartaz com o espetáculo "Chá das Cinco", que também tem no elenco nomes como Eduardo Martini e Tiago Pessoa. Fernando Scherer, o Xuxa, e sua mulher, Sheila Mello, assistiram à peça, no Teatro Augusta, na Consolação.

CURTO-CIRCUITO
Lala Rudge e Caroline Celico se encontram hoje no Dubai Shopping Festival, onde farão compras acompanhadas de duas "it girls" dos Emirados Árabes.

A SP Escola de Teatro promove a partir de hoje o SP TransVisão II, série de eventos sobre diversidade, na praça Roosevelt.

A Cartier recebe até o dia 28/2, pelo site, inscrições para seu prêmio de empreendedorismo feminino.

Laços de família - BERNARDO MELLO FRANCO - PAINEL

FOLHA DE SP - 27/01

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), repassou R$ 116.420 de sua cota parlamentar a um sócio do sogro e do cunhado. A verba pública foi para a Assaf e Sousa Comunicação, que gravou seus pronunciamentos em cadeia nacional de TV em outubro e dezembro de 2013. A produtora pertence a Adriano de Sousa e foi contratada sem licitação. Sousa é sócio, em outra empresa, de Cassiano Arruda e Arturo Arruda --pai e irmão da mulher de Alves.

Ah, bom! A assessoria de Alves diz que ele usou sua cota individual, e não a verba da presidência da Câmara, para não ter que fazer licitação. Sua equipe afirma ainda que Sousa foi escolhido porque o deputado já o conhecia e confiava em seu trabalho.

Confie em mim Do principal colunista do "Financial Times", Martin Wolf, sobre a passagem de Dilma Rousseff por Davos: "Ela não me convenceu de que o Brasil vai retomar o crescimento forte, mas me convenceu de que é uma pessoa competente".

Prevenção O futuro ministro da Saúde, Arthur Chioro, avisou a aliados que a empresa de consultoria que passou para o nome da mulher vai ficar inativa. Ele só não quer fechar a firma de vez porque pensa em reativá-la quando deixar o governo.

Ombro amigo O ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh tem sido um dos principais conselheiros de João Paulo Cunha (PT-SP) nos dias que antecedem a prisão do ex-presidente da Câmara.

Non grata Parte dos petistas se afastou de Greenhalgh em 2007, quando ele prestou consultoria para o banco Opportunity, de Daniel Dantas.

Grudados Aécio Neves (PSDB-MG) e Paulinho da Força (SDD-SP) estarão juntos hoje em Santa Catarina. O Solidariedade vai anunciar apoio à candidatura do senador Paulo Bauer (PSDB-SC) ao governo do Estado.

Marcha lenta A Procuradoria Eleitoral em São Paulo ainda não ajuizou nenhuma ação por campanha antecipada contra os pré-candidatos a governador. No Rio, o Ministério Público já fez ao menos 22 denúncias contra três dos principais pré-candidatos.

Canja de galinha O procurador paulista André de Carvalho Ramos acha que os partidos estão "mais cautelosos" este ano. Resultado das punições aplicadas pela Justiça Eleitoral nas eleições de 2012, ele afirma.

Pensou bem O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse em agosto ao procurador-geral de Justiça, Marfan Vieira, que não viajaria mais de helicóptero oficial com a família. "A decisão envolve um risco que decidi assumir", escreveu.

Pensou melhor Dois meses depois de enviar o ofício, Cabral começou a usar o helicóptero novamente. No último dia 5, até a babá de seus filhos voltou a ser vista a bordo da aeronave do Estado.

Filme queimado O site "Arquivos da Ditadura", do jornalista Elio Gaspari, vai mostrar hoje como o SNI (Serviço Nacional de Informações) tentou interferir na escolha do presidente da Embrafilme, a estatal que financiava o cinema nacional.

Lista negra Os arapongas disseram ao presidente João Figueiredo que oito cineastas "comprometidos com as esquerdas" eram cotados para a vaga do hoje ministro Celso Amorim (Defesa), derrubado em 1982.

Os vetados A relação incluía Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues e Arnaldo Jabor. O general respondeu que o aviso não era necessário, e não nomeou ninguém da lista.

tiroteio
"Dilma e sua comitiva fizeram turismo com dinheiro público. Estão na contramão da austeridade exigida em momentos difíceis."

DO SENADOR ÁLVARO DIAS (PSDB-PR), sobre a escala da presidente Dilma Rousseff em Lisboa, após participar do Fórum Econômico Mundial, na Suíça.

contraponto


Sacrifícios de campanha
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) passou exatos 44 minutos posando para fotos na saída do aniversário do deputado Paulinho da Força (SDD-SP), no sábado, em São Paulo. A cada passo, um grupo de convidados se aproximava e pedia um retrato com o presidenciável tucano. Um sindicalista percebeu que o assédio das mulheres sobre o mineiro era grande e brincou:

--Deixa ele em paz! Acho que ele não gosta de mulher!

--Só um pouquinho... --respondeu Aécio, rindo.

Depois de uma pausa, o senador completou:

--Na verdade, só um pouquinho por dia.