FOLHA DE SP - 20/01
SÃO PAULO - A estratégia de governos para lidar com o vício de seus cidadãos sempre se dividiu em duas: largar mão ou sentar a mão. Deixar drogados ou alcoólatras entregues ao problema, ou usar de força policial para tentar resolver a situação na marra.
Haveria uma terceira via? Em São Paulo, na semana passada, a prefeitura começou a pagar R$ 15 diários a usuários de crack para que varram ruas. Em Amsterdã, na Holanda, a administração faz algo parecido com dependentes de álcool. Só que lá é mais direta: paga em latas de cerveja para que recolham lixo de locais públicos.
"Vim pela cerveja. Se não houvesse cerveja, por que eu viria?", disse, com crua franqueza, um dos participantes do programa holandês à rede britânica BBC.
Pode parecer chocante usar dinheiro público para incentivar o vício, mas a lógica da iniciativa é assumida: comprar (a palavra é essa) a atenção de pessoas que só se relacionavam com o Estado para fugir da polícia. Atraí-los usando suas próprias armas para, num segundo momento, dar a eles algum sentido de responsabilidade e tentar gradativamente reduzir, com acompanhamento especializado, a dependência.
Desde que o programa holandês foi implantado, há 12 meses, a policia percebeu uma queda no índice de roubos na região onde os alcoólatras-catadores atuam.
Em São Paulo, ainda é impossível ter um diagnóstico da ousada iniciativa. No primeiro dia, os novos garis terminaram o expediente como fazem milhões de trabalhadores mundo afora, acendendo um cigarrinho para relaxar. A diferença é que era de crack. Não que se esperasse algo diferente, num dos vícios mais escravizantes de que se tem notícia.
Mas os sinais desanimadores não deveriam deter a prefeitura. Se não esmorecer, o prefeito Fernando Haddad tem a chance de criar uma rara marca positiva numa gestão desesperada por mostrar algo de bom.
segunda-feira, janeiro 20, 2014
Nas ondas do Congresso - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 20/01
A política vem em ondas. Como um mar seria poético demais. Melhor comparar com uma rádio e sua programação repetitiva. O terceiro ano de governo é sempre o mais crítico na relação dos presidentes petistas com o Congresso. Foi assim em 2005 e 2009 para Lula. Repetiu-se com Dilma Rousseff em 2013. Os motivos vão além da coincidência. Desgaste, barganha e chantagem.
Dilma perdeu 16 votações na Câmara no ano passado. Foi o dobro das derrotas que ela sofreu em 2011 somadas às de 2012. Seu núcleo duro de apoio - aqueles parlamentares que votam ao menos 9 em cada 10 vezes segundo a orientação do governo - caiu de 306 deputados no primeiro ano de mandato para 123, quase todos petistas ou do PC do B, em 2013.
É notícia, mas não chega a ser novidade. No seu ano de estreia na Presidência, Lula teve 309 deputados federais ponta-firme. Dois anos depois, o grupo estava reduzido a menos de um terço: 91. No segundo mandato, mesmo o presidente tendo superado o desgaste do mensalão e estar surfando a onda do consumo de massa, o filme passou de novo: os 329 deputados do núcleo duro de apoio no primeiro ano viraram 197 no terceiro ano de governo.
A ciência política um dia explicará esse ciclo de altos e baixos previsíveis dos presidentes e suas bases de apoio no Congresso. Até lá, resta se conformar com o empirismo jornalístico.
O terceiro ano é crítico porque há o acúmulo das denúncias que se abatem sobre a maioria dos governos, sem contar o desgaste de três anos de relação franciscana entre Legislativo e Executivo. Mas é também o ano de criar dificuldades para vender facilidades no momento crucial para todos, o quarto ano, o ano da reeleição.
Às vésperas de barganhar todo o tempo de propaganda na TV e no rádio que puder conseguir, o presidente da vez dificilmente irá às últimas consequências em um confronto com os partidos que lhe dão sustentação no Congresso. Mesmo traído em uma votação ou outra, tende a ceder. E para garantir que isso ocorra, os aliados mostram as garras e lhe impõem derrotas no terceiro ano.
O PMDB é o mestre nesse jogo. Sua taxa de apoio ao presidente é sempre mais alta nos dois primeiros anos. Mas está longe de ser o único a praticar esse caxangá de votos, pondo no primeiro biênio, para tirar na sequência. PSB e PP, apesar de terem sido dos mais fiéis aos petistas, adotam a mesma tática.
Primeiro governo Lula: 89% dos votos do PMDB foram a favor do presidente nos dois primeiros anos, mas a taxa caiu para 74% no terceiro. Não foi por causa do mensalão? Sim, mas não só. Ou o fenômeno não teria se repetido no segundo mandato: os 92% de apoio nos dois anos inicias caíram para 88% no ano subsequente. Com Dilma, a queda voltou a ser grande: de 90% para 77%.
O PSB caiu de 96% de votos pró-Lula no biênio 2003/2004 para 84% em 2005. No mandato seguinte, caiu de 93% para 88%, entre 2007/2008 e 2009. E, já sob Dilma, passou de 92% em 2011/2012 para 77% em 2013. No PP, as quedas, nos mesmos períodos, foram de 83% para 78% com Lula-1, depois de 93% para 87% em Lula-2, e de 90% para 82% durante o governo Dilma. Parece um relógio.
De tão repetitivo, esse ciclo de toma lá, dá cá com tira-põe-deixa-ficar acaba fazendo o jogo político previsível. Se valer o retrospecto, o quarto ano de Dilma será melhor do que o terceiro. Dá até para entender: com os próprios mandatos em jogo, ninguém quer arriscar-se a esticar demais a corda e vê-la arrebentar bem no meio da campanha eleitoral.
Além disso, prevalece outra onda do Congresso: o último ano de mandato dos deputados é ainda menos produtivo do que os três primeiros. Com menos embates em plenário, diminui a oportunidade de impor uma derrota ao governo. Em 2006, houve um terço a menos de votações nominais do que na média dos anos anteriores. Em 2010 a redução foi de dois terços. Imagine com a Copa no Brasil.
A política vem em ondas. Como um mar seria poético demais. Melhor comparar com uma rádio e sua programação repetitiva. O terceiro ano de governo é sempre o mais crítico na relação dos presidentes petistas com o Congresso. Foi assim em 2005 e 2009 para Lula. Repetiu-se com Dilma Rousseff em 2013. Os motivos vão além da coincidência. Desgaste, barganha e chantagem.
Dilma perdeu 16 votações na Câmara no ano passado. Foi o dobro das derrotas que ela sofreu em 2011 somadas às de 2012. Seu núcleo duro de apoio - aqueles parlamentares que votam ao menos 9 em cada 10 vezes segundo a orientação do governo - caiu de 306 deputados no primeiro ano de mandato para 123, quase todos petistas ou do PC do B, em 2013.
É notícia, mas não chega a ser novidade. No seu ano de estreia na Presidência, Lula teve 309 deputados federais ponta-firme. Dois anos depois, o grupo estava reduzido a menos de um terço: 91. No segundo mandato, mesmo o presidente tendo superado o desgaste do mensalão e estar surfando a onda do consumo de massa, o filme passou de novo: os 329 deputados do núcleo duro de apoio no primeiro ano viraram 197 no terceiro ano de governo.
A ciência política um dia explicará esse ciclo de altos e baixos previsíveis dos presidentes e suas bases de apoio no Congresso. Até lá, resta se conformar com o empirismo jornalístico.
O terceiro ano é crítico porque há o acúmulo das denúncias que se abatem sobre a maioria dos governos, sem contar o desgaste de três anos de relação franciscana entre Legislativo e Executivo. Mas é também o ano de criar dificuldades para vender facilidades no momento crucial para todos, o quarto ano, o ano da reeleição.
Às vésperas de barganhar todo o tempo de propaganda na TV e no rádio que puder conseguir, o presidente da vez dificilmente irá às últimas consequências em um confronto com os partidos que lhe dão sustentação no Congresso. Mesmo traído em uma votação ou outra, tende a ceder. E para garantir que isso ocorra, os aliados mostram as garras e lhe impõem derrotas no terceiro ano.
O PMDB é o mestre nesse jogo. Sua taxa de apoio ao presidente é sempre mais alta nos dois primeiros anos. Mas está longe de ser o único a praticar esse caxangá de votos, pondo no primeiro biênio, para tirar na sequência. PSB e PP, apesar de terem sido dos mais fiéis aos petistas, adotam a mesma tática.
Primeiro governo Lula: 89% dos votos do PMDB foram a favor do presidente nos dois primeiros anos, mas a taxa caiu para 74% no terceiro. Não foi por causa do mensalão? Sim, mas não só. Ou o fenômeno não teria se repetido no segundo mandato: os 92% de apoio nos dois anos inicias caíram para 88% no ano subsequente. Com Dilma, a queda voltou a ser grande: de 90% para 77%.
O PSB caiu de 96% de votos pró-Lula no biênio 2003/2004 para 84% em 2005. No mandato seguinte, caiu de 93% para 88%, entre 2007/2008 e 2009. E, já sob Dilma, passou de 92% em 2011/2012 para 77% em 2013. No PP, as quedas, nos mesmos períodos, foram de 83% para 78% com Lula-1, depois de 93% para 87% em Lula-2, e de 90% para 82% durante o governo Dilma. Parece um relógio.
De tão repetitivo, esse ciclo de toma lá, dá cá com tira-põe-deixa-ficar acaba fazendo o jogo político previsível. Se valer o retrospecto, o quarto ano de Dilma será melhor do que o terceiro. Dá até para entender: com os próprios mandatos em jogo, ninguém quer arriscar-se a esticar demais a corda e vê-la arrebentar bem no meio da campanha eleitoral.
Além disso, prevalece outra onda do Congresso: o último ano de mandato dos deputados é ainda menos produtivo do que os três primeiros. Com menos embates em plenário, diminui a oportunidade de impor uma derrota ao governo. Em 2006, houve um terço a menos de votações nominais do que na média dos anos anteriores. Em 2010 a redução foi de dois terços. Imagine com a Copa no Brasil.
Uma aberração que resiste - LUIZ FELIPE LAMPREIA
O GLOBO - 20/01
Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crimes contra a humanidade
Fiquei chocado ao ler, no GLOBO, que a edição digital do livro-manifesto de Hitler, “Mein kampf” (“Minha luta”, em português), teve um aumento súbito nas principais livrarias digitais do mundo. Em especial, preocupou-me a informação de que uma pequena editora brasileira vendeu, para sua surpresa, 509 livros, de 1º a 9 de janeiro do ano corrente, ou seja, mais de um exemplar a cada 30 minutos. Além disso, para que não pareça apenas uma peculiaridade nossa, há registro de que o manifesto de Hitler figura com destaque nas listas de venda de e-books da Amazon nos Estados Unidos e na Inglaterra. Por que esta atração, pelo menos esta curiosidade?
Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crime contra a humanidade. “Mein kampf” não é um livro qualquer, mas um programa de uma política perversa que foi meticulosamente implementada. Para entender melhor este personagem funesto, pode-se ler uma boa biografia e há dezenas delas. Eu mesmo li um esplêndido livro de Ian Kershaw, um grande historiador inglês, que, em 900 paginas, esmiúça e procura entender a trajetória de Hitler. Mas “Mein kampf”, ao contrário, é um panfleto. Escrito em 1926, tornou-se o guia de ação para os nazistas, e ainda hoje influencia os neonazistas. Que, por incrível que pareça, ainda os há, até na Grécia, berço da civilização ocidental.
No entanto, no site Yahoo Resposta, à pergunta por que Hitler odiava tanto os judeus, a melhor resposta selecionada foi a seguinte: “Me pergunto se o destaque dos judeus em todas as áreas (científica, cultural, esportiva, financeira, etc.) não teria contribuído para odiar um povo que abalava a desejada superioridade ariana, preconizada por Hitler”. Não creio que seja a melhor explicação, pois o ódio nazista não se orientava apenas contra os judeus, ainda que fossem o alvo principal, mas também contra os ciganos, os homossexuais, os negros e outras minorias que certamente não podiam ser descritos como “ameaça à superioridade ariana”.
Não sou judeu, mas tenho grande admiração por esse povo que sempre se destacou, em especial, por sua cultura e talento de bem fazer. Uma breve avaliação da lista dos agraciados com o Prêmio Nobel, desde sua criação em 1901 até hoje, revela que, das 850 personalidades agraciadas, 180 são judeus. Hitler, ao contrário, era um ignorante, um frustrado, cuja maior habilidade era inspirar o revanchismo, o ódio, que desde o começo dos anos 20 tinha as obsessões que “Mein kampf” destila. Este ódio encontrou terreno fértil numa Alemanha prostrada pela depressão econômica e pela hiperinflação.
Os que compram o e-book devem ser pessoas que anseiam por regimes de força. Em nosso tempo, quando os direitos humanos, a tolerância e o respeito à diversidade das pessoas tornaram-se as normas básicas do comportamento dos indivíduos civilizados, ler “Mein kampf” é uma aberração, pois não é um livro, mas uma trombeta do Apocalipse.
Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crimes contra a humanidade
Fiquei chocado ao ler, no GLOBO, que a edição digital do livro-manifesto de Hitler, “Mein kampf” (“Minha luta”, em português), teve um aumento súbito nas principais livrarias digitais do mundo. Em especial, preocupou-me a informação de que uma pequena editora brasileira vendeu, para sua surpresa, 509 livros, de 1º a 9 de janeiro do ano corrente, ou seja, mais de um exemplar a cada 30 minutos. Além disso, para que não pareça apenas uma peculiaridade nossa, há registro de que o manifesto de Hitler figura com destaque nas listas de venda de e-books da Amazon nos Estados Unidos e na Inglaterra. Por que esta atração, pelo menos esta curiosidade?
Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crime contra a humanidade. “Mein kampf” não é um livro qualquer, mas um programa de uma política perversa que foi meticulosamente implementada. Para entender melhor este personagem funesto, pode-se ler uma boa biografia e há dezenas delas. Eu mesmo li um esplêndido livro de Ian Kershaw, um grande historiador inglês, que, em 900 paginas, esmiúça e procura entender a trajetória de Hitler. Mas “Mein kampf”, ao contrário, é um panfleto. Escrito em 1926, tornou-se o guia de ação para os nazistas, e ainda hoje influencia os neonazistas. Que, por incrível que pareça, ainda os há, até na Grécia, berço da civilização ocidental.
No entanto, no site Yahoo Resposta, à pergunta por que Hitler odiava tanto os judeus, a melhor resposta selecionada foi a seguinte: “Me pergunto se o destaque dos judeus em todas as áreas (científica, cultural, esportiva, financeira, etc.) não teria contribuído para odiar um povo que abalava a desejada superioridade ariana, preconizada por Hitler”. Não creio que seja a melhor explicação, pois o ódio nazista não se orientava apenas contra os judeus, ainda que fossem o alvo principal, mas também contra os ciganos, os homossexuais, os negros e outras minorias que certamente não podiam ser descritos como “ameaça à superioridade ariana”.
Não sou judeu, mas tenho grande admiração por esse povo que sempre se destacou, em especial, por sua cultura e talento de bem fazer. Uma breve avaliação da lista dos agraciados com o Prêmio Nobel, desde sua criação em 1901 até hoje, revela que, das 850 personalidades agraciadas, 180 são judeus. Hitler, ao contrário, era um ignorante, um frustrado, cuja maior habilidade era inspirar o revanchismo, o ódio, que desde o começo dos anos 20 tinha as obsessões que “Mein kampf” destila. Este ódio encontrou terreno fértil numa Alemanha prostrada pela depressão econômica e pela hiperinflação.
Os que compram o e-book devem ser pessoas que anseiam por regimes de força. Em nosso tempo, quando os direitos humanos, a tolerância e o respeito à diversidade das pessoas tornaram-se as normas básicas do comportamento dos indivíduos civilizados, ler “Mein kampf” é uma aberração, pois não é um livro, mas uma trombeta do Apocalipse.
Truques & riscos - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 20/01
O conhecido "jeitinho brasileiro" ameaça ganhar status de política de Estado, tal a frequência com que tem sido usado como estratégia de repaginação dos indicadores macroeconômicos. Os exemplos vão se acumulando, dia a dia.
Para calcular a inflação, nada melhor que contar com o controle político sobre preços administrados em setores estratégicos. E por que não atrasar a transferência de R$ 7 bilhões a Estados e municípios, inclusive recursos voltados para a saúde pública, prejudicando milhões de brasileiros, para dar a impressão de que cumpriu-se o superavit primário?
A inventividade do governo parece não ter limites.
É preciso reconhecer a habilidade dos truques contábeis e o uso de artifícios para melhorar a performance das contas públicas. Se há brechas legais, parece que a ordem é aproveitá-las.
Neste campo instalou-se um autêntico vale-tudo, como a estarrecedora operação da Caixa Econômica Federal, ainda sob grave suspeição, na transferência de recursos de contas de caderneta de poupança pretensamente inativas para engordar o seu balanço. É a velha tática: "se colar, colou"...
O resultado da economia brasileira certamente seria melhor se o esforço gasto em maquiar números fosse efetivamente aplicado no aperfeiçoamento da gestão. Instituições que guardam histórico compromisso com o rigor, a transparência e o profissionalismo, como o Banco Central, estão cada vez mais isoladas diante do descontrole fiscal generalizado e, não por acaso, patinam na implementação do ajuste necessário para amenizar o ambiente inflacionário.
"Estamos no limiar de um novo ciclo econômico do Brasil", disse o ministro da Fazenda, para justificar o injustificável. A verdade é que, infelizmente, o Brasil está perdendo oportunidades preciosas de ativar o seu crescimento, como a Copa, pródiga em promessas de realizações e pífia em resultados, até o momento.
Os investimentos em infraestrutura são praticamente inexistentes, em face ao que foi prometido. Em termos de desempenho, o que temos a mostrar à comunidade internacional, para nossa vergonha, é o segundo pior crescimento na América do Sul, atrás apenas da Venezuela.
A desconfiança generalizada da sociedade não é uma peça ficcional criada pelos críticos do governo, mas o resultado de uma gestão ineficaz, pouco transparente e incapaz de reintegrar o país a uma rota de desenvolvimento e de ampliação das conquistas sociais.
É urgente agir, com coragem e responsabilidade, para não permitir que o país retroceda e coloque em risco as conquistas que nos trouxeram até aqui.
Uma das principais, a credibilidade, nem mesmo o "jeitinho brasileiro" foi capaz de assegurar. Esta, infelizmente, já perdemos.
O conhecido "jeitinho brasileiro" ameaça ganhar status de política de Estado, tal a frequência com que tem sido usado como estratégia de repaginação dos indicadores macroeconômicos. Os exemplos vão se acumulando, dia a dia.
Para calcular a inflação, nada melhor que contar com o controle político sobre preços administrados em setores estratégicos. E por que não atrasar a transferência de R$ 7 bilhões a Estados e municípios, inclusive recursos voltados para a saúde pública, prejudicando milhões de brasileiros, para dar a impressão de que cumpriu-se o superavit primário?
A inventividade do governo parece não ter limites.
É preciso reconhecer a habilidade dos truques contábeis e o uso de artifícios para melhorar a performance das contas públicas. Se há brechas legais, parece que a ordem é aproveitá-las.
Neste campo instalou-se um autêntico vale-tudo, como a estarrecedora operação da Caixa Econômica Federal, ainda sob grave suspeição, na transferência de recursos de contas de caderneta de poupança pretensamente inativas para engordar o seu balanço. É a velha tática: "se colar, colou"...
O resultado da economia brasileira certamente seria melhor se o esforço gasto em maquiar números fosse efetivamente aplicado no aperfeiçoamento da gestão. Instituições que guardam histórico compromisso com o rigor, a transparência e o profissionalismo, como o Banco Central, estão cada vez mais isoladas diante do descontrole fiscal generalizado e, não por acaso, patinam na implementação do ajuste necessário para amenizar o ambiente inflacionário.
"Estamos no limiar de um novo ciclo econômico do Brasil", disse o ministro da Fazenda, para justificar o injustificável. A verdade é que, infelizmente, o Brasil está perdendo oportunidades preciosas de ativar o seu crescimento, como a Copa, pródiga em promessas de realizações e pífia em resultados, até o momento.
Os investimentos em infraestrutura são praticamente inexistentes, em face ao que foi prometido. Em termos de desempenho, o que temos a mostrar à comunidade internacional, para nossa vergonha, é o segundo pior crescimento na América do Sul, atrás apenas da Venezuela.
A desconfiança generalizada da sociedade não é uma peça ficcional criada pelos críticos do governo, mas o resultado de uma gestão ineficaz, pouco transparente e incapaz de reintegrar o país a uma rota de desenvolvimento e de ampliação das conquistas sociais.
É urgente agir, com coragem e responsabilidade, para não permitir que o país retroceda e coloque em risco as conquistas que nos trouxeram até aqui.
Uma das principais, a credibilidade, nem mesmo o "jeitinho brasileiro" foi capaz de assegurar. Esta, infelizmente, já perdemos.
Atrás das grades - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 20/01
Graças ao avanço das comunicações e a conivência de autoridades, os criminosos dirigem as ações de dentro do presídio para serem executadas fora dele.
A administração nas penitenciárias passa a ser feita por facções de criminosos que concorrem com o Estado, e o resultado não é difícil de antever.
Hoje, o problema não é simples nem fácil. A população carcerária não é do melhor perfil e pode ser do menos bom, do mesmo modo que o elemento externo nem sempre estará qualificado a exercer as necessárias atribuições específicas que lhe cabem; as qualidades do servidor comum não são bastantes a quem deve servir nos setores penitenciários. Nem são ideais as relações que, por vezes, senão muitas vezes, se estabelecem entre os presidiários e seus guardas. Enfim, não é necessário ser especialista para intuir que as qualificações dos servidores lotados no serviço de carceragem não poderiam ser vulgares. Se as relações entre o preso e o que deve guardá-lo são complexas, o problema se centuplica consideradas as condições dos presídios. De maneira geral, são deficientes em todos os sentidos, o primeiro deles, visível a olho nu, decorre da habitual superpopulação carcerária.
Suponha-se que o melhor hotel da cidade, com a capacidade para receber 300 hóspedes, tivesse de acomodar 600 ou 900. É evidente que o melhor hotel instantaneamente se converteria no pior. Mutatis mutandis é o que vem ocorrendo com os presídios. A antiga Casa de Correção de Porto Alegre foi disso exemplo ilustrativo. Claro que o problema não é insolúvel, contudo, a primeira dificuldade está na carência de recursos financeiros e na existência do número de necessidades a satisfazer. É natural que o administrador seja levado a deixar para depois a construção de um presídio que, embora necessário, não se compara com outras obras, mais palatáveis ao gosto popular. O fato é que, de um modo geral, em todos os Estados os presídios foram ficando para melhor oportunidade, agravando-se a deficiente quando não a má qualidade dos seus serviços.
Não faz muito, um titular do Ministério da Justiça determinou fosse apurado, Estado por Estado, quando fora construída a última cadeia e o resultado foi penoso, razão porque o ministro, com apoio do seu presidente, se dirigiu a todos os governadores propondo-lhes construir uma cadeia no seu Estado. O plano foi cumprido à risca, um em cada Estado. Era o mínimo e deveria ser o começo, mas o ministro deixou de ser ministro e não houve a esperada continuidade. Essas e outras dificuldades são conhecidas, mas verificar que em alguns Estados os detentos estão amontoados é indefensável e imperdoável. Ora, isto não pode continuar.
Eis senão quando um fato veio acrescentar elemento novo ao pungente quadro conhecido; entidade veio a constituir-se aglutinando dois tipos, os condenados e por isso detentos e os que se encontram fora do presídio, porque não condenados; aqueles planejam o empreendimento e estes em liberdade são os executores dos planos traçados; não demorou que um segundo grupo decidiu instalar-se na mesma área e entrou a disputar com o anterior a primazia de sua exploração, resultando feroz concorrência entre ambos e têm sido divulgadas notícias de eliminação por parte de um ou outro, até mediante degola. É inacreditável.
A triste verificação é esta: a população vivendo em casas gradeadas, o crime ditando ordens de dentro dos presídios, a segurança ausente, enfim no século 21 é forçoso reconhecer: todos estamos atrás das grades.
Graças ao avanço das comunicações e a conivência de autoridades, os criminosos dirigem as ações de dentro do presídio para serem executadas fora dele.
A administração nas penitenciárias passa a ser feita por facções de criminosos que concorrem com o Estado, e o resultado não é difícil de antever.
Hoje, o problema não é simples nem fácil. A população carcerária não é do melhor perfil e pode ser do menos bom, do mesmo modo que o elemento externo nem sempre estará qualificado a exercer as necessárias atribuições específicas que lhe cabem; as qualidades do servidor comum não são bastantes a quem deve servir nos setores penitenciários. Nem são ideais as relações que, por vezes, senão muitas vezes, se estabelecem entre os presidiários e seus guardas. Enfim, não é necessário ser especialista para intuir que as qualificações dos servidores lotados no serviço de carceragem não poderiam ser vulgares. Se as relações entre o preso e o que deve guardá-lo são complexas, o problema se centuplica consideradas as condições dos presídios. De maneira geral, são deficientes em todos os sentidos, o primeiro deles, visível a olho nu, decorre da habitual superpopulação carcerária.
Suponha-se que o melhor hotel da cidade, com a capacidade para receber 300 hóspedes, tivesse de acomodar 600 ou 900. É evidente que o melhor hotel instantaneamente se converteria no pior. Mutatis mutandis é o que vem ocorrendo com os presídios. A antiga Casa de Correção de Porto Alegre foi disso exemplo ilustrativo. Claro que o problema não é insolúvel, contudo, a primeira dificuldade está na carência de recursos financeiros e na existência do número de necessidades a satisfazer. É natural que o administrador seja levado a deixar para depois a construção de um presídio que, embora necessário, não se compara com outras obras, mais palatáveis ao gosto popular. O fato é que, de um modo geral, em todos os Estados os presídios foram ficando para melhor oportunidade, agravando-se a deficiente quando não a má qualidade dos seus serviços.
Não faz muito, um titular do Ministério da Justiça determinou fosse apurado, Estado por Estado, quando fora construída a última cadeia e o resultado foi penoso, razão porque o ministro, com apoio do seu presidente, se dirigiu a todos os governadores propondo-lhes construir uma cadeia no seu Estado. O plano foi cumprido à risca, um em cada Estado. Era o mínimo e deveria ser o começo, mas o ministro deixou de ser ministro e não houve a esperada continuidade. Essas e outras dificuldades são conhecidas, mas verificar que em alguns Estados os detentos estão amontoados é indefensável e imperdoável. Ora, isto não pode continuar.
Eis senão quando um fato veio acrescentar elemento novo ao pungente quadro conhecido; entidade veio a constituir-se aglutinando dois tipos, os condenados e por isso detentos e os que se encontram fora do presídio, porque não condenados; aqueles planejam o empreendimento e estes em liberdade são os executores dos planos traçados; não demorou que um segundo grupo decidiu instalar-se na mesma área e entrou a disputar com o anterior a primazia de sua exploração, resultando feroz concorrência entre ambos e têm sido divulgadas notícias de eliminação por parte de um ou outro, até mediante degola. É inacreditável.
A triste verificação é esta: a população vivendo em casas gradeadas, o crime ditando ordens de dentro dos presídios, a segurança ausente, enfim no século 21 é forçoso reconhecer: todos estamos atrás das grades.
Mesmo sem o PT, Cabral votará em Dilma - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 20/01
O governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) alterna momentos em que ainda acredita no remoto apoio do PT ao vice, Luiz Antonio Pezão, candidato à sua vaga, com outros em que não acredita mais. O PT anunciou que deixará o governo dele no próximo dia 28.
Cabral se acha credor de Lula. Duas vezes o apoiou para presidente. No segundo turno da eleição de 2010, Dilma saiu do Rio com larga vantagem sobre José Serra.
CABRAL ESTÁ convencido de que fez uma boa administração ao longo de dois mandatos, com destaque para a área da segurança pública. Atribui aos desafetos, Anthony Garotinho à frente, parcela dos seus índices de ruim e péssimo, medidos pelas pesquisas de opinião. A campanha deles para enlamear sua imagem foi grande e, de certa forma, bem-sucedida. Cabral deu-se conta disso quando era muito tarde.
ADMITE, CONTRARIADO, que contribuiu para sua própria desgraça ao usar jatinhos de Eike Batista em viagens de lazer. E quando se deixou fotografar em Paris, feliz da vida, ao lado do dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, o maior fornecedor de serviços ao governo do Rio. Cavendish - soube-se depois - meteu-se em negócios sujos com o ex-bicheiro Carlinhos Cachoeira.
REPELE, PORÉM , qualquer insinuação de que tenha cometido algum ato desonesto. Não poderia ser diferente.
E compreende que tenha aumentado o grau de exigência dos eleitores. Eles simplesmente não parecem mais dispostos a tolerar qualquer tipo de comportamento dos políticos. Aí Cabral foi relapso. Nem mesmo isso, imagina, justificaria o rigor com o qual seu governo está sendo avaliado.
SE ANTES ERA natural que tivesse um candidato ao governo para chamar de seu, agora considera imprescindível.
Cabral precisa de uma voz para defendê- lo durante a campanha. Pezão não tem carisma, e nem sorri com frequência. Mas foi o administrador da administração Cabral. Viajou mais ao interior do estado do que a Paris. Esteve presente em todos os momentos bons e ruins do governo.
PEZÃO ESTÁ lá embaixo nas pesquisas - não importa.
Como disse o deputado Paulo Melo (PMDB), presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: "Só em filme de Kung Fu meia dúzia vence cem". Cabral, o PMDB e a máquina do governo serão os mais ativos cabos eleitorais de Pezão. É razoável que ele obtenha entre 20% e 30% dos votos e que se credencie a disputar o segundo turno. Contra quem? Contra Garotinho - quem sabe?
ASSIM COMO o PMDB em ocasiões especiais, pressiona o presidente da República por mais cargos, ameaçando abandoná-lo, Cabral sussurra que ele e sua turma poderão não suar a camisa para reeleger Dilma.
Ou até mesmo apoiar Aécio Neves (PSDB) ou Eduardo Campos (PSB) para derrotá-la, caso o PT não marche unido com Pezão. É blefe. Cabral não é homem de aventuras. E sabe que, vencido no primeiro turno, o PT tenderá a apoiar Pezão no segundo.
SE QUISER, Dilma contará com quatro palanques certos no Rio: de Pezão, Garotinho (PR), Marcelo Crivella (PRB) e Lindbergh Farias (PT). Por ora, o ex-prefeito César Maia (DEM) está órfão de candidato a presidente.
O PT só voltaria ao regaço de Cabral se, até abril, Lindbergh despencasse nas pesquisas. Improvável.
Pela primeira vez em sua história, o PT tem a chance de eleger simultaneamente os governadores de Minas Gerais, Rio e São Paulo.
ACAUTELE-SE DILMA se não for reeleita no primeiro turno.
Aí, sim, Cabral e outros nomes do PMDB poderão largá-la. Os políticos, em geral, não gostam dela.
Cabral se acha credor de Lula. Duas vezes o apoiou para presidente. No segundo turno da eleição de 2010, Dilma saiu do Rio com larga vantagem sobre José Serra.
CABRAL ESTÁ convencido de que fez uma boa administração ao longo de dois mandatos, com destaque para a área da segurança pública. Atribui aos desafetos, Anthony Garotinho à frente, parcela dos seus índices de ruim e péssimo, medidos pelas pesquisas de opinião. A campanha deles para enlamear sua imagem foi grande e, de certa forma, bem-sucedida. Cabral deu-se conta disso quando era muito tarde.
ADMITE, CONTRARIADO, que contribuiu para sua própria desgraça ao usar jatinhos de Eike Batista em viagens de lazer. E quando se deixou fotografar em Paris, feliz da vida, ao lado do dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, o maior fornecedor de serviços ao governo do Rio. Cavendish - soube-se depois - meteu-se em negócios sujos com o ex-bicheiro Carlinhos Cachoeira.
REPELE, PORÉM , qualquer insinuação de que tenha cometido algum ato desonesto. Não poderia ser diferente.
E compreende que tenha aumentado o grau de exigência dos eleitores. Eles simplesmente não parecem mais dispostos a tolerar qualquer tipo de comportamento dos políticos. Aí Cabral foi relapso. Nem mesmo isso, imagina, justificaria o rigor com o qual seu governo está sendo avaliado.
SE ANTES ERA natural que tivesse um candidato ao governo para chamar de seu, agora considera imprescindível.
Cabral precisa de uma voz para defendê- lo durante a campanha. Pezão não tem carisma, e nem sorri com frequência. Mas foi o administrador da administração Cabral. Viajou mais ao interior do estado do que a Paris. Esteve presente em todos os momentos bons e ruins do governo.
PEZÃO ESTÁ lá embaixo nas pesquisas - não importa.
Como disse o deputado Paulo Melo (PMDB), presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro: "Só em filme de Kung Fu meia dúzia vence cem". Cabral, o PMDB e a máquina do governo serão os mais ativos cabos eleitorais de Pezão. É razoável que ele obtenha entre 20% e 30% dos votos e que se credencie a disputar o segundo turno. Contra quem? Contra Garotinho - quem sabe?
ASSIM COMO o PMDB em ocasiões especiais, pressiona o presidente da República por mais cargos, ameaçando abandoná-lo, Cabral sussurra que ele e sua turma poderão não suar a camisa para reeleger Dilma.
Ou até mesmo apoiar Aécio Neves (PSDB) ou Eduardo Campos (PSB) para derrotá-la, caso o PT não marche unido com Pezão. É blefe. Cabral não é homem de aventuras. E sabe que, vencido no primeiro turno, o PT tenderá a apoiar Pezão no segundo.
SE QUISER, Dilma contará com quatro palanques certos no Rio: de Pezão, Garotinho (PR), Marcelo Crivella (PRB) e Lindbergh Farias (PT). Por ora, o ex-prefeito César Maia (DEM) está órfão de candidato a presidente.
O PT só voltaria ao regaço de Cabral se, até abril, Lindbergh despencasse nas pesquisas. Improvável.
Pela primeira vez em sua história, o PT tem a chance de eleger simultaneamente os governadores de Minas Gerais, Rio e São Paulo.
ACAUTELE-SE DILMA se não for reeleita no primeiro turno.
Aí, sim, Cabral e outros nomes do PMDB poderão largá-la. Os políticos, em geral, não gostam dela.
O fiasco dos incentivos - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 20/01
Mais um dado negativo - uma nova redução da atividade medida pelo Banco Central (BC) - reforça as apostas em um mau resultado em 2013. Em mais um ano de baixo desempenho, a economia brasileira deve ter crescido entre 1,9% e 2,3%, segundo as melhores projeções conhecidas até agora. Nada, por enquanto, permite uma avaliação mais otimista. As últimas informações cobrem o período até novembro e reforçam as apostas em um número final pífio. Em novembro, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) foi 0,31% menor que em outubro e 1,94% maior que um ano antes, nas séries com desconto dos fatores sazonais. O crescimento acumulado em 12 meses chegou a 2,61%. O IBC-Br é considerado uma prévia, embora imperfeita, do Produto Interno Bruto (PIB). As contas nacionais de 2013, com os dados finais do PIB, só serão publicadas em 27 de fevereiro, segundo a pauta do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O recuo da atividade apontado pelo BC combina com os últimos números da indústria divulgados neste mês. O setor industrial - em outros tempos o mais dinâmico da economia brasileira - perdeu vigor nos últimos anos, ficou estagnado nos três anos deste governo e perdeu espaço tanto no exterior quanto no mercado interno. Os dados mais novos confirmam as dificuldades de recuperação do setor. A produção industrial diminuiu 0,2% de outubro para novembro, ficou 0,4% acima da observada um ano antes e cresceu 1,1% em 12 meses.
A pesquisa mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI) proporciona uma perspectiva a mais para o exame do fraco desempenho do setor. O faturamento real, isto é, descontada a inflação, caiu 7,2% de outubro para novembro. As horas de trabalho diminuíram 5,3% e o emprego encolheu 0,4%, mas a massa de salários reais aumentou 5,9% e o rendimento médio real dos trabalhadores, 6,3%. A combinação dos dados pode parecer estranha, à primeira vista, mas a maior parte do mistério logo se dissipa.
Apesar do recuo em novembro, o faturamento real de janeiro a novembro foi 4% maior que o do período correspondente de 2012. A explicação deve ser dada principalmente por um aumento de preços bem superior à média observada nos demais setores. A segunda prévia do IGPM de janeiro, publicada sexta-feira, apontou uma alta de 8,09% para os produtos industriais no atacado. No mesmo período, a alta geral dos preços por atacado ficou em 5,38%, e os preços dos produtos agropecuários diminuíram 1,32%. O mistério parece resolvido, embora os últimos dados do IGPM e da pesquisa mensal da CNI cubram períodos com diferença de um mês e meio.
Há um evidente descompasso entre a evolução do faturamento e a de outros indicadores de atividade. Enquanto a receita aumentou 4%, o número de horas de trabalho na produção ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% quando se comparam os períodos janeiro-novembro de 2013 e 2012. Além disso, o uso da capacidade instalada, embora tenha aumentado 0,5% durante o ano, oscilou ao longo de 2013 e caiu 0,2% de outubro para novembro. Neste mês ficou em 82%, descontados os fatores sazonais. Um ano antes estava em 82,4%.
A massa real de salários entre janeiro e novembro foi 2% maior que a de um ano antes. O salário médio real, 1,2% superior ao de igual período de 2012. Os ganhos salariais continuaram, portanto, com a média inflada pelos grandes aumentos concentrados em alguns setores, como o da indústria de derivados de petróleo e biocombustíveis (19,9%) e de produtos químicos (23,2%). Em 11 dos 21 segmentos cobertos pela pesquisa o salário médio real encolheu. Em outros 3 o aumento real foi inferior a 1%. Esse quadro é explicável em parte pela inflação e em parte pelo crescimento moderado do emprego. Em 8 dos 21 segmentos houve redução do pessoal empregado.
Os dados da CNI referem-se apenas à indústria de transformação. Na indústria geral, segundo o IBGE, entre janeiro e novembro o pessoal ocupado foi 1,1% menor que em igual período de um ano antes. É evidente o fracasso da política de estímulos à indústria e à recuperação econômica.
Mais um dado negativo - uma nova redução da atividade medida pelo Banco Central (BC) - reforça as apostas em um mau resultado em 2013. Em mais um ano de baixo desempenho, a economia brasileira deve ter crescido entre 1,9% e 2,3%, segundo as melhores projeções conhecidas até agora. Nada, por enquanto, permite uma avaliação mais otimista. As últimas informações cobrem o período até novembro e reforçam as apostas em um número final pífio. Em novembro, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) foi 0,31% menor que em outubro e 1,94% maior que um ano antes, nas séries com desconto dos fatores sazonais. O crescimento acumulado em 12 meses chegou a 2,61%. O IBC-Br é considerado uma prévia, embora imperfeita, do Produto Interno Bruto (PIB). As contas nacionais de 2013, com os dados finais do PIB, só serão publicadas em 27 de fevereiro, segundo a pauta do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O recuo da atividade apontado pelo BC combina com os últimos números da indústria divulgados neste mês. O setor industrial - em outros tempos o mais dinâmico da economia brasileira - perdeu vigor nos últimos anos, ficou estagnado nos três anos deste governo e perdeu espaço tanto no exterior quanto no mercado interno. Os dados mais novos confirmam as dificuldades de recuperação do setor. A produção industrial diminuiu 0,2% de outubro para novembro, ficou 0,4% acima da observada um ano antes e cresceu 1,1% em 12 meses.
A pesquisa mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI) proporciona uma perspectiva a mais para o exame do fraco desempenho do setor. O faturamento real, isto é, descontada a inflação, caiu 7,2% de outubro para novembro. As horas de trabalho diminuíram 5,3% e o emprego encolheu 0,4%, mas a massa de salários reais aumentou 5,9% e o rendimento médio real dos trabalhadores, 6,3%. A combinação dos dados pode parecer estranha, à primeira vista, mas a maior parte do mistério logo se dissipa.
Apesar do recuo em novembro, o faturamento real de janeiro a novembro foi 4% maior que o do período correspondente de 2012. A explicação deve ser dada principalmente por um aumento de preços bem superior à média observada nos demais setores. A segunda prévia do IGPM de janeiro, publicada sexta-feira, apontou uma alta de 8,09% para os produtos industriais no atacado. No mesmo período, a alta geral dos preços por atacado ficou em 5,38%, e os preços dos produtos agropecuários diminuíram 1,32%. O mistério parece resolvido, embora os últimos dados do IGPM e da pesquisa mensal da CNI cubram períodos com diferença de um mês e meio.
Há um evidente descompasso entre a evolução do faturamento e a de outros indicadores de atividade. Enquanto a receita aumentou 4%, o número de horas de trabalho na produção ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% quando se comparam os períodos janeiro-novembro de 2013 e 2012. Além disso, o uso da capacidade instalada, embora tenha aumentado 0,5% durante o ano, oscilou ao longo de 2013 e caiu 0,2% de outubro para novembro. Neste mês ficou em 82%, descontados os fatores sazonais. Um ano antes estava em 82,4%.
A massa real de salários entre janeiro e novembro foi 2% maior que a de um ano antes. O salário médio real, 1,2% superior ao de igual período de 2012. Os ganhos salariais continuaram, portanto, com a média inflada pelos grandes aumentos concentrados em alguns setores, como o da indústria de derivados de petróleo e biocombustíveis (19,9%) e de produtos químicos (23,2%). Em 11 dos 21 segmentos cobertos pela pesquisa o salário médio real encolheu. Em outros 3 o aumento real foi inferior a 1%. Esse quadro é explicável em parte pela inflação e em parte pelo crescimento moderado do emprego. Em 8 dos 21 segmentos houve redução do pessoal empregado.
Os dados da CNI referem-se apenas à indústria de transformação. Na indústria geral, segundo o IBGE, entre janeiro e novembro o pessoal ocupado foi 1,1% menor que em igual período de um ano antes. É evidente o fracasso da política de estímulos à indústria e à recuperação econômica.
Liberdade econômica em baixa - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 20/01
Mais uma vez, o Brasil tem desempenho medíocre em ranking internacional que mede o ambiente para se fazer negócios
Inflação sob controle, facilidade para fazer negócios, comércio exterior livre e um ambiente protegido da excessiva intervenção estatal estão entre as chaves para um país fortalecer sua economia. No entanto, essa é uma lição que o Brasil vem se recusando a aprender. No dia 14, a Heritage Foundation divulgou os dados do seu Índice de Liberdade Econômica 2014, elaborado em parceria com o Wall Street Journal. Na 20.ª edição do índice, o Brasil voltou a repetir um desempenho medíocre: dos 178 países classificados, ficamos com a 114.ª colocação, dentro do grupo dos países considerados pouco livres – pior que isso, apenas as nações onde a liberdade econômica é severamente restrita. Em uma escala de zero a 100, o Brasil teve 56,9 pontos, 0,8 ponto abaixo do número divulgado em 2013. O país está abaixo da média mundial (60,3 pontos), abaixo da média da América Latina e Caribe (59,7) e muito longe da média das economias consideradas livres (84,1). Na região, o Brasil supera apenas Belize, Guiana, Suriname, Haiti, Bolívia, Equador, Argentina, Venezuela e Cuba. O país latino-americano com melhor colocação é o Chile, em sétimo lugar, com 78,7 pontos.
O índice é desdobrado em vários tópicos, ajudando a pintar um retrato da dificuldade em fazer negócios no país, que durante meados da década passada chegou a figurar no grupo das economias moderadamente livres, mas desde 2007 caiu para o grupo onde se encontra agora. “A falta de progresso na direção de uma maior liberdade econômica tem desencorajado o crescimento do setor privado e continua a prejudicar a concretização do potencial econômico” do país, diz a Heritage Foundation, que reconhece avanços recentes, como o aumento da classe média e o fato de milhões terem saído da pobreza, mas aponta o excessivo intervencionismo estatal como grande ameaça ao crescimento econômico.
É sintomático que, dos dez quesitos avaliados no índice, o Brasil tenha avançado em apenas dois: a liberdade de negócios (a facilidade ou a burocracia para começar, manter e fechar um negócio) e a liberdade de investimento, que mede as restrições ao fluxo de capital para investimentos, seja internamente ou cruzando as fronteiras do país. Mesmo assim, o Brasil está apenas no 96.º lugar em liberdade de investimento, e em um vergonhoso 144.º lugar em liberdade de negócios, um atestado da dificuldade de ser um empreendedor no Brasil, graças, entre outros fatores, à infindável burocracia e ao excesso de tempo gasto para decifrar o sistema tributário.
Na comparação com a edição anterior do índice, o Brasil caiu em seis quesitos, inclusive naqueles em que o país tem as melhores pontuações, como as liberdades monetária (que inclui os índices de inflação e o controle estatal de preços), de comércio (que usa como parâmetro as tarifas do comércio exterior) e fiscal (que analisa o impacto da carga tributária). Com a inflação teimando em se manter perto do teto da meta do Banco Central, o protecionismo crescente – “brasileiros não podem importar roupas ou carros”, diz o relatório – e a ânsia do governo em arrecadar, não surpreende que os índices tenham sofrido redução. Mesmo nesses quesitos, o desempenho brasileiro, próximo dos 70 pontos, não é suficiente para que o país alcance uma boa colocação no ranking dos países.
Finalmente, os itens em que o país tem as piores notas são a liberdade de trabalho, em que são avaliadas as leis trabalhistas – com 49,8 pontos, o Brasil fica na 138.ª colocação – e a corrupção, em que o país até consegue a 72.ª colocação, mas com apenas 37,9 pontos. Segundo a Heritage Foundation, falta flexibilidade às leis trabalhistas, o que prejudica a expansão do emprego. E, ao tratar da corrupção, os responsáveis pelo índice citam o julgamento do mensalão e os protestos de junho de 2013.
Liberdade econômica e prosperidade estão intimamente ligadas, como mostra o relatório da Heritage Foundation. A renda per capita dos países do grupo considerado “livre” é quase nove vezes maior que a do grupo em que o Brasil se encontra. Olhar o topo da lista do Índice de Liberdade Econômica é encontrar países que também possuem altos Índices de Desenvolvimento Humano (com exceção das Ilhas Maurício, 8.º lugar em liberdade econômica, mas 80.º no IDH). É hora de o Brasil decidir aonde quer chegar e que exemplos precisa seguir para conseguir melhores resultados econômicos.
Mais uma vez, o Brasil tem desempenho medíocre em ranking internacional que mede o ambiente para se fazer negócios
Inflação sob controle, facilidade para fazer negócios, comércio exterior livre e um ambiente protegido da excessiva intervenção estatal estão entre as chaves para um país fortalecer sua economia. No entanto, essa é uma lição que o Brasil vem se recusando a aprender. No dia 14, a Heritage Foundation divulgou os dados do seu Índice de Liberdade Econômica 2014, elaborado em parceria com o Wall Street Journal. Na 20.ª edição do índice, o Brasil voltou a repetir um desempenho medíocre: dos 178 países classificados, ficamos com a 114.ª colocação, dentro do grupo dos países considerados pouco livres – pior que isso, apenas as nações onde a liberdade econômica é severamente restrita. Em uma escala de zero a 100, o Brasil teve 56,9 pontos, 0,8 ponto abaixo do número divulgado em 2013. O país está abaixo da média mundial (60,3 pontos), abaixo da média da América Latina e Caribe (59,7) e muito longe da média das economias consideradas livres (84,1). Na região, o Brasil supera apenas Belize, Guiana, Suriname, Haiti, Bolívia, Equador, Argentina, Venezuela e Cuba. O país latino-americano com melhor colocação é o Chile, em sétimo lugar, com 78,7 pontos.
O índice é desdobrado em vários tópicos, ajudando a pintar um retrato da dificuldade em fazer negócios no país, que durante meados da década passada chegou a figurar no grupo das economias moderadamente livres, mas desde 2007 caiu para o grupo onde se encontra agora. “A falta de progresso na direção de uma maior liberdade econômica tem desencorajado o crescimento do setor privado e continua a prejudicar a concretização do potencial econômico” do país, diz a Heritage Foundation, que reconhece avanços recentes, como o aumento da classe média e o fato de milhões terem saído da pobreza, mas aponta o excessivo intervencionismo estatal como grande ameaça ao crescimento econômico.
É sintomático que, dos dez quesitos avaliados no índice, o Brasil tenha avançado em apenas dois: a liberdade de negócios (a facilidade ou a burocracia para começar, manter e fechar um negócio) e a liberdade de investimento, que mede as restrições ao fluxo de capital para investimentos, seja internamente ou cruzando as fronteiras do país. Mesmo assim, o Brasil está apenas no 96.º lugar em liberdade de investimento, e em um vergonhoso 144.º lugar em liberdade de negócios, um atestado da dificuldade de ser um empreendedor no Brasil, graças, entre outros fatores, à infindável burocracia e ao excesso de tempo gasto para decifrar o sistema tributário.
Na comparação com a edição anterior do índice, o Brasil caiu em seis quesitos, inclusive naqueles em que o país tem as melhores pontuações, como as liberdades monetária (que inclui os índices de inflação e o controle estatal de preços), de comércio (que usa como parâmetro as tarifas do comércio exterior) e fiscal (que analisa o impacto da carga tributária). Com a inflação teimando em se manter perto do teto da meta do Banco Central, o protecionismo crescente – “brasileiros não podem importar roupas ou carros”, diz o relatório – e a ânsia do governo em arrecadar, não surpreende que os índices tenham sofrido redução. Mesmo nesses quesitos, o desempenho brasileiro, próximo dos 70 pontos, não é suficiente para que o país alcance uma boa colocação no ranking dos países.
Finalmente, os itens em que o país tem as piores notas são a liberdade de trabalho, em que são avaliadas as leis trabalhistas – com 49,8 pontos, o Brasil fica na 138.ª colocação – e a corrupção, em que o país até consegue a 72.ª colocação, mas com apenas 37,9 pontos. Segundo a Heritage Foundation, falta flexibilidade às leis trabalhistas, o que prejudica a expansão do emprego. E, ao tratar da corrupção, os responsáveis pelo índice citam o julgamento do mensalão e os protestos de junho de 2013.
Liberdade econômica e prosperidade estão intimamente ligadas, como mostra o relatório da Heritage Foundation. A renda per capita dos países do grupo considerado “livre” é quase nove vezes maior que a do grupo em que o Brasil se encontra. Olhar o topo da lista do Índice de Liberdade Econômica é encontrar países que também possuem altos Índices de Desenvolvimento Humano (com exceção das Ilhas Maurício, 8.º lugar em liberdade econômica, mas 80.º no IDH). É hora de o Brasil decidir aonde quer chegar e que exemplos precisa seguir para conseguir melhores resultados econômicos.
Mais grãos, mais problema - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 20/01
O Brasil pagará caro nos próximos meses, quando colher e começar a despachar mais uma safra recorde de grãos. É a repetição do quadro que, nos últimos anos, atesta a incapacidade do país de avançar na ampliação e modernização da infraestrutura de transportes.
Por mais que o agronegócio tenha salvado as contas nacionais no setor externo, muito pouco ou quase nada tem sido feito para tornar o espetacular desempenho do campo mais proveitoso para a economia brasileira. Em tempos de maus resultados da indústria e de constrangedoras taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ganhos maiores com a agropecuária viriam em boa hora.
É o que poderíamos ter em 2014, pois o campo mais uma vez fez sua parte. A safra 2013-2014 dará ao Brasil 196,67 milhões de toneladas de grãos, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), concluído este mês. São 9,7 milhões de toneladas a mais do que a colheita passada, representando crescimento de 5,2%.
Mas o que deveria ser motivo para festa, no Brasil significa problemas à vista. Especialistas em logística calculam que essa produção de grãos daria para encher 122,6 mil vagões de trem (média de 80 toneladas por carro) ou ser transportada em 306 mil viagens de caminhões, com 32 toneladas cada um.
E como as falhas de logística no Brasil começam cedo, é preciso embarcar tudo o mais rápido possível, pois o espaço de armazenamento é tão insuficiente quanto a qualidade das estradas e a eficiência dos portos. Não passa de 15% a capacidade de guardar grãos nas próprias fazendas, o que não raro obriga os produtores a apelar para condições precárias de abrigo da soja e do milho, em valões forrados com lonas. Só para se ter uma ideia desse atraso, na Argentina, essa capacidade instalada em fazendas é de cerca de 40% da safra; nos Estados Unidos, de até 60% da colheita.
O resultado dessas deficiências, insistentemente mantidas há anos, é que toneladas de grãos de soja e milho vão parar no acostamento das estradas, significando perda calculada em US$ 2,5 bilhões a preços de 2009. E mais: perda de tempo e dinheiro nas quilométricas filas de caminhões nas proximidades dos portos do Sul e do Sudeste, que ainda concentram a maior parte dos despachos, já que os do Norte e do Nordeste aguardam investimentos em ampliação e atualização da capacidade operacional.
Não há um cálculo seguro de quanto dinheiro se perde com despesas e multas por atraso na operação portuária das exportações brasileiras de grãos. Mas não é pouco o que custa ao país não ter ainda vencido o corporativismo e os anacrônicos obstáculos no caminho da modernização dos portos.
Agora que as concessões rodoviárias começaram a deslanchar, urge acelerar a montagem de um novo Brasil logístico, incluindo, no caso do escoamento das safras, modais como o ferroviário e o aproveitamento das vias navegáveis. Premiado pela geografia, o Brasil precisa cumprir logo sua história de protagonista da economia mundial.
Por mais que o agronegócio tenha salvado as contas nacionais no setor externo, muito pouco ou quase nada tem sido feito para tornar o espetacular desempenho do campo mais proveitoso para a economia brasileira. Em tempos de maus resultados da indústria e de constrangedoras taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ganhos maiores com a agropecuária viriam em boa hora.
É o que poderíamos ter em 2014, pois o campo mais uma vez fez sua parte. A safra 2013-2014 dará ao Brasil 196,67 milhões de toneladas de grãos, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), concluído este mês. São 9,7 milhões de toneladas a mais do que a colheita passada, representando crescimento de 5,2%.
Mas o que deveria ser motivo para festa, no Brasil significa problemas à vista. Especialistas em logística calculam que essa produção de grãos daria para encher 122,6 mil vagões de trem (média de 80 toneladas por carro) ou ser transportada em 306 mil viagens de caminhões, com 32 toneladas cada um.
E como as falhas de logística no Brasil começam cedo, é preciso embarcar tudo o mais rápido possível, pois o espaço de armazenamento é tão insuficiente quanto a qualidade das estradas e a eficiência dos portos. Não passa de 15% a capacidade de guardar grãos nas próprias fazendas, o que não raro obriga os produtores a apelar para condições precárias de abrigo da soja e do milho, em valões forrados com lonas. Só para se ter uma ideia desse atraso, na Argentina, essa capacidade instalada em fazendas é de cerca de 40% da safra; nos Estados Unidos, de até 60% da colheita.
O resultado dessas deficiências, insistentemente mantidas há anos, é que toneladas de grãos de soja e milho vão parar no acostamento das estradas, significando perda calculada em US$ 2,5 bilhões a preços de 2009. E mais: perda de tempo e dinheiro nas quilométricas filas de caminhões nas proximidades dos portos do Sul e do Sudeste, que ainda concentram a maior parte dos despachos, já que os do Norte e do Nordeste aguardam investimentos em ampliação e atualização da capacidade operacional.
Não há um cálculo seguro de quanto dinheiro se perde com despesas e multas por atraso na operação portuária das exportações brasileiras de grãos. Mas não é pouco o que custa ao país não ter ainda vencido o corporativismo e os anacrônicos obstáculos no caminho da modernização dos portos.
Agora que as concessões rodoviárias começaram a deslanchar, urge acelerar a montagem de um novo Brasil logístico, incluindo, no caso do escoamento das safras, modais como o ferroviário e o aproveitamento das vias navegáveis. Premiado pela geografia, o Brasil precisa cumprir logo sua história de protagonista da economia mundial.
Seguro necessário - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 20/01
Ordem e contenção nos gastos são medidas que o governo deveria adotar a fim de interromper ciclo de expectativas negativas
O Banco Central elevou a taxa básica de juros da economia mais do que o previsto pela média dos economistas de instituições financeiras e consultorias.
Por ora, o incremento além das expectativas não deve ter peso relevante na perspectiva de crescimento para o ano. Acrescenta logo de início, porém, fator negativo à equação da economia para 2014, que já não era alentadora. Note-se que o aumento dos juros era inevitável, dada a alta da inflação.
Outras notícias indicam que entraves de curto prazo ao crescimento se acumulam mal o ano se inicia.
Aos poucos, grandes bancos revisam para cima suas estimativas de desvalorização do real. A moeda mais desvalorizada alimenta expectativas de inflação e, portanto, de juros maiores. Além do mais, encarece investimentos.
Dadas as circunstâncias econômicas do país, a alta de preços tende a desestimular a expansão e a renovação de empresas e negócios. O volume de aquisição de máquinas e equipamentos já foi decepcionante no final do ano passado.
Apesar da recuperação durante 2013, as vendas do varejo acomodam-se em novo patamar de crescimento. Em vez do avanço anual médio de quase 8% de 2004 a 2012, o ritmo desacelera para a casa dos 4%, acompanhando o passo mais vagaroso do crédito e dos salários.
Tais índices decerto não alteram de modo sensível a estimativa de que o crescimento brasileiro vá ficar entre 2% e 3% ao ano em 2014 e 2015. Não obstante, é possível tentar evitar o pior.
Os indicadores de confiança e de inflação, a taxa de câmbio e as taxas de juros de prazo mais longo tendem a se degradar tanto menos quanto mais cedo o governo anunciar uma meta clara e relevante de controle de gastos.
Outras mudanças, como dar cabo de intervenções equivocadas na economia ou acelerar as concessões de infraestrutura, podem desanuviar o clima de pessimismo, sem dúvida. Será imediatamente mais decisiva, no entanto, uma afirmação de que haverá mais ordem e comedimento nos gastos.
Assim, poderia ser atenuado o pessimismo no mercado financeiro, que se expressa concretamente em altas de juros e desvalorizações exageradas da moeda, contagiando o restante da economia.
Está claro que tais providências são necessárias para baixar a febre das expectativas negativas. Não são suficientes para evitar eventuais acidentes devidos, por exemplo, a uma transição tumultuada da política econômica americana ou a repercussões dos eventos de um ano eleitoral. Mas ordem e contenção nos gastos são um seguro necessário --o único que, no momento, o país pode pagar.
Ordem e contenção nos gastos são medidas que o governo deveria adotar a fim de interromper ciclo de expectativas negativas
O Banco Central elevou a taxa básica de juros da economia mais do que o previsto pela média dos economistas de instituições financeiras e consultorias.
Por ora, o incremento além das expectativas não deve ter peso relevante na perspectiva de crescimento para o ano. Acrescenta logo de início, porém, fator negativo à equação da economia para 2014, que já não era alentadora. Note-se que o aumento dos juros era inevitável, dada a alta da inflação.
Outras notícias indicam que entraves de curto prazo ao crescimento se acumulam mal o ano se inicia.
Aos poucos, grandes bancos revisam para cima suas estimativas de desvalorização do real. A moeda mais desvalorizada alimenta expectativas de inflação e, portanto, de juros maiores. Além do mais, encarece investimentos.
Dadas as circunstâncias econômicas do país, a alta de preços tende a desestimular a expansão e a renovação de empresas e negócios. O volume de aquisição de máquinas e equipamentos já foi decepcionante no final do ano passado.
Apesar da recuperação durante 2013, as vendas do varejo acomodam-se em novo patamar de crescimento. Em vez do avanço anual médio de quase 8% de 2004 a 2012, o ritmo desacelera para a casa dos 4%, acompanhando o passo mais vagaroso do crédito e dos salários.
Tais índices decerto não alteram de modo sensível a estimativa de que o crescimento brasileiro vá ficar entre 2% e 3% ao ano em 2014 e 2015. Não obstante, é possível tentar evitar o pior.
Os indicadores de confiança e de inflação, a taxa de câmbio e as taxas de juros de prazo mais longo tendem a se degradar tanto menos quanto mais cedo o governo anunciar uma meta clara e relevante de controle de gastos.
Outras mudanças, como dar cabo de intervenções equivocadas na economia ou acelerar as concessões de infraestrutura, podem desanuviar o clima de pessimismo, sem dúvida. Será imediatamente mais decisiva, no entanto, uma afirmação de que haverá mais ordem e comedimento nos gastos.
Assim, poderia ser atenuado o pessimismo no mercado financeiro, que se expressa concretamente em altas de juros e desvalorizações exageradas da moeda, contagiando o restante da economia.
Está claro que tais providências são necessárias para baixar a febre das expectativas negativas. Não são suficientes para evitar eventuais acidentes devidos, por exemplo, a uma transição tumultuada da política econômica americana ou a repercussões dos eventos de um ano eleitoral. Mas ordem e contenção nos gastos são um seguro necessário --o único que, no momento, o país pode pagar.
A paralisia da Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 20/01
Submetida pelo governo do PT a uma política de preços que a asfixia financeiramente e a uma estratégia que a força a investir maciçamente na área do pré-sal sem ter recursos suficientes para isso, a Petrobrás não está conseguindo acompanhar as rápidas transformações pelas quais passa o mercado mundial de energia. Está perdendo grandes oportunidades e pode estar comprometendo sua capacidade de manter-se, a médio prazo, entre as principais empresas mundiais do setor. O fato de, em 2013, os Estados Unidos terem deixado de ser seu principal comprador de petróleo, que passou a ser a China, é para ela o sinal mais eloquente das mudanças no mundo da energia.
Nos últimos anos os EUA haviam se tornado fortemente dependentes de países dos quais importavam petróleo maciçamente, como a Arábia Saudita. Mas, com o aumento rápido de sua produção interna de gás e de óleo de xisto, essa dependência vem se reduzindo rapidamente, o que poderá ter consequências políticas.
Relatórios internacionais indicam que já em 2015 os EUA poderão tornar-se o principal produtor mundial de gás natural, à frente da Rússia. Em 2017, poderão superar a Arábia Saudita na produção de petróleo (deverão continuar atrás da Rússia nesse caso). E é possível que, de grandes importadores, se tornem exportadores líquidos de combustível em meados da próxima década.
Em algum momento, a rápida mudança do papel dos EUA na produção mundial de gás e óleo alterará também - para o bem ou para o mal dos diferentes agentes do mercado - as cotações desses produtos. Há o risco de as novas cotações tornarem inviáveis projetos em andamento de exploração de petróleo cujos custos baseiam-se no preço atual do óleo, de US$ 90 a US$ 120 o barril. Estudos combinando o aumento da produção em áreas novas, como a do pré-sal, com a eventual redução da demanda de petróleo convencional, em razão do aumento da produção a partir do xisto, não afastam a possibilidade de o preço do barril cair para US$ 50.
Tudo isso poderá ocorrer em intervalo relativamente curto. Basta ver que a fatia do gás de xisto na produção de gás natural dos EUA pulou de 4% a 5% do total em meados da década passada para 34% em 2012. A projeção da agência oficial americana de estudos de energia é de que, em 2040, o gás de xisto responda pela metade da produção do país. O impacto do aumento da produção de gás de xisto sobre os preços foi notável. Em 2008, a cotação do gás natural estava em cerca de US$ 13 por milhão de BTU (British Thermal Unit, tradicional medida de energia) e atualmente está em cerca de US$ 4.
No caso do petróleo, a fatia do xisto já está perto de 30% do total produzido nos Estados Unidos. É possível que, mesmo com o aumento do óleo de xisto, os EUA continuem sendo importadores líquidos de óleo pelo menos até 2040, mas em proporção bem menor do que a atual. A redução das importações, já em curso, teve como resultado mais visível para o Brasil a queda das exportações da Petrobrás para os EUA.
Nenhuma dessas mudanças foi levada em conta pelos integrantes do governo do PT que - desde o primeiro mandato de Lula, iniciado em 2003, até agora - impuseram o atual modelo de gestão à Petrobrás. Ela hoje arca com as consequências técnicas, financeiras e operacionais desse modelo.
Usada para a acomodação de interesses partidários, a empresa perdeu parte de sua capacidade gerencial em razão de nomeações de natureza política. Transformada em instrumento de combate à inflação, foi submetida a uma política de severo controle dos preços dos derivados de petróleo, que lhe impôs perdas substanciais, porque teve de produzir e importar - pois não ampliou sua capacidade de refino para atender à demanda crescente - a um custo maior do que o valor dos produtos que vende. A política de exploração do petróleo do pré-sal impôs obrigações técnicas e financeiras a que ela não consegue responder com a eficiência e a presteza necessárias.
Nesse quadro, dificilmente poderia acompanhar as rápidas mudanças que ocorrem em todo o mundo.
Submetida pelo governo do PT a uma política de preços que a asfixia financeiramente e a uma estratégia que a força a investir maciçamente na área do pré-sal sem ter recursos suficientes para isso, a Petrobrás não está conseguindo acompanhar as rápidas transformações pelas quais passa o mercado mundial de energia. Está perdendo grandes oportunidades e pode estar comprometendo sua capacidade de manter-se, a médio prazo, entre as principais empresas mundiais do setor. O fato de, em 2013, os Estados Unidos terem deixado de ser seu principal comprador de petróleo, que passou a ser a China, é para ela o sinal mais eloquente das mudanças no mundo da energia.
Nos últimos anos os EUA haviam se tornado fortemente dependentes de países dos quais importavam petróleo maciçamente, como a Arábia Saudita. Mas, com o aumento rápido de sua produção interna de gás e de óleo de xisto, essa dependência vem se reduzindo rapidamente, o que poderá ter consequências políticas.
Relatórios internacionais indicam que já em 2015 os EUA poderão tornar-se o principal produtor mundial de gás natural, à frente da Rússia. Em 2017, poderão superar a Arábia Saudita na produção de petróleo (deverão continuar atrás da Rússia nesse caso). E é possível que, de grandes importadores, se tornem exportadores líquidos de combustível em meados da próxima década.
Em algum momento, a rápida mudança do papel dos EUA na produção mundial de gás e óleo alterará também - para o bem ou para o mal dos diferentes agentes do mercado - as cotações desses produtos. Há o risco de as novas cotações tornarem inviáveis projetos em andamento de exploração de petróleo cujos custos baseiam-se no preço atual do óleo, de US$ 90 a US$ 120 o barril. Estudos combinando o aumento da produção em áreas novas, como a do pré-sal, com a eventual redução da demanda de petróleo convencional, em razão do aumento da produção a partir do xisto, não afastam a possibilidade de o preço do barril cair para US$ 50.
Tudo isso poderá ocorrer em intervalo relativamente curto. Basta ver que a fatia do gás de xisto na produção de gás natural dos EUA pulou de 4% a 5% do total em meados da década passada para 34% em 2012. A projeção da agência oficial americana de estudos de energia é de que, em 2040, o gás de xisto responda pela metade da produção do país. O impacto do aumento da produção de gás de xisto sobre os preços foi notável. Em 2008, a cotação do gás natural estava em cerca de US$ 13 por milhão de BTU (British Thermal Unit, tradicional medida de energia) e atualmente está em cerca de US$ 4.
No caso do petróleo, a fatia do xisto já está perto de 30% do total produzido nos Estados Unidos. É possível que, mesmo com o aumento do óleo de xisto, os EUA continuem sendo importadores líquidos de óleo pelo menos até 2040, mas em proporção bem menor do que a atual. A redução das importações, já em curso, teve como resultado mais visível para o Brasil a queda das exportações da Petrobrás para os EUA.
Nenhuma dessas mudanças foi levada em conta pelos integrantes do governo do PT que - desde o primeiro mandato de Lula, iniciado em 2003, até agora - impuseram o atual modelo de gestão à Petrobrás. Ela hoje arca com as consequências técnicas, financeiras e operacionais desse modelo.
Usada para a acomodação de interesses partidários, a empresa perdeu parte de sua capacidade gerencial em razão de nomeações de natureza política. Transformada em instrumento de combate à inflação, foi submetida a uma política de severo controle dos preços dos derivados de petróleo, que lhe impôs perdas substanciais, porque teve de produzir e importar - pois não ampliou sua capacidade de refino para atender à demanda crescente - a um custo maior do que o valor dos produtos que vende. A política de exploração do petróleo do pré-sal impôs obrigações técnicas e financeiras a que ela não consegue responder com a eficiência e a presteza necessárias.
Nesse quadro, dificilmente poderia acompanhar as rápidas mudanças que ocorrem em todo o mundo.
Sensação de impunidade - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 20/01
É deletéria para a sociedade a impressão de que o crime compensa. Ao cidadão que cumpre a lei no dia a dia, a notícia de que quem transgride não recebe punição — dentro de prazo razoável — traz a descrença nas instituições e a sensação de que a Justiça não funciona. É assim que se sente a maioria dos brasileiros ao saber que réus ricos escapam da prisão por tempo indeterminado porque contratam advogados capazes de lhes assegurar quantos recursos protelatórios contra suas condenações as brechas da lei permitirem.
Obviamente, esses recursos estão previstos no devido processo legal e, em alguns casos, resguardam o legítimo — e inquestionável — direito à ampla defesa. Mas também servem para adiar indefinidamente as punições e agravar o mal crônico da lentidão da Justiça.
O ex-prefeito, ex-governador e ex-candidato a presidente Paulo Maluf, por exemplo, foi condenado por improbidade administrativa pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em novembro do ano passado, sob a acusação de ter desviado dinheiro de obra de abertura do Túnel Ayrton Senna, quando esteve na prefeitura de São Paulo entre 1993 e 1996. Seus advogados exploram todas as possibilidades da lei para protelar a punição desde a primeira condenação, em 2009, e ainda podem recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal. E assim se passaram duas décadas.
Da mesma forma, os fiscais da Receita estadual envolvidos no escândalo do propinoduto, tendo à frente o subsecretário adjunto de Administração Tributária no governo Anthony Garotinho, Rodrigo Silveirinha, foram condenados em outubro de 2003, tendo a sentença confirmada em 2007 pelo Tribunal Regional Federal. Mas recorreram ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, impedindo a repatriação de US$ 34 milhões enviados para a Suíça, o que só pode ser feito após um veredicto final.
Por essas e outras é que o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, já afirmou que, em caso de acusados endinheirados, no Brasil os processos só chegam ao fim em menos de 20 anos se o acusado quiser.
Mas há sinais de que a impaciência da sociedade começa a chegar aos meios forenses. No julgamento dos mensaleiros, figurões foram condenados — contrariando expectativas — à prisão, apesar das muitas possibilidades de recursos protelatórios à disposição dos melhores advogados do país a serviço dos réus. O ministro Luís Roberto Barroso, no debate sobre os embargos, propôs que, constatada a manobra da defesa, o processo fosse considerado “transitado em julgado”, recebendo assim o veredicto final. “Temos que terminar com a prática de que o devido processo legal é aquele que não termina’’, disse, ressalvando não se referir à Ação Penal 470.
Por mais amplo que seja o direito de defesa, chega a hora em que os recursos só servem para aumentar a sensação de impunidade.
É deletéria para a sociedade a impressão de que o crime compensa. Ao cidadão que cumpre a lei no dia a dia, a notícia de que quem transgride não recebe punição — dentro de prazo razoável — traz a descrença nas instituições e a sensação de que a Justiça não funciona. É assim que se sente a maioria dos brasileiros ao saber que réus ricos escapam da prisão por tempo indeterminado porque contratam advogados capazes de lhes assegurar quantos recursos protelatórios contra suas condenações as brechas da lei permitirem.
Obviamente, esses recursos estão previstos no devido processo legal e, em alguns casos, resguardam o legítimo — e inquestionável — direito à ampla defesa. Mas também servem para adiar indefinidamente as punições e agravar o mal crônico da lentidão da Justiça.
O ex-prefeito, ex-governador e ex-candidato a presidente Paulo Maluf, por exemplo, foi condenado por improbidade administrativa pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em novembro do ano passado, sob a acusação de ter desviado dinheiro de obra de abertura do Túnel Ayrton Senna, quando esteve na prefeitura de São Paulo entre 1993 e 1996. Seus advogados exploram todas as possibilidades da lei para protelar a punição desde a primeira condenação, em 2009, e ainda podem recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal. E assim se passaram duas décadas.
Da mesma forma, os fiscais da Receita estadual envolvidos no escândalo do propinoduto, tendo à frente o subsecretário adjunto de Administração Tributária no governo Anthony Garotinho, Rodrigo Silveirinha, foram condenados em outubro de 2003, tendo a sentença confirmada em 2007 pelo Tribunal Regional Federal. Mas recorreram ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, impedindo a repatriação de US$ 34 milhões enviados para a Suíça, o que só pode ser feito após um veredicto final.
Por essas e outras é que o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, já afirmou que, em caso de acusados endinheirados, no Brasil os processos só chegam ao fim em menos de 20 anos se o acusado quiser.
Mas há sinais de que a impaciência da sociedade começa a chegar aos meios forenses. No julgamento dos mensaleiros, figurões foram condenados — contrariando expectativas — à prisão, apesar das muitas possibilidades de recursos protelatórios à disposição dos melhores advogados do país a serviço dos réus. O ministro Luís Roberto Barroso, no debate sobre os embargos, propôs que, constatada a manobra da defesa, o processo fosse considerado “transitado em julgado”, recebendo assim o veredicto final. “Temos que terminar com a prática de que o devido processo legal é aquele que não termina’’, disse, ressalvando não se referir à Ação Penal 470.
Por mais amplo que seja o direito de defesa, chega a hora em que os recursos só servem para aumentar a sensação de impunidade.
Negociata pelo poder - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 20/01
O ano eleitoral começou com uma intensa negociação entre partidos e governantes, tanto no âmbito federal quanto nos Estados, em torno de alianças políticas que constrangem os brasileiros. São conchavos escancarados pelo poder, tendo como moeda de troca ministérios, secretarias e cargos públicos. Por conta de acordos de difícil compreensão para os eleitores, partidos políticos fazem um jogo que beira a chantagem, procurando apropriar-se de setores da administração pública, especialmente daquelas que desfrutam de fatias generosas do bolo orçamentário. Será esse o sistema político mais adequado para a democracia brasileira? Será que não existe uma forma mais ética e mais transparente de governar? Como os brasileiros podem mudar este estado de coisas?
Antes das respostas, cabe considerar que tais manobras e as coalizões espúrias delas resultantes acabam contribuindo para o descrédito da população sobre a classe política em geral. Isso, evidentemente, realimenta o ciclo vicioso: cidadãos desinteressados votam mal, deixam de fiscalizar seus representantes e invariavelmente resvalam para a generalização negativa, de que todos os políticos são iguais e só estão na vida pública para levar vantagem. Quando se olha para o verdadeiro escambo de cargos públicos promovido por governantes-candidatos e partidos incrustados no poder, fica difícil argumentar em contrário. Ainda assim, é pelo cidadão-eleitor que pode começar uma mudança moralizadora na política nacional.
Compete-lhe, antes de tudo, informar-se sobre os seus representantes e sobre os candidatos a cargos públicos, capacitando-se, assim, para avaliá-los pelo histórico, pela honestidade e pela coerência. E essa fiscalização não termina no momento do voto. Depois de eleitos, principalmente, os detentores de mandato devem continuar sendo cobrados, para que não coloquem seus interesses e os de seus partidos na frente dos compromissos assumidos com a população.
Veja-se o exemplo do governo federal, que acaba sendo o espelho das demais administrações. Quando assumiu a presidência, Dilma Rousseff contava com o apoio de 17 partidos e de 80% do parlamento, uma base governista capaz de garantir a aprovação de qualquer projeto seu. Para garantir esse apoio, repetiu seus antecessores: loteou os principais cargos da administração federal entre os aliados, chegando mesmo a aumentar o número de ministérios para satisfazer a ganância dos partidos. Deu no que deu: episódios de corrupção que a obrigaram a promover aquilo que ficou conhecido como faxina ética. A população, ainda ressentida com o escândalo do mensalão, apoiou a limpa, mas logo alguns expurgados começaram a voltar ao governo por pressão de suas agremiações.
A prisão dos mensaleiros atacou a consequência desse processo espúrio. Falta, agora, atacar as causas, por meio de uma mobilização cidadã que imponha uma reforma política efetiva, devolvendo a administração pública à população e expurgando os aproveitadores sedentos de poder.
O ano eleitoral começou com uma intensa negociação entre partidos e governantes, tanto no âmbito federal quanto nos Estados, em torno de alianças políticas que constrangem os brasileiros. São conchavos escancarados pelo poder, tendo como moeda de troca ministérios, secretarias e cargos públicos. Por conta de acordos de difícil compreensão para os eleitores, partidos políticos fazem um jogo que beira a chantagem, procurando apropriar-se de setores da administração pública, especialmente daquelas que desfrutam de fatias generosas do bolo orçamentário. Será esse o sistema político mais adequado para a democracia brasileira? Será que não existe uma forma mais ética e mais transparente de governar? Como os brasileiros podem mudar este estado de coisas?
Antes das respostas, cabe considerar que tais manobras e as coalizões espúrias delas resultantes acabam contribuindo para o descrédito da população sobre a classe política em geral. Isso, evidentemente, realimenta o ciclo vicioso: cidadãos desinteressados votam mal, deixam de fiscalizar seus representantes e invariavelmente resvalam para a generalização negativa, de que todos os políticos são iguais e só estão na vida pública para levar vantagem. Quando se olha para o verdadeiro escambo de cargos públicos promovido por governantes-candidatos e partidos incrustados no poder, fica difícil argumentar em contrário. Ainda assim, é pelo cidadão-eleitor que pode começar uma mudança moralizadora na política nacional.
Compete-lhe, antes de tudo, informar-se sobre os seus representantes e sobre os candidatos a cargos públicos, capacitando-se, assim, para avaliá-los pelo histórico, pela honestidade e pela coerência. E essa fiscalização não termina no momento do voto. Depois de eleitos, principalmente, os detentores de mandato devem continuar sendo cobrados, para que não coloquem seus interesses e os de seus partidos na frente dos compromissos assumidos com a população.
Veja-se o exemplo do governo federal, que acaba sendo o espelho das demais administrações. Quando assumiu a presidência, Dilma Rousseff contava com o apoio de 17 partidos e de 80% do parlamento, uma base governista capaz de garantir a aprovação de qualquer projeto seu. Para garantir esse apoio, repetiu seus antecessores: loteou os principais cargos da administração federal entre os aliados, chegando mesmo a aumentar o número de ministérios para satisfazer a ganância dos partidos. Deu no que deu: episódios de corrupção que a obrigaram a promover aquilo que ficou conhecido como faxina ética. A população, ainda ressentida com o escândalo do mensalão, apoiou a limpa, mas logo alguns expurgados começaram a voltar ao governo por pressão de suas agremiações.
A prisão dos mensaleiros atacou a consequência desse processo espúrio. Falta, agora, atacar as causas, por meio de uma mobilização cidadã que imponha uma reforma política efetiva, devolvendo a administração pública à população e expurgando os aproveitadores sedentos de poder.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Ficha Limpa dos estados puniu só três pessoas
- Folha: Documento da Altom revela lista de subornos
- Estadão: Núcleo fiel a Dilma na Câmara cai mais da metade
- Correio: Idosos devem provar ao INSS que estão vivos
- Estado de Minas: Barulho acima da lei
- Zero Hora: Material escolar sobe três vezes acima da inflação
- Brasil Econômico: “Não tem muita gente produtiva dando sopa”
domingo, janeiro 19, 2014
Topless - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 19/01
Nos primeiros dias do ano foi organizada uma manifestação no Rio de Janeiro a favor do topless, mas, para desapontamento geral, teve adesão de algumas poucas gatas pingadas e o assunto não evoluiu.
Brasil, país da liberalidade, do Carnaval, das popozudas, das mulheres-fruta, da globeleza, do fio dental e demais manifestações de culto ao corpo (sem que nada disso altere a paz familiar), proíbe o topless na beira da praia. Um contrassenso? É, mas explica-se.
O Brasil é permissivo quando o assunto é sexo. De letras de música a comerciais de tevê, aqui quase tudo tem apelo erótico e tudo bem, aceitamos a lascívia como traço de caráter. Seios de fora é uma representação da nossa identidade, da nossa latinidade, das nossas raízes – desde que associada, de forma sutil ou não, à malandragem, à sacanagem, à libido. Por incrível que pareça, é mais chocante ver uma mulher amamentando seu bebê dentro de um ônibus do que arregaçando a camiseta e mostrando os peitos em frente às câmeras num estádio de futebol. Esta será candidata à musa. Ela pode. Mas o gesto maternal sugere indecência.
A amamentação em lugares públicos não é uma atitude sexual, portanto, é algo que perturba, que está fora do nosso contexto. Com o topless se dá o mesmo. Uma mulher com os seios de fora à luz do dia, em volta dos filhos, tomando mate gelado? É atentado ao pudor.
Topless não é um ato de exibicionismo, e sim uma atitude naturalista. Na Europa, basta despontar o primeiro raio de sol para a população tirar a roupa, inclusive nos parques. Em Munique, homens e mulheres dos oito aos 80 anos se reúnem no Englischer Garten, tiram toda a roupa – toda – e ficam lendo seu livrinho numa boa, com a pureza de um recém-nascido. Ninguém sai batendo fotos, salivando com cara de tarado ou marcando encontros atrás da moita. Desde a loira escultural até a senhora pelancuda, todos têm sua privacidade respeitada.
À beira mar o topless é ainda mais comum. Muitas mulheres dispensam o sutiã, não importa o estado de conservação de suas mamas. Fazem isso porque é mais confortável e também para ganhar um bronzeado uniforme, sem as marcas do biquíni. Particularmente, acho mais bonito usar as duas peças, mas não é de estética que se está falando. É do direito que uma pessoa tem de vestir-se (ou, no caso, despir-se) como bem entender, desde que num ambiente propício e sem agredir quem está a sua volta.
Aqui, na novela das nove, homens disputam para ver o “bigodinho” (depilação da virilha) de uma colega de trabalho, e o povo acha a maior graça, mas topless é perversão. Dançamos na boquinha da garrafa, mas não toleramos a liberdade de costumes. E como não se muda a mentalidade de um país por decreto, fazer topless sem estardalhaço ficará para uma próxima encarnação.
Nos primeiros dias do ano foi organizada uma manifestação no Rio de Janeiro a favor do topless, mas, para desapontamento geral, teve adesão de algumas poucas gatas pingadas e o assunto não evoluiu.
Brasil, país da liberalidade, do Carnaval, das popozudas, das mulheres-fruta, da globeleza, do fio dental e demais manifestações de culto ao corpo (sem que nada disso altere a paz familiar), proíbe o topless na beira da praia. Um contrassenso? É, mas explica-se.
O Brasil é permissivo quando o assunto é sexo. De letras de música a comerciais de tevê, aqui quase tudo tem apelo erótico e tudo bem, aceitamos a lascívia como traço de caráter. Seios de fora é uma representação da nossa identidade, da nossa latinidade, das nossas raízes – desde que associada, de forma sutil ou não, à malandragem, à sacanagem, à libido. Por incrível que pareça, é mais chocante ver uma mulher amamentando seu bebê dentro de um ônibus do que arregaçando a camiseta e mostrando os peitos em frente às câmeras num estádio de futebol. Esta será candidata à musa. Ela pode. Mas o gesto maternal sugere indecência.
A amamentação em lugares públicos não é uma atitude sexual, portanto, é algo que perturba, que está fora do nosso contexto. Com o topless se dá o mesmo. Uma mulher com os seios de fora à luz do dia, em volta dos filhos, tomando mate gelado? É atentado ao pudor.
Topless não é um ato de exibicionismo, e sim uma atitude naturalista. Na Europa, basta despontar o primeiro raio de sol para a população tirar a roupa, inclusive nos parques. Em Munique, homens e mulheres dos oito aos 80 anos se reúnem no Englischer Garten, tiram toda a roupa – toda – e ficam lendo seu livrinho numa boa, com a pureza de um recém-nascido. Ninguém sai batendo fotos, salivando com cara de tarado ou marcando encontros atrás da moita. Desde a loira escultural até a senhora pelancuda, todos têm sua privacidade respeitada.
À beira mar o topless é ainda mais comum. Muitas mulheres dispensam o sutiã, não importa o estado de conservação de suas mamas. Fazem isso porque é mais confortável e também para ganhar um bronzeado uniforme, sem as marcas do biquíni. Particularmente, acho mais bonito usar as duas peças, mas não é de estética que se está falando. É do direito que uma pessoa tem de vestir-se (ou, no caso, despir-se) como bem entender, desde que num ambiente propício e sem agredir quem está a sua volta.
Aqui, na novela das nove, homens disputam para ver o “bigodinho” (depilação da virilha) de uma colega de trabalho, e o povo acha a maior graça, mas topless é perversão. Dançamos na boquinha da garrafa, mas não toleramos a liberdade de costumes. E como não se muda a mentalidade de um país por decreto, fazer topless sem estardalhaço ficará para uma próxima encarnação.
Do rolezinho ao rolezaço - EUGÊNIO BUCCI
REVISTA ÉPOCA
Se os inventores do rolezinho se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, melhor nem pensar
A palavra rolezinho logo entrará nos dicionários. Substantivo masculino. Modalidade de manifestação pública instantânea – inventada por adolescentes de bairros pobres de São Paulo e normalmente convocada por meio das redes sociais –, que reúne dezenas ou centenas de participantes em shopping centers para confraternizar, chamar a atenção e se divertir; um rolezinho, como um elefante, incomoda muita gente; dois rolezinhos, como dois elefantes, incomodam muito mais, podendo mesmo tirar o sossego de dirigentes de associações comerciais e de Estado, apavorados(as) diante da possibilidade de que meia dúzia de rolezinhos, ou mesmo, sejamos paranoicos, milhares de rolezinhos, atrapalhem eventos esportivos de caráter internacional, como a Copa do Mundo, por exemplo. Etimologia: do francês roulê, particípio passado de rouler (sXII roueller ‘enrolar’) (mas aqui com o sentido de “dar um rolê”, significando “dar um passeio”, i.e., “dar uma banda por aí”, se é que você me entende, mas uma banda em grupo, com a molecada pisando forte e cantando rap), de rouelle, “rodela”, do latim rotella.
O rolezinho chega como a mais forte tendência do verão, rivalizando com os protestos de junho e com os black blocs, que escaldaram a temporada de inverno. O medo das autoridades está justamente nessa aproximação. Elas temem que os insufladores de rolezinhos se aliem às figuras cavernosas do blackbloquismo, gerando um híbrido dedicado a depredar vitrine e saquear geral. Aí, aconteceria nas ruas e nos shoppings do Brasil de hoje um casamento semelhante ao que se deu dentro das cadeias nos anos 1970. Naquela época, ao menos de acordo com alguns relatos, os presos políticos ensinaram rudimentos da disciplina bolchevique aos presos comuns e deram origem a crime organizado que hoje domina os presídios, o tráfico e as milícias. Se os inventores dos rolezinhos se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, bem, melhor nem pensar (mas as autoridades não pensam em outra coisa).
Eis aí a contradição: a folia juvenil que anima os finais de semana da juventude das periferias é um filme de terror na imaginação daqueles que são encarregados de assegurar a ordem. As duas expectativas não têm como se conciliar. Possivelmente, o pau vai comer.
Aliás, já come. Imagens de policiais fustigando garotos com seus cassetetes (que já saem de fábrica dotados de preconceito de classe) estampam fartamente o noticiário. Não vem boa coisa por aí. Os shopping centers, templos do consumo sem janela alguma, iluminados o tempo todo por luzes ubíquas, lugares em que os corpos humanos não projetam sombra, posto que a luz brota de todas as paredes, vivem dias de apreensão. Império da mercadoria em que o sol (artificial) nunca se põe, espaços de confinamento voluntário em que os internos, como os prisioneiros de solitárias, não sabem se é dia ou se é noite lá fora, correm o risco de virar ringues dessa coisa disgusting e fora de moda que é a luta de classes. De um lado, a garotada que mal completou 18 anos; de outro, os brucutus da PM ou aqueles sujeitos de terno preto, treinados a dizer amém aos endinheirados e dirigir insultos (inclusive físicos) aos descapitalizados.
Diante de um simples rolezinho, a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo se desfaz como fumaça. As torres inexpugnáveis, os caixotões de concreto armado, vigas de aço e vidro blindado, as fortalezas ultravigiadas que acomodam as grifes mais caras – e as mais bregas também – prometem segurança total aos clientes, mas não têm defesa contra meninos e meninas que, mesmo sem nadar em dinheiro, trafegam de cabeça erguida pelas galerias que existiriam para sentenciar sua exclusão.
Nesse ponto, a contradição vira fratura exposta. A menos que passem a cobrar ingresso na porta – R$ 50 por cabeça, que tal? –, os shoppings não têm como impedir legalmente a entrada de ninguém. Se, de uma hora para outra, as multidões que não compram naquelas lojas (supostamente chiques) resolvessem desfilar entre as vitrines, o ritual do consumo ficaria inviável. A clientela fugiria. As vendedoras baixariam as portas dos estabelecimentos. Os ricos teriam vergonha de comprar e os lojistas não teriam coragem de vender.
Por aí a gente entende: os shopping centers são como são, tão fechados, fortificados, ilhados, para segregar e, principalmente, para se esconder. Se os rolezinhos virarem um imenso rolezaço, muitos biombos virão abaixo. O temor das autoridades não é de todo infundado.
Se os inventores do rolezinho se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, melhor nem pensar
A palavra rolezinho logo entrará nos dicionários. Substantivo masculino. Modalidade de manifestação pública instantânea – inventada por adolescentes de bairros pobres de São Paulo e normalmente convocada por meio das redes sociais –, que reúne dezenas ou centenas de participantes em shopping centers para confraternizar, chamar a atenção e se divertir; um rolezinho, como um elefante, incomoda muita gente; dois rolezinhos, como dois elefantes, incomodam muito mais, podendo mesmo tirar o sossego de dirigentes de associações comerciais e de Estado, apavorados(as) diante da possibilidade de que meia dúzia de rolezinhos, ou mesmo, sejamos paranoicos, milhares de rolezinhos, atrapalhem eventos esportivos de caráter internacional, como a Copa do Mundo, por exemplo. Etimologia: do francês roulê, particípio passado de rouler (sXII roueller ‘enrolar’) (mas aqui com o sentido de “dar um rolê”, significando “dar um passeio”, i.e., “dar uma banda por aí”, se é que você me entende, mas uma banda em grupo, com a molecada pisando forte e cantando rap), de rouelle, “rodela”, do latim rotella.
O rolezinho chega como a mais forte tendência do verão, rivalizando com os protestos de junho e com os black blocs, que escaldaram a temporada de inverno. O medo das autoridades está justamente nessa aproximação. Elas temem que os insufladores de rolezinhos se aliem às figuras cavernosas do blackbloquismo, gerando um híbrido dedicado a depredar vitrine e saquear geral. Aí, aconteceria nas ruas e nos shoppings do Brasil de hoje um casamento semelhante ao que se deu dentro das cadeias nos anos 1970. Naquela época, ao menos de acordo com alguns relatos, os presos políticos ensinaram rudimentos da disciplina bolchevique aos presos comuns e deram origem a crime organizado que hoje domina os presídios, o tráfico e as milícias. Se os inventores dos rolezinhos se associarem aos ideólogos do blackbloquismo, bem, melhor nem pensar (mas as autoridades não pensam em outra coisa).
Eis aí a contradição: a folia juvenil que anima os finais de semana da juventude das periferias é um filme de terror na imaginação daqueles que são encarregados de assegurar a ordem. As duas expectativas não têm como se conciliar. Possivelmente, o pau vai comer.
Aliás, já come. Imagens de policiais fustigando garotos com seus cassetetes (que já saem de fábrica dotados de preconceito de classe) estampam fartamente o noticiário. Não vem boa coisa por aí. Os shopping centers, templos do consumo sem janela alguma, iluminados o tempo todo por luzes ubíquas, lugares em que os corpos humanos não projetam sombra, posto que a luz brota de todas as paredes, vivem dias de apreensão. Império da mercadoria em que o sol (artificial) nunca se põe, espaços de confinamento voluntário em que os internos, como os prisioneiros de solitárias, não sabem se é dia ou se é noite lá fora, correm o risco de virar ringues dessa coisa disgusting e fora de moda que é a luta de classes. De um lado, a garotada que mal completou 18 anos; de outro, os brucutus da PM ou aqueles sujeitos de terno preto, treinados a dizer amém aos endinheirados e dirigir insultos (inclusive físicos) aos descapitalizados.
Diante de um simples rolezinho, a monumental empáfia das caixas-fortes do fetichismo se desfaz como fumaça. As torres inexpugnáveis, os caixotões de concreto armado, vigas de aço e vidro blindado, as fortalezas ultravigiadas que acomodam as grifes mais caras – e as mais bregas também – prometem segurança total aos clientes, mas não têm defesa contra meninos e meninas que, mesmo sem nadar em dinheiro, trafegam de cabeça erguida pelas galerias que existiriam para sentenciar sua exclusão.
Nesse ponto, a contradição vira fratura exposta. A menos que passem a cobrar ingresso na porta – R$ 50 por cabeça, que tal? –, os shoppings não têm como impedir legalmente a entrada de ninguém. Se, de uma hora para outra, as multidões que não compram naquelas lojas (supostamente chiques) resolvessem desfilar entre as vitrines, o ritual do consumo ficaria inviável. A clientela fugiria. As vendedoras baixariam as portas dos estabelecimentos. Os ricos teriam vergonha de comprar e os lojistas não teriam coragem de vender.
Por aí a gente entende: os shopping centers são como são, tão fechados, fortificados, ilhados, para segregar e, principalmente, para se esconder. Se os rolezinhos virarem um imenso rolezaço, muitos biombos virão abaixo. O temor das autoridades não é de todo infundado.
Gélidas lembranças - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 19/01
Quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que está esfriando?
Eu, que nasci numa cidade tropical, que ali me criei a uma temperatura média de 27 a 30 graus Celsius --isso nos períodos mais amenos--, não é que um dia me encontrei na cidade de Moscou enfrentando uma temperatura de dez graus abaixo de zero? Avalia só como me sentia ali eu que, no inverno carioca, se o frio chegasse a 16 graus, pensava que ia virar picolé. É nisso que dá se meter em política.
Confesso que quase pensei isso, quando me vi metido em ceroulas de lã, calças, suéter, cachecol, paletó e capote, que pesavam muitos quilos. Isso sem falar na "chapka" --aquela touca de lã que desabotoa e protege o rosto quando o vento frio se torna insuportável. E os lábios? Se você os deixar expostos, racham.
Lembrei disso na semana passada, quando vi na televisão as cidades norte-americanas soterradas sob a neve. A televisão mostrou cidadãos apreensivos, temendo que a temperatura baixasse ainda mais. Já estava, em alguns lugares, por volta de 50 graus abaixo de zero. É temperatura da Sibéria, pensei comigo.
Enquanto isso, no Brasil, estávamos sobrevivendo a uma sensação térmica de 50 graus acima de zero. É impossível não perguntar o que ocorre com o nosso planeta. No final das contas, quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que ele está esfriando? Quero achar que está esfriando, mas, tendo que tomar um banho a cada meia hora, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que nesse assunto particular nem os cientistas se entendem.
Querendo ou não, a memória insistia em me levar para Moscou, onde, naquele ano de 1970, o inverno chegava. Minha preocupação diminuiu quando o chefe de nosso coletivo informou que íamos receber roupas especiais para enfrentar o frio do inverno russo.
Mas minha tranquilidade durou pouco. Antes de dormir, imaginava o futuro que me esperava naquela cidade que nada tinha a ver com minha origem tropical.
Quando o inverno chegou para valer, encontrou-me metido nas ceroulas de lã, na camiseta de lã, nas calças de lã, no suéter, no paletó, no capote grosso e pesado, tão pesado que, se tivesse que andar mais de uma quadra, morreria de cansaço. De qualquer modo, antes cansado do que morto.
A sorte é que passava o dia todo na escola do partido, escutando a lição dos professores ou conversando com os companheiros na lanchonete. A última coisa que eu queria era sair à rua, a não ser quando as aulas terminavam e era já noite, porque, no inverno, ali, anoitece às três da tarde.
No percurso da escola à "abchejite" (uma espécie de pensão de estudantes), se estivesse ventando então, era barra pesada. Meu nariz esfriava tanto que tinha a impressão de que, se desse um peteleco nele, quebrava, caía no chão. Claro que um comunista está no mundo para o que der e vier, razão pela qual evitava formular a pergunta que de vez em quando assomava à mente: que diabo vim eu fazer nesta cidade gelada? Só parei de perguntar quando conheci uma russa de olhos azul-violeta, linda como um sonho, e que só nasce em cidades geladas como Moscou.
Pois bem, e não é que inventaram de nos levar a um passeio em Leningrado, ainda mais frio que Moscou?
Ali topamos com uma temperatura de 30 graus abaixo de zero, o que nos foi anunciado quando o trem se aproximava da cidade, ao amanhecer. À noite, iríamos ao teatro Bolshoi para assistir ao balé famoso no mundo inteiro.
Ao sairmos do hotel, fomos advertidos de que não devíamos fumar na rua. Estranhei, mas a tradutora explicou: "Com 39 graus abaixo de zero, se você puxa o ar frio pela boca, ganha uma pneumonia". Apaguei o cigarro.
Mas ao chegarmos ao teatro, não havia onde estacionar, tivemos que sair do carro e correr uns 50 metros até a entrada, o suficiente para nos congelarmos. Quando entrei no hall, meu paletó parecia uma placa de gelo; se batesse nele, partiria em pedaços, escrevo eu, agora, no Rio de Janeiro, suando em bicas.
Quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que está esfriando?
Eu, que nasci numa cidade tropical, que ali me criei a uma temperatura média de 27 a 30 graus Celsius --isso nos períodos mais amenos--, não é que um dia me encontrei na cidade de Moscou enfrentando uma temperatura de dez graus abaixo de zero? Avalia só como me sentia ali eu que, no inverno carioca, se o frio chegasse a 16 graus, pensava que ia virar picolé. É nisso que dá se meter em política.
Confesso que quase pensei isso, quando me vi metido em ceroulas de lã, calças, suéter, cachecol, paletó e capote, que pesavam muitos quilos. Isso sem falar na "chapka" --aquela touca de lã que desabotoa e protege o rosto quando o vento frio se torna insuportável. E os lábios? Se você os deixar expostos, racham.
Lembrei disso na semana passada, quando vi na televisão as cidades norte-americanas soterradas sob a neve. A televisão mostrou cidadãos apreensivos, temendo que a temperatura baixasse ainda mais. Já estava, em alguns lugares, por volta de 50 graus abaixo de zero. É temperatura da Sibéria, pensei comigo.
Enquanto isso, no Brasil, estávamos sobrevivendo a uma sensação térmica de 50 graus acima de zero. É impossível não perguntar o que ocorre com o nosso planeta. No final das contas, quem está com a razão, os que dizem que o planeta está esquentando ou os que dizem que ele está esfriando? Quero achar que está esfriando, mas, tendo que tomar um banho a cada meia hora, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que nesse assunto particular nem os cientistas se entendem.
Querendo ou não, a memória insistia em me levar para Moscou, onde, naquele ano de 1970, o inverno chegava. Minha preocupação diminuiu quando o chefe de nosso coletivo informou que íamos receber roupas especiais para enfrentar o frio do inverno russo.
Mas minha tranquilidade durou pouco. Antes de dormir, imaginava o futuro que me esperava naquela cidade que nada tinha a ver com minha origem tropical.
Quando o inverno chegou para valer, encontrou-me metido nas ceroulas de lã, na camiseta de lã, nas calças de lã, no suéter, no paletó, no capote grosso e pesado, tão pesado que, se tivesse que andar mais de uma quadra, morreria de cansaço. De qualquer modo, antes cansado do que morto.
A sorte é que passava o dia todo na escola do partido, escutando a lição dos professores ou conversando com os companheiros na lanchonete. A última coisa que eu queria era sair à rua, a não ser quando as aulas terminavam e era já noite, porque, no inverno, ali, anoitece às três da tarde.
No percurso da escola à "abchejite" (uma espécie de pensão de estudantes), se estivesse ventando então, era barra pesada. Meu nariz esfriava tanto que tinha a impressão de que, se desse um peteleco nele, quebrava, caía no chão. Claro que um comunista está no mundo para o que der e vier, razão pela qual evitava formular a pergunta que de vez em quando assomava à mente: que diabo vim eu fazer nesta cidade gelada? Só parei de perguntar quando conheci uma russa de olhos azul-violeta, linda como um sonho, e que só nasce em cidades geladas como Moscou.
Pois bem, e não é que inventaram de nos levar a um passeio em Leningrado, ainda mais frio que Moscou?
Ali topamos com uma temperatura de 30 graus abaixo de zero, o que nos foi anunciado quando o trem se aproximava da cidade, ao amanhecer. À noite, iríamos ao teatro Bolshoi para assistir ao balé famoso no mundo inteiro.
Ao sairmos do hotel, fomos advertidos de que não devíamos fumar na rua. Estranhei, mas a tradutora explicou: "Com 39 graus abaixo de zero, se você puxa o ar frio pela boca, ganha uma pneumonia". Apaguei o cigarro.
Mas ao chegarmos ao teatro, não havia onde estacionar, tivemos que sair do carro e correr uns 50 metros até a entrada, o suficiente para nos congelarmos. Quando entrei no hall, meu paletó parecia uma placa de gelo; se batesse nele, partiria em pedaços, escrevo eu, agora, no Rio de Janeiro, suando em bicas.
Bye bye, 'Face'? - JAIRO BOUER
O Estado de S.Paulo - 19/01
Uma pesquisa divulgada na última semana por uma empresa de consultoria em estratégias de tecnologia nos Estados Unidos revelou que o Facebook está criando "rugas". A maior parte dos usuários americanos tem hoje entre 35 e 54 anos de idade. Há três anos, a faixa que concentrava mais internautas era mais jovem, entre 18 e 24 anos. Um efeito colateral dessa tendência é a perda de mais de 3 milhões de usuários adolescentes, entre 13 e 17 anos, no intervalo de 2011 a 2014.
Bom lembrar que um outro trabalho, realizado pela University College of London (UCL) e divulgado no final de 2013 pelo jornal inglês The Guardian, já apontava que na Europa os jovens de 16 a 18 anos estavam migrando para os aplicativos de troca de mensagens instantâneas, como o Whatsapp, em vez de ficarem presos em plataformas em que se sentiam mais expostos aos olhos da família, como o Facebook.
A publicidade inglesa captou o fenômeno. Em uma campanha atual, que pode ser vista nos cinemas de Londres, uma empresa de telefonia celular, que vende um plano familiar, brinca com o potencial "erro" do filho em aceitar sua mãe como amiga em sua rede social, claramente fazendo uma alusão ao Facebook.
O fenômeno de migração jovem não é exatamente novo, mas a velocidade com que está ocorrendo talvez seja. Toda vez que um "espaço" reconhecido como do jovem passa a ser ocupado por outras gerações, ele deixa de ser visto como "descolado", o que acaba forçando uma debandada dos adolescentes, que querem novidades que os identifiquem com os pares.
No caso dessas plataformas digitais, provavelmente, não é só a novidade que conta. A privacidade do jovem parece ser outro ponto importante. Ao ser invadido pelo chefe, pela mãe e pela família, o Facebook passa a ter um menor apelo como espaço em que segredos, peculiaridades e opiniões pessoais podem ser compartilhados com os amigos. Tudo fica mais "vigiado" e o jovem sabe que pode ficar exposto de uma forma que não deseja.
O estudo da UCL traz outras informações interessantes: os textos e fotos postados no Facebook pelos jovens hoje parecem passar por um processo de filtragem psicológica, ao contrário das mensagens trocadas no Skype ou no Whatsapp, que são mais imediatas. Será que o jovem não sente que perdeu a espontaneidade no Facebook? Assim, lá ele publica só aquilo que pode ser dito, enquanto nas outras plataformas pode ser mais autêntico?
Outro ponto que pode explicar a migração é a praticidade das novas plataformas. Por mais que ipads e pequenos computadores sejam hoje leves e fáceis de carregar, um celular com múltiplas funções, conectado a internet, é ainda muito mais simples e ágil, apesar das limitações das suas interfaces. Assim, além de estar no bolso e acessível o tempo todo, ele garante mais privacidade ao seu usuário.
Em um primeiro momento, o Facebook parecia ser o ponto de convergência definitivo para todo mundo. Pelo visto, como tudo o que acontece no mundo digital, parte significativa do seu público original evaporou. Nem as recentes aquisições de outras empresas de tecnologia ainda mais modernas parecem ter freado esse processo, pelo menos na Europa e nos EUA. No Brasil, parece que essa tendência ainda não é tão clara, embora boa parte dos jovens já expresse um certo incômodo com a presença dos pais em suas redes sociais.
Teclar e guiar. No momento em que os celulares inteligentes são o sonho de consumo dos adolescentes no mundo e em que cada vez mais jovens usam os sistemas de troca de mensagens instantâneas, uma pesquisa divulgada há duas semanas pelo jornal New York Times mostra que o uso dos telefones por motoristas inexperientes aumenta em até oito vezes o risco de acidentes.
O trabalho, realizado pela Universidade Virginia Tech, mostra que entre os jovens recentemente habilitados trocar mensagens pelo celular ou digitar um número enquanto guiam foram os fatores de maior risco para um acidente. Não é difícil de entender o porquê. Pouca experiência aliada à falta de atenção (eles passaram cerca de 10% do tempo com o olhar desviado para outro foco, que não a frente do carro) em um jovem com reações mais impulsivas pode ser uma combinação fatal!
Uma pesquisa divulgada na última semana por uma empresa de consultoria em estratégias de tecnologia nos Estados Unidos revelou que o Facebook está criando "rugas". A maior parte dos usuários americanos tem hoje entre 35 e 54 anos de idade. Há três anos, a faixa que concentrava mais internautas era mais jovem, entre 18 e 24 anos. Um efeito colateral dessa tendência é a perda de mais de 3 milhões de usuários adolescentes, entre 13 e 17 anos, no intervalo de 2011 a 2014.
Bom lembrar que um outro trabalho, realizado pela University College of London (UCL) e divulgado no final de 2013 pelo jornal inglês The Guardian, já apontava que na Europa os jovens de 16 a 18 anos estavam migrando para os aplicativos de troca de mensagens instantâneas, como o Whatsapp, em vez de ficarem presos em plataformas em que se sentiam mais expostos aos olhos da família, como o Facebook.
A publicidade inglesa captou o fenômeno. Em uma campanha atual, que pode ser vista nos cinemas de Londres, uma empresa de telefonia celular, que vende um plano familiar, brinca com o potencial "erro" do filho em aceitar sua mãe como amiga em sua rede social, claramente fazendo uma alusão ao Facebook.
O fenômeno de migração jovem não é exatamente novo, mas a velocidade com que está ocorrendo talvez seja. Toda vez que um "espaço" reconhecido como do jovem passa a ser ocupado por outras gerações, ele deixa de ser visto como "descolado", o que acaba forçando uma debandada dos adolescentes, que querem novidades que os identifiquem com os pares.
No caso dessas plataformas digitais, provavelmente, não é só a novidade que conta. A privacidade do jovem parece ser outro ponto importante. Ao ser invadido pelo chefe, pela mãe e pela família, o Facebook passa a ter um menor apelo como espaço em que segredos, peculiaridades e opiniões pessoais podem ser compartilhados com os amigos. Tudo fica mais "vigiado" e o jovem sabe que pode ficar exposto de uma forma que não deseja.
O estudo da UCL traz outras informações interessantes: os textos e fotos postados no Facebook pelos jovens hoje parecem passar por um processo de filtragem psicológica, ao contrário das mensagens trocadas no Skype ou no Whatsapp, que são mais imediatas. Será que o jovem não sente que perdeu a espontaneidade no Facebook? Assim, lá ele publica só aquilo que pode ser dito, enquanto nas outras plataformas pode ser mais autêntico?
Outro ponto que pode explicar a migração é a praticidade das novas plataformas. Por mais que ipads e pequenos computadores sejam hoje leves e fáceis de carregar, um celular com múltiplas funções, conectado a internet, é ainda muito mais simples e ágil, apesar das limitações das suas interfaces. Assim, além de estar no bolso e acessível o tempo todo, ele garante mais privacidade ao seu usuário.
Em um primeiro momento, o Facebook parecia ser o ponto de convergência definitivo para todo mundo. Pelo visto, como tudo o que acontece no mundo digital, parte significativa do seu público original evaporou. Nem as recentes aquisições de outras empresas de tecnologia ainda mais modernas parecem ter freado esse processo, pelo menos na Europa e nos EUA. No Brasil, parece que essa tendência ainda não é tão clara, embora boa parte dos jovens já expresse um certo incômodo com a presença dos pais em suas redes sociais.
Teclar e guiar. No momento em que os celulares inteligentes são o sonho de consumo dos adolescentes no mundo e em que cada vez mais jovens usam os sistemas de troca de mensagens instantâneas, uma pesquisa divulgada há duas semanas pelo jornal New York Times mostra que o uso dos telefones por motoristas inexperientes aumenta em até oito vezes o risco de acidentes.
O trabalho, realizado pela Universidade Virginia Tech, mostra que entre os jovens recentemente habilitados trocar mensagens pelo celular ou digitar um número enquanto guiam foram os fatores de maior risco para um acidente. Não é difícil de entender o porquê. Pouca experiência aliada à falta de atenção (eles passaram cerca de 10% do tempo com o olhar desviado para outro foco, que não a frente do carro) em um jovem com reações mais impulsivas pode ser uma combinação fatal!
Conversas com o fantasma - TONY BELLOTO
O GLOBO - 19/01
Eu me esmerava em criar novas e escabrosas provas quando senti o cheiro de mofo da casa da minha avó
1. Eu tentava escrever uma crônica de ano novo. Imaginei uma carta aos deuses olímpicos propondo a realização das Apocalimpsíadas, evento em que cidadãos comuns participariam de provas urbanas na cidade do Rio, utilizando a metrópole em obras e seus subsequentes congestionamentos e transtornos urbanos como mote da competição.
2. A ideia era ser irônico, amargamente irônico, já que a amargura é a gasolina aditivada da ironia. O slogan natural do projeto seria: se a vida te der um limão, faça dele uma limonada. Acho o provérbio óbvio e meio idiota, mas explica bem a ideia. Na crônica, eu argumentava que tal competição valorizaria e enalteceria nossas cidadanias e civilidades, quando, atualmente, o caos urbano só faz testar paciências e medir a capacidade de nos conformar e resistir aos apelos da insanidade. Mas eu só estava sendo irônico.
3. Entre as provas que imaginei para as Apocalimpsíadas, constavam:
Cem metros rasos no congestionamento (largue seu carro parado no engarrafamento e saia correndo por cima dos automóveis imóveis, amassando capôs, detonando tetos solares e estilhaçando para-brisas).
Corrida de obstáculos na calçada (desvie de bueiros explosivos ao longo de uma volta no quarteirão. Caso não perca nenhum membro anatômico pelo caminho, suba ao pódio com as duas pernas e comemore elevando os dois braços aos céus).
Apneia no emissário (mergulhe sem tubo em plena Baía da Guanabara, no local em que emissários submarinos ejetam esgotos da cidade. Se retornar vivo do mergulho, ganhe uma medalha e tratamento privilegiado em hospital público).
Biatlo comunitário (galgue as intermináveis escadarias das favelas de dois em dois degraus. Pacificada ou não, dê um rolé lá em cima, desviando dos tiros. Se sobreviver, volte pelas escadarias, pulando de três em três degraus).
Medley na inundação (durante as inundações corriqueiras, saia nadando variando os estilos. Quem sabe você chega em casa a tempo de ver a novela?).
Luta Vasco-Atleticana (saia porrando quem estiver ao seu lado. Chute a cabeça de seu adversário. Quem morrer primeiro perde).
Eu me esmerava em criar novas e escabrosas provas quando senti o cheiro de mofo da casa da minha avó. Virei-me. Era um velho que me observava por trás de minha cadeira. O fantasma acinzentado de um antigo cronista, ou algo do gênero.
4. “Quanta amargura”, disse o fantasma. “E sem graça, ainda por cima. Isso é uma crônica de início de ano, seus leitores merecem um pouco mais de positividade e esperança. Ou de humor, pelo menos”, concluiu depois de respirar como se lhe faltasse o ar.
“Tem humor”, me defendi. “Negro.”
“Não importa a cor, o humor tem de ser engraçado. O seu não é.”
“Sente-se”, eu disse, convidando-o a sentar-se ao meu lado em frente ao computador. Só então notei que ele usava bigode.
“Você não é aquele que fazia umas crônicas meio melancólicas?”, perguntei.
“Eu era melancólico, você é amargo.”
“Sinal dos tempos. Me fale mais desse negócio de esperança.”
O velho fantasma apertou-se com dificuldade ao meu lado na cadeira. Seus quadris eram largos e faziam um ruído estranho quando ele se mexia. Como se faltasse óleo nas juntas. Seu bigode exalava um cheiro de armário fechado.
“O Brasil é uma merda, eu sei, e tudo está errado”, prosseguiu. “Mas será que temos de ser sempre tão desiludidos? O momento em que as pessoas estão curtindo o início de um novo ano é a hora de exprimir alguma esperança, mesmo que a título de distração passageira.”
5. Apesar do cheiro de naftalina do bigode, a companhia do velho era agradável. Eu queria falar sobre literatura, mas ele insistia em falar sobre mulheres. Perguntou-me sobre meus níveis de PSA e do tamanho da minha próstata. Falou também da saudade que sentia de aipim frito. Pediu-me um cigarro, mas eu disse que não fumava.
“Pare de escrever essa crônica”, ele exclamou de repente com voz grave e enferrujada. “Se é que se pode chamar isso de uma crônica. Estou ficando sentimental, vamos dar uma volta.”
Topei. Às vezes é preciso seguir os conselhos de um fantasma de bigode.
6. Caminhamos até a Praia de Ipanema, pois o velho queria ver “mulheres de biquíni”. Avisei-o que, com sorte, talvez até visse alguma de topless. Ele andava com dificuldade e demoramos para chegar. Na praia, uma brisa suave soprava do oceano. Pessoas pegavam sol, jogavam bola, bebiam água de coco, pedalavam, andavam, nadavam, corriam, riam, respiravam. O sol iniciou seu mergulho para o fundo do mar enquanto banhistas aplaudiam. Se houve arrastão, ou topless, ninguém notou. Comentei com o fantasma sobre um pôr do sol a que eu assistira com minha mulher na Grécia. “Humanos, não importa onde e quando, estão sempre aplaudindo o sol”, disse ele, pensativo. Então uma grande explosão tomou forma no horizonte, como se o sol se estilhaçasse de repente, e todos correram em pânico. Quando olhei para o lado, o fantasma já tinha desaparecido.
Eu me esmerava em criar novas e escabrosas provas quando senti o cheiro de mofo da casa da minha avó
1. Eu tentava escrever uma crônica de ano novo. Imaginei uma carta aos deuses olímpicos propondo a realização das Apocalimpsíadas, evento em que cidadãos comuns participariam de provas urbanas na cidade do Rio, utilizando a metrópole em obras e seus subsequentes congestionamentos e transtornos urbanos como mote da competição.
2. A ideia era ser irônico, amargamente irônico, já que a amargura é a gasolina aditivada da ironia. O slogan natural do projeto seria: se a vida te der um limão, faça dele uma limonada. Acho o provérbio óbvio e meio idiota, mas explica bem a ideia. Na crônica, eu argumentava que tal competição valorizaria e enalteceria nossas cidadanias e civilidades, quando, atualmente, o caos urbano só faz testar paciências e medir a capacidade de nos conformar e resistir aos apelos da insanidade. Mas eu só estava sendo irônico.
3. Entre as provas que imaginei para as Apocalimpsíadas, constavam:
Cem metros rasos no congestionamento (largue seu carro parado no engarrafamento e saia correndo por cima dos automóveis imóveis, amassando capôs, detonando tetos solares e estilhaçando para-brisas).
Corrida de obstáculos na calçada (desvie de bueiros explosivos ao longo de uma volta no quarteirão. Caso não perca nenhum membro anatômico pelo caminho, suba ao pódio com as duas pernas e comemore elevando os dois braços aos céus).
Apneia no emissário (mergulhe sem tubo em plena Baía da Guanabara, no local em que emissários submarinos ejetam esgotos da cidade. Se retornar vivo do mergulho, ganhe uma medalha e tratamento privilegiado em hospital público).
Biatlo comunitário (galgue as intermináveis escadarias das favelas de dois em dois degraus. Pacificada ou não, dê um rolé lá em cima, desviando dos tiros. Se sobreviver, volte pelas escadarias, pulando de três em três degraus).
Medley na inundação (durante as inundações corriqueiras, saia nadando variando os estilos. Quem sabe você chega em casa a tempo de ver a novela?).
Luta Vasco-Atleticana (saia porrando quem estiver ao seu lado. Chute a cabeça de seu adversário. Quem morrer primeiro perde).
Eu me esmerava em criar novas e escabrosas provas quando senti o cheiro de mofo da casa da minha avó. Virei-me. Era um velho que me observava por trás de minha cadeira. O fantasma acinzentado de um antigo cronista, ou algo do gênero.
4. “Quanta amargura”, disse o fantasma. “E sem graça, ainda por cima. Isso é uma crônica de início de ano, seus leitores merecem um pouco mais de positividade e esperança. Ou de humor, pelo menos”, concluiu depois de respirar como se lhe faltasse o ar.
“Tem humor”, me defendi. “Negro.”
“Não importa a cor, o humor tem de ser engraçado. O seu não é.”
“Sente-se”, eu disse, convidando-o a sentar-se ao meu lado em frente ao computador. Só então notei que ele usava bigode.
“Você não é aquele que fazia umas crônicas meio melancólicas?”, perguntei.
“Eu era melancólico, você é amargo.”
“Sinal dos tempos. Me fale mais desse negócio de esperança.”
O velho fantasma apertou-se com dificuldade ao meu lado na cadeira. Seus quadris eram largos e faziam um ruído estranho quando ele se mexia. Como se faltasse óleo nas juntas. Seu bigode exalava um cheiro de armário fechado.
“O Brasil é uma merda, eu sei, e tudo está errado”, prosseguiu. “Mas será que temos de ser sempre tão desiludidos? O momento em que as pessoas estão curtindo o início de um novo ano é a hora de exprimir alguma esperança, mesmo que a título de distração passageira.”
5. Apesar do cheiro de naftalina do bigode, a companhia do velho era agradável. Eu queria falar sobre literatura, mas ele insistia em falar sobre mulheres. Perguntou-me sobre meus níveis de PSA e do tamanho da minha próstata. Falou também da saudade que sentia de aipim frito. Pediu-me um cigarro, mas eu disse que não fumava.
“Pare de escrever essa crônica”, ele exclamou de repente com voz grave e enferrujada. “Se é que se pode chamar isso de uma crônica. Estou ficando sentimental, vamos dar uma volta.”
Topei. Às vezes é preciso seguir os conselhos de um fantasma de bigode.
6. Caminhamos até a Praia de Ipanema, pois o velho queria ver “mulheres de biquíni”. Avisei-o que, com sorte, talvez até visse alguma de topless. Ele andava com dificuldade e demoramos para chegar. Na praia, uma brisa suave soprava do oceano. Pessoas pegavam sol, jogavam bola, bebiam água de coco, pedalavam, andavam, nadavam, corriam, riam, respiravam. O sol iniciou seu mergulho para o fundo do mar enquanto banhistas aplaudiam. Se houve arrastão, ou topless, ninguém notou. Comentei com o fantasma sobre um pôr do sol a que eu assistira com minha mulher na Grécia. “Humanos, não importa onde e quando, estão sempre aplaudindo o sol”, disse ele, pensativo. Então uma grande explosão tomou forma no horizonte, como se o sol se estilhaçasse de repente, e todos correram em pânico. Quando olhei para o lado, o fantasma já tinha desaparecido.
Eu acho que... - FÁBIO PORCHAT
O Estado de S.Paulo - 19/01
Como é difícil dar uma opinião. Tem aqueles que discordam, tem aqueles que concordam. Tem aqueles que veem na sua opinião um crítica que você mesmo não viu. Tem aqueles que têm certeza de que você é de esquerda e aqueles que afirmam categoricamente que você é direitista.
Tem aqueles que dizem que você é um alienado, que você é muito jovem, que você é branco, que você não é pobre, que você é um merda, que você é preciso em suas observações, tem aqueles que entendem tudo errado, tem aqueles que fazem uma análise completa de uma frase apenas, desvalidando todo o resto. Tem aqueles que acham que você não devia estar fazendo aquilo, tem aqueles que acham que você é uma revelação.
Tem aqueles que conseguem ver algo tão por trás daquilo que tem certeza que o que você está dizendo é exatamente o oposto daquilo tudo. E as pessoas acham tudo isso de uma só opinião. Há algumas semanas, eu disse aqui que eu acho que o Brasil dará conta da Copa do Mundo. Muita gente me disse que o Brasil é um país muito carente em educação e saúde. Eu tenho certeza disso. É um absurdo o que fazemos com nossas crianças e enfermos. Mas isso não invalida o fato de podermos realizar muito bem uma Copa do Mundo.
Ah, mas aqui a polícia é corrupta e os políticos roubam. Sem dúvida. E eu nunca afirmei o contrário. É que parece que se você disser que alguma coisa vai bem por aqui, as coisas que não vão bem invalidam tudo. Não é verdade. Se eu digo que o Brasil oferece gratuitamente o "coquetel" de tratamento de aids para a população, e isso é bom, você não pode contra-argumentar que o ensino fundamental é péssimo. Isso não é um contra-argumento, isso é outra informação.
Uma coisa é uma coisa a outra coisa é outra coisa. Sim, o ensino fundamental no Brasil é de péssima qualidade, mas o "coquetel" gratuito é uma coisa excelente. E eu não tô nem aí se o responsável por isso foi o Serra ou se o Quércia muito antes já havia sugerido isso para o Ulisses. Se o Lula propôs ao Jânio que levou até o Itamar. O que importa é que isso existe, é positivo e não pode ser anulado por conta de um dado ruim.
Me parece que está implícito pra qualquer cidadão brasileiro que o Brasil é um país de terceiro mundo, com vários problemas graves em todas as áreas e que nenhum governo consegue sanar isso. Temos sempre que expor nossos problemas e não mascará-los, justamente para corrigi-los.
Não acho que temos que só falar das coisas boas, mas temos que falar delas também. É muito bom morar no Brasil sim. O Brasil tem os problemas dele, como todos os outros países também têm. De terceiro e de primeiro mundo. Mas não podemos deixar as coisas ruins do nosso país anularem as coisas boas (que são muitas). Nem podemos deixar que as coisas boas dos outros países também anulem as coisas boas do nosso. Sempre vai ter alguém pior e alguém melhor.
Eu gosto de morar no Brasil apesar do Brasil e por causa dele, principalmente. Enfim, essa é só a minha opinião.
Como é difícil dar uma opinião. Tem aqueles que discordam, tem aqueles que concordam. Tem aqueles que veem na sua opinião um crítica que você mesmo não viu. Tem aqueles que têm certeza de que você é de esquerda e aqueles que afirmam categoricamente que você é direitista.
Tem aqueles que dizem que você é um alienado, que você é muito jovem, que você é branco, que você não é pobre, que você é um merda, que você é preciso em suas observações, tem aqueles que entendem tudo errado, tem aqueles que fazem uma análise completa de uma frase apenas, desvalidando todo o resto. Tem aqueles que acham que você não devia estar fazendo aquilo, tem aqueles que acham que você é uma revelação.
Tem aqueles que conseguem ver algo tão por trás daquilo que tem certeza que o que você está dizendo é exatamente o oposto daquilo tudo. E as pessoas acham tudo isso de uma só opinião. Há algumas semanas, eu disse aqui que eu acho que o Brasil dará conta da Copa do Mundo. Muita gente me disse que o Brasil é um país muito carente em educação e saúde. Eu tenho certeza disso. É um absurdo o que fazemos com nossas crianças e enfermos. Mas isso não invalida o fato de podermos realizar muito bem uma Copa do Mundo.
Ah, mas aqui a polícia é corrupta e os políticos roubam. Sem dúvida. E eu nunca afirmei o contrário. É que parece que se você disser que alguma coisa vai bem por aqui, as coisas que não vão bem invalidam tudo. Não é verdade. Se eu digo que o Brasil oferece gratuitamente o "coquetel" de tratamento de aids para a população, e isso é bom, você não pode contra-argumentar que o ensino fundamental é péssimo. Isso não é um contra-argumento, isso é outra informação.
Uma coisa é uma coisa a outra coisa é outra coisa. Sim, o ensino fundamental no Brasil é de péssima qualidade, mas o "coquetel" gratuito é uma coisa excelente. E eu não tô nem aí se o responsável por isso foi o Serra ou se o Quércia muito antes já havia sugerido isso para o Ulisses. Se o Lula propôs ao Jânio que levou até o Itamar. O que importa é que isso existe, é positivo e não pode ser anulado por conta de um dado ruim.
Me parece que está implícito pra qualquer cidadão brasileiro que o Brasil é um país de terceiro mundo, com vários problemas graves em todas as áreas e que nenhum governo consegue sanar isso. Temos sempre que expor nossos problemas e não mascará-los, justamente para corrigi-los.
Não acho que temos que só falar das coisas boas, mas temos que falar delas também. É muito bom morar no Brasil sim. O Brasil tem os problemas dele, como todos os outros países também têm. De terceiro e de primeiro mundo. Mas não podemos deixar as coisas ruins do nosso país anularem as coisas boas (que são muitas). Nem podemos deixar que as coisas boas dos outros países também anulem as coisas boas do nosso. Sempre vai ter alguém pior e alguém melhor.
Eu gosto de morar no Brasil apesar do Brasil e por causa dele, principalmente. Enfim, essa é só a minha opinião.
Sem num nem numa - CAETANO VELOSO
O GLOBO - 19/01
Minha opinião é que 'num' é melhor do que 'em um' e que rolezinhos são expressão de luta de classes
Dê um rolê: você não vai encontrar a contração da preposição “em” com o artigo indefinido em nenhum texto impresso no Brasil em tempos recentes. Mesmo na biografia de Alexandre Frota, em que o português é tratado com demasiada licença, repete-se, até nas transcrições de falas do biografado, a suposta fineza de grafar a preposição separada do artigo. Me lembro (e aqui vai uma homenagem irônica, tanto aos linguistas quanto aos defensores da gramática da norma culta) de ter exposto minha estranheza em relação ao abandono do “num” e do “numa” (e, consequentemente, é claro, do “nuns” e do “numas”) no blog “obraemprogresso” e ter recebido resposta sóbria de Heloisa Chaves, a mais atenta às questões da língua entre os comentadores, confessando que de fato sempre dizia “num” mas escrevia “em um”. Aprendera na escola. É muito mais jovem do que eu e isso me fez observar que talvez tenha havido um acordo, mesmo informal, desautorizando a mencionada contração na linguagem escrita. Quando eu estudei, a contração da preposição “em” com o artigo “um” (e suas variações de gênero e número) era ensinada como a que se dá entre a mesma preposição e o artigo definido: ninguém diz ou escreve “em a” ou “em o”. Por alguma razão, deixou-se de encorajar os estudantes a fazerem o mesmo com artigos indefinidos, ao menos por escrito, já que não costumo ouvir nada além de “nuns” e “numas” nas falas de todos os meus eventuais interlocutores. Imagino o Alexandre Frota contando que, “em uma noite”, botou pra “fuder”. Pode ser que, influenciados pela escrita, alguns já falem assim e eu, com o ouvido viciado, não ouça.
Parece que “num” passou a ser considerado não algo como “no”, mas um caso semelhante ao de “pro”. Falando, digo que vou “pro Rio”. Muitas vezes escrevo assim em e-mails. Mas se preparo um texto sério para alguma coisa (uma orelha, uma contracapa, um release, um artigo) escrevo “para o Rio”. E mesmo que não o faça, sei que estou tomando a liberdade de transcrever um som coloquial que não é normal (esta é a boa palavra) na linguagem escrita. E, mesmo na fala, dizer “para o Rio” não me soa artificial. Apenas demonstra uma correção que pode sugerir ênfase ou detalhamento para maior clareza. Já “em um”… Sei não. Leio: “Em um ano de eleições as raposas levantam as orelhas”. Me pergunto: Por que não “Num ano de eleições”? Parece que, provinciano nascido e criado numa cidade pequena de uma região que não era nem Nordeste, fiquei por fora dos avanços nos currículos escolares. Teimosamente sigo escrevendo “num” e “numa” e “nuns” e “numas”. O final da letra de “O leãozinho” cita a frase “entrar numa” (que em São Paulo passou a ser “numas”, inclusive abandonando o verbo “entrar”). Me lembro (outra vez a próclise que me parece tão bonita — com o português brasileiro também nisso se aproximando do espanhol e sua clareza) de, passando um tempo na Costa do Marfim na casa de Nazaré e Fabrício, este último me ter chamado a atenção para o fato de que “Numa” era o nome do leão de Tarzan. A canção era então recém-composta e o álbum que a inclui só sairia depois de minha volta ao Brasil: botei a palavra “NUMA” toda em caixa-alta na letra impressa no encarte.
Curioso é que passei esses dias aqui na Bahia repetindo a palavra “rolezinho” em conversas com meu filho mais novo e nossos amigos — e todas as vezes eu pronunciei “rolèzinho”. É como se os baianos sempre tivéssemos pronunciado “rolé”, em vez de “rolê” (os da geração que escreve “em um” não devem saber que se usava o acento grave para definir uma sílaba subtônica, em geral em advérbios de modo nascidos de adjetivos proparoxítonos ou em diminutivos de substantivos oxítonos terminados em “e”: escrevíamos “cafèzinho” e teríamos agora que escrever “rolèzinho”, caso a palavra fosse mesmo “rolé” — mas vejo que, se era “rolê” para os Novos Baianos por que seria “rolé” para alguém?). Não sei por que tive esse ataque de baianismo, do qual só me dei conta quando meu filho já tinha tomado o avião para o Rio. Ele é baiano de nascimento mas carioca de formação. Suponho que tenha estranhado a pronúncia. Seja como for, minha opinião é que “num” é melhor do que “em um” e que rolezinhos são expressão de luta de classes. Gosto menos de ler na “Folha” que os black blocs vão tomar para si algo inocente do que “garotos entraram em um shopping”. Quanto a black blocs, tou mais pra Viveiros de Castro do que pra Ruy Castro. Daí usar expressões para mim exóticas como “luta de classes”. Só não acham isso blogueiros que pensam que o “Esquenta” é racista. Pelo menos é o que me diz a lógica. Rolezinhos são revolucionários, sexy e historicamente significativos.
Minha opinião é que 'num' é melhor do que 'em um' e que rolezinhos são expressão de luta de classes
Dê um rolê: você não vai encontrar a contração da preposição “em” com o artigo indefinido em nenhum texto impresso no Brasil em tempos recentes. Mesmo na biografia de Alexandre Frota, em que o português é tratado com demasiada licença, repete-se, até nas transcrições de falas do biografado, a suposta fineza de grafar a preposição separada do artigo. Me lembro (e aqui vai uma homenagem irônica, tanto aos linguistas quanto aos defensores da gramática da norma culta) de ter exposto minha estranheza em relação ao abandono do “num” e do “numa” (e, consequentemente, é claro, do “nuns” e do “numas”) no blog “obraemprogresso” e ter recebido resposta sóbria de Heloisa Chaves, a mais atenta às questões da língua entre os comentadores, confessando que de fato sempre dizia “num” mas escrevia “em um”. Aprendera na escola. É muito mais jovem do que eu e isso me fez observar que talvez tenha havido um acordo, mesmo informal, desautorizando a mencionada contração na linguagem escrita. Quando eu estudei, a contração da preposição “em” com o artigo “um” (e suas variações de gênero e número) era ensinada como a que se dá entre a mesma preposição e o artigo definido: ninguém diz ou escreve “em a” ou “em o”. Por alguma razão, deixou-se de encorajar os estudantes a fazerem o mesmo com artigos indefinidos, ao menos por escrito, já que não costumo ouvir nada além de “nuns” e “numas” nas falas de todos os meus eventuais interlocutores. Imagino o Alexandre Frota contando que, “em uma noite”, botou pra “fuder”. Pode ser que, influenciados pela escrita, alguns já falem assim e eu, com o ouvido viciado, não ouça.
Parece que “num” passou a ser considerado não algo como “no”, mas um caso semelhante ao de “pro”. Falando, digo que vou “pro Rio”. Muitas vezes escrevo assim em e-mails. Mas se preparo um texto sério para alguma coisa (uma orelha, uma contracapa, um release, um artigo) escrevo “para o Rio”. E mesmo que não o faça, sei que estou tomando a liberdade de transcrever um som coloquial que não é normal (esta é a boa palavra) na linguagem escrita. E, mesmo na fala, dizer “para o Rio” não me soa artificial. Apenas demonstra uma correção que pode sugerir ênfase ou detalhamento para maior clareza. Já “em um”… Sei não. Leio: “Em um ano de eleições as raposas levantam as orelhas”. Me pergunto: Por que não “Num ano de eleições”? Parece que, provinciano nascido e criado numa cidade pequena de uma região que não era nem Nordeste, fiquei por fora dos avanços nos currículos escolares. Teimosamente sigo escrevendo “num” e “numa” e “nuns” e “numas”. O final da letra de “O leãozinho” cita a frase “entrar numa” (que em São Paulo passou a ser “numas”, inclusive abandonando o verbo “entrar”). Me lembro (outra vez a próclise que me parece tão bonita — com o português brasileiro também nisso se aproximando do espanhol e sua clareza) de, passando um tempo na Costa do Marfim na casa de Nazaré e Fabrício, este último me ter chamado a atenção para o fato de que “Numa” era o nome do leão de Tarzan. A canção era então recém-composta e o álbum que a inclui só sairia depois de minha volta ao Brasil: botei a palavra “NUMA” toda em caixa-alta na letra impressa no encarte.
Curioso é que passei esses dias aqui na Bahia repetindo a palavra “rolezinho” em conversas com meu filho mais novo e nossos amigos — e todas as vezes eu pronunciei “rolèzinho”. É como se os baianos sempre tivéssemos pronunciado “rolé”, em vez de “rolê” (os da geração que escreve “em um” não devem saber que se usava o acento grave para definir uma sílaba subtônica, em geral em advérbios de modo nascidos de adjetivos proparoxítonos ou em diminutivos de substantivos oxítonos terminados em “e”: escrevíamos “cafèzinho” e teríamos agora que escrever “rolèzinho”, caso a palavra fosse mesmo “rolé” — mas vejo que, se era “rolê” para os Novos Baianos por que seria “rolé” para alguém?). Não sei por que tive esse ataque de baianismo, do qual só me dei conta quando meu filho já tinha tomado o avião para o Rio. Ele é baiano de nascimento mas carioca de formação. Suponho que tenha estranhado a pronúncia. Seja como for, minha opinião é que “num” é melhor do que “em um” e que rolezinhos são expressão de luta de classes. Gosto menos de ler na “Folha” que os black blocs vão tomar para si algo inocente do que “garotos entraram em um shopping”. Quanto a black blocs, tou mais pra Viveiros de Castro do que pra Ruy Castro. Daí usar expressões para mim exóticas como “luta de classes”. Só não acham isso blogueiros que pensam que o “Esquenta” é racista. Pelo menos é o que me diz a lógica. Rolezinhos são revolucionários, sexy e historicamente significativos.
Um animador sem igual - HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 19/01
Ninguém precisa escrever pelos cotovelos para construir uma grande obra - e Aníbal Machado aí está para prová-lo. Ao morrer, faz hoje meio século, aos 69 anos de idade, o escritor mineiro não havia publicado mais do que uma dúzia de contos, reunidos em A Morte da Porta-estandarte e Outras Histórias, e um volume de poemas em prosa, relatos curtos e reflexões, Cadernos de João. Um mês antes, terminara seu livro mais ambicioso, o romance João Ternura, escrito ao longo de quatro décadas e editado postumamente, em 1965. Nos anos 90, inéditos e esparsos seriam recolhidos em Parque de Diversões e A Arte de Viver e Outras Artes.
Foi só - e foi bastante: cambaleante em sua magreza física (proporcional à do autor, diga-se), a obra de Aníbal Machado definitivamente para em pé na paisagem da literatura brasileira, e com muito mais firmeza do que tantas, imoderadas, enxundiosas, que nelas se esparramam. Meu predileto, mesmo não sendo o melhor (nada supera os contos), na cabeceira desde a adolescência: Cadernos de João, naquela esplêndida edição de 1957 que a José Olympio deveria relançar tal e qual, com as vinhetas ocre de Manuel Segalá. Quando acho no sebo, compro - e vou atrás de quem mereça.
À obra em papel se junta outra, imaterial porém não menos relevante: o generoso trabalho de divulgação de ideias e autores a que Aníbal Machado obstinadamente se entregou a vida inteira. Esforço difuso cuja face visível ficariam sendo as famosas "domingueiras" de Aníbal: as reuniões semanais que, de 1935 às vésperas da morte, ele promoveu em sua casa, primeiro na Francisco Sá, 12, em Copacabana, depois no 487 da Visconde de Pirajá, em Ipanema, ao lado das seis filhas (entre elas, Maria Clara Machado) e de Selma, a cunhada com quem se casou ao enviuvar de Aracy.
"Muitos novos receberam ali a iniciação literária e muito livro foi ali batizado", escreveu um dos habitués daquelas noitadas, Otto Maria Carpeaux. "Nenhuma estatística verificará jamais quantos livros importantes, bons ou sofríveis, qual parte da literatura brasileira entre 1930 e 1960, foram concebidos nas conversas daquela sala da rua Visconde de Pirajá; e quanta música boa se inspirou nos cantos folclóricos ali ouvidos."
Carpeaux dizia que Aníbal Machado, "animador sem-par", foi para o Brasil "o Colombo de novos continentes poéticos". Continentes que não se limitavam à poesia posta em versos: a sensibilidade e a inteligência do antenado Aníbal se interessaram igualmente pelas outras artes - em especial, as artes plásticas, o cinema e o teatro. Também nesse terreno foi ele um aplicado divulgador.
As domingueiras começaram sob a forma de jantares íntimos que a multiplicação de convivas logo tornou impraticáveis. O uísque e o garfo-e-faca deram lugar aos salgadinhos, à cerveja, à batida de limão e de maracujá. Não havia visitante ilustre que passasse pelo Rio sem ali fazer escala. Escritores como Albert Camus, a caminho da fama em 1949. Pablo Neruda, já celebridade em 1945. Gente de teatro, como o diretor Jean-Louis Barrault. Orson Welles, filmando no Brasil de 1942. Atrizes do porte de Janette Gaynor e Martine Carol.
Estrelas ou não, todos eram bem acolhidos. "Amigo de Aníbal Machado era quem chegasse, de qualquer país, de qualquer idade, de qualquer cor, de alta ou reduzida voltagem intelectual", escreveu Paulo Mendes Campos ao rememorar os forrobodós de Aníbal, a que não faltavam atrações como Vinicius de Moraes dançando boogie-woogie, Fernando Sabino impressionando a meninada com uma sessão de mágicas e Tônia Carrero, para todos a Mariinha, cintilando no auge de seus encantos. Quando ela entrava na sala, lembra Paulo, "só por um denodado esforço de compostura social a gente podia olhar para outra pessoa".
Não é de espantar que mesmo os penetras fizessem dos fuzuês anibalinos um programa sem erro nas noites cariocas de domingo. Em seu livro sobre Ipanema, Ruy Castro recuperou a deliciosa história de um desses bicões, que, sem saber com quem falava, propôs ao anfitrião um chope em lugar mais animado. "Não posso", explicou o escritor, "tenho que dormir com a dona da casa..."
Ninguém precisa escrever pelos cotovelos para construir uma grande obra - e Aníbal Machado aí está para prová-lo. Ao morrer, faz hoje meio século, aos 69 anos de idade, o escritor mineiro não havia publicado mais do que uma dúzia de contos, reunidos em A Morte da Porta-estandarte e Outras Histórias, e um volume de poemas em prosa, relatos curtos e reflexões, Cadernos de João. Um mês antes, terminara seu livro mais ambicioso, o romance João Ternura, escrito ao longo de quatro décadas e editado postumamente, em 1965. Nos anos 90, inéditos e esparsos seriam recolhidos em Parque de Diversões e A Arte de Viver e Outras Artes.
Foi só - e foi bastante: cambaleante em sua magreza física (proporcional à do autor, diga-se), a obra de Aníbal Machado definitivamente para em pé na paisagem da literatura brasileira, e com muito mais firmeza do que tantas, imoderadas, enxundiosas, que nelas se esparramam. Meu predileto, mesmo não sendo o melhor (nada supera os contos), na cabeceira desde a adolescência: Cadernos de João, naquela esplêndida edição de 1957 que a José Olympio deveria relançar tal e qual, com as vinhetas ocre de Manuel Segalá. Quando acho no sebo, compro - e vou atrás de quem mereça.
À obra em papel se junta outra, imaterial porém não menos relevante: o generoso trabalho de divulgação de ideias e autores a que Aníbal Machado obstinadamente se entregou a vida inteira. Esforço difuso cuja face visível ficariam sendo as famosas "domingueiras" de Aníbal: as reuniões semanais que, de 1935 às vésperas da morte, ele promoveu em sua casa, primeiro na Francisco Sá, 12, em Copacabana, depois no 487 da Visconde de Pirajá, em Ipanema, ao lado das seis filhas (entre elas, Maria Clara Machado) e de Selma, a cunhada com quem se casou ao enviuvar de Aracy.
"Muitos novos receberam ali a iniciação literária e muito livro foi ali batizado", escreveu um dos habitués daquelas noitadas, Otto Maria Carpeaux. "Nenhuma estatística verificará jamais quantos livros importantes, bons ou sofríveis, qual parte da literatura brasileira entre 1930 e 1960, foram concebidos nas conversas daquela sala da rua Visconde de Pirajá; e quanta música boa se inspirou nos cantos folclóricos ali ouvidos."
Carpeaux dizia que Aníbal Machado, "animador sem-par", foi para o Brasil "o Colombo de novos continentes poéticos". Continentes que não se limitavam à poesia posta em versos: a sensibilidade e a inteligência do antenado Aníbal se interessaram igualmente pelas outras artes - em especial, as artes plásticas, o cinema e o teatro. Também nesse terreno foi ele um aplicado divulgador.
As domingueiras começaram sob a forma de jantares íntimos que a multiplicação de convivas logo tornou impraticáveis. O uísque e o garfo-e-faca deram lugar aos salgadinhos, à cerveja, à batida de limão e de maracujá. Não havia visitante ilustre que passasse pelo Rio sem ali fazer escala. Escritores como Albert Camus, a caminho da fama em 1949. Pablo Neruda, já celebridade em 1945. Gente de teatro, como o diretor Jean-Louis Barrault. Orson Welles, filmando no Brasil de 1942. Atrizes do porte de Janette Gaynor e Martine Carol.
Estrelas ou não, todos eram bem acolhidos. "Amigo de Aníbal Machado era quem chegasse, de qualquer país, de qualquer idade, de qualquer cor, de alta ou reduzida voltagem intelectual", escreveu Paulo Mendes Campos ao rememorar os forrobodós de Aníbal, a que não faltavam atrações como Vinicius de Moraes dançando boogie-woogie, Fernando Sabino impressionando a meninada com uma sessão de mágicas e Tônia Carrero, para todos a Mariinha, cintilando no auge de seus encantos. Quando ela entrava na sala, lembra Paulo, "só por um denodado esforço de compostura social a gente podia olhar para outra pessoa".
Não é de espantar que mesmo os penetras fizessem dos fuzuês anibalinos um programa sem erro nas noites cariocas de domingo. Em seu livro sobre Ipanema, Ruy Castro recuperou a deliciosa história de um desses bicões, que, sem saber com quem falava, propôs ao anfitrião um chope em lugar mais animado. "Não posso", explicou o escritor, "tenho que dormir com a dona da casa..."
O rolezão do verão - RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA
Rolezinho não é fenômeno político ou social, não é novidade. É um modismo da estação selvagem
Que me perdoem a ministra sem-noção, os policiais truculentos, os sem-teto oportunistas, os lojistas apavorados, os esquerdistas e os fascistas, que tal baixar a bola e parar com a histeria? Antes que realmente se dê motivo para vandalismo?
Um rolezão estava programado para este domingo no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, mas foi proibido por uma juíza. Oito mil jovens tinham confirmado pelas redes sociais que iriam a esse centro comercial de luxo, num dos metros quadrados mais caros do Brasil.
Eles curtem grifes, zoação, funk e beijaços. E detestam política (não há como culpá-los, não é, Roseana e Renan, a dupla caipira RR?). Pardos e mestiços, como a maioria dos brasileiros, e não brancos ou negros, eles parecem clones do Neymar sem brincos de brilhante.
Detesto shopping e multidão. Abomino a ânsia do consumo. Prefiro as ruas, mesmo com pedrinhas portuguesas. Entendo quem goste de shopping, e são consumidores de todas as classes sociais – especialmente em tempos de liquidação. Não dou rolezinho em shopping. Não como em shopping. Quando vou a um cinema ou teatro em shopping, subo de elevador para não rolar pelos corredores de vitrines, escadas rolantes e praças de alimentação. Minha praça é outra, tem árvore, vento, flores e banquinhos, seja no Rio, Londres ou Paris. Mais na Europa, admito, porque as praças brasileiras são maltratadas pelos prefeitos e pela população.
Evitar shoppings não me livra do rolezão do verão. As grandes cidades, especialmente as litorâneas, se tornam palco de um imenso rolezão – festivo ou agressivo – quando as temperaturas alcançam 40 graus e o Carnaval se aproxima. Quem viu as fotos do mar e da areia em Ipanema nos últimos fins de semana, quem testemunhou os arrastões... Quem caminha ou vai à praia no Rio na estação selvagem é personagem do rolezão. Está no calendário. Acontece antes de os blocos carnavalescos assaltarem (no bom sentido) as ruas e avenidas cariocas. Estamos todos misturados. Favelados, periféricos, suburbanos, playboys, peruas, gostosos, gostosas, atletas, atores, artistas, idosos, bebês.
Corre-corre dá medo? Dá, muito. Quando passo por um grupo grande e barulhento de pivetes, guardo meu iPhone. Preconceito ou realismo? Neste verão sem policiamento ostensivo (os policiais estão todos nas UPPs), o que tem de garoto roubando o celular direto do seu ouvido, no meio da conversa, seja você gringo ou local... Recordo um filme colombiano de 2000, La virgen de los sicarios (A virgem dos assassinos), baseado no romance homônimo de Fernando Vallejo. O filme, com roteiro do escritor, retrata sua cidade natal, Medellín, tomada por furtos e assaltos de adolescentes.
Nos rolezinhos dos shoppings, está cheio de gente mal-educada? Está. Acontece em todo lugar e com todas as classes sociais. Dos riquinhos e fortinhos aos pobrinhos e magrinhos, dos héteros aos gays, dos ambulantes aos quiosqueiros, dos flanelinhas aos motoristas de ônibus e de possantes. Como o brasileiro, em geral, é mal-educado! Socorro. Confunde extroversão com barulho. Espaço público de convívio social significa “espaço onde só se conversa aos gritos” e onde gente fura fila sempre que pode.
Não me venham classificar rolezinho como fenômeno político ou social... Ou, pior, como alguma “novidade”, positiva ou negativa. Enxergo como mais um factoide de verão abaixo do Equador, igual a tantos outros. Como o toplessaço que não colou por preconceito. Quanta hipocrisia numa sociedade hipersexualizada de bunda de fora.
A bagunça mudou de cenário porque está quente do lado de fora e, nos shoppings, o ar-condicionado funciona. Eles vão lá se divertir, “catar mulher”, provocar, conseguir seus 15 minutos de fama, fugir de policial, beijar como nos blocos. Não deram a sorte de entrar na casa do BBB. Recusam-se a ser eliminados. Torcem para o circo pegar fogo e, assim, aparecer na televisão, na primeira página dos jornais e na capa das revistas.
Anônimos e invisíveis, ganham aura de black bloc, experimentam o poder de arregimentar multidões nas redes sociais. Causam furor, torcidas pró e contra. Nunca sonharam tão alto. Só mesmo num país em que a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, incita ao racismo, dizendo que os problemas com os rolezinhos são “derivados da reação de pessoas brancas”. Santa ignorância. A escola é do Lula. Ele disse em 2009 que a crise era causada por “gente branca de olhos azuis”.
Os jovens dos rolezões são ajudados pela burrice dos policiais, prefeitos e governadores, que os transformam em mitos e inflam seus egos. Bombas de gás? Multa de R$ 10 mil? Se os policiais fardados são incapazes de evitar furtos de um bando de moleques sem apelar para a brutalidade ou a ignorância, estão eliminados do BBB – deu para entender, brothers?
Rolezinho não é fenômeno político ou social, não é novidade. É um modismo da estação selvagem
Que me perdoem a ministra sem-noção, os policiais truculentos, os sem-teto oportunistas, os lojistas apavorados, os esquerdistas e os fascistas, que tal baixar a bola e parar com a histeria? Antes que realmente se dê motivo para vandalismo?
Um rolezão estava programado para este domingo no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, mas foi proibido por uma juíza. Oito mil jovens tinham confirmado pelas redes sociais que iriam a esse centro comercial de luxo, num dos metros quadrados mais caros do Brasil.
Eles curtem grifes, zoação, funk e beijaços. E detestam política (não há como culpá-los, não é, Roseana e Renan, a dupla caipira RR?). Pardos e mestiços, como a maioria dos brasileiros, e não brancos ou negros, eles parecem clones do Neymar sem brincos de brilhante.
Detesto shopping e multidão. Abomino a ânsia do consumo. Prefiro as ruas, mesmo com pedrinhas portuguesas. Entendo quem goste de shopping, e são consumidores de todas as classes sociais – especialmente em tempos de liquidação. Não dou rolezinho em shopping. Não como em shopping. Quando vou a um cinema ou teatro em shopping, subo de elevador para não rolar pelos corredores de vitrines, escadas rolantes e praças de alimentação. Minha praça é outra, tem árvore, vento, flores e banquinhos, seja no Rio, Londres ou Paris. Mais na Europa, admito, porque as praças brasileiras são maltratadas pelos prefeitos e pela população.
Evitar shoppings não me livra do rolezão do verão. As grandes cidades, especialmente as litorâneas, se tornam palco de um imenso rolezão – festivo ou agressivo – quando as temperaturas alcançam 40 graus e o Carnaval se aproxima. Quem viu as fotos do mar e da areia em Ipanema nos últimos fins de semana, quem testemunhou os arrastões... Quem caminha ou vai à praia no Rio na estação selvagem é personagem do rolezão. Está no calendário. Acontece antes de os blocos carnavalescos assaltarem (no bom sentido) as ruas e avenidas cariocas. Estamos todos misturados. Favelados, periféricos, suburbanos, playboys, peruas, gostosos, gostosas, atletas, atores, artistas, idosos, bebês.
Corre-corre dá medo? Dá, muito. Quando passo por um grupo grande e barulhento de pivetes, guardo meu iPhone. Preconceito ou realismo? Neste verão sem policiamento ostensivo (os policiais estão todos nas UPPs), o que tem de garoto roubando o celular direto do seu ouvido, no meio da conversa, seja você gringo ou local... Recordo um filme colombiano de 2000, La virgen de los sicarios (A virgem dos assassinos), baseado no romance homônimo de Fernando Vallejo. O filme, com roteiro do escritor, retrata sua cidade natal, Medellín, tomada por furtos e assaltos de adolescentes.
Nos rolezinhos dos shoppings, está cheio de gente mal-educada? Está. Acontece em todo lugar e com todas as classes sociais. Dos riquinhos e fortinhos aos pobrinhos e magrinhos, dos héteros aos gays, dos ambulantes aos quiosqueiros, dos flanelinhas aos motoristas de ônibus e de possantes. Como o brasileiro, em geral, é mal-educado! Socorro. Confunde extroversão com barulho. Espaço público de convívio social significa “espaço onde só se conversa aos gritos” e onde gente fura fila sempre que pode.
Não me venham classificar rolezinho como fenômeno político ou social... Ou, pior, como alguma “novidade”, positiva ou negativa. Enxergo como mais um factoide de verão abaixo do Equador, igual a tantos outros. Como o toplessaço que não colou por preconceito. Quanta hipocrisia numa sociedade hipersexualizada de bunda de fora.
A bagunça mudou de cenário porque está quente do lado de fora e, nos shoppings, o ar-condicionado funciona. Eles vão lá se divertir, “catar mulher”, provocar, conseguir seus 15 minutos de fama, fugir de policial, beijar como nos blocos. Não deram a sorte de entrar na casa do BBB. Recusam-se a ser eliminados. Torcem para o circo pegar fogo e, assim, aparecer na televisão, na primeira página dos jornais e na capa das revistas.
Anônimos e invisíveis, ganham aura de black bloc, experimentam o poder de arregimentar multidões nas redes sociais. Causam furor, torcidas pró e contra. Nunca sonharam tão alto. Só mesmo num país em que a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, incita ao racismo, dizendo que os problemas com os rolezinhos são “derivados da reação de pessoas brancas”. Santa ignorância. A escola é do Lula. Ele disse em 2009 que a crise era causada por “gente branca de olhos azuis”.
Os jovens dos rolezões são ajudados pela burrice dos policiais, prefeitos e governadores, que os transformam em mitos e inflam seus egos. Bombas de gás? Multa de R$ 10 mil? Se os policiais fardados são incapazes de evitar furtos de um bando de moleques sem apelar para a brutalidade ou a ignorância, estão eliminados do BBB – deu para entender, brothers?
Mudaremos - FABRÍCIO CARPINEJAR
ZERO HORA - 19/01
Era aquele que dizia que não bebeu nada, apesar do bafo de cerveja.
Era aquele que dizia que não fumou, apesar do cheiro de cigarro.
Era aquele que dizia que não pegou as chaves, apesar de ter sido o último a sair com elas.
Era aquele que negava antes de ouvir a pergunta. Das situações mais triviais às mais complexas.
Desprezava as pequenas mentiras. Acreditava que representavam lapsos necessários, pequenas omissões imprescindíveis para viver a dois.
Eu me transformei por amor. Busco ser honesto sempre, assumindo as mancadas e as falhas.
Mentir não me tornava imperfeito, mentia porque não admitia errar. Não aceitava arranhar a minha imagem. Somente mente quem se julga perfeito, e quer esconder seus vacilos.
Atravessei um tabu de décadas, deixei para trás antigas crenças que não entendo de onde tirei.
Todo homem é conservador e resiste às metamorfoses. Até se apaixonar.
“Não vou mudar”, portanto, é uma frase falsa. Apague de seu vocabulário.
Por amor, mudaremos sim. É só mudando que amadurecemos.
Por amor, nos revolucionamos sim.
Pode vir com sua teimosia, com seu orgulho, com sua arrogância, afirmando que é imutável, que não mexerá em seu temperamento, que tem seus hábitos, que foi assim toda a vida, mas mudará sim.
A convivência influencia, abre as ideias, destrói intolerâncias, força a mutação emocional.
Amor é exceção. É quando praticamos a exceção. Pode deixar as regras para os outros.
Quer uma maior declaração do que tentar fazer o que não admitia ou apreciar o que recusava?
Se você mantinha distância de água, por amor fará natação.
Se você alertou que jamais dirigiria um carro, por amor entrará numa autoescola.
Se você alimentava horror de avião, atravessará o oceano atlântico de seu medo.
No relacionamento que dá certo, promessa não é maldição. Ainda que tenha lavrado verdades no cartório, elas serão lavadas dentro de casa: vão desbotar, vão amarelar, vão desaparecer.
Já vi gente parar de beber, parar de fumar, parar de trapacear, parar de trair.
Vícios são abolidos, virtudes são regeneradas: mudaremos sim.
Encontraremos coragem no olhar terno e confiante de nossa esposa. Localizaremos vontade na cumplicidade ingênua do filho.
Mudaremos sempre. Mudaremos vários fins enquanto não vem nossa morte.
Era aquele que dizia que não bebeu nada, apesar do bafo de cerveja.
Era aquele que dizia que não fumou, apesar do cheiro de cigarro.
Era aquele que dizia que não pegou as chaves, apesar de ter sido o último a sair com elas.
Era aquele que negava antes de ouvir a pergunta. Das situações mais triviais às mais complexas.
Desprezava as pequenas mentiras. Acreditava que representavam lapsos necessários, pequenas omissões imprescindíveis para viver a dois.
Eu me transformei por amor. Busco ser honesto sempre, assumindo as mancadas e as falhas.
Mentir não me tornava imperfeito, mentia porque não admitia errar. Não aceitava arranhar a minha imagem. Somente mente quem se julga perfeito, e quer esconder seus vacilos.
Atravessei um tabu de décadas, deixei para trás antigas crenças que não entendo de onde tirei.
Todo homem é conservador e resiste às metamorfoses. Até se apaixonar.
“Não vou mudar”, portanto, é uma frase falsa. Apague de seu vocabulário.
Por amor, mudaremos sim. É só mudando que amadurecemos.
Por amor, nos revolucionamos sim.
Pode vir com sua teimosia, com seu orgulho, com sua arrogância, afirmando que é imutável, que não mexerá em seu temperamento, que tem seus hábitos, que foi assim toda a vida, mas mudará sim.
A convivência influencia, abre as ideias, destrói intolerâncias, força a mutação emocional.
Amor é exceção. É quando praticamos a exceção. Pode deixar as regras para os outros.
Quer uma maior declaração do que tentar fazer o que não admitia ou apreciar o que recusava?
Se você mantinha distância de água, por amor fará natação.
Se você alertou que jamais dirigiria um carro, por amor entrará numa autoescola.
Se você alimentava horror de avião, atravessará o oceano atlântico de seu medo.
No relacionamento que dá certo, promessa não é maldição. Ainda que tenha lavrado verdades no cartório, elas serão lavadas dentro de casa: vão desbotar, vão amarelar, vão desaparecer.
Já vi gente parar de beber, parar de fumar, parar de trapacear, parar de trair.
Vícios são abolidos, virtudes são regeneradas: mudaremos sim.
Encontraremos coragem no olhar terno e confiante de nossa esposa. Localizaremos vontade na cumplicidade ingênua do filho.
Mudaremos sempre. Mudaremos vários fins enquanto não vem nossa morte.
Cartilhas - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O ESTADÃO - 19/01
À ANTIGA: Eva viu a uva. O vovô viu a Eva
MODERNA: O vovô viu Eva vendo a uva.
PÓS-MODERNA: Eva viu a uva vendo o vovô.
CAPITALISTA: Eva vendeu a uva ao vovô.
SOCIALISTA: Eva e o vovô dividiram a uva.
COMPETITIVA: Eva viu a uva primeiro, o vovô ficou sem uva.
SOCIAL-DEMOCRATA: Eva e o vovô acabariam dividindo a uva, mas só depois de um longo processo de conscientização, sem recorrer à violência.
TRÁGICA: Eva tirou a uva da boca do vovô à força e depois engasgou-se com ela, enquanto o vovô tinha um ataque cardíaco.
ERÓTICA: Eva chupou a uva fazendo “mmmm” enquanto o vovô fingia que não via.
AMERICANIZADA: Eva viu the book on the table enquanto o vovô recebia o delivery da uva.
FILOSÓFICA: Eva viu a uva, logo existe. O vovô viu Eva vendo a uva, mas não pode dizer com certeza que viu mesmo Eva vendo a uva ou apenas uma projeção conceitualizada da sua imagem no seu sistema neurológico, o que não comprovaria sua existência.
NOIR: Eva pressentiu a presença da uva na escuridão, mas antes que pudesse virar-se e vê-la sentiu a ponta de uma arma nas suas costas e ouviu a voz do vovô dizendo: “Esta é minha, baby”.
SURREALISTA: Eva ouviu a vulva do vovô.
CULINÁRIA: Eva viu a uva, cortou a uva em pedaços, botou no molho do peixe junto com alcaparras e vinho branco – e o vovô só olhando.
SIMBÓLICA: Eva ver a uva significa a reiteração de um ato de conhecimento do mundo que está na origem da cultura humana. Eva, a primeira da sua espécie; uva, a coisa a ser entendida, a realidade extra espécie que, inaugurando a relação gente/mundo, é precondição para o desenvolvimento das artes fabris e da agricultura e, portanto, da civilização. Já o simbolismo do vovô não é tão claro.
TEATRAL:
Eva – Oba, uma uva.
Vovô – Cuidado.
Eva – Por quê?
Vovô – Você sabe, os agrotóxicos.
Eva –Ora vovô, fazer um drama só por causa de...
Vovô – Não. Conheço gente que comeu uma uva e morreu na hora. Uma uva pode ser tão mortal quanto os punhais que abateram Cesar, na peça de Shakespeare.
Eva – Não vou comer. Só vou olhar.
Vovô – Citando de novo o bardo: também nos envenenamos pelos olhos.
Eva – Shakespeare disse isso?
Vovô – Não sei, mas soa como dele.
Eva – De qualquer jeito, não vou comer.
Vovô – Vou ficar de olho em você, menina.
APOCALÍPTICA: Eva verá a uva, o vovô verá a Eva, e este será o último acontecimento na História do mundo antes de começar a chover enxofre.
À ANTIGA: Eva viu a uva. O vovô viu a Eva
MODERNA: O vovô viu Eva vendo a uva.
PÓS-MODERNA: Eva viu a uva vendo o vovô.
CAPITALISTA: Eva vendeu a uva ao vovô.
SOCIALISTA: Eva e o vovô dividiram a uva.
COMPETITIVA: Eva viu a uva primeiro, o vovô ficou sem uva.
SOCIAL-DEMOCRATA: Eva e o vovô acabariam dividindo a uva, mas só depois de um longo processo de conscientização, sem recorrer à violência.
TRÁGICA: Eva tirou a uva da boca do vovô à força e depois engasgou-se com ela, enquanto o vovô tinha um ataque cardíaco.
ERÓTICA: Eva chupou a uva fazendo “mmmm” enquanto o vovô fingia que não via.
AMERICANIZADA: Eva viu the book on the table enquanto o vovô recebia o delivery da uva.
FILOSÓFICA: Eva viu a uva, logo existe. O vovô viu Eva vendo a uva, mas não pode dizer com certeza que viu mesmo Eva vendo a uva ou apenas uma projeção conceitualizada da sua imagem no seu sistema neurológico, o que não comprovaria sua existência.
NOIR: Eva pressentiu a presença da uva na escuridão, mas antes que pudesse virar-se e vê-la sentiu a ponta de uma arma nas suas costas e ouviu a voz do vovô dizendo: “Esta é minha, baby”.
SURREALISTA: Eva ouviu a vulva do vovô.
CULINÁRIA: Eva viu a uva, cortou a uva em pedaços, botou no molho do peixe junto com alcaparras e vinho branco – e o vovô só olhando.
SIMBÓLICA: Eva ver a uva significa a reiteração de um ato de conhecimento do mundo que está na origem da cultura humana. Eva, a primeira da sua espécie; uva, a coisa a ser entendida, a realidade extra espécie que, inaugurando a relação gente/mundo, é precondição para o desenvolvimento das artes fabris e da agricultura e, portanto, da civilização. Já o simbolismo do vovô não é tão claro.
TEATRAL:
Eva – Oba, uma uva.
Vovô – Cuidado.
Eva – Por quê?
Vovô – Você sabe, os agrotóxicos.
Eva –Ora vovô, fazer um drama só por causa de...
Vovô – Não. Conheço gente que comeu uma uva e morreu na hora. Uma uva pode ser tão mortal quanto os punhais que abateram Cesar, na peça de Shakespeare.
Eva – Não vou comer. Só vou olhar.
Vovô – Citando de novo o bardo: também nos envenenamos pelos olhos.
Eva – Shakespeare disse isso?
Vovô – Não sei, mas soa como dele.
Eva – De qualquer jeito, não vou comer.
Vovô – Vou ficar de olho em você, menina.
APOCALÍPTICA: Eva verá a uva, o vovô verá a Eva, e este será o último acontecimento na História do mundo antes de começar a chover enxofre.
A arte de ouvir o que merece ser ouvido - ROBERTO GOMES
GAZETA DO POVO - 19/01
Um amigo telefona do outro lado do Oceano Atlântico para comunicar que, segundo seu médico, está ficando surdo. É verdade que não anunciava nenhuma novidade – já havíamos conversado a respeito – mas mesmo assim falou num tom melancólico de quem espera algum conforto.
Não me dei por achado. Disse a ele:
– Comemore. Com o mundo do jeito que está, com tanta porcaria sonora solta no ar, ficar surdo é uma bênção. A surdez vai te livrar de chateações, inclusive das novas duplas sertanejas, dos cantores românticos, dos discursos políticos, das pregações evangélicas. Portanto, fique feliz!
Acho que fiz bem, pois ele deu uma gargalhada estrondosa. Num mundo abarrotado de ruídos endoidecidos, isso de surdez pode ser útil, concluímos.
Há muitos anos trabalhei na Aliança Francesa como bibliotecário. Jovem, tímido e ingênuo, fiquei comovido certa ocasião com um senhor francês, arquiteto, que surgia por ali a cada três dias ao lado de sua mulher. Ela falava alto, tinha opiniões constrangedoras sobre todos os assuntos, dava risadas sarcásticas, convertendo o mundo a sua volta num pandemônio. Ele, quieto e meio sonso, era surdo.
Fiquei triste com a surdez daquele homem. Entrava em silêncio, cumprimentava com um leve movimento de cabeça e ia bisbilhotar as estantes da biblioteca. Remexia nos livros, sempre achava um volume de poemas – amava Baudelaire e Rimbaud – e ficava a um canto lendo poemas enquanto sua mulher seguia em sua missão ensurdecedora de falar pelos cotovelos.
Seria um homem triste. Triste pela surdez, pelo isolamento do mundo, mas me parecia ter uma alma de poeta. Até que certo dia, quando eu também folheava um livro, ele se aproximou de mim. Fiquei tenso, pois não imaginava como conversar com um surdo, ainda mais em francês. Mas ele sorriu e, com voz calma, me perguntou o que estava lendo. Respondi que relia – tentando decorar – o poema de Verlaine, “Chanson d’automne”, que até hoje considero o mais perfeito da literatura universal.
Ele se empolgou e me deu uma aula a respeito de Verlaine, insinuando educadamente que eu já saberia de tudo aquilo que estava me dizendo. Eu não sabia, é claro. Fiquei pasmo, não só com seu conhecimento de Verlaine, mas com o fato de que falava com elegância e ouvia perfeitamente.
Assim ficamos num papo tranquilo, só atrapalhado pelo meu sofrível francês da época, que era capenga. Aliás, continua capenga.
Foi quando ouvi a voz de trovão de sua mulher. Atropelou nossa conversa sem cerimônia e disse que já estava na hora.
Ele colocou a mão no ouvido direito e perguntou:
– O que disse?
Ela subiu o tom:
– Vamos embora!
Ele me olhou, sorriu e, com um sinal, deixou claro que voltaríamos a conversar. E saiu, como se diria em outras épocas, à francesa.
Só então fui descobrir o que todos ali na Aliança já sabiam. O triste arquiteto só era surdo quando sua mulher estava por perto. Escutava perfeitamente quando queria e era surdo ao que ela dizia, com o que mantinha a alma leve para se dedicar ao seus poemas e projetos.
Era, desta forma, um homem feliz. O que é raro.
Um amigo telefona do outro lado do Oceano Atlântico para comunicar que, segundo seu médico, está ficando surdo. É verdade que não anunciava nenhuma novidade – já havíamos conversado a respeito – mas mesmo assim falou num tom melancólico de quem espera algum conforto.
Não me dei por achado. Disse a ele:
– Comemore. Com o mundo do jeito que está, com tanta porcaria sonora solta no ar, ficar surdo é uma bênção. A surdez vai te livrar de chateações, inclusive das novas duplas sertanejas, dos cantores românticos, dos discursos políticos, das pregações evangélicas. Portanto, fique feliz!
Acho que fiz bem, pois ele deu uma gargalhada estrondosa. Num mundo abarrotado de ruídos endoidecidos, isso de surdez pode ser útil, concluímos.
Há muitos anos trabalhei na Aliança Francesa como bibliotecário. Jovem, tímido e ingênuo, fiquei comovido certa ocasião com um senhor francês, arquiteto, que surgia por ali a cada três dias ao lado de sua mulher. Ela falava alto, tinha opiniões constrangedoras sobre todos os assuntos, dava risadas sarcásticas, convertendo o mundo a sua volta num pandemônio. Ele, quieto e meio sonso, era surdo.
Fiquei triste com a surdez daquele homem. Entrava em silêncio, cumprimentava com um leve movimento de cabeça e ia bisbilhotar as estantes da biblioteca. Remexia nos livros, sempre achava um volume de poemas – amava Baudelaire e Rimbaud – e ficava a um canto lendo poemas enquanto sua mulher seguia em sua missão ensurdecedora de falar pelos cotovelos.
Seria um homem triste. Triste pela surdez, pelo isolamento do mundo, mas me parecia ter uma alma de poeta. Até que certo dia, quando eu também folheava um livro, ele se aproximou de mim. Fiquei tenso, pois não imaginava como conversar com um surdo, ainda mais em francês. Mas ele sorriu e, com voz calma, me perguntou o que estava lendo. Respondi que relia – tentando decorar – o poema de Verlaine, “Chanson d’automne”, que até hoje considero o mais perfeito da literatura universal.
Ele se empolgou e me deu uma aula a respeito de Verlaine, insinuando educadamente que eu já saberia de tudo aquilo que estava me dizendo. Eu não sabia, é claro. Fiquei pasmo, não só com seu conhecimento de Verlaine, mas com o fato de que falava com elegância e ouvia perfeitamente.
Assim ficamos num papo tranquilo, só atrapalhado pelo meu sofrível francês da época, que era capenga. Aliás, continua capenga.
Foi quando ouvi a voz de trovão de sua mulher. Atropelou nossa conversa sem cerimônia e disse que já estava na hora.
Ele colocou a mão no ouvido direito e perguntou:
– O que disse?
Ela subiu o tom:
– Vamos embora!
Ele me olhou, sorriu e, com um sinal, deixou claro que voltaríamos a conversar. E saiu, como se diria em outras épocas, à francesa.
Só então fui descobrir o que todos ali na Aliança já sabiam. O triste arquiteto só era surdo quando sua mulher estava por perto. Escutava perfeitamente quando queria e era surdo ao que ela dizia, com o que mantinha a alma leve para se dedicar ao seus poemas e projetos.
Era, desta forma, um homem feliz. O que é raro.
Ueba! Maranhão vira Lagostão! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 19/01
'Senadores fazem inspeção em Pedrinhas.' E ninguém se lembrou de trancar a porta por fora? Rarará
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Piada Pronta: "Polícia flagra racha de charretes em Botucatu". É remake de "Ben Hur"? E como eles dão cavalo de pau em charrete? Rarará.
"Senadores fazem inspeção em Pedrinhas". E ninguém se lembrou de trancar a porta por fora? Rarará.
Três fatos abalaram a semana: Maranhão, rolezinhos e o terno vermelho do Messi! Ele tava parecendo garçom de puteiro! Cantor de festa de casamento! Mágico do Circo Vostok!
Mas nada bate aquele smoking do ano passado: preto com bolinhas brancas. Galinha de Angola! O Messi tem duas estilistas: a filha do Dunga e a estilista do Faustão!
E o Maranhão? Ops, Lagostão! Maranhão vira Lagostão! Roseana Sarney é desgovernadora do Estado do Lagostão! E aí perguntaram pro Sarney: "Como é que os presídios ficaram nessa barbárie?". "Culpa do meu antecessor!". "Quem?". "Dom Pedro 2º". Rarará!
E os rolezinhos? Posso entrar no shopping de bermuda Bob Marley? Não, só com polo de gola levantada e Visa no bolso!
Facebook Urgente! Represália! Tá agendado um rolezinho de coxinhas em Heliópolis. No bar do Russo! Com manobrista e transmissão direta do "Cidade Aleta". E um participante: "Como é que tá o asfalto lá? Meu Fusion é rebaixado".
E as autoridades estão atentas! Alckmim lança rodízio de rolezinhos e pedágio em porta de shopping. E o Haddad vai criar faixa exclusiva para rolezinhos dentro dos shoppings. E o mauricinhos estão agendando um rolezinho na periferia de Miami. Rarará.
E a PM chama bala de borracha de "munição elastômera". Já imaginou? "Cuidado! Lá vem uma munição elastômera". PUNF! Rarará!
E socuerro! Todos para o abrigo! Me mate um bode! Começou o "BBB"! Abriram o açougue! A Turma do Friboi! As Gostosas do Friboi e os Rinocerontes de Sunga! E a pérola do programa: "A maldade tá no olho de quem vê e no volume da sua sunga". PAF!
E eu já disse que a próxima geração no Brasil vai nascer falando "Oi, Bial!". Papai, mamãe e oibial. Oibial virou uma palavra só! Rarará!
E um amigo está numa pousada no Nordeste com o cartaz: "Quem quiser café na cama, vá dormir na cozinha". Concordo! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
'Senadores fazem inspeção em Pedrinhas.' E ninguém se lembrou de trancar a porta por fora? Rarará
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Piada Pronta: "Polícia flagra racha de charretes em Botucatu". É remake de "Ben Hur"? E como eles dão cavalo de pau em charrete? Rarará.
"Senadores fazem inspeção em Pedrinhas". E ninguém se lembrou de trancar a porta por fora? Rarará.
Três fatos abalaram a semana: Maranhão, rolezinhos e o terno vermelho do Messi! Ele tava parecendo garçom de puteiro! Cantor de festa de casamento! Mágico do Circo Vostok!
Mas nada bate aquele smoking do ano passado: preto com bolinhas brancas. Galinha de Angola! O Messi tem duas estilistas: a filha do Dunga e a estilista do Faustão!
E o Maranhão? Ops, Lagostão! Maranhão vira Lagostão! Roseana Sarney é desgovernadora do Estado do Lagostão! E aí perguntaram pro Sarney: "Como é que os presídios ficaram nessa barbárie?". "Culpa do meu antecessor!". "Quem?". "Dom Pedro 2º". Rarará!
E os rolezinhos? Posso entrar no shopping de bermuda Bob Marley? Não, só com polo de gola levantada e Visa no bolso!
Facebook Urgente! Represália! Tá agendado um rolezinho de coxinhas em Heliópolis. No bar do Russo! Com manobrista e transmissão direta do "Cidade Aleta". E um participante: "Como é que tá o asfalto lá? Meu Fusion é rebaixado".
E as autoridades estão atentas! Alckmim lança rodízio de rolezinhos e pedágio em porta de shopping. E o Haddad vai criar faixa exclusiva para rolezinhos dentro dos shoppings. E o mauricinhos estão agendando um rolezinho na periferia de Miami. Rarará.
E a PM chama bala de borracha de "munição elastômera". Já imaginou? "Cuidado! Lá vem uma munição elastômera". PUNF! Rarará!
E socuerro! Todos para o abrigo! Me mate um bode! Começou o "BBB"! Abriram o açougue! A Turma do Friboi! As Gostosas do Friboi e os Rinocerontes de Sunga! E a pérola do programa: "A maldade tá no olho de quem vê e no volume da sua sunga". PAF!
E eu já disse que a próxima geração no Brasil vai nascer falando "Oi, Bial!". Papai, mamãe e oibial. Oibial virou uma palavra só! Rarará!
E um amigo está numa pousada no Nordeste com o cartaz: "Quem quiser café na cama, vá dormir na cozinha". Concordo! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
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