sexta-feira, janeiro 03, 2014

Perspectivas para 2014 - LUCIANO NAKABASHI

GAZETA DO POVO - 03/01

No ano que terminou, os resultados econômicos não foram positivos: presenciamos uma elevação na dívida pública; considerável aumento nos déficits das contas externas; inflação próxima do teto da meta; retomada do ciclo de alta da taxa de juros; e, o pior, baixo crescimento econômico.

Este ano é eleitoral e, desse modo, é muito provável que o governo conserve a estratégia de estímulo aos gastos para ao menos manter baixa a taxa de desemprego. Esse é o último trunfo econômico que resta e seria um risco muito elevado para a estratégia de manutenção do Poder Executivo federal caso essa taxa começasse a subir.

Mesmo com os prováveis estímulos à demanda, a economia não apresentará um bom desempenho, pois os problemas que ela enfrenta são de oferta, como baixas taxas de produtividade e de investimento. Assim, teremos mais um ano de fraco desempenho econômico e com reduzido desemprego.

O problema é que estímulos à demanda irão se traduzir em maior dívida pública e manutenção dos juros elevados para manter a inflação dentro da meta, o que pressiona ainda mais as contas do governo, gerando instabilidade e reduzindo os investimentos. Cabe lembrar que, historicamente, a Previdência é um elemento adicional que vem pressionando o déficit orçamentário. Por outro lado, apesar da recente depreciação da taxa de câmbio, não há sinais de redução nos déficits nas contas externas brasileiras, o que também eleva a fragilidade macroeconômica pela dependência crescente de poupança externa.

Na ausência de reformas relevantes para controlar a dívida interna e aumentar a competitividade das empresas brasileiras, o que iremos presenciar é a piora nos fundamentos da economia ao longo de 2014, como já vem ocorrendo nos últimos anos, com impactos negativos nos próximos anos.

Já estamos pagando a conta da falta de uma agenda consistente e relevante de reformas desde o segundo mandato Lula até os dias atuais, sendo que o sinal mais claro é o baixo crescimento econômico dos últimos anos, que tem raízes muito mais em problemas internos que externos. Mesmo com uma possível melhora no cenário externo, a tendência de deterioração dos já fracos fundamentos da economia brasileira não permitirá uma retomada do crescimento nos próximos anos.

Seja quem for o presidente eleito em 2014 e qual a sua equipe econômica, em 2015 sentiremos com mais intensidade os efeitos dos erros cometidos. Adicionalmente, a necessidade de ajustes para colocar a economia novamente no rumo aumentará a tendência de desaceleração econômica. Assim, passaremos por momentos econômicos mais difíceis antes de uma possível melhora.

De qualquer forma, somos uma nação jovem que tem capacidade e talento para superar os obstáculos que estão surgindo. O principal fator para que isso ocorra é mudar o pensamento da sociedade para questões de longo prazo, como demanda por investimentos em educação de qualidade, por reformas não populares como a previdenciária e reforma tributária, além da redução do setor público para fomentar o investimento privado. Assim como no caso individual, a bonança vem após um período de grande esforço e frugalidade.

A irrelevância do mercosul - RODRIGO BOTERO MONTOYA

O GLOBO - 03/01

O Mercosul, como esquema de integração regional, atravessa um mau momento. As negociações para lograr um acordo de livre comércio com a União Europeia, que já levam mais de dez anos, ainda não estão concluídas.

As discrepâncias entre os países membros serviram de obstáculo à efetiva liberalização do comércio recíproco. A institucionalidade do Mercosul não se recuperou da decisão tomada em julho de 2012 pelos presidentes de Argentina, Brasil e Uruguai de suspender o governo do Paraguai para incorporar a Venezuela.

Foi violado o requisito de unanimidade dos países membros para admitir novos sócios conforme estipula o Tratado de Assunção, que constituiu o organismo regional.

A direção em que se está movendo a economia mundial ameaça relegar o Mercosul a um papel marginal e anacrônico. Não é um ator relevante no comércio internacional.

Tampouco constitui um exemplo exitoso de conformação de um mercado ampliado, regido pela mesma normativa comunitária. As dificuldades atuais são o resultado de falhas no desenho institucional e de decisões questionáveis em matéria de política comercial.

A experiência demonstrou que teria sido preferível tratar de integrar economias diferentes por meio de um acordo de livre comércio. Ter optado pelo formato de uma união aduaneira com uma tarifa externa comum alta levou a estimular as violações de normas e as fricções comerciais entre os países membros. A inclinação protecionista do Mercosul foi prejudicial.

Na IV Cúpula das Américas, celebrada em Mar del Plata em novembro de 2005, os presidentes de Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela se opuseram ao estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas, Alca, iniciativa que contava com o apoio dos governos de 29 países.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, se ufanava do triunfo que representava ter enterrado a Alca. Em retrospectiva, a vitória resultou menos contundente do que se pensava.

O que propunha a Alca foi se realizando de forma gradual e seletiva. Para o regime venezuelano, rechaçar a Alca oferecia benefícios políticos a baixo custo, dada sua aversão ao livre comércio e ao predomínio do petróleo em sua pauta exportadora.

Ao inverso, para outras nações latino-americanas, o acesso privilegiado de suas manufaturas e produtos agropecuários aos mercados de países desenvolvidos é um objetivo desejável. Isto explica os acordos de livre comércio que México, Colômbia, Chile e Peru subscreveram com Canadá, Estados Unidos, União Europeia e países da região Ásia-Pacífico.

Transcorridos mais de 20 anos de existência, o Mercosul experimenta uma crise existencial. Para superá-la, se requer mudanças significativas.

Argentina e Venezuela estão restringindo as importações devido a desequilíbrios macroeconômicos. O arranjo institucional, que deveria ter fornecido aos países membros uma plataforma para se projetar ao mundo exterior, converteu-se num fator de discórdia.

Por força disso, caberá ao governo do Brasil a responsabilidade de reinventar o Mercosul, se desejar salvá-lo da irrelevância.

Caberá ao governo do Brasil a responsabilidade de reinventar o mercado comum, se desejar salvá-lo da irrelevância

MSL - O Movimento dos Sem-Lei - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 03/01

A decisão que desrespeita a a letra da lei agride o regime democrático, ainda que sob o pretexto de aperfeiçoá-lo


Na semana passada, comentei aqui uma declaração do ministro Luís Roberto Barroso, do STF. Ele entende que uma de suas funções é "empurrar a história", como Lênin. Não existe democracia sem um Poder Judiciário independente, mas essa independência tem balizas. A decisão que desrespeita ou ignora a letra da lei agride o regime democrático, ainda que sob o pretexto de aperfeiçoá-lo. Juízes também são produto da ordem legal que eventualmente transgridem. Pergunta-se a Barroso: aquele que manda às favas uma decisão judicial porque está "empurrando a história" merece aplauso ou punição? Sempre se pode argumentar que há o jeito certo e o errado de dar esse empurrãozinho, mas isso é guerrilha ideológica, não Estado de Direito. Vamos ver.

Liminar concedida dia desses por uma juíza do Mato Grosso do Sul impedia que proprietários rurais realizassem um leilão de gado, grãos e equinos. O objetivo do evento era arrecadar recursos para mobilizar produtores contra a onda de invasões de terra promovida por índios, ONGs e padres. Na liminar, depois cassada, a juíza alegava que sitiantes e fazendeiros pretendiam contratar segurança privada --essa era precisamente a acusação feita pelos invasores--, o que implicaria "substituir o Estado na solução do conflito existente entre a classe ruralista e os povos indígenas".

Quando os militantes invadem as propriedades, eles não estão tentando "substituir o Estado"? Então o coitado que tem esbulhado o seu direito deve ser proibido até de se defender? De resto, quem quer dinheiro para contratar milícias não realiza leilões à luz do dia.

Em outubro, um juiz negou liminar de reintegração de posse à reitoria da USP, invadida por delinquentes de extrema esquerda. O juiz que se negou a devolver o prédio a seus legítimos usuários escreveu, espancando o bom senso e a língua: "Outrossim, frise-se que nenhuma luta social que não cause qualquer transtorno, alteração da normalidade, não tem força de pressão e, portanto, sequer poderia se caracterizar como tal". Quando os criminosos deixaram o prédio, o saldo de destruição impressionava. "Transtorno"?

O meritíssimo pertence a uma Associação de Juízes que se denomina "Para a Democracia", algo notável porque nos faz supor que possa existir outra --no caso, "para a ditadura". Tal associação já produziu uma pérola, também na defesa de invasores. Escreveu: "Não é verdade que ninguém está acima da lei (...): estão, sim, acima da lei, todas as pessoas que vivem no cimo preponderante das normas e princípios constitucionais e que, por isso, rompendo com o estereótipo da alienação, e alimentados de esperança, insistem em colocar o seu ousio e a sua juventude a serviço da alteridade, da democracia e do império dos direitos fundamentais".

O estilo brega mal esconde a concepção totalitária de direito. Ora, se há pessoas acima da lei, cesse o que o antigo Estado de Direito canta. Tudo lhes é permitido, muito especialmente o crime.

O ano começa com o STF prestes a jogar o sistema político na clandestinidade. Quatro ministros já acolheram a Ação Direta de Inconstitucionalidade que quer proibir a doação de empresas a campanhas eleitorais. Se acontecer, as contribuições hoje ilegais assim continuarão. E boa parte das legais migrará para o crime. Esse mesmo tribunal, e não entro no mérito de cada decisão, "constitucionalizou", por exemplo, o casamento gay, o aborto de anencéfalos e a marcha da maconha. Legislou na contramão da vontade explícita do Congresso. No caso das cotas raciais, condescendeu com a agressão à Constituição promovida pelos dois outros Poderes. E sempre contra a escrita.

Se as leis não limitam as ações dos homens, quem disciplina os homens sem limites?

2014 está rolando - FERNANDO GABEIRA

O Estado de S.Paulo - 03/01

No fim do ano recebi um envelope laminado cheio de bolinhas de isopor e um cartão de Antônio Bernardo: "2014 vai rolar". E como! - pensei.

Aproveitando os feriados, revi um livro de Octavio Paz, Os Privilégios da Vista. Ele menciona os calendários lunares e solares dos antigos povos da América Central. Alguns dias ficavam de fora. Eram os dias vazios, como os definiu Paz. Não é o caso de 2014, quando temos uma conjunção de Copa do Mundo e eleições. A Copa é realizada de quatro em quatro em quatro anos, mas agora será no Brasil.

Nas eleições de que participei traçávamos uma linha rígida: a campanha começava quando a Copa terminava. Agora essa linha se dissolveu. As eleições podem invadir o espaço da Copa e esta, certamente, invadirá o espaço das eleições.

Independente de grandes manifestações, o Brasil merecia um grande debate, pois é uma eleição que potencialmente pode definir rumos. A maioria quer mudança. Mas isso não quer dizer nada, pois as eleições podem consagrar o mesmo bloco de partidos que está no poder. O desejo de mudança vai perseguir o próximo vencedor. Ele, naturalmente, pode resistir, argumentando que venceu.

O Brasil fez a Copa para projetar uma imagem de crescimento e pujança que hoje está desfocada não só pelo medíocre crescimento, como pela precariedade de infraestrutura e serviços públicos, revelada pelas manifestações de junho. Às vezes, para simplificar o que vejo hoje no País, socorro-me da teoria do cobertor curto: você puxa para o consumo, esfria o investimento, divulga a Copa, mas os jornais falam das chuvas intensas, dos desabrigados e das imutáveis áreas de risco nas cidades brasileiras. E assim segue: você faz um cinturão de segurança, ocupando favelas com forças de paz, mas esfria na zona norte, nas áreas metropolitanas, para onde fogem muitos bandidos.

Os fatos vão estar sempre por aí, mostrando que há alguma coisa errada na maneira como gastamos o dinheiro público. Apenas 28% das verbas para prevenção de enchentes foram gastos, enquanto nos estádios de futebol o ritmo de gastos já não se limita às obras, mas alcança os reparos do que foi feito de errado, como se viu no Maracanã e, agora, no Mané Garrincha. Não bastasse tudo isso, no final do ano Renan Calheiros usou um avião da FAB para fazer transplante capilar no Recife.

Se andassem um pouco na rua, teriam ideia de como essas coisas repercutem. E ainda dizem que ouviram a voz das ruas. As tensões levantadas pelo movimento de 2013 não foram resolvidas. Isso não significa que teremos de novo grandes demonstrações. A tentativa é de empurrar com a barriga, manter as coisas como estão, permanecer no poder, às vezes até debochando das críticas das ruas.

Li na biografia de Vargas escrita por Lira Neto que alguns de seus auxiliares tentavam levá-lo a mudanças, argumentando que era preciso fazer como os atores que se renovam, lançar novas peças, atrações, senão o teatro fica vazio. O desejo de mudança que existe agora é também um certo cansaço com essa longa experiência do PT e seus aliados no governo. Ela não é capaz de indicar novos rumos. Claro que sua hegemonia eleitoral não será ameaçada se os desejos de mudança não forem canalizados pelos oponentes.

A singularidade desta eleição com Copa do Mundo no Brasil pode trazer para o processo um interesse maior da imprensa internacional. O Brasil viverá dias intensos sob os olhares de muita gente. Tanto como no ano passado, os brasileiros no exterior certamente vão usar o momento para expressar suas expectativas sobre o País, ampliando a exposição nacional.

Assisti a alguns debates na TV e os analistas sempre mencionavam, por prudência, a imprevisibilidade. 2014 vai rolar, como diz o cartão. Mas para onde, de que jeito, com que convulsões ou espasmos? O nível de imprevisibilidade justifica-se pela presença desses elementos esparsos que de repente se podem reconfigurar de uma forma nova - Copa, eleição presidencial, desejo de mudança, esgotamento de um modelo econômico, perda de credibilidade do processo político. Caso não se combinem no sentido da mudança, isso quer dizer apenas que a mudança, sobretudo a ditada pela realidade econômica, foi adiada, ultrapassou o calendário de 2014.

Não apenas o ajuste econômico, mas algum tipo de renovação política seria menos doloroso se conversado antes, no momento eleitoral. Caso o processo eleitoral passe por cima desse desejo de mudança, aí, sim, o próximo presidente pode viver anos interessantes, no sentido que os chineses dão ao termo. Esse é um dos enigmas deste imprevisível 2014. Certamente há muitos outros e só poderemos desvendá-los com o tempo.

O ano apenas começou a rolar. Ainda uso palavras do ano passado e, como diz o poeta T. S. Elliot, palavras do ano passado pertencem à linguagem do ano passado e as palavras de um novo ano esperam outra voz. Isso predispõe à abertura ao imprevisível. Mas um olhar mais largo aos acontecimentos que preocuparam no final do ano mostra que eram previsíveis.

As inundações no Espírito Santo podem ser compreendidas por meio do minucioso livro de Warren Dean A Ferro e Fogo. Augusto Ruschi denunciou o processo de derrubada das matas e assoreamento dos rios. Num momento em que o Espírito Santo tinha 500 serrarias, os desmatadores levaram seu know-how para a Amazônia.

Estive no presídio de Pedrinhas após um motim com mortes. Alguns presos foram decapitados. Anotamos uma série de problemas que precisavam ser resolvidos para atenuar a violência ali. Até audiências na Assembleia fizemos para mobilizar os atores locais. Pedrinhas de novo, motim de novo. Cabeças cortadas. Tanta discussão científica sobre se é possível viajar para o passado, encontrar uma curva fechada que nos jogue para trás no tempo. E isso é tão frequente no Maranhão... Alguém precisa dizer isso a Stephen Hawking, que dedica parte de seu livro Minha Breve História à hipótese de uma viagem no tempo.

Levantar voo - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 03/01

A viagem capilar do presidente do Senado precisa ter consequências. Ou seja, uma regulamentação, tão justa quanto severa, do uso de recursos públicos por representantes do povo e agentes do Estado



Digamos que um ladravaz audacioso mete a mão em seu bolso e furta a sua carteira. Para sorte sua, o espertalhão é na verdade um espertalhinho, e seu crime é denunciado por cidadãos atentos, e ele se oferece a devolver a carteira em troca da liberdade.

Não é assim que a lei funciona: ela exige punição, como castigo e exemplo. Esse princípio, óbvio e universal, aplica-se, por exemplo, aos homens chamados públicos. Por exemplo, ao presidente do Senado, Renan Calheiros. Ele simplesmente requisitou um avião da FAB para levá-lo de Brasília a Recife numa missão que nada tinha a ver com seus deveres parlamentares. Nem mesmo com seus interesses partidários.

Leitores, fiquem de cabelo em pé: o presidente do Senado deixou Brasília às custas do orçamento da FAB simplesmente para fazer um implante capilar. Como se o aumento da cabeleira fizesse dele um mais eficiente defensor do interesse público. Mais cabelo, melhor senador? É ridículo, é absurdo. Pior: trata-se de uma demonstração daquilo que Calheiros — e certamente muitos ocupantes de cargos e mandatos — acham muito natural: usar em benefício pessoal recursos do Estado.

O agora cabeludo presidente do Senado anunciou ter indenizado os cofres públicos em R$ 27 mil. Isso pode ter reduzido ou eliminado (não conhecemos o custo para o Estado de viagens capilares de senadores) o preço do voo. Mas o abuso continua de pé, assim como os cabelos da surpreendida opinião pública. Um representante do povo que compensa os cofres públicos de uma despesa absurda, mas só o faz depois que o episódio é revelado — lamento ter de lembrá-lo —, mais parece um representante de si mesmo.

A indenização depois de revelado o escândalo resolve apenas o problema financeiro. Nada impede que outros senadores ou deputados cometam abusos com os recursos do Estado. Se forem apanhados em flagrante, pagam as despesas; se escaparem ilesos, estão no lucro.

E nós no prejuízo.

É óbvio que a viagem capilar do presidente do Senado precisa ter consequências. Ou seja, uma regulamentação, tão justa quanto severa, do uso de recursos públicos por representantes do povo e agentes do Estado.

Renan Calheiros pode começar a limpar a sua ficha se apresentar um projeto a respeito no Senado. Recomenda-se pressa na tramitação: se o projeto começar a dormir nas comissões do Legislativo, a opinião pública logo se esquecerá do assunto.

E o projeto moralizador nunca levantará voo. Não faltam, na história da República, episódios semelhantes.

A tentação hegemônica - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 03/01

BRASÍLIA - Ao pressionar Eduardo Campos para se descolar da reeleição de Alckmin em São Paulo, Marina Silva favorece diretamente o PT no principal Estado do país.

Alckmin não terá vida fácil na campanha, porque pode ter a máquina, a caneta e a exibição de quem concorre no cargo, mas neutraliza parte dessa vantagem com o desgaste natural de quase 20 anos dos tucanos no poder e de sucessivas trombadas: Alstom, Siemens e a onda de violência que assola o país e ganha particular visibilidade em São Paulo.

Caso confirmado o fim da aliança com o PSB, Alckmin não só perde uma legenda como ganha um adversário a mais --e alavancado pela candidatura de Campos à Presidência. Estão na mesa os nomes da deputada e ex-prefeira Luiza Erundina, do PSB, e do vereador Ricardo Young, filiado ao PPS e militante da Rede.

A eles se somam Paulo Skaf, do PMDB e do "partido Fiesp", e talvez Eduardo Jorge, do PV, diluindo as candidaturas e facilitando o segundo turno, muito provavelmente entre Alckmin e o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, do PT.

Depois das eleições de Dilma a presidente e de Fernando Haddad a prefeito paulistano, não resta muita dúvida quanto à força natural de Padilha em outubro. Ele tem o mito Lula, o palanque de Dilma, a estrutura e o caixa poderoso do PT. Além de ter a boa bandeira do "Mais Médicos" e ser, em si, um bom candidato.

É assim que o PT entra 2014 com Dilma favorita e o partido a caminho de 16 anos na Presidência; já dominando a principal capital; com reais chances no Estado mais importante; e com candidatos competitivos em Minas e no Rio, fechando o "triângulo das Bermudas" da política nacional. Sem contar que tende a aumentar as bancadas no Congresso, espremendo a maioria do até agora aliado PMDB.

Isso tudo com a economia devagar e Haddad quase parando. Imagine se a economia e o prefeito deslancham? Antes, ninguém segurava este país. Agora, ninguém segura o PT?

A vida em círculos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 03/01
O senador Renan Calheiros parece convencido de que suas palavras não precisam corresponder aos fatos, o importante, algum marqueteiro deve tê-lo convencido disso, é falar o que o povo quer ouvir, sem que seja necessário acompanhar com ações. Só isso explica que tenha ido à televisão nos últimos dias do ano passado para falar em transparência e controle social no momento em que o noticiário denunciava que mais uma vez ele usou um avião da FAB para uso pessoal bizarro: fazer um implante de cabelo em Recife.
É claro que ele gravou a declaração de fim de ano com antecedência, e não poderia imaginar que seria apanhado mais uma vez com a boca na botija antes mesmo de seu pronunciamento ir ao ar. Se desse tempo, poderia ter aproveitado o pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão para pedir mais uma vez desculpas ao povo brasileiro.

Renan parece estar sempre às voltas com incongruências quando se tratam de palavras e ações e mesmo quando cita supostas medidas corretivas ditadas pelas vozes das ruas , revela defeitos de nossos congressistas que são consertados apenas quando denunciados pela grande imprensa, como o fim dos 14º e 15º salários dos parlamentares e o fim do voto secreto em casos de cassação de mandato e vetos presidenciais.

Para a fala oficial do presidente do Senado, esses são exemplos de que a transparência e o controle social ajudam a corrigir erros, eliminar vícios e distorções . Ele falava como se fosse o boneco do ventríloquo, o marqueteiro Elsinho Mouco, o preferido do PMDB segundo os bastidores de Brasília, enquanto fora de seu mundo virtual as denúncias de sua viagem pelas asas da FAB para o implante capilar corriam soltas.

Pois não passa de um vício essa sua mania de andar de avião sem pagar, só o fazendo depois de apanhado em flagrante. E mesmo assim ele e outros colegas seus inauguraram uma nova maneira de enganar o distinto público: pagar o preço de uma passagem comercial pelo aluguel de um jatinho exclusivo, o que evidentemente é muito mais caro. Mas quem se atreve a cobrar o devido ao presidente do Congresso?

Depois das manifestações de junho, Renan Calheiros bem que tentou se mostrar atento às vozes da rua, mas deletou da memória o 1,5 milhão de pessoas que pediram sua saída da presidência do Senado em abaixo-assinado. Ao mesmo tempo em que começou a retirar da gaveta projetos que por lá repousavam há muito tempo, foi flagrado no ato de utilizar um avião da FAB para ir ao casamento da filha do líder do PMDB Eduardo Braga, em Trancoso, na Bahia.

Calheiros na ocasião garantiu que sempre usara o avião para representação, como presidente do Senado , fingindo desconhecer, como agora, que o decreto 4244 de 2002 limita a utilização dos aviões da FAB, a motivo de segurança e emergência médica, em viagens a serviço e deslocamentos para o local de residência permanente .

Seu melhor argumento para o retorno à presidência do Senado, sete anos depois do escândalo que o apeou do mesmo cargo, era que já havia sido absolvido pelo Conselho de Ética e que nenhuma denúncia da época havia prosperado, por falta de base. Era inocente, portanto, e tinha o caminho livre para reassumir o cargo que lhe teria sido tirado indevidamente .

O procurador-geral da República de então, Roberto Gurgel, o denunciou criminalmente, poucos dias antes da eleição, justamente pelas provas que apresentou para justificar a capacidade de pagamento de uma pensão alimentícia de um filho fora do casamento. Com notas de vendas de gado apontadas como frias, Calheiros queria provar que não precisava pedir a um lobista amigo ligado à empreiteira Mendes Júnior para pagar a pensão de seu filho, conforme a acusação original.

A vida do senador Renan Calheiros parece andar em círculos, o que não impede de progredir na política. Agora mesmo, deve sair candidato ao governo de Alagoas, com boas chances de se eleger, e o apoio do senador Collor de Mello, o mesmo que quando presidente da República deu um golpe político em Renan, um de seus principais líderes, impedindo-o de se candidatar ao governo estadual.

Clima, alimentação, saúde e biodiversidade - WASHINGTON NOVAES

O Estado de S.Paulo - 03/01

Tem sido muito farto, nas últimas semanas, o noticiário sobre vários temas que se inter-relacionam - perdas em várias áreas com mudanças climáticas, inclusive na biodiversidade; valor dessa biodiversidade na alimentação humana, na saúde e em outros setores; perdas de safras brasileiras por causa de "pragas" novas e antigas. Parece estar começando uma discussão que pode ser muito importante e proveitosa para todas as áreas, especialmente neste momento em que várias instituições mostram também que o uso e o consumo de produtos alimentícios e matérias-primas estão afetando toda a Terra, já que em oito meses de um ano consumimos o que ela pode prover em todo o ano - além de reduzirmos a capacidade de retenção de dióxido de carbono, que passa a acumular-se na atmosfera e a acentuar mudanças do clima.

Mais de uma vez, ao longo de 2013, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ressaltou em seus pronunciamentos o valor das florestas, que abrigam mais de metade das espécies terrestres de animais, principalmente insetos, e plantas. Pesquisa do Nature Climate Change mostrou (Instituto Carbono Brasil, 13/5/2013) que o clima pode levar à extinção de 57% das plantas; 34% dos animais conhecidos sofrerão com perdas de seus hábitats - só 4% se beneficiariam com temperaturas mais altas. A Amazônia será uma das áreas mais atingidas.

Os problemas no Brasil são muitos, segundo o Livro Vermelho da Flora Brasileira, editado pelo Centro Nacional de Conservação da Flora, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro; 2.118 de 4.617 espécies estudadas estão ameaçadas pela perda e degradação de hábitats, pela expansão de monoculturas extensivas e pelas queimadas, principalmente no Cerrado (já afetado em 50% de sua área por incêndios e desmatamentos; e que já perdeu grande parte de seu estoque de água no subsolo, que alimenta todas as grandes bacias nacionais).

Entre as espécies ameaçadas estão numerosas com alto valor medicinal, inclusive no Brasil - como o barbatimão, com propriedade cicatrizantes; a arnica, eficaz no tratamento de traumatismos e contusões; a pata-de-vaca, com propriedades diuréticas e eficaz em casos de diabetes e obesidade; a gabiroba (ou gueroba), útil em diarreias e afecções no sistema urinário; o araticum (marolo), para cólicas menstruais; a catuaba, afrodisíaca, ansiolítica, antibacteriana, expectorante.

Outra área de muita discussão tem sido a da possibilidade de uma dieta de insetos reduzir os problemas que o mundo enfrenta com a fome e a miséria. Insetos constituem mais de 50% dos organismos vivos. E 1.900 espécies já são consumidas por humanos, informa a FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (Eco21, maio de 2013). Com dois quilos de alimentos insetos produzem um quilo de carne, enquanto bovinos precisam de oito quilos de alimentos para gerar um quilo de carne para humanos - além de insetos gerarem muito menos metano e outros gases (um boi gera 58 quilos de metano por ano, segundo a Embrapa Meio Ambiente; com mais de 200 milhões de bovinos, só aí o Brasil gera 1,6 milhão de toneladas anuais de metano).

Quatro áreas no Brasil, no Alto Rio Negro e no Javari - duas delas, terras indígenas -, são consideradas excepcionalmente valiosas para a conservação da biodiversidade, diz a revista Science (no geral, as terras indígenas são apontadas pelos cientistas como o melhor caminho para essa preservação). E na Amazônia foram identificadas 15 novas espécies em áreas como essas, no ano passado. Outros cientistas, da Universidade de Aberdeen, afirmam (mercadoetico, 19/2/2013) que plantas afetadas por problemas são capazes de alertar, por meio de fungos do solo, outras plantas para que estas ativem genes que as protejam. Muitas são capazes de prever a chegada de ventanias e tempestades (Agência Fapesp, novembro de 2013) - e podem ajudar a acionar programas preventivos (que são raros no Brasil).

Também têm estado muito presentes, nos últimos tempos, notícias como as de programas e políticas de valorização da mandioca. Em meio a elas, jornais publicaram a informação de que nossa campeã mundial de natação, Poliana Okimoto, chegou a esse destaque depois de, com o auxílio de uma nutricionista, substituir por mandioca e derivados boa parte de sua dieta alimentar. Fez lembrar o cientista Paulo de Tarso Alvim, para quem, "se a mandioca fosse norte-americana, o mundo todo estaria comendo mandioca flakes e tapioca puffs". Porque a mandioca é a espécie mais adaptada a solos brasileiros, não precisa nem de fertilizantes nem de agrotóxicos.

E por aí se chega ao noticiário de que parte das consideráveis perdas que estão ocorrendo na agricultura brasileira de exportação se deve à remoção dos defensivos naturais do solo, após a implantação de monoculturas extensivas e uso intensivo de agrotóxicos - consumo em que o Brasil é o líder no mundo. Desprotegido das suas defesas naturais, o solo torna-se muito vulnerável - essa seria uma das causas de termos no momento tantas "epidemias de pragas", como a que assola as culturas do algodão, e que podem espalhar-se mais.

Com tantas notícias na área de insetos, é inevitável que volte à memória a sentença do respeitado biólogo Edward Wilson de que as formigas dominarão a Terra: elas já são quatrilhões e se reproduzem em velocidade muitas vezes maior que a do ser humano. Também fazem lembrar um catedrático de estruturas de concreto que apontava para um cupinzeiro no Jardim Botânico de São Paulo e dizia: "Essa é uma construção sustentável; ali vivem dezenas de milhares de cupins, em absoluta ordem, trafegando dentro e fora na busca de alimentos e seu armazenamento em câmaras subterrâneas, dotadas de orifícios para liberação de gases da decomposição" - que eles abrem e fecham conforme a temperatura.

Quem porá a biodiversidade no centro das nossas políticas?

Populismo tarifário ronda os transportes - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 03/01

A cada adiamento de reajuste, para maquiar a inflação, aumenta o perigo da degradação do serviço. Com as urnas de outubro, cresce o risco de mais congelamento



A contenção artificial de tarifas é um rastilho que vai do transporte coletivo em grandes regiões metropolitanas aos combustíveis. No primeiro caso, trata-se de um assunto já bastante sensível, pois fez parte da deflagração dos movimentos de rua em junho do ano passado. No segundo, está em questão a capacidade de a Petrobras bancar o milionário subsídio no preço da gasolina e diesel e ao mesmo tempo executar um bilionário programa de investimentos.

O surto de populismo tarifário que faz o Planalto maquiar a inflação para tentar mantê-la na faixa dos 6%, um ponto e meio percentual acima da meta de 4,5%, tem desdobramentos locais. Na cidade do Rio de Janeiro, o congelamento das tarifas de ônibus é parte de uma intensa luta político-eleitoral, em que se destaca a guerra em torno de uma CPI sobre o assunto, bloqueada na Câmara de Vereadores pela bancada do prefeito Eduardo Paes (PMDB).

Conhecer a planilha efetiva de custos dos concessionários, parâmetro essencial na revisão de tarifas, é de fato importante. Para isso, o Tribunal de Contas do Município pediu à prefeitura do Rio que adiasse aumento previsto para este início de ano, a fim de que estudos sejam concluídos. Mas o tempo passa e as distorções se acumulam.

Há um ano, o governo federal, preocupado em conter artificialmente a inflação, conseguiu junto aos governos estaduais e municipais de Rio e São Paulo o adiamento para junho de ajustes tarifários nos transportes. Mas, quando os preços foram aumentados, vieram as manifestações e revogaram-se os reajustes. Em janeiro de 2013, a tarifa de ônibus no Rio subiria de R$ 2,75 para R$ 2,95. Em São Paulo, passaria de R$ 3 para R$ 3,20. Com as manifestações, as tarifas retrocederam e ficaram congeladas. Por isso, o encarecimento do diesel e aumentos salariais já apertam as empresas.

Há, agora, o risco de as urnas de outubro injetarem mais populismo na administração de tarifas em geral. Será erro crasso se isto acontecer, pois o reequilíbrio entre receitas e despesas no transporte de massa precisará ser mais drástico a cada dia que passa de congelamento. Há, portanto, o perigo de se reinstalar o conhecido círculo vicioso de tarifas irreais degradarem a qualidade dos serviços, que, para ser recuperada, necessitará de ajustes politicamente difíceis de serem concedidos. Não vem o reajuste, e o processo se retroalimenta.

No Rio, em especial, os empresários de ônibus são muito malvistos, pela atuação nos meandros do poder e longo histórico de precariedades no atendimento à população. Mas eles têm razão em ameaçar ir à Justiça para que os contratos de concessão sejam cumpridos, pois, na cidade, ao contrário de São Paulo, não existe subsídio tarifário.

Empresários privados, eles precisam ser remunerados condignamente. E, para o usuário, não há melhor alternativa do que a concessão, devidamente fiscalizada, a partir de contratos firmados em bases técnicas e equilibradas.


Comércio sob a lei de Cristina - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 03/01

Sai ano, entra ano, o governo argentino continua barrando produtos brasileiros, sem respeitar regras internacionais, sem levar em conta os interesses dos parceiros do Mercosul, e sempre com a tolerância, a passividade e até a cumplicidade de Brasília. Sem um governo empenhado em defender seus interesses comerciais, empresários do setor de calçados já se dizem dispostos a negociar cotas de exportação para a Argentina. Seu objetivo é conseguir, em troca, a liberação do ingresso de produtos brasileiros no prazo de 60 dias, previsto pela Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo noticiou o jornal Valor. Acertos semelhantes ocorreram em 2006, 2007 e 2009. A situação é estapafúrdia e só acontece porque as autoridades nacionais têm negligenciado, seguidamente, a proteção dos interesses legítimos da indústria brasileira. Barreiras protecionistas entre parceiros do Mercosul, com ou sem cotas, são uma excrescência numa zona de livre-comércio e ainda mais, como neste caso, em uma união aduaneira.

Quando representantes de um setor se dispõem a aceitar uma restrição aberrante em troca do mero cumprimento de uma obrigação, só há uma explicação plausível: perderam a esperança de ver seus problemas resolvidos pelas vias normais e legais. Estão sendo vítimas de extorsão, mais uma vez, e têm de ceder porque ninguém aparece para socorrê-los. Segundo o presidente executivo da associação de produtores de calçados, Heitor Kein, 700 mil pares, no valor de US$ 13 milhões, continuavam retidos na fronteira.

Esse era o mesmo volume barrado no começo do mês, quando o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, esteve em Buenos Aires para discutir problemas comerciais com autoridades argentinas. Nada melhorou depois desse contato, apesar das promessas ouvidas na reunião e por ele citadas logo depois em entrevista. Nada havia melhorado, igualmente, durante a maior parte do ano. Ao contrário: em 2013 o governo argentino intensificou o protecionismo, prejudicando principalmente o Brasil.

Há dois anos, em janeiro de 2012, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, pediu uma entrevista com a presidente Cristina Kirchner para discutir uma recém-anunciada medida protecionista: a exigência de listas prévias de importações. Cinco meses depois, em 12 de junho, representantes da indústria gaúcha cobraram no Senado uma ação mais firme do governo contra as barreiras.

"O governo brasileiro tem sido fraco nas represálias ao governo argentino", disse o presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul, Claudio Affonso Amoretti Bier. Segundo ele, máquinas vendidas mais de um ano antes estavam retidas por falta de licença. Naquela ocasião, carretas com 3,6 milhões de latas de milho verde estavam na fronteira, informou na mesma audiência o empresário Marcos Oderich, do setor de conservas.

Exemplos como esses têm sido rotineiros. Muito raramente alguma autoridade brasileira ensaia fazer cara feia e encena uma retaliação. O governo argentino assume um tom conciliador, o pessoal de Brasília logo se amansa e o armistício nunca é implantado para valer.

Ao contrário: a partir de 2009, toda mudança no protecionismo argentino resulta somente em ampliação das barreiras. A exigência de licenças de importação foi só um começo. Logo vieram exigências mais complexas, como a das listas acompanhadas de uma declaração juramentada. Além disso, as barreiras foram sempre manejadas de forma arbitrária, sem respeito a prazos, e parte das restrições foi imposta informalmente, sem papel escrito, a importadores argentinos. O ex-secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno, gestor de fato das importações, era especialista em ameaças.

Moreno foi substituído, mas o protecionismo foi mantido. A qualquer momento novas propostas de trégua poderão surgir e novamente serão rompidas, se o risco de sanções continuar nulo. Continuará, enquanto a diplomacia brasileira não tiver exata noção do interesse nacional.

A agonia do setor público - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 03/01

Nas últimas décadas, os governos nunca mais deixaram de ser deficitários, a carga tributária aumentou de forma contínua e a dívida pública não parou de subir


Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo deu início a um conjunto de reformas econômicas com o objetivo de reconstruir os países devastados, ampliar o comércio internacional e combater a pobreza. Entre as várias reformas, destacam-se a criação do Banco Mundial (composto de quatro instituições financeiras), a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), o abandono do padrão-ouro e a adoção do padrão-dólar como moeda internacional.

Na época, ganhou corpo a proposta de John Maynard Keynes, considerado o maior economista do século 20, para que o setor público se tornasse o motor do crescimento econômico, sobretudo por meio de obras de infraestrutura física e de infraestrutura social. Keynes elaborou uma sofisticada teoria para explicar o funcionamento do capitalismo e concluiu que, em momentos de recessão, o Estado deveria gastar e, assim, aumentar a demanda agregada.

Aos que argumentavam ser perigoso o governo agir dessa forma – pois os gastos públicos exigiriam o aumento dos impostos ou a emissão de dinheiro –, Keynes respondia que não era preciso cobrar mais tributos e, como o mundo estava em deflação (queda de preços), poder-se-ia emitir dinheiro sem provocar inflação. Ele afirmava que, logo após retomado o crescimento, o governo deveria reduzir seus gastos e voltar ao orçamento equilibrado a fim de evitar a perpetuação do déficit e suas consequências nefastas.

O Banco Mundial destinava-se a conceder empréstimos para investimentos em infraestrutura e o FMI daria financiamentos para os países cobrirem eventuais déficits no comércio internacional. Entrava em ação a doutrina do desenvolvimento e, à época, os analistas internacionais faziam algumas apostas em relação ao futuro das nações. Na América do Sul, havia duas grandes promessas: Brasil e Argentina, países com amplas condições de crescer e erradicar a pobreza.

Passados quase 70 anos, a Argentina, que já era desenvolvida, conseguiu a proeza de trilhar o caminho de volta e, de tantos maus governos, está rumando para ser um país pobre. O Brasil, com tantos recursos naturais, conseguiu algum progresso, mas está muito longe de acabar com a pobreza e de ser uma nação rica como se previa. Uma das razões é que tanto Brasil quanto Argentina usaram Keynes para justificar suas políticas fiscais imprudentes, elevando os gastos públicos sem seguir o principal ponto da receita keynesiana: voltar ao orçamento equilibrado e banir o déficit tão logo a recessão fosse vencida. O erro de Keynes foi acreditar, ingenuamente, que os políticos retomariam o equilíbrio fiscal e eliminariam o déficit.

Keynes não entendeu a natureza dos políticos. O objetivo deles é sempre gastar cada vez mais e acumular mais poder tanto quanto possível. Os governos nunca mais deixaram de ser deficitários, a carga tributária aumentou de forma contínua, a dívida pública não parou de subir e uma série de intervenções governamentais foram inventadas. O resultado disso tudo, que tem no Brasil um dos exemplos, é a soma de baixo crescimento, inflação e manutenção da pobreza.

Em 1986, a carga tributária brasileira era de 21% do PIB e o presidente Sarney afirmava que, se ela chegasse a 25% do PIB (que era a carga tributária de dez anos atrás), o governo acabaria com a pobreza. A carga tributária bruta já está em 38% – 13 pontos porcentuais acima do sonho de Sarney –, o governo tornou-se um predador cheio de privilégios e corrupção, a dívida pública está em níveis elevados e a pobreza continua.

O setor público brasileiro inicia 2014 em profunda agonia financeira. Municípios e estados praticamente falidos, alguns sem caixa para pagar o 13.º salário, equipamentos urbanos destruídos, escolas caindo aos pedaços, postos de saúde sem insumos, infraestrutura deteriorada... esse é o quadro comum em todo o país, e no Paraná não é diferente.

O governo federal tem duas prerrogativas que os municípios e os estados não têm: emissão de dinheiro e venda de títulos públicos. Mas nem por isso as contas da União estão em boa situação. Déficits nas duas previdências (a do INSS e a dos funcionários públicos), manipulação na contabilidade para esconder o déficit real, redução do superávit primário, aumento do endividamento federal, falta de investimentos em infraestrutura e péssimos serviços públicos. Essa é a realidade que aí está e que o país terá de enfrentar.

Lixões são inaceitáveis - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 03/01
A imagem de garis recolhendo o lixo produzido pelas festas do réveillon oferece pálida ideia do grande desafio que representam os resíduos sólidos. Da queima de fogos de Copacabana, a mais famosa do Brasil e destaque no mundo, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana recolheu do solo 370 toneladas de sobras. O saldo foi além do jogado no chão. Onze ecopontos receberam, em média, 28 toneladas de material reciclável.
Em uma noite, em um único lugar, 400 toneladas de detritos foram criadas. Poucas horas depois do término do espetáculo, o lugar estava limpo. O recolhimento dos restos deixados por moradores e turistas constitui o primeiro passo de longo processo. Talvez seja o mais fácil. O passo seguinte - a destinação das montanhas de dejetos - busca respostas nem sempre encontradas.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) fixou 2014 o ano que acabaria com os lixões no país. Mas o prazo não será cumprido. Nada menos de 1.579 municípios continuarão a narrativa iniciada há cinco séculos. Apesar de sobejamente conhecidos os males que decorrem da inadequada destinação de refugos, governantes fecham os olhos para o alto custo pago pela sociedade em razão do descaso ou da incompetência administrativa.

Sem conseguir implantar aterros sanitários, prefeituras mantêm lixões. Em caso de problemas, a única providência que tomam é a mudança de lugar. Transferem o depósito fétido para terrenos mais distantes dos centros urbanos. Para justificar o fracasso, alegam não só falta de recursos mas também de capacidade técnica para elaborar projetos. Significa que não há previsão para erradicar um dos graves cânceres que afetam a saúde e o meio ambiente.

Ora, a questão não se restringe aos lixões. Vai além. É necessário recuperar a área degradada. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), desdobramento da PNRS, prevê que até 2031 só as regiões Sul e Sudeste terão feito o dever de casa - reabilitação de 100% dos espaços corrompidos. As medidas exigidas vão além da desativação dos lixões. Implicam captação de gases, coleta do chorume, drenagem pluvial, cobertura vegetal.

Em português claro: fechar os portões dos depósitos a céu aberto não significa bater ponto final. A herança maldita permanece enterrada. Qualquer projeto de aproveitamento do local superficialmente limpo é aposta de alto risco. O gás metano, produto proveniente da degradação do lixo, é altamente inflamável e, acumulado, pode causar explosões.

Em 2011, o deslizamento de encostas da Favela do Bumba, em Niterói (RJ), foi agravado pelo lugar em que as casas foram construídas - um antigo lixão. É inaceitável que o país conviva com essa realidade. Impõem-se ações transversais aptas a capacitar os municípios a reciclar o lixo. A urgência é mandamento da saúde, da segurança e do meio ambiente.

O ano da ficha limpa - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 03/01

Pela primeira vez desde que entrou em vigor, há quase quatro anos, a chamada Lei da Ficha Limpa estará valendo integralmente nas eleições de 2014. Em 2012, quando já deveria ter sido levado em conta à risca, esse instrumento de moralização ainda estava cercado de dúvidas, fazendo com que muitos municípios continuem enfrentando pendências eleitorais ainda hoje. A particularidade de agora estar sendo aplicada na sua totalidade significa uma segurança adicional para os eleitores, que correrão menos riscos de escolher um candidato com pendências judiciais. Por uma série de razões, porém, é bom que os brasileiros se mantenham atentos e que os partidos políticos ajam com seriedade na definição de suas nominatas.
Há quatro anos, quando normas mais rígidas já tinham sido adotadas, dezenas de postulantes a cargos eletivos concorreram em situação sub judice. Nessa condição, políticos colocam seus interesses pessoais acima de tudo, insistindo em concorrer. Muitos deles acabaram tomando posse com respaldo judicial, sob a alegação de que a legislação não poderia valer naquele pleito, por ter sido criada menos de um ano antes da eleição. Desta vez, a estimativa é de que poucos políticos em débito com o Judiciário irão se aventurar numa candidatura, pois as chances de conseguirem burlar a lei são consideradas remotas.
Infelizmente, os tribunais de Justiça não vêm conseguindo cumprir as metas com as quais se comprometeram em relação ao julgamento dos processos de improbidade administrativa e ações penais relacionadas a crimes contra a administração pública, entre os quais a corrupção. O fato de até o dia 23 de dezembro terem sido julgados apenas 53,95% dessas ações por tribunais regionais federais, estaduais e superiores mostra que, apesar de casos exemplares como o do mensalão, o país continua convivendo com a impunidade no cotidiano. A principal alegação do Judiciário é falta de estrutura adequada para agir diante de denúncias, o que é preocupante, pois acaba estimulando uma prática da qual o país deveria tentar se livrar pela vontade da maioria, não apenas devido ao rigor da legislação. Não adianta o país dispor de normas rígidas contra a corrupção, asseguradas por pressão popular, se as instituições não cumprirem à risca a sua parte.
Diante das mobilizações de rua a partir de junho do ano passado, ganhou celeridade no Congresso a tramitação de projeto de lei que passa a considerar corrupção como crime hediondo. A proposta, prevendo maior rigor, chegou a ser aprovada pelo Senado. Como o clamor popular diminuiu, a Câmara até hoje não examinou o tema, o que dá uma ideia da falta de empenho dos políticos em aprovarem leis que podem se voltar contra eles mesmos, principalmente quando falta pressão nesse sentido.

Nova lei seca - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 03/01

Após mudanças na norma, tornou-se fácil comprovar embriaguez, e multa ficou mais pesada; número de acidentes diminuiu em SP


O trânsito brasileiro, há muito tempo, tem sido responsável por verdadeira carnificina. São cerca de 40 mil mortes a cada ano; quase metade delas, segundo especialistas, está associada ao consumo de bebidas alcoólicas.

Não é preciso mais do que esses dados para justificar a necessidade de combater a embriaguez ao volante. Promulgada em 2008, a chamada lei seca buscava alcançar precisamente esse objetivo. Sua aplicação, porém, vinha sendo limitada pelos tribunais brasileiros.

O problema estava na própria legislação, segundo a qual era preciso comprovar "concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a seis decigramas" a fim de punir o motorista bêbado.

Tal índice, contudo, só pode ser aferido com testes como bafômetro ou exame de sangue. Como ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo, o condutor que recusasse os procedimentos dificilmente seria condenado.

Desde dezembro de 2012, isso mudou. Com nova redação, a lei seca passou a aceitar diversos outros meios de prova --como testes clínicos, vídeos e depoimentos. Além disso, a multa para motoristas embriagados passou de R$ 957,70 para R$ 1.915,40.

O crime definido pela norma também foi alterado, bastando o condutor dirigir "com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool". Ao fazer tais modificações, o legislador poderia ter retirado do texto seu caráter draconiano. Não faz sentido prescrever detenção de pelo menos seis meses mesmo que não haja acidente com vítima.

Ao que tudo indica, a nova lei seca produziu efeitos positivos. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública tabulados pela Folha, a cidade de São Paulo teve queda de 17% no número de mortes em acidentes de trânsito no período de janeiro a novembro de 2013. Foram 498 óbitos, ante 601 no mesmo intervalo de 2012.

No Estado de São Paulo, a redução foi de 9,6%: morreram no trânsito 3.902 pessoas nesses 11 meses de 2013; em igual período de 2012, haviam sido 4.317 ocorrências.

Decerto um avanço, mas a cifra ainda é muito elevada. Em todo o Reino Unido, com 63 milhões de habitantes (o Estado de São Paulo tem 44 milhões), houve cerca de 1.800 mortes no trânsito em 2012.

Como recomenda o International Center for Alcohol Policies (centro internacional para políticas sobre álcool), a legislação não deve servir para apreender transgressores, mas para criar a percepção de que aqueles que a infringirem serão pegos e punidos. Construir tal noção leva tempo, e a tarefa só terá êxito se a aplicação da lei seca não for relaxada.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Só tivemos um fato isolado daquele ‘alucinado’ que roubou a arma de um policial”
Prefeito Eduardo Paes, elogiando o “tremendo sucesso” que foi o réveillon no Rio


PSDB APOIA CAMPOS EM TROCA DE ACORDO EM MINAS

Após negociação intensa nos últimos dez dias, o PSDB fechou aliança e assumirá cargos no governo de Eduardo Campos, em Pernambuco, em troca de segurar o apoio do PSB ao candidato tucano em Minas, em 2014. Para o presidente estadual do PSDB, Sérgio Guerra, “não cabe criar dificuldades ao socialista em Pernambuco, assim como não tem por que o PSB dificultar as eleições para Aécio Neves em Minas”.

DEIXA PRA LÁ

Da mesma forma que o PSDB em Pernambuco, o PSB avalia que teria chance mínima em voo solo em Minas. Só atrapalhariam um ao outro.

OUTRA HISTÓRIA

O acordo não passa por SP, onde o PSB ameaça lançar candidato próprio contra a reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin.

ARTICULAÇÃO

A ex-senadora Marina Silva tenta convencer Luiza Erundina a disputar o governo paulista. Em contrapartida, ela se lançaria a vice de Campos.

MARCANDO PASSOS

Um dos dirigentes da ANTT é Paulo Sergio Passos, aquele que virou ministro após a “faxina ética” de Dilma no Ministério dos Transportes.

SKAF ANTECIPA SUA CAMPANHA, AFIRMA ESPECIALISTA

Para o advogado eleitoralista Dyogo Crosara, é evidente a campanha antecipada do presidente da Federação das Indústrias (Fiesp), Paulo Skaf, ao governo paulista. Propagandas que “enaltecem uma figura pública” são passíveis de multa, mesmo que sem referência à eleição, alerta o advogado, para quem Skaf está sujeito à ação por abuso de poder, com risco de inelegibilidade ou cassação de futuro diploma.

DISSIMULADO

A estratégia de Skaf de enfiar na cabeça do eleitor que ele é melhor que os outros é “dissimulada” e vedada pelo código eleitoral brasileiro.

SEM DESCULPA

O advogado lembra que não adianta se esconder sob alcunha de pré-candidato, pois a propaganda antecipada é “punível a qualquer tempo”.

BUROCRACIA PIROTÉCNICA

Para receber aprovação da Capitania dos Portos, as balsas com os fogos de artifício para o réveillon carioca tiveram de esperar um mês.

TIRANDO O CHAPÉU

Salvo o drogado que tirou arma do PM que tentava evitar que batesse na mulher, e saiu atirando a esmo, o réveillon do Rio foi um primor de organização e segurança na festa para mais de 2 milhões de pessoas.

PAUS DE GALINHEIRO

Taxistas cariocas em geral reconhecem que o governador e o prefeito do Rio têm méritos, mas jamais admitem votar outra vez em Sergio Cabral ou Eduardo Paes (PMDB). Estão com cartaz sujíssimo.

IMPUNIDADE

Na noite de 31, PMs avisaram nos quiosques de Praia Grande (SP) que haveria arrastão à meia-noite. Quem era esperto, foi para casa: o arrastão, por uns 50 jovens, aconteceu pontualmente na virada do ano.

DO OUTRO MUNDO

Os japoneses, que reconstruíram em seis dias uma estrada após a tragédia de Fukushima, ironizaram a “entrega simbólica” do Estádio Arena das Dunas, em Natal (RN): ligaram as luzes, diz o Japan Times.

BYE, BYE, CUBA

O blog da festejada revista Slate americana analisa a curiosa fábrica de exportação cubana de médicos, com o detalhe: seis mil desertaram entre 2003 e 2009, após o governo dos EUA facilitar a entrada deles.

PRESENTE DE GREGO

É de corar Paulo Maluf e juiz Lalau: o ex-vice-primeiro de Armamentos, Antonis Kantas, devolveu € 7 milhões dos € 13,7 milhões de propina em negócios, inclusive no Brasil. A grana estava num banco em Cingapura.

UM LIXO

Debalde a “novidade” do réveillon de 2013 em Copacabana, com ecopontos para lixo seletivo e 150 equipes do Lixo Zero, que deveriam multar os porcões: não evitaram as 403 toneladas de sujeira na praia.

LÁSTIMA

Reconhecido pela luta incansável em favor da democracia, o ex-presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Ophir Cavalcante morreu ontem (2) em São Paulo, onde estava internado.

PENSANDO BEM...

...pego pela Justiça com “saúde estável”, Genoino deve ser o único brasileiro sadio rezando para ficar doente. E assim escapar da Papuda.


PODER SEM PUDOR

VALE O ESCRITO

O ex-líder do governo na Câmara, Professor Luizinho (PT-SP), aquele que se enrolou no mensalão, certa vez presenteou a filha Sofia, 5 anos, com um cão. Mas o petista fez questão de elaborar um "estatuto" em que listou as obrigações da menina com o animal. Um dia, ao ser repreendida pelo pai por outra razão, Sofia estranhou:

- Mas isso não está no estatuto...

SEXTA NOS JORNAIS

- O Globo: Balança comercial tem pior resultado desde o ano 2000

- Folha: Brasil tem menor saldo comercial em 13 anos

O Estado de S. Paulo: Saldo comercial do Brasil é o mais baixo em 13 anos

Correio Braziliense: Dólar em alta e IOF maior afetam o bolso do turista

Jornal do Commercio: Professor do Estado tem reajuste de 8,3%

Zero Hora: De olho nas estradas - Câmeras servirão para multar

Brasil Econômico: Novas plataformas revertem queda de produção de petróleo

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Vigília para o ano novo - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 02/01

A maioria dos turistas são apenas compradores; eles só tem uma experiência: a de comprar


O edifício principal da biblioteca pública de Nova York está na Quinta Avenida, entre as ruas 40 e 42.

É uma construção imponente, no estilo Beaux-Arts, como a Grand Central Station, e a sala de leitura é majestosa, como o átrio de Grand Central: o Beaux-Arts gosta de espaços enormes, altos e sem colunas de sustentação.

Não é um estilo pelo qual eu tenha uma paixão. Sempre achei um pouco pomposo, como tudo o que foi concebido e feito na época de Napoleão 3º e, logo depois, na Terceira República da França --a começar pela Ópera de Paris, que sempre me pareceu imitar um bolo de noiva.

Enfim, o fato é que os turistas, onipresentes em Nova York nestes dias, sobem a escada externa, tiram uma foto de lembrança com aqueles dois leões de mármore, que aparecem em tantos filmes, e penetram no edifício. Eles param para outra foto no átrio (onde se ergue uma grande árvore de Natal) e continuam pela escada interna; quando chegam ao segundo andar, atravessam a sala dos computadores públicos e encontram o espaço que lhes é reservado na entrada da sala de consulta ao catálogo.

Quanto ao acesso à sala de leitura, ele é protegido: os turistas ficam na porta, olhando, e um cartaz avisa que é bom manter o silêncio.

Estou em Nova York para ler algumas (ao menos) fontes primárias (do século 15, 16 e 17) sobre possessão diabólica --isso porque Carlo Antonini, protagonista de minhas ficções, encontrará um exorcista e um endemoninhado num futuro próximo. Restabeleci minha carta de leitor (que não usava há tempos) e minha autorização de acesso à divisão dos livros raros, a sala 328, que é um lugar fechado (é preciso bater à porta), pouco frequentado (sobretudo durante as férias) e com regras estritas: por exemplo, não se entra com sobretudo, pasta ou caneta (a sala fornece papel e lápis).

Estou lendo o relato do exorcismo de Nicole Obry (publicado pouco tempo depois dos fatos, em 1578), o "Flagellum Daemonum" (o flagelo dos demônios), de Gerônimo Menghe, que é um manual de exorcismo bem conhecido na época (1599), e "A Candle in the Dark" (uma vela no escuro), de Thomas Ady, que é um compendio das opiniões (já numerosas na época --1659) dos que acreditavam que não havia possessos, mas apenas enfermos.

Voltarei a escrever sobre exorcistas e endemoninhados. Hoje, o que me importa é a estranha experiência de ler na divisão dos livros raros da biblioteca pública de Nova York, neste fim de 2013.

A sala 328 se situa no fim da grande sala de leitura, longe dos turistas, mas, inevitavelmente, eu os cruzo quando chego e quando volto à sala do catálogo.

Turista sempre foi um termo pejorativo. Chamava-se assim quem viajava por diversão e, inevitavelmente, conseguia uma experiência superficial e chocha do lugar visitado. Hoje, aqui em Nova York, isso parece ser o de menos. A maioria dos turistas são apenas "shoppers", compradores; eles só tem uma experiência: a de comprar. Os que visitam a biblioteca pública entre uma loja e outra devem ser a nata da categoria; mesmo assim, adultos e crianças, quase escondidos atrás das sacolas que carregam, eles olham para mim como se eu habitasse uma outra dimensão. Talvez, eles encarem a biblioteca como um aquário, onde é possível observar uma espécie em via de extinção.

Não resisto à tentação de comparar os "shoppers" aos autores que estou lendo, para quem o mundo era um lugar complexo e interessantíssimo, em que cada opção comportava um risco radical, para a alma e para o corpo.

Sinto tristeza --pelo mundo transformado em bazar, pela miséria da experiência do "shopper" (para quem nem os objetos adquiridos tem relevância, só a estupidez do comprar) e por uma perda que afetará gerações, compradores produzindo compradores.

Entre 1 e 2 de janeiro, começarei o ano na vigília de poesia que acontece a cada ano, na igreja de Saint Mark. Pessoas ficarão na fila noite adentro, com uma temperatura prevista de 15 negativos, para conseguir um assento e passar a noite escutando 140 poetas.

No passado, na hora das catástrofes que ameaçavam a sobrevivência de uma comunidade (peste, invasões, fome), as pessoas se instalavam nas igrejas, em vigília, e pediam a ajuda de Deus contra a barbárie que estava às portas. A noite de poesia de St Mark é meu equivalente laico daquelas vigílias.

É a mãe! - MARIO SERGIO CONTI

O GLOBO - 02/01

Chegou o ano da Copa e das eleições. Oba, regozijam os malcriados. É um bom pretexto para eles xingarem mais ainda


Chegou o ano da Copa e das eleições. Oba, regozijam os malcriados. É um bom pretexto para eles xingarem mais ainda. O técnico do time, o candidato, o adversário, o comentarista, o juiz e o colunista entrarão num corredor polonês verbal. Os delicados acham o vagalhão de impropérios um mau sinal: os argumentos soçobram, o discurso público afunda, a boçalidade se alastra como óleo no mar. Talvez estejam errados.

O insulto está em alta. Atribui-se a responsabilidade à internet. Mas a rede mundial apenas propiciou que mais e mais gente partisse para cima dos outros, lançando adjetivos em vez de mísseis. Como palavras machucam menos do que drones, a agressão retórica é melhor que a real. Raros têm coragem de ofender alguém, face a face e friamente, a propósito de generalidades que não lhes dizem respeito de maneira direta. Correm o risco de levar uma bordoada de verdade.

É possível não ser contaminado pelo pandemônio virtual. Ninguém é obrigado a frequentar blogs raivosos, a ler as eructações da área de comentários, e mesmo a acompanhar mesas-redondas e debates eleitorais. O computador pode ser desligado. A página de ultraje não é de leitura obrigatória. A conversa civilizada e a quietude são preferíveis aos apupos.

A contaminação, no entanto, existe. Há pouco tempo, considerava-se que o injuriador anônimo era moralmente inferior ao indivíduo que assinava embaixo o vitupério. O primeiro era tido por covarde e o outro, por corajoso. Não mais. Os pusilânimes venceram quando organizações respeitadas, mormente jornalísticas, passaram a aceitar o anonimato. Não adianta considerar os seus donos e chefes como responsáveis pelas ofensas inominadas: agora, quem assume os ataques refocila na baixaria. Como a Justiça não funciona, fica-se por isso mesmo. Ainda há, contudo, quem resista ao vale-tudo.

Eles aparentam ser poucos porque quem berra, rubro de raiva, é mais escutado do que aquele que pondera racionalmente. O título “É a mãe!” atrai mais leitores do que “Considerações acerca da retórica da cólera”, ou coisa que o valha. Inicia-se assim a dinâmica do grito. Fala-se cada vez mais alto para angariar atenção. Da interjeição genérica (“É uma ladroeira!”) se passa à acusação (“Ladrão!”) e daí ao incitamento (“Pega ladrão!”) e ao linchamento (“Mata!”). Isso é feito sem que se analise no que consistiu o roubo. Ou se houve mesmo crime. Ou se não haveria outras injustiças a serem coibidas antes. E não se esqueça de que o bramido começou porque um pobre diabo quis aumentar a audiência. Como a obteve, agora ele é um rico diabo, seguido por pobres diabos que lhe fazem coro.

A oratória da ofensa vem então para o primeiro plano. Essa operação tem cabimento em determinadas ocasiões. Num estádio, cabe esgoelar barbaridades. O futebol existe para divertir. Já a política tem como substância a melhoria da vida de pessoas, estamentos e classes. Como há interesses opostos entre elas, a polarização é benfazeja.

Mas mesmo no enfrentamento de forças reais, a afronta escrita é acessória. Na revolução francesa, Maria Antonieta, austríaca, foi chamada num sem-número de panfletos de putain autrichienne. As palavras serviam para incitar o ataque à monarquia. Reduzir a revolução ao calão, ou mesmo atribuir-lhe importância, é ingenuidade — o que contava era a guilhotina, a energia da gente que cortava cabeças. No Brasil de hoje, a desimportância do xingatório é evidente. A plateia pouco influi no resultado dos jogos. O palavrório ofensivo na rede não granjeia novos adeptos, só convence os convertidos.

Seria o caso, pois, de caprichar nos impropérios, espelhar-se em Shakespeare. Em “Ricardo III”, a rainha Margaret, destronada, amaldiçoa o Duque de Gloucester. Xinga-o cara a cara, antes que ele vire rei, em versos contundentes, traduzidos a seguir.

“Aguenta aí, cão, e me escuta bem.

Se o céu tem pragas mais abjetas

Do que as que te rogo, que ele aguarde

Até que os teus pecados apodreçam,

Para então te vomitar ainda mais ódio,

Algoz da paz do pobre mundo!

Que o verme do remorso te roa a alma,

Que penses que os teus amigos te traem

E os troque por traidores vis de verdade.

Que o sono só te cerre os olhos funestos

Para tombares num nefando pesadelo

Onde uma legião de demônios te trucide.

Tu, turvo espírito da treva, porco, aborto,

Tu, filho do inferno, entrevado de nascença!

Tu, fruto podre do ventre de tua mãe,

Tu, obra atroz do esperma de teu pai!”

Revolucionário ou apenas mais um - RICARDO MEDEIROS

CORREIO BRAZILIENSE - 02/01

Francisco ganhou a batalha pela opinião pública. Com espírito desarmado, sorriso no rosto e ação conciliadora, em apenas nove meses, o papa recobrou a simpatia que a Igreja Católica perdeu nos anos de Bento XVI. Adotou tom de maior tolerância com quem a doutrina vê como desviados e de mais respeito com outras religiões, além de promover reformas administrativas na Cúria Romana. Mas as mudanças anunciadas até agora são de forma, não de conteúdo. Nem de longe é possível considerar seu pontificado revolucionário, como analistas vêm fazendo apressadamente.

Não se trata de minimizar o que Francisco tem dito e feito, mas de dar o devido peso a suas palavras e seus atos. Bento XVI, seu antecessor, costumava apontar o dedo inquisitorial para identificar desvios de conduta, especialmente em outras confissões religiosas e no comportamento de homossexuais e divorciados ou em qualquer coisa que fugisse à ortodoxia católica. Francisco estendeu a mão ao outro, sob o argumento de que somos todos "pecadores". Para quem está do lado de cá dos portais das catedrais, certamente é melhor ser tratado de forma amena do que encarado como inimigo.

"Quem sou eu para julgar?", perguntou Francisco, e todos se encantaram com a demonstração de humildade. Nada de fundo se alterou, porém. Jorge Mario Bergoglio é tão conservador quanto Joseph Ratzinger em relação à doutrina, mas consegue embrulhá-la num papel mais suave. O papa argentino, tal qual o alemão, acredita que manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo contraria as leis divinas e que, por isso, quem comete esse "pecado" e não se arrepende está condenado à danação eterna. Ambos concordam que mulheres são indignas de ordenação, que sacerdotes não podem ter vida sexual e que métodos contraceptivos devem ser proscritos.

O deslumbramento com o primeiro papa jesuíta e latino-americano é tamanho, não só no Brasil, que muitos nem se deram conta: a fórmula "quem sou eu para julgar" é pura condescendência, no pior sentido do termo. A recusa em sentenciar se dá de uma posição pretensamente superior, de quem acredita estar certo, mas trata quem discorda de maneira paternalista, passando-lhe a mão na cabeça. Essa piedade papal dificilmente pode redundar em avanços na luta por direitos básicos de homossexuais, como o de casar, adotar crianças ou andar nas ruas sem temer ser alvo de violência gratuita.

Muitos dirão que a Igreja Católica nunca se modernizará, pois, se o fizer, deixará de ser uma referência sólida. Que mal faria modificar uma ideologia que exclui e marginaliza? Se instituições e pessoas não evoluíssem, ainda seríamos caçadores nômades que conquistam mulheres pela força do porrete. As colunas da Basílica de São Pedro não se moveriam nem um milímetro caso o papa resolvesse anunciar que nada há de errado no amor entre duas pessoas do mesmo sexo ou numa relação que se segue a um matrimônio malsucedido. Tanto num quanto noutra, há apenas a busca da felicidade.

Os alicerces da civilização ocidental continuariam os mesmos se, porventura, o bispo de Roma afirmasse que filhos são muito bem-vindos, mas devem ser adiados até que os pais tenham condições psicológicas e materiais de os orientar. Nenhum fiel se imolaria na Capela Sistina caso mulheres pudessem ser ordenadas, exercendo a vocação pastoral de forma plena, e se a padres e solteiros fosse permitido usufruir da dádiva do desejo. Abraçando as diferenças de forma sincera, não como quem lida com incapazes, a Igreja cresceria moralmente, pois estaria concretizando o mandamento do amor.

Quem usar o propalado discernimento jesuíta concluirá que Deus, retrato da suprema sabedoria e da infinita bondade, se existir, não estará preocupado com assuntos comportamentais como os condenados pela Igreja. É desnecessário estudar teologia para intuir isso. Basta consultar a própria consciência, na qual o certo e o errado estão gravados, e empregar o senso de proporção. Insistir numa postura que desconhece a complexidade dos seres humanos é mais do que lhes dar as costas, é deixar de reconhecer neles a centelha da divindade.

Francisco contribui para reduzir a tensão entre a Igreja e as pessoas que ainda lhe dão importância. Insistindo na volta à simplicidade, no conforto espiritual e na ajuda aos pobres, ele retorna à missão indevidamente abandonada. Pela via administrativa, combate a corrupção na Santa Sé e reduz os jogos de poder que minam a atuação pastoral. O papa representou, até agora, novo estilo, mas não pode ser qualificado como progressista - muito menos como revolucionário. Sem tentar, ainda que de maneira gradual, viabilizar reformas substanciais e de fundo doutrinário, a personalidade do ano da revista Time será apenas mais um a ocupar o trono de Pedro.

Entre tempos e sentimentos - ROBERTO DAMATTA

O Estado de S.Paulo - 02/01

O famoso brasilianista Richard Moneygrand me escreve neste período de festas desejando o que ele chama de óbvio: votos de felicidade e saúde. "Não falo mais em dinheiro - diz - porque sei que para nós, professores, escritores e pesquisadores, isso não vem ao caso. O que nos sobra em ideias falta em dinheiro. São raros os que conseguiram guardar ou até mesmo manter a fortuna herdada. Ganhar bem com docência e livros de sociologia só se você virar escritor, mas, mesmo assim, você teria que ser um Balzac, um Thomas Mann ou um Hemingway - e ser vendido a Hollywood. Mas lhe desejo tudo de bom, como ordena a data e o tempo."

Meu amigo abre 2014 com essa notificação exagerada, mas fala de algo real: as datas obrigam a fazer coisas e despertam de fora para dentro e do todo para a parte, certos sentimentos. As emoções são muito mais obrigatórias do que automáticas, como descobriu faz tempo um certo Marcel Mauss.

Sou amigo de Dick faz uns 50 e tantos anos - há meio século. Ficamos muito mais impressionados quando a temporalidade surge sem números mas com um nome. Cinco dezenas falam mais do que 50 anos, quando se trata de certas emoções como o amor ou o ódio, que, supostamente, são sentidos e não promovidos, exceto nas vinganças e da má-fé entre pessoas e famílias. No amor e no ódio, vale mais o adjetivo, já que o amor seria "eterno" ou "infinito" e o ódio, "mortal". Os sentimentos nos levam para longe do relógio e do calendário. Mas retornam quando o tempo precisa ser sentido e vivido.

O amor, como a fidelidade, a fé, a lealdade, a temperança, e coisas mais tenebrosas como a inveja, o ressentimento, a ingratidão e o abandono são duros de medir. Quanto tempo dura a ingratidão? Ou a avareza que, dizem, não tem cura? Mas o ódio e certos tipos de amor podem ser medidos como ocorreu com um amigo quando ele se apaixonou pela moça mais linda da aldeia e, cinco minutos depois, quando ela lhe sorriu, desapaixonou-se porque em vez de pérolas, encontrou entre os seus lábios rubros, uma dupla fieira de dentes podres.

Confirmando essas dificuldades filosóficas deixadas aos cronistas sem assunto e aos que se atrevem a falar de tudo, dizer-se-ia que a vergonha teria fim, exceto no Brasil. O mesmo ocorre com a honra. Mas tal não é o caso da culpa, a qual permanece intacta na paisagem humana, mesmo quando aparentemente soterrada por outros acontecimentos. Marcamos o tempo de modo regular, mas os sentimentos e eventos a ele ligados, são desmedidos.

Na mesma mensagem, Richard Moneygrand, que é um mestre viciado em citações, menciona um ensaio no qual um estudioso de países antigamente chamados de "atrasados" ou "subdesenvolvidos", faz uma descoberta sensacional: quanto mais atrasado o país, mais os seus relógios estão fora de sincronia. O relógio do aeroporto marca 10 horas; mas da estação rodoviária, 10h30; o da catedral, 9h50; ao passo que o do palácio do governo crava 10h45. Já nos países em que alguns dos meus mais queridos amigos gostariam de morar - Suécia, Dinamarca, Suíça, Finlândia -, todos os relógios públicos e privados estão sincronizados. Rigorosamente marcando a mesmíssima hora, minutos e segundos!

Num Brasil antigo, isso era a mais pura verdade. Hoje, eu afirmo que pelo menos os 270 milhões de relógios dos nossos telefones celulares estão em sintonia, marcando o tempo certo e obrigando os seus donos a andarem no tempo determinado por suas obrigações.

Na era de Dom João Charuto o tempo era feito pelas pessoas. Havia o tempo do Rei, sereno e grandioso; e o tempo do povo e dos escravos: exato, exigente e rotineiro. Hoje, vivemos o tempo de cobrança de certos papéis sociais. Ninguém atura mais médicos que não chegam na hora e funcionários públicos relapsos. O mesmo vale para administradores públicos que, sendo importantes, chegam atrasados porque se consideram os mais importantes. Presidentes, quando chegam, aparecem com horas de atraso, governadores com algumas horas; prefeitos com alguns minutos. Mas tudo se complica quando eles se encontram. Diante do presidente, o governador chega em cima da hora e, diante deste, o prefeito é um cronômetro.

E por aí segue essa lógica do tempo medido em relação à seriedade e ao progresso dos países. Bem mesmo faziam os povos tribais que seguiam a Lua e o Sol, cujo tempo começava quando eles resolviam fazer alguma coisa. Assim, era a tarefa social que marcava o tempo e não o contrário. Quando se comia era tempo de comer. Não havia uma "hora do almoço", entenderam?

Por favor, caro leitor ou leitora, não se esqueçam que hoje é 1.º de janeiro de 2014. Não percam a hora de dizer a todos e a cada um dos seus que o seu amor por eles não tem tempo ou hora.

Feliz ano-novo!

Analfabetos em todas as línguas - CORA RÓNAI

O GLOBO - 02/01

“Sou professora de inglês do Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, há quase 24 anos. Na segunda-feira da semana retrasada, dia 16 de dezembro, ao fim do último Conselho de Classe, uma representante da Secretaria da Educação me chamou para me mostrar um documento emitido na sexta-feira anterior, dia 13, reiterando uma tal Portaria 419, de que ninguém tinha ouvido falar. Segundo essa portaria:

“‘No Ensino Médio, no Curso Normal, Ensino Médio Integrado e na Educação Profissional, a língua estrangeira moderna, de matrícula facultativa para o discente, é componente curricular de oferta obrigatória, observado, ainda, a presença da língua espanhola nos termos da lei’. (O grifo é meu, CR)

“Cora, como professora há 26 anos, posso te dizer que, se uma disciplina não tem o ‘poder’ de reter o aluno em sala de aula, ela é automaticamente desprezada pelos alunos, que têm coisas mais importantes com que se preocupar.

“Não estou escrevendo isso porque quero reprovar em massa. Claro que não! Quero entrar em sala de aula e quero que meus alunos me vejam como professora de uma disciplina a ser considerada, e não como ‘perfumaria’ ou ‘inutilidade’ (palavras de alunos).

“O que mais me mata é que, neste ano, ouvi o Eduardo Paes — que nem é meu patrão —, pedir que jovens que falam outros idiomas se voluntariem para auxiliar na Copa (e mais tarde, nas Olimpíadas). Isso, em outras palavras, quer dizer o seguinte: jovens da classe média serão voluntários da Copa, ajudando como intérpretes; jovens de classes economicamente desfavorecidas, que não estudam nos Santos da vida, serão os lixeiros da Copa, os trocadores da Copa, os sei-lá-o-quê da Copa!

“Na semana passada, estava lendo sua coluna, como sempre, quando me deu o estalo: ‘A Cora adora ler, fala outros idiomas... Por que não falar com ela?!’ Uns dias depois, você apareceu numa outra coluna, desejando uma melhor educação no novo ano (além de respeito com os peludos de quatro patas).

“Peço, então, a sua ajuda. Sempre ouvi falar que a Imprensa é o ‘quarto poder’. Considerando que, como professora de escola pública nunca me senti muito ajudada por nenhum dos outros três poderes, seria bom poder contar com os meios de comunicação para, ao menos, iniciar um debate sobre isso.

“Neste ano, a Alab (Associação de Linguística Aplicada do Brasil) discutiu os enunciados das questões de língua estrangeira no Enem; um grupo, defendendo a manutenção dos enunciados em português; o outro, pleiteando enunciados em inglês, acreditando que isso seria importante, como mais um passo rumo à maior valorização e incremento de qualidade no ensino da disciplina. Apesar de ter minha opinião a respeito disso, acho que a resolução dessa portaria é potencialmente muito mais danosa à disciplina. Mandei um e-mail para a associação... e nada! Confesso que estou me sentindo meio sozinha nesta minha indignação.

“O mais engraçado é que, no sábado, dia 21, fui ao colégio dar o resultado final dos alunos, quando eles têm de ir lá para assinar o papel que atesta que estão em dependência numa dada disciplina. Deixei oito alunos em dependência. Cinco, dos oito, foram lá, num sábado cinzento. Vários outros entraram na sala em que estava, para falar comigo, me desejar feliz Natal, fofocar. Muitos comentaram com uma professora de História que também lá estava o quanto eu os obriguei a estudar, com minhas provas-surpresa, meus testes-relâmpago de verbos e minha ranzinzice. Mas o fato é que eles estudaram, e a despeito de eu ser apenas uma professorinha de língua estrangeira, eles aprenderam alguma coisa.

“E o que eu aprendi, com a Portaria 419? Que eu valho ainda menos, como professora do Estado do Rio de Janeiro, do que eu imaginava. Que os grandes administradores da educação pública em nosso estado consideram a minha disciplina ainda menos valiosa do que eu imaginava. E que os políticos acharam mais um meio de maquiar as péssimas estatísticas escolares, quando o pessoal do Banco Mundial der uma olhadinha nos nossos números...

(....)

Gisele Abreu dos Santos”

Gosto muito de dar voz a professores, porque, mais do que índices disso e daquilo e, sobretudo, mais do que quaisquer autoridades, eles é que sabem da educação no país. Trocando em miúdos, o que a carta da Gisele nos informa é que, daqui para a frente, os jovens matriculados em escolas públicas estaduais estarão ainda menos preparados para enfrentar o mercado de trabalho do que já estavam — o que não é dizer pouco. Na prática, aprender inglês (ou espanhol, ou qualquer outra língua) deixa de ser obrigatório para eles, já que língua estrangeira deixou de ser matéria que reprova.

A portaria da Secretaria de Educação — promulgada em setembro, à sorrelfa, quando os professores estavam em greve — é de um cinismo e de uma falta de visão espetaculares. Quem olhar as escolas de fora não notará diferença; e o estado poderá sempre apontar para o currículo e bater no peito metafórico, dizendo que sim, que ensina línguas estrangeiras para as crianças. Mas isso será só uma enganação como tantas outras. Ao deixar de valer nota, a língua estrangeira passará a ser vista pelos alunos como uma bela chance de escapulir da sala de aula. Ninguém precisa de bola de cristal para prever o resultado disso.

Não sei de que cabeças iluminadas saiu a portaria, mas gostaria muito de saber se, para os filhos desses burocratas tão zelosos pelo ensino público, inglês também é matéria irrelevante.

A multiplicação das fubequinhas - CARLOS RAMALHETE

GAZETA DO POVO - PR - 02/01

Transportes – automóveis, coletivos, bicicletas e quetais – são uma questão política. Infelizmente, nossos governos os vêm tratando como uma questão eleitoral, o que é completamente diferente.

A multiplicação dos automóveis, devida a uma política eleitoral de facilitação de crédito, vem criando problemas sem que haja respostas políticas ou administrativas coordenadas. Passou a ser possível escapar das latas de sardinha que passam por transporte público na maior parte do país pagando prestações baixas o bastante para estarem ao alcance de um rapaz solteiro que more com os pais e ganhe um salário mínimo. E ainda se leva um símbolo de status na jogada. Irresistível.

O carro, contudo, continua sendo caríssimo, e promete ficar ainda mais caro com a obrigatoriedade de acessórios ditos de “segurança” – bastante duvidosa, aliás – que acaba de tirar de linha as kombis, que tão bons serviços sempre prestaram. O combustível, aqui, também é um dos mais caros do mundo. O que se tem, na prática, é um incentivo ao consumo desregrado, ao endividamento excessivo para adquirir um símbolo de status. E não é um fenômeno isolado: enquanto a população aumentou 11% nos últimos dez anos, o número de veículos aumentou 123%. Isso se traduz em engarrafamentos por toda parte, pressão para a construção de mais vias expressas, dificuldades de estacionamento, mais poluição e ainda menos investimentos em transportes públicos. Um modelo de transportes que imita o modelo individualista norte-americano, mas com preços absurdamente inflados, numa esquizofrenia que só se explica pela necessidade dos governantes de convencer os eleitores pobres de que já estão na classe média.

Ao mesmo tempo, a classe média-alta urbana – a mesma que antes era reconhecida por ter carro – reage à perda do símbolo tentando transferir o antigo status do automóvel para a bike, uma versão sofisticada da antiga bicicleta do pobre. Funciona mais ou menos assim: se o sujeito é muito pobre, mas pobre de marré deci, ele anda de ônibus. Ganhou um trocadinho, compra uma motinha. Quando começa a tirar o pé da lama, anda de carrinho comprado a prestação. Mas, se ele é de classe média tradicional, filho e neto de donos de carros... Ah, aí ele anda de bike, convencido de estar salvando o planeta.

Essa guerra por status e espaço que ora opõe bicicletas, automóveis, motocicletas e os remanescentes do transporte público não é nem pode ser um modelo viável para os transportes, mas a demagogia eleitoreira que impera impede mudanças reais.


Desforra - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 02/01

O pessoal está sendo injusto com o Renan Calheiros. Ninguém se lembrou de fazer a pergunta que realmente interessa: o implante foi bem-sucedido?



Deve ter gente estudando a tabela — e os astros, e os búzios e as entranhas de pássaros — para saber se há possibilidade de a final da Copa deste ano ser entre Brasil e Uruguai, como em 1950. As duas seleções se enfrentaram muitas vezes depois daquela derrota do Brasil que ficou atravessada na garganta de uma geração, mas desta vez as condições para uma desforra seriam perfeitas: 64 anos depois, valendo outra Copa do Mundo, no Maracanã, o local do crime. O time do Uruguai não está mal. Vários dos seus jogadores brilham na Europa. O Forlán, melhor jogador da última Copa, parece ter esquecido seu futebol num quarto de hotel da África do Sul, mas pode muito bem só estar esperando esta Copa para voltar a ser o que foi. Enfim, estaria tudo pronto para uma catarse coletiva. Ou para outra tragédia, claro.

INJUSTIÇA

O pessoal está sendo injusto com o Renan Calheiros. Todo esse falatório sobre a sua ida num jato da FAB para fazer um implante de cabelos em Recife, e desperdício de dinheiro público e blá-blá-blá, e ninguém se lembrou de fazer a pergunta que realmente interessa: o implante foi bem-sucedido? Li que o resultado só começará a aparecer com o tempo. Quer dizer, vamos pelo menos esperar para ver como fica o homem, antes de falar em desperdício.

PAPO VOVÔ

Nossa neta Lucinda, com 5 anos, muitas vezes dorme na nossa cama. No outro dia ela acordou, viu que eu estava deitado ao seu lado, olhando para ela, e perguntou: “Vô, tu conhece o corcunda de Notre Dame?” Não sei onde ela viu ou ouviu falar do personagem, mas fiquei com a impressão de que acabara de encontrá-lo, num sonho. Cheguei a imaginar que no sonho o corcunda de Notre Dame tivesse dito que me conhecia e ela quisesse confirmar. Pretensão de avô, a de ser citado em sonho de neto.

PARTIDO ERRADO

Na última quinta-feira eu escrevi aqui que deveríamos aguardar o comportamento do STF em relação ao mensalão mineiro e ao cartel paulista, e que só daria para acreditar cem por cento na Justiça brasileira quando, numa pelada entre presos no pátio da Papuda, os times do PT e do PMDB jogassem cada um com onze. Eu queria dizer PSDB, não PMDB. Não tenho nem a desculpa de o “m” e do “s” estarem lado a lado no teclado, e eu ter errado a pontaria por milímetros. Foi patetice mesmo. Desculpe.

Calma, gente - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 02/01

Gilberto Gil notificou o cineasta Cláudio Marques que publicou no site baiano “Teatro Nu”, na véspera de Natal, um texto em que dizia:
“Prefeito ACM Neto cancela shows do final de ano e anuncia R$ 6,5 milhões para a cultura de Salvador.” O site ainda trazia declarações atribuídas ao próprio Gil.
Era uma mentirinha. O show de Caetano e Gil ocorreu. Marques diz que fez um texto irônico “para discutir a política cultural na cidade”.
Ah, bom!

Chiclete com banana
Uma pesquisa do Pew Research Center, nos EUA, mostra que 61% dos americanos têm visão favorável do Brasil. Na lista de 12 países comparados, apenas Canadá (81%), Reino Unido (79%), Japão (70%) e Alemanha (67%) têm, entre os gringos da terra do Tio Sam, mais simpatia que os brasileiros.

Vizinho indesejado...
O mesmo levantamento mostra que o vizinho México tem pouca simpatia dos americanos, com apenas 39% dizendo ter uma visão favorável a eles.
A Arábia Saudita foi o país da lista com pior avaliação: só 27% se declaram simpáticos aos árabes.

Pé no jato
O mineiro Murilo Ferreira, 60 anos, presidente da Vale, completou 1 milhão de quilômetros voados desde junho de 2011, um mês depois da posse.

Lavou tá novo
Uma das dez finalistas do concurso de marchinhas do carnaval 2014 foi “Lenço de cetim”, de Felipe Guaraná, de Paraty, RJ.
Diz o refrão: “Lavou tá novo, lavou tá novo/Água e sabão, no ribeirão, lavou tá novo.”
Danadinho este Felipe.

Horário eleitoral gratuito
Cada brasileiro contribui com R$1,6 mil por ano para bancar os benefícios fiscais concedidos pelo governo.
A conta faz parte de um estudo dos economistas Érica Diniz e José Roberto Afonso, da FGV.

Foi assim...
A dupla computou todos os benefícios diretos e indiretos, como também os empréstimos concedidos com juros camaradas e ainda subsídios e anistias dadas a terceiros.
Só no âmbito do governo federal em 2014 este gasto indireto é estimado em 6,2% do PIB.

Só um exemplo...
Segundo Érica e Zé Roberto, o chamado horário eleitoral gratuito custará aos cofres públicos R$ 839 milhões, só neste ano de eleições, como estimado pela Receita Federal.
Pela lei, as empresas de rádio e TV abatem do imposto o valor do espaço cedido obrigatoriamente aos partidos.

Cartas para a Redação
Frei Betto sugere mais uma pergunta à coluna:
—Por que tantas favelas incendeiam em São Paulo?

É que...
Toda hora surge um incêndio numa comunidade pobre de São Paulo.
Ontem, o fogo atingiu cerca de 500 moradias no bairro Cachoeira, no Guarujá, litoral paulista.

Deu branco na Argentina
Em Buenos Aires, multidões se vestiram de branco na chegada do Ano Novo.
Mas era tudo turista brasileiro.

Afinal...
A ideia de celebrar o réveillon de branco, influência religiosa africana, não é comum na terra de Messi.