O Estado de S.Paulo - 26/12
Primeiro, eles acusavam a imprensa de ser um "partido de oposição" e pouca gente se incomodou. A acusação era tão absurda que não poderia colar. Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa. Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada. Enfrentar e tentar desmontar a retórica do poder, irritando as autoridades, é um mérito jornalístico. Sendo assim, quando eles, que se julgavam aguerridos defensores do governo Lula, brandiam a tese de que a imprensa era um "partido de oposição", parecia simplesmente que os jornalistas estavam cumprindo o seu dever - e que os apoiadores do poder estavam simplesmente passando recibo. Não havia com o que se preocupar.
Depois, as autoridades subiram o tom. Falavam com agressividade, com rancor. A expressão "partido de oposição" virou um xingamento. Outra vez, quase ninguém de fora da base de apoio ao governo levou a sério. Afinal, os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão não se articulavam nos moldes de um partido: não seguiam um comando centralizado, não se submetiam a uma disciplina tipicamente partidária, não tinham renunciado à função de informar para abraçar o proselitismo panfletário. Portanto, acreditava-se, o xingamento podia ser renitente, mas continuava sendo absurdo.
Se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002. Ali, houve um conluio escandalosamente golpista dos meios de comunicação que, por meio de informações falsificadas, tentou derrubar o presidente Hugo Chávez, eleito democraticamente havia pouco tempo. Por fortuna, a quartelada mediática malogrou ridiculamente. Por escassez de virtú, Chávez passaria todo(s) o(s) seu(s) governo(s) se vingando das emissoras que atentaram contra ele.
No Brasil, não tivemos nada parecido. Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político. Por todos os motivos, a acusação continuava sem pé nem cabeça.
Mas o fato é que começou a colar e o cenário começou a ficar esquisito. Agora, as inspirações até então submersas daquela campanha anti-imprensa afloram com mais nitidez. Era um recurso para dar tônus à disposição dos cabos eleitorais (de muitos níveis), para inflar o ânimo dos militantes de baixo e para inflar o ego dos militantes de cima. Agora, chegamos ao ponto de dizerem que os repórteres deram de ombros para a cocaína encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) porque ele, embora esteja filiado a um partido da base governista, teria lá suas inclinações consideradas pouco fiéis. Difícil saber. As mesmas vozes acusam os mesmos repórteres de terem exagerado na cobertura do julgamento do mensalão. Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a "herança maldita" de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa. A tese pode ser doidona, mas está funcionando. Alguns quase festejam: "Viva! Achamos um inimigo para combater! Vamos derrotar os editores de política deste país!".
Deu-se, então, um fenômeno estranhíssimo: as forças instaladas no governo, como que enfadadas do ofício de governar, começaram a fazer oposição à imprensa. Dilma Rousseff jamais embarcou na cantilena, o que deve ser reconhecido e elogiado, mas está cercada de profetas que veem em cada redator, em cada fotojornalista, uma ameaça ao equilíbrio institucional.
A oratória petista depende de ter um antagonista imaginário. Sem isso, parece que não para mais de pé. Sim, temos aí um traço de discurso autoritário. Em todo regime autoritário ou totalitário, a figura mais essencial é a do inimigo. Para os nazistas, esse inimigo estruturante foram os judeus. Para o chavismo, foi o imperialismo, encarnado por Bush, que teria cheiro de enxofre. E mesmo Bush só conseguiu salvar seu mandato do fiasco porque lhe caiu no colo o inimigo chamado terrorismo. É claro que não se pode dizer que o PT atualmente se reduza a um discurso tropegamente autoritário, mas as feições autoritárias e fanatizantes desse discurso vão ganhando densidade a cada dia. Não obstante, está assentado em bases fictícias, completamente fictícias.
Vale frisar este ponto: sem um inimigo para chamar de seu, esse tipo de ossatura ideológica se liquefaz. O que seria dos punhos cerrados dando soquinhos no ar sem o auxílio luxuoso do inimigo imaginário? O que seria dos sonhos de martírio em nome da causa? O que seria das fantasias heroicas e do projeto ambicioso de virar estátua de bronze em praça pública?
Foi aí que a imprensa entrou no credo. Na falta de outra instituição disposta a não se dobrar ao poder, disposta a desconstruir os cenários grandiloquentes armados pelas autoridades, eles encontraram na imprensa a sua razão de viver e de guerrear. Só assim, só com seu inimigo imaginário bem definido, esse discurso encontra seu ponto de equilíbrio: ficar no poder e ao mesmo tempo acreditar - e fazer acreditar - que está na oposição, que combate um mal maior. Seus adeptos, que imaginam odiar a imprensa sem se dar conta de que a temem, agarram-se à luta com sofreguidão. Estão em ponto de bala para o ano eleitoral de 2014.
Mesmo assim, feliz ano-novo.
quinta-feira, dezembro 26, 2013
Armadilhas - RENATO ANDRADE
FOLHA DE SP - 26/12
BRASÍLIA - As medidas adotadas nos últimos anos para animar a economia brasileira se converteram num emaranhado de armadilhas. O desmonte é complicado e embute efeitos colaterais indesejados.
O corte de impostos para alguns produtos é um bom exemplo disso. Diante da desaceleração global, o governo resolveu dar uma mãozinha para a indústria local: reduziu tributos e deixou o consumo fazer o resto.
A medida, de início, teve o efeito desejado. Empregado e com mais dinheiro no bolso, o brasileiro foi às compras. Mas consumo tem limite.
Endividadas, as famílias pisaram no freio. Sem perspectiva clara sobre o apetite para novas compras, as indústrias travaram os investimentos.
A economia, com isso, cresceu menos que o esperado. Se o país anda devagar, a arrecadação de impostos míngua também. Com menos dinheiro no caixa, e despesas cada vez maiores, o governo acabou comprometendo sua gestão de gastos.
Não há mágica para resolver esse tipo de problema. Se o saldo da conta bancária está no vermelho, é preciso arrumar dinheiro extra ou cortar parte das despesas.
Reduzir gastos não é uma ação agradável para governos, muito menos às vésperas de uma eleição. Por isso, a equipe econômica resolveu reduzir parte do benefício concedido para ajudar as indústrias, que passam a pagar um pouco mais de imposto a partir da próxima semana.
A medida vai garantir R$ 1 bilhão a mais para os cofres públicos.
Aqui começam os problemas. Esse dinheiro é insuficiente para melhorar, de forma efetiva, a relação entre receitas e despesas federais.
Imposto mais alto significa produto mais caro. E isso gera consequências: o consumo perde o resto de fôlego que tem --o que pesa sobre as perspectivas de retomada do crescimento-- e a inflação, que já não está baixa, ganha impulso adicional.
A vida na Esplanada dos Ministérios em 2014 não será nada fácil.
BRASÍLIA - As medidas adotadas nos últimos anos para animar a economia brasileira se converteram num emaranhado de armadilhas. O desmonte é complicado e embute efeitos colaterais indesejados.
O corte de impostos para alguns produtos é um bom exemplo disso. Diante da desaceleração global, o governo resolveu dar uma mãozinha para a indústria local: reduziu tributos e deixou o consumo fazer o resto.
A medida, de início, teve o efeito desejado. Empregado e com mais dinheiro no bolso, o brasileiro foi às compras. Mas consumo tem limite.
Endividadas, as famílias pisaram no freio. Sem perspectiva clara sobre o apetite para novas compras, as indústrias travaram os investimentos.
A economia, com isso, cresceu menos que o esperado. Se o país anda devagar, a arrecadação de impostos míngua também. Com menos dinheiro no caixa, e despesas cada vez maiores, o governo acabou comprometendo sua gestão de gastos.
Não há mágica para resolver esse tipo de problema. Se o saldo da conta bancária está no vermelho, é preciso arrumar dinheiro extra ou cortar parte das despesas.
Reduzir gastos não é uma ação agradável para governos, muito menos às vésperas de uma eleição. Por isso, a equipe econômica resolveu reduzir parte do benefício concedido para ajudar as indústrias, que passam a pagar um pouco mais de imposto a partir da próxima semana.
A medida vai garantir R$ 1 bilhão a mais para os cofres públicos.
Aqui começam os problemas. Esse dinheiro é insuficiente para melhorar, de forma efetiva, a relação entre receitas e despesas federais.
Imposto mais alto significa produto mais caro. E isso gera consequências: o consumo perde o resto de fôlego que tem --o que pesa sobre as perspectivas de retomada do crescimento-- e a inflação, que já não está baixa, ganha impulso adicional.
A vida na Esplanada dos Ministérios em 2014 não será nada fácil.
A lei como estorvo – ou como fonte de renda – MARCEL VAN HATTEM
GAZETA DO POVO - 26/12
Com a prisão recente de políticos de alto escalão, a história do combate à corrupção inicia novo capítulo no Brasil. A impunidade de agentes públicos sofreu expressivo golpe no julgamento do mensalão. No entanto, é prudente não esquecermos os capítulos precedentes.
Continuamos encontrando práticas institucionais enraizadas que levam à corrupção ou que a estimulam. Apesar disso, a tendência do cidadão brasileiro é delegar ao governo assuntos que poderiam ser melhor conduzidos por ele mesmo.
A excessiva burocracia brasileira é um claro convite à corrupção – com seus intermediários estatais, papeladas e autenticações para provar que o cidadão é de fato quem ele diz que é. A concessão de alvarás fraudulentos, a falsificação de documentos oficiais e a sonegação de impostos são apenas três possíveis consequências de um sistema que gera maus incentivos para agentes públicos e cidadãos.
A raiz do problema reside na delegação da nossa confiança no próximo ao Estado, deixando-o decidir com quem podemos negociar. Se o Estado não endossa o papel ou a assinatura, o negócio não sai. É um ciclo vicioso: “mais leis” são criadas para combater os maus incentivos gerados por “más leis”.
“Quando os homens são honestos, leis são desnecessárias; quando são corruptos, elas são quebradas”, escreveu Benjamin Disraeli. Parafraseando-o, a lei hoje é vista como estorvo pelo brasileiro honesto; já para o corrupto, é uma fonte de renda. Trata-se da arte de criar dificuldades para vender facilidades. O Brasil é um dos países mais hostis ao empreendedorismo no mundo. Aqui, grande parte da renda produzida é desviada em propinas e favores pagos a quem se serve do público em vez de a ele servir.
Historicamente, a condenação e a prisão dos mensaleiros merecem destaque. Entretanto, a falta de transparência, a certeza da impunidade e a promiscuidade entre agentes públicos e privados foram essenciais para que o esquema do mensalão se sustentasse. Isso não nos permite comemorar demais. Até porque o próprio esquema só foi possível em virtude da alta concentração de poder financeiro nas mãos do Estado, contratante de “serviços de publicidade” sem fiscalização, permitindo a lavagem de dinheiro sujo.
Os milionários crimes de colarinho branco e os pequenos subornos diários são potencializados pela crença de que o agente estatal proverá o melhor serviço ao indivíduo – mesmo quando sabemos que a transparência e a ineficiência no serviço público são regra, não exceção! Até quando continuaremos a nos enganar?
Com a prisão recente de políticos de alto escalão, a história do combate à corrupção inicia novo capítulo no Brasil. A impunidade de agentes públicos sofreu expressivo golpe no julgamento do mensalão. No entanto, é prudente não esquecermos os capítulos precedentes.
Continuamos encontrando práticas institucionais enraizadas que levam à corrupção ou que a estimulam. Apesar disso, a tendência do cidadão brasileiro é delegar ao governo assuntos que poderiam ser melhor conduzidos por ele mesmo.
A excessiva burocracia brasileira é um claro convite à corrupção – com seus intermediários estatais, papeladas e autenticações para provar que o cidadão é de fato quem ele diz que é. A concessão de alvarás fraudulentos, a falsificação de documentos oficiais e a sonegação de impostos são apenas três possíveis consequências de um sistema que gera maus incentivos para agentes públicos e cidadãos.
A raiz do problema reside na delegação da nossa confiança no próximo ao Estado, deixando-o decidir com quem podemos negociar. Se o Estado não endossa o papel ou a assinatura, o negócio não sai. É um ciclo vicioso: “mais leis” são criadas para combater os maus incentivos gerados por “más leis”.
“Quando os homens são honestos, leis são desnecessárias; quando são corruptos, elas são quebradas”, escreveu Benjamin Disraeli. Parafraseando-o, a lei hoje é vista como estorvo pelo brasileiro honesto; já para o corrupto, é uma fonte de renda. Trata-se da arte de criar dificuldades para vender facilidades. O Brasil é um dos países mais hostis ao empreendedorismo no mundo. Aqui, grande parte da renda produzida é desviada em propinas e favores pagos a quem se serve do público em vez de a ele servir.
Historicamente, a condenação e a prisão dos mensaleiros merecem destaque. Entretanto, a falta de transparência, a certeza da impunidade e a promiscuidade entre agentes públicos e privados foram essenciais para que o esquema do mensalão se sustentasse. Isso não nos permite comemorar demais. Até porque o próprio esquema só foi possível em virtude da alta concentração de poder financeiro nas mãos do Estado, contratante de “serviços de publicidade” sem fiscalização, permitindo a lavagem de dinheiro sujo.
Os milionários crimes de colarinho branco e os pequenos subornos diários são potencializados pela crença de que o agente estatal proverá o melhor serviço ao indivíduo – mesmo quando sabemos que a transparência e a ineficiência no serviço público são regra, não exceção! Até quando continuaremos a nos enganar?
Por que adotamos avaliações externas? - CLAUDIA COSTIN
O GLOBO - 26/12
Sabemos quais são os desafios que persistem, como a reduzida melhora em matemática de 7º ano
Um dos grandes avanços que tivemos na educação brasileira nos últimos anos foi a introdução de uma cultura de avaliação, expressa em provas como o Saeb, a Prova Brasil, o Enem e a participação do Brasil no Pisa, teste internacional aplicado pela OCDE a jovens de 15 anos de 65 países. Foi este último teste que permitiu ao país recentemente constatar o atraso em que se encontra, com o 58º lugar, a despeito de ser a sétima economia do mundo. Também foi esta avaliação externa que nos mostrou que fomos o país que mais avançou em matemática, entre 2003 e 2012. Com isso, inúmeras medidas focadas poderão ser adotadas (ou reforçadas) para melhorar a educação. No caso do ensino fundamental, aplica-se a Prova Brasil a cada dois anos, para alunos de 5º e 9º anos, e com ela estabelece-se um índice, o Ideb, que permite às redes e a cada escola conhecer seus desafios.
Mas dois anos é muito tempo na vida de uma criança. Erros se cristalizam e medidas de correção só podem surtir efeito para uma próxima geração de alunos. Por isso, muitas redes optam por complementar esta avaliação com outras, de periodicidade mais curta. O município do Rio optou por realizar dois tipos de provas anuais: a AlfabetizaRio, para alunos de 1º ano, com vistas a avaliar se conseguiram se alfabetizar ao fim do ano, e a Prova Rio, para os de 3º, 4º, 6º, 7º e 8º anos, para verificar o desempenho em língua portuguesa, matemática e ciências.
Os resultados destas provas nos possibilitam aferir o grau de avanço educacional do município e de cada escola, sem riscos de autoengano, típicos de avaliações impressionistas ou de incorreções próprias de exames cujo aplicador ou corretor pode ter seus desejos de sucesso influenciando a nota. Ficamos felizes com o grande avanço da rede municipal, mas sabemos também quais são os desafios que persistem, como a reduzida melhora em matemática de 7º ano. Com isso, pudemos investir mais em materiais de apoio ao professor nos tópicos ainda não dominados pelos alunos e melhorar a formação continuada dos professores.
Utilizamos os resultados também para identificar quais alunos precisam de um reforço escolar mais forte. Para eles, foram criadas as turmas do Nenhuma Criança a Menos (para alunos de 3º e 4º anos) e do Nenhum Jovem a Menos (para os de 7º). As escolas com desempenho mais fraco ganham uma escola madrinha, de perfil parecido, mas com resultados mais positivos na prova. Esta escola ajuda a unidade com maiores desafios a elaborar e implantar um Plano de Melhoria da Aprendizagem, que é apresentado ao nível central para que as diferentes áreas identifiquem apoios possíveis. São eles também a base para descobrirmos os talentos ocultos na rede e dar-lhes visibilidade. Com isso, vamos construindo a possibilidade de dar um salto na qualidade da educação, corrigindo rumos e baseando-nos em práticas melhores e testadas. O Rio merece!
Sabemos quais são os desafios que persistem, como a reduzida melhora em matemática de 7º ano
Um dos grandes avanços que tivemos na educação brasileira nos últimos anos foi a introdução de uma cultura de avaliação, expressa em provas como o Saeb, a Prova Brasil, o Enem e a participação do Brasil no Pisa, teste internacional aplicado pela OCDE a jovens de 15 anos de 65 países. Foi este último teste que permitiu ao país recentemente constatar o atraso em que se encontra, com o 58º lugar, a despeito de ser a sétima economia do mundo. Também foi esta avaliação externa que nos mostrou que fomos o país que mais avançou em matemática, entre 2003 e 2012. Com isso, inúmeras medidas focadas poderão ser adotadas (ou reforçadas) para melhorar a educação. No caso do ensino fundamental, aplica-se a Prova Brasil a cada dois anos, para alunos de 5º e 9º anos, e com ela estabelece-se um índice, o Ideb, que permite às redes e a cada escola conhecer seus desafios.
Mas dois anos é muito tempo na vida de uma criança. Erros se cristalizam e medidas de correção só podem surtir efeito para uma próxima geração de alunos. Por isso, muitas redes optam por complementar esta avaliação com outras, de periodicidade mais curta. O município do Rio optou por realizar dois tipos de provas anuais: a AlfabetizaRio, para alunos de 1º ano, com vistas a avaliar se conseguiram se alfabetizar ao fim do ano, e a Prova Rio, para os de 3º, 4º, 6º, 7º e 8º anos, para verificar o desempenho em língua portuguesa, matemática e ciências.
Os resultados destas provas nos possibilitam aferir o grau de avanço educacional do município e de cada escola, sem riscos de autoengano, típicos de avaliações impressionistas ou de incorreções próprias de exames cujo aplicador ou corretor pode ter seus desejos de sucesso influenciando a nota. Ficamos felizes com o grande avanço da rede municipal, mas sabemos também quais são os desafios que persistem, como a reduzida melhora em matemática de 7º ano. Com isso, pudemos investir mais em materiais de apoio ao professor nos tópicos ainda não dominados pelos alunos e melhorar a formação continuada dos professores.
Utilizamos os resultados também para identificar quais alunos precisam de um reforço escolar mais forte. Para eles, foram criadas as turmas do Nenhuma Criança a Menos (para alunos de 3º e 4º anos) e do Nenhum Jovem a Menos (para os de 7º). As escolas com desempenho mais fraco ganham uma escola madrinha, de perfil parecido, mas com resultados mais positivos na prova. Esta escola ajuda a unidade com maiores desafios a elaborar e implantar um Plano de Melhoria da Aprendizagem, que é apresentado ao nível central para que as diferentes áreas identifiquem apoios possíveis. São eles também a base para descobrirmos os talentos ocultos na rede e dar-lhes visibilidade. Com isso, vamos construindo a possibilidade de dar um salto na qualidade da educação, corrigindo rumos e baseando-nos em práticas melhores e testadas. O Rio merece!
Velhos temas e ruas anônimas - PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP - 26/12
RIO DE JANEIRO - Tudo começou como quase sempre. As chuvas inundaram as ruas logo nos primeiros dias do ano. Destruíram, desabrigaram e voltaram em março. Houve tristeza, desespero, conformismo e mortes.
Depois, tudo aconteceu como nunca tinha acontecido. A população invadiu as ruas. Várias vezes, em muitos dias, por diferentes motivos. Houve emoção, alegria, destruição e violência.
2013 será lembrado como o ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo e do aparecimento de uma multidão nas ruas gritando, inclusive, "Cadê o Amarildo"?
Parte da polícia exagerou, bateu, prendeu, ficou perdida. Parte dos manifestantes exagerou, vandalizou, perdeu a razão. As notícias das ruas foram trazidas por novos mediadores, que estavam no chão, às vezes tropeçando na notícia, mas com frequência dando nós nas chamadas mídias tradicionais.
2013 será lembrado como o ano em que as pessoas relembraram que podem gritar e ser ouvidas. Ano em que os governantes ensaiaram recordar que é preciso ouvir --preços das passagens do transporte público baixaram, projetos de leis foram alterados, reivindicações atendidas--, mas logo mudaram de assunto e esqueceram o que fingiam ter aprendido.
Anteontem, véspera de Natal, o grupo de ativismo digital Anonymous lançou no Youtube um bem editado clipe que dá o tom do que pode se esperar para o ano da Copa --vale a pena ver (http://youtu.be/ -wdMz1nRI5U).
E se o preço e a qualidade dos transportes foram o estopim, a falta de mobilidade pode voltar a ser o tema das eleições e da Copa. Serão milhares de novos passageiros, muitos estrangeiros, que virão para a Copa do Mundo no Brasil. É possível sentirem-se rapidamente estimulados a engrossar a massa de manifestantes brasileiros. Não sem motivo.
RIO DE JANEIRO - Tudo começou como quase sempre. As chuvas inundaram as ruas logo nos primeiros dias do ano. Destruíram, desabrigaram e voltaram em março. Houve tristeza, desespero, conformismo e mortes.
Depois, tudo aconteceu como nunca tinha acontecido. A população invadiu as ruas. Várias vezes, em muitos dias, por diferentes motivos. Houve emoção, alegria, destruição e violência.
2013 será lembrado como o ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo e do aparecimento de uma multidão nas ruas gritando, inclusive, "Cadê o Amarildo"?
Parte da polícia exagerou, bateu, prendeu, ficou perdida. Parte dos manifestantes exagerou, vandalizou, perdeu a razão. As notícias das ruas foram trazidas por novos mediadores, que estavam no chão, às vezes tropeçando na notícia, mas com frequência dando nós nas chamadas mídias tradicionais.
2013 será lembrado como o ano em que as pessoas relembraram que podem gritar e ser ouvidas. Ano em que os governantes ensaiaram recordar que é preciso ouvir --preços das passagens do transporte público baixaram, projetos de leis foram alterados, reivindicações atendidas--, mas logo mudaram de assunto e esqueceram o que fingiam ter aprendido.
Anteontem, véspera de Natal, o grupo de ativismo digital Anonymous lançou no Youtube um bem editado clipe que dá o tom do que pode se esperar para o ano da Copa --vale a pena ver (http://youtu.be/ -wdMz1nRI5U).
E se o preço e a qualidade dos transportes foram o estopim, a falta de mobilidade pode voltar a ser o tema das eleições e da Copa. Serão milhares de novos passageiros, muitos estrangeiros, que virão para a Copa do Mundo no Brasil. É possível sentirem-se rapidamente estimulados a engrossar a massa de manifestantes brasileiros. Não sem motivo.
Dilma em davos - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 26/12
Foi acertada a decisão da presidente Dilma de comparecer ao Fórum Econômico Mundial, em janeiro, para falar aos investidores internacionais reunidos em Davos, na Suíça, no encontro que praticamente define os caminhos do capitalismo mundial. Até mesmo pelo fato de ser esta a primeira vez, a presença da presidente brasileira por si só já alcança o objetivo pretendido, que é o de garantir aos investidores internacionais que seu governo não deixará que o equilíbrio fiscal se perca e garantirá o respeito aos contratos.
O ex-presidente Lula foi o que mais aproveitou as aparições em Davos, tornando-se figura não apenas frequente nos encontros como muito admirada. Ele esteve no Fórum Econômico Mundial dias após ter tomado posse em 2003 e recebeu, no último ano de seu governo, o prêmio de Estadista Global. Antes dele, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comparecera a uma reunião apenas e não gostou de como foi tratado por lá, quando o Brasil ainda não estava no radar internacional como país emergente.
Já Lula manteve uma relação mais amistosa com Davos do que seria de se esperar de um líder de esquerda. E certamente bem melhor do que a que manteve com o Fórum Social Mundial, que, por ironia da política, foi criado pelo PT justamente para se contrapor a Davos. Desde seu primeiro ano de governo, Lula tentou se equilibrar entre os dois encontros, mas não teve muito sucesso com seus companheiros de um novo mundo é possível , mote do Fórum Social.
No primeiro ano, compareceu aos dois fóruns e foi vaiado em Porto Alegre por isso. Em contrapartida, foi tratado como a grande estrela da reunião daquele ano em Davos. Então, ele demonstrou saber perfeitamente diferenciar seu papel de presidente do Brasil do de militante político. Em episódio já relatado na coluna, explicou a diferença a um socialista francês que o encontrou na embaixada do Brasil em Paris e demonstrou descontentamento por ele ter ido a Davos. Hoje eu não sou militante do PT, sou presidente da República. E devo fazer tudo o que um presidente tem que fazer.
Mesmo que depois tenha gradativamente perdido essa capacidade de diferenciar as questões de Estado das questões partidárias, Lula assumiu vários papéis em Davos: houve ano em que foi um vendedor entusiasmado do Brasil para os investidores internacionais, coordenando uma reunião especial sobre os programas de infraestrutura; outros em que foi apenas o líder carismático a encantar os louros de olhos azuis com sua história de vida, de superação.
Capaz de sentir como ninguém para onde o vento sopra, em dois anos Lula fez questão de assumir posições explícitas. Em 2007, com a economia mundial de vento em popa, e a brasileira entrando em ritmo de crescimento acima da média dos últimos anos, Lula escandalizou a esquerda ao decidir só comparecer ao Fórum Econômico, deixando de lado a reunião social no Quênia. Já em 2009, com a crise econômica internacional que estourara em setembro do ano anterior, Lula decidiu pela primeira vez só comparecer ao Fórum Social, em Belém, onde criticou os donos do Universo . Na busca de reaproximação com os movimentos sociais, criticou os Estados Unidos e os países desenvolvidos, culpando-os pela crise econômica mundial, e pôde dividir o protagonismo com líderes esquerdistas como Chávez e Evo Morales, que sempre fizeram muito sucesso no Fórum Social e nunca puseram os pés na estação de esqui suíça que hospeda o Fórum Econômico.
Dilma, que já foi duas vezes ao Fórum Social Mundial, encontrará o Fórum Econômico recuperando-se do trauma que sofreu por não ter previsto a crise financeira internacional de 2008. Este ano o fórum terá como tema principal as profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e, sobretudo, tecnológicas que estão transformando as vidas, as comunidades e as instituições, alterando o poder das hierarquias tradicionais em hierarquias em rede.
Dilma falará no dia 24 em um destaque da programação, tendo o fundador e diretor-executivo do fórum, Klaus Schwab , como anfitrião, tratamento VIP dado aos convidados mais ilustres. Provavelmente o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a ex-senadora Marina Silva não terão o mesmo tratamento VIP, mas serão atrações paralelas que chamarão bastante atenção dos investidores, seja pela fama de Marina de ser um entrave a investimentos devido ao que seria uma visão radicalizada do ambientalismo, quanto pela possibilidade de Campos vir a suceder a Dilma.
Mantendo a marcha lenta - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 26/12
Poderá haver uma novidade na economia brasileira em 2014. Os investimentos deverão impulsionar o crescimento bem mais do que fizeram nos últimos anos. Até agora sustentada pelo consumo - que foi muito estimulado com a generosa concessão de créditos e a redução da tributação de itens de grande vendagem, mas se retrai -, a atividade econômica dependerá cada vez mais daquilo que o poder público e as empresas privadas aplicarem na produção e na infraestrutura.
Isso não significará, porém, a retomada do crescimento rápido. Em razão do desânimo de boa parte dos empresários, os investimentos deverão se concentrar não em máquinas, mas em obras de infraestrutura, cuja expansão depende da limitada competência do governo para retirar do papel seus muitos projetos. Assim, de 2013 para 2014 o ritmo da atividade econômica não deverá oscilar muito. Poderá até diminuir.
Esses são pontos comuns de análises do desempenho da economia brasileira em 2013 e das perspectivas para 2014 feitas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Embora tenha sido melhor do que o do ano anterior, o desempenho da economia em 2013 foi bastante modesto. A CNI estima que, neste ano, o PIB deve ter crescido 2,3%, mais do que o aumento de 1% observado em 2012. Mas, com base nos dados já conhecidos e nas expectativas do empresariado, ela prevê uma desaceleração em 2014, quando o PIB brasileiro poderá crescer 2,1%.
Vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Ipea tem previsões um pouco mais otimistas para o crescimento da economia em 2013 - ano em que o desempenho foi considerado fraco e volátil - e 2014, mas, como a CNI, não prevê grandes mudanças na atividade econômica de um ano para outro.
As limitações financeiras decorrentes da fragilidade da política fiscal levaram o governo a apelar para a participação da iniciativa privada no seu plano de induzir o crescimento por meio dos investimentos. "Por isso a urgência que temos visto para as concessões de infraestrutura", observou o coordenador de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, Fernando Ribeiro. Para 2014, Ribeiro prevê o aumento da participação das obras de infraestrutura na composição dos investimentos, em detrimento da compra de máquinas e de bens de capital.
Também a CNI projeta menores investimentos em máquinas em 2014, em razão do aumento previsto para a taxa dos juros e da baixa confiança dos empresários. A previsão do Ipea e da CNI é, de certa forma, sustentada pelas pesquisas da FGV sobre a confiança da indústria, que apontam para a existência, ainda, de estoques volumosos. Embora menores do que nos meses anteriores, os estoques ainda inibem a confiança dos empresários, o que limita sua disposição de investir.
Embora as transferências do governo por meio de programas como Bolsa Família e a boa situação do mercado de trabalho - com índices muito baixos de desemprego - tendam a sustentar o consumo, surgem fatores que podem reduzi-lo. Os ganhos reais de salários estão se estreitando, o crédito às pessoas físicas se desacelera, enquanto sobem as taxas de juros médias dos empréstimos e continua alto o nível de endividamento das famílias.
Assim, diz o Ipea, "a desejada aceleração do crescimento depende diretamente da expansão dos investimentos". E, para assegurar o crescimento no futuro, é preciso que esses investimentos resultem em ganhos de produtividade, que possam sustentar ganhos reais de renda sem pressionar a inflação.
O cenário mais provável, no entanto, é de que "a economia permaneça por mais algum tempo na atual trajetória, sem grandes riscos de deterioração, mas também sem grandes possibilidades de dinamização no curto prazo", como prevê o Ipea. Ou, como diz a CNI, "a expectativa é de que a economia brasileira siga com dificuldade de acelerar o ritmo de crescimento, uma vez que a maior parte dos entraves a essa aceleração está fundamentada em questões estruturais, que dificilmente serão solucionadas no curto prazo".
Poderá haver uma novidade na economia brasileira em 2014. Os investimentos deverão impulsionar o crescimento bem mais do que fizeram nos últimos anos. Até agora sustentada pelo consumo - que foi muito estimulado com a generosa concessão de créditos e a redução da tributação de itens de grande vendagem, mas se retrai -, a atividade econômica dependerá cada vez mais daquilo que o poder público e as empresas privadas aplicarem na produção e na infraestrutura.
Isso não significará, porém, a retomada do crescimento rápido. Em razão do desânimo de boa parte dos empresários, os investimentos deverão se concentrar não em máquinas, mas em obras de infraestrutura, cuja expansão depende da limitada competência do governo para retirar do papel seus muitos projetos. Assim, de 2013 para 2014 o ritmo da atividade econômica não deverá oscilar muito. Poderá até diminuir.
Esses são pontos comuns de análises do desempenho da economia brasileira em 2013 e das perspectivas para 2014 feitas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Embora tenha sido melhor do que o do ano anterior, o desempenho da economia em 2013 foi bastante modesto. A CNI estima que, neste ano, o PIB deve ter crescido 2,3%, mais do que o aumento de 1% observado em 2012. Mas, com base nos dados já conhecidos e nas expectativas do empresariado, ela prevê uma desaceleração em 2014, quando o PIB brasileiro poderá crescer 2,1%.
Vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Ipea tem previsões um pouco mais otimistas para o crescimento da economia em 2013 - ano em que o desempenho foi considerado fraco e volátil - e 2014, mas, como a CNI, não prevê grandes mudanças na atividade econômica de um ano para outro.
As limitações financeiras decorrentes da fragilidade da política fiscal levaram o governo a apelar para a participação da iniciativa privada no seu plano de induzir o crescimento por meio dos investimentos. "Por isso a urgência que temos visto para as concessões de infraestrutura", observou o coordenador de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, Fernando Ribeiro. Para 2014, Ribeiro prevê o aumento da participação das obras de infraestrutura na composição dos investimentos, em detrimento da compra de máquinas e de bens de capital.
Também a CNI projeta menores investimentos em máquinas em 2014, em razão do aumento previsto para a taxa dos juros e da baixa confiança dos empresários. A previsão do Ipea e da CNI é, de certa forma, sustentada pelas pesquisas da FGV sobre a confiança da indústria, que apontam para a existência, ainda, de estoques volumosos. Embora menores do que nos meses anteriores, os estoques ainda inibem a confiança dos empresários, o que limita sua disposição de investir.
Embora as transferências do governo por meio de programas como Bolsa Família e a boa situação do mercado de trabalho - com índices muito baixos de desemprego - tendam a sustentar o consumo, surgem fatores que podem reduzi-lo. Os ganhos reais de salários estão se estreitando, o crédito às pessoas físicas se desacelera, enquanto sobem as taxas de juros médias dos empréstimos e continua alto o nível de endividamento das famílias.
Assim, diz o Ipea, "a desejada aceleração do crescimento depende diretamente da expansão dos investimentos". E, para assegurar o crescimento no futuro, é preciso que esses investimentos resultem em ganhos de produtividade, que possam sustentar ganhos reais de renda sem pressionar a inflação.
O cenário mais provável, no entanto, é de que "a economia permaneça por mais algum tempo na atual trajetória, sem grandes riscos de deterioração, mas também sem grandes possibilidades de dinamização no curto prazo", como prevê o Ipea. Ou, como diz a CNI, "a expectativa é de que a economia brasileira siga com dificuldade de acelerar o ritmo de crescimento, uma vez que a maior parte dos entraves a essa aceleração está fundamentada em questões estruturais, que dificilmente serão solucionadas no curto prazo".
Serviços ruins revelam Estado incompetente - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 26/12
A ineficiência do Estado brasileiro levou dezenas de milhares de manifestantes às ruas em junho. Resultado? É só visitar repartições públicas país afora, como fez e revelou o Correio, em série de reportagens publicadas ao longo desta semana, para constatar que o grau de insatisfação não mudou. Afinal, a qualidade do atendimento permanece crítica. E a desesperança em relação a melhorias, também. A impressão nos balcões de atendimento é que a crise de qualidade cresce e se generaliza.
Os problemas vão da má gestão ao excesso de burocracia. Sobram prejuízos para o cidadão, as empresas, o país. Direitos e deveres se perdem num emaranhado de desinformação. A máquina inoperante que o contribuinte paga caro para funcionar nem sequer consegue ter êxito nas ouvidorias, que deveriam ser canais de comunicação para queixas, denúncias, sugestões e até elogios, mas costumam ter mão única, sem retorno capaz de solucionar problemas.
De tão crítica a situação, basta alguém imaginar a hipótese de precisar ir à Receita Federal, ao INSS, ao Departamento de Trânsito do DF ou ao Detran de um estado qualquer da Federação, para começar o sofrimento. A postos de saúde, hospitais e juntas comerciais, o mesmo. Usar transporte público, idem. E por aí vai. Mas o mau atendimento está longe de resumir-se a meros aborrecimentos. Bem mais do que isso, é uma vergonha nacional com altos custos para o país, seja do ponto de vista financeiro, seja pela desonra da colocação em últimos lugares em rankings internacionais de qualidade.
Entre as 30 nações com a maior carga tributária do planeta, o Brasil apresenta o pior retorno - na forma de serviços - aos cidadãos dos impostos arrecadados, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Estamos na 116ª colocação, entre 189 países, se a análise for de ambiente favorável a negócios, conforme avaliação do Banco Mundial.
E não é para menos. Aqui se leva quase quatro meses (119 dias) para abrir uma empresa, enquanto a média no G20, grupo das 20 maiores economias do planeta, é de 20 dias. São tantas as dificuldades, que muitos investidores desistem antes de começar. O Correio flagrou, por exemplo, um vigia em desvio de função na Junta Comercial da capital da República. Cabia ao segurança terceirizado distribuir senhas e formulários, além de informar o cidadão sobre os confusos procedimentos no local.
Do ponto de vista macro, a situação não é melhor. A Super Receita, anunciada com pompa, seis anos atrás, até hoje não conseguiu integrar totalmente os sistemas da Receita Federal e da Receita Previdenciária. Resultado: quem precisa dos serviços tem de agendar atendimentos diferentes nos respectivos órgãos, cada qual com seus complicadores extras.
O fato é que a máquina pública federal, com quase 40 ministérios, revela-se um paquiderme pachorrento. São 39 ministros, contra 17 nos Estados Unidos! Às vésperas de uma reforma ministerial, motivada pela necessidade de desincompatibilização de vários candidatos a cargos eletivos no pleito de outubro próximo, é difícil imaginar mudanças com objetivos técnicos, livres de interferências político-eleitorais. Mas a presidente Dilma Rousseff, em campanha pela reeleição, certamente ganharia popularidade se ao menos sinalizasse a intenção de reformar o Estado em busca de eficiência.
Os problemas vão da má gestão ao excesso de burocracia. Sobram prejuízos para o cidadão, as empresas, o país. Direitos e deveres se perdem num emaranhado de desinformação. A máquina inoperante que o contribuinte paga caro para funcionar nem sequer consegue ter êxito nas ouvidorias, que deveriam ser canais de comunicação para queixas, denúncias, sugestões e até elogios, mas costumam ter mão única, sem retorno capaz de solucionar problemas.
De tão crítica a situação, basta alguém imaginar a hipótese de precisar ir à Receita Federal, ao INSS, ao Departamento de Trânsito do DF ou ao Detran de um estado qualquer da Federação, para começar o sofrimento. A postos de saúde, hospitais e juntas comerciais, o mesmo. Usar transporte público, idem. E por aí vai. Mas o mau atendimento está longe de resumir-se a meros aborrecimentos. Bem mais do que isso, é uma vergonha nacional com altos custos para o país, seja do ponto de vista financeiro, seja pela desonra da colocação em últimos lugares em rankings internacionais de qualidade.
Entre as 30 nações com a maior carga tributária do planeta, o Brasil apresenta o pior retorno - na forma de serviços - aos cidadãos dos impostos arrecadados, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Estamos na 116ª colocação, entre 189 países, se a análise for de ambiente favorável a negócios, conforme avaliação do Banco Mundial.
E não é para menos. Aqui se leva quase quatro meses (119 dias) para abrir uma empresa, enquanto a média no G20, grupo das 20 maiores economias do planeta, é de 20 dias. São tantas as dificuldades, que muitos investidores desistem antes de começar. O Correio flagrou, por exemplo, um vigia em desvio de função na Junta Comercial da capital da República. Cabia ao segurança terceirizado distribuir senhas e formulários, além de informar o cidadão sobre os confusos procedimentos no local.
Do ponto de vista macro, a situação não é melhor. A Super Receita, anunciada com pompa, seis anos atrás, até hoje não conseguiu integrar totalmente os sistemas da Receita Federal e da Receita Previdenciária. Resultado: quem precisa dos serviços tem de agendar atendimentos diferentes nos respectivos órgãos, cada qual com seus complicadores extras.
O fato é que a máquina pública federal, com quase 40 ministérios, revela-se um paquiderme pachorrento. São 39 ministros, contra 17 nos Estados Unidos! Às vésperas de uma reforma ministerial, motivada pela necessidade de desincompatibilização de vários candidatos a cargos eletivos no pleito de outubro próximo, é difícil imaginar mudanças com objetivos técnicos, livres de interferências político-eleitorais. Mas a presidente Dilma Rousseff, em campanha pela reeleição, certamente ganharia popularidade se ao menos sinalizasse a intenção de reformar o Estado em busca de eficiência.
Algumas lições do ano - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 26/12
O governo deveria ter humildade para fazer um balanço com foco nos equívocos e nas lições deles derivadas para ajudar a evitar erros similares no futuro
Se o ano de 2013 não ofereceu resultados espetaculares para a economia, pelo menos serviu para deixar algumas lições econômicas importantes. Se o governo tivesse humildade para fazer um balanço com foco nos equívocos e nas lições deles derivadas, o aprendizado poderia ser bastante grande, o que ajudaria a evitar erros similares no futuro. Mas o problema está justamente nisso: o governo da presidente Dilma, a começar por ela própria, não tem propensão à humildade.
Entre as várias lições derivadas dos equívocos, algumas merecem destaque. A primeira é que não se obtém crescimento econômico – medido pela expansão do Produto Interno Bruto (PIB) – a não ser que a taxa de investimento cresça, sobretudo os investimentos em infraestrutura. O governo implantou várias medidas pontuais, a exemplo de estímulos tributários específicos, e abusou da tentativa de aumentar o consumo por meio de estímulo ao endividamento das pessoas para forçar o crescimento do PIB. Porém, ao mesmo tempo, descuidou dos investimentos em obras de infraestrutura física.
Essas estratégias começaram já no governo Lula e deram certo por algum tempo. Ao ser expandido, o consumo das famílias puxou a produção para cima, o nível de emprego aumentou e, até 2010, o PIB cresceu. Uma vez esgotada a capacidade de endividamento pessoal, a opção de promover o crescimento por essa via esgotou-se. Embora tenha percebido isso e tentado privatizar investimentos nos setores de transporte, portos e aeroportos, por meio de editais de concessão ao setor privado, o governo demorou demais. Os resultados desse tipo de política demoram a aparecer e não foram suficientes para impedir o medíocre crescimento do PIB nos últimos três anos.
A segunda lição importante é que o relaxamento nos gastos públicos – elevando despesas de custeio, inchando a máquina estatal e dando generosos aumentos salariais aos funcionários – eleva o déficit público nominal, com sérios efeitos danosos à economia. Embora possa dar resultados positivos no prazo curto, em prazo médio as consequências ruins do déficit começam a aparecer. Com a redução do superávit primário, o governo reduz o volume de dinheiro em caixa para pagar os juros da dívida pública e a saída é fazer mais dívida. O déficit nominal – que é o saldo do superávit primário menos os juros da dívida – obriga o Banco Central (BC) a elevar a taxa de juros, já que diminui o volume de crédito disponível ao setor privado, e isso também é ruim.
A terceira lição vem de uma prática lamentável do governo Dilma. É um erro crasso manipular a contabilidade pública e maquiar os resultados reais das contas fiscais, na tentativa de mostrar uma situação financeira boa que na prática não é verdadeira. O governo Dilma fez isso nos últimos três anos, criou desconfiança dos agentes econômicos internos e abalou a credibilidade internacional do Brasil. O preço dessa prática é alto. Os investidores externos fogem, os bancos estrangeiros deixam de acreditar nas informações econômicas, o ingresso de dólares diminui e, como agora foi anunciado, as agências de classificação de risco tendem a reduzir a nota do país.
A principal consequência da redução da nota é a percepção de que o país ficou mais arriscado e, por isso, a taxa de juros paga nos empréstimos internacionais feitos pelo governo e pelas empresas nacionais sobe. Ou seja, a redução da confiança custa dinheiro. Tanto a presidente Dilma quanto o ministro Guido Mantega não parecem dar mostras de terem aprendido a lição, pois as manipulações contábeis continuaram em 2013. A presidente tem o péssimo hábito de dizer que os críticos torcem contra o Brasil. É o contrário: quando apontam erros, os críticos ajudam.
A quarta lição é que o governo sozinho jamais conseguirá fazer os investimentos necessários e que não existe lógica alguma em rejeitar investimento privado nessa área. A crença de que investimentos privados em setores de infraestrutura são prejudiciais é completamente equivocada e não faz sentido algum no mundo moderno. O governo sim é perigoso, seja por não ter dinheiro para investir, por ser ineficiente ou por apresentar alta taxa de corrupção.
Se o Brasil aprendesse ao menos essas quatro lições, a chance de ter uma economia melhor nos próximos anos seria maior.
O governo deveria ter humildade para fazer um balanço com foco nos equívocos e nas lições deles derivadas para ajudar a evitar erros similares no futuro
Se o ano de 2013 não ofereceu resultados espetaculares para a economia, pelo menos serviu para deixar algumas lições econômicas importantes. Se o governo tivesse humildade para fazer um balanço com foco nos equívocos e nas lições deles derivadas, o aprendizado poderia ser bastante grande, o que ajudaria a evitar erros similares no futuro. Mas o problema está justamente nisso: o governo da presidente Dilma, a começar por ela própria, não tem propensão à humildade.
Entre as várias lições derivadas dos equívocos, algumas merecem destaque. A primeira é que não se obtém crescimento econômico – medido pela expansão do Produto Interno Bruto (PIB) – a não ser que a taxa de investimento cresça, sobretudo os investimentos em infraestrutura. O governo implantou várias medidas pontuais, a exemplo de estímulos tributários específicos, e abusou da tentativa de aumentar o consumo por meio de estímulo ao endividamento das pessoas para forçar o crescimento do PIB. Porém, ao mesmo tempo, descuidou dos investimentos em obras de infraestrutura física.
Essas estratégias começaram já no governo Lula e deram certo por algum tempo. Ao ser expandido, o consumo das famílias puxou a produção para cima, o nível de emprego aumentou e, até 2010, o PIB cresceu. Uma vez esgotada a capacidade de endividamento pessoal, a opção de promover o crescimento por essa via esgotou-se. Embora tenha percebido isso e tentado privatizar investimentos nos setores de transporte, portos e aeroportos, por meio de editais de concessão ao setor privado, o governo demorou demais. Os resultados desse tipo de política demoram a aparecer e não foram suficientes para impedir o medíocre crescimento do PIB nos últimos três anos.
A segunda lição importante é que o relaxamento nos gastos públicos – elevando despesas de custeio, inchando a máquina estatal e dando generosos aumentos salariais aos funcionários – eleva o déficit público nominal, com sérios efeitos danosos à economia. Embora possa dar resultados positivos no prazo curto, em prazo médio as consequências ruins do déficit começam a aparecer. Com a redução do superávit primário, o governo reduz o volume de dinheiro em caixa para pagar os juros da dívida pública e a saída é fazer mais dívida. O déficit nominal – que é o saldo do superávit primário menos os juros da dívida – obriga o Banco Central (BC) a elevar a taxa de juros, já que diminui o volume de crédito disponível ao setor privado, e isso também é ruim.
A terceira lição vem de uma prática lamentável do governo Dilma. É um erro crasso manipular a contabilidade pública e maquiar os resultados reais das contas fiscais, na tentativa de mostrar uma situação financeira boa que na prática não é verdadeira. O governo Dilma fez isso nos últimos três anos, criou desconfiança dos agentes econômicos internos e abalou a credibilidade internacional do Brasil. O preço dessa prática é alto. Os investidores externos fogem, os bancos estrangeiros deixam de acreditar nas informações econômicas, o ingresso de dólares diminui e, como agora foi anunciado, as agências de classificação de risco tendem a reduzir a nota do país.
A principal consequência da redução da nota é a percepção de que o país ficou mais arriscado e, por isso, a taxa de juros paga nos empréstimos internacionais feitos pelo governo e pelas empresas nacionais sobe. Ou seja, a redução da confiança custa dinheiro. Tanto a presidente Dilma quanto o ministro Guido Mantega não parecem dar mostras de terem aprendido a lição, pois as manipulações contábeis continuaram em 2013. A presidente tem o péssimo hábito de dizer que os críticos torcem contra o Brasil. É o contrário: quando apontam erros, os críticos ajudam.
A quarta lição é que o governo sozinho jamais conseguirá fazer os investimentos necessários e que não existe lógica alguma em rejeitar investimento privado nessa área. A crença de que investimentos privados em setores de infraestrutura são prejudiciais é completamente equivocada e não faz sentido algum no mundo moderno. O governo sim é perigoso, seja por não ter dinheiro para investir, por ser ineficiente ou por apresentar alta taxa de corrupção.
Se o Brasil aprendesse ao menos essas quatro lições, a chance de ter uma economia melhor nos próximos anos seria maior.
O risco da volta a 2003 - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 26/12
Os quase 16 anos deste ciclo do PT no Palácio do Planalto começaram de uma forma, na condução da política econômica, e entram no último ano de mandato de Dilma Rousseff de outra maneira. Uma das diferenças marcantes — pelo menos até agora — ocorre na condução da política fiscal.
Em 2003, quando o partido e aliados subiram a rampa do Palacio do Planalto com Lula de faixa presidencial, a política de gastos públicos seguiu os manuais clássicos. Foi uma administração atenta, contra abusos, restritiva, coerente com a necessidade daquele momento.A inflação, atiçada pela subida do dólar em função do “risco-PT”, chegou aos píncaros dos dois dígitos e precisou ser debelada por uma política de contenção de despesas governamentais conjugada com a elevação dos juros básicos (política monetária).
Deu certo, como previsto, e o IPCA se aproximou da meta dos 4,5%, estabelecida com dois pontos de margem para cima ou para baixo. A partir do final do segundo governo Lula, o respeito à política do tripé — cumprimento das metas de inflação, do superávit primário e câmbio flutuante —, mantida, com êxito da Era tucana, foi, digamos, flexibilizado.
Sob inspiração da ideologia “desenvolvimentista”, lastreada no intervencionismo estatal, lançou-se a política do “novo marco macroeconômico”, consubstanciada em câmbio desvalorizado, juros baixos e nenhuma maior preocupação com os gastos — para ativar a demanda — e inflação.Neste aspecto, dentro da ideia equivocada, e tantas vezes comprovada como míope, de que vale a pena “um pouco de inflação, para se obter um crescimento maior”.Ora, a inflação corrói o crescimento. Como mais uma vez o país testemunha.
O abandono do “tripé” ficou bastante visível na “perna” fiscal. O recurso constante a subterfúgios para se abater a meta de superávit primário foi, aos poucos e implacavelmente, abalando a credibilidade da política fiscal, ponto-chave para investidores no país e credores do Tesouro. Pois se trata de saber sobre a capacidade que o Estado brasileiro possui de pagar as suas dívidas.
Não há qualquer risco de desastre na esquina. Mas a tendência de aumento constante das despesas em custeio, acima da arrecadação, faz o mercado precificar o futuro.Ele passa, por exemplo, a exigir rendimentos mais elevados em títulos do Tesouro com taxas prefixadas. Aumenta o custo do Estado para a sociedade. E isto já acontece.
Com o advento da “contabilidade criativa”, capaz de gerar receita primária, por exemplo, por meio de dividendos de bancos públicos pagos na verdade com dinheiro de dívida do Tesouro, o quadro piorou para o país.
A meta de 3,1% do PIB de superávit primário foi reduzida para 2,1%, mas deverá ser abaixo disso. Há sinais de que o Planalto percebeu o erro do sepultamento do “tripé”. Tem 2014, ano eleitoral, para tentar consertar os estragos. Se não, 2015 pode repetir 2003.
Os quase 16 anos deste ciclo do PT no Palácio do Planalto começaram de uma forma, na condução da política econômica, e entram no último ano de mandato de Dilma Rousseff de outra maneira. Uma das diferenças marcantes — pelo menos até agora — ocorre na condução da política fiscal.
Em 2003, quando o partido e aliados subiram a rampa do Palacio do Planalto com Lula de faixa presidencial, a política de gastos públicos seguiu os manuais clássicos. Foi uma administração atenta, contra abusos, restritiva, coerente com a necessidade daquele momento.A inflação, atiçada pela subida do dólar em função do “risco-PT”, chegou aos píncaros dos dois dígitos e precisou ser debelada por uma política de contenção de despesas governamentais conjugada com a elevação dos juros básicos (política monetária).
Deu certo, como previsto, e o IPCA se aproximou da meta dos 4,5%, estabelecida com dois pontos de margem para cima ou para baixo. A partir do final do segundo governo Lula, o respeito à política do tripé — cumprimento das metas de inflação, do superávit primário e câmbio flutuante —, mantida, com êxito da Era tucana, foi, digamos, flexibilizado.
Sob inspiração da ideologia “desenvolvimentista”, lastreada no intervencionismo estatal, lançou-se a política do “novo marco macroeconômico”, consubstanciada em câmbio desvalorizado, juros baixos e nenhuma maior preocupação com os gastos — para ativar a demanda — e inflação.Neste aspecto, dentro da ideia equivocada, e tantas vezes comprovada como míope, de que vale a pena “um pouco de inflação, para se obter um crescimento maior”.Ora, a inflação corrói o crescimento. Como mais uma vez o país testemunha.
O abandono do “tripé” ficou bastante visível na “perna” fiscal. O recurso constante a subterfúgios para se abater a meta de superávit primário foi, aos poucos e implacavelmente, abalando a credibilidade da política fiscal, ponto-chave para investidores no país e credores do Tesouro. Pois se trata de saber sobre a capacidade que o Estado brasileiro possui de pagar as suas dívidas.
Não há qualquer risco de desastre na esquina. Mas a tendência de aumento constante das despesas em custeio, acima da arrecadação, faz o mercado precificar o futuro.Ele passa, por exemplo, a exigir rendimentos mais elevados em títulos do Tesouro com taxas prefixadas. Aumenta o custo do Estado para a sociedade. E isto já acontece.
Com o advento da “contabilidade criativa”, capaz de gerar receita primária, por exemplo, por meio de dividendos de bancos públicos pagos na verdade com dinheiro de dívida do Tesouro, o quadro piorou para o país.
A meta de 3,1% do PIB de superávit primário foi reduzida para 2,1%, mas deverá ser abaixo disso. Há sinais de que o Planalto percebeu o erro do sepultamento do “tripé”. Tem 2014, ano eleitoral, para tentar consertar os estragos. Se não, 2015 pode repetir 2003.
O Brasil nas ruas - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 26/12
Motivados inicialmente pelo alto custo e a baixa qualidade do transporte público, os protestos deixaram grafados desde o início: “Não é por 20 centavos, é pelo meu futuro”. Em seguida, miraram os investimentos da Copa, com a ressalva: “Não é contra a Seleção, é contra a corrupção”. Em outras mensagens escritas, os manifestantes passaram a exigir “Saúde padrão Fifa”, a ironizar que “Ia ixcrever augu legau mais faltô edukssão”, a pedir segurança com frases do tipo “Por favor, não me bata! Proteja-me”, a alertar a classe política de que “Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil”. Diante de apelos transcritos também em pôsteres com referências a clássicos da música brasileira como “Brasil, mostra tua cara” e “O dia vai raiar, sem lhe pedir licença”, dirigentes brasileiros dispuseram-se finalmente a ouvir mais a voz das ruas, a discursar e a ostentar menos, a mudar a agenda, a fazer diferente, a reconhecer erros.
Em muitas capitais, a tarifa de ônibus urbano diminuiu, mas a discussão não se limitou aos 20 centavos: hoje, a mobilidade urbana é tema central, o espaço público entrou na pauta da sociedade e a bicicleta se firma como símbolo da mudança. O Planalto se deu conta da gravidade do estado da saúde pública. Mas, por enquanto, as mudanças são percebidas mais por meio de iniciativas polêmicas, como o Mais Médicos, enquanto persiste o medo nas ruas e os professores continuam longe de ter “o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol”. O Congresso preocupou-se em impor mais rigor a crimes envolvendo corrupção, tornou suas votações mais transparentes em alguns casos, facilitando o acompanhamento por parte dos cidadãos. Continua, porém, devendo uma reforma política ampla. Ampla o suficiente para levar os eleitores a recuperar a confiança perdida em seus representantes escolhidos pelo voto.
A exemplo de outros movimentos disseminados pelo mesmo processo de “propagação viral” como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e os Indignados, na Espanha, o nosso não conseguiu tornar reais todos os desejos manifestados nos cartazes. Depois de junho de 2013, porém, o relacionamento entre instituições públicas e privadas com seus públicos, nelas incluídas a própria mídia, nunca mais será o mesmo. O legado das manifestações populares terá mais consistência se contribuir para reforçar a cidadania e a ética entre os brasileiros.
Desafios no comércio - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 26/12
Ainda que de maneira tardia, governo Dilma Rousseff parece perceber necessidade e importância de buscar negociações bilaterais
Passada a comemoração pelos discretos resultados de Bali, onde se reativou, no início do mês, a agenda multilateral no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo brasileiro quer agora agir em outras frentes.
Tem pressa, por exemplo, em avançar nas negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), travado desde 2005.
Tal disposição, súbita e tardia, decorre da percepção de que os principais acordos têm ocorrido ao largo da OMC. Os dois maiores pactos em gestação, a Parceria Transpacífica (reunindo EUA e mais 10 países) e a Parceria Transatlântica para Comércio e Investimentos (EUA e UE), englobam nada menos que dois terços do PIB mundial.
Em jogo, além da abertura de mercados para bens e serviços, estão a definição de padrões industriais, sobretudo em segmentos de alta tecnologia, compras do governo e barreiras sanitárias.
Iniciativas desse tipo fariam bem ao Brasil, cujo deficit comercial em produtos manufaturados de média e alta tecnologia já está próximo de US$ 100 bilhões. Não por acaso, alguns setores da indústria, tradicionalmente inclinada ao protecionismo, já pedem abertura e acesso a tecnologia, sem o que não conseguirão ganhar competitividade.
A ambiciosa oferta brasileira à UE objetiva reduzir em até 90% as barreiras entre os blocos em dez anos. O setor automotivo, importante para os europeus, teria tarifas zeradas em 15 anos e deve ser usado pelo Brasil em barganhas sobre abertura para produtos agrícolas.
Um acordo como esse contribuiria para tirar o Brasil de seu isolamento, mas as negociações, já difíceis, tornaram-se mais complicadas na última semana, quando a UE decidiu iniciar uma disputa, na OMC, contra a política industrial do governo Dilma Rousseff.
Beneficiando produtos nacionais em detrimento de importados, isenções ou reduções tributárias oferecidas pelo governo brasileiro configurariam protecionismo.
O possível empecilho soma-se ao já conhecido desafio que representam os parceiros do Mercosul. A Argentina, por exemplo, tende a ser mais protecionista --o que afeta inclusive as exportações brasileiras àquele país.
Não parece promissor depender da Argentina para negociar acordos com terceiros. Torna-se cada vez mais evidente que o Mercosul, de inegável significado histórico e político, trava o desenvolvimento do comércio exterior brasileiro.
Também por isso o Brasil, na última década, envolveu-se em apenas três acordos comerciais, dentre os cerca de 350 negociados globalmente. Talvez seja o momento de agir mais por conta própria.
Ainda que de maneira tardia, governo Dilma Rousseff parece perceber necessidade e importância de buscar negociações bilaterais
Passada a comemoração pelos discretos resultados de Bali, onde se reativou, no início do mês, a agenda multilateral no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo brasileiro quer agora agir em outras frentes.
Tem pressa, por exemplo, em avançar nas negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), travado desde 2005.
Tal disposição, súbita e tardia, decorre da percepção de que os principais acordos têm ocorrido ao largo da OMC. Os dois maiores pactos em gestação, a Parceria Transpacífica (reunindo EUA e mais 10 países) e a Parceria Transatlântica para Comércio e Investimentos (EUA e UE), englobam nada menos que dois terços do PIB mundial.
Em jogo, além da abertura de mercados para bens e serviços, estão a definição de padrões industriais, sobretudo em segmentos de alta tecnologia, compras do governo e barreiras sanitárias.
Iniciativas desse tipo fariam bem ao Brasil, cujo deficit comercial em produtos manufaturados de média e alta tecnologia já está próximo de US$ 100 bilhões. Não por acaso, alguns setores da indústria, tradicionalmente inclinada ao protecionismo, já pedem abertura e acesso a tecnologia, sem o que não conseguirão ganhar competitividade.
A ambiciosa oferta brasileira à UE objetiva reduzir em até 90% as barreiras entre os blocos em dez anos. O setor automotivo, importante para os europeus, teria tarifas zeradas em 15 anos e deve ser usado pelo Brasil em barganhas sobre abertura para produtos agrícolas.
Um acordo como esse contribuiria para tirar o Brasil de seu isolamento, mas as negociações, já difíceis, tornaram-se mais complicadas na última semana, quando a UE decidiu iniciar uma disputa, na OMC, contra a política industrial do governo Dilma Rousseff.
Beneficiando produtos nacionais em detrimento de importados, isenções ou reduções tributárias oferecidas pelo governo brasileiro configurariam protecionismo.
O possível empecilho soma-se ao já conhecido desafio que representam os parceiros do Mercosul. A Argentina, por exemplo, tende a ser mais protecionista --o que afeta inclusive as exportações brasileiras àquele país.
Não parece promissor depender da Argentina para negociar acordos com terceiros. Torna-se cada vez mais evidente que o Mercosul, de inegável significado histórico e político, trava o desenvolvimento do comércio exterior brasileiro.
Também por isso o Brasil, na última década, envolveu-se em apenas três acordos comerciais, dentre os cerca de 350 negociados globalmente. Talvez seja o momento de agir mais por conta própria.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“O médico sozinho melhora um pouco a saúde, muito pouco”
Dráuzio Varella, médico famoso que não atua em hospital público desde os anos 1990
ANTT FAVORECE GRUPO AO MUDAR EDITAL DE LICITAÇÃO
Às vésperas da licitação das linhas de ônibus do transporte rodoviário de passageiros, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) fez uma série de alterações no edital no 001/2013 favorecendo as empresas que dominam o setor, no País. As modificações do edital foram decididas após audiência, dia 20 de novembro, com Associação Brasileira Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).
PREJUDICADAS
Publicadas no DOU de 13/ 12/2013, as mudanças no edital excluíram do processo licitatório empresas de fretamento e de menor porte.
ÀS PRESSAS
Causou estranheza o fato de a ANTT alterar o edital no final deste ano, mas manter a data da licitação para os dias 20 e 21 de janeiro de 2014.
MANDA QUEM PODE
A diretoria da Abrati, antiga Rodonal, é composta por representantes das vinte mais poderosas do setor, que movimenta bilhões por ano.
AS PODEROSAS
Dentre as associadas da Abrati estão a Expresso Guanabara e Itamarati, Viação Santa Cruz, Viação Águia Branca, Real Expresso...
PMDB PREVÊ RETORNO DOS PROTESTOS DE RUA NA COPA
O presidente nacional do PMDB, Valdir Raupp (RO), avalia que devem retornar, “com força”, na Copa do Mundo de 2014, em junho, os protestos de rua de 2013 e geraram queda brusca na popularidade da presidenta Dilma. “Serão 50 mil pessoas dentro do estádio, contra 16 milhões de cariocas do lado de fora”, exagera Raupp, sobre a gravidade a que podem chegar as manifestações nas cidades-sede.
MALES PARA O BEM
Para Valdir Raupp, só a ação violenta dos Black Blocs – reprovada pela população – podem inibir os protestos em meio à Copa do Mundo.
AÍ, NÃO
A preocupação com novas manifestações atormenta não só o Planalto como governos estaduais, que temem ser prejudicados nas eleições.
NA MESMA
Que aumentar que nada. O PMDB ficará mais do que satisfeito se eleger em 2014 a média de 75 deputados federais, que já tem hoje.
NA BOCA DO POVÃO
No município de Prata, em Minas, circula informação de que o bicheiro Carlinhos Cachoeira, sem causar alardes, reservou um terreno para construir condomínio com casas vendidas ao valor irrisório de R$10 mil.
LEGÍTIMO
A presidente Dilma já avisou ao PRB do ministro Marcelo Crivella, candidato ao governo do Rio de Janeiro, que acha difícil demover Lindbergh Farias (PT) da ideia de também disputar o Palácio da Guanabara.
GUERRA À VISTA
A cúpula do PMDB planeja tirar o comando do partido em Pernambuco das mãos do senador dissidente Jarbas Vasconcelos, que se aliou a Eduardo Campos (PSB-PE), provável adversário de Dilma em 2014.
PRIMEIRO DA FILA
Após deixar o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) na geladeira por meses, Dilma deverá nomeá-lo ministro até 15 de janeiro, quando iniciará à reforma ministerial, que deve seguir até no carnaval.
RESTOS A PAGAR
O tempo passa, e o Itamaraty mantém a política do calote a assessores da presidente Dilma Rousseff e do vice Michel Temer, a quem contingenciou o pagamento de diárias referentes a viagens ao exterior.
POÇO DE MÁGOAS
O presidente da Assembleia da Bahia, Marcelo Nilo, criticou no twitter o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB), por elogiar a escolha de Antonio Imbassahy (BA) como líder do PSDB na Câmara. “Vai ter a maior decepção. [Ele, Imbassahy] Não tem palavra. Não cumpre nada”.
HOLOFOTES
O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) disse ter descoberto como conseguiu tantos holofotes: “Apostavam na minha renúncia ou na destituição à força. Por isso me davam páginas nos jornais”. Ah, bom.
VOU DE TÁXI
A Advocacia-Geral da União contratou por mais de R$ 970 mil serviços de táxi a serem prestados em Brasília. Terceirizados e estagiários estão autorizados a usar, quando em serviço, é claro.
A EVOLUÇÃO DO HOMEM
“Poste” criado por Lula, Fernando Haddad virou contorcionista de circo, com pés metidos pelas mãos. Nem Darwin explicaria.
PODER SEM PUDOR
ERRO DE REVISÃO
Reza o folclore mineiro que Ciro dos Anjos, secretário particular do interventor Benedito Valadares, achou que era seu dever alertar o chefe para o equívoco do título A Lua Cai, de um livro que acabara de publicar:
- A Lua não cai, governador; a Lua sai...
- Ah, Ciro - respondeu Valadares - quem é que pode com esses revisores? Eles sempre comem as cedilhas...
Dráuzio Varella, médico famoso que não atua em hospital público desde os anos 1990
ANTT FAVORECE GRUPO AO MUDAR EDITAL DE LICITAÇÃO
Às vésperas da licitação das linhas de ônibus do transporte rodoviário de passageiros, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) fez uma série de alterações no edital no 001/2013 favorecendo as empresas que dominam o setor, no País. As modificações do edital foram decididas após audiência, dia 20 de novembro, com Associação Brasileira Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).
PREJUDICADAS
Publicadas no DOU de 13/ 12/2013, as mudanças no edital excluíram do processo licitatório empresas de fretamento e de menor porte.
ÀS PRESSAS
Causou estranheza o fato de a ANTT alterar o edital no final deste ano, mas manter a data da licitação para os dias 20 e 21 de janeiro de 2014.
MANDA QUEM PODE
A diretoria da Abrati, antiga Rodonal, é composta por representantes das vinte mais poderosas do setor, que movimenta bilhões por ano.
AS PODEROSAS
Dentre as associadas da Abrati estão a Expresso Guanabara e Itamarati, Viação Santa Cruz, Viação Águia Branca, Real Expresso...
PMDB PREVÊ RETORNO DOS PROTESTOS DE RUA NA COPA
O presidente nacional do PMDB, Valdir Raupp (RO), avalia que devem retornar, “com força”, na Copa do Mundo de 2014, em junho, os protestos de rua de 2013 e geraram queda brusca na popularidade da presidenta Dilma. “Serão 50 mil pessoas dentro do estádio, contra 16 milhões de cariocas do lado de fora”, exagera Raupp, sobre a gravidade a que podem chegar as manifestações nas cidades-sede.
MALES PARA O BEM
Para Valdir Raupp, só a ação violenta dos Black Blocs – reprovada pela população – podem inibir os protestos em meio à Copa do Mundo.
AÍ, NÃO
A preocupação com novas manifestações atormenta não só o Planalto como governos estaduais, que temem ser prejudicados nas eleições.
NA MESMA
Que aumentar que nada. O PMDB ficará mais do que satisfeito se eleger em 2014 a média de 75 deputados federais, que já tem hoje.
NA BOCA DO POVÃO
No município de Prata, em Minas, circula informação de que o bicheiro Carlinhos Cachoeira, sem causar alardes, reservou um terreno para construir condomínio com casas vendidas ao valor irrisório de R$10 mil.
LEGÍTIMO
A presidente Dilma já avisou ao PRB do ministro Marcelo Crivella, candidato ao governo do Rio de Janeiro, que acha difícil demover Lindbergh Farias (PT) da ideia de também disputar o Palácio da Guanabara.
GUERRA À VISTA
A cúpula do PMDB planeja tirar o comando do partido em Pernambuco das mãos do senador dissidente Jarbas Vasconcelos, que se aliou a Eduardo Campos (PSB-PE), provável adversário de Dilma em 2014.
PRIMEIRO DA FILA
Após deixar o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) na geladeira por meses, Dilma deverá nomeá-lo ministro até 15 de janeiro, quando iniciará à reforma ministerial, que deve seguir até no carnaval.
RESTOS A PAGAR
O tempo passa, e o Itamaraty mantém a política do calote a assessores da presidente Dilma Rousseff e do vice Michel Temer, a quem contingenciou o pagamento de diárias referentes a viagens ao exterior.
POÇO DE MÁGOAS
O presidente da Assembleia da Bahia, Marcelo Nilo, criticou no twitter o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB), por elogiar a escolha de Antonio Imbassahy (BA) como líder do PSDB na Câmara. “Vai ter a maior decepção. [Ele, Imbassahy] Não tem palavra. Não cumpre nada”.
HOLOFOTES
O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) disse ter descoberto como conseguiu tantos holofotes: “Apostavam na minha renúncia ou na destituição à força. Por isso me davam páginas nos jornais”. Ah, bom.
VOU DE TÁXI
A Advocacia-Geral da União contratou por mais de R$ 970 mil serviços de táxi a serem prestados em Brasília. Terceirizados e estagiários estão autorizados a usar, quando em serviço, é claro.
A EVOLUÇÃO DO HOMEM
“Poste” criado por Lula, Fernando Haddad virou contorcionista de circo, com pés metidos pelas mãos. Nem Darwin explicaria.
PODER SEM PUDOR
ERRO DE REVISÃO
Reza o folclore mineiro que Ciro dos Anjos, secretário particular do interventor Benedito Valadares, achou que era seu dever alertar o chefe para o equívoco do título A Lua Cai, de um livro que acabara de publicar:
- A Lua não cai, governador; a Lua sai...
- Ah, Ciro - respondeu Valadares - quem é que pode com esses revisores? Eles sempre comem as cedilhas...
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Tribunais deixam plano de punir corrupção pela metade
- Folha: Após acordo, OGX, de Eike, é entregue a credores
- Estadão: Produtividade tem de subir 3% para País crescer 4%
- Correio: O cartão estourou? Saiba como equilibrar as contas
- Zero Hora: O fato novo nas estradas
- Brasil Econômico: O nó da telefonia é o mau atendimento
quarta-feira, dezembro 25, 2013
Alice e o papai noel - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 25/12
Há nessa festa algo que resiste e que desperta memórias e nostalgias de perdidas crenças. O que será? Seria o nosso eterno retorno à infância?
Papai Noel é um mistério. Como explicar que minha neta Alice, tão esperta e racional, ainda acredite na existência dessa figura anacrônica, inverossímil, com aquela barba postiça, um gorro ridículo, vestido como se estivesse na Lapônia e rosnando rô, rô, rô , que é a única coisa que sabe dizer? Como alguém que, aos 4 anos e dois meses, já conhece os segredos do iPad a ponto de se irritar porque o avô analfabyte não consegue acompanhá-la, não faz as perguntas que se esperaria de sua insaciável curiosidade: Ele é um só? Como consegue atender a tantos pedidos? Onde arranja tanto dinheiro fácil, se nunca foi surpreendido recebendo propina? É muita credulidade para quem está sempre duvidando, questionando e o que mais faz é perguntar por que? Aos 3 anos, ela já me desconcertava recusando a versão da cegonha para a origem do nascimento: Você é bobo! Eu nasci da barriga da minha mãe (temo que a qualquer hora ela vá mostrar em detalhes para o irmãozinho Eric o mecanismo da concepção).
Há anos escrevo sobre o Natal, prometendo ser a última vez, porque me repito tanto quanto os costumes da época, em que é tudo igual: a rabanada, a canção Noite feliz , os amigos-ocultos, os presentinhos, os engarrafamentos, o movimento das lojas, sem falar no dinheirinho compulsório para os porteiros, o mendigo de estimação, o guardador de carro, os entregadores de jornais, de remédio, de pizza, garis e carteiros. A exemplo dos Natais anteriores, não foi possível cumprir todos os compromissos de fim de ano, já não digo de compras, que minha mulher é quem as faz, mas de atendimento de convites. Parece que todas as noites de autógrafos, todas as exposições, todos os almoços e jantares de confraternização foram deixados para acontecer nesse período. Ter que escolher uns em detrimento de outros é uma das aflições dessa época. Mas o pior do Natal é sua submissão ao consumo, que faz dele um orçamento , como já dizia Nelson Rodrigues.
Em suma, tudo o que se fala contra o Natal é verdade, mas, apesar dos desvirtuamentos, há nessa festa algo que resiste e que desperta memórias e nostalgias de perdidas crenças. O que será? Seria o nosso eterno retorno à infância, isto é, à fantasia, ao desejo e ao sonho, por mais antiquado que isso pareça? Alice descobriu dentro do mito o imaginário e a realidade, ou seja, a existência de um Papai Noel de mentira e outro de verdade. O primeiro é o que ela vê, pode tocar, fica parado na esquina ou nos shopping centers. O de verdade é justamente o que ela não vê, mas é o que ela imagina que de madrugada vai pendurar seus presentes na árvore de Natal - é o que alimenta sua fantasia. Como não acreditar nele?
Há anos escrevo sobre o Natal, prometendo ser a última vez, porque me repito tanto quanto os costumes da época, em que é tudo igual: a rabanada, a canção Noite feliz , os amigos-ocultos, os presentinhos, os engarrafamentos, o movimento das lojas, sem falar no dinheirinho compulsório para os porteiros, o mendigo de estimação, o guardador de carro, os entregadores de jornais, de remédio, de pizza, garis e carteiros. A exemplo dos Natais anteriores, não foi possível cumprir todos os compromissos de fim de ano, já não digo de compras, que minha mulher é quem as faz, mas de atendimento de convites. Parece que todas as noites de autógrafos, todas as exposições, todos os almoços e jantares de confraternização foram deixados para acontecer nesse período. Ter que escolher uns em detrimento de outros é uma das aflições dessa época. Mas o pior do Natal é sua submissão ao consumo, que faz dele um orçamento , como já dizia Nelson Rodrigues.
Em suma, tudo o que se fala contra o Natal é verdade, mas, apesar dos desvirtuamentos, há nessa festa algo que resiste e que desperta memórias e nostalgias de perdidas crenças. O que será? Seria o nosso eterno retorno à infância, isto é, à fantasia, ao desejo e ao sonho, por mais antiquado que isso pareça? Alice descobriu dentro do mito o imaginário e a realidade, ou seja, a existência de um Papai Noel de mentira e outro de verdade. O primeiro é o que ela vê, pode tocar, fica parado na esquina ou nos shopping centers. O de verdade é justamente o que ela não vê, mas é o que ela imagina que de madrugada vai pendurar seus presentes na árvore de Natal - é o que alimenta sua fantasia. Como não acreditar nele?
Dia de Natal - ROBERTO DAMATTA
O Estado de S.Paulo - 25/12
Eu sinto falta das minhas infantis ansiedades natalinas. A gente ouvia: "amanhã é dia de Natal". E todos pensávamos no que íamos "pedir" a Papai Noel. Foi no Natal que primeiro exercitei o desejo aberto que singulariza e transporta ao sublime e à vergonha - quase sempre aos dois. Por causa disso, todo pedir é sempre atropelado pela insegurança. O que podemos pedir - eis a pergunta não dita - a quem realmente "dava" os tão esperados "presente de Natal" nas famílias de classe média que viviam dentro de orçamento apertado, como sempre foi o meu caso?
Se Papai Noel não existia, pois era o nosso próprio pai, como saber o presente possível? Todos nós (éramos cinco meninos e uma menina) sabíamos que o tal "saco de Papai Noel" era enorme e como Papai Noel era gordo e muito rico. Tão rico quanto os Estados Unidos que o haviam reinventado para a minha geração dos anos 30 e 40. Mas sabíamos também que o seu lugar era um lugar fora do nosso alcance. Como escrever uma carta num inglês que nos era desconhecido e remetê-la para o Polo Norte se correio não era lá essas coisas?
Eu que, felizmente, tive um pai até ser pai, sabia que papai estava ao meu alcance. Mas o tal Papai Noel levantava uma paternidade estacional. Ele só aparecia no final do ano e, a seu lado, surgiam também as figuras santificadas e concretas do Menino Jesus, de São José e da Virgem Mãe. Um amigo dizia que era preciso escolher entre gastar movido pela "propaganda" ou rezar num verdadeiro e escrupuloso Natal. Eu até hoje fico impressionado com a fácil moralidade de plantão.
A Sagrada Família era pobre mas Papai Noel tinha um trenó puxado por renas - estranhos veados grandes que, além do mais, voavam. Ademais, ele entrava nas casas pela chaminé. Eis um detalhe que completava o seu exotismo, porque as casas onde morávamos não tinham chaminé - tinham cafuas e porões. À ansiedade dos presentes, sempre aquém do meu desejo, havia a dúvida porque, afinal, éramos "crianças" e Papai Noel pertencia ao universo dos "grandes". E os adultos sabiam de coisas secretas, como a tal cegonha que, no meu caso, durante sete ou oito anos, trouxe, embrulhado numa fralda, um irmãozinho que me roubava carinho, atenção e espaço...
Camelos, cegonhas e chaminés eram elementos que compunham o mistério dessas figuras periódicas.
Ao escrever essas recordações natalinas, descubro porque, quando visitei o Cairo, Egito, para tomar parte numa ambiciosa conferência de antropologistas, usei a oportunidade para observar os camelos. Diante das pirâmides, eu olhava e perguntava sobre os camelos. Tocava-os, admirava sua capacidade de resistir a sede e tinha curiosidade sobre suas corcovas. Camelo ou dromedário? Uma ou duas corcundas? Eis uma pergunta que não quer calar diante de certas pessoas, sobretudo dos que me governam. E foi assim que, diante da velha Esfinge, eu edipiana e estupidamente paguei para dar uma volta num velho camelo e, mais que isso, tirei uma fotografia. O guia ria e repetia "Lawrence da Arábia", mas eu estava vivendo um dos reis Magos...
Do mesmo modo e pela mesma lógica, essa também ligada ao meu amigo e companheiro de toda a vida, um rapaz chamado Édipo, jamais perdi a fascinação pelas chaminés que estudei, medi, admirei e olhei com fascinação nas casas europeias e américas. O fogo dentro de casa era uma contradição na minha vida de brasileiro cuja família vinha de uma Manaus, de uma Salvador e de uma Niterói nas quais o calor era "de matar" e o risco de algo "pegar fogo" era constante. Como, pois, ter essas chaminés com um fogo caseiro que servia para aquecer, quando só falávamos em ventilação e sonhávamos com o hoje rotineiro e transformador "ar condicionado"?
Papai Noel descia ou entrava pela lareira e eu jamais deixei de espiar escondido para o interior tenebroso das lareiras americanas. E se o bom velhinho fosse o amante da dona da casa, como questionou meu ciumento pai diante da estupefação de seus irmãos e cunhados? Mais que isso, como descer pela chaminé sem se sujar, conforme estabelece uma famosa e intrigante parábola judaica?
O fato antropológico, porém, é que o fogo da lareira contrasta somente em parte com o da cozinha. Os dois se fundem. E produzem uma fumaça humana reveladora de vida. Pois a fumaça que tinge os céus já escuros e frios dos invernos gelados que hoje eu conheço tão bem, seja no norte ou no sul, é o triunfo do calor que resiste ao frio imutável do infinito. Parece com o fósforo lutando inutilmente com o quarto escuro no qual vivemos.
E assim é o Natal. Uma noite de luz na imensa escuridão de nossas vidas. Uma pausa para reconhecer nos próximos o seu amor e a sua paciência para conosco. As rotinas realçam mais o feio e o raso do que o belo e o profundo. Mas o Natal dos "amigos ocultos" e das trocas de presentes redime o outro que está em todos os nossos próximos e, quem sabe, dentro de cada um de nós.
Feliz Natal!
Eu sinto falta das minhas infantis ansiedades natalinas. A gente ouvia: "amanhã é dia de Natal". E todos pensávamos no que íamos "pedir" a Papai Noel. Foi no Natal que primeiro exercitei o desejo aberto que singulariza e transporta ao sublime e à vergonha - quase sempre aos dois. Por causa disso, todo pedir é sempre atropelado pela insegurança. O que podemos pedir - eis a pergunta não dita - a quem realmente "dava" os tão esperados "presente de Natal" nas famílias de classe média que viviam dentro de orçamento apertado, como sempre foi o meu caso?
Se Papai Noel não existia, pois era o nosso próprio pai, como saber o presente possível? Todos nós (éramos cinco meninos e uma menina) sabíamos que o tal "saco de Papai Noel" era enorme e como Papai Noel era gordo e muito rico. Tão rico quanto os Estados Unidos que o haviam reinventado para a minha geração dos anos 30 e 40. Mas sabíamos também que o seu lugar era um lugar fora do nosso alcance. Como escrever uma carta num inglês que nos era desconhecido e remetê-la para o Polo Norte se correio não era lá essas coisas?
Eu que, felizmente, tive um pai até ser pai, sabia que papai estava ao meu alcance. Mas o tal Papai Noel levantava uma paternidade estacional. Ele só aparecia no final do ano e, a seu lado, surgiam também as figuras santificadas e concretas do Menino Jesus, de São José e da Virgem Mãe. Um amigo dizia que era preciso escolher entre gastar movido pela "propaganda" ou rezar num verdadeiro e escrupuloso Natal. Eu até hoje fico impressionado com a fácil moralidade de plantão.
A Sagrada Família era pobre mas Papai Noel tinha um trenó puxado por renas - estranhos veados grandes que, além do mais, voavam. Ademais, ele entrava nas casas pela chaminé. Eis um detalhe que completava o seu exotismo, porque as casas onde morávamos não tinham chaminé - tinham cafuas e porões. À ansiedade dos presentes, sempre aquém do meu desejo, havia a dúvida porque, afinal, éramos "crianças" e Papai Noel pertencia ao universo dos "grandes". E os adultos sabiam de coisas secretas, como a tal cegonha que, no meu caso, durante sete ou oito anos, trouxe, embrulhado numa fralda, um irmãozinho que me roubava carinho, atenção e espaço...
Camelos, cegonhas e chaminés eram elementos que compunham o mistério dessas figuras periódicas.
Ao escrever essas recordações natalinas, descubro porque, quando visitei o Cairo, Egito, para tomar parte numa ambiciosa conferência de antropologistas, usei a oportunidade para observar os camelos. Diante das pirâmides, eu olhava e perguntava sobre os camelos. Tocava-os, admirava sua capacidade de resistir a sede e tinha curiosidade sobre suas corcovas. Camelo ou dromedário? Uma ou duas corcundas? Eis uma pergunta que não quer calar diante de certas pessoas, sobretudo dos que me governam. E foi assim que, diante da velha Esfinge, eu edipiana e estupidamente paguei para dar uma volta num velho camelo e, mais que isso, tirei uma fotografia. O guia ria e repetia "Lawrence da Arábia", mas eu estava vivendo um dos reis Magos...
Do mesmo modo e pela mesma lógica, essa também ligada ao meu amigo e companheiro de toda a vida, um rapaz chamado Édipo, jamais perdi a fascinação pelas chaminés que estudei, medi, admirei e olhei com fascinação nas casas europeias e américas. O fogo dentro de casa era uma contradição na minha vida de brasileiro cuja família vinha de uma Manaus, de uma Salvador e de uma Niterói nas quais o calor era "de matar" e o risco de algo "pegar fogo" era constante. Como, pois, ter essas chaminés com um fogo caseiro que servia para aquecer, quando só falávamos em ventilação e sonhávamos com o hoje rotineiro e transformador "ar condicionado"?
Papai Noel descia ou entrava pela lareira e eu jamais deixei de espiar escondido para o interior tenebroso das lareiras americanas. E se o bom velhinho fosse o amante da dona da casa, como questionou meu ciumento pai diante da estupefação de seus irmãos e cunhados? Mais que isso, como descer pela chaminé sem se sujar, conforme estabelece uma famosa e intrigante parábola judaica?
O fato antropológico, porém, é que o fogo da lareira contrasta somente em parte com o da cozinha. Os dois se fundem. E produzem uma fumaça humana reveladora de vida. Pois a fumaça que tinge os céus já escuros e frios dos invernos gelados que hoje eu conheço tão bem, seja no norte ou no sul, é o triunfo do calor que resiste ao frio imutável do infinito. Parece com o fósforo lutando inutilmente com o quarto escuro no qual vivemos.
E assim é o Natal. Uma noite de luz na imensa escuridão de nossas vidas. Uma pausa para reconhecer nos próximos o seu amor e a sua paciência para conosco. As rotinas realçam mais o feio e o raso do que o belo e o profundo. Mas o Natal dos "amigos ocultos" e das trocas de presentes redime o outro que está em todos os nossos próximos e, quem sabe, dentro de cada um de nós.
Feliz Natal!
Um outro sentido da festa - TASSO AZEVEDO
O GLOBO - 25/12
O Natal nas ultimas décadas passou de momento de celebração em família do nascimento de um personagem ímpar para ser a data mais importante do comércio, quase a salvação da lavoura em anos mais difíceis.
Nada mais paradoxal do que o Natal ter se tornado quase que o símbolo da pujança da sociedade de consumo. Aquele momento de reunião com a família acabou virando uma estressante corrida por presentes com aquela lista de quase obrigações.
Sempre gostei mais dos momentos pós-troca ansiosa de presentes no Natal, quando todos os primos se embrenhavam numa partida sem fim de War, ouvir as histórias do vovô Leôncio, que eu nem conheci, ou acompanhar atento o tio Paulo, quando já estava para lá de Bagdá, narrar a abertura 1812 de Tchaikovsky como se fosse um filme. Hoje a diversão é app no smartphone...
Os presentes mais legais que já ganhei não poderiam ser comprados. Um livrinho de poemas feito à mão por minha madrinha. Cartões-postais que Tia Valéria enviava dos lugares mais inusitados e traziam consigo histórias mirabolantes da África e da Ásia. Uma fita cassete com músicas selecionadas por uma amiga de correspondência no Canadá. Um desenho de minha filha. Um relógio quebrado que fora de meu bisavô. E o campeão de todos: o bolo prestígio da Dona Dora, que era presente repetido todo ano, mas imbatível!
Entendo presentear como um ato de dedicação ao outro, dai a busca por oferecer uma emoção, uma reencontro com a memória, uma experiência nova ou que amplie o horizonte, o repertório e as possibilidades da pessoa que presenteio.
Para este ano, um LP do Charles Aznavour de 1972, com anotações na contracapa encontrado por caso num sebo, um retrato em pastel de minha filha Clara no colo de minha esposa Ana pintado por um artista de rua na Indonésia, ingressos para o teatro de bonecos e um curso de shiatsu. Proporcionar estas experiências me dá uma sensação muito mais prazerosa e duradoura que receber qualquer presente.
Muitas vezes não consigo este significado e, com família grande, também caio no Natal do consumo que, além de nos estressar e nos distanciar dos motivos pelos quais celebramos esta época do ano, é muito pouco sustentável.
Um lindo vídeo produzido por uma marca de roupas esportivas engajada dos Estados Unidos, lançado dias antes do famoso black friday (que antecipa as compras de Natal) convida as pessoas a comprar e consumir menos e experimentar, concertar, dividir e viver mais. Um ótima reflexão, quem sabe desmaterializando o Natal talvez possamos nos reencontrar com o verdadeiro espirito natalino.
O Natal nas ultimas décadas passou de momento de celebração em família do nascimento de um personagem ímpar para ser a data mais importante do comércio, quase a salvação da lavoura em anos mais difíceis.
Nada mais paradoxal do que o Natal ter se tornado quase que o símbolo da pujança da sociedade de consumo. Aquele momento de reunião com a família acabou virando uma estressante corrida por presentes com aquela lista de quase obrigações.
Sempre gostei mais dos momentos pós-troca ansiosa de presentes no Natal, quando todos os primos se embrenhavam numa partida sem fim de War, ouvir as histórias do vovô Leôncio, que eu nem conheci, ou acompanhar atento o tio Paulo, quando já estava para lá de Bagdá, narrar a abertura 1812 de Tchaikovsky como se fosse um filme. Hoje a diversão é app no smartphone...
Os presentes mais legais que já ganhei não poderiam ser comprados. Um livrinho de poemas feito à mão por minha madrinha. Cartões-postais que Tia Valéria enviava dos lugares mais inusitados e traziam consigo histórias mirabolantes da África e da Ásia. Uma fita cassete com músicas selecionadas por uma amiga de correspondência no Canadá. Um desenho de minha filha. Um relógio quebrado que fora de meu bisavô. E o campeão de todos: o bolo prestígio da Dona Dora, que era presente repetido todo ano, mas imbatível!
Entendo presentear como um ato de dedicação ao outro, dai a busca por oferecer uma emoção, uma reencontro com a memória, uma experiência nova ou que amplie o horizonte, o repertório e as possibilidades da pessoa que presenteio.
Para este ano, um LP do Charles Aznavour de 1972, com anotações na contracapa encontrado por caso num sebo, um retrato em pastel de minha filha Clara no colo de minha esposa Ana pintado por um artista de rua na Indonésia, ingressos para o teatro de bonecos e um curso de shiatsu. Proporcionar estas experiências me dá uma sensação muito mais prazerosa e duradoura que receber qualquer presente.
Muitas vezes não consigo este significado e, com família grande, também caio no Natal do consumo que, além de nos estressar e nos distanciar dos motivos pelos quais celebramos esta época do ano, é muito pouco sustentável.
Um lindo vídeo produzido por uma marca de roupas esportivas engajada dos Estados Unidos, lançado dias antes do famoso black friday (que antecipa as compras de Natal) convida as pessoas a comprar e consumir menos e experimentar, concertar, dividir e viver mais. Um ótima reflexão, quem sabe desmaterializando o Natal talvez possamos nos reencontrar com o verdadeiro espirito natalino.
A formação do Eu - FRANCISCO DAUDT
FOLHA DE SP - 25/12
Ao nascer, temos uma impressão embrionária de que não estamos sós; e um 'euzinho' passa a funcionar
O alemão é uma das línguas mais precisas que há, tanto que os políticos alemães têm um grande trabalho para tornar seus discursos vagos (mas conseguem).
Freud descreveu três softwares principais para o nosso funcionamento mental: "das ich"; "das es"; "das überich", alemão do dia a dia compreensível por qualquer um de lá. Em português, o equivalente seria o "Eu"; o "Algo em mim" e "O que está acima de mim".
Mas o primeiro tradutor de Freud para o inglês, Ernest Jones, era médico, e os doutores gostam de falar difícil: impressiona os pacientes e ninguém mais além deles entende. Foi assim que os termos em alemão corrente viraram latim (!): Ego, id e superego.
A partir daí as pessoas pensam que ego é vaidade, e que superego deve ser um parente do super-homem (ou uma super vaidade). E id ninguém sabe mesmo o que é.
O Eu é um programa mental que nos dá a ilusão de existirmos como uma entidade única e essencial. O que sabe o Homo sapiens? Que ele existe! Descartes chegou a uma única certeza: "Penso, logo existo". É um programa tão poderoso que inúmeras pessoas creem que ele é imortal ("meu corpo morrerá, mas eu continuarei existindo pela eternidade").
Deixando de lado a metafísica, que, como bem disse Fernando Pessoa, "é o resultado de se estar mal-disposto", o que me interessa é como o programa Eu se forma. No útero ele não tinha condições de rodar: nada nos perturbou desde o início que nos desse a perceber que algo havia para além de nossa existência, donde, nossa existência não era percebida por falta de contraste.
Mas, ao nascer, a perturbação começa, e com ela uma embrionária impressão de que não estamos sós. E se formos tratados como uma existência em separado, com necessidades, capacidades e características próprias, um "Euzinho" começa a funcionar. Ele vai se construir, construir sua identidade, por identificação. Ela começa pela imitação.
Você fala português hoje do seu jeito porque imitou a fala dos adultos ao seu redor (a melhor maneira de se aprender uma língua, não sei quem foi o idiota que resolveu nos ensinar línguas através da gramática). A imitação leva à incorporação do aprendido, a partir de um ponto você se torna autor, pois o imitado vai se misturando às suas características pessoais.
Mas o processo de identificação pode se dar por gosto, ou por imposição.
Por gosto, é quando se encaixa bem às nossas características únicas, ao desejo que vem de "algo em nós" (id, "das es") não consciente.
Por imposição, quando fomos submissos, fizemos o que nos mandaram, e nos "tornamos" o que nos disseram para ser. Ou, curiosíssimo, quando nos rebelamos e nos tornamos o exato oposto do que nos disseram para ser. Quer dizer que a rebeldia é um jeito de ser comandado, pelas avessas. Assim, filhos de caretas "obedecem" a seus pais e viram hippies. E vice-versa.
Há culturas que estimulam a formação do Eu indivíduo, características próprias, ideias próprias, buscam a democracia. Outras, não suportam a existência de "Eus", querem massa, submissos não pensantes, são as tiranias.
Ao nascer, temos uma impressão embrionária de que não estamos sós; e um 'euzinho' passa a funcionar
O alemão é uma das línguas mais precisas que há, tanto que os políticos alemães têm um grande trabalho para tornar seus discursos vagos (mas conseguem).
Freud descreveu três softwares principais para o nosso funcionamento mental: "das ich"; "das es"; "das überich", alemão do dia a dia compreensível por qualquer um de lá. Em português, o equivalente seria o "Eu"; o "Algo em mim" e "O que está acima de mim".
Mas o primeiro tradutor de Freud para o inglês, Ernest Jones, era médico, e os doutores gostam de falar difícil: impressiona os pacientes e ninguém mais além deles entende. Foi assim que os termos em alemão corrente viraram latim (!): Ego, id e superego.
A partir daí as pessoas pensam que ego é vaidade, e que superego deve ser um parente do super-homem (ou uma super vaidade). E id ninguém sabe mesmo o que é.
O Eu é um programa mental que nos dá a ilusão de existirmos como uma entidade única e essencial. O que sabe o Homo sapiens? Que ele existe! Descartes chegou a uma única certeza: "Penso, logo existo". É um programa tão poderoso que inúmeras pessoas creem que ele é imortal ("meu corpo morrerá, mas eu continuarei existindo pela eternidade").
Deixando de lado a metafísica, que, como bem disse Fernando Pessoa, "é o resultado de se estar mal-disposto", o que me interessa é como o programa Eu se forma. No útero ele não tinha condições de rodar: nada nos perturbou desde o início que nos desse a perceber que algo havia para além de nossa existência, donde, nossa existência não era percebida por falta de contraste.
Mas, ao nascer, a perturbação começa, e com ela uma embrionária impressão de que não estamos sós. E se formos tratados como uma existência em separado, com necessidades, capacidades e características próprias, um "Euzinho" começa a funcionar. Ele vai se construir, construir sua identidade, por identificação. Ela começa pela imitação.
Você fala português hoje do seu jeito porque imitou a fala dos adultos ao seu redor (a melhor maneira de se aprender uma língua, não sei quem foi o idiota que resolveu nos ensinar línguas através da gramática). A imitação leva à incorporação do aprendido, a partir de um ponto você se torna autor, pois o imitado vai se misturando às suas características pessoais.
Mas o processo de identificação pode se dar por gosto, ou por imposição.
Por gosto, é quando se encaixa bem às nossas características únicas, ao desejo que vem de "algo em nós" (id, "das es") não consciente.
Por imposição, quando fomos submissos, fizemos o que nos mandaram, e nos "tornamos" o que nos disseram para ser. Ou, curiosíssimo, quando nos rebelamos e nos tornamos o exato oposto do que nos disseram para ser. Quer dizer que a rebeldia é um jeito de ser comandado, pelas avessas. Assim, filhos de caretas "obedecem" a seus pais e viram hippies. E vice-versa.
Há culturas que estimulam a formação do Eu indivíduo, características próprias, ideias próprias, buscam a democracia. Outras, não suportam a existência de "Eus", querem massa, submissos não pensantes, são as tiranias.
O direito e a justiça - FRANCISCO BOSCO
O GLOBO - 25/12
No julgamento que levou a Portuguesa ao rebaixamento o primeiro prevaleceu sobre o segundo: foi legal, porém injusto
Nessa sexta-feira, o STJD dará sua decisão definitiva sobre o caso das escalações ilegais de jogadores da Portuguesa e do Flamengo, na derradeira rodada do “brasileirão”. Nos últimos dias surgiram fatores novos, que podem mudar a decisão inicial. Quero comentar aqui, entretanto, o primeiro julgamento, cujo veredito — é o que pretendo mostrar — foi legal, porém injusto. O rebaixamento da Portuguesa à série B, junto à manutenção do Fluminense na série A, foi, na melhor das hipóteses, fruto de um lamentável equívoco quanto ao que significam o direito e a justiça, qual a relação entre eles, e qual o papel de um juiz.
Direito e justiça são duas coisas fundamentalmente diferentes. O direito é universal e abstrato. A justiça é singular e concreta. Para que se exerça a justiça, é necessária essa instância generalizante do direito, manifesta sob a forma de rígidas leis, sem as quais a justiça corre o risco do arbítrio. Mas, por outro lado, para que se faça justiça é também necessário submeter os princípios gerais do direito e das leis aos casos singulares, com toda a sua complexidade. Por mais que as leis sejam detalhadas, elas nunca poderão conter, em si, a singularidade dos casos particulares, pois o singular é infinito (um tal livro de leis seria um borgiano volume contendo a análise combinatória de todas as possibilidades do universo). Por essa razão o direito — isto é, a lei — nunca pode conter, em si, a justiça. Em outras palavras, o mero cumprimento da lei não significa realização da justiça.
O sentido de justiça é basicamente formado pelas ideias de conformidade e equidade. A etimologia — do latim “justitia” — encerra os significados de “exatidão”, “justeza”, “equidade”. Fazer justiça é equiparar dois acontecimentos diferentes. Mas, atenção, diferentemente do que consigna o verbete no dicionário (no “Houaiss”), justiça não é a “conformidade dos fatos com o direito”, mas a conformidade de um fato com outro fato, mediada pelo direito. Justiça é comensuração de acontecimentos. O direito estabelece as diretrizes gerais para esse cálculo, mas só quem pode atualizar a matemática fina requerida por essa comparação entre acontecimentos diferentes é a figura do juiz. Sei que estou demasiado abstrato; voltemos ao particular.
A Portuguesa e o Flamengo escalaram ilegalmente um jogador, na última rodada, num jogo que, para eles, não valia quase nada (no caso da Portuguesa, seu adversário disputava ainda a ida à Libertadores). O tribunal, aplicando a lei, puniu os clubes com quatro pontos, em consequência do quê a Portuguesa foi rebaixada. Ou seja, uma infração ao regulamento cuja consequência era quase NADA foi punida com TUDO. Uma operação de comensuração cujo resultado é equiparar o nada e o tudo pode ser conforme à lei — mas é profundamente desconforme à justiça.
Diferentemente do que disseram alguns de seus participantes, o julgamento não fez prevalecer a “lei sobre a moral”, ou a “razão sobre a emoção”; fez sim prevalecer o direito sobre a justiça. Mas o direito, como mostrei, não é por si justo. O direito está a serviço da justiça. Ao contrário, os juízes do caso estabeleceram que o sentido último do processo é o direito (na verdade um meio) e não a justiça (que é o fim). Os juízes recusaram-se a julgar, logo recusaram-se a procurar a justiça. Não foram dignos da função que exercem. Mauro Cezar Pereira tem razão em dizer que, para agir assim, eles são dispensáveis.
É verdade que, se tivessem julgado o caso, e se decidissem por uma punição mais leve, que não acarretaria o rebaixamento, poderiam ferir o direito, e isso também não seria justo. Mas esse cálculo deveria ter sido posto em aguda discussão. Definir e tensionar o direito e a justiça; pesar, avaliar, comparar o evento e a punição; atravessar a aporia, e finalmente decidir. É esse o trabalho de um juiz. Ele deve estar de antemão ciente da natureza impossível da justiça — e enfrentá-la. Por que a justiça é impossível? Porque dois eventos singulares (infrações e punições) nunca serão rigorosamente iguais. Eventos são fenômenos tão complexos que não há justeza (como se diz de uma calça que nos serve perfeitamente) na sua equiparação. A justiça é a matemática impura dos eventos heterogêneos. Ela exige, como escreveu Derrida, “que se calcule o incalculável”. Um homem rouba um supermercado. O que fazer? Cortar-lhe a mão? O princípio do talião é apenas a tentativa de estabelecer uma matemática pura num campo — o da realidade — que só admite um cálculo inexato, uma matemática impura. Portanto é uma aproximação infinita a justiça. O rebaixamento da Portuguesa e a permanência do Fluminense na série A distanciaram-se infinitamente dela.
No julgamento que levou a Portuguesa ao rebaixamento o primeiro prevaleceu sobre o segundo: foi legal, porém injusto
Nessa sexta-feira, o STJD dará sua decisão definitiva sobre o caso das escalações ilegais de jogadores da Portuguesa e do Flamengo, na derradeira rodada do “brasileirão”. Nos últimos dias surgiram fatores novos, que podem mudar a decisão inicial. Quero comentar aqui, entretanto, o primeiro julgamento, cujo veredito — é o que pretendo mostrar — foi legal, porém injusto. O rebaixamento da Portuguesa à série B, junto à manutenção do Fluminense na série A, foi, na melhor das hipóteses, fruto de um lamentável equívoco quanto ao que significam o direito e a justiça, qual a relação entre eles, e qual o papel de um juiz.
Direito e justiça são duas coisas fundamentalmente diferentes. O direito é universal e abstrato. A justiça é singular e concreta. Para que se exerça a justiça, é necessária essa instância generalizante do direito, manifesta sob a forma de rígidas leis, sem as quais a justiça corre o risco do arbítrio. Mas, por outro lado, para que se faça justiça é também necessário submeter os princípios gerais do direito e das leis aos casos singulares, com toda a sua complexidade. Por mais que as leis sejam detalhadas, elas nunca poderão conter, em si, a singularidade dos casos particulares, pois o singular é infinito (um tal livro de leis seria um borgiano volume contendo a análise combinatória de todas as possibilidades do universo). Por essa razão o direito — isto é, a lei — nunca pode conter, em si, a justiça. Em outras palavras, o mero cumprimento da lei não significa realização da justiça.
O sentido de justiça é basicamente formado pelas ideias de conformidade e equidade. A etimologia — do latim “justitia” — encerra os significados de “exatidão”, “justeza”, “equidade”. Fazer justiça é equiparar dois acontecimentos diferentes. Mas, atenção, diferentemente do que consigna o verbete no dicionário (no “Houaiss”), justiça não é a “conformidade dos fatos com o direito”, mas a conformidade de um fato com outro fato, mediada pelo direito. Justiça é comensuração de acontecimentos. O direito estabelece as diretrizes gerais para esse cálculo, mas só quem pode atualizar a matemática fina requerida por essa comparação entre acontecimentos diferentes é a figura do juiz. Sei que estou demasiado abstrato; voltemos ao particular.
A Portuguesa e o Flamengo escalaram ilegalmente um jogador, na última rodada, num jogo que, para eles, não valia quase nada (no caso da Portuguesa, seu adversário disputava ainda a ida à Libertadores). O tribunal, aplicando a lei, puniu os clubes com quatro pontos, em consequência do quê a Portuguesa foi rebaixada. Ou seja, uma infração ao regulamento cuja consequência era quase NADA foi punida com TUDO. Uma operação de comensuração cujo resultado é equiparar o nada e o tudo pode ser conforme à lei — mas é profundamente desconforme à justiça.
Diferentemente do que disseram alguns de seus participantes, o julgamento não fez prevalecer a “lei sobre a moral”, ou a “razão sobre a emoção”; fez sim prevalecer o direito sobre a justiça. Mas o direito, como mostrei, não é por si justo. O direito está a serviço da justiça. Ao contrário, os juízes do caso estabeleceram que o sentido último do processo é o direito (na verdade um meio) e não a justiça (que é o fim). Os juízes recusaram-se a julgar, logo recusaram-se a procurar a justiça. Não foram dignos da função que exercem. Mauro Cezar Pereira tem razão em dizer que, para agir assim, eles são dispensáveis.
É verdade que, se tivessem julgado o caso, e se decidissem por uma punição mais leve, que não acarretaria o rebaixamento, poderiam ferir o direito, e isso também não seria justo. Mas esse cálculo deveria ter sido posto em aguda discussão. Definir e tensionar o direito e a justiça; pesar, avaliar, comparar o evento e a punição; atravessar a aporia, e finalmente decidir. É esse o trabalho de um juiz. Ele deve estar de antemão ciente da natureza impossível da justiça — e enfrentá-la. Por que a justiça é impossível? Porque dois eventos singulares (infrações e punições) nunca serão rigorosamente iguais. Eventos são fenômenos tão complexos que não há justeza (como se diz de uma calça que nos serve perfeitamente) na sua equiparação. A justiça é a matemática impura dos eventos heterogêneos. Ela exige, como escreveu Derrida, “que se calcule o incalculável”. Um homem rouba um supermercado. O que fazer? Cortar-lhe a mão? O princípio do talião é apenas a tentativa de estabelecer uma matemática pura num campo — o da realidade — que só admite um cálculo inexato, uma matemática impura. Portanto é uma aproximação infinita a justiça. O rebaixamento da Portuguesa e a permanência do Fluminense na série A distanciaram-se infinitamente dela.
Mundo real e ideal - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 25/12
O futebol ideal é impossível, mas deveria ser uma referência para se jogar melhor
Nesta época do ano, deveria tirar férias, viajar, já que o futebol para. A exceção é na Inglaterra. Mas prefiro continuar por aqui, escrevendo. Os aeroportos estão um caos, os hotéis abusam dos preços, chove muito ou faz muito calor no Brasil e muito frio na Europa e nos EUA. As estradas estão péssimas e perigosas. Os alemães, que fazem a logística de sua seleção, estranharam os quebra-molas, que, para eles, estragam os carros, congestionam o tráfego e provocam mais acidentes.
Aproveito esses dias para ler mais e ir mais ao cinema. Tiro férias também da televisão. Não suporto as retrospectivas.
Difícil é arrumar assunto e leitores para minhas colunas.
Nesta época do ano, as pessoas sonham com o mundo ideal. Nele, os auditores do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) analisariam o caso da Portuguesa com o olhar do que está escrito no regulamento e também com o olhar da justiça, do contexto, com a certeza de que a Lusa não agiu com má-fé nem se beneficiou de seu erro.
Faltava um argumento jurídico à Lusa. Agora, já tem. Segundo alguns advogados, o Estatuto do Torcedor estaria acima do regulamento do campeonato, o que livraria o time do rebaixamento.
No mundo ideal, os gastos com a Copa seriam apenas com dinheiro privado. A CBF, as federações estaduais e os clubes seriam dirigidos por profissionais competentes, transparentes e independentes.
Não existiriam relações promíscuas, e o calendário seria feito para beneficiar a qualidade do futebol. Os clubes não gastariam mais do que arrecadam ou do que podem pagar, e acabariam os astronômicos salários, incompatíveis com as receitas.
No mundo ideal, os torcedores iriam para os estádios só para torcer e fazer festa. Haveria lugares mais caros, para quem quisesse mordomia, e outros mais baratos, populares. Todos teriam conforto e segurança. Os marginais estariam presos ou impedidos de frequentar os jogos. A vigilância seria constante e implacável.
No mundo ideal, os gramados seriam padrão Fifa. O futebol que se joga no Brasil seria muito melhor, individualmente e no conjunto.
O equilíbrio das partidas do Atlético-MG, contra times sem nenhuma expressão, no Mundial de Clubes, é mais uma constatação desta deficiência.
A Seleção é exceção, pelo fato de quase todos os jogadores atuarem fora do país.
No mundo ideal, a imprensa cobraria de técnicos, dirigentes e jogadores mais compromisso com a qualidade do jogo. Os analistas deixariam de ver futebol somente a partir da conduta dos treinadores, dos resultados e como se houvesse sempre uma relação direta entre a história do jogo e o placar final.
Quanto maior a distância entre o mundo real e o ideal, maior é a frustração e o desamparo.
O mundo ideal só existe na nossa imaginação, mas serve de referência para se tentar sempre fazer algo melhor.
O futebol ideal é impossível, mas deveria ser uma referência para se jogar melhor
Nesta época do ano, deveria tirar férias, viajar, já que o futebol para. A exceção é na Inglaterra. Mas prefiro continuar por aqui, escrevendo. Os aeroportos estão um caos, os hotéis abusam dos preços, chove muito ou faz muito calor no Brasil e muito frio na Europa e nos EUA. As estradas estão péssimas e perigosas. Os alemães, que fazem a logística de sua seleção, estranharam os quebra-molas, que, para eles, estragam os carros, congestionam o tráfego e provocam mais acidentes.
Aproveito esses dias para ler mais e ir mais ao cinema. Tiro férias também da televisão. Não suporto as retrospectivas.
Difícil é arrumar assunto e leitores para minhas colunas.
Nesta época do ano, as pessoas sonham com o mundo ideal. Nele, os auditores do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) analisariam o caso da Portuguesa com o olhar do que está escrito no regulamento e também com o olhar da justiça, do contexto, com a certeza de que a Lusa não agiu com má-fé nem se beneficiou de seu erro.
Faltava um argumento jurídico à Lusa. Agora, já tem. Segundo alguns advogados, o Estatuto do Torcedor estaria acima do regulamento do campeonato, o que livraria o time do rebaixamento.
No mundo ideal, os gastos com a Copa seriam apenas com dinheiro privado. A CBF, as federações estaduais e os clubes seriam dirigidos por profissionais competentes, transparentes e independentes.
Não existiriam relações promíscuas, e o calendário seria feito para beneficiar a qualidade do futebol. Os clubes não gastariam mais do que arrecadam ou do que podem pagar, e acabariam os astronômicos salários, incompatíveis com as receitas.
No mundo ideal, os torcedores iriam para os estádios só para torcer e fazer festa. Haveria lugares mais caros, para quem quisesse mordomia, e outros mais baratos, populares. Todos teriam conforto e segurança. Os marginais estariam presos ou impedidos de frequentar os jogos. A vigilância seria constante e implacável.
No mundo ideal, os gramados seriam padrão Fifa. O futebol que se joga no Brasil seria muito melhor, individualmente e no conjunto.
O equilíbrio das partidas do Atlético-MG, contra times sem nenhuma expressão, no Mundial de Clubes, é mais uma constatação desta deficiência.
A Seleção é exceção, pelo fato de quase todos os jogadores atuarem fora do país.
No mundo ideal, a imprensa cobraria de técnicos, dirigentes e jogadores mais compromisso com a qualidade do jogo. Os analistas deixariam de ver futebol somente a partir da conduta dos treinadores, dos resultados e como se houvesse sempre uma relação direta entre a história do jogo e o placar final.
Quanto maior a distância entre o mundo real e o ideal, maior é a frustração e o desamparo.
O mundo ideal só existe na nossa imaginação, mas serve de referência para se tentar sempre fazer algo melhor.
Ideia fixa - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 25/12
O PT quer a pasta da Integração. O PMDB não abre mão de voltar àquele ministério. O vice Michel Temer defendeu essa posição para a presidente Dilma. "Não tem plano B. A pasta era nossa, e abrimos mão em nome de compor com o PSB", afirma o presidente da Câmara, Henrique Alves. O partido não quer trocar para outra, como Cidades, pois "o Aguinaldo Ribeiro e o PP são nossos aliados"
A sucessão e as centrais
As centrais sindicais dos trabalhadores estão se posicionando nas eleições presidenciais. A CUT e a CTB apoiam a reeleição da presidente Dilma (PT). A Força Sindical está com a candidatura Aécio Neves (PSDB). Mas nenhuma delas condiciona esse apoio ao atendimento de suas reivindicações. Em março, elas entregaram à presidente Dilma uma pauta que pedia: "Redução de jornada de trabalho sem redução de salário; o fim do fator previdenciário; e aprovar resoluções da OIT para regulamentar a negociação coletiva do setor público e contra a demissão imotivada". Será que as centrais vão cobrar isso? Será que algum dos candidatos vai assumir essa agenda?
"Na primeira campanha (2008) do presidente Obama, ele obteve extraordinária contribuição pela internet de pessoas que doavam US$ 10, US$ 20, US$ 100"
Eduardo Suplicy Senador (PT-SP), ao defender o fim das doações eleitorais de empresas
De olho no eleitor
Mesmo que Eduardo Campos se apresente como crítico do governo Dilma, o ex-presidente Lula avalia que o embate contra Campos deve ser cuidadoso.
Ele argumenta que é preciso garantir parcela do eleitorado do socialista num segundo turno.
O retorno
Ex-presidente da CNI, ex-senador e ministro da Integração no governo Fernando Henrique Cardoso, Fernando Bezerra é o candidato do PMDB ao governo do Rio Grande do Norte. Ele saiu do PMDB, andou no PSB, mas agora está de volta e tem o apoio dos Alves. O partido, que tem o maior número de prefeitos, está há 12 anos fora do poder.
A resposta
O comando da Câmara vai tentar promover uma reforma política na volta do recesso. Os deputados querem matar qualquer outra tentação de legislar do STF. A maioria não aceita o fim do financiamento pelas empresas.
O 'economês' tucano
Aliados do candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, estão preocupados com a sua linha de comunicação. Citam como exemplo sua frase de que vai transformar o Bolsa Família de uma política de governo para uma política de Estado.
Eles perguntam: "Quem sabe qual a diferença?" e "O eleitor associa o palavreado a algo positivo?".
Só no caso de reeleição
A exemplo do presidente do PSD, Gilberto Kassab, outros aliados de peso, como é o caso do ex-governador Ciro Gomes (PROS), não querem assumir qualquer ministério agora. Preferem deixar para um eventual próximo mandato.
A tendência
Caso se confirme que não haverá espaço para nomeações políticas na reforma ministerial, aliados afirmam que a presidente Dilma deve, na maioria dos casos, nomear secretários executivos para o lugar dos ministros que foram concorrer.
A sucessão e as centrais
As centrais sindicais dos trabalhadores estão se posicionando nas eleições presidenciais. A CUT e a CTB apoiam a reeleição da presidente Dilma (PT). A Força Sindical está com a candidatura Aécio Neves (PSDB). Mas nenhuma delas condiciona esse apoio ao atendimento de suas reivindicações. Em março, elas entregaram à presidente Dilma uma pauta que pedia: "Redução de jornada de trabalho sem redução de salário; o fim do fator previdenciário; e aprovar resoluções da OIT para regulamentar a negociação coletiva do setor público e contra a demissão imotivada". Será que as centrais vão cobrar isso? Será que algum dos candidatos vai assumir essa agenda?
"Na primeira campanha (2008) do presidente Obama, ele obteve extraordinária contribuição pela internet de pessoas que doavam US$ 10, US$ 20, US$ 100"
Eduardo Suplicy Senador (PT-SP), ao defender o fim das doações eleitorais de empresas
De olho no eleitor
Mesmo que Eduardo Campos se apresente como crítico do governo Dilma, o ex-presidente Lula avalia que o embate contra Campos deve ser cuidadoso.
Ele argumenta que é preciso garantir parcela do eleitorado do socialista num segundo turno.
O retorno
Ex-presidente da CNI, ex-senador e ministro da Integração no governo Fernando Henrique Cardoso, Fernando Bezerra é o candidato do PMDB ao governo do Rio Grande do Norte. Ele saiu do PMDB, andou no PSB, mas agora está de volta e tem o apoio dos Alves. O partido, que tem o maior número de prefeitos, está há 12 anos fora do poder.
A resposta
O comando da Câmara vai tentar promover uma reforma política na volta do recesso. Os deputados querem matar qualquer outra tentação de legislar do STF. A maioria não aceita o fim do financiamento pelas empresas.
O 'economês' tucano
Aliados do candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, estão preocupados com a sua linha de comunicação. Citam como exemplo sua frase de que vai transformar o Bolsa Família de uma política de governo para uma política de Estado.
Eles perguntam: "Quem sabe qual a diferença?" e "O eleitor associa o palavreado a algo positivo?".
Só no caso de reeleição
A exemplo do presidente do PSD, Gilberto Kassab, outros aliados de peso, como é o caso do ex-governador Ciro Gomes (PROS), não querem assumir qualquer ministério agora. Preferem deixar para um eventual próximo mandato.
A tendência
Caso se confirme que não haverá espaço para nomeações políticas na reforma ministerial, aliados afirmam que a presidente Dilma deve, na maioria dos casos, nomear secretários executivos para o lugar dos ministros que foram concorrer.
Lista de desejos - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 25/12
A indústria definiu sua pauta prioritária para o Congresso no ano eleitoral. A Agenda Legislativa da Indústria 2014 lista 14 propostas urgentes para o setor em tramitação no Senado e na Câmara. Entre elas estão a extinção do adicional de 10% do FGTS, a proposta que regulamenta a terceirização e a que racionaliza a cobrança do IPI e desonera o setor produtivo. A CNI avalia que esses projetos são importantes para reduzir o peso de impostos e dar segurança jurídica às empresas.
Disputado 1 Diferentemente do resto do país, onde Dilma Rousseff lidera com folga a sucessão presidencial, pesquisa realizada no Distrito Federal pelo instituto Dados mostra um quadro mais pulverizado de votos.
Disputado 2 Na pesquisa, realizada dos dias 1 a 9, com 3.000 entrevistas, a presidente tem 24,8%, seguida por Aécio Neves (PSDB), com 20,8%. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), aparece com 10,5%.
Minha casa... De olho no apoio de PSDB e DEM a sua candidatura ao governo da Bahia, o vice-presidente da Caixa Geddel Vieira Lima (PMDB) colou no prefeito ACM Neto e virou frequentador assíduo de inaugurações de obras em Salvador.
... é da oposição Na última sexta-feira, elogiou o prefeito em discurso e entregou pessoalmente as chaves das casas de um conjunto habitacional. Eram unidades do Minha Casa, Minha Vida, vitrine eleitoral de Dilma Rousseff.
Hora extra Geddel cobrou na última semana do vice-presidente Michel Temer que seja feita logo sua substituição na Caixa. O PMDB indicou formalmente para a vaga o diretor Roberto Desiree.
Cada um... Derrotada na eleição interna do PT-CE, a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins, rival do governador Cid Gomes (Pros), insiste na tese de candidato próprio para o governo em 2014. "Se o governador quer ter candidato e o senador Eunício Oliveira também quer se viabilizar, por que o PT não pode?"
... na sua Luizianne afirma que quer "curtir a vida acadêmica" até decidir seu futuro político. Ela fará mestrado em comunicação na PUC-RJ. "Posso ser candidata ao governo ou a deputada. Mas se o PT resolver apoiar o candidato do governador terei de parar e refletir."
Não tá fácil... A presidente do Conselho Nacional de Biblioteconomia, Regina Céli de Sousa, soltou nota em que diz que, para trabalhar na biblioteca do advogado José Gerardo Grossi, José Dirceu precisará ter a supervisão de um bibliotecário.
... pra ninguém "É um equívoco acreditar que as funções do bibliotecário se resumem a controlar a entrada e saída de livros", afirma Regina. A nota diz que descumprir a lei que obriga diploma é passível de sanção.
Reloaded 1 O Marco Civil da Internet terá nova negociação em 2014. Como está, o projeto não será votado. Um dos pontos de divergência é a obrigatoriedade de empresas estrangeiras instalarem data center no Brasil.
Reloaded 2 O governo aceita discutir a regra, mas não abre mão de que os pedidos judiciais sejam atendidos pelas empresas em casos de violação da privacidade. José Eduardo Cardozo (Justiça) vai liderar a discussão.
Filmou... O Conselho Nacional de Trânsito aprovou resolução que permite sanção a motoristas flagrados por câmeras cometendo infrações em rodovias. As multas poderão ser aplicadas por policiais que veem as imagens em centros de operação.
...dançou Antes, algumas multas só podiam ser constatadas pelos agentes no local da infração, como no caso de motoristas falando ao celular ou dirigindo sem cinto de segurança. No futuro, a nova regra poderá ser implementada nas cidades.
com com ANDRÉIA SADI, BRUNO BOGHOSSIAN E JULIO WIZIACK
TIROTEIO
"Com este quadro, não surpreende que o índice de reincidência seja de 82% dos presos. Os presídios são universidades de crimes."
DE MARCUS VINICIUS COÊLHO, presidente da OAB federal, sobre casos de violações aos direitos humanos em prisões no país, investigados pela entidade.
CONTRAPONTO
Eu prometo
Governadores do Nordeste participaram em agosto, em Maceió (AL), de reunião do Conselho da Sudene. Alguns deles chegaram à capital alagoana na véspera, para discutir a pauta que seria entregue à presidente Dilma Rousseff com reivindicações da região.
O anfitrião do encontro, Teotonio Vilela (PSDB), pediu que fosse incluída na lista a duplicação de rodovia federal que liga Maceió ao Recife. Foi interrompido por Eduardo Campos (PSB-PE), que, na época, ainda não admitia abertamente sua candidatura presidencial:
--Essa aí você pode deixar, Téo, que eu vou duplicar quando for presidente!
A indústria definiu sua pauta prioritária para o Congresso no ano eleitoral. A Agenda Legislativa da Indústria 2014 lista 14 propostas urgentes para o setor em tramitação no Senado e na Câmara. Entre elas estão a extinção do adicional de 10% do FGTS, a proposta que regulamenta a terceirização e a que racionaliza a cobrança do IPI e desonera o setor produtivo. A CNI avalia que esses projetos são importantes para reduzir o peso de impostos e dar segurança jurídica às empresas.
Disputado 1 Diferentemente do resto do país, onde Dilma Rousseff lidera com folga a sucessão presidencial, pesquisa realizada no Distrito Federal pelo instituto Dados mostra um quadro mais pulverizado de votos.
Disputado 2 Na pesquisa, realizada dos dias 1 a 9, com 3.000 entrevistas, a presidente tem 24,8%, seguida por Aécio Neves (PSDB), com 20,8%. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), aparece com 10,5%.
Minha casa... De olho no apoio de PSDB e DEM a sua candidatura ao governo da Bahia, o vice-presidente da Caixa Geddel Vieira Lima (PMDB) colou no prefeito ACM Neto e virou frequentador assíduo de inaugurações de obras em Salvador.
... é da oposição Na última sexta-feira, elogiou o prefeito em discurso e entregou pessoalmente as chaves das casas de um conjunto habitacional. Eram unidades do Minha Casa, Minha Vida, vitrine eleitoral de Dilma Rousseff.
Hora extra Geddel cobrou na última semana do vice-presidente Michel Temer que seja feita logo sua substituição na Caixa. O PMDB indicou formalmente para a vaga o diretor Roberto Desiree.
Cada um... Derrotada na eleição interna do PT-CE, a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins, rival do governador Cid Gomes (Pros), insiste na tese de candidato próprio para o governo em 2014. "Se o governador quer ter candidato e o senador Eunício Oliveira também quer se viabilizar, por que o PT não pode?"
... na sua Luizianne afirma que quer "curtir a vida acadêmica" até decidir seu futuro político. Ela fará mestrado em comunicação na PUC-RJ. "Posso ser candidata ao governo ou a deputada. Mas se o PT resolver apoiar o candidato do governador terei de parar e refletir."
Não tá fácil... A presidente do Conselho Nacional de Biblioteconomia, Regina Céli de Sousa, soltou nota em que diz que, para trabalhar na biblioteca do advogado José Gerardo Grossi, José Dirceu precisará ter a supervisão de um bibliotecário.
... pra ninguém "É um equívoco acreditar que as funções do bibliotecário se resumem a controlar a entrada e saída de livros", afirma Regina. A nota diz que descumprir a lei que obriga diploma é passível de sanção.
Reloaded 1 O Marco Civil da Internet terá nova negociação em 2014. Como está, o projeto não será votado. Um dos pontos de divergência é a obrigatoriedade de empresas estrangeiras instalarem data center no Brasil.
Reloaded 2 O governo aceita discutir a regra, mas não abre mão de que os pedidos judiciais sejam atendidos pelas empresas em casos de violação da privacidade. José Eduardo Cardozo (Justiça) vai liderar a discussão.
Filmou... O Conselho Nacional de Trânsito aprovou resolução que permite sanção a motoristas flagrados por câmeras cometendo infrações em rodovias. As multas poderão ser aplicadas por policiais que veem as imagens em centros de operação.
...dançou Antes, algumas multas só podiam ser constatadas pelos agentes no local da infração, como no caso de motoristas falando ao celular ou dirigindo sem cinto de segurança. No futuro, a nova regra poderá ser implementada nas cidades.
com com ANDRÉIA SADI, BRUNO BOGHOSSIAN E JULIO WIZIACK
TIROTEIO
"Com este quadro, não surpreende que o índice de reincidência seja de 82% dos presos. Os presídios são universidades de crimes."
DE MARCUS VINICIUS COÊLHO, presidente da OAB federal, sobre casos de violações aos direitos humanos em prisões no país, investigados pela entidade.
CONTRAPONTO
Eu prometo
Governadores do Nordeste participaram em agosto, em Maceió (AL), de reunião do Conselho da Sudene. Alguns deles chegaram à capital alagoana na véspera, para discutir a pauta que seria entregue à presidente Dilma Rousseff com reivindicações da região.
O anfitrião do encontro, Teotonio Vilela (PSDB), pediu que fosse incluída na lista a duplicação de rodovia federal que liga Maceió ao Recife. Foi interrompido por Eduardo Campos (PSB-PE), que, na época, ainda não admitia abertamente sua candidatura presidencial:
--Essa aí você pode deixar, Téo, que eu vou duplicar quando for presidente!
E se Papai Noel fosse brasileiro? - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 25/12
Nossa festa de Natal tem raízes bem mais antigas do que o nascimento de Jesus, mas sua forma atual data de aproximadamente 350 d.C., quando o papa Julio I resolveu transformar a Saturnália, que ocorria no solstíscio de inverno, numa festa cristã. Os romanos comemoravam intensamente o fim do ano agrário e religioso e a chegada do novo ano, com esperança de boas colheitas e dias melhores. Já então havia intensa troca de presentes.
Foram os norte-americanos - sempre eles - que deram ao Natal o caráter consumista de hoje, logo após a independência. Em Nova York, cidade fundada pelos holandeses, tiraram Papai Noel da sacristia para as portas das lojas. Inspirados na figura de São Nicolao, bispo de Mira, na Turquia, que gostava de distribuir presentes para comemorar o nascimento de Jesus - tradição que remonta aos Reis Magos Belchior, Baltazar e Gaspar -, os cartunistas Washington Irvin e Thomaz Nast deram ao Bom Velhinho o ar bonachão que se universalizou. Se Papai Noel fosse brasileiro, minha lista de presentes seria a seguinte:
Atendimento no SUS - Nosso Sistema Único de Saúde (SUS) precisa urgentemente de uma reforma. Ninguém aguenta mais a demora na marcação das consultas e no atendimento de urgência. No primeiro caso, acabaram com as filas marcando consultas para meses depois da entrega das senhas; no segundo, o sujeito somente é atendido se chegar na horizontal. Tem ainda a maracutaia dos planos de saúde, que enrolam as remoções dos hospitais públicos para não fazer cirurgias de emergência na rede privada. Falta também um plano de carreira que resgate o humanismo das profissões da área de saúde, principalmente dos médicos, sem termos que recorrer a médicos cubanos e de outras nacionalidades.
Educação de qualidade - A educação básica no Brasil foi universalizada, mas o ensino público deixa muito a desejar. Com 50 milhões de jovens, o Brasil vive o paradoxo de importar mão de obra para os setores mais dinâmicos da economia por falta de qualificação adequada dos nossos trabalhadores. Nos setores tradicionais da economia, sobra mão de obra. O desemprego é mascarado pela existência de 10 milhões jovens que nem estudam nem trabalham. Não é à toa que essa garotada nem-nem foi pra rua e pôs a boca no trombone: mais escolas e mais empregos de qualidade!
Transporte digno - Quem não quer um carro novo de presente de Natal? Todo mundo, é claro, mas isso não resolve o problema da mobilidade de nossas cidades, que já não suportam tantos automóveis. Eles ocupam 90% das vias e transportam de 10% a 15% da população, enquanto ônibus, metrôs e trens andam superlotados. Além disso, as passagens custam muito caro. Se houvesse transporte de massa digno, ninguém precisaria de automóvel para se deslocar de casa para a escola ou o trabalho. Mesmo os que têm veículos próprios.
Segurança pública - Cadê o Amarildo? Cadê o Antônio? Ambos sumiram, no Rio de Janeiro e em Brasília, respectivamente, em razão da violência policial. Segurança e respeito aos direitos humanos precisam andar juntas, inclusive nas prisões, verdadeiras masmorras medievais. O autoritarismo secular de nossa estrutura de poder está entranhado nas nossas polícias, que precisam mudar de paradigma, principalmente a militar, cujos métodos de atuação obedecem aos conceitos de guerra e não os da paz.
Proteção à infância - A parcela mais pobre da população brasileira, principalmente nas cidades, precisa de um programa de segurança familiar com foco nas crianças e adolescentes. De cada dez crianças em situação de risco, todas têm famílias desestruturadas, cujos integrantes, em sua maioria, são atendidos por diversos programas sociais - municipais, estaduais e federais -, inclusive o Bolsa Família, mas ninguém é responsável pelo conjunto da obra. As crianças vivem nas ruas, comem num lugar, pegam roupas em outro, dormem em abrigos ou debaixo de marquises, acabam zumbis do crack. Deveriam ser identificadas, cadastradas, frequentar escolas em horário integral e ter as respectivas famílias monitoradas.
Ética na política - Nem é preciso tecer muitos comentários sobre esse assunto. O brasileiro não confia nos partidos, nos políticos e no Congresso e tem bons motivos para isso. É preciso renovar os nossos costumes e as instituições políticas, para que o bem comum predomine em relação ao fisiologismo e ao patrimonialismo.
P.S.: a propósito, faço um pedido muito especial: um presente bacana e singelo para Maria Antônia, a filha caçula do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Ela tem apenas 3 anos e sente muita falta do pai.
Nossa festa de Natal tem raízes bem mais antigas do que o nascimento de Jesus, mas sua forma atual data de aproximadamente 350 d.C., quando o papa Julio I resolveu transformar a Saturnália, que ocorria no solstíscio de inverno, numa festa cristã. Os romanos comemoravam intensamente o fim do ano agrário e religioso e a chegada do novo ano, com esperança de boas colheitas e dias melhores. Já então havia intensa troca de presentes.
Foram os norte-americanos - sempre eles - que deram ao Natal o caráter consumista de hoje, logo após a independência. Em Nova York, cidade fundada pelos holandeses, tiraram Papai Noel da sacristia para as portas das lojas. Inspirados na figura de São Nicolao, bispo de Mira, na Turquia, que gostava de distribuir presentes para comemorar o nascimento de Jesus - tradição que remonta aos Reis Magos Belchior, Baltazar e Gaspar -, os cartunistas Washington Irvin e Thomaz Nast deram ao Bom Velhinho o ar bonachão que se universalizou. Se Papai Noel fosse brasileiro, minha lista de presentes seria a seguinte:
Atendimento no SUS - Nosso Sistema Único de Saúde (SUS) precisa urgentemente de uma reforma. Ninguém aguenta mais a demora na marcação das consultas e no atendimento de urgência. No primeiro caso, acabaram com as filas marcando consultas para meses depois da entrega das senhas; no segundo, o sujeito somente é atendido se chegar na horizontal. Tem ainda a maracutaia dos planos de saúde, que enrolam as remoções dos hospitais públicos para não fazer cirurgias de emergência na rede privada. Falta também um plano de carreira que resgate o humanismo das profissões da área de saúde, principalmente dos médicos, sem termos que recorrer a médicos cubanos e de outras nacionalidades.
Educação de qualidade - A educação básica no Brasil foi universalizada, mas o ensino público deixa muito a desejar. Com 50 milhões de jovens, o Brasil vive o paradoxo de importar mão de obra para os setores mais dinâmicos da economia por falta de qualificação adequada dos nossos trabalhadores. Nos setores tradicionais da economia, sobra mão de obra. O desemprego é mascarado pela existência de 10 milhões jovens que nem estudam nem trabalham. Não é à toa que essa garotada nem-nem foi pra rua e pôs a boca no trombone: mais escolas e mais empregos de qualidade!
Transporte digno - Quem não quer um carro novo de presente de Natal? Todo mundo, é claro, mas isso não resolve o problema da mobilidade de nossas cidades, que já não suportam tantos automóveis. Eles ocupam 90% das vias e transportam de 10% a 15% da população, enquanto ônibus, metrôs e trens andam superlotados. Além disso, as passagens custam muito caro. Se houvesse transporte de massa digno, ninguém precisaria de automóvel para se deslocar de casa para a escola ou o trabalho. Mesmo os que têm veículos próprios.
Segurança pública - Cadê o Amarildo? Cadê o Antônio? Ambos sumiram, no Rio de Janeiro e em Brasília, respectivamente, em razão da violência policial. Segurança e respeito aos direitos humanos precisam andar juntas, inclusive nas prisões, verdadeiras masmorras medievais. O autoritarismo secular de nossa estrutura de poder está entranhado nas nossas polícias, que precisam mudar de paradigma, principalmente a militar, cujos métodos de atuação obedecem aos conceitos de guerra e não os da paz.
Proteção à infância - A parcela mais pobre da população brasileira, principalmente nas cidades, precisa de um programa de segurança familiar com foco nas crianças e adolescentes. De cada dez crianças em situação de risco, todas têm famílias desestruturadas, cujos integrantes, em sua maioria, são atendidos por diversos programas sociais - municipais, estaduais e federais -, inclusive o Bolsa Família, mas ninguém é responsável pelo conjunto da obra. As crianças vivem nas ruas, comem num lugar, pegam roupas em outro, dormem em abrigos ou debaixo de marquises, acabam zumbis do crack. Deveriam ser identificadas, cadastradas, frequentar escolas em horário integral e ter as respectivas famílias monitoradas.
Ética na política - Nem é preciso tecer muitos comentários sobre esse assunto. O brasileiro não confia nos partidos, nos políticos e no Congresso e tem bons motivos para isso. É preciso renovar os nossos costumes e as instituições políticas, para que o bem comum predomine em relação ao fisiologismo e ao patrimonialismo.
P.S.: a propósito, faço um pedido muito especial: um presente bacana e singelo para Maria Antônia, a filha caçula do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Ela tem apenas 3 anos e sente muita falta do pai.
Pressões do salário mínimo - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 25/12
Os reajustes do salário mínimo acima da inflação ajudaram a aumentar o poder aquisitivo do consumidor, mas abriram rombos nas contas do setor público que têm de ser cobertos por arrecadação de impostos que, por sua vez, tirarão renda do consumidor.
Pela regra definida em 2011, o salário mínimo de 2012 a 2015 (inclusive), é corrigido pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acrescido do avanço do PIB apurado dois anos antes. Assim; o salário mínimo de 2013 foi calculado com base no avanço do PIB de 2011 e o de 2014 será com base no PIB de 2012.
Até o final de 2014, o governo federal deverá encaminhar ao Congresso projeto de lei que definirá as novas regras que vigorarão a partir de 2016.
Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013, o salário mínimo teve uma correção real (acima da inflação) de 81,4%, o que dá um avanço médio de 5,6%, substancialmente superior ao crescimento do PIB no período.
O principal impacto desse ajuste não foi no poder aquisitivo dos trabalhadores do setor privado (formal ou informal), mas no setor público. Nada menos que 20,6 milhões de pessoas recebem ao menos um salário mínimo mensal da Previdência Social, como aposentadoria ou benefício social regulado pela Lei Orgânica da Assistência Social. Só no INSS, 67% dos beneficiários recebem salário mínimo e, portanto, têm sua renda reajustada de acordo com esse critério. Também estão vinculadas ao salário mínimo as despesas com seguro-desemprego. Em novembro, o ministro Guido Mantega se mostrou espantado com o déficit (R$ 47 bilhões) nas contas do seguro-desemprego, num ano em que a desocupação atinge 4,6% da força de trabalho (dados de novembro). Em parte, isso ocorreu em consequência das atuais regras para o reajuste do salário mínimo.
Além da massa de beneficiários remunerada pelo governo federal, há ainda a fatia enorme de funcionários públicos estaduais e municipais, cuja renda também está atrelada ao salário mínimo. Enfim, o impacto do reajuste sobre as contas públicas é enorme.
O governo terá de negociar num ano eleitoral ou a extensão das atuais regras ou novas regras que entrarão em vigor em 2016 e deverão ser observadas até 2019, inclusive. A FGV calcula que, se os atuais critérios de reajuste do salário mínimo se mantiverem, as transferências de recursos do governo federal para as áreas da previdência e da assistência social subirão de 9,6% do PIB em 2013 para 10,7% do PIB em 2019.
Do ponto de vista político, se for reconduzida para um segundo mandato, a presidente Dilma terá motivos para um empenho maior em conter o salário mínimo, porque sabe o efeito de um reajuste mais generoso para a administração federal. Mas, para isso, terá de enfrentar a campanha dos sindicatos, que começará bem antes de outubro, com o calendário eleitoral como instrumento de pressão.
Os reajustes do salário mínimo acima da inflação ajudaram a aumentar o poder aquisitivo do consumidor, mas abriram rombos nas contas do setor público que têm de ser cobertos por arrecadação de impostos que, por sua vez, tirarão renda do consumidor.
Pela regra definida em 2011, o salário mínimo de 2012 a 2015 (inclusive), é corrigido pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acrescido do avanço do PIB apurado dois anos antes. Assim; o salário mínimo de 2013 foi calculado com base no avanço do PIB de 2011 e o de 2014 será com base no PIB de 2012.
Até o final de 2014, o governo federal deverá encaminhar ao Congresso projeto de lei que definirá as novas regras que vigorarão a partir de 2016.
Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013, o salário mínimo teve uma correção real (acima da inflação) de 81,4%, o que dá um avanço médio de 5,6%, substancialmente superior ao crescimento do PIB no período.
O principal impacto desse ajuste não foi no poder aquisitivo dos trabalhadores do setor privado (formal ou informal), mas no setor público. Nada menos que 20,6 milhões de pessoas recebem ao menos um salário mínimo mensal da Previdência Social, como aposentadoria ou benefício social regulado pela Lei Orgânica da Assistência Social. Só no INSS, 67% dos beneficiários recebem salário mínimo e, portanto, têm sua renda reajustada de acordo com esse critério. Também estão vinculadas ao salário mínimo as despesas com seguro-desemprego. Em novembro, o ministro Guido Mantega se mostrou espantado com o déficit (R$ 47 bilhões) nas contas do seguro-desemprego, num ano em que a desocupação atinge 4,6% da força de trabalho (dados de novembro). Em parte, isso ocorreu em consequência das atuais regras para o reajuste do salário mínimo.
Além da massa de beneficiários remunerada pelo governo federal, há ainda a fatia enorme de funcionários públicos estaduais e municipais, cuja renda também está atrelada ao salário mínimo. Enfim, o impacto do reajuste sobre as contas públicas é enorme.
O governo terá de negociar num ano eleitoral ou a extensão das atuais regras ou novas regras que entrarão em vigor em 2016 e deverão ser observadas até 2019, inclusive. A FGV calcula que, se os atuais critérios de reajuste do salário mínimo se mantiverem, as transferências de recursos do governo federal para as áreas da previdência e da assistência social subirão de 9,6% do PIB em 2013 para 10,7% do PIB em 2019.
Do ponto de vista político, se for reconduzida para um segundo mandato, a presidente Dilma terá motivos para um empenho maior em conter o salário mínimo, porque sabe o efeito de um reajuste mais generoso para a administração federal. Mas, para isso, terá de enfrentar a campanha dos sindicatos, que começará bem antes de outubro, com o calendário eleitoral como instrumento de pressão.
O fim está próximo - ALEXANDRE SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 25/12
O fim, no caso, é o do ciclo de alta dos juros; o BC faz de conta que o problema da inflação não é com ele
Não ousaria dizer que o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) é uma leitura agradável, embora supere de longe algumas das respostas proferidas durante a entrevista que se seguiu à sua divulgação. Permanece, contudo, informação essencial a quem, como eu, ainda nutre a ilusão de tentar entender os rumos da política monetária no Brasil.
Dois aspectos saltam aos olhos. O primeiro, claro, é o conjunto de previsões acerca do comportamento da inflação até o fim de 2015.
Em ambos os cenários projetados pelo Banco Central, um sob a suposição de manutenção da taxa de juros em 10% ao ano e outro presumindo ainda uma rodada de aumento para 10,25% ao ano, a inflação no final de 2015 baixaria a 5,4% e 5,3%, respectivamente, permanecendo, portanto, bastante acima da meta oficial, que --como o Banco Central deveria saber-- se encontra fixada em 4,5% desde o longínquo ano de 2005.
A serem confirmadas tais previsões, em geral muito otimistas, estabeleceríamos novo (e triste) recorde: seis anos com inflação superior à meta.
E pensar que ainda existem economistas que sugerem, como grande inovação na forma de condução da política monetária, o "alargamento" do prazo de convergência da inflação para dois (!) anos.
Diante desses números, um Banco Central realmente comprome- tido com a convergência da infla- ção à meta não teria alternativa que não fosse a sinalização de aperto monetário adicional.
No entanto --e é esse o segundo aspecto que mencionava ser importante no relatório--, a sinalização do Copom (Comitê de Política Monetária) é que o fim está próximo, no caso o fim do ciclo de aumento de taxas de juros, iniciado em abril deste ano.
Posto de outra forma, mesmo dispondo de tempo suficiente para lidar com o problema inflacionário (em vista das defasagens naturais de política monetária), o BC faz de conta que não se trata de responsabilidade sua e deixa o controle da inflação ao deus-dará.
Tempos atrás, já sob a atual diretoria, ainda se dava ao trabalho de inventar uma história de como o ambiente global seria desinflacionário e tirar da manga um "modelo de equilíbrio geral estocástico" que daria lustro teórico a seu pouco caso com a evolução dos preços.
Era tudo conversa fiada, como ficou claro pelo comportamento da inflação desde então. Mas, pelo menos, havia alguma preocupa- ção com as aparências e, se a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, a meta ainda poderia se sentir lisonjeada, embora não atingida.
Hoje, pelo contrário, não há sequer tal preocupação. O que se depreende das duas informações presentes no RTI é que, apesar das juras sobre "o Banco Central estar de olho na inflação", a ação concreta da autoridade monetária não deixa dúvida acerca da falta de comprometimento com a meta. A atitude do BC fala tão alto que não nos deixa ouvir suas palavras.
Não é por outro motivo que as expectativas de inflação se recusam a convergir para a meta. Há quem interprete esse fenômeno como evidência da persistência de mecanismos de indexação na formação de expectativas, isto é, da inflação passada influenciando a futura.
Perdem, porém, de vista que, em face do relaxamento do BC no campo inflacionário, é precisamente esse tipo de comportamento que deve ser o esperado.
Não há como escapar da conclusão de que os últimos anos marcaram um retrocesso extraordinário na condução da política monetária.
Obviamente isso se insere na deterioração da política econômica como um todo, mas me toca mais de perto por ter tido a oportunidade de participar, ainda que de forma muito modesta, da construção de um regime muito distinto daquele que hoje vigora.
Razões pessoais à parte, é lamentável ver perdido o esforço de muita gente boa, ainda mais com consequências tristes para o país.
Se acreditasse em Papai Noel, pediria ao bom velhinho que iluminasse o Copom, mas deixo isso para os que creem nas previsões do BC.
O fim, no caso, é o do ciclo de alta dos juros; o BC faz de conta que o problema da inflação não é com ele
Não ousaria dizer que o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) é uma leitura agradável, embora supere de longe algumas das respostas proferidas durante a entrevista que se seguiu à sua divulgação. Permanece, contudo, informação essencial a quem, como eu, ainda nutre a ilusão de tentar entender os rumos da política monetária no Brasil.
Dois aspectos saltam aos olhos. O primeiro, claro, é o conjunto de previsões acerca do comportamento da inflação até o fim de 2015.
Em ambos os cenários projetados pelo Banco Central, um sob a suposição de manutenção da taxa de juros em 10% ao ano e outro presumindo ainda uma rodada de aumento para 10,25% ao ano, a inflação no final de 2015 baixaria a 5,4% e 5,3%, respectivamente, permanecendo, portanto, bastante acima da meta oficial, que --como o Banco Central deveria saber-- se encontra fixada em 4,5% desde o longínquo ano de 2005.
A serem confirmadas tais previsões, em geral muito otimistas, estabeleceríamos novo (e triste) recorde: seis anos com inflação superior à meta.
E pensar que ainda existem economistas que sugerem, como grande inovação na forma de condução da política monetária, o "alargamento" do prazo de convergência da inflação para dois (!) anos.
Diante desses números, um Banco Central realmente comprome- tido com a convergência da infla- ção à meta não teria alternativa que não fosse a sinalização de aperto monetário adicional.
No entanto --e é esse o segundo aspecto que mencionava ser importante no relatório--, a sinalização do Copom (Comitê de Política Monetária) é que o fim está próximo, no caso o fim do ciclo de aumento de taxas de juros, iniciado em abril deste ano.
Posto de outra forma, mesmo dispondo de tempo suficiente para lidar com o problema inflacionário (em vista das defasagens naturais de política monetária), o BC faz de conta que não se trata de responsabilidade sua e deixa o controle da inflação ao deus-dará.
Tempos atrás, já sob a atual diretoria, ainda se dava ao trabalho de inventar uma história de como o ambiente global seria desinflacionário e tirar da manga um "modelo de equilíbrio geral estocástico" que daria lustro teórico a seu pouco caso com a evolução dos preços.
Era tudo conversa fiada, como ficou claro pelo comportamento da inflação desde então. Mas, pelo menos, havia alguma preocupa- ção com as aparências e, se a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, a meta ainda poderia se sentir lisonjeada, embora não atingida.
Hoje, pelo contrário, não há sequer tal preocupação. O que se depreende das duas informações presentes no RTI é que, apesar das juras sobre "o Banco Central estar de olho na inflação", a ação concreta da autoridade monetária não deixa dúvida acerca da falta de comprometimento com a meta. A atitude do BC fala tão alto que não nos deixa ouvir suas palavras.
Não é por outro motivo que as expectativas de inflação se recusam a convergir para a meta. Há quem interprete esse fenômeno como evidência da persistência de mecanismos de indexação na formação de expectativas, isto é, da inflação passada influenciando a futura.
Perdem, porém, de vista que, em face do relaxamento do BC no campo inflacionário, é precisamente esse tipo de comportamento que deve ser o esperado.
Não há como escapar da conclusão de que os últimos anos marcaram um retrocesso extraordinário na condução da política monetária.
Obviamente isso se insere na deterioração da política econômica como um todo, mas me toca mais de perto por ter tido a oportunidade de participar, ainda que de forma muito modesta, da construção de um regime muito distinto daquele que hoje vigora.
Razões pessoais à parte, é lamentável ver perdido o esforço de muita gente boa, ainda mais com consequências tristes para o país.
Se acreditasse em Papai Noel, pediria ao bom velhinho que iluminasse o Copom, mas deixo isso para os que creem nas previsões do BC.
Terceiro tempo - MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 25/12
A negociação de três meses para a formação do governo alemão mostrou que é possível unir distribuição de cargos com coalizão em torno de ideias. O novo gabinete que assumiu semana passada é de fato uma mistura dos três partidos e deu uma nova cara à administração de Angela Merkel: mais à esquerda, com mais diversidade, e mais europeísta.
O governo é formado pelos conservadores do CDU, de Angela Merkel, os social-democratas do SPD, e o CSU, também conservador. Pela primeira vez uma mulher comandará as Forças Armadas e pela primeira vez uma pessoa de origem turca terá um cargo no gabinete.
Depois das eleições gerais de setembro, foram três meses de negociação até Merkel formar o gabinete aprovado pelo Bundestag. Antes dela, apenas Konrad Adenauer e Helmut Köhl haviam conseguido governar a Alemanha por três mandatos.
As novidades do gabinete são animadoras. Tanto na área das relações internacionais quanto na área militar foram nomeados ministros favoráveis à intensificação das relações com a Europa; fundamental num momento em que a zona do euro começa a sair da crise, graças, em grande parte, à liderança da Alemanha nos momentos difíceis. No primeiro pronunciamento, Merkel afirmou: Quem quiser mais Europa tem que estar preparado para reajustar algumas áreas de responsabilidade. Ou seja, será necessário mudar alguns tratados.
Dos 16 ministérios existentes - melhor nem lembrar dos nossos 40 - sete serão ocupados pelos conservadores do partido de Merkel (CDU), seis serão ocupados pelos social-democratas (SPD), e três serão do CSU.
O ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, do SPD, é mais influente e proativo que o anterior. Já concorreu contra Merkel, como candidato social-democrata, em 2009, quando o seu partido teve a pior derrota desde a Segunda Guerra. Em 2010, ele se afastou da política para doar um rim para a mulher. O fato elevou muito sua popularidade.
A nova ministra da Defesa, primeira mulher a comandar os militares na história da Alemanha, Ursula von der Leyden, é considerada a provável sucessora de Merkel e vinha defendendo a ideia de um estados unidos da Europa . É mãe de sete filhos e só entrou na política aos 42 anos. O ministro de Estado para Assuntos Europeus, membro do parlamento, Michael Roth, é social-democrata e fortemente pró-europeu. Pertence à nova geração mais moderna do SPD. É considerado um dos mais inovadores pensadores social-democratas. Escreveu um documento muito bem recebido em toda a União Europeia sobre a democracia na Europa, publicado pela Friedrich Ebert Foundation.
O superministro da Economia e Energia, Sigmar Gabriel, é do SPD e foi o grande ganhador das negociações para formar a coalizão. Ele também tem posições pró-europeias. Gabriel foi ministro do Meio Ambiente na primeira coalizão entre Merkel e os social-democratas, entre 2005 e 2009. Antes disso, ele governou a Baixa Saxônia. Além de ter duas áreas decisivas sob seu controle, Energia e Economia, foi nomeado vice-chanceler por Merkel. Ele é que comandará a política de saída da energia nuclear e aumento das fontes renováveis.
Aydan Özoguz será ministra da Migração, Refugiados e Integração. O fato de ser de origem turca é um sinal a favor da diversidade. Mas como o GLOBO publicou, ela tem dois irmãos ligados a extremistas. Nas Finanças, continua o conservador Wolfgang Schäuble, para mostrar que nem tudo é mudança nesse novo tempo alemão.
A negociação de três meses para a formação do governo alemão mostrou que é possível unir distribuição de cargos com coalizão em torno de ideias. O novo gabinete que assumiu semana passada é de fato uma mistura dos três partidos e deu uma nova cara à administração de Angela Merkel: mais à esquerda, com mais diversidade, e mais europeísta.
O governo é formado pelos conservadores do CDU, de Angela Merkel, os social-democratas do SPD, e o CSU, também conservador. Pela primeira vez uma mulher comandará as Forças Armadas e pela primeira vez uma pessoa de origem turca terá um cargo no gabinete.
Depois das eleições gerais de setembro, foram três meses de negociação até Merkel formar o gabinete aprovado pelo Bundestag. Antes dela, apenas Konrad Adenauer e Helmut Köhl haviam conseguido governar a Alemanha por três mandatos.
As novidades do gabinete são animadoras. Tanto na área das relações internacionais quanto na área militar foram nomeados ministros favoráveis à intensificação das relações com a Europa; fundamental num momento em que a zona do euro começa a sair da crise, graças, em grande parte, à liderança da Alemanha nos momentos difíceis. No primeiro pronunciamento, Merkel afirmou: Quem quiser mais Europa tem que estar preparado para reajustar algumas áreas de responsabilidade. Ou seja, será necessário mudar alguns tratados.
Dos 16 ministérios existentes - melhor nem lembrar dos nossos 40 - sete serão ocupados pelos conservadores do partido de Merkel (CDU), seis serão ocupados pelos social-democratas (SPD), e três serão do CSU.
O ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, do SPD, é mais influente e proativo que o anterior. Já concorreu contra Merkel, como candidato social-democrata, em 2009, quando o seu partido teve a pior derrota desde a Segunda Guerra. Em 2010, ele se afastou da política para doar um rim para a mulher. O fato elevou muito sua popularidade.
A nova ministra da Defesa, primeira mulher a comandar os militares na história da Alemanha, Ursula von der Leyden, é considerada a provável sucessora de Merkel e vinha defendendo a ideia de um estados unidos da Europa . É mãe de sete filhos e só entrou na política aos 42 anos. O ministro de Estado para Assuntos Europeus, membro do parlamento, Michael Roth, é social-democrata e fortemente pró-europeu. Pertence à nova geração mais moderna do SPD. É considerado um dos mais inovadores pensadores social-democratas. Escreveu um documento muito bem recebido em toda a União Europeia sobre a democracia na Europa, publicado pela Friedrich Ebert Foundation.
O superministro da Economia e Energia, Sigmar Gabriel, é do SPD e foi o grande ganhador das negociações para formar a coalizão. Ele também tem posições pró-europeias. Gabriel foi ministro do Meio Ambiente na primeira coalizão entre Merkel e os social-democratas, entre 2005 e 2009. Antes disso, ele governou a Baixa Saxônia. Além de ter duas áreas decisivas sob seu controle, Energia e Economia, foi nomeado vice-chanceler por Merkel. Ele é que comandará a política de saída da energia nuclear e aumento das fontes renováveis.
Aydan Özoguz será ministra da Migração, Refugiados e Integração. O fato de ser de origem turca é um sinal a favor da diversidade. Mas como o GLOBO publicou, ela tem dois irmãos ligados a extremistas. Nas Finanças, continua o conservador Wolfgang Schäuble, para mostrar que nem tudo é mudança nesse novo tempo alemão.
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