O Estado de S.Paulo - 13/10
Atenção donas de casa. O trabalho doméstico já mudou e vai mudar ainda mais.
Nos últimos cinco anos, houve uma redução de 16% no número de pessoas empregadas na categoria, apontam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de agosto (veja o gráfico). Nas grandes cidades, são cada vez mais comuns brigas entre vizinhos porque alguém arrebatou a faxineira, a babá ou a cozinheira da outra família.
Para Carlos Alberto Ramos, professor de Economia do Trabalho da Universidade de Brasília (Unb), a tendência de queda da oferta de mão de obra doméstica tem íntima relação com a atual situação de pleno emprego no Brasil: "Antes, era grande a disponibilidade de trabalhadores pouco qualificados. Pessoas que só encontravam oportunidade no trabalho doméstico vêm migrando para outras ocupações", observa.
Pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) verificou que o perfil do empregado doméstico se alterou entre 1999 e 2009. Esse segmento está sendo ocupado por profissionais mais velhos e com maior nível de escolaridade. Os mais jovens estão passando para o comércio e para o setor de serviços.
A redução da oferta de mão de obra puxou os salários para cima. A aprovação da Emenda Constitucional das Domésticas, em março deste ano, garantiu 17 novos direitos à categoria que, na outra ponta, implica mais custos trabalhistas. Ramos adverte que o aumento de despesas no orçamento das famílias de classe média deve levar a uma mudança cultural nas relações desse tipo de emprego no Brasil. "Como já acontece na Europa e nos Estados Unidos, ficará mais barato equipar a casa com aparelhos eletrônicos e comprar comida semipronta do que contratar empregados domésticos".
Mesmo antes da aprovação da Emenda das Domésticas, já operavam em São Paulo empresas que oferecem os mais diversos serviços caseiros, como faxina, lavanderia, reparos elétricos e hidráulicos. "É um mercado com forte potencial, porque reduz as responsabilidades com contratação de pessoal", avalia Cláudio Dedecca, professor da Unicamp. Mas ele entende que a terceirização dos serviços domésticos ainda deve ficar restrita aos segmentos de alta e média renda.
Dedecca acrescenta que o processo de mudança nas relações de trabalho domiciliar no Brasil terá longa duração. "O emprego doméstico não vai desaparecer tão rapidamente na estrutura ocupacional brasileira. O mais provável é que cheguemos a 2030 ainda com muitos trabalhadores domésticos".
Estudos mais recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) verificaram que os países da América Latina e do Caribe concentravam 37% do contingente de 52,6 milhões de trabalhadores domésticos em todo o mundo em 2010. O número equivale ao total de pessoas empregadas em países como o México e, se estivesse concentrado em um só país, formaria o décimo maior empregador de todo o mundo.
domingo, outubro 13, 2013
Debater antes de gastar - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 13/10
Finalmente começou a negociação para resolver o impasse orçamentário nos EUA. O confronto atingiu nível perigoso, dada a radicalização sem precedente na política do país. No lado republicano, o avanço da extrema direita trouxe agenda mais conservadora e radical. No democrata, cresceu a força de minorias que querem mais benefícios e oportunidades. É uma tensão histórica, cuja radicalização dificulta o entendimento.
O presidente Barack Obama tinha comparado a situação a um sequestro realizado por delinquentes que exigem resgate para libertar familiares. Disse que o governo não pode aceitar chantagem, para não institucionalizar o procedimento na política.
Os chantagistas, para Obama, seriam deputados republicanos, particularmente os mais radicais. Eles usam a maioria na Câmara para bloquear o aumento da dívida pública, paralisando parcialmente o governo, e forçar negociação com o Executivo, principalmente sobre o novo programa de saúde ("Obamacare").
Já os republicanos acusaram Obama de inflexibilidade insana e de querer impor políticas que, para eles, são irresponsáveis e levariam o país à insolvência.
É importante ressaltar, independentemente da visão política, que, de fato, há um recurso criado pelos fundadores da nação, usado tanto por democratas quanto por republicanos, para dar ao Congresso poder ante o Executivo, forçando em alguns momentos a negociação de temas orçamentários relevantes. Nessa linha, o encontro de Obama com senadores republicanos anteontem pode ser o começo de negociações sérias.
Outro fato encoberto pelo debate radical é que há um teto para a dívida pública só ultrapassável após aprovação do Congresso --mecanismo oriundo da preocupação de todos os setores da sociedade com a saúde das finanças públicas.
Por isso, sempre há um grupo oposicionista lutando pelo controle das despesas do governo e pela austeridade, sejam democratas contra gastos de segurança republicanos, sejam republicanos contra gastos assistenciais democratas. Na gestão de dez anos (1977-87) do famoso presidente da Câmara Tip O'Neill, os democratas usaram 12 vezes o recurso agora usado pelos republicanos.
A conclusão é que há grande valor político na defesa da austeridade. E não só nos EUA, mas em países como Reino Unido, Alemanha e vários outros.
O Brasil pode tirar lição importante disso: é fundamental não só debater o aumento da despesa pública e suas consequências para o país e as próximas gerações, como estabelecer prioridades aos gastos por meio da discussão aberta e transparente, em que a sociedade, ao final, entenda essas questões e as decida pelo voto.
Finalmente começou a negociação para resolver o impasse orçamentário nos EUA. O confronto atingiu nível perigoso, dada a radicalização sem precedente na política do país. No lado republicano, o avanço da extrema direita trouxe agenda mais conservadora e radical. No democrata, cresceu a força de minorias que querem mais benefícios e oportunidades. É uma tensão histórica, cuja radicalização dificulta o entendimento.
O presidente Barack Obama tinha comparado a situação a um sequestro realizado por delinquentes que exigem resgate para libertar familiares. Disse que o governo não pode aceitar chantagem, para não institucionalizar o procedimento na política.
Os chantagistas, para Obama, seriam deputados republicanos, particularmente os mais radicais. Eles usam a maioria na Câmara para bloquear o aumento da dívida pública, paralisando parcialmente o governo, e forçar negociação com o Executivo, principalmente sobre o novo programa de saúde ("Obamacare").
Já os republicanos acusaram Obama de inflexibilidade insana e de querer impor políticas que, para eles, são irresponsáveis e levariam o país à insolvência.
É importante ressaltar, independentemente da visão política, que, de fato, há um recurso criado pelos fundadores da nação, usado tanto por democratas quanto por republicanos, para dar ao Congresso poder ante o Executivo, forçando em alguns momentos a negociação de temas orçamentários relevantes. Nessa linha, o encontro de Obama com senadores republicanos anteontem pode ser o começo de negociações sérias.
Outro fato encoberto pelo debate radical é que há um teto para a dívida pública só ultrapassável após aprovação do Congresso --mecanismo oriundo da preocupação de todos os setores da sociedade com a saúde das finanças públicas.
Por isso, sempre há um grupo oposicionista lutando pelo controle das despesas do governo e pela austeridade, sejam democratas contra gastos de segurança republicanos, sejam republicanos contra gastos assistenciais democratas. Na gestão de dez anos (1977-87) do famoso presidente da Câmara Tip O'Neill, os democratas usaram 12 vezes o recurso agora usado pelos republicanos.
A conclusão é que há grande valor político na defesa da austeridade. E não só nos EUA, mas em países como Reino Unido, Alemanha e vários outros.
O Brasil pode tirar lição importante disso: é fundamental não só debater o aumento da despesa pública e suas consequências para o país e as próximas gerações, como estabelecer prioridades aos gastos por meio da discussão aberta e transparente, em que a sociedade, ao final, entenda essas questões e as decida pelo voto.
Mais convergências do que divergências - SUELY CALDAS
O Estado de S. Paulo - 13/10
Os aliados Marina Silva e Eduardo Campos têm proclamado com repetida insistência que a aliança das duas forças políticas só vai prosperar, consolidar-se e concretizar-se se conseguirem sustentá-la numa questão de princípio: um jeito novo de fazer política. Segundo Marina, seria inverter este processo gasto, velho e nocivo: "Faz-se aliança eleitoral, ganham-se os governos e depois se inventa um programa". Os dois prometem trabalhar em dar substância e conteúdo à aliança, concordar com um programa único, acertar quem será candidato e anunciar para a população o que pretendem fazer do Brasil se seu projeto for vitorioso nas umas.
Diferentemente da aliança política, que vai exigir sabedoria, coerência, tolerância e paciência dos dois lados para reafirmar tal princípio em ambientes impregnados de métodos velhos e viciados, na economia Marina e Eduardo parecem ter mais convergências do que divergências. Justamente por isso, neste primeiro momento, com a eleição à frente e o PT fazendo tudo para minar a aliança, os temas políticos predominam no cenário dos dois. O maior desafio é fazer penetrar esse "jeito novo de fazer política" na mente de eleitores há anos manipulados e explorados por caciques políticos regionais cujo objetivo é alimentar o atraso político e dele fazer trampolim para seus negócios. Como nacionalmente sua visibilidade é maior, as ideias de Marina para a economia são mais conhecidas. Eduardo só começou a sair de Pernambuco quando decidiu se candidatar e passou a circular entre economistas e empresários fora de seu Estado.
Muito antes de pensar em criar a Rede, Marina Silva sedimenta suas ideias sobre economia em conversas com o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, depois entraram José Eli da Veiga, Ricardo Abramovay e, mais recentemente, André Lara Resende, um tucano descompromissado e movido pelo livre pensar. Deles, Giannetti é quem mais tem falado em nome da Rede. Em recente debate ele observou: "O Brasil arrecada 36% do PIB, gasta 39% e investe apenas 2,5%. O dreno de recursos que o Estado intermedeia e transforma em gasto corrente vai ter de mudar se o Brasil quiser construir um futuro".
Traduzindo: o País precisa gastar menos com a máquina e mais com investimentos/eliminar muitos dos 39 ministérios que Lula e Dilma inflaram para abrigar aliados políticos, perseguir o equilíbrio fiscal, reduzir a dívida pública, investir em educação e capital humano, acabar com o toma lá dá cá dos políticos. "Marina não aceita o presidencialismo de coalizão, lotear o governo de porteira fechada para facilitar o apoio do Congresso, que não se confirma efetivamente no dia a dia", avisa Giannetti. É o tal jeito novo de fazer política. Na última semana, Marina elogiou legados de FHC e Lula: "Vamos preservar e defender a estabilidade econômica de FHC e a inclusão social de Lula". Giannetti tem dito: "Nosso projeto econômico de um futuro governo não é reinventar nada, mas voltar ao que estava dando certo". E estende o que deu certo até a gestão de Antonio Palocci na Fazenda (2006).
De formação liberal e foco no social, Giannetti condena o excesso de intervencionismo do governo na economia, acentuado por Dilma. E Marina: "Foi correto estimular o consumo em 2008. Mas quando o País voltou a crescer, em 2009, o governo deveria ter puxado o freio do intervencionismo". Portanto, os brasileiros esperam dela mais regras horizontais para toda a economia do que isenções fiscais pontuais ou favores de crédito do BNDES a empresas escolhidas, como fez Dilma em excesso.
São temas que Marina vai agora aprofundar com o PSB e seu líder. Quando trocou ideias com economistas tucanos da Casa das Garças, 110 Rio, Eduardo Campos concordou com o que Marina tem defendido. E na macroeconomia os dois também concordam com o tripé meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Agrande incógnita, porém, está na defesa do meio ambiente, que deu a Marina respeito e reconhecimento internacional e, no Brasil, a pecha de "radical", que trava o progresso e o desenvolvimento.
Os aliados Marina Silva e Eduardo Campos têm proclamado com repetida insistência que a aliança das duas forças políticas só vai prosperar, consolidar-se e concretizar-se se conseguirem sustentá-la numa questão de princípio: um jeito novo de fazer política. Segundo Marina, seria inverter este processo gasto, velho e nocivo: "Faz-se aliança eleitoral, ganham-se os governos e depois se inventa um programa". Os dois prometem trabalhar em dar substância e conteúdo à aliança, concordar com um programa único, acertar quem será candidato e anunciar para a população o que pretendem fazer do Brasil se seu projeto for vitorioso nas umas.
Diferentemente da aliança política, que vai exigir sabedoria, coerência, tolerância e paciência dos dois lados para reafirmar tal princípio em ambientes impregnados de métodos velhos e viciados, na economia Marina e Eduardo parecem ter mais convergências do que divergências. Justamente por isso, neste primeiro momento, com a eleição à frente e o PT fazendo tudo para minar a aliança, os temas políticos predominam no cenário dos dois. O maior desafio é fazer penetrar esse "jeito novo de fazer política" na mente de eleitores há anos manipulados e explorados por caciques políticos regionais cujo objetivo é alimentar o atraso político e dele fazer trampolim para seus negócios. Como nacionalmente sua visibilidade é maior, as ideias de Marina para a economia são mais conhecidas. Eduardo só começou a sair de Pernambuco quando decidiu se candidatar e passou a circular entre economistas e empresários fora de seu Estado.
Muito antes de pensar em criar a Rede, Marina Silva sedimenta suas ideias sobre economia em conversas com o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, depois entraram José Eli da Veiga, Ricardo Abramovay e, mais recentemente, André Lara Resende, um tucano descompromissado e movido pelo livre pensar. Deles, Giannetti é quem mais tem falado em nome da Rede. Em recente debate ele observou: "O Brasil arrecada 36% do PIB, gasta 39% e investe apenas 2,5%. O dreno de recursos que o Estado intermedeia e transforma em gasto corrente vai ter de mudar se o Brasil quiser construir um futuro".
Traduzindo: o País precisa gastar menos com a máquina e mais com investimentos/eliminar muitos dos 39 ministérios que Lula e Dilma inflaram para abrigar aliados políticos, perseguir o equilíbrio fiscal, reduzir a dívida pública, investir em educação e capital humano, acabar com o toma lá dá cá dos políticos. "Marina não aceita o presidencialismo de coalizão, lotear o governo de porteira fechada para facilitar o apoio do Congresso, que não se confirma efetivamente no dia a dia", avisa Giannetti. É o tal jeito novo de fazer política. Na última semana, Marina elogiou legados de FHC e Lula: "Vamos preservar e defender a estabilidade econômica de FHC e a inclusão social de Lula". Giannetti tem dito: "Nosso projeto econômico de um futuro governo não é reinventar nada, mas voltar ao que estava dando certo". E estende o que deu certo até a gestão de Antonio Palocci na Fazenda (2006).
De formação liberal e foco no social, Giannetti condena o excesso de intervencionismo do governo na economia, acentuado por Dilma. E Marina: "Foi correto estimular o consumo em 2008. Mas quando o País voltou a crescer, em 2009, o governo deveria ter puxado o freio do intervencionismo". Portanto, os brasileiros esperam dela mais regras horizontais para toda a economia do que isenções fiscais pontuais ou favores de crédito do BNDES a empresas escolhidas, como fez Dilma em excesso.
São temas que Marina vai agora aprofundar com o PSB e seu líder. Quando trocou ideias com economistas tucanos da Casa das Garças, 110 Rio, Eduardo Campos concordou com o que Marina tem defendido. E na macroeconomia os dois também concordam com o tripé meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Agrande incógnita, porém, está na defesa do meio ambiente, que deu a Marina respeito e reconhecimento internacional e, no Brasil, a pecha de "radical", que trava o progresso e o desenvolvimento.
Dilma se perde na cidade grande - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 13/10
Marina já empata com a presidente ou a vence entre "ricos", nas cidades maiores e no Sudeste
DILMA ROUSSEFF está com problemas sérios com os brasileiros "mais ricos", que moram no Sudeste, nas capitais ou nas regiões metropolitanas. "Mais ricos", entenda-se, são as famílias que ganham mais de dez salários mínimos, o que não é riqueza, mas é renda de pouca gente.
É o que se depreende da pesquisa Datafolha publicada ontem. Lá se vê também que Marina Silva ora causa problemas sérios para a candidata Dilma Rousseff.
Candidata sem-querer-querendo, Marina já dá de lavada em Dilma Rousseff entre os eleitores de famílias "mais ricas" (aquelas com mais de dez salários de renda). Empata com a presidente entre o eleitorado de famílias com renda de dois a dez salários ("classe C" e "nova classe média", segundo o clichê). Empata ainda nas capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes.
Desde julho, melhorou o humor com a presidente, mas não muito. Por ora, parece que Dilma caiu de categoria: dos 60% de nota "ótimo/bom" em que esteve de 2012 a junho deste ano para algo em torno de 35% no trimestre recente.
O pessimismo com a economia, embora não muito pessimista, é o maior desde 2007, com exceção do começo do ano da recessãozinha de 2009. "Não muito pessimista" quer dizer que ainda 47% dos brasileiros acham que sua situação econômica vai melhorar, ante uma média de 58% entre 2007 e os dias de junho que antecederam os protestos do "despertar do gigante", ora adormecido, mas com sono intranquilo.
Entre os "mais ricos", Dilma despencou do pico de 67% de "ótimo/bom" em março para 30%. No caso dos "mais pobres" (menos de dois salários), o tombo foi menor, mas ainda o foi: de 67% para 44%.
Tudo isso posto, Dilma ainda lidera a pesquisa de votos para presidente no primeiro turno. Tira a diferença, como é fácil deduzir, entre a grande massa mais pobre e moradora das cidades menores do interior. Não é uma situação muito diferente daquela das eleições de Lula 2 e dela própria.
Por ora Dilma vence Marina no segundo turno por pequena margem, 47% a 41%, dando de lavada em Eduardo Campos (PSB), Aécio Neves (PSDB) e José Serra (PSDB). Mas Dilma e Marina estão empatadas no Sudeste, no Sul e no Norte-Centro-Oeste. Dilma tira a diferença, bidu, no Nordeste, terra do pernambucano Eduardo Campos. Marina já bate Dilma nas capitais.
Divertido ou francamente estranho é que Marina Silva ainda padece do devir da personalidade candidatícia, é candidata deixando de ser, ou sabe-se lá qual a linguagem marinista adequada para falar da situação. Como o PSB fará uma pré-campanha para dois candidatos, Marina e Eduardo Campos?
Sim, é cedo, Marina ainda deve passar pelo processo de malhação dos candidatos, mesmo candidatos em potência. Vai apanhar do PT e cia., será escarafunchada pelos jornais, será sabatinada sobre ideias, "competência" e "experiência" etc. Mas Campos também o será.
Decerto todas as marquetices ainda estão por fazer, decerto o público em geral ainda não está ligando muito para eleições. Nem tudo é vaguidade e vaidade, porém. O atual desgaste de Dilma não parece aleatório: tem problemas sistemáticos de prestígio em cidades maiores, com gente com mais renda, lá onde perde ou empata com Marina.
Marina já empata com a presidente ou a vence entre "ricos", nas cidades maiores e no Sudeste
DILMA ROUSSEFF está com problemas sérios com os brasileiros "mais ricos", que moram no Sudeste, nas capitais ou nas regiões metropolitanas. "Mais ricos", entenda-se, são as famílias que ganham mais de dez salários mínimos, o que não é riqueza, mas é renda de pouca gente.
É o que se depreende da pesquisa Datafolha publicada ontem. Lá se vê também que Marina Silva ora causa problemas sérios para a candidata Dilma Rousseff.
Candidata sem-querer-querendo, Marina já dá de lavada em Dilma Rousseff entre os eleitores de famílias "mais ricas" (aquelas com mais de dez salários de renda). Empata com a presidente entre o eleitorado de famílias com renda de dois a dez salários ("classe C" e "nova classe média", segundo o clichê). Empata ainda nas capitais e cidades com mais de 200 mil habitantes.
Desde julho, melhorou o humor com a presidente, mas não muito. Por ora, parece que Dilma caiu de categoria: dos 60% de nota "ótimo/bom" em que esteve de 2012 a junho deste ano para algo em torno de 35% no trimestre recente.
O pessimismo com a economia, embora não muito pessimista, é o maior desde 2007, com exceção do começo do ano da recessãozinha de 2009. "Não muito pessimista" quer dizer que ainda 47% dos brasileiros acham que sua situação econômica vai melhorar, ante uma média de 58% entre 2007 e os dias de junho que antecederam os protestos do "despertar do gigante", ora adormecido, mas com sono intranquilo.
Entre os "mais ricos", Dilma despencou do pico de 67% de "ótimo/bom" em março para 30%. No caso dos "mais pobres" (menos de dois salários), o tombo foi menor, mas ainda o foi: de 67% para 44%.
Tudo isso posto, Dilma ainda lidera a pesquisa de votos para presidente no primeiro turno. Tira a diferença, como é fácil deduzir, entre a grande massa mais pobre e moradora das cidades menores do interior. Não é uma situação muito diferente daquela das eleições de Lula 2 e dela própria.
Por ora Dilma vence Marina no segundo turno por pequena margem, 47% a 41%, dando de lavada em Eduardo Campos (PSB), Aécio Neves (PSDB) e José Serra (PSDB). Mas Dilma e Marina estão empatadas no Sudeste, no Sul e no Norte-Centro-Oeste. Dilma tira a diferença, bidu, no Nordeste, terra do pernambucano Eduardo Campos. Marina já bate Dilma nas capitais.
Divertido ou francamente estranho é que Marina Silva ainda padece do devir da personalidade candidatícia, é candidata deixando de ser, ou sabe-se lá qual a linguagem marinista adequada para falar da situação. Como o PSB fará uma pré-campanha para dois candidatos, Marina e Eduardo Campos?
Sim, é cedo, Marina ainda deve passar pelo processo de malhação dos candidatos, mesmo candidatos em potência. Vai apanhar do PT e cia., será escarafunchada pelos jornais, será sabatinada sobre ideias, "competência" e "experiência" etc. Mas Campos também o será.
Decerto todas as marquetices ainda estão por fazer, decerto o público em geral ainda não está ligando muito para eleições. Nem tudo é vaguidade e vaidade, porém. O atual desgaste de Dilma não parece aleatório: tem problemas sistemáticos de prestígio em cidades maiores, com gente com mais renda, lá onde perde ou empata com Marina.
Salvaram-se todos - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 13/10
Os três pré-candidatos se consideram vitoriosos nessa atual fase do processo, até quem estava fora
Passada uma semana do movimento de Marina Silva em direção ao presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, as amostras do eleitorado servem para deixar todos os pré-candidatos felizes. O que é raro, em se tratando em pesquisas de intenção de voto. Sempre tem aquele que fica meio borocoxô quando se dá conta de que a situação lhe é desfavorável, ainda que estejamos a um ano da eleição. Desta vez, entretanto, foi diferente.
Das consultas feitas por telefone pelos partidos ao Datafolha divulgado ontem, as pesquisas indicam que todos ganharam, até quem era tido como carta fora do baralho. Todos consideram que tem o que comemorar no cenário do momento, com a presidente Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves e o governador Eduardo Campos no papel de concorrentes em 2014. A presidente-candidata ultrapassa a barreira dos 40%, o que os petistas consideram uma excelente performance, capaz de animar militantes e arrebanhar mais votos para lhes dar com segurança uma vitória no primeiro turno.
Os oposicionistas também não se consideram derrotados e veem o cenário como um grid de largada. Aécio rompe a marca dos 20% (tem 21%, oito pontos a mais), o que foi considerado positivo pelos tucanos. Eduardo passou aos dois dígitos, está com 15%, sete a mais, o que foi comemorado pelos socialistas.
O que vale de pesquisa nessa atual fase da corrida eleitoral é o potencial de mexer com a política. E dada as intenções de voto em favor de Marina Silva e de José Serra, tanto Eduardo quanto Aécio ainda viverão um período de pressões para que deixem de ser candidatos e apoiem aqueles que apresentam hoje uma performance melhor e, desde já, asseguram um segundo turno contra Dilma.
A mudança de candidato, no entanto, é improvável. Ainda mais nesse momento, em que os dois vivem momentos parecidos em relação ao eleitorado. Aécio hoje tem o controle do PSDB assim como Eduardo tem o leme do PSB. Ambos têm maioria nos respectivos diretórios para assegurar a candidatura. Ou seja, só deixam de ser candidatos se quiserem.
Para completar, tanto Eduardo quanto Aécio aparecem em terceiro contra Dilma, nos cenários em que um dos dois deixa de ser candidato e ambos são bem menos conhecidos do que os seus respectivos concorrentes internos, Marina e Serra. Os políticos ainda têm em conta que o único período de igualdade de condições para um candidato se tornar mais conhecido é a campanha em si. E nesse caso, dificilmente os candidatos e seus apoiadores estarão dispostos a perder essa oportunidade. Ainda mais agora, nessa conjuntura em que todos têm esperanças em relação ao futuro.
O PSB, por exemplo, se mostrava exultante ontem ao falar sobre o potencial de seu candidato. Seus integrantes dizem que, se no intervalo de uma semana Eduardo chegou aos dois dígitos e mais de 40% dos eleitores não sabem quem ele é, o maior trabalho dele agora é se tornar conhecido e assim ultrapassar Aécio.
Da parte do PSDB, Aécio é mais conhecido que Eduardo Campos e menos do que Serra. Ainda tem potencial para crescer, mas seus aliados passam a ter uma preocupação em não deixar Eduardo avançar tanto ao ponto de ultrapassar o tucano. Daí, a ideia de setores do PSDB de trabalhar a partir de agora no sentido de “vender” Eduardo como um subproduto do PT. Ocorre que essa posição é perigosa porque, se vingar, traz o risco de reaproximar PT e PSB. Parte do PSDB considera que Aécio não tem muita saída, a não ser jogar atirando Eduardo num lugar mais próximo aos petistas agora, mas não tão perto que permita a Lula resgatar o antigo aliado. Haja talento para empreender essa tarefa. Aliás, chegamos a fase em que todos terão que demonstrar talento político. E isso, os personagens da atual cena parecem ter de sobra. Até Dilma, que muitos consideram avessa a esse meio, tem algum talento e, onde falta, aparece Lula para compensar.
Enquanto isso, no QG petista…
A pesquisa Datafolha deixou ainda no PT a sensação de que os aliados, embora importantes, não têm tanto poder de influenciar o eleitor na hora de definir o voto em favor de um candidato a presidente. Afinal, a única eleitora forte que estava contra Dilma era Marina. E se os votos dela se distribuíram, é sinal de que, na hora de votar para presidente, ninguém manda no eleitor.
Essa avaliação, na opinião de muitos, pode ser um perigo, se acabar se disseminando no partido. Algo que tenha um efeito tão ruim quanto aquela entrevista em que o marqueteiro João Santana previu a vitória de Dilma no primeiro turno e chamou os protagonistas da oposição de anões.
Quem é do ramo da política costuma repetir todos os dias que não se ganha eleição de véspera. Por isso, todo o cuidado é pouco. Se o PT não tiver sabedoria e humildade para organizar os palanques estaduais e um dos atuais adversários se mostrar mais viável quando for mais conhecido, é bem capaz de os petistas terminarem surpreendidos, apesar de, no momento, todos ganharem. Mas a eleição esta tão longe que todo o cuidado é pouco. Um passo em falso e todo esse cenário de hoje pode se alterar. Não dá para esquecer que foram as impressões de Marina e de Eduardo sobre os movimentos do PT que acabaram aproximando os dois. Se essas impressões chegarem ao eleitor, talvez o futuro seja diferente. Afinal, não dá para deixar de ter em mente que, até aqui, salvaram-se todos e não tem nanico nessa disputa.
Os três pré-candidatos se consideram vitoriosos nessa atual fase do processo, até quem estava fora
Passada uma semana do movimento de Marina Silva em direção ao presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, as amostras do eleitorado servem para deixar todos os pré-candidatos felizes. O que é raro, em se tratando em pesquisas de intenção de voto. Sempre tem aquele que fica meio borocoxô quando se dá conta de que a situação lhe é desfavorável, ainda que estejamos a um ano da eleição. Desta vez, entretanto, foi diferente.
Das consultas feitas por telefone pelos partidos ao Datafolha divulgado ontem, as pesquisas indicam que todos ganharam, até quem era tido como carta fora do baralho. Todos consideram que tem o que comemorar no cenário do momento, com a presidente Dilma Rousseff, o senador Aécio Neves e o governador Eduardo Campos no papel de concorrentes em 2014. A presidente-candidata ultrapassa a barreira dos 40%, o que os petistas consideram uma excelente performance, capaz de animar militantes e arrebanhar mais votos para lhes dar com segurança uma vitória no primeiro turno.
Os oposicionistas também não se consideram derrotados e veem o cenário como um grid de largada. Aécio rompe a marca dos 20% (tem 21%, oito pontos a mais), o que foi considerado positivo pelos tucanos. Eduardo passou aos dois dígitos, está com 15%, sete a mais, o que foi comemorado pelos socialistas.
O que vale de pesquisa nessa atual fase da corrida eleitoral é o potencial de mexer com a política. E dada as intenções de voto em favor de Marina Silva e de José Serra, tanto Eduardo quanto Aécio ainda viverão um período de pressões para que deixem de ser candidatos e apoiem aqueles que apresentam hoje uma performance melhor e, desde já, asseguram um segundo turno contra Dilma.
A mudança de candidato, no entanto, é improvável. Ainda mais nesse momento, em que os dois vivem momentos parecidos em relação ao eleitorado. Aécio hoje tem o controle do PSDB assim como Eduardo tem o leme do PSB. Ambos têm maioria nos respectivos diretórios para assegurar a candidatura. Ou seja, só deixam de ser candidatos se quiserem.
Para completar, tanto Eduardo quanto Aécio aparecem em terceiro contra Dilma, nos cenários em que um dos dois deixa de ser candidato e ambos são bem menos conhecidos do que os seus respectivos concorrentes internos, Marina e Serra. Os políticos ainda têm em conta que o único período de igualdade de condições para um candidato se tornar mais conhecido é a campanha em si. E nesse caso, dificilmente os candidatos e seus apoiadores estarão dispostos a perder essa oportunidade. Ainda mais agora, nessa conjuntura em que todos têm esperanças em relação ao futuro.
O PSB, por exemplo, se mostrava exultante ontem ao falar sobre o potencial de seu candidato. Seus integrantes dizem que, se no intervalo de uma semana Eduardo chegou aos dois dígitos e mais de 40% dos eleitores não sabem quem ele é, o maior trabalho dele agora é se tornar conhecido e assim ultrapassar Aécio.
Da parte do PSDB, Aécio é mais conhecido que Eduardo Campos e menos do que Serra. Ainda tem potencial para crescer, mas seus aliados passam a ter uma preocupação em não deixar Eduardo avançar tanto ao ponto de ultrapassar o tucano. Daí, a ideia de setores do PSDB de trabalhar a partir de agora no sentido de “vender” Eduardo como um subproduto do PT. Ocorre que essa posição é perigosa porque, se vingar, traz o risco de reaproximar PT e PSB. Parte do PSDB considera que Aécio não tem muita saída, a não ser jogar atirando Eduardo num lugar mais próximo aos petistas agora, mas não tão perto que permita a Lula resgatar o antigo aliado. Haja talento para empreender essa tarefa. Aliás, chegamos a fase em que todos terão que demonstrar talento político. E isso, os personagens da atual cena parecem ter de sobra. Até Dilma, que muitos consideram avessa a esse meio, tem algum talento e, onde falta, aparece Lula para compensar.
Enquanto isso, no QG petista…
A pesquisa Datafolha deixou ainda no PT a sensação de que os aliados, embora importantes, não têm tanto poder de influenciar o eleitor na hora de definir o voto em favor de um candidato a presidente. Afinal, a única eleitora forte que estava contra Dilma era Marina. E se os votos dela se distribuíram, é sinal de que, na hora de votar para presidente, ninguém manda no eleitor.
Essa avaliação, na opinião de muitos, pode ser um perigo, se acabar se disseminando no partido. Algo que tenha um efeito tão ruim quanto aquela entrevista em que o marqueteiro João Santana previu a vitória de Dilma no primeiro turno e chamou os protagonistas da oposição de anões.
Quem é do ramo da política costuma repetir todos os dias que não se ganha eleição de véspera. Por isso, todo o cuidado é pouco. Se o PT não tiver sabedoria e humildade para organizar os palanques estaduais e um dos atuais adversários se mostrar mais viável quando for mais conhecido, é bem capaz de os petistas terminarem surpreendidos, apesar de, no momento, todos ganharem. Mas a eleição esta tão longe que todo o cuidado é pouco. Um passo em falso e todo esse cenário de hoje pode se alterar. Não dá para esquecer que foram as impressões de Marina e de Eduardo sobre os movimentos do PT que acabaram aproximando os dois. Se essas impressões chegarem ao eleitor, talvez o futuro seja diferente. Afinal, não dá para deixar de ter em mente que, até aqui, salvaram-se todos e não tem nanico nessa disputa.
O xerife da Receita preferiu ir embora - ELIO GASPARI
O GLOBO - 13/10
Não há lembrança de um subsecretário de Fiscalização da Receita Federal, o segundo homem da instituição, que tenha pedido o chapéu informando aos colegas que "há algum tempo estava incomodado com a influência externa em algumas decisões" envolvendo "posições menos técnicas e divorciadas do melhor interesse". Caio Cândido estava no cargo desde 2011. Atribuir a decisão a um "natural desgaste", como fez o secretário da Receita, doutor Carlos Alberto Barreto, é tática bolchevique. Vale o que está escrito na carta do servidor.
O subsecretário Caio Cândido pediu demissão porque incomodou-se com a "influência externa". Não foi específico, mas foi claro. Em 2009 a secretária Lina Vieira foi demitida pelo ministro Guido Mantega num episódio que passava pelo Palácio do Planalto. A Receita fizera autuações bilionárias contra a Ford e o Banco Santander. A secretária foi substituída por administrações que, para o bem ou para o mal, tentam controlar a máquina da fiscalização, sem grande sucesso. (O caso do Santander morreu no Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda.)
O comissariado petista e o ministro Guido Mantega conseguiram ter uma secretária e um subsecretário de Fiscalização denunciando aquilo que, no mínimo, são pressões "divorciadas do melhor interesse" da Viúva.
PISTA LIVRE
Saiu do STF uma mensagem críptica aos mensaleiros petistas que temem ir para o Tremembé.
Decifrada, resultou no seguinte: Fiquem quietos, tudo acabará bem para vocês.
PORTA GIRATÓRIA
Em 2011 a Fiocruz entregou a diretoria-executiva do seu plano de saúde a José Antonio Diniz. O FioSaúde atende os 5.000 funcionários e familiares da veneranda instituição médica e, desde sua fundação, era dirigido por servidores da Casa. Diniz vinha da Axismed, do ramo privado de gestão de planos. Em janeiro deste ano ele rescindiu o contrato com a empresa que geria o plano da FioSaúde. Tudo bem.
Noticiado aqui que a Axismed ficaria com a gestão do plano da FioSaúde, o doutor Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz, prontamente desmentiu a informação. O que havia era apenas uma proposta específica da empresa onde trabalhara o novo diretor-executivo. Numa apresentação intitulada "Plano de Trabalho 2013", apresentada à FioSaúde, a Axismed usara um texto onde se lia: "Nós até podemos escolher o que semear, mas necessariamente vamos colher o que plantamos".
Começaram a colher. A súmula da reunião de 21 de agosto da diretoria da Caixa de Assistência Oswaldo Cruz informa que decidiu colocar "em andamento" a seguinte decisão do seu conselho deliberativo:
"Deverá ser contratado inicialmente o serviço de Acompanhamento de Pacientes Internados e Orientação Médica por Telefone (AxisLine) para os 2.200 beneficiados elegíveis." A AxisLine é um serviço da Axismed.
AVISO AMIGO
O editorial do "New York Times" louvando os avanços sociais brasileiros e pedindo mais pulso nas obras de infraestrutura e na educação é um sinal de alerta para o comissariado. Ao contrário da "Economist" e do "Wall Street Journal", o "Times" reflete um pensamento liberal.
Dois editoriais do jornal relacionados com um momento importante da vida brasileira tiveram macumbas.
No dia 28 de março de 1964, um grupo de mandarins reuniu-se na Casa Branca para discutir o futuro do governo de João Goulart. (O embaixador Lincoln Gordon pedia um desembarque clandestino de armas no litoral paulista.) Um dos participantes sugeriu que se cabalassem dois editoriais "apropriados", um no "Times" e outro no "Washington Post".
No dia 31 de março, o "Times" circulou com um editorial dizendo que a situação estava "próxima do caos". Estava. No dia 3 de abril, depois da deposição de Goulart, outro editorial chamou-o de "incompetente" e "irresponsável". Era. Seu autor provavelmente foi o o editorialista Herbert Mathews, eterno quindim da esquerda pela ajuda que deu a Fidel Castro em 1957, quando ele estava na Sierra Maestra e era dado por morto pelo governo cubano.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acredita em tudo que o governo diz. Soube que o prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, passou a andar de ônibus e que o governador Geraldo Alckmin anunciou que usará trens e o metrô.
O idiota acha que eles devem andar de Rolls-Royce, desde que os transportes públicos funcionem.
UM GRANDE RETRATO DO PAPA FRANCISCO
Quantos pares de sapatos o cardeal Jorge Bergoglio levou para Roma em março? Um, preto e velho, o único que tinha. Para quem quiser entender o que vem por aí, saiu um livraço nos Estados Unidos --é "Pope Francis - Untying the knots" ("Papa Francisco - Desatando os nós"), do jornalista inglês Paul Valelly. Está na rede por US$ 9,99.
Ele conta que, no conclave de 2005, Bergoglio chegou à terceira votação com 40 votos, mas o cardeal Ratzinger teve 72. Faltariam cinco para que atingisse os dois terços, e seus aliados avisaram que iriam até o 34º escrutínio, no qual bastaria a maioria absoluta, que já tinham. A demora exporia uma igreja dividida, e Bergoglio desistiu. Como arcebispo de Buenos Aires, a Cúria deu-lhe para comer o pão de Asmodeu. Rejeitavam suas indicações para bispados.
O livro explica como um personagem tradicionalista na doutrina e reformador em questões da Igreja, tendo sido um algoz da esquerda católica dos anos 70, tornou-se um mensageiro dos pobres. Bergoglio apoiou a ditadura argentina que matou dez mil pessoas, inclusive um bispo. Ajudou-a ao ponto do arrependimento. Exagerando, fez um percurso semelhante ao de d. Hélder Câmara, fascista nos anos 30, herói de letra de samba a partir dos 50.
O simpaticão da avenida Atlântica é um homem reservado, de poucos amigos, meditador solitário. Cozinhava suas refeições, mas comia sozinho. Quando tem de resolver uma questão, começa perguntando-se o que não deve fazer. Quando decide, medita de novo.
O mérito do livro de Vallely está na busca da alma de Francisco. Ele vai do par de sapatos para explicações muito mais complexas e documentadas. É uma biografia simpática, talvez passasse pelo crivo de Roberto Carlos.
No conclave de março, d. Odilo Scherer, o cardeal de São Paulo apresentado como um nome do Terceiro Mundo, era na realidade uma aposta da Cúria. Foi pouco votado no primeiro escrutínio, no qual Bergoglio teve 20 votos, e o favorito da imprensa italiana, o cardeal Scola, arcebispo de Milão, teve 35.
Na segunda votação os aliados de Scherer foram para Bergoglio. Scola entalou e, no quarto escrutínio, o argentino ultrapassou-o. No quinto foi eleito.
Em La Plata, o bispo Héctor Aguer, seu adversário na Argentina, proibiu o tradicional dobre de sinos.
Jogo jogado - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 13/10
O discurso de que um ou outro pode ser o titular da chapa presidencial será mantido por Eduardo Campos e Marina Silva até dezembro, mas a ordem dos fatores está definida: o governador será o candidato a presidente e a ex-senadora fica na vice.
Foi nesses termos que ela o procurou na véspera do anúncio da aliança e é assim que concorrerão. Não que estejam mentindo quando dizem que a definição virá em 2014. Estão dando tempo ao tempo, esperando a virada do ano para, em janeiro, explicitar em público o combinado em particular.
Até lá, investem na preparação do tão falado "conteúdo programático" - a ser divulgado aos poucos também a partir de janeiro - e farão uma dobradinha em diversos atos políticos com a seguinte simbologia: Marina entra com o sonho e Campos entra com o trabalho braçal de viabilizar material e politicamente a empreitada.
Antes de prosseguir, uma informação importante: esqueçam que um dia Eduardo Campos disse que não seria candidato se o ex-presidente Lula da Silva entrasse na disputa. A declaração perdeu a validade, por dois motivos: primeiro, o jogo é considerado por ele jogado e, segundo, não acredita nem por um segundo que Lula será candidato no lugar de Dilma Rousseff.
A sorte, portanto, está lançada. E se dependesse de Marina e dos companheiros de Rede favoráveis à aliança, a composição teria sido assumida desde o início. Ela não nutre ilusões quanto às resistências que enfrentaria junto ao "establishment". Como a disposição dela é ganhar - se fosse só para marcar posição teria ficado de fora ou ido para o PPS -, neste aspecto foi pragmática.
Sendo assim, por que adiar a oficialização da chapa, por que o suspense, por que deixar em aberto algo que já está fechado? Por razões táticas e estratégicas. Na conversa que tiveram em Brasília, o governador ponderou e a ex-senadora concordou que não seria bom entregar o jogo aos adversários logo na partida. "Quanto mais dúvidas tiverem, mais difícil fica a reação", disse ele.
Além disso, Marina Silva precisaria de tempo para "trabalhar" seus correligionários contrários à aliança e convencer seu eleitorado sobre o acerto da decisão. A indefinição oficial permite ainda que os dois deem prioridade à discussão programática que, do contrário, ficaria em segundo plano em relação às candidaturas.
Pesou outro fator: se não assumir desde já a vice, a ex-senadora, como diz um aliado de Campos, permanece "viva no processo" e ajuda o governador a se tornar conhecido devido à geração de notícias decorrentes da aliança. Efeito que o PSB já espera ver nas próximas pesquisas por causa da exposição do governador nos meios de comunicação.
Por fim, a preservação do segredo - ainda que de polichinelo - mantém em alta o interesse dos políticos e da imprensa sobre o que vai acontecer. "Se dizemos logo o que e como vai acontecer, a novidade envelhece", disse a Marina a voz da experiência de Eduardo Campos, cujo quinto filho nasce em fevereiro batizado Miguel, como o bisavô Arraes.
Relativo. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, diz que no Brasil "ninguém vota no vice". Tenta reduzir a importância da aliança Campos-Marina; é do jogo. Embora diga uma verdade, não rende homenagem a um movimento de seu partido, o PT.
Quando Lula da Silva se aliou a José Alencar, em 2002, não buscava eleitores na pessoa do empresário-senador. Queria vencer resistências e mandar um recado tranquilizador ao time "de cima".
Plenária. José Serra é enigmático quanto à aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva.
Perguntado a respeito em seguida ao anúncio, respondeu: "A assembleia, sem dúvida, vai continuar em sessão".
O discurso de que um ou outro pode ser o titular da chapa presidencial será mantido por Eduardo Campos e Marina Silva até dezembro, mas a ordem dos fatores está definida: o governador será o candidato a presidente e a ex-senadora fica na vice.
Foi nesses termos que ela o procurou na véspera do anúncio da aliança e é assim que concorrerão. Não que estejam mentindo quando dizem que a definição virá em 2014. Estão dando tempo ao tempo, esperando a virada do ano para, em janeiro, explicitar em público o combinado em particular.
Até lá, investem na preparação do tão falado "conteúdo programático" - a ser divulgado aos poucos também a partir de janeiro - e farão uma dobradinha em diversos atos políticos com a seguinte simbologia: Marina entra com o sonho e Campos entra com o trabalho braçal de viabilizar material e politicamente a empreitada.
Antes de prosseguir, uma informação importante: esqueçam que um dia Eduardo Campos disse que não seria candidato se o ex-presidente Lula da Silva entrasse na disputa. A declaração perdeu a validade, por dois motivos: primeiro, o jogo é considerado por ele jogado e, segundo, não acredita nem por um segundo que Lula será candidato no lugar de Dilma Rousseff.
A sorte, portanto, está lançada. E se dependesse de Marina e dos companheiros de Rede favoráveis à aliança, a composição teria sido assumida desde o início. Ela não nutre ilusões quanto às resistências que enfrentaria junto ao "establishment". Como a disposição dela é ganhar - se fosse só para marcar posição teria ficado de fora ou ido para o PPS -, neste aspecto foi pragmática.
Sendo assim, por que adiar a oficialização da chapa, por que o suspense, por que deixar em aberto algo que já está fechado? Por razões táticas e estratégicas. Na conversa que tiveram em Brasília, o governador ponderou e a ex-senadora concordou que não seria bom entregar o jogo aos adversários logo na partida. "Quanto mais dúvidas tiverem, mais difícil fica a reação", disse ele.
Além disso, Marina Silva precisaria de tempo para "trabalhar" seus correligionários contrários à aliança e convencer seu eleitorado sobre o acerto da decisão. A indefinição oficial permite ainda que os dois deem prioridade à discussão programática que, do contrário, ficaria em segundo plano em relação às candidaturas.
Pesou outro fator: se não assumir desde já a vice, a ex-senadora, como diz um aliado de Campos, permanece "viva no processo" e ajuda o governador a se tornar conhecido devido à geração de notícias decorrentes da aliança. Efeito que o PSB já espera ver nas próximas pesquisas por causa da exposição do governador nos meios de comunicação.
Por fim, a preservação do segredo - ainda que de polichinelo - mantém em alta o interesse dos políticos e da imprensa sobre o que vai acontecer. "Se dizemos logo o que e como vai acontecer, a novidade envelhece", disse a Marina a voz da experiência de Eduardo Campos, cujo quinto filho nasce em fevereiro batizado Miguel, como o bisavô Arraes.
Relativo. O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, diz que no Brasil "ninguém vota no vice". Tenta reduzir a importância da aliança Campos-Marina; é do jogo. Embora diga uma verdade, não rende homenagem a um movimento de seu partido, o PT.
Quando Lula da Silva se aliou a José Alencar, em 2002, não buscava eleitores na pessoa do empresário-senador. Queria vencer resistências e mandar um recado tranquilizador ao time "de cima".
Plenária. José Serra é enigmático quanto à aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva.
Perguntado a respeito em seguida ao anúncio, respondeu: "A assembleia, sem dúvida, vai continuar em sessão".
Tem jogo - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 13/10
BRASÍLIA - A boa notícia para Dilma é óbvia e, portanto, era esperada: com uma candidatura a menos, justamente a da segunda colocada, a presidente seria reeleita em primeiro turno, caso a eleição fosse hoje.
Mas falta ainda um ano e a má notícia para Dilma e o PT é a resposta que o Datafolha captou para a pergunta que não quer calar desde a ida de Marina Silva para o PSB: ela leva ou não seus votos para Eduardo Campos?
Num primeiro olhar, o espólio de Marina é diluído quase que igualmente por Dilma, Campos e Aécio. Num olhar mais atento, entretanto, vê-se que ela transfere votos, sim, para o novo parceiro Campos.
Em eventual segundo turno, Dilma e Michel Temer teriam 46% contra 37% da chapa Campos-Marina. Não é uma situação confortável a um ano da eleição, até porque a dupla do governo é amplamente conhecida, enquanto 43% dos eleitores simplesmente não sabem quem é Campos. Logo, ele tem bom potencial de crescimento, agora empurrado por Marina.
Os novos aliados, porém, terão um aquecimento atribulado até o início oficial do jogo. No confronto nome a nome, Marina ainda é a principal opção oposicionista, enquanto Campos continua na lanterninha.
Campos precisa ter nervos de aço para suportar a pressão e a expressiva vantagem competitiva de Marina. E Marina precisa controlar, ou adiar, sua determinação em ser presidente da República.
Quanto a Aécio, discreto estava, discreto continua nas pesquisas. Com o agravante de que Dilma tem Lula, a caneta, a exposição e os palanques --até com taxistas de Brasília. E Campos tem Marina e atrai os holofotes como novidade e grande incógnita que é. E Aécio, a que veio? Só para conversar?
O mérito da pesquisa divulgada ontem, portanto, é confirmar que tem jogo. A eleição não está decidida. É difícil competir com o arsenal da gigante Dilma, mas os "anões" da oposição têm lá suas armas.
BRASÍLIA - A boa notícia para Dilma é óbvia e, portanto, era esperada: com uma candidatura a menos, justamente a da segunda colocada, a presidente seria reeleita em primeiro turno, caso a eleição fosse hoje.
Mas falta ainda um ano e a má notícia para Dilma e o PT é a resposta que o Datafolha captou para a pergunta que não quer calar desde a ida de Marina Silva para o PSB: ela leva ou não seus votos para Eduardo Campos?
Num primeiro olhar, o espólio de Marina é diluído quase que igualmente por Dilma, Campos e Aécio. Num olhar mais atento, entretanto, vê-se que ela transfere votos, sim, para o novo parceiro Campos.
Em eventual segundo turno, Dilma e Michel Temer teriam 46% contra 37% da chapa Campos-Marina. Não é uma situação confortável a um ano da eleição, até porque a dupla do governo é amplamente conhecida, enquanto 43% dos eleitores simplesmente não sabem quem é Campos. Logo, ele tem bom potencial de crescimento, agora empurrado por Marina.
Os novos aliados, porém, terão um aquecimento atribulado até o início oficial do jogo. No confronto nome a nome, Marina ainda é a principal opção oposicionista, enquanto Campos continua na lanterninha.
Campos precisa ter nervos de aço para suportar a pressão e a expressiva vantagem competitiva de Marina. E Marina precisa controlar, ou adiar, sua determinação em ser presidente da República.
Quanto a Aécio, discreto estava, discreto continua nas pesquisas. Com o agravante de que Dilma tem Lula, a caneta, a exposição e os palanques --até com taxistas de Brasília. E Campos tem Marina e atrai os holofotes como novidade e grande incógnita que é. E Aécio, a que veio? Só para conversar?
O mérito da pesquisa divulgada ontem, portanto, é confirmar que tem jogo. A eleição não está decidida. É difícil competir com o arsenal da gigante Dilma, mas os "anões" da oposição têm lá suas armas.
A bomba e o traque - GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 13/10
Anote-se na agenda das mutações tupiniquins: a bomba da primavera de 2013 pode ser o traque do verão de 2014. A hipótese é bastante sustentável na esfera da política. Quem diria que a sonhática Maria Osmarina Silva de Lima, ex-seringueira e ex-senadora do Acre, se uniria em aliança política com o pragmático e garboso governador de Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos, comandante do PSB, para juntos lutarem pela cadeira presidencial?
O sonho de Marina Silva é depurar as práticas da velha política, banhando-as nas águas da ética, ou, em seus termos, "assumir responsabilidades com a sustentabilidade política, social, ambiental e cultural". O pragmatismo de Campos tem como ideia "aposentar um bocado de raposas que estão enchendo a paciência do povo brasileiro para o Brasil seguir em frente". A propósito, o governador, tempos atrás, já confessara a este escriba a meta de reunir no mesmo espaço "o grupo pós-64" (citando Aécio Neves, Gilberto Kassab, Ciro e Cid Gomes, entre outros), assumir o comando da Nação e dar adeus aos guerreiros da velha-guarda.
A fome moral da líder da Rede Sustentabilidade e a vontade do neto de Miguel Arraes de presidir a mesa dos comensais do poder produziram o artefato de maior repercussão neste ciclo pré-eleitoral. Como é costume no balcão de nossos produtos políticos, as dobraduras da engrenagem deixam de ser examinadas de forma a mostrar se estão ajustadas ou até se faltam parafusos para dar lugar ao "feito extraordinário" que, à primeira leitura, induz à convicção de que tal parceria abre um rombo nos costados da candidatura governista. Nem se atenta para o fato de que o elo entre Marina e Campos, à luz da racionalidade, não é tão resistente como aparenta. Basta lembrar a posição da bancada do PSB na votação do Código Florestal, alinhada em peso aos ruralistas. Nem o látex da seringueira que Marina extraía em sua adolescência é capaz de emprestar firmeza a essa liga. Que só se justifica em função das composições frankensteinianas que a política nestes trópicos é capaz de produzir.
Façamos uma leitura dos fatores - alguns de fundo sociocultural - que embasam as práticas eleitorais, a começar pela cultura de votação. O candidato prevalece sobre os partidos. Há casos em que as organizações predominam e avançam sobre os perfis pessoais. Isso ocorre nos espaços onde a polarização entre elas é muito aguda - PT e PSDB, por exemplo, em algumas regiões formam batalhões em seus campos de guerra. Ou com as siglas de caráter religioso (principalmente as patrocinadas por credos e igrejas) e as que ocupam as extremidades do arco ideológico, cujo discurso radical é seletivo, afastando as massas eleitorais (PCO, PSTU, etc.). Sob a ordem de um sistema cognitivo que tende a privilegiar perfis pessoais, transferir votos constitui operação dificilmente viável. Assim, a hipótese de Marina transferir seu patrimônio eleitoral para Campos é frágil. Nem se fossem irmãos siameses a transferência seria realizada. O individualismo é o vértice da política brasileira. Ideários formam apenas pequenas ilhas no arquipélago.
Mas as figuras diferentes de Marina e Campos não contêm uma raiz ideológica comum? É possível. A convivência por bom tempo no mesmo canto do espectro ideológico condiciona amigos de ontem e parceiros de hoje a usarem a mesma linguagem e, por conseguinte, a comporem discurso sintonizado. O parentesco doutrinário favorece a formação de um ideário comum e, nessa condição, os noivos se motivam a formar uma união estável com direito a lua de mel de algumas semanas. Ainda assim, a transferência de voto não se dá em grandes quantidades: pode-se calcular margem de 10% a 15%.
Ademais, por maior esforço que façam os nubentes, a união estará sujeita a trovoadas. E já se ouvem trovões. Marina pediu que Ronaldo Caiado, líder do DEM, conhecido guerreiro ruralista, buscasse a porta de saída do PSB. O deputado aceitou. Alfredo Sirkis, fundador da Rede e um dos principais aliados de Marina, defende "realinhamento" de forças com políticos de outros conjuntos. Marina é contra. Imagine-se, agora, um cabo de guerra puxado pela sonhática e pelo pragmático.
Se a passagem de votos de Marina para Campos não encher o bornal dele, quem acabará levando a melhor com a "jogada de mestre"? A própria Marina, em caso de inversão da chapa, ela encabeçando-a. Ou Dilma. A proximidade entre eles foi firmada no ciclo petista. O governador e a ex-senadora saíram dos espaços que o PT abriu, à esquerda. A Rede e o PSB tentam desfraldar, mesmo de maneira acanhada, a bandeira do socialismo. Logo, o parentesco com a presidente é patente.
Outras pedras do tabuleiro deverão ser jogadas quando os discursos começarem a jorrar das trombetas eleitorais. Os eixos centrais já foram apresentados. Campos tem intensificado a pregação com os verbetes "melhorar, fazer mais e melhor, qualificar serviços públicos". Não é oposicionista como Aécio, que defende um programa radical de "mudanças". As pesquisas mostram a contrariedade da população com os serviços públicos (o que combina com o discurso de Campos), mas não está insatisfeita com seu modo de vida. O bolso do consumidor continua bancando o suprimento cotidiano.
O estado social conduz a hipótese de que o conceito "melhorar" é mais palatável que o verbo "mudar", aquele expressando aperfeiçoamento, melhoria dos serviços públicos, este despertando o receio de uma virada de mesa. A resposta das urnas, como se sabe, será dada pela economia. A manutenção de índices elevados de satisfação, o controle da inflação e a garantia de empregos seriam os requisitos para a candidata à reeleição capturar parcela dos votos de Marina.
Sob essas espessas nuvens, a tão comentada bomba da primavera ameaça perder combustão e virar um traque no verão.
Anote-se na agenda das mutações tupiniquins: a bomba da primavera de 2013 pode ser o traque do verão de 2014. A hipótese é bastante sustentável na esfera da política. Quem diria que a sonhática Maria Osmarina Silva de Lima, ex-seringueira e ex-senadora do Acre, se uniria em aliança política com o pragmático e garboso governador de Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos, comandante do PSB, para juntos lutarem pela cadeira presidencial?
O sonho de Marina Silva é depurar as práticas da velha política, banhando-as nas águas da ética, ou, em seus termos, "assumir responsabilidades com a sustentabilidade política, social, ambiental e cultural". O pragmatismo de Campos tem como ideia "aposentar um bocado de raposas que estão enchendo a paciência do povo brasileiro para o Brasil seguir em frente". A propósito, o governador, tempos atrás, já confessara a este escriba a meta de reunir no mesmo espaço "o grupo pós-64" (citando Aécio Neves, Gilberto Kassab, Ciro e Cid Gomes, entre outros), assumir o comando da Nação e dar adeus aos guerreiros da velha-guarda.
A fome moral da líder da Rede Sustentabilidade e a vontade do neto de Miguel Arraes de presidir a mesa dos comensais do poder produziram o artefato de maior repercussão neste ciclo pré-eleitoral. Como é costume no balcão de nossos produtos políticos, as dobraduras da engrenagem deixam de ser examinadas de forma a mostrar se estão ajustadas ou até se faltam parafusos para dar lugar ao "feito extraordinário" que, à primeira leitura, induz à convicção de que tal parceria abre um rombo nos costados da candidatura governista. Nem se atenta para o fato de que o elo entre Marina e Campos, à luz da racionalidade, não é tão resistente como aparenta. Basta lembrar a posição da bancada do PSB na votação do Código Florestal, alinhada em peso aos ruralistas. Nem o látex da seringueira que Marina extraía em sua adolescência é capaz de emprestar firmeza a essa liga. Que só se justifica em função das composições frankensteinianas que a política nestes trópicos é capaz de produzir.
Façamos uma leitura dos fatores - alguns de fundo sociocultural - que embasam as práticas eleitorais, a começar pela cultura de votação. O candidato prevalece sobre os partidos. Há casos em que as organizações predominam e avançam sobre os perfis pessoais. Isso ocorre nos espaços onde a polarização entre elas é muito aguda - PT e PSDB, por exemplo, em algumas regiões formam batalhões em seus campos de guerra. Ou com as siglas de caráter religioso (principalmente as patrocinadas por credos e igrejas) e as que ocupam as extremidades do arco ideológico, cujo discurso radical é seletivo, afastando as massas eleitorais (PCO, PSTU, etc.). Sob a ordem de um sistema cognitivo que tende a privilegiar perfis pessoais, transferir votos constitui operação dificilmente viável. Assim, a hipótese de Marina transferir seu patrimônio eleitoral para Campos é frágil. Nem se fossem irmãos siameses a transferência seria realizada. O individualismo é o vértice da política brasileira. Ideários formam apenas pequenas ilhas no arquipélago.
Mas as figuras diferentes de Marina e Campos não contêm uma raiz ideológica comum? É possível. A convivência por bom tempo no mesmo canto do espectro ideológico condiciona amigos de ontem e parceiros de hoje a usarem a mesma linguagem e, por conseguinte, a comporem discurso sintonizado. O parentesco doutrinário favorece a formação de um ideário comum e, nessa condição, os noivos se motivam a formar uma união estável com direito a lua de mel de algumas semanas. Ainda assim, a transferência de voto não se dá em grandes quantidades: pode-se calcular margem de 10% a 15%.
Ademais, por maior esforço que façam os nubentes, a união estará sujeita a trovoadas. E já se ouvem trovões. Marina pediu que Ronaldo Caiado, líder do DEM, conhecido guerreiro ruralista, buscasse a porta de saída do PSB. O deputado aceitou. Alfredo Sirkis, fundador da Rede e um dos principais aliados de Marina, defende "realinhamento" de forças com políticos de outros conjuntos. Marina é contra. Imagine-se, agora, um cabo de guerra puxado pela sonhática e pelo pragmático.
Se a passagem de votos de Marina para Campos não encher o bornal dele, quem acabará levando a melhor com a "jogada de mestre"? A própria Marina, em caso de inversão da chapa, ela encabeçando-a. Ou Dilma. A proximidade entre eles foi firmada no ciclo petista. O governador e a ex-senadora saíram dos espaços que o PT abriu, à esquerda. A Rede e o PSB tentam desfraldar, mesmo de maneira acanhada, a bandeira do socialismo. Logo, o parentesco com a presidente é patente.
Outras pedras do tabuleiro deverão ser jogadas quando os discursos começarem a jorrar das trombetas eleitorais. Os eixos centrais já foram apresentados. Campos tem intensificado a pregação com os verbetes "melhorar, fazer mais e melhor, qualificar serviços públicos". Não é oposicionista como Aécio, que defende um programa radical de "mudanças". As pesquisas mostram a contrariedade da população com os serviços públicos (o que combina com o discurso de Campos), mas não está insatisfeita com seu modo de vida. O bolso do consumidor continua bancando o suprimento cotidiano.
O estado social conduz a hipótese de que o conceito "melhorar" é mais palatável que o verbo "mudar", aquele expressando aperfeiçoamento, melhoria dos serviços públicos, este despertando o receio de uma virada de mesa. A resposta das urnas, como se sabe, será dada pela economia. A manutenção de índices elevados de satisfação, o controle da inflação e a garantia de empregos seriam os requisitos para a candidata à reeleição capturar parcela dos votos de Marina.
Sob essas espessas nuvens, a tão comentada bomba da primavera ameaça perder combustão e virar um traque no verão.
Sem alterações - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 13/10
A primeira pesquisa de opinião depois do anúncio da união entre a ex-senadora Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, divulgada ontem pelo Datafolha, tem boas notícias para a presidente Dilma, que continua amplamente favorita, e, além de tudo, viu que a união dos dois adversários não produziu resultados eleitorais até o momento.
Há boas notícias para Marina, também, que confirma a posição de mais forte adversária à reeleição da presidente, podendo ir ao segundo turno nos dois cenários em que aparece como candidata.
Além disso, ela é a candidata da oposição que dá mais dificuldades à presidente Dilma num eventual segundo turno, embora a presidente vença em todos os cenários.
A pesquisa mostra, porém, que Marina não transfere todos os seus votos para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Eles vão, igualmente, para a presidente Dilma e para o candidato oposicionista Aécio Neves, no único cenário em que Dilma é eleita no primeiro turno.
Também o ex-governador de São Paulo José Serra ganha fôlego na tentativa de ser mais uma vez candidato a presidente pelo PSDB, pois aparece em segundo lugar num cenário em que o governador de Pernambuco é o candidato do PSB.
Em confronto com Marina, tanto Serra quanto Aécio Neves, o provável candidato tucano, perdem. O melhor cenário para Serra é o em que ele enfrenta Dilma e Campos, levando a eleição para o segundo turno, o que Aécio não consegue em nenhum dos cenários.
O melhor cenário para a presidente Dilma é o atual, em que Eduardo Campos e Aécio Neves são os candidatos da oposição. Este é o único caso em que a presidente seria reeleita no primeiro turno. É o único cenário também em que o tucano Aécio Neves chega em segundo lugar, o que não vale muito para o partido, pois não estaria no segundo turno pela primeira vez nos últimos anos.
Claro que muita coisa acontecerá ainda até junho, prazo final para as convenções partidárias escolherem seus candidatos, mas a notícia mais importante é a comprovação de que a ex-senadora Marina Silva continua sendo a principal candidata da oposição, mesmo depois da manobra política que fez.
É sinal de que ela manteve seus apoiadores, mesmo aqueles que são contrários à união com o PSB ou, no limite, à sua inserção na política tradicional para disputar a Presidência.
A união com Campos, no entanto, não teve muita utilidade para Marina, além de dar-lhe legenda para concorrer à Presidência da República, única razão visível, aliás, para que ela se filiasse ao PSB.
Quem tem menos a comemorar na pesquisa é o tucano Aécio Neves, mas na disputa interna com Serra ele tem bons argumentos para prever crescimento durante a campanha. Serra é o candidato mais rejeitado, e também o mais conhecido da oposição, Aécio só é mais conhecido que Campos: 78% dizem que o conhecem, mas apenas 17% o conhecem "muito bem".
Para se ter uma ideia
de comparação, Serra é conhecido por 97% dos entrevistados, sendo que 40% dizem conhecê-lo "muito bem". Em compensação, Aécio só é menos rejeitado do que Marina, que tem o menor índice de rejeição e é conhecida por 88% dos eleitores.
A única vantagem do governador de Pernambuco que surge desta pesquisa é que ele é o menos conhecido de todos os candidatos e, portanto, tem teoricamente mais possibilidade de crescer à medida que for conhecido nacionalmente.
A situação do momento mostrada pela pesquisa tranquiliza a presidente Dilma, que manteve o favoritismo depois do primeiro grande lance político da campanha eleitoral antecipada, e confirma que a ex-senadora Marina Silva tem condições de confrontá-la se conseguir crescer durante a campanha eleitoral.
Para isso, poderá ter uma estrutura partidária razoável com o PSB, o que lhe daria mais musculatura do que em 2010, quando concorreu pelo Partido Verde e teve tão pouco tempo de TV quanto terá desta vez.
O aumento do tempo de TV é diretamente ligado às parcerias que poderão ser feitas para a campanha eleitoral, mas as restrições que o Rede Sustentabilidade faz, como aos representantes do agronegócio, limitam as coligações, que seriam mais amplas se Eduardo Campos estivesse na disputa sozinho.
Há boas notícias para Marina, também, que confirma a posição de mais forte adversária à reeleição da presidente, podendo ir ao segundo turno nos dois cenários em que aparece como candidata.
Além disso, ela é a candidata da oposição que dá mais dificuldades à presidente Dilma num eventual segundo turno, embora a presidente vença em todos os cenários.
A pesquisa mostra, porém, que Marina não transfere todos os seus votos para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Eles vão, igualmente, para a presidente Dilma e para o candidato oposicionista Aécio Neves, no único cenário em que Dilma é eleita no primeiro turno.
Também o ex-governador de São Paulo José Serra ganha fôlego na tentativa de ser mais uma vez candidato a presidente pelo PSDB, pois aparece em segundo lugar num cenário em que o governador de Pernambuco é o candidato do PSB.
Em confronto com Marina, tanto Serra quanto Aécio Neves, o provável candidato tucano, perdem. O melhor cenário para Serra é o em que ele enfrenta Dilma e Campos, levando a eleição para o segundo turno, o que Aécio não consegue em nenhum dos cenários.
O melhor cenário para a presidente Dilma é o atual, em que Eduardo Campos e Aécio Neves são os candidatos da oposição. Este é o único caso em que a presidente seria reeleita no primeiro turno. É o único cenário também em que o tucano Aécio Neves chega em segundo lugar, o que não vale muito para o partido, pois não estaria no segundo turno pela primeira vez nos últimos anos.
Claro que muita coisa acontecerá ainda até junho, prazo final para as convenções partidárias escolherem seus candidatos, mas a notícia mais importante é a comprovação de que a ex-senadora Marina Silva continua sendo a principal candidata da oposição, mesmo depois da manobra política que fez.
É sinal de que ela manteve seus apoiadores, mesmo aqueles que são contrários à união com o PSB ou, no limite, à sua inserção na política tradicional para disputar a Presidência.
A união com Campos, no entanto, não teve muita utilidade para Marina, além de dar-lhe legenda para concorrer à Presidência da República, única razão visível, aliás, para que ela se filiasse ao PSB.
Quem tem menos a comemorar na pesquisa é o tucano Aécio Neves, mas na disputa interna com Serra ele tem bons argumentos para prever crescimento durante a campanha. Serra é o candidato mais rejeitado, e também o mais conhecido da oposição, Aécio só é mais conhecido que Campos: 78% dizem que o conhecem, mas apenas 17% o conhecem "muito bem".
Para se ter uma ideia
de comparação, Serra é conhecido por 97% dos entrevistados, sendo que 40% dizem conhecê-lo "muito bem". Em compensação, Aécio só é menos rejeitado do que Marina, que tem o menor índice de rejeição e é conhecida por 88% dos eleitores.
A única vantagem do governador de Pernambuco que surge desta pesquisa é que ele é o menos conhecido de todos os candidatos e, portanto, tem teoricamente mais possibilidade de crescer à medida que for conhecido nacionalmente.
A situação do momento mostrada pela pesquisa tranquiliza a presidente Dilma, que manteve o favoritismo depois do primeiro grande lance político da campanha eleitoral antecipada, e confirma que a ex-senadora Marina Silva tem condições de confrontá-la se conseguir crescer durante a campanha eleitoral.
Para isso, poderá ter uma estrutura partidária razoável com o PSB, o que lhe daria mais musculatura do que em 2010, quando concorreu pelo Partido Verde e teve tão pouco tempo de TV quanto terá desta vez.
O aumento do tempo de TV é diretamente ligado às parcerias que poderão ser feitas para a campanha eleitoral, mas as restrições que o Rede Sustentabilidade faz, como aos representantes do agronegócio, limitam as coligações, que seriam mais amplas se Eduardo Campos estivesse na disputa sozinho.
A esquerda que falta - LUIZ SERGIO HENRIQUE
O Estado de S.Paulo - 13/10
Mais de um autor clássico de estudos sobre partidos, sua afirmação como instrumento da política de massas, seus limites e mesmo processos de involução oligárquica, chamou a atenção para o papel representado pela social-democracia alemã e os partidos de esquerda que a tiveram por décadas como referência indiscutível.
Nem é preciso voltar a Robert Michels e sua lei de ferro da oligarquização do partido operário. Um autor mais próximo, o italiano Umberto Cerroni, nos legou um livro pequeno e útil sobre a Teoria do Partido Político (Livraria e Editora Ciências Humanas, 1981), escrito no tempo em que alguns julgavam possível ou oportuno renovar o repertório dos velhos PCs a partir daquilo que se convencionou chamar, num certo momento, de eurocomunismo.
Curioso o fato de que Cerroni, sem nem de longe se referir a acontecimentos brasileiros, que lhe eram desconhecidos, ritmava genericamente o processo de criação de um partido de esquerda em três sequências mais ou menos inevitáveis de um mesmo roteiro. Em primeiro lugar, uma pré-história social, uma fase propriamente pré-política, marcada por embates sociais e econômicos. Logo em seguida, a abertura da nova agremiação para a política, ainda que arrastando o peso de limitações corporativas ou, no jargão da tribo marxista, "economicistas". E, por fim, a plena assimilação de uma função "estatal", como capacidade de dirigir estrategicamente a sociedade e o Estado, liberando-o, na boa hipótese, do elitismo liberal avesso à incorporação das massas.
O autor não sabia, mas naquela altura começava sua trajetória no cenário brasileiro um partido que, já no nome, trazia o que ele caracterizava como "persistente economicismo". De fato, um certo "partido dos trabalhadores" portava não só a afirmação orgulhosa de setores novíssimos da economia e da sociedade - nucleados em torno do operariado do ABC paulista e de parte significativa da intelligentsia, profundamente redefinida pela modernização conservadora pós-1964 -, mas também, com a "vaidade de partido", alguma dose de desprezo pela mediação político-institucional, campo no qual então se tecia a frente política que iria derrotar o regime autoritário.
Esse alheamento da mediação institucional, se bem que não estivesse fadado a impedir a contínua e regular expansão do novo partido, conformaria, sem dúvida, uma cultura política específica, um modo de conceber a competição democrática, um modo de se comportar nos momentos históricos cruciais. Valha como exemplo definidor o comportamento assumido por ocasião da aprovação da mais avançada das Constituições brasileiras, há apenas 25 anos. Mesmo assinando o pacto constitucional, o Partido dos Trabalhadores votou contra seu conteúdo, apresentando um texto alternativo que só agora, nas palavras do seu dirigente máximo, vem reconhecido como provável fator de ingovernabilidade, se adotado, e expressão de um radicalismo de facção.
A autocrítica aparece tardia, tímida e pouco articulada, especialmente da parte de quem esteve à frente do Estado brasileiro por dois mandatos e ainda detém considerável poder e influência nas coisas da República - mais até do que seria de esperar numa democracia madura, que tivesse a escorá-la, à esquerda, uma força ou forças com sentido alto de Estado, e não de ocupação ou partidarização das suas instâncias decisivas como recurso de poder para a cooptação quase generalizada de atores políticos e sociais frequentemente antagônicos.
Trata-se, dissemos, de uma cultura, de um modo de ser na sociedade e nas instituições não isento de riscos para a livre dialética democrática. Quase não há setor da sociedade a salvo dos procedimentos de cooptação: no Parlamento, partidos de criação recente, nascidos, longe do roteiro cerroniano, como meros empreendimentos para esvaziar as agremiações oposicionistas, são assediados com a perspectiva de um poder que parece avesso à perspectiva normal da alternância democrática. Na vida econômica, à falta de um horizonte que se possa minimamente chamar de socialista, no sentido de modelo alternativo viável, o risco é a afirmação de um capitalismo mercantil, tão perigoso quanto o seu oposto liberal para o estabelecimento de uma relação equilibrada entre mercado e economia, bem como para a possibilidade de regulação democrática da própria economia.
Essa surpreendente capacidade de fagocitose se equilibra - de modo eleitoralmente rendoso, mas substantivamente falso - com a seleção "sábia" do inimigo a ser abatido, seja de que maneira for. Um cenário no qual o "neoliberalismo tucano" faz as vezes de cômodo alvo retórico contra o qual se movimenta o sistema de poder do partido hegemônico, com seu séquito de empreiteiras, bancos e o grande negócio agrário, para não falar de todo o leque mais expressivo da velha e atrasada direita política nacional.
Tanto quanto a vista descortina, não seria mesmo possível ir além de variados tipos de compromisso entre as forças de mercado e as razões civilizadoras e emancipadoras da democracia política. Não se poderia cobrar da esquerda hegemônica e muito menos dos setores da esquerda democrática que suprimissem o mercado ou o sistema de empresas, num surto estadocêntrico que, no passado, se revelou insuficiente e até nocivo à ideia de uma sociedade tendencialmente autorregulada.
Poder-se-ia, no entanto, esperar, depois de um quarto de século de vida constitucional, a presença iluminadora de uma esquerda de governo que compreendesse plenamente a sociedade aberta, o Estado Democrático de Direito e a defesa esclarecida da supremacia da esfera pública nesse tipo de Estado. Seria, na verdade, o terceiro passo da construção proposta por Cerroni, um passo que, entre nós, apesar das aparências, ainda não foi dado.
Mais de um autor clássico de estudos sobre partidos, sua afirmação como instrumento da política de massas, seus limites e mesmo processos de involução oligárquica, chamou a atenção para o papel representado pela social-democracia alemã e os partidos de esquerda que a tiveram por décadas como referência indiscutível.
Nem é preciso voltar a Robert Michels e sua lei de ferro da oligarquização do partido operário. Um autor mais próximo, o italiano Umberto Cerroni, nos legou um livro pequeno e útil sobre a Teoria do Partido Político (Livraria e Editora Ciências Humanas, 1981), escrito no tempo em que alguns julgavam possível ou oportuno renovar o repertório dos velhos PCs a partir daquilo que se convencionou chamar, num certo momento, de eurocomunismo.
Curioso o fato de que Cerroni, sem nem de longe se referir a acontecimentos brasileiros, que lhe eram desconhecidos, ritmava genericamente o processo de criação de um partido de esquerda em três sequências mais ou menos inevitáveis de um mesmo roteiro. Em primeiro lugar, uma pré-história social, uma fase propriamente pré-política, marcada por embates sociais e econômicos. Logo em seguida, a abertura da nova agremiação para a política, ainda que arrastando o peso de limitações corporativas ou, no jargão da tribo marxista, "economicistas". E, por fim, a plena assimilação de uma função "estatal", como capacidade de dirigir estrategicamente a sociedade e o Estado, liberando-o, na boa hipótese, do elitismo liberal avesso à incorporação das massas.
O autor não sabia, mas naquela altura começava sua trajetória no cenário brasileiro um partido que, já no nome, trazia o que ele caracterizava como "persistente economicismo". De fato, um certo "partido dos trabalhadores" portava não só a afirmação orgulhosa de setores novíssimos da economia e da sociedade - nucleados em torno do operariado do ABC paulista e de parte significativa da intelligentsia, profundamente redefinida pela modernização conservadora pós-1964 -, mas também, com a "vaidade de partido", alguma dose de desprezo pela mediação político-institucional, campo no qual então se tecia a frente política que iria derrotar o regime autoritário.
Esse alheamento da mediação institucional, se bem que não estivesse fadado a impedir a contínua e regular expansão do novo partido, conformaria, sem dúvida, uma cultura política específica, um modo de conceber a competição democrática, um modo de se comportar nos momentos históricos cruciais. Valha como exemplo definidor o comportamento assumido por ocasião da aprovação da mais avançada das Constituições brasileiras, há apenas 25 anos. Mesmo assinando o pacto constitucional, o Partido dos Trabalhadores votou contra seu conteúdo, apresentando um texto alternativo que só agora, nas palavras do seu dirigente máximo, vem reconhecido como provável fator de ingovernabilidade, se adotado, e expressão de um radicalismo de facção.
A autocrítica aparece tardia, tímida e pouco articulada, especialmente da parte de quem esteve à frente do Estado brasileiro por dois mandatos e ainda detém considerável poder e influência nas coisas da República - mais até do que seria de esperar numa democracia madura, que tivesse a escorá-la, à esquerda, uma força ou forças com sentido alto de Estado, e não de ocupação ou partidarização das suas instâncias decisivas como recurso de poder para a cooptação quase generalizada de atores políticos e sociais frequentemente antagônicos.
Trata-se, dissemos, de uma cultura, de um modo de ser na sociedade e nas instituições não isento de riscos para a livre dialética democrática. Quase não há setor da sociedade a salvo dos procedimentos de cooptação: no Parlamento, partidos de criação recente, nascidos, longe do roteiro cerroniano, como meros empreendimentos para esvaziar as agremiações oposicionistas, são assediados com a perspectiva de um poder que parece avesso à perspectiva normal da alternância democrática. Na vida econômica, à falta de um horizonte que se possa minimamente chamar de socialista, no sentido de modelo alternativo viável, o risco é a afirmação de um capitalismo mercantil, tão perigoso quanto o seu oposto liberal para o estabelecimento de uma relação equilibrada entre mercado e economia, bem como para a possibilidade de regulação democrática da própria economia.
Essa surpreendente capacidade de fagocitose se equilibra - de modo eleitoralmente rendoso, mas substantivamente falso - com a seleção "sábia" do inimigo a ser abatido, seja de que maneira for. Um cenário no qual o "neoliberalismo tucano" faz as vezes de cômodo alvo retórico contra o qual se movimenta o sistema de poder do partido hegemônico, com seu séquito de empreiteiras, bancos e o grande negócio agrário, para não falar de todo o leque mais expressivo da velha e atrasada direita política nacional.
Tanto quanto a vista descortina, não seria mesmo possível ir além de variados tipos de compromisso entre as forças de mercado e as razões civilizadoras e emancipadoras da democracia política. Não se poderia cobrar da esquerda hegemônica e muito menos dos setores da esquerda democrática que suprimissem o mercado ou o sistema de empresas, num surto estadocêntrico que, no passado, se revelou insuficiente e até nocivo à ideia de uma sociedade tendencialmente autorregulada.
Poder-se-ia, no entanto, esperar, depois de um quarto de século de vida constitucional, a presença iluminadora de uma esquerda de governo que compreendesse plenamente a sociedade aberta, o Estado Democrático de Direito e a defesa esclarecida da supremacia da esfera pública nesse tipo de Estado. Seria, na verdade, o terceiro passo da construção proposta por Cerroni, um passo que, entre nós, apesar das aparências, ainda não foi dado.
Um índice de risco - JOÃO BOSCO RABELO
O Estado de S.Paulo - 13/10
Lidos isoladamente, os números da pesquisa publicada ontem favorecem a candidata Dilma Rousseff, ao permitirem simulações que a dão como eleita no primeiro turno contra os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos e vencedora em todos os cenários de segundo turno. Mas, nessa última hipótese, a apertada diferença numa disputa com a ex-ministra Marina Silva indica que o patamar atual da presidente não é o ideal para quem tenta a reeleição.
A pesquisa, do instituto Datafolha, registra 41% para a ex-ministra num segundo turno, 21% para o senador mineiro e 15% para o governador pernambucano, no embate direto com a presidente. O total de ambos, de 36%, se somado a uma transferência mínima de votos de Marina para Campos, na hipótese dele ser o candidato, seria suficiente, em tese, para ameaçar a candidatura oficial.
Há, sim, uma vitória de Dilma, na recuperação de parte do patrimônio eleitoral perdido com as manifestações de junho, indicativo de que não existe ainda uma motivação para mudança em intensidade suficiente para embalar o frágil discurso oposicionista de fazer melhor simplesmente.
Se Marina Silva tivesse optado por ficar de fora da disputa, provavelmente a campanha do governo permaneceria em céu de brigadeiro. Mas as simulações dela com Aécio ou Serra na briga levam a presidente para a casa dos 37%, porcentual de risco para sua meta de reeleição.
Até maio do próximo ano, quando a campanha realmente ganhar dinâmica, é provável que as chapas de PSDB e PSB já estejam definidas com Aécio Neves e Eduardo Campos à frente, muito embora a confirmação da superioridade eleitoral da ex-ministra - o dobro de seu aliado -, projete uma fase de muita pressão interna de seu núcleo na aliança para que seja ela a candidata.
No cenário tucano, o alto índice de rejeição de José Serra dá ao adiamento da decisão formal sobre o candidato apenas um caráter de trégua na disputa entre ele e Aécio, já que na simulação ambos ficam na faixa de 20% - oito pontos abaixo de Marina - e o senador demonstra consistência eleitoral.
De tudo resulta que a aliança que viabilizou a permanência de Marina na disputa confirma a melhora do PSB, e cria dificuldades para Dilma. Se forem capazes de conciliar as diferenças, Campos e Marina tendem a crescer, projetando uma frente de oposição no segundo turno contra a candidatura do governo.
O que explica Lula antecipar a ida aos palanques. Sua liderança nas pesquisas sobre todos os candidatos, inclusive Dilma, pode fazer a diferença a favor da reeleição da presidente.
Lidos isoladamente, os números da pesquisa publicada ontem favorecem a candidata Dilma Rousseff, ao permitirem simulações que a dão como eleita no primeiro turno contra os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos e vencedora em todos os cenários de segundo turno. Mas, nessa última hipótese, a apertada diferença numa disputa com a ex-ministra Marina Silva indica que o patamar atual da presidente não é o ideal para quem tenta a reeleição.
A pesquisa, do instituto Datafolha, registra 41% para a ex-ministra num segundo turno, 21% para o senador mineiro e 15% para o governador pernambucano, no embate direto com a presidente. O total de ambos, de 36%, se somado a uma transferência mínima de votos de Marina para Campos, na hipótese dele ser o candidato, seria suficiente, em tese, para ameaçar a candidatura oficial.
Há, sim, uma vitória de Dilma, na recuperação de parte do patrimônio eleitoral perdido com as manifestações de junho, indicativo de que não existe ainda uma motivação para mudança em intensidade suficiente para embalar o frágil discurso oposicionista de fazer melhor simplesmente.
Se Marina Silva tivesse optado por ficar de fora da disputa, provavelmente a campanha do governo permaneceria em céu de brigadeiro. Mas as simulações dela com Aécio ou Serra na briga levam a presidente para a casa dos 37%, porcentual de risco para sua meta de reeleição.
Até maio do próximo ano, quando a campanha realmente ganhar dinâmica, é provável que as chapas de PSDB e PSB já estejam definidas com Aécio Neves e Eduardo Campos à frente, muito embora a confirmação da superioridade eleitoral da ex-ministra - o dobro de seu aliado -, projete uma fase de muita pressão interna de seu núcleo na aliança para que seja ela a candidata.
No cenário tucano, o alto índice de rejeição de José Serra dá ao adiamento da decisão formal sobre o candidato apenas um caráter de trégua na disputa entre ele e Aécio, já que na simulação ambos ficam na faixa de 20% - oito pontos abaixo de Marina - e o senador demonstra consistência eleitoral.
De tudo resulta que a aliança que viabilizou a permanência de Marina na disputa confirma a melhora do PSB, e cria dificuldades para Dilma. Se forem capazes de conciliar as diferenças, Campos e Marina tendem a crescer, projetando uma frente de oposição no segundo turno contra a candidatura do governo.
O que explica Lula antecipar a ida aos palanques. Sua liderança nas pesquisas sobre todos os candidatos, inclusive Dilma, pode fazer a diferença a favor da reeleição da presidente.
Imaginando biografias - HÉLIO SCHWARTSMAN
SÃO PAULO - 13/10
SÃO PAULO - Que me perdoem os músicos que defendem a necessidade de autorização do retratado para a publicação de biografias, mas essa é uma posição insustentável. Ela contraria não só o ordenamento constitucional como também princípios elementares da razoabilidade. Alguns experimentos mentais mostram isso com clareza.
Imagine um vilão bem malvado, tipo Hitler ou Stálin. Imagine ainda que ele esteja vivo e morando no Brasil. Pelo artigo 20 do Código Civil, ninguém pode escrever e comercializar uma biografia desse personagem sem seu aval. E será que um retrato de Hitler que contasse com sua aprovação poderia ser fiel à história?
O problema, obviamente, não está restrito a biografias. Imagine que um historiador tenha redigido uma obra sobre acontecimentos recentes do país e, de passagem, ele tenha citado um político que, por alguma razão, não tenha ficado bem na foto. Bem, pelo nosso Código Civil, esse representante do povo, se julgasse que sua honra, boa fama ou respeitabilidade foram atingidos, poderia pleitear e obter da Justiça a proibição do texto. E isso mesmo que ele não seja o fulcro da obra e os fatos relatados sejam rigorosamente verdadeiros.
Vamos agora dar asas à imaginação. Suponha que alguém decida publicar um índice de todas as condenações judiciais sofridas por um homem público que não goza do favor da mídia, com hiperlink para as sentenças. Obviamente, a vítima dessa biografia tecnológica poderia considerar que sua reputação foi prejudicada e recorrer aos sempre justos magistrados. O que eles deveriam fazer? Deveriam censurar uma publicação que remete a documentos oficiais?
Não tenho nada contra o biografado abocanhar parte dos lucros. Mecanismos de mercado já incentivam acordos, uma vez que é muito mais fácil escrever esse tipo de obra com a ajuda da pessoa retratada. Resta óbvio, porém, que a regra vigente, na forma em que está, é absurda.
SÃO PAULO - Que me perdoem os músicos que defendem a necessidade de autorização do retratado para a publicação de biografias, mas essa é uma posição insustentável. Ela contraria não só o ordenamento constitucional como também princípios elementares da razoabilidade. Alguns experimentos mentais mostram isso com clareza.
Imagine um vilão bem malvado, tipo Hitler ou Stálin. Imagine ainda que ele esteja vivo e morando no Brasil. Pelo artigo 20 do Código Civil, ninguém pode escrever e comercializar uma biografia desse personagem sem seu aval. E será que um retrato de Hitler que contasse com sua aprovação poderia ser fiel à história?
O problema, obviamente, não está restrito a biografias. Imagine que um historiador tenha redigido uma obra sobre acontecimentos recentes do país e, de passagem, ele tenha citado um político que, por alguma razão, não tenha ficado bem na foto. Bem, pelo nosso Código Civil, esse representante do povo, se julgasse que sua honra, boa fama ou respeitabilidade foram atingidos, poderia pleitear e obter da Justiça a proibição do texto. E isso mesmo que ele não seja o fulcro da obra e os fatos relatados sejam rigorosamente verdadeiros.
Vamos agora dar asas à imaginação. Suponha que alguém decida publicar um índice de todas as condenações judiciais sofridas por um homem público que não goza do favor da mídia, com hiperlink para as sentenças. Obviamente, a vítima dessa biografia tecnológica poderia considerar que sua reputação foi prejudicada e recorrer aos sempre justos magistrados. O que eles deveriam fazer? Deveriam censurar uma publicação que remete a documentos oficiais?
Não tenho nada contra o biografado abocanhar parte dos lucros. Mecanismos de mercado já incentivam acordos, uma vez que é muito mais fácil escrever esse tipo de obra com a ajuda da pessoa retratada. Resta óbvio, porém, que a regra vigente, na forma em que está, é absurda.
O crime compensa? - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 13/10
A lentidão da Justiça brasileira causa prejuízos de toda ordem, mas o maior deles é certamente a sensação de impunidade. Que dizer de uma situação em que, graças ao arrastado processo de múltiplos recursos e embargos, criminosos já condenados podem movimentar as contas bancárias onde depositaram o fruto de seus malfeitos? Pois é isso o que pode acontecer em um caso de corrupção envolvendo auditores da Receita Federal e fiscais da Fazenda do Rio de Janeiro.
Em 2002, autoridades da Suíça denunciaram a existência de contas bancárias pertencentes a esses fiscais, chamando a atenção para o fato de que o volume de recursos era incompatível com o salário dos clientes. Em meio às investigações, efetuou-se o bloqueio das contas, no valor de US$ 28 milhões.
No ano seguinte, a Assembleia do Rio de Janeiro instalou uma CPI para investigar o que já estava sendo chamado de "propinoduto". Foram denunciadas 32 pessoas, sob acusação de lavagem de dinheiro, corrupção, formação de quadrilha e evasão de divisas. Dessas, 24 tornaram-se formalmente rés, entre elas o subsecretário de Administração Tributária do Rio no governo de Anthony Garotinho (PSB), Rodrigo Silveirinha, responsável pela fiscalização de 400 empresas. Ele teria enviado US$ 8,9 milhões à Suíça.
Bastaram seis meses para que 22 dos 24 acusados fossem condenados pela Justiça Federal do Rio - Silveirinha foi sentenciado a 15 anos de prisão, O que poderia constituir um grande exemplo de celeridade judicial, no entanto, foi apenas o início de uma excruciante sequência de protelações.
A defesa queixou-se da velocidade com que seus clientes foram condenados e recorreu. Em 2004, os réus ganharam o direito de responder ao processo em liberdade. Três anos depois, em novo julgamento, o Tribunal Regional Federal da 2.a Região manteve a condenação e ainda aumentou algumas sentenças.
Em 2009, novo recurso chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Desde então, como mostrou reportagem de Josette Goulart e Jamil Chade no Estado, o processo já passou por cinco relatores diferentes, sem que fosse apreciado. O último desses relatores, a ministra Assusete Magalhães, recebeu o caso há apenas dois meses.
Na semana passada, o Ministério Público Federal entrou com um pedido de "prioridade de julgamento" do recurso, o que soa como uma piada de mau gosto ante a lentidão de todo o processo.
A pressa agora se explica pelo fato de que as autoridades suíças alertaram, seus pares no Judiciário brasileiro de que era preciso acelerar o julgamento, já que, de acordo com as leis da Suíça, o bloqueio das contas dos réus não pode passar de dez anos. Esse alerta foi feito em 17 de maio.
É difícil de explicar aos suíços por que não se encerra um processo em que os réus tiveram todo 0 tempo do mundo para se defender e já estão condenados em duas instâncias. O caso ganha contornos ainda mais surreais quando se sabe que os suíços envolvidos no mesmo crime - cinco banqueiros - foram todos condenados e até já cumpriram suas sentenças,
Eis, portanto, um caso paradigmático da concepção de justiça no Brasil, comparada a um país desenvolvido, como a Suíça. Enquanto os suíços puseram seus condenados na cadeia, aqui, em. nome da necessidade de conferir "ampla defesa" a acusados de crimes, abriu-se o caminho para uma infinidade de recursos para que o desfecho do processo fosse considerado inteiramente "justo". A lentidão é, assim, uma virtude, e a justiça é entendida apenas como a proteção dos direitos dos réus, e não como forma de proteger a sociedade, punindo os culpados.
Some-se a esse entendimento o fato de que a Justiça brasileira é confusa, com suas tantas instâncias, e precária, com falta crônica de juízes. Como resultado desse estado de coisas, cria-se insegurança econômica, com perdas evidentes para o conjunto do País, e não apenas para os diretamente lesados. Envia-se à sociedade o terrível sinal de que, talvez, o crime compense.
Em 2002, autoridades da Suíça denunciaram a existência de contas bancárias pertencentes a esses fiscais, chamando a atenção para o fato de que o volume de recursos era incompatível com o salário dos clientes. Em meio às investigações, efetuou-se o bloqueio das contas, no valor de US$ 28 milhões.
No ano seguinte, a Assembleia do Rio de Janeiro instalou uma CPI para investigar o que já estava sendo chamado de "propinoduto". Foram denunciadas 32 pessoas, sob acusação de lavagem de dinheiro, corrupção, formação de quadrilha e evasão de divisas. Dessas, 24 tornaram-se formalmente rés, entre elas o subsecretário de Administração Tributária do Rio no governo de Anthony Garotinho (PSB), Rodrigo Silveirinha, responsável pela fiscalização de 400 empresas. Ele teria enviado US$ 8,9 milhões à Suíça.
Bastaram seis meses para que 22 dos 24 acusados fossem condenados pela Justiça Federal do Rio - Silveirinha foi sentenciado a 15 anos de prisão, O que poderia constituir um grande exemplo de celeridade judicial, no entanto, foi apenas o início de uma excruciante sequência de protelações.
A defesa queixou-se da velocidade com que seus clientes foram condenados e recorreu. Em 2004, os réus ganharam o direito de responder ao processo em liberdade. Três anos depois, em novo julgamento, o Tribunal Regional Federal da 2.a Região manteve a condenação e ainda aumentou algumas sentenças.
Em 2009, novo recurso chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Desde então, como mostrou reportagem de Josette Goulart e Jamil Chade no Estado, o processo já passou por cinco relatores diferentes, sem que fosse apreciado. O último desses relatores, a ministra Assusete Magalhães, recebeu o caso há apenas dois meses.
Na semana passada, o Ministério Público Federal entrou com um pedido de "prioridade de julgamento" do recurso, o que soa como uma piada de mau gosto ante a lentidão de todo o processo.
A pressa agora se explica pelo fato de que as autoridades suíças alertaram, seus pares no Judiciário brasileiro de que era preciso acelerar o julgamento, já que, de acordo com as leis da Suíça, o bloqueio das contas dos réus não pode passar de dez anos. Esse alerta foi feito em 17 de maio.
É difícil de explicar aos suíços por que não se encerra um processo em que os réus tiveram todo 0 tempo do mundo para se defender e já estão condenados em duas instâncias. O caso ganha contornos ainda mais surreais quando se sabe que os suíços envolvidos no mesmo crime - cinco banqueiros - foram todos condenados e até já cumpriram suas sentenças,
Eis, portanto, um caso paradigmático da concepção de justiça no Brasil, comparada a um país desenvolvido, como a Suíça. Enquanto os suíços puseram seus condenados na cadeia, aqui, em. nome da necessidade de conferir "ampla defesa" a acusados de crimes, abriu-se o caminho para uma infinidade de recursos para que o desfecho do processo fosse considerado inteiramente "justo". A lentidão é, assim, uma virtude, e a justiça é entendida apenas como a proteção dos direitos dos réus, e não como forma de proteger a sociedade, punindo os culpados.
Some-se a esse entendimento o fato de que a Justiça brasileira é confusa, com suas tantas instâncias, e precária, com falta crônica de juízes. Como resultado desse estado de coisas, cria-se insegurança econômica, com perdas evidentes para o conjunto do País, e não apenas para os diretamente lesados. Envia-se à sociedade o terrível sinal de que, talvez, o crime compense.
Experimento eleitoral - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 13/10
Aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos traz incógnitas que vão além da redistribuição dos votos na pesquisa eleitoral
Nem sempre o recurso à engenharia genética é condenado pelos ambientalistas. Setores menos radicais da militância ecológica costumam dizer que não são contrários "por princípio" ao cultivo de plantas transgênicas.
Enfatizam invariavelmente, entretanto, que é preciso realizar mais testes científicos, para avaliar o possível impacto desses novos organismos sobre o ecossistema, antes de lançá-los no mercado.
Raciocínio semelhante talvez se aplique às consequências que podem advir da aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos.
Criou-se um organismo transgênico no mundo político, com dois possíveis candidatos, de perfis bastante diversos, convivendo na mesma proveta partidária. Ainda está para ser testado na prática o sucesso dessa composição.
A rigor, não chega a ser um teste prático o resultado da primeira pesquisa eleitoral feita após o surpreendente experimento. Não se sabe por meio de que mecanismo darwiniano será selecionado, no PSB, o nome a liderar a chapa presidencial --ainda que o levantamento do Datafolha deixe entrever alguma resposta à questão.
Na hipótese de Marina Silva não vir a ser candidata, os 26% de votos que obtinha na pesquisa anterior não se transferem para Eduardo Campos de forma integral. O governador pernambucano, que antes conseguia um máximo de 8%, chega a obter 15%. Abaixo de Aécio Neves (21%) ou de José Serra (25%).
A fusão entre Marina e Campos, até por efeito estatístico, também beneficia os tucanos: os votos consagrados à oposição dividem-se entre menos candidatos.
Nessa seara oposicionista, todos encontram motivos para celebrar o levantamento, seja pelo que indica de tendência, seja pelo que mostra de fato consolidado.
O humor não será distinto nos campos petistas. Prossegue mais ou menos estável a avaliação de Dilma Rousseff --somente ameaçada mais seriamente, num segundo turno, por Marina Silva, que alcança 41% dos votos, contra 47% para a atual presidente.
Passados os eventos de junho, o fato é que o governo Dilma recupera terreno: seu pior momento, com 25% de "ruim" e "péssimo", ao lado de 30% de "ótimo" e "bom", dá lugar a índices, respectivamente, de 19% e 38%.
Aécio Neves ou José Serra, Marina Silva ou Eduardo Campos cuidam, enquanto isso, em manter-se à tona no noticiário --mais por movimentações e alianças de bastidores, entretanto, que por atitudes programáticas e éticas capazes de expor, como cabe a toda oposição que se preze, os problemas de um governo ainda entorpecido.
Apesar da tempestade de junho, o manto sonolento do inverno ainda cobre a paisagem sucessória, enquanto incertas sementes mal germinam nas estufas partidárias.
Aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos traz incógnitas que vão além da redistribuição dos votos na pesquisa eleitoral
Nem sempre o recurso à engenharia genética é condenado pelos ambientalistas. Setores menos radicais da militância ecológica costumam dizer que não são contrários "por princípio" ao cultivo de plantas transgênicas.
Enfatizam invariavelmente, entretanto, que é preciso realizar mais testes científicos, para avaliar o possível impacto desses novos organismos sobre o ecossistema, antes de lançá-los no mercado.
Raciocínio semelhante talvez se aplique às consequências que podem advir da aliança entre Marina Silva e Eduardo Campos.
Criou-se um organismo transgênico no mundo político, com dois possíveis candidatos, de perfis bastante diversos, convivendo na mesma proveta partidária. Ainda está para ser testado na prática o sucesso dessa composição.
A rigor, não chega a ser um teste prático o resultado da primeira pesquisa eleitoral feita após o surpreendente experimento. Não se sabe por meio de que mecanismo darwiniano será selecionado, no PSB, o nome a liderar a chapa presidencial --ainda que o levantamento do Datafolha deixe entrever alguma resposta à questão.
Na hipótese de Marina Silva não vir a ser candidata, os 26% de votos que obtinha na pesquisa anterior não se transferem para Eduardo Campos de forma integral. O governador pernambucano, que antes conseguia um máximo de 8%, chega a obter 15%. Abaixo de Aécio Neves (21%) ou de José Serra (25%).
A fusão entre Marina e Campos, até por efeito estatístico, também beneficia os tucanos: os votos consagrados à oposição dividem-se entre menos candidatos.
Nessa seara oposicionista, todos encontram motivos para celebrar o levantamento, seja pelo que indica de tendência, seja pelo que mostra de fato consolidado.
O humor não será distinto nos campos petistas. Prossegue mais ou menos estável a avaliação de Dilma Rousseff --somente ameaçada mais seriamente, num segundo turno, por Marina Silva, que alcança 41% dos votos, contra 47% para a atual presidente.
Passados os eventos de junho, o fato é que o governo Dilma recupera terreno: seu pior momento, com 25% de "ruim" e "péssimo", ao lado de 30% de "ótimo" e "bom", dá lugar a índices, respectivamente, de 19% e 38%.
Aécio Neves ou José Serra, Marina Silva ou Eduardo Campos cuidam, enquanto isso, em manter-se à tona no noticiário --mais por movimentações e alianças de bastidores, entretanto, que por atitudes programáticas e éticas capazes de expor, como cabe a toda oposição que se preze, os problemas de um governo ainda entorpecido.
Apesar da tempestade de junho, o manto sonolento do inverno ainda cobre a paisagem sucessória, enquanto incertas sementes mal germinam nas estufas partidárias.
Ofensa à democracia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 13/10
Ofendem o Estado Democrático de Direito aqueles que se apegam a um artigo do novo Código Civil para tentar impedir a publicação de biografias não autorizadas. Esquecem-se esses, ou fingem esquecer, de que a liberdade de expressão é garantia constitucional no país. Instituir a censura prévia seria retrocesso abominável, além de completamente fora de sentido na pretensa alegação, uma vez que a legislação brasileira prevê punição para todo tipo de crime, com a consequente reparação de danos.
Ao interesse particular dos que não querem ter a vida exposta sobrepõe-se o direito da coletividade ao pleno acesso à informação, inclusive a respeito das pessoas públicas, seja autoridades, seja expoentes de alguma das atividades humanas. Por óbvio, tal direito não livra os biógrafos de responder a processo na Justiça por eventual calúnia, injúria ou difamação. Assim funcionam as democracias. E é dentro desses parâmetros que se escreve a história, cujos personagens vão de heróis a vilões.
Com todo respeito a seus agentes, a tentativa torpe de deixar a critério dos protagonistas ou dos familiares desses a decisão sobre o que pode ou não ser dito é, além de grave ofensa à Carta Magna, total falta de bom senso. Implica atrelar à vontade da família, ou à do próprio, a reconstituição da vida de um ditador, um governante corrupto, um assassino sanguinário ou um padre pedófilo. Supõe-se que nem sempre seria possível tornar pública a realidade.
Ora, a verdade pode até coexistir com versões, mas precisa ser difundida. Já dizia o filósofo britânico Bertrand Russell: "Aquilo que os homens de fato querem não é o conhecimento, mas a certeza". Ninguém é perfeito ou santo. Tampouco nem tudo precisa ser propalado. Mas o limite entre o que deve ou não vir à tona há de ser responsabilidade do autor da obra, que, repita-se, estará sujeito a enquadramento no Código Penal, caso incorra em algum dos crimes ali previstos.
Vale ressaltar que a privacidade das pessoas é também direito fundamental inscrito na Carta Magna. Reza o inciso X do artigo 5º que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". Note-se que, conforme prevê o texto, intromissões indevidas, ofensivas à honra e à moral, são puníveis. Não se pode é sobrepor um direito ao outro, cassando o da liberdade de expressão.
Urge, pois, vencer o lobby contra as biografias não autorizadas e pôr fim à celeuma. Desde 2011, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n° 393, destinado a alterar o art. 20 do Código Civil, que impõe a necessidade de permissão prévia. Embora a liberdade de expressão esteja garantida na Constituição, esse dispositivo tem intimidado escritores a produzir obras do gênero, pois juízes se apegam a ele para acatar recursos e estabelecer a censura. Portanto, está nas mãos do Congresso Nacional a prerrogativa de expurgar a violência contra esse direito fundamental que diz respeito à liberdade do ser humano.
Ao interesse particular dos que não querem ter a vida exposta sobrepõe-se o direito da coletividade ao pleno acesso à informação, inclusive a respeito das pessoas públicas, seja autoridades, seja expoentes de alguma das atividades humanas. Por óbvio, tal direito não livra os biógrafos de responder a processo na Justiça por eventual calúnia, injúria ou difamação. Assim funcionam as democracias. E é dentro desses parâmetros que se escreve a história, cujos personagens vão de heróis a vilões.
Com todo respeito a seus agentes, a tentativa torpe de deixar a critério dos protagonistas ou dos familiares desses a decisão sobre o que pode ou não ser dito é, além de grave ofensa à Carta Magna, total falta de bom senso. Implica atrelar à vontade da família, ou à do próprio, a reconstituição da vida de um ditador, um governante corrupto, um assassino sanguinário ou um padre pedófilo. Supõe-se que nem sempre seria possível tornar pública a realidade.
Ora, a verdade pode até coexistir com versões, mas precisa ser difundida. Já dizia o filósofo britânico Bertrand Russell: "Aquilo que os homens de fato querem não é o conhecimento, mas a certeza". Ninguém é perfeito ou santo. Tampouco nem tudo precisa ser propalado. Mas o limite entre o que deve ou não vir à tona há de ser responsabilidade do autor da obra, que, repita-se, estará sujeito a enquadramento no Código Penal, caso incorra em algum dos crimes ali previstos.
Vale ressaltar que a privacidade das pessoas é também direito fundamental inscrito na Carta Magna. Reza o inciso X do artigo 5º que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". Note-se que, conforme prevê o texto, intromissões indevidas, ofensivas à honra e à moral, são puníveis. Não se pode é sobrepor um direito ao outro, cassando o da liberdade de expressão.
Urge, pois, vencer o lobby contra as biografias não autorizadas e pôr fim à celeuma. Desde 2011, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n° 393, destinado a alterar o art. 20 do Código Civil, que impõe a necessidade de permissão prévia. Embora a liberdade de expressão esteja garantida na Constituição, esse dispositivo tem intimidado escritores a produzir obras do gênero, pois juízes se apegam a ele para acatar recursos e estabelecer a censura. Portanto, está nas mãos do Congresso Nacional a prerrogativa de expurgar a violência contra esse direito fundamental que diz respeito à liberdade do ser humano.
Saneamento básico avança muito devagar - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 13/10
Recente pesquisa do IBGE mostrou que 91,2% dos lares brasileiros já têm serviços de telefonia, mas 43% ainda não contam com redes adequadas de água e esgoto
Os brasileiros estão mais bem servidos em telecomunicações do que em saneamento básico. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE em 2012, 91,2% dos lares contavam com algum tipo de serviço de telefonia (linhas ficas ou móveis). Cerca de 25 milhões de lares estão conectados à internet por meio de computadores. Os programas de universalização de energia elétrica também permitiram que mais de 90% dos lares agora tenham aparelhos de TV e geladeira.
No entanto, quando a pesquisa retrata a situação do saneamento básico, constata-se que ainda 43% dos domicílios não contam adequadamente com serviço de coleta e tratamento de esgoto. De 2011 para 2012 até que a rede de esgotos avançou, mas apenas 2,2 pontos percentuais. A parcela de domicílios atendidos teria então alcançado 57,1%.
São bem conhecidos os benefícios gerados por redes adequadas de saneamento básico no sentido amplo, que envolve fornecimento de água de boa qualidade, coleta e tratamento de esgotos, e recolhimento, reciclagem e depósito apropriado de lixo domiciliar (resíduos sólidos). Em valores redondos, estima-se que para cada R$ 1 investido em saneamento básico é possível se economizar R$ 4 em despesas com saúde. A transmissão de doenças pela água, principalmente entre os mais pobres, que recorrem aos sistemas públicos de saúde, ainda atinge proporções calamitosas.
Enquanto os avanços são modestos, a responsabilidade pelos serviços de saneamento básico continua sendo alvo de disputas e polêmicas. Municípios não atendidos muitas vezes esbarram na pressão de companhias estaduais contrárias à concessão de empresas privadas. Há também situações vexaminosas, como é o caso de algumas cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Estações de tratamento de esgoto ficaram prontas (financiadas pelo antigo programa de despoluição da Baía de Guanabara) antes das redes de coleta. E as redes de coleta, por sua vez, também costumam ficar ociosas por falta de ligações domiciliares. No lugar de um investimento coordenado, o estado joga a culpa para o município, e o município para o estado. Mas a esperança de que os avanços se acelerem se mantém, em razão de compensações ambientais de grandes projetos de infraestrutura. Em decorrência da construção das Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, Porto Velho enfim passará a contar com redes de saneamento básico. O mesmo ocorrerá com Altamira e outros municípios ao longo da rodovia Transamazônica, na área de influência da usina de Belo Monte.
No Rio, devido aos compromissos assumidos para os Jogos Olímpicos de 2016, redes de coleta e tratamento de esgoto estão sendo plantadas na região da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá, o que ajudará a despoluir as lagoas daquela baixada. Nas demais áreas da Zona Oeste, uma parceria público-privada da prefeitura promete elevar para 85%, neste década, o índice de coleta e tratamento de esgotos. A meta precisa ser seguida à risca.
Recente pesquisa do IBGE mostrou que 91,2% dos lares brasileiros já têm serviços de telefonia, mas 43% ainda não contam com redes adequadas de água e esgoto
Os brasileiros estão mais bem servidos em telecomunicações do que em saneamento básico. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE em 2012, 91,2% dos lares contavam com algum tipo de serviço de telefonia (linhas ficas ou móveis). Cerca de 25 milhões de lares estão conectados à internet por meio de computadores. Os programas de universalização de energia elétrica também permitiram que mais de 90% dos lares agora tenham aparelhos de TV e geladeira.
No entanto, quando a pesquisa retrata a situação do saneamento básico, constata-se que ainda 43% dos domicílios não contam adequadamente com serviço de coleta e tratamento de esgoto. De 2011 para 2012 até que a rede de esgotos avançou, mas apenas 2,2 pontos percentuais. A parcela de domicílios atendidos teria então alcançado 57,1%.
São bem conhecidos os benefícios gerados por redes adequadas de saneamento básico no sentido amplo, que envolve fornecimento de água de boa qualidade, coleta e tratamento de esgotos, e recolhimento, reciclagem e depósito apropriado de lixo domiciliar (resíduos sólidos). Em valores redondos, estima-se que para cada R$ 1 investido em saneamento básico é possível se economizar R$ 4 em despesas com saúde. A transmissão de doenças pela água, principalmente entre os mais pobres, que recorrem aos sistemas públicos de saúde, ainda atinge proporções calamitosas.
Enquanto os avanços são modestos, a responsabilidade pelos serviços de saneamento básico continua sendo alvo de disputas e polêmicas. Municípios não atendidos muitas vezes esbarram na pressão de companhias estaduais contrárias à concessão de empresas privadas. Há também situações vexaminosas, como é o caso de algumas cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Estações de tratamento de esgoto ficaram prontas (financiadas pelo antigo programa de despoluição da Baía de Guanabara) antes das redes de coleta. E as redes de coleta, por sua vez, também costumam ficar ociosas por falta de ligações domiciliares. No lugar de um investimento coordenado, o estado joga a culpa para o município, e o município para o estado. Mas a esperança de que os avanços se acelerem se mantém, em razão de compensações ambientais de grandes projetos de infraestrutura. Em decorrência da construção das Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, Porto Velho enfim passará a contar com redes de saneamento básico. O mesmo ocorrerá com Altamira e outros municípios ao longo da rodovia Transamazônica, na área de influência da usina de Belo Monte.
No Rio, devido aos compromissos assumidos para os Jogos Olímpicos de 2016, redes de coleta e tratamento de esgoto estão sendo plantadas na região da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá, o que ajudará a despoluir as lagoas daquela baixada. Nas demais áreas da Zona Oeste, uma parceria público-privada da prefeitura promete elevar para 85%, neste década, o índice de coleta e tratamento de esgotos. A meta precisa ser seguida à risca.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Penso que nós teremos um julgamento rápido”
Ministro Ricardo Lewandowski (STF) sobre o novo julgamento do mensalão
FARRA DE CARGOS AUMENTA A CADA LEGISLATURA
Deputados se apressam no início de cada legislatura para apresentar e aprovar Atos da Mesa Diretora e Resoluções do Plenário que alteram a estrutura administrativa da Câmara dos Deputados, adicionando cada vez mais cargos aos quadros. No início da legislatura atual, em 2011, a “reestruturação” adicionou às oito maiores bancadas (à época PT, PP, PMDB, PSDB, DEM, PR, PSB e PDT) mais 84 cargos comissionados.
EM MIÚDOS
A mudança na estrutura para acomodar aspones custa R$ 8,68 milhões a mais para cada um dos quatro anos de mandato dos deputados.
PARA TODOS
O PSD ficou de fora da farra pois não existia no início de 2011, mas a Resolução nº 9/2011 criou 56 cargos ao custo de R$ 5,6 milhões.
OS NOVATOS
PROS e Solidariedade serão como o PSD: não existiam no começo da legislatura, mas serão agraciados com dezenas de cargos comissionais
SEMPRE NO COMEÇO
As Resoluções de nº 4 de 2011 e nº 1 de 2007 alteraram as estrutura e presentearam partidos com cargos comissionados.
LULA EVITA BATER DE FRENTE COM CAMPOS E MARINA
O ex-presidente Lula aconselhou lideranças petistas a não partir para o enfrentamento público com o governador Eduardo Campos (PSB-PE) e a ex-senadora Marina Silva, que se uniram para disputar a Presidência em 2014. Para Lula, dar corda neste momento – sem a divulgação de pesquisas para avaliar os riscos reais – só aumenta a exposição da dupla na mídia e pode inviabilizar apoio num eventual segundo turno.
CÁ ENTRE NÓS
Em reunião esta semana com políticos de Pernambuco, Lula pediu que a conversa ficasse em sigilo e reiterou: “Eduardo não tem limites”.
QUEM PROVOCA...
Jean Wyllys (PSOL-RJ) acusou o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), essa semana, de chamar índios de “vagabundos”, na Câmara.
... LEVA
Heinze respondeu: Wyllys “veio com meia dúzia de votos”. Com 12 mil votos, Jean pegou carona com Chico Alencar (PSOL), que teve 240 mil.
PODE ISSO?
Dilma e o governador Eduardo Campos (PSB-PE) nem disfarçaram a campanha antecipada, na quinta (10): ela com Lula, Mercadante e o marqueteiro João Santana, no Planalto. Campos paparicando Marina.
ACERTO DE CONTAS
Deve sair na próxima semana o resultado do inquérito interno do Itamaraty sobre as denúncias de assédio moral, sexual e homofobia envolvendo o embaixador em Sidney (Austrália) Américo Fontenelle, e seu adjunto, César Cidade. Eles foram afastados há três meses.
NINGUÉM ME AMA
Quando ouviu na presidência do Senado que a indicação de Vital do Rêgo para o Ministério da Integração é “questão de honra”, o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), três vezes preterido para ser ministro, choramingou: “Quando fui indicado, o partido não foi tão enfático...”.
PEIXE NA REDE
De olho em obter apoio na disputa ao governo do Rio, o deputado Miro Teixeira (PROS) – aliado de Marina Silva – brinca que o presidente do PSB-RJ, o ex-jogador Romário, “sempre teve como objetivo a rede”.
TIRO NO PÉ
O deputado Fábio Ramalho considera um tiro no pé confiar que Marina Silva transfere votos: “Ela dá uma de popstar, mas, em 2010, apesar de sua boa votação, os deputados do PV caíram de 4 para 2 em Minas”.
FIRME E FORTE
A cúpula nacional do PMDB quer manter Marcelo Miranda – cassado em 2009 pela Justiça Eleitoral – na disputa pelo governo de Tocantins; a senadora Kátia Abreu deve sair candidata à reeleição pela chapa.
TÁ FEIA A COISA
O sindicato dos bancários anda preocupado com a saúde mental dos colegas do banco Santander, líder em queixas no Procon. É que as reclamações já viraram insultos, e o tímpano dos coitados é que sofre.
ACERTANDO AS PONTAS
O primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, apresentou ao vice-presidente Michel Temer seis pontos “delicados” para melhorar as relações empresariais entre os dois países. Portugal é, hoje, o quarto maior investidor no Brasil, que ocupa o sétimo lugar no ranking português.
PENSANDO BEM...
... a greve dos bancários, que ninguém percebeu, acaba nesta segunda-feira sem nem mesmo ter começado.
PODER SEM PUDOR
PEQUENA DIFERENÇA
Batiam papo, no início de 1991, os secretários de Cultura do município de São Paulo, Marilena Chauí, e do Estado, Fernando Morais. Ela contou sua reação ao ser convidada para o cargo pela prefeita Luiza Erundina:
- Erundina, eu não posso aceitar, eu não devo aceitar, eu não quero aceitar.
Morais disse quase a mesmo coisa ao governador Orestes Quércia:
- Eu não posso aceitar, eu não devo aceitar, mas quero muito aceitar.
Ministro Ricardo Lewandowski (STF) sobre o novo julgamento do mensalão
FARRA DE CARGOS AUMENTA A CADA LEGISLATURA
Deputados se apressam no início de cada legislatura para apresentar e aprovar Atos da Mesa Diretora e Resoluções do Plenário que alteram a estrutura administrativa da Câmara dos Deputados, adicionando cada vez mais cargos aos quadros. No início da legislatura atual, em 2011, a “reestruturação” adicionou às oito maiores bancadas (à época PT, PP, PMDB, PSDB, DEM, PR, PSB e PDT) mais 84 cargos comissionados.
EM MIÚDOS
A mudança na estrutura para acomodar aspones custa R$ 8,68 milhões a mais para cada um dos quatro anos de mandato dos deputados.
PARA TODOS
O PSD ficou de fora da farra pois não existia no início de 2011, mas a Resolução nº 9/2011 criou 56 cargos ao custo de R$ 5,6 milhões.
OS NOVATOS
PROS e Solidariedade serão como o PSD: não existiam no começo da legislatura, mas serão agraciados com dezenas de cargos comissionais
SEMPRE NO COMEÇO
As Resoluções de nº 4 de 2011 e nº 1 de 2007 alteraram as estrutura e presentearam partidos com cargos comissionados.
LULA EVITA BATER DE FRENTE COM CAMPOS E MARINA
O ex-presidente Lula aconselhou lideranças petistas a não partir para o enfrentamento público com o governador Eduardo Campos (PSB-PE) e a ex-senadora Marina Silva, que se uniram para disputar a Presidência em 2014. Para Lula, dar corda neste momento – sem a divulgação de pesquisas para avaliar os riscos reais – só aumenta a exposição da dupla na mídia e pode inviabilizar apoio num eventual segundo turno.
CÁ ENTRE NÓS
Em reunião esta semana com políticos de Pernambuco, Lula pediu que a conversa ficasse em sigilo e reiterou: “Eduardo não tem limites”.
QUEM PROVOCA...
Jean Wyllys (PSOL-RJ) acusou o deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), essa semana, de chamar índios de “vagabundos”, na Câmara.
... LEVA
Heinze respondeu: Wyllys “veio com meia dúzia de votos”. Com 12 mil votos, Jean pegou carona com Chico Alencar (PSOL), que teve 240 mil.
PODE ISSO?
Dilma e o governador Eduardo Campos (PSB-PE) nem disfarçaram a campanha antecipada, na quinta (10): ela com Lula, Mercadante e o marqueteiro João Santana, no Planalto. Campos paparicando Marina.
ACERTO DE CONTAS
Deve sair na próxima semana o resultado do inquérito interno do Itamaraty sobre as denúncias de assédio moral, sexual e homofobia envolvendo o embaixador em Sidney (Austrália) Américo Fontenelle, e seu adjunto, César Cidade. Eles foram afastados há três meses.
NINGUÉM ME AMA
Quando ouviu na presidência do Senado que a indicação de Vital do Rêgo para o Ministério da Integração é “questão de honra”, o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), três vezes preterido para ser ministro, choramingou: “Quando fui indicado, o partido não foi tão enfático...”.
PEIXE NA REDE
De olho em obter apoio na disputa ao governo do Rio, o deputado Miro Teixeira (PROS) – aliado de Marina Silva – brinca que o presidente do PSB-RJ, o ex-jogador Romário, “sempre teve como objetivo a rede”.
TIRO NO PÉ
O deputado Fábio Ramalho considera um tiro no pé confiar que Marina Silva transfere votos: “Ela dá uma de popstar, mas, em 2010, apesar de sua boa votação, os deputados do PV caíram de 4 para 2 em Minas”.
FIRME E FORTE
A cúpula nacional do PMDB quer manter Marcelo Miranda – cassado em 2009 pela Justiça Eleitoral – na disputa pelo governo de Tocantins; a senadora Kátia Abreu deve sair candidata à reeleição pela chapa.
TÁ FEIA A COISA
O sindicato dos bancários anda preocupado com a saúde mental dos colegas do banco Santander, líder em queixas no Procon. É que as reclamações já viraram insultos, e o tímpano dos coitados é que sofre.
ACERTANDO AS PONTAS
O primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, apresentou ao vice-presidente Michel Temer seis pontos “delicados” para melhorar as relações empresariais entre os dois países. Portugal é, hoje, o quarto maior investidor no Brasil, que ocupa o sétimo lugar no ranking português.
PENSANDO BEM...
... a greve dos bancários, que ninguém percebeu, acaba nesta segunda-feira sem nem mesmo ter começado.
PODER SEM PUDOR
PEQUENA DIFERENÇA
Batiam papo, no início de 1991, os secretários de Cultura do município de São Paulo, Marilena Chauí, e do Estado, Fernando Morais. Ela contou sua reação ao ser convidada para o cargo pela prefeita Luiza Erundina:
- Erundina, eu não posso aceitar, eu não devo aceitar, eu não quero aceitar.
Morais disse quase a mesmo coisa ao governador Orestes Quércia:
- Eu não posso aceitar, eu não devo aceitar, mas quero muito aceitar.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: PSDB melhorou serviços e PT reduziu desigualdade
- Folha: Falta de cadastro nacional permite um RG por Estado
- Estadão: Secretário vai pedir escutas do PCC para punir policiais
- Zero Hora: Brasil deve pegar junto para metrô sair, diz Dilma
- Correio Braziliense: Crédito maior cobre 80% dos imóveis novos no DF
- Estado de Minas: O Exército da Beleza
- Jornal do Commercio: O Nordeste além da seca
sábado, outubro 12, 2013
Cegueira estatística - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 12/10
SÃO PAULO - Um dos passatempos favoritos de estudiosos da teoria da decisão é testar médicos em questões que envolvem estatísticas --e os resultados são assustadores.
Num trabalho de 1982, David Eddy pediu a profissionais de saúde que estimassem a chance de uma paciente que apresentou mamografia positiva para neoplasia de fato ter a doença, considerando que a probabilidade de uma mulher ter câncer é de 1%, a sensibilidade do exame, de 80%, e a taxa de falsos positivos, de 9,6%.
Cerca de 95% dos médicos cravaram que o risco era de 75%, quando a resposta certa é 7,7%. Se você fizer a conta, verá que de cem mulheres testadas, quase dez (9,6%) apresentarão falso positivo e menos de uma (80% de 1%) será um positivo real. Não vou explicar aqui os vieses cognitivos que fazem os médicos e as pessoas em geral interpretarem números tão mal, mas, decididamente, é algo com que devemos nos preocupar.
Faço essas observações devido às críticas que recebi por ter defendido que optometristas possam prescrever óculos. Receio que também aqui nossos valorosos doutores sejam vítimas de uma cegueira estatística.
Segundo o estudo Demografia Médica, atuam no país 9.962 oftalmologistas, o que dá quase um profissional para cada 20 mil habitantes. Se o oftalmologista dedicasse 15 minutos a cada um trabalhando oito horas por dia, levaria dois anos e meio para ver todos. Como parcela considerável da população precisa de atendimento pelo menos anual --sem mencionar cirurgias--, a conta não fecha.
O déficit de oftalmologistas não é exclusivo do Brasil. O mundo todo discute o que fazer para atender à demanda, que cresce com o envelhecimento populacional. Experts como Serge Resnikoff defendem treinar equipes multidisciplinares formadas por oftalmologistas, médicos de outras especialidades, optometristas e ortoptistas. Só o que não faz sentido é deixar pessoas sem enxergar direito por disputas de mercado.
SÃO PAULO - Um dos passatempos favoritos de estudiosos da teoria da decisão é testar médicos em questões que envolvem estatísticas --e os resultados são assustadores.
Num trabalho de 1982, David Eddy pediu a profissionais de saúde que estimassem a chance de uma paciente que apresentou mamografia positiva para neoplasia de fato ter a doença, considerando que a probabilidade de uma mulher ter câncer é de 1%, a sensibilidade do exame, de 80%, e a taxa de falsos positivos, de 9,6%.
Cerca de 95% dos médicos cravaram que o risco era de 75%, quando a resposta certa é 7,7%. Se você fizer a conta, verá que de cem mulheres testadas, quase dez (9,6%) apresentarão falso positivo e menos de uma (80% de 1%) será um positivo real. Não vou explicar aqui os vieses cognitivos que fazem os médicos e as pessoas em geral interpretarem números tão mal, mas, decididamente, é algo com que devemos nos preocupar.
Faço essas observações devido às críticas que recebi por ter defendido que optometristas possam prescrever óculos. Receio que também aqui nossos valorosos doutores sejam vítimas de uma cegueira estatística.
Segundo o estudo Demografia Médica, atuam no país 9.962 oftalmologistas, o que dá quase um profissional para cada 20 mil habitantes. Se o oftalmologista dedicasse 15 minutos a cada um trabalhando oito horas por dia, levaria dois anos e meio para ver todos. Como parcela considerável da população precisa de atendimento pelo menos anual --sem mencionar cirurgias--, a conta não fecha.
O déficit de oftalmologistas não é exclusivo do Brasil. O mundo todo discute o que fazer para atender à demanda, que cresce com o envelhecimento populacional. Experts como Serge Resnikoff defendem treinar equipes multidisciplinares formadas por oftalmologistas, médicos de outras especialidades, optometristas e ortoptistas. Só o que não faz sentido é deixar pessoas sem enxergar direito por disputas de mercado.
O Papa e Woody Allen - ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA
O GLOBO - 12/10
No mundo de hoje, o que é, onde está, para que serve o poder?
Na obscuridade da noite voa um fantasma e abre as asas sobre a humanidade. Todos o conhecem. Mas o fantasma se esfuma com a aurora para renascer à noite nos corações. Quem é o fantasma que nasce à noite e morre ao amanhecer?
O sombrio enigma, proposto pela princesa Turandot na ópera de Puccini, servia para afastar pretendentes, já que ela repudiava a ideia do casamento. Um príncipe desconhecido acertou: “O fantasma é a esperança.”
Com esse diálogo, citado de memória, o Papa Francisco na entrevista concedida à revista dos jesuítas “Civiltà Cattolica” explicou que não gosta da palavra otimismo, prefere esperança que, para ele, não é um fantasma e não morre a cada dia.
A entrevista do Papa é um alento para quem vive o tempo presente e, à força de esbarrar em crueldades, impunidades e injustiças, corre o risco da desistência.
Suas palavras corajosas de acolhimento e compreensão, sem julgamento e condenação, dirigidas às mulheres e aos homossexuais merecidamente repercutiram mundo a fora. Falou-se menos da sua contundente denúncia da economia mundial que, segundo ele, nos está levando a uma tragédia. “Vivemos as consequências de uma decisão mundial, de um sistema econômico que tem no centro um ídolo que se chama dinheiro. A idolatria do dinheiro está roubando nossa dignidade.”
Foi preciso a estatura de um líder espiritual para reabrir uma questão em que está em jogo a civilização e que vinha sendo escamoteada, se apagava no esquecimento, exceto para quem ainda dorme em barracas, faz a fila da sopa ou procura inutilmente um emprego.
Não pensei que um dia encontraria afinidades entre Woody Allen e o Papa Francisco. Descubro que, se não partilham os mesmos gostos, certamente partilham um mesmo desgosto.
Seu último filme, “Blue Jasmine”, é uma fábula moderna, que mistura o caso Madoff com personagens inspirados em “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams. Um pouco de Blanche em Jasmine, tinturas de Kowalski no namorado da irmã de Jasmine, para melhor contar a escroquerie que tomou conta da América e roubou a dignidade dos que trabalham, espalhando tragédia.
Na cena final, Jasmine, milionária nova-iorquina que inventara a si mesma cobrindo-se de grifes, cúmplice do marido vigarista, vigarista ela mesma, agora arruinada, despossuída de tudo, incapaz de viver a vida real, senta-se em um banco de praça, desfigurada, falando sozinha de seus tempos de fortuna, metáfora da loucura e da perdição em que mergulhou o capitalismo financeiro onde a ganância fez-se a regra e o dinheiro é Deus.
Woody Allen descreve esse mundo com os recursos da caricatura no que ela tem de mais poderosa, o encontro da descrição com a crítica em um mesmo traço. A crise financeira de 2008 que se arrasta até hoje inspirou-lhe um filme amargo. O andar de baixo e o de cima da sociedade americana só se encontram nos terremotos, quando o andar cima — Wall Street, Nova York — desaba sobre o andar de baixo, os outsiders da Costa Oeste. Cinco anos depois, ainda há milhões soterrados pelo desemprego.
Enquanto sem escrúpulos espiona o mundo à cata de terroristas, o presidente americano dá guarida, em seu próprio gabinete, a responsáveis diretos por um atentado devastador à economia mundial que, em ricochete, põe em risco a Europa, fortalecendo a xenofobia e a extrema-direita. E parecia que tudo ficava por isso mesmo.
Mas eis que o Papa falou, denunciando a “globalização da indiferença”. O Papa que em sua primeira viagem aportou na ilha de Lampedusa em cujas águas, há anos, naufragam os barcos e as esperanças de imigrantes africanos que, como agora, vêm morrer na praia. Que ameaça fechar o sulfuroso Banco do Vaticano e escolhe a Basílica de Assis, berço da Igreja dos Pobres, para reafirmar sua fé nos gestos do dia a dia das pessoas honestas e solidárias e no tempo escultor de grandes mudanças.
Não se subestime o poder de um Papa em sua crítica às taras da economia mundial. Outro Papa pôs a nu o apodrecimento do regime comunista e lá se foi o muro de Berlim. Entra em cena um ator inesperado cuja audiência vai muito além dos católicos e, fato inaugural, se dirige às pessoas mais do que aos Estados.
No nosso triste país das condenações embargadas, das candidaturas proibidas, da política desgastada, sua fala se traduz em uma interrogação: será a esperança, aqui, o fantasma que morre sempre ao amanhecer ou ainda encontrará encarnação no dia a dia das pessoas honestas e solidárias?
E sugere um novo enigma: no mundo de hoje, o que é, onde está, para que serve o poder?
No mundo de hoje, o que é, onde está, para que serve o poder?
Na obscuridade da noite voa um fantasma e abre as asas sobre a humanidade. Todos o conhecem. Mas o fantasma se esfuma com a aurora para renascer à noite nos corações. Quem é o fantasma que nasce à noite e morre ao amanhecer?
O sombrio enigma, proposto pela princesa Turandot na ópera de Puccini, servia para afastar pretendentes, já que ela repudiava a ideia do casamento. Um príncipe desconhecido acertou: “O fantasma é a esperança.”
Com esse diálogo, citado de memória, o Papa Francisco na entrevista concedida à revista dos jesuítas “Civiltà Cattolica” explicou que não gosta da palavra otimismo, prefere esperança que, para ele, não é um fantasma e não morre a cada dia.
A entrevista do Papa é um alento para quem vive o tempo presente e, à força de esbarrar em crueldades, impunidades e injustiças, corre o risco da desistência.
Suas palavras corajosas de acolhimento e compreensão, sem julgamento e condenação, dirigidas às mulheres e aos homossexuais merecidamente repercutiram mundo a fora. Falou-se menos da sua contundente denúncia da economia mundial que, segundo ele, nos está levando a uma tragédia. “Vivemos as consequências de uma decisão mundial, de um sistema econômico que tem no centro um ídolo que se chama dinheiro. A idolatria do dinheiro está roubando nossa dignidade.”
Foi preciso a estatura de um líder espiritual para reabrir uma questão em que está em jogo a civilização e que vinha sendo escamoteada, se apagava no esquecimento, exceto para quem ainda dorme em barracas, faz a fila da sopa ou procura inutilmente um emprego.
Não pensei que um dia encontraria afinidades entre Woody Allen e o Papa Francisco. Descubro que, se não partilham os mesmos gostos, certamente partilham um mesmo desgosto.
Seu último filme, “Blue Jasmine”, é uma fábula moderna, que mistura o caso Madoff com personagens inspirados em “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams. Um pouco de Blanche em Jasmine, tinturas de Kowalski no namorado da irmã de Jasmine, para melhor contar a escroquerie que tomou conta da América e roubou a dignidade dos que trabalham, espalhando tragédia.
Na cena final, Jasmine, milionária nova-iorquina que inventara a si mesma cobrindo-se de grifes, cúmplice do marido vigarista, vigarista ela mesma, agora arruinada, despossuída de tudo, incapaz de viver a vida real, senta-se em um banco de praça, desfigurada, falando sozinha de seus tempos de fortuna, metáfora da loucura e da perdição em que mergulhou o capitalismo financeiro onde a ganância fez-se a regra e o dinheiro é Deus.
Woody Allen descreve esse mundo com os recursos da caricatura no que ela tem de mais poderosa, o encontro da descrição com a crítica em um mesmo traço. A crise financeira de 2008 que se arrasta até hoje inspirou-lhe um filme amargo. O andar de baixo e o de cima da sociedade americana só se encontram nos terremotos, quando o andar cima — Wall Street, Nova York — desaba sobre o andar de baixo, os outsiders da Costa Oeste. Cinco anos depois, ainda há milhões soterrados pelo desemprego.
Enquanto sem escrúpulos espiona o mundo à cata de terroristas, o presidente americano dá guarida, em seu próprio gabinete, a responsáveis diretos por um atentado devastador à economia mundial que, em ricochete, põe em risco a Europa, fortalecendo a xenofobia e a extrema-direita. E parecia que tudo ficava por isso mesmo.
Mas eis que o Papa falou, denunciando a “globalização da indiferença”. O Papa que em sua primeira viagem aportou na ilha de Lampedusa em cujas águas, há anos, naufragam os barcos e as esperanças de imigrantes africanos que, como agora, vêm morrer na praia. Que ameaça fechar o sulfuroso Banco do Vaticano e escolhe a Basílica de Assis, berço da Igreja dos Pobres, para reafirmar sua fé nos gestos do dia a dia das pessoas honestas e solidárias e no tempo escultor de grandes mudanças.
Não se subestime o poder de um Papa em sua crítica às taras da economia mundial. Outro Papa pôs a nu o apodrecimento do regime comunista e lá se foi o muro de Berlim. Entra em cena um ator inesperado cuja audiência vai muito além dos católicos e, fato inaugural, se dirige às pessoas mais do que aos Estados.
No nosso triste país das condenações embargadas, das candidaturas proibidas, da política desgastada, sua fala se traduz em uma interrogação: será a esperança, aqui, o fantasma que morre sempre ao amanhecer ou ainda encontrará encarnação no dia a dia das pessoas honestas e solidárias?
E sugere um novo enigma: no mundo de hoje, o que é, onde está, para que serve o poder?
Algo de podre - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
FOLHA DE SP - 12/10
Quando uma novata assume o cargo mais importante do país, os princípios são logo esquecidos
Em uma sequência especialmente nauseante, a chefe decide que um de seus colaboradores mais íntegros precisa ser enquadrado. Andava meio rebelde, contestava as linhas de comando. Seria bom tomar um susto.
"O que temos contra ele?", pergunta a mulher ao marqueteiro de quem não desgruda um segundo.
"Quase nada", diz o estrategista. Só uma fofoca: que, apesar de político verde, ele coleciona carros antigos, do tipo de que bebe dez vezes mais gasolina que os atuais. Até importou um Cadillac anos 50 de Cuba, onde as banheiras ainda rodam.
"Vaze isso para a imprensa", ordena a chefe.
As consequências são devastadoras. O fato de a notícia não ser exatamente nova, de já ter saído antes, pouco importa. O colaborador, homem reto, tem a vida pessoal e profissional destruída pelo pecadilho do Cadillac. E por obra da chefe a quem servia tão fielmente.
A chefe é Birgitte Nyborg, primeira-ministra fictícia da Dinamarca, personagem central de uma série de TV fascinante, chamada "Borgen". O subordinado que ela apunhalou é um de seus ministros, Amir Dwian, do Partido Verde.
Em 2012, "Borgen", produção da emissora dinamarquesa DR, fez muito sucesso na BBC de Londres. Mesmo com legendas, coisa a que o público de fala inglesa está pouco acostumado.
Também chamou a atenção da crítica americana, quando foi exibida em canais alternativos por lá. Chegou a passar no Brasil, no cabo, mas quase ninguém percebeu.
A boa notícia é que as duas primeiras temporadas saíram em DVD nos EUA. Ficou fácil achar na internet.
"Borgen" gira em torno de Birgitte Nyborg, interpretada pela magnética Sidse Babett Knudsen, 45, cujo sorriso caloroso é capaz de derreter as mais renitentes geleiras.
Nyborg comanda um partido pequeno, o Moderado, que apoia causas fofas e politicamente corretas: condenam leis duras de imigração, querem a saúde cada vez mais pública, defendem o estado de bem-estar social típico da Escandinávia, pretendem preservar a natureza.
A trama começa em uma crise do regime parlamentar. Nenhum dos dois maiores partidos, o Trabalhista e o Conservador, consegue formar um gabinete. Entregar o posto de primeira-ministra à novata Birgitte Nyborg, líder dos moderados, surge como solução conciliadora.
Se "Borgen" fosse uma série tradicional, mais próxima do padrão americano, mostraria o embate da militante íntegra conta o pântano da política tradicional.
Mas não é o que se vê. Um pouco desajeitada no começo, Birgitte rapidamente pega o jeito do cargo e faz aquilo que políticos fazem: trai companheiros, esquece quase todos os princípios, guia-se pela obsessão de manter o poder a qualquer custo. Tem seus dramas de consciência, mas são poucos e passam logo.
A seu lado, inseparável, o marqueteiro Kasper Juul. Figura misteriosa, ele é ex-namorado da principal apresentadora do maior canal da Dinamarca, a jovem, combativa e estonteante Katrine Fønsmark. "Ex" talvez não seja a melhor definição, já que Kasper e Katrine vivem uma relação de idas e vindas.
Birgitte, a primeira-ministra, tem marido e dois filhos (um menino de oito anos e uma menina de 13). O marido é um executivo importante, que, muito escandinavamente, vinha passando os últimos anos em casa, a cuidar das crianças, para que a mulher se dedicasse à política. Não demora muito para tudo isso ruir. A vida pessoal de Birgitte se transforma em pesadelo.
O marqueteiro Kasper --que talvez nem se chame Kasper-- esconde o passado "white trash" e um histórico de abuso doméstico quando criança. Foi justamente por ser tão envolto em segredos que a deusa Katrine Fønsmark o abandonou pela primeira vez.
Katrine, mesmo bela e famosa, vive só, em um apartamento bagunçado de estudante. De vez em quando, se entrega ao primeiro desclassificado que vê pela frente. De vez em quando volta para Kasper.
Birgitte, Kasper e Katrine são os três pilares que sustentam a narrativa densa e cadenciada de "Borgen".
A luz é sempre angulosa (estamos perto do polo Norte, afinal). Vive-se de modo impensável para brasileiros --a primeira-ministra continua morando em sua casa de classe média, reuniões ministeriais só têm 16 pessoas (incluindo assessores), os políticos não roubam e muitos deputados vão trabalhar de bicicleta. Os diálogos fluem com naturalidade, sem a concisão forçada de tantas séries americanas.
"Borgen", e a produção dinamarquesa em geral, não são televisão como a conhecemos. São uma outra TV. Preste atenção.
Ueba! Marina e Campos: MACA! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 12/10
Dilma vai dar uma declaração: "Crianças, vou dar uma voadora se sua mãe se não vier trabalhar"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje! Dia da Padroeira e Dia das Crianças. E eu acordei deprimido porque não sou mais criança! E a Nossa Senhora da Aparecida que me perdoe, mas a padroeira do Brasil é a Ladroeira. Nossa Senhora da Ladroeira!
E como esse ano não tem eleição, não tem político na Basílica. Só o Alckmin. Que é barata de igreja. O Serra Vampiro Anêmico não pode ir. Quando o padre joga água benta, ele dissolve. Rarará!
E vampiro não tem medo de crucifixo? Não, o crucifixo que tem medo do Serra!
E a Dilma quando foi pela primeira vez na Basílica, gritou: "Que lindo! Parece uma padaria!". Rarará! E eu disse que vai ter um programa de ajuda ao Eike: Bolsa Famíliax. Todos com xis no nome terão direito. Xisleine, Xisvaldo, Xana e Xuxa!
Gente, e o discurso da Marina? Uma amiga me disse que a Marina tá parecendo a Menina Pastora Louca! Rarará. E essa fusão Campos-Marina devia ser CAMA! Não tem rede, deita na cama. Se não der certo, a CAMA vira MACA! Rarará! Eu acho que a Marina vai dar uma rasteira e roubar o partido do Eduardo Campos. Que com aquele olho esbugalhado parece o Jack Nicholson em "O Iluminado"! A Menina Pastora Louca e O Iluminado!
E Dia da Criança! Diz que a Dilma vai dar uma declaração: "Crianças do meu Brasil: a Fadinha do Dente não existe, coelho não bota ovo e eu vou dar uma voadora na sua mãe se ela não vier trabalhar hoje".
E como disse o chargista Marco Aurélio: criança é a pessoa mais requisitada da casa. "Filho, o Macintosh não deleta." "Filho, dá uma olhada no iPhone da mamãe?" "Netinho, como ligo o celular?" E o filho de um amigo meu pediu de presente: "Um 1x1 com cabo HDMI e um MP3 com 64 GB". E ele não entendeu nada. E a filha duma amiga minha perguntou: "Mãe, o que é orgasmo?". "Não sei, pergunta pro seu pai!" Rarará. É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! E essa placa no supermercado: "Rabo Salgado, R$ 7,99!". Deviam botar embaixo: "Não recomendado para hipertensos!". Rarará. E olha esse outdoor em Petrolina, Pernambuco: "Governo Federal. Brasil. País Rico é País Sem POPREZA". Rarará! O Brasil acabou com a "popreza". E com a língua portuguesa! Brasileiro escreve tudo errado, mas todo mundo se entende! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Dilma vai dar uma declaração: "Crianças, vou dar uma voadora se sua mãe se não vier trabalhar"
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje! Dia da Padroeira e Dia das Crianças. E eu acordei deprimido porque não sou mais criança! E a Nossa Senhora da Aparecida que me perdoe, mas a padroeira do Brasil é a Ladroeira. Nossa Senhora da Ladroeira!
E como esse ano não tem eleição, não tem político na Basílica. Só o Alckmin. Que é barata de igreja. O Serra Vampiro Anêmico não pode ir. Quando o padre joga água benta, ele dissolve. Rarará!
E vampiro não tem medo de crucifixo? Não, o crucifixo que tem medo do Serra!
E a Dilma quando foi pela primeira vez na Basílica, gritou: "Que lindo! Parece uma padaria!". Rarará! E eu disse que vai ter um programa de ajuda ao Eike: Bolsa Famíliax. Todos com xis no nome terão direito. Xisleine, Xisvaldo, Xana e Xuxa!
Gente, e o discurso da Marina? Uma amiga me disse que a Marina tá parecendo a Menina Pastora Louca! Rarará. E essa fusão Campos-Marina devia ser CAMA! Não tem rede, deita na cama. Se não der certo, a CAMA vira MACA! Rarará! Eu acho que a Marina vai dar uma rasteira e roubar o partido do Eduardo Campos. Que com aquele olho esbugalhado parece o Jack Nicholson em "O Iluminado"! A Menina Pastora Louca e O Iluminado!
E Dia da Criança! Diz que a Dilma vai dar uma declaração: "Crianças do meu Brasil: a Fadinha do Dente não existe, coelho não bota ovo e eu vou dar uma voadora na sua mãe se ela não vier trabalhar hoje".
E como disse o chargista Marco Aurélio: criança é a pessoa mais requisitada da casa. "Filho, o Macintosh não deleta." "Filho, dá uma olhada no iPhone da mamãe?" "Netinho, como ligo o celular?" E o filho de um amigo meu pediu de presente: "Um 1x1 com cabo HDMI e um MP3 com 64 GB". E ele não entendeu nada. E a filha duma amiga minha perguntou: "Mãe, o que é orgasmo?". "Não sei, pergunta pro seu pai!" Rarará. É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! E essa placa no supermercado: "Rabo Salgado, R$ 7,99!". Deviam botar embaixo: "Não recomendado para hipertensos!". Rarará. E olha esse outdoor em Petrolina, Pernambuco: "Governo Federal. Brasil. País Rico é País Sem POPREZA". Rarará! O Brasil acabou com a "popreza". E com a língua portuguesa! Brasileiro escreve tudo errado, mas todo mundo se entende! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
A batalha pelo Nordeste - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 12/10
O presidente Lula vai sentar praça no Nordeste no primeiro semestre do ano que vem. Vai percorrer os estados fazendo propaganda das realizações dos governos petistas para a região. E vai entrar fundo em Pernambuco para lembrar que levou para lá a Fiat, uma refinaria e um estaleiro. Petistas dizem que é preciso minar Eduardo Campos (PSB) na região decisiva para sua arrancada.
A luta pelo voto
A presidente Dilma pediu a sua assessoria para programar, ainda neste ano, duas incursões ao Nordeste. A primeira será no quintal do candidato do PSB, o governador Eduardo Campos (PE), para inaugurar, em Afogados da Ingazeira, um trecho da adutora do Pajeú. A seguinte será para inaugurar a quinta etapa do Eixão das Águas, no Ceará, que levará água ao Porto de Pecém. A presidente Dilma não gostou de o candidato do PSDB, Aécio Neves, em seu programa de TV, ter mostrado imagens tentando vender que as obras da transposição do São Francisco estão paradas. Ela quer mostrar que existem 99 frentes de serviço e que a obra gera 6.300 empregos.
"A Marina (Silva) é uma espalha-brasas. Ela jogou o (Ronaldo) Caiado e o agronegócio no nosso colo"
Marcus Pestana
Presidente do PSDB mineiro e deputado federal
"Upgrade"
Não é só o PMDB que quer emplacar um senador no governo Dilma na reforma ministerial. O PP quer colocar seu presidente nacional, Ciro Nogueira (PI), no lugar do atual ministro Aguinaldo Ribeiro (PP), nas Cidades.
Boquinha
Os socialistas romperam com o governo Dilma e anunciaram que entregariam os cargos no governo federal. Mas alguns continuam agarrados aos seus. Um dos que se mantêm é o diretor-superintendente da Sudeco, Marcelo Dourado. Ele segue na cadeira e foi indicado pelo líder do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (DF), na foto.
Como assim?
Durante meses os tucanos repetiram que quanto mais candidatos, melhor para garantir um segundo turno. Eram três e ficaram dois, com a saída de Marina Silva. E os tucanos continuam afirmando que a oposição saiu fortalecida.
Quem ganha?
Levantamento por telefone feito pela equipe de Antônio Lavareda, a pedido do PSB, mostra que os votos de Marina Silva se distribuíram entre a presidente Dilma (PT) e Eduardo Campos (PSB). Nas 2.300 ligações, os entrevistados foram informados que Marina havia renunciado em favor de Eduardo. Dilma lidera e o socialista está em empate técnico com Aécio Neves (PSDB-MG).
Arrancada
O candidato do PSDB, Aécio Neves, vai lançar em novembro, em Poços de Caldas (MG), documento com os eixos de seu programa para presidente. Os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Antonio Anastasia (MG) estarão ao seu lado.
De volta
O ex-ministro das Relações Institucionais Walfrido Mares Guia tem ajudado o ex-presidente Lula nas articulações políticas. Auxiliou na filiação de Josué Alencar da Silva ao PMDB e está por trás de costuras eleitorais nos estados.
Proibido para maiores. Surpreendeu o PSB de São Paulo a faixa etária dos integrantes da Executiva da Rede. A idade média é 22 anos.
A luta pelo voto
A presidente Dilma pediu a sua assessoria para programar, ainda neste ano, duas incursões ao Nordeste. A primeira será no quintal do candidato do PSB, o governador Eduardo Campos (PE), para inaugurar, em Afogados da Ingazeira, um trecho da adutora do Pajeú. A seguinte será para inaugurar a quinta etapa do Eixão das Águas, no Ceará, que levará água ao Porto de Pecém. A presidente Dilma não gostou de o candidato do PSDB, Aécio Neves, em seu programa de TV, ter mostrado imagens tentando vender que as obras da transposição do São Francisco estão paradas. Ela quer mostrar que existem 99 frentes de serviço e que a obra gera 6.300 empregos.
"A Marina (Silva) é uma espalha-brasas. Ela jogou o (Ronaldo) Caiado e o agronegócio no nosso colo"
Marcus Pestana
Presidente do PSDB mineiro e deputado federal
"Upgrade"
Não é só o PMDB que quer emplacar um senador no governo Dilma na reforma ministerial. O PP quer colocar seu presidente nacional, Ciro Nogueira (PI), no lugar do atual ministro Aguinaldo Ribeiro (PP), nas Cidades.
Boquinha
Os socialistas romperam com o governo Dilma e anunciaram que entregariam os cargos no governo federal. Mas alguns continuam agarrados aos seus. Um dos que se mantêm é o diretor-superintendente da Sudeco, Marcelo Dourado. Ele segue na cadeira e foi indicado pelo líder do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (DF), na foto.
Como assim?
Durante meses os tucanos repetiram que quanto mais candidatos, melhor para garantir um segundo turno. Eram três e ficaram dois, com a saída de Marina Silva. E os tucanos continuam afirmando que a oposição saiu fortalecida.
Quem ganha?
Levantamento por telefone feito pela equipe de Antônio Lavareda, a pedido do PSB, mostra que os votos de Marina Silva se distribuíram entre a presidente Dilma (PT) e Eduardo Campos (PSB). Nas 2.300 ligações, os entrevistados foram informados que Marina havia renunciado em favor de Eduardo. Dilma lidera e o socialista está em empate técnico com Aécio Neves (PSDB-MG).
Arrancada
O candidato do PSDB, Aécio Neves, vai lançar em novembro, em Poços de Caldas (MG), documento com os eixos de seu programa para presidente. Os governadores Geraldo Alckmin (SP) e Antonio Anastasia (MG) estarão ao seu lado.
De volta
O ex-ministro das Relações Institucionais Walfrido Mares Guia tem ajudado o ex-presidente Lula nas articulações políticas. Auxiliou na filiação de Josué Alencar da Silva ao PMDB e está por trás de costuras eleitorais nos estados.
Proibido para maiores. Surpreendeu o PSB de São Paulo a faixa etária dos integrantes da Executiva da Rede. A idade média é 22 anos.
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