FOLHA DE SP - 04/08
Diversas consultorias têm como ofício principal vender suas projeções, é difícil crer em manipulação
Uma questão que tem perpassado o debate atual é em que medida as opiniões do mercado financeiro podem influenciar as decisões de política econômica e a economia em geral, na direção que lhe interessa.
É comum, por exemplo, pensar-se que o mercado financeiro "força" o Banco Central a praticar juros elevados, manipulando os dados de expectativa de inflação da pesquisa Focus. As previsões de inflação das instituições financeiras seriam enviesadas para valores maiores, de forma a "forçar" o Banco Central a subir a taxa Selic. A alta da taxa aumentaria os lucros dos bancos. Este seria, simplificadamente, um dos mecanismo de manipulação.
A pesquisa Focus coleta semanalmente, entre as principais instituições financeiras e consultorias, a expectativa que elas têm para diversas variáveis econômicas relevantes, como inflação, crescimento, câmbio e taxa de juros.
A suspeita de manipulação não é muito convincente, pois as instituições desejam acertar as previsões. De fato, o Banco Central divulga diversas estatísticas associadas às previsões, dentre elas a previsão das cinco instituições que mais acertam, bem como a identidade destas casas. São os famosos top five do Focus. Diversas consultorias têm como ofício principal construir modelos de previsão e vender suas projeções. É difícil acreditar em manipulação nestas circunstâncias.
De qualquer forma, recente trabalho do departamento de pesquisa do Banco Central do Brasil mostrou, para o período de 2002 a 2012, que o mercado financeiro em geral erra a previsão da inflação para menos. O erro não é muito grande, na casa de -0,5 ponto percentual para a previsão seis meses à frente, mas é estatisticamente significante. A subestimação da inflação pelo mercado aumenta um pouco conforme o horizonte de previsão eleva-se.
Assim, não tem sustentação empírica a suspeita de manipulação para mais das projeções de inflação. Ocorre o contrário: a inflação acaba surpreendendo para mais os analistas, sendo, na média, 0,5 ponto percentual acima do que se imaginava.
Uma segunda "acusação" aos analistas é a de subestimar o crescimento da atividade, instaurando um clima de pessimismo que acaba contaminando a economia real. Como se supõe que economistas do mercado financeiro não vejam com bons olhos a atual política econômica, aquele suposto pessimismo propositado poderia ser considerado uma forma sutil de sabotagem.
O mencionado trabalho do Banco Central não investiga se o mercado é pessimista em relação ao crescimento da economia. A tabela acima, entretanto, sugere que esse não é o caso.
Na primeira coluna da tabela encontra-se a previsão do Focus (a mediana da pesquisa) para o crescimento ao longo do ano. A previsão foi coletada pela pesquisa Focus no mês de dezembro do ano anterior. Com exceção de 2010, em que houve o fortíssimo crescimento do PIB de 7,5%, em grande medida recuperação da queda do ano anterior, o mercado tem superestimado o crescimento da economia.
Ou seja, toda a fortíssima perda de dinamismo que tem ocorrido na economia brasileira não tem sido prevista pela pesquisa do Banco Central junto aos analistas. Tem ocorrido o contrário do que muitos acham: é o fraco desempenho da economia que tem surpreendido o mercado, e não o pessimismo do mercado que tem contribuído para piorar o desempenho da economia.
domingo, agosto 04, 2013
O genérico e seu original - CELSO MING
ESTADÃO - 04/08
O medicamento genérico é sucesso de produção e de vendas no Brasil, mas não conseguiu se livrar totalmente da mesma síndrome que ainda toma o mercado de autopeças: a de que "se não for da marca original, não é a mesma coisa".
Isso ocorre, em parte, porque persiste certa resistência dos médicos brasileiros em prescrever genéricos. Para Gerson Pianetti, presidente da Comissão da Farmacopeia Brasileira e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não há fundamento para essa desconfiança. "São raros os casos em que não há resposta ao tratamento."
Essa resistência é relativamente pequena no Sudeste e maior nas outras regiões do País, especialmente no Norte e no Nordeste. Pianetti atribui o comportamento desse segmento de médicos a sua maior suscetibilidade ao lobby dos grandes laboratórios farmacêuticos, que nunca engoliram a competição que lhes passaram a fazer os genéricos. "É o tal processo de convencimento e fidelização colocado em prática por grandes indústrias, que nem sempre se baseia na qualidade do medicamento".
Para combater a cisma de que a resposta do genérico aos tratamentos é inferior, Pianetti defende maior atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), organismo encarregado de fiscalizar o setor, depois do início de comercialização.
Para que um medicamento obtenha registro e autorização para produção e comercialização, os laboratórios devem apresentar dossiês que descrevam minuciosamente fórmulas, etapas de produção e controle de qualidade. Em seguida, o produto é submetido a testes de bioequivalência. No entanto, depois de expedida a autorização, o acompanhamento da Anvisa para assegurar que o produto à venda nas farmácias é rigorosamente equivalente ao do projeto original é feito apenas por amostragem e sem periodicidade definida, por meio do Programa Nacional de Verificação da Qualidade de Medicamentos (Proveme).
O diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, admite o problema, mas argumenta que, para fazer esse trabalho, a instituição precisaria de mais estrutura e de pessoal. Ele afirma que todo o processo de aprovação leva, em média, 18 meses. Metade desse tempo, reconhece ele, é tomado para suprir deficiências de informações passadas pelas farmacêuticas. Cerca de 60% dos processos são iniciados sem que o fabricante apresente a documentação completa, prática que cumpre apenas a função de guardar lugar na fila. "O ideal seria um período não superior a oito ou, no máximo, a dez meses. Não convivemos bem com esse prazo longo demais."
E faz uma observação de natureza semântica: "o termo genérico não ajuda porque acaba passando a ideia de segundo lugar, de cópia de outro produto". Mas ele assegura que as exigências impostas às empresas no processo de registro dão "absoluta garantia da segurança".
Pianetti sugere que a Anvisa ao menos incentive os médicos a lhe encaminhar correspondência cada vez que tiverem a percepção de que alguma coisa no medicamento genérico deixou de funcionar./ COLABOROU DANIELLE VILLELA
O medicamento genérico é sucesso de produção e de vendas no Brasil, mas não conseguiu se livrar totalmente da mesma síndrome que ainda toma o mercado de autopeças: a de que "se não for da marca original, não é a mesma coisa".
Isso ocorre, em parte, porque persiste certa resistência dos médicos brasileiros em prescrever genéricos. Para Gerson Pianetti, presidente da Comissão da Farmacopeia Brasileira e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não há fundamento para essa desconfiança. "São raros os casos em que não há resposta ao tratamento."
Essa resistência é relativamente pequena no Sudeste e maior nas outras regiões do País, especialmente no Norte e no Nordeste. Pianetti atribui o comportamento desse segmento de médicos a sua maior suscetibilidade ao lobby dos grandes laboratórios farmacêuticos, que nunca engoliram a competição que lhes passaram a fazer os genéricos. "É o tal processo de convencimento e fidelização colocado em prática por grandes indústrias, que nem sempre se baseia na qualidade do medicamento".
Para combater a cisma de que a resposta do genérico aos tratamentos é inferior, Pianetti defende maior atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), organismo encarregado de fiscalizar o setor, depois do início de comercialização.
Para que um medicamento obtenha registro e autorização para produção e comercialização, os laboratórios devem apresentar dossiês que descrevam minuciosamente fórmulas, etapas de produção e controle de qualidade. Em seguida, o produto é submetido a testes de bioequivalência. No entanto, depois de expedida a autorização, o acompanhamento da Anvisa para assegurar que o produto à venda nas farmácias é rigorosamente equivalente ao do projeto original é feito apenas por amostragem e sem periodicidade definida, por meio do Programa Nacional de Verificação da Qualidade de Medicamentos (Proveme).
O diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, admite o problema, mas argumenta que, para fazer esse trabalho, a instituição precisaria de mais estrutura e de pessoal. Ele afirma que todo o processo de aprovação leva, em média, 18 meses. Metade desse tempo, reconhece ele, é tomado para suprir deficiências de informações passadas pelas farmacêuticas. Cerca de 60% dos processos são iniciados sem que o fabricante apresente a documentação completa, prática que cumpre apenas a função de guardar lugar na fila. "O ideal seria um período não superior a oito ou, no máximo, a dez meses. Não convivemos bem com esse prazo longo demais."
E faz uma observação de natureza semântica: "o termo genérico não ajuda porque acaba passando a ideia de segundo lugar, de cópia de outro produto". Mas ele assegura que as exigências impostas às empresas no processo de registro dão "absoluta garantia da segurança".
Pianetti sugere que a Anvisa ao menos incentive os médicos a lhe encaminhar correspondência cada vez que tiverem a percepção de que alguma coisa no medicamento genérico deixou de funcionar./ COLABOROU DANIELLE VILLELA
Até aqui, nada bem - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 04/07
A economia em 2013 entrou numa sequência de dados e fatos decepcionantes que se aprofundaram nos últimos dias. O dólar voltou a subir, a bolsa perdeu 20%, a arrecadação está minguando, os números fiscais, piorando, a balança comercial acumula déficit de US$ 5 bilhões. O Brasil não é o único a ter problemas este ano, mas o país está ficando com fama de estar preso ao baixo desempenho.
Números não faltam para a perda de confiança na economia brasileira. Não é apenas o governo que tem tido suas projeções revistas para baixo. Até os economistas de bancos e consultorias esperavam mais do ano de 2013. Consumidores, empresários da indústria e do setor de serviços também se decepcionaram. A alta do dólar poderia ajudar o país a reduzir o déficit comercial, mas ele está crescendo. O efeito benéfico da desvalorização do real, que seria o impulso nas exportações, não está acontecendo, mas o impacto negativo de elevação de alguns preços e insumos industriais já começa a aparecer.
A indústria cresceu 1,9% no semestre. Uma boa notícia, mas esse resultado é pouco para compensar a queda de 2,7% do ano passado. A inflação em julho foi praticamente zero, e em agosto pode ter novo resultado muito bom, mas o IPCA teve alta de 3,15% de janeiro a junho. A meta para o ano inteiro é 4,5%. O dólar se valorizou 12,5%, a balança comercial tem déficit de US$ 5 bi até julho. As transações correntes ficaram no vermelho em US$ 49 bilhões, que correspondem a 3,82% do PIB. Os investimentos diretos chegaram a US$ 37 bilhões, mas não financiaram o déficit externo.
Além dos números, o governo parece andar batendo cabeça mais do que o normal. Na semana passada, desentenderam-se o representante do Brasil no FMI, Paulo Nogueira Batista, e o ministro Guido Mantega. O governo não passa uma semana sem fazer alguma mudança no indicador fiscal que aumente a desconfiança que o mercado tem em relação às medidas dos gastos do governo. A última foi querer retirar, das contas das despesas públicas, os gastos dos estados com a mobilidade urbana.
A Presidência fez uma enxurrada de propostas no auge dos protestos de junho e, desde então, não faz outra coisa a não ser recuar de cada uma. Os investimentos de R$ 50 bilhões com transporte até agora ninguém conseguiu saber a que a presidente Dilma Rousseff estava se referindo quando fez a promessa. Se foi ao trem-bala, o edital acaba de ter outro adiamento. É o quarto, ou quinto. Perde-se a conta. Mas esse projeto equivocado e caro deve estar em ponto de bala para ser usado na campanha eleitoral. Assim querem os marqueteiros.
O superávit primário, mesmo maquiado, ajustado e descontado, está minguando este ano. Ficou 28% menor de janeiro a junho. O déficit nominal saltou de R$ 45 bilhões para R$ 65 bi e foi a 2,83% do PIB. E deve aumentar pela alta da Selic para combater a inflação, que encarece a dívida.
O crescimento do PIB parece que será de novo pífio este ano, ainda que maior do que o do ano passado. Outros países estão crescendo pouco, mas o Brasil está disputando, na região, na turma da lanterna.
Há algumas notícias boas resistindo a essa maré de baixa. A taxa de desemprego permanece em 5,7% e houve criação de 826 mil empregos formais no semestre. O número representa queda de 21%, mas é um bom resultado em comparação com inúmeros países do mundo. A produção de bens de capital acumula alta de 13,8% até junho, o que sinaliza recuperação dos investimentos, puxada pela produção de caminhões. A inadimplência das pessoas físicas caiu de 7,9% para 7,2%. Ainda é alta, mas a tendência de baixa é animadora.
Há razões externas para a volatilidade, mas o vai e vem das decisões do governo é o principal foco de instabilidade. O ano que vem será de uma dura batalha eleitoral, em que a economia terá que entregar um bom resultado para ajudar no palanque. A ameaça é o governo ampliar mais os gastos, tomar novas decisões que comprometam o equilíbrio fiscal e maquiar ainda mais os indicadores das despesas públicas. Nesse campo, o risco não é perder o futuro, mas o passado. As bases da estabilização foram construídas com uma década e meia de muito trabalho. E ela é que vem sendo erodida.
A economia em 2013 entrou numa sequência de dados e fatos decepcionantes que se aprofundaram nos últimos dias. O dólar voltou a subir, a bolsa perdeu 20%, a arrecadação está minguando, os números fiscais, piorando, a balança comercial acumula déficit de US$ 5 bilhões. O Brasil não é o único a ter problemas este ano, mas o país está ficando com fama de estar preso ao baixo desempenho.
Números não faltam para a perda de confiança na economia brasileira. Não é apenas o governo que tem tido suas projeções revistas para baixo. Até os economistas de bancos e consultorias esperavam mais do ano de 2013. Consumidores, empresários da indústria e do setor de serviços também se decepcionaram. A alta do dólar poderia ajudar o país a reduzir o déficit comercial, mas ele está crescendo. O efeito benéfico da desvalorização do real, que seria o impulso nas exportações, não está acontecendo, mas o impacto negativo de elevação de alguns preços e insumos industriais já começa a aparecer.
A indústria cresceu 1,9% no semestre. Uma boa notícia, mas esse resultado é pouco para compensar a queda de 2,7% do ano passado. A inflação em julho foi praticamente zero, e em agosto pode ter novo resultado muito bom, mas o IPCA teve alta de 3,15% de janeiro a junho. A meta para o ano inteiro é 4,5%. O dólar se valorizou 12,5%, a balança comercial tem déficit de US$ 5 bi até julho. As transações correntes ficaram no vermelho em US$ 49 bilhões, que correspondem a 3,82% do PIB. Os investimentos diretos chegaram a US$ 37 bilhões, mas não financiaram o déficit externo.
Além dos números, o governo parece andar batendo cabeça mais do que o normal. Na semana passada, desentenderam-se o representante do Brasil no FMI, Paulo Nogueira Batista, e o ministro Guido Mantega. O governo não passa uma semana sem fazer alguma mudança no indicador fiscal que aumente a desconfiança que o mercado tem em relação às medidas dos gastos do governo. A última foi querer retirar, das contas das despesas públicas, os gastos dos estados com a mobilidade urbana.
A Presidência fez uma enxurrada de propostas no auge dos protestos de junho e, desde então, não faz outra coisa a não ser recuar de cada uma. Os investimentos de R$ 50 bilhões com transporte até agora ninguém conseguiu saber a que a presidente Dilma Rousseff estava se referindo quando fez a promessa. Se foi ao trem-bala, o edital acaba de ter outro adiamento. É o quarto, ou quinto. Perde-se a conta. Mas esse projeto equivocado e caro deve estar em ponto de bala para ser usado na campanha eleitoral. Assim querem os marqueteiros.
O superávit primário, mesmo maquiado, ajustado e descontado, está minguando este ano. Ficou 28% menor de janeiro a junho. O déficit nominal saltou de R$ 45 bilhões para R$ 65 bi e foi a 2,83% do PIB. E deve aumentar pela alta da Selic para combater a inflação, que encarece a dívida.
O crescimento do PIB parece que será de novo pífio este ano, ainda que maior do que o do ano passado. Outros países estão crescendo pouco, mas o Brasil está disputando, na região, na turma da lanterna.
Há algumas notícias boas resistindo a essa maré de baixa. A taxa de desemprego permanece em 5,7% e houve criação de 826 mil empregos formais no semestre. O número representa queda de 21%, mas é um bom resultado em comparação com inúmeros países do mundo. A produção de bens de capital acumula alta de 13,8% até junho, o que sinaliza recuperação dos investimentos, puxada pela produção de caminhões. A inadimplência das pessoas físicas caiu de 7,9% para 7,2%. Ainda é alta, mas a tendência de baixa é animadora.
Há razões externas para a volatilidade, mas o vai e vem das decisões do governo é o principal foco de instabilidade. O ano que vem será de uma dura batalha eleitoral, em que a economia terá que entregar um bom resultado para ajudar no palanque. A ameaça é o governo ampliar mais os gastos, tomar novas decisões que comprometam o equilíbrio fiscal e maquiar ainda mais os indicadores das despesas públicas. Nesse campo, o risco não é perder o futuro, mas o passado. As bases da estabilização foram construídas com uma década e meia de muito trabalho. E ela é que vem sendo erodida.
De olho na bolha - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 04/08
O Fed (banco central dos EUA) tem dado indicações que confundem alguns operadores de mercado. Em alguns momentos, indica que diminuirá os estímulos monetários adotados contra a crise. Em outros, sinaliza que isso pode ser feito mais adiante.
A razão disso, além da própria evolução do cenário, é a preocupação da autoridade monetária americana em estimular a economia e, ao mesmo tempo, evitar a forma-ção de bolhas.
É importante entender o que se chama de bolha. Ela existe quando os preços de alguns ativos sobem exageradamente, geralmente num processo de alta liquidez e juros baixos.
O estouro de bolhas pode causar prejuízos graves, como a crise de 2008, detonada pelo estouro da bolha imobiliária dos EUA. O fenômeno americano é o mais bem documentado e fácil de analisar.
Durante anos, o controle da inflação americana foi facilitado pela capacidade chinesa de exportar produtos a preços cada vez mais baixos. Isso, junto a outros fatores como a evolução do instrumental de política monetária, permitiu ao Fed adotar política de juros baixos e incentivo ao consumo e ao crédito, com inflação na meta.
Esse contexto causou alta exagerada no preço das ações no final dos anos 1990, principalmente de empresas de internet. Como tudo que sobe demais nos mercados um dia cai, a bolha da internet estourou em 2000. E foi seguida pelos ataques terroristas de 2001.
Esses dois acontecimentos ameaçaram levar os EUA à recessão devido à perda pa- trimonial dos que tiveram prejuízos na Bolsa. E motivaram o Fed a afrouxar a política monetária.
A operação teve sucesso, mas o excesso de liquidez fez outros ativos subirem exageradamente, principalmente no mercado imobiliário. O preço dos imóveis foi inflacionado. Pior: grande parte das compras era financiada por crédito imobiliário.
Assim, quando a bolha dos imóveis estourou, houve paralisação dos mercados de créditos e prejuízo aos investidores em geral. Aí, sim, tivemos uma crise global, produto das consequências do estouro da bolha imobiliária.
O que o Fed busca agora é incentivar a economia, sem deixar os juros dos títulos mais longos excessivamente baixos a ponto de criar outras bolhas, nem deixar que eles subam demais antes que a economia esteja recuperada.
Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, dizia que é muito fácil detectar quando a inflação passou da meta, mas definir quando os preços de imóveis ou ações subiram exageradamente é muito mais difícil.
A preocupação com as bolhas, das quais a mais perigosa é a imobiliária, precisa estar sempre no radar de todos os países o tempo todo.
O Fed (banco central dos EUA) tem dado indicações que confundem alguns operadores de mercado. Em alguns momentos, indica que diminuirá os estímulos monetários adotados contra a crise. Em outros, sinaliza que isso pode ser feito mais adiante.
A razão disso, além da própria evolução do cenário, é a preocupação da autoridade monetária americana em estimular a economia e, ao mesmo tempo, evitar a forma-ção de bolhas.
É importante entender o que se chama de bolha. Ela existe quando os preços de alguns ativos sobem exageradamente, geralmente num processo de alta liquidez e juros baixos.
O estouro de bolhas pode causar prejuízos graves, como a crise de 2008, detonada pelo estouro da bolha imobiliária dos EUA. O fenômeno americano é o mais bem documentado e fácil de analisar.
Durante anos, o controle da inflação americana foi facilitado pela capacidade chinesa de exportar produtos a preços cada vez mais baixos. Isso, junto a outros fatores como a evolução do instrumental de política monetária, permitiu ao Fed adotar política de juros baixos e incentivo ao consumo e ao crédito, com inflação na meta.
Esse contexto causou alta exagerada no preço das ações no final dos anos 1990, principalmente de empresas de internet. Como tudo que sobe demais nos mercados um dia cai, a bolha da internet estourou em 2000. E foi seguida pelos ataques terroristas de 2001.
Esses dois acontecimentos ameaçaram levar os EUA à recessão devido à perda pa- trimonial dos que tiveram prejuízos na Bolsa. E motivaram o Fed a afrouxar a política monetária.
A operação teve sucesso, mas o excesso de liquidez fez outros ativos subirem exageradamente, principalmente no mercado imobiliário. O preço dos imóveis foi inflacionado. Pior: grande parte das compras era financiada por crédito imobiliário.
Assim, quando a bolha dos imóveis estourou, houve paralisação dos mercados de créditos e prejuízo aos investidores em geral. Aí, sim, tivemos uma crise global, produto das consequências do estouro da bolha imobiliária.
O que o Fed busca agora é incentivar a economia, sem deixar os juros dos títulos mais longos excessivamente baixos a ponto de criar outras bolhas, nem deixar que eles subam demais antes que a economia esteja recuperada.
Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, dizia que é muito fácil detectar quando a inflação passou da meta, mas definir quando os preços de imóveis ou ações subiram exageradamente é muito mais difícil.
A preocupação com as bolhas, das quais a mais perigosa é a imobiliária, precisa estar sempre no radar de todos os países o tempo todo.
A incerteza que cerca a China - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
ESTADÃO - 04/08
Em junho de 2011 escrevi aqui no Estado um artigo, em duas partes, chamado Dez razões para ter cuidado com a China, que se originou da leitura de um trabalho escrito pelo conhecido economista Stephen Roach, que tinha por título Dez razões para apostar na China.
Ali, Roach colocava que o país tinha estratégia, compromisso com a estabilidade de regras e meios para realizá-las. Além disso, a China tinha uma alta taxa de poupança, crescente urbanização, grande demanda por infraestrutura, um bom sistema educacional, farto aporte de investimento estrangeiro e melhoras na área de inovação. Finalmente, o consumo poderia crescer de forma mais significativa, de sorte que não seria a hora de apostar contra a China.
O contraponto que tentei colocar foi chamar a atenção para limitações à continuidade do crescimento, expressas pelos seguintes fatores: um acelerado envelhecimento da população, ainda bastante pobre, uma forte redução na oferta de terras e de água, limitações na oferta de energia, forte crescimento da poluição, maiores dificuldades nas exportações por elevações de custos (internos e pela valorização do yuan), limitações ao crescimento do mercado interno, uma aparente falta de criatividade no processo de inovações e, finalmente, o crescimento dos riscos sociais e políticos "decorrentes da natural demanda por maior liberdade, que acompanha o crescimento da renda".
Escrevi então, que "aqui na MB continuamos com a visão de que a China deve continuar a crescer vigorosamente, pelo menos nos próximos dois ou três anos. Mas o que acontece a partir daí?".
Dois anos de expansão ainda vigorosa, que está sendo seguida por uma expressiva redução no crescimento, que neste ano deve ficar entre 7% e 7,5%. Para 2014,mesmo os analistas mais otimistas admitem que o patamar de crescimento vá para a faixa de 6% ou 6,5%.
A partir dessas expectativas, duas grandes visões se entrechocam: a visão otimista reconhece que a sustentação do crescimento depende essencialmente de reformas que avancem no sentido da elevação da eficiência da economia como um todo e da criação de um grande mercado interno e que essas reformas são possíveis.
A visão alternativa, naturalmente, sustenta que o volume de ineficiências na economia e as dificuldades para a expansão do consumo levarão a uma queda contínua no crescimento e a crises políticas.
É importante notar que otimistas e pessimistas partilham a visão de que o excesso de investimentos em certas áreas reduziu muito a eficiência do capital, gerando grandes distorções e diminuindo o crescimento potencial da economia. Exemplos disso são abundantes: existem mais de 500 milhões de toneladas de capacidade de produção de aço excedentes (incluindo muitas empresas poluentes e de baixo nível tecnológico), estradas e pontes quase sem tráfego ou ainda um grande número de imóveis sem compradores. A maior parte desses empreendimentos foi patrocinada por entes provinciais ou locais, a partir de forte expansão de crédito de qualidade duvidosa.
Os otimistas estão seguros de que o novo governo chinês vai atuar na liberalização do mercado de crédito, incluindo mais flexibilidade para os bancos fixarem os juros e os empréstimos. Isso levaria ao redirecionamento do crédito para projetos mais viáveis, melhorando a produtividade do sistema como um todo.
Ademais, é crucial que o governo central consiga mais controle sobre as províncias e os municípios, evitando a criação e expansão de projetos e empresas ineficientes. O conjunto de reformas incluiria também melhores regras quanto à competição nos mercados e alterações na própria política fiscal. Nessas condições, um crescimento sustentado de 6% poderia prevalecer.
Os pessimistas chamam a atenção para pelo menos dois grandes grupos de dificuldades: num país onde centenas de milhões de pessoas ainda têm renda bastante baixa e sem acesso a qualquer estrutura de previdência social, a tendência a poupar muito é bastante forte. Isso torna muito pouco provável que o crescimento do consumo, como proporção do PIB, possa sustentar a expansão do país como um todo.
O outro grupo de problemas seria que a dificuldade em implementar controles sobre províncias e municípios levaria a uma ampliação das ineficiências da economia, uma vez que os salários continuarão a subir, bem como os custos associados à poluição, qualidade da água e terrenos, o que levaria a intermitentes pressões inflacionárias, como já vimos num passado recente. Neste caso, a necessária redução de investimentos da economia não seria compensada pela expansão das exportações ou do consumo interno. O movimento de reindustrialização da economia americana reforçaria esse processo. Nesse cenário, seria inevitável uma elevação dos conflitos sociais e políticos, perpetuando um crescimento muito baixo num país que está ficando velho, antes de ficar rico.
Apenas em 2014 poderemos ter uma ideia melhor de qual cenário prevalecerá. Do discutido até aqui emerge pelo menos uma constatação: o grande ciclo de preços de commodities está encerrado, o que já se reflete nas cotações dos diversos mercados. Isto não quer dizer que os preços entrarão em colapso, mas sim, que valores muito elevados não deverão mais acontecer, exceto quando da ocorrência de anormalidades, como secas ou conflitos em certas regiões, como o Oriente Médio.
Países como o Brasil não terão mais ganhos de termos de troca tão expressivos como no passado recente. Entretanto, continuo achando que a demanda de alimentos e energia continuará a crescer de forma importante nos próximos anos.
Mesmo assim, nossa vida será mais difícil. Por exemplo, a atual safra de grãos mostra que daqui para a frente o gargalo da infraestrutura de escoamento da safra tenderá a ser uma limitação efetiva para a alta da produção, uma vez que nesse ano muitos produtores do Mato Grosso gastaram algo como 40% do valor bruto da produção para enviar a soja ao porto. A safra de grãos de 200 milhões de toneladas para o próximo ano corre sérios riscos.
Em junho de 2011 escrevi aqui no Estado um artigo, em duas partes, chamado Dez razões para ter cuidado com a China, que se originou da leitura de um trabalho escrito pelo conhecido economista Stephen Roach, que tinha por título Dez razões para apostar na China.
Ali, Roach colocava que o país tinha estratégia, compromisso com a estabilidade de regras e meios para realizá-las. Além disso, a China tinha uma alta taxa de poupança, crescente urbanização, grande demanda por infraestrutura, um bom sistema educacional, farto aporte de investimento estrangeiro e melhoras na área de inovação. Finalmente, o consumo poderia crescer de forma mais significativa, de sorte que não seria a hora de apostar contra a China.
O contraponto que tentei colocar foi chamar a atenção para limitações à continuidade do crescimento, expressas pelos seguintes fatores: um acelerado envelhecimento da população, ainda bastante pobre, uma forte redução na oferta de terras e de água, limitações na oferta de energia, forte crescimento da poluição, maiores dificuldades nas exportações por elevações de custos (internos e pela valorização do yuan), limitações ao crescimento do mercado interno, uma aparente falta de criatividade no processo de inovações e, finalmente, o crescimento dos riscos sociais e políticos "decorrentes da natural demanda por maior liberdade, que acompanha o crescimento da renda".
Escrevi então, que "aqui na MB continuamos com a visão de que a China deve continuar a crescer vigorosamente, pelo menos nos próximos dois ou três anos. Mas o que acontece a partir daí?".
Dois anos de expansão ainda vigorosa, que está sendo seguida por uma expressiva redução no crescimento, que neste ano deve ficar entre 7% e 7,5%. Para 2014,mesmo os analistas mais otimistas admitem que o patamar de crescimento vá para a faixa de 6% ou 6,5%.
A partir dessas expectativas, duas grandes visões se entrechocam: a visão otimista reconhece que a sustentação do crescimento depende essencialmente de reformas que avancem no sentido da elevação da eficiência da economia como um todo e da criação de um grande mercado interno e que essas reformas são possíveis.
A visão alternativa, naturalmente, sustenta que o volume de ineficiências na economia e as dificuldades para a expansão do consumo levarão a uma queda contínua no crescimento e a crises políticas.
É importante notar que otimistas e pessimistas partilham a visão de que o excesso de investimentos em certas áreas reduziu muito a eficiência do capital, gerando grandes distorções e diminuindo o crescimento potencial da economia. Exemplos disso são abundantes: existem mais de 500 milhões de toneladas de capacidade de produção de aço excedentes (incluindo muitas empresas poluentes e de baixo nível tecnológico), estradas e pontes quase sem tráfego ou ainda um grande número de imóveis sem compradores. A maior parte desses empreendimentos foi patrocinada por entes provinciais ou locais, a partir de forte expansão de crédito de qualidade duvidosa.
Os otimistas estão seguros de que o novo governo chinês vai atuar na liberalização do mercado de crédito, incluindo mais flexibilidade para os bancos fixarem os juros e os empréstimos. Isso levaria ao redirecionamento do crédito para projetos mais viáveis, melhorando a produtividade do sistema como um todo.
Ademais, é crucial que o governo central consiga mais controle sobre as províncias e os municípios, evitando a criação e expansão de projetos e empresas ineficientes. O conjunto de reformas incluiria também melhores regras quanto à competição nos mercados e alterações na própria política fiscal. Nessas condições, um crescimento sustentado de 6% poderia prevalecer.
Os pessimistas chamam a atenção para pelo menos dois grandes grupos de dificuldades: num país onde centenas de milhões de pessoas ainda têm renda bastante baixa e sem acesso a qualquer estrutura de previdência social, a tendência a poupar muito é bastante forte. Isso torna muito pouco provável que o crescimento do consumo, como proporção do PIB, possa sustentar a expansão do país como um todo.
O outro grupo de problemas seria que a dificuldade em implementar controles sobre províncias e municípios levaria a uma ampliação das ineficiências da economia, uma vez que os salários continuarão a subir, bem como os custos associados à poluição, qualidade da água e terrenos, o que levaria a intermitentes pressões inflacionárias, como já vimos num passado recente. Neste caso, a necessária redução de investimentos da economia não seria compensada pela expansão das exportações ou do consumo interno. O movimento de reindustrialização da economia americana reforçaria esse processo. Nesse cenário, seria inevitável uma elevação dos conflitos sociais e políticos, perpetuando um crescimento muito baixo num país que está ficando velho, antes de ficar rico.
Apenas em 2014 poderemos ter uma ideia melhor de qual cenário prevalecerá. Do discutido até aqui emerge pelo menos uma constatação: o grande ciclo de preços de commodities está encerrado, o que já se reflete nas cotações dos diversos mercados. Isto não quer dizer que os preços entrarão em colapso, mas sim, que valores muito elevados não deverão mais acontecer, exceto quando da ocorrência de anormalidades, como secas ou conflitos em certas regiões, como o Oriente Médio.
Países como o Brasil não terão mais ganhos de termos de troca tão expressivos como no passado recente. Entretanto, continuo achando que a demanda de alimentos e energia continuará a crescer de forma importante nos próximos anos.
Mesmo assim, nossa vida será mais difícil. Por exemplo, a atual safra de grãos mostra que daqui para a frente o gargalo da infraestrutura de escoamento da safra tenderá a ser uma limitação efetiva para a alta da produção, uma vez que nesse ano muitos produtores do Mato Grosso gastaram algo como 40% do valor bruto da produção para enviar a soja ao porto. A safra de grãos de 200 milhões de toneladas para o próximo ano corre sérios riscos.
Surdez crônica - DORA KRAMER
ESTADÃO - 04/08
O Congresso retoma os trabalhos em tese nesta segunda-feira; na prática, só na terça. Volta cheio de gás – embora continue surdo, como veremos adiante –, com uma “pauta bomba”, segundo o presidente do Senado, Renan Calheiros. A ideia é, de um lado, votar projetos que supostamente respondem às reivindicações populares e, de outro, confrontem a Presidência da República a fim de deixar claro quem detém o mando de campo nesses tempos bicudos.
O Congresso saiu em férias sem autorização legal porque não votou a Lei de Diretrizes Orçamentárias, cuja aprovação é, pela Constituição, indispensável para o início do recesso do mês de julho. Mas isso não foi obstáculo para suas excelências, que logo decretaram o tal do “recesso branco”: ficou decidido que não seriam feitas sessões deliberativas (quando há votações) no período e, assim, todos poderiam descansar sem correr o risco de ter os dias descontados no pagamento do mês.
O retorno estava marcado para o dia 1.º de agosto. Mas sabem as senhoras e os senhores como é: quinta-feira não faz parte da semana para a maioria dos integrantes do Poder Legislativo. Dos 513 deputados, 37 se apresentaram ao trabalho no dia marcado; nem 10%. No Senado, a presença foi maior: 33 dos 81 senadores; menos da metade. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, no exterior estava com a família e no exterior ficou. Justificativa: trabalhou demais na semana da visita do papa Francisco e precisava de uns dias a mais para compensar.
Compreende-se a posição do Parlamento. Depois de duas semanas de correria intensa em torno da “agenda positiva” que criou despesas a serem pagas todos sabemos por quem e até transformou táxis em capitanias hereditárias, era hora de voltar ao normal. E o exercício da gazeta nas quintas, sextas e segundas é de praxe.
Como de hábito também naquele ambiente é se falar em reforma política e se acabar sempre fazendo modificações nas leis eleitorais – que, aliás, mudam a cada pleito – para facilitar a vida dos políticos e dos partidos. O eleitor fica fora do trato, sua parte é ir à urna obrigatoriamente se não quiser ter problemas.
Relata a Folha de S.Paulo em sua edição de quinta-feira que, nesta semana, os deputados começam a discutir uma série de alterações na legislação eleitoral. Todas tão distantes do descontentamento geral que, no dizer de editorial do jornal O Estado de S.Paulo, mais parecem um chamamento de volta aos protestos com destaque para cartazes de aviso aos representantes parlamentares: “Eles não me representam”.
As propostas, de fato, soam provocativas. A título de tornar o processo eleitoral “menos burocrático”, na palavra do coordenador dos trabalhos, o petista Cândido Vaccarezza, a comissão formada para discutir a reforma política erigiu um monumento à permissividade. Pelo projeto dito de desburocratização, os candidatos não serão mais responsáveis por crimes eleitorais cometidos durante as respectivas campanhas; a Justiça Eleitoral não pode mais checar as informações financeiras dadas pelos partidos, devendo se limitar a receber as prestações de contas e verificar se os aspectos “formais” estão de acordo.
Os gastos considerados “não passíveis de comprovação” não precisarão ser acompanhados de qualquer tipo de documento, bastando que sejam publicados na internet. Pretendentes a cargos executivos, de presidente a prefeito, estão dispensados de registrar seus programas de governo na Justiça. O valor das multas cobradas de quem faz doações acima do limite legal (2% do faturamento para empresas e 10% dos rendimentos para pessoas físicas) é reduzido em dez vezes. E por aí vai o Congresso em sua indiferença ao tirocínio alheio.
O Congresso retoma os trabalhos em tese nesta segunda-feira; na prática, só na terça. Volta cheio de gás – embora continue surdo, como veremos adiante –, com uma “pauta bomba”, segundo o presidente do Senado, Renan Calheiros. A ideia é, de um lado, votar projetos que supostamente respondem às reivindicações populares e, de outro, confrontem a Presidência da República a fim de deixar claro quem detém o mando de campo nesses tempos bicudos.
O Congresso saiu em férias sem autorização legal porque não votou a Lei de Diretrizes Orçamentárias, cuja aprovação é, pela Constituição, indispensável para o início do recesso do mês de julho. Mas isso não foi obstáculo para suas excelências, que logo decretaram o tal do “recesso branco”: ficou decidido que não seriam feitas sessões deliberativas (quando há votações) no período e, assim, todos poderiam descansar sem correr o risco de ter os dias descontados no pagamento do mês.
O retorno estava marcado para o dia 1.º de agosto. Mas sabem as senhoras e os senhores como é: quinta-feira não faz parte da semana para a maioria dos integrantes do Poder Legislativo. Dos 513 deputados, 37 se apresentaram ao trabalho no dia marcado; nem 10%. No Senado, a presença foi maior: 33 dos 81 senadores; menos da metade. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, no exterior estava com a família e no exterior ficou. Justificativa: trabalhou demais na semana da visita do papa Francisco e precisava de uns dias a mais para compensar.
Compreende-se a posição do Parlamento. Depois de duas semanas de correria intensa em torno da “agenda positiva” que criou despesas a serem pagas todos sabemos por quem e até transformou táxis em capitanias hereditárias, era hora de voltar ao normal. E o exercício da gazeta nas quintas, sextas e segundas é de praxe.
Como de hábito também naquele ambiente é se falar em reforma política e se acabar sempre fazendo modificações nas leis eleitorais – que, aliás, mudam a cada pleito – para facilitar a vida dos políticos e dos partidos. O eleitor fica fora do trato, sua parte é ir à urna obrigatoriamente se não quiser ter problemas.
Relata a Folha de S.Paulo em sua edição de quinta-feira que, nesta semana, os deputados começam a discutir uma série de alterações na legislação eleitoral. Todas tão distantes do descontentamento geral que, no dizer de editorial do jornal O Estado de S.Paulo, mais parecem um chamamento de volta aos protestos com destaque para cartazes de aviso aos representantes parlamentares: “Eles não me representam”.
As propostas, de fato, soam provocativas. A título de tornar o processo eleitoral “menos burocrático”, na palavra do coordenador dos trabalhos, o petista Cândido Vaccarezza, a comissão formada para discutir a reforma política erigiu um monumento à permissividade. Pelo projeto dito de desburocratização, os candidatos não serão mais responsáveis por crimes eleitorais cometidos durante as respectivas campanhas; a Justiça Eleitoral não pode mais checar as informações financeiras dadas pelos partidos, devendo se limitar a receber as prestações de contas e verificar se os aspectos “formais” estão de acordo.
Os gastos considerados “não passíveis de comprovação” não precisarão ser acompanhados de qualquer tipo de documento, bastando que sejam publicados na internet. Pretendentes a cargos executivos, de presidente a prefeito, estão dispensados de registrar seus programas de governo na Justiça. O valor das multas cobradas de quem faz doações acima do limite legal (2% do faturamento para empresas e 10% dos rendimentos para pessoas físicas) é reduzido em dez vezes. E por aí vai o Congresso em sua indiferença ao tirocínio alheio.
Bônus e ônus demográfico - WASHINGTON DE JESUS MELO
O GLOBO - 04/08
Há três anos tivemos o Censo 2010, a mais ampla pesquisa sobre o perfil socioeconômico brasileiro, feita pelo IBGE. Através dele e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), é possível diagnosticar, entre outras informações, a situação populacional brasileira.
Um dado a que devemos dar ênfase e que tem implicações econômicas importantes é a taxa de fecundidade da mulher brasileira. Esta taxa, segundo o último Censo, era de 1,90 filho por mulher. Trata-se de uma informação relevante, pois, na ordem natural da vida, cada geração deve ocasionar prole suficiente para repor mortes, e a mínima taxa para isto é de 2,10 filhos por mulher.
No Brasil, devido à grande queda na taxa de fecundidade, estamos tendo uma diminuição acelerada do ritmo de crescimento da população brasileira e seu consequente envelhecimento precoce. Através do último PNAD pode-se observar a tendência de envelhecimento da população nos últimos anos, segundo a participação refletida nos grupos etários.
A participação dos grupos compreendidos por pessoas de 60 anos ou mais totalizou 12,1% em 2011, enquanto que no ano de 2004 essa magnitude foi de 9,7%. Logo, o envelhecimento da população não apenas cresce, mas o faz rapidamente.
O país terá nos próximos vinte anos o bônus demográfico , como é chamado o fenômeno no qual a quantidade de população economicamente ativa, em condições de produzir, será máxima.
No entanto, quando o bônus demográfico se exaurir, a longo prazo, a parcela de população ativa diminuirá muito, porque uma boa parte dela será composta por idosos.
Ter menos bebês e mais idosos é, ao contrário do que alguns pensam, uma equação com sérias consequências econômicas.
Com uma população envelhecida e diminuída, haverá menos condições para o consumo interno, uma diminuição da produção de bens e serviços para esta demanda, uma oferta inferior de mão de obra a menor custo, preços pouco competitivos nas exportações e um menor aumento do produto interno bruto, caminhando-se com dificuldade para o crescimento econômico do país.
Além disso, o sistema previdenciário fica mais oneroso. A China, por outro lado, apesar das barreiras à natalidade devido à política de filho único por casal, tem ainda uma população pujante e uma economia forte.
Como reverter este processo que tanto prejudicará a nossa economia? O poder público deveria promover incentivos para que a maternidade fosse mais frequente. De fato, a escassez de nascimentos se converteu em um tema que ocupa um lugar importante na agenda governamental de alguns países europeus. Da mesma forma que as campanhas para a prevenção do tabagismo, do alcoolismo, da obesidade, procurando modificar condutas de risco, podem-se fazer empreitadas positivas para promover a natalidade.
Quem samba fica - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 04/08
Assim como fez em Minas Gerais, o governador Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, ameaçou intervir no diretório baiano para garantir o apoio à sua candidatura à presidência da República. A senadora Lídice da Mata, do PSB, deverá ser candidata ao governo da Bahia.
A conta da saúde
Um projeto de lei de iniciativa popular com 1,5 milhão de assinaturas para tornar obrigatório o repasse de 10% da receita corrente bruta da União para a Saúde será entregue amanhã ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), por um grupo de médicos sanitaristas. É a resposta dos profissionais de saúde aos vetos da presidente Dilma Rousseff à regulamentação da Emenda 29, que destina recursos à Saúde e ao polêmico Programa Mais Médicos.
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Os sanitaristas Luis Eugenio de Souza, presidente da Abrasco, Ligia Bahia e Eli Iola, diretores da entidade, estão entre os autores da iniciativa. Pela manhã, vão se reunir com o Conselho Nacional de Saúde, do qual as entidades médicas se retiraram, e se encontram depois com o secretário de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, Luiz Odorico Monteiro de Andrade.
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Vão retomar as discussões sobre o polêmico Programa Mais Médicos, que recebeu grande apoio dos prefeitos do país, mas é amplamente rejeitado pelos médicos. Hoje, diante da situação política criada, o projeto de lei de iniciativa popular tem mais chances de emplacar no Congresso do que o Programa Mais Médicos. É esse o estado crítico em que as coisas estão.
Prévias
Não é fácil a vida de candidato a presidente da República do PSDB. Está tudo certo para que o presidente da legenda, senador Aécio Neves (foto), seja o candidato tucano em 2014. Aí vem o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e diz que é favorável à realização de prévias para a escolha do candidato. Pura média com o ex-governador José Serra, que ameaça
sair da legenda.
Gazeteiros
Além de saírem de férias sem cumprir o dever de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, a maioria da Câmara decidiu enforcar o primeiro dia de trabalho pós-recesso branco. Gazetaram na semana passada 476
deputados.
Vetos
O ambiente no Congresso também é favorável à derrubada dos vetos à Emenda 29, que fixa os gastos mínimos da União, dos estados e municípios com a saúde pública. Um dos vetos impede que o governo federal aplique créditos adicionais na saúde.
Ficou de fora
Conforme as regras sancionadas pela presidente, os estados são obrigados a investir 12% da arrecadação com impostos, e os municípios, 15%. O percentual para o Distrito Federal varia de 12% a 15%, conforme a fonte da receita. A União ficou sem a obrigação dos 10%.
Vídeo gay
O ator Wagner Moura e o rabino Nilton Bonder são as estrelas do vídeo lançado pela Campanha Nacional em Apoio ao Casamento Civil Igualitário. “A palavra casamento pertence à religião?”, pergunta o ator ao rabino. A iniciativa foi do deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ), um dos líderes do movimento LGBT. Desde o dia 14 de maio de 2013, casais homoafetivos de todo o país já podem se casar no civil.
Remédios/ O deputado José Antonio Reguffe (PDT-DF) foi um dos 37 deputados que compareceram à Câmara na quinta-feira passada. Fez discurso no plenário: “Não dá para entender: o governo baixa preço de automóvel e não retira os impostos de remédios.”
Aborto/ A presidente Dilma Rousseff bem que tentou evitar o confronto, mas o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que se notabilizou como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, não pretende deixar barato a sanção à lei que define regras para tratamento de vítimas de violência sexual. Passou a fazer oposição aberta à reeleição de Dilma.
Lide/ O ex-senador Paulo Octavio está em Buenos Aires, onde participa do encontro do Lide — Grupo de Líderes Empresariais —, que começou na sexta-feira e termina hoje. É um evento mundial, no qual fará uma apresentação sobre a economia, o crescimento e as oportunidades de negócios em Brasília.
Assim como fez em Minas Gerais, o governador Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, ameaçou intervir no diretório baiano para garantir o apoio à sua candidatura à presidência da República. A senadora Lídice da Mata, do PSB, deverá ser candidata ao governo da Bahia.
A conta da saúde
Um projeto de lei de iniciativa popular com 1,5 milhão de assinaturas para tornar obrigatório o repasse de 10% da receita corrente bruta da União para a Saúde será entregue amanhã ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), por um grupo de médicos sanitaristas. É a resposta dos profissionais de saúde aos vetos da presidente Dilma Rousseff à regulamentação da Emenda 29, que destina recursos à Saúde e ao polêmico Programa Mais Médicos.
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Os sanitaristas Luis Eugenio de Souza, presidente da Abrasco, Ligia Bahia e Eli Iola, diretores da entidade, estão entre os autores da iniciativa. Pela manhã, vão se reunir com o Conselho Nacional de Saúde, do qual as entidades médicas se retiraram, e se encontram depois com o secretário de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, Luiz Odorico Monteiro de Andrade.
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Vão retomar as discussões sobre o polêmico Programa Mais Médicos, que recebeu grande apoio dos prefeitos do país, mas é amplamente rejeitado pelos médicos. Hoje, diante da situação política criada, o projeto de lei de iniciativa popular tem mais chances de emplacar no Congresso do que o Programa Mais Médicos. É esse o estado crítico em que as coisas estão.
Prévias
Não é fácil a vida de candidato a presidente da República do PSDB. Está tudo certo para que o presidente da legenda, senador Aécio Neves (foto), seja o candidato tucano em 2014. Aí vem o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e diz que é favorável à realização de prévias para a escolha do candidato. Pura média com o ex-governador José Serra, que ameaça
sair da legenda.
Gazeteiros
Além de saírem de férias sem cumprir o dever de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, a maioria da Câmara decidiu enforcar o primeiro dia de trabalho pós-recesso branco. Gazetaram na semana passada 476
deputados.
Vetos
O ambiente no Congresso também é favorável à derrubada dos vetos à Emenda 29, que fixa os gastos mínimos da União, dos estados e municípios com a saúde pública. Um dos vetos impede que o governo federal aplique créditos adicionais na saúde.
Ficou de fora
Conforme as regras sancionadas pela presidente, os estados são obrigados a investir 12% da arrecadação com impostos, e os municípios, 15%. O percentual para o Distrito Federal varia de 12% a 15%, conforme a fonte da receita. A União ficou sem a obrigação dos 10%.
Vídeo gay
O ator Wagner Moura e o rabino Nilton Bonder são as estrelas do vídeo lançado pela Campanha Nacional em Apoio ao Casamento Civil Igualitário. “A palavra casamento pertence à religião?”, pergunta o ator ao rabino. A iniciativa foi do deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ), um dos líderes do movimento LGBT. Desde o dia 14 de maio de 2013, casais homoafetivos de todo o país já podem se casar no civil.
Remédios/ O deputado José Antonio Reguffe (PDT-DF) foi um dos 37 deputados que compareceram à Câmara na quinta-feira passada. Fez discurso no plenário: “Não dá para entender: o governo baixa preço de automóvel e não retira os impostos de remédios.”
Aborto/ A presidente Dilma Rousseff bem que tentou evitar o confronto, mas o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), que se notabilizou como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, não pretende deixar barato a sanção à lei que define regras para tratamento de vítimas de violência sexual. Passou a fazer oposição aberta à reeleição de Dilma.
Lide/ O ex-senador Paulo Octavio está em Buenos Aires, onde participa do encontro do Lide — Grupo de Líderes Empresariais —, que começou na sexta-feira e termina hoje. É um evento mundial, no qual fará uma apresentação sobre a economia, o crescimento e as oportunidades de negócios em Brasília.
A marquetagem 'rudimentar' da doutora - ELIO GASPARI
O GLOBO - 04/08
O comissariado desconversa criando fantasias, ofendendo os números e jogando os problemas no colo dos outros
Desde que o "monstro" foi para a rua, o governo da doutora Dilma fez uma opção preferencial por encrencas que resultam apenas em trapalhadas. Quis convocar uma constituinte exclusiva para desenhar uma reforma política e a ideia durou pouco mais que um fim de semana. Sacou uma proposta de plebiscito a respeito da qual nem o PT se entende. Quis estender em dois anos a formação dos médicos e desistiu na semana passada.
Até aí, tratava-se apenas de desconversar diante do ronco das ruas que pedem melhores serviços públicos. Na semana passada, contudo, a doutora fez um novo lance, provocador. Veio a São Paulo para anunciar investimentos de R$ 3,1 bilhões em corredores de ônibus (um mimo para o comissário Fernando Haddad) e saiu-se com esta: São Paulo é, "talvez, a maior cidade do mundo com o menor sistema metroviário do mundo". Tradução: o problema de transporte do paulistano é a falta de metrô e, com isso, vai para o colo do tucanato que governa o Estado há 20 anos.
Com 11 milhões de habitantes, a cidade de São Paulo tem 74 km de metrô, no qual se movem 3 milhões de pessoas por dia útil. O metrô do Rio tem 46 km e atende 640 mil pessoas por dia, numa população de 6,3 milhões. A doutora ajeitou a bola com a mão. Tanto São Paulo como o Rio precisam de mais trilhos, mas o "talvez" só caberia se o Rio estivesse em outro hemisfério. Estando logo ali, com um metrô de má qualidade, como se comprovou durante a visita do papa Francisco, como ela mesma diria, o truque foi "rudimentar".
De qualquer forma, a doutora poderá reequilibrar a balança se, na sua próxima visita ao Rio, disser que ela é uma das maiores cidades do mundo com o menor sistema metroviário do mundo.
PALPITE
De um conhecedor do Supremo Tribunal Federal:
"Se havia alguma possibilidade de o STF aliviar as principais penas do mensalão, o ronco das ruas secou a fonte".
RECORDAR É VIVER
Está na rede um depoimento de Paulo, filho do general João Baptista Figueiredo, contando o encontro de seu pai com João Havelange, em 1979. O então presidente da Fifa queria trazer a Copa de 1986 para o Brasil. À época os interessados falavam numa despesa de
US$ 500 milhões. O general sabia que a conta não ficaria por menos de US$ 1 bilhão, quantia equivalente a US$ 3,2 bilhões em dinheiro de hoje.
Pode-se não gostar de Figueiredo, mas ninguém podia tirar de sua biografia o fato de ter assinado a anistia. Agora pode-se acrescentar que não assinou o cheque da Copa.
A Copa de Lula custará R$ 28 bilhões, ou US$ 12,1 bilhões.
CADÊ O AMARILDO?
No dia 14 de julho o pedreiro Amarildo de Souza, pai de seis filhos, foi levado para a Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha e desapareceu.
Segundo a polícia ele foi liberado e não se sabe para onde foi.
Cadê o vídeo que registrou sua saída da UPP? A câmera estava quebrada. Cadê os GPS dos carros da UPP, capazes de mostrar por onde andaram?
Estavam desligados.
Cadê a inteligência da população?
Precisa ser pacificada. Para isso, o secretário de Segurança Beltrame poderia responder a uma pergunta: Quantas vezes pifaram simultaneamente os controles das câmeras e os aparelhos de GPS em outros estabelecimentos policiais sob sua jurisdição?
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e soube que o presidente da Câmara, Henrique Alves, viajou na primeira classe em sua "villeggiatura" a Moscou porque não havia lugares vagos na executiva.
O cretino viu nisso a confirmação da própria estupidez. Se não há lugar na executiva, ele pede para viajar na classe turística.
O doutor estava em Moscou quando o "monstro" saiu da caverna, estragando-lhe uma paradinha em Paris no caminho de volta.
REGISTRO SOCIAL
Com autorização judicial para deixar o país, o doutor Luís Octávio Índio da Costa está esquiando na estação de Las Leñas.
Ele foi dono do banco Cruzeiro do Sul, colocado sob intervenção do Banco Central há um ano, com um rombo de R$ 3,1 bilhões.
Entre as gracinhas encontradas na contabilidade do banco esteve a compra de R$ 28,3 milhões em cartões telefônicos, ervanário suficiente para adquirir 566.821 plásticos com créditos de R$ 50.
ERROS
O servidor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) detido no Rio durante os protestos contra o governador Sérgio Cabral não disse que estava a serviço da agência.
Ele foi acusado de desacatar a delegada de plantão na 14ª DP.
O ministro Raimundo Carneiro, do Tribunal de Contas da União, que conviveu com duas datas de nascimento (1946 e 1948), esclarece que a disparidade "em nada interferiu no processo de aposentadoria perante o Senado", onde foi funcionário.
O TUCANO QUIS TIRAR FHC DO AR
Coisas que só acontecem no ninho dos tucanos. O jornalista Mario Sergio Conti, que dirige e apresenta o programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura, do governo paulista, foi informado de que seu contrato, vigente até o final de setembro, estará rescindido ao fim deste mês. A lâmina foi passada pelo doutor Marcos Mendonça, que assumiu a direção da emissora em junho.
Pouco depois da posse de Mendonça, Conti havia convidado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para ser o entrevistado da semana. Desde 2011, quando João Sayad o levou para a TV Cultura, o jornalista tinha autonomia para escolher os convidados.
Mendonça é um mandarim do aparelho tucano e já ocupou a Secretaria de Cultura de São Paulo. Sem qualquer discussão interna, ou notícia a Conti, telefonou para o ex-presidente, retirando o convite. No seu melhor estilo, FHC encaixou o golpe. Quando Mendonça comunicou o desconvite a Conti, ele condenou a grosseria com o ex-presidente, lembrou a autonomia que Sayad lhe dera e informou que a exerceria, mantendo a entrevista. Ligou para FHC que, novamente no seu melhor estilo, disse-lhe "lá estarei". E lá esteve, cerimoniosamente recepcionado por Mendonça. A entrevista foi ao ar no dia 1º de julho.
Não há registro de episódio semelhante, com dono de emissora desfazendo um convite aceito por um ex-presidente da República. Quem chegou mais perto foi o comandante do 1º Exército, em 1969, quando mandou passar a tesoura em declarações de d. Yolanda Costa e Silva, mulher do marechal que estava entrevado, no Palácio Laranjeiras.
Em 1978, quando censores quiseram impedir que uma entrevista de Lula à TV Cultura fosse ao ar, o governador Paulo Egydio Martins se mexeu e o presidente Ernesto Geisel os enquadrou.
Amanhã, o Roda Viva entrevistará Pablo Capilé, do Mídia Ninja.
O comissariado desconversa criando fantasias, ofendendo os números e jogando os problemas no colo dos outros
Desde que o "monstro" foi para a rua, o governo da doutora Dilma fez uma opção preferencial por encrencas que resultam apenas em trapalhadas. Quis convocar uma constituinte exclusiva para desenhar uma reforma política e a ideia durou pouco mais que um fim de semana. Sacou uma proposta de plebiscito a respeito da qual nem o PT se entende. Quis estender em dois anos a formação dos médicos e desistiu na semana passada.
Até aí, tratava-se apenas de desconversar diante do ronco das ruas que pedem melhores serviços públicos. Na semana passada, contudo, a doutora fez um novo lance, provocador. Veio a São Paulo para anunciar investimentos de R$ 3,1 bilhões em corredores de ônibus (um mimo para o comissário Fernando Haddad) e saiu-se com esta: São Paulo é, "talvez, a maior cidade do mundo com o menor sistema metroviário do mundo". Tradução: o problema de transporte do paulistano é a falta de metrô e, com isso, vai para o colo do tucanato que governa o Estado há 20 anos.
Com 11 milhões de habitantes, a cidade de São Paulo tem 74 km de metrô, no qual se movem 3 milhões de pessoas por dia útil. O metrô do Rio tem 46 km e atende 640 mil pessoas por dia, numa população de 6,3 milhões. A doutora ajeitou a bola com a mão. Tanto São Paulo como o Rio precisam de mais trilhos, mas o "talvez" só caberia se o Rio estivesse em outro hemisfério. Estando logo ali, com um metrô de má qualidade, como se comprovou durante a visita do papa Francisco, como ela mesma diria, o truque foi "rudimentar".
De qualquer forma, a doutora poderá reequilibrar a balança se, na sua próxima visita ao Rio, disser que ela é uma das maiores cidades do mundo com o menor sistema metroviário do mundo.
PALPITE
De um conhecedor do Supremo Tribunal Federal:
"Se havia alguma possibilidade de o STF aliviar as principais penas do mensalão, o ronco das ruas secou a fonte".
RECORDAR É VIVER
Está na rede um depoimento de Paulo, filho do general João Baptista Figueiredo, contando o encontro de seu pai com João Havelange, em 1979. O então presidente da Fifa queria trazer a Copa de 1986 para o Brasil. À época os interessados falavam numa despesa de
US$ 500 milhões. O general sabia que a conta não ficaria por menos de US$ 1 bilhão, quantia equivalente a US$ 3,2 bilhões em dinheiro de hoje.
Pode-se não gostar de Figueiredo, mas ninguém podia tirar de sua biografia o fato de ter assinado a anistia. Agora pode-se acrescentar que não assinou o cheque da Copa.
A Copa de Lula custará R$ 28 bilhões, ou US$ 12,1 bilhões.
CADÊ O AMARILDO?
No dia 14 de julho o pedreiro Amarildo de Souza, pai de seis filhos, foi levado para a Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha e desapareceu.
Segundo a polícia ele foi liberado e não se sabe para onde foi.
Cadê o vídeo que registrou sua saída da UPP? A câmera estava quebrada. Cadê os GPS dos carros da UPP, capazes de mostrar por onde andaram?
Estavam desligados.
Cadê a inteligência da população?
Precisa ser pacificada. Para isso, o secretário de Segurança Beltrame poderia responder a uma pergunta: Quantas vezes pifaram simultaneamente os controles das câmeras e os aparelhos de GPS em outros estabelecimentos policiais sob sua jurisdição?
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e soube que o presidente da Câmara, Henrique Alves, viajou na primeira classe em sua "villeggiatura" a Moscou porque não havia lugares vagos na executiva.
O cretino viu nisso a confirmação da própria estupidez. Se não há lugar na executiva, ele pede para viajar na classe turística.
O doutor estava em Moscou quando o "monstro" saiu da caverna, estragando-lhe uma paradinha em Paris no caminho de volta.
REGISTRO SOCIAL
Com autorização judicial para deixar o país, o doutor Luís Octávio Índio da Costa está esquiando na estação de Las Leñas.
Ele foi dono do banco Cruzeiro do Sul, colocado sob intervenção do Banco Central há um ano, com um rombo de R$ 3,1 bilhões.
Entre as gracinhas encontradas na contabilidade do banco esteve a compra de R$ 28,3 milhões em cartões telefônicos, ervanário suficiente para adquirir 566.821 plásticos com créditos de R$ 50.
ERROS
O servidor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) detido no Rio durante os protestos contra o governador Sérgio Cabral não disse que estava a serviço da agência.
Ele foi acusado de desacatar a delegada de plantão na 14ª DP.
O ministro Raimundo Carneiro, do Tribunal de Contas da União, que conviveu com duas datas de nascimento (1946 e 1948), esclarece que a disparidade "em nada interferiu no processo de aposentadoria perante o Senado", onde foi funcionário.
O TUCANO QUIS TIRAR FHC DO AR
Coisas que só acontecem no ninho dos tucanos. O jornalista Mario Sergio Conti, que dirige e apresenta o programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura, do governo paulista, foi informado de que seu contrato, vigente até o final de setembro, estará rescindido ao fim deste mês. A lâmina foi passada pelo doutor Marcos Mendonça, que assumiu a direção da emissora em junho.
Pouco depois da posse de Mendonça, Conti havia convidado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para ser o entrevistado da semana. Desde 2011, quando João Sayad o levou para a TV Cultura, o jornalista tinha autonomia para escolher os convidados.
Mendonça é um mandarim do aparelho tucano e já ocupou a Secretaria de Cultura de São Paulo. Sem qualquer discussão interna, ou notícia a Conti, telefonou para o ex-presidente, retirando o convite. No seu melhor estilo, FHC encaixou o golpe. Quando Mendonça comunicou o desconvite a Conti, ele condenou a grosseria com o ex-presidente, lembrou a autonomia que Sayad lhe dera e informou que a exerceria, mantendo a entrevista. Ligou para FHC que, novamente no seu melhor estilo, disse-lhe "lá estarei". E lá esteve, cerimoniosamente recepcionado por Mendonça. A entrevista foi ao ar no dia 1º de julho.
Não há registro de episódio semelhante, com dono de emissora desfazendo um convite aceito por um ex-presidente da República. Quem chegou mais perto foi o comandante do 1º Exército, em 1969, quando mandou passar a tesoura em declarações de d. Yolanda Costa e Silva, mulher do marechal que estava entrevado, no Palácio Laranjeiras.
Em 1978, quando censores quiseram impedir que uma entrevista de Lula à TV Cultura fosse ao ar, o governador Paulo Egydio Martins se mexeu e o presidente Ernesto Geisel os enquadrou.
Amanhã, o Roda Viva entrevistará Pablo Capilé, do Mídia Ninja.
Coincidência geral? - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 04/08
A Mkpol Marketing Político, empresa que Duda Mendonça diz desconhecer, prestou serviços para campanhas em que o publicitário atuou em 2010. A lista inclui as de Hélio Costa (PMDB) e Paulo Skaf (ex-PSB) ao governo de MG e SP, e Fernando Pimentel (PT-MG), Lindbergh Farias (PT-RJ), Marta Suplicy (PT-SP) e Delcídio Amaral (PT-MS) ao Senado. A PF investiga se o comitê do governador Ricardo Coutinho (PSB-PB) repassou verba desviada à Mkpol, que diz pertencer a Duda.
Outro lado 1 O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro reiterou que Duda nunca trabalhou ou se associou à Mkpol, conforme disse à PF. Ele diz que, se a empresa trabalhou em campanhas nas quais Duda atuou, ele não tem conhecimento.
Outro lado 2 O publicitário afirma que foi indiciado em 15 de julho sem ter sido ouvido pela PF. Seu depoimento, no dia 29, só foi tomado após queixa da defesa.
Fogo... O procurador-regional da República Manoel Pastana entrou com representação em 22 de julho no Conselho Nacional do Ministério Público contra integrantes da cúpula do MPF: Roberto Gurgel, a subprocuradora Claudia Sampaio e o corregedor-geral, Eugênio Aragão.
... interno No documento, encaminhado também a Dilma Rousseff, Joaquim Barbosa e Renan Calheiros, Pastana aponta "graves ocorrências'' contra o trio e cita a Operação Monte Carlo, da PF. "Há fortíssimos indícios de que o PGR faltou com a verdade ao afirmar que reteve o mencionado inquérito por razões de estratégia'', diz.
Cálculo De um aliado de Gilberto Kassab sobre a brecha deixada pelo ex-prefeito para levar seu partido, o PSD, tanto para o palanque de Dilma quanto para uma eventual aliança com José Serra na sucessão presidencial do ano que vem: "O Kassab é engenheiro. Vai fazer o que garantir a maior bancada''.
Marca... O senador Gim Argello (PTB-DF) contratou com verba do Senado empresas de marketing comandadas por Abdon Bucar, que apareceu em vídeo durante o mensalão do DEM falando em "queimar" notas fiscais para legalizar dinheiro supostamente não declarado.
... registrada Sua empresa à época, a AB Produções, foi responsável pela campanha do ex-governador José Roberto Arruda (DF).
Veja bem 1 Argello pagou R$ 38 mil à empresa. Ele afirma que a produtora trabalhou para "toda a coligação de Agnelo Queiroz" em 2010 e não sabia de sua citação no escândalo. "Não vejo demérito nisso. A produtora dele tem uma das maiores estruturas de Brasília", completa.
Veja bem 2 Bucar diz que apenas alguns veículos de comunicação reproduziram o vídeo gravado à época da denúncia e que seu nome não aparece na denúncia dos 38 réus do caso. Questionado sobre o que ocorreu no dia da gravação, ele afirma não se lembrar mais da história.
Lupa 1 O governo Geraldo Alckmin (PSDB) acompanhará com apreensão o protesto marcado pelo Movimento Passe Livre no dia 14, contra acusação de desvios em licitações de metrô e trem.
Lupa 2 O Palácio dos Bandeirantes acredita que o ato pode ampliar a repercussão do caso e colar imagem de corrupção ao governo.
Tiro A bancada do PT na Câmara paulistana quer aproveitar a CPI dos Transportes para pressionar o governo a rever o subsídio à integração entre ônibus e metrô na capital. O vereador Paulo Fiorilo diz que a prefeitura banca 52,25% das despesas, e o governo, 47,75%.
Tiroteios
Serra sabe da falta de médicos no interior do país. Tanto que, como ministro, defendeu a vinda de estrangeiros, inclusive cubanos.
DO MINISTRO ALEXANDRE PADILHA (SAÚDE), rebatendo críticas do ex-ministro e ex-governador de São Paulo, José Serra, ao programa Mais Médicos.
Contraponto
O inferno são os outros
Durante ato político no Senado em defesa da criação de novos Tribunais Regionais Federai) no país, o deputado Amauri Teixeira (PT-BA) cometeu uma gafe ao chamar o senador Sérgio Souza (PMDB-PR) de deputado. Ao ser corrigido por colegas, tentou minimizar o mal-estar diante de uma plateia de congressistas, magistrados e representantes de entidades jurídicas - e acabou apelando para o "excesso de sinceridade".
-Você pode chamar deputado de senador, mas não senador de deputado. Ninguém quer sair do céu para o inferno, que é a Câmara - disse, arrancando risos.
A Mkpol Marketing Político, empresa que Duda Mendonça diz desconhecer, prestou serviços para campanhas em que o publicitário atuou em 2010. A lista inclui as de Hélio Costa (PMDB) e Paulo Skaf (ex-PSB) ao governo de MG e SP, e Fernando Pimentel (PT-MG), Lindbergh Farias (PT-RJ), Marta Suplicy (PT-SP) e Delcídio Amaral (PT-MS) ao Senado. A PF investiga se o comitê do governador Ricardo Coutinho (PSB-PB) repassou verba desviada à Mkpol, que diz pertencer a Duda.
Outro lado 1 O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro reiterou que Duda nunca trabalhou ou se associou à Mkpol, conforme disse à PF. Ele diz que, se a empresa trabalhou em campanhas nas quais Duda atuou, ele não tem conhecimento.
Outro lado 2 O publicitário afirma que foi indiciado em 15 de julho sem ter sido ouvido pela PF. Seu depoimento, no dia 29, só foi tomado após queixa da defesa.
Fogo... O procurador-regional da República Manoel Pastana entrou com representação em 22 de julho no Conselho Nacional do Ministério Público contra integrantes da cúpula do MPF: Roberto Gurgel, a subprocuradora Claudia Sampaio e o corregedor-geral, Eugênio Aragão.
... interno No documento, encaminhado também a Dilma Rousseff, Joaquim Barbosa e Renan Calheiros, Pastana aponta "graves ocorrências'' contra o trio e cita a Operação Monte Carlo, da PF. "Há fortíssimos indícios de que o PGR faltou com a verdade ao afirmar que reteve o mencionado inquérito por razões de estratégia'', diz.
Cálculo De um aliado de Gilberto Kassab sobre a brecha deixada pelo ex-prefeito para levar seu partido, o PSD, tanto para o palanque de Dilma quanto para uma eventual aliança com José Serra na sucessão presidencial do ano que vem: "O Kassab é engenheiro. Vai fazer o que garantir a maior bancada''.
Marca... O senador Gim Argello (PTB-DF) contratou com verba do Senado empresas de marketing comandadas por Abdon Bucar, que apareceu em vídeo durante o mensalão do DEM falando em "queimar" notas fiscais para legalizar dinheiro supostamente não declarado.
... registrada Sua empresa à época, a AB Produções, foi responsável pela campanha do ex-governador José Roberto Arruda (DF).
Veja bem 1 Argello pagou R$ 38 mil à empresa. Ele afirma que a produtora trabalhou para "toda a coligação de Agnelo Queiroz" em 2010 e não sabia de sua citação no escândalo. "Não vejo demérito nisso. A produtora dele tem uma das maiores estruturas de Brasília", completa.
Veja bem 2 Bucar diz que apenas alguns veículos de comunicação reproduziram o vídeo gravado à época da denúncia e que seu nome não aparece na denúncia dos 38 réus do caso. Questionado sobre o que ocorreu no dia da gravação, ele afirma não se lembrar mais da história.
Lupa 1 O governo Geraldo Alckmin (PSDB) acompanhará com apreensão o protesto marcado pelo Movimento Passe Livre no dia 14, contra acusação de desvios em licitações de metrô e trem.
Lupa 2 O Palácio dos Bandeirantes acredita que o ato pode ampliar a repercussão do caso e colar imagem de corrupção ao governo.
Tiro A bancada do PT na Câmara paulistana quer aproveitar a CPI dos Transportes para pressionar o governo a rever o subsídio à integração entre ônibus e metrô na capital. O vereador Paulo Fiorilo diz que a prefeitura banca 52,25% das despesas, e o governo, 47,75%.
Tiroteios
Serra sabe da falta de médicos no interior do país. Tanto que, como ministro, defendeu a vinda de estrangeiros, inclusive cubanos.
DO MINISTRO ALEXANDRE PADILHA (SAÚDE), rebatendo críticas do ex-ministro e ex-governador de São Paulo, José Serra, ao programa Mais Médicos.
Contraponto
O inferno são os outros
Durante ato político no Senado em defesa da criação de novos Tribunais Regionais Federai) no país, o deputado Amauri Teixeira (PT-BA) cometeu uma gafe ao chamar o senador Sérgio Souza (PMDB-PR) de deputado. Ao ser corrigido por colegas, tentou minimizar o mal-estar diante de uma plateia de congressistas, magistrados e representantes de entidades jurídicas - e acabou apelando para o "excesso de sinceridade".
-Você pode chamar deputado de senador, mas não senador de deputado. Ninguém quer sair do céu para o inferno, que é a Câmara - disse, arrancando risos.
Estilo Mercadante - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 04/08
Ministros dos partidos aliados estão chocados com Aloizio Mercadante. Contam que ele está chamando a todos para dar um dá ou desce. Cobra deles que enquadrem suas bancadas, para que votem com o governo. E ameaça com demissões e fusões dos ministérios. As prioridades são aprovar a Lei dos Royalties e manter o veto ao artigo que acaba com a multa de 10% do FGTS.
A ordem é arrochar a enquadrar
Os presidentes, os líderes e os ministros de cada um dos partidos aliados estão sendo chamados ao Planalto. A rodada de cobranças começa a partir desta segunda-feira. O governo quer se assegurar que as bancadas aliadas não vão se rebelar nas votações polêmicas das próximas semanas. A expectativa é dobrar o PDT e o PSB, no caso da votação da Lei dos Royalties, quanto à destinação dos recursos do Fundo Social para a educação e a saúde. E dar um jeito no PSD, do recém nomeado ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos, que trabalha com garra para derrubar, no Congresso, o veto à multa de 10% do FGTS nas demissões sem justa causa.
“Repudio o tom precipitado do ministro Guido Mantega. Já passou o tempo em que o Brasil tinha postura de subserviência às posições do FMI”
Lindbergh Farias
Senador (PT-RJ), em defesa do representante do Brasil no FMI, Paulo Nogueira Batista
Vocês vão ter que me engolir
Preocupado com a derrubada de vetos e projetos polêmicos, o governo decidiu se aproximar do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ). A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) esteve no Jaburu, quinta-feira, para almoçar e ouvir Cunha.
Fogo amigo
Sob fogo cruzado dos petistas, o ministro Aldo Rebelo (Esporte) mandou um recado ao ministro Aloizio Mercadante (Educação) e ao deputado e ex-ministro Ricardo Berzoini (PT-SP) dizendo que não é candidato a ocupar a Secretaria de Relações Institucionais. Na reforma, Aldo vai deixar a pasta para concorrer a deputado federal.
Buscando apoios
O ex-ministro e deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS) está sendo indicado para o TCU. A vaga do Legislativo ficará desocupada com a aposentadoria de Valmir Campelo. Ele disputa com o senador Gim Argello (PTB-DF).
A força do hábito
A fórmula é a mesma. O PSDB precisava do PMDB para governar, como o PT hoje. Os tucanos passaram o governo FH esculhambando o PMDB, como os petistas fazem agora no governo Dilma. Os ‘Neoliberais' e os 'social liberais' agem ao estilo do capitão Renault, personagem do filme Casablanca (1942), que na cena final proclama: "Prendam os suspeitos de sempre".
Eles são iguais
Os especialistas em Comissão do Orçamento dizem que não há diferença entre um tecnocrata petista ou um tucano. Para ambos, deputados e senadores eleitos, não tem legitimidade para destinar recursos para suas regiões eleitorais.
Hora de mudar
Há muitos anos as repartições militares dão meio expediente na sexta-feira. Os ministros da Defesa anteriores não conseguiram acabar com a regalia. Eles acreditam que a escandalosa portaria da Marinha cria um oportunidade de correção.
O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) deve reconduzir o atual presidente da Anatel, João Rezende, cujo mandato termina em novembro.
Ministros dos partidos aliados estão chocados com Aloizio Mercadante. Contam que ele está chamando a todos para dar um dá ou desce. Cobra deles que enquadrem suas bancadas, para que votem com o governo. E ameaça com demissões e fusões dos ministérios. As prioridades são aprovar a Lei dos Royalties e manter o veto ao artigo que acaba com a multa de 10% do FGTS.
A ordem é arrochar a enquadrar
Os presidentes, os líderes e os ministros de cada um dos partidos aliados estão sendo chamados ao Planalto. A rodada de cobranças começa a partir desta segunda-feira. O governo quer se assegurar que as bancadas aliadas não vão se rebelar nas votações polêmicas das próximas semanas. A expectativa é dobrar o PDT e o PSB, no caso da votação da Lei dos Royalties, quanto à destinação dos recursos do Fundo Social para a educação e a saúde. E dar um jeito no PSD, do recém nomeado ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos, que trabalha com garra para derrubar, no Congresso, o veto à multa de 10% do FGTS nas demissões sem justa causa.
“Repudio o tom precipitado do ministro Guido Mantega. Já passou o tempo em que o Brasil tinha postura de subserviência às posições do FMI”
Lindbergh Farias
Senador (PT-RJ), em defesa do representante do Brasil no FMI, Paulo Nogueira Batista
Vocês vão ter que me engolir
Preocupado com a derrubada de vetos e projetos polêmicos, o governo decidiu se aproximar do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ). A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) esteve no Jaburu, quinta-feira, para almoçar e ouvir Cunha.
Fogo amigo
Sob fogo cruzado dos petistas, o ministro Aldo Rebelo (Esporte) mandou um recado ao ministro Aloizio Mercadante (Educação) e ao deputado e ex-ministro Ricardo Berzoini (PT-SP) dizendo que não é candidato a ocupar a Secretaria de Relações Institucionais. Na reforma, Aldo vai deixar a pasta para concorrer a deputado federal.
Buscando apoios
O ex-ministro e deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS) está sendo indicado para o TCU. A vaga do Legislativo ficará desocupada com a aposentadoria de Valmir Campelo. Ele disputa com o senador Gim Argello (PTB-DF).
A força do hábito
A fórmula é a mesma. O PSDB precisava do PMDB para governar, como o PT hoje. Os tucanos passaram o governo FH esculhambando o PMDB, como os petistas fazem agora no governo Dilma. Os ‘Neoliberais' e os 'social liberais' agem ao estilo do capitão Renault, personagem do filme Casablanca (1942), que na cena final proclama: "Prendam os suspeitos de sempre".
Eles são iguais
Os especialistas em Comissão do Orçamento dizem que não há diferença entre um tecnocrata petista ou um tucano. Para ambos, deputados e senadores eleitos, não tem legitimidade para destinar recursos para suas regiões eleitorais.
Hora de mudar
Há muitos anos as repartições militares dão meio expediente na sexta-feira. Os ministros da Defesa anteriores não conseguiram acabar com a regalia. Eles acreditam que a escandalosa portaria da Marinha cria um oportunidade de correção.
O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) deve reconduzir o atual presidente da Anatel, João Rezende, cujo mandato termina em novembro.
No consultório - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - PR - 04/08
A medicina brasileira vive momentos trepidantes e em pouco tempo teremos cubanos, portugueses, espanhóis nos consultórios do SUS fazendo diagnósticos em várias línguas. Preparem-se, caros pacientes; é bom saber que as mesmas palavras podem ter significados totalmente diversos em dois países diferentes.
Quando o médico português lhe perguntar se “tem ido com frequência à retreta”, não pense que ele está se referindo a simpáticas orquestras tocando em coretos interioranos; o médico lusitano estará lhe perguntando se seu intestino está funcionando bem e se você tem ido ao banheiro com regularidade. Se lhe sugerir “acionar o autoclismo da retreta” após o uso da mesma, estará lhe lembrando para apertar a válvula. Se o médico espanhol lhe ordenar “sacar su saco”, ele estará simplesmente mandando que você tire o paletó, e não recomendando uma cirurgia mutiladora.
É bom preparar as mulheres para perguntas enigmáticas: quando o médico lusitano perguntar se estão “de histórias”, ele não quererá saber das últimas fofocas e fuxicos, e sim se a paciente está menstruada. E à pergunta do médico cubano se está “embarazada”, ela não deve imaginar que sua modéstia e acanhamento estejam chamando a atenção do esculápio, e sim que ele quer saber se a consulente está grávida.
Embora tenham um ar de brincadeira, esses exemplos são rigorosamente verdadeiros. No entanto, a dificuldade linguística será apenas um dos obstáculos a serem enfrentados na implantação do tal programa Mais Médicos. Em outros casos, a própria falta de familiaridade com as peculiaridades da população brasileira e de suas mazelas será outra barreira formidável a ser superada: várias doenças erradicadas ou controladas há décadas na Europa ainda sobrevivem no Brasil, facilitadas pelas péssimas condições de higiene e de saneamento nas áreas mais pobres do Brasil, exatamente aquelas que vão ser destinadas aos médicos oriundos de outros países. Em seus países de origem, essas doenças não são nem sequer estudadas, pela inutilidade de fazê-lo.
Não nutro muitas esperanças de que a experiência do Mais Médicos vá dar certo. Com minha mente pedestre, eu preferiria investir em outra direção, revalorizando significativamente a carreira médica no Brasil nas duas pontas: criando condições objetivas para que os médicos recebam remunerações minimamente decentes, compatíveis com seus seis ou oito anos (com a residência) de preparação técnica, para que possam viver dignamente e abandonar a diáspora permanente de correr de um emprego a outro para garantir um mínimo de sobrevivência. E, na outra ponta, investindo seriamente na qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, hoje em níveis lastimáveis, com as (poucas) exceções que confirmam a regra.
De minha parte, sem qualquer demérito aos profissionais latino-americanos, espanhóis e portugueses, sugiro esperar um pouco até ter a certeza de que médicos e clientes estejam falando a mesma língua. Para não repetir o caso do brasileiro que foi aconselhado em Portugal a usar preservativos em suas relações sexuais. Na consulta seguinte, o paciente confessou que havia sido obrigado a descumprir a recomendação, porque a retirada da proteção lhe causava dores excruciantes. Intrigado, o médico quis ver o preservativo utilizado e o brasileiro lhe mostrou um rolo de fita durex. Gargalhada do médico: em Portugal, “durex” é o nome da camisinha.
A medicina brasileira vive momentos trepidantes e em pouco tempo teremos cubanos, portugueses, espanhóis nos consultórios do SUS fazendo diagnósticos em várias línguas. Preparem-se, caros pacientes; é bom saber que as mesmas palavras podem ter significados totalmente diversos em dois países diferentes.
Quando o médico português lhe perguntar se “tem ido com frequência à retreta”, não pense que ele está se referindo a simpáticas orquestras tocando em coretos interioranos; o médico lusitano estará lhe perguntando se seu intestino está funcionando bem e se você tem ido ao banheiro com regularidade. Se lhe sugerir “acionar o autoclismo da retreta” após o uso da mesma, estará lhe lembrando para apertar a válvula. Se o médico espanhol lhe ordenar “sacar su saco”, ele estará simplesmente mandando que você tire o paletó, e não recomendando uma cirurgia mutiladora.
É bom preparar as mulheres para perguntas enigmáticas: quando o médico lusitano perguntar se estão “de histórias”, ele não quererá saber das últimas fofocas e fuxicos, e sim se a paciente está menstruada. E à pergunta do médico cubano se está “embarazada”, ela não deve imaginar que sua modéstia e acanhamento estejam chamando a atenção do esculápio, e sim que ele quer saber se a consulente está grávida.
Embora tenham um ar de brincadeira, esses exemplos são rigorosamente verdadeiros. No entanto, a dificuldade linguística será apenas um dos obstáculos a serem enfrentados na implantação do tal programa Mais Médicos. Em outros casos, a própria falta de familiaridade com as peculiaridades da população brasileira e de suas mazelas será outra barreira formidável a ser superada: várias doenças erradicadas ou controladas há décadas na Europa ainda sobrevivem no Brasil, facilitadas pelas péssimas condições de higiene e de saneamento nas áreas mais pobres do Brasil, exatamente aquelas que vão ser destinadas aos médicos oriundos de outros países. Em seus países de origem, essas doenças não são nem sequer estudadas, pela inutilidade de fazê-lo.
Não nutro muitas esperanças de que a experiência do Mais Médicos vá dar certo. Com minha mente pedestre, eu preferiria investir em outra direção, revalorizando significativamente a carreira médica no Brasil nas duas pontas: criando condições objetivas para que os médicos recebam remunerações minimamente decentes, compatíveis com seus seis ou oito anos (com a residência) de preparação técnica, para que possam viver dignamente e abandonar a diáspora permanente de correr de um emprego a outro para garantir um mínimo de sobrevivência. E, na outra ponta, investindo seriamente na qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, hoje em níveis lastimáveis, com as (poucas) exceções que confirmam a regra.
De minha parte, sem qualquer demérito aos profissionais latino-americanos, espanhóis e portugueses, sugiro esperar um pouco até ter a certeza de que médicos e clientes estejam falando a mesma língua. Para não repetir o caso do brasileiro que foi aconselhado em Portugal a usar preservativos em suas relações sexuais. Na consulta seguinte, o paciente confessou que havia sido obrigado a descumprir a recomendação, porque a retirada da proteção lhe causava dores excruciantes. Intrigado, o médico quis ver o preservativo utilizado e o brasileiro lhe mostrou um rolo de fita durex. Gargalhada do médico: em Portugal, “durex” é o nome da camisinha.
Breve notícia do Brasil profundo - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 04/08
Crise faz turismo na aprazível, progressista, mas porém pobre urbe de "X", no litoral longe do Nordeste
A TEMPORADA TURÍSTICA não começou bem na aprazível cidade de X, que abriga menos de 10 mil almas ao longo de umas três ruas paralelas às praias de um lugar onde o vento faz a curva, no Nordeste do Brasil. A crise também faz turismo.
Julho de 2013 parece ter sido o primeiro de recessão no turismo de X, que crescia sem parar faz quase uma década. "Parece", é impressão geral, pois X não conta com dados econômicos de alta frequência. Os restaurantes não tinham mais que duas mesas ocupadas em cada almoço ou jantar de uma semana inteira.
Mas houve uma década de progresso nesta urbe de gente que antes vivia de peixe e coleta de coco, o que ainda faz na baixa temporada.
Motos das maquiladoras da zona franca substituem jegues, vários soltos nas ruas, como se via no sul do Piauí ou no Cariri do início do "milagre do crescimento" luliano (2006-07), quando os bichinhos de catadura triste eram largados ou vendidos por alguns reais.
Muitos dos amáveis moradores de X vivem naquilo que daqui do centro rico de São Paulo parece o mundo fantástico dos programas do governo federal, com aqueles nomes marqueteiros anunciados nas cerimônias cafonas de Brasília.
Um dia, o visitante resolveu fazer pilhéria do cálculo de probabilidades e entrou numa lotérica-banco da Caixa, seduzido pelo devaneio da manchete "Mega Sena acumulada de R$ 20 milhões sai para um único apostador de X".
A fila da lotérica-banco não andava. Cinco moradores de X esperavam para receber seu Bolsa Família, mas não havia dinheiro no caixa. O pessoal bolsista de X por vezes espera duas horas até aparecer alguém que faça pagamento ou aposta grande o bastante para cobrir o dinheirinho do Bolsa Família. Mas há o Bolsa Família, alívio.
A renda per capita de X não chega a R$ 260 por mês (a renda per capita média das cidades brasileiras é R$ 493). Na lista do Índice de Desenvolvimento Humano, a cidade está lá para lá de 4.000º lugar.
Na saída da escola primária, as crianças dos vilarejos mais distantes pegam um ônibus escolar novinho em folha, laranja como aqueles americanos, com logotipo do governo federal e o nome "Programa Caminho da Escola" na lataria.
Quase 99% das crianças de 6 a 14 anos estão pelo menos matriculada nas escolas de X, embora 77% delas estejam "vulneráveis à pobreza", como diz o Atlas do IDH.
Mas ver a barulheira das crianças aparentemente bem alimentadas tomando o ônibus novinho dá uma satisfação alegre, ainda que uma nuvem rápida passe pela cabeça ("o ônibus foi superfaturado?").
A nuvem volta quando se descobre que os meninos da 8ª série e do colégio tiveram menos de um terço das aulas do primeiro semestre. Faltam professores de química, matemática, história e geografia, entre outros problemas, como o diretor da escola berrar com estudantes e pais que reclamam da precariedade.
Os médicos parecem cumprir seu turno de trabalho nos postos de saúde e no Programa Saúde da Família, o que não é muito comum pelos fundões do país. Trabalham as oito horas, diz o povo, mas há mais postos e horas no dia do que médicos. Na cidade vizinha maior, a 40 minutos pela estrada de buracos, o único hospital das redondezas mal funciona por falta de funcionários.
Crise faz turismo na aprazível, progressista, mas porém pobre urbe de "X", no litoral longe do Nordeste
A TEMPORADA TURÍSTICA não começou bem na aprazível cidade de X, que abriga menos de 10 mil almas ao longo de umas três ruas paralelas às praias de um lugar onde o vento faz a curva, no Nordeste do Brasil. A crise também faz turismo.
Julho de 2013 parece ter sido o primeiro de recessão no turismo de X, que crescia sem parar faz quase uma década. "Parece", é impressão geral, pois X não conta com dados econômicos de alta frequência. Os restaurantes não tinham mais que duas mesas ocupadas em cada almoço ou jantar de uma semana inteira.
Mas houve uma década de progresso nesta urbe de gente que antes vivia de peixe e coleta de coco, o que ainda faz na baixa temporada.
Motos das maquiladoras da zona franca substituem jegues, vários soltos nas ruas, como se via no sul do Piauí ou no Cariri do início do "milagre do crescimento" luliano (2006-07), quando os bichinhos de catadura triste eram largados ou vendidos por alguns reais.
Muitos dos amáveis moradores de X vivem naquilo que daqui do centro rico de São Paulo parece o mundo fantástico dos programas do governo federal, com aqueles nomes marqueteiros anunciados nas cerimônias cafonas de Brasília.
Um dia, o visitante resolveu fazer pilhéria do cálculo de probabilidades e entrou numa lotérica-banco da Caixa, seduzido pelo devaneio da manchete "Mega Sena acumulada de R$ 20 milhões sai para um único apostador de X".
A fila da lotérica-banco não andava. Cinco moradores de X esperavam para receber seu Bolsa Família, mas não havia dinheiro no caixa. O pessoal bolsista de X por vezes espera duas horas até aparecer alguém que faça pagamento ou aposta grande o bastante para cobrir o dinheirinho do Bolsa Família. Mas há o Bolsa Família, alívio.
A renda per capita de X não chega a R$ 260 por mês (a renda per capita média das cidades brasileiras é R$ 493). Na lista do Índice de Desenvolvimento Humano, a cidade está lá para lá de 4.000º lugar.
Na saída da escola primária, as crianças dos vilarejos mais distantes pegam um ônibus escolar novinho em folha, laranja como aqueles americanos, com logotipo do governo federal e o nome "Programa Caminho da Escola" na lataria.
Quase 99% das crianças de 6 a 14 anos estão pelo menos matriculada nas escolas de X, embora 77% delas estejam "vulneráveis à pobreza", como diz o Atlas do IDH.
Mas ver a barulheira das crianças aparentemente bem alimentadas tomando o ônibus novinho dá uma satisfação alegre, ainda que uma nuvem rápida passe pela cabeça ("o ônibus foi superfaturado?").
A nuvem volta quando se descobre que os meninos da 8ª série e do colégio tiveram menos de um terço das aulas do primeiro semestre. Faltam professores de química, matemática, história e geografia, entre outros problemas, como o diretor da escola berrar com estudantes e pais que reclamam da precariedade.
Os médicos parecem cumprir seu turno de trabalho nos postos de saúde e no Programa Saúde da Família, o que não é muito comum pelos fundões do país. Trabalham as oito horas, diz o povo, mas há mais postos e horas no dia do que médicos. Na cidade vizinha maior, a 40 minutos pela estrada de buracos, o único hospital das redondezas mal funciona por falta de funcionários.
O estado-babá - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 04/08
A menos de um mês da entrada em vigor da resolução que proíbe a presença de aditivos nos cigarros brasileiros, na quarta-feira a Anvisa recuou da decisão. Em setembro serão proibidos apenas os cigarros mentolados. Outros 145 aditivos serão examinados por uma câmara técnica , a ser criada. Essa câmara, cuja composição ainda não foi definida, mas que não contará com representantes da indústria do tabaco, terá um ano para elaborar um parecer.
Para a Anvisa, a melhor maneira de convencer os brasileiros a parar de fumar é alterar o sabor do produto a que estão acostumados. Com a medida, o cigarro não fica mais saudável, fica pior para o consumidor, garantem os empresários do ramo.
Foi uma reunião tensa a de quarta, e muito pouco técnica, a ponto de o diretor José Agenor Álvares da Silva ter chamado de Nosferatu um dos representantes da indústria presente. A decisão foi tomada quando o STF se preparava para analisar uma ação de inconstitucionalidade da Confederação Nacional da Indústria, que quer a definição dos limites do poder da Anvisa. Os empresários consideram que o resultado será decisivo para definir o ambiente de negócios no país.
A resolução 14/2012 está sendo vista como exemplar de uma ofensiva contra a liberdade empresarial no Brasil e, como atinge a indústria do fumo, um setor considerado antipático e estigmatizado pelos prejuízos que pode causar à saúde da população, os abusos de regulação não são devidamente combatidos.
Segundo os empresários, a CNI tem buscado a Justiça como caminho para preservar as regras da democracia, da livre iniciativa e do equilíbrio entre poderes, algo maior e mais importante do que a questão dos cigarros. Na legislação sobre os aditivos dos cigarros, o Congresso havia rejeitado uma medida provisória sobre o tema, e a Anvisa fez uma medida administrativa para superar o Legislativo.
Há exemplos de sobra apenas na Anvisa de como o Estado-Babá atua, na suposição de que deve proteger os cidadãos de si mesmos através de medidas regulatórias que visam o bem social . Com o objetivo de reduzir a automedicação, em 2009 a Anvisa decidiu proibir a comercialização de medicamentos isentos de prescrição no balcão de farmácias por meio da Resolução RDC nº 44. Sem analisar os impactos que a medida poderia ocasionar, a Agência viu-se, curiosamente, diante de um cenário de aumento do consumo porque passaram a comprar embalagens maiores, para evitar o inconveniente de solicitar aos atendentes das farmácias os referidos produtos.
Ainda em 2009, a Anvisa decidiu regular o bronzeamento artificial, praticamente proibindo-o. O setor foi à Justiça e conseguiu uma liminar considerando que a resolução RDC 56/09 desborda do princípio da razoabilidade, porque não informa o tempo de exposição necessário para afirmar que a exposição a raios ultravioletas é causadora de câncer.
Também sob a justificativa de proteção da saúde pública , a Anvisa editou em 2010 a Resolução RDC nº 24, determinando a colocação de advertências em alimentos que possuem baixo valor nutricional, com o objetivo de induzir a população àquilo que considerava um estilo de alimentação adequado.
Entidades representativas do setor pleiteiam no Judiciário a suspensão da medida. Mais recentemente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região se manifestou no sentido de que extrapolou[-se] a competência legal conferida àquela Agência, violando, a um só tempo, os princípios da legalidade e razoabilidade, e o direito à publicidade, sem contar a indevida intervenção na atividade econômica dos associados da autora . A própria Advocacia Geral da União (AGU) entendeu que a medida deveria ser suspensa.
Outro exemplo foi a tentativa de proibição do uso de medicamentos emagrecedores, em outubro de 2011. Na ocasião, a comunidade médica se mostrou contrária ao banimento, ressaltando a importância dos medicamentos para o tratamento da obesidade. Apenas no final de maio deste ano a Agência resolveu liberar a utilização de emagrecedores à base de sibutramina.
Jorge Bastos Moreno lança amanhã às 19h seu livro A história de Mora na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Todo mundo lá!
Para a Anvisa, a melhor maneira de convencer os brasileiros a parar de fumar é alterar o sabor do produto a que estão acostumados. Com a medida, o cigarro não fica mais saudável, fica pior para o consumidor, garantem os empresários do ramo.
Foi uma reunião tensa a de quarta, e muito pouco técnica, a ponto de o diretor José Agenor Álvares da Silva ter chamado de Nosferatu um dos representantes da indústria presente. A decisão foi tomada quando o STF se preparava para analisar uma ação de inconstitucionalidade da Confederação Nacional da Indústria, que quer a definição dos limites do poder da Anvisa. Os empresários consideram que o resultado será decisivo para definir o ambiente de negócios no país.
A resolução 14/2012 está sendo vista como exemplar de uma ofensiva contra a liberdade empresarial no Brasil e, como atinge a indústria do fumo, um setor considerado antipático e estigmatizado pelos prejuízos que pode causar à saúde da população, os abusos de regulação não são devidamente combatidos.
Segundo os empresários, a CNI tem buscado a Justiça como caminho para preservar as regras da democracia, da livre iniciativa e do equilíbrio entre poderes, algo maior e mais importante do que a questão dos cigarros. Na legislação sobre os aditivos dos cigarros, o Congresso havia rejeitado uma medida provisória sobre o tema, e a Anvisa fez uma medida administrativa para superar o Legislativo.
Há exemplos de sobra apenas na Anvisa de como o Estado-Babá atua, na suposição de que deve proteger os cidadãos de si mesmos através de medidas regulatórias que visam o bem social . Com o objetivo de reduzir a automedicação, em 2009 a Anvisa decidiu proibir a comercialização de medicamentos isentos de prescrição no balcão de farmácias por meio da Resolução RDC nº 44. Sem analisar os impactos que a medida poderia ocasionar, a Agência viu-se, curiosamente, diante de um cenário de aumento do consumo porque passaram a comprar embalagens maiores, para evitar o inconveniente de solicitar aos atendentes das farmácias os referidos produtos.
Ainda em 2009, a Anvisa decidiu regular o bronzeamento artificial, praticamente proibindo-o. O setor foi à Justiça e conseguiu uma liminar considerando que a resolução RDC 56/09 desborda do princípio da razoabilidade, porque não informa o tempo de exposição necessário para afirmar que a exposição a raios ultravioletas é causadora de câncer.
Também sob a justificativa de proteção da saúde pública , a Anvisa editou em 2010 a Resolução RDC nº 24, determinando a colocação de advertências em alimentos que possuem baixo valor nutricional, com o objetivo de induzir a população àquilo que considerava um estilo de alimentação adequado.
Entidades representativas do setor pleiteiam no Judiciário a suspensão da medida. Mais recentemente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região se manifestou no sentido de que extrapolou[-se] a competência legal conferida àquela Agência, violando, a um só tempo, os princípios da legalidade e razoabilidade, e o direito à publicidade, sem contar a indevida intervenção na atividade econômica dos associados da autora . A própria Advocacia Geral da União (AGU) entendeu que a medida deveria ser suspensa.
Outro exemplo foi a tentativa de proibição do uso de medicamentos emagrecedores, em outubro de 2011. Na ocasião, a comunidade médica se mostrou contrária ao banimento, ressaltando a importância dos medicamentos para o tratamento da obesidade. Apenas no final de maio deste ano a Agência resolveu liberar a utilização de emagrecedores à base de sibutramina.
Jorge Bastos Moreno lança amanhã às 19h seu livro A história de Mora na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Todo mundo lá!
O breviário franciscano dos políticos - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADO DE S. PAULO - 04/08
Padre Américo Sérgio Maia, antigo vigário de Çajazeiras (PB), teve um dia de viajar 28 quilômetros a cavalo para dar a extrema-unção a um doente. Cansado, apeando do animal logo perguntou: "Minha senhora, por que vocês não fizeram uma casa mais perto da cidade?". Ouviu a ácida resposta: "Padre, e por que não fizeram a cidade mais perto da gente?". Essa historinha serve para explicar o distanciamento de fiéis da Igreja Católica e sua perda para credos evangélicos, se bem que, em sua entrevista ao jornalista Gerson Camarotti, o papa Francisco tenha ressaltado o fato de não conhecer profundamente a questão brasileira. Mas a distância entre a população católica e sua Igreja se insere entre as razões que estão por trás da perda de 1,7 milhão de fiéis entre 2000 e 2010, segundo dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que dá uma média de 465 pessoas por dia.
A lição do papa cai como luva para explicar também a perda de credibilidade dos políticos. A crise da nossa democracia representativa, tão ressaltada nestes tempos de efervescência social, se ampara em múltiplas razões, mas o descolamento entre a esfera política e a sociedade apresenta-se como o fator central Políticos fecham os ouvidos ao barulho das ruas e menosprezam o sentimento da plebe.
E qual o motivo para tal afastamento, quando se sabe que o mandato não pertence ao eleito, mas ao povo, que apenas lhe transfere temporariamente a representação? A resposta contempla a mudança do conceito de política, de missão para profissão, aquela abrigando o ideário coletivo, esta incorporando o interesse individual. Ou, em outros termos, o verbo transitivo indireto servir (ao povo) cedeu lugar à forma pronominal servir-se (do povo). A esganiçada luta do poder pelo poder tornou mais ferina a competição política, formando um arsenal de poderosos instrumentos para os guerreiros usarem na arena eleitoral: recursos financeiros, espaços midiáticos, partidos sem doutrina e uma retórica de glorificação personalista, focada na grandeza dos perfis em detrimento das ideias. Há muito deixamos de enxergar na representação política o conjunto que deveria agir em defesa de uma sociedade harmônica e fraterna, banhada nas águas da solidariedade. Os conjuntos legislativos são vistos como braços políticos do ciclo produção-consumo, cujo foco é o rendimento, o ganho, a concorrência, o jogo de soma zero, no qual a vitória de um se dá graças à derrota de outro.
Sob esse prisma, o rosário de virtudes desfiado pelo jesuíta argentino para revitalizar a Igreja Católica e resgatar a fé de rebanhos desgarrados não deixa de ser sábia contribuição para oxigenar a política. Afinal, partidos políticos,como credos e igrejas, mesmo sob o impulso da força monetária, devem ser entidades inspiradas no poder da norma, conforme ensina Amitai Etzioni em sua obra sobre organizações complexas. A evidência transpareceu. O pontífice usou as chaves da Igreja de Roma para abrir, por aqui, outras portas, ainda mais que se deparou com uma orla marítima povoada por 3 milhões de pessoas, um ambiente político tumultuado, a começar de um Rio de Janeiro hostil aos governantes, e ecos deturbas clamando por melhoria dos serviços públicos. O papaparecia querer nos deixar um legado valorativo, algo como um manual de conduta política, tão franciscano quanto ele, contraponto ao Breviário dos Políticos, aquele manuscrito que o cardeal Mazarino produziu nos tempos dos Luíses XIII e XIV da França, pregando a desconfiança, a emboscada, a simulação e a dissimulação.
O livrinho papal, pinçado de seus pronunciamentos e entrevistas, alinha preceitos inerentes ao escopo da Política (com P maiúsculo), seja para uso da Igreja, seja para a vida partidária. A par da proximidade, fator já referido, apregoa a simplicidade, o despojamento da estética extravagante, tão do gosto desse marketing que espetaculariza eventos e cosmetiza imagens de governantes. (Quem imaginaria uma de nossas altas autoridades subindo a escada do avião com sua malinha a tiracolo?) Simplicidade nada mais é que a presença do político real junto ao eleitor, sem estandartes e altares para poder se apresentar mais alto ou mais importante do que é. Ser simples é exibir o perfil desnudado, sem máscaras, despojado, leve, transparente. Nas palavras de André Comte-Sponville, "é ter a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos". Ou, ainda, ter humildade, que "é a virtude do homem que sabe não ser Deus". Exercitar tais virtudes significa ter coragem para se desviar do espelho de Narciso, ao qual recorrem, invariavelmente, os atores políticos. O termo ator, aqui, tem o propósito de mostrar que a "cultura do espetáculo" chegou ao palco da política, que esta é cada vez mais parecida com a arte dramática, na expressão de Roger-Gérard Schwartzenberg: "Esta política-artificio vive de insinceridade, de sentimentos falsos, forçados ou fabricados".
A coleção de valores abriga, ainda, o compromisso da "nossa geração" de abrir espaço aos jovens, que Francisco conclamou a serem "revolucionários, rebeldes, corajosos". O que os partidos políticos e os dirigentes têm feito para cooptar a adesão da juventude? Que esforços têm feito para compreender suas demandas, falara sua linguagem, ir ao encontro deles (sem jaulas de vidro)? Que janelas as siglas devem abrir para caírem no gosto popular? Encher papéis com verbos cheios de promessas, fazer novas cartas aos brasileiros? Mais uma vez, a voz do papa se faz ouvir; urge acabar com a Igreja que se comunica por documentos, à semelhança da mãe que se comunica com o filho por carta. O mesmo vale para a política. No entanto, partidos acreditam que acervos documentais farão o milagre de multiplicação de adeptos. Guinadas à esquerda, à direita ou ao centro não funcionam mais como anzóis para todos, igrejas e partidos que saibam ouvir suas preces.
Mensalão versus Siemens - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 04/08
BRASÍLIA - Reza a lenda política que agosto é o mês do azar, quando Getúlio Vargas se suicidou, Jânio Quadros renunciou e Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro até hoje ainda nebuloso.
Pois justamente em agosto recomeça o julgamento do mensalão no Supremo, que pega o PT de jeito, e emerge a denúncia da alemã Siemens de que houve um cartel para licitações das obras do metrô de São Paulo, o que desestabiliza o PSDB.
Como pano de fundo, a popularidade de Dilma em queda, protestos contra Alckmin e Cabral, o Congresso em pé de guerra e a recuperação da economia, só na promessa.
Tem-se que agosto encontrará o governo batendo cabeça, o Congresso testando forças, os tucanos esbaldando-se com o mensalão petista, e os petistas, com o caso Siemens dos tucanos. E a plateia botando fogo.
Isso tudo é álcool, gasolina e fósforo aceso para as manifestações populares. Elas começaram em junho, movidas em grande parte pela exaustão diante das práticas políticas e da falta de ética, e prometem voltar com tudo no Sete de Setembro, pelos mesmos motivos, mas com novidades, confrontos explosivos e a sensação de que não se salva um.
Se o mensalão do PT atinge José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha, a denúncia da Siemens, que entregou documentos para as autoridades brasileiras, aponta o governo Mário Covas, chega ao primeiro de Geraldo Alckmin e atinge um ano do de José Serra. É guerra de comandantes, não de soldados.
Como sempre, o caso Siemens começa assim: vem a manchete na imprensa, o atingido diz que há manipulação política e o investigador responde que o processo é legal, rigoroso e técnico. Depois, vira tudo um deus nos acuda, com verdades borbulhando, a mídia vasculhando cada vírgula, a opinião pública irada.
Mas agosto é só o começo, setembro está logo aí e 2014 é ano de eleição presidencial. O que está ruim sempre pode piorar.
BRASÍLIA - Reza a lenda política que agosto é o mês do azar, quando Getúlio Vargas se suicidou, Jânio Quadros renunciou e Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro até hoje ainda nebuloso.
Pois justamente em agosto recomeça o julgamento do mensalão no Supremo, que pega o PT de jeito, e emerge a denúncia da alemã Siemens de que houve um cartel para licitações das obras do metrô de São Paulo, o que desestabiliza o PSDB.
Como pano de fundo, a popularidade de Dilma em queda, protestos contra Alckmin e Cabral, o Congresso em pé de guerra e a recuperação da economia, só na promessa.
Tem-se que agosto encontrará o governo batendo cabeça, o Congresso testando forças, os tucanos esbaldando-se com o mensalão petista, e os petistas, com o caso Siemens dos tucanos. E a plateia botando fogo.
Isso tudo é álcool, gasolina e fósforo aceso para as manifestações populares. Elas começaram em junho, movidas em grande parte pela exaustão diante das práticas políticas e da falta de ética, e prometem voltar com tudo no Sete de Setembro, pelos mesmos motivos, mas com novidades, confrontos explosivos e a sensação de que não se salva um.
Se o mensalão do PT atinge José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha, a denúncia da Siemens, que entregou documentos para as autoridades brasileiras, aponta o governo Mário Covas, chega ao primeiro de Geraldo Alckmin e atinge um ano do de José Serra. É guerra de comandantes, não de soldados.
Como sempre, o caso Siemens começa assim: vem a manchete na imprensa, o atingido diz que há manipulação política e o investigador responde que o processo é legal, rigoroso e técnico. Depois, vira tudo um deus nos acuda, com verdades borbulhando, a mídia vasculhando cada vírgula, a opinião pública irada.
Mas agosto é só o começo, setembro está logo aí e 2014 é ano de eleição presidencial. O que está ruim sempre pode piorar.
Educar para crescer - ANA DUBEUX
CORREIO BRAZILIENSE - 04/08
Por um instante, podemos comemorar. O Brasil ganhou novo status, saiu de uma classificação medíocre no índice que mede o desenvolvimento humano e passou a um patamar mais alto, o que significa uma melhora de vida da população, especialmente dos mais pobres. Não há como negar isso - e seria injusto fazê-lo, tanto para a democracia brasileira, que tem se fortalecido, quanto para o próprio esforço da população em crescer. Há, no entanto, uma lacuna, um vazio. Refiro-me à educação. Sim, temos mais alunos na escola, mas isso é muito pouco.
Faltam professores, investimento, qualidade, profundidade, material didático, recursos tecnológicos. Falta empenho dos governos, de todos eles, em todas as esferas. Falta dar à educação o status de prioridade. O discurso chega a ser arcaico. Todos os países do mundo que se desenvolveram fincaram suas bases nas escolas e na produção de conhecimento, desde a educação básica até as universidades, com pesquisa de ponta e desenvolvimento científico. No Brasil, ainda lidamos com barreiras praticamente intransponíveis nesse setor. E sem qualificação adequada, o país sente e começa a ter problemas estruturais.
O Correio mostrou isso recentemente, com a série de reportagens do caderno Trabalho & Formação profissional sobre o apagão de mão de obra no Brasil, agraciada, na semana passada, com o prêmio CNI de Jornalismo 2013, na categoria especial de Educação. A repórter Mariana Niederauer expôs, em 11 matérias editadas pela jornalista Ana Sá, responsável pelo suplemento, as sérias dificuldades da indústria brasileira para encontrar profissionais qualificados, que possam exercer funções estratégicas. A série abordou ainda a deficiência na formação de técnicos, o reduzido número de mestres e doutores e a distância desses profissionais do setor privado.
O Distrito Federal não está isento de todos esses problemas, apesar de ter conquistado um posto privilegiado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Ficou em primeiro lugar, alcançando melhora em diversos indicadores relacionados à educação. Mesmo assim, é pouco. Numa simples conversa com professores, é possível identificar vários problemas encontrados em salas de aula e adjacências. O fato de estar matriculado numa escola e frequentá-la garante estatísticas favoráveis, mas não necessariamente promissoras.
É preciso compromisso com a formação de qualidade. Aqui no Correio, temos essa preocupação. Não é à toa que mantemos viva a necessidade de estimular a leitura, com a publicação do suplemento infantil Super!, que, também nas mãos da editora Ana Sá, alcança espontaneamente as salas de aula de escolas públicas e privadas do DF. Assim como as reportagens sobre a formação de jovens, a criação do hábito de leitura nos pequenos é parte de um processo de educação e cidadania, para o qual, dia a dia, nos esforçamos em contribuir.
Faltam professores, investimento, qualidade, profundidade, material didático, recursos tecnológicos. Falta empenho dos governos, de todos eles, em todas as esferas. Falta dar à educação o status de prioridade. O discurso chega a ser arcaico. Todos os países do mundo que se desenvolveram fincaram suas bases nas escolas e na produção de conhecimento, desde a educação básica até as universidades, com pesquisa de ponta e desenvolvimento científico. No Brasil, ainda lidamos com barreiras praticamente intransponíveis nesse setor. E sem qualificação adequada, o país sente e começa a ter problemas estruturais.
O Correio mostrou isso recentemente, com a série de reportagens do caderno Trabalho & Formação profissional sobre o apagão de mão de obra no Brasil, agraciada, na semana passada, com o prêmio CNI de Jornalismo 2013, na categoria especial de Educação. A repórter Mariana Niederauer expôs, em 11 matérias editadas pela jornalista Ana Sá, responsável pelo suplemento, as sérias dificuldades da indústria brasileira para encontrar profissionais qualificados, que possam exercer funções estratégicas. A série abordou ainda a deficiência na formação de técnicos, o reduzido número de mestres e doutores e a distância desses profissionais do setor privado.
O Distrito Federal não está isento de todos esses problemas, apesar de ter conquistado um posto privilegiado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Ficou em primeiro lugar, alcançando melhora em diversos indicadores relacionados à educação. Mesmo assim, é pouco. Numa simples conversa com professores, é possível identificar vários problemas encontrados em salas de aula e adjacências. O fato de estar matriculado numa escola e frequentá-la garante estatísticas favoráveis, mas não necessariamente promissoras.
É preciso compromisso com a formação de qualidade. Aqui no Correio, temos essa preocupação. Não é à toa que mantemos viva a necessidade de estimular a leitura, com a publicação do suplemento infantil Super!, que, também nas mãos da editora Ana Sá, alcança espontaneamente as salas de aula de escolas públicas e privadas do DF. Assim como as reportagens sobre a formação de jovens, a criação do hábito de leitura nos pequenos é parte de um processo de educação e cidadania, para o qual, dia a dia, nos esforçamos em contribuir.
Cartas na mesa - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O ESTADO DE S. PAULO - 04/08
Saí do Brasil depois que as manifestações populares provocaram um tsunami na avaliação dos principais dirigentes políticos. Na Europa, o noticiário repercute a recidiva da crise egípcia, a volta da incerteza na Tunísia, a continuidade trágica da guerra civil síria, os atentados sem fim no Paquistão e no Afeganistão, enfim, uma rotina de tragédias preanunciadas que, vistas de longe, parecem "coisas do Terceiro Mundo" Enquanto isso, a China vai encolhendo sua economia, os EUA confiam na recuperação e a Europa se contorce em ajustes sem fim. Do Brasil ecoam apenas os passos do papa, por vezes tocando o solo lamacento dos ermos para onde o levaram em sua pregação.
De nossas aflições financeiras os mercados externos só eventualmente tratam, mas delas sempre se cuidam, retirando suas aplicações ao primeiro sinal de alarme. Do desabamento político poucas referências há. Embora nenhuma crise de legitimidade tenha sido o gatilho do torvelinho popular, este terminou por mostrar que existe algo parecido com ela. Se de nossa política a mídia ocidental cuidasse, talvez visse que nem só na África e no Oriente Médio há um desencontro entre o poder e o povo. Há algo que não está funcionando direito na política, mesmo nas partes mais longínquas do Ocidente, como a América do Sul. Há um elo nesse desarranjo: as sociedades urbanas de massas, agora hiperconectadas pela internet, sentem-se mal representadas pelos que as comandam. Isso vale tanto para nós como para a Itália, a Espanha, a Grécia ou Portugal, assim como valeu para a Islândia ou pode vir a valer para outras regiões onde, além da crise de legitimidade política, choques culturais e religiosos acrescentem outra crise à de identidade.
Em nosso caso, como nos demais países ocidentais, o fator geral mais evidente que condiciona e possibilita o surgimento do mal-estar político deriva da grande crise financeira de 2007/8. Mas seria enganoso pensar que basta retomar o ritmo do crescimento da economia e tudo se arranja. É melhor ter cautela e reconhecer que, uma vez visto o rei nu, sua magia se desfaz ou engana menos incautos. As novas formas de sociabilidade criadas pelos meios diretos de informação e comunicação estão a requerer revisão profunda no modo de fazer política e nas instituições em que o poder se exerce. A desconfiança nos partidos e nos políticos é generalizada, embora não atinja o mesmo grau em todos os países, nem as instituições desabem ou sejam incapazes de se aprimorar. Até agora os efeitos construtivos da pressão popular sobre as instituições - salvo na Islândia - estão por se ver. Mas basta haver eleições para que os governos (de esquerda, de direita ou o que mais sejam) caiam, como cairia o nosso se as eleições fossem em breve. A questão é complexa e há responsáveis políticos, em maior ou menor grau. Para começar, o , governo Lula zombou da crise, era uma "marolinha", e seguiu funcionando, fagueiro, como se nada precisasse ser feito para ajustar o rumo. Houve, portanto, uma avaliação errada da conjuntura. Mas houve outras barbeiragens. O lulopetismo, arrogante, colocou a lanterna na popa do barco e, rumando para o , passado, retomou as políticas dos tempos militares geiselianos como se avançasse intrépido para o futuro. Tome subsídios para pobres e ricos, mais para estes que para aqueles, mais sem razão ao ajudar os ricos mais que os pobres. Perceberam tarde que o cobertor era curto, faltaria dinheiro. Se há problemas, tome maquiagem: o Tesouro se endivida, pega emprestado dinheiro no mercado, repassa-o ao BNDES, que fornece os mesmos recursos aos empresários amigos do rei. Toma-se dinheiro a, digamos, 10% e se concede a 5%. Quem paga a farra: eu, você, os contribuintes todos e os consumidores, pois algo dessa mágica desemboca em inflação.
A maquiagem fiscal já não engana: mesmo o governo dizendo que sua dívida líquida não aumenta, quem sabe ler balanços vê que a dívida bruta aumenta e os que investem ou emprestam, nacionais ou estrangeiros, aprenderam muito bem a ler as contas. Deixam de acreditar no governo. Mais ainda quando observam sua ginástica para fingir que é austero e mantém o superávit primário.
Não é só. Em vez de preparar o Brasil para um futuro mais eficiente e decente, com regras claras e competitivas que incentivassem a produtividade, o "modelo" retrocedeu ao clientelismo, ao protecionismo governamental e à ingerência crescente do poder político na vida das pessoas e das empresas. E não apenas graças a características pessoais da presidenta: a visão petista descrê da sociedade civil, atrela-a ao governo e ao partido, e transforma o Estado na mola exclusiva da economia. Pior e inevitável, a corrupção, independentemente dos desejos de quem esteja no ápice, vem junto. Tal sistema não é novo, foi coroado lá atrás, ainda no primeiro mandato de Lula, quando se armou o mensalão. Também neste caso há responsáveis políticos e nem todos estão na lista dos condenados pelo Supremo.
Com ou sem consciência de seus erros, o petismo é responsável por muito do que aí está. Não por acaso seu líder supremo, depois de longo silêncio, ao falar foi claro: identificou-se com as instituições que as ruas criticam e, como Macunaíma, aconselhou a presidenta a fazer oposição a si mesma, como se governo não fosse...
Se as oposições pretenderem sobreviver ao cataclismo, a hora é agora. O Brasil quer e precisa mudar. Chegou o momento de as vozes oposicionistas se comprometerem com um novo estilo de política e de assim procederem. Escutando e interpretando o significado do protesto popular. Sendo diretas e sinceras. Basta de corrupção e de falsas manias de grandeza. Enfrentemos o essencial da vida cotidiana, dos transportes à saúde, à educação e à segurança, não para prometer o milagre da solução imediata, mas a transparência das contas,das dificuldades e dos propósitos.
E não nos enganemos mais: ou nos capacitamos para participar e concorrer num mundo global áspero e em crise ou nos condenaremos à irrelevância.
Corrupção, que alívio... - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 04/08
Tive uma experiência paralela de como as coisas se passavam e continuaram a ser nas obras do metrô
A revelação, feita pela Siemens, de um cartel de empresas para corrupção em serviços na obra do metrô paulistano, traz, além de outros possíveis sentimentos, um alívio para muitos. São as pessoas entre as quais é recorrente, há tantos anos, a referência à corrupção nessa obra -sem sequer vislumbre de denúncia ou de investigação dos que deveriam fazê-las.
Vem de longe. Do começo. No remoto e mal esquecido governo de Orestes Quércia, tive uma experiência paralela de como as coisas se passavam e continuaram a ser.
Muito feliz com o que o metrô em São Paulo proporcionava, Quércia quis fazer mais um, este na Campinas de suas origens. À época administrada pelo braço direito de Lula no PT e no sindicalismo, Jacob Bittar, e nem por isso Quércia teve problema. Um acordo resolveu o conveniente. As condições para a obra é que se mostraram problemáticas. Em termos, porque logo foi sugerida a solução do metrô de superfície -de qualquer modo, uma boa obra nos sentidos mais interessantes.
Feita a alegada licitação, a Folha demonstrou a publicação antecipada do seu resultado. Quércia negou o conluio, claro, e ironizou o anúncio classificado com a antecipação. Viria então a ser exibido, pelo governo e pela empreiteira dada como vencedora, um anúncio publicado na própria Folha, com o nome de outra empreiteira, como comprovação de que publiquei diferentes resultados.
Ocorreu-me que talvez houvesse ainda a papeleta de entrada desse anúncio, onde o responsável tivesse deixado alguma indicação sua. A ajuda de meu colega (e amigo) Leão Serva, então na Folha, foi preciosa. Conseguiu encontrar a papeleta. Nela, um nome e telefone.
Demorei muito até conseguir que atendessem a uma das ligações. É que o sujeito do nome e seus companheiros estavam ocupados. Era trabalhador de uma obra. Da empreiteira Mendes Jr.. A mesma que vencera a alegada licitação. A contrarrevelação estava desmoralizada.
Os fatos foram noticiados em pormenores pela Folha. Nenhuma dúvida de pé. Passamos a esperar, apenas, o inquérito, e a consequente anulação da obra, pelo Ministério Público de São Paulo. Os que sobrevivemos ainda, estamos esperando até hoje.
Lula disse à Folha, dias depois, em defesa de Jacob Bittar, que a publicação da fraude "foi feita para prejudicar eleitoralmente o PT". Jacob Bittar não tardou muito a dar as costas a Lula e ao PT, e aderir integral e explicitamente a Quércia, bandeando-se para o PDT. Fui processado por Orestes Quércia, que perdeu em quantas instâncias judiciais desejou.
Toninho Costa Santos, então vice-prefeito petista, foi dado por muitos dos envolvidos, e por muitos outros, como origem da revelação de fraude. Mais tarde eleito prefeito, foi assassinado, sem que a polícia paulista fosse capaz, ou por algum outro motivo, de dizer algo convincente sobre autor ou mandante do crime. Às vezes me ocorre a suspeita de que o íntegro Toninho começou a morrer na época daquela fraude, quando muitos passaram a vê-lo como incorruptível, e portanto perigoso, na sua carreira de ético entre interesses e interessados de todos os tipos.
Tive uma experiência paralela de como as coisas se passavam e continuaram a ser nas obras do metrô
A revelação, feita pela Siemens, de um cartel de empresas para corrupção em serviços na obra do metrô paulistano, traz, além de outros possíveis sentimentos, um alívio para muitos. São as pessoas entre as quais é recorrente, há tantos anos, a referência à corrupção nessa obra -sem sequer vislumbre de denúncia ou de investigação dos que deveriam fazê-las.
Vem de longe. Do começo. No remoto e mal esquecido governo de Orestes Quércia, tive uma experiência paralela de como as coisas se passavam e continuaram a ser.
Muito feliz com o que o metrô em São Paulo proporcionava, Quércia quis fazer mais um, este na Campinas de suas origens. À época administrada pelo braço direito de Lula no PT e no sindicalismo, Jacob Bittar, e nem por isso Quércia teve problema. Um acordo resolveu o conveniente. As condições para a obra é que se mostraram problemáticas. Em termos, porque logo foi sugerida a solução do metrô de superfície -de qualquer modo, uma boa obra nos sentidos mais interessantes.
Feita a alegada licitação, a Folha demonstrou a publicação antecipada do seu resultado. Quércia negou o conluio, claro, e ironizou o anúncio classificado com a antecipação. Viria então a ser exibido, pelo governo e pela empreiteira dada como vencedora, um anúncio publicado na própria Folha, com o nome de outra empreiteira, como comprovação de que publiquei diferentes resultados.
Ocorreu-me que talvez houvesse ainda a papeleta de entrada desse anúncio, onde o responsável tivesse deixado alguma indicação sua. A ajuda de meu colega (e amigo) Leão Serva, então na Folha, foi preciosa. Conseguiu encontrar a papeleta. Nela, um nome e telefone.
Demorei muito até conseguir que atendessem a uma das ligações. É que o sujeito do nome e seus companheiros estavam ocupados. Era trabalhador de uma obra. Da empreiteira Mendes Jr.. A mesma que vencera a alegada licitação. A contrarrevelação estava desmoralizada.
Os fatos foram noticiados em pormenores pela Folha. Nenhuma dúvida de pé. Passamos a esperar, apenas, o inquérito, e a consequente anulação da obra, pelo Ministério Público de São Paulo. Os que sobrevivemos ainda, estamos esperando até hoje.
Lula disse à Folha, dias depois, em defesa de Jacob Bittar, que a publicação da fraude "foi feita para prejudicar eleitoralmente o PT". Jacob Bittar não tardou muito a dar as costas a Lula e ao PT, e aderir integral e explicitamente a Quércia, bandeando-se para o PDT. Fui processado por Orestes Quércia, que perdeu em quantas instâncias judiciais desejou.
Toninho Costa Santos, então vice-prefeito petista, foi dado por muitos dos envolvidos, e por muitos outros, como origem da revelação de fraude. Mais tarde eleito prefeito, foi assassinado, sem que a polícia paulista fosse capaz, ou por algum outro motivo, de dizer algo convincente sobre autor ou mandante do crime. Às vezes me ocorre a suspeita de que o íntegro Toninho começou a morrer na época daquela fraude, quando muitos passaram a vê-lo como incorruptível, e portanto perigoso, na sua carreira de ético entre interesses e interessados de todos os tipos.
A análise distorcida de Dilma - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 04/08
Uma pergunta deixada no ar na semana passada pela presidente Dilma Rousseff merece ser reformulada. "Como é possível uma cidade do tamanho de São Paulo sem transporte metroviário, sem um transporte que recorte a cidade em toda a sua extensão?", indagou a mandatária. A questão é que essa não é uma característica específica da megalópole, mas de todo o país.
Com dimensões continentais, o Brasil se deu ao luxo de optar pelo sistema rodoviário ainda nos anos 1950 do século passado, no governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. A verdade, contudo, é que, hoje, as duas malhas estão esgotadas, com estradas de ferro e rodovias insuficientes, de má qualidade e malconservadas.
Aliás, a razão inicial da explosão de protestos populares em junho último foi o preço elevado e a péssima prestação do serviço de transporte público. Demorou para o povo ir às ruas, pois o engessamento da mobilidade urbana e do deslocamento de cargas é gargalo da infraestrutura nacional desde priscas eras.
Nas cidades, os resultados mais evidentes são: perda de horas no trânsito - e tempo é dinheiro; emissão excessiva de poluentes, causando problemas de saúde pública; aumento do gasto de combustíveis, obrigando o país a importar cada vez mais derivados do petróleo e a aprofundar o deficit na balança comercial. Nas estradas: buracos, falta de fiscalização, malha precária e insegurança roubam a competitividade do setor produtivo, com desperdício de cargas, gastos extras com a manutenção das frotas e o maior tempo de percurso, acidentes, assaltos.
Há um ano, o governo federal anunciou plano de expansão da malha ferroviária em 10 mil quilômetros. Na ocasião, a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários contabilizava a existência de 29 mil quilômetros de estradas de ferro no país, contra 38 mil quilômetros no fim dos anos 1950. Ou seja, cumprida a meta, estaremos de volta a meados do século passado. Fica clara a falta de ousadia.
O atraso não vem de hoje. Em especial, em relação aos metrôs, para retornarmos à necessária reformulação da crítica mal localizada feita pela presidente Dilma. Os paulistanos passaram a contar com esse sistema - até então inédito no país - apenas em 1974, nada menos que 63 anos depois dos portenhos, tragédia para os que sofrem como num bom tango toda vez que o Brasil perde para a Argentina.
No mês passado, governadores e prefeitos foram convidados a discutir, em Brasília, ações em resposta aos reclamos populares. Deixaram projetos de mobilidade urbana orçados em R$ 52 bilhões. Isso, apenas para as oito maiores regiões metropolitanas do país.
Liberar o dinheiro não basta. A questão será resolvida com planejamento sistemático, definição de cronograma de obras que não admita solução de continuidade, acompanhamento rigoroso de cada centavo desembolsado. Obviamente, com prioridade para o transporte sobre trilhos, ainda que a construção de corredores de ônibus não possa ser desprezada e desde que o objetivo principal seja assegurar serviço de transporte público confiável.
Com dimensões continentais, o Brasil se deu ao luxo de optar pelo sistema rodoviário ainda nos anos 1950 do século passado, no governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. A verdade, contudo, é que, hoje, as duas malhas estão esgotadas, com estradas de ferro e rodovias insuficientes, de má qualidade e malconservadas.
Aliás, a razão inicial da explosão de protestos populares em junho último foi o preço elevado e a péssima prestação do serviço de transporte público. Demorou para o povo ir às ruas, pois o engessamento da mobilidade urbana e do deslocamento de cargas é gargalo da infraestrutura nacional desde priscas eras.
Nas cidades, os resultados mais evidentes são: perda de horas no trânsito - e tempo é dinheiro; emissão excessiva de poluentes, causando problemas de saúde pública; aumento do gasto de combustíveis, obrigando o país a importar cada vez mais derivados do petróleo e a aprofundar o deficit na balança comercial. Nas estradas: buracos, falta de fiscalização, malha precária e insegurança roubam a competitividade do setor produtivo, com desperdício de cargas, gastos extras com a manutenção das frotas e o maior tempo de percurso, acidentes, assaltos.
Há um ano, o governo federal anunciou plano de expansão da malha ferroviária em 10 mil quilômetros. Na ocasião, a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários contabilizava a existência de 29 mil quilômetros de estradas de ferro no país, contra 38 mil quilômetros no fim dos anos 1950. Ou seja, cumprida a meta, estaremos de volta a meados do século passado. Fica clara a falta de ousadia.
O atraso não vem de hoje. Em especial, em relação aos metrôs, para retornarmos à necessária reformulação da crítica mal localizada feita pela presidente Dilma. Os paulistanos passaram a contar com esse sistema - até então inédito no país - apenas em 1974, nada menos que 63 anos depois dos portenhos, tragédia para os que sofrem como num bom tango toda vez que o Brasil perde para a Argentina.
No mês passado, governadores e prefeitos foram convidados a discutir, em Brasília, ações em resposta aos reclamos populares. Deixaram projetos de mobilidade urbana orçados em R$ 52 bilhões. Isso, apenas para as oito maiores regiões metropolitanas do país.
Liberar o dinheiro não basta. A questão será resolvida com planejamento sistemático, definição de cronograma de obras que não admita solução de continuidade, acompanhamento rigoroso de cada centavo desembolsado. Obviamente, com prioridade para o transporte sobre trilhos, ainda que a construção de corredores de ônibus não possa ser desprezada e desde que o objetivo principal seja assegurar serviço de transporte público confiável.
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