FOLHA DE SP - 16/07
Com o crescimento do PIB ameaçado, ganhou força no governo a ideia de usar dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias que permite abater do superávit primário os investimentos do PAC e as desonerações fiscais. Isso evitaria um corte adicional no Orçamento para cumprir a meta fiscal. Membros da equipe de Dilma Rousseff avaliam que não é momento de retirar mais recursos da economia. Gleisi Hoffmann (Casa Civil) é uma das defensoras da mudança de cálculo.
Na rota Renan Calheiros (PMDB-AL) decidiu aprovar o pedido de informações de Aloysio Nunes (PSDB-SP) sobre o uso de aviões da FAB por autoridades depois que o tucano convenceu o presidente do Senado de que as informações já divulgadas foram "seletivas" e atingiram apenas a cúpula do PMDB.
UTI móvel Preocupado com a repercussão negativa do Mais Médicos, o governo vai enviar Alexandre Padilha (Saúde) e Aloizio Mercadante (Educação) para um périplo pelos Estados para explicar o programa que quer fixar médicos no interior do país.
Check-up A ouvidoria do Ministério da Saúde vai fazer um pente-fino nas inscrições para o Mais Médicos. Quer evitar que aqueles que já trabalhem para o SUS ou façam residência médica, condições vedadas pelo programa, se inscrevam só para evitar a contratação de estrangeiros.
Lei da toga Com a mudança de parte da composição do Conselho Nacional de Justiça em agosto, conselheiros cobram que seja colocada em pauta proposta defendida por Joaquim Barbosa que proíbe parentes de juízes de advogar em tribunais em que seus familiares atuam.
Novos ventos Hoje conselheiros contrários à medida alegam que a proibição não deve ser feita por resolução do CNJ, mas sim por projeto de lei. A expectativa é que a nova composição do órgão altere a correlação de forças.
Carona Na véspera de visita de Dilma, hoje, a Ponta Grossa, a agência de notícias do Paraná divulgou que Beto Richa (PSDB) e a presidente entregarão 1.400 unidades do Minha Casa, Minha Vida. No texto, o tucano diz que a entrega é uma parceria entre o Estado e o governo federal.
Fora... A Prefeitura de São Paulo fez 121 mil telefonemas até a última quinta-feira para confirmar a realização de exames médicos que estavam marcados na rede pública, com o objetivo de reduzir a fila de atendimento.
...da área Só 40% dos pacientes mantiveram o agendamento, e 47% não foram encontrados. Quase mil exames foram desmarcados.
Na cabeça? Apesar de a tarifa de ônibus em São Paulo ter sido o estopim dos protestos de junho, a prefeitura só recebeu três sugestões sobre o assunto entre as 9.000 propostas enviadas para a formulação do Plano de Metas de Fernando Haddad.
E aí? Na tentativa de salvar sua PEC que concentra no procurador-geral de Justiça as investigações de improbidade em relação a políticos, Campos Machado (PTB) encomendou uma pesquisa para saber a opinião da população sobre a medida.
Fla-Flu O deputado Marcus Pestana (PSDB-MG) rebate ataque do vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), a Aécio Neves: "O deputado tem ciúme do Aécio. Deve ser porque ele derrotou o PT quatro vezes e se prepara para vencer outra".
Visita à Folha Marcus Vinicius Coêlho, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, visitou ontem a Folha. Estava com Bartolomeu Rodrigues, assessor de imprensa.
tiroteio
"As obras do metrô de São Paulo andam a passos de tartaruga, mas os escândalos de superfaturamento têm velocidade de Ferrari."
DO EX-PREFEITO DE OSASCO EMÍDIO DE SOUZA (PT), sobre denúncias de formação de cartel em licitações de linhas de trens e metrô em São Paulo.
contraponto
Sem refresco
Em um seminário sobre os efeitos da alta de preços de passagens aéreas e de diárias de hotéis diante dos grandes eventos do país, na semana passada, a senadora Lídice da Mata (PSB-BA) disse que era preciso discutir também o legado da Copa do Mundo para colocar "pimenta" no debate. Presente ao evento, o presidente da Embratur, Flávio Dino (PC do B-MA), emendou:
--Não precisa de pimenta baiana! Com as manifestações, o povo já esquentou este debate com bastante pimenta, azeite de dendê e qualquer tipo de tempero que você puder imaginar!
terça-feira, julho 16, 2013
Sucessão de Dilma embaralhou de vez - RAYMUNDO COSTA
Valor Econômico - 16/07
O ex-presidente Lula se arrependeu de ter antecipado o lançamento da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Isso foi em fevereiro, na comemoração do aniversário de 10 anos do PT no governo, quando o trajeto para 2014 parecia uma avenida livre para o passeio da presidente.
À época, Lula sentia-se muito pressionado a ser novamente candidato. Dilma batia recordes de popularidade nas pesquisas de opinião, mas na contramão das sondagens o "Volta, Lula" corria solto entre os partidos da base aliada do governo, inclusive, e talvez especialmente, no PT.
Para acabar com esse "Volta, Lula" é que o ex-presidente teria se sentido na obrigação de reafirmar que Dilma era a candidata. E foi esse fato, segundo Lula hoje reconhece, que precipitou a corrida eleitoral. Lula diz aos mais próximos que acabou "involuntariamente" acelerando o processo sucessório (há quem diga que foi Dilma, incomodada com o queremismo dos aliados, é que teria pedido uma sinalização mais efetiva do ex).
O que não há dúvida é que Lula acelerou o processo sucessório. Ao lançar a candidatura de Dilma à reeleição com tanta antecedência, Lula forçou os adversários também a se movimentar e a alinhar suas peças no tabuleiro. Ele tirou da toca, por exemplo, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que só pretendia mover seus peões no início de 2014.
O PSDB também adiantou o relógio da candidatura de Aécio Neves, hoje em campanha presidencial aberta e tão clara quanto a de Dilma Rousseff. O único ponto positivo da antecipação da candidatura de Eduardo Campos, sob a ótica do PT, talvez tenha sido jogar Aécio Neves um pouco mais para a direita. É um ponto de vista a ser conferido. Aécio parece com o nome inteiramente consolidado no PSDB, apesar dos sinais emitidos por José Serra, nos últimos dias, de que pensa em participar da campanha, pela terceira vez.
Serra, na realidade, nunca escondeu de ninguém que avalia ainda ter "muito o que fazer" pelo país. Tradução livre: nunca deixou de ser candidato. O problema é que o nome da vez no PSDB é o de Aécio. Mesmo os aliados de Serra na direção partidária, todos situados em postos-chaves, têm se alinhado e trabalhado em função da candidatura Aécio.
Serra entrou em hibernação, após as eleições municipais de 2012. Despertou com as manifestações do outono, mas uma pesquisa feita pelo "Paraná Pesquisa - especialista em opinião pública" é que o deixou definitivamente animado em relação à disputa eleitoral de 2014. Pesquisa realizada, aliás, numa semana de grande intensidade dos protestos.
Em geral, os números de Serra são melhores que os de Aécio Neves, o que deve ser debitado na conta do "recall" do tucano, duas vezes candidato a presidente, uma a governador e outras duas a prefeito, desde 2002. Mas foram os índices que obteve no Sul do país que despertaram sua atenção: Serra venceria a eleição no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se a eleição fosse hoje.
Avaliações feitas para grandes grupos empresariais por institutos especializados indicam que três nomes saíram perdendo após os protestos de junho: Dilma Rousseff, por ser a número um, a presidente da República; Lula, por ser indissociável de Dilma e Aécio, por não ter crescido na crise, apesar de toda a exposição que teve nos programas de rádio e televisão do PSDB.
De acordo com as mesmas avaliações, os principais beneficiários seriam Marina Silva (Rede Sustentabilidade), talvez a melhor e mais suave tradução das ruas de junho, e Serra, para quem tem medo do caos. Para entender Serra é preciso colocar-se em seu lugar: o tucano sempre quis ser presidente da República. Aos 71 anos, a eleição de 2014 deve ser sua última oportunidade. Serra, no entanto, não tem partido - o PSDB está majoritariamente com Aécio - a seu lado e necessariamente precisa tomar uma decisão até o final de setembro (um ano antes das eleições de outubro).
O caminho natural é o PPS, que já lhe ofereceu legenda para 2014. Se não fizer esse trajeto, Serra tem data de vencimento: setembro. Filiando-se ao PPS, assegura um palanque para continuar na disputa. É certo que o PPS tem pouco tempo de televisão, mas isso somente será importante a partir de 15 agosto do próximo ano, quando começar o horário eleitoral gratuito, a campanha propriamente dita.
Por menor que seja o tempo de rádio e TV do PPS, ele será maior que o do PV de Marina Silva em 2010. A candidata verde, como se recorda, teve quase 20 milhões de votos. Abrigado no PPS, Serra pode atrair o apoio do PV, partido com o qual mantém boas relações, e de outras siglas atualmente aliadas do governo, mas que podem se desgarrar de Dilma, se a presidente não recuperar terreno ou continuar a perder pontos na aprovação popular.
Neste momento, o panorama visto da ponte do PT não deixa de carregar uma certa ironia: a entrada de Serra é vista como algo bom para a candidatura de Dilma, pois dividiria o PSDB, partido que, por sua estrutura, tradição e tempo de rádio e televisão seria o real adversário do governo nas eleições. Serra é, para Aécio, o que Eduardo Campos é hoje para Dilma: a divisão do campo adversário.
A candidatura do governador de Pernambuco é perigosa para Dilma Rousseff porque divide a base aliada do governo e tem potencial de crescimento. Mas no momento é provável que o próprio Eduardo Campos não saiba o que vai fazer exatamente em 2014. Ele pode apoiar Dilma no segundo turno, se esse cenário se configurar na eleição?
Antes de pensar em Campos, no entanto, a presidente deve começar a pensar no PT, onde tem sido até mais criticada que em outros partidos da base. Não é à toa que o nome do deputado Ricardo Berzoini começou a ser falado para presidente do partido, nas eleições de novembro, quando a reeleição de Rui Falcão já está acertada por Lula, Dilma e as tendências.
Lula também demonstra preocupação. Ele sugeriu a Dilma enxugar o ministério e mudar a equipe econômica. Acha que Guido Mantega e companhia já deram o que tinham que dar.
O ex-presidente Lula se arrependeu de ter antecipado o lançamento da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Isso foi em fevereiro, na comemoração do aniversário de 10 anos do PT no governo, quando o trajeto para 2014 parecia uma avenida livre para o passeio da presidente.
À época, Lula sentia-se muito pressionado a ser novamente candidato. Dilma batia recordes de popularidade nas pesquisas de opinião, mas na contramão das sondagens o "Volta, Lula" corria solto entre os partidos da base aliada do governo, inclusive, e talvez especialmente, no PT.
Para acabar com esse "Volta, Lula" é que o ex-presidente teria se sentido na obrigação de reafirmar que Dilma era a candidata. E foi esse fato, segundo Lula hoje reconhece, que precipitou a corrida eleitoral. Lula diz aos mais próximos que acabou "involuntariamente" acelerando o processo sucessório (há quem diga que foi Dilma, incomodada com o queremismo dos aliados, é que teria pedido uma sinalização mais efetiva do ex).
O que não há dúvida é que Lula acelerou o processo sucessório. Ao lançar a candidatura de Dilma à reeleição com tanta antecedência, Lula forçou os adversários também a se movimentar e a alinhar suas peças no tabuleiro. Ele tirou da toca, por exemplo, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que só pretendia mover seus peões no início de 2014.
O PSDB também adiantou o relógio da candidatura de Aécio Neves, hoje em campanha presidencial aberta e tão clara quanto a de Dilma Rousseff. O único ponto positivo da antecipação da candidatura de Eduardo Campos, sob a ótica do PT, talvez tenha sido jogar Aécio Neves um pouco mais para a direita. É um ponto de vista a ser conferido. Aécio parece com o nome inteiramente consolidado no PSDB, apesar dos sinais emitidos por José Serra, nos últimos dias, de que pensa em participar da campanha, pela terceira vez.
Serra, na realidade, nunca escondeu de ninguém que avalia ainda ter "muito o que fazer" pelo país. Tradução livre: nunca deixou de ser candidato. O problema é que o nome da vez no PSDB é o de Aécio. Mesmo os aliados de Serra na direção partidária, todos situados em postos-chaves, têm se alinhado e trabalhado em função da candidatura Aécio.
Serra entrou em hibernação, após as eleições municipais de 2012. Despertou com as manifestações do outono, mas uma pesquisa feita pelo "Paraná Pesquisa - especialista em opinião pública" é que o deixou definitivamente animado em relação à disputa eleitoral de 2014. Pesquisa realizada, aliás, numa semana de grande intensidade dos protestos.
Em geral, os números de Serra são melhores que os de Aécio Neves, o que deve ser debitado na conta do "recall" do tucano, duas vezes candidato a presidente, uma a governador e outras duas a prefeito, desde 2002. Mas foram os índices que obteve no Sul do país que despertaram sua atenção: Serra venceria a eleição no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se a eleição fosse hoje.
Avaliações feitas para grandes grupos empresariais por institutos especializados indicam que três nomes saíram perdendo após os protestos de junho: Dilma Rousseff, por ser a número um, a presidente da República; Lula, por ser indissociável de Dilma e Aécio, por não ter crescido na crise, apesar de toda a exposição que teve nos programas de rádio e televisão do PSDB.
De acordo com as mesmas avaliações, os principais beneficiários seriam Marina Silva (Rede Sustentabilidade), talvez a melhor e mais suave tradução das ruas de junho, e Serra, para quem tem medo do caos. Para entender Serra é preciso colocar-se em seu lugar: o tucano sempre quis ser presidente da República. Aos 71 anos, a eleição de 2014 deve ser sua última oportunidade. Serra, no entanto, não tem partido - o PSDB está majoritariamente com Aécio - a seu lado e necessariamente precisa tomar uma decisão até o final de setembro (um ano antes das eleições de outubro).
O caminho natural é o PPS, que já lhe ofereceu legenda para 2014. Se não fizer esse trajeto, Serra tem data de vencimento: setembro. Filiando-se ao PPS, assegura um palanque para continuar na disputa. É certo que o PPS tem pouco tempo de televisão, mas isso somente será importante a partir de 15 agosto do próximo ano, quando começar o horário eleitoral gratuito, a campanha propriamente dita.
Por menor que seja o tempo de rádio e TV do PPS, ele será maior que o do PV de Marina Silva em 2010. A candidata verde, como se recorda, teve quase 20 milhões de votos. Abrigado no PPS, Serra pode atrair o apoio do PV, partido com o qual mantém boas relações, e de outras siglas atualmente aliadas do governo, mas que podem se desgarrar de Dilma, se a presidente não recuperar terreno ou continuar a perder pontos na aprovação popular.
Neste momento, o panorama visto da ponte do PT não deixa de carregar uma certa ironia: a entrada de Serra é vista como algo bom para a candidatura de Dilma, pois dividiria o PSDB, partido que, por sua estrutura, tradição e tempo de rádio e televisão seria o real adversário do governo nas eleições. Serra é, para Aécio, o que Eduardo Campos é hoje para Dilma: a divisão do campo adversário.
A candidatura do governador de Pernambuco é perigosa para Dilma Rousseff porque divide a base aliada do governo e tem potencial de crescimento. Mas no momento é provável que o próprio Eduardo Campos não saiba o que vai fazer exatamente em 2014. Ele pode apoiar Dilma no segundo turno, se esse cenário se configurar na eleição?
Antes de pensar em Campos, no entanto, a presidente deve começar a pensar no PT, onde tem sido até mais criticada que em outros partidos da base. Não é à toa que o nome do deputado Ricardo Berzoini começou a ser falado para presidente do partido, nas eleições de novembro, quando a reeleição de Rui Falcão já está acertada por Lula, Dilma e as tendências.
Lula também demonstra preocupação. Ele sugeriu a Dilma enxugar o ministério e mudar a equipe econômica. Acha que Guido Mantega e companhia já deram o que tinham que dar.
Banho de piscina - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 16/07
Em 2 de agosto de 1914 o escritor Franz Kafka escreveu em seu diário: "A Alemanha declarou guerra à Rússia. Hoje à tarde, banho de piscina". Explodira a primeira Guerra Mundial. A frase tornou-se um clássico e agora expressa o sentimento de muitos governistas a respeito do que fazer diante da crise em curso.
As reações de bate-pronto engendradas nas oficinas do Palácio do Planalto - propostas de pactos fictícios, Constituinte inconstitucional, plebiscito impraticável e reuniões infrutíferas - não deram certo. Portanto, melhor esperar a poeira baixar, aproveitar o recesso do Congresso, torcer para que haja uma trégua nas manifestações e partir para uma reação mais organizada e consistente.
"É preciso absorver os golpes para sair das cordas", diz um ministro do PT que integra o grupo responsável pela administração do prejuízo. Como exatamente ainda não se sabe, mas o conceito mestre seria o de se fazer mais política e menos propaganda.
Serve para 2013 e para 2014. Na perspectiva do panorama visto de Brasília, a campanha eleitoral será totalmente diferente das dos últimos anos em que prevaleceu o marketing sobre o diálogo franco e maduro com a sociedade.
"É bravata falar em vitória no primeiro turno", pondera o ministro que, no entanto, trabalha com um cenário de melhora dos índices de popularidade da presidente para um patamar competitivo. Concorda com os que falam na casa dos 40%.
Piorar não é possível, na concepção governista. A menos que surgissem denúncias que atingissem Dilma Rousseff pessoalmente. O diagnóstico para a queda da boa avaliação considera dois vetores: interesses econômicos contrariados e a ausência de um "trato" mais adequado em relação a todos os setores, Congresso inclusive.
No tocante a 2013, a receita seria melhorar esse "trato" ouvindo mais e impondo menos, tomar medidas que produzam resultados concretos e, claro, a tão falada reforma ministerial. Não nos termos propostos pelo PMDB de abrir mais espaços para o partido na máquina nem na sempre sugerida redução drástica de ministérios.
Se há datas, modelos e nomes já escolhidos, são mantidos em absoluto sigilo. O máximo que se fala é numa "exaustão" do comando da economia, indicando troca no Ministério da Fazenda, e na necessidade urgente de pôr ordem na área política. Algum enxugamento de pastas há de haver, por meio de incorporação de ministérios cujos titulares teriam mais "visibilidade".
Há no governo quem reconheça que ocorreu um "desgaste enorme" com as manifestações de junho, que foi um "retumbante fracasso" a tentativa das centrais sindicais de recuperarem o comando das ruas, que não é prudente acirrar os ânimos com o Congresso nem tampouco vai condicionar as ações à dita agenda positiva (aflitiva) do Parlamento.
Há chance de o ex-presidente Lula voltar? Por ora nem pensar. "O governo está acuado, é verdade, mas a oposição também não soube se colocar e o Congresso não terá vida fácil na eleição. Por enquanto, quem nada de braçada é a Marina (Silva)".
Porta-nó. Ministros e parlamentares do PT não gostam da atuação do ministro Aloizio Mercadante no papel de porta-voz da crise.
Duas queixas mais recentes: a declaração de que o Congresso "vai pagar caro" por ter recusado o plebiscito e a forma como lida com a hipótese de uma CPI da Copa.
Informado sobre a obtenção das assinaturas necessárias entre deputados e senadores, Mercadante disse à base tudo bem, o governo "não tem nada a temer".
Alguns parlamentares telefonaram para gabinetes ministeriais a fim de conferir e ouviram que não é bem assim, porque todos os questionamentos seriam relativos a ações governamentais.
A ordem é não deixar acontecer.
Em 2 de agosto de 1914 o escritor Franz Kafka escreveu em seu diário: "A Alemanha declarou guerra à Rússia. Hoje à tarde, banho de piscina". Explodira a primeira Guerra Mundial. A frase tornou-se um clássico e agora expressa o sentimento de muitos governistas a respeito do que fazer diante da crise em curso.
As reações de bate-pronto engendradas nas oficinas do Palácio do Planalto - propostas de pactos fictícios, Constituinte inconstitucional, plebiscito impraticável e reuniões infrutíferas - não deram certo. Portanto, melhor esperar a poeira baixar, aproveitar o recesso do Congresso, torcer para que haja uma trégua nas manifestações e partir para uma reação mais organizada e consistente.
"É preciso absorver os golpes para sair das cordas", diz um ministro do PT que integra o grupo responsável pela administração do prejuízo. Como exatamente ainda não se sabe, mas o conceito mestre seria o de se fazer mais política e menos propaganda.
Serve para 2013 e para 2014. Na perspectiva do panorama visto de Brasília, a campanha eleitoral será totalmente diferente das dos últimos anos em que prevaleceu o marketing sobre o diálogo franco e maduro com a sociedade.
"É bravata falar em vitória no primeiro turno", pondera o ministro que, no entanto, trabalha com um cenário de melhora dos índices de popularidade da presidente para um patamar competitivo. Concorda com os que falam na casa dos 40%.
Piorar não é possível, na concepção governista. A menos que surgissem denúncias que atingissem Dilma Rousseff pessoalmente. O diagnóstico para a queda da boa avaliação considera dois vetores: interesses econômicos contrariados e a ausência de um "trato" mais adequado em relação a todos os setores, Congresso inclusive.
No tocante a 2013, a receita seria melhorar esse "trato" ouvindo mais e impondo menos, tomar medidas que produzam resultados concretos e, claro, a tão falada reforma ministerial. Não nos termos propostos pelo PMDB de abrir mais espaços para o partido na máquina nem na sempre sugerida redução drástica de ministérios.
Se há datas, modelos e nomes já escolhidos, são mantidos em absoluto sigilo. O máximo que se fala é numa "exaustão" do comando da economia, indicando troca no Ministério da Fazenda, e na necessidade urgente de pôr ordem na área política. Algum enxugamento de pastas há de haver, por meio de incorporação de ministérios cujos titulares teriam mais "visibilidade".
Há no governo quem reconheça que ocorreu um "desgaste enorme" com as manifestações de junho, que foi um "retumbante fracasso" a tentativa das centrais sindicais de recuperarem o comando das ruas, que não é prudente acirrar os ânimos com o Congresso nem tampouco vai condicionar as ações à dita agenda positiva (aflitiva) do Parlamento.
Há chance de o ex-presidente Lula voltar? Por ora nem pensar. "O governo está acuado, é verdade, mas a oposição também não soube se colocar e o Congresso não terá vida fácil na eleição. Por enquanto, quem nada de braçada é a Marina (Silva)".
Porta-nó. Ministros e parlamentares do PT não gostam da atuação do ministro Aloizio Mercadante no papel de porta-voz da crise.
Duas queixas mais recentes: a declaração de que o Congresso "vai pagar caro" por ter recusado o plebiscito e a forma como lida com a hipótese de uma CPI da Copa.
Informado sobre a obtenção das assinaturas necessárias entre deputados e senadores, Mercadante disse à base tudo bem, o governo "não tem nada a temer".
Alguns parlamentares telefonaram para gabinetes ministeriais a fim de conferir e ouviram que não é bem assim, porque todos os questionamentos seriam relativos a ações governamentais.
A ordem é não deixar acontecer.
Onde tudo começou - VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 16/07
Se procurarmos um ensaio geral para as manifestações de junho, deveríamos voltar os olhos para a Amazônia. Lá se encontra o megacanteiro de obras da usina de Jirau: uma das peças principais da política energética brasileira.
Em 15 de março de 2011, o Brasil viu uma das mais violentas manifestações do subproletariado contra suas condições degradantes de trabalho. Sem se sentirem representados por sindicatos e outros atores políticos tradicionais, os trabalhadores de Jirau, que descobriram como as condições de trabalho no novo Brasil continuam insuportáveis, atearam fogo em alojamentos e ônibus. Eles atearam fogo também na afirmação de que o subproletário brasileiro preza a ausência de radicalismo e a segurança.
Foi assim que começou o governo Dilma, ou seja, com um sinal de alerta gritante para a frustração da sociedade com os limites do desenvolvimento social brasileiro.
Depois de Jirau, veio uma sequência quase ininterrupta de greves: de policiais, bombeiros, professores, coveiros. Todos reclamando dos baixos salários, incapazes de dar conta dos gastos em um país onde somos obrigados a pagar por educação e saúde, onde não se pode contar com transporte público e onde o preço dos imóveis explodiu devido à especulação imobiliária. Um país onde o banco estatal de desenvolvimento (o BNDES) foi capaz de aplicar uma política de incentivo à formação de grandes "players" internacionais que acabou por oligopolizar ainda mais a economia.
Sendo assim, não é nem um pouco estranho que um dos eixos das manifestações de junho tenha sido a incapacidade de o Estado brasileiro parar o processo de corrosão dos salários e criar serviços públicos universais e de qualidade. Pois, se há algo que une tanto o subproletário quanto a classe média, é a consciência de que o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou. Ele só poderia continuar por meio da criação de um Estado capaz de oferecer serviços públicos que eliminassem os gastos das famílias com educação, transporte e saúde.
Para tanto, contudo, não há milagre. Como dizem os liberais, não há almoço de graça. O problema brasileiro é que, quanto mais rico você é, menos paga seu almoço. Para impedir que rentistas, herdeiros, empresários que recebem mapas da mina das mãos do pai privatista e outras figuras do bestiário nacional continuassem almoçando sem pagar, o governo deveria ter partido para uma reforma fiscal que obrigasse os ricos a fazer o que não fazem em nenhum país latino-americano: pagar impostos.
Mas, para isso, seria preciso outra ideia do que significa "garantir a governabilidade". Ela é necessária agora, quando não dá mais para esconder Jirau no meio da floresta.
Se procurarmos um ensaio geral para as manifestações de junho, deveríamos voltar os olhos para a Amazônia. Lá se encontra o megacanteiro de obras da usina de Jirau: uma das peças principais da política energética brasileira.
Em 15 de março de 2011, o Brasil viu uma das mais violentas manifestações do subproletariado contra suas condições degradantes de trabalho. Sem se sentirem representados por sindicatos e outros atores políticos tradicionais, os trabalhadores de Jirau, que descobriram como as condições de trabalho no novo Brasil continuam insuportáveis, atearam fogo em alojamentos e ônibus. Eles atearam fogo também na afirmação de que o subproletário brasileiro preza a ausência de radicalismo e a segurança.
Foi assim que começou o governo Dilma, ou seja, com um sinal de alerta gritante para a frustração da sociedade com os limites do desenvolvimento social brasileiro.
Depois de Jirau, veio uma sequência quase ininterrupta de greves: de policiais, bombeiros, professores, coveiros. Todos reclamando dos baixos salários, incapazes de dar conta dos gastos em um país onde somos obrigados a pagar por educação e saúde, onde não se pode contar com transporte público e onde o preço dos imóveis explodiu devido à especulação imobiliária. Um país onde o banco estatal de desenvolvimento (o BNDES) foi capaz de aplicar uma política de incentivo à formação de grandes "players" internacionais que acabou por oligopolizar ainda mais a economia.
Sendo assim, não é nem um pouco estranho que um dos eixos das manifestações de junho tenha sido a incapacidade de o Estado brasileiro parar o processo de corrosão dos salários e criar serviços públicos universais e de qualidade. Pois, se há algo que une tanto o subproletário quanto a classe média, é a consciência de que o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou. Ele só poderia continuar por meio da criação de um Estado capaz de oferecer serviços públicos que eliminassem os gastos das famílias com educação, transporte e saúde.
Para tanto, contudo, não há milagre. Como dizem os liberais, não há almoço de graça. O problema brasileiro é que, quanto mais rico você é, menos paga seu almoço. Para impedir que rentistas, herdeiros, empresários que recebem mapas da mina das mãos do pai privatista e outras figuras do bestiário nacional continuassem almoçando sem pagar, o governo deveria ter partido para uma reforma fiscal que obrigasse os ricos a fazer o que não fazem em nenhum país latino-americano: pagar impostos.
Mas, para isso, seria preciso outra ideia do que significa "garantir a governabilidade". Ela é necessária agora, quando não dá mais para esconder Jirau no meio da floresta.
As passeatas e o déficit zero - CID HERACLITO DE QUEIROZ
ESTADÃO - 16/07
Estenderam-se por todo o País, com amplo sucesso, as passeatas dos estudantes, com a adesão da classe média, o apoio de toda a Nação e, infelizmente, a infiltração de vândalos amadores e profissionais. O objetivo central era, inicialmente, a anulação do aumento das passagens dos transportes públicos - ônibus, metrô, trens etc. -, alcançada em poucos dias. Subsistiram, então, os propósitos mais genéricos, como a melhoria na prestação dos serviços públicos, especialmente o sistema hospitalar e o ensino público, a eliminação da burocracia, o combate à corrupção e o fim da despesa pública com finalidades supérfluas, nos três níveis de governo e nos três Poderes.
Como solução de urgência, o governo federal cogitou de uma impraticável Constituinte e propôs um inoportuno e descabido plebiscito que não importa em nenhuma ação imediata, mas numa consulta complexa para o eleitorado, a respeito de temas que nem sequer foram mencionados nas passeatas. "O plebiscito feito com poucas opções é golpe e feito com muitas opções é impraticável", sintetizou, enfaticamente, o consagrado senador Francisco Dornelles (PP-RJ). Ora, o clamor público já indicou as ações que o governo tem de desfechar, sem plebiscito, sem demora, sem consultas, sem reuniões, e que dependem apenas de medidas provisórias, decretos e ordens verbais.
A administração pública no Brasil rege-se, entre outras, por uma lei inexorável: quanto maior for o tamanho da administração pública, maior será a corrupção, maior será a produção de normas legais ou regulamentares, maior será a burocracia, maior será a lentidão da ação administrativa, maior será a despesa pública e menor será a sua força. Poderia ser chamada de "Lei Golias".
Portanto, a desejada melhoria dos serviços públicos depende primeiramente da redução do tamanho da administração, com a consequente redução da corrupção. A presidente não pode continuar cercada por 39 ministros (nos EUA são apenas 17). Podem ser imediatamente extintos os sete ministérios supérfluos - Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Esporte, Turismo, Integração Nacional e Pesca e Aquicultura -, cujos encargos seriam reincorporados às pastas de onde provieram. Os Ministérios das Comunicações, de Minas e Energia e dos Transportes podem ser agrupados num Ministério da Infraestrutura. O corte poderia atingir, ainda, sete desnecessárias secretarias da Presidência. A direção da autarquia Banco Central deve caber a um presidente, nunca a um ministro. Restariam ainda 24 ministros. Uma emenda constitucional tem de limitar o número de ministros, bem assim, em função das respectivas populações, o de secretários de Estados e municípios, nos quais os abusos são intoleráveis.
Além disso, a administração pública federal abrange 303 autarquias, fundações e empresas estatais - enquanto, nos EUA são apenas 62. A maior parte das 45 autarquias não educacionais e das 14 fundações poderia ser transformada em superintendências dos ministérios a que estejam vinculadas, e 100 das 141 empresas estatais poderiam ser extintas ou privatizadas. Essas medidas importariam, ainda, na cessação de numerosas despesas de custeio, como as relativas a cargos em comissão; gratificações; locação de imóveis; aquisição de computadores, máquinas, equipamentos, mobiliário, automóveis e materiais de escritório; passagens e diárias; edição de revistas e boletins.
No que concerne à burocracia, levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário concluiu que "a União, os Estados e os municípios editam, em média, 776 normas a cada dia útil, entre leis, medidas provisórias, decretos e outras", e, no total, "13 milhões de palavras foram escritas desde a Constituição de 1988 para tentar reger o País, publicadas na forma de 4,4 milhões de normas". Essa loucura só cessará se as fontes - ministérios, secretarias, autarquias, conselhos, departamentos, etc. - forem extintas ou reduzidas.
Além disso, o povo clama pelo "corte" das despesas supérfluas no Orçamento da União. É oportuno lembrar que o orçamento público nasceu com a Magna Carta de 1215. Ela foi imposta ao rei João sem Terra, da Inglaterra, para que a despesa real fosse limitada pela receita autorizada. Foi imposta para fazer cessar o abuso real consistente no aumento arbitrário da despesa e criação de tributos para custeá-la. O orçamento público nasceu, portanto, sob o signo do déficit zero.
A propósito, uma semana antes das passeatas populares, o eminente professor Delfim Netto, antevendo, ao que parece, a eclosão do movimento popular, voltou a defender, como em 2005, o "déficit nominal zero", um lema substancioso para a necessidade essencial de que as contas públicas não continuem a apresentar sucessivos déficits anuais, encobertos pela fantasia do superávit primário, aquele que ignora as obrigações relativas aos juros da dívida pública. Na ocasião, em palestra divulgada pela Carta Mensal da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) e pela Revista Forense, citamos diversas medidas para ensejar, em curto prazo, o ideal do déficit zero.
O governo está anunciando "cortes" no Orçamento, mas na própria semana das primeiras passeatas o Diário Oficial (de 21/6) revelou, espantosamente, que a erradicação da corrupção no plano federal dependia de dinheiro. Tanto assim que o governo obteve autorização do Senado para contrair um empréstimo de US$ 18 milhões no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para "financiamento parcial do Programa de Fortalecimento da Prevenção e Combate à Corrupção da Gestão Pública Brasileira"! Quanto à gastança, foi sancionada, na mesma semana, a Lei n.º 12.834, que, em plena crise, institui um fundo contábil para o caju, com recursos orçamentários!
Que Deus ilumine o governo.
Estenderam-se por todo o País, com amplo sucesso, as passeatas dos estudantes, com a adesão da classe média, o apoio de toda a Nação e, infelizmente, a infiltração de vândalos amadores e profissionais. O objetivo central era, inicialmente, a anulação do aumento das passagens dos transportes públicos - ônibus, metrô, trens etc. -, alcançada em poucos dias. Subsistiram, então, os propósitos mais genéricos, como a melhoria na prestação dos serviços públicos, especialmente o sistema hospitalar e o ensino público, a eliminação da burocracia, o combate à corrupção e o fim da despesa pública com finalidades supérfluas, nos três níveis de governo e nos três Poderes.
Como solução de urgência, o governo federal cogitou de uma impraticável Constituinte e propôs um inoportuno e descabido plebiscito que não importa em nenhuma ação imediata, mas numa consulta complexa para o eleitorado, a respeito de temas que nem sequer foram mencionados nas passeatas. "O plebiscito feito com poucas opções é golpe e feito com muitas opções é impraticável", sintetizou, enfaticamente, o consagrado senador Francisco Dornelles (PP-RJ). Ora, o clamor público já indicou as ações que o governo tem de desfechar, sem plebiscito, sem demora, sem consultas, sem reuniões, e que dependem apenas de medidas provisórias, decretos e ordens verbais.
A administração pública no Brasil rege-se, entre outras, por uma lei inexorável: quanto maior for o tamanho da administração pública, maior será a corrupção, maior será a produção de normas legais ou regulamentares, maior será a burocracia, maior será a lentidão da ação administrativa, maior será a despesa pública e menor será a sua força. Poderia ser chamada de "Lei Golias".
Portanto, a desejada melhoria dos serviços públicos depende primeiramente da redução do tamanho da administração, com a consequente redução da corrupção. A presidente não pode continuar cercada por 39 ministros (nos EUA são apenas 17). Podem ser imediatamente extintos os sete ministérios supérfluos - Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Esporte, Turismo, Integração Nacional e Pesca e Aquicultura -, cujos encargos seriam reincorporados às pastas de onde provieram. Os Ministérios das Comunicações, de Minas e Energia e dos Transportes podem ser agrupados num Ministério da Infraestrutura. O corte poderia atingir, ainda, sete desnecessárias secretarias da Presidência. A direção da autarquia Banco Central deve caber a um presidente, nunca a um ministro. Restariam ainda 24 ministros. Uma emenda constitucional tem de limitar o número de ministros, bem assim, em função das respectivas populações, o de secretários de Estados e municípios, nos quais os abusos são intoleráveis.
Além disso, a administração pública federal abrange 303 autarquias, fundações e empresas estatais - enquanto, nos EUA são apenas 62. A maior parte das 45 autarquias não educacionais e das 14 fundações poderia ser transformada em superintendências dos ministérios a que estejam vinculadas, e 100 das 141 empresas estatais poderiam ser extintas ou privatizadas. Essas medidas importariam, ainda, na cessação de numerosas despesas de custeio, como as relativas a cargos em comissão; gratificações; locação de imóveis; aquisição de computadores, máquinas, equipamentos, mobiliário, automóveis e materiais de escritório; passagens e diárias; edição de revistas e boletins.
No que concerne à burocracia, levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário concluiu que "a União, os Estados e os municípios editam, em média, 776 normas a cada dia útil, entre leis, medidas provisórias, decretos e outras", e, no total, "13 milhões de palavras foram escritas desde a Constituição de 1988 para tentar reger o País, publicadas na forma de 4,4 milhões de normas". Essa loucura só cessará se as fontes - ministérios, secretarias, autarquias, conselhos, departamentos, etc. - forem extintas ou reduzidas.
Além disso, o povo clama pelo "corte" das despesas supérfluas no Orçamento da União. É oportuno lembrar que o orçamento público nasceu com a Magna Carta de 1215. Ela foi imposta ao rei João sem Terra, da Inglaterra, para que a despesa real fosse limitada pela receita autorizada. Foi imposta para fazer cessar o abuso real consistente no aumento arbitrário da despesa e criação de tributos para custeá-la. O orçamento público nasceu, portanto, sob o signo do déficit zero.
A propósito, uma semana antes das passeatas populares, o eminente professor Delfim Netto, antevendo, ao que parece, a eclosão do movimento popular, voltou a defender, como em 2005, o "déficit nominal zero", um lema substancioso para a necessidade essencial de que as contas públicas não continuem a apresentar sucessivos déficits anuais, encobertos pela fantasia do superávit primário, aquele que ignora as obrigações relativas aos juros da dívida pública. Na ocasião, em palestra divulgada pela Carta Mensal da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) e pela Revista Forense, citamos diversas medidas para ensejar, em curto prazo, o ideal do déficit zero.
O governo está anunciando "cortes" no Orçamento, mas na própria semana das primeiras passeatas o Diário Oficial (de 21/6) revelou, espantosamente, que a erradicação da corrupção no plano federal dependia de dinheiro. Tanto assim que o governo obteve autorização do Senado para contrair um empréstimo de US$ 18 milhões no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para "financiamento parcial do Programa de Fortalecimento da Prevenção e Combate à Corrupção da Gestão Pública Brasileira"! Quanto à gastança, foi sancionada, na mesma semana, a Lei n.º 12.834, que, em plena crise, institui um fundo contábil para o caju, com recursos orçamentários!
Que Deus ilumine o governo.
O fator Lula - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 16/07
Na medida em que a fragilidade política da presidente Dilma vai ficando evidente, a expectativa de poder do PT e de partidos aliados transfere-se preferencialmente para o ex-presidente Lula, que está calado em público, mas agindo nos bastidores, para, dizem as boas almas, fortalecer Dilma. Os céticos veem na ação do ex-presidente manobra para garanti-lo como a alternativa de poder quando chegar o momento certo.
Até o fim do ano nada acontecerá, mesmo porque o marqueteiro João Santana já garantiu que até lá a soberana terá recuperado seu prestígio. Se isso não acontecer, e o PT entrar em 2014 com uma candidata sem popularidade, um governo com a economia em baixa e inflação em alta, veremos fortemente o apelo à volta de Lula às campanhas eleitorais, não só como o avalista, mas candidato a salvador do PT e da pátria.
Nos próximos dias teremos uma demonstração de como está seu ânimo. Há informações de que pressionam o ex-presidente para que antecipe um check-up, marcado para o fim de agosto, para mostrar que sua saúde está boa, ao contrário do que dizem os boatos. Se Lula se recusar a esse tipo de exposição, os que defendem sua candidatura terão menos esperanças de tê-lo na cédula em 2014.
Para fortalecer a tese dos que dizem que Lula pretende mesmo tentar voltar ao Palácio do Planalto, há a evidente retração da atividade política do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a quem se atribui a decisão de não se candidatar se o ex-presidente for o candidato do PT. Campos não só apoiaria Lula como poderia ser seu vice, o PSB substituindo o PMDB. Há ainda quem considere que Lula, não desejando concorrer, tentaria convencer o PT a apoiar a candidatura de Campos à Presidência no caso de Dilma estar definitivamente enfraquecida. São especulações que rondam o mundo político enquanto cada um tenta adivinhar para onde o vento estará soprando em 2014.
O próprio Lula deve estar fazendo suas avaliações dos riscos contidos nessa empreitada para a qual está sendo pressionado pelas suas bases partidárias. O risco de perder sempre existe, especialmente diante de um governo frágil que teve Lula como avalista. Como explicar que não deu certo? Mais ainda, como fazer uma campanha eleitoral com um governo enfraquecido politicamente, desmoralizado pela deposição simbólica da presidente, que não tem condições de tentar a reeleição? Além do mais, como ter certeza de que vencerá uma eleição se o ambiente político continuar conturbado pela ânsia de mudanças da sociedade? Lula continua sendo visto como o salvador da pátria ou estaria entre os políticos rejeitados pela classe média urbana que está nas ruas pedindo melhores serviços públicos?
O apoio do Nordeste continuará suficiente para elegê-lo, ou o ambiente de contestação alcançará as classes populares? A inflação continuará corroendo o poder aquisitivo dos brasileiros mais pobres, fazendo com que o prestígio do PT decaia? Como revelou pesquisa feita em São Paulo, o partido governista perdeu grande parte do apoio que tinha mesmo no chamado cinturão vermelho, onde predominam seus eleitores.
A recente tentativa de demonstração de força das centrais sindicais mostra que elas, embora capazes até mesmo de parar grandes cidades, já não arrebatam as multidões. A lei sancionada por Lula em 2008 reconhecendo as centrais nos fez retornar aos tempos do Estado Novo getulista, ressuscitando o papel do Estado como indutor da organização sindical. O Lula líder sindicalista defendia o fim da Era Vargas, classificava a CLT de AI-5 dos trabalhadores e dizia que, se Vargas foi o pai dos pobres , era também a mãe dos ricos . Hoje, a CLT e a unicidade sindical (só um sindicato por categoria em cada município) persistem, e o sindicato continua atrelado ao Estado. A legalização das centrais ficou conhecida como pelegalização .
A cooptação pela fisiologia das entidades de classe, como os sindicatos, a UNE, ONGs de diversas correntes, foi uma política eficiente para neutralizar manifestações populares oposicionistas, mas retirou dessas entidades a credibilidade da representação. A sociedade brasileira que está nas ruas nos últimos meses é a mesma que deu a Lula um recorde de apoio popular, ou os parâmetros mudaram?A mudez de Lula é eloquente, mas os políticos o têm como a salvação de um projeto de poder.
Até o fim do ano nada acontecerá, mesmo porque o marqueteiro João Santana já garantiu que até lá a soberana terá recuperado seu prestígio. Se isso não acontecer, e o PT entrar em 2014 com uma candidata sem popularidade, um governo com a economia em baixa e inflação em alta, veremos fortemente o apelo à volta de Lula às campanhas eleitorais, não só como o avalista, mas candidato a salvador do PT e da pátria.
Nos próximos dias teremos uma demonstração de como está seu ânimo. Há informações de que pressionam o ex-presidente para que antecipe um check-up, marcado para o fim de agosto, para mostrar que sua saúde está boa, ao contrário do que dizem os boatos. Se Lula se recusar a esse tipo de exposição, os que defendem sua candidatura terão menos esperanças de tê-lo na cédula em 2014.
Para fortalecer a tese dos que dizem que Lula pretende mesmo tentar voltar ao Palácio do Planalto, há a evidente retração da atividade política do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a quem se atribui a decisão de não se candidatar se o ex-presidente for o candidato do PT. Campos não só apoiaria Lula como poderia ser seu vice, o PSB substituindo o PMDB. Há ainda quem considere que Lula, não desejando concorrer, tentaria convencer o PT a apoiar a candidatura de Campos à Presidência no caso de Dilma estar definitivamente enfraquecida. São especulações que rondam o mundo político enquanto cada um tenta adivinhar para onde o vento estará soprando em 2014.
O próprio Lula deve estar fazendo suas avaliações dos riscos contidos nessa empreitada para a qual está sendo pressionado pelas suas bases partidárias. O risco de perder sempre existe, especialmente diante de um governo frágil que teve Lula como avalista. Como explicar que não deu certo? Mais ainda, como fazer uma campanha eleitoral com um governo enfraquecido politicamente, desmoralizado pela deposição simbólica da presidente, que não tem condições de tentar a reeleição? Além do mais, como ter certeza de que vencerá uma eleição se o ambiente político continuar conturbado pela ânsia de mudanças da sociedade? Lula continua sendo visto como o salvador da pátria ou estaria entre os políticos rejeitados pela classe média urbana que está nas ruas pedindo melhores serviços públicos?
O apoio do Nordeste continuará suficiente para elegê-lo, ou o ambiente de contestação alcançará as classes populares? A inflação continuará corroendo o poder aquisitivo dos brasileiros mais pobres, fazendo com que o prestígio do PT decaia? Como revelou pesquisa feita em São Paulo, o partido governista perdeu grande parte do apoio que tinha mesmo no chamado cinturão vermelho, onde predominam seus eleitores.
A recente tentativa de demonstração de força das centrais sindicais mostra que elas, embora capazes até mesmo de parar grandes cidades, já não arrebatam as multidões. A lei sancionada por Lula em 2008 reconhecendo as centrais nos fez retornar aos tempos do Estado Novo getulista, ressuscitando o papel do Estado como indutor da organização sindical. O Lula líder sindicalista defendia o fim da Era Vargas, classificava a CLT de AI-5 dos trabalhadores e dizia que, se Vargas foi o pai dos pobres , era também a mãe dos ricos . Hoje, a CLT e a unicidade sindical (só um sindicato por categoria em cada município) persistem, e o sindicato continua atrelado ao Estado. A legalização das centrais ficou conhecida como pelegalização .
A cooptação pela fisiologia das entidades de classe, como os sindicatos, a UNE, ONGs de diversas correntes, foi uma política eficiente para neutralizar manifestações populares oposicionistas, mas retirou dessas entidades a credibilidade da representação. A sociedade brasileira que está nas ruas nos últimos meses é a mesma que deu a Lula um recorde de apoio popular, ou os parâmetros mudaram?A mudez de Lula é eloquente, mas os políticos o têm como a salvação de um projeto de poder.
A Temer o que é de Temer? - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 16/07
BRASÍLIA - Poucas vezes um vice trabalhou tanto quanto Michel Temer agora, participando de reuniões com a presidente no Planalto, promovendo conversas com peemedebistas no Palácio do Jaburu e tentando neutralizar a força crescente do líder na Câmara, Eduardo Cunha, sobre o PMDB.
Há dois objetivos nesse ânimo participante de Temer: salvar Dilma e o governo dos seus próprios erros de articulação política e, principalmente, salvar a própria pele --e o nome na chapa da reeleição em 2014.
Faz sentido o socorro político de Temer, já que Ideli Salvatti parece perdida na grande confusão que virou o Congresso, Gleisi Hoffmann tem mais o que fazer tentando arrumar a casa e Aloizio Mercadante não tem boa interlocução nem no PT, imagine-se no resto.
Mas faz mais sentido ainda o instinto de autopreservação de Temer. Maior líder popular do país, Lula não deu um pio em público sobre as manifestações que mudaram o ritmo e, talvez, o rumo das coisas, mas tem falado e articulado um bocado a portas fechadas, quando não faltam críticas ao governo e à sucessora, essa "teimosa". Isso sobra para Temer.
Uma das articulações de Lula é para neutralizar e atrair de volta o governador Eduardo Campos e, assim, reduzir o número de candidaturas, garantir o apoio do PSB ao PT em 2014 e insistir em algo cada vez mais distante no horizonte da sucessão: a vitória petista em primeiro turno.
Campos dizia que só não seria candidato numa hipótese: se Lula fosse. E consta que uma moeda de troca da candidatura pela adesão era a vice, que sairia do PMDB para o PSB.
Além do "cadê o Lula?", pergunta-se em Brasília: "E cadê o Eduardo Campos?". Dizem que os dois andam negociando a mil, donde se deduz que a candidatura Lula ressurgiu das cinzas de Dilma e/ou a cadeira de Temer está balançando.
O fato é que, com a crise, tudo começa quase do zero. Todas de cabelo em pé e todos de barbas de molho.
BRASÍLIA - Poucas vezes um vice trabalhou tanto quanto Michel Temer agora, participando de reuniões com a presidente no Planalto, promovendo conversas com peemedebistas no Palácio do Jaburu e tentando neutralizar a força crescente do líder na Câmara, Eduardo Cunha, sobre o PMDB.
Há dois objetivos nesse ânimo participante de Temer: salvar Dilma e o governo dos seus próprios erros de articulação política e, principalmente, salvar a própria pele --e o nome na chapa da reeleição em 2014.
Faz sentido o socorro político de Temer, já que Ideli Salvatti parece perdida na grande confusão que virou o Congresso, Gleisi Hoffmann tem mais o que fazer tentando arrumar a casa e Aloizio Mercadante não tem boa interlocução nem no PT, imagine-se no resto.
Mas faz mais sentido ainda o instinto de autopreservação de Temer. Maior líder popular do país, Lula não deu um pio em público sobre as manifestações que mudaram o ritmo e, talvez, o rumo das coisas, mas tem falado e articulado um bocado a portas fechadas, quando não faltam críticas ao governo e à sucessora, essa "teimosa". Isso sobra para Temer.
Uma das articulações de Lula é para neutralizar e atrair de volta o governador Eduardo Campos e, assim, reduzir o número de candidaturas, garantir o apoio do PSB ao PT em 2014 e insistir em algo cada vez mais distante no horizonte da sucessão: a vitória petista em primeiro turno.
Campos dizia que só não seria candidato numa hipótese: se Lula fosse. E consta que uma moeda de troca da candidatura pela adesão era a vice, que sairia do PMDB para o PSB.
Além do "cadê o Lula?", pergunta-se em Brasília: "E cadê o Eduardo Campos?". Dizem que os dois andam negociando a mil, donde se deduz que a candidatura Lula ressurgiu das cinzas de Dilma e/ou a cadeira de Temer está balançando.
O fato é que, com a crise, tudo começa quase do zero. Todas de cabelo em pé e todos de barbas de molho.
A insustentável herança maldita - ARNALDO JABOR
O Estado de S.Paulo - 16/07
O que aconteceu com esse governo foi mais um equívoco na história das trapalhadas que a esquerda leninista comete sempre, agora dentro do PT. O fracasso é o grande orgulho dos revolucionários masoquistas. Pelo fracasso constrói-se uma espécie de 'martírio enobrecedor', já que socialismo hoje é impossível. Erraram com tanta obviedade (no mensalão por exemplo ou no escândalo dos 'aloprados'), com tanto desprezo pelas evidências de perigo, tanta subestimação do inimigo, que a única explicação é o desejo de serem flagrados. Sem contar o sentimento de superioridade que se arrogaram sobre nós, os 'alienados burgueses neoliberais'.
Conheço a turminha que está no poder hoje, desde os idos de 1963, e adivinhava o que estava por vir. Conheci muitos, de perto.
Nos meus 20 anos, era impossível não ser 'de esquerda'. Nós queríamos ser como os homens heroicos que conquistaram Cuba, os longos cabelos de Camilo Cienfuegos, o charuto do Guevara, a 'pachanga' dançada na chuva linda do dia em que entraram em Havana, exaustos, barbados, com fuzis na mão e embriagados de vitória.
A genialidade de Marx me fascinava. Um companheiro me disse uma vez: "Marx estudou economia, história e filosofia e, um dia, sentou na mesa e escreveu um programa racional para reorganizar a humanidade". Era a invencível beleza da Razão, o poder das ideias 'justas', que me estimulava a largar qualquer profissão 'burguesa'. Meu avô dizia: "Cuidado, Arnaldinho, os comunistas se acham médiuns, aquilo parece tenda espírita...". Eu não liguei e fui para os 'aparelhos', as reuniões de 'base' e, para meu desespero, me decepcionei.
Em vez do charme infinito dos cubanos, comecei a ver o erro, plantado em duas raízes: ou o erro de uma patética organização estratégica que nunca se completava e, a 'margarida que apareceu' agora com todo esplendor: a Incompetência (com 'i' maiúsculo), a mais granítica, imaculada incompetência que vi na vida. Por quê? Porque a incompetência do comuna típico é o despreparo sem dúvidas, é a burrice alçada à condição de certeza absoluta. É um ridículo silogismo: "Eu sou a favor do bem, logo não posso errar e, logo, não preciso estudar nem pesquisar". Por que essa incompetência larvar, no DNA do comuna? Porque eles não lutam pelo 'governo' de algo; lutam pelo poder de um futuro que não conhecem. O paradoxo é que odeiam o que têm de governar: um país capitalista. Como pode um comuna administrar o capitalismo? O velho stalinista Marcos Stokol confessou outro dia no jornal: "O PT entrou no governo porque queremos mudar o Estado". Todos os erros e burrices que eu via na UNE e nas reuniões do PC eram de arrepiar os cabelos. Eu pensei horrorizado quando vi o PT no poder: vão fornicar tudo. Fornicaram.
E olhem que estou me referindo apenas ao 'rationale' básico, psicológico, de uma 'boa consciência' incompetente que professam. Sem mencionar a roubalheira justificada pela ideologia - "desapropriar os bens da burguesia para nossos fins". A fome de uma porcada magra invadindo o batatal - isso eu não esperava.
Como era fácil viver segundo os escassos 'sentimentos' catalogados pelos comunas: ou o companheiro estava sendo 'aventureiro' ou 'provocador' ou então era 'oportunista, hesitante, pequeno-burguês' ou sectário ou 'obreirista' ou sei lá o quê. Era fácil viver; ignorávamos os ignorantes, os neuróticos, os paranoicos, os psicopatas, os burros e os sempre presentes filhos da p... Nas reuniões e assembleias, surgia sempre a voz rombuda da burrice. Aliás, burrice tem sido muito subestimada nas análises históricas. No entanto, ela é presença obrigatória, a convidada de honra: a burrice sólida, marmórea. Vivíamos assediados por lugares-comuns. O imperialismo era a 'contradição principal' de tudo (vejam o ardor com que condenaram a 'invasão americana' de nossos segredos de Estado há pouco. Quais? Quanto a Delta levou, onde está o Lula?). As discussões intermináveis, os diagnósticos mal lidos da Academia da URSS sempre despencavam, esfarinhavam-se diante do enigma eterno: "O que fazer?". E ninguém sabia.
E veio a sucessão de derrotas. Derrota em 64, derrota em 68, derrota na luta armada, derrotas sem-fim.
Até que surgiu, nos anos 70, uma homem novo: Lula, diante de um mar de metalúrgicos no ABC. Aí, começou a romaria em volta da súbita aparição do messias operário, o ungido. Lula foi envolvido num novelo de ideologias e dogmas dos comunas desempregados, desfigurando de saída o que seria o PT.
Quando comecei a criticar o PT e o Lula, 'petralhas' me acusaram de ser de direita, udenista contra operários. Não era nada disso; era o pavor, o medo de que a velha incompetência administrativa e política do 'janguismo' se repetisse no Brasil, que tinha sido saneado pelo governo de FHC. Não deu outra. O retrocesso foi terrível porque estava tudo pronto para a modernização do País; mas o avião foi detido na hora da decolagem. Hoje, vemos mais uma 'revolução' fracassada; não uma revolução com armas ou com o povo, mas uma revolução feita de malas pretas, de dinheiro subtraído de estatais, da desmoralização das instituições republicanas. Hoje, vemos o final dessa epopeia burra, vemos que a estratégia de Dirceu e seus comparsas era a tomada do poder pelo apodrecimento das instituições burguesas, uma espécie de 'gramscianismo pela corrupção' ou talvez um 'stalinismo de resultados'.
O perigo é que os intelectuais catequizados ainda pensam: "O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal - os tucanos neoliberais".
Como escreveu minha filha Juliana Jabor, mestra em antropologia, "ajudado por intelectuais fiéis, Lula poderá se apropriar da situação com seu carisma inabalável, para ocupar a 'função paterna' que está vaga desde o fim do seu governo. Pode ser eleito de novo e a multidão se transformará, aí sim, em 'massa'. O 'movimento' perderá o seu caráter de produção de subjetividades e se transformará numa massa guiada por um líder populista".
O que aconteceu com esse governo foi mais um equívoco na história das trapalhadas que a esquerda leninista comete sempre, agora dentro do PT. O fracasso é o grande orgulho dos revolucionários masoquistas. Pelo fracasso constrói-se uma espécie de 'martírio enobrecedor', já que socialismo hoje é impossível. Erraram com tanta obviedade (no mensalão por exemplo ou no escândalo dos 'aloprados'), com tanto desprezo pelas evidências de perigo, tanta subestimação do inimigo, que a única explicação é o desejo de serem flagrados. Sem contar o sentimento de superioridade que se arrogaram sobre nós, os 'alienados burgueses neoliberais'.
Conheço a turminha que está no poder hoje, desde os idos de 1963, e adivinhava o que estava por vir. Conheci muitos, de perto.
Nos meus 20 anos, era impossível não ser 'de esquerda'. Nós queríamos ser como os homens heroicos que conquistaram Cuba, os longos cabelos de Camilo Cienfuegos, o charuto do Guevara, a 'pachanga' dançada na chuva linda do dia em que entraram em Havana, exaustos, barbados, com fuzis na mão e embriagados de vitória.
A genialidade de Marx me fascinava. Um companheiro me disse uma vez: "Marx estudou economia, história e filosofia e, um dia, sentou na mesa e escreveu um programa racional para reorganizar a humanidade". Era a invencível beleza da Razão, o poder das ideias 'justas', que me estimulava a largar qualquer profissão 'burguesa'. Meu avô dizia: "Cuidado, Arnaldinho, os comunistas se acham médiuns, aquilo parece tenda espírita...". Eu não liguei e fui para os 'aparelhos', as reuniões de 'base' e, para meu desespero, me decepcionei.
Em vez do charme infinito dos cubanos, comecei a ver o erro, plantado em duas raízes: ou o erro de uma patética organização estratégica que nunca se completava e, a 'margarida que apareceu' agora com todo esplendor: a Incompetência (com 'i' maiúsculo), a mais granítica, imaculada incompetência que vi na vida. Por quê? Porque a incompetência do comuna típico é o despreparo sem dúvidas, é a burrice alçada à condição de certeza absoluta. É um ridículo silogismo: "Eu sou a favor do bem, logo não posso errar e, logo, não preciso estudar nem pesquisar". Por que essa incompetência larvar, no DNA do comuna? Porque eles não lutam pelo 'governo' de algo; lutam pelo poder de um futuro que não conhecem. O paradoxo é que odeiam o que têm de governar: um país capitalista. Como pode um comuna administrar o capitalismo? O velho stalinista Marcos Stokol confessou outro dia no jornal: "O PT entrou no governo porque queremos mudar o Estado". Todos os erros e burrices que eu via na UNE e nas reuniões do PC eram de arrepiar os cabelos. Eu pensei horrorizado quando vi o PT no poder: vão fornicar tudo. Fornicaram.
E olhem que estou me referindo apenas ao 'rationale' básico, psicológico, de uma 'boa consciência' incompetente que professam. Sem mencionar a roubalheira justificada pela ideologia - "desapropriar os bens da burguesia para nossos fins". A fome de uma porcada magra invadindo o batatal - isso eu não esperava.
Como era fácil viver segundo os escassos 'sentimentos' catalogados pelos comunas: ou o companheiro estava sendo 'aventureiro' ou 'provocador' ou então era 'oportunista, hesitante, pequeno-burguês' ou sectário ou 'obreirista' ou sei lá o quê. Era fácil viver; ignorávamos os ignorantes, os neuróticos, os paranoicos, os psicopatas, os burros e os sempre presentes filhos da p... Nas reuniões e assembleias, surgia sempre a voz rombuda da burrice. Aliás, burrice tem sido muito subestimada nas análises históricas. No entanto, ela é presença obrigatória, a convidada de honra: a burrice sólida, marmórea. Vivíamos assediados por lugares-comuns. O imperialismo era a 'contradição principal' de tudo (vejam o ardor com que condenaram a 'invasão americana' de nossos segredos de Estado há pouco. Quais? Quanto a Delta levou, onde está o Lula?). As discussões intermináveis, os diagnósticos mal lidos da Academia da URSS sempre despencavam, esfarinhavam-se diante do enigma eterno: "O que fazer?". E ninguém sabia.
E veio a sucessão de derrotas. Derrota em 64, derrota em 68, derrota na luta armada, derrotas sem-fim.
Até que surgiu, nos anos 70, uma homem novo: Lula, diante de um mar de metalúrgicos no ABC. Aí, começou a romaria em volta da súbita aparição do messias operário, o ungido. Lula foi envolvido num novelo de ideologias e dogmas dos comunas desempregados, desfigurando de saída o que seria o PT.
Quando comecei a criticar o PT e o Lula, 'petralhas' me acusaram de ser de direita, udenista contra operários. Não era nada disso; era o pavor, o medo de que a velha incompetência administrativa e política do 'janguismo' se repetisse no Brasil, que tinha sido saneado pelo governo de FHC. Não deu outra. O retrocesso foi terrível porque estava tudo pronto para a modernização do País; mas o avião foi detido na hora da decolagem. Hoje, vemos mais uma 'revolução' fracassada; não uma revolução com armas ou com o povo, mas uma revolução feita de malas pretas, de dinheiro subtraído de estatais, da desmoralização das instituições republicanas. Hoje, vemos o final dessa epopeia burra, vemos que a estratégia de Dirceu e seus comparsas era a tomada do poder pelo apodrecimento das instituições burguesas, uma espécie de 'gramscianismo pela corrupção' ou talvez um 'stalinismo de resultados'.
O perigo é que os intelectuais catequizados ainda pensam: "O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal - os tucanos neoliberais".
Como escreveu minha filha Juliana Jabor, mestra em antropologia, "ajudado por intelectuais fiéis, Lula poderá se apropriar da situação com seu carisma inabalável, para ocupar a 'função paterna' que está vaga desde o fim do seu governo. Pode ser eleito de novo e a multidão se transformará, aí sim, em 'massa'. O 'movimento' perderá o seu caráter de produção de subjetividades e se transformará numa massa guiada por um líder populista".
Apoiando o Uruguai na regulação da maconha - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O GLOBO - 16/07
A proposta de regulação que se discute no país não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas
Há dois anos, em minha qualidade de presidente da Comissão Global de Política sobre Drogas, realizei um chamado público pela descriminalização do consumo de drogas e pela experimentação com modelos de regulação legal. Eu e meus colegas fizemos este chamado a partir do reconhecimento de que o proibicionismo fracassou em muitos níveis. Por tempo demais, o modelo repressivo implicou o desperdício de recursos públicos inestimáveis, que pouco resultado proporcionou para a segurança e a saúde públicas.
Assim, apoiamos a busca de modelos de regulação legal porque acreditamos que reduzirão o poder do crime organizado e ajudarão a proteger a saúde e a segurança das pessoas. Por este motivo, acho que a proposta do Uruguai de regular a maconha é digna de consideração.
Uma série de fatores leva a concluir sobre a necessidade de um controle regulatório no Uruguai e em muitas outras localidades do mundo. Um fato relevante é que, no modelo repressivo, os usuários estão vinculados ao mercado criminoso. Essas pessoas são efetivamente conduzidas a um mercado ilícito que não impede a venda de drogas a menores de idade, não se preocupa com indivíduos que desenvolvem o uso problemático ou certifica a qualidade sanitária da substância, envolvendo a cadeia de uso em um contexto de violência e delinquência.
Estes são apenas alguns dos riscos para as pessoas que fazem uso de maconha. Porém, o próprio mercado gera preocupações adicionais.
O lucro deste mercado sustenta uma economia informal, cujo alcance pode ser apenas estimado. Os informes oficiais indicam que o tamanho do mercado de maconha no Uruguai gira em torno dos US$ 30 a US$ 40 milhões por ano. Quanto deste dinheiro é utilizado para corromper as forças de segurança ao largo das fronteiras dos países de origem da droga? Quanto deste dinheiro é utilizado para subornar a polícia ou é “lavado” através de instituições financeiras? E quanto acaba sendo empregado na compra de armas e financiamento de quadrilhas criminosas?
Tais preocupações não são derivadas do consumo de drogas, mas consequências de uma política que ignora as condições do mundo real.
A proposta de regulação que se discute no Uruguai não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas. Também é evidente que essa proposta possa significar uma soma pela subtração: simplesmente retirar recursos do crime organizado seria um benefício em si mesmo.
Como em qualquer lugar do globo, a transformação interna na política sobre drogas gera controvérsia, simpatizantes e antagonistas. No Uruguai, diversas organizações sociais e personalidades públicas consolidaram seu apoio à plataforma “Regulación Responsable”, que tem por objetivo enriquecer o debate cidadão com dados reais e tornar visível o apoio à iniciativa de regulação da maconha. Com muito entusiasmo, saúdo o compromisso da cidadania uruguaia e com satisfação declaro publicamente minha adesão a Regulación Responsable.
A proposta de regulação que se discute no país não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas
Há dois anos, em minha qualidade de presidente da Comissão Global de Política sobre Drogas, realizei um chamado público pela descriminalização do consumo de drogas e pela experimentação com modelos de regulação legal. Eu e meus colegas fizemos este chamado a partir do reconhecimento de que o proibicionismo fracassou em muitos níveis. Por tempo demais, o modelo repressivo implicou o desperdício de recursos públicos inestimáveis, que pouco resultado proporcionou para a segurança e a saúde públicas.
Assim, apoiamos a busca de modelos de regulação legal porque acreditamos que reduzirão o poder do crime organizado e ajudarão a proteger a saúde e a segurança das pessoas. Por este motivo, acho que a proposta do Uruguai de regular a maconha é digna de consideração.
Uma série de fatores leva a concluir sobre a necessidade de um controle regulatório no Uruguai e em muitas outras localidades do mundo. Um fato relevante é que, no modelo repressivo, os usuários estão vinculados ao mercado criminoso. Essas pessoas são efetivamente conduzidas a um mercado ilícito que não impede a venda de drogas a menores de idade, não se preocupa com indivíduos que desenvolvem o uso problemático ou certifica a qualidade sanitária da substância, envolvendo a cadeia de uso em um contexto de violência e delinquência.
Estes são apenas alguns dos riscos para as pessoas que fazem uso de maconha. Porém, o próprio mercado gera preocupações adicionais.
O lucro deste mercado sustenta uma economia informal, cujo alcance pode ser apenas estimado. Os informes oficiais indicam que o tamanho do mercado de maconha no Uruguai gira em torno dos US$ 30 a US$ 40 milhões por ano. Quanto deste dinheiro é utilizado para corromper as forças de segurança ao largo das fronteiras dos países de origem da droga? Quanto deste dinheiro é utilizado para subornar a polícia ou é “lavado” através de instituições financeiras? E quanto acaba sendo empregado na compra de armas e financiamento de quadrilhas criminosas?
Tais preocupações não são derivadas do consumo de drogas, mas consequências de uma política que ignora as condições do mundo real.
A proposta de regulação que se discute no Uruguai não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas. Também é evidente que essa proposta possa significar uma soma pela subtração: simplesmente retirar recursos do crime organizado seria um benefício em si mesmo.
Como em qualquer lugar do globo, a transformação interna na política sobre drogas gera controvérsia, simpatizantes e antagonistas. No Uruguai, diversas organizações sociais e personalidades públicas consolidaram seu apoio à plataforma “Regulación Responsable”, que tem por objetivo enriquecer o debate cidadão com dados reais e tornar visível o apoio à iniciativa de regulação da maconha. Com muito entusiasmo, saúdo o compromisso da cidadania uruguaia e com satisfação declaro publicamente minha adesão a Regulación Responsable.
Na máquina do tempo - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 16/07
As revelações de Snowden relançam a parcela mais lúcida do mundo nas percepções pós-1945
Estamos de volta a 1945.
A parcela mais lúcida do mundo depressa substituiu, por um sentimento novo, o alívio que as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki trouxeram, ao darem fim naquele ano à Segunda Guerra. A outra face da evidência de que surgira no planeta um superpoder, único e absoluto, foi a percepção esmagadora da impotência unânime do mundo restante diante do poder nuclear exclusivo.
Einstein, Oppenheimer, que chefiara a criação das bombas, e muitos outros cientistas expressaram a angústia universal em documentos de grandeza extraordinária contra os riscos a que a superarma e a simples vontade do superpoder sujeitavam a humanidade. Muitos cientistas não precisaram identificar-se com a ideologia da União Soviética para ajudá-la a tornar-se também potência nuclear. Era a ideia, que se provou certa, do equilíbrio do terror como a mais alta regra do convívio no mundo.
Foi um tempo de angústia e coragem.
Edward Snowden acionou, sem saber, a máquina do tempo. Suas revelações de que o poder americano pode espionar, e espiona, toda a comunicação no planeta relança a parcela mais lúcida do mundo nas percepções dos anos imediatamente sucessivos a 1945.
A reação fugidia, quase pusilânime, dos governantes de países europeus espionados tem um motivo comum a todos. Não se trata mais de engolir o indigerível em nome da defesa dos ideais democráticos e cristãos do Ocidente. A falácia ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. O motivo é a impotência para defender-se do estupro. É a mentira de que têm, ou podem ter, recursos que tornam invioláveis os seus segredos nacionais.
A criptografia, transformação de sons e de escrita em sinais de códigos, é, no máximo, defesa temporária. Se antes do computador códigos terminavam por ser quebrados, mesmo os mais mirabolantes como a máquina Enigma dos nazistas, hoje a tarefa está facilitada. Os códigos precisam, por isso, ser substituídos com frequência, o que é dificílimo em razão do número de serviços e conexões necessitados de códigos em um governo. E a criptografia tem a deficiência básica de que um código pode ser quebrado sem que seu usuário o perceba.
É claro que há defesas provisórias e parciais. Mas não há notícia de que ao menos se admita a criação de um sistema de comunicação cibernética que, com toda a certeza, não possa algum dia ser violado por outro sistema. A propósito, pode-se imaginar que resguardos o Irã tenha adotado para o desenvolvimento do seu projeto nuclear, dito pacífico. De repente, não faz muito tempo, o seu sistema de enriquecimento de urânio parou, em pane inexplicada. Agora, no início de suas revelações, Snowden deu a informação de que a pane foi induzida por computadores do governo americano em computadores da central nuclear iraniana.
A revelação de que as comunicações brasileiras por internet e telefones foram das mais espionadas pelos Estados Unidos corresponde a três prováveis objetivos americanos. A chamada tríplice fronteira, em Foz do Iguaçu, é vista pela segurança americana como área usada pelo terrorismo, mas também São Paulo, por exemplo, está na mira; e informações sobre o pré-sal e sobre projeto nuclear são de interesse geral. Quanto à quantidade de interceptações, somos uma população imensa, como os também muito espionados Índia e Rússia.
Nem por tudo isso precisamos mergulhar no ridículo, como tantos já se apressam em fazer. O Brasil não se preparou, o Brasil está atrasado 20 anos, o governo devia gastar X e só gastou um décimo na defesa cibernética, e por aí vai o patético. Mesmo que o orçamento da tal defesa fosse farto e todo aplicado, tudo o que aqui se fizesse seria com equipamento estrangeiro, portanto de infidelidade assegurada. E usaria redes estrangeiras: americanas, as mesmas já identificadas como auxiliares da espionagem americana.
Poupemos o país de gaiatices, que já são muitas.
As revelações de Snowden relançam a parcela mais lúcida do mundo nas percepções pós-1945
Estamos de volta a 1945.
A parcela mais lúcida do mundo depressa substituiu, por um sentimento novo, o alívio que as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki trouxeram, ao darem fim naquele ano à Segunda Guerra. A outra face da evidência de que surgira no planeta um superpoder, único e absoluto, foi a percepção esmagadora da impotência unânime do mundo restante diante do poder nuclear exclusivo.
Einstein, Oppenheimer, que chefiara a criação das bombas, e muitos outros cientistas expressaram a angústia universal em documentos de grandeza extraordinária contra os riscos a que a superarma e a simples vontade do superpoder sujeitavam a humanidade. Muitos cientistas não precisaram identificar-se com a ideologia da União Soviética para ajudá-la a tornar-se também potência nuclear. Era a ideia, que se provou certa, do equilíbrio do terror como a mais alta regra do convívio no mundo.
Foi um tempo de angústia e coragem.
Edward Snowden acionou, sem saber, a máquina do tempo. Suas revelações de que o poder americano pode espionar, e espiona, toda a comunicação no planeta relança a parcela mais lúcida do mundo nas percepções dos anos imediatamente sucessivos a 1945.
A reação fugidia, quase pusilânime, dos governantes de países europeus espionados tem um motivo comum a todos. Não se trata mais de engolir o indigerível em nome da defesa dos ideais democráticos e cristãos do Ocidente. A falácia ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. O motivo é a impotência para defender-se do estupro. É a mentira de que têm, ou podem ter, recursos que tornam invioláveis os seus segredos nacionais.
A criptografia, transformação de sons e de escrita em sinais de códigos, é, no máximo, defesa temporária. Se antes do computador códigos terminavam por ser quebrados, mesmo os mais mirabolantes como a máquina Enigma dos nazistas, hoje a tarefa está facilitada. Os códigos precisam, por isso, ser substituídos com frequência, o que é dificílimo em razão do número de serviços e conexões necessitados de códigos em um governo. E a criptografia tem a deficiência básica de que um código pode ser quebrado sem que seu usuário o perceba.
É claro que há defesas provisórias e parciais. Mas não há notícia de que ao menos se admita a criação de um sistema de comunicação cibernética que, com toda a certeza, não possa algum dia ser violado por outro sistema. A propósito, pode-se imaginar que resguardos o Irã tenha adotado para o desenvolvimento do seu projeto nuclear, dito pacífico. De repente, não faz muito tempo, o seu sistema de enriquecimento de urânio parou, em pane inexplicada. Agora, no início de suas revelações, Snowden deu a informação de que a pane foi induzida por computadores do governo americano em computadores da central nuclear iraniana.
A revelação de que as comunicações brasileiras por internet e telefones foram das mais espionadas pelos Estados Unidos corresponde a três prováveis objetivos americanos. A chamada tríplice fronteira, em Foz do Iguaçu, é vista pela segurança americana como área usada pelo terrorismo, mas também São Paulo, por exemplo, está na mira; e informações sobre o pré-sal e sobre projeto nuclear são de interesse geral. Quanto à quantidade de interceptações, somos uma população imensa, como os também muito espionados Índia e Rússia.
Nem por tudo isso precisamos mergulhar no ridículo, como tantos já se apressam em fazer. O Brasil não se preparou, o Brasil está atrasado 20 anos, o governo devia gastar X e só gastou um décimo na defesa cibernética, e por aí vai o patético. Mesmo que o orçamento da tal defesa fosse farto e todo aplicado, tudo o que aqui se fizesse seria com equipamento estrangeiro, portanto de infidelidade assegurada. E usaria redes estrangeiras: americanas, as mesmas já identificadas como auxiliares da espionagem americana.
Poupemos o país de gaiatices, que já são muitas.
O relógio não para - AGOSTINHO GUERREIRO
O GLOBO - 16/07
Parece que foi ontem, mas foi em 2007 a escolha do Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014. A um ano da realização de um dos maiores eventos do mundo, há ainda muito o que fazer. A Copa das Confederações foi só uma demonstração: apenas seis estádios prontos, pouca ou nenhuma modificação na mobilidade urbana das cidades que receberam os jogos, correria na organização. Houve ainda o dado novo com os protestos pedindo mais transparência dos gastos com o mundial e confrontos que deixaram pessoas feridas, despertando a atenção para as estratégias de segurança e inteligência que serão aplicadas nos eventos.
Seis anos desde a escolha se passaram, e o que se vê hoje é o resultado da falta de um planejamento integrado e de projetos que saiam do papel já estruturados, com sugestões da comunidade técnica e da sociedade. Esse atropelamento nos preparativos é um sintoma daquilo que tem levado muitos brasileiros às ruas: a ineficiência da fiscalização do poder público, a ausência de responsabilidade com gastos e a pouca atenção dada, nas últimas décadas, para o planejamento urbano e desenvolvimento das cidades.
Chegamos, portanto, a uma situação em que as ruas pedem mudanças expressivas e imediatas das regras do jogo em questões que demandam tempo e cautela para serem resolvidas. A resposta a isso é um desafio para os governantes: é preciso mudar já, mas de forma pensada e ponderada.
Sendo assim, além da moralização dos gastos públicos, é prioritário dar continuidade aos investimentos no transporte.
No Rio de Janeiro, a construção de BRTs - corrigindo seus atuais problemas -, de novas linhas para o metrô e a reforma mais do que bem-vinda do Galeão são alguns pontos cruciais para que não passemos vexame como anfitriões.
O prazo entre a escolha do país-sede e a realização do evento era mais do que suficiente para implantarmos boa parte do que nos comprometemos a fazer em 2007.
Afinal, o grande objetivo de receber competições deste porte deveria ser transformar o impacto turístico e de imagem que uma Copa do Mundo oferece para trazer um legado para os moradores do país, melhorando a qualidade de vida e a autoestima de seus habitantes.
A Copa da Alemanha foi um grande exemplo de como o país se livrou de vez de uma imagem negativa ligada, ainda, à Segunda Guerra Mundial; já a de 2010 deixou como herança para a África do Sul caros equipamentos esportivos que dificilmente cobrirão seus custos.
O que poderia se transformar em uma grande virada para o planejamento de grandes intervenções no Brasil, trazendo como legado mais transparência e o resgate da valorização do planejamento e da cultura técnica no país, infelizmente não se concretizou. Resta agora correr atrás do tempo perdido com seriedade e profissionalismo.
Seis anos desde a escolha se passaram, e o que se vê hoje é o resultado da falta de um planejamento integrado e de projetos que saiam do papel já estruturados, com sugestões da comunidade técnica e da sociedade. Esse atropelamento nos preparativos é um sintoma daquilo que tem levado muitos brasileiros às ruas: a ineficiência da fiscalização do poder público, a ausência de responsabilidade com gastos e a pouca atenção dada, nas últimas décadas, para o planejamento urbano e desenvolvimento das cidades.
Chegamos, portanto, a uma situação em que as ruas pedem mudanças expressivas e imediatas das regras do jogo em questões que demandam tempo e cautela para serem resolvidas. A resposta a isso é um desafio para os governantes: é preciso mudar já, mas de forma pensada e ponderada.
Sendo assim, além da moralização dos gastos públicos, é prioritário dar continuidade aos investimentos no transporte.
No Rio de Janeiro, a construção de BRTs - corrigindo seus atuais problemas -, de novas linhas para o metrô e a reforma mais do que bem-vinda do Galeão são alguns pontos cruciais para que não passemos vexame como anfitriões.
O prazo entre a escolha do país-sede e a realização do evento era mais do que suficiente para implantarmos boa parte do que nos comprometemos a fazer em 2007.
Afinal, o grande objetivo de receber competições deste porte deveria ser transformar o impacto turístico e de imagem que uma Copa do Mundo oferece para trazer um legado para os moradores do país, melhorando a qualidade de vida e a autoestima de seus habitantes.
A Copa da Alemanha foi um grande exemplo de como o país se livrou de vez de uma imagem negativa ligada, ainda, à Segunda Guerra Mundial; já a de 2010 deixou como herança para a África do Sul caros equipamentos esportivos que dificilmente cobrirão seus custos.
O que poderia se transformar em uma grande virada para o planejamento de grandes intervenções no Brasil, trazendo como legado mais transparência e o resgate da valorização do planejamento e da cultura técnica no país, infelizmente não se concretizou. Resta agora correr atrás do tempo perdido com seriedade e profissionalismo.
Protestos, cultura e gestão - FÁBIO LUIZ GOMES
ZERO HORA - 16/07
Uma das críticas aos protestos "das ruas" é ausência de objetividade. Seriam "erráticos". Na verdade os problemas não cabem em um cartaz. Realmente são muitos. E suficientemente grandes para fazerem as passagens de ônibus lembrar os brioches de Maria Antonieta. E "erráticos" foram os primeiros movimentos dos políticos. Passado o susto inicial, mostram resistência às mudanças que realmente importam e tiram as miudezas do balaio esperando que o resto fique como está. É claro que os políticos deveriam ter mais facilidade para identificar a causa desses problemas, pois como apontou Foucault, encontraram-se no centro das relações de luta e de poder. Mas são reféns de uma visão estrábica, para lembrar Eisenberg e sua teoria da incerteza. De qualquer forma, trazendo novamente Foucault, agora na esteira de Nietzsche, nada mais bem-vindo do que os protestos, pois o caráter perspectivo do conhecimento decorre da contraposição de forças. Como apontou Boaventura Santos, representam uma dose explosiva de presente jogado na face de um passado que foi indiferente ao futuro.
Fácil a identificação dos problemas imediatos (parece que só se salvaram o Bolsa Família, os financiamentos agrícolas e a eficiência arrecadatória). Difícil a esses políticos é compreender as causas. Primeiro porque a "casta" que aí está é o pior legado de uma ditadura que cortou durante 20 anos a formação de quadros suficientemente capazes de bem gerir a coisa pública, com raras exceções. Segundo, e por via de consequência, o despreparo os impede de perceber que esse sistema político (que não pode ser dissociado do jurídico e do econômico) oriundo de formulações desenvolvidas nos séculos 17 e 18 por Hobbes, Locke, Adam Smith e Rousseau, e que viabilizou a Revolução Francesa e arrancou a humanidade do paradigma medieval, não consegue responder aos imperativos da era do tempo real e da globalização. Este sistema político está falido. Cientificamente falido. Mas nossos garbosos políticos invocam ditames de uma Constituição que nasceu retrógrada, para afastar a ideia de uma Constituinte e de um plebiscito. Há mais de 50 anos os mais respeitados cientistas falam em "refundação" do Estado.
E para não esperarmos as reformas impotentes aos deboches dos políticos passeando em aviões da FAB brandindo um decreto presidencial (revogável a qualquer tempo mercê do princípio da legalidade), brademos pelo menos pela efetividade de uma federação, única forma capaz de viabilizar a gestão razoável de um gigante como o Brasil, transferindo-se poder e arrecadação aos Estados e municípios. É inconcebível elegermos um monarca de quatro em quatro anos para concentrar a administração de um país-continente, com a União arrecadando 68,7 % dos tributos e em tese responsável pela administração de idêntico percentual da máquina pública. É humana e tecnicamente impossível, como evidencia a realidade brasileira. A situação é agravada por conchavos em nome da "governabilidade", como fez Lula com Maluf, símbolo maior do que as "ruas" abominam. Os protestos amainaram, mas há um desassossego no ar...
Uma das críticas aos protestos "das ruas" é ausência de objetividade. Seriam "erráticos". Na verdade os problemas não cabem em um cartaz. Realmente são muitos. E suficientemente grandes para fazerem as passagens de ônibus lembrar os brioches de Maria Antonieta. E "erráticos" foram os primeiros movimentos dos políticos. Passado o susto inicial, mostram resistência às mudanças que realmente importam e tiram as miudezas do balaio esperando que o resto fique como está. É claro que os políticos deveriam ter mais facilidade para identificar a causa desses problemas, pois como apontou Foucault, encontraram-se no centro das relações de luta e de poder. Mas são reféns de uma visão estrábica, para lembrar Eisenberg e sua teoria da incerteza. De qualquer forma, trazendo novamente Foucault, agora na esteira de Nietzsche, nada mais bem-vindo do que os protestos, pois o caráter perspectivo do conhecimento decorre da contraposição de forças. Como apontou Boaventura Santos, representam uma dose explosiva de presente jogado na face de um passado que foi indiferente ao futuro.
Fácil a identificação dos problemas imediatos (parece que só se salvaram o Bolsa Família, os financiamentos agrícolas e a eficiência arrecadatória). Difícil a esses políticos é compreender as causas. Primeiro porque a "casta" que aí está é o pior legado de uma ditadura que cortou durante 20 anos a formação de quadros suficientemente capazes de bem gerir a coisa pública, com raras exceções. Segundo, e por via de consequência, o despreparo os impede de perceber que esse sistema político (que não pode ser dissociado do jurídico e do econômico) oriundo de formulações desenvolvidas nos séculos 17 e 18 por Hobbes, Locke, Adam Smith e Rousseau, e que viabilizou a Revolução Francesa e arrancou a humanidade do paradigma medieval, não consegue responder aos imperativos da era do tempo real e da globalização. Este sistema político está falido. Cientificamente falido. Mas nossos garbosos políticos invocam ditames de uma Constituição que nasceu retrógrada, para afastar a ideia de uma Constituinte e de um plebiscito. Há mais de 50 anos os mais respeitados cientistas falam em "refundação" do Estado.
E para não esperarmos as reformas impotentes aos deboches dos políticos passeando em aviões da FAB brandindo um decreto presidencial (revogável a qualquer tempo mercê do princípio da legalidade), brademos pelo menos pela efetividade de uma federação, única forma capaz de viabilizar a gestão razoável de um gigante como o Brasil, transferindo-se poder e arrecadação aos Estados e municípios. É inconcebível elegermos um monarca de quatro em quatro anos para concentrar a administração de um país-continente, com a União arrecadando 68,7 % dos tributos e em tese responsável pela administração de idêntico percentual da máquina pública. É humana e tecnicamente impossível, como evidencia a realidade brasileira. A situação é agravada por conchavos em nome da "governabilidade", como fez Lula com Maluf, símbolo maior do que as "ruas" abominam. Os protestos amainaram, mas há um desassossego no ar...
As últimas da corte - VERA MAGALHÃES
FOLHA DE SP - 16/07
SÃO PAULO - Enquanto se gastam toneladas de papel e litros de saliva para tentar explicar o que mudou no Brasil depois das manifestações de junho, duas reportagens daFolha dos últimos dias atestam que muito pouco. Quase nada.
Duas filhas de ministros do Supremo Tribunal Federal, com escassa experiência como advogadas e sem títulos acadêmicos de relevo, estão cotadas para virar desembargadoras.
Marianna, 32, e Leticia, 37, filhas, respectivamente, de Luiz Fux e Marco Aurélio Mello, não prestaram concurso. Sua eventual indicação se daria pelo dispositivo constitucional que reserva 20% das vagas em alguns tribunais para advogados e membros do Ministério Público.
Os pais togados tiveram reação distinta diante da reportagem de Leandro Colon e Diógenes Campanha: Marco Aurélio saiu em defesa da filha e disse que não fez lobby por ela, só ligou para agradecer a atenção'' dos desembargadores (eleitores) que a receberam. Fux, cuja própria campanha para o STF teve lances controversos, não quis falar.
Em mais um retrato do Brasil, Daniela Lima nos apresentou Emanuel von Laurenstein Massarani, 78. Entre outras peripécias, o personagem distribui falsas bênçãos papais a deputados e prefeitos. E, quando questionado por se apresentar como ex-embaixador, sem nunca ter sido, diz ter título de embaixador de Itápolis!
Distintos entre si, os dois casos são representativos do baixo grau da institucionalidade brasileira, que permanece o mesmo após os protestos.
Ministros da mais alta corte do país deveriam recomendar que a prole não usasse o sobrenome como cartão de visitas. E que prestasse concurso público para realizar a eventual vocação para a magistratura.
Já o fanfarrão de Itápolis seria cômico, não fosse o fato de ter sala, carro e assessores pagos pela Assembleia de SP, sem ser servidor da Casa. Bem feito para quem lhe deu guarida pensando estar abençoado, mas, na verdade, só pagou um tremendo mico.
SÃO PAULO - Enquanto se gastam toneladas de papel e litros de saliva para tentar explicar o que mudou no Brasil depois das manifestações de junho, duas reportagens daFolha dos últimos dias atestam que muito pouco. Quase nada.
Duas filhas de ministros do Supremo Tribunal Federal, com escassa experiência como advogadas e sem títulos acadêmicos de relevo, estão cotadas para virar desembargadoras.
Marianna, 32, e Leticia, 37, filhas, respectivamente, de Luiz Fux e Marco Aurélio Mello, não prestaram concurso. Sua eventual indicação se daria pelo dispositivo constitucional que reserva 20% das vagas em alguns tribunais para advogados e membros do Ministério Público.
Os pais togados tiveram reação distinta diante da reportagem de Leandro Colon e Diógenes Campanha: Marco Aurélio saiu em defesa da filha e disse que não fez lobby por ela, só ligou para agradecer a atenção'' dos desembargadores (eleitores) que a receberam. Fux, cuja própria campanha para o STF teve lances controversos, não quis falar.
Em mais um retrato do Brasil, Daniela Lima nos apresentou Emanuel von Laurenstein Massarani, 78. Entre outras peripécias, o personagem distribui falsas bênçãos papais a deputados e prefeitos. E, quando questionado por se apresentar como ex-embaixador, sem nunca ter sido, diz ter título de embaixador de Itápolis!
Distintos entre si, os dois casos são representativos do baixo grau da institucionalidade brasileira, que permanece o mesmo após os protestos.
Ministros da mais alta corte do país deveriam recomendar que a prole não usasse o sobrenome como cartão de visitas. E que prestasse concurso público para realizar a eventual vocação para a magistratura.
Já o fanfarrão de Itápolis seria cômico, não fosse o fato de ter sala, carro e assessores pagos pela Assembleia de SP, sem ser servidor da Casa. Bem feito para quem lhe deu guarida pensando estar abençoado, mas, na verdade, só pagou um tremendo mico.
Tirem as mãos da internet! - SILVIO FIGER
O GLOBO - 16/07
Demorou menos do que se imaginava, e o governo brasileiro já envereda por uma agenda política desvirtuada no trato do escândalo da espionagem americana. Não me refiro à mais do que óbvia tática de desviar a atenção do público interno, das manifestações das ruas para um inimigo externo - uma espécie de Guerra das Malvinas à brasileira. Refiro-me a algo tão menos óbvio quanto mais preocupante: a possibilidade de utilização do episódio para avançar o acalentado projeto de regular a mídia. Para tanto nada seria mais apropriado do que utilizar a internet como cabeça de ponte - é aí que se veiculam, de forma livre e irrestrita, jornais, revistas, livros, filmes, e televisão, do mundo inteiro, de hoje, de ontem, e de séculos passados. Em essência, a mídia de hoje, em grande parte, se apoia na internet. Se começarem a regular por aí, o resto cai por efeito-dominó.
Assim é que nem bem avaliamos a gênese, nem a logística, de tão extensa rede de espionagem, e nosso governo já anunciou quatro frentes de ação: duas formais, e duas políticas. São as formais o pedido de esclarecimentos ao governo americano, e a investigação da possível participação de empresas brasileiras. São as políticas o aprimoramento da legislação para garantir o sigilo de dados na internet, e proposição à ONU de regulação internacional para maior segurança cibernética (leia-se, novamente, internet). E é nestas ações políticas que reside o desvirtuamento: sigilo e regulação não costumam ser indicativos de honestidade de propósitos.
Convém lembrar que a internet não criou a espionagem, que existe desde que o mundo é mundo. E, se observarmos com atenção, verificaremos que se a internet, por um lado, permitiu uma escala de espionagem sem precedentes, por outro, permitiu uma exposição desta rede de espionagem em escala, e velocidade, igualmente sem precedentes. Quando teria sido possível a apenas poucas pessoas - um jovem idealista, aliado a jornalistas - exporem ao mundo inteiro, simultaneamente, em questão de semanas, com tal riqueza de documentação, operação desta envergadura?
Então, qual o sentido das duas ações políticas? A primeira, que é o sigilo de dados na internet, não é uma questão de legislação, mas sim de tecnologia. Não por acaso empresas de segurança de dados encontram-se entre os gigantes do setor de informática; e hackers do bem se encontram entre os profissionais mais bem remunerados do mercado. A questão da captura de dados, como espionagem militar ou industrial, ou, por exemplo, fotos e vídeos comprometedores de reputações pessoais, devem ser tratados na esfera da lei penal, ainda que sob um novo capítulo denominado de crimes virtuais. Afinal, paparazzi e chantagistas de toda ordem, sempre existiram, e seus crimes são exatamente os mesmos do atual escândalo: espionar pessoas - apenas que as armas, em vez de computadores, eram fotos em papel, e filmes em película.
Quanto à segunda ação, que é a proposta de regulação internacional na ONU, qual o propósito? A guerra cibernética é uma realidade noticiada há tempos na mídia internacional, com ações de invasão dos computadores iranianos pelos EUA, acusações de invasões de computadores americanos pela China, e por aí afora. As potências militares já dispõem, em seus respectivos Pentágonos, de um departamento de guerra cibernética; com o governo americano indo ao ponto de declarar, oficialmente, que atos de guerra cibernética contra seu território, que acarretem danos materiais, equivalem a uma declaração de guerra, ensejando uma resposta militar ao invasor cibernético. E recorrer justamente à ONU, onde o espião tem poder de veto?
Querem ação? Tirem as mãos da internet, e recorram à Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. É ali que se julgam os malfeitos de países.
Assim é que nem bem avaliamos a gênese, nem a logística, de tão extensa rede de espionagem, e nosso governo já anunciou quatro frentes de ação: duas formais, e duas políticas. São as formais o pedido de esclarecimentos ao governo americano, e a investigação da possível participação de empresas brasileiras. São as políticas o aprimoramento da legislação para garantir o sigilo de dados na internet, e proposição à ONU de regulação internacional para maior segurança cibernética (leia-se, novamente, internet). E é nestas ações políticas que reside o desvirtuamento: sigilo e regulação não costumam ser indicativos de honestidade de propósitos.
Convém lembrar que a internet não criou a espionagem, que existe desde que o mundo é mundo. E, se observarmos com atenção, verificaremos que se a internet, por um lado, permitiu uma escala de espionagem sem precedentes, por outro, permitiu uma exposição desta rede de espionagem em escala, e velocidade, igualmente sem precedentes. Quando teria sido possível a apenas poucas pessoas - um jovem idealista, aliado a jornalistas - exporem ao mundo inteiro, simultaneamente, em questão de semanas, com tal riqueza de documentação, operação desta envergadura?
Então, qual o sentido das duas ações políticas? A primeira, que é o sigilo de dados na internet, não é uma questão de legislação, mas sim de tecnologia. Não por acaso empresas de segurança de dados encontram-se entre os gigantes do setor de informática; e hackers do bem se encontram entre os profissionais mais bem remunerados do mercado. A questão da captura de dados, como espionagem militar ou industrial, ou, por exemplo, fotos e vídeos comprometedores de reputações pessoais, devem ser tratados na esfera da lei penal, ainda que sob um novo capítulo denominado de crimes virtuais. Afinal, paparazzi e chantagistas de toda ordem, sempre existiram, e seus crimes são exatamente os mesmos do atual escândalo: espionar pessoas - apenas que as armas, em vez de computadores, eram fotos em papel, e filmes em película.
Quanto à segunda ação, que é a proposta de regulação internacional na ONU, qual o propósito? A guerra cibernética é uma realidade noticiada há tempos na mídia internacional, com ações de invasão dos computadores iranianos pelos EUA, acusações de invasões de computadores americanos pela China, e por aí afora. As potências militares já dispõem, em seus respectivos Pentágonos, de um departamento de guerra cibernética; com o governo americano indo ao ponto de declarar, oficialmente, que atos de guerra cibernética contra seu território, que acarretem danos materiais, equivalem a uma declaração de guerra, ensejando uma resposta militar ao invasor cibernético. E recorrer justamente à ONU, onde o espião tem poder de veto?
Querem ação? Tirem as mãos da internet, e recorram à Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. É ali que se julgam os malfeitos de países.
A destruição da credibilidade das contas públicas - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 16/07
Além de dividendos de estatais não serem o ideal para compor superávits, a formação deles está sob suspeição, devido à injeção de bilhões do Tesouro nas empresas
Qualquer sociedade desenvolvida, ou que pretenda se desenvolver, se sustenta em alguns poucos princípios serem seguidos sem concessões. Entres eles, o respeito ao direito de propriedade, segurança jurídica e estabilidade política. É fundamental, também, a credibilidade dos poderes constituídos. No que se refere ao Executivo, o requisito da credibilidade é crucial, por exemplo, na condução da economia, e, em especial, na comunicação com a sociedade. Daí, o que vem acontecendo, com a demolição da credibilidade dos números das contas nacionais, ser algo de extrema gravidade, capaz de prejudicar tomadas de decisões de investidores e, assim, sabotar a própria retomada do crescimento.
Reportagem do GLOBO de domingo deu a dimensão do efeito da técnica de “contabilidade criativa” aplicada para transferir a instituições financeiras estatais bilhões arrecadados no lançamento de títulos do Tesouro — dívida pública, portanto — e que retornam na forma de pagamento de “dividendos”, para maquiar o superávit primário, um termômetro da solvência pública. Não bastasse a receita de dividendos, por instável, não ser a ideal na composição de superávits fiscais, a maneira como eles são gerados está sob suspeição. O BNDES tem sido o banco estatal mais usado na “contabilidade criativa”, neste mágico vaivém de recursos que converte dívida em receita primária. Eis por que o mercado acompanha cada vez mais a evolução da dívida bruta, pois estas operações não aparecem na líquida. E ela se aproxima de elevados 70% do PIB, à razão de um ponto percentual por ano, desde 2008.
A Caixa Econômica também é parte da ciranda. No ano passado, embora obtivesse um lucro de R$ 6,4 bilhões, remeteu R$ 7,7 bilhões em dividendos para o Tesouro — que, por sua vez, se endividou para “capitalizar” a CEF. A mesma discrepância entre lucros e dividendos transferidos para Brasília ocorre no BNDES: R$ 8,1 bilhões lucrados em 2012 para dividendos de R$ 12,9 bilhões. Alega-se que lucros retidos de exercícios anteriores fazem as cifras das remessas subir. Ora, esvaziar a única fonte de financiamentos a longo prazo do país, quando a economia necessita de investimentos, é, no mínimo, um contrassenso. Estudo do Instituto Brasileiro de Economia, Ibre, da Fundação Getúlio Vargas, calcula em 38% a queda do patrimônio do BNDES, entre março de 2011 e março de 2012, segundo “O Estado de S. Paulo”. O banco explica a erosão pela queda da Bolsa. Então, que se paguem menos dividendos.
O objetivo da “contabilidade criativa” e da pressão em geral por mais dividendos é mostrar uma realidade de contenção fiscal que não existe na vida real. Ao contrário, até se criam futuros “esqueletos” (dívidas e rombos ocultos nas contas públicas) no circuito do setor elétrico, desestabilizado pela intervenção atabalhoada do Planalto no corte da tarifa. O ex-ministro Delfim Netto tem razão na irritação crescente com as mágicas em curso no embonecamento das contas públicas.
Além de dividendos de estatais não serem o ideal para compor superávits, a formação deles está sob suspeição, devido à injeção de bilhões do Tesouro nas empresas
Qualquer sociedade desenvolvida, ou que pretenda se desenvolver, se sustenta em alguns poucos princípios serem seguidos sem concessões. Entres eles, o respeito ao direito de propriedade, segurança jurídica e estabilidade política. É fundamental, também, a credibilidade dos poderes constituídos. No que se refere ao Executivo, o requisito da credibilidade é crucial, por exemplo, na condução da economia, e, em especial, na comunicação com a sociedade. Daí, o que vem acontecendo, com a demolição da credibilidade dos números das contas nacionais, ser algo de extrema gravidade, capaz de prejudicar tomadas de decisões de investidores e, assim, sabotar a própria retomada do crescimento.
Reportagem do GLOBO de domingo deu a dimensão do efeito da técnica de “contabilidade criativa” aplicada para transferir a instituições financeiras estatais bilhões arrecadados no lançamento de títulos do Tesouro — dívida pública, portanto — e que retornam na forma de pagamento de “dividendos”, para maquiar o superávit primário, um termômetro da solvência pública. Não bastasse a receita de dividendos, por instável, não ser a ideal na composição de superávits fiscais, a maneira como eles são gerados está sob suspeição. O BNDES tem sido o banco estatal mais usado na “contabilidade criativa”, neste mágico vaivém de recursos que converte dívida em receita primária. Eis por que o mercado acompanha cada vez mais a evolução da dívida bruta, pois estas operações não aparecem na líquida. E ela se aproxima de elevados 70% do PIB, à razão de um ponto percentual por ano, desde 2008.
A Caixa Econômica também é parte da ciranda. No ano passado, embora obtivesse um lucro de R$ 6,4 bilhões, remeteu R$ 7,7 bilhões em dividendos para o Tesouro — que, por sua vez, se endividou para “capitalizar” a CEF. A mesma discrepância entre lucros e dividendos transferidos para Brasília ocorre no BNDES: R$ 8,1 bilhões lucrados em 2012 para dividendos de R$ 12,9 bilhões. Alega-se que lucros retidos de exercícios anteriores fazem as cifras das remessas subir. Ora, esvaziar a única fonte de financiamentos a longo prazo do país, quando a economia necessita de investimentos, é, no mínimo, um contrassenso. Estudo do Instituto Brasileiro de Economia, Ibre, da Fundação Getúlio Vargas, calcula em 38% a queda do patrimônio do BNDES, entre março de 2011 e março de 2012, segundo “O Estado de S. Paulo”. O banco explica a erosão pela queda da Bolsa. Então, que se paguem menos dividendos.
O objetivo da “contabilidade criativa” e da pressão em geral por mais dividendos é mostrar uma realidade de contenção fiscal que não existe na vida real. Ao contrário, até se criam futuros “esqueletos” (dívidas e rombos ocultos nas contas públicas) no circuito do setor elétrico, desestabilizado pela intervenção atabalhoada do Planalto no corte da tarifa. O ex-ministro Delfim Netto tem razão na irritação crescente com as mágicas em curso no embonecamento das contas públicas.
As digitais da gestão Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 16/07
Entre as muitas distinções duvidosas que hão de marcar o primeiro - talvez o único - mandato da presidente Dilma Rousseff, está o ato da administração federal que levou o pânico a milhões de brasileiros, como não se via desde o catastrófico anúncio do confisco da poupança, há 23 anos, sob o governo Collor. No fatídico 16 de março de 1990, o grosso da população foi induzido a acreditar que, a partir de então, teria de viver com Cr$ 50 mensais até a liberação dos recursos sequestrados, prevista para daí a 18 meses. No dia 18 de maio último, uma parcela dos cerca de 50 milhões de inscritos no Bolsa Família (ou 13,5 milhões de famílias) foi induzida a acreditar que o programa estava para ser extinto - o que provocou uma corrida aos postos de pagamento do benefício em 13 Estados, com filas enormes, tumultos e depredações.
No caso da poupança, tratava-se, não obstante a trapalhada da comunicação, de um fato real. No caso do Bolsa Família, tratou-se de uma inverdade que se alastrou com a rapidez e o alcance característicos das comunicações em redes sociais, a partir de uma mensagem disparada por uma internauta de Cajazeiras, na Paraíba, conforme apurou a Polícia Federal (PF). O falso rumor sobre o fim próximo do Bolsa Família não surgiu do nada. Confirmando o que se veio a saber graças à imprensa - e que a cúpula da Caixa Econômica Federal, mentindo, ocultou enquanto pôde -, a PF apontou como origem da boataria as mudanças feitas pela instituição nas datas escalonadas dos pagamentos mensais do benefício e as alterações em cadastros de inscritos pelas prefeituras
dos respectivos municípios. Foram os únicos mencionados no "conjunto de fatores desassociados" que alarmaram os bolsistas.
Os federais deixaram claro que a investigação completada em 54 dias tinha por objetivo verificar se houve crime por trás da corrida aos caixas eletrônicos naquele final de semana de maio; não se técnicos da Caixa, por incompetência ou indiferença ao destino dos seus clientes compulsórios, fizeram uma barbeiragem (digamos assim) ao antecipar pagamentos programados para o fim do mês - sem avisar os seus superiores, ao que tudo indica, e, muito menos, a população interessada. Se antes não houve crime, depois foi um festival de leviandade e exploração política. A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, foi a primeira a dizer o que não sabia nem devia. Pavlovianamente, culpou a "central de notícias da oposição" pela produção e distribuição do rumor que tirou do sério muitos milhares de famílias dependentes do programa.
Repreendida a mando da presidente, Rosário recuou. Mas, no dia seguinte, o seu colega da Justiça, o petista José Eduardo Cardozo, recorreu à sua coleção de advérbios para insinuar que houve, sim, uma conspirata. "Evidentemente", entoou, "houve uma ação de muita sintonia em muitos pontos do território nacional, o que pode ensejar a avaliação de que alguém quis fazer isso deliberadamente, planejadamente, articuladamente." Dilma guardou-se de chegar a tanto, mas afirmou que "o autor" do boato é alguém "absurdamente desumano" e "criminoso também". O seu preceptor Luiz Inácio Lula da Silva preferiu um tom mais filosófico. "O Brasil tem milhões de pessoas boas, decentes, e tem gente assim. Gente que veio ao mundo para fazer o mal." Enquanto isso, corria a maldade deliberada, planejada e articulada, como diria o ministro Cardozo, de que uma empresa de telemarketing do Rio de Janeiro teria sido contratada - decerto pelos inimigos do governo - para injetar em quantas linhas telefônicas pudesse a mensagem apocalíptica sobre o Bolsa Família.
Nada mais natural que, divulgado o relatório da PF, nenhum dos personagens referidos tenha tido a decência elementar de vir a público reconhecer o seu "erro", para repetir o eufemismo a que Lula recorreu quando os companheiros foram flagrados pagando o mensalão, o Bolsa Família dos aliados corruptos. Tampouco a direção da Caixa quis se manifestar sobre essa combinação perfeita de irresponsabilidade administrativa, má-fé política e, afinal, impunidade - as inconfundíveis digitais deste governo.
No caso da poupança, tratava-se, não obstante a trapalhada da comunicação, de um fato real. No caso do Bolsa Família, tratou-se de uma inverdade que se alastrou com a rapidez e o alcance característicos das comunicações em redes sociais, a partir de uma mensagem disparada por uma internauta de Cajazeiras, na Paraíba, conforme apurou a Polícia Federal (PF). O falso rumor sobre o fim próximo do Bolsa Família não surgiu do nada. Confirmando o que se veio a saber graças à imprensa - e que a cúpula da Caixa Econômica Federal, mentindo, ocultou enquanto pôde -, a PF apontou como origem da boataria as mudanças feitas pela instituição nas datas escalonadas dos pagamentos mensais do benefício e as alterações em cadastros de inscritos pelas prefeituras
dos respectivos municípios. Foram os únicos mencionados no "conjunto de fatores desassociados" que alarmaram os bolsistas.
Os federais deixaram claro que a investigação completada em 54 dias tinha por objetivo verificar se houve crime por trás da corrida aos caixas eletrônicos naquele final de semana de maio; não se técnicos da Caixa, por incompetência ou indiferença ao destino dos seus clientes compulsórios, fizeram uma barbeiragem (digamos assim) ao antecipar pagamentos programados para o fim do mês - sem avisar os seus superiores, ao que tudo indica, e, muito menos, a população interessada. Se antes não houve crime, depois foi um festival de leviandade e exploração política. A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, foi a primeira a dizer o que não sabia nem devia. Pavlovianamente, culpou a "central de notícias da oposição" pela produção e distribuição do rumor que tirou do sério muitos milhares de famílias dependentes do programa.
Repreendida a mando da presidente, Rosário recuou. Mas, no dia seguinte, o seu colega da Justiça, o petista José Eduardo Cardozo, recorreu à sua coleção de advérbios para insinuar que houve, sim, uma conspirata. "Evidentemente", entoou, "houve uma ação de muita sintonia em muitos pontos do território nacional, o que pode ensejar a avaliação de que alguém quis fazer isso deliberadamente, planejadamente, articuladamente." Dilma guardou-se de chegar a tanto, mas afirmou que "o autor" do boato é alguém "absurdamente desumano" e "criminoso também". O seu preceptor Luiz Inácio Lula da Silva preferiu um tom mais filosófico. "O Brasil tem milhões de pessoas boas, decentes, e tem gente assim. Gente que veio ao mundo para fazer o mal." Enquanto isso, corria a maldade deliberada, planejada e articulada, como diria o ministro Cardozo, de que uma empresa de telemarketing do Rio de Janeiro teria sido contratada - decerto pelos inimigos do governo - para injetar em quantas linhas telefônicas pudesse a mensagem apocalíptica sobre o Bolsa Família.
Nada mais natural que, divulgado o relatório da PF, nenhum dos personagens referidos tenha tido a decência elementar de vir a público reconhecer o seu "erro", para repetir o eufemismo a que Lula recorreu quando os companheiros foram flagrados pagando o mensalão, o Bolsa Família dos aliados corruptos. Tampouco a direção da Caixa quis se manifestar sobre essa combinação perfeita de irresponsabilidade administrativa, má-fé política e, afinal, impunidade - as inconfundíveis digitais deste governo.
O imposto sobre grandes fortunas - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 16/07
Ainda que a renda seja mal distribuída no Brasil e que seja desejável buscar diminuir a distância entre ricos e pobres, o ISGF apresenta vários problemas
Está de volta à pauta do Congresso Nacional a proposta de criar o Imposto sobre Grandes Fortunas (ISGF), previsto no artigo 153 da Constituição Federal desde 1988 e inserido no plano de governo do PT de 2011. Essa proposta já foi feita em várias ocasiões, com variados formatos, incluindo o projeto do então senador Fernando Henrique Cardoso, apresentado em 1989. Agora, o projeto retornou e promete um longo debate até sua aprovação ou rejeição.
Ainda que a renda seja mal distribuída no Brasil e que seja desejável buscar diminuir a distância entre ricos e pobres, o ISGF, tido como instrumento para redução da desigualdade, apresenta vários problemas. Para começar, trata-se de mais um imposto na cesta de quase 60 tributos vigentes no Brasil, o qual, se aprovado, virá a se somar a uma carga tributária efetivamente arrecadada de 38% do Produto Interno Bruto (PIB). Considerando a sonegação, a economia informal e a inadimplência, a carga tributária nominal brasileira passa dos 50%, uma das mais altas do mundo. Portanto, o que menos o Brasil precisa é de tributos novos.
Seria útil debater as razões da má distribuição da renda no país, assunto sobre o qual o Ipea, um instituto de pesquisa do governo, deu contribuição recente em um estudo mostrando que o Estado brasileiro, em todos os níveis, é causador de desigualdade de renda. As vias pelas quais o governo causa desigualdade são várias, como a remuneração de seus servidores, 23% acima da média do setor privado para as mesmas funções; as aposentadorias e pensões dos funcionários públicos; e os tributos indiretos – como o PIS, a Cofins, o ICMS –, que tomam dos pobres um porcentual da renda maior do que toma dos ricos.
Em países capitalistas, cabe aos cidadãos livres trabalhar, produzir, pagar impostos e acumular bens de capital – como fazendas, fábricas, lojas e empresas em geral – destinados à produção de bens e serviços e ao crescimento econômico. As fortunas – ou patrimônio – são formadas pela acumulação de rendas (salários, aluguéis, juros e lucros) não gastas em consumo, as quais são tributadas pelo Imposto de Renda e outros impostos estaduais e municipais. Os países desenvolvidos costumam tributar mais as rendas que o patrimônio, pois há os que ganham e gastam tudo, enquanto outros, mais prudentes e mais úteis ao sistema, poupam e acumulam.
O ISGF é mais um desestímulo à acumulação de patrimônio – especialmente se sua alíquota for elevada – e estimulador do consumo. Se a alíquota for pequena, o custo de fiscalização, arrecadação e controle será grande em comparação com os valores arrecadados, acabando por não justificar sua criação. Outro aspecto a considerar é o fato de o governo ser menos eficiente que o setor privado, e isso leva a transferência de mais dinheiro para o setor público a diminuir a eficiência geral da economia. No caso brasileiro, há duas agravantes. Parte da arrecadação adicional será perdida nos custos burocráticos da administração do novo tributo e outra parte sumirá nos meandros da corrupção estatal.
Seria útil também examinar por que razões países como Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda e Japão instituíram o imposto sobre grandes fortunas e depois o abandonaram. Há poucos meses, ficaram conhecidos os casos rumorosos de artistas e milionários franceses que buscaram cidadania em outros países porque não se dispunham a entregar para o governo mais de dois terços de suas rendas acima de determinado nível. Esses casos mostram que um país não deve instituir tributos sem considerar o padrão mundial, sob pena de ver evadir parte do patrimônio construído em seu próprio território.
O ISGF é um tributo que tem apelo popular ao ser “vendido” à população como uma forma de tirar dos ricos para dar os pobres. Foi esse mesmo argumento que levou os Estados Unidos a aprovarem a Emenda n.º 16, em 1909, autorizando o Congresso a “impor e arrecadar impostos sobre as rendas derivadas de qualquer fonte...”, a qual passou a ser copiada por outras nações e, hoje, tributa tanto os ricos quanto os pobres. O ISGF é uma espécie de “imposto da raiva”, destinado a punir os ricos por terem acumulado fortunas, quando acumular patrimônio é a melhor forma de uma nação enriquecer, coisa que foi entendida pelo líder chinês Deng Xiaoping quando, na reforma de 1978, disse a seu povo: “Enriqueçam!”.
Ainda que a renda seja mal distribuída no Brasil e que seja desejável buscar diminuir a distância entre ricos e pobres, o ISGF apresenta vários problemas
Está de volta à pauta do Congresso Nacional a proposta de criar o Imposto sobre Grandes Fortunas (ISGF), previsto no artigo 153 da Constituição Federal desde 1988 e inserido no plano de governo do PT de 2011. Essa proposta já foi feita em várias ocasiões, com variados formatos, incluindo o projeto do então senador Fernando Henrique Cardoso, apresentado em 1989. Agora, o projeto retornou e promete um longo debate até sua aprovação ou rejeição.
Ainda que a renda seja mal distribuída no Brasil e que seja desejável buscar diminuir a distância entre ricos e pobres, o ISGF, tido como instrumento para redução da desigualdade, apresenta vários problemas. Para começar, trata-se de mais um imposto na cesta de quase 60 tributos vigentes no Brasil, o qual, se aprovado, virá a se somar a uma carga tributária efetivamente arrecadada de 38% do Produto Interno Bruto (PIB). Considerando a sonegação, a economia informal e a inadimplência, a carga tributária nominal brasileira passa dos 50%, uma das mais altas do mundo. Portanto, o que menos o Brasil precisa é de tributos novos.
Seria útil debater as razões da má distribuição da renda no país, assunto sobre o qual o Ipea, um instituto de pesquisa do governo, deu contribuição recente em um estudo mostrando que o Estado brasileiro, em todos os níveis, é causador de desigualdade de renda. As vias pelas quais o governo causa desigualdade são várias, como a remuneração de seus servidores, 23% acima da média do setor privado para as mesmas funções; as aposentadorias e pensões dos funcionários públicos; e os tributos indiretos – como o PIS, a Cofins, o ICMS –, que tomam dos pobres um porcentual da renda maior do que toma dos ricos.
Em países capitalistas, cabe aos cidadãos livres trabalhar, produzir, pagar impostos e acumular bens de capital – como fazendas, fábricas, lojas e empresas em geral – destinados à produção de bens e serviços e ao crescimento econômico. As fortunas – ou patrimônio – são formadas pela acumulação de rendas (salários, aluguéis, juros e lucros) não gastas em consumo, as quais são tributadas pelo Imposto de Renda e outros impostos estaduais e municipais. Os países desenvolvidos costumam tributar mais as rendas que o patrimônio, pois há os que ganham e gastam tudo, enquanto outros, mais prudentes e mais úteis ao sistema, poupam e acumulam.
O ISGF é mais um desestímulo à acumulação de patrimônio – especialmente se sua alíquota for elevada – e estimulador do consumo. Se a alíquota for pequena, o custo de fiscalização, arrecadação e controle será grande em comparação com os valores arrecadados, acabando por não justificar sua criação. Outro aspecto a considerar é o fato de o governo ser menos eficiente que o setor privado, e isso leva a transferência de mais dinheiro para o setor público a diminuir a eficiência geral da economia. No caso brasileiro, há duas agravantes. Parte da arrecadação adicional será perdida nos custos burocráticos da administração do novo tributo e outra parte sumirá nos meandros da corrupção estatal.
Seria útil também examinar por que razões países como Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda e Japão instituíram o imposto sobre grandes fortunas e depois o abandonaram. Há poucos meses, ficaram conhecidos os casos rumorosos de artistas e milionários franceses que buscaram cidadania em outros países porque não se dispunham a entregar para o governo mais de dois terços de suas rendas acima de determinado nível. Esses casos mostram que um país não deve instituir tributos sem considerar o padrão mundial, sob pena de ver evadir parte do patrimônio construído em seu próprio território.
O ISGF é um tributo que tem apelo popular ao ser “vendido” à população como uma forma de tirar dos ricos para dar os pobres. Foi esse mesmo argumento que levou os Estados Unidos a aprovarem a Emenda n.º 16, em 1909, autorizando o Congresso a “impor e arrecadar impostos sobre as rendas derivadas de qualquer fonte...”, a qual passou a ser copiada por outras nações e, hoje, tributa tanto os ricos quanto os pobres. O ISGF é uma espécie de “imposto da raiva”, destinado a punir os ricos por terem acumulado fortunas, quando acumular patrimônio é a melhor forma de uma nação enriquecer, coisa que foi entendida pelo líder chinês Deng Xiaoping quando, na reforma de 1978, disse a seu povo: “Enriqueçam!”.
O vício do empreguismo - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 16/07
O vício do empreguismo, que não ocorre apenas no âmbito municipal, mas em todas as instâncias da administração pública, continua sendo um dos grandes entraves para o desenvolvimento do país.
Os municípios brasileiros, cujos governantes estiveram em Brasília na semana passada para pedir mais verbas ao governo federal, são responsáveis pela criação, na administração direta, de 64 mil cargos comissionados, de livre nomeação e preenchidos sem concurso público, entre 2008 e 2012. A administração direta é aquela exercida diretamente pelos municípios por meio de secretarias, departamentos e outros órgãos, e não inclui a desempenhada por pessoas jurídicas na forma de autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista e associações públicas. Os dados foram obtidos a partir da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) de 2012, divulgada no início do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O percentual de cargos em comissão na administração direta dos municípios brasileiros em relação ao total de servidores é de 12,4%. Considerando-se os municípios com população até 5 mil habitantes, essa fatia tem uma pequena variação para baixo, chegando a 11,7%. Nos municípios de porte grande, com mais de 500 mil habitantes, o percentual cai para menos da metade: 4,6%. Isso significa que, quanto menor a prefeitura, maior o peso do funcionalismo comissionado. A Região Sul fica bem abaixo da média nacional, com 6,8%. Nesse universo, porém, o Estado com o percentual mais alto é o Rio Grande do Sul, onde 7,8% dos servidores da administração direta dos municípios são constituídos por cargos comissionados (em Santa Catarina, esse percentual é de 6,8%, e no Paraná, de 5,8%). Porta-vozes do movimento municipalista enchem os pulmões para reclamar da falta de recursos. Queixam-se de que cabe às prefeituras a maior parte do fardo em serviços como saúde, educação e transporte. Afirmam que as desonerações fiscais concedidas pelo governo federal acabam por drenar recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), de onde vem a maior parte de seu financiamento. Ora, essas demandas, por justas que sejam, são incompatíveis com a manutenção de um quadro inchado de cargos de confiança. O panorama que emerge da pesquisa do IBGE sugere que prevalecem resquícios do fenômeno apelidado pelo jurista e ministro do Supremo Tribunal Federal Victor Nunes Leal (1914 _ 1985), no clássico Coronelismo, Enxada e Voto, de filhotismo: o velho sistema de lealdades pelo qual os chamados coronéis do Interior distribuíam nomeações a apadrinhados em troca de apoio.
O vício do empreguismo, que não ocorre apenas no âmbito municipal, mas em todas as instâncias da administração pública, continua sendo um dos grandes entraves para o desenvolvimento do país. A carga tributária brasileira, que atingiu o recorde de 36,27% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, acaba sendo parcialmente utilizada para sustentar uma máquina administrativa baseada em compadrio e privilégios, sem nenhum espírito republicano, ficando o cidadão comum desassistido de serviços e obras. É chegada a hora de cobrar de prefeitos e demais autoridades municipais o enxugamento da máquina pública exigido por tantos munícipes que saíram às ruas, também no Interior, desde meados de junho.
O vício do empreguismo, que não ocorre apenas no âmbito municipal, mas em todas as instâncias da administração pública, continua sendo um dos grandes entraves para o desenvolvimento do país.
Os municípios brasileiros, cujos governantes estiveram em Brasília na semana passada para pedir mais verbas ao governo federal, são responsáveis pela criação, na administração direta, de 64 mil cargos comissionados, de livre nomeação e preenchidos sem concurso público, entre 2008 e 2012. A administração direta é aquela exercida diretamente pelos municípios por meio de secretarias, departamentos e outros órgãos, e não inclui a desempenhada por pessoas jurídicas na forma de autarquias, fundações públicas, empresas públicas, sociedades de economia mista e associações públicas. Os dados foram obtidos a partir da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) de 2012, divulgada no início do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O percentual de cargos em comissão na administração direta dos municípios brasileiros em relação ao total de servidores é de 12,4%. Considerando-se os municípios com população até 5 mil habitantes, essa fatia tem uma pequena variação para baixo, chegando a 11,7%. Nos municípios de porte grande, com mais de 500 mil habitantes, o percentual cai para menos da metade: 4,6%. Isso significa que, quanto menor a prefeitura, maior o peso do funcionalismo comissionado. A Região Sul fica bem abaixo da média nacional, com 6,8%. Nesse universo, porém, o Estado com o percentual mais alto é o Rio Grande do Sul, onde 7,8% dos servidores da administração direta dos municípios são constituídos por cargos comissionados (em Santa Catarina, esse percentual é de 6,8%, e no Paraná, de 5,8%). Porta-vozes do movimento municipalista enchem os pulmões para reclamar da falta de recursos. Queixam-se de que cabe às prefeituras a maior parte do fardo em serviços como saúde, educação e transporte. Afirmam que as desonerações fiscais concedidas pelo governo federal acabam por drenar recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), de onde vem a maior parte de seu financiamento. Ora, essas demandas, por justas que sejam, são incompatíveis com a manutenção de um quadro inchado de cargos de confiança. O panorama que emerge da pesquisa do IBGE sugere que prevalecem resquícios do fenômeno apelidado pelo jurista e ministro do Supremo Tribunal Federal Victor Nunes Leal (1914 _ 1985), no clássico Coronelismo, Enxada e Voto, de filhotismo: o velho sistema de lealdades pelo qual os chamados coronéis do Interior distribuíam nomeações a apadrinhados em troca de apoio.
O vício do empreguismo, que não ocorre apenas no âmbito municipal, mas em todas as instâncias da administração pública, continua sendo um dos grandes entraves para o desenvolvimento do país. A carga tributária brasileira, que atingiu o recorde de 36,27% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, acaba sendo parcialmente utilizada para sustentar uma máquina administrativa baseada em compadrio e privilégios, sem nenhum espírito republicano, ficando o cidadão comum desassistido de serviços e obras. É chegada a hora de cobrar de prefeitos e demais autoridades municipais o enxugamento da máquina pública exigido por tantos munícipes que saíram às ruas, também no Interior, desde meados de junho.
Investimento incerto - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 16/07
Antes de se decidirem por um investimento, empresários elaboram uma lista com as vantagens e desvantagens relativas à empreitada e tentam, com isso, aquilatar suas perspectivas de lucro.
No caso do Brasil, decerto contam como aspectos negativos a tributação complexa e pesada, as dificuldades para contratar e demitir, a infraestrutura deficiente e a confusão regulatória, entre outros.
Não por acaso a economia brasileira tem se mantido em colocações decepcionantes nos rankings internacionais de competitividade. Na última lista do Banco Mundial sobre facilidade para fazer negócios, por exemplo, o Brasil ocupava a 130ª posição entre 185 países.
Os problemas de sempre não impediram que o Brasil se tornasse um dos principais destinos de investimentos estrangeiros diretos. A tendência foi sustentada pela estabilidade econômica construída desde os anos 1990, pela consolidação da democracia e por um mercado consumidor que incorporou dezenas de milhões de brasileiros.
Em suas planilhas, empresários continuaram a descontar das projeções de ganhos problemas como as infindáveis horas gastas com formulários, a mordida dos impostos e as perdas provocadas pelas más condições das estradas.
O prato dos atrativos, ainda assim, tem pesado mais na balança --pelo menos até agora.
Voltou a pairar sobre o ambiente de negócios brasileiro a ameaça de retrocesso na estabilidade econômica --consequência da perda de rigor no combate à inflação e da maior instabilidade das regras.
A percepção de menor previsibilidade é evidente na comparação internacional. No ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, no quesito inflação, o Brasil caiu da 42ª posição (entre 132 países) em 2009-2010 para a 97ª (de 144) em 2012-2013.
Pesquisa recente com pequenos e médios empresários feita pelo Insper e pelo Santander revelou que, para quase 4 entre 10 entrevistados, o principal efeito da inflação é a paralisação de novos investimentos. Em segundo lugar, aparece o repasse para os preços.
Entre micro e pequenos empresários paulistas, segundo enquete do Sebrae-SP, a fatia dos que esperam piora da economia no próximo semestre mais do que dobrou de maio a junho --de 10% para 23%.
Para se expandir, a economia depende de investimentos --um truísmo que o governo parece ignorar. O preço da incerteza tem sido perspectivas cada vez menores de crescimento.
Antes de se decidirem por um investimento, empresários elaboram uma lista com as vantagens e desvantagens relativas à empreitada e tentam, com isso, aquilatar suas perspectivas de lucro.
No caso do Brasil, decerto contam como aspectos negativos a tributação complexa e pesada, as dificuldades para contratar e demitir, a infraestrutura deficiente e a confusão regulatória, entre outros.
Não por acaso a economia brasileira tem se mantido em colocações decepcionantes nos rankings internacionais de competitividade. Na última lista do Banco Mundial sobre facilidade para fazer negócios, por exemplo, o Brasil ocupava a 130ª posição entre 185 países.
Os problemas de sempre não impediram que o Brasil se tornasse um dos principais destinos de investimentos estrangeiros diretos. A tendência foi sustentada pela estabilidade econômica construída desde os anos 1990, pela consolidação da democracia e por um mercado consumidor que incorporou dezenas de milhões de brasileiros.
Em suas planilhas, empresários continuaram a descontar das projeções de ganhos problemas como as infindáveis horas gastas com formulários, a mordida dos impostos e as perdas provocadas pelas más condições das estradas.
O prato dos atrativos, ainda assim, tem pesado mais na balança --pelo menos até agora.
Voltou a pairar sobre o ambiente de negócios brasileiro a ameaça de retrocesso na estabilidade econômica --consequência da perda de rigor no combate à inflação e da maior instabilidade das regras.
A percepção de menor previsibilidade é evidente na comparação internacional. No ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, no quesito inflação, o Brasil caiu da 42ª posição (entre 132 países) em 2009-2010 para a 97ª (de 144) em 2012-2013.
Pesquisa recente com pequenos e médios empresários feita pelo Insper e pelo Santander revelou que, para quase 4 entre 10 entrevistados, o principal efeito da inflação é a paralisação de novos investimentos. Em segundo lugar, aparece o repasse para os preços.
Entre micro e pequenos empresários paulistas, segundo enquete do Sebrae-SP, a fatia dos que esperam piora da economia no próximo semestre mais do que dobrou de maio a junho --de 10% para 23%.
Para se expandir, a economia depende de investimentos --um truísmo que o governo parece ignorar. O preço da incerteza tem sido perspectivas cada vez menores de crescimento.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“O PT não deve medir o PSDB por sua régua”
Duarte Nogueira (PSDB), sobre afirmações de que São Paulo vive seu pior momento
PSDB ACUSA DILMA DE CALOTE NA SAÚDE E EDUCAÇÃO
A presidente Dilma Rousseff está ganhando fama de caloteira no Congresso Nacional: cerca de R$ 20 bilhões anunciados pelo governo para educação e saúde até hoje não saíram do papel. Segundo levantamento feito pela liderança do PSDB, R$ 10,3 bilhões destinados à educação seguem perdidos no limbo dos chamados restos a pagar. Na saúde, a dívida gira em torno dos R$ 9,7 bilhões.
FALA, NÃO FAZ
De acordo com o Tribunal de Contas da União, 73% dos investimentos anunciados na saúde e 55% na educação nunca saíram do papel.
FORA DO AR
É típico do “cara”: sem dar as caras na imprensa, mas encarando Dilma em conselhos de bastidores, Lula inventou a “presidência em off”.
REI DA ÁFRICA
Além do perdão da dívida de US$ 352,6 milhões, o Congo, na África, ganhou 524 toneladas de arroz do Brasil, avaliadas em US$ 250 mil.
APAGÃO
Recomeçou a temporada de greve emendando com férias nas estatais: Eletrobras e Furnas, por tempo indeterminado. Caixa e BB ameaçam.
SENADO ESBANJA: COTÃO JÁ ULTRAPASSA R$ 53 MILHÕES
Em tempos de vacas magras para brasileiros ‘normais’, a crise econômica parece ter passado longe do Senado. Desde que tomaram posse em 2011, senadores já torraram mais de R$ 53,2 milhões em cotas para exercício da atividade parlamentar, o famoso ‘cotão’. Segundo dados do Portal da Transparência, só em divulgação do mandato e consultorias, os gastos ultrapassam os R$ 13,3 milhões.
VOANDO ALTO
As passagens aéreas ocupam o segundo lugar no ranking dos principais gastos dos senadores: beiram os R$13 milhões.
MAMMA MIA!
Fora apartamentos e auxílio moradia, os parlamentares também utilizaram R$ 9,5 milhões no aluguel de imóveis para escritórios.
PENSANDO BEM...
... operadoras de telefonia e TV a cabo já tem uma desculpa pelos maus serviços: é culpa da CIA.
EMPURRA QUE PEGA
A Infraero quebra a cabeça com a cessão de empregados para outros órgãos públicos: cerca de 1,8 mil dos 2,9 mil de aeroportos privatizados se inscreveram, “número alarmante” para a estatal, que entregou o rolo ao Ministério do Planejamento para continuar pagando os salários.
EXPERTISE
Acredite se quiser: o nanoministro Celso Amorim (Defesa) é um dos palestrantes da conferência sobre política externa na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo (SP). Falará de cães farejadores?.
NA MORALES
Repercutiu na imprensa da Bolívia o recente vexame revelado domingo (14) no www.diariodopoder.com.br, com o ministro Amorim em La Paz, quando seu avião foi revistado em busca de um senador boliviano.
MÃOS À OBRA
Dilma entrega chaves de tratores hoje em Ponta Grossa de olho nas pesquisas e no ninho tucano, onde está feia a coisa para ela e para a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil), candidata ao governo do Paraná.
EM CIMA DO MURO
O Planalto teme traição do PCdoB na votação do projeto que destina royalties do petróleo para educação e saúde. A líder Manoela D`Ávila (RS) já votou contra e a favor do relator, André Figueiredo (PDT-CE).
CONTRA PRESCRIÇÃO
Relator do projeto que torna corrupção crime hediondo, Fábio Trad (PMDB-MS) incluiu dispositivo para priorizar e acelerar o trâmite de processos de colarinho branco: “O que gera impunidade é prescrição”.
PUXOU ORELHA
Presidente da Federação das Indústrias de MG, Olavo Machado Júnior desceu a lenha ontem (15) na Petrobras, durante ato com a presença do ministro Antonio Andrade (Agricultura). Ele acusa a estatal de inviabilizar projeto milionário para a produção de amônia em Uberaba.
ÀS MOSCAS
As reformas nas salas do prédio da Receita Federal promoveram férias coletivas. Ontem (15), os assessores de comunicação da instituição abandonaram as atividades antes do fim do expediente “por falta de computadores”.
PERGUNTA AO TELEFONE
Você ficaria de olho no vizinho se ele fosse amigo do seu inimigo?
PODER SEM PUDOR
VALE O QUANTO MEDE
O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM-BA), há alguns anos, motivava muitas piadas em Brasília quanto a sua arrogância, à semelhança do avô ilustre. Em conversa para a qual pediu reserva, certa vez um famoso pefelista catarinense observou:
- O garoto tem alma de argentino...
O repórter não entendeu e o parlamentar complementou a ironia:
- ...ele não vale nem metade do que acha que vale.
Duarte Nogueira (PSDB), sobre afirmações de que São Paulo vive seu pior momento
PSDB ACUSA DILMA DE CALOTE NA SAÚDE E EDUCAÇÃO
A presidente Dilma Rousseff está ganhando fama de caloteira no Congresso Nacional: cerca de R$ 20 bilhões anunciados pelo governo para educação e saúde até hoje não saíram do papel. Segundo levantamento feito pela liderança do PSDB, R$ 10,3 bilhões destinados à educação seguem perdidos no limbo dos chamados restos a pagar. Na saúde, a dívida gira em torno dos R$ 9,7 bilhões.
FALA, NÃO FAZ
De acordo com o Tribunal de Contas da União, 73% dos investimentos anunciados na saúde e 55% na educação nunca saíram do papel.
FORA DO AR
É típico do “cara”: sem dar as caras na imprensa, mas encarando Dilma em conselhos de bastidores, Lula inventou a “presidência em off”.
REI DA ÁFRICA
Além do perdão da dívida de US$ 352,6 milhões, o Congo, na África, ganhou 524 toneladas de arroz do Brasil, avaliadas em US$ 250 mil.
APAGÃO
Recomeçou a temporada de greve emendando com férias nas estatais: Eletrobras e Furnas, por tempo indeterminado. Caixa e BB ameaçam.
SENADO ESBANJA: COTÃO JÁ ULTRAPASSA R$ 53 MILHÕES
Em tempos de vacas magras para brasileiros ‘normais’, a crise econômica parece ter passado longe do Senado. Desde que tomaram posse em 2011, senadores já torraram mais de R$ 53,2 milhões em cotas para exercício da atividade parlamentar, o famoso ‘cotão’. Segundo dados do Portal da Transparência, só em divulgação do mandato e consultorias, os gastos ultrapassam os R$ 13,3 milhões.
VOANDO ALTO
As passagens aéreas ocupam o segundo lugar no ranking dos principais gastos dos senadores: beiram os R$13 milhões.
MAMMA MIA!
Fora apartamentos e auxílio moradia, os parlamentares também utilizaram R$ 9,5 milhões no aluguel de imóveis para escritórios.
PENSANDO BEM...
... operadoras de telefonia e TV a cabo já tem uma desculpa pelos maus serviços: é culpa da CIA.
EMPURRA QUE PEGA
A Infraero quebra a cabeça com a cessão de empregados para outros órgãos públicos: cerca de 1,8 mil dos 2,9 mil de aeroportos privatizados se inscreveram, “número alarmante” para a estatal, que entregou o rolo ao Ministério do Planejamento para continuar pagando os salários.
EXPERTISE
Acredite se quiser: o nanoministro Celso Amorim (Defesa) é um dos palestrantes da conferência sobre política externa na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo (SP). Falará de cães farejadores?.
NA MORALES
Repercutiu na imprensa da Bolívia o recente vexame revelado domingo (14) no www.diariodopoder.com.br, com o ministro Amorim em La Paz, quando seu avião foi revistado em busca de um senador boliviano.
MÃOS À OBRA
Dilma entrega chaves de tratores hoje em Ponta Grossa de olho nas pesquisas e no ninho tucano, onde está feia a coisa para ela e para a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil), candidata ao governo do Paraná.
EM CIMA DO MURO
O Planalto teme traição do PCdoB na votação do projeto que destina royalties do petróleo para educação e saúde. A líder Manoela D`Ávila (RS) já votou contra e a favor do relator, André Figueiredo (PDT-CE).
CONTRA PRESCRIÇÃO
Relator do projeto que torna corrupção crime hediondo, Fábio Trad (PMDB-MS) incluiu dispositivo para priorizar e acelerar o trâmite de processos de colarinho branco: “O que gera impunidade é prescrição”.
PUXOU ORELHA
Presidente da Federação das Indústrias de MG, Olavo Machado Júnior desceu a lenha ontem (15) na Petrobras, durante ato com a presença do ministro Antonio Andrade (Agricultura). Ele acusa a estatal de inviabilizar projeto milionário para a produção de amônia em Uberaba.
ÀS MOSCAS
As reformas nas salas do prédio da Receita Federal promoveram férias coletivas. Ontem (15), os assessores de comunicação da instituição abandonaram as atividades antes do fim do expediente “por falta de computadores”.
PERGUNTA AO TELEFONE
Você ficaria de olho no vizinho se ele fosse amigo do seu inimigo?
PODER SEM PUDOR
VALE O QUANTO MEDE
O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM-BA), há alguns anos, motivava muitas piadas em Brasília quanto a sua arrogância, à semelhança do avô ilustre. Em conversa para a qual pediu reserva, certa vez um famoso pefelista catarinense observou:
- O garoto tem alma de argentino...
O repórter não entendeu e o parlamentar complementou a ironia:
- ...ele não vale nem metade do que acha que vale.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Polícia atrás das grades: Xerife antidrogas de SP é preso por acobertar tráfico
- Folha: Policiais de SP são presos acusados de ajudar traficantes
- Estadão: Após fim do vale-moradia, deputados têm verba extra
- Correio: 30 dias depois…
- Valor: Prévia de balanços mostra mais um trimestre difícil
- Estado de Minas: Médicos correm para carimbar o diploma
- Zero Hora: Santa Maria, 27/01/2013 – MP responsabiliza bombeiros e livra prefeito no caso Kiss
- Brasil Econômico: FGTS: renda de aplicação alternativa é menor que a do CDI
segunda-feira, julho 15, 2013
O poste em curto-circuito - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
1 - O governo está sem rumo. Não é de hoje que a condução errática da economia, a demora em atacar os gargalos na infraestrutura, a nomeação e desnomeação de ministros e a dubiedade no combate à corrupção traem inexperiência que resulta em insegurança e indecisão. Nas duas últimas semanas, tais sintomas viraram febre com as sucessivas trapalhadas da Constituinte exclusiva e do plebiscito. A desconhecida Dilma, foi-nos apresentada como "gerentona”. Hoje é a gerente que não gerencia uma equipe balofa e incoerente. A dureza na cobrança e a minudência no acompanhamento do trabalho dos auxiliares eram exaltadas como qualidades. Revelaram-se defeitos. O reflexo condicionado é encobrir as insuficiências pondo a culpa na “articulação política”. A “articulação” e sua irmã gêmea, a "comunicação”, são dois gastos bodes expiatórios. Não há articulação nem comunicação que funcionem se a outra ponta não funciona. A outra ponta é o gabinete presidencial.
2 - Desaba o respeito ao governo. As vaias são o de menos. Pior é o misto de cinismo e traição que rodeia a presidente. A chamada “base aliada” esfarelou-se. Ao vácuo de liderança sucede-se a balbúrdia no Congresso. Com a esperteza de sempre, deputados investem contra o chamado “foro privilegiado” como se fosse medida moralizadora. quando o mensalão provou que o suposto “privilégio" na verdade lhes rouba o recurso às diversas instâncias e às infinitas chicanas do processo ordinário. Pior para o governo é a ameaça de se votar o tal “orçamento impositivo”, instituindo o escândalo da liberação obrigatória das já de si escandalosas emendas parlamentares. O desrespeito à presidente propicia a abertura da temporada de caça ao Erário.
3 - O poste foi feito refém. Outros postes, na política brasileira, tiveram melhor sorte. A este não se permite desligar-se do criador. Dilma já se entregou ao obrigatório ritual de encontrar-se com Lula duas vezes desde o início dos protestos. A relação ameaça assumir caráter patológico, se é quê já não assumiu. O ex-presidente não sossega de impor-se como patrono, mestre, guia e protetor. A sucessora se rende à sorte de patrocinada, discípula, guiada e protegida. É quase uma versão da “síndrome de Estocolmo”, pela qual o sequestrado acaba cativado pelo sequestrador. “Cativado” quer dizer enamorado, mas também prisioneiro. Tem-se urna presidente obrigada à reverência a uma instância superior.
O resultado é a perda da reverência que deveria inspirar.
***
Os cães, na política americana, servem para ressaltar o tipo “família”, e portanto bom caráter, de seu possuidor. Richard Nixon, acusado de apropriar-se indevidamente de fundos de campanha, em 1952, reagiu dizendo, num emotivo discurso, que o único presente recebido dos apoiadores fora o cãozinho chamado Checkers, alegria de suas filhas. O episódio passou a ser chamado de “o discurso de Checkers”. Obama, recém-eleito presidente, abriu debate público sobre que tipo de cão deveria ser dado às filhas. Ganhou o cãozinho batizado de Bo, desde então assíduo figurante nas fotos de família. No Brasil, a cachorra de Rogério Magri, ministro de Collor, ficou conhecida ao ser transportada ao veterinário em carro oficial. Agora, como revelado na VEJA da semana passada, o cachorro Juquinha, do governador Sérgio Cabral, entra no rol das celebridades caninas por pegar carona de helicóptero. Cães no Brasil denunciam caráter não tão bom de seus possuidores.
Eu ia falar de flores - LYA LUFT
REVISTA VEJA
Mas nisso estoura a bomba: em lugar de melhorar as condições da saúde pública, com mais e melhores hospitais, melhores salários, melhores condições de trabalho e mais estímulo a quem diariamente salva vidas, eis que a classe médica é castigada — mais dois anos de estudo trabalhando obrigatoriamente no SUS (vai equivaler a uma residência?), e milhares de estrangeiros entrando sem revalidar seu diploma. “Serão supervisionados por médicos brasileiros”, dizem. Mas então nesses lugares remotos, para onde os estrangeiros serão mandados, existirão médicos brasileiros? E de onde virá a dinheirama para tudo isso — que poderia melhorar o que já existe e grita por socorro?
Mas hoje eu queria falar de flores: da solidariedade humana, por exemplo. Dos que acompanham um amigo em sua aflição; que doam parte de seus bens a causas boas; que trabalham cuidando dos aflitos, e doentes — mesmo ganhando mal, e sem o necessário para que tudo saia bem; os que pensam e refletem sobre o valor da vida. Falar sobre uma entrevista com o senador Pedro Simon, o Pedro, como dizemos por aqui, imagem do político honrado possível. Nesse mar de desalento atual, quando se mente e se promete em tamanha profusão, ver e ouvir essa entrevista foi um alento. Não convivo com ele, tenho vagos contatos com sua família, acompanhei um pouco suas tragédias pessoais e, com enorme admiração, também sua transformação numa pessoa ainda melhor. Sua carreira política é uma raridade, como poucos outros: um bom punhado deles poderia transformar este país.
Falar de flores é também falar nas amizades: algumas me ajudaram a sobreviver a dramas pessoais quando eu achava impossível, e combinava comigo mesma: “Só mais este dia. Só até a noite. Só mais 24 horas”, como os anônimos heróis do AA que às vezes levam essas 24 horas por uma vida inteira. Meus filhos, então já adultos, foram e são dessas amizades inestimáveis. Falar de flores é falar daqueles que, em qualquer profissão, estudo, ramo, buscam a excelência. Não para ser admirados, não para virar celebridade ou enriquecer, mas pelo amor ao que fazem, e porque a vida merece, eles mesmos merecem buscar o melhor. Sem esquecer o tempo de amar e curtir a vida, jamais sendo como alguém que me disse certa vez: “Eu não tenho tido nem o tempo de uma risada”, e me deu vontade de pegar no colo.
Falar de flores é falar das rosas do jardim de minha mãe, com nomes solenes e perfumes inesquecíveis. É falar de uma infância simples e protegida numa cidade entre morros azuis, onde todo mundo se conhecia, tudo parecia tão fácil, tão certo e definitivo: a ideia de perda e finitude não existia. Mas é também falar de coragem e coerência. Conheci pessoas que por suas ideias sacrificavam uma forma de vida que estava à sua disposição — porém elas preferiam a coerência: não o carrão do ano, não o hotel de luxo, não as festas mais chiques, não as gentes famosas, o dinheiro e o poder, mas o humano.
No meio dos milhares de brasileiros que nestes dias saem às ruas mostrando seu descontentamento, sua indignação ou sua esperança, a grande maioria é assim: busca o que é digno, e justo, o que foi prometido e não cumprido, o que é necessário para se orgulhar do país. para trabalhar com gosto e recompensa razoável, por tudo isso que faz a vida, o trabalho, a família, o cansaço, a honradez valerem a pena. E, mesmo mencionando algum desastre, eu afinal falei de flores.
O rosto da adúltera de Jesus - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 15/07
A agonia entre Deus e seus eleitos molda seus rostos marcados por uma tensão moral
Então, Jesus foi abordado por um grupo de pessoas muito preocupadas com a retidão da lei. Traziam consigo uma mulher em prantos que havia sido pega em adultério. Jogada ao chão, ela tremia de medo. O povo pedia para que Jesus fizesse valer a lei: morte da adúltera por apedrejamento.
Isso foi há 2.000 anos, mas ainda hoje, no mesmo Oriente Médio, tem gente que apedreja mulheres e acha (agora, no Egito) que violentá-las nas praças seja um "direito da soberania popular revolucionária", enquanto se matam, nas mesmas praças, pelo modo ocidental de vida ou por outra forma de lei (o fundamentalismo islamita).
E assim caminha a humanidade, em ciclos, para lugar nenhum, mas com festas e crenças diferentes no meio, e demagogos a cantar...
Mas voltemos a Jesus. Fatos como esses me fazem achar que Jesus era um cabra macho. Enfrentar o povo quando este se julga movido pelo correto modo de viver é algo que exige, como dizem los hermanos, "cojones". Jesus disse que quem tivesse livre de pecado que atirasse a primeira pedra. Todos foram embora.
Esta é uma das passagens típicas do mundo bíblico na qual fica claro o tema da hipocrisia como motivação profunda daqueles que se acham arautos do bem, moral ou político.
Mas Jesus era um filósofo hebreu e estes filósofos eram diferentes dos filósofos gregos. O mundo bíblico é diferente da filosofia grega. Naquele, o "regime da verdade" (ou modo de busca da verdade) é interno e moral, na filosofia grega é externo e político.
O problema de saber se o que eu digo é verdade ou não, quando falo ou argumento, inexiste na Bíblia, porque o personagem principal do diálogo é Deus, e Ele sempre sabe de tudo, não há como mentir para Ele como há como mentir para outro homem ou para assembleia "soberana", como na filosofia ou democracia gregas. Segundo o crítico George Steiner, o Deus de Israel irrita porque está em toda parte e sabe de tudo.
Sabe-se que o advento da democracia grega levou muita gente a pensar sobre a diferença entre pura retórica, que visa o mero convencimento dos outros numa assembleia (eu acho que a democracia é 90% isso mesmo), e a verdade em si do que se fala.
O problema que nasce daí é a relatividade da verdade, dependendo do ponto de vista de quem fala e de quem ouve. Na Bíblia, o problema é se minto para mim mesmo ou não. Na esfera pública, é o tema da hipocrisia, na privada, o da verdade interior. A Bíblia criou o sujeito e as bases da psicologia profunda.
Na Bíblia, como o poder é sempre de Deus e ele é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo, o problema é como eu enfrento a mim mesmo. A preocupação com a lei é sempre acompanhada da atenção para com a falsidade de quem diz ser justo.
Por isso foram os hebreus que deram os primeiros passos para a descoberta do espaço interior onde vejo a distância entre mim e a verdade sobre mim mesmo, em vez de me preocupar com a verdade política, sofro com a mentira moral.
O crítico Erich Auerbach, no seu "A Cicatriz de Ulisses", parte da coletânea "Mímesis", reconhece este traço do texto hebraico: a relação de atenção e agonia entre Deus e seus eleitos molda o herói bíblico, dando a ele um rosto marcado por uma tensão moral.
Ainda na Bíblia hebraica, o rei David, o preferido de Deus, em seus belos "Salmos", O encanta justamente porque expõe seu coração sem qualquer tentativa de mentir para si mesmo.
Santo Agostinho com suas "Confissões" faz eco a David. A literatura monástica e mística medievais cultivou este espaço até seu ressurgimento no século 19 no pietismo alemão de gente como J.G. Hamann, o "mago do norte", ancestral direto do romantismo. Do romantismo e seu epicentro na verdade interior do sujeito, chegamos à psicologia profunda e à psicanálise.
A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face.
A agonia entre Deus e seus eleitos molda seus rostos marcados por uma tensão moral
Então, Jesus foi abordado por um grupo de pessoas muito preocupadas com a retidão da lei. Traziam consigo uma mulher em prantos que havia sido pega em adultério. Jogada ao chão, ela tremia de medo. O povo pedia para que Jesus fizesse valer a lei: morte da adúltera por apedrejamento.
Isso foi há 2.000 anos, mas ainda hoje, no mesmo Oriente Médio, tem gente que apedreja mulheres e acha (agora, no Egito) que violentá-las nas praças seja um "direito da soberania popular revolucionária", enquanto se matam, nas mesmas praças, pelo modo ocidental de vida ou por outra forma de lei (o fundamentalismo islamita).
E assim caminha a humanidade, em ciclos, para lugar nenhum, mas com festas e crenças diferentes no meio, e demagogos a cantar...
Mas voltemos a Jesus. Fatos como esses me fazem achar que Jesus era um cabra macho. Enfrentar o povo quando este se julga movido pelo correto modo de viver é algo que exige, como dizem los hermanos, "cojones". Jesus disse que quem tivesse livre de pecado que atirasse a primeira pedra. Todos foram embora.
Esta é uma das passagens típicas do mundo bíblico na qual fica claro o tema da hipocrisia como motivação profunda daqueles que se acham arautos do bem, moral ou político.
Mas Jesus era um filósofo hebreu e estes filósofos eram diferentes dos filósofos gregos. O mundo bíblico é diferente da filosofia grega. Naquele, o "regime da verdade" (ou modo de busca da verdade) é interno e moral, na filosofia grega é externo e político.
O problema de saber se o que eu digo é verdade ou não, quando falo ou argumento, inexiste na Bíblia, porque o personagem principal do diálogo é Deus, e Ele sempre sabe de tudo, não há como mentir para Ele como há como mentir para outro homem ou para assembleia "soberana", como na filosofia ou democracia gregas. Segundo o crítico George Steiner, o Deus de Israel irrita porque está em toda parte e sabe de tudo.
Sabe-se que o advento da democracia grega levou muita gente a pensar sobre a diferença entre pura retórica, que visa o mero convencimento dos outros numa assembleia (eu acho que a democracia é 90% isso mesmo), e a verdade em si do que se fala.
O problema que nasce daí é a relatividade da verdade, dependendo do ponto de vista de quem fala e de quem ouve. Na Bíblia, o problema é se minto para mim mesmo ou não. Na esfera pública, é o tema da hipocrisia, na privada, o da verdade interior. A Bíblia criou o sujeito e as bases da psicologia profunda.
Na Bíblia, como o poder é sempre de Deus e ele é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo, o problema é como eu enfrento a mim mesmo. A preocupação com a lei é sempre acompanhada da atenção para com a falsidade de quem diz ser justo.
Por isso foram os hebreus que deram os primeiros passos para a descoberta do espaço interior onde vejo a distância entre mim e a verdade sobre mim mesmo, em vez de me preocupar com a verdade política, sofro com a mentira moral.
O crítico Erich Auerbach, no seu "A Cicatriz de Ulisses", parte da coletânea "Mímesis", reconhece este traço do texto hebraico: a relação de atenção e agonia entre Deus e seus eleitos molda o herói bíblico, dando a ele um rosto marcado por uma tensão moral.
Ainda na Bíblia hebraica, o rei David, o preferido de Deus, em seus belos "Salmos", O encanta justamente porque expõe seu coração sem qualquer tentativa de mentir para si mesmo.
Santo Agostinho com suas "Confissões" faz eco a David. A literatura monástica e mística medievais cultivou este espaço até seu ressurgimento no século 19 no pietismo alemão de gente como J.G. Hamann, o "mago do norte", ancestral direto do romantismo. Do romantismo e seu epicentro na verdade interior do sujeito, chegamos à psicologia profunda e à psicanálise.
A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face.
Assinar:
Postagens (Atom)