FOLHA DE SP - 15/05
Tentativas de manter o desemprego reduzido à custa de inflação alta produzem só mais inflação
Depois do insucesso dos últimos anos, nosso ministro da Fazenda, autodenominado "levantador de PIB", parece ter desistido do halterofilismo econômico.
Agora, diz o ministro, "a geração de empregos formais no país é tão ou mais importante do que o PIB".
Caso algum dos 18 leitores tenha uma epifania com a imagem de uma raposa desprezando um suculento cacho de uvas, peço que não se culpe pelo clichê.
Também passei por isso e concluí que o problema não era meu, mas do ministro, que não consegue escapar dos clichês nem quando o país enfrenta uma situação inédita.
Ou melhor: não consegue escapar deles principalmente quando o país enfrenta uma situação inédita.
De fato, o ministro -conhecido na imprensa internacional como o duende previsor- prometia até há pouco crescimento acelerado do PIB e, publicamente, fez pouco de previsões do setor privado que apontavam para um desempenho muito inferior àquele por ele garantido.
Agora, finalmente percebendo o otimismo exagerado das suas "previsões", tenta, de forma nada discreta, um recuo, nem tático nem estratégico, apenas lento o suficiente para não passar (muita) vergonha, mas rápido o bastante para não parecer provocação.
À parte o constrangimento provocado por esse triste espetáculo, o preocupante é a dificuldade do governo em entender o que vem ocorrendo, em particular a vagarosa retomada do crescimento num cenário em que a inflação permanece alta e pressionada.
Essa combinação é o resultado típico de uma economia que enfrenta restrições pelo lado da oferta. Não se trata, é bom deixar claro, dos tais "choques de oferta" aos quais uns tantos ainda atribuem (contra um caminhão de evidências em contrário) a aceleração da inflação.
Essas limitações refletem problemas mais sérios e persistentes, como o esgotamento da disponibilidade de mão de obra, que permitiu a aceleração do crescimento a partir da segunda metade da década passada, bem como o nível reduzido do investimento, em particular em infraestrutura.
Posto de outra forma, o desempenho recente sugere que a capacidade de crescimento sustentável do Brasil é muito inferior àquilo que imaginávamos.
No entanto, se há economistas capazes de entender o problema, não estão no Ministério da Fazenda, que permanece ainda preso à visão que atribui o fraco crescimento à demanda deficiente.
Não por outro motivo as medidas tomadas com o objetivo de acelerar a expansão da economia têm como foco precisamente a demanda, como incentivos ao consumo e uma considerável expansão fiscal, seja pela via da desoneração tributária, seja pelo aumento do gasto federal, com ênfase no gasto corrente.
E, não por outro motivo, fracassaram fragorosamente na tarefa de trazer o crescimento para qualquer nível próximo daquele que o governo havia estabelecido como seu objetivo no começo do mandato.
Sem as uvas do PIB, restam, portanto, as passas do desemprego na lista de realizações governamentais.
Nada mal para quem, como eu, as aprecia, mas aí precisamos saber se a façanha é sustentável, ou se, pelo contrário, acaba gerando novos problemas que inviabilizem sua permanência.
No caso, como tive a oportunidade de argumentar diversas vezes neste espaço, a elevação dos salários por conta do mercado de trabalho apertado, a um ritmo muito acima do crescimento da produtividade, tem sido um dos principais fatores impulsionando a inflação.
Apesar disso, é muito pouco provável que essa questão venha a ser abordada, sobretudo às vésperas da eleição.
Isso dito, a teoria econômica e a experiência histórica sugerem que se trata de uma situação insustentável. Tentativas de manter o desemprego reduzido à custa de inflação alta produzem apenas mais inflação sem ganhos persistentes de emprego.
Cedo ou tarde, mesmo as passas ficarão verdes e não haverá fabulista capaz de escrever uma história convincente sobre o desempenho brasileiro.
quarta-feira, maio 15, 2013
Demorou demais - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 15/05
Depois de cinco anos, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizou ontem mais uma rodada de licitações de 289 blocos para exploração de petróleo e gás.
Desta vez, não entraram as áreas do pré-sal. O leilão teve forte participação de blocos em terra, com o objetivo de atrair pequenas e médias empresas. Despertou interesse em 64 empresas e colocou 49% das áreas, com arrecadação recorde de R$ 2,8 bilhões em bônus de assinatura e com investimentos previstos de R$ 7 bilhões.
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sugeriu que todos os brasileiros comemorassem o sucesso da empreitada, dando a impressão de que o governo federal esteve fortemente interessado em promover o aumento da produção.
Não esteve. E ainda há dúvidas de que de fato esteja. Novas licitações ficaram bloqueadas desde 2009, por duas razões: (1) porque o governo pretendia deixar tudo ou quase tudo a cargo da Petrobrás que, no entanto, não tem fôlego financeiro nem sequer para tocar os US$ 236,7 bilhões em investimentos previstos até 2017; e (2) porque setores do governo federal ainda boicotam toda iniciativa que implique aumento da participação do setor privado na exploração de petróleo e gás.
Desde 2010, a produção de petróleo no Brasil ficou estagnada na casa dos 2 milhões de barris (159 milhões de litros) por dia. Os levantamentos da ANP mostram que a área concedida para exploração e produção caiu de 333 mil km² em 2009 para 291 mil km² ao final do ano passado (veja no Confira), porque a devolução pelas concessionárias de áreas em casos de insucesso não foi compensada por novas.
Pior que tudo, as empresas de capital nacional que haviam se lançado nesse mercado não tiveram mais campo para se expandir e diversificar seus riscos geológicos. Além disso, o setor brasileiro que se dedica ao fornecimento de equipamentos e serviços não pôde se desenvolver por todo esse tempo em que o governo se omitiu. Entre o início de exploração e a produção de um campo descoberto de petróleo correm cerca de dez anos. Essa é a razão pela qual atrasos assim saem caros. O que se perdeu e o que se deixou de ganhar provavelmente não se recuperará mais.
Desta vez, a Petrobrás participou do leilão com o breque de mão puxado. Aparentemente, guarda suas hoje relativamente escassas energias para as outras duas licitações já programadas para este ano: a que prevê a exploração de gás não convencional, agendada para outubro; e o primeiro leilão do pré-sal sob novas regras, previsto para novembro. Nesse último leilão, a Petrobrás terá de atuar como operadora de todas as áreas licitadas, com um mínimo de 30% de participação.
Como já comentado nesta Coluna em edições anteriores, os Estados Unidos preparam-se para retomar sua condição de autossuficiência na produção de hidrocarbonetos. A revolução do gás de xisto, produzido a uma fração dos custos do gás convencional, aponta como a nova grande fronteira de energia barata ao redor do mundo. E, no entanto, a vacilação do governo brasileiro e a falta de clareza de sua política prejudicam todo o setor produtivo nacional, e não apenas as empresas ligadas ao setor de energia.
Depois de cinco anos, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizou ontem mais uma rodada de licitações de 289 blocos para exploração de petróleo e gás.
Desta vez, não entraram as áreas do pré-sal. O leilão teve forte participação de blocos em terra, com o objetivo de atrair pequenas e médias empresas. Despertou interesse em 64 empresas e colocou 49% das áreas, com arrecadação recorde de R$ 2,8 bilhões em bônus de assinatura e com investimentos previstos de R$ 7 bilhões.
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sugeriu que todos os brasileiros comemorassem o sucesso da empreitada, dando a impressão de que o governo federal esteve fortemente interessado em promover o aumento da produção.
Não esteve. E ainda há dúvidas de que de fato esteja. Novas licitações ficaram bloqueadas desde 2009, por duas razões: (1) porque o governo pretendia deixar tudo ou quase tudo a cargo da Petrobrás que, no entanto, não tem fôlego financeiro nem sequer para tocar os US$ 236,7 bilhões em investimentos previstos até 2017; e (2) porque setores do governo federal ainda boicotam toda iniciativa que implique aumento da participação do setor privado na exploração de petróleo e gás.
Desde 2010, a produção de petróleo no Brasil ficou estagnada na casa dos 2 milhões de barris (159 milhões de litros) por dia. Os levantamentos da ANP mostram que a área concedida para exploração e produção caiu de 333 mil km² em 2009 para 291 mil km² ao final do ano passado (veja no Confira), porque a devolução pelas concessionárias de áreas em casos de insucesso não foi compensada por novas.
Pior que tudo, as empresas de capital nacional que haviam se lançado nesse mercado não tiveram mais campo para se expandir e diversificar seus riscos geológicos. Além disso, o setor brasileiro que se dedica ao fornecimento de equipamentos e serviços não pôde se desenvolver por todo esse tempo em que o governo se omitiu. Entre o início de exploração e a produção de um campo descoberto de petróleo correm cerca de dez anos. Essa é a razão pela qual atrasos assim saem caros. O que se perdeu e o que se deixou de ganhar provavelmente não se recuperará mais.
Desta vez, a Petrobrás participou do leilão com o breque de mão puxado. Aparentemente, guarda suas hoje relativamente escassas energias para as outras duas licitações já programadas para este ano: a que prevê a exploração de gás não convencional, agendada para outubro; e o primeiro leilão do pré-sal sob novas regras, previsto para novembro. Nesse último leilão, a Petrobrás terá de atuar como operadora de todas as áreas licitadas, com um mínimo de 30% de participação.
Como já comentado nesta Coluna em edições anteriores, os Estados Unidos preparam-se para retomar sua condição de autossuficiência na produção de hidrocarbonetos. A revolução do gás de xisto, produzido a uma fração dos custos do gás convencional, aponta como a nova grande fronteira de energia barata ao redor do mundo. E, no entanto, a vacilação do governo brasileiro e a falta de clareza de sua política prejudicam todo o setor produtivo nacional, e não apenas as empresas ligadas ao setor de energia.
Indústria - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 15/05
Infelizmente foi preciso que o crescimento da produção industrial do Brasil em 2012 fosse talvez o menor do mundo, para que se transformasse num "problema" para boa parte da academia, dos analistas financeiros com pouca familiaridade com a economia real e, finalmente, para o próprio governo.
As razões são múltiplas. A principal é que há muito tempo bifurcamos os estímulos internos à nossa indústria, originalmente destinados a transformar o país numa base exportadora, em favor de uma enganosa e míope política de estabilização monetária transformada num fim em si mesmo e, por isso mesmo, nunca alcançado.
É claro que não se discute a extraordinária concepção e execução inicial do chamado Plano Real. Ele, aliás, até hoje não terminou, pela indisposição dos poderes incumbentes de realizarem o ajuste fiscal esperado desde 1995. Nem a imperiosa necessidade de ainda fazê-lo! Não esqueçamos que entre 1996-2002 a taxa média de inflação foi de 7,37% ao ano, a taxa de crescimento do PIB foi medíocre, 2,01%, e registramos uma queda de nossas exportações com relação às mundiais de 25% (de 1,2% para 0,9%).
Visto com a objetividade que só o tempo proporciona e medido com relação a programas similares adotados em outros países, o Plano Real, brilhante na sua concepção, talvez terá sido pela sua incompletude, o socialmente mais custoso.
Alguns poucos economistas teimosos têm discutido a taxa de câmbio desde 1995. Agora que todos parecem fazê-lo, é preciso dizer que ela é muito importante, mas não é tudo.
O Brasil precisa de mudança radical na sua política industrial que leve em conta a revolução tecnológica que o mundo está vivendo e seus efeitos sobre a natureza dos bens comercializáveis e da mudança de estrutura do comércio mundial. A boa notícia é que é isso que tem sido sugerido pelo o ilustre ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel.
A política industrial horizontal exige: 1º) uma revisão imediata, completa e inteligente do sistema de tarifas efetivas que hoje está de pernas para o ar e que permita uma competição livre e honesta com as importações; 2º) uma taxa de câmbio relativamente subvalorizada e 3º) um eficiente sistema de crédito apoiado no desenvolvimento do mercado de capitais e que dispense o apoio universal do BNDES. Como é óbvio, a taxa de câmbio relativamente desvalorizada exigirá, por sua vez, uma coordenação fina e clara entre as políticas fiscal, monetária e cambial.
Agora que se reconhece o problema, podemos, talvez, começar a dar-lhe solução, tarefa que exigirá coragem, paciência e competência.
Infelizmente foi preciso que o crescimento da produção industrial do Brasil em 2012 fosse talvez o menor do mundo, para que se transformasse num "problema" para boa parte da academia, dos analistas financeiros com pouca familiaridade com a economia real e, finalmente, para o próprio governo.
As razões são múltiplas. A principal é que há muito tempo bifurcamos os estímulos internos à nossa indústria, originalmente destinados a transformar o país numa base exportadora, em favor de uma enganosa e míope política de estabilização monetária transformada num fim em si mesmo e, por isso mesmo, nunca alcançado.
É claro que não se discute a extraordinária concepção e execução inicial do chamado Plano Real. Ele, aliás, até hoje não terminou, pela indisposição dos poderes incumbentes de realizarem o ajuste fiscal esperado desde 1995. Nem a imperiosa necessidade de ainda fazê-lo! Não esqueçamos que entre 1996-2002 a taxa média de inflação foi de 7,37% ao ano, a taxa de crescimento do PIB foi medíocre, 2,01%, e registramos uma queda de nossas exportações com relação às mundiais de 25% (de 1,2% para 0,9%).
Visto com a objetividade que só o tempo proporciona e medido com relação a programas similares adotados em outros países, o Plano Real, brilhante na sua concepção, talvez terá sido pela sua incompletude, o socialmente mais custoso.
Alguns poucos economistas teimosos têm discutido a taxa de câmbio desde 1995. Agora que todos parecem fazê-lo, é preciso dizer que ela é muito importante, mas não é tudo.
O Brasil precisa de mudança radical na sua política industrial que leve em conta a revolução tecnológica que o mundo está vivendo e seus efeitos sobre a natureza dos bens comercializáveis e da mudança de estrutura do comércio mundial. A boa notícia é que é isso que tem sido sugerido pelo o ilustre ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel.
A política industrial horizontal exige: 1º) uma revisão imediata, completa e inteligente do sistema de tarifas efetivas que hoje está de pernas para o ar e que permita uma competição livre e honesta com as importações; 2º) uma taxa de câmbio relativamente subvalorizada e 3º) um eficiente sistema de crédito apoiado no desenvolvimento do mercado de capitais e que dispense o apoio universal do BNDES. Como é óbvio, a taxa de câmbio relativamente desvalorizada exigirá, por sua vez, uma coordenação fina e clara entre as políticas fiscal, monetária e cambial.
Agora que se reconhece o problema, podemos, talvez, começar a dar-lhe solução, tarefa que exigirá coragem, paciência e competência.
Nova rodada, velho modelo - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 15/05
O sucesso da 11ª Rodada de Licitações de Petróleo e Gás, ontem, abre novas perspectivas para o setor, com entrada de novos investidores e novo ânimo aos já conhecidos. A comemoração do governo é justa, mas revela uma enorme contradição: a licitação foi feita no modelo antigo, contra o qual eles interromperam as rodadas. O país perdeu cinco anos e muitas chances.
O ministro Edson Lobão fez uma declaração que exibiu a fratura no raciocínio do governo. "Por muito tempo, havíamos desistido de fazer tais licitações por razões de interesse nacional." Como este leilão foi feito no modelo antigo, ele fere o interesse nacional? Ou o interesse nacional foi prejudicado antes, quando o governo decidiu suspender os leilões?
A última rodada que valeu foi a de 2007, já que a de 2008 foi anulada. Mas quando a de 2008 foi realizada, o Brasil tinha 350 mil Km2 de áreas concedidas em exploração. Antes do leilão de ontem, contava com apenas 95 mil Km2. Quando as empresas não encontram petróleo nas áreas nas quais venceram a licitação, elas devolvem os blocos e entram em novo leilão. Essa círculo foi interrompido com a suspensão injustificada dos leilões.
- No ano passado, as cinco maiores empresas de petróleo do mundo investiram US$ 100 bilhões e nada disso foi no Brasil - disse Adriano Pires.
O governo comemorou ontem o recorde de arrecadação em bônus de assinatura: R$ 2,82 bilhões. É recorde sim, mas nominal. De acordo com uma conta feita para nós por economistas da Tendências Consultoria, o leilão de 2007 arrecadou R$ 2,1 bi, o que em dinheiro de hoje seria R$ 2,85 bilhões.
O relevante não é um real a mais ou a menos, mas o fato de que grandes empresas voltaram ao mercado brasileiro, como a Exxon. Esperava-se muito das chinesas, mas elas se recolheram. A suspeita é que aguardam o pré-sal. A Foz do Amazonas ficou com 77 blocos sem compradores.
O sucesso de ontem também mostrou a demanda reprimida por investimentos no Brasil. De 2008 para cá, o país deixou de ser considerado a nova fronteira de petróleo, porque houve a revolução energética do gás de xisto. Apesar dos riscos enormes e mal estudados dessa fonte, é ela que está provocando uma nova corrida do ouro no mundo do gás e petróleo.
O tempo perdido se refletiu na produção. Em setembro de 2009, quando o ex-presidente Lula enviou ao Congresso o projeto de lei que alterava o marco regulatório do setor, o país produziu 62 milhões de barris equivalentes de petróleo (BEP). Três anos depois, em setembro de 2012, a produção havia caído 5%, para 59 milhões de BEP. Em março deste ano, último dado disponível, a produção estava estagnada nos mesmos 59 milhões. De 2000 até o envio do projeto de lei, a produção havia aumentado 67%, de 37 milhões de BEP para 62 milhões.
- O leilão de hoje mostrou como o modelo de concessão é bem visto e vitorioso e como o governo errou ao deixar o país sem cinco anos de rodadas de licitação - disse Pires.
A OGX surpreendeu com a compra de muitos blocos, a Exxon Mobil voltou ao mercado brasileiro, a BG inglesa confirmou seu interesse no país, assim como a francesa Total.
A estratégia de diversificar geograficamente a área de exploração é boa para reduzir a excessiva dependência de petróleo que o Brasil tem do Rio de Janeiro, e que, com a maneira como o governo conduziu as negociações para a mudança do marco regulatório, provocou uma crise federativa. Se houver descobertas em outras áreas, talvez tudo isso acabe sendo decidido de forma mais serena, e não com 24 estados contra dois, como foi o que se viu na lei dos royalties.
O ministro Edson Lobão fez uma declaração que exibiu a fratura no raciocínio do governo. "Por muito tempo, havíamos desistido de fazer tais licitações por razões de interesse nacional." Como este leilão foi feito no modelo antigo, ele fere o interesse nacional? Ou o interesse nacional foi prejudicado antes, quando o governo decidiu suspender os leilões?
A última rodada que valeu foi a de 2007, já que a de 2008 foi anulada. Mas quando a de 2008 foi realizada, o Brasil tinha 350 mil Km2 de áreas concedidas em exploração. Antes do leilão de ontem, contava com apenas 95 mil Km2. Quando as empresas não encontram petróleo nas áreas nas quais venceram a licitação, elas devolvem os blocos e entram em novo leilão. Essa círculo foi interrompido com a suspensão injustificada dos leilões.
- No ano passado, as cinco maiores empresas de petróleo do mundo investiram US$ 100 bilhões e nada disso foi no Brasil - disse Adriano Pires.
O governo comemorou ontem o recorde de arrecadação em bônus de assinatura: R$ 2,82 bilhões. É recorde sim, mas nominal. De acordo com uma conta feita para nós por economistas da Tendências Consultoria, o leilão de 2007 arrecadou R$ 2,1 bi, o que em dinheiro de hoje seria R$ 2,85 bilhões.
O relevante não é um real a mais ou a menos, mas o fato de que grandes empresas voltaram ao mercado brasileiro, como a Exxon. Esperava-se muito das chinesas, mas elas se recolheram. A suspeita é que aguardam o pré-sal. A Foz do Amazonas ficou com 77 blocos sem compradores.
O sucesso de ontem também mostrou a demanda reprimida por investimentos no Brasil. De 2008 para cá, o país deixou de ser considerado a nova fronteira de petróleo, porque houve a revolução energética do gás de xisto. Apesar dos riscos enormes e mal estudados dessa fonte, é ela que está provocando uma nova corrida do ouro no mundo do gás e petróleo.
O tempo perdido se refletiu na produção. Em setembro de 2009, quando o ex-presidente Lula enviou ao Congresso o projeto de lei que alterava o marco regulatório do setor, o país produziu 62 milhões de barris equivalentes de petróleo (BEP). Três anos depois, em setembro de 2012, a produção havia caído 5%, para 59 milhões de BEP. Em março deste ano, último dado disponível, a produção estava estagnada nos mesmos 59 milhões. De 2000 até o envio do projeto de lei, a produção havia aumentado 67%, de 37 milhões de BEP para 62 milhões.
- O leilão de hoje mostrou como o modelo de concessão é bem visto e vitorioso e como o governo errou ao deixar o país sem cinco anos de rodadas de licitação - disse Pires.
A OGX surpreendeu com a compra de muitos blocos, a Exxon Mobil voltou ao mercado brasileiro, a BG inglesa confirmou seu interesse no país, assim como a francesa Total.
A estratégia de diversificar geograficamente a área de exploração é boa para reduzir a excessiva dependência de petróleo que o Brasil tem do Rio de Janeiro, e que, com a maneira como o governo conduziu as negociações para a mudança do marco regulatório, provocou uma crise federativa. Se houver descobertas em outras áreas, talvez tudo isso acabe sendo decidido de forma mais serena, e não com 24 estados contra dois, como foi o que se viu na lei dos royalties.
Uma substituição desastrosa - ELIO GASPARI
O GLOBO - 15/05
Se a doutora Dilma quis assustar o empresariado e abalar a confiança na política econômica do seu governo, fez um gol de placa. Perdeu o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, sem anunciar o nome de seu substituto e, no vácuo, surgiu no noticiário o nome do companheiro Arno Augustin, atual secretário do Tesouro.
Barbosa é um professor discreto, que voltará para a universidade. Não é petista nem foi banqueiro. Até onde a vista alcança, dificilmente será qualquer das duas coisas. Augustin é economista, quadro da facção Democracia Socialista do PT, experimentado desde a época em que dirigiu a secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, nos anos 90. Atualmente, acumula a função no Tesouro com uma posição de destaque no comissariado de articulação da campanha pela reeleição da doutora. Mesmo que ele fosse Lord Keynes, essa dupla militancia assustaria tanto o mercado como a galera. Quando Tesouro e campanha andam juntas, acaba-se em confusão.
A saída de Nelson Barbosa é uma má notícia em si. A simples possibilidade da promoção de Augustin dobra o prejuízo. O desfalque do secretário executivo sem o anúncio imediato do nome de quem iria para seu lugar é produto do deixa-comigo-porque-eu posso. Os palácios sempre acham que podem muito e o do Planalto pensa que pode tudo. Havendo um problema, faz-se uma nomeação, um decreto ou uma Medida Provisória, pois manda quem pode e obedece quem tem juízo. Falta aos governantes a humildade do general Goes Monteiro. condestável do Estado Novo, ele ensinou: "Na vida eu gostaria de ser metade do que o cadete pensa que é".
Sempre que ocorre um descontrole na economia, o Planalto acredita nos seus poderes. Assim foi durante os governos que levaram o país à hiperinflação, quando trocavam-se ministros e presidentes do Banco Central como se escolhe uma gravata. Nessa época, burocratas capazes de alterar o significado da estatisticas prevaleceram sobre aqueles que viam nos números um reflexo das dificuldades. O país livrou-se dessa praga quando Itamar Franco colocou Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda e Lula aferrou-se à sua política de defesa da moeda.
A doutora Dilma, com a certeza de suas convicções, tomou rumo diverso. Sua equipe de coordenação política serve, quando muito, para organizar eventos. Sua ação econômica depende da vontade da doutora, traduzida nas homílias do ministro Guido Mantega.
Durante a digestão da Medida Provisória dos Portos, o governo fez de conta que havia uma questão técnica quando, na realidade, havia uma disputa de grupos de interesses. A cada três meses os sábios oferecem novos mimos aos empresários interessados em concessões de serviços públicos, mal sabendo que o instinto animal dessa espécie vê em cada concessão um sinal de fraqueza e vai à luta para conseguir mais.
Quem julga a doutora pela sua cenografia e pelo hermetismo de suas falas é capaz de acreditar que ela substituiu um governante falastrão. Seria a gerentona no lugar de um palanqueiro. Há alguns meses, contudo, Dilma Rousseff gerencia a imagem de gerentona de Dilma Rousseff. E se Lula tiver sido um astuto gerente fingindo-se de palanqueiro?
Se a doutora Dilma quis assustar o empresariado e abalar a confiança na política econômica do seu governo, fez um gol de placa. Perdeu o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, sem anunciar o nome de seu substituto e, no vácuo, surgiu no noticiário o nome do companheiro Arno Augustin, atual secretário do Tesouro.
Barbosa é um professor discreto, que voltará para a universidade. Não é petista nem foi banqueiro. Até onde a vista alcança, dificilmente será qualquer das duas coisas. Augustin é economista, quadro da facção Democracia Socialista do PT, experimentado desde a época em que dirigiu a secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, nos anos 90. Atualmente, acumula a função no Tesouro com uma posição de destaque no comissariado de articulação da campanha pela reeleição da doutora. Mesmo que ele fosse Lord Keynes, essa dupla militancia assustaria tanto o mercado como a galera. Quando Tesouro e campanha andam juntas, acaba-se em confusão.
A saída de Nelson Barbosa é uma má notícia em si. A simples possibilidade da promoção de Augustin dobra o prejuízo. O desfalque do secretário executivo sem o anúncio imediato do nome de quem iria para seu lugar é produto do deixa-comigo-porque-eu posso. Os palácios sempre acham que podem muito e o do Planalto pensa que pode tudo. Havendo um problema, faz-se uma nomeação, um decreto ou uma Medida Provisória, pois manda quem pode e obedece quem tem juízo. Falta aos governantes a humildade do general Goes Monteiro. condestável do Estado Novo, ele ensinou: "Na vida eu gostaria de ser metade do que o cadete pensa que é".
Sempre que ocorre um descontrole na economia, o Planalto acredita nos seus poderes. Assim foi durante os governos que levaram o país à hiperinflação, quando trocavam-se ministros e presidentes do Banco Central como se escolhe uma gravata. Nessa época, burocratas capazes de alterar o significado da estatisticas prevaleceram sobre aqueles que viam nos números um reflexo das dificuldades. O país livrou-se dessa praga quando Itamar Franco colocou Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda e Lula aferrou-se à sua política de defesa da moeda.
A doutora Dilma, com a certeza de suas convicções, tomou rumo diverso. Sua equipe de coordenação política serve, quando muito, para organizar eventos. Sua ação econômica depende da vontade da doutora, traduzida nas homílias do ministro Guido Mantega.
Durante a digestão da Medida Provisória dos Portos, o governo fez de conta que havia uma questão técnica quando, na realidade, havia uma disputa de grupos de interesses. A cada três meses os sábios oferecem novos mimos aos empresários interessados em concessões de serviços públicos, mal sabendo que o instinto animal dessa espécie vê em cada concessão um sinal de fraqueza e vai à luta para conseguir mais.
Quem julga a doutora pela sua cenografia e pelo hermetismo de suas falas é capaz de acreditar que ela substituiu um governante falastrão. Seria a gerentona no lugar de um palanqueiro. Há alguns meses, contudo, Dilma Rousseff gerencia a imagem de gerentona de Dilma Rousseff. E se Lula tiver sido um astuto gerente fingindo-se de palanqueiro?
Manobra de risco - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 15/05
O advogado de Delúbio Soares está obrigando o Supremo Tribunal Federal a se manifestar sobre os embargos infringentes antes do que estava previsto e pode, com isso, levar a Corte a desde já aceitar examinar a possibilidade de modificação das penas de todos os réus cujas sentenças tiveram no mínimo quatro votos pela absolvição.
Mas pode também ter aberto espaço para a antecipação do pedido de prisão dos condenados. Se o STF resolver não aceitar o exame daquele tipo de recurso, seguindo a posição do presidente e relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa, o mais provável é que o Ministério Público peça a prisão imediata de todos os condenados.
O criminalista Arnaldo Malheiros fez, em tese, um movimento arriscado ao apresentar os embargos infringentes relativos ao seu cliente, ex-tesoureiro do PT, junto com os embargos de declaração - aqueles que buscam corrigir omissões, contradições, ambiguidades ou pontos obscuros no acórdão do julgamento.
Na segunda-feira, o ministro Joaquim Barbosa rejeitou o embargo infringente alegando que, pela legislação vigente, esse tipo de recurso não cabe em tribunal superior e que, na prática, levaria à reabertura do julgamento.
Malheiros apresentou um agravo regimental pedindo que o plenário do STF examine a questão. A posição de Barbosa era conhecida, mas não necessariamente é a mesma do restante dos ministros. Há uma divisão na Corte quanto a isso. Por ora, apenas o decano Celso de Mello tem opinião conhecida, a favor desse tipo de embargo, e foi nela que se baseou o advogado de Delúbio Soares para recorrer ao colegiado.
Antes disso, essa era uma polêmica a ser resolvida mais adiante, quando encerrada totalmente a fase do exame dos embargos de declaração, inclusive com possíveis recursos ao novo acórdão contendo as correções que venham a ser aceitas (ou não) pelo tribunal.
Agora, o debate ocorrerá assim que o plenário se posicionar sobre o agravo apresentado por Arnaldo Malheiros. Nessa decisão ficará firmada a jurisprudência: se aceito o embargo no caso de Delúbio, as penas ficam passíveis de modificação para todos os que tiveram ao menos quatro votos pela absolvição. Se não, o assunto estará encerrado e Roberto Gurgel poderá requerer a prisão dos condenados.
Monitor. Nas pesquisas encomendadas pelo PSDB, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, aparece como o candidato do PT ao governo de São Paulo com maior potencial de causar danos à reeleição do governador Geraldo Alckmin.
Não tem os índices de Marta Suplicy, mas tampouco tem o grau de rejeição da ex-prefeita e ministra da Cultura. Nas consultas qualitativas, ressaltam-se os seguintes atributos positivos na visão do eleitorado: boa imagem e, sobretudo, não se enquadra no perfil do petista tradicional exibindo feições tucanas com a vantagem de não ser do PSDB, cuja longevidade no poder em São Paulo dá sinais evidentes de cansaço.
Cardozo quando vereador na cidade teve 250 mil votos. Na avaliação dos adversários, com dois ou três fatos (ou factoides) criados na área de segurança pública durante a campanha, o ministro iria direto ao calcanhar do governo paulista, podendo até impingir com isso um golpe fatal na candidatura de Alckmin.
O PSDB não é o único que vê José Eduardo Cardozo com esses olhos, embora da perspectiva oposta. Lula, que não reza nesse altar, mas é pragmático, já admitiria deixar de lado a preferência por Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
O advogado de Delúbio Soares está obrigando o Supremo Tribunal Federal a se manifestar sobre os embargos infringentes antes do que estava previsto e pode, com isso, levar a Corte a desde já aceitar examinar a possibilidade de modificação das penas de todos os réus cujas sentenças tiveram no mínimo quatro votos pela absolvição.
Mas pode também ter aberto espaço para a antecipação do pedido de prisão dos condenados. Se o STF resolver não aceitar o exame daquele tipo de recurso, seguindo a posição do presidente e relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa, o mais provável é que o Ministério Público peça a prisão imediata de todos os condenados.
O criminalista Arnaldo Malheiros fez, em tese, um movimento arriscado ao apresentar os embargos infringentes relativos ao seu cliente, ex-tesoureiro do PT, junto com os embargos de declaração - aqueles que buscam corrigir omissões, contradições, ambiguidades ou pontos obscuros no acórdão do julgamento.
Na segunda-feira, o ministro Joaquim Barbosa rejeitou o embargo infringente alegando que, pela legislação vigente, esse tipo de recurso não cabe em tribunal superior e que, na prática, levaria à reabertura do julgamento.
Malheiros apresentou um agravo regimental pedindo que o plenário do STF examine a questão. A posição de Barbosa era conhecida, mas não necessariamente é a mesma do restante dos ministros. Há uma divisão na Corte quanto a isso. Por ora, apenas o decano Celso de Mello tem opinião conhecida, a favor desse tipo de embargo, e foi nela que se baseou o advogado de Delúbio Soares para recorrer ao colegiado.
Antes disso, essa era uma polêmica a ser resolvida mais adiante, quando encerrada totalmente a fase do exame dos embargos de declaração, inclusive com possíveis recursos ao novo acórdão contendo as correções que venham a ser aceitas (ou não) pelo tribunal.
Agora, o debate ocorrerá assim que o plenário se posicionar sobre o agravo apresentado por Arnaldo Malheiros. Nessa decisão ficará firmada a jurisprudência: se aceito o embargo no caso de Delúbio, as penas ficam passíveis de modificação para todos os que tiveram ao menos quatro votos pela absolvição. Se não, o assunto estará encerrado e Roberto Gurgel poderá requerer a prisão dos condenados.
Monitor. Nas pesquisas encomendadas pelo PSDB, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, aparece como o candidato do PT ao governo de São Paulo com maior potencial de causar danos à reeleição do governador Geraldo Alckmin.
Não tem os índices de Marta Suplicy, mas tampouco tem o grau de rejeição da ex-prefeita e ministra da Cultura. Nas consultas qualitativas, ressaltam-se os seguintes atributos positivos na visão do eleitorado: boa imagem e, sobretudo, não se enquadra no perfil do petista tradicional exibindo feições tucanas com a vantagem de não ser do PSDB, cuja longevidade no poder em São Paulo dá sinais evidentes de cansaço.
Cardozo quando vereador na cidade teve 250 mil votos. Na avaliação dos adversários, com dois ou três fatos (ou factoides) criados na área de segurança pública durante a campanha, o ministro iria direto ao calcanhar do governo paulista, podendo até impingir com isso um golpe fatal na candidatura de Alckmin.
O PSDB não é o único que vê José Eduardo Cardozo com esses olhos, embora da perspectiva oposta. Lula, que não reza nesse altar, mas é pragmático, já admitiria deixar de lado a preferência por Alexandre Padilha, ministro da Saúde.
Importação de médicos - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 15/05
SÃO PAULO - Os médicos estão revoltados com o governo brasileiro, que pretende importar 6.000 profissionais de saúde cubanos para trabalhar em lugares onde existem vagas e elas não são preenchidas. Para nossos valorosos doutores, a medida ameaça a saúde pública.
Tenho uma visão menos dramática. É verdade que o plano do governo dificilmente funcionará. As prefeituras mais remotas nas quais a falta de médicos é crônica já oferecem há tempos um salário bem acima da média do mercado. Se nem assim conseguem atrair e reter o profissional, é porque o problema não está restrito a vencimentos. O médico não fica porque as condições de trabalho ali são precaríssimas.
Os cubanos até poderão resistir por mais tempo nessa situação, mas, se nada for feito para resolver as dificuldades estruturais, estaremos apenas fingindo que oferecemos um atendimento decente. A substituição da mão de obra local por um exército de reserva, se é lícito utilizar o vocabulário marxista, não passa de um paliativo.
A grita contra os cubanos, contudo, é em larga medida uma reação corporativista. Mesmo que eles não tenham uma formação comparável à dos brasileiros, num raciocínio bem consequencialista, é melhor para o sujeito que procura um serviço de saúde ser atendido por alguém que tenha algum conhecimento do que ficar sem assistência nenhuma.
Cabe ainda perguntar quais seriam os resultados se os médicos brasileiros fossem submetidos à mesma prova que fazem os estrangeiros que tentam validar seu diploma. Os números do último exame do Cremesp não autorizam muito otimismo.
No mais, associações e conselhos médicos insistem na tese de que o Brasil já tem mais profissionais do que precisa sem nunca tê-la demonstrado. É natural que entidades de classe digam isso. O governo deve ouvir seus argumentos, mas não necessariamente atender a seus pleitos.
SÃO PAULO - Os médicos estão revoltados com o governo brasileiro, que pretende importar 6.000 profissionais de saúde cubanos para trabalhar em lugares onde existem vagas e elas não são preenchidas. Para nossos valorosos doutores, a medida ameaça a saúde pública.
Tenho uma visão menos dramática. É verdade que o plano do governo dificilmente funcionará. As prefeituras mais remotas nas quais a falta de médicos é crônica já oferecem há tempos um salário bem acima da média do mercado. Se nem assim conseguem atrair e reter o profissional, é porque o problema não está restrito a vencimentos. O médico não fica porque as condições de trabalho ali são precaríssimas.
Os cubanos até poderão resistir por mais tempo nessa situação, mas, se nada for feito para resolver as dificuldades estruturais, estaremos apenas fingindo que oferecemos um atendimento decente. A substituição da mão de obra local por um exército de reserva, se é lícito utilizar o vocabulário marxista, não passa de um paliativo.
A grita contra os cubanos, contudo, é em larga medida uma reação corporativista. Mesmo que eles não tenham uma formação comparável à dos brasileiros, num raciocínio bem consequencialista, é melhor para o sujeito que procura um serviço de saúde ser atendido por alguém que tenha algum conhecimento do que ficar sem assistência nenhuma.
Cabe ainda perguntar quais seriam os resultados se os médicos brasileiros fossem submetidos à mesma prova que fazem os estrangeiros que tentam validar seu diploma. Os números do último exame do Cremesp não autorizam muito otimismo.
No mais, associações e conselhos médicos insistem na tese de que o Brasil já tem mais profissionais do que precisa sem nunca tê-la demonstrado. É natural que entidades de classe digam isso. O governo deve ouvir seus argumentos, mas não necessariamente atender a seus pleitos.
O grande debate - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 15/05
Na visão do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, aceitar os "embargos infringentes" na Ação Penal 470, a do mensalão, seria gesto "gracioso, inventivo, ad hoc, magnânimo", mas "absolutamente ilegal". Essa definição, feita ao rejeitar o pedido da defesa do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, abre uma discussão que o STF vai ter de enfrentar nos próximos dias, quando o assunto for levado ao plenário.
É uma questão que deveria ter sido objeto de análise desde que a Constituição de 1988, e posteriormente a Lei 8.038, que regulamenta os procedimentos nos tribunais superiores, deixou de prever a figura dos "embargos infringentes". Mas eles continuaram constando do Regimento Interno, e, com base nisso, há juristas que entendem que os "embargos infringentes" devem ser acatados pelo Supremo. Mais que isso, um dos ministros da Casa, o decano Celso de Mello, já antecipou sua posição no próprio julgamento do mensalão, que está registrada no acórdão: "Não obstante a superveniente edição da Lei nº 8.038/90, ainda subsiste, com força de lei, a regra consubstanciada no artigo 333, parágrafo I, do Regimento Interno do STF, plenamente compatível com a nova ordem ritual estabelecida para os processos penais originários instaurados perante o STF."
O que o presidente Joaquim Barbosa considera "criar ou ressuscitar vias recursais não previstas no ordenamento jurídico brasileiro", para o ministro Celso de Mello, os embargos infringentes permitiriam "a concretização, no âmbito do STF, do postulado do duplo reexame, que torna pleno o respeito ao direito consagrado". O decano do STF ainda afirmou que com os embargos infringentes "serão excluídos da distribuição o relator e o revisor, o que permitirá, até mesmo, uma nova visão sobre o litígio penal".
Há ainda uma aparente contradição na Procuradoria Geral da República, que será aproveitada pelas defesas dos réus que querem, através dos "embargos infringentes", reduzir suas penas. Em ação penal aberta contra o ex-prefeito de Caucaia, no Ceará, José Gerardo Oliveira de Arruda Filho, a subprocuradora-geral Claudia Sampaio Marques afirmou que não eram cabíveis "embargos infringentes" quando não houver quatro votos divergentes pela absolvição do acusado. A aprovação do procurador-geral, Roberto Gurgel, está sendo entendida como uma concordância com a tese, que implicaria a aceitação dos "embargos infringentes" quando houver quatro votos a favor dos réus. Com relação ao mensalão, Gurgel declarou que "os infringentes são manifestadamente inadmissíveis".
Há juristas, como o professor de Direito da USP Antonio Scarence Fernandes, em entrevista ao "O Estado de S.Paulo", que entendem que há necessidade de haver um duplo grau de jurisdição. Segundo ele, a própria Convenção Americana de Direitos Humanos prevê que ninguém poderá ser julgado apenas uma vez.
Já o procurador de Justiça no Rio Grande do Sul Lenio Luiz Streck, respeitado constitucionalista, tem opinião diversa, já registrada aqui na coluna. Para ele, esses embargos infringentes previstos apenas no Regimento Interno do STF, ignorados pela Lei 8.038, "parecem esvaziados da característica de recurso. Logo, em face de tais alterações, já não estaríamos em face de um ´recurso de embargos infringentes´, mas, sim, apenas em face de um ´pedido de reconsideração´, incabível na espécie".
Para Streck, não parece ser um bom argumento dizer que os embargos infringentes se mantêm em face do "princípio" do duplo grau de jurisdição. Para ele, o foro privilegiado acarreta julgamento sempre por um amplo colegiado, que é efetivamente o juiz natural da lide. "Há garantia maior em uma República do que ser julgado pelo Tribunal maior, em sua composição plena? Não é para ele, o STF, que fluem todos os recursos extremos?", argumenta.
Esse será o próximo grande debate no Supremo Tribunal Federal e, segundo o seu presidente, Joaquim Barbosa, "admitirem-se embargos infringentes no caso é, em última análise, apenas uma forma de eternizar o feito, o que seguramente conduzirá ao descrédito a Justiça brasileira, costumeira e corretamente criticada justamente pelas infindáveis possibilidades de ataques às suas decisões".
Na visão do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, aceitar os "embargos infringentes" na Ação Penal 470, a do mensalão, seria gesto "gracioso, inventivo, ad hoc, magnânimo", mas "absolutamente ilegal". Essa definição, feita ao rejeitar o pedido da defesa do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, abre uma discussão que o STF vai ter de enfrentar nos próximos dias, quando o assunto for levado ao plenário.
É uma questão que deveria ter sido objeto de análise desde que a Constituição de 1988, e posteriormente a Lei 8.038, que regulamenta os procedimentos nos tribunais superiores, deixou de prever a figura dos "embargos infringentes". Mas eles continuaram constando do Regimento Interno, e, com base nisso, há juristas que entendem que os "embargos infringentes" devem ser acatados pelo Supremo. Mais que isso, um dos ministros da Casa, o decano Celso de Mello, já antecipou sua posição no próprio julgamento do mensalão, que está registrada no acórdão: "Não obstante a superveniente edição da Lei nº 8.038/90, ainda subsiste, com força de lei, a regra consubstanciada no artigo 333, parágrafo I, do Regimento Interno do STF, plenamente compatível com a nova ordem ritual estabelecida para os processos penais originários instaurados perante o STF."
O que o presidente Joaquim Barbosa considera "criar ou ressuscitar vias recursais não previstas no ordenamento jurídico brasileiro", para o ministro Celso de Mello, os embargos infringentes permitiriam "a concretização, no âmbito do STF, do postulado do duplo reexame, que torna pleno o respeito ao direito consagrado". O decano do STF ainda afirmou que com os embargos infringentes "serão excluídos da distribuição o relator e o revisor, o que permitirá, até mesmo, uma nova visão sobre o litígio penal".
Há ainda uma aparente contradição na Procuradoria Geral da República, que será aproveitada pelas defesas dos réus que querem, através dos "embargos infringentes", reduzir suas penas. Em ação penal aberta contra o ex-prefeito de Caucaia, no Ceará, José Gerardo Oliveira de Arruda Filho, a subprocuradora-geral Claudia Sampaio Marques afirmou que não eram cabíveis "embargos infringentes" quando não houver quatro votos divergentes pela absolvição do acusado. A aprovação do procurador-geral, Roberto Gurgel, está sendo entendida como uma concordância com a tese, que implicaria a aceitação dos "embargos infringentes" quando houver quatro votos a favor dos réus. Com relação ao mensalão, Gurgel declarou que "os infringentes são manifestadamente inadmissíveis".
Há juristas, como o professor de Direito da USP Antonio Scarence Fernandes, em entrevista ao "O Estado de S.Paulo", que entendem que há necessidade de haver um duplo grau de jurisdição. Segundo ele, a própria Convenção Americana de Direitos Humanos prevê que ninguém poderá ser julgado apenas uma vez.
Já o procurador de Justiça no Rio Grande do Sul Lenio Luiz Streck, respeitado constitucionalista, tem opinião diversa, já registrada aqui na coluna. Para ele, esses embargos infringentes previstos apenas no Regimento Interno do STF, ignorados pela Lei 8.038, "parecem esvaziados da característica de recurso. Logo, em face de tais alterações, já não estaríamos em face de um ´recurso de embargos infringentes´, mas, sim, apenas em face de um ´pedido de reconsideração´, incabível na espécie".
Para Streck, não parece ser um bom argumento dizer que os embargos infringentes se mantêm em face do "princípio" do duplo grau de jurisdição. Para ele, o foro privilegiado acarreta julgamento sempre por um amplo colegiado, que é efetivamente o juiz natural da lide. "Há garantia maior em uma República do que ser julgado pelo Tribunal maior, em sua composição plena? Não é para ele, o STF, que fluem todos os recursos extremos?", argumenta.
Esse será o próximo grande debate no Supremo Tribunal Federal e, segundo o seu presidente, Joaquim Barbosa, "admitirem-se embargos infringentes no caso é, em última análise, apenas uma forma de eternizar o feito, o que seguramente conduzirá ao descrédito a Justiça brasileira, costumeira e corretamente criticada justamente pelas infindáveis possibilidades de ataques às suas decisões".
MP Titanic - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 15/05
Notícias sobre a liberação de emendas parlamentares em troca da votação da MP dos Portos servirão para acelerar a proposta de aprovar a liberação automática desses recursos. Os partidos estão cansados de ficar à mercê da vontade do Planalto
A forma com que o governo negociou a medida provisória que fixou o novo marco regulatório dos portos serviu para acelerar algo que o Planalto não quer ouvir falar: a proposta que torna automática a execução de emendas de deputados e senadores ao Orçamento da União. Assim, na avaliação dos políticos, estaria dispensado esse “apelo” para que os deputados votassem favoravelmente os projetos do Poder Executivo.
O Orçamento impositivo é desejo antigo dos congressistas, mas, dada a falta de recursos para executar tudo e a vontade do Executivo em controlar os gastos — e sua base política — na boca do caixa, esse sonho jamais saiu do papel. Agora, entretanto, Dilma parece ter conseguido um consenso: não há um só partido contra a liberação automática das emendas.
No mais, apesar das perspectivas de acordo para tentar concluir a votação da medida provisória na madrugada de hoje, a história da negociação dessa MP é de naufrágio. Naufrágio do modo de negociação por parte do governo. Em administrações anteriores, não foram raras as vezes em que o Planalto chamou a oposição e fez acordos de mérito, dando aos oposicionistas um certo ar de vitória, de forma a dispensar os pedidos mais exacerbados por parte da própria base. Nessa temporada governamental, entretanto, a oposição simplesmente é esquecida. Em nenhum momento foi chamada a discutir a proposta de forma transparente.
No plenário da Câmara, o que se viu foi um deputado chamando o outro do “chefe de quadrilha” para cima, como fez ontem o líder do DEM na Câmara, deputado Ronaldo Caiado (GO) ao se referir ao do PR, Anthony Garotinho (RJ). Isso sem contar o deputado Toninho Pinheiro, de Minas Gerais, que atravessou em frente à mesa principal da Câmara munido de uma faixa reclamando mais recursos para a saúde. Saiu à força e sob os gritos “Se me cassarem não tô nem aí, não sou mensaleiro”. Ao fundo outro dizia “Isso aqui virou um circo e os palhaços somos nós”. Triste, muito triste. Ou Dilma, a partir de agora, põe a bola no chão e passa a se antecipar os problemas, ou todos os dias serão assim. Ruim para todos.
Enquanto isso, no plenário do Senado...
Entre os senadores, embora o Orçamento impositivo seja considerado ponto de honra da mesma forma que na Câmara, a MP dos Portos tem mais apoio porque, ali, a intenção do líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE), é prestigiar o relator, Eduardo Braga (PMDB-AM). Mas o sucesso é incerto. Embora a sessão de ontem tenha sido prorrogada até a meia-noite para garantir a leitura da MP a fim de votar a proposta ainda hoje ou na quinta-feira, as dúvidas persistem.
PP, PSDB e DEM não pretendem votar a matéria. “Depois do que aconteceu na Câmara, não podemos votar essa matéria. Criou-se uma ideia de negociata. O assunto é urgente, mas é preciso discutir o projeto, às claras e com transparência”, defende a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). O ex-presidente do partido, Francisco Dornelles, é da mesma opinião. E, da parte do PMDB, a maioria não é segura. “Eu não voto esse assunto!”, bradava o senador Roberto Requião (PMDB-PR).
Pelo andar da carruagem, os próximos capítulos da medida provisória indicam que só um milagre salvará o governo de um naufrágio total nesse tema. Não por acaso o comentarista José Simão apelidou ontem no rádio a proposta do governo de MP Titanic. Com o navio, não houve tempo de operar milagre. Hoje, saberemos se ainda haverá esse recurso para a Medida Provisória. Talvez, o milagre seja mesmo transformar em projeto de lei e seguir o velho conselho que recomenda “muita calma nessa hora”.
E na Comissão Mista de Orçamento...
Quem estava feliz da vida pelos corredores da Câmara era o deputado Danilo Forte, do PMDB do Ceará. Ele ontem virou relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), como parte do acordo para o PMDB levantar a obstrução e votar a MP dos Portos. Mas nem ele deixou de reclamar: “O governo mais uma vez demonstrou dificuldade na articulação política. Se tivesse fechado esse acordo na semana passada, teria dado mais tempo ao Senado. Agora, o resultado é incerto”, diz ele. E o futuro também.
Notícias sobre a liberação de emendas parlamentares em troca da votação da MP dos Portos servirão para acelerar a proposta de aprovar a liberação automática desses recursos. Os partidos estão cansados de ficar à mercê da vontade do Planalto
A forma com que o governo negociou a medida provisória que fixou o novo marco regulatório dos portos serviu para acelerar algo que o Planalto não quer ouvir falar: a proposta que torna automática a execução de emendas de deputados e senadores ao Orçamento da União. Assim, na avaliação dos políticos, estaria dispensado esse “apelo” para que os deputados votassem favoravelmente os projetos do Poder Executivo.
O Orçamento impositivo é desejo antigo dos congressistas, mas, dada a falta de recursos para executar tudo e a vontade do Executivo em controlar os gastos — e sua base política — na boca do caixa, esse sonho jamais saiu do papel. Agora, entretanto, Dilma parece ter conseguido um consenso: não há um só partido contra a liberação automática das emendas.
No mais, apesar das perspectivas de acordo para tentar concluir a votação da medida provisória na madrugada de hoje, a história da negociação dessa MP é de naufrágio. Naufrágio do modo de negociação por parte do governo. Em administrações anteriores, não foram raras as vezes em que o Planalto chamou a oposição e fez acordos de mérito, dando aos oposicionistas um certo ar de vitória, de forma a dispensar os pedidos mais exacerbados por parte da própria base. Nessa temporada governamental, entretanto, a oposição simplesmente é esquecida. Em nenhum momento foi chamada a discutir a proposta de forma transparente.
No plenário da Câmara, o que se viu foi um deputado chamando o outro do “chefe de quadrilha” para cima, como fez ontem o líder do DEM na Câmara, deputado Ronaldo Caiado (GO) ao se referir ao do PR, Anthony Garotinho (RJ). Isso sem contar o deputado Toninho Pinheiro, de Minas Gerais, que atravessou em frente à mesa principal da Câmara munido de uma faixa reclamando mais recursos para a saúde. Saiu à força e sob os gritos “Se me cassarem não tô nem aí, não sou mensaleiro”. Ao fundo outro dizia “Isso aqui virou um circo e os palhaços somos nós”. Triste, muito triste. Ou Dilma, a partir de agora, põe a bola no chão e passa a se antecipar os problemas, ou todos os dias serão assim. Ruim para todos.
Enquanto isso, no plenário do Senado...
Entre os senadores, embora o Orçamento impositivo seja considerado ponto de honra da mesma forma que na Câmara, a MP dos Portos tem mais apoio porque, ali, a intenção do líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE), é prestigiar o relator, Eduardo Braga (PMDB-AM). Mas o sucesso é incerto. Embora a sessão de ontem tenha sido prorrogada até a meia-noite para garantir a leitura da MP a fim de votar a proposta ainda hoje ou na quinta-feira, as dúvidas persistem.
PP, PSDB e DEM não pretendem votar a matéria. “Depois do que aconteceu na Câmara, não podemos votar essa matéria. Criou-se uma ideia de negociata. O assunto é urgente, mas é preciso discutir o projeto, às claras e com transparência”, defende a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS). O ex-presidente do partido, Francisco Dornelles, é da mesma opinião. E, da parte do PMDB, a maioria não é segura. “Eu não voto esse assunto!”, bradava o senador Roberto Requião (PMDB-PR).
Pelo andar da carruagem, os próximos capítulos da medida provisória indicam que só um milagre salvará o governo de um naufrágio total nesse tema. Não por acaso o comentarista José Simão apelidou ontem no rádio a proposta do governo de MP Titanic. Com o navio, não houve tempo de operar milagre. Hoje, saberemos se ainda haverá esse recurso para a Medida Provisória. Talvez, o milagre seja mesmo transformar em projeto de lei e seguir o velho conselho que recomenda “muita calma nessa hora”.
E na Comissão Mista de Orçamento...
Quem estava feliz da vida pelos corredores da Câmara era o deputado Danilo Forte, do PMDB do Ceará. Ele ontem virou relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), como parte do acordo para o PMDB levantar a obstrução e votar a MP dos Portos. Mas nem ele deixou de reclamar: “O governo mais uma vez demonstrou dificuldade na articulação política. Se tivesse fechado esse acordo na semana passada, teria dado mais tempo ao Senado. Agora, o resultado é incerto”, diz ele. E o futuro também.
O lobby no Congresso - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 15/05
BRASÍLIA - O lobby melífluo no Congresso está pagando a conta da conturbada votação da MP dos Portos. Essa é uma verdade parcial.
Os empresários com interesses no sistema atual de concessão dos portos atuaram nas últimas semanas. Mas foram beneficiados pelo clima de tocaia formado há algum tempo no baixo clero -duas ou três centenas de deputados pouco conhecidos, uma vez classificados por Lula como "300 picaretas com anel de doutor".
Esses deputados nunca são atendidos no Planalto. Não têm contato com os grandes empresários por trás das pressões e contrapressões no jogo da MP dos Portos. O que esses políticos conhecem muito bem é o nome e o sobrenome dos seus colegas com acesso ao poder, aqueles cardeais convidados para reuniões demoradas com ministros.
Foi o que se passou nesta semana. O líder do PMDB na Câmara, o deputado fluminense Eduardo Cunha, foi chamado para discutir a MP dos Portos com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. O governo fez o certo, só que na última hora. "Não quiseram conversar nada antes", diz ele.
Aos olhos do baixo clero, Cunha é um herói. Conseguiu ser recebido pelo poderoso Palácio do Planalto em meio ao tumulto atual.
E onde entra o lobby? Os representantes de empresas interessadas em influir na redação final da MP dos Portos instruem seus prepostos a galvanizar a seu favor a insatisfação do baixo clero. Essa massa disforme de congressistas ouve um bom argumento: esta é a hora de vocês mostrarem que merecem respeito. Em bom português, ganhar um dinheirinho das verbas do Orçamento.
Para uma parcela da oposição, falta ao governo um projeto nacional para engajar os congressistas. Parvoíce pura. FHC e Lula conseguiram suas principais vitórias na base da fisiologia. Ruborizada, Dilma segue a mesma cartilha. Fica só com o ônus. É a fisiologia sem resultado, um festim pantagruélico dos lobistas.
BRASÍLIA - O lobby melífluo no Congresso está pagando a conta da conturbada votação da MP dos Portos. Essa é uma verdade parcial.
Os empresários com interesses no sistema atual de concessão dos portos atuaram nas últimas semanas. Mas foram beneficiados pelo clima de tocaia formado há algum tempo no baixo clero -duas ou três centenas de deputados pouco conhecidos, uma vez classificados por Lula como "300 picaretas com anel de doutor".
Esses deputados nunca são atendidos no Planalto. Não têm contato com os grandes empresários por trás das pressões e contrapressões no jogo da MP dos Portos. O que esses políticos conhecem muito bem é o nome e o sobrenome dos seus colegas com acesso ao poder, aqueles cardeais convidados para reuniões demoradas com ministros.
Foi o que se passou nesta semana. O líder do PMDB na Câmara, o deputado fluminense Eduardo Cunha, foi chamado para discutir a MP dos Portos com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. O governo fez o certo, só que na última hora. "Não quiseram conversar nada antes", diz ele.
Aos olhos do baixo clero, Cunha é um herói. Conseguiu ser recebido pelo poderoso Palácio do Planalto em meio ao tumulto atual.
E onde entra o lobby? Os representantes de empresas interessadas em influir na redação final da MP dos Portos instruem seus prepostos a galvanizar a seu favor a insatisfação do baixo clero. Essa massa disforme de congressistas ouve um bom argumento: esta é a hora de vocês mostrarem que merecem respeito. Em bom português, ganhar um dinheirinho das verbas do Orçamento.
Para uma parcela da oposição, falta ao governo um projeto nacional para engajar os congressistas. Parvoíce pura. FHC e Lula conseguiram suas principais vitórias na base da fisiologia. Ruborizada, Dilma segue a mesma cartilha. Fica só com o ônus. É a fisiologia sem resultado, um festim pantagruélico dos lobistas.
Abismo logístico - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 15/05
Não há bravata nacional-desenvolvimentista que resista à frieza dos números. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que há um abismo a separar o Brasil de seus principais competidores no mercado internacional no que diz respeito à infraestrutura de transportes.
Já se sabia que a precariedade da malha de transportes era um dos principais nós do sistema produtivo nacional Com o estudo, porém, a Fiesp conseguiu demonstrar o tamanho real do problema, e o resultado é algo que nem mesmo o mais convicto propagandista do governo será capaz de negar ou desmentir. A pesquisa indica que o nível de desempenho da infraestrutura de transportes no Brasil é equivalente a apenas 33% do verificado nos países que são considerados modelos em logística, isso significa que o País teria de triplicar sua performance nessa área para competir em condições de igualdade com seus principais concorrentes.
Para chegar a essa espantosa mensuração, a Fiesp criou o índice de Desempenho Comparado da Infraestrutura de Transportes (IDT), que se calcula a partir de dados das 50 maiores regiões metropolitanas, usando 18 indicadores. No melhor dos casos, o da malha rodoviária, há uma média de 2,5 quilômetros por 10 mil habitantes, proporção 43% inferior ao padrão considerado de excelência internacional, que é de cerca de 4,8 quilômetros por 10 mil habitantes. A Fiesp estima que, desde o ano 2000, o déficit em relação ao nível ideal não mudou significativamente, estando sempre por volta de 50%.
Portanto, mesmo com toda a fanfarronice midiática dos últimos anos a respeito do potencial competitivo do Brasil sob a administração petista, que incluiu iniciativas com nomenclaturas grandiloquentes - como o "Programa de Aceleração do Crescimento", cuja primeira etapa foi administrada pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff -, o fato é que o Brasil permanece estagnado num setor vital para seu pleno desenvolvimento, pois de nada adianta melhorar e ampliar a produção se não é possível distribuí-la.
Para conseguir fazer chegar sua mercadoria ao comprador, o produtor paga um frete rodoviário de US$ 51,75 para cada mil toneladas por quilômetro, segundo calcula a Fiesp. Trata-se de um valor 270% maior do que a média verificada nos países mais competitivos. Em alguns casos, como o da soja de Mato Grosso, metade da produção destina-se ao pagamento de frete, um óbvio despropósito. O custo para levar um contêiner até o ponto de onde será exportado é, no Brasil, de cerca de US$ 1.800, enquanto a média de excelência é de US$ 621.
No caso das hidrovías, a capacidade nacional corresponde a apenas 21% do padrão
mais alto, embora elas sejam uma solução óbvia para transportar a produção do Centro-Oeste para-os portos do Norte sem a necessidade de enfrentar as longas distâncias, por terra, para chegar aos terminais do Sul e do Sudeste. Já o desempenho da malha ferroviária corresponde a 20% do verificado entre os grandes competidores internacionais, com frete quase 16 vezes superior ao padrão de excelência.
Além disso, a extensão das ferrovias nacionais está 93% abaixo do ideal. Nessa área, a inépcia atravessa gerações, e seu maior símbolo é a Ferrovia Norte-Sul, que está em construção desde 1987, teve seu valor reajustado 17 vezes e notabilizou-se pelo acúmulo de irregularidades.
Nos aeroportos, a situação é igualmente dramática. O tempo de liberação de mercadorias nos terminais da Infraero chega a 3.200 minutos, enquanto o padrão de excelência é de 324 minutos.
"Temos muito a fazer", disse o diretor do Departamento de Infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti, resumindo bem o desafio que se impõe ao País. Tarefa ainda mais dura quando se leva em conta que o Mistério dos Transportes, crucial para seu sucesso, é objeto de barganha fisiológica para a manutenção do "presidencialismo de coalizão" petista, um sinal de que os obstáculos para o desenvolvimento nacional não se limitam aos buracos nas estradas.
Já se sabia que a precariedade da malha de transportes era um dos principais nós do sistema produtivo nacional Com o estudo, porém, a Fiesp conseguiu demonstrar o tamanho real do problema, e o resultado é algo que nem mesmo o mais convicto propagandista do governo será capaz de negar ou desmentir. A pesquisa indica que o nível de desempenho da infraestrutura de transportes no Brasil é equivalente a apenas 33% do verificado nos países que são considerados modelos em logística, isso significa que o País teria de triplicar sua performance nessa área para competir em condições de igualdade com seus principais concorrentes.
Para chegar a essa espantosa mensuração, a Fiesp criou o índice de Desempenho Comparado da Infraestrutura de Transportes (IDT), que se calcula a partir de dados das 50 maiores regiões metropolitanas, usando 18 indicadores. No melhor dos casos, o da malha rodoviária, há uma média de 2,5 quilômetros por 10 mil habitantes, proporção 43% inferior ao padrão considerado de excelência internacional, que é de cerca de 4,8 quilômetros por 10 mil habitantes. A Fiesp estima que, desde o ano 2000, o déficit em relação ao nível ideal não mudou significativamente, estando sempre por volta de 50%.
Portanto, mesmo com toda a fanfarronice midiática dos últimos anos a respeito do potencial competitivo do Brasil sob a administração petista, que incluiu iniciativas com nomenclaturas grandiloquentes - como o "Programa de Aceleração do Crescimento", cuja primeira etapa foi administrada pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff -, o fato é que o Brasil permanece estagnado num setor vital para seu pleno desenvolvimento, pois de nada adianta melhorar e ampliar a produção se não é possível distribuí-la.
Para conseguir fazer chegar sua mercadoria ao comprador, o produtor paga um frete rodoviário de US$ 51,75 para cada mil toneladas por quilômetro, segundo calcula a Fiesp. Trata-se de um valor 270% maior do que a média verificada nos países mais competitivos. Em alguns casos, como o da soja de Mato Grosso, metade da produção destina-se ao pagamento de frete, um óbvio despropósito. O custo para levar um contêiner até o ponto de onde será exportado é, no Brasil, de cerca de US$ 1.800, enquanto a média de excelência é de US$ 621.
No caso das hidrovías, a capacidade nacional corresponde a apenas 21% do padrão
mais alto, embora elas sejam uma solução óbvia para transportar a produção do Centro-Oeste para-os portos do Norte sem a necessidade de enfrentar as longas distâncias, por terra, para chegar aos terminais do Sul e do Sudeste. Já o desempenho da malha ferroviária corresponde a 20% do verificado entre os grandes competidores internacionais, com frete quase 16 vezes superior ao padrão de excelência.
Além disso, a extensão das ferrovias nacionais está 93% abaixo do ideal. Nessa área, a inépcia atravessa gerações, e seu maior símbolo é a Ferrovia Norte-Sul, que está em construção desde 1987, teve seu valor reajustado 17 vezes e notabilizou-se pelo acúmulo de irregularidades.
Nos aeroportos, a situação é igualmente dramática. O tempo de liberação de mercadorias nos terminais da Infraero chega a 3.200 minutos, enquanto o padrão de excelência é de 324 minutos.
"Temos muito a fazer", disse o diretor do Departamento de Infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti, resumindo bem o desafio que se impõe ao País. Tarefa ainda mais dura quando se leva em conta que o Mistério dos Transportes, crucial para seu sucesso, é objeto de barganha fisiológica para a manutenção do "presidencialismo de coalizão" petista, um sinal de que os obstáculos para o desenvolvimento nacional não se limitam aos buracos nas estradas.
Uma missão de todos - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 15/05
Recolocar em debate a questão do mar territorial exigirá atenção e união de nossos deputados e senadores, e também do governo estadual e de todas as demais instituições
Embalado pelo debate nacional sobre a destinação exclusiva dos royalties da exploração do petróleo do pré-sal em favor da educação, há outro tema, paralelo ao primeiro, e que interessa diretamente ao Paraná, e sobre o qual este jornal, por incontáveis vezes, já fixou sua firme posição. Referimo-nos à questão dos limites do mar territorial correspondente a cada estado litorâneo, que precisam ser urgentemente redefinidos, de modo a que não apenas se faça justiça técnica ao Paraná, como nos assegure, ao mesmo tempo, maior participação nos frutos que advirão da extração do óleo das camadas oceânicas mais profundas.
A Medida Provisória 592 destinando os royalties do pré-sal para a educação, expirada no dia 12 de maio, continha um artigo que previa a revisão dos critérios de confrontação de estados e municípios com poços produtores de petróleo no mar. Com a perda da validade da MP, será necessário abrir a discussão através de outras frentes. A atual legislação, de 1986, que fixou os limites do mar territorial, praticamente excluiu o Paraná da possibilidade de vir a se beneficiar dos royalties resultantes da exploração. Valendo-se de questionável critério de linhas geodésicas, oblíquas, fixadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o dispositivo legal demarca como sendo do Paraná um exíguo “triângulo” cujo vértice pouco avança sobre o mar – e o mantém à distância das fantásticas reservas já conhecidas do pré-sal.
Há necessidade de se estabelecer o simples bom senso na divisão do mar territorial. E o bom senso aponta como solução óbvia a definição de duas linhas paralelas a partir dos pontos extremos do litoral paranaense. O que significa que o retângulo assim formado incluirá parte do Campo de Tupi, hoje “pertencente” ao estado de São Paulo. Suas reservas estão estimadas entre 5 bilhões a 8 bilhões de barris, com potencial para gerar cerca de R$ 2 bilhões anuais em royalties para o nosso estado a partir de 2022.
Trata-se de uma questão que exige atenção e união não apenas dos nossos deputados e senadores em defesa da necessária mudança, mas também do governo estadual e de todas as demais instituições com liderança, tais como o Movimento Pró-Paraná e nossas federações e associações empresariais e de trabalhadores. Exige-se de todos um trabalho político concatenado e objetivo – pois nada se conseguirá se não forem vencidas as compreensíveis resistências dos estados ditos “produtores” de petróleo – pois na mesma medida em que o Paraná conseguir expandir seu mar territorial, outros estados perderão.
Estamos diante, pois, de um conflito de interesses entre estados, mas que pode (e deve) ser superado politicamente, desde que o Paraná conduza o debate tanto no plano técnico – que é o que mais lhe favorece – quanto no plano político. Nesse sentido já se pronunciou o novo coordenador da bancada parlamentar paranaense no Congresso, o deputado federal Marcelo Almeida, que se mostrou disposto a fazer a interlocução e a dar efetividade não só a essa como a todas as demais reivindicações que digam respeito aos interesses do Paraná e que dependam do trâmite congressual.
Acreditamos ser possível alcançarmos êxito nessa luta – uma questão que não se resume a fazer justiça “geográfica” ao Paraná, mas também em valorizar a posição de um estado que tanto contribui para o desenvolvimento do Brasil.
Recolocar em debate a questão do mar territorial exigirá atenção e união de nossos deputados e senadores, e também do governo estadual e de todas as demais instituições
Embalado pelo debate nacional sobre a destinação exclusiva dos royalties da exploração do petróleo do pré-sal em favor da educação, há outro tema, paralelo ao primeiro, e que interessa diretamente ao Paraná, e sobre o qual este jornal, por incontáveis vezes, já fixou sua firme posição. Referimo-nos à questão dos limites do mar territorial correspondente a cada estado litorâneo, que precisam ser urgentemente redefinidos, de modo a que não apenas se faça justiça técnica ao Paraná, como nos assegure, ao mesmo tempo, maior participação nos frutos que advirão da extração do óleo das camadas oceânicas mais profundas.
A Medida Provisória 592 destinando os royalties do pré-sal para a educação, expirada no dia 12 de maio, continha um artigo que previa a revisão dos critérios de confrontação de estados e municípios com poços produtores de petróleo no mar. Com a perda da validade da MP, será necessário abrir a discussão através de outras frentes. A atual legislação, de 1986, que fixou os limites do mar territorial, praticamente excluiu o Paraná da possibilidade de vir a se beneficiar dos royalties resultantes da exploração. Valendo-se de questionável critério de linhas geodésicas, oblíquas, fixadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o dispositivo legal demarca como sendo do Paraná um exíguo “triângulo” cujo vértice pouco avança sobre o mar – e o mantém à distância das fantásticas reservas já conhecidas do pré-sal.
Há necessidade de se estabelecer o simples bom senso na divisão do mar territorial. E o bom senso aponta como solução óbvia a definição de duas linhas paralelas a partir dos pontos extremos do litoral paranaense. O que significa que o retângulo assim formado incluirá parte do Campo de Tupi, hoje “pertencente” ao estado de São Paulo. Suas reservas estão estimadas entre 5 bilhões a 8 bilhões de barris, com potencial para gerar cerca de R$ 2 bilhões anuais em royalties para o nosso estado a partir de 2022.
Trata-se de uma questão que exige atenção e união não apenas dos nossos deputados e senadores em defesa da necessária mudança, mas também do governo estadual e de todas as demais instituições com liderança, tais como o Movimento Pró-Paraná e nossas federações e associações empresariais e de trabalhadores. Exige-se de todos um trabalho político concatenado e objetivo – pois nada se conseguirá se não forem vencidas as compreensíveis resistências dos estados ditos “produtores” de petróleo – pois na mesma medida em que o Paraná conseguir expandir seu mar territorial, outros estados perderão.
Estamos diante, pois, de um conflito de interesses entre estados, mas que pode (e deve) ser superado politicamente, desde que o Paraná conduza o debate tanto no plano técnico – que é o que mais lhe favorece – quanto no plano político. Nesse sentido já se pronunciou o novo coordenador da bancada parlamentar paranaense no Congresso, o deputado federal Marcelo Almeida, que se mostrou disposto a fazer a interlocução e a dar efetividade não só a essa como a todas as demais reivindicações que digam respeito aos interesses do Paraná e que dependam do trâmite congressual.
Acreditamos ser possível alcançarmos êxito nessa luta – uma questão que não se resume a fazer justiça “geográfica” ao Paraná, mas também em valorizar a posição de um estado que tanto contribui para o desenvolvimento do Brasil.
Trens atrasados - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 15/05
Tornaram-se rotineiros os atrasos em investimentos nas linhas de trens e metrô de São Paulo. Datas de inauguração de estações ou de renovação de equipamentos são descumpridas regularmente, como se não representassem compromissos com a população, mas apenas objetivos fictícios a serem postergados ao sabor das morosidades administrativas.
Os adiamentos -conforme noticiou-se nos últimos dias, com base em documentos do governo estadual- referem-se a aspectos essenciais para a ampliação e a modernização do sistema, como a oferta de energia, insuficiente para atender à crescente demanda.
No caso da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), contam-se 12 obras com atraso médio de um ano e oito meses.
No Metrô, o panorama não é mais animador. A modernização da frota da linha 3-vermelha, por exemplo, que deveria ter atingido 29 trens no ano passado, ficou em apenas sete -quadro semelhante ao que se verifica na linha 1-azul. Tampouco cumpriu-se o prazo da anunciada segunda fase da linha 4-amarela e da extensão da linha 5-lilás.
Outros casos poderiam ser listados, bem como a longa série de panes e falhas, que atrapalham a vida e ameaçam a segurança dos usuários desses transportes.
Não há dúvida de que a ampliação da rede e o vertiginoso aumento da quantidade de passageiros representam uma dificuldade a mais para os responsáveis pela gestão.
Entre outros fatores, a implementação do Bilhete Único e a relativa melhoria da qualidade do transporte sobre trilhos ajudaram a promover, entre 2006 e 2012, um salto de 63% no número de usuários na CPTM e de 44% no Metrô. Somadas, as malhas de trens metropolitanos conduzem cerca de 6,8 milhões de pessoas por dia.
Considerando-se o descaso com que o transporte público, em especial o ferroviário, foi tratado (no país e em São Paulo) em décadas anteriores, tem-se um cenário crítico, que exige esforço redobrado dos gestores. Além da necessidade de ampliar e modernizar o sistema em ritmo acelerado, é preciso não descurar da manutenção dos antigos e dos novos equipamentos.
O que se observa em São Paulo é uma preocupante dificuldade de cumprir a contento essas tarefas. Falta realismo ou acompanhamento mais acurado nos cronogramas -impressão acentuada pelo fato de que são os prazos estipulados pelo próprio governo que deixam de ser cumpridos.
Tornaram-se rotineiros os atrasos em investimentos nas linhas de trens e metrô de São Paulo. Datas de inauguração de estações ou de renovação de equipamentos são descumpridas regularmente, como se não representassem compromissos com a população, mas apenas objetivos fictícios a serem postergados ao sabor das morosidades administrativas.
Os adiamentos -conforme noticiou-se nos últimos dias, com base em documentos do governo estadual- referem-se a aspectos essenciais para a ampliação e a modernização do sistema, como a oferta de energia, insuficiente para atender à crescente demanda.
No caso da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), contam-se 12 obras com atraso médio de um ano e oito meses.
No Metrô, o panorama não é mais animador. A modernização da frota da linha 3-vermelha, por exemplo, que deveria ter atingido 29 trens no ano passado, ficou em apenas sete -quadro semelhante ao que se verifica na linha 1-azul. Tampouco cumpriu-se o prazo da anunciada segunda fase da linha 4-amarela e da extensão da linha 5-lilás.
Outros casos poderiam ser listados, bem como a longa série de panes e falhas, que atrapalham a vida e ameaçam a segurança dos usuários desses transportes.
Não há dúvida de que a ampliação da rede e o vertiginoso aumento da quantidade de passageiros representam uma dificuldade a mais para os responsáveis pela gestão.
Entre outros fatores, a implementação do Bilhete Único e a relativa melhoria da qualidade do transporte sobre trilhos ajudaram a promover, entre 2006 e 2012, um salto de 63% no número de usuários na CPTM e de 44% no Metrô. Somadas, as malhas de trens metropolitanos conduzem cerca de 6,8 milhões de pessoas por dia.
Considerando-se o descaso com que o transporte público, em especial o ferroviário, foi tratado (no país e em São Paulo) em décadas anteriores, tem-se um cenário crítico, que exige esforço redobrado dos gestores. Além da necessidade de ampliar e modernizar o sistema em ritmo acelerado, é preciso não descurar da manutenção dos antigos e dos novos equipamentos.
O que se observa em São Paulo é uma preocupante dificuldade de cumprir a contento essas tarefas. Falta realismo ou acompanhamento mais acurado nos cronogramas -impressão acentuada pelo fato de que são os prazos estipulados pelo próprio governo que deixam de ser cumpridos.
Mensalão recoloca STF em risco - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 15/05
O noticiário em torno dos desdobramentos jurídicos da condenação dos mensaleiros pelo Supremo transcorreu até agora em torno do alcance dos embargos, “infringentes” e/ou “declaratórios”, impetrados pela defesa. Termos herméticos, esses instrumentos jurídicos têm, na verdade, um alcance bastante amplo, por colocar em questão a própria imagem da mais alta Corte do país e do Poder Judiciário, revigorada pela demonstração de profissionalismo e independência — como estabelece a Constituição —, ao condenar poderosos atuantes na estrutura política que manda nos últimos onze anos em Brasília.
A defesa tem todo o direito de usar o arsenal que o emaranhado de leis da Justiça brasileira oferece. Ousadia pelo menos não falta a ela e clientes, pois até já foi defendido o afastamento do ministro Joaquim Barbosa da relatoria do processo, nesta fase final, pelo fato de ele ter assumido a presidência da Corte. Exemplo acabado de Jus esperniandi, na fronteira da provocação.
A decisão, anunciada segunda-feira por Joaquim Barbosa, de rejeitar embargos infringentes de Delúbio Soares, ex-caixa do PT, condenado a oito anos e 11 meses de prisão, abre esta rodada final do julgamento do mensalão. Dela a Corte pode sair desmoralizada se passar a ideia de que tudo não passou de uma encenação para, no final, livrar mensaleiros de maiores punições.
Barbosa foi firme ao rejeitar o recurso que pede para o réu ser novamente julgado. Caso contrário, será uma derrota para o Ministério Público, o relator e todos que votaram por alguma condenação num julgamento minucioso, técnico, tendo sido garantido amplo direito de defesa.
O caminho dos embargos infringentes será explorado por mensaleiros que obtiveram pelo menos quatro votos a favor em qualquer condenação. Entre eles, as figuras estreladas de José Dirceu, José Genoíno, João Paulo Cunha. Delúbio foi apenas o primeiro.
Joaquim Barbosa se alinha àqueles que consideram não existir mais a possibilidade de embargos infringentes, embora constem do regimento interno da Corte, de 1990. Sucede que a lei 8.038, posterior, deixou de prever este tipo de recurso ao tribunal. É possível, apenas, o “embargo declaratório”, para tirar dúvidas de interpretação do acórdão, mesmo assim a depender de aceitação do Pleno. O Ministério Público Federal (Procuradoria-Geral da República) já se colocou contrário à admissibilidade deste recurso, embora os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Levandowski tenham afirmado que mesmo os embargos de declaração podem levar à alteração de penas.
Caberá ao Pleno do STF decidir se acolhe a ideia de anular julgamentos. É imprescindível haver a consciência do que isso significará num processo que ajudou a consolidar o desenho republicano da democracia brasileira, com a devida independência entre Poderes e a Constituição acima dos interesses político-partidários ou quaisquer outros.
O noticiário em torno dos desdobramentos jurídicos da condenação dos mensaleiros pelo Supremo transcorreu até agora em torno do alcance dos embargos, “infringentes” e/ou “declaratórios”, impetrados pela defesa. Termos herméticos, esses instrumentos jurídicos têm, na verdade, um alcance bastante amplo, por colocar em questão a própria imagem da mais alta Corte do país e do Poder Judiciário, revigorada pela demonstração de profissionalismo e independência — como estabelece a Constituição —, ao condenar poderosos atuantes na estrutura política que manda nos últimos onze anos em Brasília.
A defesa tem todo o direito de usar o arsenal que o emaranhado de leis da Justiça brasileira oferece. Ousadia pelo menos não falta a ela e clientes, pois até já foi defendido o afastamento do ministro Joaquim Barbosa da relatoria do processo, nesta fase final, pelo fato de ele ter assumido a presidência da Corte. Exemplo acabado de Jus esperniandi, na fronteira da provocação.
A decisão, anunciada segunda-feira por Joaquim Barbosa, de rejeitar embargos infringentes de Delúbio Soares, ex-caixa do PT, condenado a oito anos e 11 meses de prisão, abre esta rodada final do julgamento do mensalão. Dela a Corte pode sair desmoralizada se passar a ideia de que tudo não passou de uma encenação para, no final, livrar mensaleiros de maiores punições.
Barbosa foi firme ao rejeitar o recurso que pede para o réu ser novamente julgado. Caso contrário, será uma derrota para o Ministério Público, o relator e todos que votaram por alguma condenação num julgamento minucioso, técnico, tendo sido garantido amplo direito de defesa.
O caminho dos embargos infringentes será explorado por mensaleiros que obtiveram pelo menos quatro votos a favor em qualquer condenação. Entre eles, as figuras estreladas de José Dirceu, José Genoíno, João Paulo Cunha. Delúbio foi apenas o primeiro.
Joaquim Barbosa se alinha àqueles que consideram não existir mais a possibilidade de embargos infringentes, embora constem do regimento interno da Corte, de 1990. Sucede que a lei 8.038, posterior, deixou de prever este tipo de recurso ao tribunal. É possível, apenas, o “embargo declaratório”, para tirar dúvidas de interpretação do acórdão, mesmo assim a depender de aceitação do Pleno. O Ministério Público Federal (Procuradoria-Geral da República) já se colocou contrário à admissibilidade deste recurso, embora os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Levandowski tenham afirmado que mesmo os embargos de declaração podem levar à alteração de penas.
Caberá ao Pleno do STF decidir se acolhe a ideia de anular julgamentos. É imprescindível haver a consciência do que isso significará num processo que ajudou a consolidar o desenho republicano da democracia brasileira, com a devida independência entre Poderes e a Constituição acima dos interesses político-partidários ou quaisquer outros.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Se aprovada essa MP, vamos apresentar uma CPI dos Portos”
Deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) sobre a negociata em torno da “MP dos Porcos”
JUSTIÇA CONDENA FARRA COM CARTÕES CORPORATIVOS
A juíza federal Vânia Hack de Almeida, de Porto Alegre, condenou o delegado Mauro Marcelo, diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) no primeiro governo Lula, e outros dez servidores (sete da Presidência da República), a devolver mais de R$ 2 milhões gastos em despesas ilegais e abusivas, com cartões corporativos, em bares e restaurantes, aluguéis de carro, medicamentos, compra de DVDs etc.
TARDA, MAS NÃO FALHA
A sentença decorre de ação popular movida em 2003 por Antonio Peni Beiriz, um advogado gaúcho indignado com a farra dos cartões.
OS EXCLUÍDOS
Dilma Rousseff, que era chefe da Casa Civil, e os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento) foram absolvidos.
RESSARCIMENTO
O ex-presidente do Incra Rolf Hackbart se livrou da condenação: devolveu os gastos abusivos com cartão de crédito pago pelo governo.
CARONA
O deputado Sandro Mabel (GO) cedeu avião para levar políticos à festa de filiação do empresário José Batista Jr, o Júnior, hoje, em Goiânia.
PMDB AGORA QUER FORÇAR ORÇAMENTO IMPOSITIVO
Após colocar a faca no pescoço do governo na Medida Provisória dos Portos, o PMDB liderado por Eduardo Cunha (RJ) tenta aliciar votos utilizando desta vez métodos mais republicanos. A ideia é apresentar uma proposta que soa como música aos ouvidos da base aliada: aprovar o “orçamento impositivo”, obrigando a presidente Dilma a liberar emendas parlamentares independentemente de negociação.
BICHO VAI PEGAR
Com descontentamento generalizado na Câmara, o PMDB garante já ter número suficiente para aprovar proposta de orçamento impositivo.
LOGO AGORA
O vice Michel Temer está desolado com a atuação de Eduardo Cunha na “MP dos Porcos”. Logo agora, quando se aproximara de Dilma...
COME NA MÃO
Apesar da pressão de Dilma, o PMDB não ousa enquadrar Eduardo Cunha, que tem fama de obter financiamento para muitas campanhas.
VALOR DO RATEIO
O Palácio do Planalto trabalha com a informação de que empresários do setor portuário “investiram” R$ 50 milhões para tentar desfigurar ou melar o texto original da MP dos Portos, para virar a “MP dos Porcos”.
SÃO UNS ARTISTAS
“Artistas” e palhaços não faltam, mas a Câmara dos Deputados realiza licitação para contratar “serviços de representações teatrais” em suas dependências, nos feriados, fins de semana e datas comemorativas.
DE MALA E CUIA
O ex-prefeito Luciano Agra se filiará ao PV para disputar o governo da Paraíba, após recusar convite do PT. Agra rompeu com o governador Ricardo Coutinho (PSB) alegando que ele não honra compromissos.
COM LOUVOR
O Estádio Nacional Mané Garrincha deixou embasbacados o ex-craque Ronaldo e Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, na inspeção de ontem. O Fenômeno disse que nunca viu nada melhor, mundo afora.
LIVRO DE REGISTRO
O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o antecessor José Sarney estiveram entre os que ligaram ao hospital Sírio-Libanês para saber do ex-governador do DF Joaquim Roriz, submetido a cirurgia no coração.
PROMESSA É DÍVIDA
O senador Lindbergh Farias garante que sua candidatura ao governo do Rio em 2014 está fechada com o ex-presidente Lula e com os candidatos ao comando nacional do PT, Rui Falcão e Paulo Teixeira.
AGENDA CHEIA
Em campanha pela presidência do PT, Paulo Teixeira (SP) viajou nas duas últimas semanas ao Rio, Espírito Santo, Florianópolis, Manaus e DF. Na sequência, irá para Salvador na sexta, e Curitiba, na segunda.
DOBRADINHA
O senador Cristovam Buarque e o deputado Antônio Reguffe pressionam a cúpula do PDT a lançar candidatura própria no DF. Eles acertaram apoio mútuo caso um dos dois dispute o governo em 2014.
PENSANDO BEM...
...é na troca de insultos, como a de ontem na Câmara dos Deputados, que os políticos finalmente falam a verdade.
PODER SEM PUDOR
RELAÇÕES IMPRÓPRIAS
Antes de virar uma espécie de zumbi, condenado como mensaleiro, o ex-presidente do PT José Genoino era um político bem-humorado, que procurava motivos para riso até em assuntos mais delicados. Quando o mundo se escandalizava com o caso do presidente americano com a estagiária Mônica Lewinski, e Bill Clinton admitia que mantivera com ela "relações impróprias", Genoino saiu-se com esta:
- Hillary (Clinton) deve ter lá também as suas relações impróprias. Do contrário, não conseguiria manter aquele sorriso no rosto...
Deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) sobre a negociata em torno da “MP dos Porcos”
JUSTIÇA CONDENA FARRA COM CARTÕES CORPORATIVOS
A juíza federal Vânia Hack de Almeida, de Porto Alegre, condenou o delegado Mauro Marcelo, diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) no primeiro governo Lula, e outros dez servidores (sete da Presidência da República), a devolver mais de R$ 2 milhões gastos em despesas ilegais e abusivas, com cartões corporativos, em bares e restaurantes, aluguéis de carro, medicamentos, compra de DVDs etc.
TARDA, MAS NÃO FALHA
A sentença decorre de ação popular movida em 2003 por Antonio Peni Beiriz, um advogado gaúcho indignado com a farra dos cartões.
OS EXCLUÍDOS
Dilma Rousseff, que era chefe da Casa Civil, e os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Paulo Bernardo (Planejamento) foram absolvidos.
RESSARCIMENTO
O ex-presidente do Incra Rolf Hackbart se livrou da condenação: devolveu os gastos abusivos com cartão de crédito pago pelo governo.
CARONA
O deputado Sandro Mabel (GO) cedeu avião para levar políticos à festa de filiação do empresário José Batista Jr, o Júnior, hoje, em Goiânia.
PMDB AGORA QUER FORÇAR ORÇAMENTO IMPOSITIVO
Após colocar a faca no pescoço do governo na Medida Provisória dos Portos, o PMDB liderado por Eduardo Cunha (RJ) tenta aliciar votos utilizando desta vez métodos mais republicanos. A ideia é apresentar uma proposta que soa como música aos ouvidos da base aliada: aprovar o “orçamento impositivo”, obrigando a presidente Dilma a liberar emendas parlamentares independentemente de negociação.
BICHO VAI PEGAR
Com descontentamento generalizado na Câmara, o PMDB garante já ter número suficiente para aprovar proposta de orçamento impositivo.
LOGO AGORA
O vice Michel Temer está desolado com a atuação de Eduardo Cunha na “MP dos Porcos”. Logo agora, quando se aproximara de Dilma...
COME NA MÃO
Apesar da pressão de Dilma, o PMDB não ousa enquadrar Eduardo Cunha, que tem fama de obter financiamento para muitas campanhas.
VALOR DO RATEIO
O Palácio do Planalto trabalha com a informação de que empresários do setor portuário “investiram” R$ 50 milhões para tentar desfigurar ou melar o texto original da MP dos Portos, para virar a “MP dos Porcos”.
SÃO UNS ARTISTAS
“Artistas” e palhaços não faltam, mas a Câmara dos Deputados realiza licitação para contratar “serviços de representações teatrais” em suas dependências, nos feriados, fins de semana e datas comemorativas.
DE MALA E CUIA
O ex-prefeito Luciano Agra se filiará ao PV para disputar o governo da Paraíba, após recusar convite do PT. Agra rompeu com o governador Ricardo Coutinho (PSB) alegando que ele não honra compromissos.
COM LOUVOR
O Estádio Nacional Mané Garrincha deixou embasbacados o ex-craque Ronaldo e Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, na inspeção de ontem. O Fenômeno disse que nunca viu nada melhor, mundo afora.
LIVRO DE REGISTRO
O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o antecessor José Sarney estiveram entre os que ligaram ao hospital Sírio-Libanês para saber do ex-governador do DF Joaquim Roriz, submetido a cirurgia no coração.
PROMESSA É DÍVIDA
O senador Lindbergh Farias garante que sua candidatura ao governo do Rio em 2014 está fechada com o ex-presidente Lula e com os candidatos ao comando nacional do PT, Rui Falcão e Paulo Teixeira.
AGENDA CHEIA
Em campanha pela presidência do PT, Paulo Teixeira (SP) viajou nas duas últimas semanas ao Rio, Espírito Santo, Florianópolis, Manaus e DF. Na sequência, irá para Salvador na sexta, e Curitiba, na segunda.
DOBRADINHA
O senador Cristovam Buarque e o deputado Antônio Reguffe pressionam a cúpula do PDT a lançar candidatura própria no DF. Eles acertaram apoio mútuo caso um dos dois dispute o governo em 2014.
PENSANDO BEM...
...é na troca de insultos, como a de ontem na Câmara dos Deputados, que os políticos finalmente falam a verdade.
PODER SEM PUDOR
RELAÇÕES IMPRÓPRIAS
Antes de virar uma espécie de zumbi, condenado como mensaleiro, o ex-presidente do PT José Genoino era um político bem-humorado, que procurava motivos para riso até em assuntos mais delicados. Quando o mundo se escandalizava com o caso do presidente americano com a estagiária Mônica Lewinski, e Bill Clinton admitia que mantivera com ela "relações impróprias", Genoino saiu-se com esta:
- Hillary (Clinton) deve ter lá também as suas relações impróprias. Do contrário, não conseguiria manter aquele sorriso no rosto...
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Modernização dos portos: Governo aprova base da reforma, mas MP pode cair
- Folha: Governo aprova texto principal da MP dos Portos
- Estadão: Câmara aprova texto-base da MP dos Portos após acordos
- Correio: O preço da coragem
- Valor: Leilão atrai investimentos de R$ 7 bilhões em petróleo
- Estado de Minas: Nem todas podem ser Angelina
- Jornal do Commercio: Exploração de petróleo ganha força no Estado
- Zero Hora: Preço do leite sobe 4% em uma semana
terça-feira, maio 14, 2013
Pedra no meio do caminho - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 14/05
Volta e meia surgem rumores, sempre negados pelos dois, diga-se de passagem, que Carlos Jereissati e Sergio Andrade querem vender sua participação na Oi.
Só que uma eventual venda teria que ser aceita pela Previ, também sócia. E o fundo de pensão do BB não quer se desfazer da telefônica.
Guerra é guerra
Dilma decidiu ir até o fim para a aprovação da MP dos Portos. Pediu a lista de todos os apadrinhados por Eduardo Cunha no governo.
Pelo menos dois vice-presidentes da Caixa são vinculados ao deputado que atrapalha a vitória do governo na Câmara: Geddel Vieira Lima e Fábio Ferreira Cleto.
Igreja Universal
O Senado vai mandar uma delegação de seis senadores para visita do Papa, inclusive os três do Rio.
Mas o senador Eduardo Lopes (suplente de Marcelo Crivella) cedeu sua vaga a um colega. É que ele é da Igreja Universal do Reino de Deus.
Boletim médico
Luis Favre, o publicitário franco-argentino que foi casado com Marta Suplicy, está internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
O seu estado inspira cuidado.
Não é nada, não é nada...
Com o anúncio da saída de Nelson Barbosa da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda, não há mais nenhum Nelson na cúpula do governo.
Antes já saíram Nelson Jobim, ministro da Defesa, e Nélson Hubner, da Aneel.
Aliás...
Para a vaga de Barbosa ainda não há definição. Mas deve ser alguém de fora do governo.
Samba, amor e carnaval
Paulinho da Viola está escrevendo uma música para o novo CD de sua filha, Beatriz Rabello.
Em “Samba, amor e carnaval”, Paulinho também fará uma participação especial.
Prosa simples
O livro “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre, ganhou elogios do site britânico Mail on line.
Diz o crítico que o autor tem uma prosa que parece simples, mas que transmite, com toda força, o horror do drama vivido pelos personagens.
Família Amorim
Mais um filho do ministro Celso Amorim investe no cinema.
Depois de Vicente, diretor de longas como “Corações sujos”, o caçula, Pedro Amorim, estreia no segundo semestre como diretor. Seu primeiro filme é “Mato sem cachorro”.
À boa mesa
Fernando Henrique Cardoso almoçou, semana passada, na casa do governador Sérgio Cabral, no Rio.
Infância marcada
O Juizado da Infância e da Juventude do Rio, depois de receber denúncias, constatou ontem que crianças e adolescentes sofreram graves agressões no Centro Municipal de Recepção Taiguara, no Centro.
O processo será encaminhado hoje ao Ministério Público.
Operação Cristo
A prefeitura vai modificar o acesso ao Cristo Redentor a partir do dia 21.
Além de fazer uma grande operação para retirar os cambistas, vai proibir a venda de ingressos na estação. Agora, os bilhetes serão comercializados pela internet, em casas lotéricas e na Caixa.
Segue...
A outra novidade, segundo o secretário Rodrigo Bethlem, é que haverá um transporte oficial no Largo do Machado e no Leblon, que levará os turistas até a estação.
Porta anticliente
A 4ª Câmara Cível do Rio condenou o banco Itaú a indenizar por danos morais, em R$ 5 mil, uma cliente.
A mulher foi impedida pelos seguranças de ingressar numa das agências do banco após a porta giratória apitar e travar.
Arraial do Rio
O São João Carioca, festão que Flora e Gilberto Gil organizam na Quinta da Boa Vista, está de mudança.
Será no Parque Madureira, na Zona Norte, no dia 29 de junho.
Faz sentido
O advogado Lucas Bittencourt Moreira telefonou, na tarde de ontem, para o Detran. Queria agendar a renovação de sua habilitação.
Depois de uns minutos de espera, ouviu a mensagem: “Libere o cruzamento, para que a sua mãe não seja lembrada pelos outros condutores.” É. Pode ser.
Só que uma eventual venda teria que ser aceita pela Previ, também sócia. E o fundo de pensão do BB não quer se desfazer da telefônica.
Guerra é guerra
Dilma decidiu ir até o fim para a aprovação da MP dos Portos. Pediu a lista de todos os apadrinhados por Eduardo Cunha no governo.
Pelo menos dois vice-presidentes da Caixa são vinculados ao deputado que atrapalha a vitória do governo na Câmara: Geddel Vieira Lima e Fábio Ferreira Cleto.
Igreja Universal
O Senado vai mandar uma delegação de seis senadores para visita do Papa, inclusive os três do Rio.
Mas o senador Eduardo Lopes (suplente de Marcelo Crivella) cedeu sua vaga a um colega. É que ele é da Igreja Universal do Reino de Deus.
Boletim médico
Luis Favre, o publicitário franco-argentino que foi casado com Marta Suplicy, está internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
O seu estado inspira cuidado.
Não é nada, não é nada...
Com o anúncio da saída de Nelson Barbosa da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda, não há mais nenhum Nelson na cúpula do governo.
Antes já saíram Nelson Jobim, ministro da Defesa, e Nélson Hubner, da Aneel.
Aliás...
Para a vaga de Barbosa ainda não há definição. Mas deve ser alguém de fora do governo.
Samba, amor e carnaval
Paulinho da Viola está escrevendo uma música para o novo CD de sua filha, Beatriz Rabello.
Em “Samba, amor e carnaval”, Paulinho também fará uma participação especial.
Prosa simples
O livro “Se eu fechar os olhos agora”, de Edney Silvestre, ganhou elogios do site britânico Mail on line.
Diz o crítico que o autor tem uma prosa que parece simples, mas que transmite, com toda força, o horror do drama vivido pelos personagens.
Família Amorim
Mais um filho do ministro Celso Amorim investe no cinema.
Depois de Vicente, diretor de longas como “Corações sujos”, o caçula, Pedro Amorim, estreia no segundo semestre como diretor. Seu primeiro filme é “Mato sem cachorro”.
À boa mesa
Fernando Henrique Cardoso almoçou, semana passada, na casa do governador Sérgio Cabral, no Rio.
Infância marcada
O Juizado da Infância e da Juventude do Rio, depois de receber denúncias, constatou ontem que crianças e adolescentes sofreram graves agressões no Centro Municipal de Recepção Taiguara, no Centro.
O processo será encaminhado hoje ao Ministério Público.
Operação Cristo
A prefeitura vai modificar o acesso ao Cristo Redentor a partir do dia 21.
Além de fazer uma grande operação para retirar os cambistas, vai proibir a venda de ingressos na estação. Agora, os bilhetes serão comercializados pela internet, em casas lotéricas e na Caixa.
Segue...
A outra novidade, segundo o secretário Rodrigo Bethlem, é que haverá um transporte oficial no Largo do Machado e no Leblon, que levará os turistas até a estação.
Porta anticliente
A 4ª Câmara Cível do Rio condenou o banco Itaú a indenizar por danos morais, em R$ 5 mil, uma cliente.
A mulher foi impedida pelos seguranças de ingressar numa das agências do banco após a porta giratória apitar e travar.
Arraial do Rio
O São João Carioca, festão que Flora e Gilberto Gil organizam na Quinta da Boa Vista, está de mudança.
Será no Parque Madureira, na Zona Norte, no dia 29 de junho.
Faz sentido
O advogado Lucas Bittencourt Moreira telefonou, na tarde de ontem, para o Detran. Queria agendar a renovação de sua habilitação.
Depois de uns minutos de espera, ouviu a mensagem: “Libere o cruzamento, para que a sua mãe não seja lembrada pelos outros condutores.” É. Pode ser.
Burgueses e artistas - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 14/05
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte. Eis o espírito de uma conhecida frase de Flaubert. Haverá conselho mais sábio para qualquer artista ou candidato a? Duvido. Ele transporta duas grandes verdades --e uma grande inferência.
Comecemos pelas verdades. Não existe arte, grande arte, sem ordem, grande ordem. Não falo apenas de um mínimo de ordem pessoal, embora isso ajude: escreve-se melhor quando não existe a angústia suplementar de não haver dinheiro para pagar o uísque das crianças.
Mas também se escreve melhor quando não existe a angústia suplementar de podermos ser perseguidos, presos ou mortos. Exceções? Sempre houve: casos pungentes de criatividade humana no meio do lodaçal. Mas quem deseja ser essa exceção?
Como dizia o estimável Saul Bellow, eu não conheço o Tolstói dos zulus. Ou o Proust do Sudão. Ofensivo, dizem as brigadas politicamente corretas. Pena que não apresentem esse Tolstói ou esse Proust. Sem provas, ofensiva é a inteligência das brigadas.
Os artistas "boêmios", ou pretensamente "boêmios", só marcham contra a civilização burguesa precisamente porque existe uma. Sem uma civilização burguesa, o lugar deles era a irrelevância, o anonimato ou coisa pior.
E não existe imagem mais patética do que ver o ódio do artista rebelde contra o exato mundo burguês (ou capitalista, tanto faz) que sustenta e promove a sua rebeldia. Flaubert, que nunca morreu de amores por esse mundo, teve pelo menos a honestidade de expressar a sua ambivalência perante ele.
Mas a frase de Flaubert transporta uma segunda verdade: é a tua arte que conta, não a tua vida. É a arte que deve ser julgada, não a tua relação problemática com o sabão ou com as maneiras.
Anos atrás, lembro-me de um velho professor de estética que me contava, maravilhado, que a primeira vez que conhecera o grande escritor e artista português Almada Negreiros, o autor estava sentado no sofá da sala, assistindo ao noticiário, como qualquer "pater familias" depois de mais um dia de labuta.
Almada, o modernista Almada, o futurista Almada, que pintou Fernando Pessoa e deixou "Nome de Guerra", um dos mais primorosos textos do século 20 lusitano --de pantufas em casa! Quem nunca escreveu de pantufas, ou de robe, ou até de pijama, não pode saber o que existe de conforto espiritual no exercício. Recomendo, recomendo.
E recomendo uma inferência suplementar a partir de Flaubert: se não fores um gênio, não te esforces tanto por parecer um. Os gênios não se esforçam. Eles são. A essência precede a aparência, não o contrário. Quando se começa pelo fim, normalmente é porque não há grande coisa no princípio.
Conheço casos. Gente que acredita que a ausência de um livro recomendável, de um quadro recomendável ou de um filme recomendável pode ser compensada com a pose certa de escritor, pintor ou cineasta.
Não pode, meu bem. Quando não existe obra digna desse nome, não é boa ideia uma pessoa apaixonar-se pelo próprio nome. Até porque há paixões que podem não ser correspondidas.
É por isso que o destino usual do artista falsamente inusual é um poço de ressentimentos. Ou, melhor dizendo, a exigência infantil de que o mundo em volta reconheça o tamanho do seu ego. Risível. Não é o ego que tem de ser grande. É a obra. Sempre a obra. Só a obra.
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte. Que o mesmo é dizer: abandona a tua pose no latão de lixo. Não simules conhecimento que não tens. Aprende com quem sabe. Não queiras ser "transgressivo" na tua vida. Aprende primeiro a usar os talheres. E quando quiseres ser "transgressivo", vai lavar os pratos (e os talheres). Isso passa.
Não esperes que o mundo se curve à tua passagem. És tu que te deves curvar à passagem do mundo. E antes de abrires a boca para te rires do que não entendes nem és capaz de fazer --"Woody Allen está a ficar repetitivo, não?"--, cala a boca, ri de ti próprio e pergunta quando foi a última vez que fizeste um filme razoavelmente decente. Ou um romance. Ou um quadro.
E se achares que já fizeste esse filme, ou esse romance, ou esse quadro, então esquece. Podes ir buscar a tua pose no fundo do latão.
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte. Eis o espírito de uma conhecida frase de Flaubert. Haverá conselho mais sábio para qualquer artista ou candidato a? Duvido. Ele transporta duas grandes verdades --e uma grande inferência.
Comecemos pelas verdades. Não existe arte, grande arte, sem ordem, grande ordem. Não falo apenas de um mínimo de ordem pessoal, embora isso ajude: escreve-se melhor quando não existe a angústia suplementar de não haver dinheiro para pagar o uísque das crianças.
Mas também se escreve melhor quando não existe a angústia suplementar de podermos ser perseguidos, presos ou mortos. Exceções? Sempre houve: casos pungentes de criatividade humana no meio do lodaçal. Mas quem deseja ser essa exceção?
Como dizia o estimável Saul Bellow, eu não conheço o Tolstói dos zulus. Ou o Proust do Sudão. Ofensivo, dizem as brigadas politicamente corretas. Pena que não apresentem esse Tolstói ou esse Proust. Sem provas, ofensiva é a inteligência das brigadas.
Os artistas "boêmios", ou pretensamente "boêmios", só marcham contra a civilização burguesa precisamente porque existe uma. Sem uma civilização burguesa, o lugar deles era a irrelevância, o anonimato ou coisa pior.
E não existe imagem mais patética do que ver o ódio do artista rebelde contra o exato mundo burguês (ou capitalista, tanto faz) que sustenta e promove a sua rebeldia. Flaubert, que nunca morreu de amores por esse mundo, teve pelo menos a honestidade de expressar a sua ambivalência perante ele.
Mas a frase de Flaubert transporta uma segunda verdade: é a tua arte que conta, não a tua vida. É a arte que deve ser julgada, não a tua relação problemática com o sabão ou com as maneiras.
Anos atrás, lembro-me de um velho professor de estética que me contava, maravilhado, que a primeira vez que conhecera o grande escritor e artista português Almada Negreiros, o autor estava sentado no sofá da sala, assistindo ao noticiário, como qualquer "pater familias" depois de mais um dia de labuta.
Almada, o modernista Almada, o futurista Almada, que pintou Fernando Pessoa e deixou "Nome de Guerra", um dos mais primorosos textos do século 20 lusitano --de pantufas em casa! Quem nunca escreveu de pantufas, ou de robe, ou até de pijama, não pode saber o que existe de conforto espiritual no exercício. Recomendo, recomendo.
E recomendo uma inferência suplementar a partir de Flaubert: se não fores um gênio, não te esforces tanto por parecer um. Os gênios não se esforçam. Eles são. A essência precede a aparência, não o contrário. Quando se começa pelo fim, normalmente é porque não há grande coisa no princípio.
Conheço casos. Gente que acredita que a ausência de um livro recomendável, de um quadro recomendável ou de um filme recomendável pode ser compensada com a pose certa de escritor, pintor ou cineasta.
Não pode, meu bem. Quando não existe obra digna desse nome, não é boa ideia uma pessoa apaixonar-se pelo próprio nome. Até porque há paixões que podem não ser correspondidas.
É por isso que o destino usual do artista falsamente inusual é um poço de ressentimentos. Ou, melhor dizendo, a exigência infantil de que o mundo em volta reconheça o tamanho do seu ego. Risível. Não é o ego que tem de ser grande. É a obra. Sempre a obra. Só a obra.
Vive como um burguês para que possas reservar toda a radicalidade para a tua arte. Que o mesmo é dizer: abandona a tua pose no latão de lixo. Não simules conhecimento que não tens. Aprende com quem sabe. Não queiras ser "transgressivo" na tua vida. Aprende primeiro a usar os talheres. E quando quiseres ser "transgressivo", vai lavar os pratos (e os talheres). Isso passa.
Não esperes que o mundo se curve à tua passagem. És tu que te deves curvar à passagem do mundo. E antes de abrires a boca para te rires do que não entendes nem és capaz de fazer --"Woody Allen está a ficar repetitivo, não?"--, cala a boca, ri de ti próprio e pergunta quando foi a última vez que fizeste um filme razoavelmente decente. Ou um romance. Ou um quadro.
E se achares que já fizeste esse filme, ou esse romance, ou esse quadro, então esquece. Podes ir buscar a tua pose no fundo do latão.
Nossa miséria não está na miséria - ARNALDO JABOR
O GLOBO - 14/05
Os privilegiados têm de se reformar
Assisti horrorizado à facilidade com que dois sujeitos cobertos de suspeitas em julgamento conseguiram destruir em minutos a medida provisória para modernizar nossos portos. Não tenho espaço para exibir a longa lista de irregularidades de que são acusados os deputados Garotinho e Eduardo Cunha. Eram amigos coloridos e deixaram sua marca na paisagem política do Rio: de Furnas, Cehab, Cedae, Telerj, hidrelétricas, Propinoduto, ONGs sem endereço até o célebre escândalo de milhões de fraldas geriátricas, lembram? Agora são inimigos e, no vexame na Câmara outro dia (conscientemente ou não) conseguiram invalidar uma das mais importantes medidas que o governo tenta para nosso crescimento. Na briga, os dois se xingaram muito, e os dois tinham razão. Vejam as fichas dos dois no Google. Estudar suas vidas políticas explica bem o Brasil. Há séculos, homens como esses impedem o desenvolvimento do país e transformam o Poder Legislativo no maior inimigo do povo. Aliás, nossa miséria não se explica pelos arcaicos “culpados” tradicionais: imperialismo e latifúndio, como quer a velha ideologia simplista. Para entendermos o horror que nos envolve, temos de analisar as classes dominantes, a estrutura patrimonialista do país, a formação torta do Estado, a tradição histórica de nosso egoísmo. Livros e filmes devem ser feitos mostrando como nós mesmos construímos nosso atraso. Parafraseando Nelson Rodrigues: “Nossa miséria não se improvisa; é uma obra de séculos”.
Transformar a miséria em bandeira política, sem nos incluirmos nela, é uma atitude miserável. A miséria está nas emendas do orçamento, está na sordidez do sistema eleitoral, na falsa compaixão dos populistas, nos ideólogos chavistas preparando o novo gigantismo do Estado disfarçado de “desenvolvimentismo nacionalista", nas caras cínicas e “lombrosianas” dos ladrões congressistas, está na Lei arcaica e sem reformas, está na atitude gelada dos juristas impassíveis , está nos garotinhos na rua e nos garotinhos da política.
Temos de entender como a miséria está “dentro” de todos nós. Para nós, os bacanas, a miséria é apenas um incômodo “existencial”, uma sujeira na paisagem.
Há alguns anos, tolerávamos tristemente a miséria, desde que ela ficasse longe, quieta, sem interferir na santa paz de nosso escândalo. A miséria tinha quase uma... “função social”.
No entanto, ela é uma construção minuciosa por um sistema complexo. A miséria não é absurda, é uma produção.
A trágica doença brasileira continua intacta, a não ser na propaganda oficial e no papo. As reformas essenciais que qualquer governo moderno conhece nunca foram realizadas e não serão — está ficando claro. O conservadorismo ideológico do PT e o pior fisiologismo do país não permitirão, de mãos dadas na aliança reacionária que o Lula inventou.
Uma vez, escrevi sobre um menino pobre que fazia malabarismo na rua, diante de meu carro, e muitos se emocionaram, em cartas e e-mails. Tive uma sensação de culpa por fazer sucesso com a miséria dos outros. De certa forma, eu lucrei. O menininho malabarista (onde estará ele agora?) enobreceu-me. Ou seja, a miséria me deu assunto e lucro. Ali, no carro blindado, diante do menino, eu fazia parte da miséria. Não basta sofrermos com o “absurdo” da miséria; é preciso explicá-la.
Com a indústria de armas, as drogas,. a internet, a miséria foi tocada pela evolução do capitalismo. A violência é até uma trágica “modernização” da miséria. Ninguém sabe o que fazer com a neomiséria; por isso, a invenção das UPPs foi tão oportuna e original diante do óbvio. Hoje, a miséria é grande demais para ser erradicada — temos de incorporá-la. Temos de conviver com ela, pois também somos miseráveis na alma, em nossa amarga alegria, em nossa ignorância política, em nossas noites vazias nos bares, em síndromes de pânico, no narcisismo deslavado entre as celebridades, nas liberdades irrelevantes. A miséria está até na moda — vejam este texto de um catálogo “fashion”:
“Use uma calça bacana, toda desgastada, bata na calça com martelo, dê uma ralada no asfalto, atropele seu jeans, passe por cima dele com o carro. A moda pede peças puídas, como ficam depois de um ataque das traças ou baratas. E, se você tem algo a dizer sobre a vida, diga com sua camiseta, nas estampas com frases no peito...”
Somos vítimas da miséria pelo avesso, porque poderíamos ter um país muito melhor se fôssemos mais generosos. Menos egoísmo seria bom para o “mercado”. Mas a “tigrada” do poder só pensa a curto prazo.
Antes, só falava de miséria quem não era miserável, em “fome”, quem comia bem. Agora, os miseráveis já falam de nós.
Assim como a corrupção nos abre os olhos, denunciando a urgente reforma do poder judiciário paralítico, a violência prova o fracasso da administração pública. Não resolveremos nada. Os miseráveis é que vão fazer isso, aos poucos. E estão se expressando em movimentos de afirmação das periferias. Os marginalizados vão sair do horror para serem fontes de expressão vital. A miséria está nos educando.
E o problema é que ninguém sabe o que fazer. Cada vez mais o mundo vive a dor de um “mal” difuso e sem culpados claros. Zygmunt Bauman, o filósofo polonês, estudioso da sociedade contemporânea, criador do conceito de “modernidade líquida”, diz coisas excelentes em um diagnóstico do mundo atual.
Mas, como sempre, na hora das “soluções”, surge a impotência cheia de esperanças. O que fazer?
Aí, ele propõe três caminhos para diminuir a pobreza no mundo:
1- conscientizar as pessoas de que crescimento econômico tem limites; 2- mudar a lógica social dos governos, para que os cidadãos enriqueçam suas vidas por outros meios que não apenas bens materiais; e 3- convencer os capitalistas a distribuir lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas em função de benefícios sociais e ambientais.
Ótimo! Boa ideia! Agora só falta combinar com Wall Street e psicanalisar os governantes das nações poderosas.
Os privilegiados têm de se reformar
Assisti horrorizado à facilidade com que dois sujeitos cobertos de suspeitas em julgamento conseguiram destruir em minutos a medida provisória para modernizar nossos portos. Não tenho espaço para exibir a longa lista de irregularidades de que são acusados os deputados Garotinho e Eduardo Cunha. Eram amigos coloridos e deixaram sua marca na paisagem política do Rio: de Furnas, Cehab, Cedae, Telerj, hidrelétricas, Propinoduto, ONGs sem endereço até o célebre escândalo de milhões de fraldas geriátricas, lembram? Agora são inimigos e, no vexame na Câmara outro dia (conscientemente ou não) conseguiram invalidar uma das mais importantes medidas que o governo tenta para nosso crescimento. Na briga, os dois se xingaram muito, e os dois tinham razão. Vejam as fichas dos dois no Google. Estudar suas vidas políticas explica bem o Brasil. Há séculos, homens como esses impedem o desenvolvimento do país e transformam o Poder Legislativo no maior inimigo do povo. Aliás, nossa miséria não se explica pelos arcaicos “culpados” tradicionais: imperialismo e latifúndio, como quer a velha ideologia simplista. Para entendermos o horror que nos envolve, temos de analisar as classes dominantes, a estrutura patrimonialista do país, a formação torta do Estado, a tradição histórica de nosso egoísmo. Livros e filmes devem ser feitos mostrando como nós mesmos construímos nosso atraso. Parafraseando Nelson Rodrigues: “Nossa miséria não se improvisa; é uma obra de séculos”.
Transformar a miséria em bandeira política, sem nos incluirmos nela, é uma atitude miserável. A miséria está nas emendas do orçamento, está na sordidez do sistema eleitoral, na falsa compaixão dos populistas, nos ideólogos chavistas preparando o novo gigantismo do Estado disfarçado de “desenvolvimentismo nacionalista", nas caras cínicas e “lombrosianas” dos ladrões congressistas, está na Lei arcaica e sem reformas, está na atitude gelada dos juristas impassíveis , está nos garotinhos na rua e nos garotinhos da política.
Temos de entender como a miséria está “dentro” de todos nós. Para nós, os bacanas, a miséria é apenas um incômodo “existencial”, uma sujeira na paisagem.
Há alguns anos, tolerávamos tristemente a miséria, desde que ela ficasse longe, quieta, sem interferir na santa paz de nosso escândalo. A miséria tinha quase uma... “função social”.
No entanto, ela é uma construção minuciosa por um sistema complexo. A miséria não é absurda, é uma produção.
A trágica doença brasileira continua intacta, a não ser na propaganda oficial e no papo. As reformas essenciais que qualquer governo moderno conhece nunca foram realizadas e não serão — está ficando claro. O conservadorismo ideológico do PT e o pior fisiologismo do país não permitirão, de mãos dadas na aliança reacionária que o Lula inventou.
Uma vez, escrevi sobre um menino pobre que fazia malabarismo na rua, diante de meu carro, e muitos se emocionaram, em cartas e e-mails. Tive uma sensação de culpa por fazer sucesso com a miséria dos outros. De certa forma, eu lucrei. O menininho malabarista (onde estará ele agora?) enobreceu-me. Ou seja, a miséria me deu assunto e lucro. Ali, no carro blindado, diante do menino, eu fazia parte da miséria. Não basta sofrermos com o “absurdo” da miséria; é preciso explicá-la.
Com a indústria de armas, as drogas,. a internet, a miséria foi tocada pela evolução do capitalismo. A violência é até uma trágica “modernização” da miséria. Ninguém sabe o que fazer com a neomiséria; por isso, a invenção das UPPs foi tão oportuna e original diante do óbvio. Hoje, a miséria é grande demais para ser erradicada — temos de incorporá-la. Temos de conviver com ela, pois também somos miseráveis na alma, em nossa amarga alegria, em nossa ignorância política, em nossas noites vazias nos bares, em síndromes de pânico, no narcisismo deslavado entre as celebridades, nas liberdades irrelevantes. A miséria está até na moda — vejam este texto de um catálogo “fashion”:
“Use uma calça bacana, toda desgastada, bata na calça com martelo, dê uma ralada no asfalto, atropele seu jeans, passe por cima dele com o carro. A moda pede peças puídas, como ficam depois de um ataque das traças ou baratas. E, se você tem algo a dizer sobre a vida, diga com sua camiseta, nas estampas com frases no peito...”
Somos vítimas da miséria pelo avesso, porque poderíamos ter um país muito melhor se fôssemos mais generosos. Menos egoísmo seria bom para o “mercado”. Mas a “tigrada” do poder só pensa a curto prazo.
Antes, só falava de miséria quem não era miserável, em “fome”, quem comia bem. Agora, os miseráveis já falam de nós.
Assim como a corrupção nos abre os olhos, denunciando a urgente reforma do poder judiciário paralítico, a violência prova o fracasso da administração pública. Não resolveremos nada. Os miseráveis é que vão fazer isso, aos poucos. E estão se expressando em movimentos de afirmação das periferias. Os marginalizados vão sair do horror para serem fontes de expressão vital. A miséria está nos educando.
E o problema é que ninguém sabe o que fazer. Cada vez mais o mundo vive a dor de um “mal” difuso e sem culpados claros. Zygmunt Bauman, o filósofo polonês, estudioso da sociedade contemporânea, criador do conceito de “modernidade líquida”, diz coisas excelentes em um diagnóstico do mundo atual.
Mas, como sempre, na hora das “soluções”, surge a impotência cheia de esperanças. O que fazer?
Aí, ele propõe três caminhos para diminuir a pobreza no mundo:
1- conscientizar as pessoas de que crescimento econômico tem limites; 2- mudar a lógica social dos governos, para que os cidadãos enriqueçam suas vidas por outros meios que não apenas bens materiais; e 3- convencer os capitalistas a distribuir lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas em função de benefícios sociais e ambientais.
Ótimo! Boa ideia! Agora só falta combinar com Wall Street e psicanalisar os governantes das nações poderosas.
Neymar! Volta pro Wellaton! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 14/05
O Neymar tem que pintar o cabelo de novo! Volta pro pica-pau loiro. Pinta um moicano de azul!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República!
E "Salve Jorge" tem tanto merchan do carro Kia que devia se chamar TUR-KIA! E como não é uma novela, mas um UFC, deviam chamar o Cigano, o Minotauro e o Anderson Silva!
E a Marcha da Maconha em Ipanema? O problema não é a marcha, é a fumaça. Camiseta da Marcha da Maconha: "EU FUI?". Foi, mas se lembra vagamente. Rarará! E dizem que o único efeito colateral da maconha é quando a polícia chega.
Aliás, tem outro efeito colateral: a larica. Quando bate a larica, abre a geladeira e come feijão gelado com calda de pêssego. Traça aquele pavê da padoca que tá na geladeira desde anteontem. Rarará!
E maconheiro não oferece perigo algum. Já viu algum maconheiro ser fã do Restart? Rarará!
E Brasília? A MP dos Portos vai naufragar? MP do Titanic! O PMDB, Partido das Mutretas dos Barcos, quer negociaçõe$! Tem que rolar um men$alão.
Se eu fosse a Dilma, eu dava 10 mil pra cada um. E dizia: "É pouco, mas é de coração". Rarará!
E Santos X Corinthians! Joguinho mequetrefe. Jogador brasileiro agora só joga jogado no chão. Parecia aquele bate-bate de parque de diversão!
E o site Futirinhas disse que o Tite devia ter dado um presente pra zaga do Santos. Uma mãezona! E o Neymar? O Neymar tem que pintar o cabelo de novo! Volta pro Wellaton! Volta pro pica-pau loiro. Pinta um moicano de azul!
E o CornetaFC com o Neymar: "Pelo menos com o cabelo pintado me achavam em campo!". Rarará!
Tivemos dois acontecimentos importantíssimos para a nação: Marcha da Maconha em Ipanema e o Dia do Orgasmo em Esperantina, no Piauí. A Esperantina é a última que morre. Projeto do vereador Arimatéia que diz que só 28% das piauienses têm orgasmo. E como ele fez essa pesquisa? Rarará! E o que você fez no Dia do Orgasmo? Passei o dia tendo-os!
Aí aparecem aqueles tipos de orgasmo. O orgasmo da homicida: "Se você parar, eu te mato!". E o orgasmo da desinformada: "Aiiii, meu Deuuuus, o que é isso? Aiiii, o que é isso?". E o orgasmo da mulher casada há dez anos: "Xi, a empregada esqueceu de limpar o lustre". Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
O Neymar tem que pintar o cabelo de novo! Volta pro pica-pau loiro. Pinta um moicano de azul!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República!
E "Salve Jorge" tem tanto merchan do carro Kia que devia se chamar TUR-KIA! E como não é uma novela, mas um UFC, deviam chamar o Cigano, o Minotauro e o Anderson Silva!
E a Marcha da Maconha em Ipanema? O problema não é a marcha, é a fumaça. Camiseta da Marcha da Maconha: "EU FUI?". Foi, mas se lembra vagamente. Rarará! E dizem que o único efeito colateral da maconha é quando a polícia chega.
Aliás, tem outro efeito colateral: a larica. Quando bate a larica, abre a geladeira e come feijão gelado com calda de pêssego. Traça aquele pavê da padoca que tá na geladeira desde anteontem. Rarará!
E maconheiro não oferece perigo algum. Já viu algum maconheiro ser fã do Restart? Rarará!
E Brasília? A MP dos Portos vai naufragar? MP do Titanic! O PMDB, Partido das Mutretas dos Barcos, quer negociaçõe$! Tem que rolar um men$alão.
Se eu fosse a Dilma, eu dava 10 mil pra cada um. E dizia: "É pouco, mas é de coração". Rarará!
E Santos X Corinthians! Joguinho mequetrefe. Jogador brasileiro agora só joga jogado no chão. Parecia aquele bate-bate de parque de diversão!
E o site Futirinhas disse que o Tite devia ter dado um presente pra zaga do Santos. Uma mãezona! E o Neymar? O Neymar tem que pintar o cabelo de novo! Volta pro Wellaton! Volta pro pica-pau loiro. Pinta um moicano de azul!
E o CornetaFC com o Neymar: "Pelo menos com o cabelo pintado me achavam em campo!". Rarará!
Tivemos dois acontecimentos importantíssimos para a nação: Marcha da Maconha em Ipanema e o Dia do Orgasmo em Esperantina, no Piauí. A Esperantina é a última que morre. Projeto do vereador Arimatéia que diz que só 28% das piauienses têm orgasmo. E como ele fez essa pesquisa? Rarará! E o que você fez no Dia do Orgasmo? Passei o dia tendo-os!
Aí aparecem aqueles tipos de orgasmo. O orgasmo da homicida: "Se você parar, eu te mato!". E o orgasmo da desinformada: "Aiiii, meu Deuuuus, o que é isso? Aiiii, o que é isso?". E o orgasmo da mulher casada há dez anos: "Xi, a empregada esqueceu de limpar o lustre". Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Garfaram o pedestre - BRUNO THYS
O GLOBO - 14/05
Engarrafado dia destes na pista lateral da Avenida Brasil, sentido Centro, em frente à Fiocruz, prestei atenção numa cena banal: um monte de gente subindo e descendo a passarela de número 6, para cruzar a Avenida Brasil. Entre centenas de pessoas havia um casal idoso, cheio de embrulhos, que ia bem devagar, sob um sol de lascar, num esforço fenomenal para conseguir chegar ao alto da passarela. Por razões óbvias, quem deveria passar por cima ou por sob a pista seria o carro, não o pedestre. Mas o óbvio nem sempre fez parte do planejamento urbano do Rio - e das demais cidades brasileiras - especialmente a partir do chamado "Rodoviarismo", movimento que rasgou cidades já consolidadas do mundo inteiro para abrir espaço ao automóvel. Em muitos países, porém, houve a preocupação de se preservar os direitos do pedestre.
Nas cidades americanas, por exemplo, quando não há pontes ou túneis para que o plano da calçada seja garantido ao transeunte, são instaladas passarelas com escadas rolantes e esteiras, que atenuam o esforço - o sobe e desce do cidadão - para atravessar uma rua. Aqui, no entanto, o Rodoviarismo foi devastador. O automóvel reinou absoluto: calçadas foram griladas e passarelas interpostas em ruas e avenidas, algumas bem íngremes e de dimensões olímpicas como estas da Avenida Brasil. Ao mesmo tempo, sinais foram ajustados para o fluxo do trânsito. Sobrou para o pedestre. Garfaram o cidadão.
Em Copacabana, por exemplo, bairro notadamente de população idosa, chega a ser cruel o tempo oferecido para os moradores atravessarem as principais vias. Quem arvora-se em driblar o esforço que é subir uma passarela e atravessar a rua no plano horizontal é tachado de louco, de suicida! E quem não consegue atravessar a Rua Barata Ribeiro no curtíssimo tempo oferecido pelo sinal é xingado pelos motoristas. Uma absurda inversão de princípios básicos da cidadania. Difícil atribuir toda a responsabilidade ao automóvel pela desumanização do espaço público. De um lado da rua, há décadas de insensibilidade do gestor público e, do outro, a passividade do cidadão, certo de que a prioridade na cidade é o trânsito de veículos, não o de pedestres. Ninguém chia. No entanto, há em curso neste momento no Rio uma louvável tentativa de se domar o trânsito: ônibus para um lado, em faixa exclusiva, carro para o outro, e ciclofaixas que, aliás, não representam garantia plena de segurança à turma da bicicleta.
Faz parte deste processo a reconfiguração de importantes espaços na área central do Rio; vão ser redesenhados como áreas de pedestres. É um bom momento para se colocar o pedestre na discussão e ressarci-lo, ao menos em parte, do que lhe foi garfado: instalar escadas rolantes nas passarelas, se não for possível levantar as pistas, e oferecer mais tempo nos sinais de trânsito para que possa exercer o direito básico de ir e vir de um lado ao outro da rua, literalmente sem atropelos.
Nas cidades americanas, por exemplo, quando não há pontes ou túneis para que o plano da calçada seja garantido ao transeunte, são instaladas passarelas com escadas rolantes e esteiras, que atenuam o esforço - o sobe e desce do cidadão - para atravessar uma rua. Aqui, no entanto, o Rodoviarismo foi devastador. O automóvel reinou absoluto: calçadas foram griladas e passarelas interpostas em ruas e avenidas, algumas bem íngremes e de dimensões olímpicas como estas da Avenida Brasil. Ao mesmo tempo, sinais foram ajustados para o fluxo do trânsito. Sobrou para o pedestre. Garfaram o cidadão.
Em Copacabana, por exemplo, bairro notadamente de população idosa, chega a ser cruel o tempo oferecido para os moradores atravessarem as principais vias. Quem arvora-se em driblar o esforço que é subir uma passarela e atravessar a rua no plano horizontal é tachado de louco, de suicida! E quem não consegue atravessar a Rua Barata Ribeiro no curtíssimo tempo oferecido pelo sinal é xingado pelos motoristas. Uma absurda inversão de princípios básicos da cidadania. Difícil atribuir toda a responsabilidade ao automóvel pela desumanização do espaço público. De um lado da rua, há décadas de insensibilidade do gestor público e, do outro, a passividade do cidadão, certo de que a prioridade na cidade é o trânsito de veículos, não o de pedestres. Ninguém chia. No entanto, há em curso neste momento no Rio uma louvável tentativa de se domar o trânsito: ônibus para um lado, em faixa exclusiva, carro para o outro, e ciclofaixas que, aliás, não representam garantia plena de segurança à turma da bicicleta.
Faz parte deste processo a reconfiguração de importantes espaços na área central do Rio; vão ser redesenhados como áreas de pedestres. É um bom momento para se colocar o pedestre na discussão e ressarci-lo, ao menos em parte, do que lhe foi garfado: instalar escadas rolantes nas passarelas, se não for possível levantar as pistas, e oferecer mais tempo nos sinais de trânsito para que possa exercer o direito básico de ir e vir de um lado ao outro da rua, literalmente sem atropelos.
Ainda em marcha à ré - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 14/05
Deflagrada por disfunções no lado financeiro da economia, a crise global produziu impressionantes impactos nos volumes de ativos e em seus fluxos. Cinco anos depois da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, convencionada como o marco zero da crise, o retrato das finanças globais ainda revela uma cena de contração no ritmo das operações e de expressivas mudanças de direção nos fluxos financeiros ao redor do planeta.
O volume de ativos financeiros em circulação não chegou a encolher, em termos absolutos. Mas, além de sofrer enxugamento relativo, passou a se movimentar em ritmo muito mais lento. Houve também uma marcha à ré na globalização financeira, na direção das fronteiras locais.
Em números absolutos, o estoque total de ativos financeiros - depósitos bancários, financiamentos, títulos de dívida privada e pública, ações de companhias - alcançou, na metade de 2012, volume recorde de US$ 225 trilhões. O fato de que esse montante representa quase 10% mais do que o registrado em 2007, no entanto, pode enganar.
Quando se observa em termos relativos, o que se verifica é que tem se dado um contínuo encolhimento. Para confirmar isso, basta saber que, se hoje a soma expressa relação equivalente a 312% do total da produção global, há cinco anos equivalia a 355% do PIB.
Estas são informações extraídas da edição de 2013 do relatório do McKinsey Global Institute, braço de pesquisas da consultoria global McKinsey, sobre o mercado financeiro global. O relatório, com dados até fins do ano passado, referentes a 183 países, é o mais recente de uma série anual iniciada em 2005, que permite acompanhar, passo a passo, a evolução das finanças globais e seus reflexos na economia real (http://migre.me/ex4ec).
São visíveis as indicações de que o processo de globalização econômica deu uma estacionada - se não recuou. Em comparação com 2007, pico do último ciclo de crescimento acelerado da economia e das finanças globais, pode-se verificar, em 2012, uma redução de 60% nos fluxos de capital estrangeiros entre países e um corte de US$ 3,7 trilhões nos financiamentos dos bancos da zona do euro fora da região. A circulação de ativos financeiros entre economias caiu de US$ 11,8 trilhões, em 2007, o equivalente a 20% do PIB global na época, para menos de US$ 5 trilhões, em 2012, não mais do que cerca de 6% do PIB.
Em paralelo ao encolhimento relativo dos fluxos, ocorreu também uma alteração importante na direção deles. No ano passado, um total de US$ 1,5 trilhão em investimentos estrangeiros globais foi direcionado a economias emergentes. O valor equivale a 32% do total de investimentos externos no ano, e em 2000 essa cifra não passava de 5% do total. Outra novidade é o aumento dos investimentos de países emergentes em economias maduras e o avanço nos fluxos de investimentos estrangeiros entre emergentes, na direção "sul-sul".
Embora os fluxos de investimento direto externo tenham sofrido uma contração de 15%, em 2012, o fato positivo é que tem aumentado a participação deles no total dos fluxos de ativos estrangeiros em circulação. A estimativa é que esses recursos tenham respondido por cerca de 40% do total, no ano passado.
Ao analisar o estado das finanças globais em perspectiva, os autores do relatório do McKinsey Institute projetam cenários. Para que a situação revertesse, teria de ocorrer uma mudança nos portfólios financeiros, com ênfase menos em empréstimos bancários do que na ampliação do papel dos mercados de capitais. Mantidas as tendências atuais, porém, o mais provável é que, até por volta de 2020, o volume de ativos financeiros globais, em relação ao PIB, permaneçam nos níveis de hoje ou até encolham um pouco mais.
Deflagrada por disfunções no lado financeiro da economia, a crise global produziu impressionantes impactos nos volumes de ativos e em seus fluxos. Cinco anos depois da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, convencionada como o marco zero da crise, o retrato das finanças globais ainda revela uma cena de contração no ritmo das operações e de expressivas mudanças de direção nos fluxos financeiros ao redor do planeta.
O volume de ativos financeiros em circulação não chegou a encolher, em termos absolutos. Mas, além de sofrer enxugamento relativo, passou a se movimentar em ritmo muito mais lento. Houve também uma marcha à ré na globalização financeira, na direção das fronteiras locais.
Em números absolutos, o estoque total de ativos financeiros - depósitos bancários, financiamentos, títulos de dívida privada e pública, ações de companhias - alcançou, na metade de 2012, volume recorde de US$ 225 trilhões. O fato de que esse montante representa quase 10% mais do que o registrado em 2007, no entanto, pode enganar.
Quando se observa em termos relativos, o que se verifica é que tem se dado um contínuo encolhimento. Para confirmar isso, basta saber que, se hoje a soma expressa relação equivalente a 312% do total da produção global, há cinco anos equivalia a 355% do PIB.
Estas são informações extraídas da edição de 2013 do relatório do McKinsey Global Institute, braço de pesquisas da consultoria global McKinsey, sobre o mercado financeiro global. O relatório, com dados até fins do ano passado, referentes a 183 países, é o mais recente de uma série anual iniciada em 2005, que permite acompanhar, passo a passo, a evolução das finanças globais e seus reflexos na economia real (http://migre.me/ex4ec).
São visíveis as indicações de que o processo de globalização econômica deu uma estacionada - se não recuou. Em comparação com 2007, pico do último ciclo de crescimento acelerado da economia e das finanças globais, pode-se verificar, em 2012, uma redução de 60% nos fluxos de capital estrangeiros entre países e um corte de US$ 3,7 trilhões nos financiamentos dos bancos da zona do euro fora da região. A circulação de ativos financeiros entre economias caiu de US$ 11,8 trilhões, em 2007, o equivalente a 20% do PIB global na época, para menos de US$ 5 trilhões, em 2012, não mais do que cerca de 6% do PIB.
Em paralelo ao encolhimento relativo dos fluxos, ocorreu também uma alteração importante na direção deles. No ano passado, um total de US$ 1,5 trilhão em investimentos estrangeiros globais foi direcionado a economias emergentes. O valor equivale a 32% do total de investimentos externos no ano, e em 2000 essa cifra não passava de 5% do total. Outra novidade é o aumento dos investimentos de países emergentes em economias maduras e o avanço nos fluxos de investimentos estrangeiros entre emergentes, na direção "sul-sul".
Embora os fluxos de investimento direto externo tenham sofrido uma contração de 15%, em 2012, o fato positivo é que tem aumentado a participação deles no total dos fluxos de ativos estrangeiros em circulação. A estimativa é que esses recursos tenham respondido por cerca de 40% do total, no ano passado.
Ao analisar o estado das finanças globais em perspectiva, os autores do relatório do McKinsey Institute projetam cenários. Para que a situação revertesse, teria de ocorrer uma mudança nos portfólios financeiros, com ênfase menos em empréstimos bancários do que na ampliação do papel dos mercados de capitais. Mantidas as tendências atuais, porém, o mais provável é que, até por volta de 2020, o volume de ativos financeiros globais, em relação ao PIB, permaneçam nos níveis de hoje ou até encolham um pouco mais.
Cartas na mesa - IGOR GIELOW
FOLHA DE SP - 14/05
BRASÍLIA - Ao proferir sua opinião de que os embargos infringentes não podem ser considerados para discutir sentenças do julgamento do mensalão, Joaquim Barbosa colocou na mesa cartas que podem definir os rumos da conflagração que domina o plenário do Supremo, entre ministros que se dizem legalistas e os mais, digamos, ativistas.
Os tais embargos são recursos permitidos pelo regimento do STF a réus cuja condenação teve ao menos quatro votos divergentes. O impacto político é evidente: bem-sucedida a apelação, em hipótese, José Dirceu poderia ter uma de suas condenações, a por formação de quadrilha, anulada. Escaparia assim do regime fechado.
Quem defende os embargos, incluído aí o decano Celso de Mello, vê neles a garantia de uma "segunda instância" para casos que já começam na mais alta corte possível.
Barbosa aponta o problema: não existe previsão na lei para os embargos e, a rigor, eles contrariam a ordem das coisas no Judiciário. O esperado recurso à sua decisão levará a mais embates no plenário.
É bom que seja assim. Mantendo-se a civilidade tantas vezes deixada de lado, o debate aberto é bem melhor que a chicana de fofocas e intrigas patrocinada pelos envolvidos.
------
A saída de Nelson Barbosa da Fazenda explicita uma particularidade do modo Dilma de governar. A presidente colocou gente de sua confiança no cargo de número dois de alguns ministérios, como Fazenda, Previdência e Minas e Energia.
Agora, por motivos diversos, ela perde o segundo de Mantega, tenta manter Alessandro Teixeira (Desenvolvimento) e vê Beto Vasconcelos com data para deixar a Casa Civil.
Véspera de eleição sempre foi a hora em que os secretários-executivos buscavam se cacifar para um eventual novo governo. Agora, são justamente os mais próximos de Dilma que pedem para sair.
BRASÍLIA - Ao proferir sua opinião de que os embargos infringentes não podem ser considerados para discutir sentenças do julgamento do mensalão, Joaquim Barbosa colocou na mesa cartas que podem definir os rumos da conflagração que domina o plenário do Supremo, entre ministros que se dizem legalistas e os mais, digamos, ativistas.
Os tais embargos são recursos permitidos pelo regimento do STF a réus cuja condenação teve ao menos quatro votos divergentes. O impacto político é evidente: bem-sucedida a apelação, em hipótese, José Dirceu poderia ter uma de suas condenações, a por formação de quadrilha, anulada. Escaparia assim do regime fechado.
Quem defende os embargos, incluído aí o decano Celso de Mello, vê neles a garantia de uma "segunda instância" para casos que já começam na mais alta corte possível.
Barbosa aponta o problema: não existe previsão na lei para os embargos e, a rigor, eles contrariam a ordem das coisas no Judiciário. O esperado recurso à sua decisão levará a mais embates no plenário.
É bom que seja assim. Mantendo-se a civilidade tantas vezes deixada de lado, o debate aberto é bem melhor que a chicana de fofocas e intrigas patrocinada pelos envolvidos.
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A saída de Nelson Barbosa da Fazenda explicita uma particularidade do modo Dilma de governar. A presidente colocou gente de sua confiança no cargo de número dois de alguns ministérios, como Fazenda, Previdência e Minas e Energia.
Agora, por motivos diversos, ela perde o segundo de Mantega, tenta manter Alessandro Teixeira (Desenvolvimento) e vê Beto Vasconcelos com data para deixar a Casa Civil.
Véspera de eleição sempre foi a hora em que os secretários-executivos buscavam se cacifar para um eventual novo governo. Agora, são justamente os mais próximos de Dilma que pedem para sair.
Lembrar a verdade - LUIZ GARCIA
O GLOBO - 14/05
Funciona em Brasília um órgão que atende pelo curioso nome de Comissão da Verdade. Pessoas cínicas e maldosas poderão insinuar que ela é assim chamada porque outras comissões estabelecidas na capital não teriam compromisso com os fatos, um fenômeno não muito raro neste planeta.
No caso, a verdade em questão refere-se a fatos ocorridos durante o falecido regime militar, com especial dedicação ao tratamento dado aos adversários do poder. Ou seja: está em questão o uso da tortura na defesa do regime.
Na semana passada, a comissão se dedicou aos métodos usados pelo DOI-Codi em São Paulo no tratamento de seus prisioneiros. O coronel, hoje reformado, Carlos Alberto Brilhante Ustra, produziu uma explicação curiosa. Primeiro, negou ter participado de sessões de tortura. Mas fez questão de afirmar que sempre agiu cumprindo ordens. Quem deveria estar sentado em seu lugar, disse ele, era o Exército Brasileiro.
Pode-se traduzir essa defesa, sem malícia, como uma confissão de que havia tortura, mas não por sua iniciativa pessoal. "Nunca ocultei cadáver, nunca cometi assassinato", disse ele. Mas há muita gente por aí que não pode dizer o mesmo.
Faltou no depoimento de Ustra uma afirmação direta de que não houve tortura por sua ordem ou com seu consentimento. Como o tratamento dado aos inimigos do regime militar é de conhecimento público, é aceitável que Ustra pode não ter mentido - e realmente não há provas de que tenha cometido o crime do assassinato de prisioneiros - mas não parece haver dúvida de que tinha pleno conhecimento do que acontecia aos acusados de terrorismo.
Não é possível esquecer que o combate aos inimigos do regime incluía muitos que o enfrentavam apenas politicamente. E muitas vezes a repressão não fazia distinção entre adversários políticos pacíficos e inimigos do regime dispostos a derrubá-lo pela violência.
Depoimentos como o de Ustra são obviamente importantes. A história do regime militar precisa mesmo ser recordada, e obviamente por personagens de todos os matizes. A Comissão da Verdade (que talvez tenha esse nome para diferenciá-la de outras iniciativas de Brasília) pode prestar um serviço especialmente relevante: há muitos momentos, na história de qualquer país, que não podem ser esquecidos, quanto mais não seja para evitar que se repitam.
É verdade que não há, no panorama político do país, o menor indício da possibilidade de uma volta aos anos de chumbo. Mas, principalmente na vida pública, precaução demais nunca é de menos. E a Comissão da Verdade está nesse caso.
Funciona em Brasília um órgão que atende pelo curioso nome de Comissão da Verdade. Pessoas cínicas e maldosas poderão insinuar que ela é assim chamada porque outras comissões estabelecidas na capital não teriam compromisso com os fatos, um fenômeno não muito raro neste planeta.
No caso, a verdade em questão refere-se a fatos ocorridos durante o falecido regime militar, com especial dedicação ao tratamento dado aos adversários do poder. Ou seja: está em questão o uso da tortura na defesa do regime.
Na semana passada, a comissão se dedicou aos métodos usados pelo DOI-Codi em São Paulo no tratamento de seus prisioneiros. O coronel, hoje reformado, Carlos Alberto Brilhante Ustra, produziu uma explicação curiosa. Primeiro, negou ter participado de sessões de tortura. Mas fez questão de afirmar que sempre agiu cumprindo ordens. Quem deveria estar sentado em seu lugar, disse ele, era o Exército Brasileiro.
Pode-se traduzir essa defesa, sem malícia, como uma confissão de que havia tortura, mas não por sua iniciativa pessoal. "Nunca ocultei cadáver, nunca cometi assassinato", disse ele. Mas há muita gente por aí que não pode dizer o mesmo.
Faltou no depoimento de Ustra uma afirmação direta de que não houve tortura por sua ordem ou com seu consentimento. Como o tratamento dado aos inimigos do regime militar é de conhecimento público, é aceitável que Ustra pode não ter mentido - e realmente não há provas de que tenha cometido o crime do assassinato de prisioneiros - mas não parece haver dúvida de que tinha pleno conhecimento do que acontecia aos acusados de terrorismo.
Não é possível esquecer que o combate aos inimigos do regime incluía muitos que o enfrentavam apenas politicamente. E muitas vezes a repressão não fazia distinção entre adversários políticos pacíficos e inimigos do regime dispostos a derrubá-lo pela violência.
Depoimentos como o de Ustra são obviamente importantes. A história do regime militar precisa mesmo ser recordada, e obviamente por personagens de todos os matizes. A Comissão da Verdade (que talvez tenha esse nome para diferenciá-la de outras iniciativas de Brasília) pode prestar um serviço especialmente relevante: há muitos momentos, na história de qualquer país, que não podem ser esquecidos, quanto mais não seja para evitar que se repitam.
É verdade que não há, no panorama político do país, o menor indício da possibilidade de uma volta aos anos de chumbo. Mas, principalmente na vida pública, precaução demais nunca é de menos. E a Comissão da Verdade está nesse caso.
São árabes? Que se matem - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 14/05
Passividade ocidental ante o desastre na Síria permite supor que nem todas as vidas têm o mesmo valor
Timothy Garton Ash, um dos mais respeitados acadêmicos do planeta, desconfiava tempos atrás, em artigo para "El País", que a passividade do Ocidente ante o morticínio na Síria escondia, "no pior e mais vergonhoso dos casos, que, para os europeus, a vida de um árabe não tem tanto valor como a de um europeu".
É triste ter que concordar com ele, se se estender a suspeição ao Ocidente de modo geral.
Só assim se explicariam dois anos de passividade diante de um desastre humanitário de proporções inacreditáveis.
Já deveria ser suficiente para justificar uma intervenção o fato de que o número de mortos está chegando a 100 mil, se se somarem aos 82 mil mortos os 12 mil desaparecidos.
Mas há mais, conforme relata Robert Mardini, chefe de operações da Cruz Vermelha para o Oriente Próximo e Médio: "Centenas de civis são mortos ou feridos todos os dias. Milhares de pessoas continuam detidas ou desaparecidas. Os ataques aos estabelecimentos e aos profissionais médicos continuam".
"Famílias inteiras estão constantemente se mudando, em busca de lugares mais seguros. Quatro milhões de pessoas já se deslocaram até o momento dentro da Síria, e 1,2 milhão de outras tiveram de atravessar as fronteiras para outros países --e essa tendência continua. As pessoas que permaneceram em algumas cidades ou aldeias não têm quase nada e vivem com medo e angústia constantes".
"Cerca de 25% de todos os sírios que trabalham perderam o emprego desde o início do conflito. A produção agrícola está em queda livre, uma vez que milhares de agricultores não têm condições de cultivar com segurança as suas terras ou obter os insumos agrícolas de que necessitam. A inflação está descontrolada. Uma pesquisa de mercado recente indica que o preço de uma cesta de alimentos padronizada aumentou mais de 50% desde março de 2011. Em áreas sitiadas e em zonas de conflito, em particular, a alta demanda e a baixa oferta levaram a um aumento dos preços das necessidades básicas, como pão, de mais de 1.000%."
"Em termos mais gerais, o preço dos alimentos, do combustível e dos remédios disparou, e o poder aquisitivo dos cidadãos comuns está severamente debilitado, fazendo com que um segmento cada vez maior da população geral esteja economicamente inseguro".
Chega? Tem mais: "O governo deixou de funcionar em aproximadamente 85% do país e luta para prestar serviços mesmo nas áreas que controla completamente. A infraestrutura física e administrativa da Síria foi dizimada", afirma Stewart Patrick, diretor do programa de Instituições Internacionais e Governança Global do Council on Foreign Relations.
Bem feitas as contas, está ocorrendo na Síria, sem a intervenção internacional, tudo o que se dizia que aconteceria se a intervenção se desse, lá atrás: desde o desastre humanitário até o contágio aos países vizinhos (vide atentado na Turquia), passando pelas reiteradas suspeitas do emprego de armas químicas.
E o mundo assistindo, como se fosse um videogame de guerra.
Passividade ocidental ante o desastre na Síria permite supor que nem todas as vidas têm o mesmo valor
Timothy Garton Ash, um dos mais respeitados acadêmicos do planeta, desconfiava tempos atrás, em artigo para "El País", que a passividade do Ocidente ante o morticínio na Síria escondia, "no pior e mais vergonhoso dos casos, que, para os europeus, a vida de um árabe não tem tanto valor como a de um europeu".
É triste ter que concordar com ele, se se estender a suspeição ao Ocidente de modo geral.
Só assim se explicariam dois anos de passividade diante de um desastre humanitário de proporções inacreditáveis.
Já deveria ser suficiente para justificar uma intervenção o fato de que o número de mortos está chegando a 100 mil, se se somarem aos 82 mil mortos os 12 mil desaparecidos.
Mas há mais, conforme relata Robert Mardini, chefe de operações da Cruz Vermelha para o Oriente Próximo e Médio: "Centenas de civis são mortos ou feridos todos os dias. Milhares de pessoas continuam detidas ou desaparecidas. Os ataques aos estabelecimentos e aos profissionais médicos continuam".
"Famílias inteiras estão constantemente se mudando, em busca de lugares mais seguros. Quatro milhões de pessoas já se deslocaram até o momento dentro da Síria, e 1,2 milhão de outras tiveram de atravessar as fronteiras para outros países --e essa tendência continua. As pessoas que permaneceram em algumas cidades ou aldeias não têm quase nada e vivem com medo e angústia constantes".
"Cerca de 25% de todos os sírios que trabalham perderam o emprego desde o início do conflito. A produção agrícola está em queda livre, uma vez que milhares de agricultores não têm condições de cultivar com segurança as suas terras ou obter os insumos agrícolas de que necessitam. A inflação está descontrolada. Uma pesquisa de mercado recente indica que o preço de uma cesta de alimentos padronizada aumentou mais de 50% desde março de 2011. Em áreas sitiadas e em zonas de conflito, em particular, a alta demanda e a baixa oferta levaram a um aumento dos preços das necessidades básicas, como pão, de mais de 1.000%."
"Em termos mais gerais, o preço dos alimentos, do combustível e dos remédios disparou, e o poder aquisitivo dos cidadãos comuns está severamente debilitado, fazendo com que um segmento cada vez maior da população geral esteja economicamente inseguro".
Chega? Tem mais: "O governo deixou de funcionar em aproximadamente 85% do país e luta para prestar serviços mesmo nas áreas que controla completamente. A infraestrutura física e administrativa da Síria foi dizimada", afirma Stewart Patrick, diretor do programa de Instituições Internacionais e Governança Global do Council on Foreign Relations.
Bem feitas as contas, está ocorrendo na Síria, sem a intervenção internacional, tudo o que se dizia que aconteceria se a intervenção se desse, lá atrás: desde o desastre humanitário até o contágio aos países vizinhos (vide atentado na Turquia), passando pelas reiteradas suspeitas do emprego de armas químicas.
E o mundo assistindo, como se fosse um videogame de guerra.
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