terça-feira, abril 23, 2013

O mal - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 23/04

SÃO PAULO - "Por que jovens que cresceram e estudaram aqui [nos EUA] e eram parte de nossa comunidade e de nosso país recorreram a tal violência?", indagou-se Barack Obama após a prisão de Dzhokhar Tsarnaev, suspeito de ter plantado as bombas na maratona de Boston. Em outras palavra, o que levou um garoto, descrito como "doce" e "amigável" por quem o conhecia, a praticar um ato de terror?

Nas últimas décadas, psicólogos e sociólogos que se dedicaram a estudar "o mal" chegaram a conclusões interessantes. A mais polêmica é a de que o "puro mal" só existe em nossas cabeças. De um modo geral, até o mais frio assassino acredita ter razões que justificam seu ato.

A personalidade, é claro, importa. Psicopatas e narcisistas, por exemplo, têm maior chance de envolver-se em agressões (as cadeias têm proporcionalmente mais pessoas com esse perfil do que a população geral), mas isso é só parte da história.

Experimentos conduzidos por psicólogos sociais mostraram que mesmo pessoas tidas como normais cometem verdadeiras barbaridades, se a situação as levar a isso. Philip Zimbardo, por exemplo, fez com que estudantes de Stanford representando o papel de guardas numa penitenciária fictícia logo praticassem abusos muito reais contra seus prisioneiros.

O que a literatura psicológica mostra é que a maioria dos atos de violência e crueldade pode ser reduzida a poucas causas principais. Na classificação proposta por Jonathan Haidt, as duas primeiras são ambição e sadismo, mas elas têm pouca relevância prática. É raro alguém matar só para ter lucro e mais ainda para extrair prazer. As outras duas são alta autoestima e idealismo moral. Curiosamente, são duas características que tentamos incutir em nossos filhos desde pequenos. E, quando elas se combinam para produzir um sujeito cheio de si acreditando agir a mando de um Deus ou de uma ideologia infalíveis, o pior acontece.

O novo mapa do petróleo - RUBENS BARBOSA

O GLOBO - 23/04

Segundo recentes relatórios especializados, dois fatos novos deverão trazer significativas implicações políticas, econômicas e estratégicas no cenário internacional: as fontes de produção de petróleo deverão mudar e a demanda global, em especial de China, Índia e Oriente Médio, crescerá de 35% a 46% entre 2010 e 2035.

Em 2015, os EUA deverão superar a Rússia e se transformar no maior produtor mundial de gás natural. Até 2017, os mesmos EUA devem superar a Arábia Saudita e se tornar um dos maiores produtores de petróleo do mundo. De importadores, passarão, até 2025, a ser exportadores de combustível líquido, graças a um significativo aumento na produção de gás (20% de 2008 a 2012) e de petróleo (37% nesse período).

O crescimento na produção global é resultado do grande volume de investimentos feitos nos EUA desde 2003, no Canadá, na Venezuela e no Brasil. A continuação do crescimento da produção, contudo, dependerá, segundo os relatórios, de o custo de produção manter-se ao redor de US$ 70, a preços correntes. Caso haja queda da demanda por uma recessão global ou crise no Oriente Médio, o excesso de produção poderá trazer o preço abaixo dos US$ 50, ameaçando a produção global.

A partir desses fatos e projeções, surgem algumas consequências geopolíticas da revolução petrolífera. O Oriente Média poderá deixar de ser o foco das preocupações para os principais mercados consumidores, especialmente para os EUA e Europa. E a Ásia se tornará o principal mercado para a maior parte do petróleo do Oriente Médio com a transformação da China em novo protagonista no cenário politico da região.

Os EUA reduziram, desde 2006, em 40% a importação do produto. Não parece provável, porém, que para os EUA, no contexto da política externa, as questões do Oriente Médio perderão importância. A Rússia deverá reduzir suas exportações de petróleo e, sobretudo, diante da concorrência dos EUA, de gás natural para a Europa, o que tenderá a enfraquecer a importância politica relativa russa na região.

Na América Latina, o país mais afetado devera ser a Venezuela pela redução das importações de petróleo pelos EUA, hoje situadas ao redor de 10% da demanda americana. As refinarias da costa do Golfo estão substituindo o petróleo venezuelano pelo xisto betuminoso, de produção local.

Argentina, por suas reservas importantes de xisto betuminoso, e Brasil, pelas reservas do pré-sal, estarão em posição privilegiada, caso consigam superar as dificuldades internas que impedem a exploração em sua plenitude. Nos dois países, a instabilidade jurídica, derivada da modificação das normas regulatórias, as limitações financeiras das empresas e as dificuldades que atravessam as estatais petrolíferas mostram um retrocesso em suas capacidades produtivas, justamente quando ocorre essa grande transformação. No caso do Brasil, o petróleo do pré-sal não mais será absorvido pelo mercado americano, como inicialmente esperado. Outros destinos deverão ser buscados, em especial China e Índia.

Boston, um conto mal contado - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 23/04

Há algumas graves lacunas na narrativa sobre tudo o que aconteceu após os atentados na maratona


Barack Obama tem toda a razão ao dizer que há muitas perguntas não respondidas no caso de Boston.

Algumas:

1 - Um assessor de um experimentado congressista disse ao "Boston Globe" que vários membros do Congresso estão querendo informações sobre a investigação que o próprio FBI confirmou ter feito, em 2011, sobre Tamerlan Tsarnaev, o suspeito morto pela polícia.

"O FBI tinha esse sujeito no radar, mas de alguma forma ele saiu. Ouvimos durante vários dias que não havia informação de inteligência [sobre os autores dos atentados]. Agora, descobrimos que poderia ter havido informações."

Se o FBI mantivesse nos arquivos os dados básicos de um cidadão tido como suspeito, não precisaria exibir os vídeos em que aparecem os irmãos Tsarnaev para pedir ajuda à população, o que obviamente alarmou os suspeitos, levando-os às ações em que se envolveram.

Poderia ter havido uma caçada silenciosa e discreta, o que, em tese, pouparia pelo menos uma vida, a do segurança do MIT supostamente morto pelos irmãos em fuga.

Talvez ambos pudessem ser presos com vida, o que seria do interesse da investigação, cujo objetivo "nesta conjuntura crítica deveria ser o de recolher informações para proteger a nação de futuros ataques", como disseram os senadores Johan McCain e Lindsay Graham.

2 - Que fuzilaria foi aquela nas imediações da casa em que Dzhokhar se refugiou em um barco?

Se o rapaz estava gravemente ferido, se não reagiu a tiros quando o proprietário do barco levantou a lona para verificar o que estava acontecendo, como é que poderia se envolver em uma troca de tiros cinematográfica com a polícia, como os vizinhos a descreveram?

Parece mais uma tentativa de fuzilamento sumário, o que dá margem a duas críticas: primeiro, é de novo contraproducente para a investigação, do que dá prova o fato de que Dzhokhar não está podendo ser devidamente interrogado, por causa dos ferimentos recebidos.

Segundo, fere um princípio civilizatório básico segundo o qual todos são inocentes até prova em contrário, prova que a polícia ainda não produzira, tanto que ele continuava a ser tratado como suspeito.

Afinal, é como escreveu Glenn Greenwald, colunista de direitos civis do "Guardian": "Dezenas, se não centenas de detidos em Guantánamo, acusados de serem os piores dos piores, não eram culpados de nada. Evidências apresentadas pela mídia não substituem o devido processo legal e um julgamento com direito a contraditório".

3 - Não é lógico que os irmãos em fuga soltassem o motorista que haviam tomado como refém, após dizerem que eram os responsáveis pelos atentados.

Sabiam que, se liberassem o refém, ele os denunciaria às autoridades, como de fato ocorreu. Se já haviam matado quatro, incluindo o guarda de segurança, não faz sentido que se apiedassem de uma quinta pessoa e a soltassem sem nem mesmo uma coronhada.

Se García Márquez tem razão ao dizer que um bom conto é aquele que parece verdade, o conto de Boston está devendo muito.

Campeões 2.0 - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 23/04

Na política dos "campeões nacionais", o BNDES resolveu testar a hipótese de que uma política que deu errado uma vez, se repetida, daria certo. A proposta foi a mesma que mobilizou o governo militar: escolher algumas empresas para serem receptoras de recursos públicos. Elas se tornariam fortes, e o capitalismo brasileiro teria boa capacidade de competir com os outros países do mundo.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciou em entrevista ao "Estado de S. Paulo" que a política vai ser abandonada por falta de setores para se criarem os campeões. É uma interpretação curiosa. E distante dos fatos.

O que o BNDES fez nos últimos tempos foi uma extravagante ajuda e uma inaceitável intervenção em alguns setores, como o de frigoríficos. A decisão de escolher os campeões foi feita quando o Brasil já havia se tornado o maior exportador de carne. Portanto, ganhava o campeonato sem o BNDES.

O banco distribuiu empréstimos subsidiados, aportou capital, comprou lotes inteiros de debêntures, transformou-as em capital em dois dos frigoríficos para que eles comprassem outros no Brasil e no exterior. Marfrig não vai bem, JBS virou o maior do mundo, mas alguns negócios no exterior não foram bem sucedidos, e a exportação brasileira de carne não aumentou. O grupo Bertin foi convencido a vender para o JBS seu negócio e entrar em outra área. Foi novo desastre retumbante. Bertin entrou em energia, disputou vários leilões, ganhou, mas não conseguiu realizar os projetos.

Nada, no entanto, se compara ao desastre da decisão de fazer um grande campeão em laticínios. Pouco depois de ser constituída, em sociedade com o BNDES, a LBR Lácteos Brasil entrou em recuperação judicial e está assim até hoje.

Coutinho cita áreas em que o BNDES teria feito campeões: petroquímica, siderurgia, celulose, suco de laranja e cimento. Na petroquímica, a decisão que resultou na criação da Brasken, do grupo Odebrecht, em sociedade com a Petrobras, foi anterior à gestão atual do BNDES.

Na celulose, o Brasil já tinha grandes empresas, mas o surgimento da Fibria foi resultado de uma operação de salvamento. Aracruz e Votorantim Papel e Celulose estavam muito expostos a ativos cambiais em 2008, quando a crise internacional fez o dólar subir muito. Várias empresas tiveram dificuldades. Entre elas, as duas. E o BNDES entrou salvando e tornando possível a fusão.

A internacionalização dos setores de suco de laranja foi decisão das empresas e muito anterior ao atual governo. A concentração no setor de cimentos também já é antiga.

Fica difícil encontrar o ganho para o país e a economia brasileira dessa insistência na proposta de que o Estado deva conduzir o capitalismo, que o financiador estatal deve direcionar as decisões do setor privado, e que se houver muita concentração em cada setor o Brasil será mais rico.

Isso já deu errado em 1970. E dará errado toda vez que for tentado. O que se cria com isso é uma distribuição arbitrária de privilégios e um empresário Estado-dependente. A multinacional bem sucedida é uma empresa capaz de competir no exterior e essa capacidade não será dada através de dinheiro barato ou sociedade com o banco estatal.

Nesse aspecto, é muito mais eficiente melhorar as condições gerais de competitividade do país para que as boas empresas, as que forem bem geridas e tiverem boa estratégia, possam crescer aqui e no exterior.

O Brasil está com baixo ritmo de crescimento há vários trimestres, o investimento encolheu no ano passado, algumas empresas escolhidas estão em apuros financeiros, dos quais querem ser tiradas com mais dinheiro público. É o que o país colhe por ter persistido num erro cometido nos anos 1970.

Questão de dose - JOSÉ PAULO KUPFER

O Estado de S.Paulo - 23/04

Está um tom acima do normal a expectativa em torno da divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para esta quinta-feira. A ansiedade se relaciona com as razões, a serem expostas no documento, que levaram a diretoria do BC a optar, nesse novo ciclo, por doses mínimas e limitadas, conforme o mercado interpretou do comunicado divulgado no fim da reunião do dia 17 deste mês.

De todo modo, antes mesmo de saber com mais detalhes o que teria levado o BC a tal decisão, o mercado já incorporou a mensagem que entendeu ter sido transmitida. O boletim Focus desta segunda-feira já mostrou que os analistas esperam agora apenas mais três altas de 0,25 ponto, levando a Selic a aumentar um ponto no total do ciclo e a fechar 2013 em 8,25%.

Esses ajustes não significam, porém, que a estratégia do BC passou a ser aceita, depois de uma escalada de críticas à sua suposta passividade diante de uma inflação que de fato ultrapassou, em março, o teto da meta. Desde meados de 2011, quando teve início um ciclo longo de cortes na taxa básica de juros (Selic), em ambiente de inflação acima do teto da meta, as linhas de conduta do Banco Central não se reencontraram com as preferências do mercado. A surpresa provocada pela mudança de atitude da autoridade monetária nunca foi bem digerida.

Esse já crônico incômodo digestivo aumentou, nos últimos tempos, com a demora do BC em acionar a política de juros contra a alta de preços. O mal-estar foi potencializado pelas interferências explícitas da presidente Dilma Rousseff no debate sobre a conveniência de acelerar a política monetária, em detrimento do crescimento e do emprego. A dose do efervescente agora ministrada pelo BC parece ter sido insuficiente para acabar com a azia do mercado.

Por trás dessa má digestão estão, obviamente, visões divergentes a respeito de pressupostos macroeconômicos. Um desses pontos é o nível da taxa de juros real de equilíbrio - também conhecida como taxa neutra ou natural. A taxa neutra pode ser definida com aquela que, por definição, é consistente, no médio prazo, com inflação estável e com crescimento econômico efetivo igual ao de seu potencial.

Não sendo, contudo, uma variável diretamente observável, sua apuração está sujeita às chuvas e trovoadas dos conceitos e metodologias usados para calculá-la. Por isso, os resultados encontrados costumam variar bastante e, no fim das contas, as incertezas que cercam os cálculos tendem a reduzir sua importância a pontos de referência na definição das estratégias de política monetária.

Apesar das incertezas que cercam sua determinação, o BC acompanha de perto a evolução dos cálculos da taxa de juros neutra. Mais recentemente, não só publicou dois anexos específicos sobre o tema, nos Relatórios de Inflação de setembro de 2010 e de dezembro de 2012, como também já realizou duas pesquisas com as instituições que compõem o painel do boletim Focus, também em 2010 e 2012, para levantar os níveis com os quais o mercado trabalha.

Em fevereiro de 2012, por exemplo, a mediana das respostas do mercado apontou uma taxa real neutra de 5,5%, nível que, para metade dos consultados, deveria subir ou se manter estável nos dois anos seguintes. Pode-se, assim, até medir, em pontos porcentuais da Selic, o tamanho da divergência entre a meta da Selic do BC e do mercado.

Ao determinar uma taxa Selic de 8,25%, suficiente, na sua avaliação, para manter a inflação, em 2013, nos 5,7% que ele próprio projeta, o BC indica que trabalha com uma taxa real neutra em torno de 2,5%. Mesmo que a taxa neutra do mercado tenha recuado, no último ano, para 4%, a diferença ainda será de pelo menos 1,5 ponto - mais do dobro do que o BC, de acordo com a interpretação do mercado, se mostra disposto a aceitar.

Produto potencial e ciclos financeiros - ANTÔNIO DELFIM NETO

VALOR ECONÔMICO - 23/04

A estratégia mais utilizada pelos economistas na construção de seus modelos é considerar todas as condições que estão fora dele como constantes. A essa hipótese se dá em latim um nome pomposo: "ceteris paribus. Em português menos elegante, significa ignorar, pelo menos numa primeira aproximação, todos aqueles fatores que estão fora do modelo e cuja variação lhe seriam inconvenientes ou perturbadoras. Frequentemente os modelos exigem o conhecimento de parâmetros não estimáveis diretamente, e cuja construção estatística é, então, condicionada às necessidades do próprio modelo.

É o caso, por exemplo, do chamado produto potencial, cuja estimativa é o maior problema da política monetária. Mas o que é esse misterioso "produto potencial"? Na definição clássica de Frederic S. Mishkin ("Conference on Price Measurement for Monetary Policy", Federal Reserve Bank of Dallas, May 4, 2007), "ele é o nível do PIB no qual oferta e procura agregadas da economia são iguais de forma que, ceteris paribus ("all else being equal"), a taxa de inflação tende, no longo prazo, a gravitar em torno do seu valor esperado".

E por que é importante? Porque: 1) pensamos o produto potencial como o nível do PIB que leva ao maior nível sustentável do emprego; 2) precisamos saber qual o nível futuro do PIB consistente para mantê-lo; e 3) porque o "output gap" (a diferença entre o nível do PIB corrente e o seu nível potencial) parece exercer um papel importante na determinação do nível de inflação.

O item 1 decorre de uma relação (relativamente robusta) chamada Lei de Okun (um economista americano), que sugere uma ligação relativamente estável entre a taxa de crescimento do PIB e o nível de desemprego deduzido da taxa de desemprego "natural". Essa taxa é outra invenção do modelo. Ela corresponde ao nível de desemprego quando o PIB está no seu nível "potencial".

O item 2 decorre de uma relação (relativamente tênue), chamada curva de Phillips (um economista neo-zelandês), entre a variação da taxa de inflação e da taxa de desemprego: quando o nível de desemprego é o "natural", a inflação permanece constante. As quatro variáveis mencionadas acima são ligadas por duas relações que exigem o conhecimento do PIB "potencial" e da sua irmã siamesa, a taxa "natural" de desemprego. A grande questão é que a existência e estabilidade da lei de Okun e da curva de Phillips também dependem da condição ceteris paribus.

Agora mesmo, um excelente trabalho do FMI (o capítulo 3 do World Economic Outlook, April 2013, pg. 79) mostra como durante recessões a relação entre a variação da taxa de inflação e o aumento do desemprego (uma variante da curva de Phillips) é diferente (o que mostra que "todo o resto não permanece constante"). O efeito da diferença entre a taxa de desemprego e o seu nível "natural" parece ter hoje um efeito deflacionário muito menor do que no passado. Em outras palavras, dadas as condições institucionais atuais do mercado de trabalho, uma redução da taxa de inflação parece exigir um aumento consideravelmente maior do desemprego do que anteriormente.

No artigo de Mishkin a que nos referimos, ele explora os três métodos mais conhecidos para estimar o PIB potencial: a) o primeiro envolve a determinação da taxa "natural" de desemprego pela curva de Phillips e usá-la na lei de Okun, o que, pelos motivos expostos acima é mais do que duvidoso; b) o segundo usa a clássica "contabilidade do crescimento", com funções de produção para estimar a produtividade marginal do trabalho e do capital, esquecendo que elas, em geral, são apenas manipulações algébricas de uma identidade fundamental: o PIB (valor adicionado) é, por definição, igual ao total de salários mais o lucro do capital; e c) o terceiro usa o modelo neo-keynesiano (Dinamic Stochastic General Equilibrium (DSGE), que pensa o produto potencial como aquele que poderia ser atingido, se fossem eliminadas todas as ineficiências produzidas pela rigidez de preços e salários nos mercados de uma economia habitada por agentes racionais maximizantes. Dado o considerável fracasso desse modelo na antecipação da possibilidade de crises como a de 2008, a proposta é um beco sem saída.

Aparentemente, o grande economista Claudio Borio (acompanhado de Piti Disyatat e Mikael Juselius), começa a abrir uma nova porta que pode levar a resultados mais adequados. Em um recente trabalho ("Rethinking Potencial Output: Embedding Information about the Financial Cycle", BIS Working Papers nº 404, February 2013), sugere introduzir as fricções financeiras na estimativa do inobservável produto potencial.

Os resultados preliminares são muito interessantes, principalmente porque mostram as deficiências das estimativas anteriores e põem em evidência os riscos e os consequentes custos sociais das políticas monetárias mal informadas que os bancos centrais do mundo vêm utilizando há pelo menos 30 anos. Mostram, também, como é precária e pretensiosa a suposta "ciência" monetária de que se supõem portadores alguns economistas, e como eles ganhariam maior credibilidade se fossem mais modestos e menos "cientificistas".

A conclusão de Borio e seus companheiros é que "os fatores financeiros são importantes no entendimento e na mensuração do produto potencial e do "output gap". Eles são fundamentais para explicar a flutuação cíclica nas frequências tradicionais dos ciclos econômicos e na determinação de quais trajetórias do PIB são sustentáveis ou não". O trabalho está apenas começando. Mãos à obra, então!

Xô, mau humor - BENJAMIN STEINBRUCH

FOLHA DE SP - 23/04

O mau humor, no caso da economia, pode ser a manifestação de quem torce contra o país


Li há dias uma frase do filósofo austríaco Ludwig Josef Johann Wittgenstein (1889-1951) que diz o seguinte: "O humor não é um estado de espírito, mas uma visão de vida". E pensei imediatamente em comportamentos verificados hoje na economia brasileira.

Dissemina-se indisfarçável mau humor com a economia. A inflação está sendo pintada com cores do velho dragão, um exagero, visto que está em nível próximo da média anual dos últimos 14 anos, de 6,4%.

A rabugice do mercado leva a uma avaliação a meu ver exageradamente pessimista do valor dos ativos de algumas empresas brasileiras de capital aberto. Não pretendo citar exemplos, mas o leitor sabe que algumas companhias perderam de 50% a 80% de seu valor de mercado. Será que elas valiam tanto antes? Será que valem tão pouco agora? Como sempre, provavelmente a virtude está no meio.

Claro que a inflação é um inimigo a ser combatido com vigor e persistência --já aprendemos essa lição nos anos hiperinflacionários da década de 1980. Mas não é disso que se trata. Trata-se, hoje, de um problema de humor que leva até economistas de renome a proclamar os riscos de uma inflação de tomate, que não passa de um desarranjo momentâneo na produção dessa fruta.

Cá entre nós, é óbvio que o mercado financeiro vive uma crise de abstinência de juros. Os agentes desse mercado estavam acostumados com altas doses de juro real (acima da inflação), agora reduzidas. Como nos casos das drogas, a abstinência provoca modificações "orgânicas" que levam o dependente a buscar argumentos que justifiquem a volta à situação anterior.

Na semana passada, o Banco Central deu certo alívio a essa crise de abstinência ao elevar os juros em 0,25 ponto percentual, para 7,5% ao ano. Essa pequena mudança não terá impacto na economia, mas, quem sabe, poderá ter efeito psicológico para atenuar a tensão do mercado.

Não há como negar que os dois últimos anos foram difíceis, principalmente para empresas que produzem. Os preços internacionais de exportação caíram, o crescimento econômico tem sido baixo aqui e lá fora, o custo da mão de obra disparou e pioraram as margens e os resultados das empresas. A indústria se contraiu e há, sem dúvida, um processo de desindustrialização no país.

Neste ano, a balança comercial flerta com o deficit e as importações continuam a inviabilizar a produção interna em vários setores industriais. Além disso, o país ainda não enfrentou o problema da racionalização da estrutura tributária, especialmente do PIS/Cofins e do ICMS.

Tudo isso é verdade, mas é prerrogativa de mal-humorados olhar apenas para o lado negativo das coisas --uma visão de vida, na expressão de Wittgenstein. Não é o meu caso. Prefiro lembrar o que disse Fernando Sabino (1923-2004): "Antes de mais nada, fica estabelecido que ninguém vai tirar meu bom humor".

E isso porque há várias razões para ter atitude positiva em relação ao país. No último ano, além da redução da taxa básica de juros para um nível mais civilizado, houve ajuste cambial que melhorou a competitividade das exportações, redução dos custos da energia, desonerações de folhas de pagamento de dezenas de setores, taxação de algumas importações para estimular a indústria nacional e concessões nas variadas áreas de infraestrutura.

Antes de franzir a testa em atitude rabugenta, é preciso observar que a crise global já dura cinco anos e que o Brasil, a despeito de todos os problemas, jamais foi ameaçado nesse período. O nível de emprego é recorde --o que provoca escassez de mão de obra--, a renda dos brasileiros está em alta e mais bem distribuída e a pobreza extrema vem sendo combatida com sucesso.

Na área externa, o país está muito longe de enfrentar crises cambiais porque tem reservas de US$ 370 bilhões e, além disso, ainda conta com o ingresso de elevados investimentos diretos estrangeiros.

Os psiquiatras chamam de "distímicos" os indivíduos que só enxergam o lado negativo do mundo. O mau humor, portanto, pode ser doença, mas, no caso da economia, também pode ser a manifestação de quem torce contra o país por razões variadas. Minha recomendação é que se fique longe desses mal-humorados, seja na economia, seja em qualquer outra área, pois essa doença é contagiosa. Xô, mau humor!

Política econômica na contramão da história - NATHAN BLANCHE

O ESTADÃO - 23/04

Em 1860, em discurso ao Congresso norte-americano, o presidente Abraham Lincoln declarou sabiamente que "não se pode criar prosperidade desencorajando a poupança. Não se pode amparar o pobre arruinando o rico. Não se pode ajudar os seres humanos continuamente fazendo por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios". Infelizmente, o governo brasileiro não tem seguido essa ideia.

Ao longo da última década, é possível identificar dois grupos distintos na América Latina no que diz respeito ao desenvolvimento econômico. De um lado, México, Chile, Peru, Colômbia e Brasil (até 2006). De outro, Argentina e Venezuela.

No primeiro grupo foram adotados modelos de gestão econômica tendo como princípio abertura comercial, liberdade do fluxo de capitais, câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e regime de meta de inflação, operado por bancos centrais independentes. Já no segundo bloco a política econômica se baseia no intervencionismo do Estado na economia, maior protecionismo, controle do fluxo de capitais, controle de preços e irresponsabilidade fiscal.

O primeiro bloco tem conseguido taxas elevadas de crescimento, desemprego baixo, ganhos de renda e controle da inflação. No segundo, o resultado tem sido crescimento instável, investimento em desaceleração, inflação elevada e deterioração das contas externas. Em alguns deles já se nota desabastecimento de produtos e ágio de mais de 50% no mercado negro de câmbio.

A partir de 2008 e, sobretudo, após a eleição da presidente Dilma, o Brasil abandonou o grupo dos estáveis e enveredou para o tipo de gestão vista no segundo grupo. A nova matriz econômica é baseada em relaxamento da política monetária, expansionismo fiscal e manipulação de preços e controle do câmbio e uso de barreiras tarifárias para elevar a competitividade do setor industrial. Os resultados disso são deterioração do saldo comercial, queda do investimento, crescimento pífio e inflação mais alta.

Ademais, com as frequentes mudanças nas regras do jogo, por meio de normativos cambiais para capital estrangeiro (IOF) sobre crédito e financiamento, o Brasil está voltando a ser o "patinho feio". E o aumento das incertezas já reflete na elevação do prêmio de risco em relação aos países do primeiro bloco, apesar do elevado montante de reservas internacionais.

Apesar da piora dos indicadores econômicos e das expectativas, continuam a surgir medidas, pacotes e propostas no sentido de dobrar as apostas no atual modelo econômico. Conselheiros próximos à presidente têm sugerido: 1) elevar a meta de inflação, atualmente em 4,5% ao ano, já alta em comparação à média da meta dos países do primeiro bloco (2,75%); 2) reduzir o superávit primário via expansão dos gastos correntes; 3) desvalorizar o real; e 4) intensificar a concessão de crédito subsidiado por meio de bancos públicos. Essa piora de gestão vem resultando em aumento de incertezas, redução de investimentos e menor crescimento da economia. Além disso, manifesta-se na redução do fluxo de capitais para o País, que está negativo neste ano. Para um país que tem baixo nível de poupança doméstica (14,8% do PIB) e, portanto, necessidade de poupança externa para crescer, a notícia é péssima, principalmente quando se observa o excesso de liquidez existente no mundo.

A necessidade de capitais para financiar o déficit em conta corrente no ano é de US$ 110 bilhões. Caso a entrada de dólares não se confirme, haverá um potencial de desvalorização do câmbio, o que só se agrava, tendo em vista que 10% da dívida pública está nas mãos de estrangeiros e que cerca de US$ 320,6 bilhões é a posição de estrangeiros em ações. Neste caso, o efeito será inflação mais elevada e retração da atividade econômica.

Diante dos frágeis indicadores econômicos e das eleições em 2014, ou o governo dobra sua aposta na nova matriz econômica ou retoma o bem-sucedido tripé de política econômica baseado em câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação.

A chance de que a segunda alternativa seja a escolhida é pequena. Sendo assim, conformemo-nos todos em entrar no túnel do tempo para as décadas de 1970 e 1980. A conta a pagar, com relação a crescimento, inflação e bem-estar, será alta já a partir de 2015.

Estilo vereadora - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 23/04
Ao ampliar a entrega de ônibus escolares, retroescavadeiras e outros equipamentos aos municípios, Dilma faz uma linha direta com os prefeitos, dispensando os intermediários, no caso, deputados, senadores, governadores e até ministros
Vale observar com uma lupa o périplo da presidente Dilma Rousseff pelos estados e municípios nos últimos tempos. Especialmente, quando conversa diretamente com os prefeitos. Para quem adora um protocolo - logo que chegou ao governo, ela distribuía broncas a ministros que saíam do script -, Dilma parece ter mudado bastante. Age como se quisesse fazer uma ponte direta com os municípios, dispensando intermediários, no caso, deputados, senadores e governadores.

Recentemente, num evento no Nordeste, um prefeito foi designado para receber retroescavadeiras em nome de todos os chefes das administrações municipais contemplados naquela leva. Eram quase 50. Ela, na hora da entrega dos equipamentos, mandou que todos subissem ao palanque. Brincou com todos eles, simpaticíssima. Quem acompanhou o evento, saiu com uma imagem que em nada combina com aquela da Dilma irascível, distribuidora de broncas que beiram o insulto pessoal - alguns interlocutores juram que ela já ultrapassou essa barreira algumas vezes.

Essas atitudes diretas de Dilma com os prefeitos têm sido observadas e registradas por todos. Setores da oposição consideram que isso mostra a insegurança da presidente com sua performance em 2014. Daí a necessidade de realizar essa linha direta com os municípios. Mas, dentro do governo, a visão é outra. Ao se comunicar diretamente com os prefeitos, Dilma age como Lula fazia nos tempos pós-mensalão: ia direto ao povo, de forma a não ficar tão refém dos partidos na hora de concorrer à reeleição.

No caso do ex-presidente, a estratégia deu certo. Até porque, ele não reuniu dissidentes da própria base. Até Marina Silva ainda estava no PT em 2006, quando Lula foi reeleito - ela era ministra do Meio Ambiente. O confronto direto entre Marina e a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, se arrastaria de dezembro daquele ano até 2008. Naquele mês, Marina deixou o governo.

Dilma, além de Marina, tem no governador de Pernambuco, Eduardo Campos, outro aliado que começa a alçar voo próprio. Ou seja, a presidente não irá para a reeleição com as facilidades políticas que Lula manteve quando se recandidatou. Para completar, a imagem de durona que a acompanha no meio político ajuda a afastar os deputados e senadores.

Diante dessa perspectiva de divisão mais ampla no campo político - e das fragilidades da economia -, Dilma surge como uma vereadora nacional. Entrega retroescavadeiras, trechos de estradas, postos de saúde, kits de combate à seca, casas populares, ônibus escolares e ambulâncias A ordem é deixar cada obra que sai do governo federal marcadas com o seu perfume, de forma a não deixar dúvidas sobre quem foi responsável por aquele benefício. Pode ser apenas um detalhe, mas nunca é demais lembrar que detalhes muitas vezes fazem a diferença. Como diz o rei Roberto Carlos, detalhes tão pequenos são coisas muito grandes para se esquecer. E o que Dilma deseja é ser lembrada. Em outubro de 2014.

Enquanto isso, no STF.
Vem aí a boa polêmica levantada pelo Ministro Marco Aurélio Mello sobre o fato de dois de seus colegas, Celso de Mello e Luiz Fux, terem pedido para suprimir do acórdão do mensalão parte das sustentações orais que fizeram ao longo do julgamento. Pode parecer um detalhe, mas nos detalhes se constroem teses.

E no ninho tucano.
O ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado, ex-senador e ex-ministro da Saúde e do Planejamento José Serra é personagem mantido sob observação dia e noite. Qualquer gesto que faça daqui em diante dará margens às mais diversas interpretações. Mas essa é outra história.

Chega ou não chega - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 23/04

O essencial não foi levantado: é mesmo o caso de manter a facilidade para mais partidos?


A discussão em torno do projeto que restringe a criação de mais partidos, já aprovado na Câmara e à espera do Senado, tem uma peculiaridade. E, além dela, gira em torno de um eixo falso.

Os partidos favoráveis à restrição --PT, PMDB, PR, DEM, PSD e outros menores-- são acusados pelos contrários ao projeto --PSDB, PSB, PSOL e os amasiados PPS-PMN-- de agir com oportunismo eleitoreiro. A restrição dificultaria mais candidaturas à sucessão de Dilma Rousseff, em especial a de Marina Silva pelo seu pretendido partido Rede. Essa tese tem prevalecido, o que não impediu a vitória do projeto na Câmara por folgados 240 votos a 30.

Mas o curioso é que a mesma acusação de mero oportunismo pode ser feita aos adversários das restrições. É também e só por oportunismo eleitoreiro, e de olho na propaganda eleitoral gratuita, que o PSDB de Aécio Neves, o PSB de Eduardo Campos e o PSOL anti-PT desejam mais candidaturas à sucessão, convencidos de que assim seria mais provável a necessidade de segundo turno. Ou seja, ficaria mais difícil a reeleição de Dilma Rousseff já no primeiro turno.

Com isso, tudo a respeito do projeto transpira motivação política, em relação a Dilma Rousseff ou ao governo. No Congresso e fora dele, o essencial não foi levantado em momento algum: já com duas dúzias de partidos na Câmara, a maioria sem a menor significação política ou representativa, e numerosos outros sem presença parlamentar, é mesmo o caso de manter a facilidade para mais partidos?

Criar partido, aliás, tem tido também finalidade não política: é fonte de dinheiro fácil. Seja dinheiro público do fundo partidário, seja proveniente de arrecadações a pretexto eleitoral e outros.

Os equivalentes oportunismos de um lado e de outro tornam o alegado problema do momento nulo ou menos importante do que a possibilidade de corrigir, em parte, uma das deformações graves do sistema político brasileiro.

A ESPERA

A Associação Nacional dos Procuradores da República está pedindo ao Supremo Tribunal Federal que "delibere o quanto antes na ação sobre o poder de investigação dos procuradores", contra o qual tramita no Congresso, já a caminho da decisão, um projeto chamado PEC 37, com forte apoio dos policiais.

O Supremo, porém, parece esperar que o Congresso decida a PEC 37, o que o pouparia das reações inevitáveis e fortes, qualquer que fosse o perdedor no julgamento.

No estado em que estão a criminalidade urbana e a corrupção no Brasil, nenhum meio sério de investigação é demais. Trata-se, isto sim, de torná-los complementares. O contrário é só interesse de classe.

A advertência de Barbosa - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 23/04
"O mundo está de olho no Brasil", adverte o presidente do Supremo Tribunal FederalJoaquim Barbosa, dizendo que esse nosso jeito de "não fazer as coisas fingindo que está fazendo" põe em risco nossa credibilidade como país. Barbosa, que está nos Estados Unidos para uma palestra na Universidade de Princeton e uma homenagem da revista "Time", que o colocou como uma das cem pessoas mais influentes do mundo, está se referindo ao julgamento do mensalão, que, divulgado o acórdão, será retomado dentro de dez dias com os embargos da defesa.

Ele considera absurda a possibilidade de haver um novo julgamento, pois o Supremo é a última instância do Judiciário, e diz que a sociedade brasileira não vai entender se houver uma mudança de posição do STF em tão pouco tempo. O presidente do Supremo não quis falar especificamente sobre os "embargos infringentes", que considera não existirem mais, embora estejam previstos no regimento interno do STF. Esse será o debate mais importante da próxima fase do julgamento, pois é através desses embargos, e não dos "embargos de declaração", que alguns réus poderão ter suas penas reduzidas.

Assim como Barbosa, alguns ministros também consideram que os "embargos infringentes" não existem mais desde que a Lei 8.038, de 1990, regulamentou os processos nos tribunais superiores e não os previu para o STF. De lá para cá, será a primeira vez que o Supremo enfrentará essa questão, pois desde então não houve pedidos para "embargos infringentes" nos julgamentos ocorridos naquela Suprema Corte.

No caso atual, se confirmada a tendência da maioria do plenário de aceitar os "embargos infringentes", acontecerá uma situação esdrúxula, pois a maioria não levou em consideração o regimento interno quando dobrou o prazo para que as defesas apresentem seus embargos, preferindo seguir o Código de Processo Civil.

Os "embargos infringentes" podem mudar a condenação de nada menos que 12 dos 25 réus em dois itens: formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. O primeiro item pode beneficiar o núcleo político do PT, a começar pelo ex-ministro José Dirceu, que é o que tem mais a ganhar. Condenado a dez anos e dez meses, se for absolvido da acusação de formação de quadrilha, terá dois anos e 11 meses deduzidos de sua pena, e, em vez de começar a servir em regime fechado, pegará o semiaberto.

Outra condenada, Simone Vasconcellos, também teria a pena reduzida a menos de dez anos, indo para o semiaberto. A mudança da pena pode ocorrer porque o plenário que fará a revisão do julgamento será diferente do que o que condenou. Teori Zavascki, que entrou no lugar de Cezar Peluso, votará pela primeira vez no caso. Como também Ayres Britto se aposentou, o plenário voltará a ter dez votos, com a diferença de que Peluso não votou em formação de quadrilha nem em lavagem de dinheiro, e, portanto, o placar neste momento está em 5 a 4 pela condenação, e não mais 6 a 4. Se o novo ministro concordar com os colegas que absolveram os condenados, o julgamento estará empatado, favorecendo os réus. Na questão da lavagem de dinheiro, o réu João Paulo Cunha tem vantagem ainda maior: o placar que o condenou, de 6 a 5, hoje já está empatado em 5 a 5. O voto de Zavascki será decisivo.

Barbosa pretende fazer uma defesa da não existência dos "embargos infringentes", mas a tendência clara no plenário é seguir a posição de Celso de Mello, que, no julgamento anterior, contestou a tese da defesa de que não haveria duplo grau de jurisdição no julgamento do mensalão, o que seria contrário à defesa dos réus, alegando justamente os "embargos infringentes" previstos no regimento interno.

Barbosa está convencido de que agiu não com "intransigência", como coloquei na coluna de sábado, mas com "coerência", ao ficar isolado na votação em plenário sobre a ampliação do prazo para que a defesa analise o acórdão da Ação Penal 470, popularmente conhecido como "do mensalão". O ministro continua achando que o STF não deveria ter flexibilizado a legislação, para evitar dar ao julgamento um caráter excepcional. "Eu agi sempre assim na minha vida, nunca deixei de cumprir estritamente a lei", disse-me por telefone.

Rosas de abril - DORA KRAMER

O ESTADÃO

A sindicância interna do Palácio do Planalto cujo resultado – parcial ou integral – está na revista Veja desta semana revela mais detalhes sobre a sem cerimônia com que Rosemary Noronha tratava de seus interesses no governo Luiz Inácio da Silva, valendo-se de mordomias e destratando subordinados com a arrogância tosca dos deslumbrados e a insolência decorrente da segurança das costas mantidas quentes por ninguém menos que o presidente da República.

A história cria uma situação e suscita duas indagações. Primeiro, é mais um fator de constrangimento para o ex-presidente.

Acrescenta-se à abertura de inquérito na Procuradoria da República no Distrito Federal para esmiuçar o depoimento de Marcos Valério de Souza sobre a participação de Lula no mensalão e à investigação do Ministério Público da Costa Rica em contratos da construtora Odebrecht no país obtidos com o apoio assumido de Lula.

Afinal de contas, Rose só agia como agia, só tinha todas as portas abertas, só operava livremente, só era bajulada por autoridades, lobistas e aspirantes a beneficiários de traficâncias, só foi mantida pela presidente Dilma Rousseff na chefia do gabinete da Presidência em São Paulo em função de sua proximidade com o homem que governou o Brasil por oito anos, carrega uma popularidade imensa e dita os rumos do partido locatário (que se considera proprietário) do poder central.

Não por outro motivo que a intenção de amainar o desconforto de tal ligação entre causa e efeito, assim que encontrou uma brecha no escândalo Rosemary, Lula entrou em cena falando na eleição presidencial de 2014 a fim de mudar o assunto e atrair para o campo da política as atenções até então voltadas para um caso de polícia.

Vamos às indagações: uma que fica no ar diz respeito às razões pelas quais o governo, tão avesso a sindicâncias, notadamente as produtivas em termos de resultados, de alguma forma possibilitou que as informações chegassem à imprensa.

A outra dúvida é se essas informações chegaram completas ou incompletas. O relatório fala sobre mordomias, favorecimento indevido a amigos e parentes, obtenção de vantagens pessoais, falsificação de documentos, mas não se sabe se há neles alguma narrativa sobre outras e mais ações ilegais.

Rosemary Noronha, não se pode esquecer, é alvo de pedido de indiciamento em inquéritos da Polícia Federal, acusada por falsidade ideológica, corrupção ativa e tráfico de influência. Quer dizer, tem passivo policial substantivo.

A oposição cobra do governo a divulgação da íntegra do resultado da sindicância e tem razão. É preciso que o Planalto diga se é só isso ou se há mais. Se não há, a investigação não se deu por completada. Caso haja, trata-se de pasta de dente que não volta ao tubo.

Se o Planalto ajoelhou, tem que rezar. A recusa levaria à suposição de que aceitou revelar uma parte da história apenas para dar uma satisfação a cobranças inevitáveis na campanha eleitoral, com o intuito real de encobrir o restante de uma narrativa bem mais familiar ao Código Penal que afagos indevidos de diplomatas subservientes, escambo de favores com postulantes a benesses de governo e grosserias que em altos escalões da República são vistos como sinal de autoridade.

Síntese.
Em seu artigo de domingo no jornal O Estado de S. Paulo sobre Margaret Thatcher, o prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa inclui entre os atributos que admirava na “Grande Dama” a capacidade de dizer sempre aquilo em que acreditava e agir sempre de acordo com o que dizia.

Vargas Llosa diz ter conhecido poucos políticos com essa característica. Teve sorte de conhecer algum, porque nós – para falar só do Brasil – não conhecemos nenhum.

De ponta cabeça - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 23/04

BRASÍLIA - As bombas nos EUA ainda não totalmente explicadas, a economia da Europa devagar, as ameaças da Coreia do Norte, as incertezas em relação ao Irã, as intempéries na Ásia e a fome na África.

Não bastasse, temos agora na América do Sul dois polos que se contrapõem ferrenhamente. De um lado, a Venezuela chavista está vazia de Chávez e entupida de problemas. De outro, o Paraguai volta aos poucos à Unasul e ao Mercosul com um presidente eleito, Horacio Cartes, podre de rico num país muito pobre, além de suspeito de con- trabando, lavagem de dinheiro e "otras cositas más".

Tempos difíceis virão. O Brasil precisa urgentemente recuperar a força e o equilíbrio da sua diplomacia, para exercer a liderança que lhe cabe naturalmente, como país maior, mais populoso, mais rico e de maior inserção internacional na região.

O primeiro passo é voltar à cabeceira da mesa, mas o principal é deixar a ideologia de lado e atuar com real diplomacia e mais pragmatismo. Os problemas internos dos outros são problemas internos dos outros.

Até aqui, o Brasil tratou de modos distintos as questões internas do Paraguai e da Venezuela. O ex-bispo Fernando Lugo foi deposto em tempo recorde, mas pelo Congresso e pela Justiça e com apoio da Igreja Católica e um certo conformismo da população. Apesar disso, o Brasil articulou a suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul.

Já Maduro foi eleito por margem muito apertada de votos e num processo sob suspeição --tanto que há recontagem--, mas Dilma correu a reconhecer a vitória e cumprimentá-lo já no primeiro minuto. Dois pesos, duas medidas.

A demora de Dilma para telefonar ao paraguaio Cartes e a versão de que há pressões para que o Congresso do país aprove a Venezuela no Mercosul são maus prenúncios. Liderança é uma coisa, arrogância é outra bastante diferente.

Hora de revisão no BNDES - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 23/04
Depois de aplicar R$ 18 bilhões em grupos selecionados para serem campeões do mercado, com muito desperdício e nenhuma contribuição ao progresso do País, o BNDES vai finalmente abandonar essa política. Sem reconhecer o fracasso, o presidente do banco, economista Luciano Coutinho, prefere apresentar como concluída "a promoção da competitividade de grandes empresas de expressão internacional". Essa orientação, disse ele ao Estado, "tinha méritos"- e chegou "até onde podia". A explicação da mudança de rumo é tão discutível quanto foi a política iniciada há seis anos, quando a instituição começou a incentivar fusões, aquisições de empresas e programas de expansão internacional de companhias favoritas do governo.

Segundo o presidente do BNDES, poucos setores têm potencial para projetar empresas como líderes internacionais. Sua lista inclui siderúrgicas, frigoríficos, petroquímicas e indústrias de celulose, cimento e suco de laranja. "Não. enxergo outros com o mesmo potencial", disse ele na entrevista. Seu julgamento equivale, portanto, a uma condenação de um enorme número de indústrias como incapazes de batalhar por fatias significativas do mercado global.

Se essa opinião for correta, a Embraer está destinada ao fracasso, apesar de seu atual sucesso em segmentos importantes do mercado. Fabricantes de máquinas, veículos e outros equipamentos estão igualmente iludidos, se ainda esperam algum sucesso internacional, assim como os produtores de tecidos, roupas e sapatos. Melhor seria fechar suas instalações e cuidar de algo mais promissor. Além do mais, por que o próprio BNDESPar, o ramo de investimentos do banco, ainda se interessa, como disse Coutinho, por setores como o farmacêutico, de informação e de bens de capital?

A política do BNDES foi errada tanto na formulação conceituai quanto na seleção dos beneficiários efetivos de sua política. Alguns grupos eleitos para ser vencedores atolaram-se em problemas financeiros, Marfrig e LBR (Lácteos Brasil) são apenas dois exemplos. Sem pôr em dúvida as motivações de cada operação, é impossível, no entanto, deixar de apontar graves falhas na avaliação de cada negócio apoiado pelo programa. Em fevereiro deste ano o BNDESPar confirmou a baixa contábil de R$ 657 milhões relativos à sua participação na LBR. O banco contribuiu com R$ 700 milhões para a criação da gigante do setor de leite, em 2011, passando a deter 30,28% de seu capital.

Alguns erros de julgamento custaram centenas de milhões ao sistema BNDES. A imprensa ajudou a evitar um dos enganos mais grotescos, quando o BNDES chegou a um passo de se envolver na tentativa de compra do Carrefour pelo Pão de Açúcar. Seria uma trapalhada enorme, porque os sócios franceses do Pão de Açúcar certamente contestariam o negócio com a rede concorrente. Evitou-se na última hora um vexame de proporções incomuns.

Apesar de todos esses erros, a política poderia ser defensável como conceito. Mas nada se salva, nessa história de equívocos e desperdícios. A política seguida por seis anos foi indigente do ponto de vista estratégico. Sua contribuição para elevar a eficiência e o poder de competição da economia brasileira foi nula ou negativa, quando se considera o mau uso de recursos. Nenhum obstáculo estrutural ao crescimento e à modernização das empresas foi removido. Os dirigentes do banco desprezaram o julgamento da maior parte dos empresários sobre as possibilidades de cada empresa e de cada setor. Assumiram uma visão estática, sem levar em conta a criatividade e a capacidade de transformação das companhias privadas. Não se pode, no entanto, falar de incoerência.

A má política do BNDES foi um perfeito complemento da indigência estratégica e gerencial do governo da União, incapaz de promover investimentos indispensáveis na infraestrutura, de melhorar os gastos públicos, de remover entraves ao desenvolvimento - tributários e outros - e de buscar os acordos comerciais necessários à abertura de mercados para os produtores nacionais.

Transporte precário causa enorme perda nos grãos - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/04

Somente com a soja que vai do Centro-Oeste para os portos, o prejuízo anual está calculado em R$ 6,6 bilhões. Com o milho, é mais R$ 1,4 bilhão



O Brasil se tornou um dos principais produtores de grãos. Em volume, perde apenas para a China e os Estados Unidos. Considerando-se somente a exportação, costuma disputar o primeiro lugar, alternando com os Estados Unidos no caso da soja ,e agora, também,do milho. Além da agricultura, o país se destaca na pecuária, na avicultura e na suinocultura, com forte participação no mercado internacional. O agronegócio se estende pelo segmento de produtos florestais, pelo algodão, café, cana-de-açúcar, borracha e muito mais.

Toda essa produção deixou de se concentrar nas áreas próximas ao litoral. O Centro-Oeste já ultrapassou a região Sul como maior produtora de soja e milho. De qualquer forma, as exportações são escoadas por alguns portos situados ao longo da costa brasileira. É fundamental, então, que haja um bom sistema logístico, composto por ferrovias, rodovias, hidrovias, entrepostos e armazéns, para que se possa chegar rapidamente a esses portos e ao menor custo possível. Mas, na prática, essa infraestrutura avança com uma lentidão inconcebível. Em relação às ferrovias, por exemplo, já se perdeu a conta de quantas vezes foi adiado o início das operações de novos trechos. Nas rodovias, já virou cena clássica aquela de caminhões puxados do meio da lama no trecho não pavimentado da estrada que liga Cuiabá (Mato Grosso do Sul) a Santarém (Pará).

Mesmo nas vias em direção ao Sudeste e ao Sul ,a manutenção de muitas rodovias federais fica a desejar. Repórteres do GLOBO acompanharam o percurso — 2.450 quilômetros — da soja colhida em Mato Grosso (Lucas do Rio Verde) até o embarque no Porto de Paranaguá (Paraná), e constataram a precariedade desse corredor logístico. Quando não são os buracos nas estradas, encarecendo o frete rodoviário, é a falta de armazéns e a burocracia excessiva nos portos que provoca perdas na cadeia produtiva. Somente no caso da soja, calcula-se que a perda anual alcance a cifra de R$ 6,6 bilhões. No milho, o prejuízo seria de R$ 1,4 bilhão. Chega a ser surpreendente que, com todas essas deficiências, o Brasil ainda se msotre competitivo no agronegócio e consiga abastecer o mercado asiático concorrendo com outros produtores importantes (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina), que não se ressentem das mesmas deficiência na infraestrutura e no seu arcabouço logístico.

Cerca de 92% das exportações de grãos embarcam em portos do Sul e do Sudeste, e apenas 8% pelo Norte e o Nordeste. Trata-se de um quadro desbalanceado que já deveria ter sido em parte corrigido se a ferrovia Norte—Sul estivesse em pleno funcionamento, ou se fosse concluído o asfaltamento do trecho paraense da BR 163. Em ambos os casos, há promessas de consideráveis avanços para o fim do ano. Tomara.

Ciência com barreiras - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 23/04

O setor de pesquisa científica no Brasil está numa encruzilhada semelhante à da educação: após crescer em ritmo razoavelmente satisfatório, não sabe ao certo que rumo seguir para melhorar a qualidade do que fornece ao público.

No campo do ensino, o país caminha para universalizar o acesso à educação. A meta é ter 98% das crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola até o ano 2022, e a taxa de cobertura se encontra em 92%.

Há deficiências, claro, em especial nas pontas do ensino básico --pré-escola e ensino médio. Na faixa de 4 e 5 anos, a taxa de atendimento é de 80%; na de 15 a 17 anos, fica em 83%.

No que toca à qualidade, as metas vêm sendo cumpridas, mas são por demais modestas: chegar a 2022 com notas 5,5 no ensino fundamental e 5,2 no médio (segundo a metodologia Ideb).

No ramo da pesquisa científica, o país investiu nas últimas décadas no aumento da quantidade de estudos. Cientistas e instituições passaram a ser avaliados e financiados com base na sua produtividade. Colheram-se bons resultados.

De acordo com levantamento desta Folha na base de dados internacional Scimago, pesquisadores brasileiros publicaram pouco menos de 14 mil artigos, em 2001, nos periódicos de primeira linha. Isso punha o país na 17ª posição da classificação mundial de campeões da ciência, dominada então por EUA, Japão e países europeus.

Em 2011, o avanço era visível. Foram quase 50 mil trabalhos publicados, ou 3,6 vezes a produção de dez anos antes. Com isso, o Brasil passou a ocupar o 13º lugar.

Bem outro é o quadro da qualidade desses trabalhos, tradicionalmente avaliada pela métrica das citações (sob o pressuposto de que, quanto mais menções um artigo publicado receber em outros estudos, mais ele terá contribuído para o conhecimento científico). Neste quesito, a pesquisa brasileira caiu da 31ª para a 40ª posição durante o período considerado.

A conclusão que se impõe é que os cientistas do Brasil produziram bem mais, mas com impacto decrescente sobre a pesquisa mundial. Há muitas explicações e justificativas para isso, do provincianismo da ciência nacional (publica-se muito em periódicos regionais, de baixa repercussão) às barreiras burocráticas (importação de materiais, por exemplo).

Ter mais mestres e doutores no país --assim como ter todos os jovens na escola-- é algo positivo. Fixar-se em grandes números, contudo, como faz o programa de bolsas Ciências sem Fronteiras, está longe de ser suficiente.

A tributação regressiva - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 23/04

É desejável que o governo implante programas sociais para melhorar a condição dos mais pobres, mas é lamentável esses programas terem de existir para amenizar justamente o mal gerado pelo próprio governo


No último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, um estudo do Ministério da Fazenda já alertava para a estranha situação do sistema tributário brasileiro, que carregava as camadas mais pobres da população com tributos superiores aos serviços públicos a elas prestados. Na época, o estudo, publicado na internet, dizia que a tributação brasileira atuava no sentido inverso de uma de suas principais finalidades: combater a desigualdade social e a má distribuição da renda.

Passados mais de dez anos, essa distorção continua, conforme mostra um relatório publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Embora o Ipea informe que a contribuição do governo para a desigualdade de renda tenha várias fontes – como a remuneração de seus funcionários mais alta que o setor privado e a aposentadoria generosa oferecida pelo serviço público –, chama a atenção o papel regressivo exercido pelo conjunto de tributos do país. Como proporção da renda, os pobres pagam mais tributos que os ricos, sendo essa apenas mais uma das muitas distorções do sistema tributário brasileiro.

Uma das razões da concentração de renda é o excesso de tributos indiretos. Quando o governo cobra contribuições sobre o faturamento das empresas, como o PIS e a Cofins, não importa o tipo de produto fabricado, todos os consumidores pagam igualmente. Tanto faz se um pobre compra um pão ou se um rico compra um anel de ouro, as contribuições incidem igualmente. Porém, dois dos maiores impostos indiretos são o ICMS e o IPI, cobrados sobre a produção e a circulação de bens e serviços. O ICMS, por exemplo, é um tributo sobre valor adicionado de produtos tão diferentes quanto um par de chinelos e uma conta de energia, uma joia de luxo e uma conta de celular.

O tributo indireto não escolhe pagador: ele pega a todos igualmente, pobres e ricos. Como a fração da renda gasta por um rico com sua conta de energia é muito menor que a fração gasta por uma família pobre com o mesmo produto, também o porcentual da renda gasto com o ICMS é maior para o pobre. O mesmo fenômeno ocorre com o IPI, que é o Imposto sobre Produtos Industrializados, sejam eles consumidos pelos ricos ou pelos pobres. Não é preciso fazer muita conta para concluir que uma das formas de diminuir os efeitos ruins dos tributos indiretos na distribuição de renda é justamente reduzir o tamanho desse tipo de imposto na carga tributária total.

Os países desenvolvidos não carregam a população com tantos tributos indiretos quanto o Brasil e, quando o fazem, usam alíquotas menores. Os impostos diretos sobre as rendas – salários, aluguéis, juros e lucros – são os preferidos, pois eles são melhores para promover a equidade social, ou seja, tributar mais quem ganha mais. Os indiretos se tornam ainda mais defeituosos quando a prioridade do governo – com o apoio da sociedade – é trabalhar para melhorar a distribuição da renda e reduzir a desigualdade social. O resultado é que a desigualdade agravada pela ação do governo e pela tributação regressiva força a ampliação dos programas de assistência social (educação, saúde e previdência) e de transferência de renda (como o Bolsa Família, o seguro-desemprego, o vale-cultura e os subsídios à habitação popular).

É desejável que o governo implante programas sociais capazes de melhorar a condição social das faixas mais pobres da população. O problema está no alto custo burocrático e de gestão, e é lamentável eles terem de existir para amenizar justamente o mal gerado por obra e ação do governo. Se o Estado não contribuísse para concentrar renda – conforme mostra o estudo do Ipea –, a necessidade de programas sociais seria menor. Esse é o centro da questão: é estranho que o governo – cuja função é também reduzir a desigualdade social – seja responsável por parte da concentração de renda e da desigualdade que dela deriva.

Por tudo isso, o combate à desigualdade social depende de reforma tributária capaz de eliminar as distorções do sistema e melhorar os níveis educacionais e os programas de qualificação profissional. Essas medidas, mais o crescimento econômico, são o melhor caminho para a melhoria constante e duradoura da distribuição de renda.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O STF adquiriu credibilidade pública com as decisões”
Ministra Eliana Calmon (STJ) confiante de que os mensaleiros não ficarão impunes


PORTOS 24H, COMO DILMA QUER, SÓ SEM FISCALIZAÇÃO

A presidente Dilma resolveu desencalacrar o sistema de fiscalização de cargas que chegam ao país por via marítima, e ordenou que o trabalho seja realizado nas 24 horas do dia nos portos, um dos setores mais atrasados. Mas ela ignora que não há fiscais suficientes. Os 14 quilômetros do porto de Santos, com movimento de 104,5 milhões de toneladas em 2012, são fiscalizados hoje por apenas 23 servidores.

ASSIM NÃO DÁ

Já o porto do Rio de Janeiro, que movimentou 8,3 milhões de toneladas em 2012, tem só oito fiscais da Agricultura trabalhando 8 horas/dia.

DESFALQUE

Além quadruplicar o número de fiscais, são necessários mais auditores fiscais, Exército e Polícia Federal. Mas Dilma não autoriza concursos.

LOROTA FOR EXPORT

Anunciado em março, o Banco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ainda não saiu do papel assinado por Dilma em Durban.

FILA ÚNICA

A empresa holandesa Mars One selecionará candidatos a povoar Marte em 2023, testados num reality show. O detalhe: passagem só de ida.

AGENDA DO CHANCELER REVELA RITMO DE DESPEDIDA

Saco de pancadas preferencial de Dilma, que o trata com habitual rispidez, Antonio Patriota (Relações Exteriores) parece desanimado, com agenda de quem se despede do cargo. Ele, ontem, cumpriu o papel protocolar de receber o primeiro-ministro da Macedônia e foi ao lançamento de uma revista. Só. Já o embaixador Eduardo dos Santos, secretário-geral (o nº 2) do Itamaraty, está a mil.

OCUPANDO ESPAÇO

O embaixador Eduardo dos Santos, foi ontem a duas reuniões no Planalto e uma sessão no Senado, ciceroneou o premiê visitante etc.

SERIA RISÍVEL...

Patriota virou piada: disse na ONU que por “respeitar a soberania” da Venezuela, silenciaria sobre a fraude que elegeu Nicolás Maduro.

...NÃO FOSSE TRÁGICO

O Brasil ignorou a “soberania” do Paraguai, liderando sua suspensão do Mercosul, e se meteu nos assuntos internos do governo de Honduras.

QUEIMAÇÃO

Irritado com o presidente da STF, ministro Joaquim Barbosa, que condenou os réus do mensalão, o PT espalha nas redes sociais que ele é cotado a vice do senador Aécio Neves (PSDB-MG) em 2014.

DORMIR PRA QUÊ?

Advogado de Marcos Valério no processo mensalão, Marcelo Leonardo garante não ter aumentado a equipe para dar conta das 8.405 páginas do acórdão do julgamento. Preferiu reduzir as horas de sono.

TRABALHEIRA

O ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, ex-dono de banca de jornal e conselheiro do BNDES, emplacou outro aliado no governo que o demitiu: Josbertini Clementini é o diretor de Emprego para a Juventude.

PADRINHOS ERRADOS

O desembargador capixaba Samuel Meira Brasil Jr escolheu errado os padrinhos na campanha para o Superior Tribunal de Justiça: Paulo Hartung, que responde a denúncias de corrupção em seu governo, e Ricardo Ferraço (PMDB), atuante senador de quem Dilma não gosta.

LOUCOS POR JATINHO

Esqueçam filmes americanos com o preso algemado em voo de carreira. No Brasil, país rico, é diferente: agentes da Polícia Federal foram a Portugal em jatinho buscar presos brasileiros.

DE BOA

Com seus clientes Duda Mendonça e Zilmar Fernandes absolvidos no mensalão, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, acompanha o andamento do julgamento com cara de paisagem.

A LA CARTE

A convite do senador Gim Argello (PTB-DF), o vice-presidente Michel Temer almoçará hoje, no Senado, com o bloco PTB-PR-PSC-PPL. No cardápio, eleições de 2014 e o espaço dos partidos no governo

Dilma.

DISSIDÊNCIA PETISTA

Presidente do MD (Mobilização Democrática), fruto da fusão PPS-PMN, Roberto Freire (SP) garante ter “gente até do PT” negociando filiação ao novo partido: “Estamos em ritmo frenético, de muitas conversas”.

LEMBREM DE MIM

O nº 2 da Casa Civil, Beto Vasconcelos, continua a postos azarando o lugar do ministro Luís Adams na Advocacia-Geral da União.


PODER SEM PUDOR

LIÇÃO INESQUECÍVEL

José Américo de Almeida governava a Paraíba, em 1951, quando o Estado enfrentou uma seca dramática. Certo dia, no palácio, ele recebeu o prefeito de uma das cidades mais castigadas, suplicando um caminhão para transportar alimentos aos munícipes mais carentes. José Américo respondeu que seria difícil atender ao pedido, porque a cidade era muito longe da capital. O prefeito perdeu a paciência e deu uma lição que o "Velho", como era conhecido, jamais esqueceria:

- É longe, não, governador. Fica no mesmo local onde o senhor foi pedir votos para se eleger.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Desserviço público: Postos de saúde do Rio ‘enforcam’ no feriadão
Folha: Governo maquia dados de bolsa de estudos no exterior
Estadão: Condenados do mensalão podem ter novo julgamento
Valor: Fusão cria gigante do ensino
Zero Hora: Aeroporto Salgado Filho – Ministro promete fim de atrasos por neblina
Estado de Minas: CNJ vai investigar farra de horas extras no TRE
Correio Braziliense: Banco de horas para doméstica será anual
Jornal do Commercio: Chuva garante água para um mês
Brasil Econômico: Governo já recebeu 114 propostas de terminais portuários privados

segunda-feira, abril 22, 2013

Brasileiro bonzinho? - LYA LUFT

REVISTA VEJA

Tempos atrás, num programa cômico de televisão, uma jovem americana radicada no Brasil, a cada comentário sobre violência ou malandragem neste país, pronunciava com muita graça: "Brasileiro bonzinho!". E a gente se divertia. Hoje nos sentiríamos insultados, pois não somos bonzinhos nem sequer civilizados. O crime se tornou banal, a vida vale quase nada. Poucos de meus conhecidos não foram assaltados ou não conhecem alguém assaltado: ser assaltado é quase natural - não só em bairros ditos perigosos ou nas grandes cidades, mas também no interior se perdeu a velha noção de bucolismo e segurança.

Em São Paulo, só para dar um exemplo, os arrastões são tão comuns que em alguns restaurantes o cliente é recebido por dois ou quatro seguranças fortemente armados, com colete à prova de bala, que o acompanham olhando para os lados - atentos como em séries criminais americanas. Quem, nessas condições, ainda se arrisca a esta coisa tão normal e divertida, comer fora?

Pessoas inocentes são chacinadas: vemos protestos, manifestações, choro e imprensa no cemitério, mas nada compensará o desespero das famílias ou pessoas destroçadas, cujo número não para de crescer. Em nossas ruas não se vê um só policial, daqueles que poucos anos atrás andavam em nossas calçadas. A gente até os cumprimentava com certo alívio. Não sei onde foram parar, em que trabalho os colocaram, nem por que desapareceram. Mas sumiram. Morar em casa é considerado loucura, a não ser em alguns condomínios, e mesmo nesses o crime controla o porteiro, entra, rouba, maltrata, mata. Recomenda-se que moremos em edifícios: "mais seguros", seria a ideia. Mas, mesmo nos edifícios, nem pensar, a não ser com boa portaria, ou será alto risco, diz a própria polícia, aconselhando ainda porteiros preparados e instruídos para proteger dentro do possível nossos lares agora precários.

Somos uma geração assustada, desamparada, confinada, gradeada - parece sonho que há não tanto tempo fosse natural morar em casa, a casa não ter cerca, a meninada brincar na calçada; e não morávamos em ilhas longínquas de continentes remotos, mas aqui mesmo, em bairros de cidades normais. Éramos gente "normal". Hoje, a população, apavorada, está nas mãos de criminosos, frequentemente impunes. Na desorganização geral, presídios superlotados onde não se criariam porcos também abrigam pessoas inocentes ou que nunca foram julgadas. A impunidade é tema de conversas cotidianas, leis atrasadas ou não cumpridas nos regem, e continua valendo a inacreditável lei de responsabilidade criminal só depois dos 18 anos. Jovens monstros, assassinos frios, sem remorso, drogados ou simplesmente psicopatas saem para matar e depois vão beber no bar, jogar na lan house, curtir o Facebook, com cara de bons meninos. Num artifício semântico insensato e cruel, se apanhados, não os devemos chamar de assassinos: são infratores, mesmo que tenham violentado, torturado, matado. Não são presos, mas detidos em chamados centros socioeducativos. E assim se quer disfarçar nosso incrível atraso em relação a países civilizados. No Canadá. Holanda e outros, a idade limite é de 12 anos; na Alemanha e outros. 14 anos. No Brasil, consideramos incapazes assassinos de 17 anos, onze meses e 29 dias.

Recentemente, um criminoso de 15 anos confessou tranquilamente ter matado doze pessoas. "Me deu vontade", explicou, sem problema, e sorria. "Hoje a gente saiu a fim de matar", comentou outro adolescentezinho, depois de assaltar, violentar e matar um jovem casal junto com outro comparsa. Esses e muitos outros, caso estejam em uma dessas instituições em que se pretende educar e socializar indiscriminadamente psicopatas e infratores eventuais, logo estarão entre nós, continuando a matança. Quem assume a responsabilidade? Ninguém, pois estamos em uma guerra civil que autoridades não conseguem resolver, uma vez que nem a lei ajuda. Estamos indefesos e apavorados, nas mãos do acaso. Até quando?

Dilma, a inflação e o horizonte de curto prazo - PAULO GUEDES

REVISTA ÉPOCA

A inflação acaba de furar o teto oficial da meta, estabelecida em 6,5% anuais. O Banco Central está atrasado em sua batalha contra expectativas inflacionárias adversas. Para piorar a situação, a presidente Dilma Rousseff manifestou, inadvertidamente, sua aversão a esforços anti-inflacionários que possam desacelerar o crescimento da economia. O "combate" à inflação ficaria, portanto, reduzido à política de desoneração de impostos conduzida pelo ministro da Fazenda, cujos efeitos se limitam ao amortecimento transitório das altas registradas nos índices. Esse alívio das pressões sobre os preços a curto prazo, por meio das reduções de impostos, piora as previsões dos deficits fiscais, agravando as expectativas inflacionárias de longo prazo. Como prisioneiros da armadilha social-democrata do baixo crescimento, enveredamos pela trajetória de inflação ascendente, na tentativa de estimular artificialmente a economia, por meio de políticas monetária e fiscal expansionistas.

Nosso Banco Central segue indeciso, pela falta de uma clara definição de seu mandato.

Em países que sofreram com a hiperinflação, caso da Alemanha, esse mandato é bem definido. A prioridade do Bundesbank tornou-se a estabilidade do poder de compra da moeda. Esse traço hereditário é visível ainda hoje na Zona do Euro, pois o DNA da estabilidade de preços foi transmitido ao Banco Central Europeu. O Princípio de Jan Tinbergen, primeiro prêmio Nobel de Economia, exige que se usem tantos instrumentos de política econômica quantos forem os objetivos a ser alcançados. Se a única meta é a estabilidade de preços, basta a política monetária do Banco Central. A partir da experiência americana com a Grande Depressão, foi também atribuída ao Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) uma segunda meta: fazer o que for necessário para assegurar a manutenção dos empregos na economia.

Em tempos normais, tornam-se metas redundantes, pois a manutenção da estabilidade de preços contribui para aumentar o grau de previsibilidade macroeconômica, estimulando investimentos que sustentam maior ritmo de crescimento e mais empregos. Em tempos extraordinários, como a grande crise contemporânea, a tartaruga não consegue alcançar duas lebres ao mesmo tempo. O Fed e o Banco Central do Japão definiram como metas prioritárias o reaquecimento da economia e emitiram trilhões para alcançar tal objetivo. O Brasil tem em comum com a Alemanha uma experiência de hiperinflação, e não a Grande Depressão dos EUA. Nosso Banco Central deveria estar mais preocupado com a inflação e menos com o ritmo de expansão da economia. Se o governo recorresse a um segundo instrumento, a política fiscal, a cargo do Ministério da Fazenda, poderia então perseguir duas metas simultaneamente. Com uma trajetória de maior controle de gastos públicos ao longo das duas últimas décadas, teríamos mantido a estabilidade de preços sem as taxas de juros estratosféricas e a taxa de câmbio sobrevalorizada, que derrubaram os investimentos, a competitividade nos mercados globais e o ritmo de crescimento econômico.

Sofremos também de crônica falta de coordenação entre as políticas monetária e fiscal. A falha genética de todas as nossas tentativas de estabilização, inclusive do Plano Real, foi exatamente a ausência de mudança no regime fiscal. Apenas no segundo mandato de FHC, e mesmo assim sob pressão do Fundo Monetário Internacional, ensaiamos a geração do superávit fiscal "primário", para cobrir as despesas com juros sobre as dívidas. Uma das explicações dadas para a possibilidade de redução dos juros na era Tombini à frente do BC foi o maior grau de coordenação entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Mas os gastos públicos não param de crescer há décadas. Atingiram quase 40% do Produto Interno Bruto, um atestado da falta de cooperação da Fazenda com o Banco Central. Sobem os gastos públicos nos bons tempos por distributivismo, mas também nos maus tempos, com políticas anticíclicas.

Outro complicador do Banco Central é a maciça atuação de bancos públicos à expansão de crédito, ao consumo e aos negócios. É como se o BC tentasse frear uma avalanche. E mais: um novo ciclo de elevação de juros terá agora efeitos bem mais contundentes sobre a economia, em razão da maior penetração dos mercados de crédito. Muitas famílias e pequenos negócios se endividaram em ritmo acelerado ainda recentemente, sem falar nos "campeões" nacionais pendurados nos bancos públicos.

O Ministério da Fazenda deveria lastrear, com maior controle de gastos públicos, seu programa de redução de impostos e desoneração de encargos sobre as folhas de pagamentos das empresas. São compreensíveis sua ansiedade para reduzir os índices de inflação, bem como seus esforços para manter empregos, aumentar nossa competitividade externa e interromper o processo de desindustrialização. Mas o anúncio de que a redução de impostos sobre bens de consumo seria temporária, feita apenas para estimular rapidamente a compra de automóveis, geladeiras, televisões, acaba travando os investimentos que ocorreriam com uma redução permanente. Por que ampliar a capacidade produtiva se a carruagem vira abóbora logo depois?

Analistas macroeconômicos - de olho nas eleições presidenciais de 2014 e no tiro no pé das aspirações políticas do governo, com a reversão dessa queda dos impostos - acabam projetando buracos fiscais permanentes no futuro. Além da paralisia nos investimentos, o governo colhe desfavoráveis expectativas de inflação. A presidente Dilma percebeu que o anúncio de sua aversão a esforços anti-inflacionários que possam desaquecer a atividade econômica abalava a credibilidade institucional da Fazenda e do BC, além de descredenciar pessoalmente seus titulares. Dilma alegou então um mal-entendido, pela distorção de suas palavras. O Banco Central foi autorizado a dar sinal de vida. Mas sabemos que escolher entre o horizonte longo de um estadista e colher os frutos imediatos de uma reeleição é sempre muito fácil para nossa classe política.

Sob o Grande Coreógrafo - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA

A semana passada teve como destaques no mundo o atentado de Boston e a tensão pós-eleitoral na Venezuela, mas o colunista confessa que tem um fraco pela Coreia do Norte, e lamenta haverem arrefecido as ameaças e os filmetes mostrando os preparativos de guerra naquele país. A diversão era garantida. No dia 30 de março o governo de Pyongyang declarou-se em estado de guerra contra o inimigo do sul, e ameaçou um ataque, inclusive nuclear, que "explodiria" as bases americanas no Pacífico e "reduziria a cinzas" as instalações governamentais da Coreia do Sul. O comunicado foi lido na televisão, em nome do presidente Kim Jong-un, por um apresentador de terno escuro e gravata cinza, que enfatizava com voz forte, em certos momentos quase aos gritos, a gravidade da situação. O fundo era de um azul igualmente escuro, de céu na iminência de tempestade, e acordes heroicos abriram e fecharam a transmissão.

Uma primeira evidência, com base no que as transmissões de televisão (estatal, naturalmente) filtram do país, é que a Coreia do Norte não conhece o teleprompter. Eis um fato de cuja relevância os dirigentes não se dão conta. Os apresentadores, seja o homem de terno cinza, seja uma mulher que às vezes também lê os comunicados oficiais, têm sempre os olhos baixos, colados ao texto sobre a mesa. Na época em que havia duas Alemanhas, a comunista começou a ruir quando seus cidadãos, ao conseguirem captar a televisão do outro lado, se deram conta da diferença entre as transmissões coloridas, com variadas opções, existentes por lá, e a TV em preto e branco, monocórdia e oficial, que lhes atazanava a paciência de seu lado. Os líderes da Coreia do Norte inverteram suas prioridades; investiram na bomba atômica, em vez de no teleprompter. A experiência alemã indica que modernizar a televisão é instrumento mais útil para a sobrevivência de um regime do que armas nucleares.

Aos comunicados, acrescentava-se a divulgação de filmetes com desfiles e exercícios militares. Os desfiles com soldados em passos rigorosamente sincronizados, a indicar que um Grande Coreógrafo, de par com o Grande Irmão, zela pelos norte-coreanos, já conhecemos de outras crises. Mais inovadores foram os exercícios, como um que mostrava os soldados, dois a dois, envolvidos numa luta de judô, ou parecida com judô. Presumia-se que o país se preparava para uma tática que combinava o ataque nuclear com luta corporal. Em outro filme, os soldados treinavam tiros de pistola. À bomba nuclear e à luta corporal, juntava-se o tiro de pistola no plano de combate. Os soldados também eram mostrados em exercícios de ginástica cujos movimentos sincronizados igualmente traíam o dedo do Grande Coreógrafo.

A grande estrela dos filmetes era, claro, Kim Jong-un, o novel líder máximo, o terceiro da dinastia no poder. Baby Kim foi mostrado dando instruções aos generais (o menino sabe mandar!), perscrutando o horizonte de binóculo (o menino enxerga longe!), e até, ele também, testando a mão numa pistola (ele está pronto para lutar!). A insistência com que aquela quase criança, ainda com o mesmo ar cândido com que foi fotografado numa visita clandestina à Disneylândia de Tóquio, era mostrada em tão adultas e graves poses sugere que o menino, no meio dos generais, na verdade não manda, não enxerga além do próprio nariz, nem está pronto para lutar. Ele é apenas a peça de arremate, a figura central de que o Grande Coreógrafo necessita para fazer mover o conjunto da engrenagem.

Tudo seria muito mais divertido se não se soubesse que o Grande Coreógrafo vai além de sincronizar movimentos exteriores. Ele atua igualmente na orquestração das emoções. Na Coreia do Norte multidões choram em conjunto, como se viu nos funerais de Kim Jong-ll, o pai de Baby Kim, e casais fazem visitas devocionais à estátua gigante de Kim ll-sung, o avô. São exteriorizações do controle das mentes. E o controle das mentes, como se sabe desde Orwell, caracteriza os regimes totalitários, distinguindo-os das simples ditaduras. Na Coreia do Norte, o totalitarismo, mais presente do que em qualquer outro regime atual, cumpre com eficiência sua função de infantilizar e dopar a população.

Um erro de digitação na última coluna mudou o verbo "revoltar" em "revolver", no trecho sobre a mudança do nome do aeroporto de Salvador, de "2 de Julho" para "Luís Eduardo Magalhães". O certo é: "Revoltai-vos. cidadãos da boa terra!". O apelo continua valendo.

Um mundo escuro - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA
Está cada vez mais difícil, em nosso mundo de hoje. encontrar inocentes. No exalo momento em que estiver lendo estas linhas, o leitor poderá muito bem estar sendo culpado pela prática de algum delito sério, mesmo que não saiba disso - e provavelmente não sabe. Como poderia saber? As noções de certo ou errado, de bem ou mal ou de justo e injusto, cada vez mais, são definidas por dezenas de "causas", em relação às quais é indispensável estar do lado correto. E que lado é esse? É o lado dos donos ou dos militantes dessas causas - tarefa complicada, considerando-se que elas se multiplicam sem parar, não têm conexão nenhuma entre si e sua própria existência, muitas vezes. é completamente desconhecida do público em geral. Com o desmanche cada vez mais rápido de qualquer valor ou princípio na atividade política, e o falecimento da ideia geral de "direita" e "esquerda", o campo do "bem" vai sendo ocupado por movimentos que defendem ou condenam todo tipo de coisa. Importa cada vez menos, também, o divisor de águas formado pelo conjunto de valores morais como integridade, decência, gratidão, generosidade, honradez, cortesia e tantos outros que marcavam a correção do indivíduo, do ponto de vista pessoal, na vida de todos os dias. O cidadão, hoje, pode ser tudo isso ao mesmo tempo, mas ainda assim não será inocente basta não concordar com as bandeiras em voga, ou ser indiferente a elas, ou não saber que existem.

Todas essas cruzadas se declaram proprietárias exclusivas do bem e têm, cada vez mais, a certeza de que a lógica, os argumentos baseados em fatos e o livre debate devem ceder lugar à fé - a fé dos dirigentes e militantes das "causas", que se julgam moralmente superiores e portanto, autorizados a exigir que todos abram mão do seu direito a raciocinar e simplesmente concordem com eles. O lado escuro disso tudo é que a defesa de tais bandeiras está se tornando cada vez mais fanática - e o resultado é a criação, pouco a pouco, de um novo totalitarismo. Nega-se as pessoas o direito de discordar de qualquer delas e, principalmente, de criticar seja lá o que proponham; não é permitida nem a simples neutralidade, pois quem é neutro é considerado cúmplice do mal.

Os efeitos práticos são muito parecidos com os que se produzem nas ditaduras - e sua primeira vítima é a liberdade de pensar e de exprimir o que se pensa.

Muito de todo esse ruído é simplesmente cômico; além disso, ao contrário do que acontece nas tiranias, os líderes das novas causas não têm a seu dispor a força armada para obrigar o público a obedecer a suas decisões. Mas. em ambos os casos, sua atividade está gerando cada vez mais consequências na vida real. Ainda há pouco, um anúncio da agência AlmapBBDO mostrava um gato preto subindo no capô de um Volkswagen, numa brincadeira 100% inocente a respeito de sorte e azar. Ideia proibida, hoje em dia. Grupos que defendem a causa dos gatos, de qualquer cor, decidiram que o comercial estimulava a "perseguição" e o "desrespeito" ao gato preto, e exigiram da empresa que o comercial fosse retirado do ar. Ganharam: a Volkswagen, uma das maiores companhias do mundo, com mais de noventa fábricas. 550.000 empregados e faturamento superior a 200 bilhões de dólares em 2012, ficou com medo do pró-gato e topou, sim, cancelar o anúncio. Há uma coisa muito parecida com isso - ela se chama censura. A AlmapBBDO, uma das agências de publicidade mais respeitadas do Brasil, queria levar o comercial ao público, como a imprensa queria publicar notícias durante a ditadura militar. Mas a cruzada dos gatos, como acontecia na época em que o governo cortava as notícias que lhe desagradavam, não quis. Nas duas situações uma pela força bruta, a outra pela pressão bruta - o resultado prático é o mesmo: aquilo que deveria ter sido publicado não o foi. Qual é a diferença?

Episódios como esse vão se tornando comuns e, para piorar as coisas, deixam atrás de si uma nuvem radioativa que contamina o ambiente do pensamento e faz com que as pessoas fujam das áreas de perigo. É muito pouco provável que a AlmapBBDO volte a criar comerciais com algum gato no enredo, ou qualquer outro animal. Para quê? Outras agências vão tomar, ou já tomaram, a decisão de cortar o reino animal do seu universo criativo e também, por via das dúvidas, o reino vegetal e o reino mineral, pois é possível que provoquem objeções dos movimentos que atribuem direitos civis às árvores, ou às pedras, ou sabe-se lá ao que mais. Os jornalistas e os órgãos de imprensa, com frequência, vão pegando uma alergia cada vez maior a tratar de certos assuntos. "Isso vai dar confusão", ouve-se todos os dias nas redações. "Melhor a gente ficar fora dessa." O mesmo se aplica a políticos, por seu natural pavor de perder votos, a artistas que não querem ficar mal "na classe" e a mais um caminhão de gente capaz de ter posições claras, mas incapaz de arrumar coragem para falar delas em público.

É apenas natural que a situação tenha ficado assim. Não vale a pena, para a maioria, dizer o que pensa e ser imediatamente amaldiçoado como racista, cruel com os animais, homofóbico, nazista, destruidor da natureza, inimigo da fauna e da flora, poluidor de rios, lagos e mares, vendido aos interesses das "grandes empresas", carrasco das "minorias", assassino de bagres e por aí afora. Ser um mero defensor da luz elétrica, e achar natural, para isso, que sejam construídas usinas geradoras de energia passou a ser, no código da "causa ambiental", um delito grave. Pior ainda é ser chamado de "agricultor" ou "pecuarista" - as duas palavras passaram a ser utilizadas pelos militantes como um puro e simples insulto. Eis aí. por trás de todo o seu verniz de atitude moderna, democrática e defensora da virtude, a essência do totalitarismo que vai sendo imposto pelas "causas" do bem. O alicerce central de sua postura é raso e estreito: "Ou você pensa como eu. ou você é um idiota; ou você pensa como eu. ou você está errado". Ou você é coisa ainda muito pior, dependendo do grau de ira que sua opinião despertou neste ou naquele movimento.

Se discordar, por exemplo, de uma mudança na lei trabalhista, vão acusá-lo de ser a favor da volta da escravatura. Se criticar a doação de latifúndios a tribos de índios, pode ser chamado de genocida. Se achar errado o Bolsa Família, vai ser condenado como defensor da miséria. Se sustentar que o sistema de cotas para negros nas universidades tem problemas sérios, vira um racista na hora. Se julgar que os governos do PT são um exemplo mundial de incompetência, ignorância e vigarice, será incluído na lista negra dos que são contra o povo, contra a pátria e contra as eleições. Falar mal do ex-presidente Lula, então, é um caso perdido. Como ele diz em seus discursos que o seu segundo objetivo na vida é governar para os pobres (o primeiro, segundo uma confissão que fez há pouco, é "viver o céu aqui mesmo na terra"), quem não gosta do ex-presidente só pode ser contra os pobres. A alternativa é ouvir que você, até hoje, não se conforma com o fato de que "um operário tenha chegado à Presidência" etc. etc., como o próprio Lula nos diz todo santo dia. há mais de dez anos.

Com certeza há pessoas boníssimas, e sinceramente interessadas no bem comum, na maioria das "causas" em cartaz hoje em dia não lhes passaria pela cabeça, também, imaginar que estão construindo um mundo totalitário. Mas sua recusa em raciocinar um pouco mais, e em agredir a lógica um pouco menos, acaba levando-as, mesmo que não percebam, a uma postura de autoritarismo aberto diante da vida. A modelo Gisele Bündchen, por exemplo, propõe nada menos que uma "lei internacional" obrigando todas as mulheres a amamentar seus filhos. Gisele pode ser mesmo uma devota dessa postura, mas, ao querer que sua opinião pessoal seja transformada em "lei", ela mostra uma outra devoção: o desejo de mandar no comportamento dos outros. E as mulheres que não querem amamentar - como ficam os seus direitos? Qualquer pessoa que quer nos impor uma escolha forçada, diz o psicanalista Contardo Calligaris, de São Paulo. provavelmente está interessada, acima de tudo, em "afirmar e consolidar seu poder sobre nós".

Um outro tóxico que alimenta essa marcha da insensatez é a ignorância. Somada à decisão de atirar primeiro nos fatos, e perguntar depois quais eram mesmo esses fatos, leva a episódios de circo como o movimento "Gota d'Água" - no qual um grupo de atores e atrizes tentou demonstrar, no fim de 2011, que a usina de Belo Monte seria uma catástrofe sem precedentes para o Rio Xingu e para a ecologia brasileira cm geral. No vídeo que gravaram com o propósito de provar suas razões, confundiram o Pará com Mato Grosso, colocaram a usina a mais de 1 000 quilômetros do lugar onde está sendo construída e denunciaram a inundação de terras ocupadas por índios quando não há um único índio na área a ser alagada. Foi um desempenho digno de entrar na lista das piores respostas do Enem. Mas os artistas continuam achando que estão certíssimos: sua "causa" é justa, dizem eles, e meros tatos como esses não têm a menor importância. pois o que interessa é o triunfo do bem.

"Não há expediente ao qual o homem deixará de recorrer para evitar o real trabalho de pensar", disse, no fim dos anos 1700. o grande mestre da arte inglesa do retrato, sir Joshua Reynolds. Hoje, mais de 200 anos depois, sua tirada é um resumo praticamente perfeito da turbina-mãe que faz girar a máquina das "causas" justas. Nada as incomoda tanto quanto o ato de pensar. Preferem receber insultos, porque podem responder com insultos - o que não toleram é a tarefa de raciocinar em cima de fatos, reconhecer realidades e convencer pelo uso da inteligência. Algum tempo atrás esta revista publicou, com a assinatura do autor do presente artigo, um conjunto de considerações sobre o que julgava serem exageros, equívocos ou distorções do chamado "movimento gay". Tudo o que foi escrito ali recebeu uma fenomenal descarga de ódio. histeria e ofensas, nas quais foram incluídas diversas maldições desejando uma morte rápida para o autor. Mas o que realmente deixou a liderança gay fora de si, acima de qualquer outra coisa, foi a afirmação de que casamento de homem com homem, ou de mulher com mulher, não gera filhos. É apenas um fato da natureza mas é exatamente isso, o fato, o pior inimigo das "causas". Não pode ser anulado por abaixo-assinados. redes sociais ou passeatas. A única saída é mantê-lo oculto pelo silêncio.

Por essa trilha, caminhamos para um mundo de escuridão.