FOLHA DE SP - 21/04
O espalhamento atual da inflação é compatível com uma taxa de 7,5% ao ano; as desonerações são artificiais
Talvez a maior dificuldade na condução da política monetária corrente seja saber exatamente qual é a inflação de fundo da economia. Isto é, qual a inflação gerada pela pressão da demanda.
Geralmente o índice de inflação --o IBGE mede mensalmente a inflação do consumidor dada pela evolução do índice de preço ao consumidor amplo (IPCA)-- fica "contaminado" por elevações de preços que representam choques de oferta da economia que no futuro serão revertidos.
Por exemplo, sabe-se que os preços das principais commodities agrícolas --soja, milho e trigo-- elevaram-se muito no segundo semestre do ano passado em razão de secas nos EUA, na Argentina e no Brasil.
Como os problemas climáticos vêm e vão, não faz sentido a política monetária combater choques dessa natureza.
Evidentemente, se os choques gerarem pressão sobre o mercado de trabalho e induzirem barganhas salariais que elevem a taxa de crescimento dos salários além da produtividade, de sorte que os aumentos salariais serão repassados aos preços dos produtos, deve-se elevar a taxa de juros para combater o fenômeno inflacionário.
Além do choque das commodities agrícolas, houve no primeiro trimestre deste ano e no quarto do ano passado um choque de produtos hortifrutigranjeiros. Esse choque também reverterá. No fim do ano, a inflação em 12 meses provavelmente estará na casa de 5,6%.
Por que motivo toda a preocupação e a grita do "mercado" financeiro? Ocorre que houve inúmeros choques de oferta de sinal contrário. As inúmeras desonerações --energia elétrica, cesta básica, IPI de automóveis, entre outras-- têm efeito transitório e funcionam exatamente como um choque de oferta, só que com sinal contrário.
Qual seria a inflação hoje medida pelo IPCA se não houvesse as desonerações? Uma maneira é recalcular o índice de inflação desconsiderando os itens do IPCA que foram desonerados. Esse cálculo sugere que a inflação estaria entre 7% e 7,5%.
Outra forma de avaliar qual seria a inflação corrente se não existisse as desonerações é procurar alguma variável ligada à inflação, mas que não seja afetada pela desoneração. Um exemplo é a taxa de difusão. A taxa de difusão é a proporção dos preços que se elevam no mês.
Cada ponto do gráfico nesta página apresenta para cada mês entre julho de 2005 e junho de 2012 a inflação acumulada em 12 meses no eixo horizontal e a difusão média nos 12 meses anteriores no eixo vertical.
Nota-se que há uma clara relação positiva entre ambas: quando o nível de inflação acumulada em 12 meses eleva-se, a difusão acompanha.
As cruzes no gráfico representam as mesmas variáveis para o período de julho de 2012 até março de 2013. Nota-se um claro deslocamento da relação entre a inflação em 12 meses e a difusão. Nos últimos nove meses, a relação entre inflação e difusão deslocou-se para cima e para a esquerda no gráfico.
O descolamento recente entre inflação e difusão da inflação é consequência das desonerações. As desonerações reduzem artificialmente a inflação, mas têm impacto bem menor sobre a difusão. Como as flechas indicam, a elevadíssima difusão média em 12 meses observada em março é compatível com uma inflação de 7,5% ao ano! De fato, o Comitê de Política Monetária do Banco Central deve estar bem preocupado com a inflação.
domingo, abril 21, 2013
A ferrovia inacabável - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADÃO - 21/04
Se tudo ocorrer como quer o governo, o mais antigo projeto ferroviário do País poderá ser concluído em meados do ano que vem, mas totalmente diferente do que foi anunciado há 27 anos e a um custo várias vezes maior do que o previsto, o que o torna a sétima obra de transportes mais cara do mundo - e certamente a mais lenta.
Símbolo da megalomania político-administrativa do governo Sarney (1985-1990) - que, no plano econômico, desorganizou o setor produtivo com a insistência em programas de estabilização baseados no controle de preços a Ferrovia Norte-Sul começou a ser construída em 1987, mas muitos de seus contratos foram encerrados sem que as obras tivessem sido concluídas, mesmo tendo tido seus valores corrigidos até 17 vezes. Irregularidades constatadas por auditorias do Tribunal de Contas da União (TGU) resultaram na suspensão de obras e sua correção implicou gastos adicionais para a Valec, a estatal encarregada de construí-la.
De seu atual traçado de 2.254 quilômetros, apenas um trecho de 719 km, de Açailândia (MA) a Palmas (TO), está em operação pela mineradora Vale, que obteve a concessão por 30 anos, em leilão realizado em 2007. O trecho seguinte, de 855 km, entre Palmas e Anápolis (GO), deveria ter sido concluído em outubro de 2010, de acordo com o cronograma anunciado em 2007 pelo então presidente Lula, quando repassou R$ 4,2 bilhões do Tesouro para a Valec. Há alguns meses, a estatal prometeu concluir o trecho em julho próximo, mas agora o presidente da empresa, Josias Cavalcante, admite que, ele ficará pronto só em dezembro. A conclusão do último trecho, de 680 km, entre Ouro Verde (GO) e Estrela d?Oeste (SP), está prevista para julho de 2014.
A construção da Norte-Sul sintetiza diversos vícios da administração pública brasileira, como projetos deficientes, superfaturamento, obras mal executadas, mas mesmo assim pagas pelo poder público. A quantidade de irregularidades levou a ferrovia e a Valec às páginas policiais dos jornais e contribuiu para a substituição da diretoria da empresa e da cúpula do Ministério dos Transportes.
No ano passado, a nova diretoria da Valec reviu as obras do trecho entre Palmas e Anápolis e constatou que teria uma despesa extra de R$ 400 milhões para reparar estruturas malfeitas e trilhos mal instalados, além de construir pátios logísticos ao longo da ferrovia, indispensáveis para o transbordo de mercadorias. Isso estava nos contratos, mas não foi executado a contento.
Mesmo que as principais irregularidades sejam sanadas, parece pouco provável que os dois trechos restantes sejam entregues em perfeitas condições de operação nos prazos previstos pela estatal, pois as obras
continuam a patinar, como mostrou o jornal Valor (15/4).
Em Anápolis, foi entregue o túnel de 360 metros, mas sem nenhum metro de trilho instalado. Nas paredes de concreto na entrada e na saída do túnel, que têm a finalidade de evitar deslizamentos, já há rachaduras provocadas por plantas e infiltrações das águas das chuvas. Em trechos onde já foram instalados dormentes de concreto, foi afixado o. terceiro trilho, para permitir o tráfego de trens com bitolas diferentes, mas, nos trechos seguintes, não há estrutura para esse terceiro trilho.
Recente vistoria do TGU constatou que, num trecho de 280 km, obras consideradas prontas não têm rede de drenagem, aterros foram mal construídos e falta cobertura vegetal. Um ramal de 7 km ligando a ferrovia ao porto seco de Anápolis deveria ter sido construído, mas não o foi. O TGU também constatou superfaturamento e armazenamento inadequado de materiais.
A conclusão da Ferrovia Norte-Sul tornou-se vital não apenas para as regiões agrícolas e mineradoras de sua área de influência, mas sobretudo para a viabilização do ambicioso programa de concessões de ferrovias anunciado pelo governo. Boa parte dos 12 trechos que serão oferecidos à iniciativa privada está diretamente conectada à Norte-Sul ou depende de sua conclusão para que seja assegurado o movimento de cargas necessário para tornar viável a operação comercial desses trechos.
Delícias da burocracia - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 21/04
SÃO PAULO - A pílula do dia seguinte é oferecida de graça na rede púbica, mas muitos postos de saúde exigem receita médica para fornecê-la. Pegadinha: marcar uma consulta ginecológica pelo SUS leva até dois meses e o medicamento só funciona se tomado até cinco dias após a relação sexual desprotegida.
Casos de disposições burocráticas absurdas ou pelo menos muito esquisitas é o que não falta. Acho até que nutrimos um prazer meio masoquista em identificá-las e ridicularizá-las. Não é mera coincidência que uma das definições de "burocracia" no meu "Houaiss" registre: "Estrutura ineficiente, inoperante, morosa na solução de questões e indiferente às necessidades das pessoas".
Há, é claro, um outro lado. Um sinônimo de "burocracia" é "serviço público profissional". Foi Max Weber (1864-1920) quem primeiro destacou a relevância para o Estado moderno de uma estrutura de funcionários capacitados organizados em hierarquias e que tomam decisões com base em regras racionais preferencialmente escritas. Foi só a partir daí que os favores prestados pelos poderosos puderam converter-se em direitos garantidos pelo poder público.
O mundo, porém, está longe de ser um lugar perfeito e nem a mais weberiana das burocracias é sem pecados. Um pouco por falhas nas regras, um pouco por preferências inatas de seus integrantes e muito para exercer seu quinhão de poder, o serviço público frequentemente cria paradoxos como o da pílula do dia seguinte.
Minha modesta sugestão para lidar com isso não esconde um viés burocrático: por que Dilma, que não tem mesmo medo de criar ministérios, não traz de volta a pasta da desburocratização? Estou ansioso para que alguém me explique por que carteiras de motorista com o exame médico vencido deixam de valer como prova de identidade e por que uma xerox autenticada, que serve até como prova no STF, não basta para pegar um ônibus intermunicipal.
SÃO PAULO - A pílula do dia seguinte é oferecida de graça na rede púbica, mas muitos postos de saúde exigem receita médica para fornecê-la. Pegadinha: marcar uma consulta ginecológica pelo SUS leva até dois meses e o medicamento só funciona se tomado até cinco dias após a relação sexual desprotegida.
Casos de disposições burocráticas absurdas ou pelo menos muito esquisitas é o que não falta. Acho até que nutrimos um prazer meio masoquista em identificá-las e ridicularizá-las. Não é mera coincidência que uma das definições de "burocracia" no meu "Houaiss" registre: "Estrutura ineficiente, inoperante, morosa na solução de questões e indiferente às necessidades das pessoas".
Há, é claro, um outro lado. Um sinônimo de "burocracia" é "serviço público profissional". Foi Max Weber (1864-1920) quem primeiro destacou a relevância para o Estado moderno de uma estrutura de funcionários capacitados organizados em hierarquias e que tomam decisões com base em regras racionais preferencialmente escritas. Foi só a partir daí que os favores prestados pelos poderosos puderam converter-se em direitos garantidos pelo poder público.
O mundo, porém, está longe de ser um lugar perfeito e nem a mais weberiana das burocracias é sem pecados. Um pouco por falhas nas regras, um pouco por preferências inatas de seus integrantes e muito para exercer seu quinhão de poder, o serviço público frequentemente cria paradoxos como o da pílula do dia seguinte.
Minha modesta sugestão para lidar com isso não esconde um viés burocrático: por que Dilma, que não tem mesmo medo de criar ministérios, não traz de volta a pasta da desburocratização? Estou ansioso para que alguém me explique por que carteiras de motorista com o exame médico vencido deixam de valer como prova de identidade e por que uma xerox autenticada, que serve até como prova no STF, não basta para pegar um ônibus intermunicipal.
Picadinho de partidos - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 21/04
Partidos 'maiores' estão cada vez menores, novas legendas estão no forno e tucanos podem ser fatiados
A DECISÃO judicial que na prática proibiu o troca-troca partidário, em 2007, acabou por incentivar a criação de mais partidos. A fragmentação vinha de antes e foi influenciada pelas vitórias do PT, mas ganhou impulso desde então.
Além de vítima de seu reacionarismo, o DEM foi fatiado na cozinha do picadinho partidário. O DEM é o velho PFL, que em 2007 passou maquiagem para tentar esconder suas rugas de coronel velho.
Entre 1994 e 2002, o PFL fez em média 92 deputados federais por eleição. Em 2006, elegeu apenas 65 deputados, muitos dos quais migraram para partidos da boquinha (coalizão governista). Em 2013, sangrado pelo PSD criptogovernista de Gilberto Kassab, o PFL-DEM tem 43 cadeiras na Câmara.
O PSDB corre risco semelhante ao do compadre DEM. Está cada vez mais reacionário, sem quadros e sem programa. Pode ser amputado pela máquina de fragmentação partidária.
Os tucanos nunca foram tão exuberantes quanto os pefelês, mas fizeram em média 77 deputados entre 1994 e 2002. Agora, estão com 53.
Podem levar uma facada se José Serra aderir à Mobilização Democrática, MD, mistura do PPS com o nanico PMN. Podem levar um talho menorzinho se Marina Silva fundar de fato sua "Rede".
O número de cadeiras da Câmara controladas pelos quatro maiores partidos decresce desde 1998. A fatia dos 6 ou 8 maiores partidos também cai. Os deputados mais e mais migram para a periferia partidária.
É uma hipótese razoável dizer que isso tem a ver com três vitórias seguidas do PT. Os deputados pulam do barco dos partidos oposicionistas para barquinhos agregados ao governismo, pois não têm jeito ou gosto de petistas.
Trata-se do arroz com feijão da política partidária do Brasil. A decisão do TSE que na prática proibiu a troca de partidos em 2007 criou um incentivo para a criação de legendas. Para mudar de partido sem perder o mandato, basta criar um novo.
Ainda assim, a explicação é insuficiente.
Por que antes de 2007 os deputados não migravam para o PMDB, o veículo maior e tradicional do adesismo? O PMDB é o partido grande mais estável do país. Mais inflado, seu apoio sairia mais caro. Por que o PMDB é incapaz de organizar até um programa tão oportunista quanto esse?
Por que nenhum partido maior é incapaz de manter ou incorporar um movimento político mais novo (ou menos velho) como o de Marina Silva (verdes, sustentáveis e outros)?
Por que gente politicamente tão parecida ou sem gosto quanto Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), ou até Kassab (PSD, ex-DEM-PFL), não está no mesmo partido?
Sim, o início das histórias políticas de Aécio, Campos e Kassab foi bem diferente. Hoje em dia, são a mesma farinha em sacos diferentes. Sim, são de regiões diferentes, o que faz muita diferença no Brasil. Sim, são caciques que precisam de carro próprio para suas candidaturas vazias de ideias.
Sim, o custo de ter um partido para chamar de seu é menor do que organizar a disputa interna em um partido maior.
Sai barato fazer salada partidária. Que sociedade é essa em que isso é possível? Enfim, faria diferença se os partidos fossem estáveis?
Partidos 'maiores' estão cada vez menores, novas legendas estão no forno e tucanos podem ser fatiados
A DECISÃO judicial que na prática proibiu o troca-troca partidário, em 2007, acabou por incentivar a criação de mais partidos. A fragmentação vinha de antes e foi influenciada pelas vitórias do PT, mas ganhou impulso desde então.
Além de vítima de seu reacionarismo, o DEM foi fatiado na cozinha do picadinho partidário. O DEM é o velho PFL, que em 2007 passou maquiagem para tentar esconder suas rugas de coronel velho.
Entre 1994 e 2002, o PFL fez em média 92 deputados federais por eleição. Em 2006, elegeu apenas 65 deputados, muitos dos quais migraram para partidos da boquinha (coalizão governista). Em 2013, sangrado pelo PSD criptogovernista de Gilberto Kassab, o PFL-DEM tem 43 cadeiras na Câmara.
O PSDB corre risco semelhante ao do compadre DEM. Está cada vez mais reacionário, sem quadros e sem programa. Pode ser amputado pela máquina de fragmentação partidária.
Os tucanos nunca foram tão exuberantes quanto os pefelês, mas fizeram em média 77 deputados entre 1994 e 2002. Agora, estão com 53.
Podem levar uma facada se José Serra aderir à Mobilização Democrática, MD, mistura do PPS com o nanico PMN. Podem levar um talho menorzinho se Marina Silva fundar de fato sua "Rede".
O número de cadeiras da Câmara controladas pelos quatro maiores partidos decresce desde 1998. A fatia dos 6 ou 8 maiores partidos também cai. Os deputados mais e mais migram para a periferia partidária.
É uma hipótese razoável dizer que isso tem a ver com três vitórias seguidas do PT. Os deputados pulam do barco dos partidos oposicionistas para barquinhos agregados ao governismo, pois não têm jeito ou gosto de petistas.
Trata-se do arroz com feijão da política partidária do Brasil. A decisão do TSE que na prática proibiu a troca de partidos em 2007 criou um incentivo para a criação de legendas. Para mudar de partido sem perder o mandato, basta criar um novo.
Ainda assim, a explicação é insuficiente.
Por que antes de 2007 os deputados não migravam para o PMDB, o veículo maior e tradicional do adesismo? O PMDB é o partido grande mais estável do país. Mais inflado, seu apoio sairia mais caro. Por que o PMDB é incapaz de organizar até um programa tão oportunista quanto esse?
Por que nenhum partido maior é incapaz de manter ou incorporar um movimento político mais novo (ou menos velho) como o de Marina Silva (verdes, sustentáveis e outros)?
Por que gente politicamente tão parecida ou sem gosto quanto Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), ou até Kassab (PSD, ex-DEM-PFL), não está no mesmo partido?
Sim, o início das histórias políticas de Aécio, Campos e Kassab foi bem diferente. Hoje em dia, são a mesma farinha em sacos diferentes. Sim, são de regiões diferentes, o que faz muita diferença no Brasil. Sim, são caciques que precisam de carro próprio para suas candidaturas vazias de ideias.
Sim, o custo de ter um partido para chamar de seu é menor do que organizar a disputa interna em um partido maior.
Sai barato fazer salada partidária. Que sociedade é essa em que isso é possível? Enfim, faria diferença se os partidos fossem estáveis?
O medo do outro - DORRIT HARAZIM
O GLOBO - 21/04
Com o atentado à Maratona de Boston da semana passada, constata-se que as últimas presidências dos Estados Unidos carregam sequelas distintas dos três grandes marcos de terrorismo ocorridos dentro de suas fronteiras.Além de distintas, são sequelas tragicamente complementares. E esta fusão, observada no episódio mais recente, tem tudo para ampliar uma perigosa fenda social que há uma década contamina a vida americana: a do medo do outro.
Foi durante o mandato de Bill Clinton que ocorreu, exatamente 18 anos atrás, o primeiro e mais sangrento atentado a bomba praticado por um filho da terra contra a sua pátria. Foi na manhã de 19 de abril de 1995 que Timothy McVeigh, de 27 anos, veterano condecorado na Guerra do Golfo, branco, natural de uma área rural do estado de Nova York, detonou um caminhão abarrotado de explosivos na base do edifício Alfred P. Murrah, em Oklahoma City. O prédio de nove andares ocupava um quarteirão inteiro e abrigava várias agências regionais do governo federal.
A explosão matou 168 pessoas, inclusive 19 crianças, fez mais de 500 feridos, e deixou a nação perplexa com a percepção de que não só em terras estrangeiras ocorriam atentados. Mc- Veigh foi preso poucas horas depois da tragédia. Declarou-se orgulhoso do seu feito e de sua motivação: odiava o governo dos Estados Unidos por considerá- lo tirânico e de leis injustas. Condenado à morte, foi executado seis anos mais tarde. Seu cúmplice Terry Nichols cumpre prisão perpétua e dois outros envolvidos foram beneficiados por colaborarem com a polícia.
Ainda assim, as mortes provocadas por McVeigh jamais foram associadas à palavra terrorismo, reservada a forasteiros. Ele e os quase quarenta americanos que, de lá para cá, já praticaram ou planejaram praticar atentados com motivações políticas continuam a ser vistos como lobos solitários que se desgarraram da sociedade.Perigosos, mas não terroristas.
Foi o apocalipse da manhã ensolarada de 11 de setembro de 2001 que trouxe o terror para a sala de jantar. Além das ruínas das Torres Gêmeas de Nova York e dos 3 mil mortos engolidos em seus escombros, foi todo um modo americano de viver que naquele dia cessou de existir. Foi difícil aceitar que o ato mais audacioso jamais praticado na história do terrorismo fora urdido com perfeição em cavernas do Afeganistão. Complexo no planejamento, preciso na execução e insuperável no resultado desejado, o atentado dos radicais islâmicos da al- Qaeda deixou o país ferido.
As respostas do presidente George W. Bush ao ataque receberam aprovação quase unânime dos americanos, refletindo o estado de fervor patriótico que emergiu das cinzas. A indefensável invasão e ocupação do Iraque, que durou dez anos, a guerra no Afeganistão que dura até hoje, o alargamento do Poder Executivo, o estabelecimento de um aparato de segurança interna que atropela vários direitos - muito foi sendo aceito e adotado em nome da proteção dos Estados Unidos contra o inimigo externo.Com naturalidade inquietante, o perfil desse inimigo consolidou-se no imaginário nacional como sendo islâmico, árabe, viajante de pele escura, portador de passaporte de algum país suspeito.
Foi no primeiro ataque terrorista em solo americano da Presidência Barack Obama que as certezas da era Clinton e as fantasias dos tempos Bush se embaralharam.
O primeiro suspeito do atentado da semana passada, ainda em pleno pandemônio da carnificina, foi um aluno da Boston University que teve o corpo dilacerado por fragmentos de metal. Enquanto ele recebia tratamento no hospital, seu apartamento foi esquadrinhado por um esquadrão antibomba com cães farejadores, agentes do FBI, da Imigração e da Homeland Security. O colega de quarto viu-se submetido a um interrogatório de cinco horas.O jovem hospitalizado teria chamado a atenção das autoridades, em meio ao caos dos outros 176 feridos e 3 mortos, por ter tido a ideia de sair correndo do local da explosão, por exalar forte cheiro de explosivo e porque alguém ouviu-o perguntar se havia mais bombas - coisas normais dadas as circunstâncias. Mas ele era de nacionalidade saudita, tinha feições árabes. Assim, no primeiro dia, o suspeito oficial foi um "cidadão saudita", posteriormente rebaixado para "o homem errado que se encontrava no lugar errado".
A rede de televisão CNN chegou a informar que a polícia procurava "um homem negro ou de pele escura, com sotaque estrangeiro". Não surpreende, assim, que dois homens embarcados em Boston com destino a Chicago, no dia seguinte à tragédia, e que conversavam em árabe, tiveram de descer do avião por solicitação dos outros passageiros, atendidos pela empresa aérea.
"Rezo para que não seja um muçulmano", dizia o título de um artigo publicado semana passada pelo dramaturgo americano Wajahat Ali, referindo- se à autoria do atentado. Suas preces não foram atendidas. Mas tampouco parece certo que o ato tenha sido orquestrado pelo inimigo externo de sempre.
Pelo menos até a noite de sexta-feira quando este artigo foi escrito, o perfil incompleto dos irmãos Tsarnaev, identificados como responsáveis pelo atentado, mais parecia o de dois jovens imigrados que surtaram, e se autorradicalizaram, do que o de membros de uma organização terrorista como a al-Qaeda. Sequer parecem ter traçado um plano de fuga para depois do atentado. Permaneceram na cidade, desencadeando a maior operação urbana de caçada humana de todos os tempos. Tamerlan, de 26 anos, o mais velho dos irmãos Tsarnaev, foi morto no primeiro confronto. O caçula Dzhokar, de 19 anos, manteve paralisada uma região metropolitana de 5,8 milhões de habitantes e monopolizou uma força de milhares de homens por outras 24 horas, até ser rendido.
Nascidos na Chechênia, um parecia integrado à vida americana, o outro não. Um se naturalizara no ano passado, o outro não. Uma das vítimas colaterais mais imediatas do atentado de Boston pode ser o adiamento por um bom tempo da crucial reforma da lei de imigração.
Com o atentado à Maratona de Boston da semana passada, constata-se que as últimas presidências dos Estados Unidos carregam sequelas distintas dos três grandes marcos de terrorismo ocorridos dentro de suas fronteiras.Além de distintas, são sequelas tragicamente complementares. E esta fusão, observada no episódio mais recente, tem tudo para ampliar uma perigosa fenda social que há uma década contamina a vida americana: a do medo do outro.
Foi durante o mandato de Bill Clinton que ocorreu, exatamente 18 anos atrás, o primeiro e mais sangrento atentado a bomba praticado por um filho da terra contra a sua pátria. Foi na manhã de 19 de abril de 1995 que Timothy McVeigh, de 27 anos, veterano condecorado na Guerra do Golfo, branco, natural de uma área rural do estado de Nova York, detonou um caminhão abarrotado de explosivos na base do edifício Alfred P. Murrah, em Oklahoma City. O prédio de nove andares ocupava um quarteirão inteiro e abrigava várias agências regionais do governo federal.
A explosão matou 168 pessoas, inclusive 19 crianças, fez mais de 500 feridos, e deixou a nação perplexa com a percepção de que não só em terras estrangeiras ocorriam atentados. Mc- Veigh foi preso poucas horas depois da tragédia. Declarou-se orgulhoso do seu feito e de sua motivação: odiava o governo dos Estados Unidos por considerá- lo tirânico e de leis injustas. Condenado à morte, foi executado seis anos mais tarde. Seu cúmplice Terry Nichols cumpre prisão perpétua e dois outros envolvidos foram beneficiados por colaborarem com a polícia.
Ainda assim, as mortes provocadas por McVeigh jamais foram associadas à palavra terrorismo, reservada a forasteiros. Ele e os quase quarenta americanos que, de lá para cá, já praticaram ou planejaram praticar atentados com motivações políticas continuam a ser vistos como lobos solitários que se desgarraram da sociedade.Perigosos, mas não terroristas.
Foi o apocalipse da manhã ensolarada de 11 de setembro de 2001 que trouxe o terror para a sala de jantar. Além das ruínas das Torres Gêmeas de Nova York e dos 3 mil mortos engolidos em seus escombros, foi todo um modo americano de viver que naquele dia cessou de existir. Foi difícil aceitar que o ato mais audacioso jamais praticado na história do terrorismo fora urdido com perfeição em cavernas do Afeganistão. Complexo no planejamento, preciso na execução e insuperável no resultado desejado, o atentado dos radicais islâmicos da al- Qaeda deixou o país ferido.
As respostas do presidente George W. Bush ao ataque receberam aprovação quase unânime dos americanos, refletindo o estado de fervor patriótico que emergiu das cinzas. A indefensável invasão e ocupação do Iraque, que durou dez anos, a guerra no Afeganistão que dura até hoje, o alargamento do Poder Executivo, o estabelecimento de um aparato de segurança interna que atropela vários direitos - muito foi sendo aceito e adotado em nome da proteção dos Estados Unidos contra o inimigo externo.Com naturalidade inquietante, o perfil desse inimigo consolidou-se no imaginário nacional como sendo islâmico, árabe, viajante de pele escura, portador de passaporte de algum país suspeito.
Foi no primeiro ataque terrorista em solo americano da Presidência Barack Obama que as certezas da era Clinton e as fantasias dos tempos Bush se embaralharam.
O primeiro suspeito do atentado da semana passada, ainda em pleno pandemônio da carnificina, foi um aluno da Boston University que teve o corpo dilacerado por fragmentos de metal. Enquanto ele recebia tratamento no hospital, seu apartamento foi esquadrinhado por um esquadrão antibomba com cães farejadores, agentes do FBI, da Imigração e da Homeland Security. O colega de quarto viu-se submetido a um interrogatório de cinco horas.O jovem hospitalizado teria chamado a atenção das autoridades, em meio ao caos dos outros 176 feridos e 3 mortos, por ter tido a ideia de sair correndo do local da explosão, por exalar forte cheiro de explosivo e porque alguém ouviu-o perguntar se havia mais bombas - coisas normais dadas as circunstâncias. Mas ele era de nacionalidade saudita, tinha feições árabes. Assim, no primeiro dia, o suspeito oficial foi um "cidadão saudita", posteriormente rebaixado para "o homem errado que se encontrava no lugar errado".
A rede de televisão CNN chegou a informar que a polícia procurava "um homem negro ou de pele escura, com sotaque estrangeiro". Não surpreende, assim, que dois homens embarcados em Boston com destino a Chicago, no dia seguinte à tragédia, e que conversavam em árabe, tiveram de descer do avião por solicitação dos outros passageiros, atendidos pela empresa aérea.
"Rezo para que não seja um muçulmano", dizia o título de um artigo publicado semana passada pelo dramaturgo americano Wajahat Ali, referindo- se à autoria do atentado. Suas preces não foram atendidas. Mas tampouco parece certo que o ato tenha sido orquestrado pelo inimigo externo de sempre.
Pelo menos até a noite de sexta-feira quando este artigo foi escrito, o perfil incompleto dos irmãos Tsarnaev, identificados como responsáveis pelo atentado, mais parecia o de dois jovens imigrados que surtaram, e se autorradicalizaram, do que o de membros de uma organização terrorista como a al-Qaeda. Sequer parecem ter traçado um plano de fuga para depois do atentado. Permaneceram na cidade, desencadeando a maior operação urbana de caçada humana de todos os tempos. Tamerlan, de 26 anos, o mais velho dos irmãos Tsarnaev, foi morto no primeiro confronto. O caçula Dzhokar, de 19 anos, manteve paralisada uma região metropolitana de 5,8 milhões de habitantes e monopolizou uma força de milhares de homens por outras 24 horas, até ser rendido.
Nascidos na Chechênia, um parecia integrado à vida americana, o outro não. Um se naturalizara no ano passado, o outro não. Uma das vítimas colaterais mais imediatas do atentado de Boston pode ser o adiamento por um bom tempo da crucial reforma da lei de imigração.
Um terrorista como eu ou você - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 21/04
Se os Tsarnaev forem os culpados, mostrarão que gente que parece normal é capaz do pior dos crimes
Se os irmãos Tsarnaev são de fato os culpados pelas bombas de Boston, terão praticado o mais eficaz ato de terrorismo, aquele que causa em todos uma sensação de absoluta vulnerabilidade.
Primeiro, porque ficou evidente que matar é fácil e barato. Bastam uma panela de pressão, um punhado de pregos e rolemãs e disposição para ler na internet como transformar tão prosaicos materiais em uma arma assassina. Simples assim.
Segundo e mais importante: o terrorista pode ser igualzinho a nós.
O mais jovem dos Tsarnaev, Dzhokhar, 19 anos, chegou a ser descrito como "a alma da festa" por Robin Young, uma mulher cuja profissão (jornalista da Public Radio local) em tese aguça a capacidade de observação. Dzhokhar frequentou festas na casa de Robin sem emitir qualquer sinal de anormalidade.
Impressionava, no noticiário da CNN, o perfil do jovem Tsarnaev, traçado por colegas de escola, professores, amigos, enfim, por qualquer um que tenha tido contato com ele: era um "anjo", como disse o pai.
Uma pessoa do bem, insistiram todos, mesmo após tomarem conhecimento de que Dzhokhar era suspeito dos atentados e estava fugindo após envolver-se em tiroteio no qual morreu um policial. Nessas circunstâncias, o usual é aparecer pelo menos uma pessoa, influenciada pelo climão de caça ao bandido, para contar algum episódio, geralmente menor, que demonstre que, bem feitas as contas, o caçado não era totalmente normal.
O sítio "The Daily Beast" vasculhou os tuítes do que diz ser a verdadeira conta de Dzhokhar (várias contas "fake" foram criadas) e concluiu que tudo indicava um jovem norte-americano normal (e entediado), como milhões de outros.
Famílias de terroristas fanáticos costumam orgulhar-se do que consideram filhos "mártires". Não assim os Tsarnaev, pai e mãe, que disseram acreditar que os filhos foram vítimas de uma "armação".
Uma tia dos jovens, advogada no Canadá, reagiu como reagiria qualquer advogado normal dos EUA: "Quero as evidências", gritou.
Tudo somado, se os atentados tiverem sido obra dos Tsarnaev, irão para a conta de um "great american kid", como um dos colegas ouvidos pela CNN descreveu Dzhokhar.
Como sobram grandes garotos americanos, a sensação de que o perigo mora ao lado (ou até dentro de casa) só faz aumentar.
Ainda mais que, como aponta o sítio de geoestratégia "Stratfor", "é incrivelmente fácil matar pessoas, mesmo para operadores não treinados", como supostamente eram os irmãos Tsarnaev.
"Stratfor" informa também que "a ameaça jihadista' (de guerra santa) deriva agora predominantemente de operadores de base, que vivem no Ocidente, em vez de equipes de operadores treinados enviados aos Estados Unidos de além-mar, como os que executaram os atentados de 11 de setembro".
Ou, como prefere Jonathan Freeedland, colunista do "Guardian": "A verdade é que, no mundo intensamente globalizado de hoje, não podemos mais pensar em qualquer lugar como remoto [como a Tchetchênia ou o Daguestão], porque longe é logo aqui".
Se os Tsarnaev forem os culpados, mostrarão que gente que parece normal é capaz do pior dos crimes
Se os irmãos Tsarnaev são de fato os culpados pelas bombas de Boston, terão praticado o mais eficaz ato de terrorismo, aquele que causa em todos uma sensação de absoluta vulnerabilidade.
Primeiro, porque ficou evidente que matar é fácil e barato. Bastam uma panela de pressão, um punhado de pregos e rolemãs e disposição para ler na internet como transformar tão prosaicos materiais em uma arma assassina. Simples assim.
Segundo e mais importante: o terrorista pode ser igualzinho a nós.
O mais jovem dos Tsarnaev, Dzhokhar, 19 anos, chegou a ser descrito como "a alma da festa" por Robin Young, uma mulher cuja profissão (jornalista da Public Radio local) em tese aguça a capacidade de observação. Dzhokhar frequentou festas na casa de Robin sem emitir qualquer sinal de anormalidade.
Impressionava, no noticiário da CNN, o perfil do jovem Tsarnaev, traçado por colegas de escola, professores, amigos, enfim, por qualquer um que tenha tido contato com ele: era um "anjo", como disse o pai.
Uma pessoa do bem, insistiram todos, mesmo após tomarem conhecimento de que Dzhokhar era suspeito dos atentados e estava fugindo após envolver-se em tiroteio no qual morreu um policial. Nessas circunstâncias, o usual é aparecer pelo menos uma pessoa, influenciada pelo climão de caça ao bandido, para contar algum episódio, geralmente menor, que demonstre que, bem feitas as contas, o caçado não era totalmente normal.
O sítio "The Daily Beast" vasculhou os tuítes do que diz ser a verdadeira conta de Dzhokhar (várias contas "fake" foram criadas) e concluiu que tudo indicava um jovem norte-americano normal (e entediado), como milhões de outros.
Famílias de terroristas fanáticos costumam orgulhar-se do que consideram filhos "mártires". Não assim os Tsarnaev, pai e mãe, que disseram acreditar que os filhos foram vítimas de uma "armação".
Uma tia dos jovens, advogada no Canadá, reagiu como reagiria qualquer advogado normal dos EUA: "Quero as evidências", gritou.
Tudo somado, se os atentados tiverem sido obra dos Tsarnaev, irão para a conta de um "great american kid", como um dos colegas ouvidos pela CNN descreveu Dzhokhar.
Como sobram grandes garotos americanos, a sensação de que o perigo mora ao lado (ou até dentro de casa) só faz aumentar.
Ainda mais que, como aponta o sítio de geoestratégia "Stratfor", "é incrivelmente fácil matar pessoas, mesmo para operadores não treinados", como supostamente eram os irmãos Tsarnaev.
"Stratfor" informa também que "a ameaça jihadista' (de guerra santa) deriva agora predominantemente de operadores de base, que vivem no Ocidente, em vez de equipes de operadores treinados enviados aos Estados Unidos de além-mar, como os que executaram os atentados de 11 de setembro".
Ou, como prefere Jonathan Freeedland, colunista do "Guardian": "A verdade é que, no mundo intensamente globalizado de hoje, não podemos mais pensar em qualquer lugar como remoto [como a Tchetchênia ou o Daguestão], porque longe é logo aqui".
Plano perfeito - PERCIVAL PUGGINA
ZERO HORA - 21/04
O Brasil deve ser dos raros países onde dizer-se que alguém é anticomunista soa como desqualificação
A Coreia do Norte, onde só existe o Partido dos Trabalhadores da Coreia, é governada há mais de meio século por uma espécie de monarquia comunista que já está na terceira geração. Segundo Human Rights Watch, os norte-coreanos são as pessoas mais brutalizadas no mundo. A sociedade é organizada em castas segundo a lealdade ao regime. Comparada a ela, até Cuba se transforma em paraíso de luxuriantes e extravagantes liberdades. Pois bem, quando, em dezembro de 2011, morreu Kim Jong-il (ditador cujos campos de concentração fariam inveja a Stalin), o PC do B, em meio a soluços, pranteou mensagem de condolências aos camaradas pela irreparável perda. Agora, nestes dias, o tiranete que herdou do pai a propriedade do país como se fosse fazendola, ou relógio de estimação, rufa tambores de guerra. Guerra nuclear. E novamente o PC do B, anunciando endosso do PT e do PSB (que juram não haverem endossado coisa alguma), mais a UNE, o MST e diversas organizações de calibre semelhante, manifestam-se em "irrestrito e absoluto apoio" a Kim Jong-un, qualificando sua atitude belicosa como ato de soberania e dignidade.
***
Ruim, não? O sujeito viu o Muro de Berlim ser erguido e tinha certeza de que o lado de lá era melhor do que o de cá. Torceu pela União Soviética, pela China maoista, pelos vietcongues, pelo Khmer Vermelho, pelas Brigate Rosse. Vestiu camiseta do Che. Colou no guarda-roupa fotos do Danny le Rouge. Sacudiu bandeirinha de Cuba. Atendendo apelo de Fidel, passou uma temporada lá, em 1969, cultivando cana. Vociferou contra a Primavera de Praga. Aplaudiu as ações dos tanques chineses na Praça da Paz Celestial. Bebeu champanhe no September 11. Fez tudo direitinho. Votou no partidão e no partidinho. Imaginou? Agora, veja bem o que aconteceu com ele. Seus atuais porta-vozes e líderes são tipos como Lula, José Dirceu, Hugo Chávez, Daniel Ortega, Evo Morales, Ahmadinejad, Kim Jong-un. Pensa numa democracia construída sobre aquelas ideias. Não há. Busca livro que junte os cacos e reorganize consistentemente uma visão de mundo sobre tais bases. Nada. Procura um estadista de boa estirpe para seguir. Ninguém. Dureza! O comunismo nunca foi melhor.
***
Pois bem, 100 milhões de mortos depois, contado um século inteiro de fracassos, o Brasil deve ser dos raros países onde dizer-se que alguém é anticomunista soa como desqualificação. Coloca a vítima do adjetivo no rol dos retardados intelectuais. Vale por um tiro na nuca. Perceba, leitor, a engenhosa malícia capaz de produzir uma coisa dessas. Malícia lograda mediante persistente trabalho desenvolvido na imprensa, nas salas de aula, nos comentários políticos, nas conversas de botequim e no ambiente cultural. Comunista come criancinha? Quá, quá, quá! Graças a essa conjugação de ironias e sofismas, a carga esmagadora das monstruosidades praticadas em nome do comunismo foi jogada na vala comum com seus fracassos. Pelo avesso dos fatos e da História, a maligna doutrina foi sendo reapresentada como coisa de gente moderna, cuca fresca. Chega-se, por fim, a duas realidades contraditórias: numa, o comunismo, seus símbolos, organizações políticas e ilusórias mensagens trafegam com desenvoltura, leves de qualquer carga histórica, no ambiente social e político do país; noutra, convivem, esplendidamente, com a ideia de que ele mesmo acabou e não tem mais qualquer plano, projeto, estratégia ou significado entre nós. Pode haver significado, estratégia, projeto ou plano mais perfeito?
O Brasil deve ser dos raros países onde dizer-se que alguém é anticomunista soa como desqualificação
A Coreia do Norte, onde só existe o Partido dos Trabalhadores da Coreia, é governada há mais de meio século por uma espécie de monarquia comunista que já está na terceira geração. Segundo Human Rights Watch, os norte-coreanos são as pessoas mais brutalizadas no mundo. A sociedade é organizada em castas segundo a lealdade ao regime. Comparada a ela, até Cuba se transforma em paraíso de luxuriantes e extravagantes liberdades. Pois bem, quando, em dezembro de 2011, morreu Kim Jong-il (ditador cujos campos de concentração fariam inveja a Stalin), o PC do B, em meio a soluços, pranteou mensagem de condolências aos camaradas pela irreparável perda. Agora, nestes dias, o tiranete que herdou do pai a propriedade do país como se fosse fazendola, ou relógio de estimação, rufa tambores de guerra. Guerra nuclear. E novamente o PC do B, anunciando endosso do PT e do PSB (que juram não haverem endossado coisa alguma), mais a UNE, o MST e diversas organizações de calibre semelhante, manifestam-se em "irrestrito e absoluto apoio" a Kim Jong-un, qualificando sua atitude belicosa como ato de soberania e dignidade.
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Ruim, não? O sujeito viu o Muro de Berlim ser erguido e tinha certeza de que o lado de lá era melhor do que o de cá. Torceu pela União Soviética, pela China maoista, pelos vietcongues, pelo Khmer Vermelho, pelas Brigate Rosse. Vestiu camiseta do Che. Colou no guarda-roupa fotos do Danny le Rouge. Sacudiu bandeirinha de Cuba. Atendendo apelo de Fidel, passou uma temporada lá, em 1969, cultivando cana. Vociferou contra a Primavera de Praga. Aplaudiu as ações dos tanques chineses na Praça da Paz Celestial. Bebeu champanhe no September 11. Fez tudo direitinho. Votou no partidão e no partidinho. Imaginou? Agora, veja bem o que aconteceu com ele. Seus atuais porta-vozes e líderes são tipos como Lula, José Dirceu, Hugo Chávez, Daniel Ortega, Evo Morales, Ahmadinejad, Kim Jong-un. Pensa numa democracia construída sobre aquelas ideias. Não há. Busca livro que junte os cacos e reorganize consistentemente uma visão de mundo sobre tais bases. Nada. Procura um estadista de boa estirpe para seguir. Ninguém. Dureza! O comunismo nunca foi melhor.
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Pois bem, 100 milhões de mortos depois, contado um século inteiro de fracassos, o Brasil deve ser dos raros países onde dizer-se que alguém é anticomunista soa como desqualificação. Coloca a vítima do adjetivo no rol dos retardados intelectuais. Vale por um tiro na nuca. Perceba, leitor, a engenhosa malícia capaz de produzir uma coisa dessas. Malícia lograda mediante persistente trabalho desenvolvido na imprensa, nas salas de aula, nos comentários políticos, nas conversas de botequim e no ambiente cultural. Comunista come criancinha? Quá, quá, quá! Graças a essa conjugação de ironias e sofismas, a carga esmagadora das monstruosidades praticadas em nome do comunismo foi jogada na vala comum com seus fracassos. Pelo avesso dos fatos e da História, a maligna doutrina foi sendo reapresentada como coisa de gente moderna, cuca fresca. Chega-se, por fim, a duas realidades contraditórias: numa, o comunismo, seus símbolos, organizações políticas e ilusórias mensagens trafegam com desenvoltura, leves de qualquer carga histórica, no ambiente social e político do país; noutra, convivem, esplendidamente, com a ideia de que ele mesmo acabou e não tem mais qualquer plano, projeto, estratégia ou significado entre nós. Pode haver significado, estratégia, projeto ou plano mais perfeito?
Boston contra o medo - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 21/04
Estava em reunião em Boston, em 2001, quando assisti pela TV aos ataques terroristas do 11 de Setembro.
Como a instituição que dirigia à época nos EUA tinha operação enorme em Nova York, inclusive diante das Torres Gêmeas, fui para lá imediatamente tomar providências e apoiar os funcionários.
Num primeiro momento, a economia local parou. Restaurantes estavam vazios, empresas perdiam clientes e grandes instituições de Wall Street pensavam em sair dali.
Eram prenúncios de decadência urbana com consequências para a economia regional, americana e global. Como membro de duas grandes ONGs que lideravam o esforço comunitário de revitalização de Nova York, participei de reuniões e ações para re-verter a tendência.
O primeiro movimento importante foi o aparato policial e as autoridades, na mídia, assumindo a responsabilidade pela segurança e transmitindo a sensação de que havia pessoas capazes tomando providências, o que reduziu a sensação de desamparo. O segundo foi a decisão de organizações e pessoas de enfrentar o medo e as razões do medo e mostrar confiança na recuperação.
O pilar desse processo foi o senso de comunidade e solidariedade não só às vitimas e familiares, mas à cidade, com a consciência de que atitudes individualistas levariam à decadência de Nova York e ao prejuízo de todos.
Foi fundamental a demonstração inequívoca de que as causas da insegurança estavam sendo resolvidas. Desse movimento participaram profissionais da imprensa, da cultura, dos negócios, do terceiro setor, todos mobilizados contra o maior problema: o medo.
A grande conquista do ato terrorista, mais que a destruição, é o medo. Ele cria disfunção na sociedade e gera atitudes defensivas destrutivas.
Mas, assim como o medo é contagioso, também o são a coragem, o enfrentamento do medo e o impulso de combater o risco. Isso foi fundamental na recuperação total e inspiradora de Nova York.
O mesmo medo e reação solidária vemos agora em Boston, onde estudei, trabalhei e participo de conselhos acadêmicos de universidades. Uma das características da cidade é justamente o forte senso comunitário.
Nós, que trabalhamos na recuperação das áreas centrais de São Paulo, que enfrentamos os problemas e a violência das grandes cidades brasileiras, podemos olhar para Nova York, Boston e também para a Europa e o Oriente Médio para tirar lições do enfrentamento não só do medo, mas, principalmente, das razões do medo.
Para isso, é fundamental a ação das autoridades --a demonstração clara de que estão enfrentando os problemas-- e, principalmente, a mobilização da comunidade.
Estava em reunião em Boston, em 2001, quando assisti pela TV aos ataques terroristas do 11 de Setembro.
Como a instituição que dirigia à época nos EUA tinha operação enorme em Nova York, inclusive diante das Torres Gêmeas, fui para lá imediatamente tomar providências e apoiar os funcionários.
Num primeiro momento, a economia local parou. Restaurantes estavam vazios, empresas perdiam clientes e grandes instituições de Wall Street pensavam em sair dali.
Eram prenúncios de decadência urbana com consequências para a economia regional, americana e global. Como membro de duas grandes ONGs que lideravam o esforço comunitário de revitalização de Nova York, participei de reuniões e ações para re-verter a tendência.
O primeiro movimento importante foi o aparato policial e as autoridades, na mídia, assumindo a responsabilidade pela segurança e transmitindo a sensação de que havia pessoas capazes tomando providências, o que reduziu a sensação de desamparo. O segundo foi a decisão de organizações e pessoas de enfrentar o medo e as razões do medo e mostrar confiança na recuperação.
O pilar desse processo foi o senso de comunidade e solidariedade não só às vitimas e familiares, mas à cidade, com a consciência de que atitudes individualistas levariam à decadência de Nova York e ao prejuízo de todos.
Foi fundamental a demonstração inequívoca de que as causas da insegurança estavam sendo resolvidas. Desse movimento participaram profissionais da imprensa, da cultura, dos negócios, do terceiro setor, todos mobilizados contra o maior problema: o medo.
A grande conquista do ato terrorista, mais que a destruição, é o medo. Ele cria disfunção na sociedade e gera atitudes defensivas destrutivas.
Mas, assim como o medo é contagioso, também o são a coragem, o enfrentamento do medo e o impulso de combater o risco. Isso foi fundamental na recuperação total e inspiradora de Nova York.
O mesmo medo e reação solidária vemos agora em Boston, onde estudei, trabalhei e participo de conselhos acadêmicos de universidades. Uma das características da cidade é justamente o forte senso comunitário.
Nós, que trabalhamos na recuperação das áreas centrais de São Paulo, que enfrentamos os problemas e a violência das grandes cidades brasileiras, podemos olhar para Nova York, Boston e também para a Europa e o Oriente Médio para tirar lições do enfrentamento não só do medo, mas, principalmente, das razões do medo.
Para isso, é fundamental a ação das autoridades --a demonstração clara de que estão enfrentando os problemas-- e, principalmente, a mobilização da comunidade.
A farra da Feira de Frankfurt - ELIO GASPARI
O GLOBO - 21/04
Na semana passada, o historiador Robert Darnton, diretor das bibliotecas da Universidade Harvard, pôs de pé seu sonho: a Biblioteca Digital Pública da América (DPLA, na sigla em inglês). A ideia é audaciosa e pretende formar uma rede eletrônica unindo acervos públicos, universidades, museus e centros de pesquisas. Esse patrimônio ficará disponível para os cidadãos, de graça. Um estudante do Piauí poderá baixar um livro de um acervo de Washington. O projeto começou em 2010, quando o ar refrigerado da Biblioteca Nacional do Rio já ia mal das pernas e sua rede elétrica estava cheia de gambiarras.
O professor trabalhou com uma pequena equipe e 40 voluntários. Aos poucos, conseguiu a adesão de grandes instituições. Ninguém foi nomeado pelo governo. A iniciativa já dispõe de sete troncos de acesso a 2,4 milhões de títulos, guardados em mais de uma dezena de entidades. Não é muita coisa, mas Darnton sonha, como sonhou John Harvard em 1638. Pastor e filho de um açougueiro, morreu aos 37 anos, deixando 780 libras e 320 livros para que se criasse um colégio. Harvard é hoje a melhor universidade do mundo. Formou sete presidentes, inclusive o companheiro Obama. Em 1750, os jesuítas do Rio tinham 5.434 volumes e a biblioteca criada por Benjamin Franklin na Philadelphia, 375.
Passou o tempo e, enquanto Darnton cria a Biblioteca Digital Americana, a Biblioteca Nacional do Rio, caindo aos pedaços, foi cativada por grandes vaidades e pelos interesses de uma parte do mercado editorial. Junto com o Ministério da Cultura, ela patrocinará em outubro uma farra marqueteira na Feira do Livro de Frankfurt. Trata-se de um grande evento comercial, com três dias de visitação exclusiva para editores e apenas dois para o público. Ela pretende homenagear o Brasil. O repórter Ancelmo Gois revelou que a Viúva poderá gastar no espetáculo algo como R$ 15 milhões orçamentários, mais R$ 13 milhões vindos de renúncias fiscais. Trata-se de alavancar os interesses privados de um mercado editorial que já está grandinho para cuidar de si.
A Biblioteca Nacional não oferece tomadas para a recarga dos laptops de seus frequentadores, pois sua rede elétrica não aguenta. A farra de Frankfurt poderá custar até US$ 14 milhões mas, até agora, o trabalho de Darnton custou menos de US$ 10 milhões, com uma pequena parte vinda de verbas públicas. Custará muito mais para copiar acervos, mas começou a funcionar.
O atraso e o progresso são obras do cotidiano. Onde canta o sabiá, a Biblioteca Nacional está uma ruína e gasta dinheiro público num evento na Alemanha, país governado por uma senhora que pede aos outros "austeridade total". Nas terras sem palmeiras, onde montou-se a internet, cria-se a Biblioteca Digital.
Serviço: Darnton conta seu caso no artigo "The National Digital Public Library Is Launched!", que está na rede, no sítio do The New York Review of Books.
FORTES EMOÇÕES
Ao contrário do que foi publicado aqui no domingo passado, é razoável a chance de reversão da sentença que condenou José Dirceu por formação de quadrilha, levando-o a penar em regime fechado.
Basta que o ministro Teori Zavascki, que não estava no tribunal em novembro, vote a favor do recurso. O jogo empata, com Celso de Mello, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Marco Aurélio e Joaquim Barbosa de um lado, e Rosa Weber, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Zavaski, do outro. Zerado o placar, cai a decisão que levaria Dirceu ao presídio de Tremembé.
Indo-se para o campo da fantasia, em seguida pode acontecer o seguinte:
Barbosa fala dois minutos contra a reversão do resultado do julgamento do ano passado, joga a toga sobre a bancada, deixa o Supremo e vai disputar a Presidência da República.
Dias emocionantes virão.
FUX
Entre visitas, festas e parentelas, é o caso de se perguntar o que é que o ministro Luiz Fux pôs na cabeça.
DESCULPAS
O diplomata Rodrigo Estrela, assessor do professor Marco Aurélio Garcia no Planalto, informa que estava errada e era ofensiva a nota "Foguete", segundo a qual na promoção a conselheiro ultrapassou 93 colegas num quadro de 273 primeiros-secretários.
O quadro tinha 254 diplomatas e ele era o 57º numa lista por antiguidade. No quadro de 63 candidatos à promoção, era o 42º.
Ademais, em 2010 e 2012, foram promovidos diplomatas colocados até nos 114º e 138º lugares na lista de antiguidade.
Com essas correções ele solicita e deve receber não só a retificação, como o devido pedido de desculpas.
MARC BLOCH E A COMISSÃO DA VERDADE
A Comissão da Verdade pedirá mais prazo para apresentar seu relatório. Se o objetivo dos doutores é investigar os crimes da ditadura, desvendando mistérios de desparecimentos ou cenas de assassinatos, talvez seja o caso de se criar uma comissão permanente com esse propósito.
Desde sua criação, com algum barulho, a Comissão anunciou ter descoberto que, em 1971, antes de desaparecer, Rubens Paiva estivera no DOI. Ora, o Exército sempre disse que ele foi resgatado por um comando terrorista quando era conduzido, escoltado, numa diligência do DOI. Há 42 anos os comandantes sustentam, oficial e falsamente, que ele fugiu. Se o preso fugiu, preso estava. O que se pode descobrir é a identidade de seus torturadores e o nome dos oficiais que, no meio da noite, resgataram e sumiram com o cadáver. Um estaria morto. Uma comissão permanente poderia ficar com essa tarefa.
Outra coisa seria mostrar como a mutilação do Estado de Direito, do Congresso, do Judiciário, bem como a censura, o fim do habeas corpus e os estímulos dados pelos hierarcas do regime ao aparelho repressivo, transformaram policiais delinquentes em heróis e oficiais das Forças Armadas em assassinos. Expondo-se esse processo, previne-se sua repetição.
Para se chegar à verdade essencial do que ocorreu durante a ditadura, valeria a pena ouvir o que dizia o historiador francês Marc Bloch pouco antes de ser morto, em 1944: "Quando tudo estiver feito e dito, uma única palavra, compreender', será a luz que orientará nossos estudos". Deve-se buscar ossadas de guerrilheiros no Araguaia, mas é necessário compreender como uma elite militar que colocou o marechal Castello Branco no poder ordenou, a partir de outubro de 1973, o extermínio de todos os militantes do PC do B que estavam na mata. Inclusive aqueles que se renderam, atendendo a comunicados feitos em panfletos e transmitidos por alto-falantes colocados em helicópteros. Para isso, precisa-se de bastante reflexão e debate.
Na semana passada, o historiador Robert Darnton, diretor das bibliotecas da Universidade Harvard, pôs de pé seu sonho: a Biblioteca Digital Pública da América (DPLA, na sigla em inglês). A ideia é audaciosa e pretende formar uma rede eletrônica unindo acervos públicos, universidades, museus e centros de pesquisas. Esse patrimônio ficará disponível para os cidadãos, de graça. Um estudante do Piauí poderá baixar um livro de um acervo de Washington. O projeto começou em 2010, quando o ar refrigerado da Biblioteca Nacional do Rio já ia mal das pernas e sua rede elétrica estava cheia de gambiarras.
O professor trabalhou com uma pequena equipe e 40 voluntários. Aos poucos, conseguiu a adesão de grandes instituições. Ninguém foi nomeado pelo governo. A iniciativa já dispõe de sete troncos de acesso a 2,4 milhões de títulos, guardados em mais de uma dezena de entidades. Não é muita coisa, mas Darnton sonha, como sonhou John Harvard em 1638. Pastor e filho de um açougueiro, morreu aos 37 anos, deixando 780 libras e 320 livros para que se criasse um colégio. Harvard é hoje a melhor universidade do mundo. Formou sete presidentes, inclusive o companheiro Obama. Em 1750, os jesuítas do Rio tinham 5.434 volumes e a biblioteca criada por Benjamin Franklin na Philadelphia, 375.
Passou o tempo e, enquanto Darnton cria a Biblioteca Digital Americana, a Biblioteca Nacional do Rio, caindo aos pedaços, foi cativada por grandes vaidades e pelos interesses de uma parte do mercado editorial. Junto com o Ministério da Cultura, ela patrocinará em outubro uma farra marqueteira na Feira do Livro de Frankfurt. Trata-se de um grande evento comercial, com três dias de visitação exclusiva para editores e apenas dois para o público. Ela pretende homenagear o Brasil. O repórter Ancelmo Gois revelou que a Viúva poderá gastar no espetáculo algo como R$ 15 milhões orçamentários, mais R$ 13 milhões vindos de renúncias fiscais. Trata-se de alavancar os interesses privados de um mercado editorial que já está grandinho para cuidar de si.
A Biblioteca Nacional não oferece tomadas para a recarga dos laptops de seus frequentadores, pois sua rede elétrica não aguenta. A farra de Frankfurt poderá custar até US$ 14 milhões mas, até agora, o trabalho de Darnton custou menos de US$ 10 milhões, com uma pequena parte vinda de verbas públicas. Custará muito mais para copiar acervos, mas começou a funcionar.
O atraso e o progresso são obras do cotidiano. Onde canta o sabiá, a Biblioteca Nacional está uma ruína e gasta dinheiro público num evento na Alemanha, país governado por uma senhora que pede aos outros "austeridade total". Nas terras sem palmeiras, onde montou-se a internet, cria-se a Biblioteca Digital.
Serviço: Darnton conta seu caso no artigo "The National Digital Public Library Is Launched!", que está na rede, no sítio do The New York Review of Books.
FORTES EMOÇÕES
Ao contrário do que foi publicado aqui no domingo passado, é razoável a chance de reversão da sentença que condenou José Dirceu por formação de quadrilha, levando-o a penar em regime fechado.
Basta que o ministro Teori Zavascki, que não estava no tribunal em novembro, vote a favor do recurso. O jogo empata, com Celso de Mello, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Marco Aurélio e Joaquim Barbosa de um lado, e Rosa Weber, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Zavaski, do outro. Zerado o placar, cai a decisão que levaria Dirceu ao presídio de Tremembé.
Indo-se para o campo da fantasia, em seguida pode acontecer o seguinte:
Barbosa fala dois minutos contra a reversão do resultado do julgamento do ano passado, joga a toga sobre a bancada, deixa o Supremo e vai disputar a Presidência da República.
Dias emocionantes virão.
FUX
Entre visitas, festas e parentelas, é o caso de se perguntar o que é que o ministro Luiz Fux pôs na cabeça.
DESCULPAS
O diplomata Rodrigo Estrela, assessor do professor Marco Aurélio Garcia no Planalto, informa que estava errada e era ofensiva a nota "Foguete", segundo a qual na promoção a conselheiro ultrapassou 93 colegas num quadro de 273 primeiros-secretários.
O quadro tinha 254 diplomatas e ele era o 57º numa lista por antiguidade. No quadro de 63 candidatos à promoção, era o 42º.
Ademais, em 2010 e 2012, foram promovidos diplomatas colocados até nos 114º e 138º lugares na lista de antiguidade.
Com essas correções ele solicita e deve receber não só a retificação, como o devido pedido de desculpas.
MARC BLOCH E A COMISSÃO DA VERDADE
A Comissão da Verdade pedirá mais prazo para apresentar seu relatório. Se o objetivo dos doutores é investigar os crimes da ditadura, desvendando mistérios de desparecimentos ou cenas de assassinatos, talvez seja o caso de se criar uma comissão permanente com esse propósito.
Desde sua criação, com algum barulho, a Comissão anunciou ter descoberto que, em 1971, antes de desaparecer, Rubens Paiva estivera no DOI. Ora, o Exército sempre disse que ele foi resgatado por um comando terrorista quando era conduzido, escoltado, numa diligência do DOI. Há 42 anos os comandantes sustentam, oficial e falsamente, que ele fugiu. Se o preso fugiu, preso estava. O que se pode descobrir é a identidade de seus torturadores e o nome dos oficiais que, no meio da noite, resgataram e sumiram com o cadáver. Um estaria morto. Uma comissão permanente poderia ficar com essa tarefa.
Outra coisa seria mostrar como a mutilação do Estado de Direito, do Congresso, do Judiciário, bem como a censura, o fim do habeas corpus e os estímulos dados pelos hierarcas do regime ao aparelho repressivo, transformaram policiais delinquentes em heróis e oficiais das Forças Armadas em assassinos. Expondo-se esse processo, previne-se sua repetição.
Para se chegar à verdade essencial do que ocorreu durante a ditadura, valeria a pena ouvir o que dizia o historiador francês Marc Bloch pouco antes de ser morto, em 1944: "Quando tudo estiver feito e dito, uma única palavra, compreender', será a luz que orientará nossos estudos". Deve-se buscar ossadas de guerrilheiros no Araguaia, mas é necessário compreender como uma elite militar que colocou o marechal Castello Branco no poder ordenou, a partir de outubro de 1973, o extermínio de todos os militantes do PC do B que estavam na mata. Inclusive aqueles que se renderam, atendendo a comunicados feitos em panfletos e transmitidos por alto-falantes colocados em helicópteros. Para isso, precisa-se de bastante reflexão e debate.
A equação bo+ba+co+ca é o xis da questão - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADÃO - 21/04
Planejar uma estratégia implica administrar um conjunto de variáveis, algumas complexas, outras imponderáveis. Mesmo assim, é possível alinhar fatores centrais que terão forte influência no próximo embate presidencial. Como é sabido, o fator econômico é o primeiro a ser considerado na análise de viabilidade. Foi ele que propiciou os mandatos de Fernando Henrique, de Luiz Inácio e a atual administração sob o bastão da primeira mulher a comandar o país. O Plano Real, que trouxe a estabilidade econômica, permitiu ao governo petista alongar os braços sociais e com eles implantar o mais abrangente programa de distribuição de renda e inserção social do mundo contemporâneo. O cinturão econômico é ciclicamente usado pelos governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O X da questão resume-se na equação: BO+BA+CO+CA. Bolso (BO) suprido enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), massageia o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. A recompensa? O voto na urna. O primeiro cenário que cobrirá a contenda de 2014 é, portanto, o da economia. Se o cinto econômico apertar o estômago social, pior para a presidente Dilma; a recíproca é verdadeira.
Os eventuais riscos que ameaçam a primeira mandatária se apresentam nas frentes do desemprego e da inflação. Bolso esvaziado provocará roncos (de fome) no estômago de contingentes desempregados. Sintoma que pode se agravar ante uma inflação que restrinja o menu do consumidor. Ou que o afaste de rotinas que prezava. É razoável imaginar que a manutenção do assistencialismo, mesmo com baixo crescimento do país, consiga manter a boa avaliação da presidente Rousseff, dando sustentação à hipótese de que “pibinhos” não desestabilizarão o produto nacional bruto da satisfação social. O perigo mesmo é o bolso vazio, o desemprego em massa, a alta inflação. A segunda ordem de fatores com peso no tabuleiro situa-se nas frentes dos serviços públicos, que costumam afetar diretamente a população. Inserem-se aí demandas e deficiências nas áreas da saúde e educação, a insegurança pública, que assume graus de indignação na esteira de eventos de alto impacto social, como estupros, assassinatos de crianças, gangues assaltando a torto e a direito. Os serviços públicos no país exibem fortes traços de corrosão, não chegando, porém, a provocar mobilização face ao cobertor protecionista estendido pela administração federal. O “ponto de quebra” do sistema seria um cinturão econômico muito apertado.
A terceira vertente a influir no pleito é a da política. Neste caso, estarão em jogo articulações partidárias visando ganhos de espaços na mídia eleitoral, criação de novos partidos e reordenação de forças congressuais. Algumas pedras começam a se movimentar no tabuleiro. Percebe-se a formação de três novas siglas – a Mobilização Democrática – resultante da fusão entre PPS e PMN; a Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva, para abrigar sua eventual candidatura à presidência; e o partido Solidariedade, sob a égide da Força Sindical. O primeiro é uma alternativa para propiciar a saída de parlamentares insatisfeitos nos atuais partidos e brecha que perfis proeminentes, como o de José Serra, podem aproveitar para trocar de moradia. A criação de uma entidade, por meio de fusão, permite o troca-troca partidário sem apenar parlamentares. Quanto mais candidatos de bom potencial, mais viável a hipótese de um segundo turno, cenário que aumenta as chances de sucesso do bloco oposicionista.
Por último, descortina-se o fator novidadeiro. Nele se abrigam perfis identificados com inovação, capazes de sepultar o status quo e sinalizar a abertura de um novo tempo, e discursos impactantes. Nem sempre os “novos”, porém, conciliam identidade e imagem. O que se vê é mercador tentando vender gato por lebre, principalmente quem, até ontem, figurava no velho álbum da política. Esse é o desafio dos novos - velhos. As circunstâncias ditarão as cores das vestes de candidatos, fazendo distinções entre eles. Fechando a planilha, depara-se com a imponderabilidade, espaço das coisas imprevisíveis, onde verso e anverso se cruzam conferindo à política o lugar onde tudo é possível. Aos que já começam a ensaiar jogadas arriscadas, aconselha-se distinguir o que pode ser feito do que deve ser feito e, sobretudo, ter a capacidade de formular, decidir e melhorar o que funciona razoavelmente. O conselho final aos protagonistas vem de Carlos Matus: pensar com a cabeça e arremeter com o coração, evitando a síndrome do touro, que faz exatamente o contrário.
Só pensam naquilo - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 21/04
A ânsia do governo de tentar cortar pela raiz a ameaça que vê na candidatura da ex-senadora Marina Silva em 2014, impedindo que seu novo partido tenha direito a tempo de propaganda eleitoral na televisão, revela uma preocupação que não corresponde à larga vantagem que a presidente Dilma Rousseff tem atualmente nas pesquisas eleitorais, e, sobretudo, denota o receio de ter que enfrentar um segundo turno na disputa pela reeleição.
O que pode explicar essa incongruência é o temor de que a situação econômica se deteriore até lá, pois, a permanecerem as condições atuais, nada indica que Dilma tenha maiores dificuldades para se eleger ainda no primeiro turno.
Situação semelhante ocorreu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em sua reeleição em 1998. O governo chegou à eleição com a economia debilitada pela necessidade de desvalorizar o real frente ao dólar, e temia-se que, se houvesse segundo turno, o PT pudesse vencer. No primeiro mês do segundo governo do PSDB houve a desvalorização, e a partir daí foram sendo criadas as condições para a chegada do PT ao governo.
A presidente Dilma chega a ter uma popularidade mais homogênea que a de Lula nos melhores momentos, pois conseguiu colocar um pé no eleitorado de classe média que ainda a tem como a "faxineira" ética que não compactua com a corrupção.
Cabe à oposição conseguir explicar ao eleitorado que a "faxineira" abandonou a vassoura há muito tempo, trazendo de volta ao governo todos aqueles que havia enxotado em defesa do bem público.
O problema da oposição é que todos os candidatos estão procurando o apoio desses mesmos personagens da vida política brasileira, que pilotam partidos com robustos tempos de televisão e escassos compromissos com a ética.
Além da questão ética do PT, que aparentemente Dilma conseguiu superar com sua atuação isolada da cúpula partidária envolvida no mensalão, o governo tem a seu favor até o momento ações concretas que mexem no bolso do cidadão: redução das tarifas de energia, corte do IPI para automóveis e aparelhos domésticos, desoneração da cesta básica, tudo anunciado pela televisão num abuso eleitoral não impedido por nenhuma ação do TSE, mesmo porque ainda não estamos, em tese, em época eleitoral.
Apesar de todas essas vantagens, o governo não quer dar chance ao azar, e a manobra governista para impedir a criação de novos partidos, que até recentemente era negada, acabou chancelada pelo secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, que se declarou favorável à fidelidade partidária, como se esse dispositivo não houvesse sido questionado diversas vezes pelo próprio PT por ser um "entulho autoritário".
A ação desabrida do governo está provocando, porém, uma aproximação dos partidos de oposição, que pode levar a uma ação conjunta mais forte do que seria provável anteriormente.
A ex-senadora Marina Silva, considerada a grande atingida pela ação do governo, voltou a ter a força eleitoral presumida com base em sua eleição de 2010, o que lhe dá uma expectativa de 20 milhões de votos que já não constava das avaliações mais recentes.
O PSDB, a quem ela recusou o apoio no segundo turno, hoje é o partido que mais está empenhado em ajudá-la na luta para barrar a investida da maioria governista no Senado, para onde vai o projeto após a aprovação da Câmara. O senador Aécio Neves atua nos bastidores, seu melhor ambiente político, para garantir que a lei só valha para depois de 2014.
E até o governador Eduardo Campos, cujos correligionários do PSB diziam meses atrás que não apoiariam Marina, caso ela fosse para o segundo turno, mostra-se empenhado em vê-la na disputa, já tendo elogiado a sua atuação política. Aos três interessa que todos estejam na disputa, para aumentar a chance de haver um segundo turno, no qual cada um espera o apoio dos demais, considerandose o único capaz de vencer a presidente Dilma.
O que pode explicar essa incongruência é o temor de que a situação econômica se deteriore até lá, pois, a permanecerem as condições atuais, nada indica que Dilma tenha maiores dificuldades para se eleger ainda no primeiro turno.
Situação semelhante ocorreu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em sua reeleição em 1998. O governo chegou à eleição com a economia debilitada pela necessidade de desvalorizar o real frente ao dólar, e temia-se que, se houvesse segundo turno, o PT pudesse vencer. No primeiro mês do segundo governo do PSDB houve a desvalorização, e a partir daí foram sendo criadas as condições para a chegada do PT ao governo.
A presidente Dilma chega a ter uma popularidade mais homogênea que a de Lula nos melhores momentos, pois conseguiu colocar um pé no eleitorado de classe média que ainda a tem como a "faxineira" ética que não compactua com a corrupção.
Cabe à oposição conseguir explicar ao eleitorado que a "faxineira" abandonou a vassoura há muito tempo, trazendo de volta ao governo todos aqueles que havia enxotado em defesa do bem público.
O problema da oposição é que todos os candidatos estão procurando o apoio desses mesmos personagens da vida política brasileira, que pilotam partidos com robustos tempos de televisão e escassos compromissos com a ética.
Além da questão ética do PT, que aparentemente Dilma conseguiu superar com sua atuação isolada da cúpula partidária envolvida no mensalão, o governo tem a seu favor até o momento ações concretas que mexem no bolso do cidadão: redução das tarifas de energia, corte do IPI para automóveis e aparelhos domésticos, desoneração da cesta básica, tudo anunciado pela televisão num abuso eleitoral não impedido por nenhuma ação do TSE, mesmo porque ainda não estamos, em tese, em época eleitoral.
Apesar de todas essas vantagens, o governo não quer dar chance ao azar, e a manobra governista para impedir a criação de novos partidos, que até recentemente era negada, acabou chancelada pelo secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, que se declarou favorável à fidelidade partidária, como se esse dispositivo não houvesse sido questionado diversas vezes pelo próprio PT por ser um "entulho autoritário".
A ação desabrida do governo está provocando, porém, uma aproximação dos partidos de oposição, que pode levar a uma ação conjunta mais forte do que seria provável anteriormente.
A ex-senadora Marina Silva, considerada a grande atingida pela ação do governo, voltou a ter a força eleitoral presumida com base em sua eleição de 2010, o que lhe dá uma expectativa de 20 milhões de votos que já não constava das avaliações mais recentes.
O PSDB, a quem ela recusou o apoio no segundo turno, hoje é o partido que mais está empenhado em ajudá-la na luta para barrar a investida da maioria governista no Senado, para onde vai o projeto após a aprovação da Câmara. O senador Aécio Neves atua nos bastidores, seu melhor ambiente político, para garantir que a lei só valha para depois de 2014.
E até o governador Eduardo Campos, cujos correligionários do PSB diziam meses atrás que não apoiariam Marina, caso ela fosse para o segundo turno, mostra-se empenhado em vê-la na disputa, já tendo elogiado a sua atuação política. Aos três interessa que todos estejam na disputa, para aumentar a chance de haver um segundo turno, no qual cada um espera o apoio dos demais, considerandose o único capaz de vencer a presidente Dilma.
Sede ao pote - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 21/04
Não bastasse o PT usar o governo para fazer política, a presidente Dilma Rousseff atrelou o governo à sorte na eleição, conforme apontam os fatos e é de conhecimento geral.
A questão em aberto é a seguinte: aonde isso vai dar? José Sarney e Fernando Henrique Cardoso podem relatar experiências ruins sobre quando, em 1986 e 1998 respectivamente, decidiram engatar a condução da economia a seus projetos eleitorais.
Sarney jogou fora a popularidade obtida durante o Plano Cruzado, chegando à eleição de 1989 sem condições sequer de tentar influir na escolha de candidato para a sucessão.
Fernando Henrique contratou uma crise cambial em 1999, começou a perder o patrimônio político conquistado no Plano Real e, não obstante tenha se mantido no caminho da estabilidade não podendo ser comparado a quem levou o país aos píncaros da inflação, não fez o sucessor. Inclusive porque nem ele nem o candidato (José Serra) em 2002 pareciam muito interessados um pelo outro.
Pois agora a avidez eleitoral chegou ao grau da obsessão. Com isso, a superioridade do campo governista vem sendo usada de maneira temerosa. O Planalto e o PT podem fazer o diabo para alcançar o objetivo de consolidar a hegemonia e dizimar a concorrência. Mas, nesse trajeto, andam cultivando desacertos e desafetos que também podem lhes infernizar a vida no caminho da reeleição.
O PMDB percebeu o tamanho do apetite e tratou de arrancar o compromisso da Vice-Presidência em 2014. O governo fica, assim, amarrado ao partido, sem margem de manobra para negociar a vaga. O PSB teve plena noção da volúpia na eleição municipal do Recife, quando o PT descumpriu um acordo com Eduardo Campos em torno de uma candidatura petista, mas conveniente para os dois lados, e quis impor outro nome no intuito de avançar sobre a seara do governador.
Desse modo abriu para Campos uma janela de oportunidade de se apresentar ao país como alternativa de poder, quando o roteiro original previa que só fizesse esse movimento depois de ajudar Dilma Rousseff a obter o segundo mandato.
Outro dado a ser levado em conta: a força com que o governo se jogou na aprovação do projeto para vedar o acesso de novos partidos ao Fundo Partidário e ao horário de rádio e tevê antes de terem passado pelo crivo de uma eleição. Se não foi um gesto contra a legenda que a ex-senadora Marina Silva tenta criar para concorrer em 2014, pareceu.
E o que vale para efeito de ação e reação é a interpretação dos prejudicados. Durante a sessão na Câmara (o projeto ainda precisa ser aprovado no Senado), o deputado Alfredo Sirkis ocupou inúmeras vezes o microfone para alertar o PT sobre as consequências do ato visto como de forte hostilidade.
Lembrou que, em 2010, a neutralidade de Marina no segundo turno pesou em favor da candidata do PT e avisou que em 2014 pode haver engajamento desse grupo representativo da “política nova” ao adversário de Dilma. E se disputar com ela a etapa final Marina Silva teria força política para desequilibrar um jogo dessa magnitude?
Talvez sim, talvez não, mas o governo pagou para ver, assim como está pagando para conferir se a aposta de Eduardo Campos é para valer. Se fosse menos ávido e obsessivo por vitórias a qualquer preço, o PT não precisaria criar arestas. Bastaria cumprir acordos e reconhecer o direito ao espaço alheio. Teria pela frente caminho mais suave.
Variável Alckmin
O senador Aécio Neves atua com um olho no peixe (a candidatura presidencial) e outro no gato (Geraldo Alckmin). Há quem considere que se lançou a campo com antecedência para testar a posição do governador de São Paulo.
Quer ver se Alckmin lhe dará apoio consistente ou se o fará apenas no discurso. Aécio tem antenas treinadas e experiência própria para captar movimentos ambíguos.
Não bastasse o PT usar o governo para fazer política, a presidente Dilma Rousseff atrelou o governo à sorte na eleição, conforme apontam os fatos e é de conhecimento geral.
A questão em aberto é a seguinte: aonde isso vai dar? José Sarney e Fernando Henrique Cardoso podem relatar experiências ruins sobre quando, em 1986 e 1998 respectivamente, decidiram engatar a condução da economia a seus projetos eleitorais.
Sarney jogou fora a popularidade obtida durante o Plano Cruzado, chegando à eleição de 1989 sem condições sequer de tentar influir na escolha de candidato para a sucessão.
Fernando Henrique contratou uma crise cambial em 1999, começou a perder o patrimônio político conquistado no Plano Real e, não obstante tenha se mantido no caminho da estabilidade não podendo ser comparado a quem levou o país aos píncaros da inflação, não fez o sucessor. Inclusive porque nem ele nem o candidato (José Serra) em 2002 pareciam muito interessados um pelo outro.
Pois agora a avidez eleitoral chegou ao grau da obsessão. Com isso, a superioridade do campo governista vem sendo usada de maneira temerosa. O Planalto e o PT podem fazer o diabo para alcançar o objetivo de consolidar a hegemonia e dizimar a concorrência. Mas, nesse trajeto, andam cultivando desacertos e desafetos que também podem lhes infernizar a vida no caminho da reeleição.
O PMDB percebeu o tamanho do apetite e tratou de arrancar o compromisso da Vice-Presidência em 2014. O governo fica, assim, amarrado ao partido, sem margem de manobra para negociar a vaga. O PSB teve plena noção da volúpia na eleição municipal do Recife, quando o PT descumpriu um acordo com Eduardo Campos em torno de uma candidatura petista, mas conveniente para os dois lados, e quis impor outro nome no intuito de avançar sobre a seara do governador.
Desse modo abriu para Campos uma janela de oportunidade de se apresentar ao país como alternativa de poder, quando o roteiro original previa que só fizesse esse movimento depois de ajudar Dilma Rousseff a obter o segundo mandato.
Outro dado a ser levado em conta: a força com que o governo se jogou na aprovação do projeto para vedar o acesso de novos partidos ao Fundo Partidário e ao horário de rádio e tevê antes de terem passado pelo crivo de uma eleição. Se não foi um gesto contra a legenda que a ex-senadora Marina Silva tenta criar para concorrer em 2014, pareceu.
E o que vale para efeito de ação e reação é a interpretação dos prejudicados. Durante a sessão na Câmara (o projeto ainda precisa ser aprovado no Senado), o deputado Alfredo Sirkis ocupou inúmeras vezes o microfone para alertar o PT sobre as consequências do ato visto como de forte hostilidade.
Lembrou que, em 2010, a neutralidade de Marina no segundo turno pesou em favor da candidata do PT e avisou que em 2014 pode haver engajamento desse grupo representativo da “política nova” ao adversário de Dilma. E se disputar com ela a etapa final Marina Silva teria força política para desequilibrar um jogo dessa magnitude?
Talvez sim, talvez não, mas o governo pagou para ver, assim como está pagando para conferir se a aposta de Eduardo Campos é para valer. Se fosse menos ávido e obsessivo por vitórias a qualquer preço, o PT não precisaria criar arestas. Bastaria cumprir acordos e reconhecer o direito ao espaço alheio. Teria pela frente caminho mais suave.
Variável Alckmin
O senador Aécio Neves atua com um olho no peixe (a candidatura presidencial) e outro no gato (Geraldo Alckmin). Há quem considere que se lançou a campo com antecedência para testar a posição do governador de São Paulo.
Quer ver se Alckmin lhe dará apoio consistente ou se o fará apenas no discurso. Aécio tem antenas treinadas e experiência própria para captar movimentos ambíguos.
Brasília, Brasil - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 21/04
Os "escorpiões" não são maioria, mas o veneno que deixam cria uma imagem ruim para todos que aqui trabalham com afinco, escolhem suas profissões por vocação e talento, criam seus filhos, constroem suas famílias
Dia do aniversário de Brasília seria impossível não falar da cidade que chega aos seus 53 como as pessoas que ultrapassam os 50 anos. Sempre aparece uma taxa alterada ali, uma artrite acolá. A capital do país mostra os mesmos problemas de velhos centros urbanos. É transporte coletivo ineficiente, metrô insuficiente, sistema de saúde deficiente e, agora, para completar, chegaram os escorpiões, como o que matou uma criança na creche do Guará. Há o receio de que a cidade esteja infestada deles, depois do relato de moradores de vários bairros.
A capital do Brasil tem "escorpiões" há tempos. Estão por aí, buscando algum meio de burlar leis. Até as de trânsito. Tem gente que só para no sinal vermelho se houver uma câmera capaz de registrar a infração. O que não dizer daqueles que, ao menor sinal de um carro vindo à esquerda, aceleram quando se aproximam dos balões de entrada e saída das quadras? Não deixam de ser "escorpiões".
Muitos citam a cidade ainda como a capital dos concursos. O trágico nessa história, entretanto, é observar jovens que, em vez de buscar uma vocação, uma carreira que os façam felizes, preferem prestar um concurso para trabalhar pouco, ganhar bem e ver a vida passar. Obviamente, se não houver vocação para a carreira - seja procurador, promotor, analista legislativo, auditor - será mais um ser humano frustrado, desmotivado, que trabalha apenas pela obrigação de cumprir horário a fim de receber o contracheque no fim do mês. Brasília, infelizmente, está cheia dessa espécie.
Além desses escorpiõezinhos, a maioria criada aqui mesmo, Brasília convive com alguns políticos (acharam que não falaria deles?) que se transformam em espécies venenosas para a cidade e o país. Observo a classe política há 24 anos. A maioria chega, muitas vezes, idealista, crente que mudará a cidade e o Brasil, seja na Câmara, no Senado, na Presidência da República, nos tribunais superiores ou mesmo na Câmara Distrital e no Palácio do Buriti. Entretanto, ao circular livremente pelas salas a que poucos têm acesso, muitos se perdem. Alguns se deixam embriagar pelos caminhos do poder nos majestosos edifícios, nas curvas, rampas e amplos salões idealizados por Oscar Niemeyer.
Nessa embriaguez, muitos se esquecem quem são, de onde vieram. Jogam no fundo da gaveta do apartamento funcional as fotografias de seus passados, de suas profissões, de sua realidade. Querem a qualquer custo tornar esse papel de inquilino, concedido pelo povo, em algo permanente ou ter a vida de alguns dos milionários com quem passam a conviver.
Enquanto isso, nas ruas da cidade.
Embora esses escorpiões não sejam a maioria, esse veneno cria uma imagem ruim para todos que aqui trabalham com afinco, escolhem suas profissões por vocação e talento, criam seus filhos, constroem suas famílias. E essa maioria de cidadãos apaixonados pela cidade volta e meia reage. A cidade que convive com escorpiões de várias espécies é pródiga em movimentos, como a população que se veste de preto em protesto contra a corrupção em passeatas. São cinco décadas de buzinaços, panelaços, caminhadas - algumas famosas, como aquela em que o ex-ministro Maurício Corrêa, então presidente da OAB-DF, liderou em 1983, depois da interdição do prédio da Ordem pelos militares. Esse movimentos são uma demonstração de que a cidade não se rende aos escorpiões das mais variadas espécies que tentam envenená-la. Que continue assim. E, quanto aos problemas dos grandes centros que entraram no dia a dia do brasiliense, nunca é demais lembrar que 53 anos é uma idade em que ainda há tempo de solucioná-los. Portanto, passadas as comemorações e a pausa de hoje, é hora de se agarrar nesse serviço.
Por falar em serviço.
A semana promete muito barulho em várias frentes. O maior deles virá da Medida Provisória 595, o novo marco regulatório dos portos, que não será pacífico como pretendia o governo. Mas essa é outra história. Hoje, é dia de festa. Parabéns, Brasília!
Os "escorpiões" não são maioria, mas o veneno que deixam cria uma imagem ruim para todos que aqui trabalham com afinco, escolhem suas profissões por vocação e talento, criam seus filhos, constroem suas famílias
Dia do aniversário de Brasília seria impossível não falar da cidade que chega aos seus 53 como as pessoas que ultrapassam os 50 anos. Sempre aparece uma taxa alterada ali, uma artrite acolá. A capital do país mostra os mesmos problemas de velhos centros urbanos. É transporte coletivo ineficiente, metrô insuficiente, sistema de saúde deficiente e, agora, para completar, chegaram os escorpiões, como o que matou uma criança na creche do Guará. Há o receio de que a cidade esteja infestada deles, depois do relato de moradores de vários bairros.
A capital do Brasil tem "escorpiões" há tempos. Estão por aí, buscando algum meio de burlar leis. Até as de trânsito. Tem gente que só para no sinal vermelho se houver uma câmera capaz de registrar a infração. O que não dizer daqueles que, ao menor sinal de um carro vindo à esquerda, aceleram quando se aproximam dos balões de entrada e saída das quadras? Não deixam de ser "escorpiões".
Muitos citam a cidade ainda como a capital dos concursos. O trágico nessa história, entretanto, é observar jovens que, em vez de buscar uma vocação, uma carreira que os façam felizes, preferem prestar um concurso para trabalhar pouco, ganhar bem e ver a vida passar. Obviamente, se não houver vocação para a carreira - seja procurador, promotor, analista legislativo, auditor - será mais um ser humano frustrado, desmotivado, que trabalha apenas pela obrigação de cumprir horário a fim de receber o contracheque no fim do mês. Brasília, infelizmente, está cheia dessa espécie.
Além desses escorpiõezinhos, a maioria criada aqui mesmo, Brasília convive com alguns políticos (acharam que não falaria deles?) que se transformam em espécies venenosas para a cidade e o país. Observo a classe política há 24 anos. A maioria chega, muitas vezes, idealista, crente que mudará a cidade e o Brasil, seja na Câmara, no Senado, na Presidência da República, nos tribunais superiores ou mesmo na Câmara Distrital e no Palácio do Buriti. Entretanto, ao circular livremente pelas salas a que poucos têm acesso, muitos se perdem. Alguns se deixam embriagar pelos caminhos do poder nos majestosos edifícios, nas curvas, rampas e amplos salões idealizados por Oscar Niemeyer.
Nessa embriaguez, muitos se esquecem quem são, de onde vieram. Jogam no fundo da gaveta do apartamento funcional as fotografias de seus passados, de suas profissões, de sua realidade. Querem a qualquer custo tornar esse papel de inquilino, concedido pelo povo, em algo permanente ou ter a vida de alguns dos milionários com quem passam a conviver.
Enquanto isso, nas ruas da cidade.
Embora esses escorpiões não sejam a maioria, esse veneno cria uma imagem ruim para todos que aqui trabalham com afinco, escolhem suas profissões por vocação e talento, criam seus filhos, constroem suas famílias. E essa maioria de cidadãos apaixonados pela cidade volta e meia reage. A cidade que convive com escorpiões de várias espécies é pródiga em movimentos, como a população que se veste de preto em protesto contra a corrupção em passeatas. São cinco décadas de buzinaços, panelaços, caminhadas - algumas famosas, como aquela em que o ex-ministro Maurício Corrêa, então presidente da OAB-DF, liderou em 1983, depois da interdição do prédio da Ordem pelos militares. Esse movimentos são uma demonstração de que a cidade não se rende aos escorpiões das mais variadas espécies que tentam envenená-la. Que continue assim. E, quanto aos problemas dos grandes centros que entraram no dia a dia do brasiliense, nunca é demais lembrar que 53 anos é uma idade em que ainda há tempo de solucioná-los. Portanto, passadas as comemorações e a pausa de hoje, é hora de se agarrar nesse serviço.
Por falar em serviço.
A semana promete muito barulho em várias frentes. O maior deles virá da Medida Provisória 595, o novo marco regulatório dos portos, que não será pacífico como pretendia o governo. Mas essa é outra história. Hoje, é dia de festa. Parabéns, Brasília!
Serra e Ciro - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 21/04
BRASÍLIA - Não precisa muita coisa para tirar José Serra e Ciro Gomes do sério, mas, se há algo em particular que irrita os dois, é dizer que eles têm muito em comum. E não é que têm mesmo?
Vejamos agora. Serra se recusa a apoiar o tucano Aécio Neves para a Presidência e até mesmo a comparecer em eventos para divulgar a candidatura. E Ciro se recusa a apoiar o correligionário Eduardo Campos, do PSB, e leva junto seu irmão, o governador do Ceará, Cid Gomes.
As motivações são as mesmas: no plano político, disputa de poder; no pessoal, ressentimento. Aliás, façamos justiça: até com boas razões.
Quando Serra foi candidato pelo PSDB em 2002 e em 2010, Aécio fez o teatro do apoio em público, mas acusado por 10 entre 10 tucanos de não ser para valer, com vontade.
Pior: deixou prosperar a versão de que tinha acordos por baixo dos panos com Lula e a história das chapas "Lulécio" e "Dilmasia" (Dilma para presidente e o aecista Antonio Anastasia para o governo em Minas). Por que Serra o apoiaria agora?
E Ciro estava muito bem colocado nas pesquisas presidenciais de 2010, mas seu nome foi descartado sem piedade, justamente por Eduardo Campos, em favor da petista Dilma e da aliança PSB-PT. Por que Ciro o apoiaria agora, contra Dilma?
Há duas diferenças de comportamento. Serra tem remoído a sua, digamos, vingança, intramuros e com frio silêncio público, enquanto Ciro recorre à sua ferina língua solta. Ele critica Campos num dia, Cid Gomes bate no seguinte. E, enquanto Ciro e Cid têm uma candidata (Dilma), Serra ainda sonha, aparentemente, em ser ele próprio o candidato.
A dúvida é quanto aos efeitos práticos dos movimentos de Ciro e Serra. Os Gomes podem criar dificuldades para Campos no Nordeste, essencial para o nome dele deslanchar. Já Serra não tem força para criar dissidência no PSDB, onde FHC e os próprios serristas já fecharam com Aécio. O risco é ir sozinho para Campos.
BRASÍLIA - Não precisa muita coisa para tirar José Serra e Ciro Gomes do sério, mas, se há algo em particular que irrita os dois, é dizer que eles têm muito em comum. E não é que têm mesmo?
Vejamos agora. Serra se recusa a apoiar o tucano Aécio Neves para a Presidência e até mesmo a comparecer em eventos para divulgar a candidatura. E Ciro se recusa a apoiar o correligionário Eduardo Campos, do PSB, e leva junto seu irmão, o governador do Ceará, Cid Gomes.
As motivações são as mesmas: no plano político, disputa de poder; no pessoal, ressentimento. Aliás, façamos justiça: até com boas razões.
Quando Serra foi candidato pelo PSDB em 2002 e em 2010, Aécio fez o teatro do apoio em público, mas acusado por 10 entre 10 tucanos de não ser para valer, com vontade.
Pior: deixou prosperar a versão de que tinha acordos por baixo dos panos com Lula e a história das chapas "Lulécio" e "Dilmasia" (Dilma para presidente e o aecista Antonio Anastasia para o governo em Minas). Por que Serra o apoiaria agora?
E Ciro estava muito bem colocado nas pesquisas presidenciais de 2010, mas seu nome foi descartado sem piedade, justamente por Eduardo Campos, em favor da petista Dilma e da aliança PSB-PT. Por que Ciro o apoiaria agora, contra Dilma?
Há duas diferenças de comportamento. Serra tem remoído a sua, digamos, vingança, intramuros e com frio silêncio público, enquanto Ciro recorre à sua ferina língua solta. Ele critica Campos num dia, Cid Gomes bate no seguinte. E, enquanto Ciro e Cid têm uma candidata (Dilma), Serra ainda sonha, aparentemente, em ser ele próprio o candidato.
A dúvida é quanto aos efeitos práticos dos movimentos de Ciro e Serra. Os Gomes podem criar dificuldades para Campos no Nordeste, essencial para o nome dele deslanchar. Já Serra não tem força para criar dissidência no PSDB, onde FHC e os próprios serristas já fecharam com Aécio. O risco é ir sozinho para Campos.
Dilmês castiço - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADÃO - 21/04
Já se tornou proverbial a dificuldade que a presidente Dilma Rousseff tem de concatenar ideias, vírgulas e concordâncias quando discursa de improviso. No entanto, diante da paralisia do Brasil e da desastrada condução da política econômica, o que antes causaria somente riso e seria perdoável agora começa a preocupar. O despreparo da presidente da República, que se manifesta com frases estabanadas e raciocínio tortuoso, indica tempos muito difíceis pela frente, pois é principalmente dela que se esperam a inteligência e a habilidade para enfrentar o atual momento do País.
No mais recente atentado à lógica, à história e à língua pátria, ocorrido no último dia 16/4, Dilma comentava o que seu governo pretende fazer em relação à inflação e, lá pelas tantas, disparou: "E eu quero adentrar pela questão da inflação e dizer a vocês que a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo". Na ânsia de, mais uma vez, assumir para si e para seu chefe, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, os méritos por algo que não lhes diz respeito, Dilma, primeiro, cometeu ato falho e, depois, colocou na conta das "conquistas" do PT o controle da inflação, como se o PT não tivesse boicotado o Plano Real, este sim, responsável por acabar com a chaga da inflação no Brasil. Em 1994, quando disputava a Presidência contra Fernando Henrique Cardoso, Lula chegou a dizer que o Plano Real era um "estelionato eleitoral".
Deixando de lado a evidente má-fé da frase, deve-se atribuir a ato falho a afirmação de que a inflação é "uma conquista", pois é evidente que ela queria dizer que a conquista é o controle da inflação. Mas é justamente aí que está o problema todo: se a presidente não consegue se expressar com um mínimo de clareza em relação a um assunto tão importante, se ela é capaz de cometer deslizes tão primários, se ela quer dizer algo expressando seu exato oposto, como esperar que tenha capacidade para conduzir o governo de modo a debelar a escalada dos preços e a fazer o País voltar a crescer? Se o distinto público não consegue entender o que Dilma fala, como acreditar que seus muitos ministros consigam?
A impulsividade destrambelhada de Dilma já causou estragos reais. Em março, durante encontro dos Brics em Durban (África do Sul), a presidente disse aos jornalistas que não usaria juros para combater a inflação, sinalizando uma opção preferencial pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), Em sua linguagem peculiar a fala foi a seguinte: "Eu não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico. (...) Então, eu acredito o seguinte: esse receituário que quer matar o doente, ao invés de curar a doença, ele é complicado. Eu vou acabar com o crescimento no país? Isso está datado, isso eu acho que é uma política superada". Imediatamente, a declaração causou nervosismo nos mercados em relação aos juros futuros, o que obrigou Dilma a tentar negar que havia dito o que disse. E ela, claro, acusou os jornalistas de terem cometido uma "manipulação inadmissível" de suas declarações, que apontavam evidente tolerância com a inflação alta - para não falar da invasão da área exclusiva do Banco Central.
O fato é que o governo parece perdido sobre como atacar a alta dos preços e manter a estabilidade a duras penas conquistada, principalmente com um Banco Centra submisso à presidente. Por razões puramente eleitorais, Dilma não deverá fazer o que dela se espera, isto é, adotar medidas amargas para conter a escalada inflacionária. Lançada candidata à reeleição por Lula, ela já está em campanha.
Num desses discursos de palanque, em Belo Horizonte, Dilma disse, em dilmês castiço, que a inflação já está sob controle, embora todos saibam que não está. "A inflação, quando olho para a frente, ela está em queda, apesar do índice anualizado do ano (sic) ainda estar acima do que nós queremos alcançar, do que nós queremos de ideal", afirmou. E completou: "Os alimentos também começaram a registrar, mesmo com todas as tentativas de transformar os alimentos no tomate (sic), os alimentos começaram uma tendência a reduzir de preço". Ganha um tomate quem conseguir entender essa frase.
“Desaposentadoria” é uma contradição em si mesma - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 21/04
Seria bem mais útil se o Senado mudasse as regras que hoje permitem aposentadorias precoces, uma das distorções do sistema previdenciário oficial
A maior dificuldade para se promover reformas que possam garantir o equilíbrio da previdência oficial a médio e longo prazos está na incompreensão do que é o sistema. Prova disso foi a aprovação, em comissão do Senado (exatamente a esfera do parlamento que tem uma função mais revisora, mais ponderada), de projeto que permite a “desaposentadoria”. Por iniciativa do senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, que, curiosamente, também tem defendido o fim do fator previdenciário, a “desaposentadoria” é uma contradição em si mesma.
A filosofia do sistema de previdência oficial, em regime de repartição, é amparar aqueles que perdem a capacidade de trabalhar, seja por motivo de saúde ou de idade. Desde os seus primórdios, o regime de repartição se baseia na solidariedade, pela qual aqueles que têm capacidade para trabalhar amparam os que a perderam. Não faz qualquer sentido então a “desaposentadoria”, pois trata-se de um reconhecimento que as regras atuais possibilitam a aposentadoria precoce. De fato, seja por necessidade ou por disposição ao trabalho, muitos aposentados permanecem no mercado, mantendo inclusive seus vínculos empregatícios, mesmo depois de começar a receber os benefícios do INSS.
As regras em vigor quase que estimulam o segurado a se aposentar o mais rápido possível, exatamente porque o benefício é visto como complemento de renda, e não como proventos assegurados por um sistema no qual todos devem ser solidários uns com os outros. Esse regime de repartição significa que ninguém poupa para si mesmo. As contribuições feitas ao longo dos anos servem apenas de parâmetro para cálculo do benefício que o aposentado deverá receber. Não é resultado de uma poupança individual acumulada, como acontece no caso do sistema de previdência privada complementar.
O mecanismo que contrabalança o impacto das aposentadorias precoces é o fator previdenciário, e, por isso, continuará sendo fundamental enquanto as regras permitirem que as pessoas possam requerer o benefício com 30 anos (mulheres) ou 35 anos de contribuição, independentemente da faixa etária em que estejam, ou por quantos anos à frente deverão ser amparados, de acordo com sua expectativa de vida.
Se, já aposentada, a pessoa mantém vínculos empregatícios ou trabalha como profissional liberal, a continuidade da suas contribuições à previdência se destina a formar o bolo que vai financiar o pagamento de benefícios, inclusive dela mesma.
Em vez da aberração da “desaposentadoria”, seria mais útil se o Senado procurasse reformar as regras que permitem ainda a aposentadoria precoce ou que, ao menos, criasse um estímulo para aqueles que já têm tempo de contribuição suficiente, pelas regras em vigor, a retardarem sua aposentadoria, obtendo algum desconto nas contribuições ao INSS ou qualquer outro mecanismo.
Seria bem mais útil se o Senado mudasse as regras que hoje permitem aposentadorias precoces, uma das distorções do sistema previdenciário oficial
A maior dificuldade para se promover reformas que possam garantir o equilíbrio da previdência oficial a médio e longo prazos está na incompreensão do que é o sistema. Prova disso foi a aprovação, em comissão do Senado (exatamente a esfera do parlamento que tem uma função mais revisora, mais ponderada), de projeto que permite a “desaposentadoria”. Por iniciativa do senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, que, curiosamente, também tem defendido o fim do fator previdenciário, a “desaposentadoria” é uma contradição em si mesma.
A filosofia do sistema de previdência oficial, em regime de repartição, é amparar aqueles que perdem a capacidade de trabalhar, seja por motivo de saúde ou de idade. Desde os seus primórdios, o regime de repartição se baseia na solidariedade, pela qual aqueles que têm capacidade para trabalhar amparam os que a perderam. Não faz qualquer sentido então a “desaposentadoria”, pois trata-se de um reconhecimento que as regras atuais possibilitam a aposentadoria precoce. De fato, seja por necessidade ou por disposição ao trabalho, muitos aposentados permanecem no mercado, mantendo inclusive seus vínculos empregatícios, mesmo depois de começar a receber os benefícios do INSS.
As regras em vigor quase que estimulam o segurado a se aposentar o mais rápido possível, exatamente porque o benefício é visto como complemento de renda, e não como proventos assegurados por um sistema no qual todos devem ser solidários uns com os outros. Esse regime de repartição significa que ninguém poupa para si mesmo. As contribuições feitas ao longo dos anos servem apenas de parâmetro para cálculo do benefício que o aposentado deverá receber. Não é resultado de uma poupança individual acumulada, como acontece no caso do sistema de previdência privada complementar.
O mecanismo que contrabalança o impacto das aposentadorias precoces é o fator previdenciário, e, por isso, continuará sendo fundamental enquanto as regras permitirem que as pessoas possam requerer o benefício com 30 anos (mulheres) ou 35 anos de contribuição, independentemente da faixa etária em que estejam, ou por quantos anos à frente deverão ser amparados, de acordo com sua expectativa de vida.
Se, já aposentada, a pessoa mantém vínculos empregatícios ou trabalha como profissional liberal, a continuidade da suas contribuições à previdência se destina a formar o bolo que vai financiar o pagamento de benefícios, inclusive dela mesma.
Em vez da aberração da “desaposentadoria”, seria mais útil se o Senado procurasse reformar as regras que permitem ainda a aposentadoria precoce ou que, ao menos, criasse um estímulo para aqueles que já têm tempo de contribuição suficiente, pelas regras em vigor, a retardarem sua aposentadoria, obtendo algum desconto nas contribuições ao INSS ou qualquer outro mecanismo.
Transição no Paraguai - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 21/04
Eleição presidencial traz chance de normalizar a ordem política no vizinho; Brasil deve liderar processo de retorno ao Mercosul
O Paraguai vai às urnas hoje para escolher seu novo presidente, dez meses após o impedimento de Fernando Lugo pelo Congresso. A expectativa é que o resultado ajude a estabilizar a política do país e acelere a normalização das relações de Assunção com seus vizinhos, principalmente o Brasil.
Embora as pesquisas eleitorais careçam de confiança, dá-se como favorito o candidato Horacio Cartes, 57, do tradicional Partido Colorado. A agremiação governou o país por 61 anos, até ser derrotada pelo esquerdista Lugo, em 2008.
Há relativamente pouco tempo na política, Cartes, um controvertido empresário do setor de cigarros, usou seu poder econômico para liderar e unificar um partido fraturado após a perda do poder. Pairam sobre ele suspeitas de contrabando e lavagem de dinheiro.
Pragmático, Cartes tem sinalizado que almeja uma volta rápida do Paraguai ao Mercosul --o país foi suspenso do bloco de forma abusiva após o impeachment de Lugo. Chamam a atenção, além disso, posições primitivas em temas morais, como a homossexualidade --já disse, por exemplo, que "atiraria nos próprios testículos" caso tivesse um filho gay.
O principal oponente é Efraín Alegre, 48, do Partido Liberal, sigla a que pertence o atual presidente, Federico Franco (ele assumiu em julho por ser vice de Lugo).
Ligado a um setor menos conservador da política paraguaia, Alegre defende volta condicionada ao Mercosul. Não poupa o bloco de merecidas críticas pela suspensão do país e pela hipocrisia diante do autoritarismo na Venezuela.
Internamente, a campanha eleitoral sem sobressaltos e a recente modernização do sistema de voto sugerem a possibilidade de que o Paraguai possa concluir bem uma transição que começou mal. Embora Lugo tenha sido deposto do cargo em acordo com a Constituição, houve evidente cerceamento da defesa, pois o destituído teve poucas horas para exercê-la.
O próximo presidente paraguaio terá o desafio de aproveitar o bom momento da economia --segundo o FMI, o PIB deve crescer 11% neste ano-- para diversificar o país, hoje excessivamente dependente do agronegócio.
Quanto ao Brasil, que está sem embaixador em Assunção desde a saída de Lugo, deveria apoiar um regresso honroso do Paraguai ao Mercosul, a fim de minimizar o erro da inclusão da Venezuela à revelia do veto pelo Senado paraguaio.
A insatisfação com o preço da energia de Itaipu vendida ao Brasil segue muito popular na agenda político-eleitoral do Paraguai. Mais uma razão de interesse nacional para tratar o vizinho com mais respeito e menos ideologia.
Eleição presidencial traz chance de normalizar a ordem política no vizinho; Brasil deve liderar processo de retorno ao Mercosul
O Paraguai vai às urnas hoje para escolher seu novo presidente, dez meses após o impedimento de Fernando Lugo pelo Congresso. A expectativa é que o resultado ajude a estabilizar a política do país e acelere a normalização das relações de Assunção com seus vizinhos, principalmente o Brasil.
Embora as pesquisas eleitorais careçam de confiança, dá-se como favorito o candidato Horacio Cartes, 57, do tradicional Partido Colorado. A agremiação governou o país por 61 anos, até ser derrotada pelo esquerdista Lugo, em 2008.
Há relativamente pouco tempo na política, Cartes, um controvertido empresário do setor de cigarros, usou seu poder econômico para liderar e unificar um partido fraturado após a perda do poder. Pairam sobre ele suspeitas de contrabando e lavagem de dinheiro.
Pragmático, Cartes tem sinalizado que almeja uma volta rápida do Paraguai ao Mercosul --o país foi suspenso do bloco de forma abusiva após o impeachment de Lugo. Chamam a atenção, além disso, posições primitivas em temas morais, como a homossexualidade --já disse, por exemplo, que "atiraria nos próprios testículos" caso tivesse um filho gay.
O principal oponente é Efraín Alegre, 48, do Partido Liberal, sigla a que pertence o atual presidente, Federico Franco (ele assumiu em julho por ser vice de Lugo).
Ligado a um setor menos conservador da política paraguaia, Alegre defende volta condicionada ao Mercosul. Não poupa o bloco de merecidas críticas pela suspensão do país e pela hipocrisia diante do autoritarismo na Venezuela.
Internamente, a campanha eleitoral sem sobressaltos e a recente modernização do sistema de voto sugerem a possibilidade de que o Paraguai possa concluir bem uma transição que começou mal. Embora Lugo tenha sido deposto do cargo em acordo com a Constituição, houve evidente cerceamento da defesa, pois o destituído teve poucas horas para exercê-la.
O próximo presidente paraguaio terá o desafio de aproveitar o bom momento da economia --segundo o FMI, o PIB deve crescer 11% neste ano-- para diversificar o país, hoje excessivamente dependente do agronegócio.
Quanto ao Brasil, que está sem embaixador em Assunção desde a saída de Lugo, deveria apoiar um regresso honroso do Paraguai ao Mercosul, a fim de minimizar o erro da inclusão da Venezuela à revelia do veto pelo Senado paraguaio.
A insatisfação com o preço da energia de Itaipu vendida ao Brasil segue muito popular na agenda político-eleitoral do Paraguai. Mais uma razão de interesse nacional para tratar o vizinho com mais respeito e menos ideologia.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
"É um casuísmo lamentável"
Eduardo Campos (PSB-PE),sobre a pressão do governo para asfixiar novos partidos
‘Pizza’ do Itamaraty paralisa consulado em Sidney
A lenta preparação da “pizza” no Itamaraty, para livrar o embaixador Américo Fontenelle das acusações de assédio moral e até sexual, já afeta o atendimento no consulado-geral em Sidney, Austrália. Com a paralisia e a acefalia, vistos de turismo e de negócios atrasam até trinta dias, após os pedidos de demissão, transferência ou licença médica das vítimas do cônsul-geral e do seu adjunto, Cézar Cidade.
Ritmo Patriota
Uma nova investigação das acusações de assédio moral em Sidney parou dias atrás, dois meses depois de esta coluna revelar o caso.
No grito
Fontenelle retomou calado o posto após férias em Brasília, mas Cézar Cidade mantém os gritos intimidatórios, dizem assessores.
O poder da amizade
Fora alardear amizade com José Dirceu, Fontenelle lembra que o secretário-geral do Itamaraty, Eduardo Santos, é padrinho do seu filho.
Sinais de fumaça
Cinco índios pediram socorro no celular após se perderem no mato, diz o site Campo Grande News. Seriam da turma do protesto em Brasília?
Seca: políticos brigam tentando mostrar serviço
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e seu indicado ao governo Dilma, ministro Fernando Bezerra (Integração), travam uma guerra, cidade a cidade, para ver quem “faz mais” no combate à seca. Criam-se situações ridículas, como um deles expedir ordem de serviço para furar um poço e o outro mandar fazer, ao lado, um conjunto de cisternas. Combater a seca seriamente, que é bom, raramente se vê.
Assim é
Quando se vêem num mesmo palanque, Eduardo Campos e Fernando Bezerra fazem juras eternas de “parceria” dos governos local e federal.
A vida como ela é
A seca avança, Bezerra posa de candidato de Dilma a governador e Eduardo Campos tenta dar credibilidade ao seu projeto presidencial.
Dengoso
Com dores no corpo típicas de dengue, o ministro Aloísio Mercadante (Educação) passa bem da “inflamação no intestino”. Longe de Dilma.
Calote consolidado
O Tribunal de Contas da União lavou as mãos na briga pela devolução de R$7 bilhões de cobrança indevida das tarifas de energia, entre 2002 e 2009. Alegou “falta de competência” para dobrar a Agência Nacional de Energia Elétrica, que desqualificou o relatório e bateu pé no calote.
À distância
O senador Fernando Collor (PTB-AL) ficou contente quando soube de um ninho de tucanos se formando nos jardins da Casa da Dinda. Mas ficou na dele: continua com dificuldade de se aproximar de tucanos.
O cara é ele
Empolgado com o projeto de governar Goiás, José Batista Jr, o Júnior do Friboi (PMDB), enumerou ao vice-presidente Michel Temer a longa lista de atributos necessários ao futuro governador do seu Estado. Ao final, meio encabulado, concluiu orgulhoso: “Esse cara sou eu...”
Nova briga
A título de desonerar o aço, o governo editou MP que prevê instalação de Centros Logísticos e Industrial Aduaneiro, como serão chamados os portos no interior, para competir com terminais portuários e aeroportos.
Conexões
Preso em operação antidrogas, o colombiano Rafael Antonio Garavito promete revelar à policia, nos EUA, conexões dos narcotraficantes das Farc no Brasil. Em São Paulo, negociava drogas em troca de mísseis e armamento, intermediados por autoridades da Guiné-Bissau, na África.
Sentença ignorada
O governo do DF ignora decisão do Supremo que proíbe a inclusão dos Detrans entre órgãos de segurança. No DF, é vinculado à Secretaria de Segurança, os agentes têm armas e até revistam pessoas e veículos.
Roda da tortura
Funcionários do consulado-geral em Atlanta (EUA) protocolaram no Itamaraty novo assédio moral, após a “pizza” em Toronto (Canadá) e o deixa-disso-disso em Sidney (Austrália): um motorista pediu demissão ao ser proibido de pedir assistência médica após sofrer um acidente.
Sistema injusto
O deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) critica a postura do governo de “passar a mão na cabeça de índios como se fossem coitadinhos”, ignorando “produtores rurais que sofrem para garantir sobrevivência”.
Pergunta aloprada
Tiradentes morreu “enforcado” com a conta do supermercado?PODER SEM PUDOR
Modelito coronel
Governador da Bahia nos anos de chumbo, Antonio Carlos Magalhães chamou um político, João Ribeiro, para fazer dele prefeito nomeado prefeito de Pilão Arcado (BA), município de “segurança nacional”. Mas soube depois que dois dos vereadores da Arena no município recusavam apoio a Ribeiro. ACM mandou chamar os dois.
- Os vereadores de Pelão Arcado estão aí – avisou um assessor.
Ao entrar, a dupla encontrou ACM e Ribeiro esparramados nos sofás, papeando, rindo muito. Um dos vereadores se apressou, balbuciando:
- Governador, estamos aqui para declarar apoio ao João Ribeiro.
Eduardo Campos (PSB-PE),sobre a pressão do governo para asfixiar novos partidos
‘Pizza’ do Itamaraty paralisa consulado em Sidney
A lenta preparação da “pizza” no Itamaraty, para livrar o embaixador Américo Fontenelle das acusações de assédio moral e até sexual, já afeta o atendimento no consulado-geral em Sidney, Austrália. Com a paralisia e a acefalia, vistos de turismo e de negócios atrasam até trinta dias, após os pedidos de demissão, transferência ou licença médica das vítimas do cônsul-geral e do seu adjunto, Cézar Cidade.
Ritmo Patriota
Uma nova investigação das acusações de assédio moral em Sidney parou dias atrás, dois meses depois de esta coluna revelar o caso.
No grito
Fontenelle retomou calado o posto após férias em Brasília, mas Cézar Cidade mantém os gritos intimidatórios, dizem assessores.
O poder da amizade
Fora alardear amizade com José Dirceu, Fontenelle lembra que o secretário-geral do Itamaraty, Eduardo Santos, é padrinho do seu filho.
Sinais de fumaça
Cinco índios pediram socorro no celular após se perderem no mato, diz o site Campo Grande News. Seriam da turma do protesto em Brasília?
Seca: políticos brigam tentando mostrar serviço
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e seu indicado ao governo Dilma, ministro Fernando Bezerra (Integração), travam uma guerra, cidade a cidade, para ver quem “faz mais” no combate à seca. Criam-se situações ridículas, como um deles expedir ordem de serviço para furar um poço e o outro mandar fazer, ao lado, um conjunto de cisternas. Combater a seca seriamente, que é bom, raramente se vê.
Assim é
Quando se vêem num mesmo palanque, Eduardo Campos e Fernando Bezerra fazem juras eternas de “parceria” dos governos local e federal.
A vida como ela é
A seca avança, Bezerra posa de candidato de Dilma a governador e Eduardo Campos tenta dar credibilidade ao seu projeto presidencial.
Dengoso
Com dores no corpo típicas de dengue, o ministro Aloísio Mercadante (Educação) passa bem da “inflamação no intestino”. Longe de Dilma.
Calote consolidado
O Tribunal de Contas da União lavou as mãos na briga pela devolução de R$7 bilhões de cobrança indevida das tarifas de energia, entre 2002 e 2009. Alegou “falta de competência” para dobrar a Agência Nacional de Energia Elétrica, que desqualificou o relatório e bateu pé no calote.
À distância
O senador Fernando Collor (PTB-AL) ficou contente quando soube de um ninho de tucanos se formando nos jardins da Casa da Dinda. Mas ficou na dele: continua com dificuldade de se aproximar de tucanos.
O cara é ele
Empolgado com o projeto de governar Goiás, José Batista Jr, o Júnior do Friboi (PMDB), enumerou ao vice-presidente Michel Temer a longa lista de atributos necessários ao futuro governador do seu Estado. Ao final, meio encabulado, concluiu orgulhoso: “Esse cara sou eu...”
Nova briga
A título de desonerar o aço, o governo editou MP que prevê instalação de Centros Logísticos e Industrial Aduaneiro, como serão chamados os portos no interior, para competir com terminais portuários e aeroportos.
Conexões
Preso em operação antidrogas, o colombiano Rafael Antonio Garavito promete revelar à policia, nos EUA, conexões dos narcotraficantes das Farc no Brasil. Em São Paulo, negociava drogas em troca de mísseis e armamento, intermediados por autoridades da Guiné-Bissau, na África.
Sentença ignorada
O governo do DF ignora decisão do Supremo que proíbe a inclusão dos Detrans entre órgãos de segurança. No DF, é vinculado à Secretaria de Segurança, os agentes têm armas e até revistam pessoas e veículos.
Roda da tortura
Funcionários do consulado-geral em Atlanta (EUA) protocolaram no Itamaraty novo assédio moral, após a “pizza” em Toronto (Canadá) e o deixa-disso-disso em Sidney (Austrália): um motorista pediu demissão ao ser proibido de pedir assistência médica após sofrer um acidente.
Sistema injusto
O deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) critica a postura do governo de “passar a mão na cabeça de índios como se fossem coitadinhos”, ignorando “produtores rurais que sofrem para garantir sobrevivência”.
Pergunta aloprada
Tiradentes morreu “enforcado” com a conta do supermercado?PODER SEM PUDOR
Modelito coronel
Governador da Bahia nos anos de chumbo, Antonio Carlos Magalhães chamou um político, João Ribeiro, para fazer dele prefeito nomeado prefeito de Pilão Arcado (BA), município de “segurança nacional”. Mas soube depois que dois dos vereadores da Arena no município recusavam apoio a Ribeiro. ACM mandou chamar os dois.
- Os vereadores de Pelão Arcado estão aí – avisou um assessor.
Ao entrar, a dupla encontrou ACM e Ribeiro esparramados nos sofás, papeando, rindo muito. Um dos vereadores se apressou, balbuciando:
- Governador, estamos aqui para declarar apoio ao João Ribeiro.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Caos logístico faz Brasil perder R$ 6,6 bi na soja
- Folha: Plano para salvar grupo de Eike tem Petrobras e russos
- Estadão: Ataque amplia pressão para tratar acusado como terrorista
- Correio: Os 53 anos da capital que é pura música
- Zero Hora: Dez impactos da nova lei das domésticas
- Estado de Minas: Domésticas- Onde a lei não alcança
- Jornal do Commercio: Vocês sabem quem são?
sábado, abril 20, 2013
A questão do X - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/04
A perda de valor de mercado das empresas do grupo X era previsível. O empresário Eike Batista tem uma forma discutível de fazer negócios. Exagera nos anúncios de possibilidades das empresas. Assim, elevava as ações. Antes que uma empresa se tornasse realidade, ele criava outra que dependia da primeira, ainda embrionária. Ele se alavancou basicamente com dinheiro alheio.
Agora o movimento é para ele ser salvo dos apuros com mais dinheiro público. BNDES e Caixa já estão muito expostos ao risco Eike Batista.
Desde 2005, o BNDES aprovou R$ 9,1 bilhões em operações com o grupo e esta semana foi divulgado mais R$ 935 milhões. Mesmo com o derretimento das ações, a transfusão de empréstimos continua. As conversas com a Petrobras já começaram, para que parcerias entre ela e a OGX sejam feitas. Os investidores fogem, mas a estatal se aproxima.
As ações das empresas despencaram. Quando subiram, foi por força do exagero dos anúncios. O empresário sempre usou isso. Embrulhava vento e vendia. Os investidores compraram, os bancos emprestaram. Assim ele fez seu império e alimentou uma obsessão menor: a de ser o homem mais rico do mundo.
Em menos de três anos, a principal empresa do grupo, a OGX, de petróleo e gás, perdeu 94% do valor. Chegou a valer R$ 74 bilhões, em 2010. Mesmo com a alta de 9% das ações, ontem, vale agora R$ 4 bi. A empresa fechou 2012 com prejuízo de R$1,2 bilhão e US$1,6 bilhão em caixa. As ações da MMX, de mineração, caíram 87%. A companhia chegou a valer R$ 18 bi, em 2008, e hoje vale R$1,7 bi. Quando entrou na bolsa, disse que ia produzir 37 milhões de toneladas de minério de ferro em 2011. Em 2012, produziu 7,4 milhões. A fuga de investidores é por esse baixo desempenho. O prejuízo do grupo em 2012 foi de R$ 2,5 bilhões.
As vozes dos críticos, que mostravam o açodamento e erros, não foram consideradas. Outro ponto fraco foi
criar uma empresa derivada da outra. Já que haveria tanto gás e petróleo, ele criou a empresa de estaleiro OSX, que chegou a valer R$ 9 bilhões e hoje vale R$1 bilhão. Eike tem o mérito de elaborar projetos, tem o defeito de não esperar que maturem.
Vende entusiasmo e não aguarda a realidade. Pensa a economia do futuro com lógica do passado. A euforia enganou muita gente. Algumas empresas são boas, mas não tanto quanto a percepção do mercado. Alguns investidores estiveram com ele para serem parceiros de longo prazo, como a Ontario Teachers, o fundo de pensão dos professores de Ontário. Outros, só de passagem.
Ele se cercou de bons profissionais, que deixaram a empresa por vários motivos: falta de sustentação de alguns projetos, o descuido com riscos, o descaso ambiental. O Porto do Açu é um bom projeto, mas é caro, segundo especialistas, por ser em mar aberto e exigir muito investimento em quebra-mar.
O BNDES comprou ações e concedeu bilhões em empréstimos de prazos longos e juros baixos. A mesma coisa fez a Caixa e bancos privados. As ofertas públicas de ações atraíram investidores institucionais, e a venda de lotes menores trouxe os pequenos investidores. Mas as empresas não tinham experiência operacional, algumas eram ainda projetos.
O grupo fez dívidas em dólar e tem um cronograma pesado de investimentos. O endividamento triplicou em 2012. Além dos R$10 bilhões de operações aprovadas, o BNDES é dono de 10,3% da MPX e de 11,7% da CCX. O BNDESPar chegou a ter 12% da LLX e quando comprou as ações pagou mais caro por elas que o valor de mercado. Quando vendeu, vendeu por menos do que valia. A operação fez com que um pedaço do lucro do banco ficasse com o empresário. A Caixa tem R$1,4 bilhão de empréstimos concedidos à OSX e à MPX.
A crise de 2008 atingiu as empresas de Eike Batista, mas esse não foi o ponto principal. Ele errou na condução dos negócios.
A perda de valor de mercado das empresas do grupo X era previsível. O empresário Eike Batista tem uma forma discutível de fazer negócios. Exagera nos anúncios de possibilidades das empresas. Assim, elevava as ações. Antes que uma empresa se tornasse realidade, ele criava outra que dependia da primeira, ainda embrionária. Ele se alavancou basicamente com dinheiro alheio.
Agora o movimento é para ele ser salvo dos apuros com mais dinheiro público. BNDES e Caixa já estão muito expostos ao risco Eike Batista.
Desde 2005, o BNDES aprovou R$ 9,1 bilhões em operações com o grupo e esta semana foi divulgado mais R$ 935 milhões. Mesmo com o derretimento das ações, a transfusão de empréstimos continua. As conversas com a Petrobras já começaram, para que parcerias entre ela e a OGX sejam feitas. Os investidores fogem, mas a estatal se aproxima.
As ações das empresas despencaram. Quando subiram, foi por força do exagero dos anúncios. O empresário sempre usou isso. Embrulhava vento e vendia. Os investidores compraram, os bancos emprestaram. Assim ele fez seu império e alimentou uma obsessão menor: a de ser o homem mais rico do mundo.
Em menos de três anos, a principal empresa do grupo, a OGX, de petróleo e gás, perdeu 94% do valor. Chegou a valer R$ 74 bilhões, em 2010. Mesmo com a alta de 9% das ações, ontem, vale agora R$ 4 bi. A empresa fechou 2012 com prejuízo de R$1,2 bilhão e US$1,6 bilhão em caixa. As ações da MMX, de mineração, caíram 87%. A companhia chegou a valer R$ 18 bi, em 2008, e hoje vale R$1,7 bi. Quando entrou na bolsa, disse que ia produzir 37 milhões de toneladas de minério de ferro em 2011. Em 2012, produziu 7,4 milhões. A fuga de investidores é por esse baixo desempenho. O prejuízo do grupo em 2012 foi de R$ 2,5 bilhões.
As vozes dos críticos, que mostravam o açodamento e erros, não foram consideradas. Outro ponto fraco foi
criar uma empresa derivada da outra. Já que haveria tanto gás e petróleo, ele criou a empresa de estaleiro OSX, que chegou a valer R$ 9 bilhões e hoje vale R$1 bilhão. Eike tem o mérito de elaborar projetos, tem o defeito de não esperar que maturem.
Vende entusiasmo e não aguarda a realidade. Pensa a economia do futuro com lógica do passado. A euforia enganou muita gente. Algumas empresas são boas, mas não tanto quanto a percepção do mercado. Alguns investidores estiveram com ele para serem parceiros de longo prazo, como a Ontario Teachers, o fundo de pensão dos professores de Ontário. Outros, só de passagem.
Ele se cercou de bons profissionais, que deixaram a empresa por vários motivos: falta de sustentação de alguns projetos, o descuido com riscos, o descaso ambiental. O Porto do Açu é um bom projeto, mas é caro, segundo especialistas, por ser em mar aberto e exigir muito investimento em quebra-mar.
O BNDES comprou ações e concedeu bilhões em empréstimos de prazos longos e juros baixos. A mesma coisa fez a Caixa e bancos privados. As ofertas públicas de ações atraíram investidores institucionais, e a venda de lotes menores trouxe os pequenos investidores. Mas as empresas não tinham experiência operacional, algumas eram ainda projetos.
O grupo fez dívidas em dólar e tem um cronograma pesado de investimentos. O endividamento triplicou em 2012. Além dos R$10 bilhões de operações aprovadas, o BNDES é dono de 10,3% da MPX e de 11,7% da CCX. O BNDESPar chegou a ter 12% da LLX e quando comprou as ações pagou mais caro por elas que o valor de mercado. Quando vendeu, vendeu por menos do que valia. A operação fez com que um pedaço do lucro do banco ficasse com o empresário. A Caixa tem R$1,4 bilhão de empréstimos concedidos à OSX e à MPX.
A crise de 2008 atingiu as empresas de Eike Batista, mas esse não foi o ponto principal. Ele errou na condução dos negócios.
FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA
O GLOBO - 20/04
BRASILEIROS JÁ PARCELAM COMIDA
Pesquisa mostra que 11% dos endividados financiaram compra de alimentos
Para enfrentar a escalada nos preços dos alimentos, os brasileiros estão parcelando compras nos supermercados. É o que mostram resultados do 1º trimestre da pesquisa de orçamento e inadimplência da Fecomércio-RJ. A entidade visitou mil residências no país, na 2ª quinzena de março. De cada cem lares, 44 estão pagando financiamentos, nível recorde para o 1º trimestre desde 2010.
Entre os que têm compras financiadas,11% estão pagando a prazo por alimentos. São quatro pontos percentuais acima do 1º tri de 2012 (7%) e dois pontos a mais que nos três últimos meses do ano passado (9%). A explicação, diz Christian Travassos, economista da Fecomércio-RJ, é a inflação: “Dos devedores, 39% têm parcelamentos no cartão de crédito, o que combina com o uso nos supermercados”.
É local
O Rio é o estado onde a Renault tem a maior fatia de mercado no país. A francesa tem 11,9% de share no território fluminense. É quase o dobro da média nacional, de 6,6%, informa Olivier Murguet, presidente da montadora no Brasil.
Na moda
Carlos Tufvesson, presidente do recém-criado Conselho da Moda do Rio, vai propor ao grupo um plano de capacitação de mão de obra em comunidades de UPPs. Integraria ações sociais da prefeitura. A falta de pessoal capacitado é entrave à expansão do setor, diz. Outro são os custos de produção.
NA INFLAÇÃO DE ALIMENTOS No IPCA-15, do IBGE, a alimentação no domicílio ficou 6,64% mais cara de janeiro a abril deste ano. No Rio, chegou a 7,45%. Em Belém, Fortaleza, Salvador e DF, os preços subiram mais de 8% no período.
Cooperação 1
O Sescoop investirá, até 2014, R$ 2,5 milhões em programa para capacitar cooperativas. A Fundação Nacional de Qualidade criou ferramenta on-line que fará diagnóstico de gestão. Em um ano, 658
empresas devem participar do projeto. Em cinco, serão 6.587.
Cooperação 2
“As cooperativas também precisam de competitividade e profissionalização”, defende Márcio Lopes de Freitas, presidente do Sescoop.
Centésima
A Accor, rede hoteleira, chegou a cem cidades na América Latina, com a abertura do ibis Feira de Santana (BA), este mês. Até 2016, quer estar em mais 53. Hoje, tem 215 unidades.
Mais um
O restaurante Pobre Juan, de parrillas, inaugura, na 2ª, filial no Fashion Mall. Aporte de R$ 3 milhões, é a segunda do Rio. A rede paulista prevê alta de 15% no faturamento.
No Recreio
A rede de academias Fórmula chega ao Recreio em 2014. Investirá R$ 3,5 milhões em filial no Américas Shopping.
BRASILEIROS JÁ PARCELAM COMIDA
Pesquisa mostra que 11% dos endividados financiaram compra de alimentos
Para enfrentar a escalada nos preços dos alimentos, os brasileiros estão parcelando compras nos supermercados. É o que mostram resultados do 1º trimestre da pesquisa de orçamento e inadimplência da Fecomércio-RJ. A entidade visitou mil residências no país, na 2ª quinzena de março. De cada cem lares, 44 estão pagando financiamentos, nível recorde para o 1º trimestre desde 2010.
Entre os que têm compras financiadas,11% estão pagando a prazo por alimentos. São quatro pontos percentuais acima do 1º tri de 2012 (7%) e dois pontos a mais que nos três últimos meses do ano passado (9%). A explicação, diz Christian Travassos, economista da Fecomércio-RJ, é a inflação: “Dos devedores, 39% têm parcelamentos no cartão de crédito, o que combina com o uso nos supermercados”.
É local
O Rio é o estado onde a Renault tem a maior fatia de mercado no país. A francesa tem 11,9% de share no território fluminense. É quase o dobro da média nacional, de 6,6%, informa Olivier Murguet, presidente da montadora no Brasil.
Na moda
Carlos Tufvesson, presidente do recém-criado Conselho da Moda do Rio, vai propor ao grupo um plano de capacitação de mão de obra em comunidades de UPPs. Integraria ações sociais da prefeitura. A falta de pessoal capacitado é entrave à expansão do setor, diz. Outro são os custos de produção.
NA INFLAÇÃO DE ALIMENTOS No IPCA-15, do IBGE, a alimentação no domicílio ficou 6,64% mais cara de janeiro a abril deste ano. No Rio, chegou a 7,45%. Em Belém, Fortaleza, Salvador e DF, os preços subiram mais de 8% no período.
Cooperação 1
O Sescoop investirá, até 2014, R$ 2,5 milhões em programa para capacitar cooperativas. A Fundação Nacional de Qualidade criou ferramenta on-line que fará diagnóstico de gestão. Em um ano, 658
empresas devem participar do projeto. Em cinco, serão 6.587.
Cooperação 2
“As cooperativas também precisam de competitividade e profissionalização”, defende Márcio Lopes de Freitas, presidente do Sescoop.
Centésima
A Accor, rede hoteleira, chegou a cem cidades na América Latina, com a abertura do ibis Feira de Santana (BA), este mês. Até 2016, quer estar em mais 53. Hoje, tem 215 unidades.
Mais um
O restaurante Pobre Juan, de parrillas, inaugura, na 2ª, filial no Fashion Mall. Aporte de R$ 3 milhões, é a segunda do Rio. A rede paulista prevê alta de 15% no faturamento.
No Recreio
A rede de academias Fórmula chega ao Recreio em 2014. Investirá R$ 3,5 milhões em filial no Américas Shopping.
Para crescer é preciso ser competitivo - PAULO PAIVA
O ESTADÃO - 20/04
Críticas ao pífio desempenho da economia brasileira não são recentes e tão pouco são reservadas ao governo Dilma. Antes da eclosão da crise financeira global em 2008, o crescimento brasileiro já era mais lento do que o de outras economias emergentes, como China e Índia e de economias latino-americanas. A recuperação a partir de 2010 foi estimulada, principalmente, pela expansão do consumo interno e não alterou o quadro anterior, exceto pelo ritmo mais lento ainda do crescimento. Crescer apenas pela expansão do mercado interno levará à volta do protecionismo, ao aumento da intervenção do governo no mercado e, em consequência, à maior ineficiência da economia. Tudo pago pelo consumidor e pelo contribuinte.
O País está perdendo a oportunidade de ampliar sua participação na economia mundial, que vem sendo impulsionada pelas economias emergentes. A principal razão para o fraco desempenho é a baixa competitividade da economia brasileira, como tem mostrado sua posição no índice do World Economic Forum, embora tenha subido da 72.ª posição para a 48.ª, de 2006 a 2012. Os fatores críticos que emperram a competitividade da nossa economia estão, direta ou indiretamente, relacionados ao setor público. Vale a pena mencioná-los.
No que se refere às instituições, destaca-se o peso da complexa e ampla regulamentação, em que o País ostenta a pior posição, e dos desperdícios dos gastos públicos. É a ineficiência do governo. Como já observei em artigo anterior neste espaço (3/11/2012), a organização política também não contribui para a eficiência da gestão pública. Dada a combinação de alto grau de regulação com as atribuições quase parlamentaristas do Legislativo e com um sistema pluripartidário amplo, os custos de negociação com o Congresso são muito excessivos. Em consequência, reformas, mesmo as mais simples, são demoradas e dependem de longas e custosas negociações. Soma-se, ainda, que a administração pública carrega uma cultura de burocratismo cujas origens vêm da tradição portuguesa e do Estado Novo. O serviço público no País, em geral, está preparado para "não deixar fazer", quer para defender o Estado de sua privatização, quer para proteger a própria burocracia.
No que se refere à legislação e tributos, o fator inibidor da competitividade é a alta e ineficiente carga tributária, acompanhada pelos custos associados aos procedimentos alfandegários e pelo longo período necessário para a abertura de uma empresa.
Em relação à infraestrutura, o principal fator negativo à competitividade é a situação lastimável do sistema de logística e transportes no País, que encarece os custos do frete e gera incertezas quanto ao tempo de acesso aos portos. Acresce a isso o custo de energia e a legislação ambiental.
Educação básica, em que pesem os avanços no acesso das crianças à escola, é outro grande obstáculo à competitividade. O desempenho do País nos testes internacionais, como o Pisa, tem sido muito fraco comparativamente aos outros países, principalmente em capacidade de leitura e Matemática.
Essas questões exigem um plano estratégico para melhorar a competitividade, incluindo uma agenda própria que identifique reformas e mudanças de atitude, de política pública e de gestão, e que possa mobilizar os mais diferentes setores da sociedade, agentes públicos e partidos políticos, visando ao estabelecimento e execução de projetos com objetivos, metas e prazos a serem alcançados. Mas o calendário eleitoral impõe outra agenda aos governantes, priorizando resultados de curto prazo. Iniciativas apenas da sociedade civil tenderão a não alcançar os resultados necessários que dependem de ação dos poderes públicos. A campanha eleitoral já foi antecipada, atraindo o foco do governo e politizando partidariamente o debate sobre políticas públicas. Perde-se, assim, a oportunidade de preparar o País para um ciclo mais longo de crescimento. A menos que a sociedade consiga se mobilizar por um projeto "competitividade já", o pífio crescimento poderá continuar sendo a sina do Brasil.
Críticas ao pífio desempenho da economia brasileira não são recentes e tão pouco são reservadas ao governo Dilma. Antes da eclosão da crise financeira global em 2008, o crescimento brasileiro já era mais lento do que o de outras economias emergentes, como China e Índia e de economias latino-americanas. A recuperação a partir de 2010 foi estimulada, principalmente, pela expansão do consumo interno e não alterou o quadro anterior, exceto pelo ritmo mais lento ainda do crescimento. Crescer apenas pela expansão do mercado interno levará à volta do protecionismo, ao aumento da intervenção do governo no mercado e, em consequência, à maior ineficiência da economia. Tudo pago pelo consumidor e pelo contribuinte.
O País está perdendo a oportunidade de ampliar sua participação na economia mundial, que vem sendo impulsionada pelas economias emergentes. A principal razão para o fraco desempenho é a baixa competitividade da economia brasileira, como tem mostrado sua posição no índice do World Economic Forum, embora tenha subido da 72.ª posição para a 48.ª, de 2006 a 2012. Os fatores críticos que emperram a competitividade da nossa economia estão, direta ou indiretamente, relacionados ao setor público. Vale a pena mencioná-los.
No que se refere às instituições, destaca-se o peso da complexa e ampla regulamentação, em que o País ostenta a pior posição, e dos desperdícios dos gastos públicos. É a ineficiência do governo. Como já observei em artigo anterior neste espaço (3/11/2012), a organização política também não contribui para a eficiência da gestão pública. Dada a combinação de alto grau de regulação com as atribuições quase parlamentaristas do Legislativo e com um sistema pluripartidário amplo, os custos de negociação com o Congresso são muito excessivos. Em consequência, reformas, mesmo as mais simples, são demoradas e dependem de longas e custosas negociações. Soma-se, ainda, que a administração pública carrega uma cultura de burocratismo cujas origens vêm da tradição portuguesa e do Estado Novo. O serviço público no País, em geral, está preparado para "não deixar fazer", quer para defender o Estado de sua privatização, quer para proteger a própria burocracia.
No que se refere à legislação e tributos, o fator inibidor da competitividade é a alta e ineficiente carga tributária, acompanhada pelos custos associados aos procedimentos alfandegários e pelo longo período necessário para a abertura de uma empresa.
Em relação à infraestrutura, o principal fator negativo à competitividade é a situação lastimável do sistema de logística e transportes no País, que encarece os custos do frete e gera incertezas quanto ao tempo de acesso aos portos. Acresce a isso o custo de energia e a legislação ambiental.
Educação básica, em que pesem os avanços no acesso das crianças à escola, é outro grande obstáculo à competitividade. O desempenho do País nos testes internacionais, como o Pisa, tem sido muito fraco comparativamente aos outros países, principalmente em capacidade de leitura e Matemática.
Essas questões exigem um plano estratégico para melhorar a competitividade, incluindo uma agenda própria que identifique reformas e mudanças de atitude, de política pública e de gestão, e que possa mobilizar os mais diferentes setores da sociedade, agentes públicos e partidos políticos, visando ao estabelecimento e execução de projetos com objetivos, metas e prazos a serem alcançados. Mas o calendário eleitoral impõe outra agenda aos governantes, priorizando resultados de curto prazo. Iniciativas apenas da sociedade civil tenderão a não alcançar os resultados necessários que dependem de ação dos poderes públicos. A campanha eleitoral já foi antecipada, atraindo o foco do governo e politizando partidariamente o debate sobre políticas públicas. Perde-se, assim, a oportunidade de preparar o País para um ciclo mais longo de crescimento. A menos que a sociedade consiga se mobilizar por um projeto "competitividade já", o pífio crescimento poderá continuar sendo a sina do Brasil.
Remédio errado pode matar o paciente - JOSÉ MÁRCIO CAMARGO
O ESTADÃO - 20/04
O biênio 2011 e 2012 não foi bom para a economia brasileira. Em 2011, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,7% e a taxa de inflação (IPCA) atingiu 6,5%. Em 2012 o crescimento do PIB foi de 0,9% e o IPCA, de 5,84%. Já em 2013 estamos prevendo crescimento de 2,5% e inflação em 5,9%.
Se o PIB cresce pouco, a indústria de transformação está em forte contração. Enquanto os setores de serviços (2,7% e 1,7%), comércio (3,4% e 1%) e construção civil (3,6% e 1,4%) mostraram crescimento em 2011 e 2012 - ainda que a taxas decrescentes -, a indústria de transformação encolheu 2,5% em 2012, cresceu apenas 0,1% em 2011 e continuou encolhendo no início de 2013 (-3,2% nos 12 meses encerrados em fevereiro). Esses dados mostram que o País entrou em processo de estagflação e está se desindustrializando.
Estagflação é um fenômeno cuja origem é a incapacidade de a oferta de bens e serviços responder de forma adequada aos aumentos de demanda. Como a oferta não cresce, os aumentos de demanda se transformam em aumentos de custos, de preços e de importação.
Por que a oferta não responde ao crescimento da demanda? Se as máquinas, equipamentos, infraestrutura (estradas, comunicações, etc.) e trabalhadores já estiverem totalmente empregados, para que a produção cresça é necessário aumentar a quantidade e a qualidade (produtividade) desses fatores. Isso exige investimento em capital físico e em capital humano, que leva um tempo maior para maturar do que os estímulos à demanda. Enquanto isso não ocorre, mais demanda se transforma em aumento de custos, inflação e mais importações, com pouco crescimento.
Os bens gerados pelos setores de serviços, comércio e construção civil (corte de cabelos, serviços bancários e de transporte, residências, shoppings, estradas, etc.) são, em grande parte, vendidos no próprio local onde são produzidos, enquanto aqueles bens gerados pela indústria de transformação podem ser vendidos em qualquer lugar do mundo, independentemente de onde são produzidos.
Existe uma importante diferença entre a reação destes dois grupos de produtos a uma situação de excesso de demanda. O primeiro grupo, como não sofre a concorrência de empresas de outros países, quando ocorre excesso de demanda e seus custos de produção aumentam, repassa esses aumentos de custos para os preços, gerando inflação. Para o segundo grupo, esse repasse é impossível, porque ele tem de competir com produtos similares que são importados. A inflação desses bens dentro do País tem de ser similar à inflação no resto do mundo, corrigida pela taxa de câmbio. O excesso de demanda e o aumento de custos significam redução das margens de lucros e da capacidade de competir com os importados e, portanto, menos investimento. Quanto maior o excesso de demanda, menos competitivo será o setor.
Dados os elevados níveis de utilização dos fatores, principalmente do trabalho, "acelerar o corte de juros pode ser um tiro no pé. (...) O problema da indústria não é falta de demanda. (...) O problema da indústria é oferta, falta de competitividade. E isso não se resolve com redução de juros. (...) A redução dos juros tem o efeito de aumentar a demanda na economia, inclusive a demanda por serviços, cuja taxa de inflação está em 9,5% ao ano. (...) Se você reduz juros, a demanda aumenta, o desemprego cai e o salário aumenta. Tudo isso prejudica a competitividade do setor industrial, que não consegue aumentar seus preços por causa dos importados" (José Márcio Camargo, Estado, 8/3/2012, página B4).
O desempenho da economia brasileira em 2012 mostra que esse diagnóstico estava correto. As políticas de incentivo à demanda, redução de juros, desonerações tributárias, expansionismo fiscal, etc., aceleraram a inflação de serviços, os aumentos dos salários acima dos ganhos de produtividade e, portanto, o custo unitário do trabalho e a redução da competitividade da indústria. Persistir nesse caminho só agrava o problema. A indústria de transformação definha, enquanto os setores produtores de bens não comerciáveis crescem a taxas cada vez menores.
Está na hora de reconhecer que o diagnóstico e, portanto, o remédio estão errados e este precisa ser mudado. Antes que ele mate o paciente.
O biênio 2011 e 2012 não foi bom para a economia brasileira. Em 2011, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,7% e a taxa de inflação (IPCA) atingiu 6,5%. Em 2012 o crescimento do PIB foi de 0,9% e o IPCA, de 5,84%. Já em 2013 estamos prevendo crescimento de 2,5% e inflação em 5,9%.
Se o PIB cresce pouco, a indústria de transformação está em forte contração. Enquanto os setores de serviços (2,7% e 1,7%), comércio (3,4% e 1%) e construção civil (3,6% e 1,4%) mostraram crescimento em 2011 e 2012 - ainda que a taxas decrescentes -, a indústria de transformação encolheu 2,5% em 2012, cresceu apenas 0,1% em 2011 e continuou encolhendo no início de 2013 (-3,2% nos 12 meses encerrados em fevereiro). Esses dados mostram que o País entrou em processo de estagflação e está se desindustrializando.
Estagflação é um fenômeno cuja origem é a incapacidade de a oferta de bens e serviços responder de forma adequada aos aumentos de demanda. Como a oferta não cresce, os aumentos de demanda se transformam em aumentos de custos, de preços e de importação.
Por que a oferta não responde ao crescimento da demanda? Se as máquinas, equipamentos, infraestrutura (estradas, comunicações, etc.) e trabalhadores já estiverem totalmente empregados, para que a produção cresça é necessário aumentar a quantidade e a qualidade (produtividade) desses fatores. Isso exige investimento em capital físico e em capital humano, que leva um tempo maior para maturar do que os estímulos à demanda. Enquanto isso não ocorre, mais demanda se transforma em aumento de custos, inflação e mais importações, com pouco crescimento.
Os bens gerados pelos setores de serviços, comércio e construção civil (corte de cabelos, serviços bancários e de transporte, residências, shoppings, estradas, etc.) são, em grande parte, vendidos no próprio local onde são produzidos, enquanto aqueles bens gerados pela indústria de transformação podem ser vendidos em qualquer lugar do mundo, independentemente de onde são produzidos.
Existe uma importante diferença entre a reação destes dois grupos de produtos a uma situação de excesso de demanda. O primeiro grupo, como não sofre a concorrência de empresas de outros países, quando ocorre excesso de demanda e seus custos de produção aumentam, repassa esses aumentos de custos para os preços, gerando inflação. Para o segundo grupo, esse repasse é impossível, porque ele tem de competir com produtos similares que são importados. A inflação desses bens dentro do País tem de ser similar à inflação no resto do mundo, corrigida pela taxa de câmbio. O excesso de demanda e o aumento de custos significam redução das margens de lucros e da capacidade de competir com os importados e, portanto, menos investimento. Quanto maior o excesso de demanda, menos competitivo será o setor.
Dados os elevados níveis de utilização dos fatores, principalmente do trabalho, "acelerar o corte de juros pode ser um tiro no pé. (...) O problema da indústria não é falta de demanda. (...) O problema da indústria é oferta, falta de competitividade. E isso não se resolve com redução de juros. (...) A redução dos juros tem o efeito de aumentar a demanda na economia, inclusive a demanda por serviços, cuja taxa de inflação está em 9,5% ao ano. (...) Se você reduz juros, a demanda aumenta, o desemprego cai e o salário aumenta. Tudo isso prejudica a competitividade do setor industrial, que não consegue aumentar seus preços por causa dos importados" (José Márcio Camargo, Estado, 8/3/2012, página B4).
O desempenho da economia brasileira em 2012 mostra que esse diagnóstico estava correto. As políticas de incentivo à demanda, redução de juros, desonerações tributárias, expansionismo fiscal, etc., aceleraram a inflação de serviços, os aumentos dos salários acima dos ganhos de produtividade e, portanto, o custo unitário do trabalho e a redução da competitividade da indústria. Persistir nesse caminho só agrava o problema. A indústria de transformação definha, enquanto os setores produtores de bens não comerciáveis crescem a taxas cada vez menores.
Está na hora de reconhecer que o diagnóstico e, portanto, o remédio estão errados e este precisa ser mudado. Antes que ele mate o paciente.
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