sábado, abril 06, 2013

Manobras da defesa - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/04

A "fofoca jurídica" do advogado Márcio Thomaz Bastos pedindo diretamente ao ministro Ricardo Lewandowski, vice-presidente do STF e revisor do processo do mensalão, que encaminhe ao plenário a discussão sobre o aumento do prazo hábil para as defesas apresentarem embargos após a publicação do acórdão da Ação Penal 470, quando o relator e presidente da Corte, Joaquim Barbosa, já havia indeferido pedido semelhante, é apenas mais um lance dos muitos que já aconteceram, e ainda surgirão, na tentativa de retardar o final do processo.

O ministro Joaquim Barbosa tem indeferido todos os pedidos da defesa, desde o acesso antecipado aos votos, antes da publicação do acórdão, até o aumento do prazo para os embargos, com o objetivo de "não flexibilizar a lei". Para Thomaz Bastos, porém, "a aplicação do regimento interno da casa foi flexibilizada no início do julgamento para que a Procuradoria Geral da República pudesse ter, para sua apresentação de motivos, cinco horas e não apenas uma, como determinaria o regimento interno da casa e a "aplicação rigorosa da lei". Isso porque os ministros entenderam, a partir do princípio da razoabilidade, que, diante de um processo tão complexo e com tantos envolvidos, seria necessário ampliar o prazo para apresentar as acusações de forma mais detalhada".

Pela mesma razão, ele alega que a defesa dos réus precisaria de mais tempo. O ministro Lewandowski não tem o poder de levar a questão diretamente ao plenário, mas pode levantar a questão, pedindo que o presidente do STF o faça. Idealmente, isso deveria ser feito na próxima reunião plenária de quarta-feira, antes da publicação do acórdão. O ministro Celso de Mello, o único que ainda não entregou seus votos revisados, não o fez até as 19 horas de ontem, mas Joaquim Barbosa acredita que até a próxima semana já seja possível publicar o acórdão.

Há ministros no plenário que consideram razoável permitir uma ampliação dos prazos, até mesmo por analogia ao Código de Processo Civil, que prevê o dobro do tempo quando o processo tem vários réus. Márcio Thomaz Bastos, que é defensor do ex-executivo do Banco Rural José Roberto Salgado, entrou com o pedido na condição de terceiro interessado em medida cautelar apresentada pela defesa do ex-ministro José Dirceu, que pede nada mais que a suspensão da publicação do acórdão até que a questão esteja decidida. Thomaz Bastos alega que, durante o julgamento, apenas os votos do relator e do revisor foram lidos, e nem sempre em sua integralidade. "Os demais votos foram simplesmente comentados, sintetizados ou resumidos, tanto que os ministros vogais expressamente afirmaram, a cada manifestação, que traziam "alentado" ou "substancioso" voto, que passavam às mãos do presidente para posterior publicação."

"Logo, boa parte do acórdão será inédita, pois não se referirá exclusivamente aos debates travados durante as sessões de julgamento, de tal modo que a publicação do acórdão tornará público, pela primeira vez, o conteúdo completo dos votos dos ministros vogais". Thomaz

Bastos fala também dos "embargos infringentes", uma etapa posterior aos "embargos declaratórios" que promete ser bastante polêmica.

Para ele, houve "situações curiosas" durante o julgamento da Ação Penal 470 que somente a publicação dos votos poderá esclarecer, como "divergência importante" na fixação das penas. Há quem veja na ação da defesa dos réus uma tentativa de protelar o resultado final, jogando com variáveis diversas, como a mudança da composição do plenário do STF: além do novo ministro Teori Zavascki, há a possibilidade de outro ser nomeado ainda a tempo de participar do julgamento dos embargos. O tributarista Heleno Torres teve uma reunião na noite de quinta-feira com a presidente Dilma no Planalto, e tudo indica que será nomeado, numa vitória do ministro Ricardo Lewandowski.

Além do mais, se o julgamento prosseguir até depois de junho, data idealizada por Joaquim Barbo-sa para seu término, o procurador-geral Roberto Gurgel deixará o cargo, o que pode abrir, pelo menos na esperança da defesa, novos caminhos. (Amanhã, "Os embargos infringentes") l

Tea Party dos trópicos - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 06/04

BRASÍLIA - Pelas contas do Datafolha, 28% dos brasileiros hoje são fiéis de alguma denominação evangélica. Há dez anos eram 19%.

Assim como o papa não manda inteiramente nos católicos, tampouco há, entre os evangélicos, líderes capazes de determinar o comportamento de seus seguidores.

O que é inegável é a capacidade de mobilização de uma parcela mais rumorosa desse grupo religioso. O efeito demonstração é gigantesco.

Tome-se o caso do deputado federal e pastor evangélico Marco Feliciano. Ele tem sido questionado por ocupar a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Ontem, a polêmica completou um mês. Nesse período, ele foi citado 449 mil vezes no microblog Twitter. Superou em 100% o número de votos recebidos para se eleger em 2010.

Naquele ano, adeptos de várias religiões criaram um grande ruído na fase final da eleição presidencial. O debate sobre a liberalização do aborto contribuiu para empurrar a disputa ao segundo turno. O PT se sentiu compelido a abraçar as posições mais conservadoras.

O favoritismo de Dilma Rousseff na eleição de 2014 deverá atrair outra vez os principais políticos evangélicos, inclusive Marco Feliciano -que montou uma brigada na internet para defender a petista em 2010.

Só que esse movimento político-religioso conservador, uma espécie de Tea Party dos trópicos, anda insatisfeito com o PT. Feliciano já reclamou. Negou apoio automático ao projeto de reeleição presidencial petista.

Ontem, na Folha, Silas Malafaia deu outro sinal. O presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo escreveu: "[O] PT e Dilma Rousseff estão sinalizando que abrem mão da comunidade evangélica nas próximas eleições".

Pode ser apenas alarme falso.

Ainda assim, é uma luz amarela com mais de um quarto dos eleitores do país por trás.

Os números e a política - LEONARDO CAVALCANTI


CORREIO BRAZILIENSE - 06/04
Pesquisas sobre gastos do governo sempre servem de largada para reportagens. A partir dela, abre-se o debate sobre eficiência de gestão e negociações dentro do próprio Executivo e com o Legislativo
Os números nunca explicam tudo, mas sempre servem de parâmetro e, no caso, do jornalismo, podem significar o início de reportagens. Na última semana, o Correio publicou dois levantamentos distintos sobre o governo Dilma Rousseff que revelam como política e orçamento público andam de mãos dadas, para o bem e o mal do cidadão. Os textos partiram de dados para apresentar bastidores do poder.

A primeira reportagem foi publicada no último domingo com o título "Preço da fidelidade aumenta com Dilma", e mostrou que o custo para manter a base aliada no Congresso é 160% maior na atual gestão do que no governo Fernando Henrique. A partir do mote das negociações abertas com o PR, os repórteres Paulo de Tarso Lyra e Leandro Kleber conseguiram chegar ao valor da aliança, do voto dos "fiéis".

Com base no cálculo do custeio mais os investimentos dos ministérios dividido pelo total de deputados e senadores aliados, foi possível chegar ao custo por parlamentar. No derradeiro mandato de Fernando Henrique, o valor por voto era de R$ 718 milhões, cifras atualizadas a partir da inflação. Para este ano, cada voto "sim" a projetos defendidos pelo Planalto custará R$ 1,87 bilhão aos cofres públicos.

Os governistas podem argumentar que a receita das gestões petistas - de Dilma e de Luiz Inácio Lula da Silva - aumentou, levando em conta o crescimento do Produto Interno Bruto nos últimos anos. Ou mesmo que tanto Dilma quanto Lula reergueram a máquina pública, com contratações, salários e distribuição de programas sociais. Mas o custo por parlamentar aumentou, de qualquer forma. Tão importante quanto a crítica é a possibilidade de discutir políticas. Apresentar a distribuição do poder a partir do volume de recursos é apenas uma forma de estimular tal debate.

Na lona
A segunda reportagem, publicada na última quinta-feira - dia seguinte à posse do novo ministro dos Transportes, César Borges -, mostrou que, em 2012, a pasta conseguiu investir menos da metade do previsto no Orçamento. Os textos produzidos por Leandro Kleber e Karla Correia mostram que, desde o escândalo de superfaturamento - em 2011, na gestão do então ministro, Alfredo Nascimento -, as torneiras foram fechadas. Por conta das auditorias, dos problemas básicos de gestão e da própria burocracia, os camaradas que vieram depois de Nascimento não conseguiram executar os recursos.

Segundo a reportagem, dos R$ 23,2 bilhões - a assessoria do órgão cita R$ 17 bilhões - previstos para todo o ano passado, apenas R$ 10,5 bilhões foram desembolsados pelos Transportes. Quando se prepara um plano de orçamento, leva-se em conta as necessidades da pasta - no caso, mais específico da população, que usará os serviços prestados por determinado órgão. Ao estabelecer que seriam necessários "X" para cuidar da infraestrutura, deve-se acreditar nas prioridades da gestão, na eficiência.

Quando se gastou metade do valor, ficou faltando a outra parte, por impedimentos técnicos e políticos. Os números apresentados pelo Correio revelam como a corrupção - diríamos aqui, suposta - afeta a máquina pública, não apenas ao longo do crime ou mesmo durante a descoberta do escândalo, mas também depois de um longo período. Para se ter uma ideia, os investimentos da pasta em 2012 foram menores do que nos dois anos anteriores. É um fato raro na administração pública, um caso de estudo para não se repetir, pois. Mais uma vez, os números puxaram o debate.

Outra coisa
As autoridades brasileiras precisam entender de uma vez por todas que a sociedade não tolera mais privilégios e mordomias, como se estivéssemos a viver em país atrasado, ainda distante da transparência. Na edição de ontem, o Correio mostrou que o secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Alessandro Teixeira, usa o carro oficial para ir à academia para fazer exercícios. No vídeo, ele aparece com uma garrafinha de água, camiseta branca, bermuda azul e tênis amarelo. Malha - ou melhor, estava indo malhar - com o dinheiro público.

Reforma de base - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 06/04

A terra deixou de ser o principal recurso para o crescimento e a justiça social. Agora é a vez do conhecimento



Esta semana fez 49 anos do golpe militar de 1964 que, além de tentar barrar a influência socialista neste lado da Cortina de Ferro, visava a impedir as Reformas de Base que o governo Goulart se propunha a fazer. As reformas eram uma necessidade para desamarrar nossos recursos econômicos improdutivos e distribuir melhor o produto de nossa economia. Especialmente a terra, amarrada então por latifúndios improdutivos, e a mão de obra sem instrução e impedida de trabalhar na terra. A reforma agrária visava a liberar terras ociosas e a utilizar mão de obra ociosa no campo.

As elites brasileiras temiam perder o controle sobre os recursos de sua propriedade e em consequência a renda que os recursos lhes proporcionavam. Ao mesmo tempo, as forças internacionais e os militares brasileiros temiam que as reformas de base fossem passos para libertar o Brasil do bloco dos países ocidentais e levá-lo para o bloco socialista. A guerra fria no mundo, o egoísmo no Brasil e o sentimento anticomunista de militares levaram ao golpe que barrou as reformas, atrelou o Brasil ao bloco capitalista e implantou uma ditadura por 21 anos.

Mesmo com as reformas abortadas, o Brasil conseguiu crescer, mas criou uma vergonhosa desigualdade social, implantando cidades que são verdadeiras “monstrópoles”. Graças à ciência e à tecnologia, o nosso campo ficou dinâmico, mas vulnerável porque ainda depende da demanda externa por nossas commodities. Mesmo tendo crescido, o Brasil ainda precisa fazer reformas de base em sua estrutura social e econômica. A reforma agrária já não visa a liberar recursos porque a mão de obra já emigrou e a tecnologia usa a terra em latifúndios produtivos. A terra deixou de ser o principal recurso para o crescimento econômico e a justiça social. Agora é a vez do conhecimento.

A grande reforma do século XXI é a reforma no sistema educacional, que permitirá a liberação do imenso patrimônio intelectual latente de um povo à espera de uma educação capaz de induzir o crescimento de uma nova economia e de quebrar o círculo vicioso da pobreza social. O objetivo da reforma educacional é fazer com que cada menino ou menina do Brasil tenha acesso à escola com a mais alta qualidade, não importa a cidade onde viva nem a renda de sua família. Os pequenos avanços nos últimos 30 anos não têm permitido um salto nem na qualidade nem na igualdade, cujo caminho da reforma é a federalização da educação de base. A federalização fará com que cada uma das 200 mil escolas públicas tenha pelo menos a mesma qualidade das atuais 431 escolas federais de educação de base. Para isso, é preciso fazer com que cada criança receba do Brasil o mesmo investimento na sua educação, a fim de possibilitar o seu desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento do país.

Quarenta e nove anos depois, o Brasil continua esperando as reformas que liberem nossos recursos das amarras que os aprisionam, mas, agora, a reforma da educação de base é a reforma de base para o século XXI.

A vida em branco - MIGUEL REALE JÚNIOR

O ESTADO DE S. PAULO - 06/04
Seria verdade que o homem, ao ser expulso do paraíso, sofreu como condenação ter de trabalhar? O trabalho é um castigo? Seria o ócio uma dádiva? Independentemente da necessidade de trabalhar para ganhar o sustento,muitas vezes enfrentando tarefas enfadonhas e repetitivas, impondo-se o deslocamento de casa até a fábrica ou o escritório, com horas de sacrifício dentro do metrô ou do ônibus, penso que o trabalho dá sentido à vida.

Somos condenados a viver. A não ser a instigante hipótese reencarnacionista, pela qual o espírito concorda em voltar ao mundo para passar por novas experiências e novos desafios, nas demais religiões ou no ateísmo se reconhece que não fomos consultados se queríamos nascer ou não. Nascemos e nas condições que se apresentam, devendo enfrentar a situação de filho de beltrano e de sicrana, rico ou pobre,brasileiro, suíço ou angolano. Viver é uma aventura que de plano enfrenta o barulho depois do confortável silêncio do útero materno. Inicia-se o percurso e cabe a cada qual afirmar sua individualidade.

Para preencher o dia a dia que se impõe, a criança, pobre ou rica, brinca na rua ou em casa, vai à escola, faz os deveres escolares, cumpre obrigações a pedido da mãe. Brincar e estudar constituem o trabalho desejado e obrigatório até os 14 anos, visando a construir a formação de uma pessoa. Formação para quê? Para, em sendo adulto, te ruma profissão, em suma, trabalhar.

Cada qual se põe na vida diante desta empreitada: obter sua realização pessoal. Mesmo na Idade Média, quando se dividiam, como diz Le Goff, as pessoas nas categorias dos que lutam e defendem com armas o feudo, dos que oram, rezam para enaltecer a Deus e obter sua proteção e dos que trabalham com as mãos, não deixava de haver afazeres para os diversos estamentos.

Pela via do trabalho a pessoa marca sua individualidade, assinala sua passagem por esta vida, ocupa as horas do cotidiano visando a construir sua autoestima e a conquista importante do reconhecimento dos demais.

Não é por acaso que ao se conhecer alguém a primeira pergunta que assoma dirigir-lhe é: o que você faz? Ao se perceber o que o interlocutor faz, desenha-se no espírito a sua imagem, o seu universo de interesse, sobre o qual pode haver nossa curiosidade, nosso respeito ou até mesmo nosso desdém. Mas surge uma definição de quem é o novel conhecido ao se saber sua profissão ou seu afazer.

O trabalho atua em duas frentes: permite, de um lado, que as pessoas se afirmem perante si mesmas, motivando a busca de realização, podendo trazer orgulho no sucesso ou dor diante de eventual fracasso; e, de outro lado, faz surgir entre os consorciados o reconhecimento de uma condição própria como sapateiro, mecânico, médico, professor, cozinheiro. Esse espaço na sociedade causa satisfação ou desilusão, se reconhecido como o melhor sapateiro do bairro ou como o pior cozinheiro da região.

Discípulo de Habermas, Axel Honneth (Luta por Reconhecimento, ed. 34, 2011, reimpresssão) bem assinala que se imbricam a autoestima e a aprovação social, pois a autorrelação bem sucedida depende do reconhecimento dos demais acerca de suas capacidades e realizações, de forma a se abrir uma falha no indivíduo caso não tenha tido, em momento algum, assentimento social, como consequente surgimento da vergonha.

Preocupante, contudo, é não querer ocupar um lugar no mundo, a ser alcançado com o esforço próprio, modesto ou ilustre, mas fruto da disposição da conquista. O fundamental é viver para instituir uma identidade, uma definição perante os demais, com resultado positivo ou negativo,pois pior do que o insucesso é não ter tido a coragem e o ânimo de sair a campo com as próprias pernas para tentar obter a felicidade na realização de si próprio.

Assim, fracassar na execução de uma profissão ou ofício é do jogo da vida. Mas frustrante mesmo é nem sequer entrar no jogo para fazer algo com sua cara, com seu jeito, da sua forma, esperando infantilmente contar com acontecimentos externos para conseguir preencher o vazio de uma existência sem rosto.

Dois fenômenos da atual sociedade digital, na qual mais se mexem os dedos no iPhone do que se ativamos neurônios, indicam uma falsa felicidade não derivada da efetivação de um projeto, ou, como dizia Ortega Y Gasset, do irrenunciável projeto de si mesmo, mas sim de fatores marcadamente efêmeros, visivelmente enganosos: os relacionamentos na rede do tipo Facebook e o culto às celebridades.

A urgência hoje vivida de compartilhar imediatamente todos os acontecimentos (ouvir uma música, comprar uma roupa,deliciar-se com um vinho, trocar um olhar) retira a vivência da realidade do âmbito individual, pois o essencial é antes dividir com alguém o sucedido para receber imediatamente o assentimento elogioso do que sentir isoladamente o prazer do fato, transformando-se, dessa maneira, o mundo numa grande academia do elogio mútuo. A satisfação, então, vem de fora, pois algo só vale se outrem vier a curtir.

Instala-se um novo cartesianismo: eu compartilho, logo existo.

Outra futilidade alienante domina os espíritos: a celebração das celebridades, os famosos, a mais perfeita criação artificial da mídia. Acompanha-se a existência de um ex-BBB, por exemplo, desde sua ida à praia ou a uma festa, como se fosse a própria vida. Ídolos passageiros, sem conteúdo, apenas virtuais, povoam a fantasia.

A existência perde consistência. Muitos são os espíritos empreendedores, porém, infelizmente, repetem-se hoje jovens para os quais a conquista árdua, a afirmação profissional, deixa de ser importante para que eventuais fracassos não sejam sofridos, mas disfarçados, driblados pelo compartilhamento elogioso de momentos irrelevantes ou pelo consumismo desenfreado, que substitui o ser pelo possuir.

A vida deixa de ter cor, passa em branco.

É preciso abrir a caixa-preta dos cartórios - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 06/04

Estabelecimentos que se alimentam da burocracia movimentam bilhões de reais e se recusam a abrir os seus livros contábeis



Cartórios extrajudiciais, entidades privadas, não fazem parte da estrutura orgânica do Judiciário, mas prestam serviço público por delegação deste Poder, e são fiscalizados pelos tribunais. Por definição, existem para oferecer segurança jurídica ao cidadão, dando fé a documentos e transações comerciais. Deveriam, por isso, funcionar com inquestionável transparência — inclusive financeira —, mas muitos deles habitam, em todo o país, um meio ambiente refratário ao controle de suas atividades.

Assim operando, deixam às claras apenas a evidência de que se alimentam de uma rede de burocracia que custa caro aos clientes, toma-lhes tempo e lhes retribui com serviços nem sempre eficientes, quando não de fé duvidosa. Por outro lado, mantêm à prova de luzes o quanto seus proprietários faturam, por vezes em nebulosas transações.

Num outro viés do problema, um número ainda grande deles — os chamados cartórios biônicos — ignora a resolução do Conselho Nacional de Justiça, de 2006, segundo a qual tais estabelecimentos têm de ser geridos por oficiais concursados. Ao contrário, neles impera o princípio das capitanias hereditárias, transferindo-se titularidades de pai para filho.

Pouco se sabe da vida administrativa dos 13.555 cartórios privados do país. Os estabelecimentos se recusam a dar informações, principalmente as relativas ao faturamento. Que não é pouco: com base num levantamento do GLOBO, sobre repasses obrigatórios, estima-se que somente no Rio de Janeiro e em São Paulo o montante movimentado seja da ordem de R$ 5 bilhões. Um dinheiro captado do público, e empregado sob critérios que desafiam a fiscalização.

Essa caixa-preta dá abrigo a uma fortaleza corporativa e protege do sadio controle da sociedade uma máquina lenta para carimbar papéis e voraz na cobrança dos serviços. Tribunais de Justiça e Assembleias Legislativas, em geral, são camaradas com os tabeliães. Os critérios para a fixação dos valores de custas e emolumentos, definidos pelos TJs e aprovados pelo Legislativo, variam de tal forma, e sempre para avançar no bolso dos clientes, que em São Paulo, por exemplo, subiram 30% em três anos; no Rio, foram aplicados dois reajustes nos últimos três meses. Isso para remunerar serviços por eles monopolizados, como reconhecimento de firma, que nos EUA, em geral, é dispensado nos documentos.

A falta de transparência também estimula atos duvidosos, como o financiamento, pelos cartórios, via taxas extras cobradas do público, de entidades de direito privado, vedado por lei. No Rio, um desses beneficiários, como revelou O GLOBO em série de reportagens publicadas esta semana, é a Mútua dos Magistrados — associação de juízes que têm, como atribuição, fiscalizar os estabelecimentos que lhes repassam as verbas. Claro conflito de interesses. É preciso abrir a caixa-preta.

Ameaça nuclear - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 06/04

Ainda que o ditador norte-coreano e seus generais saibam perfeitamente que as chances de vencer uma guerra contra os Estados Unidos são nulas, eles podem muito bem sacrificar milhões de seus compatriotas em nome de uma loucura


Já há muito tempo se sabe que o regime comunista da Coreia do Norte é adepto das bravatas, especialmente depois de ter, de fato, dominado a tecnologia para a construção de armas nucleares. Mas nunca, no passado recente, as ameaças foram tão intensas. A ditadura de Kim Jong-un declarou nulo o armistício de 1953, que interrompeu a Guerra da Coreia; cortou as comunicações telefônicas militares com a Coreia do Sul; na quarta-feira, o exército norte-coreano anunciou ter recebido o sinal verde para um ataque nuclear contra os Estados Unidos, que até já teriam sido avisados de que o fogo do céu viria nos próximos dias. E, agora, os representantes diplomáticos estrangeiros em Pyongyang receberam a sugestão de empacotar suas coisas e buscar algum lugar mais seguro.

Há décadas a Coreia do Norte acena com a retomada ou a intensificação de seu programa nuclear como forma de chantagear o mundo a abastecer o país, onde a fome é generalizada e meio século de regime comunista conseguiu destruir completamente qualquer possibilidade de subsistência para seus cidadãos. A cada bravata da dinastia Kim seguiam-se concessões das potências ocidentais. Agora, aproveitando que a presidente sul-coreana, Park Geun-hye, assumiu o cargo recentemente, o governo de Pyongyang percebe uma nova oportunidade para provocações.

Outro componente essencial na crise coreana é o vitimismo motivado pelas sanções impostas pela Organização das Nações Unidas no início de março, após testes nucleares norte-coreanos. A mística do “todos contra nós” é tradicional em regimes de esquerda, da Coreia do Norte à Venezuela, e só serve de pretexto para que ditadores amealhem ainda mais poder e justifiquem suas loucuras em nome de uma suposta “salvação nacional”.

O que se passa na cabeça dos generais norte-coreanos e de Kim Jong-un é um mistério. Impossível saber se o fanatismo ideológico os cegou completamente ou se eles têm a consciência de que um ataque equivaleria a suicídio – afinal, é mais que evidente que a Coreia do Norte até conseguiria causar um estrago inicial, mas, sozinha, não teria a menor chance contra a máquina de guerra norte-americana. O assustador é que, ainda que eles saibam perfeitamente das perspectivas que os aguardam, podem muito bem sacrificar milhões de seus compatriotas em nome de uma loucura. Soviéticos, chineses e cambojanos aprenderam da pior forma que o povo é descartável quando se trata de fazer avançar o ideal comunista.

Outra grande incógnita é a posição que a China, tradicional aliado dos norte-coreanos, tomaria no caso de um conflito iniciado por Pyongyang. O governo chinês, que chegou até a apoiar as sanções da ONU contra a Coreia do Norte, no momento tenta esfriar os ânimos com esforços diplomáticos, mas o tratado de defesa mútua entre as duas ditaduras é, na verdade, a única esperança dos norte-coreanos caso eles realmente estejam dispostos a atacar. A entrada da China em um conflito mudaria radicalmente a distribuição de forças na península coreana, mas as consequências de um embate entre duas superportências seriam catastróficas.

Quanto a Estados Unidos e Coreia do Sul, só lhes resta esperar e monitorar as movimentações dos norte-coreanos. Enquanto Pyongyang seguir latindo, as melhores respostas são a serenidade e a tentativa de retomar os contatos diplomáticos, o que não descarta os preparativos para o caso de um ataque. E, se os norte-coreanos realmente estiverem falando sério e dispararem o primeiro tiro, que americanos e sul-coreanos tenham em mente a necessidade de neutralizar o governo adversário causando o mínimo dano à população norte-coreana, que não tem culpa pela insanidade de seus líderes.

É preciso investir muito mais - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 06/04
A economia cresce­rá 3,2% neste ano, puxada por investi­mento 4% maior que o de 2012, se­gundo as novas projeções da Confede­ração Nacional da Indústria (CNI). Há um tom de oti­mismo na apresentação do cenário. "A retomada da atividade industrial parece estar garantida em 2013", de­claram logo de início os autores do Informe Conjuntural divulgado nesta  semana. A esperada expansão do investimento inclui toda a chamada formaçao bruta de capital fixo - compras de máquinas e equipamentos pelas empresas, construção e amplia­ção de fábricas, edificações imobiliá­rias e obras de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, portos, aeropor­tos e sistemas de geração e transmis­são de eletricidade. A manifestação do chamado espírito animal dos em­presários será, portanto, apenas uma das condições necessárias para a es­perada expansão do investimento. O resultado geral dependerá também da competência do governo na exe­cução de seus planos e projetos.
Na terça-feira, um dia antes de sair o Informe da CNI, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) havia informado os números da produção industrial de fevereiro, 2,5% menor que a do mês anterior. Esse recuo praticamente anulou o aumento de 2,6% contabilizado em janeiro, mas, apesar disso, o relatório oficial trouxe um resultado animador, algo como um ponto de luz num quadro ainda escuro. A produ­ção de bens de capital, isto é, de má­quinas e equipamentos, cresceu 1,6% no mês e foi 9,1% maior que a de fevereiro do ano passado, de acor­do com o levantamento do IBGE. Além disso, o resultado do primeiro bimestre ficou 13,3% acima do regis­trado um ano antes.

Nada disso foi suficiente para com­pensar, por enquanto, o desastre de 2012.  A produção de bens de capital acumulada em 12 meses foi 7,8% me­nor que a do período imediatamente anterior. É cedo para dizer se há uma nova tendência, mas os núme­ros de janeiro e fevereiro criam a es­perança de uma retomada do investi­mento, com as empresas voltando a ampliar e a renovar seu parque pro­dutivo.

De toda forma, as previsões de in­vestimento diminuíram desde o fim do ano. Em dezembro, a CNI projeta­va um aumento de 7%, parecido com aquele estimado pelo ministro da Fa­zenda, de 8%. As principais proje­ções incluídas no Informe foram redu­zidas nos últimos três meses. A esti­mativa de expansão do Produto In­terno Bruto (PIB) passou de 4% para 3,2%, praticamente a mesma do Ban­co Central (BC), 3,1%. O crescimen­to previsto para à indústria caiu de 4,1% para 2,6% - mas até esse resulta­do pode parecer satisfatório, depois do recuo de 0,8% em 2012.

Mas é preciso olhar para além de 2013. Não há, por enquanto, como sustentar qualquer otimismo, quan­do se consideram as perspectivas dos próximos anos. O investimento projetado pela CNI, com expansão de 4%, mal servirá para compensar o recuo do ano passado, quando o to­tal investido em todos os setores da economia brasileira foi 4% menor que o de 2011.

Além disso, a formação bruta de ca­pital continuará muito abaixo do ní­vel necessário para sustentar um crescimento econômico em torno de 5% ao ano. O mínimo necessário pa­ra criar um dinamismo parecido com o de outros emergentes seria um investimento equivalente a uns 24% ou.25% do PIB. Vários países la­tino-americanos já chegaram lá. Em muitas economias da Ásia a proporção é igual ou superior a 30%.

Se o Brasil investir neste ano 4% mais que em 2012, a relação entre in­vestimento e PIB subirá de 18,1% pa­ra 18,2% e continuará muito longe do desejável. A agenda necessária pa­ra mudar esse quadro é bem conheci­da e inclui uma desoneração séria da atividade produtiva, algo muito dife­rente de uma porção de remendos mal costurados.

Do lado governamental será indis­pensável uma ampla reforma de usos, costumes e valores. O governo precisa decidir, entre outros pontos, se a sua função é organizar a vida co­letiva e promover certos investimen­tos de importância fundamental ou, bem ao contrário, distribuir cargos e favores a companheiros e aliados e financiar empresas selecionadas sem critérios estratégicos. As últimas me­xidas no Ministério reafirmam a preferência pela segunda hipótese.

Derrame no Japão - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 06/04

Banco central do país asiático inunda mercado com moeda para tentar aumentar a inflação e tirar empresários e consumidores da letargia


A julgar pelas ações recentes de alguns bancos centrais do mundo desenvolvido, as autoridades monetárias não veem muito lugar para timidez nas tentativas de reanimar as respectivas economias. O último exemplo veio do usualmente comedido Banco do Japão.

O BOJ -sigla em inglês pela qual é conhecido- se comprometeu com um relaxamento inédito do controle que mantinha sobre a quantidade de moeda em circulação. Rompeu, assim, o imobilismo de mais de duas décadas diante da deflação que assola a terceira maior economia do mundo.

Se o problema do Brasil é crescer sem perder controle da inflação em alta, no Japão se trata de conseguir aumentar a taxa inflacionária para fazer a economia avançar. Quando a tendência dos preços é de queda contínua, empresários evitam investir, consumidores adiam gastos e todos dão preferência a poupar.

O BOJ vai comprar títulos públicos e privados em quantidade gigantesca pelos próximos dois anos, injetando dinheiro no mercado. Com isso, quase duplicará a base monetária (moeda em poder do público somada às reservas dos bancos), que passará de 35% para 60% do PIB até o final de 2014.

Para comparação: nos últimos cinco anos, o mesmo indicador nos EUA -que tem no Fed o banco central mais inovador no combate à crise- passou de 6% para 20% do PIB. O Banco Central Europeu também promoveu expansão monetária, mas em proporções bem mais modestas.

Além de expandir a moeda em circulação, o BOJ comprará papéis privados em quantidade. Comprometeu-se com uma meta de inflação de 2% ao ano, quando antes tolerava taxas inferiores a 1%.

A nova política, em tudo alinhada com os objetivos do novo premiê, Shinzo Abe, põe o BOJ na liderança global de agressividade monetária. É uma tentativa quase desesperada de romper o ciclo de deflação e recessão que sufoca o país desde os anos 1990.

A questão é saber se funcionará. O impacto vai depender de como o setor privado decidirá usar os recursos derramados na economia. Se ficarem represados nos bancos, nada mudará. O BOJ conta com um choque que arranque empresas e consumidores da letargia. A desvalorização do iene deve impulsionar as exportações.

Por ora, a resposta à chamada "abenomics" vem sendo positiva. A Bolsa subiu quase 50% nos últimos três meses, e o iene recuou 15% diante do dólar. Mas ainda é cedo para concluir qualquer coisa.

O único BC de peso a dar sinais de confiança na retomada econômica é o Fed, resignado com a expectativa de crescimento superior a 2%. Na Europa, o quadro é de nova queda de PIB, o que manterá o ortodoxo BCE às voltas com a dificuldade de estimular a economia.

A medida heroica adotada pelo Japão só vem reforçar a ideia de que uma alta de juros nos países centrais continua distante.

Internação involuntária - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 06/04

O que realmente deve preocupar é se existe estrutura adequada para a internação e o tratamento.


A Câmara Federal deverá votar na próxima quarta-feira o projeto de autoria do deputado gaúcho Osmar Terra (PMDB) que altera a legislação antidrogas em vigor e permite a internação involuntária de dependentes químicos por até seis meses, além de aumentar a pena para traficantes. O regime de urgência para a votação foi aprovado por larga margem: 344 votos a favor, seis contrários e seis abstenções. Apesar da disposição dos parlamentares em enfrentar a delicada questão, são fortes as resistências por parte de organizações de saúde e de direitos humanos, além de setores do próprio governo, notadamente o Ministério da Saúde e a Secretaria-Geral da Presidência da República.


Os argumentos do ex-secretário da Saúde do Rio Grande do Sul são convincentes: "O objetivo é desintoxicar. A pessoa vive na rua, come resto de lixo, vendeu tudo o que tem em casa, não consegue trabalhar, estudar, ou cuidar da família, não tem capacidade de discernir o que é bom para ela e precisa da ajuda da família. Hoje, ela só é internada se quiser, já que a lei atual é restritiva. E nós colocamos que pode ser internada mesmo contra a vontade, se a família pedir e o médico determinar". Famílias que convivem com dependentes sabem muito bem do que o deputado está falando. Há um momento em que o viciado não tem mesmo condições psíquicas e mentais de decidir sozinho se precisa de tratamento.

De outra parte, os argumentos dos opositores das medidas também merecem ser considerados. Há quem pense que a mudança na lei servirá apenas para retirar os drogados da vista da sociedade, autorizando o poder público a executar as chamadas medidas higienistas, condenáveis sob todos os aspectos. Também suspeitam os defensores dos direitos humanos de que apenas pobres e representantes de minorias acabarão atingidos pelo maior rigor da lei. Evidentemente, isso não pode ocorrer. Alguns opositores chegam ao extremo de afirmar que a epidemia de crack é uma invenção _ o que a realidade das grandes cidades brasileiras desmente todos os dias.

De qualquer maneira, o debate é bem-vindo. Temos um problema gigantesco e precisamos buscar soluções práticas para ele. O que realmente deve preocupar parlamentares e autoridades no exame e na aplicação da nova legislação é se existe estrutura adequada para a internação e o tratamento das pessoas que eventualmente forem retiradas das ruas contra a vontade. Sabemos todos que este é um dos grandes bretes da saúde pública hoje _ o que leva muitas famílias de dependentes químicos a recorrer às chamadas comunidades terapêuticas, a maioria mantidas por organizações religiosas, que acabam suprindo as deficiências do Estado. A garantia de efetiva oportunidade de recuperação para os doentes é um pré-requisito indispensável para a aprovação desta legislação, que não se destina apenas a regular crimes e desvios de comportamento, mas a assegurar vida digna a seres humanos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Brasil, hoje, é diferente daquele da Copa de 50. Vamos dar show”

Presidente Dilma revelando-se muito otimista com a organização da Copa de 2014



LULA TIRA DE CAMPOS O SEU PRINCIPAL FINANCIADOR

O ex-presidente Lula aplicou um duro golpe no presidenciável Eduardo Campos (PSB): convenceu o rico empresário José Batista Jr, o “Júnior do Friboi”, a abandonar o partido do governador de Pernambuco para se filiar ao PMDB e, assim, apoiar a reeleição da presidente Dilma. É que o grupo JBS Friboi, de Júnior, gigante dos frigoríficos, que tem o BNDES entre os sócios, deve muitas gentilezas ao ex-presidente Lula.

PUXANDO O TAPETE

Lula sabia que, pretendente ao governo de Goiás pelo PSB, Júnior bancava grande parte da pré-campanha de Eduardo Campos.

COISA DO PASSADO

Lula era tão amigo de Eduardo Campos que até o ajudou a esmagar o senador Humberto Costa (PT) na briga pela Prefeitura do Recife.

SOCIALISMO NA CESTA

Trocando o PSB pelo PMDB, o milionário Júnior do Friboi comprova: não há nada no socialismo que ações do BNDES não possam comprar.

O CRÉDITO DE LULA

O BNDES concentra 22,36% de participação no grupo JBS Friboi, onde o governo Lula investiu pelo menos R$ 7,5 bilhões até o ano de 2010.

NEM LULA SALVA ABERTURA DA COPA EM SÃO PAULO

Fontes da Federação Paulista de Futebol jogaram a toalha no estádio do Corinthians,
time de Lula, que deveria abrir a Copa de 2014: o governador tucano Geraldo Alckmin não vai bancar os R$ 600 milhões para terminar a obrar, que vai parar por falta de dinheiro. Com a prefeitura paulistana impedida por lei de ajudar investimento privado, a Copa deverá ser aberta em Brasília no Mané Garrincha, quase pronto. 

CIRANDA

Ex-presidente do Corinthians, André Sanches foi barrado por Alckmin e por Dilma, que detesta o presidente da CBF, José Maria Marin.

MAU COMEÇO

A encrenca começou há 1 ano, quando a coluna informou que o Ministério Público Federal-SP questionou o “sigilo” do caso no BB.

PENSANDO BEM...

...amigo do peito de Evo Morales, Lula poderia se oferecer em troca da libertação dos 12 corintianos.

SUSPEITA

Baianos suspeitam que a união de Daniela Mercury com uma mulher seria golpe publicitário, para retirá-la do declínio e devolvê-la à mídia. Até porque ela sempre preservou, como uma leoa, a sua vida privada.

FALA, MUJICA!

Quanto mais remenda, piora: o presidente uruguaio José Mujica disse que “falava do Brasil” quando sem querer chamou Cristina de “velha” e de “caolho” (o falecido Néstor Kirchner). E ele quer liberar a maconha...

OLHA A JUSTA!

Pelas 20h45 de quinta, dois policiais desceram de uma viatura da PF e entraram no Porcão de Brasília. Foi engraçado: vários engravatados começaram a sair da churrascaria de fininho. Mas os policiais, devidamente caracterizados, só queriam mesmo encarar uma picanha.

PROFUNDO

No Ceará, Dilma mostrou seu lado, digamos, filosófico: “Eu queria dizer para vocês [que a educação é] compromisso forte, compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo”.

APOIO AMPLO

Os presidentes estaduais do PSD, DEM e PP do Paraná procuraram o senador Alvaro Dias (PSDB) para apoiar sua reeleição ao Senado, em 2014. Garantem também apoio do PSC, PSB e PR.

CALAMIDADE SEM LICITAÇÃO

Logo após uma chuvinha, o prefeito de Juazeiro do Norte (CE), Raimundo Macedo, decretou “calamidade pública” no dia em que Dilma discutia seca em Fortaleza. Decreto de calamidade elimina licitações. Humm...

RANKING DA MORTE

Autor do projeto do marco legal das drogas, o deputado Osmar Terra (PMDB-RS) atribui ao crack a raiz do recorde de homicídios no país. A China, muito maior, tem 13 mil mortes ao ano. Aqui são 52,3 mil.

AGENDA

Como dizia Ibrahim Sued, anotem nos seus caderninhos: o presidente do Paraguai, Federico Franco, avisou no Twitter que não ficará “um segundo mais” na presidência após a vitória do sucessor em agosto.

PERGUNTA NA PORTARIA

Será de graça a consultoria do famoso “consultor” Palocci a Dilma e Lula no apartamento paulista de São Bernardo?


PODER SEM PUDOR

MENTIRA DE POLÍTICO

Indicado governador de Minas em 1977, Francelino Pereira foi muito assediado por nomeações. D. Bilica era das mais insistentes. Ele prometeu atender, mas nada. O tempo foi passando e meses depois encontrou-a instalada na primeira fila, numa solenidade. Saudou-a:

- Olá, dona Bilica! Tenho uma boa notícia para a senhora: acabei de nomeá-la. Sai amanhã no "Minas Gerais", o diário oficial do Estado.

Ela respondeu, em voz alta:

- Como o senhor assinou a nomeação se só me conhece pelo apelido?

Ele ficou envergonhado. Pediu desculpas e a nomeou dois dias depois.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Nova lei de base da educação: Escola será obrigatória a partir dos 4 anos
Folha: PF vai investigar se Lula participou do mensalão
Estadão: MPF abre inquérito para investigar Lula no mensalão
Correio: Órfãos da segurança
Estado de Minas: Território livre: Viciados em crack e moradores de rua proliferam sem controle no Centro de BH
Jornal do Commercio: Recife terá Pacto pela Vida
Zero Hora: Servidores públicos pagarão mais para a previdência no RS

sexta-feira, abril 05, 2013

Dor que não acaba - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 05/04

Na terça, dia 9, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e o Ministério Público Federal vão exumar restos mortais no cemitério de Inhaúma, no Rio.

O propósito é saber, pelo DNA, se são mesmo do guerrilheiro Alex de Paula Xavier Pereira (1949-1972).

Segue...
Ex-aluno do Colégio Pedro II no Humaitá, Alex foi assassinado pelo DOI-Codi de São Paulo em 1972 e enterrado com nome falso no cemitério paulistano de Perus.

Em 1980, uma ossada foi transferida para Inhaúma como sendo a do militante carioca. Como nunca houve confirmação, agora será coletada amostra óssea para DNA.

Crime e castigo
A 17ª Câmara Cível do TJ do Rio manteve a liminar obtida por Aguinaldo Silva contra o Google.

A decisão obriga o provedor a retirar os vídeos do “Pânico na Band”, em que o humorista Ceará imita o grande autor da TV Globo.

Caso descumpra a ordem, a multa é de R$1 mil por dia.

‘Money, money’
O julgamento do pedido de pensão alimentícia que Sthefany Britto cobra de Alexandre Pato foi suspenso por um pedido de vistas, terça, na Terceira Turma do STJ.

Ela pede R$ 50 mil por mês, mas o craque quer pagar R$ 5 mil.

Magoou
O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, que esteve no Brasil em março, ficou chateado por não ter conseguido espaço na agenda de Dilma.

No estaleiro
Miguel Falabella está com dengue.

Guerra ao terror
A Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, do governo federal, comprou 76 trajes antibombas que estarão disponíveis já na visita do Papa Francisco ao Rio, em julho.

Para as copas, compraram R$ 50,6 milhões em equipamentos não letais.

Mestre Mautner
Jorge Mautner, o pensador pop, vai ganhar um portal com todos os seus textos, livros, músicas e até pinturas. O lançamento será terça em Santa Teresa.

ABL internacional
Ana Maria Machado, presidente da ABL, fechou acordos de cooperação entre a academia e a prestigiada universidade Sorbonne, em Paris, e centros na Itália.

O convênio incentiva o estudo da obra de autores brasileiros.

Faz sentido
De Alexandre Nero, o ator que vive Stênio em “Salve Jorge”, na próxima edição da revista “Mensch”:

— Depois dos 40, você percebe o peso da responsabilidade. Esse peso varia de três a seis quilos, e concentra basicamente na faixa abdominal.

Põncio Pilatos
Numa conversa em São Paulo, Dilma e Lula decidiram lavar as mãos. Não vão se meter agora na discussão entre PMDB e PT pelo governo do Rio.

Só vão pensar no assunto no ano que vem.

Sem õnibus
A 4ª Câmara Cível do Rio anulou o decreto que concedeu, sem licitação, todas as linhas de ônibus de Belford Roxo, RJ, às empresas Vera Cruz e Rio D’Ouro (do grupo Flores).

Na decisão, o TJ determinou ainda a imediata suspensão da operação de três linhas, sob pena de multa diária de R$ 30 mil.

Inflação na Gávea
O time não está lá estas coisas, mas, mesmo assim, o título para sócio do Flamengo quase dobrou de preço em duas semanas.

Passou de R$ 4 mil para R$ 7,2 mil.

Cena carioca
Um ônibus da linha 333 (Rodoviária-Alvorada), série C50006, parou num ponto na descida do Alto da Boa Vista, ontem à tarde, no sentido Barra. Uma criança de 7 anos subiu, e o veículo seguiu viagem rapidamente.

O motorista não reparou que, ao arrancar, não permitiu que os avós do menino embarcassem. O do volante também ignorou a reação e os gritos dos passageiros.

Miau na massa
O restaurante Spoleto, da rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, foi pego ontem pela Light.

Fez, que coisa feia!, um gato para roubar energia.

LGBT no Alemão
O Complexo do Alemão vai ganhar a sua primeira parada LGBT, em agosto.

A transformista e ativista Jane Di Castro vai cantar o Hino Nacional na abertura do evento.

Oráculos em Omaha - LUCAS MENDES

BBC BRASIL

"Por favor, fale alguma coisa para testar o som."


"One million, two million, three million (um milhão, dois milhões, três milhões)..."


Warren Buffett tem jeito de menino levado. Modesto. Poderia ter contado em "billions", "one billion, two billion...". A fortuna dele, terceira maior do mundo, é de US$ 45 bilhões. Fui apresentado ao oráculo dos investimentos pelo oráculo do jornalismo brasileiro, Alberto Dines, que foi entrevistá-lo em Omaha.

Dines conseguiu esta difícil entrevista com o menino levado de 82 anos e em pleno vigor mental e físico, graças a outro bilionário, o brasileiro Jorge Paulo Lemann, dono de várias empresas e sócio de Buffett no ketchup Heinz. Dines não só conheceu Jorge Lemann há 50 anos, como o demitiu doJornal do Brasil, na época áurea do jornal mais inovador do Brasil.

Lemann, um corretor, tinha vindo recomendado pelo dono do JB para escrever uma coluna sobre economia, finanças e ações. Alguém, Dines não se lembra quem, comentou que havia um ''problema ético''. O editor-chefe ouviu.

O futuro bilionário foi um gentleman na demissão e, 50 anos depois, quando o Dines pediu a intervenção dele para conseguir a entrevista com Buffett, a resposta positiva foi imediata, acompanhada de um bilhete onde se lembrava da merecida demissão.

Eu fui junto à entrevista a convite do Dines. Fui grato e pago. Teria ido de graça. Passei dias devorando Warren Buffett, o mais fascinante, confiável e menos extravagante capitalista dos Estados Unidos.

Mora até hoje na casa que comprou por US$ 31 mil (R$ 62,6 mil) na década de 50 e nunca teve um motorista. Milhões de americanos investem em ações de Buffett ou investem segundo Buffett. Quando ele decide se livrar de alguma ação, pode apostar na queda. Quando compra, pode apostar na valorização, mas Buffett muitas vezes supreende.

Há quatro anos, disse que não tinha interesse em tecnologia. Pouco depois, investiu US$ 10 bilhões (R$ 20,2 bilhões) na IBM. Disse que jamais investiria na mídia impressa e, desde então, comprou 63 jornais mais 3% da Lee Enterprises, uma rede de Iowa. Todos jornais de cidades pequenas e médias.

Buffett vê o maior futuro do jornalismo na combinação impressa e digital pagas em jornais de pequenas comunidades. Em um momento da entrevista, disse que gostaria de ter sido repórter e apoiaria os filhos se quisessem seguir a carreira de jornalismo. Nenhum quis, mas nunca tinha lido ou ouvido estas informações antes.

O foco da entrevista e o maior interesse do Dines, oráculo e devoto do jornalismo, foi o investimento de Buffett numa espécie ameaçada de extinção. Há 15 anos, Dines faz o programa Observatório da Imprensa, atualmente transmitido pela TV Brasil. O plano dele é comemorar o aniversário em maio com entrevistas com os donos de jornais e revistas mais influentes do Brasil.

Vai abrir a série com Warren Buffett, que passa seis horas por dia lendo jornais e revistas. Entre os impressos, só um, de pequena circulação, oOmaha World Herald, um dos recém-adquiridos por ele. Os outros de leitura diárias são o New York Times, Wall Street Journal, Financial Times e Washington Post, todos de grandes cidades e nos quais não há o menor interesse em investir ou comprar. Não sabe o que vai acontecer com eles, mas tem esperanças na fórmula da assinatura digital, bem sucedida no Times.

Este investimento de US$ 400 milhões (R$ 808 milhões), que ele fez em jornais de cidades pequenas e médias , contraria as tendências dos mercado. Quase todos perdem dinheiro e encolheram nos últimos anos. Estão baratos e este é um dos motivos que levaram Warren a comprar mais de 60. Preço baixo, produto de boa qualidade dirigido por pessoas de talento é a formula que seduz o Oráculo de Omaha.

Por que jornais de comunidades menores? Porque a maioria dos moradores assinam e leem. Nova York, Chicago, Los Angeles são dezenas de mini cidades com interesses divergentes. "Quem mora no centro sul de Los Angeles não quer saber quem morreu em Beverly Hills, mas numa cidade pequena todo mundo quer saber não só quem morreu, como quem casou, divorciou, a novidades da escola, os aumentos e as reduções de impostos. Quem esta interessado numa matéria sobre impostos no Canadá?

Desde a infância, Warren Buffett tem uma conexão jornalística. Ele entregava jornais de porta em porta. Quando o pai, eleito deputado, mudou com a família para Washington, ele passou a ganhar um centavo por jornal. Eram milhares. Economizou o suficiente para pagar metade da própria educação.

As histórias dele como investidor e como salvador de Wall Street já renderam dezenas de livros e milhares de artigos. São irresistíveis e, por elas, é possível contar os sucessos e fracassos das finanças americanas nos últimos 50 anos. Quem colocou US$ 1 mil (R$ 2 mil) na mão de Buffett quando ele começou, hoje tem US$ 25 milhões (R$ 50,5 milhões). Há um lado pessoal não menos fascinante. Vai doar 99% da fortuna dele para a fundação de Bill e Melinda Gates. Sua mulher e filhos vão ficar com 1%. Nenhum fala mal dele.

Astrid é sua segunda mulher. A primeira, Susan, foi a grande paixão de Warren, que quando casou era capaz de sair de casa com sapatos de cores diferentes e sem pentear os cabelos. Tiveram três filhos e ela disse ao marido: ''Eu cuido da casa e você vai fazer o que sabe: ganhar dinheiro''.

Quando Warren ficou multimilionário, ela disse a ele que era a vez dela de cuidar da própria vida. Ia ser cantora na Califórnia. Gostava de jazz. Antes de sair, ligou para uma amiga, Astrid, recepcionista de um restaurante francês em Omaha. Em pouco tempo, com a bênção de Susan, Warren e Astrid se tornaram amantes num menage à trois tao bem administrado que mandavam cartões de natal com a foto dos três juntos. Susan morreu de câncer na boca em 2004. Warren se casou com Astrid.

O pai de Buffett era um deputado federal republicano conservador, famoso pela rigidez de princípios. Quando a Câmara se deu um aumento, ele recusou o dele porque tinha sido eleito ganhando ''xis'' e não poderia decepcionar o eleitorado.

Warren Buffett também era republicano e Suzan foi responsável pela conversão dele ao Partido Democrata e pelos investimentos do marido em causas sociais. Ele nunca se esqueceu de uma frase do primeiro discurso que ouviu de Luther King: "A lei não muda o coração das pessoas, mas protege os mais pobres contra os que não têm coração".

O Oráculo de Omaha fez campanha por Barack Obama, mas sua ação mais contundente e mais anti-republicana dos últimos tempos foi liderar a proposta para aumentar os impostos dos ricos.

Contrariando indicadores dos últimos anos e previsões sombrias para o futuro, Buffett e Dines apostam no grande papel da pequena imprensa.

Terminamos o dia num dos restaurantes favoritos de Warren, o Gorat's. Ele contraria tendências nos mercados de ações e de alimentos. Sua única verdura é batata frita. Não se lembra do gosto de brócolis ou espinafre. Verdes no prato? Jamais. Sua fruta é torta de banana ou sorvete boiando em root beer. O prato é carne, o exercício é golfe. Nem todo dia.

O motorista de táxi que nos levou ao restaurante nos avisou: "Há restaurantes muito melhores em Omaha". A conta foi US$ 40 por pessoa (R$ 80,8). Na mesa, o motorista de táxi é mais confiável do que Buffett.


Vale o escrito - NELSON MOTTA

O GLOBO - 05/04

Por conta de uma interpretação esdrúxula, não teríamos biografias nem de Hitler; bastaria seus herdeiros reivindicar seus direitos no Fórum do Rio de Janeiro


No Brasil democrático são cada vez mais frequentes as notícias de mentirosos, caluniadores e difamadores de jornais, revistas, rádios, televisões e blogs condenados na Justiça a pagar indenizações que lhes castigam o bolso e a retratações humilhantes que os desmoralizam publicamente. Isto vale para qualquer meio de comunicação. Menos para os livros, que ainda podem ser proibidos judicialmente pelos biografados ou seus herdeiros a qualquer momento, por qualquer motivo.

Essa aberração tipicamente brasileira está em vias de extinção com a nova lei que libera biografias, já aprovada na Câmara, deixando um rastro de destruição na história e na memória nacional. O livro é livre, mas cada um responde na Justiça por suas palavras. Vale o escrito.

Há alguns anos fui processado por um personagem secundário da Jovem Guarda que queria ser indenizado porque membros do seu conjunto foram citados no meu livro “Noites tropicais” como acusados por um juiz carioca de corrupção de menores, em 1965. Mesmo com a advogada da editora apresentando testemunhos e farta comprovação do noticiário de imprensa da época, fomos condenados: a indenização era de tal ordem que quebraria a editora, uma das maiores do Rio de Janeiro.

A juíza reconhecia que as provas eram verdadeiras, mas alegava que, pela lei em vigor, só o próprio biografado, ou referido em uma biografia alheia, tem direito à publicação de sua história pessoal. Ponto final. Mesmo se for um criminoso condenado, mesmo se a sua história for pública. Por ela, não teríamos biografias nem de Hitler, bastaria seus herdeiros reivindicarem seus direitos no Fórum do Rio de Janeiro. Na instância superior ganhamos por 3 a 0, e o processo foi encerrado.

Diante disso, antes de escrever “Vale tudo, o som e a fúria de Tim Maia”, fizemos um acordo com o herdeiro do Síndico. Cedi uma fração dos meus royalties, a editora cedeu dos seus, e lhe demos um “levado” que o fazia sócio do livro. Era mais jogo pagar um “direito de imagem” ao herdeiro do biografado — sem direito a censura prévia ou posterior — do que enfrentar um processo caro e perigoso.

Seja cretino com a internet - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 05/04

Um cidadão rico e mal informado a meu respeito pediu-me um conselho: o que deveria fazer para perder dinheiro rapidamente. Motivo: ele se apavorou com alguns comentários apocalípticos que leu por aí e passou a temer que uma reviravolta político-social o surpreenda com os talões de cheques dos bancos suíços, além de outros investimentos nada patrióticos.

Minha primeira sugestão foi no sentido de que me desse o dinheiro à vista, compactamente. Correria eu, de bom grado, os riscos provenientes, embora não mais entrasse no reino dos céus nem passasse pelo buraco de uma agulha --conforme rezam as Santas Escrituras.

A sugestão foi recusada. O homem não dá esmolas. Não tem nenhum interesse em que eu passe ou não passe pelo buraco das agulhas. Ele deseja perder dinheiro fazendo jus ao trabalho, suando o rosto. Exige ideias.

Ficou de pensar na segunda sugestão que lhe dei: a de criar, em nível nacional ou continental um curso gratuito de cretinice por correspondência. Numa época em que os cretinos já nascem feitos e embalados, um curso desses seria o caminho mais prático para a falência.

Evidente que não dei a sugestão de graça. Impus a natural condição de eu próprio orientar o curso, mediante uma remuneração à altura do empreendimento.

Preferi não entrar em detalhes. Limitei-me a esboçar o plano e sua pouca rentabilidade. Ele me implorou que lhe mandasse um e-mail apontando meios e modos de se localizar o cretino em potência ou em ato.

Redigido o e-mail, verifiquei que o esboço tem uma vantagem suplementar, a de servir igualmente para ambos os sexos e até para o terceiro. Resultou num texto transcendental. E comecemos justamente pelo transcendental:

- O cretino, sempre que puder, e mesmo quando não puder, dirá que a coisa --qualquer coisa-- é transcendental.

- Quando interrogado sobre seu compositor predileto, o cretino dirá com modéstia: Cartola. Apesar de apreciar Cartola, é importante que o cretino dê provas de amplidão espiritual e moral, citando também Bach e Frescobaldi.

- O cretino será adepto dos blogs, sites, das pesquisas de mercado, do amor gratificante, da formação de uma boa imagem, do diálogo nada ideológico e da globalização dos resultados.

- O cretino será otimista, acreditará no século 21 e denegrirá a obra musical do Tiririca. Preferirá o cinema de Spielberg e os curtas do cinema baiano, aceitando a experiência do "besteirol", desde que em cores. Mas assistirá às escondidas as comédias do canal Sony e os desenhos animados japoneses.

- O cretino repudiará o fumo, as carnes vermelhas, os refrigerantes que não sejam diet, as mulheres que pintam os olhos e usam saias justas.

- Raspará e deixará crescer a barba de tempos em tempos, considerará o rock mais científico do que a teoria do quantum e dirá duas vezes por dia: "Depois de Duchamp, só Hélio Oiticica!". A frase é tida como profunda, moderna e, até certo ponto, patriótica.

- O cretino estará preocupado com o retorno de Hong Kong ao domínio da China, proclamará a iminente decadência da civilização judaico-cristã e, nas horas vagas, prometerá que um dia emigrará para Papua-Nova Guiné.

- Duas vezes por dia, às vezes três, o cretino pensará que quem estava certo era o Hare Krishna.

- Nos momentos de sufoco, recorrerá aos florais de Bach (não confundir com o Johann Sebastian) e às ervas do Santo Daime.

- O cretino desprezará a família e os hábitos de higiene domésticos. Dirá que só os banqueiros tomam banho para melhor tomarem o dinheiro alheio, e que só as prostitutas, por motivos operacionais, escovam os dentes. Até o dia em que se transformar em bancário necessitado de comer todos os dias à própria custa.

- Quando indagado sobre o seu poeta preferido, o cretino responderá com desdém: "Drummond, logicamente". A cretinice não está em gostar de Drummond, mas no "logicamente" --o que é lógico.

- E, com tanta lógica, sejamos lógicos: o cretino é um santo às avessas, que precisa apenas de sabão e cartilha para se transformar num sujeito aproveitável, digno de ser animador cultural, embaixador em organismos internacionais, diretor de carteira exterior de um banco em vias de falência, assessor de organismos não-governamentais e cronista.


Brics, tijolos sem cimento - JOSEPH NYE

O ESTADÃO - 05/04

Há 3 anos, disse que a sigla não se tornaria um grupo político importante e minha opinião se mantém após a última reunião 
China, Xi Jinping, escolheu Moscou como o destino para a sua primeira visita de Estado. Ele e o presidente russo, Vladimir Putin, anunciaram uma série de acordos e, em seguida, viajaram para a cidade sul-africana de Durban, onde participaram da 5.a cúpula dos Brics, juntamente com os líderes da Índia, Brasil e África do Sul. Na reunião, eles propuseram a criação de um novo banco de desenvolvimento que poderá desafiar o domínio do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Os cinco líderes referiram-se em seus discursos a uma guinada na ordem mundial - e Xi afirmou que “o potencial de desenvolvimento dos Brics é infinito”.

Foi como se os membros do grupo tivessem finalmente chegado à idade adulta. Há três anos, eu olhava os Brics com ceticismo. E, apesar do aparente sucesso da cúpula recente, o meu ceticismo persiste.

O termo “Bric” foi cunhado há cerca dei 2 anos por Jim O’Neill, então o chefe da equipe de economistas do Goldman Sachs, para indicar os mercados emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China. De 2000 a 2008, a participação desses quatro países na produção global cresceu rapidamente, de 16% para 22% (em termos de paridade de poder aquisitivo) e, na crise que se seguiu, suas economias apresentaram um desempenho melhor do que a média.

Para os investidores, esse resultado justificava a criação do interessante acrônimo. Mas, então, aconteceu algo estranho: a criatura ganhou vida.

Em 2009,os quatro países reuniram-se pela primeira vez na Rússia na tentativa de estabelecer uma organização política internacional. Os sul-africa-nos uniram-se ao bloco no final de 2010, de início por razões políticas. Como recentemente O’Neill declarou ao jornal China Daily: “A África do Sul tem muita sorte de fazer parte desse grupo, pois, do ponto de vista econômico, tem dimensões muito reduzidas em relação aos outros”. Além disso, seu desempenho econômico tem sido relativamente fraco, com uma taxa de crescimento de apenas 2,3% no ano passado.

Na realidade, embora os Brics possam ser úteis na coordenação de certas táticas diplomáticas, o termo engloba países extremamente díspares. Não só a Africa do Sul é pequena em comparação aos outros, como a economia da China é maior do que a de todos os demais membros juntos. Do mesmo modo, Índia, Brasil e África do Sul são democracias e ocasionalmente se reúnem em um fórum alternativo, o Ibas. E, embora as grandes autocracias, Rússia e China, achem vantajoso do ponto de vista diplomático alfinetar os americanos, ambos os países mantêm relações diferentes - porém cruciais - com os Estados Unidos. E ambos esforçaram-se para frustrar os esforços da Índia, Brasil e África do Sul para se tornarem membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Imersão. Como escrevi há três anos, em termos analíticos, não faz sentido incluir a Rússia, uma antiga superpotência, no rol de economias em desenvolvimento. Moscou não tem exportações diversificadas, enfrenta graves problemas demográficos e de saúde e, segundo as palavras do próprio ex-presidente Dmitri Medvedev, “precisa modernizar-se enormemente”. O país pouco mudou desde a volta de Putin à presidência, no ano passado.

Embora o crescimento econômico tenha se beneficiado do fantástico aumento dos preços do petróleo e gás na última década, ainda não se destacaram outros setores competitivos, e o país agora encara a perspectiva da queda dos preços da energia. E ainda que pretenda manter um crescimento anual de 5%, sua economia ficou relativamente estagnada no ano passado.

Se os recursos energéticos da Rússia parecem em declínio, os do Brasil se mostram impressionantes, considerando que o país possuiu uma superfície que é o triplo da que tem a Índia, um índice de alfabetização de 90%, e o triplo da renda per capita dos indianos (além de cerca de duas vezes a da China). Entretanto, nos três anos que se passaram desde minha avaliação anterior, o desempenho do Brasil declinou: seu crescimento econômico anual baixou de 7,5%, em 2010, para 1% no ano passado, e para este ano prevê-se uma taxa de 3,5%.

Assim como o Brasil, nos anos 90 a Índia experimentou um surto de expansão da produção depois da liberalização da economia. Na realidade, até poucos anos atrás, o crescimento do PIB aproximava-se das taxas chinesas. Contudo, este ano, seu crescimento deverá se manter em uma taxa relativamente baixa, de 5,9%. Caso o país não melhore sua infraestrutura e seu índice de alfabetização (particularmente entre as mulheres), será improvável que a Índia alcance o ritmo da China.

Portanto, deveremos levar os Brics de hoje tão a sério quanto os Brics de três anos atrás? Significativamente, a reunião de Durban não produziu nenhum detalhe sobre a estrutura do novo banco de desenvolvimento, o que sugere que houve muito pouco progresso no último ano desde a última reunião do grupo, em Nova Délhi, quando foi feito o anúncio do plano.De fato, apesar do empenho em realizar “negociações formais” para a criação do banco, as divergências quanto ao tamanho e às participações no capital da instituição não foram resolvidas.

Essa falta de unidade é um sintoma das incompatibilidades subjacentes entre os membros do Brics. Em termos políticos, China, Índia e Rússia competem entre si pelo poder na Ásia. E, em termos econômicos, Brasil, Índia e África do Sul estão preocupados com os efeitos da moeda desvalorizada da China sobre suas economias.

Há três anos, escrevi que, “os Brics não devem se tornar uma organização política importante de países que compartilham as mesmas ideias”. Essa última reunião dos Brics não me deu nenhuma razão para rever a minha avaliação.

O neoimperialismo dos Brics - PATRÍCIA CAMPOS MELLO

FOLHA DE SP - 05/04

Logo depois da cúpula dos Brics, o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, viu-se na obrigação de negar que as relações entre o grupo de cinco países e a África configurem "uma nova colonização".

"Os países africanos não andam à procura de serem colonizados. Andam à procura de amizade e cooperação. É neste quadro que nos reunimos com os Brics", disse Guebuza ao jornal estatal Notícias, logo após a cúpula, que se realizou no dia 27 de março em Durban, na África do Sul.

O ex-presidente Lula, grande impulsionador da aproximação com a África, e a presidente Dilma insistem em uma parceria diferente com o continente, que seja o oposto do imperialismo praticado pelas potências ocidentais por séculos.

"Estamos unidos --Brics, América Latina e África-- em um grande projeto comum de crescente aproximação e de objetivos compartilhados, uma parceria entre iguais, que se constrói no respeito mútuo, voltada para o desenvolvimento e o bem-estar de seus povos, uma parceria que abandonou e abandona as agendas ocultas, cuja característica --e nós conhecemos isso muito bem-- era utilizar a ajuda econômica como instrumento político", discursou Dilma em Durban.

Mas, ao mesmo tempo, os Brics estão se lançando com avidez à exploração dos recursos minerais no continente africano, e isso gera tensões. Existe a percepção de que os Brics não se diferenciam tanto dos antigos colonizadores, uma vez que também estão disputando a exploração dos recursos naturais do continente, sem estimular de forma significativa a industrialização ou criar empregos.

Em artigo no "Financial Times", o presidente do Banco Central da Nigéria, Lamido Sanusi, advertiu que a China está agravando a desindustrialização e o subdesenvolvimento na África e o continente está sujeito a "uma nova forma de imperialismo". "Em boa parte da África, os chineses montaram enormes operações de mineração. Eles também estão construindo obras de infraestrutura. Mas, com poucas exceções, eles fazem isso usando equipamento e mão de obra importados da China, sem transferir conhecimentos para as comunidades locais", escreveu.

"A China leva nossos produtos primários e nos vende manufaturados. Esta foi também a essência do colonialismo", escreveu.

Segundo Sanusi, a África deve reconhecer que "a China --como os EUA, a Rússia, a Grã-Bretanha, o Brasil-- está na África não no interesse africano, mas em seu próprio interesse".

A China é o principal alvo das críticas.

Mas o Brasil, com sua mega expansão na África por meio de empresas como a Vale, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Correa e outras, começa a sofrer ataques também.

A criação do banco dos Brics está imersa nessa questão. A proposta dos Brics é criar um banco multilateral diferente, para cooperação sul sul, e sem as imposições comuns nos empréstimos concedidos por instituições ligadas às potências ocidentais, como o Banco Mundial.

"É um sintoma do passado colonial africano o problema que as instituições de Bretton Woods têm investido em África com muitas condições. Penso que os governos africanos sentiram-se sem forças para fazer avançar as suas exigências. O que precisa ser redefinido são os termos do compromisso desses contratos.", disse Guebuza.

Mas as ONGs estão bastante preocupadas --temem que o banco do Brics seja usado apenas para financiar grandes obras na África de interesse de empresas dos países brics, sem atentar para problemas ambientais e de direitos humanos.

"Não gostaríamos que o banco dos Brics fosse mais do mesmo, ou seja, como o Banco Mundial, o FMI e os bancos nacionais de desenvolvimento, que em geral financiam projetos concentradores de renda, dão quase nenhuma transparência aos projetos que financiam e apoiam obras violadoras da legislação ambiental e até de direitos humanos. Os dois exemplos mais trágicos de projetos assim, no Brasil, são a siderúrgica TKCSA no Rio de Janeiro e a usina Belo Monte, no rio Xingu, no Pará", diz Carlos Tautz, coordenador do Instituto Mais Democracia.


Escravos domésticos e rurais em disputa - MARIA CRISTINA FERNANDES

Valor Econômico - 05/04

O deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT) é o autor da Proposta de Emenda Constitucional que igualou os direitos dos empregados domésticos aos trabalhadores em geral.

Com ele votaram 347 parlamentares. Opuseram-se os deputados Jair Bolsonaro (DEM-RJ) e Vanderlei Siraque (PT-SP). O presidente do Senado, Renan Calheiros, comemorou o feito, capitaneado por seu partido, em rede nacional de rádio e televisão.

O deputado já previa a quase unanimidade entre seus pares. "É um assunto que inibe as pessoas", diz. Elogia dois petistas que o ajudaram a passar o projeto à frente de outras 150 PECs, o ex-presidente da Câmara Marco Maia (RS) e o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, João Paulo Cunha (SP), mas diz que chegou a temer a interferência do governo federal.

Autor da PEC das domésticas se absteve na do trabalho escravo

Conta que a comissão criada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para cuidar do assunto acabou abortada por interferência da área econômica, que temia desemprego.

Bezerra já foi prefeito, deputado estadual, senador e governador do seu Estado, mas diz que nunca fez nada tão importante quanto esta lei.

Há menos de um ano, o deputado participou de outra sessão muito relevante para os direitos dos trabalhadores. No dia 22 de maio de 2012, a Câmara dos Deputados votou a PEC que confisca terra em que seja constatado trabalho escravo.

O deputado Carlos Bezerra se absteve da votação: "Sou totalmente a favor do fim do trabalho escravo, mas não me lembro como votei".

Ex-prefeito de Rondonópolis, na pujante fronteira agrícola do Centro-Oeste, o deputado diz não ter sido pressionado por sua base eleitoral contra a proposta. Tampouco por seus familiares.

No ano anterior à votação, uma equipe de procuradores e do Ministério do Trabalho autuou a fazenda de um sobrinho do deputado por abrigar 12 trabalhadores em condições degradantes.

Bezerra diz não ter qualquer relação com a fazenda do sobrinho. "Minha base eleitoral é de trabalhadores", assegura. São ilações da mesma ordem, diz, que o tornaram réu no Supremo Tribunal Federal. Sua gestão na presidência do INSS é acusada de desviar recursos.

Nenhuma dessas digitais diminui a importância da PEC das Domésticas. É o primeiro passo para o Brasil colocar na mesma ordem de grandeza duas estatísticas que resumem seu atraso social: o país que tem 3% da população mundial abriga 13% do total de trabalhadores domésticos do planeta.

O envolvimento do deputado e de seu partido na tramitação dessa proposta revela os meandros das medidas que mudam a vida do país. A PEC das Domésticas foi aprovada em três anos porque a classe média tradicional não tem, no Congresso, a mesma interlocução política desfrutada pelos ruralistas. Há 14 anos seguram a aprovação da proposta que pune a contratação de serviços prestados em situação degradante.

Ao se abster na votação da PEC do Trabalho Escravo, o deputado teve a companhia de outros 24. A proposta foi aprovada na Câmara com 360 votos e teve a oposição de 29 parlamentares. PMDB e PSD foram os partidos que mais se opuseram à proposta.

Cada um deu sete votos contra. Foram também os partidos cujos parlamentares mais se abstiveram. Além de Bezerra, outros seis pemedebistas, apesar de presentes à sessão, preferiram não se comprometer com o resultado da votação.

A PEC do Trabalho Escravo começou a tramitar 11 anos antes da proposta das Domésticas. Conviveu, durante todo o governo Lula, com o poder crescente dos ruralistas e só na gestão Dilma Rousseff arregimentou maioria para passar na Câmara.

No Senado, onde peleja para ser aprovada, enfrenta a aguerrida oposição da senadora Kátia Abreu (PSD-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura e hoje um dos principais esteios de Dilma Rousseff no agronegócio.

Se o PMDB viu na PEC das Domésticas uma oportunidade para reverter o dano na imagem do partido causado pela exposição dos malfeitos de suas principais lideranças, melhor para o país. As trapaças pemedebistas continuam por aí, mas o Brasil ganhou uma legislação capaz de sacolejar as entranhas de sua divisão social. Vai que assim o PT se mexe para aprovar a PEC do Trabalho Escravo e fazer jus à segunda letra de sua sigla.

As empregadas domésticas têm acomodado as insatisfações da classe média tradicional com sua persistente perda de posição na renda do país. São fartas as estatísticas que mostram avanços salariais maiores para quem ganha menos.

É isso que tem, em grande parte, inflacionado o custo dos serviços prestados por esses assalariados da base da pirâmide. Os serviços prestados por esses trabalhadores, quase tão caros quanto os de países ricos, são consumidos por uma classe média que está com sua renda achatada, não se reconhece nos seus companheiros de fila da alfândega e vê as chances de seu filho entrar numa universidade pública reduzidas pelo sistema de cotas, outra medida recentemente aprovada pelo Congresso.

Está dada, assim, a equação de uma tensão social crescente. Mas talvez seja essa a senha para um envolvimento da classe média tradicional com a política que extrapole a histeria anticorrupção.

A jornada de trabalho de pais que nasceram na classe média também pode ser extenuante e costuma ser resolvida com a contratação de empregados domésticos. Se o orçamento não comportar e os sindicatos continuarem a ser vistos como lugar de peão, algum canal para verbalizar essa insatisfação há de ser encontrado.

Não dá para imaginar que esse achatamento no topo da pirâmide leve escolas, transportes e hospitais públicos a se encherem de classe média de uma hora para outra, mas a ampliação do uso desses serviços por quem tem um outro padrão de referência pode levar a uma maior cobrança por melhoria.

Quem resistir há de dar sustância a uma direita que não se envergonhe de mostrar a cara. Do outro lado estarão aqueles que aceitam pagar o preço da mudança social. No mercado partidário, vencerá quem, além de oferecer o maior desconto, entregar a mercadoria.

Petrobras dilapidada e empresas no vermelho - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 05/04

Como se não bastasse a queda de 36% registrada em 2012, em relação ao ano anterior, no pior resultado da empresa desde 2004, a Petrobras volta à ordem do dia com mais notícias negativas que revelam a que ponto chegou a dilapidação de seu patrimônio durante os governos do PT.

Segundo reportagem da revista "Época", a estatal vem promovendo um verdadeiro "feirão" no exterior, com a venda de refinarias, poços de petróleo, postos de combustível e participações em empresas, com o objetivo de sair do vermelho.

Na Argentina, a companhia vendeu 50% das ações que detinha na Pesa, a estatal daquele país, para o grupo Indalo, cujo dono é um dos principais apoiadores da presidente Cristina Kirchner. A empresa se tornará dona de 33% da Pesa e comprará todas as refinarias, distribuidoras e unidades operadas pela Petrobras por US$ 238 milhões.

Em 2002, a estatal brasileira comprou a participação na Pesa por US$ 1,1 bilhão e assumiu uma dívida de mais de US$ 2 bilhões para ficar com 58% da companhia. Após investir US$ 2,1 bilhões até 2009, a Petrobras passou a ser dona de 67% da Pesa.

Ainda vivendo uma situação de completo descalabro por conta dos efeitos da gestão temerária de José Sérgio Gabrielli, homem da confiança do ex-presidente Lula, a Petrobras não tem dinheiro em caixa e agora vende seu patrimônio abaixo do preço de mercado para tentar sair do buraco em que se meteu graças à irresponsabilidade e ao populismo desenfreado dos governos petistas.

Tanto é assim que a atual chefe da estatal, Maria das Graças Foster, já admitiu publicamente que 2013 seria ainda mais complicado que 2012 para a Petrobras, que só no ano passado sofreu um tombo de US$ 4,33 bilhões em seu valor de mercado.

Na esteira da penúria enfrentada por uma das empresas mais importantes do Brasil, a incompetência administrativa do PT também atinge outras companhias estatais, como a Eletrobras, que anunciou na última semana o maior prejuízo de sua história: R$ 10,49 bilhões no quarto trimestre de 2012 e R$ 6,9 bilhões no acumulado do ano passado.

Trata-se do pior resultado já verificado entre todas as empresas de capital aberto em qualquer período trimestral, de acordo com levantamento da consultoria Economática.

O mesmo estudo revela um cenário desolador para as companhias brasileiras de capital aberto de forma geral. As 76 empresas que reportaram prejuízos no último trimestre de 2012 perderam R$ 25 bilhões, três vezes mais que no período de outubro a dezembro de 2011.

Entre as companhias mais importantes afetadas pelas graves dificuldades econômicas do país, aparecem a Vale, que perdeu R$ 5,6 bilhões no quarto trimestre, e a Gol, com prejuízo de R$ 447 milhões no período.

O loteamento de cargos levado a cabo pelo governo do PT nas estatais, notadamente na Petrobras, e a má condução da política econômica por Dilma e sua equipe são responsáveis pelos resultados desastrosos das empresas brasileiras.

A realidade vem mostrando os efeitos deletérios para a economia do país do populismo adotado desde Lula e dos equívocos da gestão petista. Infelizmente, quem paga caro por tamanha incompetência são as companhias nacionais.

Morte lenta - MARCELO COUTINHO

O GLOBO - 05/04
Depois de tantos retrocessos desde 2008, parece consolidada a tendência de aumento dos buracos na Tarifa Externa Comum (TEC) e do protecionismo no Mercosul. Pouco a pouco, outros países - China à frente - ocupam um espaço que era nosso.

Por inoperância, o Mercosul vive uma morte lenta. Sem coragem de lançar uma nova agenda regional de liberalização porque isso desmentiria tudo o que sempre acreditaram, os governos "esquerdistas" apenas assistem a decadência do bloco econômico.

Não é a primeira vez que o Mercosul passa por dificuldades. A crise do governo De La Rúa quase acabou com tudo. Não obstante, o bloco voltou a crescer com a alternância de poder generalizada que tomou a região e trouxe ânimo novo àquela época.

Agora a situação parece mais grave não porque a Argentina esteja em bancarrota, e sim por causa da perda da importância relativa desse arranjo regional. Vizinhos latino-americanos inventaram uma aliança do Pacífico com livre comércio que nos exclui. E EUA e União Europeia fecham uma gigantesca área do mesmo tipo da qual também estamos fora. O Ocidente está se movendo como não fazia desde 1941.

As peças do tabuleiro internacional estão se mexendo e o Brasil está parado. A política da "paciência estratégica" envelheceu. É fácil constatar a desorganização econômica da Argentina: inflação alta e crescente. Faltam alguns bens nas prateleiras, e os supermercados começam a retirar valores que orientam os consumidores. Enfim, atraso de duas décadas.

Em nada a paciência estratégia pode agora ajudar a Argentina. Ao contrário. As coisas tendem a piorar até mesmo no Brasil, com o desequilíbrio da sua balança comercial e a importação inflacionária não só do vizinho portenho, mas também da Venezuela. A política comercial brasileira deixou todos menos competitivos no bloco.

Infelizmente, o que seria um erro há alguns anos, agora é a única saída: acabar com a união alfandegária para que possamos fazer nossas próprias negociações no comércio internacional sem precisar que todos os vizinhos concordem. O Brasil enfrenta hoje em dia o que o Rio já sofreu, perdendo no passado suas indústrias, enquanto o Brasil se industrializava. Dessa vez, é o país que perde suas indústrias enquanto os asiáticos crescem aceleradamente. Um deslocamento externo.

A indústria brasileira que mal repõe neste momento perdas de 2012 não altera a tendência de voltarmos a sermos vendedores de produtos primários, com raríssimas exceções. A verdade é que esse período, desde o final do governo Lula, deve entrar para a história como aquele em que perdemos o "diamante" do desenvolvimento.

A cooperação com o nosso maior parceiro regional deve prosseguir. Há muito mais em jogo do que economia. O que está acontecendo no Brasil não é culpa do Mercosul. Mas o bloco tem uma trava que se tornou inconveniente. Temos que melhorar para os vizinhos também melhorarem. Sigamos em frente.

Investimento em Defesa precisa ser perene - LUIZ CARLOS AGUIAR

O GLOBO - 05/04
O cenário geopolítico mundial está mudando e hoje o Brasil participa de forma mais ativa como ator regional e global, aumentando a necessidade de investimentos na defesa e segurança da nação. Somos um povo pacífico, mas ainda sofremos com a violência, o narcotráfico e a exploração ilícita de nossos recursos naturais. O mesmo país que foi escolhido para sediar as próximas edições da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos é também um dos maiores consumidores de drogas do mundo, mesmo sem ser produtor primário dessas substâncias.

Felizmente, dois projetos poderão começar a mudar esta triste realidade: o primeiro satélite geoestacionário brasileiro, para comunicações estratégicas e ampliação do programa nacional de banda larga, e o sistema de monitoramento integrado de fronteiras (Sisfron). Em ambas as iniciativas a indústria brasileira lidera esses projetos em conjunto com parceiros internacionais.

Com uma força de engenharia invejável, nos setores aeroespacial e de defesa, estamos certos de que podemos fazer muito mais. A indústria nacional de Defesa se diversificou e está se consolidando em torno daquilo que mais gosta e sabe fazer: a gestão de projetos complexos de alta tecnologia nos campos aeroespacial e de defesa e segurança. Radares, sistemas de apoio à decisão e de comunicação inteligente, além de veículos aéreos não tripulados, fazem parte das nossas soluções integradas, assim como os aviões militares.

O campo aeronáutico continuará a ser a força motriz do crescimento deste setor e serve como excelente exemplo desse novo ciclo virtuoso. O cargueiro militar KC-390, que será produzido pela Embraer Defesa & Segurança, continua em pleno desenvolvimento e será um vetor importante na arena internacional, estabelecendo um novo conceito de mobilidade, capacidade preconizada na nossa Estratégia Nacional de Defesa.

É importante esclarecer que os benefícios de uma indústria de defesa fortalecida se estendem por todos os segmentos da sociedade civil, ao estimular o desenvolvimento tecnológico, criar produtos de exportação de alto valor agregado e gerar emprego e renda. Para isso, as empresas brasileiras precisam conceber tecnologia e exportá-la para outros mercados. A nona edição da maior feira de defesa da América Latina, que acontece semana que vem, no Riocentro, é uma excelente oportunidade para ver de perto os avanços desta indústria no País.

Nosso DNA de desenvolver tecnologia e transformá-la em produtos, serviços e soluções que servem para o Brasil e para o mundo ocorrerá com a maturação de todos esses projetos. A indústria brasileira realizou com sucesso projetos no ramo aeronáutico militar e já exportou para mais de 40 países em todos os continentes, gerando empregos, divisas, renda e tributos para o Brasil.

Por fim, gostaria de reafirmar a capacidade transformadora que o poder de compra do Estado tem para a indústria que desenvolve tecnologia. No entanto, o investimento nesta área precisa ser perene e, para que isso aconteça, as empresas brasileiras devem buscar a integração competitiva de suas respectivas cadeias de suprimentos e, desta forma, reunir condições de exportar.