FOLHA DE SP - 31/03
Tempo de despacho de importado cresce 30% em 2012
O tempo médio de despacho de importações teve alta de 30% em 2012, segundo dados da Receita Federal.
Do registro da declaração de importação à sua liberação, as cargas levavam, em 2011, em média 1,71 dia. Em 2012, passaram a 2,23.
Cerca de 88% das mercadorias são desembaraçadas pelo canal verde, para onde é encaminhada a carga que, pela análise de risco, é dispensada da conferência aduaneira.
"No verde, em duas horas podem estar liberadas. A média no amarelo e no vermelho é de 2,23 dias", afirma Marcos Siqueira, superintendente-adjunto da Receita Federal em São Paulo.
As remessas expressas, em 95% dos casos, são desembaraçadas para as empresas no dia da chegada do voo, diz. "Do restante, 80% são liberadas logo após a conferência."
Para Siqueira, a piora do prazo de desembaraço se deve a gargalos e nem tudo deve ser creditado à Receita Federal.
"Houve greves de vários órgãos, como a da Anvisa."
Além disso, enquanto o importador não envia a declaração de importação, a Receita não inicia o processo.
"Muitas importações também dependem da anuência de outros órgãos, como celulares, que precisam passar pela Anatel", lembra.
Os depósitos, a maioria públicos, onde ficam as cargas, também são outro ponto sensível no rota das mercadorias.
Mesmo liberadas pela Receita, os "recintos" só as separam depois do pagamento de taxas e ICMS.
Entre importadores, os prazos divergem. "No nosso caso, o desembaraço dificilmente ocorre antes de 15 dias em canal verde", diz Adilson Carvalhal Júnior, presidente da Abba (de exportação e importação de alimentos e bebidas).
"Em canal vermelho [fiscalização documental e física da mercadoria], pode demorar até 40 dias", acrescenta.
Para os setor de máquinas e equipamentos, "a liberação em canal verde leva de três a cinco dias úteis", diz Ênio Crispino, da Abimei.
Compromisso bávaro
A Dachser, multinacional alemã de logística, tem um projeto para acelerar o transporte de mercadorias entre a Alemanha e o Brasil, mas só vai garantir prazos até a chegada em portos e aeroportos.
"Depois dessa etapa, é complicado. O desembaraço na aduana brasileira é por conta dos clientes", diz Joachim Kohl, CEO da Dachser Brasil Logística.
"No aeroporto de Viracopos, a liberação pelo canal verde (para carga liberada sem vistoria) ocorre na mesma data ou em dois dias. Em Santos, pode chegar a cinco", diz. "Mas quase 90% vão pelo verde."
A transportadora vai oferecer coleta de carga todos os dias no país, onde há 1.300 empresas alemãs.
"Por avião, garantiremos o embarque no mesmo dia e, por mar, no primeiro navio disponível", afirma.
Para a clientela, o que mais preocupa é a dificuldade em prever quando a carga chegará, segundo Kohl. "Eles precisam de previsibilidade para a produção."
Reunião... Cerca de 20 entidades que estiveram no Ministério do Meio Ambiente,na semana passada, discordam da proposta de incentivos governamentais para reciclagem em setores que não "fizeram a lição de casa".
...ambiental Para a Abralatas, 98% das latas de alumínio do país são recicladas sem ajuda do governo. "Dar incentivos para uma indústria que recicla pouco é tornar o processo artificial", diz Renault Castro, diretor-executivo da entidade.
Com que roupa
Comportados no escritório
O próximo inverno deve chegar com um visual mais conservador, ao menos pelo que foi mostrado nos desfiles das coleções outono-inverno na Europa e nos Estados Unidos.
As principais grifes apresentaram saias bem abaixo dos joelhos.
Muitas marcas apostaram também em blusas, jaquetas e vestidos mais fechados, com muito poucos decotes.
domingo, março 31, 2013
Governo e crise - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 31/03
O desfecho de mais uma crise bancária, desta vez em Chipre, provocou novamente acalorada discussão sobre causas e consequências da grande crise detonada em 2008 pelos chamados títulos "subprime" nos EUA.
A conclusão mais popular sobre as razões da crise é a de que os governos deixaram o mercado financeiro funcionar de forma muito liberal, e os bancos exageraram. Portanto, a solução estaria na intervenção governamental nos mercados.
A análise histórica leva a outra conclusão. Primeiro, é necessário enfatizar que o que foi feito do ponto de vista de regulamentação bancaria pós-crise não foi intervir nos mercados nem direcionar empréstimos dos bancos. Muito pelo contrário. Simplesmente foram estabelecidas diversas medidas visando elevar a segurança do sistema financeiro, que é o papel adequado para o regulador.
Segundo, a história mostra outra vertente da origem da crise, que foi o papel do governo americano na sua geração. Essa história começa no final dos anos 1990, quando o governo dos EUA estabeleceu programas de incentivo a empréstimos subsidiados para pessoas de baixa renda morarem nos centros das cidades e forçou os bancos a participar.
Posteriormente, duas agências semigovernamentais, Fannie Mae e Freddie Mac, começaram, em escala crescente, a garantir títulos de crédito imobiliário visando expandir esses programas a outras regiões e classes sociais dentro de uma linha de estímulo à casa própria.
Essas instituições eram semigovernamentais no sentido de que sua ação era direcionada pelo governo, mas formalmente não eram do governo, e assim seu passivo não estava no Orçamento. Quando quebraram, o governo teve de pagar o custo, e o prejuízo foi enorme.
Paralelamente, o Fed (BC dos EUA) produziu política de longo prazo de juros muito baixos, ajudada pela deflação importada da China por meio de mercadorias manufaturadas cada vez mais baratas e outros fatores, a chamada "grande moderação".
Isso tudo levou a uma expansão desregulada de crédito e uma assunção de riscos cada vez maiores por parte das instituições financeiras. Quando a dívida das famílias tornou-se excessiva, a inadimplência aumentou, os bancos começaram a cortar crédito e tiveram prejuízos, o consumo caiu, as empresas se deterioraram, o emprego desabou, e o resto é história.
A solução do problema custou centenas de bilhões de dólares ao contribuinte americano.
A conclusão é que mais danoso que um mercado completamente sem regulação é a intervenção governamental visando direcionar políticas de crédito a setores que ofereçam apelo político.
O desfecho de mais uma crise bancária, desta vez em Chipre, provocou novamente acalorada discussão sobre causas e consequências da grande crise detonada em 2008 pelos chamados títulos "subprime" nos EUA.
A conclusão mais popular sobre as razões da crise é a de que os governos deixaram o mercado financeiro funcionar de forma muito liberal, e os bancos exageraram. Portanto, a solução estaria na intervenção governamental nos mercados.
A análise histórica leva a outra conclusão. Primeiro, é necessário enfatizar que o que foi feito do ponto de vista de regulamentação bancaria pós-crise não foi intervir nos mercados nem direcionar empréstimos dos bancos. Muito pelo contrário. Simplesmente foram estabelecidas diversas medidas visando elevar a segurança do sistema financeiro, que é o papel adequado para o regulador.
Segundo, a história mostra outra vertente da origem da crise, que foi o papel do governo americano na sua geração. Essa história começa no final dos anos 1990, quando o governo dos EUA estabeleceu programas de incentivo a empréstimos subsidiados para pessoas de baixa renda morarem nos centros das cidades e forçou os bancos a participar.
Posteriormente, duas agências semigovernamentais, Fannie Mae e Freddie Mac, começaram, em escala crescente, a garantir títulos de crédito imobiliário visando expandir esses programas a outras regiões e classes sociais dentro de uma linha de estímulo à casa própria.
Essas instituições eram semigovernamentais no sentido de que sua ação era direcionada pelo governo, mas formalmente não eram do governo, e assim seu passivo não estava no Orçamento. Quando quebraram, o governo teve de pagar o custo, e o prejuízo foi enorme.
Paralelamente, o Fed (BC dos EUA) produziu política de longo prazo de juros muito baixos, ajudada pela deflação importada da China por meio de mercadorias manufaturadas cada vez mais baratas e outros fatores, a chamada "grande moderação".
Isso tudo levou a uma expansão desregulada de crédito e uma assunção de riscos cada vez maiores por parte das instituições financeiras. Quando a dívida das famílias tornou-se excessiva, a inadimplência aumentou, os bancos começaram a cortar crédito e tiveram prejuízos, o consumo caiu, as empresas se deterioraram, o emprego desabou, e o resto é história.
A solução do problema custou centenas de bilhões de dólares ao contribuinte americano.
A conclusão é que mais danoso que um mercado completamente sem regulação é a intervenção governamental visando direcionar políticas de crédito a setores que ofereçam apelo político.
Inflação, crescimento e o que pensa a presidente - SUELY CALDAS
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Não há dúvida de que a presidente Dilma Rousseff tropeçou nas palavras ao falar de inflação versus crescimento na quarta-feira, soltando a corda para o mercado financeiro apostar - e especular - na queda dos juros futuros. Não há dúvida, também, de que os "agentes do mercado" torcem por acontecimentos, declarações, escorregões de autoridades e o que mais surgir que justifique o sobe e desce de preços de ativos e indicadores. Eles não gostam de estabilidade, de mercado parado, porque sua fonte de lucro é a gangorra das cotações, tanto faz subir ou cair, o que importa é a volatilidade.
Por isso quem, no governo, tem poder de influência sobre o mercado precisa ter cuidado, falar as palavras certas, não deixar dúvidas nem nada que possa gerar interpretações dúbias, frouxas.
Por essa razão, desde a segunda metade dos anos 1990, o Banco Central (BC) vem reforçando os mecanismos de previsibilidade de suas ações futuras, levando certezas, sempre que possível, fixando metas para a inflação, deixando claras as suas posições e projeções em atas do Comitê de Política Monetária (Copom) e nos relatórios trimestrais de inflação (no de quinta-feira o BC elevou a projeção de inflação anual para o final de junho de 5,5% para 6,7%, ultrapassando o teto da meta). Enfim, o Banco Central vem evitando dar motivos para o mercado fazer o que sabe e gosta: especular, criar volatilidade, maximizar lucros.
Os "agentes do mercado", no entanto, também não desconhecem: 1) que a presidente Dilma é economista focada em produção, não é do ramo financeiro, não tem a expertise nem o cuidado com as palavras que tem um presidente do Banco Central ao falar de inflação, crescimento econômico, juros; e 2) este item é o mais importante: Dilma Rousseff está, sim, atenta à inflação, porém esticar a corda do bom desempenho do emprego e da renda salarial e perseguir o tão obsessivo quanto inalcançável pibão a preocupam bem mais.
Afinal, o que vem sustentando o alto índice de popularidade da presidente são emprego e dinheiro no bolso do eleitor, e seguem nessa direção os conselhos de seu guru político, o ex- presidente Lula.
Na verdade, no que se refere ao tripé inflação-juros-PIB, a diferença mais evidente entre a presidente Dilma e a maioria dos economistas - ligados ou não ao mercado financeiro - está na quantificação dos índices. Enquanto eles defendem trazer a inflação para o centro da meta (4,5%) e, passo seguinte, reduzi- la para 3,5%, a presidente tem demonstrado maior tolerância com o índice.
Dilma é sincera quando repete que não permitirá o descontrole da inflação (qual governante quer isso?). Mas ninguém sabe até onde vai a sua tolerância e se essa tolerância põe em risco o descontrole. Seria o teto da meta? Acima de 6,5%, a luz vermelha acende e o Banco Central desencadearia ações duras em juros, crédito e com efeito na atividade econômica? Ou elevar a meta da inflação é uma possibilidade real? Mas e o custo político disso?
Sem respostas para essas perguntas, restam pistas. Uma delas: o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros prediletos de Dilma-Lula e quase presidente do Banco Central no governo anterior, fez palestra no Instituto Lula na segunda- feira. Ouviram seus argumentos o ex-presidente Lula e o ex-ministro Antônio Palocci. Dois dias depois, possivelmente treinando um balão de ensaio, defendeu o aumento da meta de inflação: "Talvez seja mais apropriado rediscutir a meta de inflação para cima. Isso aconteceu na administração Arminio Fraga", afirmou Belluzzo em entrevista ao Estado, publicada na quinta-feira.
Cisma antiga. Embora seu governo tenha produzido pibinhos (crescimento de 2,7%, em 2011, e de 0,9%, em 2012) e inflação alta (6,5%, em 2011, e 5,84%, em 2012), Dilma Rousseff sempre viu no crescimento o motor da economia, a prioridade maior a ser perseguida. No final de 2005, já como ministra da Casa Civil, ela mostrou suas garras e ganhou a briga ao enfrentar o plano de ajuste fiscal de longo prazo arquitetado pelos ministros Palocci e Paulo Bernardo, plano que mirava reduzir a inflação e a dívida pública e elevar o superávit primário. Em entrevista ao Estado, em novembro de 2005, ela detonou o plano com palavras duras, chamou-o de "rudimentar", e já elegia a derrubada da taxa Selic o objetivo maior da política monetária. Aliás, o que ela acabou concretizando em seu governo.
"Para crescer, é necessário reduzir a dívida pública. Para a dívida pública não crescer, é preciso ter uma política de juros consistente, porque senão você enxuga gelo. Faço superávit primário de um lado e aumento o fluxo da dívida. E me fechei em mim mesma", argumentou Dilma na entrevista, centrando o alvo na queda da Selic.
Ela ganhou a disputa, convenceu Lula e o plano Palocci/Bernardo morreu. Mas não teve o mesmo sucesso com a política de juros, que continuou decidida pelo Banco Central e garantida por Henrique Meirelles, seu presidente na época.
Em 2005 a conjuntura colocava no centro dos debates o corte de gastos públicos, a geração de crescentes superávits primários e a disposição do governo Lula de fazer a sua parte para recuperar a confiança do mercado financeiro e de investidores privados - aqui e no exterior. Dilma era contra e derrubou a estratégia Palocci. Agora, ela é a autoridade maior, não tem opositores no governo e o debate é centrado na inflação, no baixo crescimento e no investimento em queda. O ajuste fiscal, tão fundamental em 2005, hoje está em segundo plano.
Porém, com o efeito do baixo crescimento na arrecadação de impostos e tantas desonerações tributárias para estimular setores da economia, o quadro fiscal dá sinais de fraqueza. A expectativa de melhoraria na arrecadação com a esperada retomada da economia não foi confirmada no resultado de fevereiro, quando as contas do governo federal fecharam com um déficit primário de RS 6,41 bilhões, o pior desde setembro de 2009. É mais um megaproblema para a presidente e sua equipe administrarem.
O fôlego do dinamismo no consumo, do baixo desemprego, do crédito em alta e do aumento da renda do trabalho já vai mais longe do que esperavam os analistas. E tudo indica que, até quando der, Dilma vai insistir nesse caminho. Mas não é a trajetória ideal para chegar ao desejado pibão. Faltam investimentos. E é aí que acontecem os desacertos e as trapalhadas do governo.
Não há dúvida de que a presidente Dilma Rousseff tropeçou nas palavras ao falar de inflação versus crescimento na quarta-feira, soltando a corda para o mercado financeiro apostar - e especular - na queda dos juros futuros. Não há dúvida, também, de que os "agentes do mercado" torcem por acontecimentos, declarações, escorregões de autoridades e o que mais surgir que justifique o sobe e desce de preços de ativos e indicadores. Eles não gostam de estabilidade, de mercado parado, porque sua fonte de lucro é a gangorra das cotações, tanto faz subir ou cair, o que importa é a volatilidade.
Por isso quem, no governo, tem poder de influência sobre o mercado precisa ter cuidado, falar as palavras certas, não deixar dúvidas nem nada que possa gerar interpretações dúbias, frouxas.
Por essa razão, desde a segunda metade dos anos 1990, o Banco Central (BC) vem reforçando os mecanismos de previsibilidade de suas ações futuras, levando certezas, sempre que possível, fixando metas para a inflação, deixando claras as suas posições e projeções em atas do Comitê de Política Monetária (Copom) e nos relatórios trimestrais de inflação (no de quinta-feira o BC elevou a projeção de inflação anual para o final de junho de 5,5% para 6,7%, ultrapassando o teto da meta). Enfim, o Banco Central vem evitando dar motivos para o mercado fazer o que sabe e gosta: especular, criar volatilidade, maximizar lucros.
Os "agentes do mercado", no entanto, também não desconhecem: 1) que a presidente Dilma é economista focada em produção, não é do ramo financeiro, não tem a expertise nem o cuidado com as palavras que tem um presidente do Banco Central ao falar de inflação, crescimento econômico, juros; e 2) este item é o mais importante: Dilma Rousseff está, sim, atenta à inflação, porém esticar a corda do bom desempenho do emprego e da renda salarial e perseguir o tão obsessivo quanto inalcançável pibão a preocupam bem mais.
Afinal, o que vem sustentando o alto índice de popularidade da presidente são emprego e dinheiro no bolso do eleitor, e seguem nessa direção os conselhos de seu guru político, o ex- presidente Lula.
Na verdade, no que se refere ao tripé inflação-juros-PIB, a diferença mais evidente entre a presidente Dilma e a maioria dos economistas - ligados ou não ao mercado financeiro - está na quantificação dos índices. Enquanto eles defendem trazer a inflação para o centro da meta (4,5%) e, passo seguinte, reduzi- la para 3,5%, a presidente tem demonstrado maior tolerância com o índice.
Dilma é sincera quando repete que não permitirá o descontrole da inflação (qual governante quer isso?). Mas ninguém sabe até onde vai a sua tolerância e se essa tolerância põe em risco o descontrole. Seria o teto da meta? Acima de 6,5%, a luz vermelha acende e o Banco Central desencadearia ações duras em juros, crédito e com efeito na atividade econômica? Ou elevar a meta da inflação é uma possibilidade real? Mas e o custo político disso?
Sem respostas para essas perguntas, restam pistas. Uma delas: o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos conselheiros prediletos de Dilma-Lula e quase presidente do Banco Central no governo anterior, fez palestra no Instituto Lula na segunda- feira. Ouviram seus argumentos o ex-presidente Lula e o ex-ministro Antônio Palocci. Dois dias depois, possivelmente treinando um balão de ensaio, defendeu o aumento da meta de inflação: "Talvez seja mais apropriado rediscutir a meta de inflação para cima. Isso aconteceu na administração Arminio Fraga", afirmou Belluzzo em entrevista ao Estado, publicada na quinta-feira.
Cisma antiga. Embora seu governo tenha produzido pibinhos (crescimento de 2,7%, em 2011, e de 0,9%, em 2012) e inflação alta (6,5%, em 2011, e 5,84%, em 2012), Dilma Rousseff sempre viu no crescimento o motor da economia, a prioridade maior a ser perseguida. No final de 2005, já como ministra da Casa Civil, ela mostrou suas garras e ganhou a briga ao enfrentar o plano de ajuste fiscal de longo prazo arquitetado pelos ministros Palocci e Paulo Bernardo, plano que mirava reduzir a inflação e a dívida pública e elevar o superávit primário. Em entrevista ao Estado, em novembro de 2005, ela detonou o plano com palavras duras, chamou-o de "rudimentar", e já elegia a derrubada da taxa Selic o objetivo maior da política monetária. Aliás, o que ela acabou concretizando em seu governo.
"Para crescer, é necessário reduzir a dívida pública. Para a dívida pública não crescer, é preciso ter uma política de juros consistente, porque senão você enxuga gelo. Faço superávit primário de um lado e aumento o fluxo da dívida. E me fechei em mim mesma", argumentou Dilma na entrevista, centrando o alvo na queda da Selic.
Ela ganhou a disputa, convenceu Lula e o plano Palocci/Bernardo morreu. Mas não teve o mesmo sucesso com a política de juros, que continuou decidida pelo Banco Central e garantida por Henrique Meirelles, seu presidente na época.
Em 2005 a conjuntura colocava no centro dos debates o corte de gastos públicos, a geração de crescentes superávits primários e a disposição do governo Lula de fazer a sua parte para recuperar a confiança do mercado financeiro e de investidores privados - aqui e no exterior. Dilma era contra e derrubou a estratégia Palocci. Agora, ela é a autoridade maior, não tem opositores no governo e o debate é centrado na inflação, no baixo crescimento e no investimento em queda. O ajuste fiscal, tão fundamental em 2005, hoje está em segundo plano.
Porém, com o efeito do baixo crescimento na arrecadação de impostos e tantas desonerações tributárias para estimular setores da economia, o quadro fiscal dá sinais de fraqueza. A expectativa de melhoraria na arrecadação com a esperada retomada da economia não foi confirmada no resultado de fevereiro, quando as contas do governo federal fecharam com um déficit primário de RS 6,41 bilhões, o pior desde setembro de 2009. É mais um megaproblema para a presidente e sua equipe administrarem.
O fôlego do dinamismo no consumo, do baixo desemprego, do crédito em alta e do aumento da renda do trabalho já vai mais longe do que esperavam os analistas. E tudo indica que, até quando der, Dilma vai insistir nesse caminho. Mas não é a trajetória ideal para chegar ao desejado pibão. Faltam investimentos. E é aí que acontecem os desacertos e as trapalhadas do governo.
Um mistério na selva - EDILSON MARTINS
O GLOBO - 31/03
A Comissão Nacional da Verdade tem, desde outubro último, um abacaxi graúdo para descascar. O Exército está sendo acusado de ter eliminado 2 mil índios da nação waimiri-atroari, no Amazonas.
A Comissão tem um relatório com documentos, organizado pelo Comitê da Verdade, do Amazonas, com relatos de índios, militares, funcionários da Funai, entre outros testemunhos. Eliminar inimigos de ditaduras, militares ou civis, os chamados subversivos e terroristas, nunca foi novidade, mas exterminar índios em estado de cultura pura, caso proceda a denúncia, é um novo paradigma na história do país.
A psicanalista Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade e indicada para apurar a questão, revelou ao repórter Guilherme Balza, do portal UOL, que "os indígenas não estavam resistindo no sentido político, já que não sabiam exatamente o que era uma ditadura. A resistência era no sentido de garantir suas terras".
A pergunta é: o que fizeram para sofrer essa violência? Estávamos em pleno governo militar e as terras desses índios ficavam na conexão do Brasil com o Caribe. Uma rodovia ligando o Amazonas a Caracas (Venezuela) precisava ser construída.
E mais: o governo decidiu construir uma hidrelétrica (Balbina), inundando mais da metade das terras indígenas. Essa barragem foi um dos maiores desastres ecológicos em todo o século XX, destruindo fauna e flora.
Balbina inundou uma área equivalente à cidade de São Paulo, produz 35 vezes menos energia do que Tucuruí e seu lago é maior que o dessa hidrelétrica. Os confrontos com castanheiros e tropas da PM já aconteciam, mas os índios sobreviveram. No enfrentamento com as tropas do Exército, durante a construção da BR-174 nos anos 70, eles perderam.
Se a Comissão ratificar a denúncia, o número de vítimas da ditadura, hoje na ordem de 457, vai assustar o país. Os índios Parwé e Wamé recordam o lançamento de bombas, naqueles anos, incendiando suas aldeias, não ficando vivo ninguém próximo. No início do século XX, eles viviam a 50 km de Manaus. Foram empurrados pelas frentes (BR-174, Balbina). Hoje algumas aldeias distam até 400 km da capital.
Há um relatório assinado pelo general Gentil Paes, produzido em parceria com a Funai, à época subordinada ao Exército, determinando "demonstrações de força, mostrando aos mesmos os efeitos de uma rajada de metralhadora, de granadas defensivas e da destruição pelo uso de dinamite". Corria o ano de 1974.
Outro general, Altino Berthier, num livro de memórias compara as ações militares às dos alemães na II Guerra. "Tive o privilégio de perceber, sentir e registrar os efeitos daquela blitzkrieg (tática dos nazistas) sobre território desconhecido, enxotando um povo perplexo, que reagia violentamente ante a desestruturação de sua célula familiar e de seu universo telúrico."
Confirmada a acusação, a memória de Cândido Rondon terá sido arranhada. O Exército de Caxias e de Deodoro, que sempre se orgulhou de não ter reproduzido o que fizeram as tropas americanas na conquista do Oeste, sairia maculado. Rondon, ele próprio descendente dos bororo, militar que integrou o Brasil com a implantação das linhas de telégrafo no século passado, na relação com essas culturas, cultivava a máxima; "Morrer, se preciso for; matar nunca."
Apesar da diáspora, sobreviveram e exibem uma das mais bem-sucedidas experiências com o mundo civilizado, mas lutam contra a aculturação. Desenvolveram a própria escrita, estudam português e matemática, e só; o resto é o aprofundamento da cultura walmiri-atroari. Em seu território inexistem armas de fogo, não se mata um animal selvagem e não se derruba uma árvore sem justas razões. É uma experiência única no país.
A Comissão tem um relatório com documentos, organizado pelo Comitê da Verdade, do Amazonas, com relatos de índios, militares, funcionários da Funai, entre outros testemunhos. Eliminar inimigos de ditaduras, militares ou civis, os chamados subversivos e terroristas, nunca foi novidade, mas exterminar índios em estado de cultura pura, caso proceda a denúncia, é um novo paradigma na história do país.
A psicanalista Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade e indicada para apurar a questão, revelou ao repórter Guilherme Balza, do portal UOL, que "os indígenas não estavam resistindo no sentido político, já que não sabiam exatamente o que era uma ditadura. A resistência era no sentido de garantir suas terras".
A pergunta é: o que fizeram para sofrer essa violência? Estávamos em pleno governo militar e as terras desses índios ficavam na conexão do Brasil com o Caribe. Uma rodovia ligando o Amazonas a Caracas (Venezuela) precisava ser construída.
E mais: o governo decidiu construir uma hidrelétrica (Balbina), inundando mais da metade das terras indígenas. Essa barragem foi um dos maiores desastres ecológicos em todo o século XX, destruindo fauna e flora.
Balbina inundou uma área equivalente à cidade de São Paulo, produz 35 vezes menos energia do que Tucuruí e seu lago é maior que o dessa hidrelétrica. Os confrontos com castanheiros e tropas da PM já aconteciam, mas os índios sobreviveram. No enfrentamento com as tropas do Exército, durante a construção da BR-174 nos anos 70, eles perderam.
Se a Comissão ratificar a denúncia, o número de vítimas da ditadura, hoje na ordem de 457, vai assustar o país. Os índios Parwé e Wamé recordam o lançamento de bombas, naqueles anos, incendiando suas aldeias, não ficando vivo ninguém próximo. No início do século XX, eles viviam a 50 km de Manaus. Foram empurrados pelas frentes (BR-174, Balbina). Hoje algumas aldeias distam até 400 km da capital.
Há um relatório assinado pelo general Gentil Paes, produzido em parceria com a Funai, à época subordinada ao Exército, determinando "demonstrações de força, mostrando aos mesmos os efeitos de uma rajada de metralhadora, de granadas defensivas e da destruição pelo uso de dinamite". Corria o ano de 1974.
Outro general, Altino Berthier, num livro de memórias compara as ações militares às dos alemães na II Guerra. "Tive o privilégio de perceber, sentir e registrar os efeitos daquela blitzkrieg (tática dos nazistas) sobre território desconhecido, enxotando um povo perplexo, que reagia violentamente ante a desestruturação de sua célula familiar e de seu universo telúrico."
Confirmada a acusação, a memória de Cândido Rondon terá sido arranhada. O Exército de Caxias e de Deodoro, que sempre se orgulhou de não ter reproduzido o que fizeram as tropas americanas na conquista do Oeste, sairia maculado. Rondon, ele próprio descendente dos bororo, militar que integrou o Brasil com a implantação das linhas de telégrafo no século passado, na relação com essas culturas, cultivava a máxima; "Morrer, se preciso for; matar nunca."
Apesar da diáspora, sobreviveram e exibem uma das mais bem-sucedidas experiências com o mundo civilizado, mas lutam contra a aculturação. Desenvolveram a própria escrita, estudam português e matemática, e só; o resto é o aprofundamento da cultura walmiri-atroari. Em seu território inexistem armas de fogo, não se mata um animal selvagem e não se derruba uma árvore sem justas razões. É uma experiência única no país.
Páscoa do surdo! Não ovo nada! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 31/03
Como o papa é argentino, no lugar do bacalhau teve bife de chorizo. O papa liberou bife. E vinho Malbec
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República! Chega de ovo! Menos ovo e mais galinhagem. De santa já basta a semana! Eu não aguento mais ver ovos. Nem os meus!
E se alguém me pedir um ovo, vou me fingir de surdo: "Não ovo nada!". E Páscoa é sempre igual, mas esse ano houve mudanças radicais: como o papa é argentino, no lugar do bacalhau teve bife de chorizo. O papa liberou o bife. E vinho Malbec.
Aliás, esse ano na Santa Ceia nem teve vinho. Por causa da Lei Seca! E a melhor notícia da semana: "Ladrão chama morador de pé de chinelo em arrastão nos Jardins".
Esse é o meu grande medo! Que humilhação! Ser chamado de pé de chinelo na frente dos vizinhos! E nos Jardins! E o grande personagem da semana: pastor Feliciano! A pessoa mais bem quista do país! O namoradinho do Brasil! O Piauí Herald disse que o Feliciano vai sair do armário. E se casar com o Malafaia e passar a lua de mel em Mykonos com show da Cher! Cher e chapinha!
E como disse o Will Gomes: "Se o Marco Feliciano conseguir mandar prender um manifestante por dia, vai levar uns 30 anos pra ele presidir uma sessão sossegado".
E eu acho que ele não larga aquela comissão por causa do nome: comissão! E eu adoro piadas de Santa Ceia! Santa Ceia é aquele quadro pendurado na sala de jantar da tua avó! Sabe o que Cristo falou pros apóstolos? "De sobremesa teremos quindim". E os apóstolos: "Mas não era brigadeiro?".
E sabe o que o garçom falou pra Cristo: "o senhor vai pagar a conta toda ou cada um paga a sua?". E sabe porque não tinha japonês na Santa Ceia? Porque tava tirando a foto.
A foto dos "apóstrofos", como dizia o Lula! Eu blasfemo, mas sou católico apostólico baiano. Acredito em tudo. E sou devoto do Senhor do Bonfim. Um dia fui a igreja do Bonfim com uma amiga, entrei, ajoelhei e fiz o sinal da cruz. E ela: "Ué, mas você não é ateu?". Sou ateu místico!
Os Predestinados! Direto de Porto Alegre: cirurgião plástico Lindo Cristaldo! Aí dei um google imagens e o Lindo Cristaldo é a cara do Luiz Caldas!
E esse programa da GNT: "Meu Filho Come Mal", apresentação da nutricionista Gabriela Kapim! E esse: "Vendo ovo de páscoa. Falar com Ovídio". E essa placa no Detran de Brasília: "Para ser atendido, por favor BATA NA MESA!" Se ninguém atender, quebra a mesa! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Como o papa é argentino, no lugar do bacalhau teve bife de chorizo. O papa liberou bife. E vinho Malbec
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República! Chega de ovo! Menos ovo e mais galinhagem. De santa já basta a semana! Eu não aguento mais ver ovos. Nem os meus!
E se alguém me pedir um ovo, vou me fingir de surdo: "Não ovo nada!". E Páscoa é sempre igual, mas esse ano houve mudanças radicais: como o papa é argentino, no lugar do bacalhau teve bife de chorizo. O papa liberou o bife. E vinho Malbec.
Aliás, esse ano na Santa Ceia nem teve vinho. Por causa da Lei Seca! E a melhor notícia da semana: "Ladrão chama morador de pé de chinelo em arrastão nos Jardins".
Esse é o meu grande medo! Que humilhação! Ser chamado de pé de chinelo na frente dos vizinhos! E nos Jardins! E o grande personagem da semana: pastor Feliciano! A pessoa mais bem quista do país! O namoradinho do Brasil! O Piauí Herald disse que o Feliciano vai sair do armário. E se casar com o Malafaia e passar a lua de mel em Mykonos com show da Cher! Cher e chapinha!
E como disse o Will Gomes: "Se o Marco Feliciano conseguir mandar prender um manifestante por dia, vai levar uns 30 anos pra ele presidir uma sessão sossegado".
E eu acho que ele não larga aquela comissão por causa do nome: comissão! E eu adoro piadas de Santa Ceia! Santa Ceia é aquele quadro pendurado na sala de jantar da tua avó! Sabe o que Cristo falou pros apóstolos? "De sobremesa teremos quindim". E os apóstolos: "Mas não era brigadeiro?".
E sabe o que o garçom falou pra Cristo: "o senhor vai pagar a conta toda ou cada um paga a sua?". E sabe porque não tinha japonês na Santa Ceia? Porque tava tirando a foto.
A foto dos "apóstrofos", como dizia o Lula! Eu blasfemo, mas sou católico apostólico baiano. Acredito em tudo. E sou devoto do Senhor do Bonfim. Um dia fui a igreja do Bonfim com uma amiga, entrei, ajoelhei e fiz o sinal da cruz. E ela: "Ué, mas você não é ateu?". Sou ateu místico!
Os Predestinados! Direto de Porto Alegre: cirurgião plástico Lindo Cristaldo! Aí dei um google imagens e o Lindo Cristaldo é a cara do Luiz Caldas!
E esse programa da GNT: "Meu Filho Come Mal", apresentação da nutricionista Gabriela Kapim! E esse: "Vendo ovo de páscoa. Falar com Ovídio". E essa placa no Detran de Brasília: "Para ser atendido, por favor BATA NA MESA!" Se ninguém atender, quebra a mesa! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
O nome feio - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 31/03
No meu tempo... Parênteses: sempre que um cronista começa a crônica com "no meu tempo" significa que está sentimentalizando sua velhice para não precisar lamentá-la, o que não interessaria a ninguém. No meu tempo, como eu dizia quando me interrompi tão rudemente, ler ou ouvir um "nome feio" fora de contexto era sempre uma felicidade. Me lembro da minha surpresa ao descobrir que havia nomes feios nos dicionários. Agradávamos aos nossos pais, dando a impressão de que fazíamos uma pesquisa etimológica séria no dicionário, quando na verdade estávamos procurando "bunda". No meu tempo, entre parênteses, "bunda" era nome feio.
Em Porto Alegre, há muitos anos, existia uma loja chamada Casa Carvalho. O nome da loja aparecia em letras aplicadas à sua fachada e, dependendo da sua faixa etária e da sua disposição para pensar em bobagem, você ou pertencia ao grupo que vivia em alegre expectativa do dia em que o "v" de "Carvalho" caísse, ou ao grupo mais velho que vivia em sobressalto com a possibilidade de isto ocorrer. Que eu me lembre, o desejado ou temido nunca aconteceu e a loja chegou ao fim dos seus dias com o "Carvalho" intacto. Mas, durante toda a sua existência, apenas aquele pequeno detalhe separou o estabelecimento do vexame e a cidade de um abalo moral.
No Rio, entre Copacabana e Ipanema, existe uma rua que eu já ouvi ser chamada de "Quase, quase". Trata-se da Bulhões de Carvalho, que depende apenas de uma letra para deixar de ser um nome de família e se transformar numa raridade anatômica. No meu tempo isto seria motivo para muita risada, mas como hoje não existe mais "nome feio", e até em conversa de criança palavrão é usado como pontuação, perdeu a graça. Posso imaginar um avô atual chamando a atenção do neto para a consequência de um único erro de grafia no nome da rua e o neto fazendo uma cara de "Me poupe".
Eu e o hipotético avô acima pertencemos à última geração que espantou o Condor, o que explica nossa ingenuidade. Na apresentação dos filmes da distribuidora Condor aparecia um pássaro condor na beira de um precipício pensando em alçar voo, e era comum, era quase obrigatório, a plateia espantar o condor, que sem este incentivo jamais voaria. Nunca mais se espantou o condor, se é que o condor ainda existe. Olha aí, acabei me lament ando.
Em Porto Alegre, há muitos anos, existia uma loja chamada Casa Carvalho. O nome da loja aparecia em letras aplicadas à sua fachada e, dependendo da sua faixa etária e da sua disposição para pensar em bobagem, você ou pertencia ao grupo que vivia em alegre expectativa do dia em que o "v" de "Carvalho" caísse, ou ao grupo mais velho que vivia em sobressalto com a possibilidade de isto ocorrer. Que eu me lembre, o desejado ou temido nunca aconteceu e a loja chegou ao fim dos seus dias com o "Carvalho" intacto. Mas, durante toda a sua existência, apenas aquele pequeno detalhe separou o estabelecimento do vexame e a cidade de um abalo moral.
No Rio, entre Copacabana e Ipanema, existe uma rua que eu já ouvi ser chamada de "Quase, quase". Trata-se da Bulhões de Carvalho, que depende apenas de uma letra para deixar de ser um nome de família e se transformar numa raridade anatômica. No meu tempo isto seria motivo para muita risada, mas como hoje não existe mais "nome feio", e até em conversa de criança palavrão é usado como pontuação, perdeu a graça. Posso imaginar um avô atual chamando a atenção do neto para a consequência de um único erro de grafia no nome da rua e o neto fazendo uma cara de "Me poupe".
Eu e o hipotético avô acima pertencemos à última geração que espantou o Condor, o que explica nossa ingenuidade. Na apresentação dos filmes da distribuidora Condor aparecia um pássaro condor na beira de um precipício pensando em alçar voo, e era comum, era quase obrigatório, a plateia espantar o condor, que sem este incentivo jamais voaria. Nunca mais se espantou o condor, se é que o condor ainda existe. Olha aí, acabei me lament ando.
Lar-empresa - CELSO MING
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Nesta quarta-feira deverá ser sancionada a emenda à Constituição que garante aos empregados domésticos 17 novos direitos trabalhistas. E não é verdade que pouca coisa mudará na vida das famílias, especialmente nas de classe média, que serão obrigadas a operar como pequenas empresas.
A primeira observação que precisa ser feita é a de que se trata de um avanço. Mais cedo ou mais tarde seria mesmo necessário modernizar as relações de trabalho doméstico.
O problema é que traz efeitos importantes. Entre as boas conseqüências estão o próprio avanço social e a necessidade de programar melhor as rotinas das casas de família. Provavelmente, crescerá a procura por aparelhos domésticos automatizados, como máquinas de lavar louça e aspiradores de pó, que substituem a mão de obra. Alguém já observou que a tralha eletroeletrônica hoje existente em qualquer residência de classe média no mundo civilizado produz o trabalho que exigiria na Grécia antiga o concurso de pelo menos 30 escravos.
O avanço dos custos impostos pela nova lei ao orçamento familiar das classes médias não é desprezível. O pagamento do 13º salário, as contribuições para a Previdência Social, o direito ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (hoje facultativo), o adicional por horas extras e por trabalho noturno, o seguro contra acidentes de trabalho, o seguro-desemprego, a licença-maternidade, a obrigação do fornecimento de creches e pré-escolas para os filhos e dependentes até seis anos de idade, o salário-família, os encargos das demissões sem justa causa e prováveis ônus judiciais correspondentes ao aumento das demandas trabalhistas - tudo isso ainda precisa ainda ser recalculado quando saírem as regulamentações. Mas não ficará por menos de 60% ou 70% acima do salário nominal.
Não vale falar que este é o preço a pagar pela melhora das condições de renda e do crescimento do País. As famílias arcarão também com mais responsabilidades e mais trabalho sem poder contar com as facilidades dos países industrializados, onde há transporte coletivo satisfatório, creches e escolas de bom nível - fatores que também reduzem o tempo e a energia gastos pelos pais no trânsito das cidades quando dispensam o concurso de babás e outros empregados domésticos.
Também não faz sentido exigir das famílias uma administração de pessoal típica de empresa sem garantir, também, os incentivos e as desonerações a que as empresas têm direito.
Alguns observadores em suas primeiras avaliações entendem que os custos serão altos o bastante para que grande número de famílias, cerca de 800 mil em todo o Brasil entre os cerca de 8 milhões existentes, dispense empregados domésticos. Mesmo que um número desses se comprove, parece inevitável a transferência de parte do atual contingente de empregados domésticos para atividades autônomas, seja como diaristas, seja como prestadores de outros serviços, como manicures, faxineiras e vendedoras.
CONFIRA
PIB ainda fraco
No Relatório de Inflação divulgado em dezembro, o Banco Central não ousou projetar o crescimento do PIB para todo o ano de 2013. Limitou-se a apontar um avanço em doze meses de 3,3% ao final dos três primeiros trimestres. Na última edição do Relatório, o Banco Central já aponta crescimento de 3,1%, a melhor projeção que obteve, avisa o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo.
Pouco ou muito
Estes 3,1% contrariam as estimativas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que continua cravando mais do que 3,5%. Mas o Ipea, instituição sob jurisdição do Ministério do Planejamento, já avisou que vai ser muito difícil chegar ao crescimento de 3%.
Trauma
A presidente Dilma segue traumatizada pela sucessão de pibinhos em seu governo. É provável que seja por isso que nenhuma instituição do governo se sinta encorajada a apontar para números mais realistas.
Nesta quarta-feira deverá ser sancionada a emenda à Constituição que garante aos empregados domésticos 17 novos direitos trabalhistas. E não é verdade que pouca coisa mudará na vida das famílias, especialmente nas de classe média, que serão obrigadas a operar como pequenas empresas.
A primeira observação que precisa ser feita é a de que se trata de um avanço. Mais cedo ou mais tarde seria mesmo necessário modernizar as relações de trabalho doméstico.
O problema é que traz efeitos importantes. Entre as boas conseqüências estão o próprio avanço social e a necessidade de programar melhor as rotinas das casas de família. Provavelmente, crescerá a procura por aparelhos domésticos automatizados, como máquinas de lavar louça e aspiradores de pó, que substituem a mão de obra. Alguém já observou que a tralha eletroeletrônica hoje existente em qualquer residência de classe média no mundo civilizado produz o trabalho que exigiria na Grécia antiga o concurso de pelo menos 30 escravos.
O avanço dos custos impostos pela nova lei ao orçamento familiar das classes médias não é desprezível. O pagamento do 13º salário, as contribuições para a Previdência Social, o direito ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (hoje facultativo), o adicional por horas extras e por trabalho noturno, o seguro contra acidentes de trabalho, o seguro-desemprego, a licença-maternidade, a obrigação do fornecimento de creches e pré-escolas para os filhos e dependentes até seis anos de idade, o salário-família, os encargos das demissões sem justa causa e prováveis ônus judiciais correspondentes ao aumento das demandas trabalhistas - tudo isso ainda precisa ainda ser recalculado quando saírem as regulamentações. Mas não ficará por menos de 60% ou 70% acima do salário nominal.
Não vale falar que este é o preço a pagar pela melhora das condições de renda e do crescimento do País. As famílias arcarão também com mais responsabilidades e mais trabalho sem poder contar com as facilidades dos países industrializados, onde há transporte coletivo satisfatório, creches e escolas de bom nível - fatores que também reduzem o tempo e a energia gastos pelos pais no trânsito das cidades quando dispensam o concurso de babás e outros empregados domésticos.
Também não faz sentido exigir das famílias uma administração de pessoal típica de empresa sem garantir, também, os incentivos e as desonerações a que as empresas têm direito.
Alguns observadores em suas primeiras avaliações entendem que os custos serão altos o bastante para que grande número de famílias, cerca de 800 mil em todo o Brasil entre os cerca de 8 milhões existentes, dispense empregados domésticos. Mesmo que um número desses se comprove, parece inevitável a transferência de parte do atual contingente de empregados domésticos para atividades autônomas, seja como diaristas, seja como prestadores de outros serviços, como manicures, faxineiras e vendedoras.
CONFIRA
PIB ainda fraco
No Relatório de Inflação divulgado em dezembro, o Banco Central não ousou projetar o crescimento do PIB para todo o ano de 2013. Limitou-se a apontar um avanço em doze meses de 3,3% ao final dos três primeiros trimestres. Na última edição do Relatório, o Banco Central já aponta crescimento de 3,1%, a melhor projeção que obteve, avisa o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo.
Pouco ou muito
Estes 3,1% contrariam as estimativas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que continua cravando mais do que 3,5%. Mas o Ipea, instituição sob jurisdição do Ministério do Planejamento, já avisou que vai ser muito difícil chegar ao crescimento de 3%.
Trauma
A presidente Dilma segue traumatizada pela sucessão de pibinhos em seu governo. É provável que seja por isso que nenhuma instituição do governo se sinta encorajada a apontar para números mais realistas.
A face humana do Olimpo - DORRIT HARAZIM
O GLOBO - 31/03
Como um campeão que mordisca a medalha olímpica para a foto da vitória, Tiger Woods colocou entre os dentes a vara de grafite de seu taco putter e sorriu para o mundo. Acabara de vencer a terceira das cinco etapas GPA já disputadas este ano e os US$ 1,16 milhão que embolsou vieram se somar aos US$ 2,67 milhões abiscoitados nos dois torneios anteriores. O prêmio maior: com o resultado obtido esta semana, voltava ao topo do ranking mundial que lhe pertenceu até 2009, quando despencou do Olimpo e chafurdou na lama humana.
Vale recapitular. Eleito Atleta da Década (2000-2009) pelos editores de Esporte da Associated Press, Tiger Woods contabilizava 82 torneios mundiais com apenas 34 anos de idade, num esporte altamente cerebral cujo domínio pleno só costuma ser alcançado depois dos 40. Destinado a ser não apenas o maior golfista de todos os tempos, foi içado a um patamar que extravasava os campos de golfe.
A origem multicultural de Woods (pai negro, mãe oriental, ascendência branca e índia) e sua quietude disciplinada foram instrumentalizadas pela máquina de fabricar o ícone. Um dos outdoors de maior impacto da Nike, à época, sugeria que o atleta mais querido dos Estados Unidos na década passada (76% de popularidade) viera redimir o golfe, e quem sabe a América, de seu passado racista. Sem revolta, é claro. Apenas com maestria.
A cultivada esposa sueca, Elin Nordegren, linda e loira, e dois filhos pequenos, completavam o retrato de harmonia entre o desempenho superlativo do atleta e sua vida privada.
O marketing do esporte como formador de caráter é sedutor. Espera-se de atletas excepcionais que sejam admiráveis também como seres humanos. E que ao rigor do sacrifício , à tenacidade do treino, à dedicação irrestrita ao esporte corresponda uma retidão pessoal de pessoa honrada. Mas talvez seja exigir demais, para o bem de nossas expectativas.
O esfarelamento da imagem público-privada de Tiger Woods se deu a partir da colisão com um hidrante do carro que ele dirigia numa madrugada de novembro de 2009; quando se soube que a senhora Woods, que o aguardava em casa , destruiu parte do Cadillac Escalade a golpes de tacos de golfe alegando querer salvar o marido, os tabloides farejaram o escuso. E descobriram, sem grande esforço, toda uma vida paralela do grande atleta.
Mais de dez mulheres — entre garçonetes, escorts de US$ 15 mil por programa, starletes de filmes pornô — voluntariaram narrativas de longos relacionamentos com Woods. A todas era exigida prontidão para sexo urgente, bruto, impessoal. Algumas eram aerotransportadas por seus assessores, o chamado Team Tiger, para Dubai, Bahamas ou onde ele estivesse competindo. Outras eram levadas para a sua própria residência, na ausência da esposa, e o sexo era consumado já na garagem ou na cozinha. Também vieram à tona jogatinas com Michael Jordan e Charles Barkley num cassino exclusivo de Las Vegas, onde a mão é de US$ 25 mil e a linha de crédito exigida de US$ 1 milhão. A cada nova revelação, nova orfandade de fã.
A queda do pedestal foi estrondosa. Após um sumiço em clínica de tratamento para compulsão sexual, o atleta perdeu a esposa-ícone e cinco dos seis megapatrocinadores que injetavam US$ 110 milhões em sua conta bancária cada ano. Seu retorno aos campos de golfe foi humilhante: despencou para a 58ª colocação no ranking mundial , algo como se Pelé, no auge do seu potencial, fosse jogar num time de terceira divisão.
O Tiger Woods que esta semana retornou ao Olimpo é outro. Não apenas pelo bigode ferradura, impensável na época em que era patrocinado pela Gillette. Hoje, é apenas o atleta de talento único, com vícios e imperfeições pessoais expostas. Quem o aplaude, é por saudar sua destreza em campo.
Woods demonstrou sem querer que descontrole pessoal e precisão competitiva podem ser compatíveis mesmo num esporte como o golfe, que exige foco e disciplina mental agudos, além da capacidade de bloquear qualquer distração. Uma de suas amantes mais assíduas conta que numa manhã de 2007 ele a convocou para as 5h30m, em seu escritório. Dali seguiria direto para o aeroporto, rumo a um dos torneios mais importantes do ano. Mas esquecera o cartão magnético do portão principal. Contrariado e fora de si, conduziu a jovem até o estacionamento de uma igreja próxima e fez sexo atabalhoado no banco de trás do Cadillac. Depois embarcou, competiu e venceu.
Hoje, seu retorno ao topo da lista está longe de consolidado. Dentro de quatro dias um torneio do PGA Tour poderá devolver o título ao irlandês Rory McIlroy, prenúncio de um ano de disputa ferrenha. E o primeiro embate de grande envergadura só ocorrerá no dia 11 de abril, no Masters de Augusta, no estado da Georgia, um dos quatro campeonatos de golfe profissional de maior prestígio do mundo.
A Nike, único patrocinador pré-hecatombe a não ter abandonado o golfista, publicou um anúncio de gosto duvidoso para comemorar o ressurgir das cinzas: “Vencer resolve tudo — Tiger Woods # 1 do mundo.”
Os tempos têm sido difíceis para quem gosta de esporte, admira atletas e teima em associar a prática, de um modo geral, a algum fortalecimento de caráter. Para cada Lance Armstrong , Oscar Pistorius ou Tiger Woods espera-se que haja pelo menos um Roger Federer semelhante à sua imagem.
Como um campeão que mordisca a medalha olímpica para a foto da vitória, Tiger Woods colocou entre os dentes a vara de grafite de seu taco putter e sorriu para o mundo. Acabara de vencer a terceira das cinco etapas GPA já disputadas este ano e os US$ 1,16 milhão que embolsou vieram se somar aos US$ 2,67 milhões abiscoitados nos dois torneios anteriores. O prêmio maior: com o resultado obtido esta semana, voltava ao topo do ranking mundial que lhe pertenceu até 2009, quando despencou do Olimpo e chafurdou na lama humana.
Vale recapitular. Eleito Atleta da Década (2000-2009) pelos editores de Esporte da Associated Press, Tiger Woods contabilizava 82 torneios mundiais com apenas 34 anos de idade, num esporte altamente cerebral cujo domínio pleno só costuma ser alcançado depois dos 40. Destinado a ser não apenas o maior golfista de todos os tempos, foi içado a um patamar que extravasava os campos de golfe.
A origem multicultural de Woods (pai negro, mãe oriental, ascendência branca e índia) e sua quietude disciplinada foram instrumentalizadas pela máquina de fabricar o ícone. Um dos outdoors de maior impacto da Nike, à época, sugeria que o atleta mais querido dos Estados Unidos na década passada (76% de popularidade) viera redimir o golfe, e quem sabe a América, de seu passado racista. Sem revolta, é claro. Apenas com maestria.
A cultivada esposa sueca, Elin Nordegren, linda e loira, e dois filhos pequenos, completavam o retrato de harmonia entre o desempenho superlativo do atleta e sua vida privada.
O marketing do esporte como formador de caráter é sedutor. Espera-se de atletas excepcionais que sejam admiráveis também como seres humanos. E que ao rigor do sacrifício , à tenacidade do treino, à dedicação irrestrita ao esporte corresponda uma retidão pessoal de pessoa honrada. Mas talvez seja exigir demais, para o bem de nossas expectativas.
O esfarelamento da imagem público-privada de Tiger Woods se deu a partir da colisão com um hidrante do carro que ele dirigia numa madrugada de novembro de 2009; quando se soube que a senhora Woods, que o aguardava em casa , destruiu parte do Cadillac Escalade a golpes de tacos de golfe alegando querer salvar o marido, os tabloides farejaram o escuso. E descobriram, sem grande esforço, toda uma vida paralela do grande atleta.
Mais de dez mulheres — entre garçonetes, escorts de US$ 15 mil por programa, starletes de filmes pornô — voluntariaram narrativas de longos relacionamentos com Woods. A todas era exigida prontidão para sexo urgente, bruto, impessoal. Algumas eram aerotransportadas por seus assessores, o chamado Team Tiger, para Dubai, Bahamas ou onde ele estivesse competindo. Outras eram levadas para a sua própria residência, na ausência da esposa, e o sexo era consumado já na garagem ou na cozinha. Também vieram à tona jogatinas com Michael Jordan e Charles Barkley num cassino exclusivo de Las Vegas, onde a mão é de US$ 25 mil e a linha de crédito exigida de US$ 1 milhão. A cada nova revelação, nova orfandade de fã.
A queda do pedestal foi estrondosa. Após um sumiço em clínica de tratamento para compulsão sexual, o atleta perdeu a esposa-ícone e cinco dos seis megapatrocinadores que injetavam US$ 110 milhões em sua conta bancária cada ano. Seu retorno aos campos de golfe foi humilhante: despencou para a 58ª colocação no ranking mundial , algo como se Pelé, no auge do seu potencial, fosse jogar num time de terceira divisão.
O Tiger Woods que esta semana retornou ao Olimpo é outro. Não apenas pelo bigode ferradura, impensável na época em que era patrocinado pela Gillette. Hoje, é apenas o atleta de talento único, com vícios e imperfeições pessoais expostas. Quem o aplaude, é por saudar sua destreza em campo.
Woods demonstrou sem querer que descontrole pessoal e precisão competitiva podem ser compatíveis mesmo num esporte como o golfe, que exige foco e disciplina mental agudos, além da capacidade de bloquear qualquer distração. Uma de suas amantes mais assíduas conta que numa manhã de 2007 ele a convocou para as 5h30m, em seu escritório. Dali seguiria direto para o aeroporto, rumo a um dos torneios mais importantes do ano. Mas esquecera o cartão magnético do portão principal. Contrariado e fora de si, conduziu a jovem até o estacionamento de uma igreja próxima e fez sexo atabalhoado no banco de trás do Cadillac. Depois embarcou, competiu e venceu.
Hoje, seu retorno ao topo da lista está longe de consolidado. Dentro de quatro dias um torneio do PGA Tour poderá devolver o título ao irlandês Rory McIlroy, prenúncio de um ano de disputa ferrenha. E o primeiro embate de grande envergadura só ocorrerá no dia 11 de abril, no Masters de Augusta, no estado da Georgia, um dos quatro campeonatos de golfe profissional de maior prestígio do mundo.
A Nike, único patrocinador pré-hecatombe a não ter abandonado o golfista, publicou um anúncio de gosto duvidoso para comemorar o ressurgir das cinzas: “Vencer resolve tudo — Tiger Woods # 1 do mundo.”
Os tempos têm sido difíceis para quem gosta de esporte, admira atletas e teima em associar a prática, de um modo geral, a algum fortalecimento de caráter. Para cada Lance Armstrong , Oscar Pistorius ou Tiger Woods espera-se que haja pelo menos um Roger Federer semelhante à sua imagem.
Visita inevitável - MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 31/03
Eu era menina ainda, mas já gostava de notícia. Grudei no rádio e fiquei ouvindo as informações da movimentação das tropas do general Olímpio Mourão Filho. O que eu não podia imaginar, por ser tão criança, é que aquele 31 de março era o começo de um tempo terrível que tiraria vidas da minha geração, produziria dor e obscurantismo, e que 49 anos depois ainda seria difícil revisitar.
Um professor americano me perguntou outro dia porque só agora o Brasil faz a sua Comissão da Verdade, já que a ditadura acabou em 1985. Eu respondi que o Brasil tem problemas de encarar seu passado, é meio atávico esse defeito. E que, de vez em quando, pintamos o cenário com outras cores para aceitar nossos erros, e daí decorrem teses como as da " mild slavery " (escravidão suave). Mas que, felizmente, estamos mexendo no que ficou congelado por um tempo excessivamente longo.
Na mesma semana me ligou Rosa Cardoso, que integra a Comissão da Verdade. E o que ela tinha a contar era muito. Naquele fim de semana (o último) haveria o encontro da Panair para ouvir, pela primeira vez em quase 50 anos, o que houve com a empresa que por perseguição política teve todas as rotas canceladas pelo governo e foi à falência. Ainda assim, os funcionários se reúnem frequentemente, vão com seus crachás para se reconhecerem tanto tempo depois. A empresa pagou todas as dívidas trabalhistas.
A Comissão da Verdade de São Paulo se preparava para ouvir - ouviu na semana passada - o depoimento de Inês Etienne dentro do capítulo de ditadura e gênero. Inês, que sobreviveu à Casa da Morte, tinha sido chamada, junto com outras pessoas, para falar das sevícias sexuais que atingiram tantas prisioneiras.
O corpo de João Goulart será exumado. Os especialistas ouvidos disseram que, talvez, os exames não sejam conclusivos, porque ele pode ter sido morto por um remédio que afeta o coração e que, tanto tempo depois, pode não ter deixado vestígios. A suspeita permanece.
Não há um único torturador que tenha passado um único dia na prisão pelo crime cometido, de tortura, morte e desaparecimento, como o do deputado Rubens Paiva, do estudante Alexandre Vanucchi, do líder Honestino Guimarães, do jovem Stuart Angel, do jornalista Vladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho. São tantos. É difícil nomeá-los. Esquecê-los, impossível.
Ainda assim, os militares aposentados se reuniram nos seus clubes e acusaram quem hoje busca informações de ser "totalitário". Repetem a tese de ter havido dois lados. Pois é. Um lado era a juventude encurralada. O outro, o Estado com o poder exercido de forma ilegítima pelos militares, usando a sua força contra quem ousou discordar.
A Comissão da Verdade se descentralizou, outras vão se formando para investigar os vários eventos desse tempo que prometeu ser breve e se prolongou por 21 anos. O que fazer com as instalações onde pessoas sofreram e heróis perderam a vida? O antigo Dops do Rio é hoje o Museu da Polícia. Cheio de armas dos vários tempos. Impossível conviver com um memorial de presos políticos que deveria ter. O antigo DOI-Codi funcionava no quartel da Polícia do Exército na Barão de Mesquita, na Tijuca. Lá morreu Rubens Paiva, lá inúmeras pessoas foram torturadas, como Arthur Poerner, que narrou o que viveu num livro com o sugestivo nome de "Nas profundezas do inferno". Angel foi morto na Base Aérea do Galeão. A tortura foi disseminada, foram muitos os locais de sofrimento.
O passado deve passar. Eu, hoje, avó de meus netos, sei quanto tempo me distancia da menina grudada ao rádio em Caratinga naquele 31 de março. Mas minha convicção profunda é que, antes, é preciso cumprir o ritual da dolorosa visita ao passado.
Um professor americano me perguntou outro dia porque só agora o Brasil faz a sua Comissão da Verdade, já que a ditadura acabou em 1985. Eu respondi que o Brasil tem problemas de encarar seu passado, é meio atávico esse defeito. E que, de vez em quando, pintamos o cenário com outras cores para aceitar nossos erros, e daí decorrem teses como as da " mild slavery " (escravidão suave). Mas que, felizmente, estamos mexendo no que ficou congelado por um tempo excessivamente longo.
Na mesma semana me ligou Rosa Cardoso, que integra a Comissão da Verdade. E o que ela tinha a contar era muito. Naquele fim de semana (o último) haveria o encontro da Panair para ouvir, pela primeira vez em quase 50 anos, o que houve com a empresa que por perseguição política teve todas as rotas canceladas pelo governo e foi à falência. Ainda assim, os funcionários se reúnem frequentemente, vão com seus crachás para se reconhecerem tanto tempo depois. A empresa pagou todas as dívidas trabalhistas.
A Comissão da Verdade de São Paulo se preparava para ouvir - ouviu na semana passada - o depoimento de Inês Etienne dentro do capítulo de ditadura e gênero. Inês, que sobreviveu à Casa da Morte, tinha sido chamada, junto com outras pessoas, para falar das sevícias sexuais que atingiram tantas prisioneiras.
O corpo de João Goulart será exumado. Os especialistas ouvidos disseram que, talvez, os exames não sejam conclusivos, porque ele pode ter sido morto por um remédio que afeta o coração e que, tanto tempo depois, pode não ter deixado vestígios. A suspeita permanece.
Não há um único torturador que tenha passado um único dia na prisão pelo crime cometido, de tortura, morte e desaparecimento, como o do deputado Rubens Paiva, do estudante Alexandre Vanucchi, do líder Honestino Guimarães, do jovem Stuart Angel, do jornalista Vladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho. São tantos. É difícil nomeá-los. Esquecê-los, impossível.
Ainda assim, os militares aposentados se reuniram nos seus clubes e acusaram quem hoje busca informações de ser "totalitário". Repetem a tese de ter havido dois lados. Pois é. Um lado era a juventude encurralada. O outro, o Estado com o poder exercido de forma ilegítima pelos militares, usando a sua força contra quem ousou discordar.
A Comissão da Verdade se descentralizou, outras vão se formando para investigar os vários eventos desse tempo que prometeu ser breve e se prolongou por 21 anos. O que fazer com as instalações onde pessoas sofreram e heróis perderam a vida? O antigo Dops do Rio é hoje o Museu da Polícia. Cheio de armas dos vários tempos. Impossível conviver com um memorial de presos políticos que deveria ter. O antigo DOI-Codi funcionava no quartel da Polícia do Exército na Barão de Mesquita, na Tijuca. Lá morreu Rubens Paiva, lá inúmeras pessoas foram torturadas, como Arthur Poerner, que narrou o que viveu num livro com o sugestivo nome de "Nas profundezas do inferno". Angel foi morto na Base Aérea do Galeão. A tortura foi disseminada, foram muitos os locais de sofrimento.
O passado deve passar. Eu, hoje, avó de meus netos, sei quanto tempo me distancia da menina grudada ao rádio em Caratinga naquele 31 de março. Mas minha convicção profunda é que, antes, é preciso cumprir o ritual da dolorosa visita ao passado.
Brasil, democracia falha - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 31/03
Mais um ranking mundial, mais uma colocação ruim, pela carência de cultura e participação políticas
Acaba de sair mais um ranking internacional e, de novo, a colocação do Brasil é desagradável.
Trata-se do "Índice de Democracia-2012" da EIU (Unidade de Inteligência da Economist, o braço de pesquisas da badalada revista britânica).
O Brasil fica em 44º lugar, empatado com a Polônia, em um total de 165 Estados e dois territórios. Leva nota total 7,12 e é classificado como "democracia falha", o segundo degrau do índice. O primeiro é "democracia plena", o terceiro é "regime híbrido", com elementos tanto de democracia como de autoritarismo, e o último, obviamente, é "regimes autoritários".
O ranking leva em conta cinco características; processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionamento do governo, participação política e cultura política.
O Brasil vai bem nos dois primeiros, como é natural após 30 anos de processos eleitorais limpos, de pluralismo (até excessivo) de vozes na arena política e de vigência das liberdades públicas clássicas.
Mesmo o "funcionamento do governo" é avaliado como razoável (nota 7,5).
Ou seja, nos quesitos formais da democracia, o país está bem. A falha, que rebaixa a nota geral, se dá em "participação política" (nota 5) e, pior, em "cultura política", item em que é reprovado (apenas 4,38).
É óbvio que esse tipo de ranking pode sempre ser questionado porque envolve uma certa subjetividade. Se eu fosse "rankeador", jamais colocaria Cabo Verde (é o 26º colocado) à frente do Brasil.
Mas é mais útil, em vez de questionar o ranking, questionar os defeitos que puxam o país para baixo. E, aí, acho que só os patrioteiros fanáticos de plantão duvidarão das baixas participação e cultura políticas do país.
Não vou me estender a esse respeito até porque tratei um pouco do tema faz apenas uma semana (http://folha.com/no1251686).
Melhorar no ranking de democracia não é apenas uma questão de orgulho patriótico. Basta citar os 10 países que ocupam os primeiros lugares para perceber como seria bom estar ao lado deles: Noruega, Suécia, Islândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Austrália, Suíça, Canadá, Finlândia e Holanda.
Nem dá para dizer que são países ótimos, mas monótonos, porque pelo menos Austrália e Holanda são divertidíssimos.
Brasil à parte, vale registrar que pouco menos de metade da população mundial vive em democracia, plena, falha ou híbrida. Mas só 11% dos habitantes do planeta residem no que a EIU considera democracias plenas. Pior: 2,6 bilhões de pessoas, mais de um terço da população mundial, ainda vivem sob regimes autoritários, número muito influenciado pela China, 142ª colocada, com merecido zero em "processo eleitoral e pluralismo".
O relatório constata que a crise de 2008 e seus desdobramentos "continuam a ter impacto negativo em democracias supostamente estáveis do mundo rico", numa prova de que "mesmo democracias há muito estabelecidas são vulneráveis à corrosão se não forem nutridas e protegidas". Imagine então no Brasil.
Mais um ranking mundial, mais uma colocação ruim, pela carência de cultura e participação políticas
Acaba de sair mais um ranking internacional e, de novo, a colocação do Brasil é desagradável.
Trata-se do "Índice de Democracia-2012" da EIU (Unidade de Inteligência da Economist, o braço de pesquisas da badalada revista britânica).
O Brasil fica em 44º lugar, empatado com a Polônia, em um total de 165 Estados e dois territórios. Leva nota total 7,12 e é classificado como "democracia falha", o segundo degrau do índice. O primeiro é "democracia plena", o terceiro é "regime híbrido", com elementos tanto de democracia como de autoritarismo, e o último, obviamente, é "regimes autoritários".
O ranking leva em conta cinco características; processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionamento do governo, participação política e cultura política.
O Brasil vai bem nos dois primeiros, como é natural após 30 anos de processos eleitorais limpos, de pluralismo (até excessivo) de vozes na arena política e de vigência das liberdades públicas clássicas.
Mesmo o "funcionamento do governo" é avaliado como razoável (nota 7,5).
Ou seja, nos quesitos formais da democracia, o país está bem. A falha, que rebaixa a nota geral, se dá em "participação política" (nota 5) e, pior, em "cultura política", item em que é reprovado (apenas 4,38).
É óbvio que esse tipo de ranking pode sempre ser questionado porque envolve uma certa subjetividade. Se eu fosse "rankeador", jamais colocaria Cabo Verde (é o 26º colocado) à frente do Brasil.
Mas é mais útil, em vez de questionar o ranking, questionar os defeitos que puxam o país para baixo. E, aí, acho que só os patrioteiros fanáticos de plantão duvidarão das baixas participação e cultura políticas do país.
Não vou me estender a esse respeito até porque tratei um pouco do tema faz apenas uma semana (http://folha.com/no1251686).
Melhorar no ranking de democracia não é apenas uma questão de orgulho patriótico. Basta citar os 10 países que ocupam os primeiros lugares para perceber como seria bom estar ao lado deles: Noruega, Suécia, Islândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Austrália, Suíça, Canadá, Finlândia e Holanda.
Nem dá para dizer que são países ótimos, mas monótonos, porque pelo menos Austrália e Holanda são divertidíssimos.
Brasil à parte, vale registrar que pouco menos de metade da população mundial vive em democracia, plena, falha ou híbrida. Mas só 11% dos habitantes do planeta residem no que a EIU considera democracias plenas. Pior: 2,6 bilhões de pessoas, mais de um terço da população mundial, ainda vivem sob regimes autoritários, número muito influenciado pela China, 142ª colocada, com merecido zero em "processo eleitoral e pluralismo".
O relatório constata que a crise de 2008 e seus desdobramentos "continuam a ter impacto negativo em democracias supostamente estáveis do mundo rico", numa prova de que "mesmo democracias há muito estabelecidas são vulneráveis à corrosão se não forem nutridas e protegidas". Imagine então no Brasil.
Gentil patrocínio - DORA KRAMER
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Não é ato oficial nem explícito: informal e discretamente o PSDB está ajudando Marina Silva a coletar assinaturas para a criação de seu novo partido.
Migrantes do tucanato para a Rede dos sonháticos comentaram com antigos companheiros de partido que está havendo dificuldade na coleta dos apoios exigidos pela Justiça Eleitoral para conceder registro à legenda que precisa estar legalizada até início de outubro.
Em vários Estados a estrutura do PSDB se movimenta para arregimentar signatários e também para conferir as assinaturas. Em Minas Gerais, por exemplo, há prefeitos encarregados de contribuir cada um com dois mil nomes devidamente checados.
Solidariedade? Pragmatismo: se Marina conseguir criar a tempo a sua Rede, muito provavelmente concorrerá à Presidência em 2014. Para a oposição é um bom negócio, pois quanto mais numerosos forem os concorrentes, maior a divisão de votos. Consequentemente, aumenta a chance de haver 2º turno.
O raciocínio parte do princípio que hoje quem tem votos é a presidente Dilma Rousseff. A oposição pode até vir a ficar bem, mas por enquanto sabe que está mal na foto. Precisa recorrer a todos os recursos a fim de tentar equilibrar o jogo, já que a situação tem a popularidade da presidente, a exposição inerente ao cargo e todos os meios à disposição.
Uma das maneiras é incentivar a concorrência que possa subtrair votos de onde eles estão mais concentrados: no governo. Marina pode até não repetir o desempenho de 2010, quando atraiu 20 milhões de eleitores. Mas, se entrar na disputa, fica com parte do eleitorado de esquerda, jovens e decepcionados com a política em geral.
Claro que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), também entra nessa conta. Por enquanto os tucanos estão achando ótima a movimentação dele e não o vêem como uma ameaça ao senador e provável candidato do PSDB, Aécio Neves.
Ao contrário. Na avaliação deles Campos ajuda a difundir críticas ao governo e a atrair eleitores no Nordeste. Aqui de novo o mesmo raciocínio: quem tem votos da região é Dilma, não o PSDB. Portanto, ela teria a perder.
Além da questão regional, na visão dos tucanos o governador de Pernambuco também atrairia parcela do eleitorado governista que já estaria cansado do PT, crítico à maneira de Dilma governar e em busca de uma "novidade". Isso sem falar no potencial de desagregação da base aliada ao governo que o PSDB enxerga na presença de Eduardo Campos em cena como provável candidato.
Muito bem, vamos que saia tudo conforme o desenho desse figurino, que haja 2° turno, que o candidato tucano passe para a etapa final. O que garante que os outros concorrentes não ficarão neutros ou com Dilma?
Pois é, por ora só a esperança de que as premissas estejam certas e o vento sopre a favor.
Surdina. O encontro de José Serra com Eduardo Campos na sexta-feira, 15 de março, não causou desconforto no PSDB pelo fato de ter acontecido.
O aborrecimento foi porque Serra não avisou nem contou depois a ninguém. Nem ao governador Geraldo Alckmin com quem esteve no dia seguinte.
Síntese. Falando sobre o rearranjo de ministérios, o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) resumiu numa frase ao que ficou reduzido o presidencialismo de coalizão, tema de tantas teses: "A presidente não precisa do tempo do PR, mas também não quer que nosso tempo vá para outros candidatos".
Rudimentar assim. A Presidência entrega pastas a partidos e estes em troca oficializam coligação para aumentar o tempo no horário eleitoral e reduzir o dos adversários.
Migrantes do tucanato para a Rede dos sonháticos comentaram com antigos companheiros de partido que está havendo dificuldade na coleta dos apoios exigidos pela Justiça Eleitoral para conceder registro à legenda que precisa estar legalizada até início de outubro.
Em vários Estados a estrutura do PSDB se movimenta para arregimentar signatários e também para conferir as assinaturas. Em Minas Gerais, por exemplo, há prefeitos encarregados de contribuir cada um com dois mil nomes devidamente checados.
Solidariedade? Pragmatismo: se Marina conseguir criar a tempo a sua Rede, muito provavelmente concorrerá à Presidência em 2014. Para a oposição é um bom negócio, pois quanto mais numerosos forem os concorrentes, maior a divisão de votos. Consequentemente, aumenta a chance de haver 2º turno.
O raciocínio parte do princípio que hoje quem tem votos é a presidente Dilma Rousseff. A oposição pode até vir a ficar bem, mas por enquanto sabe que está mal na foto. Precisa recorrer a todos os recursos a fim de tentar equilibrar o jogo, já que a situação tem a popularidade da presidente, a exposição inerente ao cargo e todos os meios à disposição.
Uma das maneiras é incentivar a concorrência que possa subtrair votos de onde eles estão mais concentrados: no governo. Marina pode até não repetir o desempenho de 2010, quando atraiu 20 milhões de eleitores. Mas, se entrar na disputa, fica com parte do eleitorado de esquerda, jovens e decepcionados com a política em geral.
Claro que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), também entra nessa conta. Por enquanto os tucanos estão achando ótima a movimentação dele e não o vêem como uma ameaça ao senador e provável candidato do PSDB, Aécio Neves.
Ao contrário. Na avaliação deles Campos ajuda a difundir críticas ao governo e a atrair eleitores no Nordeste. Aqui de novo o mesmo raciocínio: quem tem votos da região é Dilma, não o PSDB. Portanto, ela teria a perder.
Além da questão regional, na visão dos tucanos o governador de Pernambuco também atrairia parcela do eleitorado governista que já estaria cansado do PT, crítico à maneira de Dilma governar e em busca de uma "novidade". Isso sem falar no potencial de desagregação da base aliada ao governo que o PSDB enxerga na presença de Eduardo Campos em cena como provável candidato.
Muito bem, vamos que saia tudo conforme o desenho desse figurino, que haja 2° turno, que o candidato tucano passe para a etapa final. O que garante que os outros concorrentes não ficarão neutros ou com Dilma?
Pois é, por ora só a esperança de que as premissas estejam certas e o vento sopre a favor.
Surdina. O encontro de José Serra com Eduardo Campos na sexta-feira, 15 de março, não causou desconforto no PSDB pelo fato de ter acontecido.
O aborrecimento foi porque Serra não avisou nem contou depois a ninguém. Nem ao governador Geraldo Alckmin com quem esteve no dia seguinte.
Síntese. Falando sobre o rearranjo de ministérios, o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) resumiu numa frase ao que ficou reduzido o presidencialismo de coalizão, tema de tantas teses: "A presidente não precisa do tempo do PR, mas também não quer que nosso tempo vá para outros candidatos".
Rudimentar assim. A Presidência entrega pastas a partidos e estes em troca oficializam coligação para aumentar o tempo no horário eleitoral e reduzir o dos adversários.
"Americanalhamo-nos", sem dúvida - LUIZ SÉRGIO HENRIQUES
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Jogos de palavras costumam ser muito interessantes e reveladores, lançando luz inesperada sobre valores mais profundos, sistemas de crenças e ideias de quem os faz.
Há muito se diz, por exemplo, que a vida brasileira, especialmente a política, se teria"americanalhado", entendendo-se por isso um indesejável processo indesejável por todos os títulos de cópia servil de modos de vida e consumo provenientes do grande e ambíguo país do Norte, a mais antiga e,sob certos aspectos,desgastada e até corroída experiência republicana ainda em vigor no mundo.
Desgastada e corroída, inclusive e sobretudo, pelo poder do dinheiro e, no entanto, dotada de irresistível expansividade por todo o século 20, como pelo menos um marxista clássico soube perceber in fieri, contrapondo a nascente racionalização americanista e fordista da produção e da sociedade ao acúmulo irracional de sedimentações do passado na velha Europa.Uma expansão que teria, por certo,dimensão imperial e intervencionista, em particular na América Latina,mas também se corporificariana aliança antifascista com a antiga União Soviética (URSS), contribuindo para nos livrar do mal absoluto, em estado puro e sem nenhuma razão histórica.
Com tudo isso, alheia à ambiguidade do excepcional fenômeno americano e apegada a um velho repertório que insiste em não passar, uma certa esquerda latino-americana ainda combate "o diabo" e seus vapores sulfurosos, é verdade que teatralmente e, no fundo, sem induzir, ainda que moderada e gradualmente,mudanças estruturais na situação de dependência.A"americanalhação" aceitemos o termo difunde-se onde menos se esperaria, até mesmo em realidades menos conflituosas, e determina comportamentos aparentemente ilógicos, como no caso de presidente e ex-presidente que se transforma em vendedor internacional das grandes empresas do próprio país, num movimento que, se não é rigorosamente ilegal nem destituído de rationale estratégica, se choca, evidentemente, com a retórica eleitoralmente rendosa que demoniza as "elites" e o "capital".
"Americanalhamo-nos" também no plano interno. É possível que, carente de reflexão madura sobre os requisitos do moderno Estado Democrático de Direito, e ainda consumida pelo mal posto dilema de estar no governo e não ser poder não ser todo o poder, uma parte da nossa esquerda tenha considerado natural tentar apagar a fronteira entre partido,governo e Estado, dando seguidas mostras de apetite de ocupação e repartição selvagem do poder e de seus aparelhos,sob pretexto de fortalecer um Estado debilitado pela anterior época neoliberal.
Dispensamo-nos de discutir se tivemos nos anos 1990 nos governos Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso versões tropicais do fundamentalismo mercantil de Ronald Reagan ou Margaret Thatcher. Sumariamente, poder-se-ia dizer que não as tivemos, com a possível exceção de áreas mais doutrinárias do governo Collor. De todo modo, o fato é que a prática disseminada de ocupação e loteamento não só enfraquece o poder regulatório forte do Estado num momento em que as autoridades da República convocam, em uníssono,o"espírito animal"dos investidores privados, como também é sinal preocupante de americanização, no sentido pejorativo do termo.
Poderíamos sonhar em ver germinar por aqui, quem sabe, o exemplo de ex-presidentes como Jimmy Carter e Bill Clinton, ambos, e muito especialmente o último,com influência e visibilidade na política interna e na vida doméstica do Partido Democrata, mas sem projetarem a sombra de mando sobre os assuntos da República ou de titular das decisões em última instância. Nisso, contudo, não nos americanizamos; ao contrário, com sacudida pitada de malemolência made in Brazil, inventamos um ingrediente:em caso de quiproquó eleitoral, lá estará o "Pelé no banco de reservas".
Em momentos críticos do século 20, os Estados Unidos souberam se reinventar e,assim,ditar boa parte dos rumos do mundo, para o bem e para o mal, como qualquer concepção realista das relações interestatais pode compreender (e sob muitos aspectos, criticar).Nos anos 1930, em meio às soluções extremadas que se delineavam como vencedoras, o reformismo rooseveltiano indicou novos papéis para o Estado, bem como um compromisso progressista entre a instância pública, o mercado e a sociedade civil.Um exemplo alto, que, sucessivamente, ao demonstrar limites,seria ampliado ou corrigido pela Grande Sociedade de Lyndon Johnson (ele mesmo, o da agressão ao Vietnã e outros episódios equívocos da guerra fria) e agora retomado por Barack Obama, ao expandir a cobertura de saúde e ao enfrentar, por meio de nova regulação, as finanças descontroladas que estão na origem da grande crise em que nos vemos mergulhados.
Entre nós, no entanto, esse horizonte de longo prazo parece dissipar-se, emmeio a um espírito autocongratulatório que exalta a inclusão social absolutamente necessária, diga-se de passagem em contexto de baixas taxas de desenvolvimento e, pior, sinais de enfraquecimento da estrutura produtiva,submetida a pressões que parecem pôr em questão a acidentada construção da nossa modernidade urbano industrial eque,paradoxalmente, não mais provêm dos velhos núcleos do imperialismo. Logo, se isso for verdade, a retórica anti-ianque seria mais adequada a batalhas de guerras passadas, não exatamente às que temos pela frente.
Acima de tudo, não há de ser com Estado centralizador e concentrador (de poder e tributos) e,incidentalmente,com mandatário que se coloca voluntariamente como lame duck o desajeitado "pato manco" do fim de mandato dos presidentes americanos que haveremos de defender e reconstruir um moderno tecido produtivo,a rede de bem-estar que a ele corresponde e a vida associativa livre e plural de que formos capazes.
Delfim e a doméstica que virou manicure - ELIO GASPARI
O GLOBO - 31/03
Veio do professor Antonio Delfim Netto a boa resposta aos sábios que defendem uma freada na economia. Numa breve declaração à repórter Gabriela Valente, ele disse o seguinte:
—A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses “gênios” é fazer com que ela volte a usar sabão de coco aumentando os juros.
Aos 84 anos, com treze de ministério, durante os quais mandou na economia como ninguém, mais vinte de Câmara dos Deputados, Delfim diz que o Brasil vive um “processo civilizatório”. Graças ao restabelecimento do valor da moeda por Fernando Henrique Cardoso e ao foco social expandido por Lula, Pindorama passa por uma experiência semelhante à dos Estados Unidos durante o governo de Franklin Roosevelt. Em poucas palavras: ou tem capitalismo para todo mundo ou não tem para ninguém.
Ao tempo dos gênios, um ministro do Trabalho disse que o Brasil não tinha desemprego, mas gente sem condições de empregabilidade. Em 2002, havia no país seis milhões de desocupados. Entre eles, estivera o engenheiro Odil Garcez Filho. Em 1982, quando Delfim era ministro do Planejamento, ele fora demitido, decidiu abrir uma lanchonete na Avenida Paulista e a batizou de “O Engenheiro que virou Suco”. No vidro da caixa colou seu diploma. Garcez morreu em 2001 e não viveu uma época em que faltam engenheiros no mercado.
A doméstica que virou manicure da metáfora de Delfim Netto não tem identidade, mas é um contraponto ao Brasil de Garcez, de uma época em que os gênios viriam a atribuir a falta de absorventes femininos a um “aquecimento da demanda”, como se o Plano Cruzado tivesse interferido do ciclo biológico das mulheres. Com seu sabonete Dove, a manicure de Delfim entrou num mercado de higiene pessoal que em 2012 faturou mais R$ 30 bilhões.
O “processo civilizatório” incomoda. Empregada doméstica com hora extra e acesso à multa do FGTS, o sujeito de bermuda e chinelo no check-in do aeroporto, cotistas e bolsistas do ProUni na mesma faculdade do Junior são um estorvo para a ordem natural das coisas. Como o foram a jornada de oito horas, os nordestinos migrando para São Paulo e o voto do analfabeto.
Quando Roosevelt redesenhou a sociedade americana, a oposição republicana levou décadas para entender que estava diante de um fenômeno histórico. Descontando-se os oito anos em que o país foi presidido pelo general Eisenhower, ela só voltou verdadeiramente ao poder em 1968, com Richard Nixon, 36 anos depois.
Feliciano e as patrulhas de desordeiros
Quem viu os constrangimentos a que foi submetida a blogueira cubana Yoani Sánchez em sua passagem pelo Brasil deve um cumprimento ao pastor Marco Feliciano. Ele deu voz de prisão a dois manifestantes que integravam uma patrulha de desordeiros se manifestando dentro da sala em que presidia uma reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Yoani Sánchez foi hostilizada em cinco cidades. Em Salvador, precisou de escolta policial e as patrulhas impediram a exibição de um documentário. Em São Paulo, foi obrigada a cancelar uma noite de autógrafos. Calar os outros no grito é falta de civilidade, mas tumultuar uma sessão de trabalho na Câmara dos Deputados é violação do regimento da Casa.
Admita-se que a presença de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos é um contrassenso, mas ele não chegou à cadeira no grito. Está lá porque foi eleito com 211 mil votos e preside a comissão pelo voto de seus pares.
Manipulação
O Itamaraty informou que a viagem da doutora Dilma a Roma custou R$ 324 mil à Viúva.
Só se ela e sua comitiva foram a pé.
Faltou computar o custo do voo do AeroLula. Por baixo, mais R$ 120 mil.
Domésticas
Deirdre McCloskey é uma economista americana, ex-assistente de Milton Friedman, ao tempo em que ela era o professor Donald. Afora essa peculiaridade, publicou em 2011 o segundo volume de sua magnífica série de exaltação ao burguês. Chama-se “Bourgeois Dignity” e está na rede por por US$ 9,99.
Para quem se incomodou com a ampliação dos direitos dos trabalhadores domésticos brasileiros, vale a pena relembrar dois trechos.
Num ela verifica que as casas da classe média alta brasileira e sul-africana estão sempre limpas. É o serviço da mão de obra barata. E acrescenta:
“Se explorar gente pobre de cor fosse boa ideia, os brancos brasileiros e sul-africanos de hoje viveriam melhor que portugueses, alemães e holandeses que estão nos países onde viviam seus ancestrais”.
PetroPT
A queda da Bolsa poderá acelerar os ventos de mudança no aparelho que o comissariado instalou na Petrobras.
Mãozinha
A doutora Dilma não estaria satisfeita com o desempenho público da Comissão da Verdade.
Pode até ter razão, mas a bola está na sua quadra. Bastaria pedir aos comandantes militares que evitassem fornecer à Comissão informações indecifráveis.
Por exemplo: cadê os nomes dos oficiais que serviram regularmente nos DOIs? Pode-se desprezar aqueles que iam para lá num sistema de rodízio e ficavam poucos dias.
Golpe
Vai dar bolo um truque posto em prática pelas empreiteiras de grandes obras e serviços para a Copa do Mundo e a Olimpíada.
Os doutores contratam a obra, atrasam no prazo e avançam nos custos. Como os compromissos têm datas inflexíveis, vão às conhecidas autoridades e pedem contratos de emergência, sem licitação. Nessa hora, fazem a festa.
Por exemplo: em aeroportos saturados, já há gente querendo oferecer gatilhos emergenciais e provisórios. Se os atrasos fossem reconhecidos hoje, esse serviços poderiam ser contratados a preços de mercado. Em cima da hora, sairão pelo preço que a esperteza cobrar.
Chafurdemos
Chafurdando na notícia, o repórter Felipe Recondo descobriu que em 2012 aconteceram as seguintes gracinhas no Conselho Nacional de Justiça:
- Em 2012, o CNJ gastou mais de R$ 1 milhão com mudanças de servidores e juízes.
- A conta da Bolsa Moradia pulou de R$ 355 mil em 2008 para R$ 900 mil no ano passado.
- No mesmo período, as despesas com diárias de viagens quintuplicaram, chegando a R$ 5,2 milhões. As despesas com passagens (R$ 2,3 milhões) duplicaram.
Noves fora o fato de três ex-conselheiros se servirem de carros oficiais. (Na Corte Suprema dos Estados Unidos, só quem tem essa mordomia é o presidente da Corte, no exercício do cargo.)Há poucas semanas o ministro Joaquim Barbosa, que assumiu o CNJ em novembro passado e portanto nada teve a ver com isso, mandou Recondo “chafurdar no lixo, como você faz sempre”. Depois, desculpou-se, por intermédio de sua assessoria.
Chafurdemos todos.
Veio do professor Antonio Delfim Netto a boa resposta aos sábios que defendem uma freada na economia. Numa breve declaração à repórter Gabriela Valente, ele disse o seguinte:
—A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses “gênios” é fazer com que ela volte a usar sabão de coco aumentando os juros.
Aos 84 anos, com treze de ministério, durante os quais mandou na economia como ninguém, mais vinte de Câmara dos Deputados, Delfim diz que o Brasil vive um “processo civilizatório”. Graças ao restabelecimento do valor da moeda por Fernando Henrique Cardoso e ao foco social expandido por Lula, Pindorama passa por uma experiência semelhante à dos Estados Unidos durante o governo de Franklin Roosevelt. Em poucas palavras: ou tem capitalismo para todo mundo ou não tem para ninguém.
Ao tempo dos gênios, um ministro do Trabalho disse que o Brasil não tinha desemprego, mas gente sem condições de empregabilidade. Em 2002, havia no país seis milhões de desocupados. Entre eles, estivera o engenheiro Odil Garcez Filho. Em 1982, quando Delfim era ministro do Planejamento, ele fora demitido, decidiu abrir uma lanchonete na Avenida Paulista e a batizou de “O Engenheiro que virou Suco”. No vidro da caixa colou seu diploma. Garcez morreu em 2001 e não viveu uma época em que faltam engenheiros no mercado.
A doméstica que virou manicure da metáfora de Delfim Netto não tem identidade, mas é um contraponto ao Brasil de Garcez, de uma época em que os gênios viriam a atribuir a falta de absorventes femininos a um “aquecimento da demanda”, como se o Plano Cruzado tivesse interferido do ciclo biológico das mulheres. Com seu sabonete Dove, a manicure de Delfim entrou num mercado de higiene pessoal que em 2012 faturou mais R$ 30 bilhões.
O “processo civilizatório” incomoda. Empregada doméstica com hora extra e acesso à multa do FGTS, o sujeito de bermuda e chinelo no check-in do aeroporto, cotistas e bolsistas do ProUni na mesma faculdade do Junior são um estorvo para a ordem natural das coisas. Como o foram a jornada de oito horas, os nordestinos migrando para São Paulo e o voto do analfabeto.
Quando Roosevelt redesenhou a sociedade americana, a oposição republicana levou décadas para entender que estava diante de um fenômeno histórico. Descontando-se os oito anos em que o país foi presidido pelo general Eisenhower, ela só voltou verdadeiramente ao poder em 1968, com Richard Nixon, 36 anos depois.
Feliciano e as patrulhas de desordeiros
Quem viu os constrangimentos a que foi submetida a blogueira cubana Yoani Sánchez em sua passagem pelo Brasil deve um cumprimento ao pastor Marco Feliciano. Ele deu voz de prisão a dois manifestantes que integravam uma patrulha de desordeiros se manifestando dentro da sala em que presidia uma reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Yoani Sánchez foi hostilizada em cinco cidades. Em Salvador, precisou de escolta policial e as patrulhas impediram a exibição de um documentário. Em São Paulo, foi obrigada a cancelar uma noite de autógrafos. Calar os outros no grito é falta de civilidade, mas tumultuar uma sessão de trabalho na Câmara dos Deputados é violação do regimento da Casa.
Admita-se que a presença de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos é um contrassenso, mas ele não chegou à cadeira no grito. Está lá porque foi eleito com 211 mil votos e preside a comissão pelo voto de seus pares.
Manipulação
O Itamaraty informou que a viagem da doutora Dilma a Roma custou R$ 324 mil à Viúva.
Só se ela e sua comitiva foram a pé.
Faltou computar o custo do voo do AeroLula. Por baixo, mais R$ 120 mil.
Domésticas
Deirdre McCloskey é uma economista americana, ex-assistente de Milton Friedman, ao tempo em que ela era o professor Donald. Afora essa peculiaridade, publicou em 2011 o segundo volume de sua magnífica série de exaltação ao burguês. Chama-se “Bourgeois Dignity” e está na rede por por US$ 9,99.
Para quem se incomodou com a ampliação dos direitos dos trabalhadores domésticos brasileiros, vale a pena relembrar dois trechos.
Num ela verifica que as casas da classe média alta brasileira e sul-africana estão sempre limpas. É o serviço da mão de obra barata. E acrescenta:
“Se explorar gente pobre de cor fosse boa ideia, os brancos brasileiros e sul-africanos de hoje viveriam melhor que portugueses, alemães e holandeses que estão nos países onde viviam seus ancestrais”.
PetroPT
A queda da Bolsa poderá acelerar os ventos de mudança no aparelho que o comissariado instalou na Petrobras.
Mãozinha
A doutora Dilma não estaria satisfeita com o desempenho público da Comissão da Verdade.
Pode até ter razão, mas a bola está na sua quadra. Bastaria pedir aos comandantes militares que evitassem fornecer à Comissão informações indecifráveis.
Por exemplo: cadê os nomes dos oficiais que serviram regularmente nos DOIs? Pode-se desprezar aqueles que iam para lá num sistema de rodízio e ficavam poucos dias.
Golpe
Vai dar bolo um truque posto em prática pelas empreiteiras de grandes obras e serviços para a Copa do Mundo e a Olimpíada.
Os doutores contratam a obra, atrasam no prazo e avançam nos custos. Como os compromissos têm datas inflexíveis, vão às conhecidas autoridades e pedem contratos de emergência, sem licitação. Nessa hora, fazem a festa.
Por exemplo: em aeroportos saturados, já há gente querendo oferecer gatilhos emergenciais e provisórios. Se os atrasos fossem reconhecidos hoje, esse serviços poderiam ser contratados a preços de mercado. Em cima da hora, sairão pelo preço que a esperteza cobrar.
Chafurdemos
Chafurdando na notícia, o repórter Felipe Recondo descobriu que em 2012 aconteceram as seguintes gracinhas no Conselho Nacional de Justiça:
- Em 2012, o CNJ gastou mais de R$ 1 milhão com mudanças de servidores e juízes.
- A conta da Bolsa Moradia pulou de R$ 355 mil em 2008 para R$ 900 mil no ano passado.
- No mesmo período, as despesas com diárias de viagens quintuplicaram, chegando a R$ 5,2 milhões. As despesas com passagens (R$ 2,3 milhões) duplicaram.
Noves fora o fato de três ex-conselheiros se servirem de carros oficiais. (Na Corte Suprema dos Estados Unidos, só quem tem essa mordomia é o presidente da Corte, no exercício do cargo.)Há poucas semanas o ministro Joaquim Barbosa, que assumiu o CNJ em novembro passado e portanto nada teve a ver com isso, mandou Recondo “chafurdar no lixo, como você faz sempre”. Depois, desculpou-se, por intermédio de sua assessoria.
Chafurdemos todos.
O poder à vista - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 31/03
O impasse sobre Feliciano é o 1º embate relevante em que os evangélicos se põem como um bloco orgânico
O impasse decorrente da presença do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias não é um caso político qualquer. Tanto expõe uma situação atual até aqui mal observada, como indica uma situação futura bastante problemática no Congresso, em particular na Câmara.
O caso em torno do pastor Marco Feliciano agrava-se mais, com sua decisão de afrontar os opositores e entregar a relatoria de projetos, na Comissão, a evangélicos notoriamente contrários a tais propostas, referentes a assuntos como aborto e sexo profissional.
Mas o comando da Câmara e a maioria dos líderes partidários estão acovardados, diante da dupla ameaça de reação do grupo de deputados-pastores à saída forçada de Marco Feliciano. Agora, tumultuariam a Câmara com ações deles próprios e com grandes mobilizações externas; depois, seriam campanhas acusatórias, nas eleições, aos autores de "perseguição religiosa" no Congresso.
Marco Feliciano está convidado para uma reunião, na terça-feira, com líderes das bancadas partidárias que tentariam demovê-lo da permanência como presidente daquela Comissão. Os sinais, até o final de semana, foram de provável ausência do convidado. E, a comparecer, seria para reafirmar a recusa à renúncia. É a posição transmitida por seus principais aliados entre os evangelistas da Câmara.
A reunião cordial foi adotada pelos líderes, ao fim de mais de duas horas de discussão, como alternativa à alegada falta de recurso do Regimento para a substituição compulsória de Marco Feliciano. A alegação é discutível, a começar de que a necessária atividade da Comissão está inviabilizada e, também para casos assim, a Câmara dispõe de Comissão de Ética e de Corregedoria. A alegação da falta de instrumentos resulta mais do temor de enfrentar o problema.
O impasse em torno do pastor-deputado Marco Feliciano, com suas manifestações racistas e anti-homossexuais, é o primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso. Este novo evangelista e o bloco ruralista não precisam estar de acordo em tudo para comprovar o adiantamento da direita, como bancada no Congresso, sobre os que se dizem "a esquerda".
A perspectiva dessa situação delineia-se neste fato incontestável: nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos. A contribuição que podem levar só é promissora para eles e seu projeto de poder político.
O impasse sobre Feliciano é o 1º embate relevante em que os evangélicos se põem como um bloco orgânico
O impasse decorrente da presença do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias não é um caso político qualquer. Tanto expõe uma situação atual até aqui mal observada, como indica uma situação futura bastante problemática no Congresso, em particular na Câmara.
O caso em torno do pastor Marco Feliciano agrava-se mais, com sua decisão de afrontar os opositores e entregar a relatoria de projetos, na Comissão, a evangélicos notoriamente contrários a tais propostas, referentes a assuntos como aborto e sexo profissional.
Mas o comando da Câmara e a maioria dos líderes partidários estão acovardados, diante da dupla ameaça de reação do grupo de deputados-pastores à saída forçada de Marco Feliciano. Agora, tumultuariam a Câmara com ações deles próprios e com grandes mobilizações externas; depois, seriam campanhas acusatórias, nas eleições, aos autores de "perseguição religiosa" no Congresso.
Marco Feliciano está convidado para uma reunião, na terça-feira, com líderes das bancadas partidárias que tentariam demovê-lo da permanência como presidente daquela Comissão. Os sinais, até o final de semana, foram de provável ausência do convidado. E, a comparecer, seria para reafirmar a recusa à renúncia. É a posição transmitida por seus principais aliados entre os evangelistas da Câmara.
A reunião cordial foi adotada pelos líderes, ao fim de mais de duas horas de discussão, como alternativa à alegada falta de recurso do Regimento para a substituição compulsória de Marco Feliciano. A alegação é discutível, a começar de que a necessária atividade da Comissão está inviabilizada e, também para casos assim, a Câmara dispõe de Comissão de Ética e de Corregedoria. A alegação da falta de instrumentos resulta mais do temor de enfrentar o problema.
O impasse em torno do pastor-deputado Marco Feliciano, com suas manifestações racistas e anti-homossexuais, é o primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso. Este novo evangelista e o bloco ruralista não precisam estar de acordo em tudo para comprovar o adiantamento da direita, como bancada no Congresso, sobre os que se dizem "a esquerda".
A perspectiva dessa situação delineia-se neste fato incontestável: nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos. A contribuição que podem levar só é promissora para eles e seu projeto de poder político.
Em busca da verdade - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 31/03
A Comissão da Verdade passa por um processo interno de debate para definir qual seu verdadeiro objetivo: se promover uma catarse nacional para superar os traumas causados pela ditadura militar, como querem alguns de seus membros, ou preparar um relatório que deixe registrado para a História o que foram os tempos da ditadura, além de documentos que possam ser consultados na internet pelos interessados. Além da discordância de fundo entre seus membros, há discordância também sobre os procedimentos a serem adotados.
Uma parte do grupo de sete membros que compõem a Comissão considera que um de seus objetivos é levar à opinião pública o maior número possível de informações sobre as atrocidades cometidas pela repressão militar durante a ditadura - de preferência da boca de parentes de vítimas e pessoas que estiveram envolvidas na luta armada, de modo que esses depoimentos sirvam para promover uma verdadeira catarse nacional, a melhor maneira de superar os traumas que ainda permanecem latentes na cidadania.
Sem esse tratamento de choque, seria impossível avançar no nosso processo democrático, sustentam os que defendem a tese. Outros consideram que a superação já foi alcançada pela negociação política feita na transição da ditadura para a democracia, culminando com a Lei da Anistia e a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República. O trabalho da Comissão da Verdade, nessa visão, seria o de contar a História daquele período para que ela não se repita.
A maneira de chegar aos objetivos de cada grupo também difere. Se ainda é majoritário o grupo que prefere uma ação mais discreta, que culminaria num relatório e na possibilidade de consulta de documentos pela internet, ganha força na comissão a tendência de incluir nomes nesse relatório final, o que também causa controvérsias. Há membros do grupo que consideram uma radicalização dispensável a inclusão de nomes. Alegam que, das 40 comissões já feitas no mundo sobre o assunto, nenhuma fez relatórios dando nomes aos torturadores ou aos que participaram direta ou indiretamente das ações criminosas da repressão militar.
No Chile, que fez duas comissões, a última elaborou uma lista de nomes que foi enterrada em uma caixa para ser aberta dentro de 50 anos. Há muitas dúvidas, por exemplo, sobre a participação de empresários ou médicos no financiamento e auxílio às torturas. Enquanto a ação de alguns pode ser comprovada através de testemunhas, outros poderiam ser acusados sem que tivessem tido condições de recusar a participação.
Há depoimentos de empresários que alegam terem sido forçados a colaborar financeiramente através de ameaças e chantagens. Há também diversos laudos assinados por legistas que, analisados por uma equipe de especialistas, foram considerados falsos ou com erros primários. A intenção dos médicos que assim agiram teria sido denunciar a farsa que estava sendo montada pelos militares.
Outra questão debatida com muita intensidade dentro da comissão é a sua limitação diante da lei aprovada pelo Congresso. Grupos de pressão querem que ela abra processos contra os acusados de participação no esquema de torturas. Por outro lado, grupos de militares enviaram à comissão relatos de ações terroristas contra alvos militares, exigindo que também essas sejam alvo da Comissão.
Como a lei brasileira que criou a Comissão da Verdade não permite nem uma coisa nem outra, as pressões vêm de vários lados e expõem as diferenças de pensamento de seus membros. Essa visão diversificada, que deveria ser benéfica para o resultado final do trabalho, acaba impedindo que ele se desenvolva sem interferências ideológicas.
Pessoalmente, considero estranha essa tentativa de se armar uma encenação teatral para envolver a opinião pública emocionalmente. Mais eficaz para o interesse do país será produzir um relatório minucioso, denunciando como funcionava a máquina de repressão militar, definindo a responsabilidade de cada um e dando os seus nomes quando for possível a identificação acima de quaisquer dúvidas. Os eventuais processos civis têm que ficar por conta dos familiares das vítimas.
Uma parte do grupo de sete membros que compõem a Comissão considera que um de seus objetivos é levar à opinião pública o maior número possível de informações sobre as atrocidades cometidas pela repressão militar durante a ditadura - de preferência da boca de parentes de vítimas e pessoas que estiveram envolvidas na luta armada, de modo que esses depoimentos sirvam para promover uma verdadeira catarse nacional, a melhor maneira de superar os traumas que ainda permanecem latentes na cidadania.
Sem esse tratamento de choque, seria impossível avançar no nosso processo democrático, sustentam os que defendem a tese. Outros consideram que a superação já foi alcançada pela negociação política feita na transição da ditadura para a democracia, culminando com a Lei da Anistia e a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República. O trabalho da Comissão da Verdade, nessa visão, seria o de contar a História daquele período para que ela não se repita.
A maneira de chegar aos objetivos de cada grupo também difere. Se ainda é majoritário o grupo que prefere uma ação mais discreta, que culminaria num relatório e na possibilidade de consulta de documentos pela internet, ganha força na comissão a tendência de incluir nomes nesse relatório final, o que também causa controvérsias. Há membros do grupo que consideram uma radicalização dispensável a inclusão de nomes. Alegam que, das 40 comissões já feitas no mundo sobre o assunto, nenhuma fez relatórios dando nomes aos torturadores ou aos que participaram direta ou indiretamente das ações criminosas da repressão militar.
No Chile, que fez duas comissões, a última elaborou uma lista de nomes que foi enterrada em uma caixa para ser aberta dentro de 50 anos. Há muitas dúvidas, por exemplo, sobre a participação de empresários ou médicos no financiamento e auxílio às torturas. Enquanto a ação de alguns pode ser comprovada através de testemunhas, outros poderiam ser acusados sem que tivessem tido condições de recusar a participação.
Há depoimentos de empresários que alegam terem sido forçados a colaborar financeiramente através de ameaças e chantagens. Há também diversos laudos assinados por legistas que, analisados por uma equipe de especialistas, foram considerados falsos ou com erros primários. A intenção dos médicos que assim agiram teria sido denunciar a farsa que estava sendo montada pelos militares.
Outra questão debatida com muita intensidade dentro da comissão é a sua limitação diante da lei aprovada pelo Congresso. Grupos de pressão querem que ela abra processos contra os acusados de participação no esquema de torturas. Por outro lado, grupos de militares enviaram à comissão relatos de ações terroristas contra alvos militares, exigindo que também essas sejam alvo da Comissão.
Como a lei brasileira que criou a Comissão da Verdade não permite nem uma coisa nem outra, as pressões vêm de vários lados e expõem as diferenças de pensamento de seus membros. Essa visão diversificada, que deveria ser benéfica para o resultado final do trabalho, acaba impedindo que ele se desenvolva sem interferências ideológicas.
Pessoalmente, considero estranha essa tentativa de se armar uma encenação teatral para envolver a opinião pública emocionalmente. Mais eficaz para o interesse do país será produzir um relatório minucioso, denunciando como funcionava a máquina de repressão militar, definindo a responsabilidade de cada um e dando os seus nomes quando for possível a identificação acima de quaisquer dúvidas. Os eventuais processos civis têm que ficar por conta dos familiares das vítimas.
O joio legislativo - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Perguntaram a Sólon,um dos sete sábios da Grécia antiga,se havia produzido boa legislação para os atenienses.Respondeu:"Dei-lhes as melhores leis que podiam suportar".Perguntaram ao barão de Montesquieu, o formulador da teoria da separação dos Poderes, quais as boas leis que um país deve ter. A resposta: "Quando vou a um país, não examino se há boas leis,mas se são executadas as que existem, pois há boas normas por toda parte".
Pergunte-se a um representante do povo no Parlamento brasileiro que critérios guiam a tarefa legislativa. É provável que aponte o número de projetos apresentados sem destaque para o mérito, corroborando a ideia de que,em nossa seara parlamentar, vale mais a quantidade do feijão plantado sobre a terra, do qual pouco se aproveita, do que a qualidade da semente.Amparadas pela força da lei, coisas estapafúrdias como o Dia da Joia Folheada(toda última terça feira de agosto), o Dia das Estrelas do Oriente, a Semana do Bebê e outras esquisitices povoam o manual do joio legislativo, escrito por parcela ponderável do corpo parlamentar.Instados fossem a discorrer sobre a natureza de nossas leis, os Sólons tupiniquins poderiam sacar a resposta: "São as leis que os brasileiros têm de aguentar". Cada povo com sua medida legislativa.
Não bastasse a progressão geométrica daquilo que se pode chamar Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa (PNBIL), forças exógenas emprestam sua colaboração para adensar o volume de normas inúteis. A Copa das Confederações e a Copa do Mundo, sob o escudo da Federação Internacional de Futebol (Fifa), anunciam um conjunto de normas para mudar o comportamento do torcedor brasileiro.Serão terminantemente proibidos nos estádios xingamentos a jogadores, juízes e suas progenitoras, censura que acabará abarcando os elogios, porquanto no burburinho de torcidas inflamadas nenhum ouvido será capaz de distinguir onomatopeias positivas de palavrões. Risível, não? O fato é que a Fifa quer mudar por decreto a maneira brasileira de ser. Obrigar torcedor fanático a entrar em ordem unida e adotar comportamento considerado exemplar é tentar tapar o sol com a peneira. Tem mais: que ninguém tente levantar-se para comemorar um gol de seu time ou reclamar impedimento de jogador do time adversário.Cerveja pode,mas fumar,nem pensar.
Dito isso, vem a pergunta: como os pregadores dos bons costumes em estádios de futebol controlarão o ímpeto expressivo da massa? Brigadas da Fifa vigiarão seus movimentos?
Esses são os nossos trópicos.A fúria legiferante que entope as vias institucionais e chega ao cotidiano, afetando de um modo ou de outro a vida das pessoas, tem muitas significações. Para começar,somos um país que ainda não cortou as amarras da secular árvore do carimbo, "preciosidade" trazida pelos colonizadores portugueses. O carimbo foi criado por dom Diniz nos idos de 1305 para conferir autenticidade a documentos. Concedido a "homens bons", nomeados pelo rei, que juravam fidelidade aos santos Evangelhos, incrustou-se na vida brasileira a ponto de atravessar, incólume, mais de cinco séculos.Deixa sua tinta forte na própria era digital.
A autenticação e os selinhos de cartórios trazem obsoletos costumes ao nosso cotidiano, pavimentando os caminhos da burocracia. Explica-se o cartorialismo ainda pela capacidade de fortalecer a estrutura de autoridade; esta, por sua vez, se expande na esteira de leis que procuram impor a ordem do mundo ideal.
Trata-se da visão platônica de plasmar a realidade por força da lei. A célebre pergunta "você sabe com quem está falando?" expressa a ideia de que o poder deriva do cargo de quem o detém.O brasileiro,mais que outros povos, exibe essa bandeira.
A floresta legislativa agigantase nessa vertente. De 2000 a 2010, o País criou 75.517 leis, somando legislações ordinárias e complementares estaduais e federais, além de decretos federais, o que dá 6.865 leis por ano.Em 2012, na Alemanha, o Parlamento foi muito criticado por ter aprovado 20 leis. A imprensa considerou excessivo o número.Lembre-se que os anglo-saxões organizam a vida sob o direito consuetudinário, ancorado em costumes. Poucas leis bastam.
Outra questão é a desobediência ao império legal. Infringir a lei torna-se rotina no País. Não por acaso, entramos no chiste como quarta modalidade de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa,em que tudo é permitido,com exceção do que é proibido; a segunda é a alemã, em que tudo é proibido, salvo o que for permitido;a terceira é a totalitária,em que tudo é proibido,mesmo o que for permitido;e a quarta é a brasileira, em que tudo é permitido, mesmo o que for proibido. Nossas leis caem no esquecimento. Proibição de películas escuras nos automóveis?
Uso de cinto de segurança no banco traseiro?Dirigir com apenas uma mão no volante? Levar estojo de primeiros socorros nos veículos? Afinal, essas coisas foram ou não revogadas? Por via das dúvidas, não se cumpre a legislação. E ainda há um monte de leis inconstitucionais. Nos últimos dez anos, o STF julgou quase 3 mil ações diretas de inconstitucionalidade, mais de 20% foram julgados inconstitucionais.
Imensa quantidade do arsenal legislativo não atinge a vida dos cidadãos. São floreios para adornar uma galeria de homenageados. Datas comemorativas e louvações tomam a agenda de nossos representantes.Por último, pérolas formam o PNBIL: em Santa Maria (RS) um vereador propôs a lei do silêncio dos animais para evitar latidos de cachorros após as 22 horas;em Catanduva (SP) um projeto ditava que os doentes deveriam morrer em cidades vizinhas por causa da superlotação das sepulturas; em Sobral (CE) sugeriu-se construir Torres Gêmeas para abrigar a prefeitura e as secretarias; em Manaus um vereador queria instalar um neutralizador de odores nos caminhões de lixo;e em Porto Alegre cavalos e burros teriam de usar fraldas, "com exceção dos que participarem de eventos". Ufa!
Pergunte-se a um representante do povo no Parlamento brasileiro que critérios guiam a tarefa legislativa. É provável que aponte o número de projetos apresentados sem destaque para o mérito, corroborando a ideia de que,em nossa seara parlamentar, vale mais a quantidade do feijão plantado sobre a terra, do qual pouco se aproveita, do que a qualidade da semente.Amparadas pela força da lei, coisas estapafúrdias como o Dia da Joia Folheada(toda última terça feira de agosto), o Dia das Estrelas do Oriente, a Semana do Bebê e outras esquisitices povoam o manual do joio legislativo, escrito por parcela ponderável do corpo parlamentar.Instados fossem a discorrer sobre a natureza de nossas leis, os Sólons tupiniquins poderiam sacar a resposta: "São as leis que os brasileiros têm de aguentar". Cada povo com sua medida legislativa.
Não bastasse a progressão geométrica daquilo que se pode chamar Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa (PNBIL), forças exógenas emprestam sua colaboração para adensar o volume de normas inúteis. A Copa das Confederações e a Copa do Mundo, sob o escudo da Federação Internacional de Futebol (Fifa), anunciam um conjunto de normas para mudar o comportamento do torcedor brasileiro.Serão terminantemente proibidos nos estádios xingamentos a jogadores, juízes e suas progenitoras, censura que acabará abarcando os elogios, porquanto no burburinho de torcidas inflamadas nenhum ouvido será capaz de distinguir onomatopeias positivas de palavrões. Risível, não? O fato é que a Fifa quer mudar por decreto a maneira brasileira de ser. Obrigar torcedor fanático a entrar em ordem unida e adotar comportamento considerado exemplar é tentar tapar o sol com a peneira. Tem mais: que ninguém tente levantar-se para comemorar um gol de seu time ou reclamar impedimento de jogador do time adversário.Cerveja pode,mas fumar,nem pensar.
Dito isso, vem a pergunta: como os pregadores dos bons costumes em estádios de futebol controlarão o ímpeto expressivo da massa? Brigadas da Fifa vigiarão seus movimentos?
Esses são os nossos trópicos.A fúria legiferante que entope as vias institucionais e chega ao cotidiano, afetando de um modo ou de outro a vida das pessoas, tem muitas significações. Para começar,somos um país que ainda não cortou as amarras da secular árvore do carimbo, "preciosidade" trazida pelos colonizadores portugueses. O carimbo foi criado por dom Diniz nos idos de 1305 para conferir autenticidade a documentos. Concedido a "homens bons", nomeados pelo rei, que juravam fidelidade aos santos Evangelhos, incrustou-se na vida brasileira a ponto de atravessar, incólume, mais de cinco séculos.Deixa sua tinta forte na própria era digital.
A autenticação e os selinhos de cartórios trazem obsoletos costumes ao nosso cotidiano, pavimentando os caminhos da burocracia. Explica-se o cartorialismo ainda pela capacidade de fortalecer a estrutura de autoridade; esta, por sua vez, se expande na esteira de leis que procuram impor a ordem do mundo ideal.
Trata-se da visão platônica de plasmar a realidade por força da lei. A célebre pergunta "você sabe com quem está falando?" expressa a ideia de que o poder deriva do cargo de quem o detém.O brasileiro,mais que outros povos, exibe essa bandeira.
A floresta legislativa agigantase nessa vertente. De 2000 a 2010, o País criou 75.517 leis, somando legislações ordinárias e complementares estaduais e federais, além de decretos federais, o que dá 6.865 leis por ano.Em 2012, na Alemanha, o Parlamento foi muito criticado por ter aprovado 20 leis. A imprensa considerou excessivo o número.Lembre-se que os anglo-saxões organizam a vida sob o direito consuetudinário, ancorado em costumes. Poucas leis bastam.
Outra questão é a desobediência ao império legal. Infringir a lei torna-se rotina no País. Não por acaso, entramos no chiste como quarta modalidade de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa,em que tudo é permitido,com exceção do que é proibido; a segunda é a alemã, em que tudo é proibido, salvo o que for permitido;a terceira é a totalitária,em que tudo é proibido,mesmo o que for permitido;e a quarta é a brasileira, em que tudo é permitido, mesmo o que for proibido. Nossas leis caem no esquecimento. Proibição de películas escuras nos automóveis?
Uso de cinto de segurança no banco traseiro?Dirigir com apenas uma mão no volante? Levar estojo de primeiros socorros nos veículos? Afinal, essas coisas foram ou não revogadas? Por via das dúvidas, não se cumpre a legislação. E ainda há um monte de leis inconstitucionais. Nos últimos dez anos, o STF julgou quase 3 mil ações diretas de inconstitucionalidade, mais de 20% foram julgados inconstitucionais.
Imensa quantidade do arsenal legislativo não atinge a vida dos cidadãos. São floreios para adornar uma galeria de homenageados. Datas comemorativas e louvações tomam a agenda de nossos representantes.Por último, pérolas formam o PNBIL: em Santa Maria (RS) um vereador propôs a lei do silêncio dos animais para evitar latidos de cachorros após as 22 horas;em Catanduva (SP) um projeto ditava que os doentes deveriam morrer em cidades vizinhas por causa da superlotação das sepulturas; em Sobral (CE) sugeriu-se construir Torres Gêmeas para abrigar a prefeitura e as secretarias; em Manaus um vereador queria instalar um neutralizador de odores nos caminhões de lixo;e em Porto Alegre cavalos e burros teriam de usar fraldas, "com exceção dos que participarem de eventos". Ufa!
De Obama a Aécio - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 31/03
BRASÍLIA - A partir da Páscoa, tende a acontecer uma reviravolta, ao menos uma inversão, nas expectativas das candidaturas de oposição.
Até aqui, Eduardo Campos (PSB), capaz de minar a reeleição de Dilma "por dentro" e saudado como "o novo", ocupa espaços na mídia, angaria simpatias na base de Dilma e nos aliados do PSDB. Agora, começa a sentir o gosto, nem sempre doce, do excesso de exposição.
O PT já martela que ele é "traidor", por ser da base e lançar-se contra Dilma. Uma coluna daqui questiona a legitimidade de colocar-se na oposição. Outra dali cutuca seu estilo, não tão moderninho assim, em Pernambuco. Mais virá.
De outro lado, Aécio Neves parecia imobilizado na teia de egos e disputas do seu partido, excessivamente voltado para dentro e para debates que não fazem nem cosquinha no eleitorado. O PSDB fala para seu próprio eleitor, não para o eleitorado que pode ganhar a mais. Isso também começa a mudar.
Quando os tucanos se reúnem nos plenários solenes e sob o ar condicionado do Congresso para discutir o desmanche da Petrobras, isso me faz lembrar a frase lapidar do mestre Elio Gaspari: "O tucanato continua encantado pela crença segundo a qual, se uma pessoa ficar com duas vezes mais raiva do PT, terá direito a dois votos na eleição".
Com a população embalada por um "estado de felicidade", com emprego, renda, bolsas e cotas, o eleitorado está tão fascinado por Dilma quanto esteve por Lula. Mas, se o PT teve cerca de 43% dos votos totais em 2002, 2006 e 2010, 57% não cairão por gravidade no colo de Dilma e oferecem-se à conquista.
É para fazer a ponte com eles que o PSDB está trazendo dos Estados Unidos o estrategista David Axelrod, arquiteto da campanha do democrata Barack Obama.
Dilma é hoje uma candidata pronta, e Marina só precisa de ajustes. Os novatos Aécio e Campos têm de ser "construídos". Senão, a casa cai.
BRASÍLIA - A partir da Páscoa, tende a acontecer uma reviravolta, ao menos uma inversão, nas expectativas das candidaturas de oposição.
Até aqui, Eduardo Campos (PSB), capaz de minar a reeleição de Dilma "por dentro" e saudado como "o novo", ocupa espaços na mídia, angaria simpatias na base de Dilma e nos aliados do PSDB. Agora, começa a sentir o gosto, nem sempre doce, do excesso de exposição.
O PT já martela que ele é "traidor", por ser da base e lançar-se contra Dilma. Uma coluna daqui questiona a legitimidade de colocar-se na oposição. Outra dali cutuca seu estilo, não tão moderninho assim, em Pernambuco. Mais virá.
De outro lado, Aécio Neves parecia imobilizado na teia de egos e disputas do seu partido, excessivamente voltado para dentro e para debates que não fazem nem cosquinha no eleitorado. O PSDB fala para seu próprio eleitor, não para o eleitorado que pode ganhar a mais. Isso também começa a mudar.
Quando os tucanos se reúnem nos plenários solenes e sob o ar condicionado do Congresso para discutir o desmanche da Petrobras, isso me faz lembrar a frase lapidar do mestre Elio Gaspari: "O tucanato continua encantado pela crença segundo a qual, se uma pessoa ficar com duas vezes mais raiva do PT, terá direito a dois votos na eleição".
Com a população embalada por um "estado de felicidade", com emprego, renda, bolsas e cotas, o eleitorado está tão fascinado por Dilma quanto esteve por Lula. Mas, se o PT teve cerca de 43% dos votos totais em 2002, 2006 e 2010, 57% não cairão por gravidade no colo de Dilma e oferecem-se à conquista.
É para fazer a ponte com eles que o PSDB está trazendo dos Estados Unidos o estrategista David Axelrod, arquiteto da campanha do democrata Barack Obama.
Dilma é hoje uma candidata pronta, e Marina só precisa de ajustes. Os novatos Aécio e Campos têm de ser "construídos". Senão, a casa cai.
Pior que o caso do pastor - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 31/03
Com o noticiário do Congresso concentrado no escândalo Feliciano - a entrega da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara ao Deputado evangélico Marco Feliciano Feliciano, do Partido Social Cristão (PSC), que deu motivos para ser considerado racista e homofóbico, e que insiste em permanecer no cargo, apesar dos incessantes protestos de que é alvo - a imprensa deu escasso destaque a uma aberração ainda maior. Na mesma quarta-feira em que o mau pastor mandou prender um manifestante, retirar os demais do plenário da comissão para, enfim, justificar a truculência com a alegação de que "democracia é isso", a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa aprovou uma proposta que agride um dos princípios basilares da República brasileira: o caráter laico do Estado.
De autoria do tucano João Campos, de Goiás, membro da suprapartidária bancada evangélica, o projeto estende às organizações religiosas a prerrogativa de contestar a constitucionalidade das leis no Supremo Tribunal Federal (STF). Pela Constituição, podem propor ações dessa natureza o presidente da República, as Mesas do Senado, Câmara e Assembleias Legislativas, governadores, o procurador-geral da República, a OAB, partidos com representação no Congresso, confederações sindicais c entidades de classe de âmbito nacional. O leque de agentes públicos e privados aptos a entrar no STF com as chamadas Ações Diretas de Constitucionalidade (Adin) é, portanto, suficientemente amplo para representar legitimamente as múltiplas correntes da população insatisfeitas com essa ou aquela norma legal - preservada a separação entre Estado e igreja.
Exemplo disso foi a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no bojo da Lei de Biossegurança aprovada pelo Congresso depois de intensos debates e plena participação da sociedade c sancionada pelo então presidente Lula em março de 2005. A Igreja Católica, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se bateu com veemência contra a medida, assim como fizeram outras denominações religiosas, contornou o impedimento constitucional de bater, ela própria, às portas do Supremo Tribunal. Não lhe foi difícil encontrar a alternativa na pessoa do procurador-geral da República, à época, o católico praticante Cláudio Fonteles. Admitida a Adin, a CNBB teve todas as oportunidades de sustentar os seus pontos de vista no curso do histórico julgamento - que concluiu pela constitucionalidade da lei.
Argumenta Campos, o autor do projeto acolhido pela CCJ, que as associações religiosas deveriam ter o direito de pedir à Justiça que invalide dispositivos legais que, no seu entender, poderiam interferir na liberdade religiosa e de culto, assegurada na Carta. Seria o caso de eventual legislação que torne crime a homofobia. Em alguns cultos evangélicos, como se sabe, o homossexualismo é verberado como uma das mais repulsivas ofensas às leis divinas. Nem sempre são nítidos os limites entre essa pregação c o incitamento do ódio aos gays. O pastor Feliciano, por exemplo, escreveu certa vez que "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição". O problema, de toda forma, é a barreira infranqueável que impede o contágio do Estado pelas religiões organizadas e vice-versa.
Do mesmo modo que não se pode aceitar com naturalidade que um parlamentar com as opiniões de Feliciano conduza um órgão destinado a proteger, entre outras, as vítimas da discriminação e do preconceito, é inconcebível que se considere natural que entidades confessionais possam ser incluídas entre aquelas apropriadamente credenciadas para questionar no STF a adequação das leis à Constituição. Delas, convém lembrar, fazem parte as legendas com assento no Congresso - como o PSC de Feliciano. Felizmente, o projeto de emenda constitucional aprovado na CCJ tem ainda um longo percurso pela frente. Será submetido à Comissão Especial da Câmara e, eventualmente, ao plenário da Casa, em duas votações com quorum qualificado. Passando, enfrentará o mesmo rito no Senado. Tempo bastante e instâncias suficientes de decisão para que tenha o merecido destino - o arquivamento.
De autoria do tucano João Campos, de Goiás, membro da suprapartidária bancada evangélica, o projeto estende às organizações religiosas a prerrogativa de contestar a constitucionalidade das leis no Supremo Tribunal Federal (STF). Pela Constituição, podem propor ações dessa natureza o presidente da República, as Mesas do Senado, Câmara e Assembleias Legislativas, governadores, o procurador-geral da República, a OAB, partidos com representação no Congresso, confederações sindicais c entidades de classe de âmbito nacional. O leque de agentes públicos e privados aptos a entrar no STF com as chamadas Ações Diretas de Constitucionalidade (Adin) é, portanto, suficientemente amplo para representar legitimamente as múltiplas correntes da população insatisfeitas com essa ou aquela norma legal - preservada a separação entre Estado e igreja.
Exemplo disso foi a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no bojo da Lei de Biossegurança aprovada pelo Congresso depois de intensos debates e plena participação da sociedade c sancionada pelo então presidente Lula em março de 2005. A Igreja Católica, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se bateu com veemência contra a medida, assim como fizeram outras denominações religiosas, contornou o impedimento constitucional de bater, ela própria, às portas do Supremo Tribunal. Não lhe foi difícil encontrar a alternativa na pessoa do procurador-geral da República, à época, o católico praticante Cláudio Fonteles. Admitida a Adin, a CNBB teve todas as oportunidades de sustentar os seus pontos de vista no curso do histórico julgamento - que concluiu pela constitucionalidade da lei.
Argumenta Campos, o autor do projeto acolhido pela CCJ, que as associações religiosas deveriam ter o direito de pedir à Justiça que invalide dispositivos legais que, no seu entender, poderiam interferir na liberdade religiosa e de culto, assegurada na Carta. Seria o caso de eventual legislação que torne crime a homofobia. Em alguns cultos evangélicos, como se sabe, o homossexualismo é verberado como uma das mais repulsivas ofensas às leis divinas. Nem sempre são nítidos os limites entre essa pregação c o incitamento do ódio aos gays. O pastor Feliciano, por exemplo, escreveu certa vez que "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição". O problema, de toda forma, é a barreira infranqueável que impede o contágio do Estado pelas religiões organizadas e vice-versa.
Do mesmo modo que não se pode aceitar com naturalidade que um parlamentar com as opiniões de Feliciano conduza um órgão destinado a proteger, entre outras, as vítimas da discriminação e do preconceito, é inconcebível que se considere natural que entidades confessionais possam ser incluídas entre aquelas apropriadamente credenciadas para questionar no STF a adequação das leis à Constituição. Delas, convém lembrar, fazem parte as legendas com assento no Congresso - como o PSC de Feliciano. Felizmente, o projeto de emenda constitucional aprovado na CCJ tem ainda um longo percurso pela frente. Será submetido à Comissão Especial da Câmara e, eventualmente, ao plenário da Casa, em duas votações com quorum qualificado. Passando, enfrentará o mesmo rito no Senado. Tempo bastante e instâncias suficientes de decisão para que tenha o merecido destino - o arquivamento.
Limites do crédito - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP- 31/03
Política de ampliar os empréstimos dá sinais de esgotamento, e piora das notas do BNDES e da Caixa são sintoma desse quadro
O rebaixamento da nota de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da CEF (Caixa Econômica Federal) pela agência Moody's não deve afetar o custo de captação de recursos por essas instituições, ao menos por ora. Suas notas estão agora alinhadas com a do Brasil e ainda na categoria de investimentos seguros.
Mais importante que a classificação é a análise da agência. Ela assinala o crescimento muito rápido dos empréstimos, a sensível piora do balanço patrimonial e a crescente dependência de financiamento do Tesouro.
No caso do BNDES, segundo a Moody's, os empréstimos cresceram 29% ao ano desde 2008, taxa muito superior à alta do PIB no período. É um ritmo vertiginoso, que levou os valores movimentados pelo banco a mais que dobrarem em quatro anos. Em geral, conceder crédito de modo acelerado pode prejudicar a análise da capacidade de pagamento do tomador.
Para tanto, o BNDES contou com R$ 310 bilhões em recursos do Tesouro. De quase zero em 2007, tais aportes -financiados com emissão de dívida pública, nunca é demais lembrar- já representam mais de 51% da captação do banco.
O caso da CEF não é muito diferente. O aumento de sua carteira de crédito foi ainda mais exuberante, de 42% ao ano. Os empréstimos foram de menos de R$ 100 bilhões em 2008 para R$ 350 bilhões em 2012. Seu foco está no setor imobiliário, mas cada vez mais a CEF se aventura em segmentos como infraestrutura e agricultura.
Além de fazer aportes ao BNDES, o Tesouro obrigou as duas instituições a absorver R$ 31 bilhões em ações de empresas estatais e outros títulos. A Moody's estima que 40,5% do capital do BNDES seja composto por ações de estatais.
Não se trata, porém, de uma boa prática bancária. Em momentos difíceis como o atualmente vivido na economia mundial, quando os preços das ações tendem a despencar (basta ver o ocorrido com as ações de Eletrobras e Petrobras nos últimos meses), a solidez patrimonial de um banco adquire relevância decisiva.
O mais marcante é que nem essa ciranda de empréstimos tenha sido capaz de impulsionar a taxa de investimento no país, que permanece em 18% do PIB. Sempre é possível argumentar que o quadro teria sido pior sem o derrame de crédito público, mas o efeito parece pouco discernível.
A estratégia do Planalto de acelerar o crescimento com crédito está se esgotando. Os níveis de endividamento já são altos e, se ainda não há uma bolha perigosa, percebe-se um descompasso que levará algum tempo para ser corrigido.
Política de ampliar os empréstimos dá sinais de esgotamento, e piora das notas do BNDES e da Caixa são sintoma desse quadro
O rebaixamento da nota de crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da CEF (Caixa Econômica Federal) pela agência Moody's não deve afetar o custo de captação de recursos por essas instituições, ao menos por ora. Suas notas estão agora alinhadas com a do Brasil e ainda na categoria de investimentos seguros.
Mais importante que a classificação é a análise da agência. Ela assinala o crescimento muito rápido dos empréstimos, a sensível piora do balanço patrimonial e a crescente dependência de financiamento do Tesouro.
No caso do BNDES, segundo a Moody's, os empréstimos cresceram 29% ao ano desde 2008, taxa muito superior à alta do PIB no período. É um ritmo vertiginoso, que levou os valores movimentados pelo banco a mais que dobrarem em quatro anos. Em geral, conceder crédito de modo acelerado pode prejudicar a análise da capacidade de pagamento do tomador.
Para tanto, o BNDES contou com R$ 310 bilhões em recursos do Tesouro. De quase zero em 2007, tais aportes -financiados com emissão de dívida pública, nunca é demais lembrar- já representam mais de 51% da captação do banco.
O caso da CEF não é muito diferente. O aumento de sua carteira de crédito foi ainda mais exuberante, de 42% ao ano. Os empréstimos foram de menos de R$ 100 bilhões em 2008 para R$ 350 bilhões em 2012. Seu foco está no setor imobiliário, mas cada vez mais a CEF se aventura em segmentos como infraestrutura e agricultura.
Além de fazer aportes ao BNDES, o Tesouro obrigou as duas instituições a absorver R$ 31 bilhões em ações de empresas estatais e outros títulos. A Moody's estima que 40,5% do capital do BNDES seja composto por ações de estatais.
Não se trata, porém, de uma boa prática bancária. Em momentos difíceis como o atualmente vivido na economia mundial, quando os preços das ações tendem a despencar (basta ver o ocorrido com as ações de Eletrobras e Petrobras nos últimos meses), a solidez patrimonial de um banco adquire relevância decisiva.
O mais marcante é que nem essa ciranda de empréstimos tenha sido capaz de impulsionar a taxa de investimento no país, que permanece em 18% do PIB. Sempre é possível argumentar que o quadro teria sido pior sem o derrame de crédito público, mas o efeito parece pouco discernível.
A estratégia do Planalto de acelerar o crescimento com crédito está se esgotando. Os níveis de endividamento já são altos e, se ainda não há uma bolha perigosa, percebe-se um descompasso que levará algum tempo para ser corrigido.
A reforma política - GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 31/03
Agora vai: a votação em plenário do projeto de reforma política em gestação no Congresso há décadas está prevista para os dias 9 e 10 deste mês. Quem diz é o deputado Henrique Fontana (PT-RS), presidente da comissão especial que formatou a proposta final, cujos termos foram publicados na edição de 4 de março da Gazeta do Povo.
São quatro os pontos fundamentais da proposta, mas nem todos são capazes de obter consenso entre os parlamentares. É provável que poucos discordem, por exemplo, do primeiro ponto – aquele que prevê a coincidência numa só data para os pleitos em todas as esferas, isso é, a cada quatro anos e numa mesma eleição o eleitor votará para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual, prefeito e vereador. Elimina-se a frequência bienal e, sobretudo, elimina-se também a influência e/ou a intromissão de mandatários que se encontram na metade de seus exercícios na eleição de outra esfera.
Trata-se de medida inteligente e moralizadora, pois evita, por exemplo, que um governador interessado em se reeleger utilize, dois anos depois, a máquina do estado para favorecer a eleição de uma maioria de prefeitos que venham previamente se comprometer com o interesse reeleitoral do chefe do Executivo estadual. Os males desta prática, que se repete nos níveis federal e municipal, são evidentes, na medida, principalmente, em que desvirtuam e contaminam os programas administrativos com o vírus do fisiologismo político e apequenam os planos de mais longo prazo.
Outro ponto da reforma passível de merecer a aceitação da maioria diz respeito à abolição das coligações partidárias nas eleições proporcionais – berço que embala o surgimento das legendas de aluguel e poderoso fator de distorções na representação popular. Tem sido graças ao mecanismo das coligações que inexpressivos militantes de legendas nanicas conseguem eleger-se em detrimento da legitimidade e expressão de outros candidatos. Mais do que esse mal, as coligações são também um fator de desideologização das siglas partidárias, na medida em que elas se unem por motivos meramente eleitoreiros, contrariando por completo os fundamentos doutrinários inscritos em seus regimentos internos. Não são raros os casos, por exemplo, em que o centrista DEM se coliga com o radical de esquerda PCdoB; ou que os antagonistas PT e PSDB formem chapas conjuntas. A proibição das coligações forçará a definição política e ideológica dos partidos, obrigando-os a representar com mais fidelidade as correntes de pensamento que permeiam a sociedade.
Além da unificação das datas e do fim das coligações, também estão na pauta da reforma política o financiamento público de campanha e o voto em listas 100% abertas, onde o eleitor pode optar em votar diretamente em um candidato ou em uma lista pré-determinada pelos partidos. São temas que exigem mais reflexão, pois, além de seus prós e contras, ainda existem diversas alternativas válidas e talvez até preferíveis, como o voto distrital misto. Pelo menos a iniciativa de colocar o tema em votação mesmo sem acordo entre os partidos será útil para saber o que cada legenda pensa sobre o tema, e se elas têm algo mais a oferecer para melhorar a proposta.
Agora vai: a votação em plenário do projeto de reforma política em gestação no Congresso há décadas está prevista para os dias 9 e 10 deste mês. Quem diz é o deputado Henrique Fontana (PT-RS), presidente da comissão especial que formatou a proposta final, cujos termos foram publicados na edição de 4 de março da Gazeta do Povo.
São quatro os pontos fundamentais da proposta, mas nem todos são capazes de obter consenso entre os parlamentares. É provável que poucos discordem, por exemplo, do primeiro ponto – aquele que prevê a coincidência numa só data para os pleitos em todas as esferas, isso é, a cada quatro anos e numa mesma eleição o eleitor votará para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual, prefeito e vereador. Elimina-se a frequência bienal e, sobretudo, elimina-se também a influência e/ou a intromissão de mandatários que se encontram na metade de seus exercícios na eleição de outra esfera.
Trata-se de medida inteligente e moralizadora, pois evita, por exemplo, que um governador interessado em se reeleger utilize, dois anos depois, a máquina do estado para favorecer a eleição de uma maioria de prefeitos que venham previamente se comprometer com o interesse reeleitoral do chefe do Executivo estadual. Os males desta prática, que se repete nos níveis federal e municipal, são evidentes, na medida, principalmente, em que desvirtuam e contaminam os programas administrativos com o vírus do fisiologismo político e apequenam os planos de mais longo prazo.
Outro ponto da reforma passível de merecer a aceitação da maioria diz respeito à abolição das coligações partidárias nas eleições proporcionais – berço que embala o surgimento das legendas de aluguel e poderoso fator de distorções na representação popular. Tem sido graças ao mecanismo das coligações que inexpressivos militantes de legendas nanicas conseguem eleger-se em detrimento da legitimidade e expressão de outros candidatos. Mais do que esse mal, as coligações são também um fator de desideologização das siglas partidárias, na medida em que elas se unem por motivos meramente eleitoreiros, contrariando por completo os fundamentos doutrinários inscritos em seus regimentos internos. Não são raros os casos, por exemplo, em que o centrista DEM se coliga com o radical de esquerda PCdoB; ou que os antagonistas PT e PSDB formem chapas conjuntas. A proibição das coligações forçará a definição política e ideológica dos partidos, obrigando-os a representar com mais fidelidade as correntes de pensamento que permeiam a sociedade.
Além da unificação das datas e do fim das coligações, também estão na pauta da reforma política o financiamento público de campanha e o voto em listas 100% abertas, onde o eleitor pode optar em votar diretamente em um candidato ou em uma lista pré-determinada pelos partidos. São temas que exigem mais reflexão, pois, além de seus prós e contras, ainda existem diversas alternativas válidas e talvez até preferíveis, como o voto distrital misto. Pelo menos a iniciativa de colocar o tema em votação mesmo sem acordo entre os partidos será útil para saber o que cada legenda pensa sobre o tema, e se elas têm algo mais a oferecer para melhorar a proposta.
Causa revogada - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 31/03
Os desentendimentos recentes entre representantes do movimento dos sem terra e o governo federal, em que há, como desde o início da Era Lula, em 2003, aliados do MST, são reveladores do momento de dificuldades por que passa a proposta de reforma agrária.
A militância da divisão de terras, bandeira histórica na política brasileira, não se cansa de reivindicar mais lotes e recursos para os assentados. Sempre será assim, é da lógica deste tipo de luta. Mas quem está no governo precisa ter outra perspectiva das demandas que chegam da sociedade - se houver um mínimo de consciência pública. De fato, no governo Dilma cai o ritmo de assentamentos. Na gestão FH, a média anual de famílias assentadas foi de 67.588; com Lula, 76.761, e Dilma, 22.552.
A explicação é plausível, dada por alguém insuspeito para os chamados movimentos sociais, ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência: é preciso, primeiro, tratar de reformar os atuais assentamentos, dar-lhes condições de se sustentar por conta própria. Carvalho não errou ao afirmar que muitos deles são "quase favelas rurais". Foi até elegante. Reportagem feita pelo GLOBO confirmou a precariedade de projetos do Incra. Mesmo em São Paulo, estado em que há amplos canais de comercialização de produtos agrícolas e infraestrutura em geral.
É razoável considerar que uma das causas do visível fracasso de assentamentos de reforma agrária seja o descuido na distribuição de terras, feita sob pressão política. Ajuda, ainda, na distorção usar a estatística fria do número de famílias assentadas como indicador da eficiência do programa de reforma da estrutura fundiária.
Pode-se distribuir centenas de milhares de pessoas pelo interior do país sem que elas ascendam socialmente por meio do cultivo da terra. É o que tem acontecido, com muito assentado sobrevivendo apenas graças ao Bolsa Família.
A intenção do governo de dar prioridade ao apoio aos assentamentos existentes - por meio de treinamento, assistência técnica etc. - faz sentido. Pode não coincidir com as estratégias políticas do MST e aliados, mas é o correto.
Outro aspecto da atual discussão sobre reforma agrária é saber se a proposta continua atual ou foi superada pelo vertiginoso crescimento da agricultura capitalista no Brasil, indutora da modernização de propriedades de todos os tamanhos. Inclusive o minifúndio, principalmente aquele incluído em grandes redes de fornecedores da agroindústria.
Como o "latifúndio improdutivo" foi, na prática, extinto pela agricultura de mercado, ligada ao mundo e às bolsas de commodities, passou a haver falta de terra boa para distribuir. O avanço da agricultura, então, esvaziou a antiga proposta de distribuição de terras. Há, inclusive, redução da população no campo, por força da urbanização do país, um processo clássico, universal. Daí o MST se voltar contra a grande propriedade produtiva. Outro erro, pois, assim, o movimento deixa de ser social para incorrer no Código Penal.
A militância da divisão de terras, bandeira histórica na política brasileira, não se cansa de reivindicar mais lotes e recursos para os assentados. Sempre será assim, é da lógica deste tipo de luta. Mas quem está no governo precisa ter outra perspectiva das demandas que chegam da sociedade - se houver um mínimo de consciência pública. De fato, no governo Dilma cai o ritmo de assentamentos. Na gestão FH, a média anual de famílias assentadas foi de 67.588; com Lula, 76.761, e Dilma, 22.552.
A explicação é plausível, dada por alguém insuspeito para os chamados movimentos sociais, ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência: é preciso, primeiro, tratar de reformar os atuais assentamentos, dar-lhes condições de se sustentar por conta própria. Carvalho não errou ao afirmar que muitos deles são "quase favelas rurais". Foi até elegante. Reportagem feita pelo GLOBO confirmou a precariedade de projetos do Incra. Mesmo em São Paulo, estado em que há amplos canais de comercialização de produtos agrícolas e infraestrutura em geral.
É razoável considerar que uma das causas do visível fracasso de assentamentos de reforma agrária seja o descuido na distribuição de terras, feita sob pressão política. Ajuda, ainda, na distorção usar a estatística fria do número de famílias assentadas como indicador da eficiência do programa de reforma da estrutura fundiária.
Pode-se distribuir centenas de milhares de pessoas pelo interior do país sem que elas ascendam socialmente por meio do cultivo da terra. É o que tem acontecido, com muito assentado sobrevivendo apenas graças ao Bolsa Família.
A intenção do governo de dar prioridade ao apoio aos assentamentos existentes - por meio de treinamento, assistência técnica etc. - faz sentido. Pode não coincidir com as estratégias políticas do MST e aliados, mas é o correto.
Outro aspecto da atual discussão sobre reforma agrária é saber se a proposta continua atual ou foi superada pelo vertiginoso crescimento da agricultura capitalista no Brasil, indutora da modernização de propriedades de todos os tamanhos. Inclusive o minifúndio, principalmente aquele incluído em grandes redes de fornecedores da agroindústria.
Como o "latifúndio improdutivo" foi, na prática, extinto pela agricultura de mercado, ligada ao mundo e às bolsas de commodities, passou a haver falta de terra boa para distribuir. O avanço da agricultura, então, esvaziou a antiga proposta de distribuição de terras. Há, inclusive, redução da população no campo, por força da urbanização do país, um processo clássico, universal. Daí o MST se voltar contra a grande propriedade produtiva. Outro erro, pois, assim, o movimento deixa de ser social para incorrer no Código Penal.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
"Passou do limite do admissível"
Arnaldo Jordy (PPS-PA),ao defender renúncia coletiva em comissão presidida por pastor
PT vai explorar ‘ingratidão’ de Campos a Lula
Instruída pelo próprio Lula, a direção do Partido dos Trabalhadores não acredita na candidatura presidencial do governador Eduardo Campos (PSB), mas, em todo caso, a estratégia está definida. Os petistas planejam explorar o que chamam de “ingratidão” de Campos ao ex-presidente, que drenou recursos para Pernambuco em níveis nunca antes vistos na história deste País. O PT-PE inspirou a estratégia.
Barriga cheia
Os petistas alegam que Eduardo Campos tampouco pode se queixar de Dilma, que deu sequência ao tratamento privilegiado de Lula.
Visão petista
Lula desdenha das chances do candidato a presidente do PSB. Ele está convencido de que Eduardo Campos tira votos do PSDB.
Visão tucana
O pré-candidato tucano a presidente, Aécio Neves, acha o contrário de Lula. Para ele, Campos tira votos preciosos de Dilma no Nordeste.
Crédito de Lula
Para ajudar o candidato de Eduardo Campos à prefeitura de Recife, em 2012, Lula sacrificou a candidatura do senador Humberto Costa, do PT.
Ex-motorista de Brizola, Maneca chegou ao poder
Quando fazia visitas a Brasília, o engenheiro Leonel Brizola, fundador do PDT, utilizava os favores do motorista Maneca, também militante do partido. O caudilho sempre tratou Maneca com afabilidade, mas não lhe permitia intimidades, fazendo-o aguardar no carro o término de suas demoradas reuniões. Os anos passaram e Maneca virou ministro do Trabalho do governo Dilma Rousseff. Seu nome é Manoel Dias.
Dono do cartório
O jornaleiro Carlos Lupi tinha Brizola como cliente, no Rio. Fez-se vice-presidente e desde a morte do caudilho controla o PDT cartorialmente.
Aproximação
Sucessor de Brizola Neto no Ministério do Trabalho, Manoel Dias marcou para esta semana café da manhã com a bancada do PDT.
Só o começo
Do deputado Francisco Praciano (PT-AM) sobre denúncias de fraude contra o senador Eduardo Braga (PMDB-AM): “É a ponta do iceberg”.
Paralisia
Chegam ao bilhão os prejuízos Valec, a estatal de construção de ferrovias que anda devagar, quase parando. Sem terem o que fazer, milhares de funcionários começam a ser demitidos pelas empreiteiras.
Amizade colorida
A África do Sul avisará ao Itamaraty que apoia a candidatura do ganês Alan Kyerematen, da União Africana, na direção-geral da Organização Mundial do Comércio, contra o brasileiro Roberto de Azevedo.
Cuspindo fogo
Em pé de guerra com o comando do PDT, o vereador Leonel Brizola Neto (RJ) atacou até o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a quem acusa de não ser “tão alheio às mazelas políticas”. “Cristovam que gosta de Campos que gosta de Serra que não gosta do povo”, alfineta.
Chicote
No 3º lugar em eficiência no governo, a Corregedoria da Agência Brasileira de Inteligência (Coger) persegue a liderança com “fábrica de terror”: são pelos menos dois demitidos ao dia, em geral concursados.
Democratizando
As associações que representam Ministério Público do Trabalho, Militar e do DF vão elaborar lista tríplice para escolha do novo procurador-geral da República. Diferentemente das duas últimas eleições – em que 1,2 mil membros do MPF participaram – desta vez 2,6 mil votarão.
Onde os fracos...
Após destruir cadeira de rodas da pára-atleta Janaína Aguilera, em dezembro, a empresa aérea Gol, que só ressarciu após 60 dias, sequer deu uma desculpa ou proposta de indenização pelos danos causados.
... não têm vez
Para o pai da atleta, Paulo Gonzáles Aguilera, a empresa despreza a legislação e o Judiciário, “demostrando sua certeza de impunidade e arrogante poder”. A Gol só se manifestará nos autos do processo.
Pornô sem controle
O Ministério da Cultura multou em R$ 6.090 a Brasileirinhas, produtora de filmes pornôs, por deixar de registrar gravações que circulam no Brasil desde 2008. Entre elas o de famoso ator do meio: Kid Bengala.
Pensando bem...
...até malhar o Judas vai ficar 5% mais caro este ano.
Poder sem pudor
Eles queriam reza
A caminho de Cuba, Jânio Quadros fez uma escala técnica no Ceará e resolveu visitar desabrigados da enchente provocada pelo rompimento do açude de Orós. Políticos locais se aproveitaram para aparecer ao lado do ilustre visitante, fazendo discursos em que reclamavam recursos. Percebendo a impaciência de Jânio, um repórter provocou:
- O que o sr. achou dos políticos?
Jânio adorou fazer um trocadilho:
- Achei-os muito afoitos por verbas. Estavam com cara de "Orós por nós".
Arnaldo Jordy (PPS-PA),ao defender renúncia coletiva em comissão presidida por pastor
PT vai explorar ‘ingratidão’ de Campos a Lula
Instruída pelo próprio Lula, a direção do Partido dos Trabalhadores não acredita na candidatura presidencial do governador Eduardo Campos (PSB), mas, em todo caso, a estratégia está definida. Os petistas planejam explorar o que chamam de “ingratidão” de Campos ao ex-presidente, que drenou recursos para Pernambuco em níveis nunca antes vistos na história deste País. O PT-PE inspirou a estratégia.
Barriga cheia
Os petistas alegam que Eduardo Campos tampouco pode se queixar de Dilma, que deu sequência ao tratamento privilegiado de Lula.
Visão petista
Lula desdenha das chances do candidato a presidente do PSB. Ele está convencido de que Eduardo Campos tira votos do PSDB.
Visão tucana
O pré-candidato tucano a presidente, Aécio Neves, acha o contrário de Lula. Para ele, Campos tira votos preciosos de Dilma no Nordeste.
Crédito de Lula
Para ajudar o candidato de Eduardo Campos à prefeitura de Recife, em 2012, Lula sacrificou a candidatura do senador Humberto Costa, do PT.
Ex-motorista de Brizola, Maneca chegou ao poder
Quando fazia visitas a Brasília, o engenheiro Leonel Brizola, fundador do PDT, utilizava os favores do motorista Maneca, também militante do partido. O caudilho sempre tratou Maneca com afabilidade, mas não lhe permitia intimidades, fazendo-o aguardar no carro o término de suas demoradas reuniões. Os anos passaram e Maneca virou ministro do Trabalho do governo Dilma Rousseff. Seu nome é Manoel Dias.
Dono do cartório
O jornaleiro Carlos Lupi tinha Brizola como cliente, no Rio. Fez-se vice-presidente e desde a morte do caudilho controla o PDT cartorialmente.
Aproximação
Sucessor de Brizola Neto no Ministério do Trabalho, Manoel Dias marcou para esta semana café da manhã com a bancada do PDT.
Só o começo
Do deputado Francisco Praciano (PT-AM) sobre denúncias de fraude contra o senador Eduardo Braga (PMDB-AM): “É a ponta do iceberg”.
Paralisia
Chegam ao bilhão os prejuízos Valec, a estatal de construção de ferrovias que anda devagar, quase parando. Sem terem o que fazer, milhares de funcionários começam a ser demitidos pelas empreiteiras.
Amizade colorida
A África do Sul avisará ao Itamaraty que apoia a candidatura do ganês Alan Kyerematen, da União Africana, na direção-geral da Organização Mundial do Comércio, contra o brasileiro Roberto de Azevedo.
Cuspindo fogo
Em pé de guerra com o comando do PDT, o vereador Leonel Brizola Neto (RJ) atacou até o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a quem acusa de não ser “tão alheio às mazelas políticas”. “Cristovam que gosta de Campos que gosta de Serra que não gosta do povo”, alfineta.
Chicote
No 3º lugar em eficiência no governo, a Corregedoria da Agência Brasileira de Inteligência (Coger) persegue a liderança com “fábrica de terror”: são pelos menos dois demitidos ao dia, em geral concursados.
Democratizando
As associações que representam Ministério Público do Trabalho, Militar e do DF vão elaborar lista tríplice para escolha do novo procurador-geral da República. Diferentemente das duas últimas eleições – em que 1,2 mil membros do MPF participaram – desta vez 2,6 mil votarão.
Onde os fracos...
Após destruir cadeira de rodas da pára-atleta Janaína Aguilera, em dezembro, a empresa aérea Gol, que só ressarciu após 60 dias, sequer deu uma desculpa ou proposta de indenização pelos danos causados.
... não têm vez
Para o pai da atleta, Paulo Gonzáles Aguilera, a empresa despreza a legislação e o Judiciário, “demostrando sua certeza de impunidade e arrogante poder”. A Gol só se manifestará nos autos do processo.
Pornô sem controle
O Ministério da Cultura multou em R$ 6.090 a Brasileirinhas, produtora de filmes pornôs, por deixar de registrar gravações que circulam no Brasil desde 2008. Entre elas o de famoso ator do meio: Kid Bengala.
Pensando bem...
...até malhar o Judas vai ficar 5% mais caro este ano.
Poder sem pudor
Eles queriam reza
A caminho de Cuba, Jânio Quadros fez uma escala técnica no Ceará e resolveu visitar desabrigados da enchente provocada pelo rompimento do açude de Orós. Políticos locais se aproveitaram para aparecer ao lado do ilustre visitante, fazendo discursos em que reclamavam recursos. Percebendo a impaciência de Jânio, um repórter provocou:
- O que o sr. achou dos políticos?
Jânio adorou fazer um trocadilho:
- Achei-os muito afoitos por verbas. Estavam com cara de "Orós por nós".
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