segunda-feira, março 25, 2013

Surpresas desagradáveis do governo Dilma - MARCOS GUERRA

O GLOBO - 25/03
A economia do Espírito Santo é altamente dependente das commodities produzidas por grandes empresas e das atividades do comércio exterior, cenário que traça para os próximos anos um período de maior dificuldade e constantes desafios, em razão da persistência da crise internacional e de um tímido desempenho previsto para a economia nacional. Dentro desse contexto, se, como disse o ex-presidente Lula, para o Brasil a crise mundial foi uma "marola" podemos afirmar que para o Espírito Santo tem sido um tsunami. A indústria é um dos setores mais prejudicados. Dados do IBGE demonstram que fechamos 2012 com queda na produção de 6,3% na indústria geral e de 9,6% na indústria de transformação. Somente no segmento de vestuário cerca de 1.200 empregos foram extintos.

Considerando esse quadro, acreditamos na realização de investimentos federais, em caráter de urgência, para superar carências e gargalos históricos de infraestrutura básica do estado. É fundamental para maior competitividade.

O desejo é que o Governo Federal adote uma postura desenvolvimentista com relação ao Espírito Santo e que tire do papel projetos importantes, como a retomada das obras do aeroporto de Vitória, avanço na concessão da BR-101, modernização da BR-262, instalação de um porto de águas profundas e a integralização dos investimentos no Porto de Vitória.

Esperamos que o governo Dilma adote um tratamento mais justo. A relação da União com o estado não tem sido das mais equilibradas. O Executivo estadual vem fazendo seu dever de casa e equilibrando austeridade fiscal com importantes investimentos; porém, em contrapartida, as pautas propostas por Brasília geralmente são surpresas desagradáveis, com fortes impactos econômicos negativos e insegurança para os investidores.

O Espírito Santo tem recebido duros golpes, entre eles, o fim do Fundo de Apoio à Atividade Portuária, a criação de novos critérios para a distribuição dos royaltíes do petróleo e a polêmica proposta de reforma do ICMS - medidas que, somadas, causam perdas bilionárias para o estado, inibindo o investimento.

Como se fosse pouco, soma-se agora a isso a recente descoberta de um poderoso lobby feito, aparentemente, por membros do governo federal, com o intuito de levar para o Rio de Janeiro o Estaleiro Jurong, que representa investimentos de mais de R$ 1 bilhão e a geração de mais de seis mil empregos diretos. Enquanto o governo federal prega o fim da guerra fiscal entre os estados, somos informados de que ministros de estado, e até mesmo um embaixador, incentivam essa briga entre cariocas e capixabas pelo empreendimento da Jurong.

Esperamos que a presidente olhe para o Espírito Santo com mais atenção, pois representamos para a União arrecadação anual de R$ 10 bilhões, enquanto o Orçamento da União prevê este ano para o Estado pífios R$ 2,8 bilhões.

Esperamos ser tratados como um ente federativo. Infelizmente, a União, em vez de ajudar, atrapalha, levando-nos a pensar que estaríamos melhor se fôssemos um país independente.

Questão de tempo - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 25/03

Caberá a FHC o apelo em favor da unidade no PSDB em evento que marcará hoje o lançamento informal da candidatura presidencial de Aécio Neves para os tucanos paulistas. O ex-presidente tratará inclusive de afagar José Serra, ausente da noite, pedindo "consideração" ao ex-governador. A pacificação, contudo, está longe do desfecho. Geraldo Alckmin, que já admite Aécio no comando da sigla, voltou a defender que a definição do candidato só ocorra "no final do ano".

UPP O senador tucano esteve no final de semana com empresários de São Paulo que apoiam a ONG Afro Reggae, reconhecida pelo trabalho de mediação de conflitos em comunidades do Rio.

Trem das Gerais Aécio levará comitiva mineira ao congresso do PSDB-SP. Deputados de outros Estados também devem acompanhá-lo.

Bandeira Estrela da abertura olímpica de 2012, Marina Silva critica o impasse na Aldeia Maracanã. A ex-ministra diz que os índios foram usados na apresentação brasileira em Londres, mas não terão espaço na revitalização do Rio para 2016.

Parto O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), cunhou uma frase com jeito de slogan eleitoral no tradicional cozido de Jarbas Vasconcelos no sábado: "O novo não nasce sem dor".

Rampa Campos enfrentou protesto liderado por skatistas ontem no Recife Novo.

Mantra Liderada pelo prefeito Luciano Duque (PT), a claque que recepcionará Dilma e Campos hoje em Serra Talhada (PE) preparou faixas e cartazes sublinhando expressões como "gratidão e lealdade" à presidente.

Quarteto O PT-SP apresentará hoje à direção nacional os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Aloizio Mercadante (Educação), Guido Mantega (Fazenda) e José Eduardo Cardozo (Justiça) como opções a governador.

Onde pega Petistas pedem atenção redobrada aos movimentos do PMDB. Entendem que a cúpula estadual da sigla se distanciou de Michel Temer após a saída de Wagner Rossi do Ministério da Agricultura e já ensaia flerte com os tucanos.

Para depois Pressionado por nove partidos, Henrique Alves (PMDB-RN) se comprometeu a postergar o debate acerca do fim das coligações proporcionais para a fase final da votação da reforma política, pautada para o dia 9 na Câmara.

Discutindo Peemedebistas se reuniram com o alto comando da Caixa Econômica Federal na residência oficial da Câmara. Discutiram o plano do Planalto de ceder nova vice-presidência do banco ao PSD, operação que é vista como estratégica para desidratar Geddel Vieira Lima na direção da instituição.

... a relação Após a conversa, ficou definido que o PMDB deverá manter seu espaço na cúpula da Caixa, mas se empenhará para afinar o discurso com o vice de Ativos de Terceiros, Marcos Vasconcelos, próximo do PT, que participou do encontro.

Imersão Recém-empossado, o ministro Manoel Dias (Trabalho) marcou sua estreia em evento da CUT. Após visitar, amanhã, a Força Sindical e a UGT, irá na quarta-feira à escola de formação cutista em Belo Horizonte.

Toga justa 1 Francisco Falcão, corregedor do CNJ, deu prazo de 90 dias para que 15 Tribunais de Justiça abram concurso para o cargo de titular de cartório extrajudicial. A obrigatoriedade está prevista na Constituição.

Toga justa 2 Desembargadores que descumprirem a regra estarão sujeitos a processo disciplinar, segundo o ultimato dado pelo ministro.

Em todas Barros Munhoz (PSDB) é o favorito para assumir a liderança de Geraldo Alckmin na Assembleia. Com trânsito no PT, o tucano já foi líder de José Serra. O martelo será batido amanhã.

tiroteio
O PT criou o Bolsa Turismo, com duas modalidades: presidente usando dinheiro público e ex-presidente recorrendo a PPPs.
DO SENADOR ÁLVARO DIAS (PSDB-PR), sobre o financiamento das recentes viagens de Dilma Rousseff a Roma e de Lula a países da África.

Contraponto


Made in China


Fotografado com camisa polo da badalada marca Lacoste, o presidente da Embratur, Flávio Dino (PC do B), foi provocado por blogueiro adversário no Maranhão, que escreveu:

-Um comunista que gosta de grife!

Ao ser informado do comentário, Dino, pré-candidato a governador do Estado, respondeu:

-Ele não sabe que é uma "Lacoste" de origem chinesa, prova irrefutável de que sou mesmo comunista.

Apagão nos portos - PAULO GUEDES

O GLOBO - 25/03
No exato momento em que celebrávamos nossa supersafra de grãos, a China cancelou encomendas bilionárias de nossas exportações de soja. O apagão logístico no Porto de Santos, com filas de caminhões que chegaram a atingir 25 quilômetros, é o outro lado dessa moeda. O Brasil tem vantagem comparativa na produção agrícola, mas nossas empresas perdem sua vantagem competitiva nos mercados globais por falta de infra estrutura física e logística.
O problema ocorre em várias dimensões. Os governos militares investiram muito na infraestrutura física, mas se descuidaram dos gastos sociais. A democracia emergente puxou então os gastos públicos para as áreas de saúde, educação, saneamento. Os programas de transferência de renda em busca de inclusão social entraram nos orçamentos públicos. Mas, apesar de esticarmos esse cobertor orçamentário há quase três décadas, com os gastos públicos chegando a 40% do PIB, fomos agora parar no outro extremo: os investimentos em infraestrutura física praticamente desapareceram do orçamento federal.

Um programa de aceleração do crescimento, disparando investimentos por meio de parcerias público-privadas, exige mais do que financiamento farto e empreiteiros campeões. Despertar o espírito animal dos empreendedores requer, acima de tudo, um macroambiente favorável e regulamentações setoriais desenhadas com alta inteligência de negócios. Menos favoritismos e conexões políticas e melhores perspectivas de eficiência e lucratividade. Observamos, a propósito, o choque entre essa busca de eficiência e o antigo regime de concessões nos atuais conflitos em tomo da Medida Provisória 595, a MP dos Portos. Lideranças políticas de expressão nacional, grupos de interesses privados e sindicatos de trabalhadores portuários defendem um status quo que derrubou a competitividade da economia brasileira e acelerou sua desindustrializaçáo. Em vez de defender a modernização portuária e a redução de custos nas antigas concessões, um ganha-ganha inteiramente possível, aliam-se em torno de uma regulamentação inadequada, tentando impor as mesmas práticas obsoletas e custos absurdos aos novos investimentos. Impedem a modernização do setor. Invertendo a advertência de Talleyrand a Napoleào, pior que um erro, é um crime contra o Brasil.

Falta valorizar o lucro ANDRE FRANCO MONTORO FILHO

O ESTADO DE S. PAULO - 25/03
Apesar de várias iniciativas de política econômica, como a redução das taxas de juros, desvalorização cambial, desoneração tributária e crédito subsidiado, os resultados alcançados foram decepcionantes. A taxa de crescimento do PIB do Brasil, 0,9% em 2012, foi das menores do mundo. Ao mesmo tempo, a taxa de investimentos, que já era bastante baixa em comparação a outros emergentes, tem caído sistematicamente. O que explica esse fracasso? O que está faltando? Uma explicação fundamental é a forma como os lucros são vistos pelos atuais detentores do poder.

O lucro é fundamental para o bom funcionamento da economia de mercado. Em primeiro lugar, o lucro é um indicador das preferências dos consumidores. Como ninguém é obrigado a comprai- um determinado bem ou serviço, se os produtores dessa mercadoria estão auferindo bons lucros significa que eles estão produzindo algo que a população deseja adquirir, a um preço que os consumidores podem pagar. Daí decorre que estão contribuindo para o bem comum da sociedade. Ao contrário, quando a produção de uma mercadoria estiver dando prejuízo significa que a população está rejeitando aquele bem ou serviço ou porque não gosta ou porque o preço é muito alto.

Além de ser indicador das preferências do consumidor, o lucro é um sinalizador de para onde o empresário deve dirigir seus recursos e habilidades. Um setor que esteja gerando bons lucros atrai esses recursos e habilidades e, com isso, a produção deste bem, para o qual a população revelou suas preferências, aumenta. O aumento da produção deverá reduzir os preços, contribuindo ainda mais para o bem-estar da população.

Assim, quando o governo procura arbitrar os lucros, controlando ou tributando os setores mais rentáveis e dando subsídios aos que não conseguem gerar lucros, ele está destruindo a eficiência da economia, reduzindo o bem-estar da população e diminuindo o crescimento do PIB.

Ademais o lucro, além desta função alocativa, é o grande determinante dos investimentos, com uma importante peculiaridade. Como os resultados financeiros dos investimentos são incertos, pois decorrem de desconhecidas situações futuras, a variável fundamental que orienta as decisões de investimento é sua expectativa de lucros.

Essa foi a grande contribuição de Keynes para a ciência econômica e base teórica para políticas fiscais ativas. O investimento não é uma decisão mecânica, definida por curvas de rendimentos conhecidas e bem comportadas. O investimento implica riscos. Investir é uma aposta no futuro. Recursos são aplicados hoje com expectativas de que no futuro gerarão rendimentos que os compensem.

Essas expectativas não se formam apenas a partir de considerações econômicas objetivas, como projeções de custos, condições de demanda, presença ou não de concorrentes, eventuais inovações tecnológicas, etc. Diversos outros aspectos são considerados, alguns objetivos outros subjetivos.

Entre os aspectos subjetivos ocupa um papel fundamental a confiança na permanência temporal das regras. O receio de que no futuro o governo vá alterar regras e que essa alteração prejudique o retorno do empreendimento é nefasto para a decisão de investimento e quase fatal para investimentos de longa duração, como o são os investimentos em infraestrutura de que tanto o Brasil precisa.

Otávio Mangabeira dizia que a democracia é uma flor delicada que deve ser sempre protegida e bem tratada. Considerações similares podem ser feitas para os investimentos em economias de mercado. É preciso criar condições favoráveis para que o hoje badalado "espírito animal" do investidor desperte.

Mas qual tem sido o comportamento do governo federal?

Reiteradas vezes, altas autoridades do governo federal têm manifestado, seja de forma direta, seja de forma tortuosa, que elas consideram altos lucros (segundo seus critérios) como algo inaceitável, quiçá pecaminoso. Exemplos são numerosos. Um dos mais elucidativos é a forma como o governo tratou a renovação de concessões de geradoras de energia elétrica. Colocou, de forma autoritária, o controle das tarifas e, portanto, do lucro como o valor supremo das decisões. O governo esquece que a maior tarifa é o apagão, que, por sinal, está sendo gerado por esta política de querer controlar e arbitrar lucros, o que afasta investimentos.

Outros exemplos se encontram na forma como o governo vem tratando a Petrobrás, que já foi a empresa de maior valor no Brasil e hoje apresenta prejuízos, queda de produção, atraso em seu plano de investimentos e sensível redução de seu valor de mercado. Ou na proposta de fixar taxas de retorno nas concessões de rodovias e ferrovias, o que afasta investidores de maior capacidade e atrai oportunistas.

Enquanto perdurarem desconfiança a respeito de lucros e simpatia para empresas em dificuldades, a mensagem que se está passando é a de que não vale a pena ser eficiente e lucrativo. Fazer investimentos e correr riscos. Melhor é ter prejuízos, chorar e mamar nas tetas da viúva.

Eles falam sem pensar - JOSÉ CARLOS TEDESCO

O GLOBO - 25/03

Duas importantes personalidades da nossa República deram demonstração de que precisam de porta-voz na hora da crise. Não sabem dizer o que pensam, falam sem pensar e não se acostumaram com as responsabilidades do cargo. Em primeiro lugar, a presidente Dilma, que tem obrigação de saber que o Estado não fez nada do que prometeu fazer depois das chuvas de março e das tragédias dos anos passados. Ela já fazia parte do governo Lula e, mais recentemente, no Vale do Cuiabá, em Petrópolis, já como presidente, assistiu e presenciou a tragédia de centenas de vitimas.

Nestes idos e vividos não foram poucas as vezes em que o governo prometeu dar casas para as famílias necessitadas da Região Serrana fluminense, e tudo ficou nas promessas de palanques. Não fizeram encostas, pontes e casas, mesmo assim, cobram IPTU de áreas protegidas do meio ambiente. Colocam gambiarras em palanques para pedirem votos nestas comunidades e depois desaparecem. Isso é incompreensível e injustificável.

É claro! A presidente sabe disso tudo, tem vários ministérios que tratam desta matéria e não acredito que, com o passado que ela tem, deseje jogar as famílias na rua ou deixa-las na lama, como estão. Já passamos da fase de estar penalizados com as imagens das famílias procurando desaparecidos e enterros de crianças e seus pais. Queremos, precisamos e exigimos providências, já! Destas autoridades que dormem. E falam sem pensar.

Outro é o presidente do Supremo Tribunal FederalJoaquim Barbosa, que recentemente destratou um jornalista que estava exercendo um direito inerente ao seu trabalho, que é perguntar. Foi deselegante e truculento, desnecessariamente. E agora, quando denigre a imagem dos magistrados. Não acredito que ele queira dizer que um juiz não possa ter relacionamento com advogado, até porque namora uma advogada, segundo noticiado pela imprensa.

Ele é contra os relacionamentos espúrios, contra conluios. A amizade, o relacionamento fraternal e a educação são conquistas dos povos civilizados. No nosso país, aprendemos que as diferenças não são defeitos e que as espécies podem e devem conviver com harmonia. Demos um exemplo de convergência e paz para a humanidade.

Agora precisamos melhorar os compromissos políticos e a educação das lideranças dos nossos poderes. Senão, nos dois casos, saímos do foco, que é o mais Importante. No primeiro caso, de resolver a situação das vitimas das enchentes. E no segundo, escondemos, ou colocamos como pano de fundo, a divulgação da condenação do juiz de Picos, no Piauí, e os motivos. A falta de comunicação tira o foco do que é realmente importante e acaba escondendo as nossas tragédias humanas.

Donos dos votos - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 25/03

BRASÍLIA - Como ensaio de primeiro ato da eleição presidencial, os movimentos do tucano Aécio Neves e do governador Eduardo Campos (PSB-PE) têm sua serventia e vão bancar o patrocínio de suas atuações no espetáculo de 2014.

A pesquisa Datafolha mostra, porém, que os dois potenciais adversários da presidente Dilma correm o risco de se tornarem figurantes caso não encontrem um discurso que encante não só os donos do PIB mas também os donos dos votos.

O tucano e o pessebista têm adotado, nesta fase de campanha antecipada, a estratégia de roubar apoio da petista no mundo empresarial. Entoam um discurso que agrada em cheio aos donos do PIB.

Um conselheiro empresarial da presidente diz que os dois avançam nesta fronteira e podem ter sucesso na empreitada. Algo até previsível, dado que a imagem da presidente petista não é das melhores no empresariado, crítico ácido de suas ações intervencionistas.

Só que esse grupo é o dono do dinheiro, mas deixou, há muito, de ter influência direta sobre os donos dos votos, que hoje dariam vitória no primeiro turno à presidente.

O fato é que o discurso do "pibinho", tão sensível aos ouvidos dos empresários, não diz muita coisa à maioria dos eleitores enquanto o desemprego estiver baixo e a inflação, sob controle. Basta notar o otimismo dos brasileiros com a economia apontado pelo Datafolha.

Descobrir o tom para atrair esse eleitorado otimista com o governo Dilma é o maior desafio de Aécio e Eduardo Campos -que antes têm outros obstáculos pela frente.

O pessebista terá de explicar a esses eleitores por que, de aliado, virou adversário de Dilma, a quem recebe hoje em seu Estado.

Já o tucano precisa unir um dividido PSDB, o que tentará mais uma vez hoje em encontro do partido na capital paulista. Nestas horas, faz falta um dono do PSDB, como tem o PT, mas isso é outra história.

O tempero dos números - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 25/03

Não fosse o climão que toma conta da base governista e o apagão na infraestrutura, a presidente Dilma Rousseff teria muito mais alegria em celebrar as intenções de voto que lhe garantiriam a reeleição em primeiro turno, caso hoje fosse outubro de 2014. Ela sabe que a vida não está fácil e pode ficar pior, diante da disputa entre aliados.

No fim de semana, esse clima de disputa esquentou em várias frentes. Com base em informações levantadas inicialmente pelo PMDB, vieram à tona denúncias contra o senador Lindbergh Farias, do PT, que planeja ser candidato a governador do Rio de Janeiro contra o PMDB que o acusa de ter destruído Nova Iguaçu quando era prefeito. Sabe quando peemedebistas e petistas do Rio vão se entender nesse clima? Nunca.

Outro episódio que terá desdobramentos na política envolve o empresário Eike Batista e a tentativa de levar o estaleiro Jurong, hoje em fase de instalação no Espírito Santo, para o Porto de Açu, no litoral norte fluminense, tirando recursos dos capixabas. A operação não deu certo, mas o estrago político está feito, porque um dos que tentaram ajudar nessa transferência foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E quem governa o Espírito Santo? Renato Casagrande, do PSB, um partido apontado por exímios observadores e atores da política como dissidente da base de Dilma.

Para completar o tripé político desfavorável à presidente Dilma, Carlos Lupi, reeleito presidente do PDT, avisa em entrevista ao Correio Braziliense que não está descartado um quadro alternativo para o partido em 2014. Ou seja, pegou o dote, no caso o Ministério do Trabalho, mas não está tão certo assim de que deseja casar em 2014.

Esses três episódios abrem o cenário político da semana da Páscoa. Junte-se a esses ingredientes os problemas econômicos. A fila de caminhões em São Paulo, o cancelamento da compra de soja brasileira por parte dos chineses, o preço dos alimentos.

Isoladamente, esses temas podem até não representar nada. Mas, juntos, dão o tom de como a vida de Dilma, que parece fácil na hora das pesquisas eleitorais antecipadas, está complicada sem previsão de tempo bom mais à frente. E nesse embalo, até Lula, que era para ajudar a presidente, tropeça.

O governador Renato Casagrande era, até bem pouco tempo, um dos socialistas que mais tinham dúvidas sobre a candidatura presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, já em 2014. No momento em que Lula tenta dar um empurrãozinho no sentido de tirar investimentos do Espírito Santo, ele afasta Casagrande da dúvida e o faz rumar para a tese de que o PT não sabe ser leal na concorrência. Nesse ritmo, Dilma não terá muita ajuda política para sustentar os 58% que apresentou na pesquisa Datafolha no último fim de semana. Terá que segurar tudo com Lula, o PT e pedaços do PMDB.

Enquanto isso, no Planalto...

A presidente Dilma Rousseff deve ficar fora da briga entre os partidos. Está mais interessada em tentar equilibrar a economia, chave dos 58% registrados na pesquisa Datafolha. O PSB virou um assunto a ser resolvido por Lula. Ela vai cuidar é da reforma ministerial, mas só depois de fechar as novas medidas para segurar os preços das passagens de ônibus. Assim, o PR passará a Páscoa sem saber o que o futuro lhe reserva.

E em Pernambuco e em São Paulo...

A semana promete mais exposição do governador Eduardo Campos, com a mais famosa encenação da Paixão de Cristo no país, em Nova Jerusalém (PE). Em tempos de novo papa, ele, sem dúvida, terá seu momento nesse segmento. O senador Aécio Neves (MG), o candidato a presidente da República pelo PSDB, estará em São Paulo. Enquanto os tucanos paulistas não estiverem amarrados à causa, não dá para descuidar.

Lula, o lobista - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 25/03

"Poucos países têm um sistema de saúde como temos no Brasil."
LULA



A princípio, ilegal não é. Não é mesmo. Tampouco é antiético. Na condição de ex-presidente da República, Lula pode fazer conferências onde quiser e cobrar por elas o quanto quiser. Se quem paga é pessoa, empresa ou entidade idônea... Respeitada tal condição, Lula também pode viajar à custa de quem quiser. E prestar serviço remunerado a quem quiser. Pode fazer lobby no exterior? Sim. E aqui? Não.

LULA VISITOU 30 países desde 2011, segundo a folha de S.Paulo. Vinte deles ficam na África e na América Latina. Na última terça-feira, sob o patrocínio da empreiteira Odebrecht, começou pela Nigéria um novo giro africano. Enquanto presidente, estimulou investimentos na África e na America Latina. O Instituto Lula foi criado para ajudar "o desenvolvimento" dos dois continentes.

QUASE METADE das viagens feitas por Lula foi financiada por empreiteiras que tinham interesses econômicos nos países visitados por ele. Elas negam que usem Lula para facilitar negócios. A assessoria de Lula afirma que ele trabalha para promover "os interesses" do Brasil e não os das empresas que o carregam para lá e para cá. Quando os interesses do Brasil coincidem com os das empresas... Fazer o quê?

SE EMPRESAS brasileiras se dão bem em outros países, se Lula pode ajudá-las, se assim forra os bolsos com dólares, estupendo! Ganham o Brasil, as empresas e Lula. Em novembro de 2012, ele foi a quatro países - dois deles a serviço da empreiteira Camargo Corrêa. Contribuiu "para reduzir resistências enfrentadas por empresas brasileiras em Moçambique" segundo a embaixadora Lígia Scherer.

UM ANO E POUCO antes, a bordo de um avião da OAS, outra empreiteira, Lula fora à Bolívia reunir-se com o presidente Evo Morales. Pressões locais impediam a OAS de tocar uma rodovia de US$ 415 milhões. Morales concordou em indenizar a OAS em US$ 9,8 milhões. De lá, Lula voou para a Costa Rica, onde a OAS disputava uma obra de US$ 57 milhões. Ela perdeu a disputa. Mas ganhou outra de US$ 500 milhões.

OS IMPLICANTES dizem que um ex-presidente não deveria exercer a função de lobista, valendo-se do prestígio do cargo que exerceu para costurar negócios. De resto, na condição de presidente, lidou com assuntos pertinentes aos interesses dos seus atuais patrões. E se acaba ganhando vulto a suspeita de que está sendo remunerado igualmente por decisões passadas que beneficiaram empresas que hoje o beneficiam?

PRESIDENTES NORTE-AMERICANOS, no exercício do mandato, facilitam a penetração de empresas do seu país em outros países. Alguns procedem da mesma forma na condição de ex-presidentes. Lula copiou o modelo deles, ao que tudo indica. Só não pode esquecer que há limites para tudo. Como cidadão, uma vez que aja dentro da lei, não deve satisfações a ninguém. Como ex-presidente, deve.

HÁ UM CÓDIGO de conduta não escrito para casos como o de Lula. Por óbvio, ele não deve negociar interesses de empresas junto a governos com os quais se relacionou como presidente. Nem fazer lobby com a ajuda de diplomatas do seu país e gastando dinheiro público. O Itamaraty assessora Lula em viagens de negócios. E já pagou despesas dele. Dilma ouviu Lula pedir por empresas. Muito feio.

NO FIM DO seu segundo governo, Lula prometeu que ensinaria a Fernando Henrique Cardoso como um ex-presidente deveria se comportar. Fernando Henrique está esperando até hoje. A não ser que a aula esteja em curso, e ele não tenha se dado conta.

Liberdade de escolha - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 25/03

Aparentemente, o título deste artigo não faria nenhum sentido, considerando a época em que vivemos, na qual a pesquisa científica goza de uma ampla liberdade, garantida por universidades e institutos de pesquisa. Vai longe o tempo em que Giordano Bruno e Galileu foram condenados à morte, no caso do primeiro, com requintes da fogueira pública.

No entanto, a liberdade que goza a pesquisa científica vem tendo um contraponto na utilização pelo Estado dos produtos dessa mesma pesquisa. Isto é particularmente visível na utilização da ciência por políticas públicas de saúde, como se a certeza do conhecimento devesse se traduzir por um controle “científico” do comportamento humano. Resultados de pesquisas ou, muitas vezes, meras hipóteses não verificadas, são utilizados enquanto instrumentos de ações governamentais, como se assim estivessem justificados.

Tais ações públicas estão particularmente presentes nas políticas conduzidas contra alimentos gordurosos, bebidas açucaradas, bebidas alcoólicas ou cultivo e consumo de tabaco. Governos se arrogam direitos de intervenção na vida dos cidadãos, supostamente amparados no conhecimento científico. A justificação da restrição das liberdades não seria, então, arbitrária, mas científica. A dominação mudou de nome.

É próprio do progresso científico que os seus resultados sejam tornados públicos, vindo a balizar, no caso, a vida das pessoas, se elas optarem por seguir esse conhecimento adquirido. Se elas optarem, pois não se trata, ou não deveria se tratar, de uma obrigação imposta pelo Estado.

A diferença é de monta. Uma coisa é as pessoas, de posse de certos conhecimentos, optarem por não consumir um determinado produto por considerá-lo prejudicial à sua saúde. Nesse sentido, seria uma função do Estado informar aos cidadãos sobre malefícios reais ou prováveis à saúde das pessoas pelo consumo desses produtos.

Outra muito diferente é o Estado impor determinadas condutas restritivas da liberdade de escolha em nome de um conhecimento científico, apropriado pelo governo com vistas a seus fins específicos. Os cidadãos seriam despojados de sua liberdade de escolha.

Consequentemente, estaríamos diante de algo extremamente perigoso, a saber, a administração da vida. Pior ainda, a administração “científica” da vida. Cidadãos tutelados são cidadãos administrados, incapazes de discernir por si mesmos o que é “bom” para eles.

A pior administração é aquela que se diz “verdadeira”, “científica”, como se coubesse ao Estado optar no lugar dos cidadãos. Cidadãos administrados cientificamente tendem a se tornar servos do Estado. A eles é reservado um lugar específico, o de serem destituídos do conhecimento “verdadeiro”, esse que lhes é imposto à sua revelia.

A comunidade científica, na medida em que avança no terreno do político, começa a abandonar o seu terreno próprio, vindo a se tornar uma parte do problema, em vez de poder ser um elemento de sua solução. No momento em que entra na seara da política, ela corre o risco de colocar o seu próprio trabalho sub judice.

Melhor fariam os cientistas em avançar em suas pesquisas, mostrando, por exemplo, os elementos e produtos eventualmente prejudiciais à saúde dos indivíduos. Não lhes compete uma conduta de “cruzados” pelo controle “científico” dos cidadãos. Cidadãos devem ser informados, não tutelados. A sua liberdade de escolha deve ser, antes de tudo, preservada, tratando-se de um direito fundamental do ser humano.

A ideia de que caberia ao Estado simplesmente administrar a vida dos cidadãos segundo critérios “verdadeiros” não é nova, tendo produzido historicamente resultados catastróficos. Está amparada em uma concepção segundo a qual o Estado, graças à sua “sapiência”, sabe aquilo que é melhor para os cidadãos, que não têm o alcance desse discernimento.

Em sua forma extrema, ela foi concebida e realizada na extinta União Soviética, que sucumbiu, aliás, de seu excesso de “verdade” e de “conhecimento”. Bukharin, dileto discípulo de Lênin e destacado teórico bolchevique, chegou a escrever que em um Estado de uma sociedade sem classes, logo o Estado “bom” e “verdadeiro”, sua função essencial seria somente “administrar” a sociedade e os cidadãos.

Tal administração seria, então, conduzida por burocratas “sapientes”, “científicos”, convenientemente doutrinados, que saberiam impor aos cidadãos o que seria melhor para eles. Inclusive não somente a contragosto, mas pelo uso da força e da imposição se necessário.

O direito a ser obeso é um direito fundamental, se assim a pessoa optar. Não se trata de impor aos que estão acima do peso considerado normal uma determinada conduta, que termina, ademais, atingindo a todos os cidadãos. Em nome da suposta saúde dos obesos, todos os cidadãos, magros ou não, seriam obrigados a não mais consumirem certos produtos.

O direito a beber, mesmo à embriaguez, se ela não perturbar o próximo, é também um direito fundamental, o exercício que qualquer cidadão faz do seu gosto, sem nenhuma restrição. Cabe evidentemente ao Estado informar aos cidadãos sobre os malefícios do seu consumo excessivo.

O direito a fumar — assim como a produção de tabaco é um direito proveniente da livre iniciativa econômica, garantida, aliás, pela Constituição Federal — é igualmente um direito fundamental. Proveniente que é da liberdade de escolha, pode ou não ser exercido pelos cidadãos que prazer encontram em sua utilização. Evidentemente, fumantes não devem importunar o próximo, pois violariam a liberdade deste.

A fogueira, simbolicamente falando, está voltando em algo que está se tornando uma espécie de guerra contra alimentos gordurosos, bebidas alcoólicas, refrigerantes e tabaco. São os novos bodes expiatórios dos que temem a liberdade de escolha. Não nos enganemos: através desses produtos e suas proibições são as liberdades individuais e de escolha que são visadas.

Paradoxos da popularidade - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O ESTADO DE S. PAULO - 25/03
Quando um candidato dispara tão na frente dos outros quanto Dilma Rousseff (PT), o risco é dar-se a corrida eleitoral por terminada antes de ela começar. Hoje a presidente é imbatível. Nunca antes na história eleitoral brasileira um incumbente abriu tanta distância dos outros presidenciáveis a tanto tempo da eleição. Há dois problemas embutidos nessa frase, porém.

A história eleitoral brasileira é curta. Só dois presidentes disputaram a reeleição. Saíram vitoriosos, é fato, e um deles foio presidente mais popular desde a redemocratização, mas não dá para criar uma teoria a partir de dois ou três casos apenas. A dimensão do feito de Dilma é notável, especialmente para um "poste". Mas ter perspectiva é bom e conserva os saltos baixos.

A inédita vantagem de Dilma ocorre a uma no e meio da eleição. É mais provável que a vantagem aumente ou diminua até 2014? A presidente está em ascensão, mas ficou tão perto do teto que corre risco de bater a cabeça. Se ela oscilar do "excelente" para o "ótimo", a manchete será "Dilma caiu". O desempenho de Dilma na opinião pública é excepcional - o "timing", nem tanto.

Se algo pode dar errado para Dilma, o que será? A popularidade da presidente está nas nuvens. O julgamento do mensalão ficou para trás. A economia começa a dar sinais de recuperação. Justamente.

Marqueteiro eleitoral da presidente, João Santana deve coçar a cabeça quando vê o ministro da Fazenda, Guido Mantega, projetar um crescimento de 4% do PIB brasileiro para 2013. Não por medo de que ele erre novamente, mas de que acerte.

Com os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste 40% mais vazios do que a média histórica recente, o crescimento acelerado da indústria produziria uma demanda extra por eletricidade que pode não casar bem com o período de secas que se avizinha. Esgotar as represas em 2013 implica comprometê-las para 2014.

Se a economia logo começar a crescer mais depressa, antecipa-se o risco de descompasso entre oferta e demanda. Mais filas nos portos e aeroportos, atrasos nos suprimentos. Resultado plausível: preços sobem, pressionando ainda mais a inflação.

Pibinho x Pibão. Excitação demais antes da hora costuma resultar em comemoração precoce. Por isso, por mais paradoxal que pareça, um pibinho pode ser melhor que um pibão em 2013 - se não para a presidente e o País, ao menos para a candidata. Há precedente. Mesmo com o PIB crescendo 0,9% em 2012, Dilma chegou onde está.

E como a candidata petista chegou tão longe? Por mérito próprio e ajuda dos adversários.

Dilma conseguiu uma coesão partidária em torno do seu nome de dar inveja a Aécio Neves (PSDB). Mantendo a popularidade alta e o consumidor confiante, ela liquidou as especulações sobre uma volta de Lula. O Ibope mostrou que o eleitor lulista também compreendeu isso e, nos últimos quatro meses, intensificou a migração para Dilma. Daí os 35% dela na pesquisa espontânea.

Uma série de anúncios televisivos com apelo popular, como corte de impostos da cesta básica e das tarifas de energia, criou um clima de opinião favorável à presidente. Tanto faz a oposição chamar de populismo. As medidas miraram e acertaram no lugar certo: o bolso da maioria. Consumidor feliz, eleitor contente.

Como resultado, Dilma não só desceu ao patamar de desprezíveis 20% de rejeição, como transfere rejeição para os outros. É difícil crer que 1 a cada 3 brasileiros diga que não votaria de jeito nenhum em Eduardo Campos (PSB) para presidente quando o governador é desconhecido por 1 a cada 2 eleitores. Metade da rejeição a Campos são dilmistas rejeitando quem quer que seja.

Se Eduardo Campos aparecer sozinho na Praça da Sé, na Cinelândia ou até no Pelourinho, corre mais risco de ser assaltado do que assediado.O único lugar onde é reconhecido em São Paulo, Rio e Salvador é nos escritórios de grandes empresários. Pode vir a ser bom para o caixa da campanha, mas não dá voto.

Aécio está um degrau a diante.Compartilha a mesma taxa de rejeição, mas tem um potencial de voto duas vezes e meia maior que Campos. Ao contrário do presidente do PSB, porém, o mineiro não comanda seu partido. Para sua sorte, o Ibope confirmou que José Serra, com50% de rejeição, é virtualmente inelegível.

Aécio e Campos se complementam eleitoralmente. Concorrendo um contra o outro,mas juntos contra Dilma, diminuem a vantagem da presidente. Mas eles precisam de mais nomes na cédula eletrônica para haver chance de segundo turno. Daí a importância de Marina Silva. A ex-petista divide a preferência de 4 a cada 10 eleitores potenciais de Dilma. É, hoje, quem mais pode tirar votos da presidente. Só lhe falta um partido.

Até 2014, a oposição tem que correr, se multiplicar e torcer para que, desta vez, Mantega acerte sua previsão sobre o PIB.

Desarmamento - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 25/03

Nosso Estatuto do Desarmamento completa dez anos neste 2013. Não há dúvida de que trouxe mais controle e rigor para a posse, o porte e a comercialização de armas.

Dados oficiais mostram que, entre 2004 e o começo de 2013, mais de 600 mil armas foram entregues voluntariamente pela população. É um resultado que, à primeira vista, pode impressionar, mas ainda muito distante dos 15 milhões de armas de fogo nas mãos de civis.

Na forma como foi proposto, mediante entrega voluntária, o estatuto tem se mostrado ineficaz para fazer frente à magnitude dos problemas graves na área de segurança, assim como ocorreu em outros países que experimentaram este modelo.

Para justificar a acomodação de Brasília nessa área, utiliza-se como argumento a vastidão das fronteiras nacionais e a dificuldade de conter o contrabando. Sem entrar no mérito da absurda fuga de responsabilidade em fiscalizar nossas fronteiras, caminho livre para as drogas e armamento de todo tipo, a questão é que, neste caso, as pesquisas atestam que grande parte das armas é de produção nacional. O problema é de natureza doméstica, portanto.

A paralisia na esfera federal se converte em leniência do governo, ao tentar se livrar da questão da segurança como se fosse um "abacaxi" a ser resolvido pelos governos estaduais, já que a atribuição do papel de polícia Civil e Militar está nesse âmbito por definição constitucional.

O governo federal precisa assumir seu papel coordenador no combate à criminalidade, agindo de maneira sistêmica em pelo menos duas frentes.

Apoiando com firmeza a integração das ações entre as forças de segurança, inclusive as estaduais -um trabalho que já tem resultados muito positivos, a partir do compartilhamento de inteligência e de recursos. E também na expansão e melhoria do sistema prisional, um esforço decisivo para golpear o crime organizado, que comanda o banditismo de dentro para fora.

A outra forma de contribuir é eliminando o crônico contingenciamento das receitas existentes, já insuficientes. Inacreditavelmente, cerca de 80% de tudo o que se investe no setor vêm dos cofres municipais e estaduais e, ainda assim, a União vem reduzindo os seus investimentos em segurança.

Nessa área, infelizmente, o Brasil nunca teve uma política consistente e integrada.

Nos últimos anos, tem-se preferido adotar estratégias midiáticas em vez de ações estruturantes. Essas devem ser construídas no dia a dia das organizações policiais em integração com o governo federal -são menos visíveis, mas muito mais eficazes.

As 39 mil mortes causadas por armas de fogo por ano no país não podem continuar encobertas pela omissão e um silêncio inaceitáveis.


Governos e sindicatos, relações bastardas - ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

O ESTADO DE S. PAULO - 25/03

João Goulart (1919-1976) é personagem singular e enigmática da nossa História. Escolhido por Getúlio Vargas para lhe suceder como condutor da política trabalhista,Jango herdou a resistência das elites e a desconfiança das Forças Armadas.

A aproximação entre Vargas e Jango iniciou-se no final de 1945, quando o presidente, deposto no dia 29 de outubro pelos generais, foi confinado na estância de Itu, no município de São Borja (RS), vizinha da propriedade da família Goulart. Partiu daí a transformação do jovem criador de gado em político do PTB gaúcho, pelo qual se tornou deputado estadual em 1947, deputado federal em 1950, presidente nacional do partido em 1952 e ministro do Trabalho em 1953.

Convocado por Vargas - que voltar a ao Catete e leito presidente da República em 1951- para fortalecer vínculos com o movimento sindical, Jango "tornou se figura de destaque e árbitro dos conflitos entre os trabalhistas, ao mesmo tempo que,em estreita ligação com Vargas, passava a controlar os principais cargos de chefia na Previdência Social". Simultaneamente, empenhava- se na tarefa de atribuir importância nacional às organizações sindicais," de forma a constituir uma força que pudesse dar respaldo ao presidente, atingido, no segundo ano do governo, pelos efeitos da crise política, latente desde o período eleitoral" (Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, volume III).

Desde a Carta Constitucional de 1937, sob a qual foi redigida a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), governo e sindicatos cultivam relações bastardas.Relata João Pinheiro Neto, no livro Jango, um Depoimento Pessoal (Ed.Record),que,quando ministro do Trabalho, várias vezes Goulart lhe disse: "Tu, que és menino inteligente, diga a esses homens( referia-se às lideranças sindicais) que não forcem demais, que me deixem um pouco tranquilo". E acrescentava: "Podes anotar: se me apertarem demais e eu cair, virá por aí uma ditadura militar que vai durar vinte anos. E, quando isso acontecer, os nossos líderes sindicais não poderão andar nem na rua..." O temor de quem se sentia acossado, e não dispunha de força para resistir ao assédio sindical, era profético.E seria confirma do pelos fatos.

A promiscuidade com o peleguismo foi obra de Vargas, exímio na arte de manipulá- lo. Jango não aprendeu com o mestre e (na Presidência da República) se deixou envolver por dirigentes ambiciosos, que imaginavam assumir o domínio do País a partir de movimentos grevistas,como o deflagrado em outubro de 1963 por 77 sindicatos e quatro federações estaduais, representantes de metalúrgicos, têxteis, gráficos, marceneiros, químicos-farmacêuticos, liderados pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), controlada por aliança entre PTB e PCB.

Apoia da abertamente por Jango e Amaury Silva, ministro do Trabalho, a "greve dos 700 mil" não resistiu à intervenção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, acionado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Mas eliminou a escassa confiança do setor patronal no propalado espírito cordato e conciliador do presidente.

O golpe de 31 de março de 1964 provocou total desarticulação do sindicalismo comuno-petebista. Entre os primeiros cem cujos direitos políticos foram suspensos por dez anos pelo Ato Institucional n.º 1 (de 9/4/64)do Comando Supremo da Revolução, 40 eram sindicalistas, entre os quais Clodesmith Riani, Dante Pellacani e Hércules Corrêa, diretores da CNTI e líderes do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para ocupar os postos deixados pelos cassados o governo nomeou interventores como Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão,que seria presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

A truculência do governo militar provocou a substituição dos protagonistas da promiscuidade. Em vez de sindicalistas ligados à denominada esquerda progressista, o que se observou foia brusca ascensão de elementos das oposições na chefia de sindicatos, federações e confederações, em íntima colaboração com o Ministério do Trabalho, que lhes garantia sucessivas reeleições e os alimentava com o Imposto Sindical.

Em 1946 e 1988 perderam-se duas excelentes oportunidades de moralização do movimento sindical. O artigo 8.º (da Constituição de 88), o pior texto da história nessa matéria, afastou o poder de intervenção direta do Estado,mas conservou o sistema confederativo, a divisão de empregadores e empregados em categorias, o monopólio de representação, a contribuição sindical obrigatória para não associados, o registro no Ministério do Trabalho.

Governo e sindicatos cultivam relações bastardas. O primeiro, porque lhe dão tranquilidade, capacidade de controle e apoio eleitoral. Quanto aos segundos, tiramo máximo proveito da promiscuidade: recebem polpudas ajudas em dinheiro público, gozam de prestígio político, interferem na escolha de ministros, têm livre acesso a palácios e ministérios. Ser dirigente sindical próximo do governo é a melhor posição que alguém pode almejar, por trazer vantagens sem gerar preocupações.

A presidente Dilma Rousseff havia adotado postura austera e firme diante das centrais. Buscou, aparentemente, fazer que entendes sem haver larga distância entre interesses pessoais de dirigentes, ávidos de dinheiro ou de ascensão política, e relevantes projetos nacionais, como tornar a economia competitiva no mundo globalizado, começando pela reforma dos portos e aeroportos. Mas, aconselhada pelo ex-presidente Lula, deu um passo atrás e as reconduziu a lugar de honra no Planalto. O primeiro fruto da reaproximação consiste na atitude da Força Sindical, autora de manifestações contra a privatização de terminais portuários, prevista na Medida Provisória 595, em tramitação no Poder Legislativo.

S. Exa. poderia dedicar algumas horas à história do trabalhismo janguista, e certamente concluirá que relações incestuosas, como peleguismo,jamais trarão resultados benéficos ao País.

Um peso e uma medida - ÁUREA SAMPAIO

O GLOBO - 25/03

Imagine se você trabalhasse de segunda a sexta-feira, sem limite de jornada semanal, sem direito a remuneração pelas horas extras e noturnas, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), salário família ou qualquer proteção contra acidente de trabalho. Esta é a realidade atual dos trabalhadores domésticos brasileiros.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Brasil há cerca de 7 milhões de empregados domésticos — 70% deles não possuem contrato de trabalho formalizado, e nove em cada dez são mulheres. Enquanto os demais trabalhadores tiveram seus direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, os trabalhadores domésticos precisaram esperar três décadas para que a legislação lhes assegurasse alguma proteção jurídica.

A Lei 5.859, de 1972, foi a primeira a regular o trabalho doméstico. A iniciativa foi tímida e poucos foram os direitos reconhecidos: assinatura da Carteira de Trabalho, férias de 20 dias úteis e inclusão deste profissional como segurado obrigatório da Previdência Social.

Apenas com o advento da Constituição de 1988, 16 anos depois, outros direitos foram estendidos aos domésticos, como o salário mínimo, a irredutibilidade do salário, o décimo terceiro salário, o repouso semanal remunerado, as férias remuneradas, com o acréscimo da gratificação de um terço do salário normal, a licença maternidade e a aposentadoria.

A garantia de emprego à gestante só foi assegurada a empregada doméstica em 2006 e até hoje o direito ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e ao seguro desemprego depende da vontade do empregador.

A 100ª Conferência da OIT, realizada em 2011, aprovou a Convenção 189 sobre trabalho decente para os trabalhadores domésticos, com o objetivo de assegurar a essa categoria os mesmos direitos dos demais trabalhadores e melhores condições de trabalho.

Embora presente em muitos lares brasileiros, o trabalhador doméstico sempre foi subvalorizado, ignorado, e segue sendo vítima de frequentes desrespeitos aos direitos humanos e aos direitos fundamentais no trabalho. Com a aprovação da PEC 66/2012, que estende aos trabalhadores domésticos os mesmos direitos assegurados aos demais trabalhadores, o Brasil tem a oportunidade de demonstrar maturidade política e engajamento na questão mais ampla da igualdade de oportunidades e de tratamento no mundo do trabalho.

A sociedade brasileira não pode se omitir neste momento. Esta é uma oportunidade histórica de banir do nosso ordenamento jurídico o tratamento discriminatório dispensado ao trabalhador doméstico e resgatar a dignidade de milhões de trabalhadores brasileiros.

Fumaça branca - PAULO BROSSARD

ZERO HORA  - 25/03

Na primeira quinzena do mês passado, Bento XVI anunciou a resignação da sua investidura papal, fixando-a no último dia do mês, 28 de fevereiro. Fazia mais de cinco séculos que as sucessões pontifícias se davam pela morte e, agora, a vacância ocorreria pela renúncia do titular; com a clareza e firmeza com que fora justificada pelo renunciante e, dado seu teor, despertou vivo interesse, além do círculo confessional. Outrossim, o Papa, em mais de uma manifestação, emitiu juízos de inegável relevo, a começar pela antecipação do conclave a ser convocado. De outro lado, elevado número de vaticanistas veio à tona divulgando opiniões e previsões várias, o que aumentava o interesse não só dos católicos. Antes mesmo da instalação da assembleia cardinalícia, eram mencionados nomes de papáveis e seus supostos partidários ou patronos. O conclave foi rápido, com a fumaça branca já no segundo dia e, curiosamente, sem que o escolhido fosse nenhum dos indicados pelos supostos especialistas em coisas do Vaticano, o que evidenciou o caráter meramente especulativo das manifestações. Foi nomeado o cardeal Jorge Mario Bergoglio, da Argentina; era a primeira vez que a escolha recaía em sul-americano, o que não seria de estranhar uma vez que a Igreja é universal. A partir da fumaça branca o novo pontífice foi apresentado à multidão que se reunira na Praça de São Pedro, pareceu-me então que ele não estava à vontade, dir-se-ia um tanto acanhado, poucas palavras e um gesto comedido. Com a divulgação de seu nome pontifício, nada menos que Francisco, a lembrar São Francisco de Assis e São Francisco Xavier, nome nunca lembrado em mais de 2 mil anos; aliás era o primeiro jesuíta a ser feito papa. E, por esta ou aquela razão, parece ter passado uma espécie de aragem de generalizada simpatia.
Se não estou em erro, menos de semana depois de ter sido nomeado papa pelo conclave de 12 e 13 do corrente, via-se cercado por mais de 20 chefes de Estado e de governo e numerosas autoridades, os meios de comunicação dedicando-lhe atenção excepcional, jornais da maior expressão reservando a ele páginas e páginas, em dias sucessivos, e um deles, laico em toda a extensão da palavra, estampava, em sua edição de 20, a íntegra da homilia pronunciada na missa em que iniciava formalmente o papado; nesse documento, depois de referir-se aos "irmãos cardeais e bispos" até a "todos os fiéis leigos", agradece "pela sua presença aos representantes das outras igrejas e comunidades eclesiais, bem como ao representante da comunidade judaica, e de outras comunidades religiosas".
Foram várias as aparições do papa Francisco, e em situações variadas, e suas declarações, sem aparato, como se dirigidas a velhos amigos, primaram pela singeleza.
Também se fala na popularidade do Papa e ela parece inegável, mas o que me parece mais significativo foi a espontaneidade e celeridade como ela se processou, e transcendendo a popularidade logo se converteu em familiaridade; para isso contribuiu a simplicidade nos gestos, a naturalidade nas palavras, a intimidade de quem se dirigia a irmãos, sem falar na imanente autoridade moral de sua invulgar personalidade, marcada pela nota de humildade.
Para concluir, sem fazer previsões, que não sei fazê-las, nos poucos dias decorridos desde a escolha do papa Francisco, os sinais que o vêm acompanhando me parecem lisonjeiros. Laus Deo.


Não é legal - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 25/03

SÃO PAULO - O Código Penal estabelece pena de 6 a 20 anos de reclusão para o ato de "matar alguém". Daí não se deduz que o homicídio seja proibido no Brasil. Tanto não é que ocorre às dezenas de milhares todo ano. Nações avançadas conseguem diminuir bastante sua incidência, mas jamais erradicá-lo.

Somos livres até para fazer o mal, eis um fato da nossa condição. A distinção entre criminalizar e proibir pode ser útil para debater assuntos que dividem moralmente a sociedade, como as drogas e o aborto.

Quando a lei fixa penas para o aborto, ressalvando casos de risco de vida para a mãe e de gravidez provocada por estupro, o seu objetivo é refrear a prática. O efeito esperado é menos mulheres recorrendo ao aborto, no cotejo com uma situação hipotética em que ele não fosse crime.

Avaliar a eficácia da lei é um desafio lógico e estatístico, pois jamais saberemos como se comportaria a mesma sociedade, no mesmo tempo histórico, mas sob legislação diversa. Espanta-me, a esse respeito, o argumento usado por grupos a favor da descriminalização, de que fixar penas para o aborto aumenta sua incidência, em franco desacordo com o objetivo da lei.

Um dado muito usado, de artigo na revista "Lancet", é o fato de haver em geral menos abortos, para cada grupo de mil mulheres em idade fértil, nos países com legislação liberal. Mas isso não indica nada.

Na esmagadora maioria dessas nações, as mulheres têm mais renda e acesso a métodos contraceptivos e menos gestações do que no grupo dos países em que a prática é criminalizada. O estudo não faz essas ponderações estatísticas.

Pouco se destacam, além disso, dados mais difíceis de harmonizar com a hipótese da ineficácia da

legislação. De cada 100 gestações no mundo rico, diz a "Lancet", 26 terminam em aborto, contra 20 nos países em desenvolvimento.


As viagens de Lula - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 25/03

O suporte financeiro de empreiteiras causa constrangimento moral e provoca danos à imagem que o ex-presidente construiu como líder sindical e ocupante do mais alto cargo da República.


Na condição de ex-presidente, o senhor Luiz Inácio Lula da Silva tem todo o direito de viajar para onde quiser e de cobrar o valor que entende valerem suas apresentações no país e no Exterior. Também não há ilegalidade alguma no fato de que suas viagens são financiadas por grandes empreiteiras que fizeram negócios com o setor público durante seu período no governo e continuam a prestar serviços à União. O que se pode questionar é a moralidade dos subsídios, uma vez que Lula mantém forte poder de influência sobre o atual governo, sobre parlamentares e sobre os integrantes de seu partido, em especial os que ocupam altos cargos no poder central de Brasília. É preocupante, nesse sentido, o levantamento apresentado pelo jornal Folha de S. Paulo, segundo o qual, desde 2011, as empreiteiras bancaram 13 das suas 30 viagens à África e à América Latina.
Pode-se argumentar, a favor do ex-presidente, que ex-ocupantes de cargos públicos dedicam-se a tarefas que se caracterizam claramente como lobby a favor de seus países ou de setores específicos. Há exemplos recentes de controvérsias, como a do sempre citado ex-vice-presidente americano Al Gore, que percorre o mundo em defesa do ambientalismo e já foi acusado de ser propagandista de interesses econômicos de grupos dessa área. São questões delicadas, que podem ser esclarecidas, quando caracterizam delitos, pelas instituições com tais atribuições. O caso que envolve Lula não caracteriza, pelas informações disponíveis, violação de leis.
Mas há, no mínimo, um constrangimento político, e o ex-presidente deve arcar com os custos de seu gesto à imagem que construiu, por décadas, como líder sindical, parlamentar e ocupante do mais alto cargo da República. É notório que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva continua a exercer forte influência sobre os atos do governo, com manifestações explícitas de proximidade com o Planalto e seu entorno, tanto no Executivo quanto no Congresso. Está documentado, em alguns relatórios dos escritórios da diplomacia brasileira nos países visitados, que o ex-presidente agiu diretamente, junto a autoridades que o recepcionaram, no sentido de remover obstáculos ou abrir portas a empresas brasileiras. Não por acaso, os grupos envolvidos nas negociações, que tinham ou ainda têm interesses nos países visitados, eram os financiadores da missão particular do ex-mandatário.
Compreende-se que alguém com as virtudes de Lula, depois de tanto tempo no poder, passe a utilizar sua capacidade de se expressar para proferir conferências, como vem fazendo. Também é natural que um ex-presidente com talento para a articulação faça, por desprendimento e civismo, a defesa dos interesses nacionais. Mas não há como aceitar sem ressalvas a interferência em nome de setores específicos, e com o suporte financeiro dos diretamente interessados, quando se sabe que o ex-presidente não mantém distanciamento das decisões palacianas. As viagens que contribuem para a difusão do bom momento brasileiro podem dispensar ajudas desabonadoras de reputações.


Turista no Brasil sofre - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 25/03
O turismo responde por 9% do Produto Interno Bruto mundial, algo em torno de US$ 6 trilhões, e gera 245 milhões de empregos diretos e indiretos. Diante desses números, a competitividade nesse setor não deveria ser tratada como algo desimportante, ainda mais num país como o Brasil, com seu enorme potencial turístico. No entanto, assim como em outras áreas da administração federal submetidas a interesses partidários e fisiológicos, o turismo apresenta resultados decepcionantes. O último relatório do Fórum Econômico Mundial sobre a competitividade turística mostra que o Brasil subiu apenas uma posição e ainda se encontra em um distante 51° lugar, entre 142 países. É apenas o sétimo colocado nas Américas, atrás até mesmo do Panamá.

Além dos problemas do Ministério do Turismo, é precária a estrutura voltada para o turista. A pesquisa mostra que os principais entraves para tornar o Brasil mais atraente para os viajantes - estrangeiros ou locais - são o precário sistema de transportes e os preços altos.

"A rede de transportes permanece subdesenvolvida", nota o relatório, colocando o Brasil numa vergonhosa 129.ª posição nesse quesito. A qualidade das estradas, dos portos e aeroportos e das ferrovias "requer melhorias para acompanhar o desenvolvimento econômico do País". Os autores do estudo acreditam que a realização da Copa do Mundo, em 2014, e da Olimpíada, em 2016, oferece uma "oportunidade para superar essas deficiências de infraestrutura", mas essa conclusão, a julgar pelos resultados pífios dos investimentos na área, parece ter sido apenas uma cortesia dos pesquisadores.

Em relação aos custos para os turistas, o relatório do Fórum destaca os preços altos das passagens aéreas e das taxas aeroportuárias, "assim como a alta dos preços em geral". Nesse quesito, o Brasil aparece em 126° lugar - entre os sub-itens destacam-se os altos impostos em geral (140.° lugar) e os preços das acomodações (72.°) e dos combustíveis (77.°). O País também está entre os últimos (119° lugar) no que diz respeito à excessiva burocracia para o setor de viagens e turismo, tanto para os viajantes como para as empresas do setor.

Há ainda a questão da crônica falta de segurança, que faz a má fama do País e tradicionalmente afugenta muitos turistas. Nesse item, o Brasil aparece em 73° lugar, e o relatório destaca o alto custo desse problema também para o ambiente de negócios.

O relatório afirma que o Brasil não prioriza o turismo - está em 102° lugar nesse quesito. É apenas o 83° em gastos do governo para incentivar as viagens e o 102. O em marketing para apresentar-se aos turistas como um destino em potencial. A falta de atenção ao setor se traduz na sistemática falta de informações para os estrangeiros logo que eles chegam aos grandes centros brasileiros e se deparam com orientações apenas em português, quando elas existem. Além disso, o Ministério do Turismo é tratado como uma das pastas que podem ser usadas nas barganhas que o governo faz para angariar apoio político. Em 2011, o então ministro, Pedro Novais, cuja única qualidade para ocupar o cargo era ser filiado ao PMDB, teve de se demitir depois de uma série de escândalos. Uma devassa resultou na prisão de 36 pessoas, entre as quais 8 integrantes do ministério. Não espanta, portanto, que os resultados sejam tão ruins num dos poucos setores da economia global que apresentam crescimento a despeito da crise.

Apesar de todos os problemas, o Brasil ainda é um lugar de grande interesse para os estrangeiros, graças às suas características naturais e culturais - e o Fórum Econômico Mundial reconhece o esforço brasileiro para preservar esse tesouro. Segundo o estudo da entidade, o País é o 1° do mundo em recursos naturais, o 6.° em locais reconhecidos como patrimônio mundial da natureza e o 16.° em locais reconhecidos como patrimônio cultural.

Portanto, o Brasil continua "bonito por natureza", mas depende muito mais dos desejos dos estrangeiros de virem conhecer nossas maravilhas do que das condições que o País lhes oferece para atraí-los.

Efeito ao contrário - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 25/03

A Constituição promulgada em 1988 formalizou o fim do ciclo do autoritarismo e criou um conjunto de normas para adequar o país às regras da democracia. Os constituintes de 87 criaram bases sólidas para a reconquista dos direitos civis, mas parte ponderável deles ainda estava sintonizada num mundo em que o Estado exercia papel central na sociedade. Assim, a Carta incorporou preceitos de um Estado tutor, voraz arrecadador de recursos via impostos para supostamente fazer “justiça social”.

Nas relações trabalhistas, devido à esta visão, a Carta manteve anacronismos herdados do getulismo. A manutenção da CLT, em lugar da flexibilização da legislação trabalhista, e o tratamento paternalista que o Estado dispensa a entidades de classe são exemplos desse descompasso.

A ideia de que amarras da lei protegem os trabalhadores, em lugar do recurso a mecanismos mais flexíveis, ditados pela dinâmica das relações entre patrões e empregados, acaba, não raro, por transformar a legislação pretensamente protecionista em bumerangue que se volta contra aquele a quem se pretende beneficiar.

Caso mais recente dessa equivocada visão está no projeto de emenda à Constituição que assegura aos domésticos os mesmos direitos dos demais trabalhadores.

Aprovado no Senado em primeira votação, o projeto deve voltar ao plenário nos próximos dias, para a rodada definitiva de apreciação pelos senadores. A tendência é que o Congresso o aprove rapidamente, mesmo faltando os dois turnos de votação na Câmara dos Deputados.

Pelas novas regras, os empregados domésticos passa a ter direito a uma jornada de oito horas, salário-família, horas extras e recolhimento obrigatório, pelo patrão, do FGTS (mais multa de 40% de indenização em caso de demissão sem justa causa).

Especialistas estimam que o impacto dessas novas obrigações poderá chegar a 41% sobre o orçamento atual dos patrões. De imediato, sem levar em conta o pagamento de horas extras e outros penduricalhos, as despesas com a manutenção de uma doméstica serão em torno de 10%. Trabalhadores têm direitos que precisam ser assegurados. Fora de discussão. Mas a extensão pura e simples, de imediato e sem gradações que deem margem aos empregadores de adaptar o orçamento a obrigações recém-criadas, de benefícios de impacto direto na renda familiar terá dois efeitos imediatos: demissões e o aumento da informalidade.

Entre a obrigação de comprometer a renda da família — um fantasma para a classe média, faixa na qual se concentra a maioria dos empregadores do país, já pressionada por uma voraz legislação fiscal — e, por mais difícil que seja, a decisão de demitir a empregada não é difícil prever para onde a balança penderá. Longe de dar estabilidade aos trabalhadores domésticos, as novas regras punirão aqueles que hoje têm um salário assegurado, e afastará ainda mais a carteira de trabalho assinada da grande maioria que vive na informalidade.

Rescaldo na Petrobras - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 25/03

Depois do péssimo resultado da Petrobras em 2012, com baixa lucratividade e alta de quase 50% no endividamento, seu plano de investimentos para 2013-2017 trouxe algum alívio. A maior empresa estatal do país parece enfim começar a recuperar-se da interferência excessiva do Planalto na era Lula.

Em primeiro lugar, prevê-se que o investimento volte a se concentrar em exploração e produção. Do programado para todo o quinquênio, US$ 236 bilhões, 62% serão direcionados para o núcleo da atividade da empresa: extrair cada vez mais petróleo do pré-sal. Os planos ainda demorarão a render frutos. A produção crescerá só a partir do ano que vem, dos atuais 2,4 milhões de barris por dia (mbpd) para esperados 2,75 mbpd em 2017, sendo 1 mbpd do pré-sal.

A projeção para 2020 é de 4,2 mbpd. A geração de caixa da empresa superaria US$ 50 bilhões em 2017, quase o dobro do ano passado. Tenha-se em mente que as projeções da empresa têm sido invariavelmente frustradas nos últimos anos.

Para gerar caixa, a empresa também pretende vender ativos no valor de US$ 9,9 bilhões, neste ano, incluindo usinas termoelétricas no Brasil e bens no exterior. A nova orientação também manifesta a intenção de conter custos -em boa hora, pois parcela importante da deterioração financeira da Petrobras decorreu de leniência e má gestão operacional.

Segundo sua presidente, Maria das Graças Foster, a empresa economizará US$ 32 bilhões até 2016. Em conjunto com o aumento de produção, o plano, se cumprido, levará ao aumento de rentabilidade e à redução da dívida, grave ponto de preocupação.

A Petrobras já andava próxima do limite financeiro para bancar o subsídio aos preços de combustíveis para o consumidor, defasados em relação ao mercado internacional. Houve quatro aumentos para o diesel e dois para a gasolina em nove meses, somando 21,9% e 14,9%, respectivamente.

Ainda assim, permanece duvidoso se a empresa conseguirá cumprir o que dela é exigido no pré-sal. Não tanto por incapacidade gerencial, mas por falta de recursos e até limitações operacionais. O modelo do pré-sal prevê que a Petrobras fique com 30% do que for extraído nos novos campos e seja a operadora de todos eles.

Melhor seria leiloar as áreas para mais empresas capacitadas a explorá-las, ainda que em parceria com a Petrobras. A produção -e os royalties do governo- cresceria mais rápido, sem endividar a estatal e infligir riscos ao Tesouro.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Lula e Dilma ajudam os pobres, que dão mais dízimos"
Marcelo Crivella, ministro e bispo,celebrando o aumento da renda dos mais pobres


Candidata, Dilma calça sandálias da humildade

Com a definição de sua candidatura à reeleição, a presidenta Dilma alterou seu comportamento diante de auxiliares e principalmente dos aliados. Suas conhecidas explosões de esculacho agora são mais contidas e três dos principais lideres da “governança do Congresso”, dois deles senadores, afirmaram a esta coluna, em tom de gozação, que repentinamente Dilma “calçou as sandálias da humildade”.


Definiu, relaxou

A mudança de Dilma começou a ser percebida após a festa dos “dez anos de PT no poder”, quando Lula deixou claro que não é candidato.


Aproximação

Lula também manteve longas conversas com Dilma, convencendo-a a se aproximar mais dos aliados não-petistas e dos sindicalistas.


Mão no nariz

Ministro com gabinete no Planalto diz que Lula persuadiu Dilma a prestigiar aliados dos quais ela se afastara porque “feio é perder”.


A face do poder

Dilma deu força ao PMDB e cedeu espaço ao PDT de Carlos Lupi e ao PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto, que ela “faxinou” do governo.


Quarenta sentenciados são assistentes no STF

Tem sido um sucesso o programa “Começar de novo”, implantado na presidência do ministro Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal, para dar chance a sentenciados que cumprem pena em regime semi-aberto. Vários são assistentes de ministros, para orgulho do juiz Ademar Silva de Vasconcelos, titular da Vara de Execuções Penais do DF, batalhador por condições carcerárias que recuperem condenados.


Confiança

O ministro Gilmar Mendes revelou ao juiz Ademar Vasconcelos, certa vez, que o assistente tem a guarda do cofre do seu gabinete.


Recomeço

Dos quarenta sentenciados que trabalham no STF, 38 estudaram, passaram no vestibular e ingressaram em universidades.


É da família

Descendente de imigrantes libaneses, o vice Michel Temer receberá homenagem da Câmara Árabe em jantar segunda (25) em São Paulo.


Mão dupla


O ainda tucano José Serra não abre mão da candidatura ao governo de São Paulo em 2014, pelo PSD e/ou PPS, para confrontar o governador Geraldo Alckmin e Aécio Neves, aliando-se a Eduardo Campos (PSB).


Canto do cisne

Presidente do PP, o senador Francisco Dornelles (RJ), 78, já não tem interesse em disputar as eleições de 2014. Ele quer emplacar o jovem senador Ciro Nogueira (PI) em seu lugar, no comando do partido.


Quase fora

O tratamento ao governador goiano tucano Marconi Perillo, estes dias, na Comissão de Assuntos Econômicos, foi revelador de seu cartaz junto aos senadores: ocupou a cadeira mais à esquerda da mesa.


Propaganda enganosa

O PSDB planeja reunir as propagandas televisivas da campanha de Dilma de 2010 para escancarar as propostas não cumpridas. “Isso é um estelionato eleitoral”, diz o líder da oposição, Nilson Leitão (MT).


Gasto inútil

Quatro carrões Ford Fusion 0km enferrujam na garagem da Câmara Legislativa do DF, adquiridos pelo ex-presidente Sidney Patrício (PT). Deputados não os utilizam por vergonha. E temor da opinião pública.


Alô, Anatel

Cliente da Nextel tenta há dias cancelar o contrato, sem êxito, apesar de longas ligações nunca inferiores a 30 minutos. A última durou 59. E as queixas no Facebook da Nextel foram deletadas segundos depois.


Agora vai

O líder do PT na Câmara dos Deputados, José Guimarães, sugeriu ao governo o monitoramento on-line dos recursos para seca, distribuição de milho para rebanhos via FAB e abastecimento emergencial de água.


Questão de estilo

Lula foi, mas o fundador da Microsoft, Bill Gates, cancelou a visita à Nigéria, após o presidente Goodluck Jonathan perdoar um governador corrupto. A Fundação de Gates ajuda a erradicar a pólio na Nigéria.


Pensando bem...

...de tanto viajar em jatinho de empreiteira fazendo lobby, Lula já pode se candidatar a “comissário” de bordo.

Poder sem pudor

Burocrata irrecuperável

Quando se fala em recriação da Sudene e na criação de novos órgãos, é bom lembrar o saudoso ministro Hélio Beltrão, que tentou, em vão, diminuir a burocracia no Brasil. Certa vez, um assessor comentou com ele que um certo ministro era contra a Reforma Administrativa porque teria “uma tendência para a burocracia”. Sempre bem humorado, Beltrão observou:
- Ele não tem tendência, tem superintendência mesmo...

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Benefício fiscal – Deputados incluem armas em pacote de desonerações
Folha: Cota não atrai aluno da rede pública a vestibular
Estadão: Mesmo com safra recorde, inflação de alimentos resiste
Correio: Inadimplência no Pró-DF chega a 68%
Valor: Empresas divergem sobre a desoneração de salários
Estado de Minas: Empregado em casa será artigo de luxo
Jornal do Commercio: Tentando fazer diferente
Zero Hora: Lei da transparência a passos lentos no RS

domingo, março 24, 2013

Visíveis para si mesmo - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 24/03

Ficar sozinho não é estar abandonado, ao contrário: é encontro dos mais sagrados

Se você fosse um super-herói, qual o poder que gostaria de ter? Pergunta clássica, resposta clássica: 99% das pessoas gostariam de ficar invisíveis. É o desejo também do senhor Y, o enigmático personagem de O Homem Visível, de Chuck Klosterman, livro que mistura ficção científica, bizarrice e suspense numa trama que, ainda que inverossímil, prende o leitor e faz refletir.

Y trabalhou num projeto ultrassecreto do governo americano e acabou desenvolvendo uma tecnologia de camuflagem ele criou uma espécie de segunda pele que o torna invisível. Com que propósito? Entrar na casa de pessoas que morem sozinhas e, sem ser percebido, vê-las em sua rotina comum. O obcecado Y acredita que uma pessoa é 100% autêntica apenas quando ninguém a está observando.

Ah, super Y. Além de invisível, você lê pensamentos? Acredito no mesmo que você. Sozinha não finjo, não disfarço, não retruco, não provoco, não julgo, não condeno, não sumo, não volto. Sozinha não há céu que me rejeite – assim encerra um poema que escrevi certa vez sobre o benefício da solidão.

Não que sejamos todos uns falsos ao sair pela porta de casa, mas é indiscutível que, assim que entra um vizinho no elevador, você automaticamente aciona um dispositivo que produz um sorriso e um comentário sobre o clima, quando na verdade está morta de sono e preferiria continuar calada. Uma atuação inofensiva e gentil, mas, ainda assim, uma atuação. É preciso contracenar.

No entanto, em suas visitas secretas a homens e mulheres que se acreditavam em total privacidade dentro de seus apartamentos, Y repara que elas não se sentem tão relaxadas como deveriam. Ele se dá conta de que as pessoas não consideram o tempo que passam sozinhas como parte de suas vidas. Diz o personagem: “Sempre me senti mais vivo quando estava sozinho, porque esses eram os únicos momentos que não sentia medo de ter minhas ações examinadas e interpretadas. O que acabei descobrindo é que as pessoas precisam que suas ações sejam examinadas e interpretadas, para acreditar que o que fazem tem importância”.

É preocupante. Hoje, as pessoas só confirmam sua existência quando estão em público. No entanto, creio que é justamente quando estamos misturados aos demais que nos tornamos invisíveis.

Acabamos infiltrados na manada e compartilhamos opiniões originadas do senso comum, tudo pela ansiedade de fazer parte de alguma coisa. Já ao nos concedermos momentos de isolamento, entramos em real conexão com nossos desejos, processamos as experiências vividas e esculpimos silenciosamente o homem e a mulher que estamos nos tornando. Ficar sozinho não é estar abandonado, ao contrário: é encontro dos mais sagrados. Invisível para os outros, extremamente visível para si mesmo.

É divertido ser invisível e todos nós temos esse poder, basta estar numa festa para 800 convidados, por exemplo. A visibilidade é que é rara: olhar profundamente para dentro e enxergar o que ninguém mais consegue ver.

REDASSÃO DO ENEM - AGAMENON

O GLOBO - 24/03

Apesar de çer anarfabeto de pai e mãe, o meu grande çonho sempre foi de pudê entrá pruma facurdadi univerçitária no cistema de cotas. I é por iço mermo qui eu vou contar pra vossêis meus dizeçete leitor e meio (não si isquessam du anão) como qui foi qui eu fiz pra conssegui um imprego em O Grobo mesmo cem çaber ler. Só çei iscrever.

Nakele tempu num era qui nem qui hoge em dia que priciza de craxá pra intrar na redassão do O Grobo. Era çó xegar, dar um grana pro porteiro e penetrar (nu bom çentido, é craro) no jornar. Si vossê desce um pouco maiz di grana, podia inté penetrar em argumas jornalistas também, mas iço é outra istória...

Açim que xeguei na redassão do maió jornal do paíz, dei de cara com o Nerson Rodrigueis que, na lata, foi logo diseno uma de suas famosas frazes: “O mineiro só é çolitário no onanismo...”. Num intendi direito o que o grande excritor çuburbanu quis disê cum akilo mais ri açim mermo pra num ficar cum fama de inguinorante. Comessei intão a ser çecretáriu do Nerso Rodriguez e era responçável por prepará o seo mingau e iscrever todas as sua culunas pru jornau. Em porco tempu, paçei a iscrevê também a coluna do Ibrahim Sued, a do Roberto Campos e a do Dom Eugenio Salles. Impreçionado com a minha inteligênça e curtura, o editor du jorná e meu amigo peçoal Evandro Carlos de Andrade me promoveu e, devido às minhas tendênssias criminozas , me mandou para a página polissial.

A página polissial era que nem ki a página de política hoge em dia que só qui cem ninhum deputado ou çenador. Maiz como eça redassão tá ficando muito cumprida e xata, vou aproveitá pra dá uma resseita de Miojo, akele macarrão japoneiz qui entra duro e sai mole e pingano. Vossê pega um panela e bota doiz copo dágua pra fervê. Quando tiver ferveno (a água não os copo) coloca o miojo dentru mas presta atenssão, tira o prástico antes. Si não, fica ruim. Que dize, Miojo fica ruim de quarquer jeito. Dispoiz é só colocá o pó do saquinho miaiz cuidado pra não queimá o saquinho. Dispoiz é só chamar um amigo purquê Miojo se come com doiz pauzinho.

FIGURAÇA DA SEMANA

Pastor Marcos Feliciano - O pastor do PSC (Partido da Sacanagem Constitucional) é o atual presidente da Comichão de Direitos Humanos e está sendo perseguido só porque é homofóbico, racista e não tolera minorias. Por causa dos protestos, o pastor Felicianus não conseguiu assumir até hoje mesmo porque é contra o homossexualismo entre pessoas do mesmo sexo. Ambicioso e empreendedor, o pastor Marcos Miliciano criou a sua própria igreja, a Igreja Adventista do Sétimo Dígito cujo lema é “Templo é dinheiro!”. Apesar de suas posições arcaicas, caretas e conservadoras, o pastor é um homem moderno ligado na tecnologia de ponta e foi o primeiro evangelista a aceitar o pagamento do dízimo com cartão de crédito, mas tem que dar a senha antes. Na suas pregações, o controverso líder religioso sempre costuma dizer aos seus fiéis: “Dízimo com quem andas e eu te direi quem és.” Esse pastor é o homem errado no lugar errado. Como é que botam um cara desses na presidência Comissão de Direitos Humanos se ele não é nem direito e nem humano?

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Segundo investigação da Polícia Federal, Agamenon Mendes Pedreira colou do Lula na prova do ENEM.

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Agamenon Mendes Pedreira é analfabeto funcional, que dizer, analfabeto funcionário de O Globo.


Baboseiras - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 24/03

O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:

- Ele falou que tinha resposta.

- Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.

- Alo...- Amauri, cadê a carta do ursinho?

Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.

- Eu mandei. Não mandei? - Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.

- Heleninha...

- Não tem “Heleninha”, Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.

- Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.

- Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.

Todas as cartas.

- Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.

- Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.

- Chantagear, Heleninha?! - Chantagear. Eu conheço você.

- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.

- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!

- Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?.- Eu não quero ouvir!

- Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...

- Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.

- Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.

Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.

- Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia , quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.

- Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?

- Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...

Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.

- Alo? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy.

Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: “Querido Ursinho”. Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide.

Será uma maneira de conhece-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela.

- Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.

- Heleninha...- Você mentiu. O tal moto boy não apareceu com a minha carta.

- Heleninha...- Prepare-se para o pior, Amauri.