quinta-feira, março 14, 2013

Dilemas na energia - MARCELO MITERHOF

FOLHA DE SP - 14/03

A diversificação da matriz energética reduziria a variação de ano para ano do custo global da eletricidade


Na Semana retrasada, em sua apresentação no Conselhão, a presidente Dilma destacou que o governo optou por hidrelétricas sem reservatórios (fio d'água) para reduzir as inundações -e os impactos ambientais e sociais associados- provocadas pela instalação dessas usinas. A contrapartida é ter mais termelétricas disponíveis para quando a seca diminui a geração hídrica.

Tenho dúvidas acerca do resultado ambiental líquido da opção por usinas fio d'água: será que impactos da queima de combustível da geração térmica são mais do que compensados pelos danos evitados por um alagamento menor?

De qualquer forma, a opção faz sentido. Como destaca meu colega economista e especialista em energia Alexandre Esposito, a quem consultei para esta coluna, a fronteira de expansão de hidrelétricas no Brasil está na Amazônia, onde são expressivos os impactos ambientais e também os sociais, associados a remoções populacionais, notadamente as indígenas, cuja ligação milenar com suas terras torna difícil até mesmo estabelecer contrapartidas.

Mas há um dilema, pois tal opção sai cara. O investimento hidrelétrico tem custo crescente por energia adicionada devido aos gastos com a mitigação dos impactos ambientais e à redução da disponibilidade de energia em razão do tamanho menor dos reservatórios, além da necessidade de implantar linhas de transmissão longas para levar a eletricidade aos centros de consumo.

O uso de reservatórios para regular o fluxo de água, permitindo estocar energia, ajuda a mitigar essa tendência, pois o benefício da energia gerada a mais em geral supera largamente o incremento do investimento para elevar o represamento.

Além disso, diminui-se o uso de combustíveis fósseis em termelétricas, cujos custos de operação podem chegar a R$ 800 MWh (a diesel e a óleo combustível), quase dez vezes o custo médio da geração de energia hídrica nova.

A presidente também protestou contra quem fez alarde nos últimos meses sobre o risco de o país enfrentar um racionamento de energia.

Países com forte participação da geração hídrica -como Canadá, Noruega e Brasil- têm em seu planejamento um nível aceitável de risco de deficit de energia, algo como 5%. Isso porque zerá-lo exigiria manter alta capacidade ociosa para serem usadas só em secas severas.

Claro que possíveis deficit não precisam ser tão duros como o racionamento de 2001, resultado de longo período de baixo investimento.

Outro dilema se relaciona à ponderação entre os objetivos de diversificar a matriz e o de buscar a curto prazo a modicidade tarifária.

No centro-sul, em especial São Paulo, há potencial de geração por biomassa equivalente a duas Itaipu. A cana costuma ser colhida na seca, isto é, seu ciclo é complementar ao hídrico. A energia eólica, que tem se ampliado a custos cadentes, também tem essa característica: venta mais quando chove pouco. O Brasil tem também a chance de ser líder em geração de energia solar.

Essas são tecnologias incipientes na matriz energética, cuja ampliação permitiria ao país ingressar no mercado global de equipamentos para energias renováveis.

Porém, a substituição das térmicas fósseis aumenta o custo total da energia elétrica, ao menos no curto prazo. É difícil que fontes alternativas consigam competir em preço com uma tecnologia madura.

Mas vale lembrar que as térmicas fósseis têm custo de implantação baixo e de operação alto. O custo final é dado pela ponderação desses valores pelo risco de a térmica ser usada. Mas esse risco é uma média de longo prazo. Assim, há uma alta dispersão em torno da média: em anos de muita chuva, o custo da térmica é baixo, mas, se a seca é severa, como em 2012, o impacto no custo final é significativo.

Portanto, a diversificação da matriz, ao diminuir a dependência das térmicas fósseis nos períodos de seca, reduziria a variação de ano para ano do custo global da eletricidade, além de propiciar o desenvolvimento tecnológico de fontes mais limpas que com o tempo tendem a se tornar mais baratas que as térmicas fósseis.

Em suma, o setor elétrico vai bem, mas, como um elemento-chave do crescimento sustentado, seu aperfeiçoamento precisa ser constante: acelerar a diversificação da matriz energética e discutir suas opções ambientais são temas da agenda.

Balanço dos riscos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 14/03

O economista José Roberto Mendonça de Barros acha que há um recrudescimento da inflação e não está tão certo de que haverá forte desaceleração da inflação de alimentos ao longo do ano. Alguma queda haverá, mas ele teme os custos que pressionarão os produtores este ano e a excessiva dependência de que a safra americana seja boa.

A inflação está indo para 6,7% neste primeiro semestre, para cair para 6% no fim do ano. E não há um chuchu da vez. Um estudo que fizemos aqui na MB Associados em 340 categorias de preços pesquisados pelo IPCA mostra que mais de um terço dos preços subiram mais de 10% nos 12 meses terminados em fevereiro - disse Mendonça de Barros.

Uma inflação espalhada e que está "leve para subir", na expressão do economista. Quer dizer com isso que qualquer evento afetará imediatamente os preços por falta da capacidade de absorver esses choques.

A maioria do mercado está mais otimista quanto à queda da inflação de alimentos ao longo do ano, mas Mendonça de Barros, que tem grande conhecimento em produção agrícola, pondera algumas questões:

- Melhor do que o ano passado, será, é claro. No ano passado, houve uma grande quebra de safra nos Estados Unidos. O Brasil terá uma bela safra, mas já começou a ser reduzida a previsão. Seria de 85 milhões de toneladas, será de 80 milhões a 81 milhões. É ainda uma grande safra, mas como os estoques estão baixos, as cotações vão depender da produção americana.

José Roberto explica também que o uso do diesel nas termelétricas reduz a oferta de diesel para os caminhões e o produto subiu duas vezes. O frete está muito alto. A seca, de um lado, e o excesso de chuvas, de outro, estão afetando também certas culturas:

- Minha hipótese é que alimento pode dar um refresco ao longo do ano, mas não necessariamente na proporção que se imagina. Acho também que o efeito da desoneração de alguns produtos será menor do que o esperado.

A conjuntura econômica de 2013 está mesmo confusa, e o episódio da declaração desta semana do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em Varsóvia, mostrou isso. Bastou uma frase não dita por ele - a de que a inflação vai cair no segundo semestre - para disparar anteontem as previsões de alta das taxas de juros.

José Roberto está prevendo crescimento do PIB em torno de 3%, mas nada acima disso:

- Vai ser melhor do que no ano passado, mas nada além disso. O consumo não consegue mais ser o puxador da economia e isso porque a inflação está comendo o orçamento das famílias, o mercado de trabalho está desaquecendo ligeiramente, tudo depende de investimento. O problema é que o investimento público não foi suficiente para alavancar o setor privado, o ambiente entre os empresários não está bom, as mudanças regulatórias assustaram, e as alterações na política cambial criaram incertezas.

Segundo o economista, empresas que compraram o dólar quando ele bateu em R$ 2,10, para se proteger dos sinais de que o governo queria mais depreciação, viram a moeda cair para R$ 1,97 em poucas semanas e estão tendo prejuízo.

- Nós não somos a Argentina, o Brasil tem US$ 400 bilhões de reserva. A gente está se afogando em 20 centímetros de água, aceitando essa volatilidade do câmbio - disse ele.

Tanto em relação ao crescimento quanto no combate à inflação, o economista acha que há necessidade de atuação mais eficiente e não de pacotes sequenciais:

-A frustração do crescimento do último trimestre teve um impacto no governo maior do que se imaginava. Gerou perplexidade porque eles achavam que a redução dos juros e as medidas de estímulo fariam o país crescer. E a perplexidade não é boa companheira.

Oportunidade histórica para o biodiesel - CARLO LOVATELLI

O ESTADO DE S. PAULO - 14/03

O Brasil tem uma chance histórica de mudar para melhor a sua matriz de combustíveis. Todas as condições estão dadas para o governo ampliar, imediatamente, de 5% para 7% a mistura de biodiesel ao diesel mineral e estabelecer um porcentual bem mais elevado para 2020. Desde 2010, o índice de 5% de mistura obrigatória de biodiesel ao diesel consumido no mercado doméstico não evolui, apesar de a oferta de matérias- primas ser muito superior à demanda.

Em 2013, pela primeira vez, o Brasil será o maior produtor mundial de soja em grão, deslocando os EUA dessa posição. O País deverá produzir mais de 82 milhões de toneladas de soja, dos quais 38 milhões serão processados em fábricas esmagadoras. Com isso, haverá disponibilidade recorde de 74 milhões de toneladas de óleo de soja, suficiente para garantir o aumento da participação de biodiesel na matriz de transportes brasileira, sem prejuízo do consumo alimentar, industrial ou das exportações.

Atualmente, cerca de 76% do biodiesel produzido no Brasil tem a soja como matéria-prima, seguida de 17% de sebo bovino e 4% de óleo de algodão. Há, ainda, melhor aproveitamento de resíduos, como nos casos do óleo de fritura usado e do sebo bovino. Como se sabe, o biodiesel polui substantivamente menos do que o diesel mineral, e o impacto inflacionário de um aumento do porcentual na mistura seria mínimo. Quando consumido no Brasil, o biodiesel de soja é responsável por reduções superiores a 70%, em comparação com o diesel mineral europeu, segundo estudo da Delta CO2, empresa ligada à Esalq-USP.

Do ponto de vista da inflação, estudos mostram que o aumento do uso de biodiesel geraria alterações imperceptíveis nos índices de preços IPCA, IGP-M e IPA. A adoção imediata do B7 (7% de biodiesel misturado ao diesel mineral) provocaria um aumento próximo a R$ 0,01 nos preços das passagens de ônibus urbanos. A mesma evolução no porcentual de mistura (B7) elevaria o custo da cesta básica nacional em algo como R$ 0,20/unidade.

Em termos de dependência energética, constata-se que, ao menos no curto e no médio prazos, a maior inserção do biodiesel reduziria a necessidade de importação de diesel mineral. Hoje essas importações representam cerca de 20% do consumo interno de diesel. Outra vantagem é a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento da agricultura familiar,que forneceu para a produção de biodiesel quase 2 milhões de toneladas em matérias-primas em 2011.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, mais de 100 mil famílias brasileiras que produzem biodiesel estão vinculadas à agricultura familiar. Em 2011, cada família recebeu, em média, R$ 14.500 no âmbito do PNPB, além de assistência técnica especializada. O setor gerou cerca de 86 mil empregos naquele ano.

Grandes instalações, com capacidade de produção de mais de 700 mil m³ devem iniciar operações de produção de biodiesel nos Estados de MT, PR, SC e RS ainda em 2013. A capacidade industrial nacional de produção gira em torno de 7,40 milhões de m³ / ano. Em 2012 o País produziu 2,71 milhões de m³ e, em 2011, 2,67 milhões de m³. Temos, pois, condições de assegurar o abastecimento, se a mistura passar a ser o B7, apenas utilizando a capacidade não utilizada.

O setor de biodiesel reúne 61 empresas autorizadas a comercializar biodiesel, das quais 70% operam ativamente nos leilões bimestrais promovidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em termos agregados, o setor movimentou, só nas vendas dos leilões ANP, cerca de R$ 6 bilhões, em 2011 e em 2012. Esse é o mercado predominante no País. Mas há ainda vendas a frotas cativas, por exemplo, em projetos de ônibus urbanos movidos a B20, em São Paulo e Curitiba.

O Brasil é o quarto maior produtor mundial do biocombustível, atrás de EUA, Argentina e Alemanha, e tem plenas condições de assumir a liderança mundial nesse mercado, seguindo sua tradição de incentivo às energias renováveis. A sociedade brasileira ganha com o incentivo ao uso de mais biodiesel na mistura com o diesel mineral.

A múmia, a crítica e a revolução - DEMÉTRIO MAGNOLI

O ESTADO DE S. PAULO - 14/03
Segundo assessores, Lula e Dilma Rousseff interpretaram a decisão de embalsamar o cadáver de Hugo Chávez como, essencialmente, uma estratégia eleitoral. Eles olham para outro lado, evitando confrontar a incômoda realidade que, cedo ou tarde, assombrará o Brasil. A múmia em Caracas é o indício inconfundível de uma regressão histórica da esquerda latino-americana e, além disso, um sinal agourento de que os sucessores do caudilho não pouparão a Venezuela do trauma da implantação de uma "ditadura bolivariana".

A mumificação deliberada expressa uma exaltação do desejo de permanência. No antigo Egito, o corpo do morto devia ser embalsamado para que ele vivesse eternamente, a fim de conhecer Osíris, a divindade da vida após a morte. Na política laica contemporânea, a prática tem um sentido radicalmente diferente, pois não se destina a promover um interesse do morto, mas a exercer influência sobre os vivos. O morto deve ser eternizado a fim de aprisionar o presente na jaula do passado, impedindo que a vida siga adiante.

"O corpo do presidente Chávez será embalsamado como Lenin e Mao", anunciou Nicolás Maduro, o sucessor designado. Nada indica que Vladimir Lenin desejasse ser convertido em múmia e Mao Tsé-tung deixou assinada uma ordem para sua cremação. Os dois líderes revolucionários consagraram-se ao empreendimento intelectual de embalsamar o pensamento de Karl Marx, mas, justamente por isso, rejeitavam a idéia de que, um dia, eles mesmos viessem a ser circundados pelo halo do sagrado. Ao contrariar a vontade derradeira dos líderes mortos, enquanto juravam fidelidade imorredoura a seus ensinamentos, os sucessores inseguros almejavam congelar a vida política, perenizando- se no poder.

Crítica da economia política é o subtítulo de O capital. A palavra "crítica" permeia os textos de Marx. O suposto inspirador dos líderes mumificados no Kremlin e na Praça da Paz Celestial inscreve-se na linhagem do pensamento iluminista: a "crítica", em Marx, é um movimento racional de recepção, interpretação e superação da tradição intelectual. O estabelecimento de uma "Verdade marxista" e sua calcificação como doutrina oficial representam a negação do núcleo do pensamento "marxista". O mausoléu de Lenin, uma construção em granito reminiscente da tumba do imperador Ciro II, e o de Mao, com sua fachada em colunas neoclássicas, são símbolos apropriados de regimes bárbaros, apoiados sobre a bengala da violência política sem freios e devotados à supressão extensiva da crítica.

Marx não foi, contudo, exclusivamente um pensador. Existe um outro Marx, o doutrinário comunista, cujas idéias podem funcionar como fonte de legitimação da barbárie totalitária. "Os filósofos se limitaram até hoje a interpretar o mundo; cabe transformá-lo" - a última das Teses sobre Feuerbach proclama, no fim das contas, que a revolução social é o critério definitivo a respeito da verdade. Atrase célebre foi eternizada na parede de mármore do saguão da Universidade Humboldt, em Berlim, pelos dirigentes da antiga Alemanha Oriental. Eles estavam dizendo que o poder estatal comunista era a culminância da filosofia, a estação final do pensamento humano. A reverência absoluta diante da verdade oficial: eis a exigência simbolizada na mumificação de Lenin, Mao e, agora, Chávez.

Nas democracias, por definição, os estadistas são pessoas comuns, sujeitas ao acerto e ao erro, cuja legitimidade deriva de uma vontade popular circunstancial. Na Venezuela, o culto a Chávez atinge um paroxismo, expresso no novo qualificativo que começou a circular durante o velório: no lugar do "Comandante", surge o "Líder Supremo da Revolução Bolivariana". A Venezuela já não é uma democracia, mas ainda não se fechou atrás da muralha de uma ditadura. A iniciativa de embalsamar o líder morto constitui um passo simbólico de largas proporções no rumo ditatorial. Por meio dela se materializa na forma de uma múmia a declaração recorrente dos chefes chavistas, que identificam a nação à sua própria corrente política. Chávez não é Chávez, mas Simón Bolívar, ou seja, a nação inteira: isso é o que, de fato, dizem os herdeiros mumificadores.

Em Cuba, o culto a Fidel Castro realiza-se indiretamente, pelos cultos oficiais paralelos a José Marti e Che Guevara. "Ser como o Che", ensina-se aos cubanos desde os bancos escolares, significa curvar-se à verdade do Partido. Na Venezuela, como sinal eloqüente de que não há uma novidade genuína no "socialismo do século 21", a exigência de "ser como Chávez" já faz parte da linguagem política utilizada pelos herdeiros do caudilho. Esse tipo de linguagem, porém, não pode prosperar no ambiente da democracia, que é o da crítica e da dissensão: a múmia de Chávez e as liberdades públicas são termos alternativos na equação do futuro venezuelano.

A esquerda européia aprendeu o valor da liberdade numa longa trajetória pontuada pela Revolução Russa, pelo stalinismo, pelas invasões soviéticas da Hungria e da Checoslováquia e pelas revoluções democráticas de 1989. A esquerda latino-americana não viveu tais experiências definidoras, apenas ouviu seus ecos distantes. De certo modo, a Revolução Cubana e o mito de Che Guevara forneceram-lhe uma casamata ideológica, isolando-a da crise histórica e moral que lançou uma luz esclarecedora sobre as múmias de Lenin e Mao. Tomada no interior dessa casamata, a decisão de embalsamar o corpo de Chávez entrelaça a sorte da esquerda autoritária na América Latina à de um regime bolivariano em declínio, que só pode oferecer a sombria perspectiva de uma ditadura terceiro-mundista.

Antes de significar um salto ousado rumo ao futuro, revolução designava apenas o movimento cíclico de eterno retorno dos astros. A mumificação dos "líderes supremos" restaura o significado original da palavra, anulando as suas associações com a crítica, a ruptura e a renovação.

Eixo em deslocamento - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 14/03
Está lançada a semente da distribuição das contribuições exclusivas da União e o Congresso como promotor dessa mudança ao lado dos governadores. Se germinar, Dilma terá problemas em segurar os recursos no caixa central
A reunião dos governadores ontem em pleno salão negro do Congresso Nacional deixou na classe política um quê de mudança na forma tradicional de negociação dos projetos entre os Poderes da República. Embora ainda seja necessário avaliar os próximos passos para poder se ter uma ideia mais precisa do movimento, há quem diga que os experientes presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Henrique Eduardo Alves, ambos do PMDB, pode representar um novo ciclo em que a presidente Dilma Rousseff deixa de ser a atriz principal.

O primeiro indício dessa mudança foi a postura do governo em relação à votação dos royalties do petróleo no Congresso Nacional. O governo praticamente lavou as mãos e não defendeu o seu veto, a ponto de deixar o governador do Rio, Sérgio Cabral, uma arara com a presidente Dilma. Agora, são os governadores, liderados pelo pernambucano Eduardo Campos, do PSB, que tratam de buscar um acordo, numa série de reuniões em Brasília da qual, até ontem no início da tarde, a presidente Dilma e sua equipe ainda não tinham participado.

Foi nesse contexto que ontem se deu o encontro no Congresso. Ali, começou a circular, por exemplo, o que comentamos aqui na segunda-feira. A centelha da distribuição das contribuições que hoje são exclusivas da União. O deputado João Leão, do PP da Bahia, por exemplo, tem uma emenda constitucional que destina 30% das contribuições de PIS/Cofins para estados e municípios.

No encontro em pleno Salão Negro do Congresso Nacional os governadores praticamente trataram dessa distribuição das contribuições como a bola da vez. Como bem lembrava depois o deputado Danilo Forte (PMDB-CE), repetindo o raciocínio do governador cearense, Cid Gomes, essas contribuições até 1989 representavam 23% das receitas da União. Imposto de renda e IPI (que são divididos com os estados) eram 77% do total. Hoje, essa relação mudou. IR e IPI representam 45% das receitas totais, enquanto as contribuições exclusivas para o caixa da União subiram para 35% do total das receitas. Ou seja, enquanto o que é só da União cresce, o que é dividido com os estados e municípios diminui.

Sendo assim, ou o governo federal participa das negociações dizendo até onde está disposto a ceder, ou correrá o risco de ver os governadores decidirem tudo sozinhos no Congresso Nacional. Afinal, vale lembrar, uma emenda constitucional não precisa ser sancionada pelo presidente da República. É promulgada pelo Congresso Nacional. Obviamente, os congressistas não farão isso assim, de sopetão. Mas há muito tempo não se via um movimento nesse sentido. E, se essa onda de governadores não for uma marolinha, Dilma terá que sentar e negociar com os partidos os percentuais que a administração central cederá.

Enquanto isso, no Planalto.
Dilma passa os últimos dias dedicada à reforma ministerial, uma operação que, a cada movimento, provoca uma reação em sentido contrário. Ontem, por exemplo, um grupo de peemedebistas foi até o Planalto pedir a permanência do ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, que deve sair para se dedicar à recuperação do tumor no cérebro. A reação, entretanto, foi vista como um gesto para tentar forçar a presidente a buscar mais um ministério para o PMDB. O problema é que não há muitas vagas disponíveis e há outros partidos para entrar na Esplanada, caso do PSD de Gilberto Kassab, com quem Dilma conversaria ainda ontem à noite, no mais tardar hoje. Tem ainda o PTB que não está incluído no desenho atual para não soar como mais um complicador.

E na sala de café.
Os parlamentares se concentraram em frente à tevê para assistir ao anúncio do novo Papa, Francisco. De repente, Esperidião Amin (PP-SC) sai com esta: "Só não foi brasileiro porque, senão, iam dizer que foi o Lula quem fez". Brincadeiras à parte, vida longa ao papado de Francisco e que Deus ilumine seu caminho.

Os passos de cada um - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 14/03
"Para de me dar corda"," comentou sorridente o governador de Pernambuco Eduardo Campos para o senador Aécio Neves, que cochichava alguma coisa no seu ouvido. Os dois são potenciais candidatos à Presidência da República em 2014, e cada um está tratando de pavimentar seu caminho com negociações mais ou menos explícitas. Aécio Neves, com menos exposição, a ponto de provocar em seus próprios companheiros de PSDB comentários de que estaria muito retraído, mineiro demais para o gosto de alguns.

Eduardo Campos, cada vez mais exposto e desenvolto, a ponto de provocar no meio político a especulação de que já teria comunicado à presidente Dilma que concorrerá contra ela. Favorita para se reeleger, Dilma também faz seus movimentos cada vez mais em função da campanha eleitoral que o próprio governo antecipou.

Na nova reforma ministerial, cercou ao mesmo tempo Aécio e Campos. Incluiu no governo nada menos que dois mineiros, um do PSD e outro do PMDB, além de dar dois ministérios ao partido do ex-prefeito Gilberto Kassab. O tratamento privilegiado ao PSD tem razão de ser: a relação do ex-prefeito paulista com o governador de Pernambuco é muito estreita, a ponto de o PSB ter ajudado diretamente a formação do PSD, que poderia até mesmo ter sido incorporado pelos socialistas se Kassab não conseguisse organizar o novo partido a tempo.

A possibilidade de o PSD vir a fazer parte de uma coalizão de apoio a Eduardo Campos na campanha presidencial é concreta, e Dilma está tratando de manter sob suas asas os partidos aliados, que começam a ser assediados pelos candidatos opositores. A expectativa de poder trazida pelo favoritismo de Dilma ainda evita decisões de partidos que gostariam de se livrar do PT. Mas tanto Aécio quanto Campos já trabalham nos bastidores para mostrar que eles têm como chegar à disputa como prováveis pólos de poder futuro.

O PSDB, por exemplo, já está montando uma estratégia partidária abrangente. Nos estados em que não tiver candidatos naturais ao governo, optará primeiro por apoiar os candidatos dos partidos de oposição, DEM e PPS, isto se o PPS não estiver com Campos. Em seguida, se aliará aos partidos que estiverem fazendo oposição regional ao PT.

Não é à toa Campos brincou com Aécio sobre "dar corda"! Mesmo que nos planos iniciais constasse aliança com o PSB, a realidade política está mostrando aos tucanos que provavelmente o PSB entrará na disputa para dividir votos oposicionistas, mas, sobretudo, tirar votos da aliança governista.

É o mesmo caso da ex- senadora Marina Silva, que no l p turno da eleição de 2010 teve cerca de 20% dos votos, em grande parte saída da base eleitoral governista. Sem acordos partidários no segundo turno, a maioria desses votos retomou para a candidata oficial Dilma Rousseff. Durante a campanha, Marina não foi capaz de fazer oposição frontal a Dilma e sua visão de meio ambiente, razão de sua saída do governo.

Há uma impressão no meio político de que um acordo, mesmo que informal, será mais provável entre os três principais adversários de Dilma em 2014 do que foi em 2010. O senador Aécio Neves, que assumirá a presidência do PSDB em maio e viajará pelo

Aécio é menos conhecido nacionalmente que Serra, e por isso tem menor rejeição, o que facilitaria os acordos no segundo turno. Pretende fazer uma campanha ressaltando o lado transformador e progressista do PSDB, para não correr o risco de rejeição forte. Antes disso, porém, precisa organizar seu grupo internamente, quer dizer, precisa trazer Serra para sua campanha.

Nos próximos dias, veremos Aécio Neves fazer gestos de aproximação para tentar pacificar a área paulista, fundamental para uma campanha minimamente competitiva. O governador Geraldo Alckmin e o ex- presidente Fernando Henrique Cardoso estão empenhados em ajudar Aécio a levar Serra para o comando da campanha presidencial, apesar dos boatos de que ele estaria se preparando para ir para o PPS para apoiar a candidatura de Eduardo Campos a presidente. 

Na aba do tribunal - DORA KRAMER

 O Estado de S.Paulo - 14/02

Os partidos representados no Congresso e os políticos que vivem reclamando de interferência por parte do Supremo Tribunal Federal em seus assuntos precisam escolher: ou param de recorrer à Corte por qualquer motivo ou param de falar em judicialização da política.

O STF faz o que lhe cabe: provocado, interpreta a Constituição e determina o cumpra-se. O mundo político é que banaliza esse recurso. A ponto de agora o PT e o PSOL pedirem aos ministros que anulem a sessão que elegeu presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara o deputado e autoproclamado pastor e, ao que se sabe por sua atuação na igreja fundada por ele, bem-sucedido vendedor de indulgências.

A julgar por declarações anteriores, Marco Feliciano exibe pendores ao racismo e à homofobia. Evidente que faltou bom senso ao partido dele, o PSC, na escolha do nome, assim como falta sensibilidade na decisão de fazer de sua permanência quase que uma questão de honra (?).

Mas, daí a considerar que seja um assunto a ser resolvido pela instância maior de Justiça, vai uma distância enorme. O tribunal terá apenas o trabalho de dizer que não tem nada com isso, o problema é interno do Congresso.

Uma questão de regimento e de acordo entre os partidos, que dividem por proporcionalidade ou interesse específico a divisão das comissões e conferem a cada partido autonomia na indicação dos nomes.

Se o PSC escolheu errado, ninguém mandou os outros partidos estarem desatentos à possibilidade de a comissão ser comandada por um deputado de posições tão marcadas.

Há o barulho da demanda de fora que em Congresso reverente à opinião do público deveria ser ouvido. Não é o caso. Se fosse, o PT não teria legitimidade para engrossar os protestos como alguns de seus deputados vêm fazendo, pois indicou para a Comissão de Constituição e Justiça dois deputados condenados por corrupção: João Paulo Cunha e José Genoino.

Antes tarde. Em princípio, porque nada assegura a continuidade, o Congresso deu ontem um exemplo de que quando quer cumpre seu papel, ao tomar a iniciativa de promover uma reunião pública com os governadores para ouvi-los sobre o pacto federativo no tocante ao maior equilíbrio na distribuição de recursos recorrentes da arrecadação de impostos.

A discussão pode parecer maçante e inacessível à maioria mais preocupada com as benesses oferecidas pela União nos programas de transferência de renda que com o destino do dinheiro do conjunto dos brasileiros tributados das mais variadas formas.

Mas, quanto mais encontros abertos dessa natureza houver, maior a familiaridade da população com o assunto, cuja compreensão é um fator primordial de engajamento, de apuro do discernimento e, por consequência, do aprimoramento na capacidade de escolha dos governantes.

Ponto de vista. A escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, agora denominado Francisco, contrariou todas as especulações.

Perderam até os mais respeitados vaticanistas: o conclave decidiu com rapidez, quando se previam embates longos; o escolhido não fazia parte da lista dos mais cotados; é latino-americano, quando se dizia que o continente estava fora das possibilidades e é jesuíta, uma ordem sem chance na ordem das probabilidades.

Mostra de que os critérios da igreja católica a ela pertencem tendo pouco ou nada a ver com a visão laica predominante no mundo, até entre os católicos.

Agora, por aqui, na esfera mundana, é aguentar as piadas sobre a eleição de um argentino quando havia dois brasileiros em alta na bolsa de apostas perdidas.

Jogo antecipado - PAULA CESARINO COSTA

FOLHA DE SP - 14/03

RIO DE JANEIRO - Não há registro de campanha eleitoral ao governo do Estado do Rio que tenha começado, de modo efetivo, com tanta antecipação. A um ano e meio do pleito, PMDB e PT usaram parte das inserções no rádio e na TV, a que têm direito por lei, para tornar conhecidos candidatos em potencial.

"Tá chegando o melhor momento do Rio", anunciou na TV o senador petista, Lindbergh Farias, 43, antes dos outros e na véspera de dar início à caravana pelo interior do Rio.

"Quem é Pezão?" pergunta o PMDB, para em seguida apresentar o vice-governador Luiz Fernando Pezão, 57, estratégia parcialmente atrapalhada pela determinação do TSE para que retirasse as peças do ar.

Pesquisa do Vox Populi, paga pelo PT, mostrou Lindbergh com 28% das intenções de voto, seguido por Garotinho (PR), com 21%, e Pezão, 10%. O PSDB (com o nome do economista Sérgio Besserman) teve 1%. Noutro cenário, com Marcelo Crivella (PRB) e Cesar Maia (DEM), PT e PR seguem à frente, mas Crivella fica com 12%, e Pezão e Maia com 9%.

O PT poderá pressionar o PMDB a usar a mesma lógica da eleição do ano passado e reivindicar, numa eventual aliança, a cabeça de chapa para quem tiver maior intenção de voto. Cabral e o PMDB não dão sinal de que aceitarão fácil esse argumento porque ainda apostam no poder da TV para levantar Pezão.

Lindbergh inventou a "pré-pré-campanha eleitoral", brinca Marcos Coimbra, dono do instituto, ao justificar o índice do petista. Ele foi figura superpresente na campanha municipal de 2012, na TV e nas ruas.

Difícil prever o resultado das estratégias. Mas é bom os partidos tomarem cuidado com os próximos lances. Em iniciativa inédita, o TRE-RJ instalou uma comissão permanente de fiscalização que pretende punir propaganda antecipada. Precisará de pulso firme pelo que se viu até aqui. E o jogo nem começou.

Nada além dos fatos - JOSÉ SERRA

O ESTADO DE S. PAULO - 14/03

Ao retomar esta coluna, volto a um tema recorrente em meus artigos anteriores: a desindustrialização brasileira. Ela se reflete no encolhimento da participação da indústria de transformação na economia, tendência que remonta à época da superinflação dos anos 1980, mas sofreu um puxão para baixo no decênio 2002-2012, quando o PIB cresceu mais que o dobro da indústria: 42% ante 20,5%, respectivamente. Isso fez a fatia do setor no PIB (preços correntes) voltar ao nível de 1947-48, chegando a 13,3%. Pior foi o último quadriênio, pois em 2012 a produção de manufaturas foi inferior à de 2008.

Em todo caso, desindustrialização não exige, necessariamente, queda absoluta do setor, mas, sim, perda do seu poder como eixo dinâmico da economia. Ameaça-se a maior conquista econômica brasileira no século 20.

Atenção: o caso do Brasil não pode ser equiparado ao de países desenvolvidos, onde a indústria perdeu peso em razão da elevada renda média por habitante, que chega a ser quatro vezes superior à nossa. Neles, a partir de determinadas etapas do crescimento da renda, a expansão da demanda por serviços se acelerou em relação à de alimentos e manufaturas. Essa perda de peso, naquele caso, pode ser considerada natural e até benigna. No nosso, uma doença.

Nada contra abrilhante expansão da produção e da exportação de bens agrominerais. Mas alguém acredita, e demonstra, que, além do papel estratégico na geração de divisas, esse setor poderia tornar-se o eixo dinâmico de um país continental, de 200 milhões de habitantes? Não me parece, igualmente, que esse eixo possa ser formado pelos setores financeiro, de biotecnologia, de tecnologia digital, etc, atividades de maior eficiência na área de serviços e essenciais para o progresso econômico, mas que geram poucos empregos.

A indústria é o macrossetor que gera, na média, os melhores empregos, paga os melhores salários e cuja produtividade é a mais alta. E o que mais inova e tem os maiores efeitos de encadeamento para trás (insumos correntes e de capital), para a frente (comércio), de demanda final (massa salarial) e fiscal (mais arrecada). É o macrossetor que lidera o processo em todas as economias que cresceram mais rapidamente nas últimas décadas.

O retrocesso industrial comprometeu a qualidade dos empregos gerados. De 2003 a 2012, entre os trabalhadores com carteira assinada e que ganham acima de dois salários mínimos, o número de pessoas demitidas superou amplamente o de contratadas. Entre 2009 e 2012, esse saldo negativo ultrapassou 1,3 milhão de pessoas. O crescimento do emprego concentrou-se nas faixas abaixo de dois mínimos, liderado pelo setor de serviços.

Desde logo, não há no Brasil nenhuma desaceleração do consumo de bens industriais. Entre janeiro de 2004 e meados de 2012, o volume de vendas no varejo mais do que duplicou, num ritmo cinco vezes maior que o do produto manufatureiro! A brecha foi aberta e coberta pelas importações: o superará comercial da indústria, US$ 30 bilhões em 2005, virou déficit de US$ 50 bilhões em 2012. Dá para compreender por que o Brasil, apesar da bendição dos preços recordes das commodities, caminha para reavivar o desequilíbrio externo: o déficit em conta corrente acumulado no último qüinqüênio foi de US$ 206 bilhões.

No centro da débâcle está a perda de competitividade da indústria em razão de fatores que estão fora das fábricas: o aumento do custo Brasil e a sobre valorização da moeda, que reduzem o preço relativo das importações e encarecem as exportações. Criou-se um círculo vicioso, pois o setor foi sofrendo quebras de cadeias produtivas, atrofias e perdas de mercados externos. Novos investimentos foram intimidados pela competição dos importados, efetiva ou potencial. Empresários industriais tornaram-se importadores qualificados e não poucos investem no exterior, à procura de custos menores e acesso a mercados.

O elevado custo Brasil começa na burocracia para pagar impostos, que consome o equivalente a 2,6% dos preços industriais! Com a carga tributária, o conjunto vai a 15,5%, em relação aos nossos parceiros comerciais. Se incluirmos os custos financeiros, de energia, matérias- primas e transportes, o ônus sobre os produtos manufaturados, na comparação com esses parceiros, é de 25%, segundo competente estudo da Fiesp. É o custo Brasil. Em cima disso, a sobrevalorização cambial teve um papel especialmente perverso: em relação a 2002, ficou em torno dos 40%, puxada por juros reais extravagantes, que só recuaram em 2012.

Dada a herança maldita de Lula, o governo tem procurado uma resposta. Infelizmente, navega entre equívocos, ilusões e inépcia. No acerto, a redução dos juros. Nos equívocos, há os caudalosos subsídios fiscais via BNDES sem critérios coerentes de competitividade, tecnologia, complementaridade e atração de investimentos estrangeiros estratégicos. Na inépcia, há a incapacidade para planejar e executar os investimentos públicos e a demora nas parcerias fundamentais com o setor privado. Na ilusão, a ideia de que ações protecionistas aqui e ali vão dar conta das questões essenciais.

Nada exemplifica melhor a falta de uma estratégia industrial do que a ausência de qualquer política de comércio exterior digna do nome. Ficamos apegados ao que causa mais estorvo, o Mercosul, com sua absurda união alfandegária, que nos obriga a atuar em bloco nos acordos comerciais. Devido a isso e à pasmaceira, há mais de dez anos não assinamos nenhum tratado bilateral de comércio, com exceção de um com Israel. Ali, sim, há dois mais, que não entraram em vigência: com o Egito e com a Palestina.

Em economia, democracias afora, os governantes costumam se mostrar otimistas, apesar dos erros, e as oposições, pessimistas, apesar dos acertos. No governo ou na oposição, sempre procurei ser realista, apesar de acertos e erros. A desindustrialização do País, com suas conseqüências nefastas no médio e no longo prazos, é matéria de fato, não de gosto. Basta que chamemos a coisa pelo nome que ela tem.

Não bastasse o Maradona... - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 14/03

BRASÍLIA - A eleição do papa, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, foi uma enorme surpresa mundial e é repleta de significados e de mensagens da Igreja Católica sobre o que quer agora e no futuro.

O novo papa é o primeiro tudo: primeiro latino-americano, primeiro jesuíta, primeiro a assumir o nome de Francisco e sua grande simbologia.

A igreja sinaliza uma abertura para além da Europa e das congregações de sempre. E o próprio papa sinaliza que será fiel à sua identidade e à humildade de são Francisco de Assis. Um dado relevante é sua atuação mais pastoral do que professoral.

Ou seja, a igreja deu uma guinada para um continente ainda fortemente católico e fez a opção por um papa próximo dos fiéis, das pessoas, apesar de seus 76 anos.

Pelas informações que passaram a circular celeremente ontem, a partir da grande surpresa, quase perplexidade, o cardeal Bergoglio, agora papa Francisco, é um homem de hábitos triviais. Anda de metrô, cozinha suas próprias refeições, tem carisma de sobra e pompa de menos. Culto, prefere gestos simples a ostentar erudição. E sabe se comunicar.

A pergunta que não quer calar é: por que um papa argentino, não o brasileiro Odilo Scherer, que não apenas frequentou as listas de "papáveis" como cresceu bastante na reta final? Porque é tido como "conservador"? Dom Odilo, mais de dez anos mais novo, fala seis línguas, conhece o Vaticano e, sobretudo, representa o maior país católico do mundo.

Essa é daquelas perguntas que não têm "a" resposta, mas inspirará "n" respostas, análises, interpretações, considerações de entendidos e de nem tanto. Em especial no Brasil.

A olho nu, o que fica evidente é que o Vaticano e os eleitores do conclave ouviram a voz do povo: o papa Francisco tem, inegavelmente, toda uma aura de renovação. Seja lá o que renovação signifique para a Igreja Católica e para os católicos. De dogmas, certamente não é, nunca será.

PS - E a Copa de 2014 vem aí!

Um orçamento superado - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 14/03
O governo federal tem finalmente um orçamento para 2013, aprovado com quase três meses de atraso e quase certamente já superado. A receita foi estimada com base em uma expectativa de crescimento econômico de 4,5%, já abandonada em Brasília. As projeções extraoficiais oscilam agora na faixa de 3% a 3,5%, nos Ministérios econômicos em linha com as previsões do mercado financeiro.
Caberá ao Ministério do Planejamento uma revisão geral dos números aprovados no Congresso. Uma das primeiras providências, como em anos anteriores, será o congelamento, pelo menos temporário, de boa parte das despesas, enquanto se esperam mais informações sobre o andamento da economia. O contingenciamento de gastos é medida de prudência, recomendada mesmo quando as perspectivas são mais animadoras. Neste ano, as razões para uma gestão cautelosa das contas pú- blicas são especialmente ponderá- veis. O maior desafio será conciliar essas razões com os objetivos de uma presidente envolvida numa campanha eleitoral lançada por seu antecessor e mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nesta altura, o ajuste deve começar pela meta fiscal. O governo deverá usar todo espaço disponível para acomodar as bondades tributá- rias prometidas pelo Executivo, incluída, naturalmente a desoneração da cesta básica recém-anunciada pela presidente Dilma Rousseff. Entre outros itens, será preciso acomodar também os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mesmo sem resultados muito melhores que os de anos anteriores, haverá desembolsos de restos a pagar e de financiamentos habitacionais.

A arrumação das finanças federais só ficará clara nos próximos meses, mas alguns truques possíveis são conhecidos. Falta ver se o governo pretende repeti-los ou se recorrerá a outros arranjos. No ano passado, as estatais aumentaram a transferência de dividendos ao Tesouro e no fim do exercício a contabilidade criativa foi elevada a níveis surpreendentes para permitir o fechamento das contas.

Criatividade à parte, parece inevitável mais um ano de política fiscal expansionista, alimentada pelo aumento do salário mínimo, pela concessão de reajustes a diversas categorias do funcionalismo, pela expansão dos desembolsos e pelas desonerações tributárias. Mais uma vez, portanto, a política orçamentária desmentirá as promessas de austeridade levadas em conta pelo Banco Central (BC) quando foi iniciada, em agosto de 2011, a redução dos juros básicos.

Depois de um ano de aposta frustrada na prudência fiscal, os dirigentes do BC foram forçados a reconhecer, oficialmente, a persistência da gastança como padrão dominante nas finanças federais. Esse padrão certamente será mantido neste ano, para o cumprimento de todas as bondades prometidas pela presidente Dilma Rousseff.

Incapaz de iniciar uma discussão séria sobre a política fiscal, a oposição ameaça, agora, apresentar ao Judiciário uma ação de inconstitucionalidade para anular a votação do Orçamento. Teria sido necessário, segundo os oposicionistas, votar antes os mais de 3 mil vetos presidenciais encalhados no Congresso. Será mais uma tolice de uma oposição inepta. Como anular 12 anos de ações legislativas com todas as suas consequências? Se essa oposição fosse eficiente, teria contestado, no fim do ano, a medida provisória (MP) editada pela presidente Dilma Rousseff para garantir, nos primeiros meses de 2013, dinheiro para os investimentos federais. Só com enorme esforço de imaginação seria possível enquadrar essa MP nos critérios constitucionais.

No entanto, os oposicionistas deixaram passar a oportunidade e agora tentam, do modo mais desajeitado, criar problemas para o governo, sem levar em conta o alcance de sua contestação. Além do mais, falta a essa oposição autoridade moral para reclamar, com 12 anos de atraso, a prioridade para o exame dos vetos presidenciais. Afinal, essa oposição participou, durante esses anos, de todas as votações no Congresso. Nenhum oposicionista sabia, até agora, da exigência constitucional?

Acordo político é a melhor solução para os royalties - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 14/03

Depois de tanta insensatez, ressurgiu a primeira fresta de racionalidade na disputa pelos royalties do petróleo e gás. O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, reconheceu que o embate desequilibra as finanças dos estados e municípios produtores, e, diante da batalha judicial que se desenha, os não produtores provavelmente não terão benefícios no curto prazo. Santa Catarina, por sinal, se tornou também um estado produtor de petróleo no mar e já tem condições de avaliar qual seria o impacto da decisão do Congresso, se mantida como tal. Outro governador, Eduardo Campos, de Pernambuco, que havia sido um dos líderes políticos dessa campanha massacrante contra os estados produtores, também mudou o discurso e, em tom conciliador, agora propõe levar ao Palácio do Planalto uma solução que leve em conta regras dos contratos em vigor.

A solução negociada politicamente é a melhor saída para esse confronto que transformou a população dos estados e municípios produtores de petróleo no mar em brasileiros de segunda classe. A receita de royalties certamente se tornará mais substantiva no futuro e sobre a nova repartição dessa receita não havia mais resistência por parte dos produtores. O motivo principal da disputa não está no futuro, mas sim no passado. O Congresso aprovou a repartição dos recursos provenientes dos contratos já em andamento, subtraindo dos produtores parcela expressiva da receita estimada mesmo para o atual exercício, o que é inadmissível moralmente, do ponto de vista da ética na política, e irresponsável pelo ângulo fiscal.

No fundo dessa questão, está a necessidade dos entes federativos reforçarem o quanto antes sua arrecadação. O elo mais fraco acabou atacado, pois contra a frente avassaladora formada no Congresso, Rio de Janeiro e Espírito Santo não tiveram a menor possibilidade de defesa, mesmo ajudados por São Paulo, no último momento.

Se for possível encontrar uma solução negociada que evite a batalha no Supremo Tribunal Federal, tanto melhor. Questões federativas devem ser resolvidas por acordo no âmbito político, e não nos tribunais. Os interesses dos entes federativas nem sempre são coincidentes, mas o que se espera dentro de uma federação é que haja um espírito de entendimento capaz de buscar a conciliação, em vez do confronto.

À União cabe um papel chave na superação dos embates, evitando que cheguem ao estágio final desse confronto. Os royalties foram um caminho equivocado para que os entes federativos manifestassem o descontamento em relação à repartição das receitas públicas. Assim, sem participação do governo federal, que falhou na tentativas anteriores, ficará mais difícil se chegar a um acordo para superação do atual impasse em torno dos royalties. Que o calendário eleitoral, antecipado pelo próprio Planalto, não prejudique a possibilidade de solução, necessária para assegurar tranquilidade aos investimentos que a indústria do petróleo se dispõe a promover em todo o Brasil.

Incógnita norte-coreana - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 14/03

A Guerra Fria terminou em 1991, mas a Coreia do Norte parece não se ter dado conta do fato. O país conserva um anacrônico regime comunista, insiste em se manter como um dos mais fechados do mundo e, com frequência inquietante, procura reeditar a tensão militar típica do século passado.

Pyongyang, é claro, não tem o poderio de Washington ou Moscou. Mas seu arsenal conhecido -e sobretudo as dúvidas sobre armas nucleares- é capaz de deixar as potências em estado de alerta, sem que saibam, como acontece agora, se a Coreia do Norte pretende passar das ameaças aos ataques.

Kim Jong-il, ditador morto em 2011, aproveitou o clima de insegurança. Provocações bélicas, fortalecidas em 2007 por testes com uma bomba atômica, foram usadas como chantagens: em troca da suspensão da atividade marcial ou do programa nuclear, arrancava vantagens do Ocidente.

A atual escalada de hostilidades repete o roteiro. Mesmo a ruptura do cessar-fogo com a Coreia do Sul, firmado em 1953, e a interrupção da comunicação exclusiva entre os dois países já ocorreram antes.

A situação, porém, tem duas novidades que ampliam a já considerável incerteza. Este é o primeiro impasse com a Coreia do Norte comandada por Kim Jong-un. Ninguém sabe até onde o jovem ditador se sente forte para ir.

Além disso, a China, maior aliada de Pyongyang, acaba de escolher sua nova direção. É difícil prever como Pequim se comportará diante da tática norte-coreana, que pode levar a Coreia do Sul e o Japão para uma corrida armamentista.

O recente apoio chinês a sanções agravadas pela ONU (por causa de testes nucleares no mês passado) sugere mudança de posição. Mas nem isso é uma certeza, pois Pequim parece mais inclinada a manter a Coreia do Norte ao seu lado para conter a influência dos EUA.

Embora o regime norte-coreano tenha se declarado pronto para a guerra, a resposta mais prudente ainda é ceder e negociar a interrupção do programa nuclear.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ninguém vai levar isso no grito, na marra”
Governador Eduardo Campos (PSB), propondo um novo acordo para os royalties


AOS 70 ANOS, COMANDANTE DA MARINHA PODERÁ CAIR

Discute-se no Ministério da Defesa se o almirante Julio Soares de Moura Neto continuará no Comando da Marinha, após completar 70 anos quarta-feira (20). Setores do governo defendem a substituição, alegando que o cargo é privativo de oficiais da ativa e da reserva, e a “fila” deve andar: Moura Neto será reformado e não poderia ficar. A palavra final da presidente Dilma será conhecida nos próximos dias.

REPRISE

É grande a semelhança do novo papa, argentino Jorge Mario Bergoglio ou Francisco I, com o falecido Pio XII, que era mais alto e magro.

JOGO DE CINTURA

O Vaticano ganhou de goleada, se o novo papa tiver o mesmo poder de driblar os adversários como os compatriotas Messi e Maradona.

PENSANDO BEM...

...a escolha de um jesuíta para papa mostrou que a Igreja está tão empenhada em renovação que até encontrou um argentino humilde.

CARTOLA

Fim da mágica: até o fim do ano, o Banco Central deverá aumentar os juros para reduzir o consumo, senão se instalará o caos inflacionário.

FOSTER VAI EXPLICAR NA CÂMARA NEGÓCIO BILIONÁRIO

Maria das Graças Foster (Petrobras) terá de esclarecer à Comissão de Combate ao Crime Organizado, da Câmara, um suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas na compra de refinaria em Pasadena (EUA). Em 2012, a estatal desembolsou US$ 1,18 bilhão pela refinaria que, apenas sete anos antes, havia sido adquirida por míseros US$ 42,5 milhões pela empresa belga Transcor/Astra.

SONECA

A forte chuva de ontem à tarde deixou os plenários do Congresso às moscas. E não se ouviram ameaças de corte de ponto.

DE CARREIRINHA

O deputado Mauro Benevides (PMDB-CE) lê discursos tão rapidamente na Câmara que acabou revelando sua real vocação: locutor de turfe.

O CARA

Como bom argentino, papa Chico I deve ter passado a noite celebrando com seus muitíssimos botões: “Eu sabia que eu era Deus!”.

JÁ COMEÇOU

O clima é de campanha presidencial. Ontem, Eduardo Campos (PSB) foi o mais assediado governador em Brasília, Aécio Neves (PSDB) não deu dois passos sem admiradores à volta e, pela manhã, em evento no Planalto, a claque petista cantarolou: “Oleoleolá, Dilmá, Dilmá!”.

FUMAÇA PRETA

Setores do PT pensam rebater acusações do PSDB à má gestão e aparelhamento na Petrobras divulgando a lista de ex-políticos tucanos em cargos de direção quando Lula assumiu o primeiro mandato.

AGRICULTURA

Se for mesmo o substituto de Mendes Ribeiro (Agricultura), o deputado Antônio Andrade (PMDB-MG) tem prazo de validade: em abril de 2014 sairá para disputar a reeleição. Responsável pelo que há de positivo no PIB, a Agricultura não pode ser reduzida a mero utensílio eleitoral.

JÁ NO RITMO

O senador tucano Aécio Neves (MG) gostou da antecipação da campanha presidencial, mas somente vai assumir a condição de pré-candidato do PSDB a partir da convenção do partido, em maio.

AUSTERIDADE

Coerente com seu discurso de elogio à austeridade, o novo presidente nacional da OAB, Marcus Vinícius Coelho, substituiu a tradicional festança por um espartano coquetel, na solenidade de posse.

ELES JOGAM CONTRA

Burocratas da paralisia, o ministro Paulo Sergio Passos (Transportes) e o nº 2 Miguel Masela se divertem vendo a Valec descarrilar: contra a vontade da dupla, o presidente da estatal de ferrovias, Josias Sampaio Jr, foi indicado por Bernardo Figueiredo, influente amigo de Dilma.

MADAME NA ÁREA

Após ameaçá-los quase se tornando a embaixadora, do que desistiu porque teria de renunciar ao Senado, Marta Suplicy (Cultura) importuna diplomatas brasileiros em Washington exigindo deles uma missão impossível: atrair jornalistas importantes para sua coletiva, nesta sexta.

EMBUSTE

O gabinete do vice-presidente reiterou ontem que Michel Temer não tem um assessor de nome Pedro Petrere e que sua filiação ao PMDB não o autoriza a pedir audiência a autoridades declarando-se como tal. Em carta à coluna, ele insistiu em se passar por assessor de Temer.

PENSANDO BEM...

...pelo andar da inflação “controlada” do governo, José Sarney saiu, mas os fiscais dele vão voltar.


PODER SEM PUDOR

NEGRÃO NÃO DISCRIMINA

No fim de 1994, ao chegar para uma audiência com o ministro de Minas e Energia, Delcídio Amaral, o então governador gaúcho Alceu Collares se apresentou à secretária com o bom humor de sempre:

- Diga ao ministro que o negrão chegou.

Na audiência, ele foi informado que somente no dia seguinte o então presidente Itamar Franco assinaria o ato que o levara a Brasília, beneficiando o setor elétrico no Estado. Collares descartou:

- Não posso. Amanhã tenho lá uma festa da colônia alemã.

- Mas o que o senhor tem em comum com a colonização alemã? - provocou Delcídio.

- Nada, mas se o negrão não for, vão dizer que é discriminação...

QUINTA NOS JORNAIS

Globo: O Papa das Américas
Folha: Francisco, argentino, é o 
1º papa latino-americano
Estadão: Francisco, o papa argentino
Correio: A missão de Francisco
Valor: BNDESPar concentra ainda mais seus investimentos
Estado de Minas: Francisco: o nome da mudança
Zero Hora: Francisco, o primeiro do novo mundo

quarta-feira, março 13, 2013

PAPA ESCOLHIDO

ELES TÊM PAPA!




Deus em promoção - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 13/03

Pouca coisa me escandaliza, mas fiquei perplexa com o vídeo que andou circulando pela internet, que mostra um culto da Assembleia de Deus conduzido pelo pastor Marco Feliciano – sim, o polêmico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o maior para-raios de encrencas da atualidade.

O vídeo mostra o momento da coleta de dízimos e doações, a parte mercantilista da negociação dos fiéis com o Pai Supremo, de quem o pastor se julga uma espécie de contador particular, pelo visto.

Entre frases inibidoras, como “Você vai mesmo ficar com esse dinheiro na sua carteira?”, dirigida a pessoas da plateia, e estimulando que os trabalhadores cedam uma porcentagem do seu salário dizendo “Aquele que crê dá um jeito”, aconteceu: alguém entregou seu cartão de crédito nas mãos do pastor. No que ele retrucou: “Ah, mas, sem a senha, não vale. Depois, vai pedir um milagre pra Deus, Ele não vai dar, e aí vai dizer que Deus é ruim”.

Entendi bem? Deus está à venda? Cobrando pelas graças solicitadas?

Essa colocação do pastor bastaria para abrir uma CPI contra os caras de pau que, abusando da esperança de gente sem muito tutano, arrecadam fortunas e depois vão fazer suas preces particulares em algum resort em Miami. Quem dera houvesse um Joaquim Barbosa para colocar ordem nesse galinheiro falsamente místico, mas quem ousa? Se essa simples crônica já sofrerá retaliações, imagine alguém peitar judicialmente um representante de Deus, ou que assim se anuncia.

Religiosidade é algo extremamente respeitável. Cada um exerce a sua com a intensidade que lhe aprouver, de forma saudável, a fim de conquistar bem-estar espiritual. Todas as pessoas religiosas que conheço, e são inúmeras, nunca precisaram comprar sua fé nem dar nada em troca – conquistaram-na gratuitamente através de cultura familiar ou de uma necessidade pessoal de conforto e consolo que é absolutamente legítima.

Religião é, basicamente, isso: conforto e consolo.

Já os crentes fazem parte de outra turma. São os que acreditam cegamente em pecado, castigo, punição e numa recompensa que só virá depois de algum sacrifício. Quando não pagam em espécie, abrem mão de prazeres terrenos como forma de penitência, para se tornarem dignos da vida eterna – que viagem.

É preciso ser muito iludido para acreditar que pagar a conta de luz é menos importante do que pagar pelo milagre encomendado a Deus através de seus “assessores” – e que, segundo o pastor Marco Feliciano, só será realizado se você não tiver caído na malha fina do Serasa Divino.

O que fazer para tirar os crentes desse transe? Colocar na cadeia esses ilusionistas que se apresentam como pastores? Duvido que ajude. A bispa Sonia e seu marido Estevam Hernandes foram condenados por lavagem de dinheiro e de nada adiantou. Se fossem condenados por lavagem cerebral, quem sabe.

Dar um tempo - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 13/03

Dentro do Planalto, as apostas sobre um eventual julgamento da Lei de Royalties no STF estão divididas. Tem gente importante achando que, quanto mais tempo demorar, maiores as chances do Rio. 

É. Pode ser.

Tens mãe?
Os governadores Cabral e Casagrande recusaram o convite para discutir o pacto federativo na Câmara. É que, depois da tunga do petróleo do Rio e do Espírito Santo, promovida por Suas Excelências, parece deboche. E é. 

Abuso sexual
Lembra o caso do segurança Rodrigo da Silva Borges, acusado de estuprar dentro do Colégio Pedro II, em São Cristóvão, uma índia que vivia no antigo Museu do Índio, no final do ano passado?

Pois bem, ele será ouvido hoje pela juíza Hyedda Christina Assunção, da 12ª Vara Criminal do Rio.

Cena carioca
O advogado Wellington Corrêa protagonizou uma cena inusitada, ontem, durante o julgamento do traficante Fernandinho Beira-Mar no Tribunal do Júri, no Rio.

Ele pediu para ir ao banheiro. Mas esqueceu o microfone ligado. O barulho do xixi foi acompanhado no tribunal.

Habemus humor
Piadinha que circula no Rio, ouvida por mestre Cacá Diegues: Dom Odilo Scherer já foi eleito Papa, mas os cardeais anularam a eleição porque ele escolheu o nome de Lula II.

Já...
Mestre Ziraldo diz que até agora a fumaça que saiu do Vaticano não é branca, nem preta. “Tá mais para 50 tons de cinza.” Faz sentido.

Eu quero o meu
Em breve, o STJ vai apreciar um pedido de alimentos (pensão alimentícia) movido por Suzane von Richthofen, que matou os pais, contra o espólio da família.

Aliás...
Houve um tempo em que o Rio era cenário de crimes que abalavam o país, como o caso Aída Curi, o Crime do Sacopã, a Fera da Penha e tantos outros que faziam aumentar a tiragem dos jornais da época.

Agora, estes crimes, digamos, mais midiáticos, migraram para São Paulo. Além do caso da Suzane, há o de Mizael Bispo, acusado de matar a ex-namorada Mércia Nakashima, que tem transmissão inédita na internet e na TV.

Polêmica sobre a m...
Sobre a nota que seis representantes da Fifa, que almoçaram no Palácio do Buriti, em Brasília, saíram de lá com dor de barriga, o governo do DF soltou uma nota esclarecendo que “Não é possível afirmar que a indisposição alimentar tenha sido causada após a refeição oferecida no Palácio”.

E lembra que, antes de Brasília, a comitiva esteve em outras cidades-sede para o mesmo evento. Ah, bom!

Macaco à venda
Está à venda na Birds Pet Shop, no Barra Point, uma fêmea de macaco-prego, um animal silvestre. A loja diz ter os documentos para o negócio e que o bicho foi criado em cativeiro.

Custa, acredite, R$ 50 mil.

Paes Picasso
Eduardo Paes fincou no jardim da Gávea Pequena, sua residência oficial, que nem uma escultura, uma viga de metal, retirada da parte já derrubada da Perimetral.

Caminho do mar
O artista Laercio Redondo abrirá uma tampa no piso da Casa França-Brasil, revelando uma galeria subterrânea, que, na planta original do prédio, de 1824, tinha ligação direta com o mar.

A exposição, que abre sábado, marca o início da temporada 2013 da Casa.

A fila anda
Adriano, o Imperador, comprou duas alianças de noivado na H. Stern para Renata Fontes.

Grupo de trabalho
A presidente do TJ do Rio, desembargadora Leila Mariano, nega a criação de um grupo de trabalho para atuar na 4ª Vara Empresarial do Rio.

Boni e Daniel
A ex-BBB Cida Moraes, que virou repórter do programa de TV “Gente carioca”, estava na sessão vip de “Como vencer na vida sem fazer força”, no Oi Casa Grande, avistou o diretor Daniel Filho e atacou:

— Estamos aqui com esse grande homem da televisão, o Boni.

Segue...
Com muito bom humor, Daniel tirou o celular e disse que iria ligar para Boni, para que ela pudesse conversar.

Pano rápido.

Condenação à morte - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 13/03

RIO DE JANEIRO - Tivemos de chegar à metástase do crack para que, de repente, o Brasil acordasse para o problema da droga. Mas antes tarde etc. Por outro lado, nos jornais e on-lines, pululam amadorismos bem-intencionados. Pessoas que só sabem de droga pelos manuais, por alguma breve experiência com maconha na juventude ou por passar de carro pelas proximidades de uma cracolândia pontificam a respeito. Ao cantar de um galo à distância, julgam ouvir a palavra "higienismo" e logo se põem contra a internação involuntária.

As famílias dos dependentes sabem melhor do que falam -sua experiência de ter em casa um escravo do crack ainda não foi, nem de longe, tratada pela literatura. E por que "em casa", perguntará você, se o dependente se muda para a cracolândia? Porque a casa é para onde ele sempre volta, para pegar ou tomar o que ainda possa ser vendido e lhe valer uma pedra -dos bens e joias da família a lustres, móveis, esquadrias.

Tais famílias não suportam ver seu filho ou neto receber "alta" e ser devolvido às ruas pelos que o internaram apenas um mês antes -para abrir novas vagas, denunciam elas, e maquiar as estatísticas de "atendimento". Se isso de fato estiver acontecendo, é lamentável -mas não basta para desqualificar todo o sistema de internação, que apenas começa a ser posto em prática.

Também não tem sentido o raciocínio de que, como historicamente o homem sempre se drogou, não adiantam os bilhões investidos na repressão, porque ele voltará a se drogar, não importa com o quê. Bem, o homem também sempre ficou doente. Significa que a medicina e a pesquisa científica devem fechar as portas pois, não importam os seus avanços, o homem voltará a ficar doente e morrerá?

Uma alta prematura é quase sinônimo de recaída. Mas o abandono na rua já é uma condenação à morte.

Ueba! Onde há fumaça, há papa! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 13/03

Escândalo no Vaticano parece caixa de lenço de papel: você puxa um e vêm três! Você nunca puxa um só!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Predestinado! Enviado especial da BBC Brasil a Roma: Thomas Pappon! Rarará!

E todo mundo de olho na chaminé! O mundo vai pegar um torcicolo! Bafo no conclave: "Vaticano é acusado de gastar R$ 58 mi em apartamentos num complexo que abriga maior sauna gay da Europa". Gayticano! Vaticano muda de nome para Gayticano! É padrefolia! Em vez de fumaça, vai sair um arco-íris da chaminé! Tô achando que esse conclave vai ser na The Week!

E escândalo no Vaticano parece caixa de lenço de papel: você puxa um e vêm logo três! Você nunca consegue puxar um só! E o porta-voz do Vaticano se chama Lombardi. Então o papa é o Silvio Santos! E se sair fumaça preta é que esqueceram o feijão no fogo!

E cadê a Ilze Scamparini? Ainda não vi a Ilze! Trocaram a Ilze pela Poeta! Sacanagem! Como disse um amigo: "Ela merece dar a notícia em primeira fumaça!" Se não for a Ilze, haverá outro conclave! E como disse o tuiteiro Adam Na: "Só reconheço o novo papa se for com a Ilze!". Eu também! Senão, eu mudo de religião!

E todo mundo, naquele frio de Roma, esperando sair a fumacinha da chaminé, e soltando fumacinha pela boca! E se a Patrícia Poeta soltar fumaça branca pela boca é que o papa é da Globo!

E o Tutty Vasques: "Gaviões da Fiel promete não soltar nem pum hoje no Pacaembu". Pum de corintiano é mortal. Mortal Kombat!

Rarará!

E a manchete do Sensacionalista: "Pedro Bial vai apresentar conclave e fará poesias em latim". Pode fazer em qualquer língua, ninguém entende nada mesmo! Rarará! E eu já disse que papável mesmo é a Sabrina Sato! A Cleo Pires! Os coroinhas! Rarará!

E essa: "Cardeais tuitam antes de missa!". Primeiro o prazer e depois o dever! Eles podiam rezar uma missa em 140 caracteres! E podiam soltar fumaça pelo twitter também! Rarará! É mole? É mole mas sobe!

O Brasil é Lúdico! Eu tenho a teoria de que no Brasil todo mundo escreve errado, mas todo mundo se entende. Olha essa placa: "Proibido Extacinar!". Esse inovou. Essa grafia é nova! E essa outra: "Central dos Purfs! Aceto de cadeira". Vou comprar uns purf pra assistir ao papa! Rarará. Nóis sofre mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno

Cada vez piores e mais caros - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 13/03
Espertamente apresentada há anos pelo PT e por seu braço sindical, a Central Única dos Trabalhadores, como democratizante e modernizadora da estrutura sindical, pois em tese a libertaria dos vínculos financeiros formais com o Estado, a proposta de substituição do atual imposto por uma taxa negociada pelos sindicatos com suas bases começa a ser encampada pelo governo. No entanto, se aprovada da forma como está sendo proposta, o que deveria ser um avanço nada mais será do que a substituição de uma contribuição compulsória por outra.
Para o trabalhador, o resultado poderá ser ainda pior, pois, da forma como a mudança está sendo encaminhada, o novo imposto - é disso que se trata, na essência - retirará de seu salário praticamente o quádruplo do valor que hoje ele paga para sustentar a estrutura sindical. E tudo isso continuará sendo feito compulsoriamente, como agora, para que a maioria dos trabalhadores não tenha a quem se queixar do esbulho que estará sofrendo.

Um esboço dessa nova taxa, que sindicalistas chamam de "negociai", foi inserido no Projeto de Lei que regulamenta a profissão de comerciário, que aguarda sanção da presidente Dilma Rousseff. Proposto pelo senador Paulo Paim (PT-RS), o projeto foi emendado na Câmara, que nele incluiu uma "contribuição para o custeio da negociação coletiva", que deverá ser fixada em assembleia-geral da entidade sindical, será cobrada mensalmente e não poderá ser superior a 1% do salário. Para um trabalhador que ganha R$ 1.000 por mês, a contribuição atual, cobrada uma vez por ano, em março, lhe custa R$ 33,33. A nova fórmula eleva a contribuição para até R$ 120 por ano, um aumento de 260%.

Essa fórmula se aplica apenas aos comerciários, mas o governo estuda sua extensão para todas as categorias profissionais. O pior é que essa nova taxa não eliminará a contribuição sindical. Ou seja, o trabalhador poderá ter de pagar compulsoriamente duas taxas para sustentar uma estrutura sindical à qual poucas vezes ele recorre, por sua crescente inoperância e ineficácia, mas que, como se vê, poderá lhe custar cada vez mais caro. Diz-se que a dupla cobrança vigorará durante um período de transição, mas a história do País é rica em exemplos de contribuições provisórias que se perenizaram.

A maioria dos sindicatos não conseguiu entender as transformações por que passaram a economia mundial e, sobretudo, o mundo do trabalho. Por isso, vem perdendo influência na discussão de temas cruciais para o trabalhador, como as novas condições de trabalho, as novas exigências e oportunidades em termos de jornada ou de local de trabalho, as transformações no relacionamento entre empregado e empregador, além do impacto que essas mudanças têm nas formas e no valor da remuneração.

A mobilidade do capital agora é acompanhada da mobilidade das empresas. Elas têm muito mais facilidade para contratar mão de obra onde as condições sejam melhores, em termos de quantidade, habilitação, remuneração e legislação trabalhista.

Incapazes de entender as mudanças, os sindicatos estão menos preparados para defender os interesses dos trabalhadores, que deles se afastaram. Cada vez mais esvaziadas e menos representativas, essas organizações não estão sabendo como mudar para acompanhar as transformações em seu próprio universo. O que surpreende é que, apesar de estarem cada vez mais isolados dos trabalhadores que dizem representar, os sindicalistas brasileiros continuem dedicados a buscar fórmulas para deles extrair ainda mais dinheiro.

É claro que os sindicatos continuam sendo necessários para proteger os interesses dos trabalhadores, mas isso não os exime de desempenhar adequadamente seu papel, para que possam convencer os trabalhadores a, livremente, sustentar seu trabalho, por meio da mensalidade que eles espontaneamente se disponham a pagar. Se continuarem a dispor de receita automática, os sindicatos continuarão no rumo que os está levando à irrelevância - o que talvez não incomode seus dirigentes, confortavelmente instalados sobre grossos pelegos.

Dieta sem miséria - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 13/03

Os R$ 70 da linha oficial de pobreza extrema são insuficientes até para custear alimentação básica e necessitam ser corrigidos


A luta contra a pobreza extrema é uma bandeira que não se abandona com facilidade. Pode-se mesmo dizer que ela se tornou suprapartidária, embora identificada de imediato com o PT: todos se sentem moralmente impedidos, hoje em dia, de criticar políticas assistenciais voltadas para a parcela miserável da população.

Soa atraente, nesse contexto, o slogan "O fim da miséria é apenas um começo", lançado recentemente pela presidente Dilma Rousseff. Como peça publicitária, sobretudo em face de sua mais que provável candidatura à reeleição, a frase tem seus méritos. Como descrição da realidade, porém, esbarra no truque propagandístico e presta um desserviço ao país.

A campanha do governo federal afirma que, em dois anos, 22 milhões de brasileiros galgaram a linha da miséria. Segundo a publicidade oficial, todos os beneficiários do Bolsa Família deixaram a pobreza extrema. Restaria, agora, identificar alguns milhares de miseráveis não cadastrados para erradicar essa chaga social.

Oculto nas entrelinhas da planilha governista está o fato de que o critério de miséria adotado pelo Brasil em 2011 -R$ 70 de renda mensal familiar per capita- é ultrapassado e insuficiente.

Ultrapassado porque, há pelo menos duas décadas, especialistas têm afirmado que a dimensão monetária não pode ser a única variável no cálculo da pobreza. Equações mais modernas computam diversos outros indicadores, como saúde, educação, saneamento básico e moradia.

Insuficiente porque, como demonstrou reportagem desta Folha, R$ 70 não bastam nem para comprar os alimentos mais baratos da dieta mínima recomendada pelo próprio governo.

As porções recomendadas pelo Ministério da Saúde não saem por menos de R$ 103 mensais (a desoneração da cesta básica pouco mudará aí, pois parte do itens já estava livre de impostos). Para alcançar tal preço -quase 50% acima da linha de miséria oficial-, seria preciso ingerir, todos os dias, os mesmos itens. Uma alimentação balanceada custaria ainda mais.

Mesmo que não exista consenso sobre a melhor forma de medir a pobreza, há pouca divergência quanto à importância de qualquer métrica levar em conta, no mínimo, a capacidade de garantir o consumo alimentar básico.

A conclusão é inescapável: o valor estabelecido pelo governo Dilma é baixo e precisa ser atualizado. Presta-se antes ao ilusionismo que ao efetivo combate à indigência. Decretar que deixou de ser miserável um grupo que mal pode alimentar-se é apenas uma forma de mantê-lo exatamente como está.

Fora de ordem e de lugar - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 13/03
O Brasil é um país onde o surrealismo não vingou como movimento artístico, mas como maneira de ser. Tom Jobim dizia que até no mapa o país é de cabeça pra baixo. E, de tão complicado, não é "para principiante". Tim Maia, à sua maneira, traduzia o absurdo declarando que é a terra onde traficante se vicia, prostituta goza e cafetão sente ciúme. De fato, é difícil entender à luz da lógica e do bom senso certas coisas que acontecem e são aceitas como normais. Experimente, por exemplo, explicar para um estrangeiro que aqui um homicida pode sair do fórum condenado a 23 anos de prisão, mas, na verdade, só vai ficar mais três na cadeia.

Na política, então, são inúmeros os casos, a começar pelo Congresso. Lá, o presidente do Senado anda vergado ao peso de denúncias de corrupção e pressionado por um documento de milhares de assinaturas pedindo seu impeachment. Na Câmara, além de mensaleiros na Comissão de Justiça, há agora o recém-eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos, o pastor Marco Feliciano, que responde no STF por estelionato (inventou um acidente para receber cachê indevido, passagens e hospedagem) e é conhecido por declarações racistas e homofóbicas do tipo: "Os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé", "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição", "a Aids é uma doença gay".

Diante dos protestos generalizados e da reação negativa em organizações religiosas como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o seu partido, o PSC, reuniu a bancada ontem à tarde para discutir se voltava atrás na indicação. Acabou concluindo que manteria o pastor Feliciano na presidência da Comissão. Por outro lado, um abaixo-assinado com 240 mil assinaturas surgiu pedindo a destituição de Feliciano, e um grupo de deputados pretendia protocolar no Supremo um mandado contra a sessão que o elegeu.

Mas não só em Brasília acontecem coisas fora de ordem e de lugar. No fim de semana, O GLOBO mostrou como no Rio aos domingos as pistas da orla reservadas aos pedestres são perigosas, porque bicicletas, triciclos, skates e patins em alta velocidade invadem o espaço e ameaçam bebês, idosos e deficientes físicos. O cúmulo do surrealismo é o secretário de Ordem Pública admitir a impotência de sua pasta, que, segundo ele, nada pode fazer nem para evitar a transgressão, nem para puni-la. Se o órgão que cuida da ordem não consegue mantê-la em uma pista, o que dirá na cidade? Por isso, tenho uma sugestão para o prefeito: feche a secretaria e reabra as pistas aos automóveis. E viva a bandalha!

Pimentão envenenado - TASSO AZEVEDO

O GLOBO - 13/03

Organofosforado, piretroide, benzimidazol, metilicarbamato de oxima, dicarboximida, ditiocarbamato, clorociclodieno e pirimidinil carbinol. Estes são alguns dos agrotóxicos de uso proibido no Brasil cujos resíduos foram encontrados em 1 de cada 4 amostras de frutas, legumes e verduras em todos estados brasileiros em 2010, em estudo publicado pela Anvisa como parte do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos conduzido pela agência desde 2001.

Se se somarem a estes dados os resíduos de agrotóxicos autorizados, mas em quantidade superior aos limites de tolerância, quase 30% das amostras apresentavam irregularidades e representam uma ameaça à saúde dos consumidores.

Observados os dados para diferentes culturas, é ainda mais chocante. Se você, assim como eu, adora pimentão (hábito que herdei de meu pai), a chance de estar comendo um produto contaminado com estes agroquímicos é de mais de 90%.

Os agrotóxicos são um dos principais responsáveis por doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que, segundo Nota Técnica da Anvisa, podem gerar sintomas como dores de cabeça, alergia e coceiras até distúrbios do sistema nervoso central ou câncer.

Segundo o Ministério da Agricultura, entre 2002 e 2011 a produção agrícola cresceu cerca de 46%. No mesmo período o consumo de fertilizantes nitrogenados cresceu 89%, e o de agrotóxicos, cerca de 60%. O Brasil é desde 2008 o maior usuário de agrotóxicos do planeta, quase 20% do mercado mundial.

O uso excessivo de agroquímicos não impacta apenas a qualidade dos alimentos, mas tem consequências na contaminação dos cursos dágua, do solo e dos trabalhadores expostos a estes produtos.

Curiosamente, apesar da gravidade dos resultados da pesquisa anual — com pouca ou nenhuma evolução ao longo dos anos —, a Anvisa limita-se a fazer recomendações sobre ações que poderiam reduzir a contaminação. Ninguém é responsabilizado por vender produtos contaminados com agroquímicos proibidos, não licenciados ou fora dos limites de tolerância de resíduos. Esta situação seria equivalente a encontrar 1 em cada 4 produtos de um comércio com data de validade vencida e não tomar qualquer atitude de responsabilização. Não faz sentido.

Segundo o estudo da Anvisa, em apenas 30% das amostras foi possível identificar o produtor ou associação de produtores responsável pelo produto. Ou seja, a cadeia de valor não tem sistemas que permitam saber a origem dos alimentos que vende e tão pouco tem sistemas para aferir a presença de resíduos químicos irregulares destes mesmos alimentos.