segunda-feira, março 11, 2013

Ministério eleitoreiro - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 11/03

Os micro e pequenos empresários dependem do suporte governamental para se livrar de estorvos, como impostos e burocracia, e não de mais uma estrutura criada para acolher aliados.


Os brasileiros arcarão com novos custos criados pelo governo para manter mais uma estrutura de pouca serventia. Graças à maioria situacionista, o Senado aprovou na semana passada a criação do 39º ministério do governo Dilma. A Secretaria da Micro e Pequena Empresa teria, pelo que já expressa na denominação, a nobre missão de gerir as políticas de estímulo ao microempreendedorismo. O Executivo e o país não precisam de um órgão com status de ministério nessa área, pois suas atribuições são desempenhadas satisfatoriamente pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Se todas as atividades produtivas fossem contempladas no governo por estruturas que pretendam atender o tamanho e o perfil de cada negócio, o número de ministros seria incontável.
É claro que os micro e pequenos empreendedores merecem todo o suporte oficial, para que possam tirar o melhor proveito das oportunidades criadas pela economia. Mas se sabe que não é essa a intenção do Planalto. O novo ministério surge, na verdade, para atender interesses político-eleitorais do governo, visando o fortalecimento da base de sustentação, que abre agora espaço ao PSD. Antes mesmo da confirmação da pasta, já eram do conhecimento do público, por notícias da imprensa, os cotados para sentar à mesa nas próximas reuniões ministeriais. Mesmo que o novo integrante do primeiro escalão pouco ou nada tenha a dizer e fazer.
O custo inicial, que pode ser atualizado ao longo do ano, é de pelo menos mais R$ 8 milhões em 2013, para que se sustente o ministro, seus auxiliares diretos e os funcionários que terão de encontrar tarefas que os mantenham ocupados. O projeto já havia sido aprovado pela Câmara e depende agora apenas da sanção presidencial, para que o atual governo passe a contar com o maior número de ministros desde a redemocratização do país, considerando-se os ministérios, secretarias e outros órgãos com o mesmo status. A Alemanha tem 10 ministros menos. O Brasil dispõe de um primeiro escalão maior também que os de Japão, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália.
Se a lógica da boa administração das empresas fosse seguida pelo setor público, levando-se em conta tendências mundiais reafirmadas nos últimos anos, os governos deveriam encolher, não só para reduzir despesas, mas para que suas decisões tenham agilidade e eficiência. É um contrassenso que pequenos negócios, geralmente conduzidos por poucas pessoas e com recursos escassos, sejam usados como pretexto para o inchaço da máquina pública. Se estivesse pensando mesmo em contribuir para facilitar a vida de pequenos comerciantes e industriais, o governo encontraria meios de reduzir estorvos, com menos impostos e burocracia, ao invés de investir em projetos meramente eleitoreiros.

Muito protagonismo com quase nenhum resultado - MARCO ANTÔNIO ROCHA

O ESTADO DE S. PAULO - 11/03

A presidente Dilma dizia recentemente que a hora de "fazer o diabo"é a hora das eleições. Subentende-se, para ganhar as eleições. Mas, no governo, não é para se fazer o diabo. E hora de apenas governar. E isso, acrescentou, exige prudência.

No que deu para entender, o raciocínio parece virtuoso. De fato, quando chega o momento da disputa eleitoral o governante teria, digamos, até o direito de aprontar loucuras em nome da vitória nas urnas. Mas não pode governar fazendo loucuras, pois o que o público mais quer do governante é sensatez, prudência.

O problema é que a conjuntura amai parece estar levando o governo a ter de "fazer o diabo" - seja isso o que for - para arrancar a economia do marasmo e para manter quase todo mundo feliz como vinha acontecendo. Só que essas coisas são um tanto quanto conflitantes. Por exemplo, arrancar a economia do marasmo exige investimentos, que são fruto de poupança - é preciso poupar para investir. E é preciso juro baixo. Mas juro baixo também estimula o consumo em detrimento da poupança. E cria o risco de gastos perdulários. Na verdade, é o que temos nos últimos anos, por influência e pressão do governo: muita gastança e poucos poupança e investimento. O resultado é essa dose de aumento do PIB, uma das menores da história econômica do Brasil.

Por alguma razão que está deixando perplexos os técnicos do governo, o tal do "espírito animal" do empresariado não mostra muita vontade de sair da toca e partir em busca dos "polpudos lucros" de que frequentemente são acusados por agentes e autoridades do próprio governo.

O ministro Cuido Mantega se reuniu, na semana passada, com representantes das principais entidades empregadoras para tentar saber, na prática, o que é que pode ser feito para anabolizar a natural vontade de investir do empresário e prometeu uma nova rodada de benefícios fiscais. Deve ter ouvido palavras de conforto e de esperança.

Mas, no mesmo dia da reunião, o governo decretou um aumento de 5% no diesel. E a notícia, mais ou menos inesperada, veio com duas faces: ainda um pouco o problema de caixa que a Petrobrás enfrenta há tempos por causa da incúria deste governo e do antecessor no que se refere aos preços dos combustíveis; mas alimenta mais um pouco a perspectiva de aumento da inflação, por causa da repercussão nos preços de tudo praticamente, uma vez que este é um país movido quase de inteiramente por frete rodoviário.

Por outro lado, ao acenar com novas desonerações fiscais em futuro próximo, principalmente nos produtos da cesta básica, o governo autoriza os agentes econômicos a se perguntarem, um tanto perplexos, como isso pode ser feito numa fase em que a arrecadação fiscal anda caindo. Ora, não seria impossível, caso o governo se dispusesse a cortar de fato alguns gastos correntes. Mas isso, como já aprendêramos brasileiros, em muitos governos, é sonho de uma noite de verão. O mais certo é que a desoneração da cesta básica implique onerar outros produtos, de outros setores.

A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada manteve a taxa básica de juros no nível de 7,5% ao ano, como se previa, mas acenou com a hipótese de ela ser aumentada quando o Banco Central (BC) considerar- necessário.

Tem gente dizendo que isso seria até necessário, não tanto como forma de deter o assalto da inflação que se avizinha, mas para que o BC demonstre que recuperou sua autoridade e independência diante da voluntariosa chefe do governo, que bateu na mesa para que os juros baixassem.

Ora, entre os vários fatores que tolhem os investimentos no Brasil, não podem ser descartadas as incertezas sobre como o governo age e a queda de credibilidade da administração da economia.

Lembremos que, no seu período, Lula aderiu à ortodoxia de Henrique Meirelles em política monetária, que presidiu o BC do primeiro ao último dia dos oito anos Lula, sob pesada artilharia do PT, que o acusava de "neoliberal". E Lula não deixou que Mantega atrapalhasse o BC e o Copom e se sobrepusesse a Meirelles, no seu segundo período. Isso assegurou ao público e aos investidores que as políticas, monetária e macroeconômica, seriam conduzidas by the book. Não foi apenas por sorte que Lula terminou seu mandato com o PIB crescendo 7,5%, os investimentos aumentando e a inflação sob controle. A ortodoxia de Meirelles, e a herança de Pedro Malan, tiveram papel nada desprezível.

Já Dilma talvez tenha achado que precisava de um pouco da heterodoxia experimental de Mantega para os projetos de eliminação da miséria que tinha em mente, pois o manual da economia não aponta muitos caminhos nessa direção. Acabou ficando sem uma boa política de eliminação da miséria e sem uma boa política de avanço do capitalismo privado, pois seu ministro e seu presidente do BC são incapazes de projetai" e implementar essa ponte.

As políticas monetária e macroeconômica neste governo se tornaram políticas de "canetadas" ao sabor dos ventos. Não há um plano, um projeto minimamente definido, ortodoxo, heterodoxo ou misto. O que há é mixórdia, como diziam nossos avós, com iniciativas semanais que alimentam o noticiário, mas nem são de fato implementadas. Muito protagonismo e quase nenhum resultado.


É preciso turbinar as concessões - RAUL VELLOSO

O GLOBO - 11/03
Raro consenso entre os economistas brasileiros indica que a causa básica da desabada das taxas de crescimento do PIB desde 2010 é a igual desabada dos investimentos. Se não formos capazes de reverter essa complicada situação, logo em seguida virão os efeitos desfavoráveis sobre o emprego.

O modelo econômico em vigor favorece a expansão do consumo - o mesmo que não privilegiar o investimento - e, no caso do setor público, existe uma engrenagem constitucional e legal que concentra os gastos cada vez em mais em poucos itens da pauta corrente: previdência, pessoal, saúde e assistência social, pela ordem.

Com o tempo, fomos virando o País das Transferências a Pessoas. Se assumirmos que cada família beneficiada pelos programas previdenciários e assistenciais tem, em média, duas pessoas, o que pode até ser conservador, mais de metade da população brasileira depende hoje de algum pagamento atrelado ao Orçamento da União. É difícil encontrar um país com uma estrutura de gastos públicos similar.

No passado, havia recursos públicos suficientes para investir na infraestrutura de transportes.

Era a época dos impostos únicos, destinados exclusivamente à infraestrutura em geral.

Com o tempo, o setor público desaprendeu e parou de investir. Atualmente, o peso dos investimentos no gasto total da União é de apenas algo ao redor de 6%.

Em particular, desabaram os investimentos federais em transportes. No início dos setenta a União investia nesse setor 1,8% do PIB. Em 2003, havia praticamente zerado esses investimentos (0,06% do PIB). Houve alguma recuperação até 2010 (0,35% do PIB), mas de lá para cá têm caído de novo, e em 2012 registraram-se gastos de apenas 0,23% do PIB.

Nessas condições, é muito difícil imaginar um deslanche expressivo da economia brasileira sem o concurso de um programa relevante de concessões privadas de infraestrutura, conforme discuti com parceiros, e em detalhe, em livro publicado recentemente pelo Inae (que pode ser baixado enviando mensagem ao endereço: raul_velloso@uol.com.br, e informando o formato desejado, ou seja, PDF, EPUB ou MOBI).

Como detalhado no livro, o aumento dos investimentos em infraestrutura de transportes é fundamental para a retomada do crescimento do PIB, hoje PIBinho, tanto pela ampliação da capacidade de produção desses serviços, como pelos ganhos de produtividade que tendem a decorrer dessa ampliação.

Por volta de 1995, a hora da verdade parecia ter chegado. Houve uma primeira leva de concessões rodoviárias bem-sucedidas, mas de 2003 para cá, apesar do lançamento de programas, o desempenho das novas concessões rodoviárias tem deixado muito a desejar.

O governo tem feito reconhecidos esforços para deslanchar as concessões de transportes.

Mas no fraco desempenho das concessões situa- se a imposição, pelas autoridades, de uma taxa de desconto muito baixa - 5,5% ao ano - a ser utilizada nos cálculos dos tetos de tarifas estipulados para os leilões, o que inibe os investimentos.

Essa é a TIR - Taxa Interna de Retorno - que tanto tem sido citada em matérias sobre o assunto.

Como já foi dito por alguém, no sistema de mercado o espírito animal dos empresários se alimenta de expectativa de retorno. Alternativamente, a atual postura estimula o surgimento de investidores despreparados, que fingem aceitar a empreitada e, posteriormente, correm para buscar algum tipoyjuuuuh de alívio governamental para compensar o baixo retorno dos projetos.

Diante do desempenho decepcionante da economia brasileira nos últimos trimestres, e do recente cancelamento do leilão das BR-040 e BR-116 - por risco de falta de candidatos - o governo anunciou condições de financiamento mais favoráveis do BNDES, e um esforço para ampliar o volume de financiamentos. Dado o elevado montante requerido, que extrapola até as atuais possibilidades do nosso turbinado banco de desenvolvimento, é preciso, sem dúvida, buscar fontes alternativas e outros agentes para viabilizar os projetos.

Ao oferecer condições de financiamento mais favoráveis, alega o governo que o retorno "alavancado" ou do capital próprio do projeto pode subir consideravelmente. Só que o que interessa fundamentalmente aos investidores é examinar o retorno básico do projeto, que está imposto em 5,5%, sujeito às chuvas e trovoadas típicas de projetos desse tipo. Financiamento é só um item a ser considerado nos cálculos de viabilidade.

E, mesmo assim, cabe indagar: o que fazer se o dinheiro do BNDES não se viabilizar? Até porque parte do investimento pode estar prevista para se realizar só lá na frente. E os riscos ambientais e outros do tipo, além dos de frustração de demanda? Ao adicionar os riscos específicos do negócio, a taxa básica escolhida para descontar as receitas líquidas futuras do projeto pode chegar a algo acima de 10%, deixando os 5,5% a comer pó na estrada. Só aí se coloca a concessão em causa em condições de competir com outras alternativas disponíveis. Enquanto o governo fincar pé nos 5,5%, nada de sério acontecerá, e o País continuará travado.

Afinal, o PT é governo ou oposição? - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 11/03

Se a resolução petista recupera uma antiga bandeira, que proclamava em alto e bom som ser ‘contra tudo o que está aí’, ela se volta contra o governo petista. O que está aí é resultado de seus 10 anos de exercício de poder


Eis uma pergunta inadiável, haja vista a Resolução do Diretório Nacional do partido, pregando o que entende por “controle social da mídia” ou “democratização dos meios de comunicação”. Trocando em miúdos, isto significa o controle da imprensa e dos meios de comunicação, a volta da censura.

Não se trata, evidentemente, de negar a necessidade de uma modernização do marco regulatório nacional, pois a nossa legislação, em vários aspectos, é anterior à introdução da internet. O mundo digital, novas tecnologias, novas exigências empresariais e novas formas de regulamentação estatal fazem normalmente parte desse processo de mudança.

Discussões constituem momentos essenciais de um novo marco regulatório, suscitando questões como financiamento de novos investimentos, parcerias público-privadas, introdução de fibras óticas, faixa 4G e assim por diante. Estamos diante do que, em artigos anteriores, chamei de uma regulamentação formal, que nada tem a ver com qualquer tipo de regulamentação do conteúdo jornalístico.

Ora, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tem conduzido esse processo de maneira exemplar, com isenção e competência, procurando, inclusive, oferecer para os próximos anos, para todos os brasileiros, uma internet veloz e barata. Se tivéssemos que utilizar um vocabulário petista, diríamos uma “inclusão digital”.

Logo, é mais do que surpreendente o fato de a Resolução do partido visar a confrontar a presidente Dilma e o seu ministro das Comunicações. Aliás, a presidente tem se caracterizado pela defesa da liberdade de imprensa, contra qualquer forma de censura, e não há por que duvidar de suas intenções. Essas se traduzem por fatos.

Por exemplo, em seu mandato não houve nenhuma “Conferência Nacional das Comunicações”, nenhuma proposta como a Ancinave, nem tentativas de recuperá-las, todas voltadas para o controle da imprensa e dos meios de comunicação. Essas iniciativas e outras eram respaldadas pelos ditos movimentos sociais, que defendem as velhas tendências autoritárias da esquerda, procurando um controle total da informação.

Nesse sentido, o PT foi de uma irresponsabilidade absoluta ao colocar-se contra o seu próprio governo, em uma espécie de oposição a si mesmo. Caberia a pergunta: o PT é ou não governo?

O PMDB deu-se rapidamente conta dessa contradição e se posicionou abertamente contra qualquer tipo de controle dos meios de comunicação, horando a sua própria história. Assumiu o governo do qual faz parte. Defendeu com firmeza um dos pilares de uma sociedade livre e democrática. Mais uma vez, o partido, sob a liderança do vice-presidente Michel Temer, exerceu um papel moderador e institucional.

O discurso contra os “oligopólios”, as “grandes famílias” e a “concentração da mídia”, enquanto formas de exercício do poder que enfraqueceriam a democracia e prejudicariam a participação dos cidadãos, não resiste a uma mínima análise histórica. Se isso fosse verdade, o PT jamais teria conquistado o poder e nele permanecido há mais de 10 anos.

Foram precisamente esses jornais, revistas e grupos midiáticos que possibilitaram que o pluralismo existente se traduzisse pela eleição a presidente da República de um sindicalista. Aliás, um fundador de partido que se dizia “contra tudo que está aí”. As liberdades da sociedade brasileira se caracterizam pela pluralidade de pontos de vista, de opiniões, que viabilizam que um cidadão qualquer eleja um determinado partido ou candidato.

Basta a leitura de um jornal, de uma revista ou ver um noticiário televisivo, em um mesmo veículo, ou em vários, para constatar a sua diversidade. Um editorial, muitas vezes, é um, a opinião de articulistas e colunistas é outra, as matérias jornalísticas outras ainda. A uniformidade jornalística só se constata nos jornais cubanos, tão prezados por aqueles mesmos que procuram implantar a “democratização dos meios de comunicação”.

Se a Resolução petista recupera uma antiga bandeira, que proclamava em alto e bom som ser “contra tudo o que está aí”, ela se volta contra o governo petista. O que está aí é resultado de seus 10 anos de exercício de poder.

Não se trata, isso é evidente, de negar os ganhos sociais dos últimos anos, que são uma conquista da sociedade brasileira como um todo. Trata-se, apenas, de colocar esses ganhos em perspectiva, pois, tendo sido realizados por um governo petista, eles não são, do ponto de vista conceitual, um produto da esquerda, salvo se a entendermos no sentido amplo da social-democracia europeia e do trabalhismo inglês. Ademais, esse tipo de conquista social começou com um governo conservador na Grã-Bretanha e corresponde às políticas públicas da democracia cristã na Itália e na Alemanha.

Conquistas sociais duradouras são aquelas realizadas em sociedades democráticas e livres, um patrimônio da nação, para além das oposições partidárias entre “esquerda” e “direita”. Em todo caso, são totalmente afinadas com a liberdade de imprensa e a ela não se contrapõem. Só uma esquerda atrasada, de tipo “bolivariano”, avatar do comunismo do século XX, parte de uma (falta de) perspectiva diferente. Em nome de sua concepção do “social” são liberticidas.

Ocorre que a Resolução do PT, para além de sua irresponsabilidade em relação ao seu governo, deixa transparecer um ranço ideológico próprio do “socialismo do século XXI”. Para eles, enquanto a sociedade não for totalmente controlada, a “democratização” não está realizada. Se falam de democracia, é com o intuito de subvertê-la de uma forma que possa parecer palatável a uma opinião pública incauta.

O que o partido necessita é superar suas velhas bandeiras, converter-se plenamente às liberdades e às instituições republicanas, abandonando a esquizofrenia que ainda o caracteriza. No que diz respeito à liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral, necessita assumir o seu próprio governo e não contrapô-lo.

Nos mínimos detalhes - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP  - 11/03

O corregedor Nacional de Justiça, Francisco Falcão, definiu o cronograma de correições até outubro. Além da prevista ida a Sergipe, em abril, o ministro programou nova e explosiva inspeção em São Paulo. A ideia é que a varredura seja bem mais ampla que a anterior, realizada em julho de 2012 nas unidades administrativas do Tribunal de Justiça. Desta vez, verificará também o funcionamento dos gabinetes e estenderá a apuração a varas da primeira instância, inclusive do interior.

Nitroglicerina Desembargadores paulistas estiveram no centro da polêmica com a ex-corregedora Eliana Calmon. Ela chegou a afirmar que a corte era "refratária" ao trabalho do CNJ e "fechada".

Calendário Dia 12, Falcão inicia pente-fino no setor de precatórios no TJ do Ceará. Depois, fará correições em quatro Estados: Bahia, Pará, Paraná e Amazonas.

Panos... Enquanto aumenta a tensão entre promotores e deputados paulistas no debate da PEC que restringe as investigações envolvendo agentes políticos, o procurador-geral de Justiça, Márcio Elias Rosa, evita entrar em choque com a Assembleia.

...quentes A tendência é que o chefe do Ministério Público de São Paulo busque abrir diálogo com o colégio de líderes partidários após a eleição da Mesa Diretora, marcada para sexta. Com o novo comando da Casa, interlocutores de Rosa acreditam na possibilidade de acordo.

Boleiros O PTB promoverá, a partir de quinta, campanha nacional de filiações. José Maria Marin, presidente da CBF, será um dos astros da mobilização por novos adeptos, que durará seis meses.

Cobrança Empresas autuadas pela Receita Federal devido à guerra fiscal entre Estados pressionam o ministro Guido Mantega (Fazenda) por uma solução para a "dívida". O problema deve ser resolvido por decisão do STF.

Como assim? O governo está surpreso com os principais líderes setoriais. Pela primeira vez, em uma reunião no Ministério da Fazenda ocorrida na semana passada, ninguém fez "pedidos estruturais", como de praxe. Isso porque eles acreditam que as medidas de incentivo tomadas pelo governo recentemente ainda não surtiram efeito. A indústria já prevê crescimento de 3,5% do PIB.

Paz e amor A expectativa é de que a situação se repita na reunião de quinta entre Dilma Roussef e empresários. Mantega deverá fazer uma apresentação reforçando o impacto que o pacote de concessões terá na retomada do crescimento econômico. A meta é atrair R$ 250 bilhões em investimentos.

Carga... Oito meses após entrar em vigor, o Estatuto do Caminhoneiro voltará a ser discutido no Congresso. Na próxima semana, a Câmara vai instalar uma Comissão Especial para debater as normas que regulamentam a profissão de motorista.

... pesada Entidades como CNI e CNA e empresários do setor de transportes se queixam de que algumas regras, como o descanso obrigatório de meia hora a cada quatro horas de direção, encarecem os custos do frete e podem colaborar com o aumento de preços dos produtos ao consumidor final.

Para exportação A corrupção e a impunidade na política brasileira são tema de debate hoje na Universidade Columbia, em Nova York. A coordenação será de Albert Fishlow, professor emérito da universidade, com a participação do diretor-presidente do Centro de Liderança Pública (CLP), Luiz Felipe D'Avila, e do secretário municipal de Esportes e Lazer do Rio, Indio da Costa (PSD).

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"Até quando resolve demonstrar que tem preocupação social o PSDB precisa copiar um projeto do PT, porque não sabe como fazer."
DO DEPUTADO PAULO TEIXEIRA (PT-SP), autor do primeiro projeto de desoneração da cesta básica, que depois os tucanos propuseram.

contraponto


Olha o nível


Na sessão da Comissão de Direitos Humanos que elegeu Marco Feliciano (PSC-SP), seu colega de partido Hidekazu Takayama (PR) fez analogia exótica para explicar sua posição em relação à homoafetividade:

-Se um homem quer ter relações com sua vaca, perdoamos, mas não podemos aceitar.

Jair Bolsonaro (PP-RJ) provocou ativistas no corredor:

-O lugar de vocês é no zoológico!

Um manifestante retrucou:

-Com esses membros, a comissão não é de defesa, mas de ataque aos direitos humanos!

Um pacto por recursos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 11/03

No Brasil, as coisas sempre ocorrem lentamente. Haja vista a redemocratização. Não foi feita “na marra”, embora alguns trabalhassem por esse caminho. Tivemos que passar pelo Colégio Eleitoral antes de seguir para o sonhado voto direto. A própria Constituição de 1988 está até hoje com uma série de artigos sem regulamentação, alguns inclusive obsoletos. O mesmo mal recai agora sobre o tal pacto federativo. Há quanto tempo você ouve falar da necessidade de uma nova ordem no relacionamento entre União, estados e municípios? E esta semana, finalmente, teremos a chance de saber se “agora” vai e, se ocorrer, será mais pela dificuldade do PT em dividir o poder do que qualquer outro motivo mais republicano.

Dentro do Congresso, há aquela sensação de que finalmente o tempo de maturação do pacto federativo chegou. Ao longo dos próximos dias, teremos uma série de reuniões com a pauta dos estados. Hoje, por exemplo, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) recebe os ex-ministros Nelson Machado e Guilherme Dias, o ex-governador Germano Rigotto e o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Bernard Appy e o economista José Roberto Afonso. Quarta-feira, os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Henrique Eduardo Alves, reúnem os 27 governadores para tratarem do tema. E ainda tem o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, e secretários estaduais na terça-feira, para debater a reforma do ICMS.

Ok, você tem razão. Quando se coloca muita gente na mesa para debater um tema fica difícil chegar a uma alguma decisão. Mas está no ar do Congresso um certo “basta” no que se refere ao velho pires na mão e a certeza de que não é possível essa concentração de receitas e de projetos em Brasília.

Mas, desde que venceu o prazo fornecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para que o Congresso reformulasse a distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e que a reforma do ICMS entrou na ordem do dia, tem-se a percepção de que os políticos pretendem usar essa obrigação para aproveitar e fazer o serviço pendente há décadas.

O novo pacto federativo volta e meia entra na pauta. No passado, Paulo Renato Souza, no papel de coordenador da campanha do candidato Fernando Henrique Cardoso, colocou esse tema como primeiro da lista de prioridades do futuro governo. Perdeu a batalha, porque a maioria não queria rediscutir a federação. Afinal, a concentração da receitas na União estava boa para a maioria dos partidos, cada um se sentindo acomodado em um setor. De vez em quando, havia uma crise, mas nada que comprometesse a divisão global do poder, graças ao jeitoso presidente, que segurava seus aliados na lábia.

Agora, esse quadro mudou. Sob esse biombo da ordem do STF, do ICMS e da praticidade de se resolver obras e serviços nas instâncias mais próximas do eleitor (administrações estaduais e municipais), há o cansaço de deputados e senadores, a maioria da base governista, com a demora do PT em dividir o poder.

Para completar, eles vêem na presidente Dilma um ar de superioridade e impaciência com a classe política, uma atitude que reforça a imagem negativa que se tem dos congressistas de forma geral. Até aqui, todas as mudanças de ministros no governo Dilma Rousseff — e olha que não foram poucas — vieram recheadas de estresse, com os partidos apontando nomes que o Planalto simplesmente rejeitava. Uma rara exceção, foi Aldo Rebelo, do PCdoB, para o Ministério do Esporte. Para as agências reguladoras e cargos de segundo escalão, o PT sempre preferiu indicar os seus, enquanto até os nomes técnicos propostos pelos aliados ficavam esquecidos.

Diante desse quadro, se Maomé não consegue chegar à montanha, no caso as receitas da União, os políticos vão levar essa montanha até Maomé. É isso que estará em curso no pacto federativo. Repassar a estados e municípios os recursos que hoje estão concentrados na União.

Enquanto isso, no Planalto…

Ao longo dos últimos 25 anos, a União foi competente em segurar essa distribuição. Seus técnicos sempre jogavam sobre a mesa algum recurso que faziam com que os estados brigassem entre si, enquanto o grosso do bolo permanecia intocável. Desta vez, parece que o governo pretende usar o ICMS como essa isca. Se vai funcionar, veremos no decorrer dos próximos dias.

BSB-CGH - MELCHIADES FILHO

FOLHA DE SP - 11/03

BRASÍLIA - As lembranças são o combustível de que os homens precisam para viver e não importa se elas têm muito ou pouco significado, escreveu Haruki Murakami no simpático "Após o Anoitecer".

O japonês faz uma curiosa analogia com o fogo. A página de jornal, o ensaio de filosofia, o pôster de revista masculina, o maço de dinheiro -tudo não passa de papel na hora de queimar. A chama não discerne. Consome tudo. Não fica exclamando "Nossa! Isto é Kant!" ou "É a edição de hoje da *Folha de S.Paulo*!" ou "Que belo par de peitos!". Para o fogo, é tudo papel.

Com as lembranças, seria a mesma coisa. Lembranças importantes, mais ou menos importantes ou até as bem miúdas: tudo, indiscriminadamente, é material de combustão. Na medida em que podemos utilizar, de acordo com nossas necessidades, as lembranças que temos, sejam elas importantes ou não, conseguimos tocar adiante.

Lembrei dessas palavras ao tomar a decisão de ir embora de Brasília, e, com isso, ter de me despedir deste espaço admirável -que, três décadas atrás, me capturou adolescente para o jornalismo.

Memórias de toda espécie se empilham na despedida. Colegas, leitores, políticos, pilantras, tanta gente inteligente que produz pouca inteligência, luas lindas, o horizonte que deixa ver o sol subir e descer, os melhores garçons e os piores motoristas do país, a alternância verde-marrom do cerrado, a reverência exagerada a qualquer autoridade... E notícias, notícias, notícias -de relevância cada vez mais difícil de precisar, dados o ritmo alucinante dos "fatos" e a demanda compulsiva da civilização do tempo real.

A alegoria de Murakami serve de consolo. Ficam a impressão de que vida e profissão queimam tudo e todos e a esperança de que, do terreno calcinado de lembranças e notícias, tenha brotado algo de substantivo e digno. Obrigado e tchau.

As intenções e os gestos do governo - JORGE J. OKUBARO

O ESTADO DE S. PAULO - 11/03

Conceitos, expressões, palavras que sintetizam, mais do que anseios de pessoas inquietas, reais necessidades da economia para a retomada do crescimento rápido e sustentável - e por isso mesmo têm sido repetidos por empresários, economistas e brasileiros em geral preocupados com o futuro - começam a aparecer em pronunciamentos oficiais, especialmente da presidente Dilma Rousseff. Pode ser um bom sinal. Pode ser que, de tanto ouvir as queixas do setor produtivo, o governo se tenha dado conta de que há graves obstáculos ao crescimento cuja superação depende, em maior ou menor grau, de suas decisões ou ações.

Há, porém, o risco, já apontado por parte da oposição, de que a nova atitude da presidente da República e seu novo discurso, simbolizado na ênfase de expressões de denso significado, tenham objetivos menos louváveis. Teme-se que tudo seja mais um sinal de que, perturbado pelo mau desempenho da economia e sem poder oferecer respostas adequadas aos que, com razão, pedem medidas efetivas para estimular os investimentos e melhorar a infraestrutura, o governo também tenha decidido colocar a campanha eleitoral nas ruas, como já o fez o ex- presidente Lula - precocemente e de maneira nociva à atividade econômica, ressalve-se.

O objetivo seria manter pelo prazo mais longo possível - até a eleição do ano que vem - o grande prestígio de que a presidente continua a desfrutar, a despeito do pífio desempenho da economia, resumido no baixo crescimento do PIB em 2012, de apenas 0,9%, e na persistência da inflação em níveis superiores ao centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, ameaçando até mesmo superar a margem de tolerância.

Nos últimos dias, a presidente se referiu diversas vezes à necessidade de o Brasil alcançar maior competitividade, para superar os desafios de conquistar espaços crescentes na economia mundial e resistir com mais eficiência aos efeitos da crise.

"O Brasil só vai andai- para a frente se mexer naquelas questões que transformam a competitividade, por exemplo portos e aeroportos", disse a presidente, com toda a razão, em discurso que pronunciou na Paraíba, há uma semana.

Na quarta-feira, em reunião no Palácio do Planalto com governadores e prefeitos, voltou a empregara expressão. "Precisamos perceber que temos que dar um salto de competitividade."

É verdade. Também verdadeiros são os argumentos em favor dos investimentos em educação. O governo quer assegurar para a educação uma fatia dos royalties do petróleo - tema que lhe tem rendido problemas com sua base parlamentar e que resultaram na derrubada do veto da presidente à fórmula aprovada pelo Congresso para o rateio desses recursos.

"Tem que colocar os royalties do petróleo para a educação", disse Dilma, na reunião com governadores e prefeitos. "É a única coisa fundamental. Aí vamos garantir creches, alfabetização na idade certa, ensino integral e formação profissional para romper as amarras da competitividade." Eis aí, novamente, a palavra-chave do que parece ser o novo vocabulário da presidente.

O País precisa de tudo o que Dilma citou nos últimos dias, e muito mais, para de fato tornar- se mais competitivo. Mão de obra adequadamente treinada para atender às exigências cada vez maiores do mercado será essencial para isso. Até mesmo a indústria da construção, tradicionalmente apontada como porta de entrada no mercado de trabalhadores com baixa ou nenhuma qualificação, requer em ritmo crescente profissionais capacitados para lidar com materiais e equipamentos de alta tecnologia. Isso exige um sistema de ensino preparado para formar esses profissionais, o que é bastante diferente do sistema existente hoje.

Portos e aeroportos com maior capacidade e que ofereçam serviços mais eficientes e a custos menores são igualmente indispensáveis para melhorar a competitividade do País. Sistemas rodoviário e ferroviário mais seguros e mais amplos também são imprescindíveis. Oferta adequada de energia elétrica e de telecomunicações, da mesma forma, ajuda a tornar nossa economia mais competitiva.

Não foram citadas por Dilma, mas mudanças institucionais são também indispensáveis para melhorar o ambiente econômico. Apesar de avanços beneficiando sobretudo empresas de médio e de pequeno portes, a burocracia ainda é excessiva e tolhe os investimentos e a atividade econômica. O sistema tributário, complexo demais, pesa exageradamente nos custos de operação no País. Decisões legislativas balizadas por interesses meramente eleitorais geram insegurança no campo jurídico e, da mesma forma, inibem decisões de investimentos.

Paia alguns desses persistentes problemas, o governo apresentou sua proposta de solução. Há uma profusão de planos e anúncios para a modernização de portos e aeroportos, a redução da tarifa de energia elétrica, a melhoria e ampliação das malhas rodoviária e ferroviária por meio de investimentos privados, a retomada das licitações de blocos de petróleo, entre outros. São, em geral, boas notícias.

Alguns planos já produzem resultados. Mas o exame pormenorizado das condições em que outros estão sendo colocados em prática revela dificuldades formais e práticas para sua concretização. Regras mal definidas, exigências exageradas - como a imposição de taxas de retorno muito baixas, com o objetivo de assegurar tarifas igualmente baixas - reduzem o interesse dos investidores nesses projetos, ameaçando inviabilizá-los. Tomando emprestada a letra de Fado Tropical, música de Chico Buarque e Ruy Guerra, pode-se dizer que "há distância entre intenção e gesto" do governo nesses projetos. Essa distância e o risco político da nova atitude do governo alimentam desconfianças.

Vale tudo? - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 11/03

A afirmação da presidente da República de que "podemos fazer o diabo quando é hora de eleição" revela como o petismo vê e pratica a democracia.


Explicita também o desconforto do governo ante reconhecidos e recorrentes fracassos.

Os indicadores não deixam dúvidas: o crescimento médio nos dois últimos anos é o menor desde Collor; a inflação ameaça romper o teto da meta; o PAC não avança e o fechamento das contas públicas de 2012 só foi possível graças a condenáveis manobras fiscais.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, dados da CNI apontam o crescente comprometimento da competitividade da indústria brasileira, que perde mercado no exterior e no próprio país.

Em 2012, a participação dos importados no abastecimento do mercado interno atingiu o nível recorde de 21,6% e, só nos últimos três anos, essa "invasão" subiu 5%.

Com alta carga tributária e sem as reformas estruturais, as empresas brasileiras perdem competitividade, situação agravada no segmento dos produtos de alta intensidade tecnológica, portanto de maior valor agregado.

Para desviar os olhos da população dessa realidade, o marketing assumiu a gestão do país. O site Contas Abertas aponta que, em apenas dois anos, a presidente Dilma gastou em festividades quase o mesmo volume de recursos públicos registrado durante todo o segundo mandato de Lula.

Confiando na falta de informação e memória dos brasileiros, o governo anuncia pela terceira vez a liberação de recursos já anunciados, que seguem não liberados desde 2010.

Veta a proposta do PSDB, aprovada pelo Congresso há seis meses, desonerando a cesta básica, apenas para, em seguida, assumir o mérito da autoria, prejudicando milhões de brasileiros que já poderiam estar usufruindo da medida.

Sob o constrangimento da própria administração, faz uma milionária campanha publicitária para comunicar o fim da miséria no país. Foge do debate do valor per capita definido e contraria a visão de especialistas para quem a pobreza significa um conjunto de privações, e não pode ser superada apenas com transferência de renda, por mais importante que essa seja.

Em outra ação publicitária, o governo se apropriou das reformas dos estádios, apesar de não haver nenhum recurso do Tesouro investido nessas obras: omitiu a participação dos Estados, da iniciativa privada e do próprio BNDES, se abstendo de informar que a presença federal se limita ao financiamento de parte dos custos, feito pelo banco, e que será integralmente pago pelos tomadores.

De um lado a realidade, onde estão os brasileiros e deveria estar a presidente. De outro a pirotecnia, onde estão a sobrevivência dos interesses do PT e a candidata.

Contra ou a favor? - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 11/03
Na década passada, um conhecido músico fazia propaganda de cerveja para uma das grandes marcas de bebida, embora ele consumisse a cerveja do concorrente. Naqueles anos, o Governo administrava a economia sob a batuta de Palocci e Meirelles, apesar do que o PT sempre dava um jeito de falar mal da política econômica. Por isso, nas minhas palestras eu costumava me referir com o nome daquele cantor à síndrome do partido, uma vez que, da mesma forma que o artista fazia propaganda de uma cerveja, mas não era a que preferia beber, o partido do Governo parecia "ter uma política econômica, mas gostar de outra".

Agora, repete-se o "script". Vamos avaliar a situação.

O investimento caiu 4 % em 2012 e o Governo começa a dar sinais de querer induzir o investimento privado em áreas essenciais para o potencial de crescimento do país, como portos, aeroportos, rodovias etc. Vamos chamar as coisas pelo seu nome: trata-se de privatizações.

Na Presidência da República, na Casa Civil, nos ministérios setoriais, nas instituições financiadoras oficiais etc., há centenas de técnicos tentando destravar as amarras que pendem o país à "bola de ferro" da paralisia decisória, inibindo a realização dos investimentos. Não é fácil.

No país das "coalizões bloqueadoras", onde o "lobby" de A apoia o "lobby" de B e vice-versa - com letras para todo o alfabeto -, tudo é complicado no Congresso. E o que faz o partido do Governo? Age como quem "bebe uma cerveja, mas gosta da outra" e divulga um texto onde dá mostras de que continua nutrindo a sua antiga ojeriza pela venda de ativos estatais.

De fato, no seu recente documento "O decênio que mudou o Brasil", está escrito: "Por meio de privatizações sem critérios e decência administrativa, cerca de meio milhão de trabalhadores foram demitidos, com a transferência de quantia equivalente a 15 % do PIB constituídos por ativos do Estado para a iniciativa privada nacional e, sobretudo, estrangeira. Em grande medida, os setores privatizados foram agraciados por elevadas taxas de lucro patrocinadas por tarifas entre as mais altas do mundo e, praticamente, sem a contrapartida de novos investimentos necessários à retomada do crescimento sustentado." Como é que é? O grande problema desse tipo de postura - e que tem impacto sobre a situação atual - é que tal visão expressa diversos equívocos. As afirmações transmitem a ideia de que a riqueza foi "transferida", o que omite o fato de que, se alguém vende, recebe recursos em troca. Transposta para a lógica individual, equivale a dizer que a pessoa que vende um apartamento "transfere" o imóvel, como se estivesse fazendo uma doação. Transfere coisa nenhuma: vende! O fato é que as privatizações liberaram muitas empresas dos controles estatais, evitando que essas empresas continuassem a sofrer os malefícios do apadrinhamento político (já pensou o leitor o que seria a Vale fatiada entre 7 partidos?) e viabilizando um "boom" de investimentos, como os que ocorreram na mineração e na telefonia. Além disso, noves fora o fato de que Vale, Embraer, Oi, as siderúrgicas, as petroquímicas e outras empresas leiloadas na década de 90 são de capital privado nacional, a pergunta que cabe fazer é: qual é o problema de o Banespa ter sido vendido ao Santander ou de parte da Telebrás ter sido vendida à Vivo? Hoje, é preciso adotar uma nova onda de privatizações.

Nesse contexto, afinal, o PT é a favor ou contra as privatizações? Qual é o verdadeiro PT? O da presidente Dilma, que pretende vender os aeroportos para quem entende do assunto, ou o do texto do partido, que dá a entender que vender para estrangeiros é ruim? O do país que tenta se preparar para o século XXI ou o do manifesto que fala mal das taxas de lucros elevadas? Como fazer leilão de concessões quando o partido do Governo é contra as privatizações e fala contra o capital estrangeiro e contra o lucro elevado? Recentemente, o sempre verborrágico Ciro Gomes criticou vários partidos por, na opinião dele, não terem propostas para o país. O PT, nesse caso, em matéria de privatização, inova: ele defende duas coisas antagônicas, agindo simultaneamente como Governo e oposição. Não é de estranhar que os empresários fiquem confusos nesse cenário, na hora de tomar suas decisões de investimento.

Múmias do socialismo - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 11/03

SÃO PAULO - Não é de hoje que déspotas da esquerda socialista terminam mumificados e exibidos ao público. Lênin, Stálin e Mao precederam Hugo Chávez nesse destino. Se o marxismo privilegiou na teoria os movimentos mecânicos e impessoais da história e das classes, na prática não dispensou os seus faraós.

Antes de optar pela mumificação, os mandatários bolivarianos devem ter sopesado o fato de que Chávez não foi um ditador genocida, no que se diferencia de outros líderes socialistas cujos corpos foram preservados da decomposição. Prevaleceu a vontade de reforçar o mito, e com ele o "statu quo", ao menos até a eleição presidencial do mês que vem.

Faz sentido a urgência. A utilidade política das múmias socialistas prescreve antes do preparado que as embalsama. Stálin de glicerina tornou-se logo um incômodo e foi enterrado. Menos de 40 anos após sua morte, a União Soviética desceu à cova.

A China e o Vietnã só não seguiram o mesmo caminho porque, contrariando seus fundadores embalsamados, transformaram-se em ditaduras capitalistas. A pobreza e a degradação campeiam em Cuba e na Coreia do Norte, dois microexperimentos remanescentes.

O chavismo na Venezuela tem a vantagem de não configurar-se como regime socialista. A economia venezuelana, antes e depois de Chávez, é basicamente a mesma. Extrai petróleo e o troca por tudo o que consome.

Os sucessores do caudilho terão de bater-se com agruras típicas de uma economia monoexportadora, agravadas pelo surto de despesas eleitoreiras do ano passado. Prevê-se em 2013 uma forte redução no crescimento do PIB, para 2% ou menos, contra 5,6% em 2012. A fim de diminuir seu deficit, o governo desvalorizou a moeda, o que terá impacto na inflação e no abastecimento.

Na urna de cristal, o cadáver de Chávez terá cada vez menos serventia para enfrentar o agastamento que esse quadro provocará.

O baú das bondades federais - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 11/03
O governo deve cortar mais R$ 18,3 bilhões de tributos, ampliando as desonerações já em vigor e incluindo entre os beneficiários os consumidores da cesta básica e mais alguns setores empresariais. A notícia parece positiva, em princípio, mas por enquanto só foi contada uma pane da história. Cortar impostos pode ser uma idéia muito boa, especialmente num país com uma tributação bem maior que a de outros emergentes e até mais pesada que a de algumas economias desenvolvidas, como a americana, a japonesa, a canadense e a australiana. Mas, para garantir um final feliz, falta saber como fechar as contas. A melhor maneira de resolver o problema e racionalizar os gastos, eliminar desperdícios e aumentar a eficiência do setor público. Nenhuma solução parecida com essa está à vista, no Brasil. A saída prevista, por enquanto, é a redução do superávit primário, isto é, do dinheiro economizado para pagar juros e controlar a dívida oficial. A solução pode ate funcionar durante um ano, mas o governo está assumindo compromissos de longo prazo, alguns permanentes, e o conjunto é muito maior que as bondades previstas para 2013.

Todo possível candidato à eleição presidencial de 2014, incluída a presidente Dilma Rousseff, deveria preocupar-se com essa questão, até porque a festa orçamentária depende só em parte do Executivo. Deputados acabam de aprovar em primeiro turno uma proposta de emenda à Constituição para incluir parte dos funcionários estaduais do Amapá e de Roraima na folha de pagamentos da União. Essa facilidade já havia sido concedida a Rondônia por Lei Complementar de 1981 e consolidada por emenda constitucional de 2009. Pela Lei Complementar, a facilidade oferecida ao governo de Rondônia teria acabado em 1991, mas é muito mais fácil abrir do que fechar as torneiras dos benefícios federais.

A festa orçamentária de 2013 pode até ficar mais quente, mas já está bastante animada. Neste ano, as desonerações previstas até agora devem atingir R$ 70,7 bilhões. O governo tentará abater até R$ 65,2 bilhões do resultado primário, para compensar as reduções de tributos e alguns aumentos de gastos. Graças à redução dos juros básicos, argumentam alguns economistas, o governo pode baixar sem risco o alvo fiscal. A meta de superávit primário oficialmente em vigor, equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB), é apontada como excessiva por esses técnicos.

O argumento é perigoso, porque os juros podem novamente subir e isso afetará o custo da dívida, mesmo se a taxa permanecer abaixo dos níveis de 2011. Além disso, o governo melhorou os números finais do ano passado por intermédio de maquiagem. Por meio da famigerada contabilidade criativa, as autoridades tornaram mais apresentável a situação do Tesouro, mas nenhuma pessoa minimamente informada se deixou enganar. Mas o ponto mais importante é outro. O disfarce contábil, mesmo quando funciona por algum tempo, apenas retarda a percepção dos problemas. Em algum momento o País terá de enfrentar a realidade. Então, a solução dos problemas será muito mais penosa.

Falta saber, é preciso insistir, como acomodar, a médio e a longo prazos, as desonerações, o aumento de gastos e os compromissos vinculados aos programas de investimentos. O Executivo promete antecipar receita a quem investir em ferrovias, assumir riscos dc várias parcerias c transferir dinheiro a bancos particulares para a infraestrutura. Tudo isso será somado às novas desonerações e àquelas já em vigor. Ao mesmo tempo, o Tesouro continuará capitalizando e alimentando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Tem-se falado também sobre socorro a distribuidoras de eletricidade, forçadas a trabalhar com a energia mais cara das usinas térmicas.

Boa parte dessas operações elevará a dívida bruta do Tesouro. Pate da dívida líquida será disfarçada com a contabilização de créditos, como até agora, mas só os muito otimistas levam a sério essa contabilidade. Enfim, até agora, tem-se falado muito sobre bondades fiscais. Falta falar seriamente sobre como ajustar o orçamento para receber sem um grande estouro todos esses encargos.

Retomada irregular - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 11/03

Indústria se recupera em janeiro, mas ainda está distante dos picos de produção fabril atingidos quase dois anos atrás


A recuperação do crescimento neste ano depende, sobretudo, do comportamento da indústria, de um lado, e dos investimentos, de outro. Esses foram, afinal, os fatores diretamente responsáveis pelo decepcionante desempenho do PIB, com a minguada expansão de 0,9% no ano passado.

As primeiras notícias sobre o desempenho industrial de 2013 são promissoras. Segundo o IBGE, a produção fabril cresceu 2,5% em janeiro, na comparação com dezembro de 2012, no indicador livre das variações sazonais.

Se o dado pudesse ser tomado por si só, como indicador de tendência, implicaria uma evolução da indústria nacional num ritmo muito forte, superior a 30% ao ano. Não é o que se depreende, contudo, da leitura em contexto do desempenho do setor.

A recuperação abate pouco do atraso na produção. Apesar de ter crescido, o volume de bens fabricados em janeiro de 2013 ainda está nos níveis dos dois últimos meses de 2011 e permanece 3% abaixo do pico, atingido em maio daquele ano. Ou seja, ainda será preciso crescer para atingirmos o patamar verificado quase dois anos atrás.

Se é indispensável produzir e investir mais para o Brasil acelerar seu crescimento, então a indústria de bens de capital -máquinas, equipamentos, estruturas- merece especial atenção neste ano.

A recuperação desse setor vital em janeiro foi mais forte ainda, de 8,2% em relação a dezembro. Ocorre que a distância para o auge, também registrado em maio de 2011, é de 10%.

Outro problema da retomada industrial é sua irregularidade. O impulso registrado em janeiro, liderado pelo setor automobilístico, provavelmente não se repetiu em fevereiro, como sugerem alguns indicadores preliminares. Analistas esperam estabilidade ou mesmo nova queda da produção fabril no segundo mês do ano.

Até pela fraca base de comparação -em 2012, a indústria recuou 0,8%, e os investimentos regrediram 4%-, os dados são compatíveis com a expectativa de que o Brasil cresça entre 3% e 3,5% neste ano. O controle da inflação, que já se aproxima do teto de 6,5% da meta anual, torna-se uma das principais ferramentas de curto prazo para garantir ao menos esse desempenho esperado do PIB.

O mais preocupante, contudo, é o conformismo em torno desse desempenho ainda fraco, embora melhor, da economia.

Sem almejar taxas regulares acima de 4% de crescimento anual do PIB, o Brasil não se tornará desenvolvido no horizonte das próximas gerações.

Cegueira na prevenção - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 11/03

Do Leme ao Pontal, como diz a música, o Rio ostenta um litoral que encanta o mundo. Ao mesmo tempo, o carioca, de modo geral, tem muita dificuldade de ver nessa privilegiada faixa do território oportunidades de aproveitamento que vá além do banho de mar e outras atividades de lazer. Não se discute que esses são hábitos a serem preservados, na verdade até incentivados, parte que são do modo de vida de moradores. São também fonte de atração para o turismo e, sobretudo, atividades saudáveis. Mas isso não justifica o preconceito de deixar o mar e seu entorno à margem de empreendimentos que contribuam para o desenvolvimento econômico, urbanístico e cultural da cidade.

Nesse sentido, é cego e anacrônico o preservacionismo que contamina as discussões sobre a revitalização da Marina da Glória. O atual projeto em debate, aprovado preliminarmente em Brasília pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é claro quanto ao propósito de aproveitar as potencialidades econômicas daquela faixa do Aterro, respeitando-se seus pressupostos ambientais . É uma diretriz moderna, que vem sendo adotada por outros países tanto em obras de recuperação de áreas degradas como em regiões em que a ocupação deve ser regida por normas urbanísticas que protejam o meio ambiente.

O projeto, tornado público recentemente, prevê a ampliação e modernização das instalações náuticas e de turismo da Marina, bem como a preparação daquela faixa de água para as competições de vela das Olimpíadas de 2016 — este, um compromisso assumido com a comunidade internacional pelos entes envolvidos na organização dos Jogos. Além disso, deverão ser construídas unidades comerciais e, principalmente, um centro de convenções, espaço de que a cidade sofre de crônica carência.

Lastreadas por um investimento de R$ 200 milhões, são intervenções, por si, positivas para o crescimento da cidade. Mas, localizadas em região que, por suas peculiaridades, tombada pelo serviço do patrimônio público, precisam ser implementadas dentro de estrita obediência à legislação. A aprovação preliminar pelo Iphan sinaliza que tal pressuposto está contemplado no projeto. De qualquer forma, antes do canteiro de obras, as propostas ainda passarão pelo crivo de outros organismos.

Ações em defesa do meio ambiente são, por óbvio, importantes para proteger a natureza de crimes ambientais. Mas o preservacionismo cego não pode ser pretexto para boicotar o crescimento ordenado e responsável da cidade. De resto, no caso da Marina, objeto de um aparentemente sério projeto de revitalização, pode-se lembrar que, no sentido estrito da preservação, o Aterro do Flamengo, que a abriga, sequer existiria hoje, pois se trata de um empreendimento — grandioso e, como se viu, benéfico para a cidade — que subtraiu ao mar uma extensa faixa. Não fosse a visionária teimosia de Lota Macedo Soares, que o idealizou enfrentando resistências de seu tempo, o carioca não teria hoje o belo parque, sinônimo de qualidade de vida.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Um desperdício de dinheiro"
Senador Aloysio Nunes (PSDB-SP)definindo o novo Ministério da Micro Empresa


Aécio Neves e Joaquim andam conversando, e muito

Dois campeões de audiência em pesquisas de intenção da votos para presidente da República, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, andam conversando, e muito. Eles se encontraram casualmente na noite de Brasília, mas depois as conversas ficaram freqüentes. Os amigos comuns sonham com essa “chapa perfeita” na eleição de 2014.


Eles sabem

Tanto Aécio Neves quanto Joaquim Barbosa gostam de freqüentar o bar Balcony 412, o favorito de quem sabe das coisas em Brasília.


Não é do ramo

Aclamado por onde anda, Joaquim Barbosa não tem jeito de político. Chega a se irritar com assédio de fãs que pedem fotos ao lado dele.


Espelho meu

A imprensa alemã destacou o “pibinho” de 0,9% do governo Dilma, que em 2012 deu lições de crescimento à chanceler Angela Merkel.


Novo sindicato

A atuação conivente da Agência Nacional de Aviação Civil tornou inócuo o Sindicato das Empresas Aéreas (Snea), por substituí-lo.


Quadrilhas do tráfico assumem controle  do entorno do DF

Levantamento da área da Polícia Federal que combate o narcotráfico revela um dado alarmante: o chamado “entorno” do Distrito Federal logo será controlado pelo crime organizado, num fenômeno semelhante aos do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. Se nada for feito, e com urgência, as polícias Militar, Civil e Federal serão impedidas de entrar nessas áreas, como ocorreu por décadas nas favelas cariocas.


Falta investimento

Delegado de combate ao tráfico lamentou à coluna que os governos de Goiás e DF e o federal não parecem atentos ao avanço das quadrilhas.


Mercado

Ostentando a mais elevada renda per capita do País, Brasília virou a “meca” dos traficantes, inclusive aqueles expulsos dos morros do Rio.


Hasta la democracia

O Sindicato dos Jornalistas de Caracas sugeriu aos repórteres coletes à prova de balas. É o chavismo exercendo o “controle social da mídia”.


Ameaça à liberdade

O presidente do PT, Rui Falcão, afirmou em entrevista que em abril virá com tudo pela “democratização da mídia”. Ele deve sonhar com o fim das críticas da imprensa livre a meliantes mensaleiros, por exemplo.


Nada, ainda

Lula deu ordem ao prefeito Fernando Haddad para cuidar somente dos projetões. Só sair à rua quando tiver para mostrar projetos no atacado. Os taxistas paulistanos já estão apelidando o prefeito de "Naddad".


Doce de pessoa

Anda tão mal humorado o presidente do STF, Joaquim Barbosa, que, ao receber a visita dos novos dirigentes da OAB nacional, proibiu fotografias. Há dias, ele mandou um repórter “chafurdar no lixo”.


Companheirada

Portaria da Receita Federal liberou do ponto seleto grupo auditores ficais sindicalistas para um estudo de melhorias dos próprios salários. A “pesquisa”, utilizando a estrutura interna, vai durar três meses.


Boquinha

O ex-secretário Antidrogas Pedro Abramovay, demitido após defender a não punição de traficantes, conseguiu um cargo na área jurídica da Casa Civil para a mulher, Carollina. Foi nomeada em 6 de setembro.


Oremos

Com um padre indicado pelo PT e 14 pastores por outros partidos, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias se arrisca a ser conhecida como Comissão dos Direitos Pastorais da Câmara dos Deputados.


Má supervisão

O deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) quer convocar a ministra Miriam Belchior (Planejamento) para explicar a má supervisão de obras nas rodovias, como apontou relatório do Tribunal de Contas da União.


For export

Ícone do capitalismo à brasileira, que maltrata clientes, a TAM exporta o estilo. A filha do embaixador no Chile em Dublin denunciou ter sido maltratada no balcão da TAM em Londres e na escala em São Paulo.


Pensando bem...

...o ex-ministro José Dirceu não precisa mais do passaporte. Hugo Chávez vai esperá-lo na Venezuela até a eternidade. Embalsamado.

Poder sem pudor

Nada como ter paciência

A mudança de comportamento do PT, desde que virou governo, faz lembrar uma historinha que era contada há tempos, em Brasília, pelo jornalista e advogado Edísio Gomes de Matos. Ele se lembrava de um tio, no interior do Ceará, que tinha uma farmácia onde se jogava o bicho. Um candidato a governador fez a campanha anunciando que ia acabar com o jogo do bicho e ganhou. Edísio procurou o tio, preocupado, para saber como ele se sentia diante da vitória do adversário. E o tio, sábio, respondeu:
- Não se preocupa, não, menino... Todo governo novo fica velho...

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: Razões do pibinho – Gastos em Transportes caem R$ 4,3 bi em um ano
- Folha: Igreja vive um ‘tempo difícil’, diz dom Odilo
- Estadão: Às vésperas do conclave, cardeais falam de reconciliação
- Correio: Brasileiro vive dia de papa em Roma
- Estado de Minas: BH, capital do trabalho
- Jornal do Commercio: Brasileiro cada vez mais favorito a papa
- Zero Hora: Polo naval esbarra na falta de mão de obra

domingo, março 10, 2013

Dois mulatos - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 10/03

O pranto de Marighella e as queixas de Dolores Duran


Lendo a biografia de Dolores Duran, escrita por Rodrigo Faour, revivi toda a minha frustração por não ter podido encontrar essa cantora e compositora excepcional quando de minha vinda para o Rio com Bethânia. Dolores tinha morrido, aos 29 anos, cinco anos antes de eu chegar aqui com minha irmã. Na noite do dia em que ela morreu, eu e Chico Motta, meu melhor amigo de infância e adolescência (e irmão para sempre), fizemos uma homenagem à sua memória: percorremos as ruas de Santo Amaro na madrugada, em silêncio, tendo inclusive nos separado, cada um para sua casa quando chegamos à esquina mais próxima das duas, sem dizer nem “té manhã”. O fato é que estávamos profundamente comovidos com a notícia sobre aquela mulher que tinha cantado “Não se avexe não” e escrito “Por causa de você”.

Chico sabia que eu a tinha visto em carne e osso, no auditório da Rádio Nacional, três anos antes. Mas quando isso se deu eu tinha 13 anos: admirava a cantora e sentia simpatia extrema pela pessoa, apenas já quase sabia que a amaria tanto. Seja como for, a figura vital e engraçada que surge da pesquisa de Faour não me surpreende: a “fossa” dos sambas-canções era uma exigência, por assim dizer, natural; a letra de “Estrada do Sol” representava o mais radical contraste com essa exigência; “Por causa de você” é exceção pioneira de canção de amor otimista em português; o canto cômico dos baiões de Chico Anysio e dos sambas de Billy Blanco — assim como a voz heterônima das canções americanas que ela gravou — provinha de uma alma amante da vida.

Uma cena me emocionou de forma única na narrativa (sempre em tom quase exageradamente informal) de Faour: a presença de Dolores numa palestra de Marighella em reunião organizada por Jorge Goulart e Nora Ney. Esse casal — de quem tive a sorte de me fazer amigo nos anos que se seguiram à explosão de Bethânia no cenário nacional, amizade que perdurou até minha prisão e exílio em 1968/69 — era comunista e atuava no ambiente de músicos e artistas como divulgadores e propagandistas do projeto do socialismo mundial. Dolores era simpatizante da causa. Por essa razão (e por seus dotes vocais e cênicos) foi convidada a unir-se ao grupo de músicos brasileiros que iriam (inclusive por interesse do presidente JK) se apresentar na União Soviética.

Imagino essa sala na Zona Sul do Rio em que os dois mulatos coincidiram. Já contei aqui que Marighella chorou copiosamente ao tomar conhecimento dos horrores do stalinismo, mas, como se sabe, ele nunca abandonou o sonho comunista e terminou morrendo por ele. Dolores (que, tal como ele, na época nem tinha sua condição de mulata como informação que viesse pegada a seu nome) não era ligada diretamente ao Partidão. Voltou da União Soviética indignada com o que viu. E era a URSS de Kruschev. Um texto de Jorge Goulart defendeu o mundo comunista das acusações de Dolores. E no depoimento que dá a Faour critica branda mas maliciosamente Dolores: diz que ela reagiu mal à experiência russa por preferir beber na embaixada americana a fazer os passeios e visitas propostos pelos organizadores soviéticos. As entrevistas de Dolores publicadas à época soam um tanto irresponsáveis. A má vontade com o que viu pode confirmar algo daquilo que Goulart insinua: que ela, identificada com o mundo decadente do Ocidente capitalista, ouviu a versão corrente na embaixada dos Estados Unidos. A acusação que vem velada na fala de Goulart, mas tem semelhança com o que esquerdistas de então e de hoje dizem de críticos e dissidentes de países socialistas. Segundo Faour, Paulo Moura (que também voltou da Rússia antes do previsto) compartilhava do desconforto de Dolores.

Imagino essa moça talentosa e boêmia, aos 27 anos, vendo a vida acinzentada do socialismo do Leste europeu. Orgulho-me de que ela tenha sido desabrida ao expor sua decepção na volta. Mas sempre vejo a complexidade de situações como essa. Os membros do Conjunto Farroupilha dizem que adoraram tudo na URSS e que Dolores estava fora de sintonia. Nora Ney nunca mais foi sua amiga. O socialismo jamais desaparecerá do horizonte: lutamos com o mundo pela justiça e pela grandeza. Mas o pranto de Marighella e as queixas de Dolores continuam tendo muito a dizer. Dolores, uma das maiores artistas que temos tido. Uma suburbana carioca descendente de nordestinos semi-iletrados que exibiu de modo exuberante a potência criativa deste país. Quando penso nesse conjunto de coisas, em Dolores e Marighella na mesma sala, em Nora e Jorge versus Paulo Moura, sinto o quanto o Brasil tem que fazer. Capto a energia de uma reviravolta suave ou brusca mas imensa que devemos cobrar deste país.


Diga-me o que veneras - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 10/03

Talvez isso diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que ainda não conseguimos vencer

Venerar: prestar culto, adorar. Respeitar ou admirar muito. Reverenciar. Isso segundo os dicionários, pois eu ainda acrescentaria: ficar com os quatro pneus arriados, perder o senso, surtar. Pois é, tenho pensado nesse verbo venerar e descoberto coisas.

O que você venera? Refiro-me a algo que você idolatra íntima e secretamente, algo que lhe parece inatingível – ao menos você supõe que é inatingível. Não estou falando de se aproximar de ídolos ou visitar lugares paradisíacos, e sim das suas carências de infância: o que você venera e que nunca possuiu, e, por não possuir, acabou tornando-se refém?

O que você venera é seu ponto fraco.

Digamos que você venere a inteligência e a cultura. Foi criado sem acesso a cursos, livros e cinema, e acabou desenvolvendo uma fissura por tudo o que pareça intelectualizado num grau acadêmico que você nunca sonhou roçar. Fica pasmo diante de qualquer pessoa que fale sobre o que você não conhece, extasia-se diante de tanta erudição, que talvez nem seja tanta assim, mas que você vê como imensa. Olhe para si mesmo: tão aparentemente seguro, mas embasbacado diante de qualquer um que saiba meia-dúzia de palavras em latim ou que lembre quem ganhou o Oscar em 1972.

Digamos que você venere a beleza. Foi o patinho feio da escola, desde cedo compreendeu que não ganharia nem o título de miss simpatia, e foi o que bastou para dar pane no cérebro: diante de um belo espécime, cai de joelhos. De que adianta tanta leitura, tanto estudo, tamanho acervo de conhecimento? Basta um par de olhos verdes piscantes em sua direção e seu QI cai a níveis subterrâneos.

Digamos que você venere a segurança, já que nunca teve certeza de que seu pai voltaria para casa ao fim do dia e de que sua mãe não fugiria com o vizinho. Basta que alguém tenha um cargo de poder, opiniões bem sedimentadas e um endereço fixo para que você o adote como pai ou mãe substitutos. Enfim, uma muleta que o sustente. A pessoa eleita sabe como conduzir o dia, articula claramente as ideias, reage bem a imprevistos. Você funda uma religião: ele ou ela é agora seu Deus, e você será um eterno discípulo.

Digamos que você venere o dinheiro: sempre teve que implorar por trocados, nunca teve o suficiente para seus sonhos, considerava-se o mais pobre da turma, aquele que os professores, insensíveis, delatavam na frente da classe como o aluno com a mensalidade da escola atrasada. Basta saber que a parceira de escritório passa as férias em Fort Lauderdale ou que o companheiro de bar tem um carro que vale um iate, e seu conceito de “amizade de infância” se expande a uma velocidade surpreendente.

O que você venera? Seja o que for, preste atenção. Talvez diga tudo sobre aquela incômoda sensação de inferioridade que cada um de nós, disfarçadamente, ainda não conseguiu vencer.


Seremos todos telefones - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 10/03

No futuro próximo, os recém-nascidos, ainda na maternidade, terão vários chips implantados no cérebro e serão conectados antes de aprenderem a falar, talvez numa rede social especializada


Esse negócio de Google tirou a graça de muitas coisas. E dificultou a vida dos que mourejam nas letras, obrigados por profissão e ganha-pão a escrever com regularidade, fazendo o que podem para atrair o interesse de leitores e mostrar serviço, pois bem sabem que a mão que afaga é a mesma que apedreja e o quem-te-viu-quem-te-vê será o destino inglório daqueles que dormirem no ponto. Antes do Google, o esforçado cronista recorria a almanaques e enciclopédias e deles, laboriosamente, extraía novidades para motivar ou adornar seu texto. Agora todo mundo pode fazer isso num par de cliques. Além do mais, o cronista podia também exibir-se um pouco, o que talvez trouxesse algum benefício ao combalido Narciso que carrega n’alma, além de realçar-lhe a reputação. Somente alguns poucos, entre os quais ele, tinha tal ou qual informação, ou lembrava certos pormenores, em relação ao assunto comentado. O Google acabou com isso e quem hoje em dia chegar ao extremo de escrever algo do tipo “você sabia?” se arrisca a desmoralização instantânea.

Mesmo consciente desses perigos, ouso dizer que a maior parte de vocês não sabia que hoje é o dia do telefone. Eu por acaso sabia e me lembrei assim que vi a data no calendário. E também já sabia de uma porção de coisas adicionais, inúteis mas talvez vistosas. Tudo isso, juro que é verdade, sem recorrer ao Google. Faz mais tempo que eu gostaria de admitir, escrevi um trabalho escolar sobre Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, e não me esqueci de fatos importantíssimos. Para começar, Bell não era americano, como geralmente se pensa; era escocês. E, se vocês pasmaram com esta, pasmem com a próxima: nos primeiros telefones, não se falava e escutava ao mesmo tempo, era como nos walkie-talkies dos filmes de guerra americanos e os interlocutores tinham que dizer “câmbio”, ao terminarem cada fala.

E, sim, D. Pedro II garantiu o papel do Brasil no sucesso da invenção. Os historiadores americanos lembram como Sua Majestade, durante uma feira internacional em Filadélfia, ficou estupefato com o novo aparelho e exclamou: “Meu Deus, isto fala!” Parece que ele botou mais fé na novidade que os americanos, porque o presidente americano Rutherford B. Hayes declarou mais tarde que se tratava de um aparelho interessante, mas sem nenhuma utilidade. D. Pedro ganhou um e as centrais telefônicas começaram a se instalar no Brasil, notadamente no Rio de Janeiro e, segundo eu li, tinham o hábito de pegar fogo com grande frequência. O coronel Ubaldo, meu avô, como vários de seus contemporâneos, na hora de falar no telefone, botava o paletó e passava a mão na careca, parecendo ajeitar uma cabeleira invisível e, depois que contaram a ele que funcionava com eletricidade, acho que nunca mais tocou em nenhum.

E mais sensacionais revelações eu teria a fazer, mas suspeito que todas podem ser achadas no Google, para quem for suficientemente obsedado. O que não se acha no Google são minhas memórias pessoais em relação ao telefone. A primeira lembrança é o telefone lá de casa, quando morávamos em Aracaju. Se não me engano, o número era 631 e o aparelho ocupava um espaço solene, no corredor de entrada. Recordo as duas enormes baterias, com o formato de pilhas de lanterna, mas muito maiores. Pegava-se o fone, rodava-se a manivela e falava-se com a telefonista, para pedir a ligação. Nessa época, Salvador já tinha telefones automáticos, parecidos com os que a gente via no cinema e com um número enorme. O da casa de meu tio Cecéu, por exemplo, era 8521 e eu causava grande inveja em meus colegas de Aracaju, quando dizia que meu telefone em Salvador tinha esse numerozão — e sem telefonista.

Já as ligações interurbanas eram um problema, mesmo em Salvador ou qualquer outra cidade. Nem sempre se conseguia e o telefonema tinha que ser programado com muita antecedência. Às vezes, esperava-se o dia inteiro pela ligação. Quando a conversa se iniciava, as vozes se perdiam numa fanfarra de zumbidos, estalos, pequenos estampidos e ruídos de toda espécie, em que os telefonadores se esgoelavam em gritos altos e palavras repetidas aos berros. Era inevitável a suspeita, em alguns casos convicção, de que seria mais eficaz chegar à janela e soltar esses berros na direção da cidade para onde se telefonava, levando o papo diretamente no gogó, sem precisar de nenhum aparelho.

Pois é, nada como um dia depois do outro. Ainda passei por mentiroso, quando, regressado ao Brasil depois de uma longa temporada nos Estados Unidos, contei que o sujeito em Los Angeles discava diretamente para Nova York, na outra ponta do país, a ligação se completava como se fosse local e se ouvia perfeitamente a voz do lado de lá. Estabelecia-se um silêncio constrangido entre os ouvintes e não eram raros comentários elogiando minha fértil imaginação de romancista. O curioso é que lá eu também passava pela mesma situação, quando contava que, no Brasil, havia gente que esperava a instalação de um telefone durante décadas e as linhas eram valorizadas como excelente investimento e deixadas como herança.

Por fim, chegaram os celulares e tabletes. Tem gente que não larga o celular nem no chuveiro e dizem que já é até um acessório sexual indispensável para muitos. Creio que, no futuro próximo, os recém-nascidos, ainda na maternidade, terão vários chips implantados no cérebro e serão conectados antes de aprenderem a falar, talvez numa rede social especializada. Um chip, secretamente instalado no celular do cônjuge infiel, mostrará à parte corneada o endereço exato do motel onde o (a) sem-vergonha prevarica. Um aplicativo ora sendo aperfeiçoado saberá, por sutis alterações na voz, quando quem fala está mentindo. Realiza-se o sonho de não passarmos de uma colmeia toda interligada, em que não haverá vida privada. Feliz dia do telefone para todos.

Chávez não morreu - AGAMENON

O GLOBO - 10/03

Todos choram na Vila com a inesperada e repentina morte do ditador e comediante Chávez: Seu Madruga, Chiquinha, Quico, Dona Florinda, Professor Girafales e, principalmente, o Seu Barriga que, coitado, nunca mais vai receber o aluguel! O caricato militar venezuelano, como bom milico, bateu as suas lustradas botas depois de uma longa batalha contra o câncer que, mesmo sendo brabo, não era tão maligno como ele. Durante muito tempo, os médicos cubanos garantiram que um dia ele ia ficar bom. Mas quem conheceu o meu amigo Chávez sabia que bom, bom mesmo, ele não ia ser nunca.

Enlutado, o povo venezuelano se vestiu de vermelho e foi às ruas para enterrar o seu Pai dos Pobres e eu, é claro, também estava lá em Caraaaca!, com minhas lágrimas de crocodilo, para dar o último adeus ao espirituoso e autoritário populista latino americano. Todos os ortopedistas e fisioterapeutas que acompanham a minha coluna sabem que eu, Agamenon Mendes Pedreira, privei da intimidade de Hugo Boss Chávez de quem, fui amigo, confidente, seguidor e chantagista secreto.

Chávez era um homem polêmico: odiado pelos neoliberais de direita, temido pelos opositores porém, mais do que tudo, amado pelos puxa-sacos que, de tanto puxarem o escroto (o órgão, não o ditador), acabaram provocando um tumor na região pélvica do folclórico comandante bolivariano. Gostaram desta “sacada”?

Assim como neoliberalismo na década de 90, o neopopulismo está bombando na América Latina, o Continente Perdido. Grandes estadistas cucarachas estão no comando da América do Sul que marcha a passos largos na direção do século 19 : Dilma Inácio Roskoff da Silva , Hugo Chaves y Chapolin, Cretina Kirchner, Ovo Morales, Rafael Carreira, Ollanta Humala Sem Alça e outros geniais estadistas de esquerda estão provando às grandes potências mundiais que é possível construir uma sociedade mais justa, acabar com a pobreza e criar um mundo melhor. Mas não aqui. De repente em outro continente, na Nova Zelândia quem sabe.

Chávez e eu éramos unha e carne. Unha de um na carne do outro. Nos momentos de lazer, praticávamos juntos à arqueologia e necrofilia bolivariana. Ao seu lado, ajudei o ex-ditador vitalício a exumar o cadáver do Libertador da Avenida das Américas, Simão Bolívar. Na intenção de descolar “um qualquer” num brechó da Praça XV tentei, depois de abrir o caixão de Bolívar, levar, na mão grande, a espada daquele famoso personagem histórico. Mas não adiantou nada porque o objeto cortante de duplo sentido já se encontrava em adiantado estado de decomposição.

Penalizado com a minha vida miserável de jornalista, Chávez resolveu me nomear presidente da PEDEVERGA, a estatal bolivariana que se dedica à exploração de vibradores em buracos profundos. Infelizmente, não me adaptei às condições insalubres e dolorosas daquela sinecura venezuelana e pedi demissão .Mesmo assim, Hugo Chávez, sempre um bom camarada, resolveu me nomear Embaixador da Venezuela em Cuba. Ingrato reclamei com o estadista: “Porra, Chávez ? Em Cuba? Tu não tem um lugar melhor?”. Generoso, Chávez exclamou: “Tens razão, Agamenon! Vou te mandar à m*#!!*erda!”

Para quem não conheceu o ditador de perto, posso afirmar que Chávez também era um bom companheiro de farras. Uma vez, no Palácio de Miraflores em Caraaaaaca!, eu, ele e a Isaura, a minha patroa, enchemos a cara de uca e começamos, os três, uma bacanal boliviarina. No meio daquela orgia pornográfica onde ninguém era de ninguém, acabei rompendo com o ditador machão que nunca me perdoou por aquela traição política.

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Desconfiados,milhares de venezuelanos foram às ruas em Caraaaca! para dar o último adeus à Chávez e terem certeza que o ditador tinha mesmo morrido.

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Agamenon Mendes Pedreira é jornalista bolivariano.

Triste país - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 10/03

Tem horas que nem sei o que dizer. Será que esse país não vai ter jeito nunca?


Lembro bem; era um domingo de sol em outubro ou novembro de 1955, e acordei com o rádio noticiando que o hotel Vogue estava pegando fogo.

O Vogue era na Princesa Isabel, no Rio, e no andar térreo funcionava a boate mais famosa da cidade.

Era lá que se encontravam os políticos (a capital da República ainda era aqui), as beldades e o high society em geral. Não havia jantar, coquetel, festa, que não terminasse no Vogue, onde as crooners eram Linda Batista e Araci de Almeida, olha que luxo; às vezes aparecia Dolores Duran para dar uma canja.

Só saiamos de lá com o sol raiando, e vivíamos intensamente os anos dourados, onde se nem todos eram felizes, todos pareciam ser. Foi a melhor boate que o Rio já teve.

No dia do incêndio a cidade inteira foi para a porta do hotel. Ou pelo menos todos os amigos dos que lá moravam. A agonia foi lenta, durou horas. As escadas do hotel eram forradas de madeira, o que ajudou o fogo a rapidamente chegar ao último andar (eram 12).

Como num incêndio não se pode usar o elevador, e pelas escadas em chamas ninguém podia descer, ficaram todos em seus quartos esperando por um milagre, o que não aconteceu. Chegaram os bombeiros, mas suas escadas iam só até o 4º andar; um boêmio muito conhecido na época, o Dantinhas, teve sangue frio para conseguir se salvar.

Ele pegou os lençóis, amarrou um no outro, molhou, para que os nós não se desfizessem, se vestiu inteiro -conta a lenda que não se esqueceu nem de botar a pérola na gravata- e desceu pelos lençóis até encontrar, mais abaixo, a escada dos bombeiros.

Foi o único que se salvou (e quando chegou na rua não falou com ninguém; foi para um bar ali perto, onde tomou uma garrafa de uísque inteira).

Os recém casados Glorinha e Waldemar Schiller foram encontrados abraçados, mortos, dentro da banheira, e duas pessoas se jogaram da janela, entre elas um cantor americano que fazia o show do Vogue naquele momento. Foi uma tragédia que abalou o Rio de Janeiro; quem viu nunca esqueceu.

Promessas foram feitas pelo chefe do Corpo de Bombeiros, pelas autoridades; aquilo havia sido uma lição, nunca mais nada de parecido aconteceria. Pois esta semana, 57 anos depois, a história se repetiu.

Um prédio no Leblon pegou fogo -e a tragédia só não foi maior porque o prédio tinha apenas quatro andares. Mas um casal não resistiu às chamas, se atirou e morreu- ela com 33 anos, ele com 57; eles pareciam muito felizes.

A assessoria do Corpo de Bombeiros declarou que no Rio existem apenas três unidades que têm plataformas e escadas; escadas tão curtas que nem chegam ao quarto andar. E o hidrante não tinha água, claro.

Dizer o quê? Que o Brasil continua o mesmo de 57 anos atrás, que ninguém faz nada para melhorar os serviço mais elementares, que os bueiros explodem, as escadas dos bombeiros são pequenas, mas que, segundo nossos dirigentes, o Brasil -o Rio, sobretudo- está bombando?

O governador declarou que o socorro foi de padrão internacional, que tal? Claro, ele deve estar comparando com Paris, onde passa a maior parte do tempo; já o nosso prefeito só pensa em carnaval, em samba, em alegria. Eu preferia ter um prefeito e um governador mais sérios, que cuidassem mais da nossa cidade e de seus habitantes.

Aliás, não me consta que o prefeito esteja estudando uma solução para os blocos, que este ano passaram de todos os limites; ele acha que é legal uma cidade animada.

Tem horas que nem sei o que dizer. Será que esse país não vai ter jeito nunca? As escadas dos bombeiros eram e continuam sendo pequenas? Então, feche-se o Corpo de Bombeiros, por sua inutilidade.

E aproveitando o embalo, fecha-se Brasília.


Improviso e politicagem eleitoreira - CLAUDIO J. D. SALES

O Estado de S.Paulo - 10/02

A forma truculenta e politizada adotada para implementar a renovação de concessões de energia e a destruição de valor provocada nas empresas do setor elétrico - várias delas listadas em Bolsa - deixaram um sabor amargo na boca de acionistas de companhias como a Eletrobrás e dúvidas gigantes na cabeça dos que pensam em investir no setor elétrico ou em outros setores de infraestrutura.

Aprisionado pelo discurso eleitoral de redução da tarifa de energia, o governo busca de qualquer forma impedir que a anunciada redução de tarifas seja diluída pela elevação dos custos ocasionada pelo intenso despacho térmico determinado pelo Comitê de Monitoramento do Sistema Elétrico para compensar a desconfortável situação dos reservatórios das hidrelétricas.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem posto em funcionamento todo o parque termoelétrico, mesmo de termoelétricas que não deveriam ser acionadas com base nos modelos computacionais que balizam a operação. Este mecanismo - chamado de "despacho fora da ordem de mérito econômico" - tem imposto um custo bilionário, que é consolidado no encargo tarifário ESS-SE, o Encargo de Serviço de Sistema, subitem "Segurança Energética".

O intenso despacho termoelétrico fora da ordem de mérito - que pode superar os R$ 6 bilhões em 2013 - tem provocado forte aumento de custos do ESS-SE, encargo que tinha outra ordem de grandeza (entre 2003 e 2007, o ESS médio foi de R$ 150 milhões). Por causa desse altíssimo sobrecusto, há intensa mobilização de alguns grupos de pressão para "socializar" essa despesa.

Já se temia que o governo pudesse apelar a artimanhas "criativas", como vem adotando na área macroeconômica. E o temor tornou-se realidade com a publicação da Resolução n.º 3 do Conselho Nacional de Política Energética, que promove profundas alterações nas regras que regem o mercado de energia.

O custo do acionamento termoelétrico era rateado entre os consumidores, que são os que se beneficiam da segurança energética proporcionada por tal acionamento. No entanto, preocupado com o impacto eleitoral da elevação da conta de luz por causa do "despacho fora da ordem de mérito", o governo impôs, sem nenhuma consulta ou audiência pública, que tais custos passem a ser arcados também pelos geradores de energia.

A regra não faz o menor sentido, inclusive porque determina que um gerador deva pagar pelo custo de outro gerador para atender ao consumo de outro agente. Além disso, por que os custos da comercialização de energia de um determinado mês devem ser rateados com base na comercialização de energia nos 12 meses anteriores? O pior é que as regras promulgadas agora já se aplicam às transações que serão liquidadas neste mês, referentes ao mês de janeiro.

A resolução também prevê a implantação de profundas alterações na metodologia utilizada para definição de preços do mercado de energia, o chamado "PLD".

A intempestividade dessas medidas pega os agentes no contrapé, pois eles já fizeram suas programações para o ano corrente e já comercializaram grandes volumes de energia sob as regras então estabelecidas.

Essa socialização de despesas feita de forma arbitrária e a posteriori se torna ainda mais chocante quando se considera que grande parte dos desequilíbrios de oferta de energia atuais foi ocasionada por improvisos governamentais, entre os quais a exposição involuntária das distribuidoras em razão da não realização do Leilão A-1 de 2012, o que as impediu de contratar energia para atendimento de seus mercados.

A leitura mais simples dessa medida é a seguinte: o governo está buscando no caixa dos geradores de energia um recurso para diminuir o impacto eleitoral negativo do aumento real da energia. Isso reforça a percepção de que o Brasil é um país onde o uso político-eleitoral predomina sobre contratos e onde vencem os que têm lobbies mais poderosos em Brasília.