sábado, março 09, 2013

Confiança: um bem escasso - MARCOS CARAMURU DE PAIVA

FOLHA DE SP - 09/03

Se o chinês moderno acompanhar outros países, vai ver que confiança em política é um bem escasso


Neste mês de março, o Congresso do Povo nomeia o novo governo chinês. Muitos se perguntarão, no exterior, o que acontecerá com a política econômica. A resposta possível no momento ainda é vaga: as mudanças serão mais profundas do que as realizadas nos últimos anos, sem alterações radicais no curtíssimo prazo.

Ansiedades externas à parte, como dizia Tip O'Neil, legendário porta-voz do Congresso americano, toda política é local. Assim, é lícito averiguar que expectativas nutre o cidadão moderno chinês quanto aos seus futuros líderes.

Quem indagar a pessoas de classe média urbana como veem os temas da sociedade possivelmente acabará concluindo que a demanda latente é por maior confiança nos governantes.

Desde que a política de abertura se iniciou, há 35 anos, o mais forte fator a gerar confiança na China foi o crescimento com baixa inflação.

Continuará sendo. Não é de surpreender que, em seu primeiro dia, o Congresso do Povo tenha tratado do assunto: o crescimento previsto para 2013 é de 7,5%, a inflação projetada, 3,5% e o deficit fiscal, 2% do PIB. Ou seja, haverá espaço para estímulos governamentais se o crescimento faltar.

Numa sociedade onde o crescimento é dado como certo e ninguém duvida que o governo fará tudo para gerar emprego, as pessoas começam a olhar os bens comuns, aqueles que a riqueza individual não pode comprar.

De uma maneira geral, o cidadão chinês de classe média urbana orgulha-se de gastar com a educação do filho único, ajustou-se à saúde paga, sente-se seguro e acredita na polícia.

Sua preocupação mais recente é com a poluição. Em Pequim, durante o mês de janeiro, apenas por cinco dias a poluição e o "fog" deram alívio aos residentes.

Outro tema que incomoda é a corrupção. O Partido, aliás, tem falado muito dele. Outro, as opções de investimento. Todo chinês que tem salário ou renda poupa e busca ter retornos maiores de suas aplicações.

Finalmente, o cidadão parece querer menos tributos e menos heterodoxia nas políticas. Eis um exemplo: as famílias recentemente têm feito mirabolâncias para circundar uma legislação que taxa em 20% o ganho de capital com a venda de imóveis.

Os casais estão se divorciando para gozar da vantagem dada aos proprietários de um único imóvel de vendê-lo sem imposto. Recasam-se em seguida. Em Xangai, os funcionários do cartório que produz os certificados de divórcio dizem que os primeiros casais simulavam desentendimentos. Agora vão direto ao ponto.

O novo governo terá que combinar um ambicioso projeto de redução da pobreza rural (a meta é urbanizar 400 milhões de pessoas em dez anos), novos rumos para uma economia -que gera grandes expectativas- e, sobretudo, respostas à grande classe média urbana.

A bem da verdade, se o chinês educado moderno acompanhar a realidade da Itália e dos demais países europeus, as discussões partidárias americanas e o sempre frágil quadro japonês, vai se dar conta de que confiança em política é um bem escasso no mundo de hoje. Mas isso não reduzirá a sua expectativa por dias melhores.

Rio estuda "maldades" na luta por royalties - SABRINA VALLE

O ESTADO DE S. PAULO - 09/03
Governo do Estado prepara medidas para pressionar STF após derrota no Congresso

Responsável por 73% da produção nacional de petróleo, o governo do Rio estuda um pacote de retaliações após a decisão do Congresso que redistribui royalties e participações especiais do setor. Entre as medidas possíveis estão o aumento do ICMS para o setor, o fim do regime fiscal especial (Repetro) e a eliminação de compensações fiscais a refinarias. "Dá para fazer um monte de maldades", disse ontem o secretário Estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Júlio Bueno.

O Rio calcula perdas de R$ 75 bilhões até 2020 com a nova regra, cuja constitucionalidade será discutida no Supremo Tribunal Federal (STF). Anteontem, o governador Sérgio Cabral (PMDB) havia anunciado a suspensão de todos os pagamentos do Estado - exceto salários de servidores - até a decisão do STF.

O secretário Bueno disse que o governo está confiante. "Não posso supor que o Supremo vá transgredir a norma jurídica. Acho que sinceramente a Justiça vai imperar no Brasil". O presidente da Assembléia Legislativa do Rio, Paulo Melo (PMDB), também ameaça votar em regime de urgência, a partir de terça- feira, projetos que criam uma série de taxas e novas obrigatoriedades para o setor petrolífero no Estado.

O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), João Carlos de Luca, afirmou que a briga pelos royalties pode afastar interesse de investidores nas três rodadas de licitação marcadas para 2013, as primeiras ofertas de áreas para exploração de petróleo em cinco anos. A 11ª rodada acontecerá já em maio. "A indústria está muito preocupada com a estabilidade regulatória e a segurança jurídica", disse.

Segundo ele, os investidores terão dificuldade de fazer a análise econômica de projetos antes de entrar no leilão, já que não sabem que taxas considerar, se o regime tributário vai ser alterado e se haverá dificuldade para conseguir licenças ambientais.

Os governadores dos principais estados produtores - Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo - entrarão com três Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adin) no STF. Alegarão quebra de contrato, uma vez que as novas regras se aplicam a áreas já licitadas. Mas precisam aguardar publicação em Diário Oficial das novas regras, que terão então validade imediata. Também entrarão com pedido de liminar suspendendo efeito das normas. O Congresso derrubou nesta semana veto da presidente Dilma Rousseff que impedia a perda de receita por produtores.

Bueno reconhece como "medida de retaliação" a possível reação na área fiscal e que o Rio afastaria novos investidores caso acabe com as isenções ao setor de petróleo. O Rio calcula perder R$ 4 bilhões somente neste ano, se as regras retroagirem a janeiro. Em São Paulo, a perda de receitas é calculada em R$ 12,3 bilhões até 2020.

O presidente da Alerj afirmou que será votada na terça-feira a derrubada do veto do governador Sérgio Cabral (PMDB) ao projeto que permite ao Estado cobrar uma taxa de fiscalização das empresas produtoras de petróleo. "Isso nos daria de R$ 3 bilhões a R$ 5 bilhões por ano", diz Melo. A taxa é inspirada em instrumento semelhante criado por Minas e Pará no setor de mineração.

Mercosul, 'âncora' ou 'balão'? - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 09/03

O bloco é uma espécie de condomínio atrasado e medroso, com muita retórica e pouco comércio


Nem sempre é fácil tirar lições dos fatos da história econômica das nações, pois a relação entre causas e efeitos raramente é clara e inequívoca. Uma evidência, no entanto, parece se impor sem a necessidade de maiores considerações: países ricos são os que têm mais comércio internacional.

Não conheço nenhuma exceção a essa regra. EUA, China, Japão, Alemanha são líderes incontestes, tanto em renda quanto em comércio. Os episódios mais recentes de países que deixaram de ser pobres e atrasados, quase todos eles da Ásia, são exemplos de apostas na liberdade de comércio.

Em se tratando de relações comerciais, o isolamento é o caminho certo para manter baixos níveis de desenvolvimento e bem-estar social. Os países emergentes que escolheram se voltar para dentro, por meio de medidas protecionistas e de restrições ao comércio, ficaram estagnados ou cresceram a taxas relativamente baixas.

Ver as economias do resto do mundo como ameaça é um truque perverso para enriquecer, indevidamente, oligopólios de produtores domésticos que só admitem ser competitivos com tarifas. Nunca com inovações.

Quem paga o preço dessa esperteza é a sociedade, condenada a consumir produtos de pior qualidade e preços mais altos, sem falar no crescimento econômico que se perde.

Infelizmente, o Brasil ainda cultiva a velha cultura do protecionismo. No começo, pela razão objetiva de que nossa economia não gerava capacidade para importar e vivia em eterna crise cambial. Mais tarde, mesmo na ausência de qualquer crise de pagamentos ao exterior, adotamos o princípio de que o mercado interno era um recurso da nação e devia ser resguardado para os produtores locais.

O comércio internacional, por ideologia ou interesses mais pragmáticos, fixou-se em nosso imaginário como uma ameaça a evitar e combater. A consequência é que nossas transações com o mundo seguem tímidas, a despeito de todo o processo de globalização. Segundo a OMC, o Brasil representa apenas 1,5% do comércio mundial.

Enquanto isso, quase todos os países com relevância no cenário econômico mundial não param de se movimentar em busca de acordos de livre comércio para incrementar exportações e importações.

E nós, como um ponto fora da curva, mantemo-nos ao lado de nossos vizinhos.

Não sou especialista em economia internacional. Mas me parece claro que os países podem fazer acordos comerciais de dois tipos.

Um eu chamaria de "acordo balão", que eleva o país acima de sua própria superfície e descortina um universo de possibilidades. O outro é o "acordo âncora", que imobiliza o país, como se o prendesse ao fundo do mar.

"Acordo balão" teria sido a Alca (Associação de Livre Comércio das Américas), que alguns brasileiros se orgulham de ter matado no nascedouro. Poderia ser, também, um outro tratado de livre comércio com a União Europeia, com os países da Ásia ou com Canadá e Austrália.

Exemplo claro de "acordo âncora" é, inegavelmente, o Mercosul, que, a cada dia mais, converte-se em um clube ideológico.

É uma espécie de condomínio atrasado e medroso, com muita retórica e pouco comércio. O Mercosul teme o comércio livre e impede que o Brasil faça acordos com o resto do mundo, a não ser que se conforme e se limite aos termos da política argentina.

O Brasil ficou grande demais para se submeter às limitações impostas pela cultura do atraso que teima em não nos deixar ou ser abafado pela miopia kirchnerista ou bolivariana.

A Alca, se tivesse se tornado realidade, possibilitaria ao Brasil acesso preferencial ao mercado americano antes da chegada dos produtos chineses, o que ocorreu em seguida. Teríamos chegado na frente.

Esse era o sentido do acordo que recusamos, com medo da concorrência dos manufaturados americanos. A invasão americana que quisemos impedir foi substituída pela invasão chinesa.

É a história teimando em seguir seu curso, apesar de nós.

Votos movem montanhas - LEONARDO CAVALCANTI

CORREIO BRAZILIENSE - 09/03
A Comissão de Direitos Humanos sempre foi um refúgio do bom debate. Agora vai virar um palanque para o pastor Feliciano e sua trupe. Mas a culpa também é dos grandes partidos, que deixaram o camarada ocupar o espaço
Ao longo dos últimos 18 anos, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados sempre foi a menos prestigiada por políticos. Em toda distribuição de postos no Congresso, a tal comissão era a última a ser escolhida. E durante um tempo ficou - ou sobrou - para o PT.

Quando o PT era oposição, evidentemente. Sem chances de comandar Constituição e Justiça ou Finanças e Tributação, por exemplo, os petistas apostavam as fichas na CDHM - e quase sempre faziam um bom trabalho. Entre 1995 e 2002, todos os seis presidentes da comissão foram do partido.

Ao virar governo, em 2003, os petistas entregaram a presidência da comissão ao PDT por dois anos, o que já demonstrava um certo desapego pelo tema. Depois desse período, voltou ao comando, mas dividiu a presidência de novo com o PDT e, em 2011, a deixou para Manuela D"Ávila, do PCdoB.

A comissão foi um refúgio do bom debate dentro do Congresso, sendo responsável por levantamentos minuciosos como, por exemplo, a situação de presídios e da infância no país. Por ali passaram o paulista Hélio Bicudo e o gaúcho Marcos Rolim. Mas, como se esperava, os outros deputados, políticos tradicionais, tratavam os temas como uma coisa menor, sem importância.

A resposta para tal descaso está na máxima de que direitos humanos não dá voto, afinal o próprio sobrenome da comissão, Minorias, já deixa isso claro. A lógica é: quem disse que no Brasil a defesa de melhores condições para presos garante um novo mandato ao parlamentar-presidente?

Por mais visibilidade na mídia, a comissão tinha a pecha de derrotar os próprios integrantes nas urnas. Assim, ao longo dos anos, os parlamentares mais conservadores mantiveram distância da sala 185, ala A, anexo 2, onde fica a Comissão de Direitos Humanos. Era melhor não se envolver, pois.

A história começou a se inverter no momento em que o PT ganhou musculatura após a chegada ao Planalto. A partir do aumento da bancada, o partido passou a brigar por comissões que tratam de orçamentos, emendas e define rumos de projetos, como a de Constituição e Justiça.

Preconceito
Paralelo à desistência dos petistas pela Comissão de Direitos Humanos, deputados conservadores perceberam que poderiam amplificar discursos homofóbicos e racistas a partir da sala 185 da Câmara direto para as bases nos estados. O preconceito, neste caso, rende votos. Mas não presta para a sociedade.

A chegada do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) ao comando da comissão, portanto, não é por acaso. Como o Correio mostrou ontem, 10 legendas poderiam exercer a prioridade na eleição da CDHM - o PT e o PMDB, por exemplo, tiveram direito a escolher três comissões antes de o PSC indicar Feliciano.

O descaso petista e peemedebista foi a regra seguida pelo PSDB, PP, PR, DEM, PDT , PSB, PTB e pelo bloco PPS/PV. Como ninguém assumiu a CNDH, a presidência sobrou para o pastor homofóbico, Marco Feliciano. O único consolo é que o mandato do camarada dura apenas um ano.

Entrevista
Em entrevista à esta coluna, o ex-deputado e ex-petista Marcos Rolim disse que a responsabilidade pela presença de Feliciano na CNDH deve ser dividida com as bancadas dos outros partidos: "É lamentável. A bancada do PT entrou na mesma lógica dos partidos tradicionais e também é responsável. E o governo tem sido conivente com o fundamentalismo desses parlamentares aliados. Isso é um perigo para a democracia, por causa da intolerância". Para Rolim, os próximos 12 meses na comissão serão nulos. "Vai ter muito folclore, mas, política de Direitos Humanos, isso acabou. Uma lástima."

Revisão do Código de Defesa do Consumidor - JOSÉ REINALDO DE LIMA LOPES

O ESTADO DE S. PAULO - 09/03

Desde a sanção do Código de Defesa do Consumidor, em setembro de 1990, já se passaram mais de duas décadas, quase um quarto de século. Estaria o CDC envelhecido? As coisas mudaram tanto que o código precisa de revisão?

A primeira pergunta pode ser respondida com um qualificado não. Há no Código de Defesa do Consumidor partes muito sólidas e não se pode dizer que ele se tenha tornado inadequado. Uma é a parte definidora do campo das relações de consumo, na qual se encontra a definição do consumidor como parte vulnerável e merecedora de interpretação dos negócios e de julgamento das causas de modo mais favorável, que compense a sua posição subalterna no mercado.

A segunda questão merece um qualificado sim. As coisas mudaram nos últimos anos, como a relação do Estado com o mercado (aprofundou-se muito a privatização da economia) e a expansão de tudo o que diz respeito às novas mídias. O acesso ao crédito foi ampliado, facilitado, incentivado. O comércio eletrônico cresceu e praticamente todo o relacionamento entre consumidores e fornecedores passou a transitar pela internet. Parece, portanto, conveniente atualizar pontualmente o Código para criar mecanismos mais eficazes, muito especialmente nesses pontos mencionados.

Além disso, alguns pontos já foram mais bem especificados, como a regulamentação do teleatendimento, feita por decreto do presidente da República, ou a lei da entrega com hora certa (na verdade, por períodos certos do dia), sancionada no Estado de São Paulo. Ambas foram acréscimos e detalhamentos de princípios bem estabelecidos no CDC, como o direito à informação ou ao cumprimento das obrigações pelo fornecedor no período pós-venda.

Existentes, mas sem parâmetros claros, os serviços de atendimento deixavam muito a desejar: pareciam satisfazer uma exigência, mas sua inefetividade era (e ainda é) tal que pouco respondiam à obrigação de prestar aos consumidores a devida assistência. As entregas sem hora certa provocam inconvenientes

crescentes, pois um desentendimento inicial pela não entrega no horário combinado se transformava numa bola de neve, que podia terminar no serviço público dos Procons ou na Justiça.

Ainda outras inovações vieram de maneira um pouco imprecisa e nasceram da criação de agências reguladoras de serviços públicos. As leis, os contratos de concessão e as agências mesmas definiram algumas medidas de eficiência nos serviços. Foi preciso (e ainda é) definir como essas medidas se tornam realidades e que espécie de relação se estabelece entre as agências e os outros órgãos responsáveis pela defesa dos consumidores.

Os projetos de lei que hoje se discutem no Congresso Nacional a respeito de prevenção de superendividamento de consumidores e comércio eletrônico vão nessa esteira de disciplina mais detalhada, mantendo as conquistas do sistema de defesa do consumidor. Ambos são importantíssimos.

O crédito ao consumo esteve até agora no limbo da disciplina do mercado financeiro. Não pode continuar ali. Nos Estados Unidos já se criou um órgão público completamente distinto da regulação bancária para tratar do assunto, o Consumer Financial Protection Bureau. A reforma do CDC não ousa tanto, mas pelo menos coloca o tema no âmbito correto, o da proteção ao consumidor e da prevenção do superendividamento. A mudança servirá para tratar o crédito como realmente é tratado por quem o oferece: um produto (objeto de intensa propaganda). Poderia ampliar ainda mais a responsabilidade de quem oferece crédito, na linha das responsabilidades de quem oferece produtos e serviços. Mas pode ser usada para responsabilizar os fornecedores desse mercado e obrigá-los a introduzir normas de segurança na concessão de crédito ao consumo, além de arcarem com os respectivos custos.

O comércio eletrônico causa dois problemas especificados no projeto em discussão no Senado: a dificuldade de identificação do fornecedor e os bancos de dados, cujos controle e uso estão até agora além do alcance dos consumidores. O primeiro pode ser resolvido com a obrigatoriedade, prevista, de que o fornecedor indique dados de sua identidade e tenha pelo menos um endereço não virtual, facilmente localizável. O outro é mais difícil, pois o acesso ao uso que se faz das informações exigirá dos consumidores mais organização e recurso. Mesmo assim, a obrigatoriedade legal de dar acesso a tais bancos seria um importante avanço.

Outros problemas de base precisam ser lembrados. É ocaso do atendimento ao consumidor, ainda muito inadequado. As demoras no atendimento são sinal claro de que tais serviços estão subdimensionados e organizados mais em função dos interesses dos fornecedores do que da solução dos problemas dos consumidores. Lembremos que há duas espécies de queixa: uma relativa ao produto e serviço propriamente, outra quanto ao cumprimento do contrato. Na primeira, o que se espera é que um técnico resolva a questão e na outra, que alguém seja verdadeiro preposto, com capacidade de entender o contrato e competência para deliberar. Isso não se vê nem ao telefone, nem pessoalmente, porque os postos de atendimento estão desaparecendo. Como estão desaparecendo pessoas treinadas para negociar.

E evidente que os fornecedores não enfrentam essa questão: erros freqüentes na interpretação e execução dos contratos indicam o amadorismo com que se fazem as coisas. A falta de gente qualificada e devidamente autorizada para resolver o problema é outra evidência dessa atitude. A maneira como se trata o consumidor no Brasil está a mostrar a falta que fazem uma coisa e outra, ou seja, quanto um mercado moderno continua, entre nós, um sonho, ou, parafraseando Sérgio Buarque de Holanda, um incrível mal-entendido.

A mudança cultural que ainda está por ser feita afirmaria que o cliente tem sempre razão.

Rasgaram a Constituição! - LUIZ FERNANDO PEZÃO

O GLOBO - 09/03
A Lei 12.734, que muda as regras de distribuição dos royalties do petróleo, alterando contratos em vigor e acabando com receitas garantidas, é uma grande violência contra os estados produtores. Responsável pela produção de mais de 80% do petróleo brasileiro, o Rio não aceita essa violação da Constituição Federal.

A Constituição de 1988 garante recursos específicos a estados e municípios produtores de petróleo, não como privilégio, mas como forma de compensar os riscos ambientais próprios da atividade de extração e refino do petróleo e repor em parte o que o estado deixa de arrecadar com a taxação do petróleo, que, ao contrário do que acontece com a maioria dos produtos, não é pago ao estado que o produz, mas ao estado que o consome.

Por isso, a decisão do Congresso Nacional de derrubar o veto da presidente Dilma Rousseff representa uma catástrofe econômica e social para o nosso estado, já que o próprio estado e 87 das suas 92 cidades deixarão de receber recursos que lhes são imprescindíveis.

O Rio quebra. As perdas somam R$ 4,2 bilhões só neste ano de 2013, contando o que cabe ao estado e aos municípios. Até 2020, esse valor ultrapassa R$ 75 bilhões.

Esses são recursos necessários para honrarmos o pagamento de aposentados e pensionistas do estado e para realizarmos os investimentos para atender às demandas que temos em áreas fundamentais, como infraestrutura, segurança e meio ambiente. Isso sem falar no financiamento dos eventos de grande porte que vamos receber, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

A nova lei desrespeita a Constituição, dentre outras razões, por romper com o chamado "ato jurídico perfeito". Ela quebra contratos e viola o equilíbrio orçamentário dos estados e municípios produtores, como demonstrou a própria presidente Dilma na sua justificativa ao vetá-la.

Caberá ao STF, que é o guardião da Constituição, julgar as ações de inconstitucionalidade que serão propostas contra essa lei assim que ela for promulgada. Ele vai decidir o destino e o futuro dos estados produtores. Tenho a confiança de que os seus ministros não permitirão que a Constituição seja rasgada em nome de uma falsa distribuição igualitária de recursos, que pode levar estados e municípios a uma guerra federativa de consequências desastrosas e imprevisíveis.

Desserviço à educação - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 09/03

SÃO PAULO - A mais fantástica tecnologia humana não é o computador nem o velcro, mas a escrita. Se um pensador antigo como Platão podia vê-la com desconfiança, por imaginar que destruiria a capacidade de memorização, hoje, 2.400 anos depois, sabemos que não é assim.

Não apenas não existiria civilização, se não dispuséssemos de uma forma de registro perene das ideias, como ainda há indícios de que a alfabetização modifica fisicamente o cérebro, criando rotas de comunicação entre diferentes regiões do córtex e ampliando a memória verbal, como mostra Stanislas Dehaene em seu "Os Neurônios da Leitura".

O processo de alfabetização tem início já nos meses finais da gravidez, quando o feto vai se familiarizando com os ritmos e sons da língua materna, e só se encerra na adolescência, quando emerge um leitor tão experiente que mal presta atenção nas letras, processando-as em blocos e quase "adivinhando" o sentido das palavras. Entre os 5 e os 6 anos de idade, porém, ocorre uma fase crítica que precisa ser aproveitada. As crianças, que até então apenas memorizavam o formato de palavras especiais, como seus nomes, começam a perceber que a escrita alfabética envolve um jogo de sons. Está surgindo o que os especialistas chamam de consciência fonológica.

Embora os construtivistas não gostem, este é o momento em que o código alfabético precisa ser ensinado explicitamente, já que o processo de percepção dos fonemas não é automático nem natural. Deixar de fazê-lo atrasa e pode até comprometer a alfabetização, em especial a das crianças mais pobres, que já saem em desvantagem por terem sido menos estimuladas para a leitura.

Nesse contexto, a Câmara, com apoio do governo, prestou um desserviço à educação, ao rejeitar uma emenda à MP 586, que reduzia de 8 para 6 anos a idade ideal para as escolas alfabetizarem a garotada. Detalhe: a mudança só valeria em 2017.

Mulheres desiguais - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 09/03

O livro “A distância entre nós”, da escritora indiana Thrity Umrigar, conta a estória de duas mulheres na Índia, de castas diferentes, uma patroa, outra empregada doméstica. Nada havia em comum na vida das duas, salvo que ambas eram vítimas da violência dos maridos. Foi isso que as uniu no sentimento de gênero, tudo o mais as diferenciava.

No Dia Internacional da Mulher é possível lembrar outros pontos em comum entre as mulheres: a discriminação nos empregos e salários; serviços domésticos a que estão obrigadas, mesmo quando têm trabalho fora de casa; responsabilidades maiores no cuidado com os filhos; e assédios sexuais e todas as formas de “bullying” machista. Mas, além dessas semelhanças, que justificam o Dia Internacional da Mulher, é preciso lembrar o quanto as mulheres são diferentes em uma sociedade como a brasileira.

Todos os dias, milhares delas são obrigadas a “abandonar” provisoriamente suas crianças para cuidar dos filhos de outras mulheres. Algumas mulheres têm seus filhos com brinquedos e estímulos intelectuais desde a primeira infância, outras veem seus filhos desperdiçando o período mais importante de sua formação. Um filme americano — “Histórias cruzadas” — mostra o sentimento de uma empregada que cuida dos filhos de outras mulheres, rodeados de todo o conforto e brinquedos, enquanto seus filhos estão abandonados. São duas mulheres, duas posições tão diferenciadas que nos permitem perguntar se as duas devem comemorar o mesmo dia. O filme é situado no Sul dos EUA, início dos anos 60, mas se aplica perfeitamente ao Brasil de hoje.

A diferença não se limita à primeira infância, continua ao longo do processo educacional. Uma parte das mulheres tem seus filhos em escolas com qualidade; outras têm seus filhos fora da escola, ou em pseudoescolas, que não os preparam para o futuro.

Entre as mulheres brasileiras, cerca de 500 mil têm filhos presos. Elas sabem que seus filhos caíram no crime menos por maldade do que por falta de oportunidade na vida. São analfabetos ou não concluíram as primeiras quatro séries de estudo. No Brasil, 35.596 mulheres passaram o Dia da Mulher atrás das grades, e quase todas também por falta de chance no passado.

Centenas de milhares de mães passaram o dia 8 de março carregando filhos sem alimentação em uma fila de atendimento médico, sabendo que não seriam atendidas por médicos ou hospitais públicos. E, se atendidas, não saberiam se conseguiriam dinheiro para os remédios.

Muitas mulheres estiveram no dia 8 de março na situação de viúvas de maridos vivos, distantes de casa, nem sempre por abandono, tão comum hoje em dia, mas porque estão tentando ganhar a vida onde surgem empregos.

Por tudo isso e outras diferenças, o dia 8 de março não deve ser visto como “Dia da Mulher”, mas como “Dia das Mulheres”, sem esquecer o que há em comum entre elas, nem esconder o muito que há de diferença, apesar da identidade de gênero.

Só vai piorar - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 09/03

BRASÍLIA - A Câmara escolheu para presidir sua Comissão de Direitos Humanos e Minorias o deputado e pastor Marco Feliciano, do PSC de São Paulo. Ele já deu declarações contra negros e homossexuais. Num culto gravado em vídeo, aparece reclamando de um fiel que entregou o cartão magnético do banco, mas não revelou a senha.

Feliciano é réu num processo no qual é acusado de estelionato. Também defende a castração química de estupradores e um curioso programa "Papai do Céu na Escola" no ensino fundamental.

Não vale a pena entrar no mérito dos conceitos filosóficos defendidos pelo deputado Feliciano. O que importa é entender a razão pela qual ele e outros políticos controversos estão conquistando cargos e notoriedade dentro do Poder Legislativo.

A deterioração da reputação do Congresso Nacional não é algo novo. Há décadas os políticos se investiram do papel de saco de pancadas do país. Esse fenômeno é como um desastre de avião. Tem várias causas.

Uma delas é quase insolúvel: a proliferação de partidos dentro do Congresso. Há, hoje, 24 siglas representadas ali dentro. Se Marina Silva tiver sucesso na montagem da sua Rede, serão 25. Há dez anos, eram 16 as legendas presentes no Legislativo.

Há uma demanda por cargos para os partidos nanicos como o PSC. Em 2003, com apenas um deputado, essa agremiação ficava sem direito a presidir comissões. Agora, com 15 deputados, a coisa muda de figura.

E qual comissão será entregue aos partidos menores? As que não mexem com assuntos, vamos dizer, concretos. Eis aí como Marco Feliciano acabou escolhido e comandará a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Para a sociedade, o assunto é relevante. Na cabeça dos congressistas, é só uma sinecura na qual acomoda-se um partido pequeno.

Como o número de partidos está em crescimento, a chance de melhora é zero. Só vai piorar.

O mito e a realidade - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 09/03

O problema é que os mitos não governam. A Venezuela, como qualquer país que busca o desenvolvimento, vai precisar de líderes de verdade, com presença física e atuação forte no comando do país.


As imensas filas de venezuelanos que deixam de comer e de dormir para fitar por 30 segundos o caixão do presidente Hugo Chávez dão o que pensar. O corpo do coronel comandante não será sepultado nem cremado: receberá tratamento especial, será embalsamado e exposto em uma urna de vidro "para que o povo possa tê-lo para sempre", como explicou o vice-presidente Nicolás Maduro, ungido pelo próprio Chávez para substituí-lo. A intenção da cúpula chavista de transformar o governante morto em mito do socialismo bolivariano é tão clara, que Maduro comparou o projeto de embalsamamento ao culto a Lenin, Mao e Ho Chi Minh _ líderes comunistas que até hoje estão insepultos em seus respectivos países, expostos em mausoléus que se tornaram atração turística e templos de devoção ideológica.
Não é gratuita essa decisão de transformar Chávez em objeto de romaria. Se a comoção em torno do presidente morto for mantida, será muito difícil superar o favoritismo de Nicolás Maduro na eleição presidencial que se realizará dentro de um mês. A construção do mito tem o sentido de mostrar ao povo que o homem está morto, mas suas ideias e seus projetos _ o chavismo _ estão mais vivos do que nunca e que só terão continuidade se seus correligionários forem mantidos no poder.
Como estratégia política de efeito imediato, parece infalível. O problema é que os mitos não governam. E o legado de Chávez não garante por muito tempo este louvamento nacional característico de um período de luto e homenagens. Logo os venezuelanos terão que encarar a realidade, que não pode ser representada apenas pelos bons resultados das políticas sociais mantidas pelo ex-presidente durante os seus 14 anos de poder. Se é verdade que Chávez governou para os pobres e tirou milhões de conterrâneos da miséria, seu modo personalista de governar também gerou problemas graves, como a economia desorganizada, a fragilidade das instituições democráticas e a insegurança. Basta observar que Caracas é hoje uma das cidades mais violentas do mundo, com um índice de cem homicídios por 100 mil habitantes.
A palavra mito tem vários significados, entre os quais "invenção, lenda, relato imaginário". A Venezuela, como qualquer país que busca o desenvolvimento, vai precisar de líderes de verdade, com presença física e atuação forte no comando do país. Chávez conquistou apoio popular, mas também concentrou poderes, pisoteou a liberdade de expressão e manipulou as leis e as instituições em favor de suas causas. Sem ele, a tendência é de que, a médio prazo, essa democracia reprimida tente reencontrar o seu espaço.

Congresso impossibilita investimentos do Estado do Rio - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 09/03

O ambiente de desorganização das finanças dos estados e municípios que podem ser afetados pela decisão do Congresso de redistribuir as receitas de royalties e participações especiais oriundas da produção de petróleo e gás no mar já está instalado —, como se previa antes da votação que derrubou os vetos da presidente Dilma aos dispositivos que afetam os contratos em curso.

As receitas de royalties são vinculadas obrigatoriamente a investimentos e ao pagamento de dívidas. Em 2012, no caso do Rio de Janeiro, do total de royalties recebidos pelo Tesouro estadual, R$2,17 bilhões foram destinados à amortização de parte da dívida com a União, com base em contrato de renegociação firmado há anos, e que vincula tais receitas a esse tipo de quitação pelos próximos anos. Também no ano passado, R$ 5,25 bilhões se destinaram à capitalização do fundo previdenciário do qual saem os pagamentos de aposentadorias e pensões dos funcionários inativos. Ainda da parcela estadual, R$ 429 milhões foram transferidos a municípios fluminenses, e o equivalente a 5% (R$ 395 milhões) entraram para o Fundo de Conservação Ambiental (Fecam). A parcela de R$ 79 milhões, ou seja 1%, se destinou ao Pasep, por determinação de lei federal.

Despesas dessa magnitude precisam, é claro, de uma programação de longo prazo, com fontes de receitas bem definidas. A vinculação dos royalties a esses gastos foi a forma correta que o Estado do Rio encontrou para assegurar tais pagamentos, permitindo que outras receitas pudessem custear investimentos.

Com a incerteza orçamentária criada pela decisão do Congresso, a continuidade desses investimentos ficou ameaçada, o que é dramático para um estado que passou por décadas de decadência econômica e social e se esforça para atingir um grau de recuperação que impeça a reversão desse processo. Na verdade, o corte de receitas que o Congresso deseja impor ao Rio de Janeiro elimina totalmente a capacidade de investimento do governo estadual. Não se trata de retórica ou jogo de cena. Daí o governador Sérgio Cabral ter tomado uma atitude tão dramática de suspender pagamentos temporariamente até que o Supremo Tribunal Federal se pronuncie sobre toda essa questão. Se, como determinado pelo que foi aprovado no Congresso — e, por enquanto, tudo depende do STF — a participação do Rio de Janeiro diminuir sobre os royalties gerados pela produção de petróleo e gás ao longo da costa, o Estado, de fato, não terá recursos para cumprir todos os compromisso já assumidos. A situação não é muito diferente no Espírito Santo e nos municípios fluminenses e capixabas, para os quais a receita de royalties é muito relevante.

Não é uma situação com a qual se possa conviver por muito tempo

A violência como método - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 09/03
Enfraquecido politicamente, pois não conta mais com a conivência e a tolerância ilimitadas do governo do PT, com um discurso ideológico cada vez mais vazio, mas mantendo algum grau de organização e, sobretudo, conservando seu aparentemente inesgotável vigor para praticar crimes, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) conseguiu realizar seu maior protesto contra o governo Dilma. Nos últimos dias, seus militantes, apoiados por organizações com características e objetivos assemelhados aos seus, invadiram fazendas, destruíram viveiros, sabotaram plantações, impediram o fluxo do tráfego em rodovias, depredaram patrimônio privado, invadiram prédios públicos, fizeram discursos, divulgaram documentos. Suas ações atingiram 22 Estados.

Tudo isso seria apenas mais uma repetição daquilo que o brasileiro responsável, cumpridor das obrigações e preocupado com seu futuro e do País cansou de ver no ambiente rural nos últimos anos se, desta vez, as manifestações desses grupos que agem cada vez mais à margem da lei não fossem particularmente patéticas. Além de agirem de maneira ilegal, sem que, na maior parte dos casos, sua ação fosse, como deveria ter sido, contida com energia pelas autoridades policiais - umas empurraram a competência para outras -, os organizadores fizeram discursos e distribuíram documentos que mostram seu afastamento cada vez maior da realidade.

Seu protesto, como ocorre há 15 anos, foi para lembrar o Dia Internacional da Mulher, e desta vez o alvo foi o agronegócio. Um dos principais atos do protesto foi a ocupação da Fazenda Aliança, no Tocantins, de propriedade da família da senadora Kátia Abreu (PSD-TO) - mulher e representante do agronegócio.

Cerca de 500 militantes ocuparam a propriedade, destruíram viveiros de mudas de eucalipto e mantiveram confinados trabalhadores e seguranças do local, que conseguiram evitar o conflito. "Eu, que sempre dormi sozinha na fazenda com meus filhos pequenos, sem nunca andar armada, agora não vou deixar meus filhos e meus funcionários correndo risco de vida", reagiu a senadora. "Imagine se resolvessem colocar fogo nas dezenas de máquinas que tenho lá."

Por cegueira ideológica, o MST e as demais organizações que o apoiam e os militantes desses movimentos não conseguiram até hoje entender a extraordinária transformação por que passou a atividade agrícola no País nos últimos anos. Ela alcançou níveis de eficiência e de competitividade que a colocam entre as mais desenvolvidas do mundo, o que permitiu ao País sobreviver sem grandes consequências aos efeitos das crises que conturbaram a economia mundial. Isso não afasta do meio rural os pequenos e médios produtores nem implica - como supõem o MST e seus militantes - o predomínio da monocultura. Há oportunidades para todos e espaço para as diversas culturas.

As desastrosas ações do MST no laboratório da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, em 2006, quando 2 mil mulheres destruíram anos de trabalho de pesquisa, revelaram uma das faces mais danosas para o País da violência dessas manifestações. Mas, por estreiteza política, o MST continua a recorrer à violência para, por meio dela, tentar defender suas bandeiras político-ideológicas, o que não consegue mais fazer com seu discurso. A cada ação desse tipo certamente corresponderá maior isolamento desses movimentos.

Parece que, felizmente, vai se transformando em mero registro histórico o gesto do ex-presidente Lula de colocar na cabeça o chapéu do MST, simbolizando seu apoio irrestrito à organização. A redução do número de assentamentos promovidos pelo Incra é consequência da mudança da política agrária no governo Dilma. Por entender que as distribuições de nada adiantam para o assentado e para o País se as terras não se transformarem em fonte de renda, o governo quer que os assentamentos sejam produtivos. Para isso vem dando apoio técnico e material aos assentados - e distribuindo cada vez menos terras.

A mudança pode ser fatal para o MST, cuja sobrevida depende justamente de aglutinar militantes com a promessa de distribuição de terra.

Controlar a inflação - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 09/03

Para enfrentar alta de preços, Banco Central mostra disposição de elevar taxa de juros já nos próximos meses, hipótese antes descartada


Após os alertas recentes de seu presidente, o Banco Central deu um sinal claro nesta semana de que deverá voltar a elevar os juros para combater a inflação.

Segundo comunicado oficial, o Comitê de Política Monetária (Copom) "irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária".

No jargão, significa que a alta de juros é muito provável e pode ocorrer já na próxima reunião, em meados de abril, ou na seguinte.

Verdade que a economia ainda patina, apesar dos sinais de retomada do PIB, para um ritmo próximo a 3% (contra 0,9% em 2012).

A inflação, porém, acelerou -cálculos que desconsideram oscilações de curto prazo apontam para um quadro estrutural preocupante. Nos doze meses encerrados em fevereiro, o IPCA (índice oficial) acumulou alta de 6,33%; em março, deve atingir 6,5% (o máximo aceito acima da meta fixada pelo próprio governo, de 4,5%).

No cômputo geral, a inflação é o fator predominante. Embora o governo deva ganhar margem de manobra com novas desonerações tributárias em itens com peso importante na alta de preços, como a cesta básica, é difícil imaginar que tais iniciativas possam, sozinhas, reverter o processo inflacionário.

O principal empecilho é a credibilidade do BC, arranhada nos últimos dois anos pela impressão de leniência que passou para os agentes econômicos. As numerosas intervenções verbais da Fazenda apenas reforçaram a desconfiança. Uma vez perdida a expectativa de controle dos preços, é muito mais difícil conter a inflação.

O cálculo do BC -e do Planalto- é claro: não fazer nada e deixar a inflação correr solta neste ano pode resultar em um cenário de descontrole para 2014 e complicar a vida da presidente Dilma Rousseff no ano da eleição.

Uma alta moderada dos juros em curto prazo -e, neste cenário, quanto antes ela ocorrer, melhor- reduziria tais riscos. Analistas parecem concordar que a taxa básica (Selic), hoje em 7,25%, subirá pouco mais de um ponto, a partir de abril ou maio, salvo improvável melhora dos índices de inflação.

Ainda que despertada por interesse eleitoral, é bem-vinda a disposição do BC de combater o processo inflacionário. Há, além disso, sinais de que o governo passará a adotar atitude menos aventureira em vários campos -gestão da Petrobras e concessões de infraestrutura, por exemplo.

Maior coerência e mais cuidado na gestão da economia podem reduzir o mau humor do empresariado e, quem sabe, impulsionar os investimentos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“...um pouco acima do esperado”
Nelson Barbosa, secretário-executivo da Fazenda, surpreso com a inflação


DILMA RETORNA E ESCAPA DA ÓPERA-BUFA DE CHÁVEZ

A presidente Dilma fez bem em apressar a viagem de volta do funeral, na verdade o “não enterro” do ex-presidente fanfarrão Hugo Chávez, que será embalsamado para visitação eterna em Caracas. Além da longa cerimônia, o corpo no caixão pelas ruas da capital não seria dele, segundo o respeitado jornal espanhol ABC: o corpo veio de Cuba, onde ele teria falecido, e foi escondido na Academia Militar, onde “morreu”.

MACABRO

Fontes militares da Venezuela, sob anonimato, revelaram ainda que o corpo do ex-presidente não suportaria sete horas sob o calor nas ruas.

REALISMO FANTÁSTICO

Dilma e outras autoridades internacionais viram o rosto do verdadeiro Chávez no caixão: completamente calvo e um pouco inchado.

ESTRADA PROIBIDA

Na ida ao não enterro de Chávez, Dilma ordenou que toda comitiva viajasse no avião reserva. Somente ela e Lula seguiram no AeroDilma.

HASTA LA VICTORIA

Condenado no mensalão, o ex-ministro José Dirceu ironizou em seu blog a “democracia” que o impediu de ir ao enterro do “amigo” Chávez.

PLATAFORMA DE US$ 1 BI DECEPCIONA EM SERGIPE

Inaugurada em 2007 por Lula e o então presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, como a grande estrela da produção em águas profundas no Norte e Nordeste, a plataforma redonda do Campo de Piranema, em Sergipe, produziu 4.717 barris de óleo por dia em janeiro de 2013, segundo a Agência Nacional de Petróleo. A plataforma pioneira foi contratada pelo ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra e consumiu US$1 bilhão – US$ 100 mil mensais de aluguel à época.

FRAQUINHA

A previsão inicial da Petrobras era de 10 mil barris diários e até 30 mil por dia em 2008. Seis anos depois, sequer chegou à metade.

SEM GÁS

A produção de gás também não vingou: dos previstos 3,6 milhões de metros cúbicos de gás ao dia, só extraiu minguados 1.637 diários.

VITRINE

O consumidor fechou a bolsa: diz a agência Bloomberg que Pão de Açúcar, Natura, Renner e Hering amargam pior resultado em três anos.

DESPEJO PROIBIDO

A Justiça de São Paulo impediu a OAS de despejar vítimas da Bancoop, após assumir apartamentos inacabados da cooperativa habitacional fundada por petistas e denunciada por caixa 2 no partido. A OAS cobrou mais R$ 100 mil da tríplex de Lula no Guarujá, mas...

DIRETO AO PONTO

O Ministério da Saúde reunirá técnicos neste sábado para discutir com o ministro Alexandre Padilha 16 metas estratégicas. Que poderiam ser reduzidas a uma: acabar o péssimo atendimento na rede pública.

EXAGERO

Do senador Magno Malta (PR-ES) sobre a derrubada dos vetos à partilha dos royalties do petróleo: “A relação entre Rio de Janeiro, Espírito Santo e Hugo Chávez é que os três morreram esta semana”.

MINERAÇÃO VERDE

O governador do Amapá, Camilo Capiberibe (PSB), participa de evento no Canadá onde busca parcerias para a transferência da tecnologia conhecida como mineração verde, menos agressiva ao meio ambiente.

LINHA DURA

Campeão mundial de jiu-jítsu, o brasileiro Nilton Garcia, 39, será deportado da Inglaterra, após ser preso na conhecida academia dele em Camden, arredores de Londres. Teria o visto irregular.

QUENTÃO

Pena que os condenados no mensalão só cumprirão as penas a partir de julho, segundo o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF. Afinal, junho tradicionalmente é o mês em que dançam as quadrilhas.

AGENDA DE DEPUTADA

Deputada eleita para o parlamento italiano, a curitibana Renata Bueno esteve em Brasília para visitar o pai orgulhoso, deputado Rubens Bueno (PPS), e o embaixador da Itália, Raffaele Trombetta.

QUEM AVISA...

O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) alerta para “forças ocultas” do Planalto contra as anunciadas candidaturas do governador Eduardo Campos (PSB) e de Marina Silva (Rede) à Presidência. Ambas “fortes”.

PENSANDO BEM...

...pelo menos no Vaticano, quem manda no papa é Deus.


PODER SEM PUDOR

DOS BIGODES À BARBA

Celso Amorim, ministro da Defesa de Dilma, tem um apelido até hoje lembrado pelos diplomatas de sua geração. A maldade foi do embaixador Sérgio Corrêa da Costa, com quem Amorim serviu em Londres, nos anos 1970: "Celsinho Quitandeiro".

É que ele usava fartos bigodes, como os de um quitandeiro português. Depois deixou crescer a barba, tornando-se figura de destaque entre os "barbudinhos" do Itamaraty.

SÁBADO NOS JORNAIS


O Globo: A lei da compensação: Rio prepara taxação de petrolíferas contra perdas
Folha: Dilma vai à TV e corta impostos da cesta básica
Estadão: Dilma antecipa isenção de impostos da cesta básica
Correio: Operação põe delegados e doleiro do DF na cadeia
Estado de Minas: Caso Bruno vai para a prorrogação
Zero Hora: Santa Maria, 27/01/2013: Pelo menos oito podem ir a júri
Jornal do Commercio: Terremoto no futebol

sexta-feira, março 08, 2013

Um grande ator não deve ser empalhado - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 08/03

Hugo Chávez foi um personagem vital demais para que o encerrem em uma urna de vidro e o exponham à visitação pública, como animal empalhado.

É a opinião de quem tem verdadeira urticária ante à necrofilia, especialmente a necrofilia como instrumento político.

Admito que cadáveres embalsamados causam impacto. Nunca esqueci uma visita à quinta de Olivos, nas imediações de Buenos Aires, faz uns 30 e tantos anos, para ver a cripta em que estavam expostos Juan Domingo Perón e sua mulher Evita.

O esquife de Perón estava fechado e, portanto, não impressionava. Mas Evita, linda e loura em seu vestido branco, parecia que acabara de sair do cabeleireiro. Mas a placidez da morte não combina com personagens que foram tudo o que se quiser --de bom ou de ruim--, mas nunca foram plácidos.

Chávez era um furacão, vital, divertido, um extraordinário ator, que "deu horas de glória ao espetáculo da política", como escreveu para "El País" o colunista Lluís Bassets.

Fui testemunha ocular de alguns desses momentos em que ele foi exatamente como o descreveu a revista "The Economist" que está nas bancas: "Ele demonstrou ser um comunicador e um 'performer' natural, com inigualável habilidade para despertar empatia com os venezuelanos comuns, combinado com muita astúcia".

E olhe que a reportagem da revista é implacável com Chávez, a ponto de dar como título de capa "Um legado podre".

O espetáculo que vi foi em 2001, cúpula do Mercosul em Assunção do Paraguai. Os presidentes iam chegando ao elegante Yacht y Golf Club Paraguayo, recebidos por um trio que tocava e cantava guarânias, a música típica do país anfitrião.

Passou Fernando Henrique Cardoso que, pouco à vontade com o folclore do conjunto, entrou rapidamente. Passou Fernando de la Rúa, o presidente argentino, ainda mais refratário ao espetáculo e ainda mais apressado para entrar.

Aí veio Chávez. Parou junto aos músicos e puxou o canto de "Alma Llanera", uma espécie de hino nacional extra-oficial da Venezuela. Todo um espetáculo.

Depois ficou batendo papo descontraído com os três ou quatro jornalistas que havíamos furado a barreira de segurança e estávamos onde não poderíamos estar.

Soltou aquelas frases de efeito sobre o "câncer" que seria o neoliberalismo, pediu café, ofereceu café aos repórteres, a conversa seguiu como se estivéssemos no botequim da esquina, até um segundo café e a retirada para o interior do hotel.

Volto a Lluís Bassets para falar do ator Chávez, que o político e líder já foi dissecado em mil textos no mundo todo: "[Chávez] é mais virtuosismo que roteiro, mais qualidade de atuar que direção, mais instinto que inteligência, embora esta tampouco tenha lhe faltado na hora de alcançar o poder e, sobretudo, mantê-lo e concentrá-lo em sus mãos".

Dá até para dizer que sua carreira é produto de uma atuação teatral (no caso, televisiva), a julgar pelo que escreveram seus biógrafos Cristina Marcado y Alberto Barrera Tyszka: converteu "um mau golpe de Estado no melhor anúncio publicitário da década".

Alusão a seu comparecimento na TV depois do fracasso de sua tentativa golpista em 1992, que acabou sendo a catapulta para o posterior sucesso.

Um segundo momento cinematográfico vivido com o chavismo se deu em dezembro de 2002, oito meses depois do golpe que o derrubou por menos de 48 horas e no meio de uma greve da PDVSA (a Petrobras venezuelana) que ameaçava desestabilizá-lo.

Chávez marcou uma entrevista comigo e com Vladimir Goitia, então na Agência Estado, para as 22h, no Palácio de Miraflores.

Atendeu-nos por volta de uma da madrugada. Saímos às duas.

O ajudante de ordens que nos acompanhou até a rua foi abrindo eletronicamente uma porta atrás da outra. Na quinta ou sexta (e última) comentou: "Não parece aquele filme, o 'Agente 86'"?. Parecia realmente coisa de cinema, não de um palácio de governo meio sitiado pela crise.

DIA DA MULHER GOSTOSA!


Aos 81 anos, Beatriz disse: deixem comigo! - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 08/03

Dia desses, uma amiga do interior me ligou, queria me passar umas informações. Eu disse: "Vou te dar meu e-mail, você passa tudo. E ela: "Acha que sei trabalhar com isso? Sabe quantos anos tenho? Sou de outra geração. Não temos nada a ver com essas coisas". Sei quantos anos ela tem: 73. Porque três anos atrás o marido fez uma bela festa para os 70 anos dela. Lembrei-me que meu tio José ficou fascinado com o computador que ganhou dos filhos. E ainda não havia mouse, imaginem, era tudo controlado pelo teclado. E José estava com quase 80.

Acho que minha amiga não sabe que a vida começa aos 60. Quando jovem, lembro-me de um best-seller chamado A Vida Começa aos 40. Agora já avançamos. Aos 73 ter medo do teclado de um computador é inquietante. É estar desistindo. Desistindo cedo demais. Outro dia falei de toda essa tecnologia que nos assombra. Porém, um computador não assombra mais. Faz parte de nossas vidas, assim como o chuveiro elétrico.

Semana passada, fiquei feliz ao ler a notícia. As coisas estão mudando mesmo, ainda que sejam pontuais, aqui e ali. Pois não é que Beatriz Camargo Pimenta foi eleita presidente do Masp aos 81 anos? Olhem as fotos nos jornais. Inteira, rosto esfuziante, disposta a tocar um barco que nas últimas décadas ameaçou naufragar nas mãos de gente mais nova. O Museu é uma das mais importantes entidades deste Brasil, pelo acervo e pelos eventos que realiza. Pois está aí uma mulher que assume o risco sem medo, ela conhece arte, é colecionadora, tem tutano. Suas declarações são otimistas, de quem aceita o desafio. Longa vida para Beatriz. E para o Masp!

Nessa história de idade, fiquei impressionado quando, há duas semanas, li o livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de 'Psicose', de Stephen Rebello, que revela um episódio significativo. O livro é a base do filme que já está em cartaz, com Anthony Hopkins no papel do "mestre do suspense". Nele vemos um momento crucial na vida de um homem de imenso talento. Aos 60 anos, depois de fazer 44 filmes, alguns de enorme sucesso, e apontado como um dos gênios do cinema, Hitchcock foi considerado "velho" pelos chefões da Paramount, que lhe negaram dinheiro para o projeto do filme Psicose. Não deixaram inclusive de chamá-lo de caduco e acabado. Hitch lutou contra o sistema, brigou com bancos, enfrentou críticas de executivos, penhorou sua casa e fez o filme, transformado em um dos maiores sucessos americanos da década de 60. Uma obra hoje clássica que foi baratíssima para os padrões hollywoodianos, 900 e poucos mil dólares.

Foi um tapa na cara dos chefões do estúdio e, igualmente, um tapa na cara de todos os que achavam (e ainda acham) que a velhice é sinônimo de invalidez, fim de linha, incapacidade de trabalho ou de criatividade. Todos os técnicos, muito mais jovens, se assombraram com o olho de Hitch, que sabia a duração exata de uma cena, de um fotograma de filme. Que sabia exatamente o que queria e como chegar lá. Não foi à toa que os jovens da nouvelle vague francesa o endeusaram. Era um "velho" que sabia demais.

Sei, as coisas têm mudado, porém lentamente. Os juízes do Supremo Tribunal Federal não são obrigados a se aposentar aos 70 anos, no auge da experiência, da capacidade mental, do conhecimento? Na maioria das empresas, os 62 anos não são comemorados com a demissão do sujeito? Semana passada, dei com um amigo que acaba de sair de uma grande instituição, porque passou dos 60. Meses depois, voltou como consultor, e com uma belo cachê, porque as gerações intermediárias não estavam dando conta do recado. Esperem! Não quero dizer que a nova geração é incompetente; nada disso; é que a mescla da experiência com o ímpeto da juventude pode resultar em momentos agradáveis e eficientes.

Meu avô paterno trabalhou até os 90 como marceneiro. Meu pai foi diariamente à sua fábrica de sacos de papel (aposentado como ferroviário, ele abriu uma pequena empresa, deu certo) até os 80 e poucos anos. Só saiu por divergências com um sócio. O doutor Jatene fez transplantes até que idade? Niemeyer, dona Canô, Krajcberg, Vanzolini, quantos mais podemos citar? E Inezita Barroso, domingo passado, não conduziu seu programa de televisão aos 88 anos? Só para citar alguns. Os velhos talvez não tenham tanta força. Mas aprendemos a fazer tudo, sentados na cadeira, na poltrona, rede, o que for. Como esses jogadores experientes que jogam na sombra.

P.S.: A propósito, no YouTube circula um vídeo de Ginger Rogers aos 92 anos dançando salsa com o neto. E no livro Em Casa, Breve Historia da Vida Doméstica, Bill Bryson comenta a certa altura que o arquiteto John Nash, na avançada idade de 46 anos, voltou a Londres...

DIA DAS MULHERES GOSTOSAS!


Um pouco de história - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 08/03

Descoberto em 1500, o Brasil tem um tempo próprio, que o distingue de outros países. Quando os portugueses aqui chegaram, nossos índios viviam na Idade da Pedra. O período colonial equivaleu à nossa Antiguidade e os dois reinados fizeram a vez de nossa Idade Média.

Com a república no final do século 19, entramos no que seria a Idade Moderna, mas não a Idade Contemporânea. Nada de estranhar, portanto, que oito anos após a vitória republicana, em 1889, fosse fundada a Academia Brasileira de Letras, em julho de 1897, com alguns séculos de atraso em relação a seu modelo, a Academia Francesa.

Na própria França, o gosto literário e a liturgia social haviam mudado, e numa época em que Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud rompiam com a ética conservadora e a estética tradicional da literatura, no Brasil ainda se cultuava o parnasianismo rebuscado, o romantismo enviagrado.

Mesmo assim, a ABL representou um estágio superior na história cultural do país. Ali se reuniram os melhores escritores da época, ao lado de alguns notáveis de nossa vida pública --herança da própria Academia Francesa.

Um exemplo ilustra a tradição de academizar os notáveis. Joaquim Nabuco, um dos fundadores, sugeriu a Machado de Assis o nome do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, certamente o homem mais importante daquele tempo. Machado hesitou, alegando que o barão não tinha livro publicado, nada escrevera até então. Nabuco argumentou: "Rio Branco está escrevendo o mapa do Brasil". E o barão tornou-se acadêmico.

Pouco a pouco, historiadores e sociólogos, e não apenas críticos literários, começam a absorver a fundação da ABL, entre os fatos marcantes da República recém-instaurada. Com efeito, a ideia de uma academia de letras ou de artes sempre pareceu associada aos regimes monárquicos, e o Brasil foi monarquia constitucional desde a sua independência, em 1822.

Atravessou os dois reinados, o de Pedro 1º e Pedro 2º, sem que nenhum brasileiro articulasse seriamente um movimento acadêmico, embora o fato literário, em si, tenha sido dominante na historia da nação, desde os tempos em que era colônia de Portugal.

O próprio d. Pedro 2º tinha pretensões de poeta, ligou-se aos intelectuais e cientistas de sua época, tanto no Brasil como no exterior, mas nunca lhe ocorreu fundar ou patrocinar uma Academia Real (ou Imperial) de Letras ou de Artes. Circulam até hoje sonetos de sua autoria, que alguns atribuem a amigos do imperador, como Carlos de Laet, por sinal, um dos primeiros integrantes da futura Academia "Brasileira" de Letras.

Certo que não houve qualquer conotação política na sua fundação. A ideia de congregar escritores num cenáculo não foi de Machado de Assis, que para todos os efeitos ficou como pai da ideia e dela se apossou, não por vontade própria, mas por mérito e circunstância.

A semente que produziria a futura "Casa de Machado de Assis" foi lançada por Lúcio Mendonça, um jurista, membro do Supremo Tribunal Federal, e homem dedicado às letras mas sem o carisma literário que, na época, somente Machado possuía.

A Academia não se fundou às custas nem sob as benesses do governo, até hoje mantém uma cordial distância do poder político e econômico. Ao mesmo tempo em que elege partidários da situação, igualmente escolhe adversários dos diversos regimes que o país vem atravessando em sua fase republicana.

No seio da agremiação, tiveram assento monarquistas, anarquistas, positivistas, católicos praticantes, comunistas, integralistas --um mosaico até certo ponto divertido do ponto de vista social e político.

Sem falar nas diversas correntes da literatura propriamente dita, desde os classicistas e parnasianos, como Ruy Barbosa, Coelho Neto, Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, até modernistas, como Manuel Bandeira, Jorge Amado, José Lins do Rego e Menotti del Pichia, sem falar nos outsiders, como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

DIA DA MULHER GOSTOSA!


O tapete da copa - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 08/03

É verdade que o Maracanã não foi bem no teste da chuvarada, terça. Ainda assim, para alegria dos torcedores, começa amanhã à noite a ser posto o tapete de grama que vai cobrir o campo do estádio. A operação, feita pela Greenleaf, levará quatro dias. Serão cortados e transferidos dois mil metros quadrados de grama, por dia, plantados em uma fazenda em Sampaio Correia (veja a foto), pertinho de Saquarema. A Greenleaf, responsável pela instalação, tem 5% do seu capital incorporados pela Royalverd, empresa que cuida do gramado do Barcelona, considerado um dos melhores do mundo. Por conta disso, cinco técnicos espanhóis vão acompanhar o plantio

Calma, gente
Um bafafá envolve alguns dos médicos mais famosos do Rio. Daniel Tabak e Jacob Kligerman, ex-diretores do Instituto Nacional do Câncer, vao processar o colega José Gomes Temporao.

É que no livro “Câncer como problema de saúde pública”, do Ministério da Saúde, o ex-ministro desancou os dois.

Off...
Sobre Tabak, o ex-ministro disse que ele teria “enlouquecido literalmente, que era caso clínico”. Em relaçao a Kligerman, disse que ele adotou “uma tecnologia que era boa para fábricas de pneus e panelas de pressao, mas nao para a saúde”.

Temporao enviou uma carta aos dois médicos se desculpando e explicando que havia falado tudo em off. Mas nao adiantou.

Dilma Pilatos
Dilma, que tinha vetado a tunga dos royalties do petróleo por considerar a cobrança ilegal, parece que amarelou.

É o que se entende pelas declarações dos ministros Gilberto Carvalho e Luís Inácio Adams de que o governo federal nao vai recorrer ao STF contra a derrubada do veto. É pena.

O cara sem luz
No temporal de terça, o prédio onde mora Roberto Carlos, na Urca, ficou... 15 horas sem luz. O rei subiu cinco andares de escada e passou a noite sem ar-condicionado.

Grito del carioca
Uma das músicas mais cantadas por chavistas na Venezuela é a velha cançao comunista “América Latina obrera”, de Ali Primeira.

Um verso diz assim: “Y viene remontando el Amazonas/el grito rebelde del carioca/y viene a unirse con su hermano/el obrero venezolano”. Há controvérsias.

André Esteves Lemann

Um amigo de André Esteves, que acaba de se juntar a Eike Batista, diz que o banqueiro sempre sonhou trilhar o caminho do seu guru, Jorge Paulo Lemann.

O grande empresário brasileiro, como se sabe, começou no mercado financeiro e migrou para o setor produtivo.

Vale...
Esteves, também com Eike, tentou comprar a Vale, em agosto de 2009. Os dois, no dia 19 daquele mês, foram a Osasco, sede do Bradesco, tentar convencer Lázaro Brandao a vender a parte do bancao na mineradora.

Reação...
O negócio nao prosperou por causa da reaçao, dentro do Bradesco, comandada pelo diretor Mário Teixeira e pelo entao presidente da Vale, Roger Agnelli, que tinha feito carreira no banco.

De lá pra cá...
Aliás, Agnelli, que andou se desentendendo com Eike, depois que deixou a Vale, ficou sócio de André Esteves em negócios de mineraçao.

Diário de Justiça
O juiz Paulo Roberto Campos Fragoso, da 318 Vara Cível do Rio, homologou um acordo entre a Brasport Gestao e o Olaria Atlético Clube.

Participaram da audiência representantes das partes e Eurico Miranda, ex-presidente do Vasco. Eurico estava lá porque... nao sei.

Irreverência carioca
Sabe a festa Movimento dos Interessados em Sacudir Sua Alma, que nao usa mais a sigla M.I.S.S.A. por ter feito um acordo com a Igreja?

Pois bem, quem for à festa, amanha, no Rio, será recebido por dois anões fantasiados de... Chávez e Chorao.

Guarda de trânsito
Um parceiro da coluna ficou impressionado com a desenvoltura de Carlos Roberto Osório, secretário municipal de Transportes.

Uma hora da madrugada de quarta, logo após o temporal que castigou o Rio, ele organizava a saída de táxis no aeroporto Santos Dumont.

Garota exemplar
É hoje, na Travessa, no Rio, o pré-lançamento no Brasil de “Garota exemplar”, o livro de Gilian Flynn que vendeu no ano passado três milhões de cópias, e há 37 semanas está na lista de best-sellers do “New York Times”.

A obra teve seus direitos para o cinema adquiridos pela Fox.

Pavio curto
O Estado do Rio foi condenado pela 38 Câmara do Rio a pagar indenizaçao de R$ 30 mil ao delegado Alexandre Neto. Ele foi algemado, segundo o advogado Joao Tancredo, por um PM chamado Barbosa porque estacionou em local proibido, em 2006, em Copacabana. Na audiência, um desembargador brincou:

— Essa família Barbosa está com o pavio muito curto.

Faz sentido.


ERRO MÉDICO - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 08/03

A Prefeitura de SP foi condenada a indenizar em 60 salários mínimos, por danos morais, um homem diagnosticado tardiamente com câncer na rede municipal de saúde.

ERRO MÉDICO 2
O paciente passou por cinco consultas na Unidade Básica de Saúde Jardim Comercial, com feridas, vermelhidão e coceira na boca. Por nove meses, foi atendido pelo mesmo médico, que só prescreveu pomadas. Quando encaminhado a outro hospital, descobriu que estava com carcinoma no lábio. Submetido a cirurgia, ficou com marcas também no pescoço. A Defensoria Pública é autora da ação.

OURO PURO
Dirigentes do PT querem que o governador Eduardo Campos (PSB-PE) comece a pagar já o preço de se movimentar como candidato à Presidência contra Dilma Rousseff, de quem fala mal em encontros reservados. Defendem que ele perca os cargos que indicou na Chesf, a Companhia Hidroelétrica do São Francisco.

OURO PURO 2
A Chesf, com patrimônio de R$ 16,8 bilhões e receita líquida de R$ 5,6 bilhões, está sob comando de Campos desde 2003. Na época, o governador pernambucano negociou o cargo de presidente com o então ministro José Dirceu e indicou Dilton Oliveira para ocupá-lo. Em 2011, ele foi substituído por João Bosco de Almeida, também apadrinhado por Campos.

LATIFÚNDIO
No cálculo do PT, a Chesf vale "dez ministérios" dos que o PSB comanda.

PORTA ABERTA
Nada acontecerá, no entanto, enquanto Lula ainda achar que pode manter Campos na aliança com Dilma.

NÃO PODE
Marta Suplicy baixou norma no Ministério da Cultura proibindo servidores de "receber obras, ingressos ou quaisquer produtos decorrentes de projetos culturais sujeitos à aprovação" da pasta, "independentemente de seu valor". A exceção se aplica à ministra e a ocupantes de altos cargos na pasta, que podem aceitar brindes sem valor comercial ou distribuídos como cortesia ou propaganda, de até R$ 100.

NO DIVÃ, DE NOVO
A HBO Brasil está produzindo uma nova série. A atração, que será dirigida por Marcus Baldini ("Bruna Surfistinha"), gira em torno do universo de um psicanalista, assim como "Sessão de Terapia", do GNT. O roteiro é inspirado em contos de Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha. A previsão inicial é de 13 episódios.

ENGRAÇADINHA
A atriz Alessandra Negrini estreia a peça "A Propósito da Senhorita Júlia", com direção de Walter Lima Jr., no dia 20 de abril, em São Paulo. A temporada paulistana do espetáculo faz parte da comemoração dos 12 anos do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) na cidade.

VAMOS FALAR DE CASAMENTO
O ex-deputado e ex-candidato a prefeito Celso Russomanno (PRB-SP) está "muito feliz". Em outubro, conduzirá ao altar a primogênita, Luara Russomanno, 25, na igreja São Francisco de Assis, na Vila Mariana. Ela se casará com Bruno Queiroz, 22, sócio da empresa The Original Cupcake e filiado ao PTB.

Tão feliz que Russomanno pai tem ido a reuniões com filha e genro para decidir "coisas do casamento, como bufê, decoração, convite...". "Ela não tem mãe, né? Então, sempre fui pai e mãe dela", diz, lembrando a mulher Adriana, que morreu sem atendimento médico num hospital.

MOSCA NA SOPA
E o CCBB-SP promove nos dias 20 e 21 de abril o show gratuito "Toca Raul" no Anhangabaú. Zélia Duncan e Zeca Baleiro cantarão clássicos de Raul Seixas.

AMIGO DO SÍNDICO
Cauã Reymond interpretará o paraguaio Fábio, amigo e parceiro de Tim Maia, no filme sobre a vida do artista. O ator também será o narrador do longa, que começa a ser rodado no dia 21 de maio.

PROSTITUIÇÃO
O criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira definiu como "prostituição" a atitude de advogados que deixam de lado a própria convicção para se tornarem estrelas nos casos que atendem, agindo ao sabor da audiência. A íntegra da entrevista estará no ar hoje, no portal Justo na Lei, do Libertuci Advogados Associados.

CLUBINHO ARTÍSTICO
A galeria Room 8 foi inaugurada, anteontem, na alameda Ministro Rocha Azevedo, nos Jardins. O espaço é comandado por Juliana Simão Rodrigues. Entre os presentes estavam a galerista Emanuelle Saeger, a decoradora Claudia Saeger, o designer Pedro Ávila e o DJ e fotógrafo Matheus Sandes.

BEIÇOLA EM AÇÃO
O ator Marcos Oliveira, o Beiçola de "A Grande Família", estreou a peça "Biografia Não Autorizada", no teatro do MuBE. Ele atua com Tiago Robert. A atriz Carol Macedo e a drag Paulette Pink assistiram ao espetáculo.

CURTO-CIRCUITO
A festa Tô Q Tô tem sua segunda edição, hoje, às 23h, na rua da Consolação, 2.554. 18 anos.

O Catavento abre a mostra "Science + You", às 9h.

A banda Remake anima a Celebrate by Chandon especial Dia Internacional da Mulher hoje, no She Rocks.

A terceira edição do projeto Navegar é Preciso - Uma Viagem Literária pela Amazônia ocorre de 29 de abril a 3 de maio.

Inverno à distância - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 08/03

RIO DE JANEIRO - Em setembro de 1965, Frank Sinatra lançou um LP intitulado "September of My Years". A canção-título, escrita para ele por Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn, referia-se àquela quadra da vida em que, pelo visto, as pessoas começam a enxergar o fim do túnel. Ao gravá-la, Sinatra ainda estava a dois meses de completar 50 anos. Como só morreu em 1998, aos 82, conclui-se que se afobou -ainda teria grandes outubros e novembros para viver.

Também em setembro, mas de 2012, em entrevista a Luciana Leiderfarb, do jornal português "Expresso", o escritor americano Paul Auster, 65 anos recém-feitos, declarou: "Agora sou um homem mais velho. Meus dias estão contados e não sei quantos me restam. Certamente menos do que aqueles que já vivi. Estou literalmente no inverno da minha vida. Se dividirmos a vida em quatro estações, cheguei à quarta estação".

Bem, tendo também completado 65 há alguns dias, e pulado fogueiras brabas nos últimos anos, entendo o que Auster quis dizer. Mas não acho que me diga respeito, nem à gente bronzeada do hemisfério Sul. Nossa quarta estação do ano não é o inverno, mas o verão, quando os fluidos se assanham e querem sair por aí, misturando-se a fluidos outros. E, perdão, Frank, mas, para nós, setembro não anuncia folhas secas e caídas, e sim a explosão de cores e cheiros.

O ator Marco Nanini, a apresentadora Marília Gabriela, a ministra do STF Rosa Weber, a dramaturga Gloria Perez, o designer Hans Donner e o treinador e linguista Joel Santana, todos terão 65 anos em 2013. Outros que há muito se despediram dos 65 e acabam de fazer ou farão 70 são Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Nei Lopes, Dori Caymmi, Leny Andrade, Edu Lobo, Marcos Valle e Turibio Santos, para ficarmos só na música.

Pergunte-lhes se estão no inverno de suas vidas.

Ueba! Hoje é o Dia Delas! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 08/03

E uma amiga minha vai comemorar o Dia da Mulher tendo vários orgasmos múltiplos. Com ECO!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E as três últimas charges do Chávez! Charge do Tiago Recchia com o Chávez preenchendo o cadastro no céu: "Causa mortis?". "Ianques!" Rarará!

Charge do Newton Silva com o Chávez sapateando no céu: "Cheguei primeiro! Fidel não contava com a minha astúcia".

E charge do Sinfrônio com o Chávez gritando pra baixo: "Nada de eleições! Posso muito bem governar daqui!". Rarará!

E atenção! Hoje é o Dia Delas! O Perereca's Day! Dia Internacional da Mulher! Podem bater o carro! Tão liberadas! Rarará! O mundo é das mulheres! E não adianta discutir. Aliás, se discutir é pior! Se discutir, aumenta a pensão! Rarará!

Mas o mundo mudou: você entra numa empresa e só tem mulher trabalhando. Aí você entra num supermercado e só tem homem comprando. E antigamente a mulher só falava três coisas: "Pra dentro, menino". "Xô, galinha!" "A janta tá na mesa!" Agora fala três coisas: "Xô, marido". "Bota o lixo pra fora" e "quando eu voltar eu quero a janta na mesa". Rarará!

E uma amiga minha vai comemorar o Dia da Mulher tendo vários orgasmos múltiplos. Com ECO! Pro prédio inteiro ouvir! E um amigo vai comemorar o Dia da Mulher comendo a própria.

E no ano passado um amigo meu fez uma coisa horrível no Dia da Mulher: levou a mulher pra jantar fora, depois levou a um motel, aí tirou a roupa dela e cochichou: "VOCÊ ENGORDOU?!". Rarará!

E uma outra amiga minha disse que vai comemorar o Dia Internacional da Mulher provocando um engavetamento! Rarará!

E o homem? O homem sem a mulher não é nada. Nem corno! E uma amiga me disse que todo dia é dia da mulher e quem for cumprimentá-la pelo Dia da Mulher vai levar uma porrada! Rarará!

E uma travesti no Twitter: "Bom dia! Um quase obrigada de uma quase mulher". E no ano passado o Extra estendeu a faixa: "11/3. Passeio ciclístico do Dia Internacional da Mulher 2012! O que levar: bicicleta". Aí uma amiga minha gritou: "Eu não sou burra". Rarará!

E as sapatas vão comemorar o Dia Internacional da Minha Mulher! E as travecas vão comemorar o Dia da Mulheríssima! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A figura do pai - LUIZ PAULO HORTA

O GLOBO - 08/03

Quatro páginas diárias nos jornais, desde que a renúncia do Papa foi anunciada, o que corresponde a umas três semanas — é difícil achar exemplo equivalente de cobertura jornalística. Qual o motivo? Certamente não é o carisma (inexistente) de Bento XVI. Muitas reportagens também se esmeram em explicar que a Igreja perde prestígio, perde fiéis, que surgem escândalos dia sim dia não. E, no entanto, vejo pessoas que não são católicas intensamente mobilizadas pelo tema “quem vai ser o próximo Papa?”

Não haverá uma razão única para isso. Desprestigiada a Igreja pode estar; mas ela ainda fornece a mitologia básica da nossa cultura. Experimente pensar num ano do qual fossem retirados o Natal, a Páscoa, a Semana Santa. Estranhíssimo, não? Nesse contexto, o Papa desenha uma figura de pai — que é o que o seu nome indica. Em termos de Ocidente, ele ainda é referência. Não por acaso, ele ainda tem uma palavra a dizer nas grandes crises, nas grandes comoções da humanidade. O contraste não poderia ser maior com outras figuras da atualidade — como as que, na Itália onde fica o Vaticano, pretendem chegar ao palácio Quirinale.

A figura do pai — tema imenso na literatura psicanalítica, ou na literatura “tout court”. Édipo matou o pai. Seria um exemplo do “assassinato ritual” com que você, simbolicamente, tem acesso à plena maturidade. Os nietzscheanos parecem ir além: a partir da “morte de Deus”, postulam um ser humano que seria o criador de si mesmo. Este é o exercício vital de personagens grandiosas como um Goethe.

O ser comum age e pensa de outra maneira. Exemplo prosaico é o da Venezuela, onde há multidões órfãs do coronel Chávez. Isso pode ter causas econômicas ou sociais; mas certamente é mais do que isso.

O mesmo acontece no Brasil. A partir de dados econômicos que são reais — como a expansão da classe média e a diminuição da miséria —, surge um clima onde o ex-presidente Lula se transforma numa espécie de pai da pátria.

Na política, isso é perigoso: conduz fatalmente ao personalismo. É fácil ver, hoje, que Lula tem dificuldade em lidar com a própria imagem. Sente-se mal fora do poder. Desenvolve um tipo de amargura estranha numa pessoa com os seus níveis estratosféricos de popularidade.

No caso do Vaticano, é um pouco diferente. Há exemplo de papas que desenvolveram personalidades imperiais. Mas não é a regra. O prestígio de que eles dispõem, mesmo nas fases mais críticas da Igreja, vem de uma coisa que se chama “autoridade espiritual”.

O mundo moderno tem feito um grande esforço para viver sem isso. É até bem típica da nossa época secularizada a figura do ateu tranquilo que é uma pessoa perfeitamente ética e pode ter um comportamento mais cristão que o de muitos cristãos.

Mas a autoridade espiritual existe. Pode vir, por exemplo, de um professor — um mestre — que abriu novos caminhos na sua vida. Na velha Grécia, quem chegou perto de Sócrates sentiu a sua mordida salutar. O doce licor da sabedoria.

Ofensiva diplomática - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 08/03

O Brasil vai disputar a presidência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. O candidato será Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos e atual diretor do Instituto Lula. A eleição será em maio. A presidente Dilma está com a comissão atravessada na garganta desde 2011, quando esta recomendou a paralisação das obras da Usina de Belo Monte (PA).

Uma decisão dramática
A presidente Dilma e a cúpula do PMDB estão diante de uma situação delicada para a reforma ministerial que se aproxima. Eles estão sem saber como tratar da substituição do ministro Mendes Ribeiro (Agricultura). A presidente tem relações pessoais com o ministro e ele é bem quisto no partido. Mas existe uma constatação no governo, e no setor produtivo, que Mendes Ribeiro, devido a seus problemas de saúde, não tem condições físicas e emocionais de cumprir as estafantes tarefas de gestão de uma área tão importante. Esta foi a questão mais embaraçosa tratada, na terça-feira, no almoço da presidente Dilma com o vice Michel Termer para tratar da reforma.

“O PMDB já sabe em que palanque estará em 2014. Os outros partidos da aliança, ninguém sabe” Henrique Eduardo Alves Presidente da Câmara (RN), ao defender mais espaço para o partido no Ministério Dilma

Em busca de visibilidade
O marqueteiro baiano Edson Barbosa, o Edinho, foi contratado e já está trabalhando para produzir as inserções nacionais e o programa nacional de TV do PSB que irá ao ar em 25 de abril. O âncora será o governador Eduardo Campos.

Para a plateia
Ao avaliar a votação do veto à Lei dos Royalties, a bancada de deputados do Rio concluiu que, a despeito das posições públicas assumidas pelo governador tucano Geraldo Alckmin (SP), boa parte da bancada de deputados de São Paulo votou pela derrubada do veto. São Paulo tem 70 deputados, mas apenas 40 votaram pela manutenção da lei.

O impasse
O PR não aceita que o senador Blairo Magi (MT) o represente no ministério. A presidente Dilma avalia que o deputado Luciano Castro (RR), nome do partido, não tem perfil para o Transportes. O PR pode ficar com cargos menores na Esplanada.

O palanque duplo. Sim ou não?
O PMDB está cobrando que a presidente Dilma se posicione na eleição para o governo do Rio. O partido diz que não aceita palanque duplo. Sobre isso comentou um dos mais experientes parlamentares do Brasil: “Se a Dilma chegar forte para a eleição vão engolir o palanque duplo. Foi assim, em 1998, com o Fernando Henrique”.

Paranoia
Amigos e aliados do presidente do STF, Joaquim Barbosa, dão a seguinte explicação para sua dificuldade em encontrar quem aceite ser diretor-geral do Supremo: “O ex-ministro José Dirceu estaria tentando infiltrar alguém no cargo”.

Retorno ao palco
O ex-ministro Delfim Netto foi convidado pelo presidente da Comissão de Agricultura do Senado, Benedito de Lira (PP-AL), para debater soluções para a logística da agroindústria, que é hoje o maior gargalo da produção nacional.

APESAR DE TODA MAROLA PETISTA, a presidente Dilma vai manter, na reforma, os dois ministros do PSB: Fernando Bezerra e Leônidas Cristino.