terça-feira, março 05, 2013

O tabuleiro de Lula - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 05/03

Em recente encontro com um grupo de assessores próximos, num sítio do interior paulista, Lula traçou as rotas que vislumbra para os ministros do PT-SP em 2014. O ex-presidente sinalizou que a influência de Aloizio Mercadante (Educação) no governo Dilma Rousseff o credenciará para a coordenação da campanha de reeleição da presidente, ao lado de José Eduardo Cardozo (Justiça). Com isso, Alexandre Padilha (Saúde) seria o "candidato natural" do partido a governador.

Menos um Na conversa, Lula buscou sobretudo convencer Luiz Marinho de que Padilha seria o nome mais viável. Hoje à noite, o prefeito de São Bernardo será anfitrião do ministro em evento voltado para secretários de Saúde de todo o Estado.

Dilmo À luz do relato do encontro, petistas afirmam que Mercadante quer ser ministro da Casa Civil em eventual segundo mandato de Dilma, para ser candidato natural à sua sucessão em 2018.

Exércitos A corrente PT de Lutas e Massas, liderada pela família Tatto, declarará na quinta-feira apoio a Vicente Cândido na disputa pela presidência da sigla em São Paulo. Rival do deputado, Emídio de Souza avança nas tratativas com prefeitos.

Básico De um aliado de Eduardo Campos (PSB) ao explicar por que seu principal estrategista, Diego Brandy, vai atuar nos bastidores numa eventual campanha: "Ele não vai colocar um argentino para comandar o marketing em ano de Copa do Mundo".

Nós e eles No papo com dirigentes da Força Sindical, o governador de Pernambuco criticou mais de uma vez a "falta de diálogo" do governo federal com a sociedade civil. Disse ainda que a deterioração da economia coloca em risco "as nossas conquistas", em referência à era Lula.

Longe Apesar da menção, Campos não tem reunião marcada com o ex-presidente.

Toga justa 1 Quem transita nos bastidores do STF (Supremo Tribunal Federal) considerou "acima do tom" a nota de três entidades da magistratura criticando Joaquim Barbosa por ter declarado que juízes têm mentalidade "pró-impunidade".

Toga justa 2 Interlocutores lembram que, em seu discurso de posse, o presidente da corte procurou valorizar a categoria. Ontem, recebeu servidores do Judiciário que cobram reajuste salarial.

Onde pega Para membros do Supremo alinhados a Barbosa, a reação das entidades é uma resposta à decisão do CNJ de restringir os patrocínios a eventos de juízes.

Hora extra O STJ aprovará amanhã lista tríplice a ser encaminhada ao Planalto para a vaga destinada ao Ministério Público. Entre os concorrentes está Augusto Aras, que é subprocurador-geral da República e advoga em um grande escritório, com atuação em tribunais superiores e até no exterior.

Agora vai? Após 20 reuniões conjuntas, a agência que integra governos federal e paulista no combate ao crime organizado elegeu como prioridades imediatas o cerco à lavagem de dinheiro, via Coaf, e a apreensão de armas ilegais nas fronteiras com outros Estados, com ajuda da Polícia Rodoviária Federal.

Visitas à Folha Pedro Taques (PDT-MT), senador, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Jean Campos e Sabrina Gahyva, assessores de comunicação.

Gabriel Chalita (PMDB-SP), deputado federal, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Edson Giusti, assessor de comunicação.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"Haddad esqueceu que é prefeito e, em vez de cuidar das enchentes e das calçadas, quer opinar nos assuntos do governo do Estado."
DO VEREADOR ANDREA MATARAZZO (PSDB), sobre os recentes ruídos de atribuições entre o prefeito de São Paulo e o governador Geraldo Alckmin.

contraponto


Não há almoço grátis


Anfitrião do almoço oferecido ontem a Dilma Rousseff em Campina Grande (PB), Aguinaldo Ribeiro (Cidades) foi barrado quando tentava entrar na sua própria casa. A van em que estava, acompanhado de colegas da Esplanada, só foi liberada após intervenção do general José Elito, chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

Resolvido o impasse, Ribeiro foi recompensado. Recebeu raro elogio da presidente, que disse, no almoço:

-Foi muito bom conhecê-lo e nomeá-lo.

Aliviado, o ministro brincou com assessores:

-Ufa, pelo menos por ora, acho que estou garantido.

A rede da demagogia - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 05/03

O Brasil, infelizmente, continua com uma hegemonia de esquerda na vida política


Há mais um partido na praça. Trata-se da Rede, de Marina Silva, candidata que recebeu 20 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais. Tem muita gente cansada da dicotomia entre PT e PSDB, em busca de alguma alternativa. Será que a Rede é a solução?

Confesso ao leitor que ela não me convence. Para começo de conversa, o partido fez como o fisiológico PSD, de Kassab, e alegou não ser de esquerda nem de direita, pró-governo nem oposição. Contudo, quando vamos verificar quem são as pessoas por trás dele, só encontramos gente de esquerda, inclusive da ala mais radical, aquela que ainda sonha com o fracassado socialismo cubano.

Um de seus gurus intelectuais é Leonardo Boff, da Teologia da Libertação, uma mistura tosca entre cristianismo e marxismo. Marina veste literalmente o boné dos invasores de terra do MST. Vários membros do PSOL pretendem migrar para a Rede. E por aí vai.

Alguns ali abraçam a cruzada ecológica, mas tampouco me enganam. São “melancias”: verdes por fora, mas vermelhos por dentro. Seu discurso transforma o meio ambiente em religião antiprogresso, e dá para notar claramente o viés anticapitalista. O planeta será salvo pelo resgate do “bom selvagem”, de uma vida comunitária idealizada, como no filme “Avatar”. Estou fora dessa seita romântica!

Resta a importante questão ética. Uma vez mais, eu não fico tão convencido. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Marina teve quase três décadas de filiação ao PT. E não é novidade alguma o uso de práticas imorais do partido em sua busca implacável pelo poder. Elas chegaram ao auge do absurdo com o mensalão, mas não foram iniciadas ali.

Relações com o jogo do bicho, parceria com ditadores comunistas, até mesmo afinidade e aproximação com os guerrilheiros das FARC representam o histórico do PT desde muito tempo. A bandeira da ética sempre foi hipócrita, e está totalmente esgarçada pelas traças do poder.

Esse rompimento tardio de Marina, que foi ministra de Lula, remete ao caso do escritor Saramago, que rompeu com Fidel Castro após uma nova perseguição a três intelectuais cubanos, ignorando os milhares de cadáveres acumulados na mais longa ditadura da América Latina.

Marina Silva resolveu sair do PT apenas quando seu espaço político estava prejudicado. Mas ela fez parte do governo, ainda que não tenha praticado atos ilegais. Quando abandonou o PT, disse que foi preciso coragem para sair de sua “casa política”, à qual ainda nutria profundo respeito. Quem respeita tanto assim o PT perde o meu respeito.

A Rede fez muito barulho com a bandeira ética, tal como o PT de ontem. Mas começou mal, ao recusar dinheiro de empresas de tabaco e cerveja, mas aceitar o de empreiteiras (eu inverteria). Aceitou ainda gente do PSOL envolvida no escândalo do bicheiro Cachoeira. Será que Marina concorda com José Dirceu, para quem a Lei da Ficha Limpa é absurda? Caiu na Rede é peixe?

Em suma, por trás daquela fala mansa e da mensagem messiânica (o próprio Alfredo Sirkis afirmou que se trata mais de um “estado de espírito” do que de prática política), jaz o embrião de mais um partido populista e demagógico, uma espécie de PT revigorado e embalado em alface orgânico. Um projeto personalista da “salvadora da pátria”.

O Brasil, infelizmente, continua com uma hegemonia de esquerda na vida política. Todos os partidos relevantes rezam o mesmo credo socialista envergonhado: intervencionista na economia, coletivista e paternalista no social. Nenhum fala abertamente em privatização, em redução do papel do governo na economia e em nossas vidas. Todos querem assumir o papel de “pai do povo” e controlar 40% do PIB nacional.

O grande nome “novo” é Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes e líder de um partido que ainda se diz socialista. Do lado dos tucanos, temos Aécio Neves, que parece o melhor da turma. Mas algo ali não cheira bem. Falta disposição para assumir uma postura efetiva de oposição.

Os milhões de brasileiros cansados da completa falta de ética na política, do viés estatizante de todos esses partidos, continuam órfãos políticos, sem representação partidária. Sei que há partidos demais (legendas, na verdade), mas precisamos de uma alternativa verdadeira, sem medo de assumir sua posição de direita liberal, a favor do livre mercado, da família e da propriedade.

Um partido que não venda ilusões e milagres por meio da pesada mão do Estado, mas sim reformas que devolvam o poder a cada um de nós. Um partido que diga “Basta!” a todos esses privilégios e subsídios estatais. Precisamos de algo realmente NOVO!

Cenas de um casamento - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 05/03

No fim tudo se ajeita. Com palanques unificados ou diversificados, PT e PMDB estarão juntos em torno da eleição presidencial de 2014 se assim for considerado da conveniência de cada um deles.

Embora dependa muito mais do êxito da administração Dilma Rousseff, das artimanhas do ex-presidente Lula e da popularidade de ambos para ganhar, ao PT interessa a companhia da, ainda, mais bem plantada máquina partidária País afora.

Dilma não ganhou em 2010 porque Michel Temer era seu vice, entenda-se. Ninguém está dizendo isso. Mas a ajuda do PMDB - em acréscimo de tempo de televisão no horário eleitoral e/ou em engajamento das "bases" regionais - foi essencial notadamente por não estar nas mãos do adversário.

O PMDB por si não ganha nada. Fazia parte da chapa de José Serra em 2002, lembre-se. À labuta de lançar candidatura própria prefere o conforto da carona no barco que lhe parece com mais chance de atracar no porto seguro.

Por ora o que representa essa segurança é a candidatura de Dilma à reeleição ou qualquer outra arquitetura que Lula resolva montar para 2014. Em qualquer caso o PMDB é aliado valioso.

Portanto, deve-se conferir peso relativo aos termos em que estão sendo discutidas nessa etapa da largada as alianças dos dois parceiros nos Estados, notadamente nos três maiores e mais importantes colégios eleitorais, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro.

Ambos almejam candidaturas próprias para governador. É natural que quem tem o comando da disputa nacional queira assegurar o chamado "palanque único". Ao mesmo tempo, o PMDB não pode relaxar ao ponto de sempre abrir mão em prol do PT.

Se for compassivo em excesso corre o risco de, ao longo do tempo, ir se enfraquecendo e perder seu grande patrimônio que é o poder local. Este permite a formação de grandes bancadas na Câmara e no Senado e lhe assegura influência no plano nacional.

Daí a necessidade de fazer seu jogo na medida do conveniente e, quando possível, mediante acordo de boa convivência, disputando com o PT. Normal, então, que petistas e pemedebistas nessa altura estejam marcando território.

Em São Paulo o PMDB ensaia apresentar candidato e o PT diz que não desiste: quer disputar para levar adiante o projeto de desalojar o PSDB do governo do Estado depois de lhe tirar poder sobre a prefeitura da capital. Aqui, tudo indica, se houver confronto, o PT leva a melhor.

No Rio o PMDB tem o governo no Estado que, por sua vez, tem candidato: o vice do governador Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, figura querida, eficiente, distante de escândalos, prestigiada no Palácio do Planalto, mas, segundo os enfronhados na política fluminense, sem o que se convenciona chamar de densidade eleitoral para dizer que a pessoa não tem votos.

O PT tem o senador Lindbergh Farias, eleito senador em 2010 vindo de dois mandatos como prefeito na baixada fluminense e, portanto, já devidamente testado e bemsucedido nas urnas.

Além disso, os petistas já abriram mão da candidatura de Lindbergh para o governo há dois anos e o partido sofre até hoje o trauma da intervenção da direção nacional em favor de uma aliança com Anthony Garotinho. Aqui a probabilidade é a de que haja dois palanques ou que o PT consiga impor sua vontade, mas não será fácil.

Em Minas, o PMDB cedeu na eleição municipal. Havia vencido uma duríssima queda de braço na disputa anterior, quando o PT tirou o time e foi à derrota com Hélio Costa. Dificilmente vai querer repetir a fórmula.

Nada disso abalou a aliança em torno do grande prêmio que é a Presidência da República, vale dizer, acesso irrestrito à máquina federal.

Se for de interesse de ambos, PT e PMDB podem brincar separados o carnaval de 2014 nos Estados e, mesmo assim, preservar os termos do acordo pela conquista do prêmio principal.

''Não sei. Boa pergunta'' - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 05/03

BRASÍLIA - Depois da votação e das "comemorações" do fim do 14º e do 15º salários de deputados e senadores, ficou uma boa pergunta no ar: o que acontece com a verba destinada para isso neste ano?

O 14º já foi pago, mas o 15º também está previsto no Orçamento de 2013 e não será mais pago no final do ano. Como a economia anual com o fim dos dois é estimada em pouco mais de R$ 31 milhões, há em torno de R$ 16 milhões no limbo. E daí, o que vai acontecer com essa bolada?

Depois de pensar, pensar, pensar, o senador Renan Calheiros respondeu: "Espero que essas economias todas possam ser direcionadas para o fortalecimento da atividade do Senado". Ou seja, o presidente promete cortar, de um lado, mas adicionar o "troco", de outro.

Já o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, admitiu: "Não sei. Boa pergunta". Nós, que pagamos a conta, também achamos uma excelente pergunta. E a chance para respondê-la é hoje ou nunca.

A votação do Orçamento, atrasada desde o ano passado, está prevista para esta terça e uma possibilidade é que o relator da matéria peça para fazer um "adendo" no sentido de cortar/devolver/dispensar os R$ 16 milhões referentes ao 15º salário, que não será pago aos parlamentares e não devem -ou não deveriam- ser empregados em nada mais. Ou bem é economia, ou bem não é.

Aliás, só como lembrança, não é correto falar em "fim" do 14º e do 15º. Em vez de receberem dois salários a mais do que os pobres mortais todo santo ano, os senadores vão ter direito a um a mais em dois dos seus oito anos de mandato, e os deputados, a um a mais em dois de seus quatros anos. A título de "ajuda de custo".

Sem falar, cá pra nós, que eles podem criar, na surdina, alguma compensação para a perda. Olho vivo! No lema de Dilma, "o fim da miséria é apenas um começo". No Congresso, o fim do 14º e do 15º também pode ser apenas um começo...

Existe vida fora da Selic - ANTÔNIO DELFIM NETTO

VALOR ECONÔMICO - 05/03

As recentes manifestações do Federal Open Market Committee (Fomc), do Fed americano, e do Monetary Political Committee (MPC), do Bank of England (BE), dão uma ideia clara das precárias condições em que se encontra o que se supunha ser a "ciência monetária". Ao tentar indicar o caminho para ultrapassar a gravíssima crise em que o mundo vive desde a quebra do Lehman Brothers, eles mostram que estamos em território econômico absolutamente desconhecido.

Sua exploração deve ser feita aperfeiçoando os instrumentos construídos nos últimos 250 anos, com a coragem e a honestidade que faltaram à profissão quando ela desenvolveu "teorias" que justificavam, "a posteriori", as patifarias que estavam sendo construídas no alegre incesto entre o poder político incumbente e os sistemas financeiros dos países.

A prova da proposição é simples: os poupadores que entregaram seus recursos a administradores ficaram pobres e desempregados. Os administradores ficaram trilionários e não precisam de emprego! Tudo graças à teoria "científica" que os mercados deixados a si mesmos eram "perfeitos, moralmente administrados e seguramente autorregulados".

A profissão precisa de uma grande pajelança para livrar-se da cegueira, não apenas dos que ainda agora insistem em aceitar tal "teoria", como outros, que, com o mesmo nível de ingenuidade, acreditam que o poder incumbente deixado a si mesmo é naturalmente benevolente, onisciente, e sujeito ao imperativo categórico da absoluta impessoalidade e honestidade...

Na última reunião, o Fomc decidiu "manter o intervalo do "federal funds" (a taxa básica americana) entre 0 a 1/4% e antecipar que este nível excepcionalmente baixo da taxa básica será apropriado enquanto a taxa de desemprego permanecer acima de 6,5%, a taxa de inflação esperada nos próximos um ou dois anos não seja 1/2% superior à qual estamos comprometidos como objetivo de longo prazo (2%) e a expectativa de inflação continuar bem ancorada".

Lembremos que o Fed se propôs, há dois meses, a executar uma política de "quantitative easing" (QE3) indefinidamente, enquanto um dos elementos do par (6,5% para o desemprego ou a taxa de inflação ultrapasse 2,5%) não for atingido. Pois bem, agora tudo parece mudado, como revela a discussão na última ata do Fomc, onde lemos: "Muitos participantes (alguns são não votantes) enfatizaram que o comitê deve estar preparado para variar a velocidade da compra dos ativos (a operação QE3), seja em resposta à mudança das perspectivas econômicas, seja pela avaliação da eficácia e custos que ela envolve. Outro insistiu que as compras devem ser incrementais de reunião a reunião, em resposta às novas informações sobre a economia. Outros, ainda, argumentaram que as avaliações de eficácia e custos podem levar o comitê a reduzir o QE3, mesmo antes que ocorra uma melhoria no mercado de trabalho. Outros lembraram que o custo potencial de suspender ou reduzir a compra de ativos pode ser muito alto, e que ela deve continuar até que uma mudança substancial no mercado de trabalho tenha ocorrido".

Fica evidente que a decisão do Fomc foi apenas uma solução de compromisso, sem apoio factual ou forte convicção teórica. Honestamente, é pouco provável que, com o conhecimento dessa ata, o "mercado" saiba o que o Fed quer e que coordene as "expectativas" dos agentes na direção desejada. O "mercado" precisa de instruções claras e explícitas: o que Fed quer é menor taxa de desemprego, maior crescimento e um pouco mais de inflação! Então, porque não dizer isso claramente e deixar o "mercado" apostar nesse resultado?

O mesmo sentimento de confusão e incerteza deriva da ata do MPC, do Bank of England, de fevereiro. O governador do BE, Mervyn King, e mais dois membros do MPC sugeriram aumentar o "quantitative easing" inglês, mesmo diante do fato de que a taxa de inflação excede largamente a "meta" oficial, e as expectativas inflacionárias dos próximos dois anos excedem a meta de 2%. Foram vencidos. Os seis votos vencedores no MPC recusaram o aumento da taxa de juros, mesmo diante do preocupante aumento da taxa de inflação.

Uma explicação plausível para o comportamento do MPC é que o próprio Bank of England espera a posse do seu futuro presidente, Mark Carney (ex-presidente do Bank of Canada), que tem manifestado a intenção de experimentar a variante da política monetária que tem por objeto o PIB nominal.

Não passou despercebido para os analistas mais cuidadosos que a proposta de King e seus companheiros implicava, de fato, aceitar que um aumento do "quantitative easing" produziria um efeito mais forte no nível de atividade que no nível de inflação, uma hipótese que nega o monetarismo.

Na proposta, eles afirmaram que o aumento do QE "poderia ajudar no processo de rebalancear a economia e evitar a destruição da capacidade produtiva e o aumento do desemprego". Isso acendeu a luz vermelha dos mais céticos. Para esses, a expressão "rebalancear a economia" é apenas a forma elegante e diplomática de dizer que o QE deve trabalhar na direção de desvalorizar a libra e aumentar a exportação. Esse objetivo já fora explicitado por King no seu discurso em Belfast, no dia 22 de janeiro.

Diante de tanta confusão "científica", é preciso recomendar humildade aos nossos sacerdotes adoradores da religião do "tripé", que supõem que não existe vida fora da manipulação da taxa Selic.


Além das palavras - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 05/03

A reunião do Copom esta semana enfrentará o dilema definido pelo economista José Roberto Mendonça de Barros como "estagflação". Esse é talvez o momento mais difícil para a autoridade monetária: a inflação em alta recomendaria subir juros; a estagnação, reduzir juros. As taxas devem ser mantidas, mas o Banco Central alertará que está atento à pressão inflacionária.

As previsões do Focus ontem mostraram o calculo médio dos analistas de mercado que são ouvidos pelo Banco Central: um pouquinho menos de crescimento do que estava previsto para esta ano, 3,09%, e um pouco mais de inflação, 5,70%.

Sobre crescimento, é possível encontrar todo o tipo de estimativa hoje no mercado. Tem gente prevendo 2%, tem gente prevendo 4%. E a maioria está em torno de 3%, mas o número tem diminuído um pouquinho a cada semana. A inflação faz o caminho inverso.

O dilema é sempre aquele: se deixar o combate à inflação de lado, o que se colhe é menos crescimento. A inflação reduz a renda, que diminui a capacidade de consumo, que tem sido o grande motor do pouco crescimento.

O BC deve elevar os juros em algum momento no ano, mas não agora. Vai esperar que a inflação ceda um pouco em futuro próximo para ver quando será necessário elevar os juros. Por enquanto, está testando a capacidade de influir as expectativas através das declarações em que se compromete com o combate à inflação. Pode não ser suficiente.

No crescimento do PIB o governo precisa criar um ambiente favorável aos negócios. Por enquanto, só tem acontecido o uso de palavras. Em Londres, representantes do governo como a ministra Gleisi Hoffmann disseram que os investidores devem vir para o Brasil e investir porque aqui não perderão dinheiro. Bom que façam os convites. Isso é parte do trabalho, mas o passo seguinte é criar oportunidades e um ambiente favorável ao investimento, além de mitigar o risco de mudanças aleatórias do cenário. Risco, todo capitalista tem que correr; o que não faz sentido é aquele derivado de alteração das regras contratuais.

Ontem, foi divulgado que a carga tributária aumentou de novo em 2012. Isso, apesar das desonerações para alguns setores. Comprova-se assim uma tendência de quase duas décadas na economia brasileira. Nos governos Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff, a carga tributária tem crescido constantemente. As pequenas reduções só servem para no ano seguinte ela voltar a subir.

Esse é um dos problemas que afetam a capacidade de crescimento de longo prazo. O governo sempre acha um jeito de arrecadar mais. Ele muda a alíquota, cria um novo imposto, muda a base de cálculo, altera o quadro regulatório, tudo para arrecadar mais. Com isso aumenta o peso sobre a economia e a incerteza.

O governo brasileiro tem usado apenas palavras para enfrentar o que precisa ser enfrentado para reverter o quadro de estagflação. É claro que o Brasil já não é tão afetado quanto no passado por crises internacionais, porque o país fez uma parte do dever de casa que tornou a economia mais robusta. Mas também é evidente que o crescimento minguou e o país está com uma resistente inflação em torno de 6%, o que é muito alto principalmente diante das circunstâncias. Isso precisa ser enfrentado não com arroubos declaratórios, mas com um trabalho detalhado para remover os obstáculos do caminho.

Durante o ano passado o governo divulgou uma série de pacotes. Em todos eles, as autoridades afirmaram que o resultado seria elevar para 22% e depois 24% a Formação Bruta de Capital Fixo em relação ao PIB (taxa de investimento), mas ela caiu de 19% para 18%. É preciso mais que palavras para reduzir a inflação e elevar o crescimento.

O alijamento da indústria - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 05/03

Ainda persiste entre os dirigentes do setor produtivo brasileiro o discurso de que a indústria é altamente competitiva do portão da fábrica para dentro, mas não do portão para fora. Com isso, querem dizer que não adianta muito modernizar linhas de produção e incorporar tecnologia, porque os custos derrubam tudo.

Aos poucos, os empresários têm tomado consciência de que as coisas são mais complicadas. A indústria brasileira, protegida demais, vai ficando fora do novo arranjo do mercado mundial, formado por grandes cadeias de fornecimento e de produção.

Duas advertências recentes foram feitas sobre esse tema por profissionais do setor. A primeira delas é do ex-embaixador do Brasil em Londres e nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, hoje presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp. Em entrevista à jornalista Patrícia Campos Mello, veiculada na Folha de S.Paulo de 1.º de março, o embaixador Barbosa disse que a indústria nacional não só está sendo alijada da cadeia dos global suppliers. Ela também está fora da formulação de suas regras: o governo brasileiro deixou de negociar novos acordos comerciais.

Em outra entrevista, esta à repórter Raquel Landim, publicada ontem no Estado, o sócio-fundador do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Passos, adverte que "precisamos incluir o Brasil nas cadeias produtivas globais. Perdemos inúmeras oportunidades, temos de enfrentar essa agenda".

O problema não é só esse. Além de estar sendo excluída da cadeia global de produção, a indústria brasileira também não tem dado conta do mercado local. "Se a empresa não estiver na fronteira da tecnologia, perde o mercado interno", avisa Passos. Tanto não vem dando conta que a produção cai, mesmo com a forte elevação do consumo. E essa demanda tem sido cada vez mais suprida por importações.

O embaixador Barbosa observa que a Embraer é a única empresa brasileira que participa dessas cadeias. Não se preocupa em gerar cada componente de que precisa. Ao contrário, seus aviões são um agregado global. Entre seus modelos, há asas fabricadas no Japão; spoilers vindos da Argentina; trens de pouso e poltronas fabricadas na Alemanha; turbinas originárias da Inglaterra ou dos Estados Unidos; fuselagem feita na República Checa; e assim por diante.

"Com um índice de inovação baixo, não podemos ser exemplo do portão da fábrica para dentro", acrescenta Passos. É o contrário de tudo o que a política industrial do governo federal pratica. Para isso, trabalham para conseguir formar reservas de mercado para fornecedores das montadoras de veículos, da Petrobrás e da petroquímica.

Os formuladores da política industrial do Brasil não pensam nessa inserção no mercado internacional de tecnologia e de distribuição. Querem que tudo seja feito por aqui. E isso compromete o futuro da indústria. São os mesmos que, em vez de reconhecer o caminho certo da Embraer, tomam como exemplo os problemas da Boeing com suas baterias de lítio para sugerir que a própria Boeing devesse desenvolver suas baterias - e não terceirizar sua produção.

A indústria precisa fazer escolhas. Para isso, tem de ter noção clara dos seus limites. E é promissor que os próprios empresários estejam percebendo a necessidade do novo salto. Se o Brasil deve ter uma política industrial (os Estados Unidos não têm), o que o governo precisa fazer é orientar essas escolhas.

Bolsa de valores - NIZAN GUANAES

FOLHA DE SP - 05/03

A mensagem do marketing não é mais "compre", mas é "compre de maneira responsável"


Marketing é comunicação, e a revolução da comunicação obviamente é a revolução do marketing.

É uma revolução de várias faces e vertentes: a comunicação entre as marcas e seus públicos é agora um diálogo aberto com vários protagonistas.

Não adianta mais ter um roteiro pronto, por melhor que sejam as falas. É preciso estar pronto para o diálogo, a exposição e o escrutínio permanentes de um público que cada vez mais tem mais informação sobre você, seus fornecedores, seus concorrentes, seus preços, suas práticas comerciais, suas relações com a comunidade.

Logo veremos o dia, e ele parece cada vez mais próximo, em que um consumidor, antes de qualquer decisão de consumo, abra uma pequena tela com todos os dados relevantes sobre aquele produto, a sua marca e o seu fabricante.

Aplicativos para consumidores conscientes crescerão como crescem o consumo consciente e a indústria de aplicativos.

Por isso a marca será cada vez mais coisas. Ou melhor, a marca será cada vez mais valores.

E o marketing cada vez mais será focado nesses valores, já que eles serão cada vez mais relevantes na hora da venda. E da compra.

É o que nos Estados Unidos está se chamando de "purpose marketing", que leva ao consumidor não só as mensagens da marca, mas, principalmente, os valores envolvidos na sua produção.

E, nesse mercado de valores, todos saem ganhando.

Nesta época em que se fala mais da experiência de compra e menos do ato de compra, o marketing de valores estabelece conexões com o consumidor que vão muito além da relação com o produto que ele está adquirindo.

A conexão se expande para os valores da marca e da empresa que a produz, a forma com que a organização lida com o ambiente, as comunidades, seus colaboradores, fornecedores, o país, o planeta.

A cobertura do marketing nesse novo prisma é ampliada exponencialmente para tratar de elementos que antes não tinham essa relevância.

Há uma lógica cristalina nisso tudo: a relação da empresa e da marca com seus clientes e consumidores será muito mais forte se, além da relação comercial via produto, os dois lados estabelecerem uma relação afetiva e cidadã via valores compartilhados.

Sempre existirão céticos e cínicos a dizer que isso não passa de "marquetagem" para vender produto.

Uma resposta cética e cínica é que no mundo da informação isso só pode ser feito se for genuíno e concreto, pois o risco e o custo de ser desmascarado são altos demais para corrê-los.

Hoje ou você coloca os valores sociais e a sustentabilidade dentro do seu modelo de negócios ou você estará fora da onda e corre risco de ficar fora do mercado.

A mensagem do marketing não é mais "compre", mas é "compre de maneira responsável". Compre com sua carteira e com seus valores.

Esse novo marketing afinal acessa, libera e conduz o potencial social natural que existe em toda empresa.

Em vez de buscar apenas o lucro líquido, as empresas precisam buscar também o orgulho líquido.

Se, depois do lucro líquido, não sobrar orgulho do que está sendo feito, um dia provavelmente não vai sobrar nada.

E criar orgulho é muito mais difícil do que criar lucro. É um grande desafio que deve servir como combustível para impulsionar empresas e inovações.

Não é mais sustentável fazer lucro sem cuidar da cadeia produtiva. É preciso dar assistência e horizonte aos colaboradores, ser rigoroso com fornecedores e generoso com as comunidades envolvidas.

No mundo da informação e do consumidor informado, orgulho líquido estará cada vez mais ligado ao lucro líquido.

A melhor forma de competir em mercados globais cada vez mais disputados é ter o melhor lucro dentro das melhores práticas. Lucro e valores podem ter sido inimigos eventuais no passado, mas são grandes aliados neste futuro já presente.

Siga o dinheiro, mas o dinheiro orgulhoso. Diante de novos projetos agora é preciso fazer duas perguntas: Isso dará dinheiro? Isso dará orgulho?

Combater a inflação, mexer no emprego - ILAN GOLDFAJN

O GLOBO - 05/03

Os investimentos levariam, ao longo do tempo, a aumentos de produtividade que permitiriam a adequação da economia aos salários atuais (e ao forte mercado de trabalho)


A inflação subiu no Brasil e, com ela, as preocupações do governo. O discurso recente tem enfatizado o compromisso no combate à inflação. Melhor assim. É necessário transmitir a ideia de que há um guardião da inflação para evitar aumentos contínuos de preços. Se subir muito, caem as vendas, perde-se mercado. É a âncora da economia. Mas não há almoço grátis, o combate à inflação requer estar disposto a abrir mão de coisas valiosas. A sociedade está preparada para (temporariamente) reduzir o consumo e desaquecer o mercado de trabalho para reduzir a inflação?

Ninguém gosta de fazer essa opção. Às vezes nem é necessário. A maioria dos países vizinhos na América Latina está crescendo forte, com inflação em queda (Peru cresce 6,3%, com inflação de 2,6%; Chile, 5,6%, com 1,5% de inflação; México, 3,9%, com inflação de 3,6%, etc.). É que uma vez combatida a inflação, a estabilidade econômica e a melhora na produtividade favorecem crescimento forte com baixa inflação.

Mas, no Brasil, as opções estão mais difíceis. Recentemente, tem ocorrido o inverso dos nossos vizinhos: inflação em alta e crescimento tímido. O Banco Central (BC), na última ata, chamou a atenção para as “limitações pelo lado da oferta”. O problema não é a falta de consumo, que tem crescido de forma robusta. É necessário produzir a um custo menor (mais produtividade) para crescer sem pressionar a inflação. Nesse caso, estímulos ao consumo não resolvem, podem até exacerbar o problema, pois distanciam a demanda do que pode ser ofertado sem inflação crescente.

Muitas vezes as soluções parecem caminhar na direção correta, mas podem não resolver o problema. Por exemplo, a desoneração de impostos na economia é um objetivo nobre a perseguir. Afinal, a alta e complexa carga tributária da economia brasileira é um gargalo ao crescimento. No curto prazo, os subsídios e corte de impostos de fato podem reduzir os preços e ajudar a combater a inflação. Mas, ao longo do tempo, se as desonerações e os menores preços estimularem ainda mais o consumo, sem correspondente aumento da oferta, o problema inflacionário persistirá.

Apesar da redução da tarifa de energia elétrica, que teve impacto relevante no índice de fevereiro, a inflação não tem cedido como desejado. Neste início de ano, a inflação continuou elevada, no acumulado em 12 meses deve oscilar entre 6,2% e 6,6% até o final do terceiro trimestre, quando pode começar a recuar. A pressão dos alimentos tende a ser revertida, pelo menos parcialmente, e a queda do preço das commodities agrícolas no mercado internacional pode ajudar. Porém, observa-se uma maior disseminação no aumento de preços. O mercado de trabalho aquecido tem gerado aumentos de salários que, repassados aos preços, têm gerado resistência à queda da inflação.

Na atual conjuntura talvez seja necessário desaquecer temporariamente tanto o consumo, adequando-o, no curto prazo, à oferta mais restrita, quanto o mercado de trabalho, para permitir adequar os aumentos de salários ao crescimento da produtividade do trabalho. Nesse caso, as desonerações apenas adiariam a necessidade desses ajustes para adiante.

Pode-se argumentar que a desaceleração do consumo e/ou do mercado de trabalho não seja necessária. Bastaria controlar as expectativas no curto prazo para evitar reajustes defensivos de preços, desonerar alguns preços no curto prazo, ganhando tempo para que haja uma reação pelo lado da oferta: mais produção baseada em mais investimentos. Os investimentos levariam, ao longo do tempo, a aumentos de produtividade que permitiriam a adequação da economia aos salários atuais (e ao forte mercado de trabalho).

O problema é que a retomada dos investimentos, em particular, tem ocorrido de forma lenta, enquanto o consumo e o mercado de trabalho continuam robustos. No ano de 2012, a economia cresceu 0,9%. O investimento teve queda de 4% no ano passado. O consumo das famílias e os gastos do governo continuaram crescendo firmes, em 3,1% e 3,2%, respectivamente.

Projeta-se uma retomada modesta do atual ritmo de crescimento do PIB para 3% em 2013. Apesar do baixo crescimento projetado, espera-se que a taxa de desemprego continue baixa, mantendo o mercado de trabalho apertado e aumento dos salários reais. Boas notícias para um lado da economia, mas, por outro, dificultam o combate à inflação.

Pleno emprego, salários altos e consumo forte têm sido valiosos para a economia brasileira. A inflação sob controle também é um valor. Não está claro se há consciência na sociedade de que, para manter a inflação sob controle, possa ser necessário temporariamente reduzir o consumo e desaquecer o mercado de trabalho.

Fator externo - JOSÉ PAULO KUPFER

O Estado de S.Paulo - 05/03

Os números altamente frustrantes do desempenho econômico brasileiro, em 2012, são ainda mais decepcionantes quando comparados aos de outras economias, no mesmo período. Excetuados países da encalacrada zona do euro, o resto do mundo, aí incluídos os claudicantes Estados Unidos e os vizinhos latino-americanos, sem falar nos demais integrantes dos Brics, cresceu mais no ano passado.

Esse fato incontestável leva à natural conclusão de que os entraves à expansão econômica, no Brasil, apesar da ladainha irritantemente recorrente do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em sentido contrário, dizem respeito a problemas domésticos e não se devem às graves dificuldades enfrentadas pela economia internacional. Está claro que nem uma avestruz de caricatura concordaria com o ministro. Mas, até para alargar o entendimento das mazelas "made in Brazil", não se podem desprezar os impactos da crise internacional sobre ela.

Existe consenso de que a chave capaz de abrir a porta de uma retomada mais acelerada e sustentável do crescimento, na economia brasileira, é o investimento. A expansão da capacidade de produção e da oferta de serviços propiciariam a indispensável elevação da produtividade e, como consequência, avanços na competitividade geral.

Se todos os termos da equação encaixarem, a recuperação viria acompanhada de alívio nas pressões inflacionárias e do necessário estímulo à inovação e à qualificação de mão de obra. Porém, como se observa no momento, esse encaixe não é trivial.

A experiência recente tem mostrado que, se juros mais normais e câmbio menos valorizado são condições necessárias para impulsionar o investimento, estão longe de serem suficientes. Dos múltiplos elementos que concorrem para formar um ambiente propício à inversão de recursos na ampliação da oferta - financiamento em bases atraentes, regras estáveis e transparentes, retornos compatíveis etc. etc. -, um cenário externo que ofereça horizontes favoráveis deve ser colocado, sem dúvida, entre os mais decisivos.

Nos modelos de projeção do economista-chefe, no Brasil, do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira, tanto para a expansão do investimento quanto do próprio PIB, por exemplo, o comportamento da economia global aparece como fator determinante. O economista que, então na contramão do consenso, antecipou o PIB mínimo de 2012 trabalha, para 2013, com três cenários, a partir, justamente, de hipóteses para o crescimento global.

A previsão de que a economia, neste ano, crescerá 4%, que coloca Teixeira novamente na contramão do consenso, depende, na verdade, da concretização de um cenário básico, considerado como de maior probabilidade de ocorrer, conforme descrito em relatório elaborado em janeiro. Nesse cenário, em que a economia global avançaria 3,5% este ano, os investimentos, no Brasil, aumentariam 6,5% e o PIB, 4%. Em dois outros cenários, um mais pessimista, em relação ao crescimento global, e outro mais otimista, os números seriam diferentes.

No cenário pessimista de Teixeira, a economia internacional não cresceria mais de 2,7%, em 2013, repercutindo, no Brasil, em aumento de apenas 3,1% nos investimentos e de 2,8% no PIB. Já no cenário mais otimista, que opera com a hipótese de uma expansão da economia mundial de 4,2%, os investimentos registrariam um salto de 9,6% e a economia avançaria 5,1%.

As chances do cenário otimista já eram pequenas e, com as recentes revisões para baixo de FMI e OCDE para o crescimento mundial, agora com projeção de expansão pouco acima de 3%, praticamente foram eliminadas. Importa destacar, de qualquer maneira, os riscos de se desprezar a influência do cenário externo na trajetória de crescimento da economia brasileira e, mais do que em relação ao PIB, no caso do elemento crítico representado pelo investimento.

Essa constatação serve para o investimento como um todo, mas é ainda mais verdadeira quando se observam, separadamente, as fatias pública e privada. Um simples passar de olhos no comportamento da taxa de investimento decomposta, ao longo dos últimos anos, deixa claro que, mais do que as aplicações públicas, as inversões privadas - e, dentro delas, especificamente os investimentos em máquinas e equipamentos - seguem muito de perto os ciclos dos humores econômicos globais.

Se o crescimento só voltará com investimentos - e com investimentos privados -, é bom ficar de olho no fator externo.

O PIB, o governo e as mentiras - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 05/03

Agora que o PIB cresceu apenas 0,9% em 2012, esse mesmo governo que achava ser o responsável por todos os êxitos do Brasil resolve alardear em alto e bom som que o problema é a economia internacional


Em recente evento realizado pelo PT, para comemorar os 10 anos do partido na Presidência da República, Lula reclamou dizendo que a imprensa bate nele como batia no presidente norte-americano Abraham Lincoln: com dureza e críticas, sem dar o devido reconhecimento a seus feitos e êxitos. No mesmo evento, a presidente Dilma, por sua vez, resolveu desdizer a si mesma, ao afirmar que seu partido nada recebeu dos antecessores e tudo o que o Brasil tem de bom foi construído pelo PT desde 2003, quando ela própria havia reconhecido, no início de seu mandato, a boa herança macroeconômica recebida de Fernando Henrique Cardoso.

Todos os governantes, sem exceção, sempre disseram e sempre dirão que a imprensa é ingrata, dura e injusta em relação a eles. Mas, no caso de Lula e de Dilma, o problema é que eles fabricam as próprias mentiras. Ou Dilma estava mentindo quando elogiou Fernando Henrique por ter implantado o Plano Real, debelado a inflação, saneado o sistema financeiro e implantado a Lei de Responsabilidade Fiscal; ou está mentindo agora ao afirmar que o PT nada herdou de bom e tudo construiu por sua genialidade.

Há outras mentiras claras. Quando Lula teve êxito ao manter o Brasil em boa situação econômica e formou reservas internacionais elevadas, ele, seu governo e seu partido alardeavam que o sucesso era obra da competência do governo. Lula não gostava quando analistas diziam que ele teve uma sorte enorme ao governar em um período no qual a economia mundial andou bem, os preços das commodities exportadas subiram de 2002 a 2010 sem parar, os preços das importações brasileiras caíram e o cenário mundial foi favorável como há muito tempo não era. Lula somente teve as primeiras turbulências já no fim de seu governo, com a crise financeira mundial.

O governo Lula teve seus méritos, e isso é reconhecido. Mas atribuir todos os êxitos a seu governo é desconhecer o papel jogado pelo cenário mundial altamente favorável. Agora que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,9% em 2012, esse mesmo governo que achava ser o responsável por todos os êxitos do Brasil resolve alardear em alto e bom som que o problema é a economia internacional. Esse crescimento é pífio e empobrece o Brasil, pois a população cresceu mais que 1%.

Ou o governo estava mentindo quando atribuía a si os louros da vitória porque a economia ia bem – não aceitando que parte do sucesso se devia à boa conjuntura externa –, ou está mentindo agora, tentando convencer a população de que o péssimo desempenho de 2012 é culpa da economia internacional. Ou uma coisa ou outra. Talvez algum guru do PT, dado a ser estrategista, saiba que política é isso mesmo: a arte de elogiar a si próprio, mesmo quando não mereça, e culpar os outros, mesmo quando o governo está errado.

A se acreditar que a função da propaganda partidária e governamental é agir dessa forma, então que aceitem as críticas e o rigor com que a imprensa trata suas diatribes verbais e suas mentiras eleitorais. E isso vale para todos os partidos no poder, de direita ou de esquerda, se é que essas definições ainda fazem algum sentido. Não aceitar as críticas e a dureza da imprensa e da opinião pública é coisa de ditadores, que a todos querem submeter, ceifando-lhes a palavra (quando não a vida) sempre que criticam os poderosos de plantão. Já que o ex-presidente resolveu comparar-se a Lincoln, seria bom que ele lesse mais a biografia desse grande homem para descobrir que ele jamais tentou calar a imprensa e seus opositores.

A Lula e Dilma resta o lembrete: nem tudo o que o Brasil tem de bom começou em seu governo e nem tudo que o Brasil tem de ruim foi obra de seu governo. Da mesma forma, a boa conjuntura externa ajudou, sim, os êxitos do governo do PT, e essa mesma conjuntura externa contribuiu para o mau desempenho da economia brasileira em 2012.

Nenhuma crise é eterna. Os Estados Unidos já estão dando sinais de recuperação. A Europa está cambaleando, mas em algum momento do futuro a crise será superada. Quando isso ocorrer, o Brasil irá se beneficiar e, se a China não descambar para o pior, a economia brasileira poderá ter anos muito bons. O governo, seja de que partido for, será influenciado pelos bons e pelos maus ventos da economia internacional.

O povo que pague - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 05/03

As campanhas eleitorais brasileiras custam os olhos da cara, mas isso não tira o sono dos candidatos e seus partidos. Eles gastam literalmente o que têm e o que não têm, principalmente para pagar os publicitários e marqueteiros incumbidos, a peso de ouro, de mostrá-los ao eleitorado sob o ângulo mais favorável - uma proeza e tanto, em muitos casos, sendo o que é a qualidade da clientela para quem trabalham. Os políticos vão em frente na gastança porque sabem que as milionárias dívidas acumuladas na temporada de caça ao voto - cobertas apenas em parte pelas doações declaradas de grandes empresas e pelo recebimento de "recursos não contabilizados" do caixa 2 - serão saldadas, mais dia, menos dias, pelo desvalido contribuinte.

A gazua que lhes dá acesso aos cofres públicos para onde são carreados os impostos cobrados da população atende pelo nome de Fundo Partidário, que merecia ser chamado, isto sim, fundo perdulário. Em nome do fortalecimento do pluripartidarismo - portanto, da democracia e da promoção da igualdade de oportunidades eleitorais entre as siglas -, no período de 10 anos até 2012, o Estado nacional transferiu-lhe aproximadamente R$ 2 bilhões. Da dinheirama, 95% são distribuídos proporcionalmente à votação recebida pelas diversas legendas para a Câmara dos Deputados a cada pleito. O restante é rateado em partes iguais. Além disso, sempre que um partido aparece em rede nacional obrigatória de rádio e TV, o governo recompensa as emissoras pela publicidade comercial perdida no período, isentando-as do pagamento de impostos. No ano eleitoral de 2012, a renúncia fiscal chegou a R$ 606 milhões, apurou o repórter Daniel Bramatti, do Estado.

O maná do Fundo Partidário - reajustado com base na inflação e no crescimento do eleitorado - não sacia, porém, a fome da tigrada. Tanto que, nos dois últimos anos, ao tramitar no Congresso o Orçamento da União, deputados e senadores aprovaram um adicional de R$ 100 milhões ao total já corrigido. Vão repetir a dose agora em 2013, elevando o montante a R$ 293,7 milhões. Os políticos dizem abertamente que as campanhas estão cada vez mais caras, logo maiores as dívidas - e o País que arque com a dolorosa. Em dezembro, um membro da Comissão Mista de Orçamento, o deputado pernambucano Paulo Rubem Santiago, cometeu a imprudência de se opor à nova sangria. "Me olharam com cara de metralhadora", lembra. E, obviamente, a objeção de nada adiantou.

Como a noite que se segue ao dia, quanto maior o subsídio oficial à atividade política, tanto maior o número de interessados no butim. O Brasil, que já lidera o ranking das democracias que mais despendem recursos públicos para esse fim - foram R$ 6,8 bilhões a contar de 2003 -, é uma indigesta sopa de letrinhas partidárias. Em funcionamento, são 30 legendas. Em gestação, mais 23, entre eles um Partido dos Servidores Públicos e dos Trabalhadores da Iniciativa Privada do Brasil (qual seria a sua sigla?), um Partido dos Estudantes, um Partido Militar Brasileiro e um Partido da Mulher Brasileira. Por que seria diferente? O desempenho de uma agremiação nas urnas, por pior que seja, não a impede de tirar uma lasquinha do Fundo e do tempo de TV. Afinal, em má hora o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a cláusula de barreira que pelo menos limitaria o acesso dos mal votados ao erário. Confunde-se direito de organização partidária com oportunidade de sugar o Estado.

Uma reforma política para valer teria de reduzir os custos extravagantes dos ciclos eleitorais. O tempo de propaganda na TV poderia durar menos, para onerar menos o contribuinte. (O ideal seria acabar com a onerosa pirotecnia de imagens publicitárias, como desejava o saudoso governador Mário Covas, mas isso é utópico.) Já o Fundo Partidário, no mínimo, deveria ficar imune a acréscimos como os que o Congresso tem aprovado cinicamente. Do Estado, as agremiações deveriam receber não mais do que uma dieta de subsistência. Se querem se fartar, que tratem de ordenhar os seus filiados e mandatários, além dos eleitores que querem vê-las prosperar. Mas está para nascer - se é que nascerá - um Congresso que não vasculhe o bolso do povo.

A comprovada falência da reforma agrária - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/03

O fato de quase a metade dos assentados depender de ajuda assistencial do Estado é sugestivo. O governo acerta, portanto, ao reduzir a distribuição de lotes



Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho é uma espécie de setorista de “movimentos sociais”. E pela longa militância no PT nesta área, Carvalho tem credibilidade para analisar de forma crítica a reforma agrária, uma das mais caras bandeiras da esquerda brasileira, desfraldada até mesmo pelos governos militares. Diante de críticas ao relativamente baixo número de assentados nos dois anos de governo Dilma, o ministro justificou o freio com a afirmação de que muitos assentamentos estão virando “quase que favelas rurais”.

Tem razão o ministro. E faz todo o sentido Dilma reduzir o ritmo de criação de assentamentos. Os números oficiais refletem a desaceleração: a média anual de famílias assentadas por FH foi de 67.588; Lula, 76.761, e Dilma, apenas 22.552. Desabaram críticas de políticos do PT e militantes sem-terra, por óbvio, sobre Gilberto Carvalho. Afinal, reforma agrária gera votos e cifrões. Porém, repórteres do GLOBO visitaram assentamentos em São Paulo e Pernambuco, estados em posições diferentes em termos de estágio de desenvolvimento, e confirmaram a conclusão do ministro.

A favelização de assentamentos é denunciada nas estatísticas. Por exemplo, pelo dado de que 36% das 945.405 famílias assentadas (ou 339.945)sobrevivem do Bolsa Família, por terem renda abaixo do limite divisor da miséria. Se forem consideradas famílias assentadas inscritas no Ministério de Desenvolvimento Social para receberem algum tipo de benefício assistencial, o número sobe para 466.218, ou 49% do total.

Não se realizou o sonho da redenção social por meio da divisão de terras. Foram distribuídos 87 milhões de hectares, 10,8% do território nacional, e, mesmo assim, metade dos assentados não sobrevive sem a ajuda assistencialista do Estado.

O abandono do assentado, nem sempre vocacionado ao trabalho no campo, é parte da explicação. Há, ainda, problemas de qualidade da terra, bem como de infraestrutura (estradas, água, energia elétrica). Pesquisa do próprio Ministério do Desenvolvimento Agrário encontrou elevados índices de reclamação quanto a estes pontos nos assentamentos visitados. Sem apoio de extensão rural, tudo fica ainda mais difícil. Diante deste quadro, o governo age de maneira sensata ao dar prioridade à tentativa de corrigir os assentamentos existentes em vez de instalar outros. Não atende aos interesses políticos do MST e aliados, mas ao bom senso e a critérios mínimos de seriedade no emprego do dinheiro do contribuinte.

Espera-se que, num segundo momento, o governo se convença de que a modernização da agricultura e a própria urbanização do país jogaram na lata de lixo da História a reforma agrária, tema de meados do século passado, de um Brasil muito diferente do de hoje. Mesmo o MST enfrenta dificuldades de recrutar adeptos que saibam cultivar a terra. Até a nova geração nascida em assentamentos migra para as cidades.

Política antieconômica - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/03

"Tola, arbitrária." Assim o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, definiu a atitude do Partido Republicano de rejeitar a renegociação da lei que impõe reduções automáticas do deficit do governo até 2021. Os cortes deste ano, de cerca de US$ 85 bilhões, entraram em vigor na semana passada.

O impasse é mais um capítulo de três anos de confrontos entre Obama e a oposição republicana, que desde 2011 controla a Câmara. O conflito indica que nem sempre partidos fortes -poucos e ideologicamente coesos- e um sistema eleitoral propenso a maiorias estáveis garantem governabilidade.

Um aspecto dessa crise é o próprio acirramento ideológico; o confronto se deve também ao método de eleição dos deputados, em pequenos distritos eleitorais.

O Partido Republicano tornou-se mais duro em sua posição de reduzir o governo. E, mesmo com o apoio da maioria da população a Obama, deputados republicanos relutam em aderir à opinião predominante, pois temem perder a indicação do partido ou a eleição em seus distritos. Por outro lado, analistas políticos e mesmo democratas consideram que o presidente carece de habilidade e inclinação para negociar com o Congresso.

Em 2011, o governo esteve à beira da inadimplência, pois a maioria republicana se recusava a aumentar o limite do endividamento federal. Um acordo de última hora resultou na lei que, entre outras determinações, previa a formação de um "supercomitê" bipartidário.

O grupo foi encarregado de estudar maneiras de reduzir o deficit -se com mais impostos, menos gastos ou uma combinação de ambos. Sem acordo, os cortes seriam automáticos. Foi o que ocorreu.

Metade dos cortes incidirá sobre o orçamento de defesa; outra metade, sobre despesas discricionárias. Funcionários federais entrarão em licença não remunerada. De parques federais a agências de proteção do consumidor, do ambiente e de pesquisa, todos terão orçamentos menores.

Tal redução de despesas terá, sim, algum efeito no crescimento americano. As estimativas, porém, variam de uma redução de 0,3 ponto percentual a 1 ponto percentual do PIB, que não deve crescer mais do que em 2012 (2,2%).

Provavelmente não haverá dano econômico crítico, mas a capacidade decisória do sistema político americano fica mais reduzida. Dado o peso dos Estados Unidos no mundo, o torniquete deve diminuir ainda mais as chances de uma recuperação global.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O nosso governo é de equilibristas e não de estadistas”
Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao comentar a economia e o ‘pibinho’ de 2012


DESEMPREGO NO PAÍS SOB SUSPEITA DE MANIPULAÇÃO

Empresários e economistas suspeitam de manipulação dos índices de desemprego no Brasil, sempre positivos como na Argentina de Cristina Kirchner. Dão sentido à suspeita o “pibinho” vexatório, a queda de investimentos estrangeiros e nacionais, infraestrutura que não decola, indústria em baixa e inflação em alta. Talvez seja um novo “milagre brasileiro”, como o da ditadura – que depois se comprovaria falso.

CONTA NÃO FECHA

Segundo o IBGE, com “pibinho” de 0,9% e fuga de investidores, em 2012 o desemprego oficial foi de 4,6%, um dos menores de sempre.

O QUE É RUIM...

Rei do assistencialismo, Lula se irritou com uma pesquisa mostrando que há mais obesos que esfomeados no Brasil. E enquadrou o IBGE.

...IBGE ESCONDE?

Desde o governo Lula, o IBGE é obrigado a submeter suas pesquisas ao Ministério do Planejamento, antes de divulgá-las. Muito suspeito.

COF, COF

Dilma garantiu que a crise financeira internacional não “gerou pneumonia” no Brasil. Vai ver nosso termômetro veio da China...

‘DILMINHA PAZ E AMOR’ CONSOLA ROSEANA APÓS GAFE

Em ritmo de campanha pela reeleição em 2014, a presidente Dilma surpreendeu políticos ao adotar estilo mais “afável” durante convenção do PMDB. Segundo aliados, Dilma consolou a governadora Roseana Sarney (Maranhão), que literalmente chorou após ter sido esquecida pela presidente em seus agradecimentos. Depois do discurso, Dilma pediu a Roseana para “não ficar chateada e tocar a bola para frente”.

CONTORNADO

Dilma foi alertada pelos assessores de que havia esquecido de Roseana Sarney e dedicou espaço especial a ela, no fim do discurso.

MÁ IDEIA

A causa é louvável, mas o nome é de matar: a sigla do Movimento de Reintegração dos Portadores de Hanseníase é “Morhan”.

TOBOGÃ

Bancado pelo BNDES, Eike Batista caiu do 7º para o 100º lugar dos “mais ricos do mundo” na Forbes. Somos agora os ricos mais pobres.

BOBO DA CORTE

Com mais da metade da população endividada, o ministro Guido Mantega (Fazenda) sacou o manual do otimismo, dizendo que “a crise não bateu na porta da família brasileira”. De fato: entrou sem bater.

AMARELOU

Bastou Brizola Neto dar uma demonstração de força, topando enfrentar a disputa pelo comando do PDT, para o atual presidente, Carlos Lupi, amarelar. Ele logo aceitou discutir uma “chapa de consenso”.

CASA DE ENFORCADO

Sem medo de ser infeliz com a censura, a Federação Nacional dos Jornalistas, controlada pelo PT, exige já o tal “controle social da mídia”. Acha que tanto Dilma quanto Lula agem “timidamente” desde 2009.

EMBROMADORES

A Agência Nacional de Aviação Civil multou a empresa que assumiu há dias a gestão do aeroporto de Brasília, em razão do apagão resultante da má gestão da estatal Infraero. Falta multar a própria Anac por não haver checado o sistema de energia do aeroporto da capital do Brasil.

URGÊNCIA

O deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF) quer urgência na tramitação dos projetos que criam cargos e aumentam salário de militares e da Polícia Civil no DF. No resto do país, as gratificações foram pagas em janeiro.

PASSOU BEM

No Rio, sexta (1º), Dilma jantou na casa de Sérgio Fadel, colecionador de arte, advogado competente que ganhou causas milionárias contra a União. É sogro do filho do ministro Edison

Lobão (Minas e Energia) e pai do presidente da Brasilprev, subsidiária do Banco do Brasil.

IRRESPONSÁVEIS

Em Ipanema, um buraco se abriu na calçada e engoliu um carro que saía da garagem. No Leblon, um incêndio matou o desembargador Ricardo Areosa e a mulher Cristiane, porque os bombeiros demoraram e faltava água nos hidrantes. Imaginem nos bairros pobres do Rio...

CAIU FORA

O senador tucano Flexa Ribeiro (PA) desistiu do passeio à Suíça que seria iniciado ontem, a título de “missão oficial”. Viagens internacionais estão entre as inutilidades mais ambicionadas por parlamentares.

PENSANDO BEM…

…Fidel Castro está aliviado: ex-morto-vivo de Cuba, foi sucedido por Hugo Chávez, o morto mais vivo da Venezuela.


PODER SEM PUDOR

BORNAL, ELEITOR DECISIVO

Eleito para o governo de Minas, em 1946, Milton Campos enfrentou um quadro muito comum a governadores recém-eleitos: sua maioria na Assembleia Legislativa era precária: um voto. Repórter iniciante, José Aparecido de Oliveira perguntou ao governista Virgílio de Melo Franco:

- Como vai ser a eleição para presidente da Assembleia?

Melo Franco respirou fundo e ensinou:

- Meu filho, essa gente não resiste ao cheiro do bornal...

Abrindo ou não o bornal, o governo ganhou a disputa. Por um voto.

TERÇA NOS JORNAIS


- Globo: A guerra do petróleo – RJ, SP e ES se unem para ir ao Supremo por royalties.
- Folha: Atraso da Anatel ameaça projetos da Copa, diz TCU
- Estadão: ‘Podemos fazer o diabo na hora da eleição’, diz Dilma
- Correio: Quantas ainda serão mortas por eles?
- Valor: Empresas reveem seus negócios na Argentina
- Estado de Minas: Brasil obriga aposentado a trabalhar mais 7 anos
- Jornal do Commercio: Confusão na capital e esperança no interior
- Zero Hora: Estados reabrem batalha por R$ 31 bi de royalties

segunda-feira, março 04, 2013

E o Oscar de efeitos especiais vai para.... O PT - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

Abraham Lincoln e Luiz Inácio da Silva não são a mesma pessoa, mas quase. Na festa de 30 anos da CUT, o filho do Brasil e pai da maior máquina de perpetuação no poder já vista neste país voltou a se queixar em grande estilo, como é próprio das vítimas profissionais. Declarou que ele e o companheiro Lincoln são uns injustiçados: “Fiquei impressionado como a imprensa batia no Lincoln em 1860. Igualzinho bate em mim”.

As semelhanças não param por aí: Lincoln não ganhou o Oscar, Lula também não. Mais uma armadilha do sistema capitalista contra os heróis do povo. Como um sujeito que sai limpinho do mensalão, convencendo mais de 100 milhões de pessoas de que não sabia de nada, pode não ser premiado com o Oscar? É muita injustiça social mesmo. Só pode ser preconceito das elites contra o ex-operário.

Lincoln e Lula, os irmãos siameses da resistência contra a imprensa burguesa, passarão juntos à história da CUT apesar do boicote de Hollywood. Mas que os americanos não se animem muito com essa dobradinha.

Mesmo com as incríveis semelhanças entre os dois estadistas, Lula é melhor.

Lincoln jamais seria capaz de eleger uma Dilma e, depois de um governo inoperante, preguiçoso, fisiológico, perdulário, destruidor das instituições com tarifas mentirosas e contabilidade idem, se encaminhasse para reelegê-la. Com todo o respeito à mitologia ianque e ao talento de Steven Spielberg, uma façanha dessas não cabe na biografia de Lincoln. Como transformar uma militante inexpressiva em símbolo feminino nacional, sem que ela manifeste um único pensamento original em anos de vida pública? Lincoln teria de nascer de novo duas vezes para aprender essa com Lula.

Enquanto o líder máximo de todos os tempos das Américas demonizava a imprensa, ensinando a classe operária a suspeitar da informação livre, odiar o contraditório e só confiar no que seu guru diz, notava-se ao lado os sorrisos divertidos de Gilberto Carvalho, o chefe de gabinete vitalício do Brasil. Carvalho é uma espécie de entroncamento entre Lula e Dilma, um avalista da continuação do final feliz petista no berço esplêndido do Estado brasileiro. Como se sabe, para que esse final feliz dure bastante, é necessário que o conto de fadas do oprimido prevaleça sobre a vida real - daí a implicância sistemática com a imprensa.

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho está sempre nos fóruns partidários prometendo à militância que o governo criará uma imprensa nova, confiável. Parece piada chavista, mas é verdade. Por acaso, foi um subalterno de Carvalho que voltou de Cuba com um dossiê contra a blogueira Yoani Sánchez, caprichosamente gravado num CD. É o velho estilo petista de conspirar com o rabo de fora.

Na chegada da blogueira cubana ao Brasil, surgiram subitamente patrulhas organizadas de apoio ao regime de Fidel Castro, um movimento que ninguém imaginava que existia, que nunca mostrara sua cara em lugar nenhum. De repente, num Brasil supostamente democrático e tolerante às diferenças ideológicas, esses grupos surgidos do nada simplesmente impediram os debates públicos com Yoani - no grito, na marra. Quem será que instrumentalizou essa turminha braba?

A inacreditável operação abafa contra uma blogueira, nesse espetáculo deprimente de censura que o Brasil engoliu, veio mostrar que o chavismo só não prosperou no Brasil porque o oxigênio da liberdade por aqui ainda é maior do que na Venezuela. Mas o estado-maior petista não desistiu de sua doutrina da democracia dirigida e baba de inveja dos índices fabricados pela companheira Cristina Kirchner, em sua cruzada bolivariana pela informação de laboratório. Assim como Lincoln e Lula, Cristina também é uma vítima da imprensa reacionária, que tem essa mania mórbida de querer divulgar indicadores públicos verdadeiros.

O lucro do BNDES acaba de ser maquiado, graças a mais uma manobra genial dos companheiros que produzem superavit de proveta e passam blush na inflação. Quando se trata de picaretagem para se agarrar ao poder, é impressionante como a mediocridade do governo popular se transmuta em brilhantismo. Como disse Lula na CUT: “Nós sabemos o time que temos”.

É mesmo um timaço. Merece no mínimo o Oscar de efeitos especiais.


Dilma e Tarsila - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 04/03

Mesmo com o pé machucado, Dilma percorreu os quatro andares do Museu de Arte do Rio (MAR), recém-inaugurado na Zona Portuária, sexta passada. A maratona levou quase duas horas e no final ela já estava mancando. “Dilma tem um olhar sensível para arte”, observa o museólogo e crítico de arte Paulo Herkenhoff, impressionado com o interesse da presidente quadro por quadro. Ela se deteve mais tempo diante de telas da Tarsila do Amaral e Volpi.

Execução de Tiradentes...
No mesmo dia, Dilma, jantando na casa do colecionador Sergio Fadel, ficou maravilhada com a tela “Execução de Tiradentes”, única obra histórica de Guignard. O artista fez este quadro em 1961, a pedido de Juscelino Kubitschek.

Ana, com carinho...
Aliás, chamou a atenção de quem assistiu à inauguração deste museu a maneira carinhosa com que Dilma se referiu à ex-ministra Ana de Hollanda, que estava presente.

Obra embargada
O secretário Carlos Minc embargou a Unidade de Aços Longos da CSN, em construção. O governo do Estado do Rio acusa a usina de ter descumprido 11 itens do TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), o compromisso feito com as autoridades, e não ter executado recuperações ambientais.

Aliás...
Como ia dizendo, impressiona como a relação do empresário Benjamin Steinbruch, que mudou a sede da CSN do Rio para São Paulo, não é boa com grande parte da comunidade de Volta Redonda.

ERA UMA VEZ...
Lembra do Palácio Universitário da UFRJ, na Praia Vermelha, no Rio, que pegou fogo no fim de março de 2011? Pois bem, quase dois anos depois, salas e corredores seguem completamente abandonados. As imagens, repare bem, são de dar dó. Como se vê, não há nem sinal de que haverá uma reforma no prédio, tombado pelo patrimônio histórico. Aliás, um outro imóvel da UFRJ, onde funciona o Hospital-Escola São Francisco de Assis, na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, também sofre com a incúria. Por que as obras ainda não começaram? 

Russos estão chegando
O ministro Gastão Vieira vai a Lisboa esta semana para conversar com a TAP. Quer que a companhia amplie sua malha aérea que liga o Brasil à Europa. O foco principal é a Rússia. Em 2011, 22,3 mil russos, que têm fama de gastadores, desembarcaram no país.

E mais...
Tem uma lenda, de autenticidade duvidosa, sendo espalhada, que a dança do frevo foi influenciada por russos que chegaram em dois navios, em 1804, no Porto de Recife. Os tripulantes fizeram apresentações de suas danças nativas levando os anfitriões a imitarem seus passos e seus saltos altos. Há controvérsia.

Superlotação
Oito micos invadiram outro dia o apartamento de dona Sebastiana Martins de Lima, 78 anos, na Rua Paissandu, no Rio, à noite. A senhorinha, desesperada, trancou-se no quarto.
— Eles pularam, derrubaram minhas coisas e foram embora. Há mais de um ano eu ligo para a prefeitura e para a Comlurb, pedindo ajuda para podar uma figueira que bate bem na minha janela.

Zona Franca
O jornal “Extra” lança hoje o caderno Mais Baixada, voltado para a Baixada Fluminense. O suplemento é editado por Eduardo Auler e coordenado por Marlon Brum. Vida longa!

Táxi das águas
Búzios, RJ, vai ganhar o primeiro... aquatáxi elétrico do Rio. O veículo, que não é poluente e foi desenvolvido pela Ampla em parceria com a Coppe-UFRJ, vai levar passageiros de uma praia a outra. A primeira prova no mar será ainda este mês.

Dona encrenca
Gilda Mattoso, viúva do poeta Vinicius de Moraes e assessora de imprensa boa-gente, vai lançar seu livro “Assessora de encrenca”, em Portugal, em abril.

Calma, gente
O edital da Funarte para cuidar do Teatro Dulcina, no Rio, com uma verba de R$ 920 mil, deu a maior confusão. A vencedora foi a Belazart Realizações Artísticas, de José Mauro Brant. Só que grupos derrotados reclamam que ele é amigo de Antônio Gilberto, o diretor de artes cênicas da própria Funarte.

Pé na cova
Há uma articulação para construir um cemitério de bacanas, na Barra da Tijuca, no Rio. 

Atenção: a reserva pode ser inútil - LUCIA MARIANO DA ROCHA SILLA

O GLOBO - 04/03

O Ministério da Saúde investiu milhões de reais na criação do Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea e na Rede de Bancos de Sangue de Cordão Umbilical Públicos, para atender pessoas que necessitam de um transplante de medula óssea e que não têm doador familiar. A inclusão dos Bancos de Sangue de Cordão Umbilical Públicos no programa de registro aumentou a chance dos brasileiros de encontrar doadores compatíveis. A meta é a de que todos os que precisem sejam transplantados.

A existência de bancos de sangue de cordão umbilical privados é proibida em alguns países da Europa devido a questões ligadas à bioética. No entanto, naqueles países há equipes capacitadas para coletar as células-tronco de um grande número de recém-natos. Mesmo com a acelerada implantação de 13 bancos públicos no Brasil, ainda não dispomos de equipes de plantão 24 horas para atender diversas maternidades em uma única cidade.

Até o momento, com as evidências existentes, não há razão para que um determinado cordão fique reservado apenas a seu dono ou família, já que apenas 4% do inventário de um banco de sangue de cordão umbilical serão efetivamente utilizados. Do ponto de vista científico, não foi ainda definida a importância das células-tronco de cordão na medicina regenerativa, pois as células-tronco adultas, disponíveis em todos nós, parecem ser igualmente eficientes. Assim, não se justificam os congelamentos alardeados pelo setor privado.

Células-tronco mesenquimais são um tipo particular de células-tronco, de produção relativamente simples e barata, presente em quase todos os órgãos e tecidos do nosso corpo e na "parede" do cordão umbilical. Estas últimas parecem ter propriedades superiores e vantagem na regeneração tecidual. Alguns bancos de sangue de cordão umbilical privados do centro do país estão incluindo no "cardápio de possibilidades", oferecido em folhetos de marketing, a possibilidade de também congelar o cordão além das suas células. Com isto, o setor privado deve pelo menos dobrar os ganhos com o armazenamento.

Nos EUA, há evidências de que transplantes realizados com cordão de bancos privados vão significativamente pior dos que de públicos, possivelmente porque nos primeiros as condições de coleta, embalagem, congelamento e armazenamento são inferiores e heterogêneas. No Brasil, os bancos de sangue de cordão umbilical públicos tendem a ser melhores, principalmente por atenderem as normativas.

Não existem, até o momento, evidências que justifiquem o investimento de recursos para reservar o cordão umbilical de crianças para o futuro. E a reserva pode ser inútil, pois o produto pode ter deteriorado.

Lucia Mariano da Rocha Silla é presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea e coordenadora do Centro de Tecnologia e Terapia Celular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Discursos desencontrados - VANESSA BARBARA

FOLHA DE SP - 04/03

Todos os domingos, às 14h, a emissora católica Rede Vida veicula um "game show" para crianças, no qual escolas competem para ver quem sabe mais sobre o esporte bretão.

Bancado pela Federação Paulista de Futebol (FPF), "Futebol e Criança" traz perguntas e respostas sobre atletas, times e estatísticas --"Qual o resultado de São Paulo vs. Mirassol na abertura do Paulistão 2013?" "Qual o apelido do ex-jogador Pepe, do Santos?"

Nervosas, as crianças têm de adivinhar o que acontece em lances exibidos no telão, participam de um jogo da memória e passam por provas de habilidade, como bater pênaltis e fazer embaixadinhas.

Em edições recentes, dirigentes e atletas do time sub-20 do São Caetano foram convidados para chutar ao gol. Uma reportagem exibiu o cotidiano de um técnico "talentoso e promissor, profissional competente e um ser humano da melhor qualidade".

A matéria conclui: "Muito sucesso e felicidade para sua carreira e sua vida".

No programa, árbitros, atletas e preparadores físicos são convidados a falar sobre "a importância do futebol para o corpo, a mente, a vida pessoal e cultural de nossas crianças". Pregam princípios esportivos como "disciplina, aceitação do outro, sociabilidade, respeito às regras e convivência familiar".

Ainda de acordo com o release da atração, a FPF, na figura de seu presidente Marco Polo del Nero, pretendeu criar um programa que abordasse "o futebol como esporte, saúde e principalmente formador de cidadãos".

Fala-se em referência de comportamento, superação e dedicação necessárias para o jovem que pretende enveredar pelos caminhos do esporte.
Trajada com vestidos curtos e shorts apertados, a apresentadora é a modelo e jornalista Carolina Galan.

Ela é namorada de Marco Polo del Nero, presidente da Federação e vice da CBF, que em novembro foi alvo de uma investigação da Polícia Federal sobre um grupo especializado na quebra de sigilo telefônico, bancário e fiscal.

Segundo a Folha, o dirigente teria contratado detetives para vigiar Carolina e descobrir se ela estava sendo mesmo uma referência de comportamento para os jovens. Usou computador, e-mail e telefone da instituição.

Recentemente Carolina foi um dos destaques no desfile da Escola de Samba Vai-Vai. Integrou a ala "Liturgia", que falou da importância da Igreja na produção de vinhos e a bebida nos rituais religiosos.

As flores da Rua Joly - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

O Estado de S.Paulo - 04/03

Num sábado à tarde, de novembro de 1884, a Condessa d'Eu, com os filhos, ainda crianças, foi de bonde puxado a burro conhecer a Chácara das Flores, no Brás. Ficava no Marco da Meia Légua, pouco adiante da Ponte Preta, na Rua do Brás, mais tarde Rua da Intendência e hoje Avenida Celso Garcia. A Princesa Isabel não ligou muito para as flores de Jules Joly. Queria era livrar-se do enxame de repórteres. Na volta, pediu um bonde só para ela e os filhos, deixando os jornalistas a pé. Lá era o confim da cidade, o extremo do chamado rocio.

Júlio Joly era francês de Grenoble. Chegara a São Paulo, com 27 anos de idade, em 1828, onde, com um patrício, montou uma livraria, animado pela abertura do Curso Jurídico, atual Faculdade de Direito. Em meados do século, tinha uma loja de miudezas de luxo trazidas da França: joias de verdade e de fantasia, cristais, porcelanas, eventualmente vinhos e até elixires. Todo ano viajava para lá e voltava carregado desses objetos de desejo de uma sociedade caipira que estava ficando rica com a agricultura de café e se afrancesava ao mesmo tempo. Era uma espécie de sacoleiro de luxo. Semanas antes de viajar, fazia leilões dos estoques de sua loja de sobrado na Rua do Rosário, atual Álvares Penteado, de modo a recuperar o capital para renovar estoques.

A Chácara das Flores foi criada no terreno do Brás, em 1856, depois que Joly, sem êxito, tentou vendê-lo. Com as mercadorias para sua loja, começou a trazer da França, na bagagem, sementes e mudas de flores. A chácara tinha cerca de um hectare, um sobrado, ao qual se chegava por uma alameda ladeada por palmeiras, vários animais, mais de mil árvores frutíferas, parreiras, senzala para os escravos. O terreno era atravessado por um córrego de boa água. Dizia ter 400 variedades de camélias e de rosas, além, de dálias, rododendros, azaleias.

Na Rua da Imperatriz, hoje 15 de Novembro, abriu uma floricultura, onde vendia buquês e arranjos florais. Joly colocou as flores na vida cotidiana dos paulistanos, libertando-os da rusticidade que havia até mesmo nos casarões senhoriais.

Em 1886, fez o arruamento da chácara para venda de lotes. A uma das ruas deu seu próprio nome, Rua Joly, que assim se chama até hoje. Em 1893, cego, foi submetido a temerária cirurgia de catarata pelo doutor Carlos Botelho, aqui mesmo, o que lhe permitiu voltar a ler e escrever. Faleceria no ano seguinte, com 93 anos de idade. Seus filhos se radicaram em Itatiba, como fazendeiros e lojistas. Tinham escravos. Lá foi celebrada sua missa de 7.º dia.

Joly se gabava de ter sido o introdutor do gosto pela jardinagem amadora em São Paulo. Foi quem estimulou entre nós o passatempo masculino do cultivo de rosas, numa época em que o único passatempo dos homens era a caçada. Perfumou aqui o caminho da civilização.

Da caixa postal - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

O GLOBO - 04/03

O amor é assim mesmo. De vez em quando vai ali na esquina tomar um ar. Mas volta. Às vezes com novos cabelos, outros papos, um jeito diferente de beijar


De Vânia Maria Duarte dos Santos, da Tijuca: “Andas muito exigente quanto à mulher que desejas ao seu lado. Você procura uma Brastemp completinha? Onde anda aquele galanteador de primeira?” Vânia, você desce a Senador Dantas pela calçada da esquerda, vindo da Almirante Barroso, e entra na primeira à esquerda. É a Travessa Poetas da Calçada. Entra e pega à direita, ao lado do restaurante Al Kwait. Você vai dar num outro beco, que por sua vez dá numa das entradas no edifício Darke. A última vez que vi o galanteador foi ali. Já o vi em ação. O edifício tem outras três saídas. Dependendo do resultado da abordagem, o galanteador escolhe uma. Ele parecia um pouco com o Wilson Grey, o bigodinho talvez um pouco mais consistente, não tenho certeza.

De Lúcio Flávio Gomes da Silva, de Nova Friburgo: “Antonio Maria, com dor de cotovelo pela perda da Danuza, apareceu aqui em Nova Friburgo para receber uma homenagem. A alta sociedade lhe preparou um rapapé cheio de ternos e gravatas, e ele, a estrela da noite, apareceu de calça faroeste com uma corda fazendo de cinto”.

Lúcio Flávio, só o estilo desparagonado foi fiel ao Menino Grande. As mulheres batiam-lhe a porta, mas as alpargatas Roda lá estavam aos pés, sempre. A elegância, o Maria guardava para as frases, o cinto que veste hoje o jornalista de sempre. Anota essa: “Só há uma Semana Santa; nas outras, vocês matem quem quiser”.

De Thomas Martin Ossowicki: “Tenho certeza de que você já tentou se equilibrar num stand-up paddle no Nove. Qual é o problema? Título de cidadania implica conhecer a geografia da cordialidade do pedaço e não ficar na nostalgia.”

Tony, o remo em pé na Praia de Ramos, o baião de dois do Romero, no 48 da Ladeira dos Tabajaras, e a piscina de azulejos negros na suíte da dona Mariazinha Guinle, no Copa — em tudo isso já me equilibrei. Não é dica para ficar carioca cool. Faz quem quiser. Li a “Geografia da fome”, do Josué de Castro, mas prefiro “O cego de Ipanema”, do Paulo Mendes Campos. Sobre a nova cordialidade do gentio local, gostaria de citar a bateria dupla e a UPP da Mangueira.

De Elmo Lage, compositor: “Dentre as minhas letras, “Por que será?” tem a ver com a sua crônica do casal brigando na esquina: ‘O amor de vez em quando apronta (...) Esquece os beijos trocados na esquina/ Menospreza as pulsações, os batimentos/ Apaga os registros dos belos momentos’”.

Elmo, não se impressione, não. O amor é assim mesmo. De vez em quando vai ali na esquina tomar um ar. Mas volta. Às vezes com novos cabelos, outros papos, um jeito diferente de beijar ou com a notícia de que agora é para sempre. Acredite e faça outra música, embora, cá entre nós, o “Bolero” do Ravel já tenha dito tudo sobre esse vai-e-vem, o tira-e-bota dessa tragédia sem sentido e dolorosa.

De David Augusto Guimarães: “O citado galo na crônica sobre Portugal não seria de Barcelos, ao invés de Évora? O programa do Francisco José era na TV Continental. Abraços do patrício”.

David, é tanto vinho Dão nos acorrendo pelas veias dos tremoços, mais a ansiedade de acabar com todos esses textos e me jogar nos dois braços dela à minha espera, que de vez em quando tropeço cá nos tamancos. Os galos estão espalhados, cantam fados tristes pelas cidades, cômodas e penteadeiras da memória. Só não há mais galo é aqui ao lado, no sopé do Cantagalo.

De Branca Amado: “Quem resiste à tentação do Facebook? É minha primeira página própria, meu público próprio, com direito a comentários positivos e aprovações. Reparou que não há críticas no FB?”.

Branca, esse negócio de criticar os outros é do tempo do onça, do Paulo Francis, do José Fernandes e até mesmo do Mongol, aquele vilão que se aproveitava de uma distração do juiz e puxava o cabelo, enfiava o dedo nos olhos dos mocinhos do Telecatch Rum Montilla. O negócio agora é ser gente boa, fazer lekeleke e agregar valor, se é que você está me compartilhando o tirocínio.

De Mathilda Kovak: “Ih, amigo, tá tudo dominado. O Morro da Conceição virou point de artistas plásticos e metidos quetais. Acho que, agora, só a lua. Mesmo assim, tem que ser rápido, porque vai ser invadida e descaracterizada do mesmo modo. É tudo tão estereotipado neste século chinfrim...”.

Math, levei sua questão ao Moacyr Luz, doutor em Morro da Conceição. Ele me disse que mal não há em a Praça Mauá visitar. Te convidou para fazer o de sempre. Entrar pela Sacadura Cabral, ali na esquina onde o Gracioso está se recuperando de um incêndio, e ir subindo o morro. Cruzar a Travessa do Sereno, pegar a Rua do Jogo da Bola e se lambuzar com uma sardinha ao azeite no Bar do seu Odílio. Ele agarantche. Ninguém metido. É morro família.

Duas revoluções, dois destinos - ALFREDO SIRKIS

O ESTADÃO - 04/03

Os recentes incidentes envolvendo a visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez, hostilizada por turbas agressivas da "Solidariedade com Cuba", foram também uma oportunidade perdida para debater o argumento de que a ditadura "de esquerda" seria o inevitável preço a pagar pelos grandes "avanços sociais".

É comum escutarmos que as restrições à liberdade de expressão e de imprensa, a ausência de eleições livres, de pluralismo político ou de alternância no poder, passado mais de meio século da revolução cubana, se justificam por suas conquistas na educação e na saúde e pela ausência de fome e miséria absoluta na ilha. O argumento jamais se sustentou na comparação com outra revolução que a precedeu em 11 anos: a da Costa Rica, de 1948, que obteve notáveis avanços em educação e saúde e garantiu um padrão de vida muito mais elevado, sem o sacrifício das liberdades, do pluralismo, do respeito aos direitos humanos e de um Judiciário independente.

Hoje a maioria da população costa-riquenha é de classe média, seu salário mínimo é 15 vezes maior que o de Cuba, seu produto interno bruto (PIB) e a sua renda per capita são os mais altos da região. Há três vezes menos suicídios do que em Cuba. A Costa Rica tem políticas ambientais e ecoturismo de referência internacional e ambiciona tornar-se o primeiro país carbono neutro do mundo.

A revolução de 1948, liderada por José María Figueres Ferrer, conhecido como Don Pepe Figueres, derrubou o regime oligárquico do presidente Teodoro Picado e do seu mentor político Rafael Calderón Guardia, que fraudavam sistematicamente as eleições, como na nossa República Velha. Foi desencadeada em reação a um "autogolpe" - queimaram as listas com os resultados eleitorais, privando da vitória o candidato progressista Otilio Ulate, e assassinaram um dos líderes oposicionistas, Carlos Luis Valverde. Detalhe curioso: o pequeno partido comunista local, o Partido Vanguardia Popular (PVP), apoiava ativamente o regime oligárquico.

A desmobilização de suas milícias, em troca da garantia dos direitos sindicais e da sua legalidade, acertada numa dramática negociação entre o secretário-geral do PVP, Manuel Mora, e José Figueres, na floresta de Ochomogo, foi decisiva para a relativamente incruenta vitória da revolução após 40 dias de combates.

A junta revolucionária, liderada por Don Pepe, nacionalizou os bancos para democratizar o crédito - até então exclusividade da burguesia compradora (importadora) -, permitindo desenvolver a agricultura e a indústria. Investiu obsessivamente na educação, instituiu a autonomia do Judiciário. Dissolveu seu próprio exército revolucionário depois de uma tentativa de golpe do então ministro da Defesa, Edgard Cardona, inconformado com o tratamento leniente dado por Figueres aos comunistas. Isso não o impediu de derrotar, com o povo em armas, uma invasão do ditador Anastasio "Tacho" Somoza (pai), da Nicarágua, onde se haviam exilado Picado e Calderón.

Ao final de 18 meses, Figueres entregou o governo a Otilio Ulate, legitimamente eleito nas eleições "meladas" do ano anterior, apesar de notórias divergências entre ambos. Voltou à sua Fazenda La Lucha sin Fin, onde ficou até 1953, quando disputou democraticamente e foi eleito presidente.

Cercada de ditaduras por todos os lados até anos recentes, a Costa Rica jamais deixou de promover eleições livres a cada quatro anos. Poderia ter sido assim em Cuba 11 anos mais tarde?

Don Pepe apoiou Fidel Castro com dinheiro e armas. Foram amigos, mas romperam quando Fidel se aliou ao bloco soviético. O contexto da guerra fria - em 1948, nos primórdios, em 1960, no apogeu -, com uma quase imediata hostilidade norte-americana à revolução cubana, fez a diferença, bem como a personalidade de Fidel.

Entre os líderes das duas revoluções ressaltam diferenças de idade, origem social e experiência de vida: Don Pepe, filho de um modesto médico catalão, era pequeno fazendeiro, tinha 42 anos ao liderar sua revolução. Conhecia bem os Estados Unidos, onde estudara. Sua primeira esposa, Henrietta Boggs, era americana. Ele sabia explorar com habilidade as contradições internas em Washington e nunca quis aliar-se à URSS, embora tenha nacionalizado a United Fruit, o flagelo das Repúblicas bananeiras. Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era universitário quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois conheceu apenas a prisão, o exílio e Sierra Maestra. Don Pepe era de ouvir, negociar e pactuar. Fidel nasceu para mandar e ser obedecido.

Com pouco sangue e sem paredón, a revolução de 1948 não figura no panteão histórico-jornalístico. É praticamente desconhecida, ao contrário das revoluções trágicas ou das derrotas heroicas dos mártires, não importa quão patéticos ou desavisados. Uma revolução com final feliz, um país que há 65 anos "caiu numa democracia", para nela permanecer até hoje, um líder revolucionário que resolveu abrir mão do poder para depois disputar eleições livres, em 1953 e 1970, são decididamente indignos do rol de eventos e personagens históricos de primeira linha...

Don Pepe Figueres, que gostava de se definir como "socialista utópico", nunca cultivou o "Patria o Muerte" ou outro necrófilo brado retumbante do gênero. Seus compatriotas, los ticos - os costa-riquenhos - pacíficos e cosmopolitas, são, com toda a probabilidade, mais felizes. No entanto, a felicidade - gota de orvalho numa pétala de flor -, pelo visto, não é um indicador relevante no fazer História do nosso tempo.

Essa pacata democracia sexagenária, ainda que em terra de tantos vulcões, não evoca o menor romantismo, não vale sequer uma camiseta ou boina negra com estrelinha vermelha. Mas constitui intenso objeto de desejo na "geração Y", de Yoani Sánchez, dos filhos daquela outra revolução, a tão exaltada em prosa e verso.