O GLOBO - 03/03
O principal partido de esquerda, o PT, tem como figura principal um político que afirmou nem ser, nem nunca ter sido, de esquerda. O presidente do Senado é de esquerda, o ex-presidente, também. Aliás, o PMDB é de esquerda. Qualquer crítico do governo é de direita
Como estamos vendo nos noticiários, a campanha eleitoral já começou. Acho um pouco cedo, mas o pessoal fica nervoso com a disputa e a ansiedade parece ser geral. A política, o governo e a administração do Estado são das mais nobres atividades a que o cidadão pode entregar-se, pois se trata de um admirável exercício de altruísmo, amor à coletividade e ao semelhante, de nobre renúncia a interesses subalternos e vantagens indevidas e até mesmo a projetos pessoais. O homem público epitoma a virtude, não no sentido piegas que estamos acostumados a associar a esta palavra, mas na dedicação resoluta e firme ao bem público e às aspirações e direitos dos governados, numa vida cuja maior recompensa será o zeloso cumprimento dessa missão e nada mais. E o Brasil está coalhado de gente disposta a sacrifícios extremos para servir ao país e levá-lo a um futuro de prosperidade, justiça, segurança e felicidade.
Para canalizar tamanho empenho cívico, dispomos de mais ou menos cinquenta partidos. O partido político, como sabemos, destina-se a formular projetos e objetivos para a condução da sociedade, aglutinando visões do mundo, ideologias ou interesses. Isoladamente, o cidadão pode muito pouco. O partido, por conseguinte, é indispensável para a ação política. Por meio deles, aqueles que pensam de forma semelhante conseguem juntar seus esforços para chegar ao poder e daí transformar em ações concretas seu ideário. Assim, cada partido tem um perfil claro e definido e o cidadão deve escolher entre eles o que mais se aproxima de seus interesses ou pontos de vista legítimos.
No Brasil, os políticos são virtuosos, ou procuram ser virtuosos? Engabelados pelo noticiário leviano, venal, deturpador, difamador, caluniador, injurioso e irresponsável de praticamente todos os veículos de comunicação, muitos de nós diriam que não. Afinal, todos os dias mais um capadócio público é exposto, mais uma quadrilha é desmantelada, mais um ladrão se revela e um incompetente se evidencia. Solerte imprensa, antro de patifes, súcia de mentirosos. Pois basta livrar nossa visão dessa fumaça maledicente para logo vermos que a realidade desmente os detratores. Que a política e o poder demandam extraordinários sacrifícios é afirmação universal, postulado nunca discutido. Entretanto, nossos políticos jamais querem deixar o poder ou abandonar cargos de influência, estão dispostos a arrostar indefinidamente esses sacrifícios penosíssimos. Negar que isso é virtude, só com muita má vontade.
Quanto aos partidos, é comum a opinião, igualmente desinformada ou provocada por uma visão superficial das coisas, segundo a qual, com exceção de um excêntrico ou outro, não há real diferença entre eles. Com efeito, a propaganda de todos eles sempre apregoa as mesmas coisas, que qualquer um de nós pode repetir, sem ter que puxar pela memória ou lembrar partido nenhum. Os pontos omnipresentes são desenvolvimento, educação e saúde para todos, combate às desigualdades sociais e à exclusão, investimentos em habitação e saneamento básico e assim por diante. Basta ouvir um para ouvir todos, às vezes parece que usam o mesmo redator.
É bem possível. Mas aí é que está a nossa originalidade. Observem que eles dizem o que querem fazer— e, afinal, todo mundo concorda com esses pontos básicos — mas não como pretendem fazer o que querem. Esse “como” é que é o pulo do gato. Os cínicos, os pessimistas e os de cérebro lavado pela imprensa vil acham que isso quer dizer que eles não sabem como fazer nada daquilo, nem estão querendo fazer nada além de eleger-se. Má vontade outra vez. A malícia do brasileiro, a nossa malandragem congênita, nosso balanço e nosso veneno é que estão por trás dessa prática, não é ignorância, falta de escrúpulos ou despreparo. Eles não dizem como vão fazer todas aquelas coisas fabulosas para que os concorrentes não os copiem, não vão abrir o jogo para o adversário, ele que se vire com as soluções dele mesmo.
Os partidos também podem ser vistos em função da divisão tradicional entre esquerda, direita e centro. Creio que, em todos os países onde há partidos políticos livres, eles são, ainda que sem muito rigor, enquadráveis nessa classificação. Aqui, porém, deve-se de novo chamar a atenção para a nossa originalidade, a começar por termos partidos que se classificam como nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. “Não estamos na direita, nem na esquerda, nem no centro”, talvez diga o folheto de um partido desses. “Estamos na nossa.” E parece que está surgindo um partido que nega ser um partido, de forma que a situação requer a adoção de uma nova metodologia analítica.
Enquanto ela não é formulada, tudo indica que aqui, atualmente, a esquerda é constituída pelos partidos que estão no poder, ou os apoiam. Deve-se ter cuidado para evitar confusões, porque o principal partido de esquerda, o PT, tem como figura principal um político que afirmou nem ser, nem nunca ter sido, de esquerda. O presidente do Senado é de esquerda, o ex-presidente também. Aliás, o PMDB é de esquerda. Qualquer crítico do governo é de direita. E, entre nós, não é de bom tom ser de direita, pois o mais chique sempre foi ser de esquerda. Não é um panorama simples, até porque existe a complicação adicional de que os envolvidos não sabem a diferença entre esquerda e direita e costumam gaguejar um pouco, quando solicitados a explicá-la.
É neste quadro que devemos ver a disputa que já se iniciou. São nossos virtuosos homens públicos se oferecendo para sofrer e martirizar-se pelo serviço à coletividade, sem visar a vantagens e proveito pessoal; são nossos partidos formulando projetos claros, detalhados e viáveis para o nosso futuro; são nossos votos conscientes e ponderados que vão escolher entre tantos caminhos promissores. Não sei o que mais podemos querer, qual é a queixa?
domingo, março 03, 2013
Ueba! Nação corintiana é surreal! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 03/03
E o partido da Marina?
O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: eleição no Vaticano é conclave e eleição no Congresso é conchavo!
E o Papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não devem participar do conclave. Lei do Pinto Limpo! No Brasil, Lei da Ficha Limpa. Na Itália, Lei das Mãos Limpas. No Vaticano, Lei do Pinto Limpo. Sendo que nenhuma funciona.
Continua a SACRANAGEM! E o surreal da semana: embate dos advogados do caso Corinthians-Bolívia. O advogado do "de menor" da Gaviões: "Vou provar que meu cliente é culpado". E o advogado de acusação boliviano: "Vou provar que o corintiano acusado é inocente".
Só a nação corintiana para provocar esse surrealismo: advogado de defesa condena e advogado de acusação, inocenta! E esta notícia: "Cirurgia plástica pode deduzir do Imposto de Renda".
Oba! A Marta, o Amaury Jr. e o Silvio Santos vão ter isenção vitalícia. E a Ângela Bismarchi, isenção para as próximas oito encarnações! Então eu também vou fazer uma plástica: desentortar o pingolim! E tenho uma amiga que fez tanta plástica que, quando breca, a boca abre! Uma freada, uma risada! Aí o povo pergunta: "Do que essa motorista tanto ri?". E ela: "Não tô rindo! Tô brecando!".
E o que vou declarar no IR? Declaro que o Crocs da Dilma é cafona, que o Aécio é baladeiro e que a minha vizinha tá dando pro porteiro. E eu já disse: os impostos no Brasil não são altos, nós é que somos baixos. Rarará!
E esta piada pronta: "Time peruano vai usar Viagra para reduzir efeitos da altitude em Cusco". Peru, Viagra e Cusco. Isso não é um jogo, é uma suruba! Uma hora o Viagra vai bater. E eles vão estar em campo! E carrinho por trás vira estupro e marcação homem a homem é assédio sexual.
E o partido da Marina? O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo! Adorei o nome do partido: Rede! Um partido que não é posição nem oposição. Então não é rede, é muro! Rede porque ficam todos deitados balançando, ora pro governo, ora pra oposição! Nhenc, nhenc!
Barulho de rede com gancho enferrujado! E como disse um amigo: o partido da Marina é um PSD que não come carne! Rarará! E o programa do partido: desodorante de andiroba, xampu de cupuaçu e camisinha de polpa de buriti. E a Marina tá a cara da Mãe do Macunaíma. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E o partido da Marina?
O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: eleição no Vaticano é conclave e eleição no Congresso é conchavo!
E o Papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não devem participar do conclave. Lei do Pinto Limpo! No Brasil, Lei da Ficha Limpa. Na Itália, Lei das Mãos Limpas. No Vaticano, Lei do Pinto Limpo. Sendo que nenhuma funciona.
Continua a SACRANAGEM! E o surreal da semana: embate dos advogados do caso Corinthians-Bolívia. O advogado do "de menor" da Gaviões: "Vou provar que meu cliente é culpado". E o advogado de acusação boliviano: "Vou provar que o corintiano acusado é inocente".
Só a nação corintiana para provocar esse surrealismo: advogado de defesa condena e advogado de acusação, inocenta! E esta notícia: "Cirurgia plástica pode deduzir do Imposto de Renda".
Oba! A Marta, o Amaury Jr. e o Silvio Santos vão ter isenção vitalícia. E a Ângela Bismarchi, isenção para as próximas oito encarnações! Então eu também vou fazer uma plástica: desentortar o pingolim! E tenho uma amiga que fez tanta plástica que, quando breca, a boca abre! Uma freada, uma risada! Aí o povo pergunta: "Do que essa motorista tanto ri?". E ela: "Não tô rindo! Tô brecando!".
E o que vou declarar no IR? Declaro que o Crocs da Dilma é cafona, que o Aécio é baladeiro e que a minha vizinha tá dando pro porteiro. E eu já disse: os impostos no Brasil não são altos, nós é que somos baixos. Rarará!
E esta piada pronta: "Time peruano vai usar Viagra para reduzir efeitos da altitude em Cusco". Peru, Viagra e Cusco. Isso não é um jogo, é uma suruba! Uma hora o Viagra vai bater. E eles vão estar em campo! E carrinho por trás vira estupro e marcação homem a homem é assédio sexual.
E o partido da Marina? O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo! Adorei o nome do partido: Rede! Um partido que não é posição nem oposição. Então não é rede, é muro! Rede porque ficam todos deitados balançando, ora pro governo, ora pra oposição! Nhenc, nhenc!
Barulho de rede com gancho enferrujado! E como disse um amigo: o partido da Marina é um PSD que não come carne! Rarará! E o programa do partido: desodorante de andiroba, xampu de cupuaçu e camisinha de polpa de buriti. E a Marina tá a cara da Mãe do Macunaíma. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Dama de computador -LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 03/03
Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral. Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no in-consciente. E, se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!
Há muitos jogos no meu computador, com vá-rios graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros. (Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar. Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.
Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geral-mente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.
CRONICA-VOVÔ
A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento ordena: "Me deixem em paz."
No outro dia cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:
-Não se atreva.
Não se atreva! É claro que obedeci. l
Estou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível. E, se isso parecer conversa de vagabundo, agora tenho um argumento irrespondível:
o Chico Buarque faz a mesma coisa!
Há muitos jogos no meu computador, com vá-rios graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros. (Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar. Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.
Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geral-mente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.
CRONICA-VOVÔ
A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento ordena: "Me deixem em paz."
No outro dia cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:
-Não se atreva.
Não se atreva! É claro que obedeci. l
Estou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível. E, se isso parecer conversa de vagabundo, agora tenho um argumento irrespondível:
o Chico Buarque faz a mesma coisa!
Sem disfarce nem miopia - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O ESTADO DE S. PAULO - 03/03
As forças governistas, depois de precipitarem a campanha eleitoral, voltaram ao diapasão antigo: comparar os governos petistas com os do PSDB. Chega a ser doentio! Será que não sabem olhar para a frente? As conjunturas mudam. O que é possível fazer numa dada fase muitas vezes não pode ser feito em outra; políticas podem e devem ser aperfeiçoadas.
Porém, na lógica infantil prevalecente, em lugar de se perguntar o que mudou no País em cada governo, em que direção e com qual velocidade, fazem-se comparações sem sentido e imagina-se que tudo começou do zero no primeiro dia do governo Lula. Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa. Nada de novo sob o sol: é só lembrar dos museus soviéticos que borravam nas fotos os rostos dos ex-companheiros caídos em desgraça...
O PSDB não deve entrar nessa armadilha. É melhor olhar para a frente e deixar as picuinhas para quem gosta delas.
Quanto ao futuro, o governo está demonstrando miopia estratégica.
Depois de quatro anos iniciais de consolidação da herança bendita, a política econômica teve de reagir ao violento impacto da crise de 2007/2008. Foi necessário, sem demora, expandir o gasto público, desonerar setores produtivos, ampliar o crédito por intermédio dos bancos públicos, etc.
Em situações extraordinárias, medidas extraordinárias. Mas o cachimbo foi entortando a boca: a discricionariedade governamental tornou-se a regra desde então.
Com isso, a credibilidade do Banco Central foi posta em xeque, a transparência das contas públicas também. Cresceram as dúvidas sobre a inflação futura e sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.
Não há que exagerar na crítica: por ora, o trem não descarrilou.
Mas as balizas que asseguraram crescimento com estabilidade - câmbio flutuante, metas inflacionárias e responsabilidade fiscal -, mesmo ainda em pé, se tornam cada vez mais referências longínquas. A máquina governamental está enguiçada, como o próprio governo sente, e sua incapacidade para consertá-la é preocupante. Os expedientes utilizados até agora com o propósito de acelerar o crescimento deram em quase nada (o pibinho). Na ânsia de acelerar a economia, o governo beijou a cruz e apelou para as concessões (portos, aeroportos, estradas) e mesmo privatizações (de partes da distribuição energética). Mas a viseira ideológica, o hábito de se fecharem pequenos grupos, a precariedade gerencial não permitem dar efetividade a decisões que ferem o coração de suas crenças arcaicas.
Enquanto a China puxar as exportações de matérias-primas e de alimentos, tudo se vai arranjando.
Mesmo assim, a produção industrial torna-se menos competitiva e perde importância relativa no processo produtivo.
A balança comercial já deixou de ser folgada, mas com o financiamento estrangeiro as contas vão fechando.
No curto prazo, tudo bem. Em prazo mais longo, volta a preocupar o fantasma da "vulnerabilidade externa".
Já se veem no horizonte sinais de retomada na economia mundial.
Não me refiro a uma incerta recuperação do emprego e do equilíbrio fiscal, este em alguns países da Europa, aquele nos Estados Unidos. Refiro-me ao que Schumpeter salientava para explicar a natureza do crescimento econômico,uma onda de inovações.
Provavelmente serão os Estados Unidos que capitanearão a nova investida capitalista mundial. O gás de xisto e os novos métodos de extração de petróleo tornarão aquele país a grande potência energética. Junto com ele, Canadá, México, Argentina e Brasil podem ter um lugar ao sol.De ser isso verdade, uma nova geopolítica se desenha, com, por um lado, um polo chinês-asiático e outro americano.
Isso num contexto político e cultural que não aceita hegemonias, no qual, portanto, a multiplicidade de polos e subpolos requer uma nova institucionalidade global.
Diante disso, como ficará o Brasil: pendendo para a Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), de inspiração chavista? À margem da nova aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos que, por agora, contempla apenas a América do Norte e a Europa? Iremos fortalecer nossos laços como mundo árabe longínquo, ou este terminará por se aconchegar na dupla formada pela China e pela Índia, ambos países carentes de energia? E como nos situaremos na dinâmica da nova fase do capitalismo global? Ao que eu saiba, ela continuará dependendo do aumento contínuo de produtividade para assegurar as bases do bem-estar social (que não será decorrência automática disso, mas de políticas adequadas). Como, então, querer acelerar o crescimento utilizando truques e maquiagens,do tipo subsídios tópicos, exceções de impostos setoriais, salvamento de empresas via hospital BNDES ou Caixa Econômica? Quando o PSDB fez o Plano Real, percebeu as oportunidades que se abriam para o Brasil com a globalização, desde que ajustássemos a economia e iniciássemos políticas de inclusão social. Na época o PT não entendeu do que se tratava.
Queria dar o calote da dívida externa e sustentava o inadequado programa Fome Zero, que jamais saiu do papel. Foram as bolsas que o PSDB introduziu que salvara mo PT quando este, tardiamente, se deu conta de que era melhor fazer uma política de transferência direta de rendas. Em geral, aferrou-se à ideia de que a globalização seria uma ideologia - o neoliberalismo -, e não a maneira contemporânea de organizar a produção com base em novas tecnologias e novas normas.
Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado? A resposta cabe ao governo.
Ao PSDB cumpre oferecer a sua visão alternativa e um programa contemporâneo que amplie as possibilidades de realização pessoal e coletiva dos brasileiros.
Sem esquecer o passado, mas com os olhos no futuro.
Porém, na lógica infantil prevalecente, em lugar de se perguntar o que mudou no País em cada governo, em que direção e com qual velocidade, fazem-se comparações sem sentido e imagina-se que tudo começou do zero no primeiro dia do governo Lula. Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa. Nada de novo sob o sol: é só lembrar dos museus soviéticos que borravam nas fotos os rostos dos ex-companheiros caídos em desgraça...
O PSDB não deve entrar nessa armadilha. É melhor olhar para a frente e deixar as picuinhas para quem gosta delas.
Quanto ao futuro, o governo está demonstrando miopia estratégica.
Depois de quatro anos iniciais de consolidação da herança bendita, a política econômica teve de reagir ao violento impacto da crise de 2007/2008. Foi necessário, sem demora, expandir o gasto público, desonerar setores produtivos, ampliar o crédito por intermédio dos bancos públicos, etc.
Em situações extraordinárias, medidas extraordinárias. Mas o cachimbo foi entortando a boca: a discricionariedade governamental tornou-se a regra desde então.
Com isso, a credibilidade do Banco Central foi posta em xeque, a transparência das contas públicas também. Cresceram as dúvidas sobre a inflação futura e sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.
Não há que exagerar na crítica: por ora, o trem não descarrilou.
Mas as balizas que asseguraram crescimento com estabilidade - câmbio flutuante, metas inflacionárias e responsabilidade fiscal -, mesmo ainda em pé, se tornam cada vez mais referências longínquas. A máquina governamental está enguiçada, como o próprio governo sente, e sua incapacidade para consertá-la é preocupante. Os expedientes utilizados até agora com o propósito de acelerar o crescimento deram em quase nada (o pibinho). Na ânsia de acelerar a economia, o governo beijou a cruz e apelou para as concessões (portos, aeroportos, estradas) e mesmo privatizações (de partes da distribuição energética). Mas a viseira ideológica, o hábito de se fecharem pequenos grupos, a precariedade gerencial não permitem dar efetividade a decisões que ferem o coração de suas crenças arcaicas.
Enquanto a China puxar as exportações de matérias-primas e de alimentos, tudo se vai arranjando.
Mesmo assim, a produção industrial torna-se menos competitiva e perde importância relativa no processo produtivo.
A balança comercial já deixou de ser folgada, mas com o financiamento estrangeiro as contas vão fechando.
No curto prazo, tudo bem. Em prazo mais longo, volta a preocupar o fantasma da "vulnerabilidade externa".
Já se veem no horizonte sinais de retomada na economia mundial.
Não me refiro a uma incerta recuperação do emprego e do equilíbrio fiscal, este em alguns países da Europa, aquele nos Estados Unidos. Refiro-me ao que Schumpeter salientava para explicar a natureza do crescimento econômico,uma onda de inovações.
Provavelmente serão os Estados Unidos que capitanearão a nova investida capitalista mundial. O gás de xisto e os novos métodos de extração de petróleo tornarão aquele país a grande potência energética. Junto com ele, Canadá, México, Argentina e Brasil podem ter um lugar ao sol.De ser isso verdade, uma nova geopolítica se desenha, com, por um lado, um polo chinês-asiático e outro americano.
Isso num contexto político e cultural que não aceita hegemonias, no qual, portanto, a multiplicidade de polos e subpolos requer uma nova institucionalidade global.
Diante disso, como ficará o Brasil: pendendo para a Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), de inspiração chavista? À margem da nova aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos que, por agora, contempla apenas a América do Norte e a Europa? Iremos fortalecer nossos laços como mundo árabe longínquo, ou este terminará por se aconchegar na dupla formada pela China e pela Índia, ambos países carentes de energia? E como nos situaremos na dinâmica da nova fase do capitalismo global? Ao que eu saiba, ela continuará dependendo do aumento contínuo de produtividade para assegurar as bases do bem-estar social (que não será decorrência automática disso, mas de políticas adequadas). Como, então, querer acelerar o crescimento utilizando truques e maquiagens,do tipo subsídios tópicos, exceções de impostos setoriais, salvamento de empresas via hospital BNDES ou Caixa Econômica? Quando o PSDB fez o Plano Real, percebeu as oportunidades que se abriam para o Brasil com a globalização, desde que ajustássemos a economia e iniciássemos políticas de inclusão social. Na época o PT não entendeu do que se tratava.
Queria dar o calote da dívida externa e sustentava o inadequado programa Fome Zero, que jamais saiu do papel. Foram as bolsas que o PSDB introduziu que salvara mo PT quando este, tardiamente, se deu conta de que era melhor fazer uma política de transferência direta de rendas. Em geral, aferrou-se à ideia de que a globalização seria uma ideologia - o neoliberalismo -, e não a maneira contemporânea de organizar a produção com base em novas tecnologias e novas normas.
Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado? A resposta cabe ao governo.
Ao PSDB cumpre oferecer a sua visão alternativa e um programa contemporâneo que amplie as possibilidades de realização pessoal e coletiva dos brasileiros.
Sem esquecer o passado, mas com os olhos no futuro.
Dudu & Duda - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 03/03
Avançaram as conversas de Eduardo Campos (PSB) com a dupla Duda Mendonça e Antonio Lavareda, sócios na empresa de publicidade e planejamento estratégico DM/Blackninja. Se o acordo vingar, Duda dará o tom do programa de TV do partido, em abril, sem aparecer. Lavareda já está em campo com pesquisas sobre a viabilidade da postulação presidencial do governador. A parceria é piloto para 2014, mas Campos hesita em fechar com o marqueteiro, absolvido no mensalão.
Guru Eduardo Campos não tomará nenhuma decisão sobre o marketing do PSB e de sua eventual campanha que contrarie o argentino Diego Brandy, responsável pela estratégia política do governador desde 2005.
Círculo
Brandy trabalhou na Argentina com João Santana, marqueteiro de Dilma -que, por sua vez, já foi sócio de Duda Mendonça.
Ensaio
O briefing discutido em reunião da cúpula do PSB na semana passada, no Recife, é que o programa de TV do partido seja centrado na economia, para lapidar o discurso com que Campos pretende se lançar: apontando falhas do governo, mas sem soar como oposicionista.
Termômetro
Diante da estratégia de Campos de ter o Nordeste como base de lançamento de sua eventual campanha, a equipe de João Santana comanda uma pesquisa eleitoral específica na região, com foco sobre as mulheres.
Afago
Em seminário amanhã em Goiânia (GO), Aécio Neves (PSDB) vai listar todos os programas sociais federais que tiveram início no governo de Fernando Henrique Cardoso. Fará uma homenagem a José Serra, opositor de sua candidatura à Presidência.
Garoa
Será no dia 25 o evento de Aécio em São Paulo, etapa considerada crucial para o mineiro se consolidar como candidato. FHC e Geraldo Alckmin confirmaram presença; Serra, ainda não.
Vale a pena...
Advogados do mensalão acusam Joaquim Barbosa de ignorar a hipótese de novos pedidos de vista na fase de embargos, ao prever a prisão dos condenados até julho. Entendem que ministros do STF, sobretudo Teori Zavascki, que substituiu Cezar Peluso, têm direito de se valer do recurso.
... ver de novo?
Marco Aurélio Mello admite a possibilidade, mas a trata com ironia: "Depois de cinco meses julgando o caso, alguém vai pedir vista? Se houver, poderemos dizer que terão perdido de vista o processo".
Cronologia
Além disso, advogados criticam a prioridade da publicação do acórdão do julgamento em detrimento de outros que o precedem em antiguidade. "Furar a fila não tem respaldo na legalidade'', diz Luiz Pacheco, defensor de José Genoino.
Modelo...
O governo federal vai compartilhar em meio virtual as informações sobre seus programas sociais, sobretudo os de combate à desigualdade, com o bloco Sul-Sul, que agrega países em desenvolvimento. O carro-chefe será o "Brasil sem Miséria", recém-turbinado por Dilma Rousseff.
... exportação
A ministra Tereza Campello (Desenvolvimento Social) assinará na terça-feira o acordo de implantação da "Iniciativa de Conhecimento e Inovação para a Redução da Pobreza", rede de políticas públicas consideradas bem-sucedidas pelo Banco Mundial.
B.O. virtual
O governo de São Paulo permitirá que vítimas façam o registro de ocorrências de roubo pela internet. Até agora, o procedimento on-line só é possível para casos de furto, ameaça, acidentes de trânsito sem vítimas e desaparecimentos.
tiroteio
Ao tentar se comparar a Abraham Lincoln, Lula vira sério candidato a ganhar o Oscar. Pena que não existe a categoria baboseira.
DO LÍDER DO PPS NA CÂMARA, RUBENS BUENO (PR), ao comentar declaração do ex-presidente sobre o americano, retratado em filme que levou duas estatuetas.
Contraponto
Meu garoto
Em reunião da Comissão de Infraestrutura do Senado, Flexa Ribeiro (PSDB-PA) criticava a demora do governo em encaminhar o Código de Mineração ao Congresso.
O tucano disse que o atraso é responsabilidade do ministro Edison Lobão (Minas e Energia).
Integrante da comissão, o senador Lobão Filho (PMDB-MA) correu para defender o pai-ministro.
-Eu quero dizer que o ministro Edison Lobão, que eu conheço de vista, já encaminhou o Código de Mineração há muito tempo para a Casa Civil -, respondeu o peemedebista, arrancando gargalhadas dos colegas...
PSB em guerra contra Portos - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 03/03
Esticando a corda
Radicalmente contra a MP dos Portos, a Força Sindical se reunirá segunda-feira, em Pernambuco, com Eduardo Campos (PSB). O governador é crítico à medida e reclamou a interlocutores de não ter sido consultado pelo Planalto sobre as mudanças pretendidas. O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da central, espera sair de Recife com um aliado de peso na luta contra a MP. O PSB está esticando a corda contra o governo Dilma, sabendo que dificilmente a presidente precipitará um rompimento. Quanto ao ministro Leônidas Cristino (Portos), o entendimento do PSB é que ele recebeu o projeto pronto da Casa Civil.
“O governo deveria parar de se preocupar com a campanha e administrar. O PIB foi bem fraco”
Deputado Beto Albuquerque (PSB-RS)
O Pibinho não é de nada
Integrantes da oposição avaliam que a queda do PIB não afetará em nada a popularidade da presidente Dilma. Concluíram que enquanto as famílias estiverem comprando e consumindo será muito difícil abalar sua imagem.
Censura em Goiás
O governador Marconi Perillo (PSDB-GO) conseguiu uma liminar na Justiça proibindo uma jornalista de seu estado de escrever seu nome, sob pena de pagar multa diária. A decisão é da juíza Luciana Silva. Marconi se sentiu ofendido por textos de Lênia Soares, críticos à sua gestão e às relações obscuras com o contraventor Carlos Cachoeira.
Alvo à vista
O PMDB já tem novo objeto de desejo: o comando da Anatel. Seu presidente, João Resende, indicado pelo PT, termina seu mandato em novembro. O PMDB já se movimenta para emplacar o conselheiro Marcelo Bechara.
Imagina na Copa, nada!
A partir do dia 12, uma força-tarefa do governo federal percorrerá as seis capitais onde haverá jogos pela Copa das Confederações. Ela será liderada pelo ministro Aldo Rebelo (Esportes) e será integrada pelos secretários-executivos de todos os ministérios envolvidos com a Copa. A presidente Dilma não quer que nada que esteja sob a responsabilidade do governo dê errado.
Protesto na Paraíba
Produtores rurais da Paraíba, incentivados pelos deputados Efraim Filho (DEM-PB) e Ronaldo Caiado (DEM-GO), receberão a presidente Dilma, segunda-feira, no estado, com protesto. Reclamam da falta de suporte durante a seca.
Desastres ocultos
Desde o início do ano, o Ibama passou a ocultar no seu site registros de emergências ambientais, como vazamentos de óleo ou queimadas. Até dezembro passado, o sistema era on-line, automaticamente alimentado pelas empresas.
CONSOLAÇÃO. Depois de perder a disputa da liderança na Câmara, Mendonça Filho (DEM-PE) assume a Fundação Liberdade e Cidadania.
Depois da festa, a fatura - TEREZA CRUVINEL
CORREIO BRAZILIENSE - 03/03
O fim de semana foi de novo impulso à antecipação eleitoral, com o PMDB reiterando em convenção sua aliança com o PT para reeleger a presidente Dilma. Mas apesar dos afagos dela e das juras dos cardeais, os conflitos e tensões latentes só aumentaram desde o tiro de largada do último dia 20. Tudo o que se passou depois reforça uma pergunta: com a antecipação, que vantagem levará Maria, ou melhor, Dilma?A pedido do vice-presidente Michel Temer, ela adiou para depois da convenção deste fim de semana a esperada reforma ministerial. Mas agora o PMDB passará a dizer, com mais desenvoltura, que está subpresentado no governo, tendo cinco ministérios contra 14 do PT. Eleitoralizada a conjuntura, passará a buscar na montagem dos palanques estaduais, embora saindo em desvantagem no Rio, onde o PT lançou a candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo, contra a do vice-governador Pezão, gestada pelo governador Sergio Cabral.
Relativamente à representaçao no ministério, um dos cardeais avisa: não venham com o argumento de que o PMDB já têm as presidências das duas Casas do Congresso. A do Senado decorre do fato de o partido ter a maior bancada. Na Câmara, a bancada peemedebista hoje é a segunda, mas era a primeira quando foi firmado o acordo de revezamento com o PT. As ambições ou frustrações peemedebistas já existiam, mas o momento agora favorece a apresentação das faturas. O PSB ameaça deixar a coalizão dilmista e alguns dos partidos menores estão sendo cortejados pelos tucanos. Já tendo conquistado o comando das duas Casas legislastivas com apoio do PT e assegurado a Temer a vaga de vice em 2014, o objetivo agora é, no dizer de um prócer, "equilibrar a representação" no ministério. Dilma foi ao jantar com que Temer homenageou Sarney, inaugurou o novo museu do Rio com Eduardo Paes e a fábrica de submarinos com Cabral, chamou Pezão de "meu querido" e foi ontem à convenção. Mas de ministério, continua evitando falar. Quando alguém aborda o assunto, ela franze a testa e dispara a falar de outra coisa.
Agora o PMDB quer tratar do assunto com franqueza. A prometida nomeação do paulista Gabriel Chalita vai sair ou foi descartada, como assopram do Palácio? E o ministério para os mineiros, como ficará? Para equilibrar a representação, dirão eles, isso não basta.
Proveta, não
Num sinal de que a desconfiança persiste, apesar do clima aparente de paz e amor, o PMDB aprovou uma moção estabelecendo que, para ocupar cargo público representando o PMDB, o indicado precisa ter pelo menos seis meses de filiação.
Isso é vacina, para evitar que Dilma tente usar o partido como barriga de aluguel para ministros seus, com carimbo do partido. Recentemente, houve um movimento para filiar Josué Gomes da Silva, filho do falecido vice-presidente José Alencar, que em seguida seria nomeado para um ministério da cota do partido.
Guerras regionais
Dilma verá também se multiplicarem, faltando tanto tempo para o início da campanha, conflitos como o do Rio, entre petistas e peemedebistas. A "candidata energética", como se definiu, gastará energia administrando essas guerras, tarefa que pode também ficar com Lula. Ao governador Cabral, o ex-presidente praticamente disse para se conformar com os dois palanques pró-Dilma, recusando polidamente o pedido para obter a desistência de Lindbergh. Tendo o apoio de dois palanques, na campanha ela iria aos dois, não favorecendo nenhum, disse Lula. Mas, na prática, todo mundo sabe que isso não acontece. Não aconteceu em 2010, por exemplo.
Já tendo problemas com o PSB, o PDT e o PR, ao acelerar a campanha, Dilma abriu também a tampa da panela em que o PMDB cozinhava suas insatisfações e pretensões. Por isso muita gente do ramo se pergunta: o que ela ganhou com isso?
Por ora, desentocou um adversário, o tucano Aécio Neves, acirrou os conflitos com o PSB e despertou o instinto de auto-valorização do PMDB. Na economia e na administração, todas as medidas enfrentarão questionamentos sobre eventual caráter "eleitoreiro", reforçando a desconfiança que as manobras contábeis do ano passado suscitaram nos agentes econômicos. Se a antecipação não tiver uma forte razão ainda desconhecida, terá contrariado velho consenso político sobre os governos de quatro anos: o primeiro é para arrumar a casa, o segundo é para planejar e dar início aos projetos mais arrojados, e o terceiro para executá-los. O quarto será ano de campanha e de inaugurações, enquanto a lei deixar.
Judicialização
O script da semana legislativa já está pronto. São de 100% as chances de o Congresso derrubar na terça-feira, pela força das bancadas dos estados não produtores de petróleo, os vetos da presidente Dilma Rousseff que garantiram maior quinhão aos estados produtores. Publicada a lei, o governador do Rio, Sérgio Cabral, entrará no STF com a Ação direta de inconstitucionalidade, que já foi preparada pelo jurista Luiz Roberto Barroso. Mais uma vez, uma decisão legislativa será judicializada, abrindo espaço para a arbitragem do STF.
Impedimento
Não se deve tratar dos vetos com o líder do PMDB, Eduardo Cunha. Sendo ele do Rio, e estando sua bancada majoritariamente disposta à derrubada, ele entregou a condução do assunto ao vice lider Marcelo de Castro (PI).
Relativamente à representaçao no ministério, um dos cardeais avisa: não venham com o argumento de que o PMDB já têm as presidências das duas Casas do Congresso. A do Senado decorre do fato de o partido ter a maior bancada. Na Câmara, a bancada peemedebista hoje é a segunda, mas era a primeira quando foi firmado o acordo de revezamento com o PT. As ambições ou frustrações peemedebistas já existiam, mas o momento agora favorece a apresentação das faturas. O PSB ameaça deixar a coalizão dilmista e alguns dos partidos menores estão sendo cortejados pelos tucanos. Já tendo conquistado o comando das duas Casas legislastivas com apoio do PT e assegurado a Temer a vaga de vice em 2014, o objetivo agora é, no dizer de um prócer, "equilibrar a representação" no ministério. Dilma foi ao jantar com que Temer homenageou Sarney, inaugurou o novo museu do Rio com Eduardo Paes e a fábrica de submarinos com Cabral, chamou Pezão de "meu querido" e foi ontem à convenção. Mas de ministério, continua evitando falar. Quando alguém aborda o assunto, ela franze a testa e dispara a falar de outra coisa.
Agora o PMDB quer tratar do assunto com franqueza. A prometida nomeação do paulista Gabriel Chalita vai sair ou foi descartada, como assopram do Palácio? E o ministério para os mineiros, como ficará? Para equilibrar a representação, dirão eles, isso não basta.
Proveta, não
Num sinal de que a desconfiança persiste, apesar do clima aparente de paz e amor, o PMDB aprovou uma moção estabelecendo que, para ocupar cargo público representando o PMDB, o indicado precisa ter pelo menos seis meses de filiação.
Isso é vacina, para evitar que Dilma tente usar o partido como barriga de aluguel para ministros seus, com carimbo do partido. Recentemente, houve um movimento para filiar Josué Gomes da Silva, filho do falecido vice-presidente José Alencar, que em seguida seria nomeado para um ministério da cota do partido.
Guerras regionais
Dilma verá também se multiplicarem, faltando tanto tempo para o início da campanha, conflitos como o do Rio, entre petistas e peemedebistas. A "candidata energética", como se definiu, gastará energia administrando essas guerras, tarefa que pode também ficar com Lula. Ao governador Cabral, o ex-presidente praticamente disse para se conformar com os dois palanques pró-Dilma, recusando polidamente o pedido para obter a desistência de Lindbergh. Tendo o apoio de dois palanques, na campanha ela iria aos dois, não favorecendo nenhum, disse Lula. Mas, na prática, todo mundo sabe que isso não acontece. Não aconteceu em 2010, por exemplo.
Já tendo problemas com o PSB, o PDT e o PR, ao acelerar a campanha, Dilma abriu também a tampa da panela em que o PMDB cozinhava suas insatisfações e pretensões. Por isso muita gente do ramo se pergunta: o que ela ganhou com isso?
Por ora, desentocou um adversário, o tucano Aécio Neves, acirrou os conflitos com o PSB e despertou o instinto de auto-valorização do PMDB. Na economia e na administração, todas as medidas enfrentarão questionamentos sobre eventual caráter "eleitoreiro", reforçando a desconfiança que as manobras contábeis do ano passado suscitaram nos agentes econômicos. Se a antecipação não tiver uma forte razão ainda desconhecida, terá contrariado velho consenso político sobre os governos de quatro anos: o primeiro é para arrumar a casa, o segundo é para planejar e dar início aos projetos mais arrojados, e o terceiro para executá-los. O quarto será ano de campanha e de inaugurações, enquanto a lei deixar.
Judicialização
O script da semana legislativa já está pronto. São de 100% as chances de o Congresso derrubar na terça-feira, pela força das bancadas dos estados não produtores de petróleo, os vetos da presidente Dilma Rousseff que garantiram maior quinhão aos estados produtores. Publicada a lei, o governador do Rio, Sérgio Cabral, entrará no STF com a Ação direta de inconstitucionalidade, que já foi preparada pelo jurista Luiz Roberto Barroso. Mais uma vez, uma decisão legislativa será judicializada, abrindo espaço para a arbitragem do STF.
Impedimento
Não se deve tratar dos vetos com o líder do PMDB, Eduardo Cunha. Sendo ele do Rio, e estando sua bancada majoritariamente disposta à derrubada, ele entregou a condução do assunto ao vice lider Marcelo de Castro (PI).
Mudanças no viés das políticas governamentais - DARCI PIANA
GAZETA DO POVO - PR - 03/03
Os mecanismos de política econômica adotados pelo governo federal para aquecer a economia nos dois últimos anos privilegiaram a expansão da demanda final, constituindo-se em políticas conjunturais com eficiência no curto prazo. O que se verifica atualmente é o esgotamento dessas políticas de incentivo ao consumo. O elevado grau de endividamento e o comprometimento da renda disponível podem ser destacados como elementos importantes que impediram, a partir de determinado momento, a continuidade dos efeitos positivos das políticas adotadas.
Uma combinação dos efeitos restritivos pode ser identificada a partir de exemplos como a queda significativa do crescimento do PIB brasileiro no triênio 2010-2012 e no investimento via formação de capital fixo (público e privado) como porcentagem do PIB – de 19,5% em 2010 para 18,5% até o terceiro trimestre de 2012.
Como pano de fundo desse cenário, cabe destacar a crise nas economias desenvolvidas e o menor crescimento da China, estabelecido pelo governo daquele país para 2012. O comércio mundial teve queda significativa, segundo o FMI. É inegável que a queda repercute sobre a economia brasileira, cada vez mais integrada ao processo de globalização econômica.
A indústria brasileira não atingiu o desempenho esperado em 2012 por causa da simultaneidade dos fatores mencionados, acrescidos pelo “custo Brasil” e pela presença dos importados. A agricultura, neste início de 2013, apresenta aumento significativo na produção de grãos, com destaque especial à colheita paranaense. Os números referentes à safra foram beneficiados pela combinação positiva de produtividade do solo, fatores climáticos e preços no mercado.
No momento, mostra-se necessário ao governo adotar uma nova vertente de políticas econômicas voltadas a segmentos ou problemas não contemplados. Torna-se urgente, portanto, a elaboração e implementação de políticas estruturais, voltadas à expansão dos investimentos, com horizonte de médio e longo prazo.
As práticas governamentais deverão ter credibilidade suficiente para obter a confiança do sistema produtivo quanto às diretrizes pretendidas. Não sendo assim, os investimentos privados poderão até estagnar. Há um espaço importante a ser preenchido pelo investimento do governo em infraestrutura, que não está sendo efetivado na velocidade necessária ao atendimento dos setores produtivos.
Em paralelo, a dimensão dos conflitos e insuficiências atuais justifica também a adoção de políticas de alteração institucional, capazes de atuar de forma complementar. Por exemplo: reforma fiscal-tributária, alterações monetário-creditícias para reduzir custos de financiamento à pessoa física, redução do peso do “custo Brasil” no custo de produção, e contenção da participação do Estado na economia.
As autoridades econômicas têm consciência de que o governo não produz bens e serviços e não exporta. Quem produz para os mercados interno e externo são os empresários dos diferentes setores produtivos. Ao governo cumpre incentivar a atuação do sistema de produção, adotando uma combinação de políticas econômicas que facilitem a competitividade da produção nacional. A rápida capacidade de adequação do sistema produtivo às mudanças advindas de políticas econômicas eficientes permitirá a viabilização dos objetivos voltados ao crescimento e o desenvolvimento da economia brasileira.
Os mecanismos de política econômica adotados pelo governo federal para aquecer a economia nos dois últimos anos privilegiaram a expansão da demanda final, constituindo-se em políticas conjunturais com eficiência no curto prazo. O que se verifica atualmente é o esgotamento dessas políticas de incentivo ao consumo. O elevado grau de endividamento e o comprometimento da renda disponível podem ser destacados como elementos importantes que impediram, a partir de determinado momento, a continuidade dos efeitos positivos das políticas adotadas.
Uma combinação dos efeitos restritivos pode ser identificada a partir de exemplos como a queda significativa do crescimento do PIB brasileiro no triênio 2010-2012 e no investimento via formação de capital fixo (público e privado) como porcentagem do PIB – de 19,5% em 2010 para 18,5% até o terceiro trimestre de 2012.
Como pano de fundo desse cenário, cabe destacar a crise nas economias desenvolvidas e o menor crescimento da China, estabelecido pelo governo daquele país para 2012. O comércio mundial teve queda significativa, segundo o FMI. É inegável que a queda repercute sobre a economia brasileira, cada vez mais integrada ao processo de globalização econômica.
A indústria brasileira não atingiu o desempenho esperado em 2012 por causa da simultaneidade dos fatores mencionados, acrescidos pelo “custo Brasil” e pela presença dos importados. A agricultura, neste início de 2013, apresenta aumento significativo na produção de grãos, com destaque especial à colheita paranaense. Os números referentes à safra foram beneficiados pela combinação positiva de produtividade do solo, fatores climáticos e preços no mercado.
No momento, mostra-se necessário ao governo adotar uma nova vertente de políticas econômicas voltadas a segmentos ou problemas não contemplados. Torna-se urgente, portanto, a elaboração e implementação de políticas estruturais, voltadas à expansão dos investimentos, com horizonte de médio e longo prazo.
As práticas governamentais deverão ter credibilidade suficiente para obter a confiança do sistema produtivo quanto às diretrizes pretendidas. Não sendo assim, os investimentos privados poderão até estagnar. Há um espaço importante a ser preenchido pelo investimento do governo em infraestrutura, que não está sendo efetivado na velocidade necessária ao atendimento dos setores produtivos.
Em paralelo, a dimensão dos conflitos e insuficiências atuais justifica também a adoção de políticas de alteração institucional, capazes de atuar de forma complementar. Por exemplo: reforma fiscal-tributária, alterações monetário-creditícias para reduzir custos de financiamento à pessoa física, redução do peso do “custo Brasil” no custo de produção, e contenção da participação do Estado na economia.
As autoridades econômicas têm consciência de que o governo não produz bens e serviços e não exporta. Quem produz para os mercados interno e externo são os empresários dos diferentes setores produtivos. Ao governo cumpre incentivar a atuação do sistema de produção, adotando uma combinação de políticas econômicas que facilitem a competitividade da produção nacional. A rápida capacidade de adequação do sistema produtivo às mudanças advindas de políticas econômicas eficientes permitirá a viabilização dos objetivos voltados ao crescimento e o desenvolvimento da economia brasileira.
Meu momento Yoani - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 03/03
Na sexta-feira à noite, na inauguração do museu MAR na Praça Mauá, passei por rápidos instantes a mesma situação que enfrentou a blogueira Yoani Sanchez quando esteve no país recentemente. Havia diversas manifestações nos arredores do museu, onde participavam da inauguração a presidente Dilma Rousseff, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. O barulho era insuportável dentro do museu, que, com seu lindo teto ondulado, criou um inesperado efeito acústico dentro do prédio.
Uma era contra o fechamento dos teatros do Rio depois da tragédia de Santa Maria. Muitos teatros, que funcionavam sem as medidas de segurança necessárias, continuam fechados e os artistas estavam ali protestando. Mas protestavam contra o quê? Deveriam mesmo protestar contra o fato de terem passado todo esse tempo trabalhando e recebendo pessoas em lugares sem condições de segurança adequadas. Deveriam protestar contra a prefeitura, mas pelo que ela não fez, e não pelo que está fazendo, embora tardiamente.
Havia um pequeno grupo reclamando casas prometidas e não entregues. E um terceiro grupo, mais barulhento e agressivo, que protestava contra a Medida Provisória dos Portos que, em boa hora, a presidente Dilma enviou ao Congresso. Aparentemente, não havia no grupo nenhum estivador ou operário. Eram todos jovens estudantes com máscaras e cartazes que alertavam: "Gestão mata".
O que esses jovens do PT, do PCdoB, da Juventude Socialista, do PDT queriam dizer é que a nova legislação sobre os portos trará prejuízos aos trabalhadores. O que está por trás dos protestos, no entanto, é uma nada estranhável, embora exótica, aliança entre órgãos sindicais e empresários que operam os portos sem competição beneficiando-se de uma reserva de mercado tão ultrapassada quanto prejudicial à economia.
Os jovens radicais estavam ali protestando contra a possibilidade de os novos administradores de portos disputarem cargas com os terminais já existentes e contratarem mão de obra pelo regime da CLT, à qual estão subordinados todos os trabalhadores brasileiros.
Sindicatos liderados pelo Paulinho da Força Sindical, deputado federal (PDT), querem impedir a modernização dos portos, obrigando os novos terminais a contratarem os estivadores pelo Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo). E têm o apoio de concessionários dos portos que querem tudo menos competição para melhorar a produtividade.
No entanto, dar competitividade ao setor portuário é fundamental para a retomada do crescimento, reduzindo o chamado custo Brasil. E lá estavam os jovens esquerdistas não apenas protestando, como seria normal em uma democracia, mas agredindo verbal e quase fisicamente as pessoas que passavam por uma espécie de corredor polonês que a polícia deixou que fizessem.
As pessoas que saiam da festa de inauguração forçosamente tinham que passar pelos manifestantes para pegar seus carros, e houve momentos em que as agressões verbais chegaram às raias da agressão física. Uma senhora que ia à nossa frente foi chamada de "fascista"por um manifestante que gritou tão perto do seu rosto que quase houve contato físico.
Passei pelo grupo com minha mulher sob os gritos dos manifestantes, e um deles me reconheceu. Gritou alto: "Aí, Merval fdp". Foi o que bastou para que outros cercassem o carro em que estávamos, impedindo que saísse. Chutaram-no, socaram os vidros, puseram-se na frente com faixas e cartazes impedindo a visão do motorista. Só desistiram da agressão quando um grupo de PMs chegou para abrir caminho e permitir que o carro andasse.
Foram instantes de tensão que permitiram sentir a violência que está no ar nesses dias em que, como previu o ministro Gilberto Carvalho, "o bicho vai pegar". É claro que o que aconteceu com a blogueira cubana Yoani Sanchez nem se compara, mas o ocorrido na noite de sexta-feira mostra bem o clima belicoso que os manifestantes extremistas estão impondo a seus atos supostamente de protesto.
E é impressionante que jovens ditos revolucionários se empenhem em defender um sistema arcaico que só interessa às corporações sindicais que já estão instaladas nos portos e a empresários que se beneficiam de privilégios que emperram a economia brasileira. A presidente Dilma está certa ao não aceitar as pressões políticas para mudar a medida provisória dos portos, essencial para a revitalização da economia.
O PIB do 4º trimestre de 2012 - SAMUEL PESSÔA
FOLHA DE SP - 03/03
A boa notícia da divulgação de sexta foi que o investimento no quarto trimestre cresceu 0,5%
O IBGE divulgou na manhã da última sexta-feira o resultado do produto referente ao quarto trimestre de 2012. O resultado foi o esperado pelos analistas. Crescimento de 0,6% ante o terceiro trimestre de 2012, considerando a série com ajuste sazonal.
O IBGE também reviu ligeiramente a taxa de crescimento do terceiro trimestre em relação ao segundo de 0,6% para 0,4%.
De sorte que a atividade econômica apresentou ao longo de 2012 ligeira recuperação.
As taxas trimestrais (sempre ante o trimestre anterior e considerando a série com ajuste sazonal) foram respectivamente de 0,1%, 0,3%, 0,4% e 0,6%.
No ano, o crescimento foi de 0,9%, na média de 2012 na comparação com a média de 2011.
A grande decepção de 2012 foi o investimento, que na média do ano em relação ao ano anterior regrediu 4,0%!
A redução do investimento explica a redução do crescimento do produto de 0,8 pontos percentuais.
Outro fator, pela ótica da demanda, que explica o desempenho ruim da atividade econômica foi o longo ciclo de desacumulação de estoques em seguida aos estoques excessivos acumulados na virada de 2010 para 2011.
O excesso de ativismo da política econômica em 2010 deixou para o primeiro biênio de Dilma a digestão desses estoques.
Infelizmente não temos nas contas nacionais trimestrais uma medida de acumulação de estoques a preços constantes.
Assim, é difícil saber qual foi a contribuição da desacumulação de estoques para o péssimo resultado do PIB em 2012.
Sob a hipótese de que a soma do produto a preços constantes pela ótica da demanda, incluindo a acumulação de estoques, seja igual ao produto medido pela ótica da oferta, obtemos que a desacumulação de estoques em 2012 respondeu por uma redução do produto de 0,9 ponto percentual.
Assim, a acumulação de estoques e o investimento (chamado de formação bruta de capital fixo) respondem por 1,7 ponto percentual de redução da atividade.
Compensando, o consumo das famílias e das administrações públicas explicam 2,6 pontos percentuais de crescimento, enquanto a demanda externa, exportação líquida das importações se compensaram.
No final das contas, o impacto do consumo sobre o crescimento, que foi de 2,6 pontos percentuais menos 1,7, produz o crescimento de 0,9%.
A boa notícia da divulgação de sexta-feira foi que o investimento no quarto trimestre de 2012 cresceu 0,5%. Diferentemente, esperávamos no Ibre novo recuo de 1,6%.
Assim, temos o primeiro sinal de retomada do investimento.
Trata-se ainda de um sinal modesto. O motivo é que a retomada do investimento no quarto trimestre ocorreu com recuo da indústria de transformação e da construção civil e, para os que acompanham os dados da pesquisa industrial mensal do IBGE, recuo da indústria de bens de capital.
Ou seja, a retomada do investimento no final de 2012 representou forte crescimento das importações de máquinas, o que sugere que se trata de investimento para recompor o capital depreciado. e não novos investimentos.
Esses requerem um aumento do investimento em estruturas que aparentemente não ocorreu, pois a indústria da construção civil recuou.
Para 2013, o desempenho da atividade deve continuar a apresentar a longa e lenta recuperação dos excessos da virada de 2010 para 2011.
A recuperação do investimento com o fim do ciclo de desacumulação de estoques deve colocar o PIB na casa de 3% com crescimento do investimento em 3%.
Se tudo der certo, em 2013 cresceremos 0,9% por trimestre e o investimento crescerá 1,5% por trimestre, o que garantirá o crescimento do produto em torno de 3%.
Resta saber como reagirá a inflação. Mas esse já é tema para outra coluna.
A boa notícia da divulgação de sexta foi que o investimento no quarto trimestre cresceu 0,5%
O IBGE divulgou na manhã da última sexta-feira o resultado do produto referente ao quarto trimestre de 2012. O resultado foi o esperado pelos analistas. Crescimento de 0,6% ante o terceiro trimestre de 2012, considerando a série com ajuste sazonal.
O IBGE também reviu ligeiramente a taxa de crescimento do terceiro trimestre em relação ao segundo de 0,6% para 0,4%.
De sorte que a atividade econômica apresentou ao longo de 2012 ligeira recuperação.
As taxas trimestrais (sempre ante o trimestre anterior e considerando a série com ajuste sazonal) foram respectivamente de 0,1%, 0,3%, 0,4% e 0,6%.
No ano, o crescimento foi de 0,9%, na média de 2012 na comparação com a média de 2011.
A grande decepção de 2012 foi o investimento, que na média do ano em relação ao ano anterior regrediu 4,0%!
A redução do investimento explica a redução do crescimento do produto de 0,8 pontos percentuais.
Outro fator, pela ótica da demanda, que explica o desempenho ruim da atividade econômica foi o longo ciclo de desacumulação de estoques em seguida aos estoques excessivos acumulados na virada de 2010 para 2011.
O excesso de ativismo da política econômica em 2010 deixou para o primeiro biênio de Dilma a digestão desses estoques.
Infelizmente não temos nas contas nacionais trimestrais uma medida de acumulação de estoques a preços constantes.
Assim, é difícil saber qual foi a contribuição da desacumulação de estoques para o péssimo resultado do PIB em 2012.
Sob a hipótese de que a soma do produto a preços constantes pela ótica da demanda, incluindo a acumulação de estoques, seja igual ao produto medido pela ótica da oferta, obtemos que a desacumulação de estoques em 2012 respondeu por uma redução do produto de 0,9 ponto percentual.
Assim, a acumulação de estoques e o investimento (chamado de formação bruta de capital fixo) respondem por 1,7 ponto percentual de redução da atividade.
Compensando, o consumo das famílias e das administrações públicas explicam 2,6 pontos percentuais de crescimento, enquanto a demanda externa, exportação líquida das importações se compensaram.
No final das contas, o impacto do consumo sobre o crescimento, que foi de 2,6 pontos percentuais menos 1,7, produz o crescimento de 0,9%.
A boa notícia da divulgação de sexta-feira foi que o investimento no quarto trimestre de 2012 cresceu 0,5%. Diferentemente, esperávamos no Ibre novo recuo de 1,6%.
Assim, temos o primeiro sinal de retomada do investimento.
Trata-se ainda de um sinal modesto. O motivo é que a retomada do investimento no quarto trimestre ocorreu com recuo da indústria de transformação e da construção civil e, para os que acompanham os dados da pesquisa industrial mensal do IBGE, recuo da indústria de bens de capital.
Ou seja, a retomada do investimento no final de 2012 representou forte crescimento das importações de máquinas, o que sugere que se trata de investimento para recompor o capital depreciado. e não novos investimentos.
Esses requerem um aumento do investimento em estruturas que aparentemente não ocorreu, pois a indústria da construção civil recuou.
Para 2013, o desempenho da atividade deve continuar a apresentar a longa e lenta recuperação dos excessos da virada de 2010 para 2011.
A recuperação do investimento com o fim do ciclo de desacumulação de estoques deve colocar o PIB na casa de 3% com crescimento do investimento em 3%.
Se tudo der certo, em 2013 cresceremos 0,9% por trimestre e o investimento crescerá 1,5% por trimestre, o que garantirá o crescimento do produto em torno de 3%.
Resta saber como reagirá a inflação. Mas esse já é tema para outra coluna.
Carro adiante dos bois - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 03/03
Se a presidente Dilma quer ganhar a eleição de 2014 precisa olhar para 2013. Nos últimos dias, seus olhos estiveram em vários anos diferentes, menos no que está diante de nós para ser vivido e construído. Olhou para 2003 e não viu o cadastro que o governo recebeu, que, aperfeiçoado, foi a base do Bolsa Família. Olhou para o período entre 1994 e 2002 e não viu a vitória sobre a hiperinflação.
É uma pena que não tenha visto o que já foi feito, porque há muito a fazer. Uma das tarefas imediatas é passar para os empresários estrangeiros, que estão sendo visitados pelas autoridades brasileiras nestes dias, a convicção de que o governo tem um rumo e que não é apenas ganhar a eleição de 2014.
Se a presidente Dilma e seus enviados afirmarem aos investidores que nada havia antes de 2003, que o Brasil era uma terra arrasada, e que tudo foi construído pelo PT, eles vão estranhar. Todos já sabem o básico sobre as evoluções das últimas duas décadas no Brasil.
A dívida externa contraída pelos militares foi renegociada. Todos os velhos papéis foram trocados por outros com novos prazos e preços sob o comando do negociador Pedro Malan. Isso permitiu ao país voltar ao mercado financeiro internacional.
A inflação que atingiu dois dígitos no começo dos anos 1940, continuou sua escalada e fugiu ao controle nos anos 1980 e 1990. Só foi domada com o Plano Real, mas antes dele passos importantes foram dados em governos diferentes, todos democratas, para derrotar esse mal que perseguiu o Brasil. Foi uma construção coletiva e uma escolha do país, mas nesse processo de vitória sobre a inflação é inegável o papel dos ex-presidentes Fernando Henrique e Itamar Franco. É também inegável que o PT se opôs ao projeto até que, no governo, o herdou e preservou.
Os investidores desse mundo interconectado têm mais informação sobre o Brasil do que tinham no passado - quando confundiam Brasília com Buenos Aires. Eles achariam estranhíssima a frase de que "não herdamos nada, construímos tudo".
Após a queda da inflação é que o Brasil passou a ser levado a sério. Antes, era motivo de chacota. Mas o Plano Real não foi um fim. Ele se dispôs para o país no meio do caminho. Foi preciso desmontar uma parafernália fiscal recebida de herança dos governos militares para levar o país à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso também foi construído antes do PT e com a sua oposição. Na energia, o governo do PSDB passou pelo fiasco do apagão. Para consertar o que fez, montou um sistema de termelétricas para ser acionado quando fosse o caso de poupar água nos reservatórios. Não é o ideal, mas é o que está sendo usado este ano para superar o risco criado pela enorme queda do nível de água.
A presidente disse que quem falou em falta de energia estava criando instabilidade. Foi por não se falar do perigo a tempo que houve o apagão. Os alertas são necessários, no governo e fora dele. Em dezembro, o nível dos reservatórios chegou a 28% na região Sudeste e a 32% no Nordeste, as duas regiões que representam 88% da capacidade instalada. Depois de toda a chuvarada, estão em 45% e 41%, respectivamente. Isso é muito menos que o percentual do mesmo mês de 2012: 80% e 85%. Por isso, o governo decidiu continuar usando as termelétricas, que custarão mais de R$ 6 bilhões este ano se ficarem ligadas até dezembro. Esse valor só não anulará o efeito da redução do preço da energia porque o governo está construindo uma engenharia financeira que transferirá o custo para o Tesouro.
Em vários dos avanços brasileiros há continuidade. Cada partido tem que marcar as diferenças no discurso que levará para o palanque, mas nas falas recentes da presidente certas afirmações não correspondem aos fatos. Esse cacoete era do ex-presidente Lula. Não é necessário no palanque de 2014. Melhor base o palanque terá se a presidente encarar 2013 e seus desafios.
Se a presidente Dilma quer ganhar a eleição de 2014 precisa olhar para 2013. Nos últimos dias, seus olhos estiveram em vários anos diferentes, menos no que está diante de nós para ser vivido e construído. Olhou para 2003 e não viu o cadastro que o governo recebeu, que, aperfeiçoado, foi a base do Bolsa Família. Olhou para o período entre 1994 e 2002 e não viu a vitória sobre a hiperinflação.
É uma pena que não tenha visto o que já foi feito, porque há muito a fazer. Uma das tarefas imediatas é passar para os empresários estrangeiros, que estão sendo visitados pelas autoridades brasileiras nestes dias, a convicção de que o governo tem um rumo e que não é apenas ganhar a eleição de 2014.
Se a presidente Dilma e seus enviados afirmarem aos investidores que nada havia antes de 2003, que o Brasil era uma terra arrasada, e que tudo foi construído pelo PT, eles vão estranhar. Todos já sabem o básico sobre as evoluções das últimas duas décadas no Brasil.
A dívida externa contraída pelos militares foi renegociada. Todos os velhos papéis foram trocados por outros com novos prazos e preços sob o comando do negociador Pedro Malan. Isso permitiu ao país voltar ao mercado financeiro internacional.
A inflação que atingiu dois dígitos no começo dos anos 1940, continuou sua escalada e fugiu ao controle nos anos 1980 e 1990. Só foi domada com o Plano Real, mas antes dele passos importantes foram dados em governos diferentes, todos democratas, para derrotar esse mal que perseguiu o Brasil. Foi uma construção coletiva e uma escolha do país, mas nesse processo de vitória sobre a inflação é inegável o papel dos ex-presidentes Fernando Henrique e Itamar Franco. É também inegável que o PT se opôs ao projeto até que, no governo, o herdou e preservou.
Os investidores desse mundo interconectado têm mais informação sobre o Brasil do que tinham no passado - quando confundiam Brasília com Buenos Aires. Eles achariam estranhíssima a frase de que "não herdamos nada, construímos tudo".
Após a queda da inflação é que o Brasil passou a ser levado a sério. Antes, era motivo de chacota. Mas o Plano Real não foi um fim. Ele se dispôs para o país no meio do caminho. Foi preciso desmontar uma parafernália fiscal recebida de herança dos governos militares para levar o país à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso também foi construído antes do PT e com a sua oposição. Na energia, o governo do PSDB passou pelo fiasco do apagão. Para consertar o que fez, montou um sistema de termelétricas para ser acionado quando fosse o caso de poupar água nos reservatórios. Não é o ideal, mas é o que está sendo usado este ano para superar o risco criado pela enorme queda do nível de água.
A presidente disse que quem falou em falta de energia estava criando instabilidade. Foi por não se falar do perigo a tempo que houve o apagão. Os alertas são necessários, no governo e fora dele. Em dezembro, o nível dos reservatórios chegou a 28% na região Sudeste e a 32% no Nordeste, as duas regiões que representam 88% da capacidade instalada. Depois de toda a chuvarada, estão em 45% e 41%, respectivamente. Isso é muito menos que o percentual do mesmo mês de 2012: 80% e 85%. Por isso, o governo decidiu continuar usando as termelétricas, que custarão mais de R$ 6 bilhões este ano se ficarem ligadas até dezembro. Esse valor só não anulará o efeito da redução do preço da energia porque o governo está construindo uma engenharia financeira que transferirá o custo para o Tesouro.
Em vários dos avanços brasileiros há continuidade. Cada partido tem que marcar as diferenças no discurso que levará para o palanque, mas nas falas recentes da presidente certas afirmações não correspondem aos fatos. Esse cacoete era do ex-presidente Lula. Não é necessário no palanque de 2014. Melhor base o palanque terá se a presidente encarar 2013 e seus desafios.
Razão e paixão - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 03/03
As votações expressivas do desgastado Silvio Berlusconi e do comediante Beppe Grillo, somadas aos resultados frustrantes de Pier Luigi Bersani e do premiê Mario Monti, proporcionam uma fascinante visão da psique italiana.
Para quem gosta muito da Itália e dos italianos, preocupa ver como decisões econômicas tão relevantes foram tomadas com debate intelectual de baixa profundidade e alta densidade emocional.
É o que tem ocorrido em países do sul da Europa e da América Latina, num grande contraste em relação ao debate econômico na maior parte do norte europeu, particularmente nos países nórdicos. Lá, ele tende a ser racional, frio e intelectualmente denso, com diversas correntes buscando conquistar, pela razão, formadores de opinião, tomadores de decisão e eleitores.
Talvez não seja coincidência que a situação econômica do norte europeu seja muito melhor que a do sul, o que traz um alerta importante para a qualidade do debate econômico no Brasil.
Devemos estar atentos ao debate, marcado por alta dose de paixão -com declarações extremadas, desqualificação de oponentes ou de quem pensa diferente- e pela busca de influência ou predominância baseada mais na força das palavras do que dos
argumentos, sem muito cui-dado com a essência e a busca de evidências factuais. O resultado disso é, muitas vezes, desastroso.
Aprendi, na vida profissional, que a força dos argumentos está nos seus resultados. Temos que analisar o histórico da aplicação de teorias ou diagnósticos econômicos para concluir sobre sua aplicabilidade a cada situação.
Apesar do seu componente artístico, a ciência econômica tem semelhanças com diversas áreas da pesquisa, como a medicina, por exemplo. Quando se pesquisa doenças e disfunções, é muito perigoso basear-se na força das paixões e na elegância dos argumentos para definir o tratamento -que tem de ser buscado em evidências concretas coletadas em diagnósticos e práticas já aplicadas. Seria muito negativo se a medicina fosse guiada por debate apaixonado com desqualificação de oponentes e defesa emocional de tratamentos.
É natural que conflitos de interesse acirrem emoções. O importante é manter o foco no dado concreto, observar o resultado de cada proposta e, a partir daí, traçar o caminho não só na economia, mas em todas as áreas do conhecimento.
Hoje, os países com maior progresso econômico ou em melhor situação -no norte da Europa, a China e outros Estados asiáticos ou mesmo os EUA- mostram que o debate baseado na razão é superior ao que se apoia na paixão, por mais fascinante que possa ser o debate apaixonado.
As votações expressivas do desgastado Silvio Berlusconi e do comediante Beppe Grillo, somadas aos resultados frustrantes de Pier Luigi Bersani e do premiê Mario Monti, proporcionam uma fascinante visão da psique italiana.
Para quem gosta muito da Itália e dos italianos, preocupa ver como decisões econômicas tão relevantes foram tomadas com debate intelectual de baixa profundidade e alta densidade emocional.
É o que tem ocorrido em países do sul da Europa e da América Latina, num grande contraste em relação ao debate econômico na maior parte do norte europeu, particularmente nos países nórdicos. Lá, ele tende a ser racional, frio e intelectualmente denso, com diversas correntes buscando conquistar, pela razão, formadores de opinião, tomadores de decisão e eleitores.
Talvez não seja coincidência que a situação econômica do norte europeu seja muito melhor que a do sul, o que traz um alerta importante para a qualidade do debate econômico no Brasil.
Devemos estar atentos ao debate, marcado por alta dose de paixão -com declarações extremadas, desqualificação de oponentes ou de quem pensa diferente- e pela busca de influência ou predominância baseada mais na força das palavras do que dos
argumentos, sem muito cui-dado com a essência e a busca de evidências factuais. O resultado disso é, muitas vezes, desastroso.
Aprendi, na vida profissional, que a força dos argumentos está nos seus resultados. Temos que analisar o histórico da aplicação de teorias ou diagnósticos econômicos para concluir sobre sua aplicabilidade a cada situação.
Apesar do seu componente artístico, a ciência econômica tem semelhanças com diversas áreas da pesquisa, como a medicina, por exemplo. Quando se pesquisa doenças e disfunções, é muito perigoso basear-se na força das paixões e na elegância dos argumentos para definir o tratamento -que tem de ser buscado em evidências concretas coletadas em diagnósticos e práticas já aplicadas. Seria muito negativo se a medicina fosse guiada por debate apaixonado com desqualificação de oponentes e defesa emocional de tratamentos.
É natural que conflitos de interesse acirrem emoções. O importante é manter o foco no dado concreto, observar o resultado de cada proposta e, a partir daí, traçar o caminho não só na economia, mas em todas as áreas do conhecimento.
Hoje, os países com maior progresso econômico ou em melhor situação -no norte da Europa, a China e outros Estados asiáticos ou mesmo os EUA- mostram que o debate baseado na razão é superior ao que se apoia na paixão, por mais fascinante que possa ser o debate apaixonado.
Relógio parado - CELSO MING
O ESTADO DE S. PAULO - 03/03
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um viciado em otimismo. Uma a uma, vai perdendo suas apostas. Mas ele não desiste. Olha para o copo quebrado e diz: "Que bom, vamos ter um novo". O problema é que não basta trocar de copo. E preciso evitar que as quebras se repitam.
Suas projeções reluzentes sobre o desempenho econômico estão na memória de todos. Infelizmente, não dá para ter a mesma certeza do ministro quanto à evolução do PIB em 2013. Ele segue prevendo avanço entre 3,5% e 4,0%. Mas está difícil confiar.
O volume de incertezas ainda é alto e o agravamento da inflação no Brasil contribui para emperrar a máquina. As previsões estão ainda mais fortemente sujeitas a erros. O principal indicador de que 2013 ainda pode apresentar resultado insatisfatório (embora pouco melhor do que o de 2012) é o comportamento do investimento. O IBGE mostrou que, ao longo de 2012, a poupança nacional recuou de 17,2% do PIB para 14,8%; e o investimento, de 19,3% do PIB para 18,1%. Se o brasileiro está comendo sementes e matrizes, como ontem foi aqui apontado, não se pode esperar desempenho melhor da produção nos meses seguintes.
A idéia de que basta acionar o consumo para que a produção siga atrás está sendo contrariada pelas Contas Nacionais. Super protegida e derrubada pelos custos, a indústria de transformação do Brasil não se mostra capaz de ampliar seu mercado externo e nem sequer dá conta do consumo interno. A política adotada entrega cada vez mais mercado interno para o produtor externo.
O quarto trimestre de 2012 mostrou uma certa melhora em relação aos anteriores. A expansão do PIB, de 0,6% nos últimos três meses de 2012, corresponde a 2,4% ao ano. A indústria, por exemplo, cresceu 04% - o que, felizmente, não é outro recuo. E, na ótica da demanda, o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) cresceu 0,5%. Mas esse ritmo melhor não é tração suficiente para um avanço do PIB de 3,5% a 4,0%.
Há fortes evidências de que o governo mudou seu curso. Entendeu que precisa garantir mais investimento. Mas isso não é como acontece nas granjas, onde só basta comprar poedeiras adultas para incrementar a produção de ovos. Os investimentos em infraestrutura levam uma enormidade para apresentar resultados. Não vai ser ainda em 2013 que mais obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e tal se transformarão em "pibão grandão", como o pretendido pela presidente Dilma.
A forte queda da poupança interna ao longo de 2012 traz um problema adicional: aumenta a dependência da poupança externa. Significa que alguns atrativos extras serão necessários - e não apenas conversas e roadshows ministeriais nas capitais financeiras do mundo - para atrair o investidor de fora do País.
Além disso, aumento do investimento externo pode implicar a necessidade de tolerar mais rombos nas contas externas (déficits em conta corrente), o que desembocaria em mais perda de mercado interno pela indústria.
E vá lá: se até relógio parado marca a hora correta pelo menos duas vezes por dia, o ministro ainda acabará acertando.
Vai mesmo mudar?
Falta saber se os ainda altos índices de aprovação da administração Dilma não serão obstáculo para as mudanças no mix de política econômica que o governo parece disposto a fazer.
Suas projeções reluzentes sobre o desempenho econômico estão na memória de todos. Infelizmente, não dá para ter a mesma certeza do ministro quanto à evolução do PIB em 2013. Ele segue prevendo avanço entre 3,5% e 4,0%. Mas está difícil confiar.
O volume de incertezas ainda é alto e o agravamento da inflação no Brasil contribui para emperrar a máquina. As previsões estão ainda mais fortemente sujeitas a erros. O principal indicador de que 2013 ainda pode apresentar resultado insatisfatório (embora pouco melhor do que o de 2012) é o comportamento do investimento. O IBGE mostrou que, ao longo de 2012, a poupança nacional recuou de 17,2% do PIB para 14,8%; e o investimento, de 19,3% do PIB para 18,1%. Se o brasileiro está comendo sementes e matrizes, como ontem foi aqui apontado, não se pode esperar desempenho melhor da produção nos meses seguintes.
A idéia de que basta acionar o consumo para que a produção siga atrás está sendo contrariada pelas Contas Nacionais. Super protegida e derrubada pelos custos, a indústria de transformação do Brasil não se mostra capaz de ampliar seu mercado externo e nem sequer dá conta do consumo interno. A política adotada entrega cada vez mais mercado interno para o produtor externo.
O quarto trimestre de 2012 mostrou uma certa melhora em relação aos anteriores. A expansão do PIB, de 0,6% nos últimos três meses de 2012, corresponde a 2,4% ao ano. A indústria, por exemplo, cresceu 04% - o que, felizmente, não é outro recuo. E, na ótica da demanda, o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) cresceu 0,5%. Mas esse ritmo melhor não é tração suficiente para um avanço do PIB de 3,5% a 4,0%.
Há fortes evidências de que o governo mudou seu curso. Entendeu que precisa garantir mais investimento. Mas isso não é como acontece nas granjas, onde só basta comprar poedeiras adultas para incrementar a produção de ovos. Os investimentos em infraestrutura levam uma enormidade para apresentar resultados. Não vai ser ainda em 2013 que mais obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e tal se transformarão em "pibão grandão", como o pretendido pela presidente Dilma.
A forte queda da poupança interna ao longo de 2012 traz um problema adicional: aumenta a dependência da poupança externa. Significa que alguns atrativos extras serão necessários - e não apenas conversas e roadshows ministeriais nas capitais financeiras do mundo - para atrair o investidor de fora do País.
Além disso, aumento do investimento externo pode implicar a necessidade de tolerar mais rombos nas contas externas (déficits em conta corrente), o que desembocaria em mais perda de mercado interno pela indústria.
E vá lá: se até relógio parado marca a hora correta pelo menos duas vezes por dia, o ministro ainda acabará acertando.
Vai mesmo mudar?
Falta saber se os ainda altos índices de aprovação da administração Dilma não serão obstáculo para as mudanças no mix de política econômica que o governo parece disposto a fazer.
Um pacote de veneno para a saúde - ELIO GASPARI
O GLOBO - 03/03
Levaram para a doutora Dilma e o comissário Alexandre Padilha discutirem em Brasília um pacote que, na marquetagem, se destina a melhorar o acesso do andar de baixo aos planos de saúde. Na prática, trata-se de um estímulo à inépcia empresarial e à má-fé de quem vende serviços que não pode entregar.
Os repórteres Natuza Nery, Johanna Nublat e Valdo Cruz revelaram que até agora ele tem dois pilares:
1) Deverá reduzir os impostos que incidem sobre o setor.
2) Deverá oferecer financiamentos públicos para a melhoria dos serviços hospitalares privados.
Com isso, os maganos prometem ampliar a rede dos planos, reduzir seus preços e melhorar o atendimento.
Será o samba do comissário doido. Uma coisa nada tem a ver com a outra, mas todas embutem um objetivo: avançar sobre a bolsa da Viúva.
Os planos de saúde vão bem, obrigado. Têm 48,7 milhões de clientes e no ano passado faturaram R$ 83 bilhões, ervanário equivalente à arrecadação federal de novembro. Trata-se de um setor que cresceu 50,6% desde 2003. A maior operadora desse mercado é a Amil. Seu dono, Edson Bueno, entrou na lista dos bilionários da revista Forbes com um patrimônio de US$ 2,2 bilhões (sua ex-mulher e sócia tem outros US$ 2 bilhões). A empresa foi vendida em outubro passado para o grupo americano UnitedHealth, por US$ 3,2 bilhões.
A Viúva dá benefícios tributários aos gastos dos cidadãos com saúde. Nada mais justo, mas isso significa uma renúncia fiscal estimada em R$ 15 bilhões anuais. O problema dessa atividade comercial não está no excesso de impostos, muito menos na falta de financiamentos. No ano passado a ANS suspendeu temporariamente a venda de 396 planos de 56 operadoras porque elas simplesmente descumpriam os contratos. Descumprem os contratos porque vendem o que não entregam. Existem planos de saúde de R$ 56 mensais, e, nos corredores da privataria, há um projeto de venda maciça de planos a R$ 90. O truque é simples: a rede privada fatura, e, quando o freguês adoece, as linhas finas do contrato mandam-no para a rede pública. Desde 1998 as operadoras de planos conseguiram esterilizar as iniciativas destinadas a fazer com que o SUS seja ressarcido pelo atendimento à clientela do setor privado. Para isso, usam poderosas equipes de advogados, parlamentares e uma junta de médicos pessoais dos mandarins do Planalto, que, quando adoecem, fogem da rede pública como Asmodeu da cruz.
Sem o SUS, não existe viabilidade financeira para um plano de R$ 90. Com o SUS, pode-se vender até plano de R$ 10. Quem conhece o mercado sustenta que não é possível manter um plano privado decente por menos de R$ 500 mensais.
Se a doutora Dilma e o comissário Padilha quiserem melhorar a saúde pública, podem baixar impostos e emprestar dinheiro da Viúva a juros camaradas, mas devem começar a discussão do pacote com uma minuta de Medida Provisória ordenando o ressarcimento do SUS. Numa conta conservadora, com novas regras, poderão arrecadar até R$ 10 bilhões. Em 2011 a ANS conseguiu receber das operadoras apenas R$ 82,8 milhões. (Dirigentes da agência foram multados individualmente em R$ 5 mil pela preguiça constatada no trato dos processos de cobrança.)
Pelo andar da carruagem, o samba do comissário doido serviria para piorar uma situação que é ruim, enriquecendo maganos e polindo o prestígio de doutores amigos dos reis. Essa é uma espécie que se degradou. Já não se fazem mais médicos da Corte como o Conde de Mota Maia, que cuidava da família imperial. Quando D. Pedro II tinha suas crises de diabetes, Mota Maia dormia num quartinho próximo. O conde acompanhou o paciente para o exílio e assistiu-o até a morte, dois anos depois, em Paris.
ABRAHAM LULA DA SILVA
Nosso Guia vive numa História própria.
Já disse que Napoleão foi à China e que Oswaldo Cruz descobriu a vacinada febre amarela. Comparando-se a Abraham Lincoln, informou que "estou lendo" a edição brasileira do livro de Doris Kearns Goodwine "fico impressionado como a imprensa batia no Lincoln em 1860, igualzinho batia em mim".
Onde ele leu isso, não se sabe. Em 1860, Lincoln era um azarão na disputa pela indicação do Partido Republicano e foi beneficiado pela atividade de dois jornalistas/empresários metidos em política. (Depois ambos brigaram com ele porque não queriam o fim da escravidão,mas essa é outra história.)Nessa fase, Lincoln foi poupado, e no livro que Lula disse estar lendo há duas referências da imprensa a Lincoln, ambas elogiosas.Ele acompanhou o resultado da convenção na redação de um jornal.
Durante a campanha e a Guerra Civil, o pau comeu, e os jornais do Sul, bem como os democratas do Norte, chamavam-no de semi analfabeto, "terrorista inculto", mas esse era o jogo jogado. A imprensa republicana exaltava sua origem humilde, sua simplicidade e a abstinência de fumo e álcool (páginas 75 e 76).
Numa coisa Nosso Guia está inteiramente certo: aliados e adversários subestimaram aquele advogado desengonçado que gostava de contar histórias.
Vaias e aplausos
Durante um dos concertos do festival Música em Trancoso, houve um princípio de vaia quando se anunciou a presença da ministra da Cultura, Marta Suplicy, que estava no cantinho das autoridades. Até aí, nada demais, pois a plateia daquela praia está fora do Bolsa Família.
Logo depois se anunciou a presença do ministro Joaquim Barbosa, que estava na arquibancada. Foi aplaudido de pé por mais de mil pessoas, durante vários minutos. Ganhou mais palmas que as cinco peças de Tchaikovsky.
Madame Natasha
Madame Natasha concedeu a Lula mais um título de doutor honoris causa pela seguinte pérola, enquanto, mais uma vez, reclamava da imprensa:
"Por que a gente não começa a dar um pouco de formatação àquilo que nós temos de potencial?"
Natasha não sabe formatar potencial, mas acha que Lula quis dizer que "a gente" precisa criar meios de comunicação próprios.
Eremildo, o idiota
A doutora Eliana Calmon, que fez fama pelo rigor com que ocupou a Corregedoria Nacional de Justiça, recebeu no ano passado R$ 84,8 mil de auxílios-alimentação atrasados. Isso sem contar seu salário de R$ 25,3 mil mensais.
Eremildo é um idiota, sabe que ela gosta de cozinhar e lembra que todos os pares da doutora recebem essa Bolsa Marmita.
Como a doutora não passou fome no período em que não recebeu o auxílio, o cretino teme que, ao receber cheques semelhantes, o Judiciário brasileiro erre a mão e morra empanturrado. Com essa grana, podem-se comprar 14.133 Big Macs, ou 38 sanduíches por dia durante um ano.
O custo dos estádios da Copa - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 03/03
O Corinthians é o "time do povo", mas o preço de seu futuro estádio será mais alto que o das sofisticadas arenas dos países ricos. Um levantamento publicado pelo Portal 2014, site do Sindicato Nacional da Arquitetura e da Engenharia que acompanha as obras da Copa do Mundo no Brasil, indica que o custo por cadeira no "Itaquerão" será de R$ 17,1 mil, o mais salgado da história dos Mundiais.
Não haveria nenhum problema se essa extravagância fosse bancada apenas pela iniciativa privada. Mas, embora o contrato tenha sido firmado entre entidades particulares, isto é, Corinthians e Odebrecht, sabe-se que a conta será parcialmente paga pelo contribuinte, na forma de generosas isenções fiscais e de crédito de bancos oficiais com juros de pai para filho. Logo, é lícito questionar por que razão o estádio corintiano será tão caro.
É improvável que a explicação para o custo seja simplesmente a qualidade da obra. O Allianz Arena, estádio de Munique erguido para a Copa de 2006 e um dos mais modernos do mundo, saiu por R$ 13,9 mil cada lugar. Mesmo na África do Sul, onde os custos superaram em muitas vezes o previsto, cada cadeira do Soccer City, em Johannesburgo, saiu por R$ 8,9 mil. O custo do estádio corintiano é mais alto, proporcionalmente, mesmo na comparação com o monumental estádio olímpico Ninho de Pássaro, em Pequim, que saiu por R$ 10,9 mil o assento.
O padrão do "Itaquerão" se repete nos demais estádios para a Copa. Inicialmente, o governo calculava que o custo total com essas arenas chegaria a R$ 2,3 bilhões. Hoje, estima-se que os 12 estádios irão consumir R$ 7,03 bilhões. Isso significa que o preço por cadeira chega a R$ 10,3 mil, contra R$ 5,5 mil nas Copas da África do Sul e da Alemanha. Do valor total do investimento no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai financiar ao menos 55%. Na Alemanha, o Estado bancou 38%.
No caso específico do "Itaquerão", é a Odebrecht, por enquanto, que está arcando com os custos, porque o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ainda não liberou os US$ 400 milhões previstos para a obra. Como garantia para tomar o empréstimo, a Odebrecht ofereceu as receitas futuras com o estádio, mas o banco não aceitou e exigiu, em vez disso, que a construtora desse seus bens como garantia. A Odebrecht recusou, porque diz ser apenas a prestadora do serviço. O Corinthians, por sua vez, alega nada ter a ver com o assunto e não aceita ter a Odebrecht como sócia do estádio, como sugeriu o Banco do Brasil, que participa do negócio.
As conversas prosseguem. Mesmo sem colocar um tostão na construção, o Corinthians não abre mão de ser o único gestor do estádio, descartando-se a hipótese de a Odebrecht assumir a arena. Já a empreiteira sabe que, mais cedo ou mais tarde, e seja de quem for, receberá de volta o dinheiro que investiu.
Além disso, a Sociedade de Propósito Específico criada para ser a tomadora dos empréstimos terá participação em um Fundo de Investimento Imobiliário constituído para, em nome do "Itaquerão", receber Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CIDs), títulos emitidos pela Prefeitura de São Paulo como forma de incentivo à construção de melhorias na zona leste da capital.
O estádio do Corinthians foi enquadrado nessa categoria. Esses títulos darão aos investidores até 50% de desconto no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e no Imposto sobre Transmissão de Bens Imobiliários (ITBI) depois que a obra estiver terminada. Até lá, os CIDs podem ser vendidos livremente. De um modo geral, a Prefeitura calcula que essa compensação" fiscal cubra até 60% das obras. No caso do estádio do Corinthians, o valor total desses títulos foi fixado em nada menos que R$ 420 milhões.
Diante de tamanha generosidade pública, mesmo com eventuais dificuldades para financiar a obra do "Itaquerão" e de outros estádios, não é fora de propósito esperar que haja mais transparência no que diz respeito aos custos, pois não se pode esperar simplesmente que se aceite como jogo jogado o desperdício de dinheiro público.
Não haveria nenhum problema se essa extravagância fosse bancada apenas pela iniciativa privada. Mas, embora o contrato tenha sido firmado entre entidades particulares, isto é, Corinthians e Odebrecht, sabe-se que a conta será parcialmente paga pelo contribuinte, na forma de generosas isenções fiscais e de crédito de bancos oficiais com juros de pai para filho. Logo, é lícito questionar por que razão o estádio corintiano será tão caro.
É improvável que a explicação para o custo seja simplesmente a qualidade da obra. O Allianz Arena, estádio de Munique erguido para a Copa de 2006 e um dos mais modernos do mundo, saiu por R$ 13,9 mil cada lugar. Mesmo na África do Sul, onde os custos superaram em muitas vezes o previsto, cada cadeira do Soccer City, em Johannesburgo, saiu por R$ 8,9 mil. O custo do estádio corintiano é mais alto, proporcionalmente, mesmo na comparação com o monumental estádio olímpico Ninho de Pássaro, em Pequim, que saiu por R$ 10,9 mil o assento.
O padrão do "Itaquerão" se repete nos demais estádios para a Copa. Inicialmente, o governo calculava que o custo total com essas arenas chegaria a R$ 2,3 bilhões. Hoje, estima-se que os 12 estádios irão consumir R$ 7,03 bilhões. Isso significa que o preço por cadeira chega a R$ 10,3 mil, contra R$ 5,5 mil nas Copas da África do Sul e da Alemanha. Do valor total do investimento no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai financiar ao menos 55%. Na Alemanha, o Estado bancou 38%.
No caso específico do "Itaquerão", é a Odebrecht, por enquanto, que está arcando com os custos, porque o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ainda não liberou os US$ 400 milhões previstos para a obra. Como garantia para tomar o empréstimo, a Odebrecht ofereceu as receitas futuras com o estádio, mas o banco não aceitou e exigiu, em vez disso, que a construtora desse seus bens como garantia. A Odebrecht recusou, porque diz ser apenas a prestadora do serviço. O Corinthians, por sua vez, alega nada ter a ver com o assunto e não aceita ter a Odebrecht como sócia do estádio, como sugeriu o Banco do Brasil, que participa do negócio.
As conversas prosseguem. Mesmo sem colocar um tostão na construção, o Corinthians não abre mão de ser o único gestor do estádio, descartando-se a hipótese de a Odebrecht assumir a arena. Já a empreiteira sabe que, mais cedo ou mais tarde, e seja de quem for, receberá de volta o dinheiro que investiu.
Além disso, a Sociedade de Propósito Específico criada para ser a tomadora dos empréstimos terá participação em um Fundo de Investimento Imobiliário constituído para, em nome do "Itaquerão", receber Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CIDs), títulos emitidos pela Prefeitura de São Paulo como forma de incentivo à construção de melhorias na zona leste da capital.
O estádio do Corinthians foi enquadrado nessa categoria. Esses títulos darão aos investidores até 50% de desconto no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e no Imposto sobre Transmissão de Bens Imobiliários (ITBI) depois que a obra estiver terminada. Até lá, os CIDs podem ser vendidos livremente. De um modo geral, a Prefeitura calcula que essa compensação" fiscal cubra até 60% das obras. No caso do estádio do Corinthians, o valor total desses títulos foi fixado em nada menos que R$ 420 milhões.
Diante de tamanha generosidade pública, mesmo com eventuais dificuldades para financiar a obra do "Itaquerão" e de outros estádios, não é fora de propósito esperar que haja mais transparência no que diz respeito aos custos, pois não se pode esperar simplesmente que se aceite como jogo jogado o desperdício de dinheiro público.
O êxito que satisfaz - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 03/03
Boas referências, pessoas, atos ou ideias nas quais a sociedade reconhece valores caros não necessariamente têm de se transformar em candidaturas à Presidência da República.
Compreende-se o “disse me disse”, o entusiasmo, quando não a firme crença, em alguns setores e ocasiões , na hipótese de que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, venha – ou pelo menos almeje – a disputar o posto de chefe da nação.
Em boa parte dos países, se não na maioria, o presidente é a figura máxima. Se por aqui boa parte da população, se não a maioria, achou o máximo a atuação de Barbosa como relator do processo do mensalão, natural que faça uma conexão entre uma coisa e outra. Em especial diante da carência de exemplos reconhecidos como merecedores de respeito.
Ao estruturar uma narrativa inescapável da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, o relator do processo levou o país à compreensão do que foi o esquema de desvios, fraudes e escambo de vantagens indevidas em troca de apoio político devido.
Foi acompanhado pelo tribunal na quase totalidade dos votos. O colegiado, com sua decisão, elevou o grau de confiabilidade do Judiciário, mas nem por isso se lançaram os nomes de outros ministros no fogaréu de vaidades do ambiente das disputas eleitorais no molde em que se dão.
Muito bem, Joaquim Barbosa virou um símbolo. Para alguns, parcial, arbitrário e, como se diz agora, midiático. Para muitos, um emblema de justiça e de intolerância com a ilegalidade para a qual defende tratamento igualitário entre poderosos e não poderosos.
Mas, daí a dizer que tal atributo seja um trampolim para a Presidência da República são outros 500 quilômetros a serem percorridos. O presidente do STF tem a favor de si o crédito junto a substancial parcela de população.
Em compensação, para sermos realistas, tem contra si diversos fatores. A começar pela suposição de que o que o move é a ambição política. Isso diminui a figura do juiz, não deixa de ser uma maneira, ainda que involuntária, de reduzir suas atitudes e opiniões a uma mera ânsia por notoriedade com aquele poder conferido pelo Diário Oficial.
Além disso, Joaquim Barbosa não é do ramo. Há quem aponte nisso uma vantagem. Mas, sem comparações de forma e conteúdo, de exemplos de que o repúdio à atividade política por si só não credencia alguém a exercê-la de modo a fazer de fato a diferença, a História está cheia.
Temos ainda o temperamento do presidente do Supremo a contar como desvantagem numa atividade em que a vocação para a diplomacia é essencial. Ao menos quando se pretende exercê-la na regra do jogo sem a ajuda do vale-tudo.
O ministro não tem um partido e, a não ser que pretenda criar um ou alojar-se em algum apenas para ter uma legenda sem maior presença no cenário político (o que poderia causar péssima impressão), não se vislumbram espaços disponíveis. A fila nos partidos obedece a uma lógica e nenhum deles parece disposto por enquanto a subvertê-la.
Isso tudo sem falar na possibilidade de uma empreitada malsucedida, que tiraria Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal e o levaria a lugar nenhum.
Por que o ministro não pode servir ao país exatamente onde está, exercendo o papel a que vem se propondo? Figuras respeitadas não necessariamente precisam chegar à Presidência para, com seu êxito, satisfazerem demandas por condutas tidas como exemplares
São Tomé
Antes de se acreditar na ameaça do PMDB de não apoiar a reeleição de Dilma Rousseff caso o PT não retire a candidatura própria ao governo do Rio, é preciso ver para crer se o partido trocará a vice-presidência e ministérios por um palanque regional.
Em 2014, se Dilma estiver com dianteira segura isso só ocorrerá no dia de São Nunca.
Boas referências, pessoas, atos ou ideias nas quais a sociedade reconhece valores caros não necessariamente têm de se transformar em candidaturas à Presidência da República.
Compreende-se o “disse me disse”, o entusiasmo, quando não a firme crença, em alguns setores e ocasiões , na hipótese de que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, venha – ou pelo menos almeje – a disputar o posto de chefe da nação.
Em boa parte dos países, se não na maioria, o presidente é a figura máxima. Se por aqui boa parte da população, se não a maioria, achou o máximo a atuação de Barbosa como relator do processo do mensalão, natural que faça uma conexão entre uma coisa e outra. Em especial diante da carência de exemplos reconhecidos como merecedores de respeito.
Ao estruturar uma narrativa inescapável da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, o relator do processo levou o país à compreensão do que foi o esquema de desvios, fraudes e escambo de vantagens indevidas em troca de apoio político devido.
Foi acompanhado pelo tribunal na quase totalidade dos votos. O colegiado, com sua decisão, elevou o grau de confiabilidade do Judiciário, mas nem por isso se lançaram os nomes de outros ministros no fogaréu de vaidades do ambiente das disputas eleitorais no molde em que se dão.
Muito bem, Joaquim Barbosa virou um símbolo. Para alguns, parcial, arbitrário e, como se diz agora, midiático. Para muitos, um emblema de justiça e de intolerância com a ilegalidade para a qual defende tratamento igualitário entre poderosos e não poderosos.
Mas, daí a dizer que tal atributo seja um trampolim para a Presidência da República são outros 500 quilômetros a serem percorridos. O presidente do STF tem a favor de si o crédito junto a substancial parcela de população.
Em compensação, para sermos realistas, tem contra si diversos fatores. A começar pela suposição de que o que o move é a ambição política. Isso diminui a figura do juiz, não deixa de ser uma maneira, ainda que involuntária, de reduzir suas atitudes e opiniões a uma mera ânsia por notoriedade com aquele poder conferido pelo Diário Oficial.
Além disso, Joaquim Barbosa não é do ramo. Há quem aponte nisso uma vantagem. Mas, sem comparações de forma e conteúdo, de exemplos de que o repúdio à atividade política por si só não credencia alguém a exercê-la de modo a fazer de fato a diferença, a História está cheia.
Temos ainda o temperamento do presidente do Supremo a contar como desvantagem numa atividade em que a vocação para a diplomacia é essencial. Ao menos quando se pretende exercê-la na regra do jogo sem a ajuda do vale-tudo.
O ministro não tem um partido e, a não ser que pretenda criar um ou alojar-se em algum apenas para ter uma legenda sem maior presença no cenário político (o que poderia causar péssima impressão), não se vislumbram espaços disponíveis. A fila nos partidos obedece a uma lógica e nenhum deles parece disposto por enquanto a subvertê-la.
Isso tudo sem falar na possibilidade de uma empreitada malsucedida, que tiraria Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal e o levaria a lugar nenhum.
Por que o ministro não pode servir ao país exatamente onde está, exercendo o papel a que vem se propondo? Figuras respeitadas não necessariamente precisam chegar à Presidência para, com seu êxito, satisfazerem demandas por condutas tidas como exemplares
São Tomé
Antes de se acreditar na ameaça do PMDB de não apoiar a reeleição de Dilma Rousseff caso o PT não retire a candidatura própria ao governo do Rio, é preciso ver para crer se o partido trocará a vice-presidência e ministérios por um palanque regional.
Em 2014, se Dilma estiver com dianteira segura isso só ocorrerá no dia de São Nunca.
Coincidência ou teto? - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 03/03
BRASÍLIA - Lula, em 2002 e 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no primeiro turno o mesmo índice de votação: em torno de 43% dos votos totais, contando nulos e brancos. O que variou foi o percentual dos adversários tucanos. Serra teve 21% em 2002 e 30% em 2010. Alckmin atingiu 37% em 2006, no rastro do mensalão.
A lembrança, que assanhou oposicionistas na semana passada, foi lançada pelo "ex-blog" do ex-prefeito, ex-governador e bom analista de pesquisas Cesar Maia, do DEM, junto com uma provocação: "Coincidentemente, nas três eleições de Lula, Lula e Dilma obtiveram no primeiro turno 43% dos votos totais. Coincidência? Ou teto para 2014?".
Se for teto, isso sugere que o resultado deverá, ou poderá, se repetir no ano que vem. Há, porém, dois fatores a serem considerados, até porque, em política e em eleições, tudo pode, menos certezas de véspera.
Um dos fatores é que Lula foi "o cara" em 2002, 2006 e 2010, como candidato ou como carregador de Dilma. Na próxima eleição, ele continuará protagonista, mas já não estará sozinho. Aos 43% que ele teve e que carregou para sua candidata, acrescente-se o que a própria Dilma amealhou por méritos próprios ou mesmo pela força do cargo. Em 2014, poderá haver uma soma: Lula mais Dilma.
O outro fator é a economia. Nas festas de 33 anos do PT, 10 no Planalto, os aplausos vão para o governo Lula, como se ninguém se lembrasse do governo Dilma ou não quisesse azedar o bolo com o "pibinho" de menos de 1% de 2012, a inflação dando as caras, o fiasco da Petrobras, a maquiagem de dados... Não é o que se projeta, mas, em tese, pode haver uma diminuição: Lula menos Dilma.
E os demais candidatos são determinantes. Nas contas de Maia, Heloísa Helena só teve 6% dos votos totais em 2006, mas os evangélicos fizeram a diferença nas outras eleições. Garotinho chegou a 16% em 2002, e Marina, a 18% em 2010. Lula e Dilma venceram no final. Mas tiveram de enfrentar a pedreira do segundo turno.
BRASÍLIA - Lula, em 2002 e 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no primeiro turno o mesmo índice de votação: em torno de 43% dos votos totais, contando nulos e brancos. O que variou foi o percentual dos adversários tucanos. Serra teve 21% em 2002 e 30% em 2010. Alckmin atingiu 37% em 2006, no rastro do mensalão.
A lembrança, que assanhou oposicionistas na semana passada, foi lançada pelo "ex-blog" do ex-prefeito, ex-governador e bom analista de pesquisas Cesar Maia, do DEM, junto com uma provocação: "Coincidentemente, nas três eleições de Lula, Lula e Dilma obtiveram no primeiro turno 43% dos votos totais. Coincidência? Ou teto para 2014?".
Se for teto, isso sugere que o resultado deverá, ou poderá, se repetir no ano que vem. Há, porém, dois fatores a serem considerados, até porque, em política e em eleições, tudo pode, menos certezas de véspera.
Um dos fatores é que Lula foi "o cara" em 2002, 2006 e 2010, como candidato ou como carregador de Dilma. Na próxima eleição, ele continuará protagonista, mas já não estará sozinho. Aos 43% que ele teve e que carregou para sua candidata, acrescente-se o que a própria Dilma amealhou por méritos próprios ou mesmo pela força do cargo. Em 2014, poderá haver uma soma: Lula mais Dilma.
O outro fator é a economia. Nas festas de 33 anos do PT, 10 no Planalto, os aplausos vão para o governo Lula, como se ninguém se lembrasse do governo Dilma ou não quisesse azedar o bolo com o "pibinho" de menos de 1% de 2012, a inflação dando as caras, o fiasco da Petrobras, a maquiagem de dados... Não é o que se projeta, mas, em tese, pode haver uma diminuição: Lula menos Dilma.
E os demais candidatos são determinantes. Nas contas de Maia, Heloísa Helena só teve 6% dos votos totais em 2006, mas os evangélicos fizeram a diferença nas outras eleições. Garotinho chegou a 16% em 2002, e Marina, a 18% em 2010. Lula e Dilma venceram no final. Mas tiveram de enfrentar a pedreira do segundo turno.
Banco do Tesouro - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 03/03
Para emprestar mais, um banco tem duas saídas não excludentes. Pode elevar a proporção entre o crédito que oferece, de um lado, e seu capital próprio, do outro. Pode, ainda, receber mais capital de acionistas e repassá-lo aos clientes sob a forma de empréstimos.
A segunda hipótese, a chamada "capitalização", tem sido muito usada pelo governo federal desde a eclosão da crise global, em 2009. Injeta-se dinheiro do contribuinte nos bancos estatais, que, por sua vez, passam a emprestar mais.
Até 2010, esse expediente foi importante para atenuar os efeitos da tormenta mundial no Brasil. Depois disso, têm-se avolumado os indícios de seu esgotamento.
O BNDES, que nesse período recebeu do Tesouro Nacional mais de R$ 250 bilhões para impulsionar seus empréstimos, oferece um exemplo extraordinário desse esgotamento. Mesmo estufado de recursos federais, o lucro do banco caiu quase 10%, para R$ 8,1 bilhões, de 2011 para 2012.
Hoje, sai do Tesouro mais da metade dos recursos emprestados pelo banco de fomento, cuja missão é oferecer crédito de longo prazo para o setor produtivo. O governo federal, com dinheiro dos impostos pagos por todos os brasileiros, dobrou o tamanho do BNDES.
Ainda assim, o lucro caiu. Teria caído mais se as perdas com ações da Eletrobras em poder do BNDES fossem registradas como prejuízo.
Os aspectos questionáveis da política de inchaço do crédito oficial, nesse caso, vão além da discussão sobre o lucro. As escolhas do BNDES, de privilegiar a constituição -sempre arbitrária- de grandes conglomerados empresariais, não impediram a derrocada do investimento produtivo na economia nos últimos dois anos.
O país, além disso, vai perdendo eficiência e capacidade de competir. Ou seja, o investimento diminui em relação ao tamanho da economia, tendência que não é compensada por um rendimento melhor do capital e da força de trabalho empregados na produção.
Esses dados deveriam incentivar uma profunda revisão do papel do BNDES na economia brasileira, além de uma reflexão sobre qual seria a melhor aplicação dos recursos do Tesouro. Em vez disso, planeja-se em Brasília uma nova capitalização do banco estatal.
Quem sabe seja propício rebatizar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Banco do Tesouro seria um nome mais fiel à nova realidade.
Para emprestar mais, um banco tem duas saídas não excludentes. Pode elevar a proporção entre o crédito que oferece, de um lado, e seu capital próprio, do outro. Pode, ainda, receber mais capital de acionistas e repassá-lo aos clientes sob a forma de empréstimos.
A segunda hipótese, a chamada "capitalização", tem sido muito usada pelo governo federal desde a eclosão da crise global, em 2009. Injeta-se dinheiro do contribuinte nos bancos estatais, que, por sua vez, passam a emprestar mais.
Até 2010, esse expediente foi importante para atenuar os efeitos da tormenta mundial no Brasil. Depois disso, têm-se avolumado os indícios de seu esgotamento.
O BNDES, que nesse período recebeu do Tesouro Nacional mais de R$ 250 bilhões para impulsionar seus empréstimos, oferece um exemplo extraordinário desse esgotamento. Mesmo estufado de recursos federais, o lucro do banco caiu quase 10%, para R$ 8,1 bilhões, de 2011 para 2012.
Hoje, sai do Tesouro mais da metade dos recursos emprestados pelo banco de fomento, cuja missão é oferecer crédito de longo prazo para o setor produtivo. O governo federal, com dinheiro dos impostos pagos por todos os brasileiros, dobrou o tamanho do BNDES.
Ainda assim, o lucro caiu. Teria caído mais se as perdas com ações da Eletrobras em poder do BNDES fossem registradas como prejuízo.
Os aspectos questionáveis da política de inchaço do crédito oficial, nesse caso, vão além da discussão sobre o lucro. As escolhas do BNDES, de privilegiar a constituição -sempre arbitrária- de grandes conglomerados empresariais, não impediram a derrocada do investimento produtivo na economia nos últimos dois anos.
O país, além disso, vai perdendo eficiência e capacidade de competir. Ou seja, o investimento diminui em relação ao tamanho da economia, tendência que não é compensada por um rendimento melhor do capital e da força de trabalho empregados na produção.
Esses dados deveriam incentivar uma profunda revisão do papel do BNDES na economia brasileira, além de uma reflexão sobre qual seria a melhor aplicação dos recursos do Tesouro. Em vez disso, planeja-se em Brasília uma nova capitalização do banco estatal.
Quem sabe seja propício rebatizar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Banco do Tesouro seria um nome mais fiel à nova realidade.
Insegurança no setor de petróleo - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 03/03
Além de o ambiente de negócios não favorecer o Brasil, o México prepara-se para reformar a sua estatal e fazer licitações com reservas equivalentes às do Kuwait
Enquanto missão do governo brasileiro apresenta projetos de investimentos em infraestrutura e energia no eixo Nova York-Londres, o Supremo Tribunal devolve ao Congresso a decisão sobre o veto da presidente Dilma à lei que expropria royalties já contratados de estados produtores de petróleo. Não são fatos desconexos.
Com a quase certa derrubada do veto nos próximos dias, pela majoritária bancada dos estados não produtores, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os mais prejudicados, recorrerão ao STF para uma desgastante batalha jurídica sobre a constitucionalidade desta quebra de contrato, por uma lei que retroage em seus efeitos. Não há mesmo alternativa a não ser ir à Justiça.
A relação entre os “road-shows” para atrair investidores externos e a novela dos royalties é a questão da insegurança jurídica que tem acompanhado o Brasil nos últimos meses. No encontro de Nova York patrocinado pela comitiva brasileira, pelo menos um representante de empresa levantou este ponto com relação ao setor de energia elétrica, em que o Planalto interveio com mão pesada e impôs perdas patrimoniais para viabilizar um desejado corte na conta de luz, mas num percentual convertido em peça político-partidária.
Autoridades garantem não existir qualquer reflexo negativo da luta jurídica em torno dos royalties sobre as rodadas de licitação de áreas para exploração de petróleo, a serem retomadas em maio. Faz sentido, pois para o licitante não importa o destino de impostos e royalties cobrados sobre a produção futura de óleo e gás que ele vier a descobrir.
Mas o clima geral não é animador para o investidor externo. A Petrobras ficou muito tempo fora do mercado de licitações, novos negócios promissores apareceram no mundo, entre eles a quase certa abertura da Pemex, a estatal mexicana, para consórcios com grupos privados. O novo presidente mexicano, Peña Nieto, pretende, segundo o jornal “Financial Times”, aprovar em meados do ano a reforma da empresa, para torná-la flexível como a Petrobras, sem desestatizá-la. A Shell e a Exxon esperam apenas a aprovação das mudanças para investir no país. Há um grande atrativo: reservas de 115 bilhões de barris, equivalentes às do Kuwait. Para comparar: com o pré-sal, estima a Coppe-UFRJ, o Brasil pode chegar a pouco mais de 70 bilhões, em mais seis anos.
E o México ainda tem a vantagem de uma inflação mais baixa (3,2% em 2012), maior crescimento (3,9%) e um ambiente para os negócios que parece ser mais amigável aos investidores.
Neste quadro, a luta judicial em torno dos royalties representa um ruído adicional a ser analisado pelos investidores do ponto de vista do risco. Além dos problemas financeiros graves da Petrobras, a ponto de ela provavelmente não ter condições, como imaginaram estrategistas de Brasília, de ser monopolista na operação no pré-sal e dona cativa de 30% de todo consórcio nesta área. Mais uma complicação para futuras licitações.
Além de o ambiente de negócios não favorecer o Brasil, o México prepara-se para reformar a sua estatal e fazer licitações com reservas equivalentes às do Kuwait
Enquanto missão do governo brasileiro apresenta projetos de investimentos em infraestrutura e energia no eixo Nova York-Londres, o Supremo Tribunal devolve ao Congresso a decisão sobre o veto da presidente Dilma à lei que expropria royalties já contratados de estados produtores de petróleo. Não são fatos desconexos.
Com a quase certa derrubada do veto nos próximos dias, pela majoritária bancada dos estados não produtores, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os mais prejudicados, recorrerão ao STF para uma desgastante batalha jurídica sobre a constitucionalidade desta quebra de contrato, por uma lei que retroage em seus efeitos. Não há mesmo alternativa a não ser ir à Justiça.
A relação entre os “road-shows” para atrair investidores externos e a novela dos royalties é a questão da insegurança jurídica que tem acompanhado o Brasil nos últimos meses. No encontro de Nova York patrocinado pela comitiva brasileira, pelo menos um representante de empresa levantou este ponto com relação ao setor de energia elétrica, em que o Planalto interveio com mão pesada e impôs perdas patrimoniais para viabilizar um desejado corte na conta de luz, mas num percentual convertido em peça político-partidária.
Autoridades garantem não existir qualquer reflexo negativo da luta jurídica em torno dos royalties sobre as rodadas de licitação de áreas para exploração de petróleo, a serem retomadas em maio. Faz sentido, pois para o licitante não importa o destino de impostos e royalties cobrados sobre a produção futura de óleo e gás que ele vier a descobrir.
Mas o clima geral não é animador para o investidor externo. A Petrobras ficou muito tempo fora do mercado de licitações, novos negócios promissores apareceram no mundo, entre eles a quase certa abertura da Pemex, a estatal mexicana, para consórcios com grupos privados. O novo presidente mexicano, Peña Nieto, pretende, segundo o jornal “Financial Times”, aprovar em meados do ano a reforma da empresa, para torná-la flexível como a Petrobras, sem desestatizá-la. A Shell e a Exxon esperam apenas a aprovação das mudanças para investir no país. Há um grande atrativo: reservas de 115 bilhões de barris, equivalentes às do Kuwait. Para comparar: com o pré-sal, estima a Coppe-UFRJ, o Brasil pode chegar a pouco mais de 70 bilhões, em mais seis anos.
E o México ainda tem a vantagem de uma inflação mais baixa (3,2% em 2012), maior crescimento (3,9%) e um ambiente para os negócios que parece ser mais amigável aos investidores.
Neste quadro, a luta judicial em torno dos royalties representa um ruído adicional a ser analisado pelos investidores do ponto de vista do risco. Além dos problemas financeiros graves da Petrobras, a ponto de ela provavelmente não ter condições, como imaginaram estrategistas de Brasília, de ser monopolista na operação no pré-sal e dona cativa de 30% de todo consórcio nesta área. Mais uma complicação para futuras licitações.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“No final, entre mortos e feridos, todos serão salvos”
Ex-presidente Lula, garantindo negociação com Eduardo Campos (PSB) em 2014
CLÉSIO É COTADO PARA TRANSPORTES PELO PMDB-MG
Presidente da Confederação Nacional do Transporte, o senador Clésio de Andrade tem sido cotado como uma terceira alternativa ao Ministério dos Transportes caso a presidente Dilma ofereça a pasta ao PMDB de Minas. Também estão no páreo os deputados Antônio Andrade e Leonardo Quintão, que abriu mão de disputar a prefeito de Belo Horizonte, a pedido do Planalto, para apoiar o petista Patrus Ananias.
PODE AGRADAR
Aliados de Clésio de Andrade alegam que ele teria o “perfil técnico” que a presidente Dilma faz tanta questão, na área dos transportes.
CRISTÃO-NOVO
Pesa contra o senador Clésio o fato de ser recém-chegado no partido. Ele deixou o PR pelo PMDB em março do ano passado.
INTERLOCUTOR
O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) foi incumbido pelo Planalto de tocar as negociações entre governo e o PMDB mineiro.
QUASE LÁ
O PMDB já dá como certa a cadeira nos Transportes, mas a vaga não está garantida. O PR luta com unhas e dentes para reaver a pasta.
PT DEVE ‘HONRA AO MÉRITO’ A EX-SECRETÁRIO DE DROGA
O PT deve homenagear o militante Pedro Abramovay, ex-secretário Antidrogas demitido por Dilma pela defesa da descriminalização do “pequeno traficante”. Ele é responsável por um site de abaixo-assinado, espécie de pelotão de fuzilamento virtual, que mirou no presidente do Senado, Renan Calheiros, e fez o país esquecer meliantes mensaleiros condenados até a prisão, e que ainda exercem mandatos de deputado.
NEGOCIAÇÕES
A presidente Dilma combinou com o PMDB de discutir sobre a disputa ao governo do Rio. O petista Lindbergh Farias ameaça sair candidato.
MUY AMIGOS
Durante jantar do PMDB, Dilma cochichou no ouvido de Luiz Fernando Pezão, pré-candidato do PMDB ao governo do Rio. Ele abriu sorrisão.
O CÉU
Se pudesse ser papa, Lula estaria no céu: poderia viajar o mundo no Aero Papa, usar o Papa Móvel e tomar vinho do Vaticano o dia inteiro.
SUBIU NO TELHADO
A provável nomeação de Gabriel Chalita para o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia foi anunciada aqui em primeira mão, assim como o risco de vir a ser “queimado” pelo ministro Aloizio Mercadante (Educação). De fato, o emprego de Chalita subiu (e ficou) no telhado.
DISPUTA INTERNA
Membro da tendência Mensagem ao Partido, o ministro Eduardo Cardozo (Justiça) defende a candidatura de Paulo Teixeira (SP) a presidente do PT contra Rui Falcão, que integra a facção majoritária.
MONITORAMENTO
O Ministério do Turismo criou um sistema que permite acompanhar Contratos de Repasse para Estados e municípios brasileiros. Mais de 7 mil projetos poderão ser monitorados.
TRATAMENTO
Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Homero Pereira (PSD-MT) se licenciou por 30 dias para iniciar quimioterapia contra câncer de estômago. Assume o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS).
DIVERSIFICAÇÃO
Dono da agência de marketing político Lua Branca, que fez as últimas campanhas de tucanos como José Serra e Alckmin, Luiz Gonzáles resolveu entrar no ramo de assessorias de comunicação.
IRREGULARIDADES
O número de ocupações irregulares no DF mais que dobrou em 2012. Levantamento da Secretaria da Ordem Pública mostra que ano passado houve mais remoções que nos últimos cinco anos.
SENTENÇA SE CUMPRE
Se o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), quer respeitar a Justiça, como declarou, deve cumprir a decisão da Suprema Corte nas condenações do mensalão, afirma o jurista Erick Wilson Pereira.
GRANDE MÃE
Dilma viveu momento ex-URSS, anunciando “safra recorde” de grãos, mas não explicou como armazenar, escoar e quanto importará de pesticidas e insumos. Se tivesse anunciado safra recorde de aviões...
PENSANDO BEM...
... está na hora de alguém escrever o livro: 2005, o ano que não existiu para o PT.
PODER SEM PUDOR
ADESÃO COINCIDENTE
Nem no governo do PT, o DEM (ex-PFL) suporta a ideia de ficar na oposição. Em uma reunião da executiva do partido em 2002, o então prefeito do Rio, César Maia, fez um discurso imaginando maneiras de aderir ao novo governo. "Se o PT aderir às ideias pefelistas, nós poderemos aderir ao governo Lula", disse. Na terceira vez que o prefeito maluquinho usou a palavra "aderir", ACM corrigiu:
- Não diga aderir, diga coincidir.
A gargalhada foi geral.
Ex-presidente Lula, garantindo negociação com Eduardo Campos (PSB) em 2014
CLÉSIO É COTADO PARA TRANSPORTES PELO PMDB-MG
Presidente da Confederação Nacional do Transporte, o senador Clésio de Andrade tem sido cotado como uma terceira alternativa ao Ministério dos Transportes caso a presidente Dilma ofereça a pasta ao PMDB de Minas. Também estão no páreo os deputados Antônio Andrade e Leonardo Quintão, que abriu mão de disputar a prefeito de Belo Horizonte, a pedido do Planalto, para apoiar o petista Patrus Ananias.
PODE AGRADAR
Aliados de Clésio de Andrade alegam que ele teria o “perfil técnico” que a presidente Dilma faz tanta questão, na área dos transportes.
CRISTÃO-NOVO
Pesa contra o senador Clésio o fato de ser recém-chegado no partido. Ele deixou o PR pelo PMDB em março do ano passado.
INTERLOCUTOR
O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) foi incumbido pelo Planalto de tocar as negociações entre governo e o PMDB mineiro.
QUASE LÁ
O PMDB já dá como certa a cadeira nos Transportes, mas a vaga não está garantida. O PR luta com unhas e dentes para reaver a pasta.
PT DEVE ‘HONRA AO MÉRITO’ A EX-SECRETÁRIO DE DROGA
O PT deve homenagear o militante Pedro Abramovay, ex-secretário Antidrogas demitido por Dilma pela defesa da descriminalização do “pequeno traficante”. Ele é responsável por um site de abaixo-assinado, espécie de pelotão de fuzilamento virtual, que mirou no presidente do Senado, Renan Calheiros, e fez o país esquecer meliantes mensaleiros condenados até a prisão, e que ainda exercem mandatos de deputado.
NEGOCIAÇÕES
A presidente Dilma combinou com o PMDB de discutir sobre a disputa ao governo do Rio. O petista Lindbergh Farias ameaça sair candidato.
MUY AMIGOS
Durante jantar do PMDB, Dilma cochichou no ouvido de Luiz Fernando Pezão, pré-candidato do PMDB ao governo do Rio. Ele abriu sorrisão.
O CÉU
Se pudesse ser papa, Lula estaria no céu: poderia viajar o mundo no Aero Papa, usar o Papa Móvel e tomar vinho do Vaticano o dia inteiro.
SUBIU NO TELHADO
A provável nomeação de Gabriel Chalita para o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia foi anunciada aqui em primeira mão, assim como o risco de vir a ser “queimado” pelo ministro Aloizio Mercadante (Educação). De fato, o emprego de Chalita subiu (e ficou) no telhado.
DISPUTA INTERNA
Membro da tendência Mensagem ao Partido, o ministro Eduardo Cardozo (Justiça) defende a candidatura de Paulo Teixeira (SP) a presidente do PT contra Rui Falcão, que integra a facção majoritária.
MONITORAMENTO
O Ministério do Turismo criou um sistema que permite acompanhar Contratos de Repasse para Estados e municípios brasileiros. Mais de 7 mil projetos poderão ser monitorados.
TRATAMENTO
Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Homero Pereira (PSD-MT) se licenciou por 30 dias para iniciar quimioterapia contra câncer de estômago. Assume o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS).
DIVERSIFICAÇÃO
Dono da agência de marketing político Lua Branca, que fez as últimas campanhas de tucanos como José Serra e Alckmin, Luiz Gonzáles resolveu entrar no ramo de assessorias de comunicação.
IRREGULARIDADES
O número de ocupações irregulares no DF mais que dobrou em 2012. Levantamento da Secretaria da Ordem Pública mostra que ano passado houve mais remoções que nos últimos cinco anos.
SENTENÇA SE CUMPRE
Se o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), quer respeitar a Justiça, como declarou, deve cumprir a decisão da Suprema Corte nas condenações do mensalão, afirma o jurista Erick Wilson Pereira.
GRANDE MÃE
Dilma viveu momento ex-URSS, anunciando “safra recorde” de grãos, mas não explicou como armazenar, escoar e quanto importará de pesticidas e insumos. Se tivesse anunciado safra recorde de aviões...
PENSANDO BEM...
... está na hora de alguém escrever o livro: 2005, o ano que não existiu para o PT.
PODER SEM PUDOR
ADESÃO COINCIDENTE
Nem no governo do PT, o DEM (ex-PFL) suporta a ideia de ficar na oposição. Em uma reunião da executiva do partido em 2002, o então prefeito do Rio, César Maia, fez um discurso imaginando maneiras de aderir ao novo governo. "Se o PT aderir às ideias pefelistas, nós poderemos aderir ao governo Lula", disse. Na terceira vez que o prefeito maluquinho usou a palavra "aderir", ACM corrigiu:
- Não diga aderir, diga coincidir.
A gargalhada foi geral.
Assinar:
Postagens (Atom)