O GLOBO - 27/02
O novo partido que se está formando, sob a liderança da ex-senadora Marina Silva, com o nome de REDE, tem recebido críticas à direita e à esquerda, principalmente porque a fundadora simplificou sua definição doutrinária, aproximando a REDE do novo PSD do ex-prefeito paulista Gilberto Kassab: "Não será um partido nem de direita nem de esquerda, nem do governo nem de oposição", disse Marina sobre a nova legenda que quer criar. A propósito, recebi do cientista político e antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública e ex-secretário de Segurança do Rio, que está envolvido na criação do novo partido de Marina, uma série de comentários sobre os objetivos da nova legenda, que, ele garante, nada tem a ver com "movimentos que pretendam mudar a política assumindo identidades e práticas antipolíticas", que costumam perder-se em um "voluntarismo estéril".
Soares entende que movimentos antipolíticos acabam por reforçar "a dinâmica que corrói a legitimidade das instituições democráticas, o esvaziamento da confiança popular, o esgarçamento do instituto da representação e, portanto, o agravamento da degradação institucional que se desejaria reverter". Ao contrário, a REDE dispõe-se a jogar o jogo democrático, parlamentar e eleitoral com absoluta fidelidade aos marcos legais, garante. "Distante das crenças doutrinárias e dogmáticas, distante dos messianismos sectários e insurrecionais, a REDE confia na via democrática para qualquer transformação da sociedade e quer ser leal ao pacto constitucional", analisa Luiz Eduardo Soares.
Se, eventualmente, a REDE obtiver vitórias eleitorais e alcançar o poder, ver-se-á obrigada a repetir o roteiro lamentável das negociatas entre o Executivo e o Legislativo? Não há espaço para negociações mais democráticas, transparentes, programaticamente concebidas, decentemente articuladas?, pergunta o cientista político, para em seguida afirmar enfaticamente: "Claro que há".
Para começar, "a postura não pode ser o desprezo pelo Congresso, cujo papel é indispensável para a democracia, por maiores que sejam suas deficiências". Para que a REDE tenha densidade suficiente para resistir "à força gravitacional da antipolítica, hoje vigente nas instituições políticas", ela precisa fazer, diz Soares, o que os partidos deixaram de fazer: constituir-se em conexão profunda e permanente com a pulsação criativa da sociedade, com a participação social, não para reduzir-se a sua extensão - o que negaria a autonomia relativa da política, que envolve múltiplas mediações -, mas para municiar-se de anticorpos à antipolítica.
"Por isso, a REDE pretende experimentar novas regras de funcionamento, antecipando-se a eventuais reformas institucionais e as suscitando. Daí a limitação das reeleições, as restrições no acesso a apoios financeiros, a determinação de que se divulguem as doações on-line em tempo real - e muitas outras novidades".
Essas novas normas, talvez excessivas em alguns casos, admite ele, "funcionarão como contraponto destinado a provocar reflexões, revisões e debate público. Elas ajudarão a mostrar que a política pode ser diferente e que há um campo de experimentação possível, perfeitamente legal, legítimo e responsável". As instituições não brotaram da natureza, lembra Luiz Eduardo Soares, foram inventadas pelo engenho humano.
"Talvez a REDE possa produzir uma dinâmica de mudanças significativas, não para arruinar a democracia ou a política democrática, mas para restituir-lhes vitalidade e fidelidade aos princípios que inspiraram sua origem". A REDE não foi criada para servir de trampolim a uma candidatura presidencial, garante Soares. "Mas me parece saudável que haja quem se disponha a arriscar-se a cometer erros novos. Bem-vindos os novos erros, pois os antigos são conhecidos e têm sido devastadores".
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
Comunicação confusa desorienta mercados - GUSTAVO LOYOLA
O ESTADÃO - 27/02
A comunicação do governo com os agentes de mercado não vai nada bem. Com crescente intensidade, autoridades da Fazenda e do Banco Central (BC), com os mercados abertos, são mencionadas em notas "em tempo real" como fontes - anônimas ou não - de comentários sobre inflação, juros e câmbio, afetando, assim, os preços dos ativos financeiros negociados no mercado financeiro. Fossem tais manifestações coerentes entre si, o dano seria menor. Mas, com preocupante frequência, há contradições flagrantes entre as declarações colhidas pela imprensa.
Esse tipo de situação acarreta diversos inconvenientes. Em primeiro lugar, aumenta desnecessariamente a volatilidade dos preços dos ativos financeiros, gerando ganhos e prejuízos que provavelmente se distribuirão desigualmente entre os participantes do mercado, beneficiando as posições de caráter mais especulativo. Basta acompanhar a reação dos mercados de câmbio e juros futuros a certas manifestações do governo para ter ideia da redistribuição de ganhos e perdas que decorre dos sinais percebidos sobre a execução futura das políticas monetária e cambial.
Um segundo inconveniente decorre da criação de ruídos desnecessários na comunicação entre governo e mercado, dificultando a coordenação de expectativas, fundamental na execução das políticas monetária e cambial. Como as declarações são frequentemente desencontradas e tomadas fora do contexto, os agentes de mercado acabam mais perdidos do que cachorro em caminhão de mudança. Especificamente no contexto do regime de metas para inflação, manifestações sobre política monetária feitas por autoridades outras que não os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) levantam a incômoda suspeita de que o BC teria perdido sua indispensável autonomia operacional.
Ademais, o desencontro muitas vezes percebido em tais manifestações pode ser tido como indicador de deterioração nas relações intragoverno, tudo parecendo que algumas autoridades teriam decidido usar a imprensa como canal para atingir companheiros de governo que não compartilham de suas opiniões ou refletindo uma pura e simples disputa por influência e poder. Obviamente, esse clima, se de fato existe, comprometeria a eficácia da política macroeconômica, podendo trazer consequências desastrosas em termos de estabilidade monetária e crescimento econômico. Como resultado, o mercado trabalha hoje com poucas certezas. Algumas perguntas relevantes seguem sem resposta. O regime cambial é mesmo de taxas flutuantes? Teria o BC autonomia suficiente para subir os juros, caso as pressões inflacionárias se agravem?
No caso do câmbio, poderíamos aqui citar declarações no mínimo risíveis, como a de que o câmbio seria flutuante, desde que não caísse abaixo de certo patamar. Até pouco tempo, o ministro da Fazenda sinalizava para um câmbio "confortável" acima do patamar dos R$ 2. Mas a taxa caiu e permanece abaixo desse patamar, ficando o dito pelo não dito. Para empresas que exportam, importam ou se endividam em moeda estrangeira, convenhamos, é uma confusão que pode custar muito dinheiro.
Quanto aos juros, a situação é ainda pior. Basta mencionar que os marqueteiros do Planalto, de modo muito pouco inteligente, decidiram tratar a queda (em grande parte conjuntural) dos juros como uma "conquista do PT", inclusive tendo incluído tal "feito" em manifestação da presidente Dilma na TV. Em decorrência, fica a questão irrespondida de como reagirão os políticos a uma eventual necessidade de subida das taxas pelo BC para controlar a inflação. Neste caso, alguém pode perder a face, e certamente não deverá ser a presidente.
Por tudo isso, é desejável que o governo unifique o discurso sobre os objetivos e meios da política econômica e se comunique com a sociedade da maneira mais transparente possível, evitando gerar volatilidade desnecessária nos mercados financeiros. Em particular, seria prudente que as manifestações sobre taxas de juros se mantivessem restritas aos membros do Copom.
A comunicação do governo com os agentes de mercado não vai nada bem. Com crescente intensidade, autoridades da Fazenda e do Banco Central (BC), com os mercados abertos, são mencionadas em notas "em tempo real" como fontes - anônimas ou não - de comentários sobre inflação, juros e câmbio, afetando, assim, os preços dos ativos financeiros negociados no mercado financeiro. Fossem tais manifestações coerentes entre si, o dano seria menor. Mas, com preocupante frequência, há contradições flagrantes entre as declarações colhidas pela imprensa.
Esse tipo de situação acarreta diversos inconvenientes. Em primeiro lugar, aumenta desnecessariamente a volatilidade dos preços dos ativos financeiros, gerando ganhos e prejuízos que provavelmente se distribuirão desigualmente entre os participantes do mercado, beneficiando as posições de caráter mais especulativo. Basta acompanhar a reação dos mercados de câmbio e juros futuros a certas manifestações do governo para ter ideia da redistribuição de ganhos e perdas que decorre dos sinais percebidos sobre a execução futura das políticas monetária e cambial.
Um segundo inconveniente decorre da criação de ruídos desnecessários na comunicação entre governo e mercado, dificultando a coordenação de expectativas, fundamental na execução das políticas monetária e cambial. Como as declarações são frequentemente desencontradas e tomadas fora do contexto, os agentes de mercado acabam mais perdidos do que cachorro em caminhão de mudança. Especificamente no contexto do regime de metas para inflação, manifestações sobre política monetária feitas por autoridades outras que não os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) levantam a incômoda suspeita de que o BC teria perdido sua indispensável autonomia operacional.
Ademais, o desencontro muitas vezes percebido em tais manifestações pode ser tido como indicador de deterioração nas relações intragoverno, tudo parecendo que algumas autoridades teriam decidido usar a imprensa como canal para atingir companheiros de governo que não compartilham de suas opiniões ou refletindo uma pura e simples disputa por influência e poder. Obviamente, esse clima, se de fato existe, comprometeria a eficácia da política macroeconômica, podendo trazer consequências desastrosas em termos de estabilidade monetária e crescimento econômico. Como resultado, o mercado trabalha hoje com poucas certezas. Algumas perguntas relevantes seguem sem resposta. O regime cambial é mesmo de taxas flutuantes? Teria o BC autonomia suficiente para subir os juros, caso as pressões inflacionárias se agravem?
No caso do câmbio, poderíamos aqui citar declarações no mínimo risíveis, como a de que o câmbio seria flutuante, desde que não caísse abaixo de certo patamar. Até pouco tempo, o ministro da Fazenda sinalizava para um câmbio "confortável" acima do patamar dos R$ 2. Mas a taxa caiu e permanece abaixo desse patamar, ficando o dito pelo não dito. Para empresas que exportam, importam ou se endividam em moeda estrangeira, convenhamos, é uma confusão que pode custar muito dinheiro.
Quanto aos juros, a situação é ainda pior. Basta mencionar que os marqueteiros do Planalto, de modo muito pouco inteligente, decidiram tratar a queda (em grande parte conjuntural) dos juros como uma "conquista do PT", inclusive tendo incluído tal "feito" em manifestação da presidente Dilma na TV. Em decorrência, fica a questão irrespondida de como reagirão os políticos a uma eventual necessidade de subida das taxas pelo BC para controlar a inflação. Neste caso, alguém pode perder a face, e certamente não deverá ser a presidente.
Por tudo isso, é desejável que o governo unifique o discurso sobre os objetivos e meios da política econômica e se comunique com a sociedade da maneira mais transparente possível, evitando gerar volatilidade desnecessária nos mercados financeiros. Em particular, seria prudente que as manifestações sobre taxas de juros se mantivessem restritas aos membros do Copom.
Lincoln, Lula e a "compra de votos" - CARLOS PEREIRA
VALOR ECONÔMICO - 27/02
Por que episódios semelhantes levam a resultados díspares?
Motivado pela última obra de Spielberg, voltamos a refletir sobre o episódio da aprovação da 13ª emenda à Constituição americana como um exemplo paradigmático de um líder político que foi capaz de aproveitar uma janela de oportunidade para mudar dramaticamente a história do seu país. Embora o Partido Republicano, do presidente Abraham Lincoln, desfrutasse da maioria de cadeiras nas duas Casas Legislativas, não reunia votos suficientes para aprovar no Senado a reforma que acabaria com a escravidão. O cenário politico era de Guerra Civil e, mesmo assim, Lincoln conseguiu unificar as mais variadas facções do Partido Republicano com o argumento de que o fim da escravidão seria condição necessária para que a guerra acabasse. Lincoln sabia que, com a rendição do sul, seria praticamente impossível manter seu partido unido em favor da aprovação da emenda.
Presumindo que todos os republicanos votariam a favor, ainda seria necessário convencer 20 senadores democratas que não haviam sido reeleitos. Esse foi o contexto em que Lincoln enxergou uma janela de oportunidade ao oferecer empregos públicos aos senadores democratas em troca de apoio. No jargão da ciência política, Lincoln fez uso de patronagem. O presidente cogitou comprar apoio com dinheiro vivo, mas tendo sido desencorajado por assessores, decidiu então enviar intermediários de sua confiança para negociar a adesão dos senadores em troca de empregos. Não tendo sido plenamente bem sucedido, Lincoln foi obrigado a "sujar" as próprias mãos, negociando diretamente o apoio de alguns senadores relutantes. Após a aprovação da emenda, Lincoln se reúne com a comissão de confederados do sul e negocia os termos de rendição, que levou ao fim da Guerra Civil e o fez entrar para a história.
No caso brasileiro, o presidente Lula percebeu, logo no início do seu primeiro mandato, que seria necessário encontrar formas de cortar custos e aumentar receitas. A opção foi reformar os sistemas tributário e previdenciário, agenda que criaria controvérsias inclusive no seu próprio partido. Dada a condição de minoria, o governo Lula optou por uma via rápida para a realização de sua agenda, "comprando" o apoio de partidos (não apenas de dentro, mas também de fora da coalizão).
Essas reformas só seriam aprovadas com os votos dos dois principais partidos de oposição. A reforma da Previdência, por exemplo, foi aprovada com 357 votos na Câmara dos Deputados em dois turnos. Porém, o governo recebeu apenas 213 votos dos membros de sua coalizão, um número muito menor do que os 308 necessários. O próprio PT enfrentou 4 defecções e 7 abstenções. O PSDB e PFL, além de compartilharem dessa agenda de reformas, foram fartamente recompensados com a execução de mais de 75% das emendas individuais ao Orçamento da União em 2003. Como a grande maioria de ministérios (60%) foi monopolizada pelo PT e os recursos de emendas ao Orçamento foram direcionados para os partidos de oposição, restou ao governo Lula montar um esquema paralelo e ilegal de compensação para os membros de sua própria coalizão, mantendo-os com isso unidos e disciplinados.
Os principais envolvidos no esquema, apelidado de mensalão, foram julgados culpados e exemplarmente condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, o procurador-geral da República acaba de encaminhar para a primeira instância do Ministério Público Federal de Minas Gerais o depoimento do principal articulador financeiro do mensalão, Marcos Valério, que acusa o ex-presidente Lula de ter recebido recursos do mesmo esquema. Se as investigações prosseguirem e mais evidências da participação do ex-presidente forem encontradas, Lula corre o risco de enfrentar ainda mais custos reputacionais e/ou judiciais, além de 'sair' da história pelo seu legado de envolvimento em corrupção.
Por que episódios de compra de votos, aparentemente semelhantes, podem apresentar resultados tão díspares para o legado de seus governantes?
Uma possível resposta atribui as ações desviantes a uma eventual nobreza dos fins perseguidos. Ou seja, enquanto Lincoln foi capaz de acabar com a escravidão e colocar um ponto final na Guerra Civil, trocando apoio político por cargos públicos, o governo Lula conseguiu basicamente aprovar poucas reformas e governabilidade junto ao Legislativo fazendo uso do mensalão. Tal receita é perigosa, pois relativiza os malfeitos. Lincoln fez uso de patronagem, mas o governo Lula extrapolou, além da patronagem também fez uso de dinheiro público em quantias vultosas.
Outra resposta estaria relacionada à capacidade das instituições de freios e contrapesos de fiscalizarem e punirem desvios de governantes. Lincoln recorreu a ferramentas questionáveis de governo há 150 anos, quando o acesso à informação era restrita, a qualidade da burocracia pública embrionária, a independência das instituições de controle débil, enfim, em um momento histórico de construção do estado de direito muito diferente e incipiente. Nas democracias atuais, tanto a opinião pública quanto as instituições de controle são mais vigilantes a violações da moralidade pública. A barganha política sem princípios gera mais custos.
Uma terceira explicação estaria diretamente relacionada à diferença de instrumentos de governo e poderes constitucionais e de agenda do presidente. O presidente Lula dispunha de fortes ferramentas para implementação de sua agenda política no Legislativo (tais como medida provisória, poder de urgência, poderes orçamentários etc). Portanto, o uso de ferramentas não legais ou meios desviantes para a implementação de sua agenda se torna ainda menos escusável.
O sistema presidencialista americano, desde Lincoln até hoje, caracteriza-se por ter um Executivo com parcos poderes unilaterais de governo. Além do mais, Lincoln teve que lidar com um Congresso poderoso, especialmente no século XIX, e sob Guerra Civil que ameaçava o projeto unificado de república. É surpreendente que o governo Lula não considerasse suficientes os meios constitucionais de imposição de seu projeto de governo e ferisse, com isso, a imagem histórica de ética que seu partido político apregoou desde sua fundação.
Por que episódios semelhantes levam a resultados díspares?
Motivado pela última obra de Spielberg, voltamos a refletir sobre o episódio da aprovação da 13ª emenda à Constituição americana como um exemplo paradigmático de um líder político que foi capaz de aproveitar uma janela de oportunidade para mudar dramaticamente a história do seu país. Embora o Partido Republicano, do presidente Abraham Lincoln, desfrutasse da maioria de cadeiras nas duas Casas Legislativas, não reunia votos suficientes para aprovar no Senado a reforma que acabaria com a escravidão. O cenário politico era de Guerra Civil e, mesmo assim, Lincoln conseguiu unificar as mais variadas facções do Partido Republicano com o argumento de que o fim da escravidão seria condição necessária para que a guerra acabasse. Lincoln sabia que, com a rendição do sul, seria praticamente impossível manter seu partido unido em favor da aprovação da emenda.
Presumindo que todos os republicanos votariam a favor, ainda seria necessário convencer 20 senadores democratas que não haviam sido reeleitos. Esse foi o contexto em que Lincoln enxergou uma janela de oportunidade ao oferecer empregos públicos aos senadores democratas em troca de apoio. No jargão da ciência política, Lincoln fez uso de patronagem. O presidente cogitou comprar apoio com dinheiro vivo, mas tendo sido desencorajado por assessores, decidiu então enviar intermediários de sua confiança para negociar a adesão dos senadores em troca de empregos. Não tendo sido plenamente bem sucedido, Lincoln foi obrigado a "sujar" as próprias mãos, negociando diretamente o apoio de alguns senadores relutantes. Após a aprovação da emenda, Lincoln se reúne com a comissão de confederados do sul e negocia os termos de rendição, que levou ao fim da Guerra Civil e o fez entrar para a história.
No caso brasileiro, o presidente Lula percebeu, logo no início do seu primeiro mandato, que seria necessário encontrar formas de cortar custos e aumentar receitas. A opção foi reformar os sistemas tributário e previdenciário, agenda que criaria controvérsias inclusive no seu próprio partido. Dada a condição de minoria, o governo Lula optou por uma via rápida para a realização de sua agenda, "comprando" o apoio de partidos (não apenas de dentro, mas também de fora da coalizão).
Essas reformas só seriam aprovadas com os votos dos dois principais partidos de oposição. A reforma da Previdência, por exemplo, foi aprovada com 357 votos na Câmara dos Deputados em dois turnos. Porém, o governo recebeu apenas 213 votos dos membros de sua coalizão, um número muito menor do que os 308 necessários. O próprio PT enfrentou 4 defecções e 7 abstenções. O PSDB e PFL, além de compartilharem dessa agenda de reformas, foram fartamente recompensados com a execução de mais de 75% das emendas individuais ao Orçamento da União em 2003. Como a grande maioria de ministérios (60%) foi monopolizada pelo PT e os recursos de emendas ao Orçamento foram direcionados para os partidos de oposição, restou ao governo Lula montar um esquema paralelo e ilegal de compensação para os membros de sua própria coalizão, mantendo-os com isso unidos e disciplinados.
Os principais envolvidos no esquema, apelidado de mensalão, foram julgados culpados e exemplarmente condenados pelo Supremo Tribunal Federal. Além disso, o procurador-geral da República acaba de encaminhar para a primeira instância do Ministério Público Federal de Minas Gerais o depoimento do principal articulador financeiro do mensalão, Marcos Valério, que acusa o ex-presidente Lula de ter recebido recursos do mesmo esquema. Se as investigações prosseguirem e mais evidências da participação do ex-presidente forem encontradas, Lula corre o risco de enfrentar ainda mais custos reputacionais e/ou judiciais, além de 'sair' da história pelo seu legado de envolvimento em corrupção.
Por que episódios de compra de votos, aparentemente semelhantes, podem apresentar resultados tão díspares para o legado de seus governantes?
Uma possível resposta atribui as ações desviantes a uma eventual nobreza dos fins perseguidos. Ou seja, enquanto Lincoln foi capaz de acabar com a escravidão e colocar um ponto final na Guerra Civil, trocando apoio político por cargos públicos, o governo Lula conseguiu basicamente aprovar poucas reformas e governabilidade junto ao Legislativo fazendo uso do mensalão. Tal receita é perigosa, pois relativiza os malfeitos. Lincoln fez uso de patronagem, mas o governo Lula extrapolou, além da patronagem também fez uso de dinheiro público em quantias vultosas.
Outra resposta estaria relacionada à capacidade das instituições de freios e contrapesos de fiscalizarem e punirem desvios de governantes. Lincoln recorreu a ferramentas questionáveis de governo há 150 anos, quando o acesso à informação era restrita, a qualidade da burocracia pública embrionária, a independência das instituições de controle débil, enfim, em um momento histórico de construção do estado de direito muito diferente e incipiente. Nas democracias atuais, tanto a opinião pública quanto as instituições de controle são mais vigilantes a violações da moralidade pública. A barganha política sem princípios gera mais custos.
Uma terceira explicação estaria diretamente relacionada à diferença de instrumentos de governo e poderes constitucionais e de agenda do presidente. O presidente Lula dispunha de fortes ferramentas para implementação de sua agenda política no Legislativo (tais como medida provisória, poder de urgência, poderes orçamentários etc). Portanto, o uso de ferramentas não legais ou meios desviantes para a implementação de sua agenda se torna ainda menos escusável.
O sistema presidencialista americano, desde Lincoln até hoje, caracteriza-se por ter um Executivo com parcos poderes unilaterais de governo. Além do mais, Lincoln teve que lidar com um Congresso poderoso, especialmente no século XIX, e sob Guerra Civil que ameaçava o projeto unificado de república. É surpreendente que o governo Lula não considerasse suficientes os meios constitucionais de imposição de seu projeto de governo e ferisse, com isso, a imagem histórica de ética que seu partido político apregoou desde sua fundação.
Pelo ar e pelo mar - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 27/02
Pacote de intervenções do governo federal em obras e concessões de transportes coloca Geraldo Alckmin em choque com o Planalto. Recém-lançado por Dilma Rousseff, o programa de expansão de aeroportos contempla 19 terminais do Estado, muitos deles em conflito com PPPs previstas pelo tucano. Outro ponto que aflige o Bandeirantes é a medida provisória que delega à Antaq arrendamentos de áreas no porto de São Sebastião, onde Alckmin acaba de injetar R$ 165 milhões.
Quem ri... Em meio à pressão de Carlos Lupi para desalojá-lo do ministério, Brizola Neto (Trabalho) reage e diz que o PDT não é um "partido de aluguel'' que negocia apoio a Dilma em troca de cargos. "O partido não está em leilão nem à venda."
... por último? Lupi, que deixou a pasta sob acusações em 2011, negocia com PSB e PSDB. "Ele pode até querer ir, mas não leva o partido. Estaremos no palanque de Dilma em 2014", desafia o ministro.
Sujou 1 A Rede, de Marina Silva, experimenta sua primeira cisão. Ala liderada por Alfredo Sirkis (PV-RJ) insiste em que o estatuto da legenda exija ficha limpa dos filiados. A regra havia sido retirada a pedido de militantes em direitos humanos.
Sujou 2 "Ao colocar tanta ênfase na questão ética no seu discurso inicial e, ao mesmo tempo, não adotar a Ficha Limpa, a Rede se expõe a um desgaste político desnecessário, do qual é preciso sair rapidamente", diz Sirkis, em texto enviado aos sonháticos.
Me liga Sem pedir para que Eduardo Campos desista de ser candidato a presidente, Jaques Wagner (PT-BA) se colocou "à disposição" do colega para conversar, durante jantar que varou a madrugada de ontem em Recife (PE).
Cena Defensor do apoio a Dilma Rousseff em 2014, Cid Gomes (CE) disse ontem à presidente que não se impressione com gestos do PSB pró-Eduardo Campos no Congresso. Para ele, os líderes Beto Albuquerque (RS) e Rodrigo Rollemberg (DF) querem ver o "circo pegar fogo''.
Mestre Lula pediu a Vagner Freitas que a CUT engrosse suas caravanas. O sindicalista participa da etapa inaugural amanhã, em Fortaleza.
Abrigo 1 Barjas Negri, ex-prefeito de Piracicaba (SP) e auxiliar de José Serra no Ministério da Saúde, assumirá a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), braço operacional da Secretaria de Educação do Estado.
Abrigo 2 João Paulo Papa (PMDB), que deixou a Prefeitura de Santos, será diretor de tecnologia da Sabesp. Miguel Haddad (PSDB), ex-prefeito de Jundiaí, deve virar coordenador estadual da Conferência das Cidades.
Wally O PSDB-MG se esforçou para esconder Eduardo Azeredo, pivô do mensalão mineiro, durante ato de apoio a Aécio Neves protagonizado por FHC anteontem. Discretamente instalado na plateia, o ex-governador não foi citado pela organização.
Resta um A CNB concedeu prazo de um mês para que o deputado Vicente Cândido e o ex-prefeito de Osasco Emídio de Souza cheguem a um acordo para candidatura única da corrente à direção do PT paulista. João Paulo Cunha é ativo cabo eleitoral de Cândido. José Dirceu tem manifestado apoio a Emídio.
Visita à Folha Kátia Abreu, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e senadora pelo PSD de Tocantins, visitou ontem a Folha, onde foi recebida em almoço. Estava acompanhada de Getúlio Nunes, superintendente de Comunicação e Marketing da CNA, e Christiane Samarco, assessora de imprensa.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"O conceito de juventude de Renan me parece equivocado. Bem que ele poderia rejuvenescer, pois toda a idade tem seu prazer e seu medo."
DO SENADOR RANDOLFE RODRIGUES (PSOL-AP), sobre o presidente da Casa ter afirmado que participaria dos protestos contra ele "se fosse mais jovem".
contraponto
Vovô sabe tudo
Durante debate do Congresso do PSDB-SP, sábado, Aloysio Nunes respondia a perguntas dos militantes tucanos, quando interrompeu sua fala para avisar que precisaria se ausentar, pois tinha compromisso agendado:
-É uma reunião importantíssima com três pessoas, entre elas o Fernando.
O vereador paulistano Floriano Pesaro interveio, imaginando se tratar do ex-presidente da República:
-Mas o Fernando Henrique pode esperar!
-Olha, é mais importante que ele. É o Fernando, meu neto -, justificou o líder tucano no Senado.
Dormindo com o inimigo - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 27/02
A volta do presidente bossa-nova
O PSDB definiu a forma que seu candidato a presidente, Aécio Neves, dará à sua pré-candidatura. O partido quer explorar a vocação política do senador mineiro, aliada à sua jovialidade, tentando um contraponto com a presidente Dilma, candidata inventada por Lula. Os tucanos buscam provocar o PT e Dilma, considerada avessa a negociações políticas, mostrando que é fundamental ao presidente conversar com os partidos, sejam de oposição ou aliados. "Vamos passar a ideia do presidente bossa-nova, em referência a Juscelino, que governou com inovações. Aécio é o candidato alegre, alto astral", diz um tucano.
“O que o Congresso está pedindo é que o STF dê um jeitinho, e ele não foi feito para dar jeitinhos, mas para zelar pela Constituição” Alessandro Molon
Deputado (PT-RJ)
Preenchendo a lacuna
O DEM vai fazer uma exposição paralela à do PT na Câmara, com ênfase em 2005, ano do mensalão. Os petistas ignoraram esse período em painéis que contam os 33 anos do partido.
Guerra dos portos
Presidente da CNA, a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) critica a CUT e a Força Sindical, contrárias à MP dos Portos. Diz que os privilégios defendidos pelos sindicalistas tiram a competitividade dos portos. "Os interesses da República dos sindicalistas não podem se sobrepor aos da República do Brasil."
Dilma x Campos
O ministro Leônidas Cristino (Portos) se tornou ponto de discórdia entre PSB e Planalto. A presidente Dilma se diz satisfeita com sua atuação, enquanto o presidente do PSB, Eduardo Campos, faz críticas abertas à MP dos Portos.
Casa, comida e roupa lavada
O senador Lindbergh Farias (PT), pré-candidato ao governo do Rio, aderiu à "grife" das caravanas iniciadas pelo ex-presidente Lula. Começará sexta-feira, por Japeri. O petista ficará lá até sábado conhecendo os problemas da cidade e conversando com eleitores. Inclusive, pedirá para tomar banho e dormir na casa de alguns deles.
Quem é o maior adversário?
A candidatura do tucano Aécio Neves não é a única variável no tabuleiro do Planalto. Análises feitas no Palácio consideram que Marina Silva pode se transformar na principal adversária da reeleição da presidente Dilma.
Autoridade sem autoridade
A despeito do apreço da presidente Dilma por Márcio Fortes, a Autoridade Pública Olímpica não consegue deslanchar. O prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral a ignoram. Paes criou até uma "APOzinha" para chamar de sua.
A presidente Dilma tem dito a ministros que Guido Mantega (Fazenda) pode falar de qualquer desoneração, "inclusive de papel de parede".
A lição de Chacrinha - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 27/02
Depois de dois anos de muito silêncio e poucas entrevistas, têm-se a impressão de que o governo parece ter aprendido que há um fundo de razão no que dizia José Abelardo Barbosa Medeiros, o Chacrinha. Especialmente, no que se refere a comunicação e ao lema “Quem não se comunica se trumbica”, ou , no mínimo, dá aquele tropeço que, se não for socorrido a tempo vira um tombo e tanto.
Desde janeiro, vários movimentos indicam esse aprendizado. O primeiro deles foi a conversa direta da presidente Dilma Rousseff com empresários, algo que, embora ainda não tenha apresentado os resultados esperados, serviu para quebrar o gelo. Além disso, na Esplanada, é perceptível uma maior desenvoltura dos ministros em receber jornais, revistas e até equipes de tevê.
Até meados do ano passado, conversar com ministros era invariavelmente um drama. A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, por exemplo, raramente recebia jornalistas para um simples café. Quanto mais, entrevistas. Estava ali — e ainda está para essa principal função — de organizar o governo. Ela não deixou de cumprir essa missão. Mas, à atribuição central, acrescentou “vender o peixe” do Poder Executivo.
Ontem, por exemplo, Gleisi recebeu um grupo de jornalistas para falar sobre a Medida Provisória 595, a MP dos Portos. Estava acompanhada do ministro da Secretaria Especial de Portos, Leônidas Cristino, que, por sinal, passou recentemente por um treinamento de mídia. Além dos dois, compareceram ainda a ministra da Comunicação, Helena Chagas, e integrantes de sua equipe.
Logo na chegada, foi aquela coisa. A conversa seria “on ou off”, ou seja, as frases dos ministros poderiam ser reproduzidas sem problemas ou não? “É tudo on”, disse Gleisi, bem à vontade, assim como seu colega, o ministro Leônidas. Os dois têm em comum o fato de serem políticos, portanto, estão acostumados ao contato direto com a imprensa. Só não exercitavam mais esse lado.
A sensação atualmente no Planalto é a de que a nuvem de “é proibido falar” se dissipou. E um dos temas que o governo aproveita para abrir essa nova fase é a MP dos Portos, considerada a prioridade do Planalto para este primeiro semestre de trabalho do Poder Legislativo. Também parece que está disseminada a ideia de que não adianta apenas acionar o Cabo Canaveral (o lançamento do programa com o discurso de Dilma Rousseff) e deixar que tudo o mais corra solto, ao sabor dos ventos, para que, lá na frente, quando o governo finalmente estiver no dia da votação, correr atrás de uma batalha de comunicação que já foi perdida.
O governo parece ter tomado consciência de que a batalha da comunicação é fundamental. Afinal, se os integrantes do Poder Executivo não chamam os jornalistas para expor suas posições com clareza e franqueza, como fizeram ontem os ministros Gleisi, Leônidas e Helena, outra versão ocupará os jornais.
Enquanto isso, no calendário…
Essa mudança de comportamento não deve ser apenas para felicidade geral da nação, ou melhor, de nós, jornalistas, sempre ávidos por informações. Tem aí um quê eleitoral. Afinal, a campanha de 2014 está para lá de antecipada e a presidente Dilma Rousseff é candidata à reeleição e precisa que a população, especialmente, aquela parcela que forma opinião, esteja ciente de seus projetos e capaz de reproduzir fielmente as posições do governo — ainda que, às vezes, discorde do que é colocado pelo Poder Executivo. Como disse a ministra: “Não estamos aqui para impedir nada. Apenas para expor corretamente o que representa a medida provisória”.
No caso específico da MP dos Portos, o governo conta com o fato de que existe uma percepção grande no ar de que o Poder Executivo está certo e tem tudo para conquistar maioria capaz de aprovar o texto. Afinal, nada mais obscuro no país do que os custos portuários. Em Cingapura, por exemplo, o movimento de um contêiner custa US$ 197; em Roterdã, US$ 245; em Hamburgo, US$ 273; e, em Santos US$ 360. O que se espera, entretanto, é que este não seja o único tema a reunir ministros para uma conversa com jornalistas. Afinal, quem não se comunica se trumbica.
E no parlamento…
O PSB tem hoje uma reunião de bancada que promete se tornar um ato de solidariedade ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Além das declarações de Ciro Gomes sobre a ausência de programa para o país dentro do PSB e de outros partidos, o líder Beto Albuquerque identifica movimentos petistas no sentido de isolar o PSB. “Há sinais de interferência. Não vamos aceitar. Quanto maior a tentativa de isolar o PSB, mais coesão o partido terá em torno de Eduardo. O PSB não está dividido, está unificado. Uma palavra ou outra destoante não interferirá na nossa decisão. O PT escolheu Aécio porque gosta da disputa fácil. Está querendo nos espremer”, comenta ele.
O multipresidente - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 27/02
BRASÍLIA - Houve um tempo em que o PMDB era um partido poderosíssimo. Nos anos 80, tinha um multipresidente. Ulysses Guimarães (1916-1992) chegou a acumular o cargo de presidente da legenda, presidente da Câmara e eventual presidente da República na ausência do então titular, José Sarney.
A partir deste sábado, quando o PMDB faz sua convenção nacional, o partido se prepara para a volta à era do multipresidencialismo. O vice-presidente da República, Michel Temer, deve ser reeleito presidente nacional da sigla. Só que não pretende se licenciar do mandato, como faz agora. Acumulará as funções.
Quando Dilma Rousseff viajar ao exterior, Michel Temer assumirá o Palácio do Planalto também na condição de presidente do PMDB -o estatuto da legenda será alterado para permitir essa nova realidade.
A remodelagem peemedebista emite vários sinais. O primeiro deles é que o sempre comedido Michel Temer está cedendo às pressões internas de sua legenda. Ele foi compelido a aceitar sua nova condição de multipresidente.
Muitos na direção do PMDB querem mais cargos no governo federal. "Nossos cinco ministérios não elegem nem vereador", diz um ministro filiado à legenda. A crença (errada) dos que praticam essa micropolítica peemedebista é que Michel Temer estará empoderado para arrancar cargos na reforma ministerial de março.
Outro sinal sobre essa jogada é o final da relativa paz vivida pela legenda desde quando aderiu "con gusto" ao governo Lula. Deputados e senadores peemedebistas andam falando mal uns dos outros além dos padrões mínimos de civilidade.
Como é o mais pragmático dos partidos, com argúcia incomum na arte da fisiologia, o PMDB ruma para apoiar a reeleição de Dilma Rousseff. Mas a imposição do multipresidente Michel Temer talvez possa mais atrapalhar do que ajudar.
BRASÍLIA - Houve um tempo em que o PMDB era um partido poderosíssimo. Nos anos 80, tinha um multipresidente. Ulysses Guimarães (1916-1992) chegou a acumular o cargo de presidente da legenda, presidente da Câmara e eventual presidente da República na ausência do então titular, José Sarney.
A partir deste sábado, quando o PMDB faz sua convenção nacional, o partido se prepara para a volta à era do multipresidencialismo. O vice-presidente da República, Michel Temer, deve ser reeleito presidente nacional da sigla. Só que não pretende se licenciar do mandato, como faz agora. Acumulará as funções.
Quando Dilma Rousseff viajar ao exterior, Michel Temer assumirá o Palácio do Planalto também na condição de presidente do PMDB -o estatuto da legenda será alterado para permitir essa nova realidade.
A remodelagem peemedebista emite vários sinais. O primeiro deles é que o sempre comedido Michel Temer está cedendo às pressões internas de sua legenda. Ele foi compelido a aceitar sua nova condição de multipresidente.
Muitos na direção do PMDB querem mais cargos no governo federal. "Nossos cinco ministérios não elegem nem vereador", diz um ministro filiado à legenda. A crença (errada) dos que praticam essa micropolítica peemedebista é que Michel Temer estará empoderado para arrancar cargos na reforma ministerial de março.
Outro sinal sobre essa jogada é o final da relativa paz vivida pela legenda desde quando aderiu "con gusto" ao governo Lula. Deputados e senadores peemedebistas andam falando mal uns dos outros além dos padrões mínimos de civilidade.
Como é o mais pragmático dos partidos, com argúcia incomum na arte da fisiologia, o PMDB ruma para apoiar a reeleição de Dilma Rousseff. Mas a imposição do multipresidente Michel Temer talvez possa mais atrapalhar do que ajudar.
O segredo do sucesso - DORA KRAMER
O ESTADO DE S. PAULO - 27/02
A lei está em vigor, mas a regra de restrição das campanhas eleitorais ao período de três meses antes das eleições foi revogada na prática. Tirando a exposição diária em horário específico no rádio e na televisão a partir do mês de agosto do ano eleitoral, tudo o mais está permitido.
Inclusive e principalmente o uso do patrimônio coletivo como instrumento de propaganda política. Há a lei de probidade administrativa e há o artigo 37 da Constituição que lista a impessoalidade e a legalidade entre os princípios que regem a administração pública.
Tais preceitos, contudo, parecem ter caído em desuso desde que o então presidente Luiz Inácio da Silva lançou sua ministra chefe da Casa Civil como a "mãe do PAC", no início de 2008, e não parou mais de fazer campanha para sua candidata até conseguir que fosse eleita em outubro de 2010.
Portanto, essa história de antecipação da campanha de 2014 em um ano e 10 meses não é novidade alguma nem deveria causar espanto,já que não provoca contrariedade no Ministério Público.
A presidente Dilma, dizem as evidências,é franca favorita. Não há nisso mistério algum nem algo de politicamente genial na estratégia governista: o dado essencial é que a presidente conta com ferramentas que estão a léguas de distância do alcance de seus adversários.
Só para início de conversa, tem todo espaço natural nos meios de comunicação em matéria de cobertura dada ao chefe da nação, pela própria natureza do cargo.
Dilma tem 39 ministérios à disposição e ainda a caneta que lhe permite manejar como bem entender as vontades de aliados que porventura pretendam se encantar com a possibilidade de atracar em outros portos.
E os outros possíveis candidatos o que têm? Eduardo Campos, o governo de Pernambuco. Não chega a representar vantagem comparativa face aos instrumentos disponíveis para quem governa o País.
E governa com alma de militante partidária, como demonstrado recentemente quando a presidente abandonou a atitude civilizada que vinha mantendo em relação aos antecessores, notadamente Fernando Henrique Cardoso, e se pôs a negar qualquer legado: "Construímos tudo".
Aécio Neves, o controle do governo de Minas, um mandato de senador numa Casa de joelhos para o Palácio do Planalto e um partido bambo, em busca de unidade, discurso e vigor para a luta que se avizinha dura, por ora com contornos de missão impossível.
Marina Silva, uma boa imagem, uma proposta hesitante entre o sonho e a realidade, e um embrião de partido.
As condições são absolutamente desiguais, residindo nisso o segredo do sucesso que de secreto nada tem.
Vaivém. O que Ciro Gomes diz não necessariamente é para ser levado ao pé da letra com prazo de validade prolongado.A crítica que faz ao governador Eduardo Campos a quem, segundo ele, falta"estrada"para se candidatar a governar o País, é a mesma feita a Dilma Rousseff, em 2010.
Na ocasião, Ciro declarou que ela não tinha"liderança e experiência para governar o Brasil".
Sobre Aécio Neves, a quem inclui junto com Campos e Marina Silva no rol dos políticos desprovidos de "visão" para ser presidente, Ciro declarou naquela época: "Se écio for candidato, estarei com ele!".
Moda da casa. Raul Castro anuncia renúncia em 2018 para dar lugar "às novas gerações" e indica como provável sucessor Miguel Díaz-Canel, um fiel aliado do regime que não seria escolhido se assim não fosse.
Indicado para mudar mantendo tudo como está:sistema de partido único,pensamento único,sem um único espaço para que o cubano experimente o quanto vale a liberdade de pensar, falar, agir, ir e vir com destemor.
Inclusive e principalmente o uso do patrimônio coletivo como instrumento de propaganda política. Há a lei de probidade administrativa e há o artigo 37 da Constituição que lista a impessoalidade e a legalidade entre os princípios que regem a administração pública.
Tais preceitos, contudo, parecem ter caído em desuso desde que o então presidente Luiz Inácio da Silva lançou sua ministra chefe da Casa Civil como a "mãe do PAC", no início de 2008, e não parou mais de fazer campanha para sua candidata até conseguir que fosse eleita em outubro de 2010.
Portanto, essa história de antecipação da campanha de 2014 em um ano e 10 meses não é novidade alguma nem deveria causar espanto,já que não provoca contrariedade no Ministério Público.
A presidente Dilma, dizem as evidências,é franca favorita. Não há nisso mistério algum nem algo de politicamente genial na estratégia governista: o dado essencial é que a presidente conta com ferramentas que estão a léguas de distância do alcance de seus adversários.
Só para início de conversa, tem todo espaço natural nos meios de comunicação em matéria de cobertura dada ao chefe da nação, pela própria natureza do cargo.
Dilma tem 39 ministérios à disposição e ainda a caneta que lhe permite manejar como bem entender as vontades de aliados que porventura pretendam se encantar com a possibilidade de atracar em outros portos.
E os outros possíveis candidatos o que têm? Eduardo Campos, o governo de Pernambuco. Não chega a representar vantagem comparativa face aos instrumentos disponíveis para quem governa o País.
E governa com alma de militante partidária, como demonstrado recentemente quando a presidente abandonou a atitude civilizada que vinha mantendo em relação aos antecessores, notadamente Fernando Henrique Cardoso, e se pôs a negar qualquer legado: "Construímos tudo".
Aécio Neves, o controle do governo de Minas, um mandato de senador numa Casa de joelhos para o Palácio do Planalto e um partido bambo, em busca de unidade, discurso e vigor para a luta que se avizinha dura, por ora com contornos de missão impossível.
Marina Silva, uma boa imagem, uma proposta hesitante entre o sonho e a realidade, e um embrião de partido.
As condições são absolutamente desiguais, residindo nisso o segredo do sucesso que de secreto nada tem.
Vaivém. O que Ciro Gomes diz não necessariamente é para ser levado ao pé da letra com prazo de validade prolongado.A crítica que faz ao governador Eduardo Campos a quem, segundo ele, falta"estrada"para se candidatar a governar o País, é a mesma feita a Dilma Rousseff, em 2010.
Na ocasião, Ciro declarou que ela não tinha"liderança e experiência para governar o Brasil".
Sobre Aécio Neves, a quem inclui junto com Campos e Marina Silva no rol dos políticos desprovidos de "visão" para ser presidente, Ciro declarou naquela época: "Se écio for candidato, estarei com ele!".
Moda da casa. Raul Castro anuncia renúncia em 2018 para dar lugar "às novas gerações" e indica como provável sucessor Miguel Díaz-Canel, um fiel aliado do regime que não seria escolhido se assim não fosse.
Indicado para mudar mantendo tudo como está:sistema de partido único,pensamento único,sem um único espaço para que o cubano experimente o quanto vale a liberdade de pensar, falar, agir, ir e vir com destemor.
A política de cotas ganhou mais uma - ELIO GASPARI
O GLOBO - 27/02
Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.
Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.
Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os curriculos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século XIX, temia o caos social como consequência da Abolição.
Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada. Neste ano as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).
O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distâncias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indigenas no curso de História da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de Engenharia Elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que no 20º caso, do curso de Ciências Agrícolas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.
Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois, se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.
A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.
Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.
Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.
Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os curriculos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século XIX, temia o caos social como consequência da Abolição.
Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada. Neste ano as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).
O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distâncias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indigenas no curso de História da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de Engenharia Elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que no 20º caso, do curso de Ciências Agrícolas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.
Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois, se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.
A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.
A César o que é de César - ALEXANDRE SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 27/02
O BC colhe aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa
Depois de meses em negação, atribuindo o aumento da inflação a um mal definido "choque internacional de oferta" (que teve o mau gosto de afetar apenas o Brasil, poupando países como Chile, Peru ou Colômbia), o Banco Central parece ter finalmente acordado para o problema.
Se não ainda para lidar com ele, ao menos para buscar novas desculpas sobre como -depois de reiteradas juras acerca da convergência da inflação à sua meta- esta teima em acelerar.
Agora a depreciação da moeda no ano passado tem sido repetidamente citada por fontes governamentais entre as explicações para a alta inflacionária, tomando o lugar antes reservado ao infame "choque internacional de oferta".
Para ser sincero, sim, é claro que um real mais fraco (ou, de forma equivalente, um dólar mais caro) se reflete na inflação.
Há bens que podem ser importados e exportados sem grandes custos; assim, seus preços costumam seguir os preços internacionais de produtos similares, convertidos em moeda nacional pela taxa de câmbio. Nesse sentido, não há dúvida de que a desvalorização da moeda tem efeito sobre os preços desses bens e, portanto, se traduz em inflação mais alta.
Ainda, porém, que possamos concordar acerca do efeito inflacionário da depreciação, não é possível aceitá-la como desculpa para o lamentável desempenho do BC no que diz respeito a seu mandato de estabilidade de preços por um simples motivo: porque foi ele quem engendrou a fraqueza do real à qual hoje atribui a culpa pela inflação mais alta.
Uma simples vista d'olhos nas suas ações, na gestão da política monetária, na intervenção no mercado de câmbio ou por meio de medidas regulatórias, mostra, além de qualquer dúvida razoável, que o BC buscou, de forma consciente, produzir um encarecimento do dólar.
Mesmo em face de uma elevação de preços internacionais das commodities, que, em condições normais, produziria -como o fez em outras economias da região- uma moeda mais forte, o BC tomou medidas em várias frentes para manter o dólar acima de R$ 2,00.
Não é sequer necessário ler as intenções do BC nas entrelinhas de suas ações, pois em mais de uma ocasião integrantes da diretoria do órgão vieram a público afirmar seu compromisso com uma taxa de câmbio acima daquele valor, assim como assegurar que agiriam para que "o Brasil não seja uma praça de desvalorização de outras moedas".
Obviamente essa atitude gerou um impacto sobre a inflação muito maior do que no caso dos países que deixaram suas moedas se fortalecerem em resposta aos preços mais altos das commodities.
Posto de outra forma, se houve efeito da desvalorização cambial sobre a inflação no Brasil (e tudo indica que sim), ele também tem que ser debitado na conta da autoridade monetária, que, ao final da história, estimulou precisamente aquele movimento, pelo menos até perceber tardiamente que sua política era inconsistente com a prometida convergência da inflação à meta. O BC colhe agora aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa a respeito.
Hoje, porém, o problema adquiriu outra dimensão. Não se trata mais de fazer a inflação recuar para a vizinhança de 4,5%, mas sim de evitar que rompa o limite superior de tolerância (6,5%).
Ainda creio se tratar de uma possibilidade remota neste ano em face da intervenção pontual sobre alguns preços, assim como a possibilidade de moderar pressões no curto prazo pelo uso mais ativo das desonerações tributárias.
Esses artifícios, porém, têm vida curta, como exaustivamente demonstrado pela experiência histórica. A verdade é que as várias inconsistências da política econômica estão cobrando seu preço na forma de tensões inflacionárias crescentemente difíceis de esconder.
Se o BC quer lidar com o problema, deveria começar assumindo sua responsabilidade na criação da desordem que ele próprio ajudou a fomentar.
O BC colhe aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa
Depois de meses em negação, atribuindo o aumento da inflação a um mal definido "choque internacional de oferta" (que teve o mau gosto de afetar apenas o Brasil, poupando países como Chile, Peru ou Colômbia), o Banco Central parece ter finalmente acordado para o problema.
Se não ainda para lidar com ele, ao menos para buscar novas desculpas sobre como -depois de reiteradas juras acerca da convergência da inflação à sua meta- esta teima em acelerar.
Agora a depreciação da moeda no ano passado tem sido repetidamente citada por fontes governamentais entre as explicações para a alta inflacionária, tomando o lugar antes reservado ao infame "choque internacional de oferta".
Para ser sincero, sim, é claro que um real mais fraco (ou, de forma equivalente, um dólar mais caro) se reflete na inflação.
Há bens que podem ser importados e exportados sem grandes custos; assim, seus preços costumam seguir os preços internacionais de produtos similares, convertidos em moeda nacional pela taxa de câmbio. Nesse sentido, não há dúvida de que a desvalorização da moeda tem efeito sobre os preços desses bens e, portanto, se traduz em inflação mais alta.
Ainda, porém, que possamos concordar acerca do efeito inflacionário da depreciação, não é possível aceitá-la como desculpa para o lamentável desempenho do BC no que diz respeito a seu mandato de estabilidade de preços por um simples motivo: porque foi ele quem engendrou a fraqueza do real à qual hoje atribui a culpa pela inflação mais alta.
Uma simples vista d'olhos nas suas ações, na gestão da política monetária, na intervenção no mercado de câmbio ou por meio de medidas regulatórias, mostra, além de qualquer dúvida razoável, que o BC buscou, de forma consciente, produzir um encarecimento do dólar.
Mesmo em face de uma elevação de preços internacionais das commodities, que, em condições normais, produziria -como o fez em outras economias da região- uma moeda mais forte, o BC tomou medidas em várias frentes para manter o dólar acima de R$ 2,00.
Não é sequer necessário ler as intenções do BC nas entrelinhas de suas ações, pois em mais de uma ocasião integrantes da diretoria do órgão vieram a público afirmar seu compromisso com uma taxa de câmbio acima daquele valor, assim como assegurar que agiriam para que "o Brasil não seja uma praça de desvalorização de outras moedas".
Obviamente essa atitude gerou um impacto sobre a inflação muito maior do que no caso dos países que deixaram suas moedas se fortalecerem em resposta aos preços mais altos das commodities.
Posto de outra forma, se houve efeito da desvalorização cambial sobre a inflação no Brasil (e tudo indica que sim), ele também tem que ser debitado na conta da autoridade monetária, que, ao final da história, estimulou precisamente aquele movimento, pelo menos até perceber tardiamente que sua política era inconsistente com a prometida convergência da inflação à meta. O BC colhe agora aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa a respeito.
Hoje, porém, o problema adquiriu outra dimensão. Não se trata mais de fazer a inflação recuar para a vizinhança de 4,5%, mas sim de evitar que rompa o limite superior de tolerância (6,5%).
Ainda creio se tratar de uma possibilidade remota neste ano em face da intervenção pontual sobre alguns preços, assim como a possibilidade de moderar pressões no curto prazo pelo uso mais ativo das desonerações tributárias.
Esses artifícios, porém, têm vida curta, como exaustivamente demonstrado pela experiência histórica. A verdade é que as várias inconsistências da política econômica estão cobrando seu preço na forma de tensões inflacionárias crescentemente difíceis de esconder.
Se o BC quer lidar com o problema, deveria começar assumindo sua responsabilidade na criação da desordem que ele próprio ajudou a fomentar.
O dissenso romano - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 27/02
O resultado fragmentado da eleição italiana, deixando indefinido o governo do país, derrubou as bolsas europeias. A Itália vive uma nova crise política no meio da velha crise econômica. Ontem, o governo italiano rolou $ 8,75 bi em títulos com vencimento em seis meses e pagou mais caro pelos empréstimos. Hoje, fará rolagem de títulos mais longos e ficará mais claro como as eleições afetaram a visão dos investidores.
A eleição foi uma clara rejeição à proposta de Mário Monti, que só teve 10% dos votos, mas não se pode dizer qual escolha o eleitor fez. O Senado fica com a coalizão de centro-direita, de Berlusconi; a Câmara Baixa, com a centro-esquerda, de Pier Luigi Bersani; e o voto de repúdio, do comediante Beppe Grillo, teve um quarto de todos os votos.
Se as duas Casas não estiverem de acordo, não se governa o país. Um governo instável não seguirá adiante no processo de reformas adotado por Mario Monti, que é o que tem o apoio dos líderes da Europa.
A dívida pública é crescente, subiu de 120% para 127% do PIB entre o terceiro trimestre de 2011 e o terceiro de 2012, último dado divulgado pela Eurostat. Isso quer dizer que o país precisa pedir dinheiro emprestado aos bancos para fechar as contas e ninguém confia em país com tal grau de fragmentação política.
A diferença entre a crise política atual na Itália e de outras vividas na zona do euro é que agora o mercado financeiro está ainda sob o calmante administrado pelo Banco Central Europeu, de Mario Draghi. Apesar disso, as bolsas despencaram, a de Milão, 5%. Os bancos italianos perderam mais. Draghi se comprometeu, no ano passado, a comprar títulos públicos de países que enfrentassem desconfiança dos investidores. Os italianos têm esse paraquedas monetário, que pode atenuar a elevação do custo da dívida. Os títulos com vencimento de 10 anos subiram muito nos últimos dias, mas de acordo com a consultoria inglesa Capital Economics, a intervenção do BCE deve impedir que os juros cheguem a 7%, uma taxa que praticamente inviabilizaria captações. Hoje, elas estão na casa de 4,9%.
Para a região, no entanto, a falta de definição na Itália complica bastante o cenário. A Itália é a terceira maior economia da zona do euro, atrás apenas de Alemanha e França. Tem um PIB de US$ 2 trilhões. E há, nos próximos meses, muitas definições a serem feiras na região, como a união bancária.
O mau humor dos eleitores com o primeiro-ministro, Mario Monti, é fácil de ser explicado pela economia: seis trimestres consecutivos de retração econômica. No quarto trimestre de 2012, o PIB encolheu 0,9% sobre o terceiro, e estava 2,7% menor que o do mesmo período de 2011. O desemprego ao longo do ano subiu de 9,5% para 11,2%. Entre jovens com menos de 25 anos, a taxa chega a 36%, a quarta maior da zona do euro.
Para a economia mundial, a volta da incerteza na zona do euro é ruim. O ano de 2013 vinha sendo marcado, até aqui, pela ausência de más notícias da Europa. Pior do que as bolsas caírem é aumentar a desconfiança dos empresários e dos consumidores.
Mario Monti está no poder desde 2011. Desde então, realizou uma série de cortes de gastos e aumento de impostos para tentar reorganizar as finanças públicas. Essas reformas, ao lado da disposição do BCE de comprar títulos públicos, é que servirão de escudo para a Itália enfrentar o período de turbulência até a formação de um novo governo estável.
Mas, além da economia, o que vale refletir é o que os italianos disseram com esta eleição. Estão aparecendo em vários países do mundo sinais de fadiga com a forma tradicional de representação política. É por isso que um movimento como o de Beppe Grillo, criado para contestar os políticos tradicionais, vira um fenômeno que chega a 25% dos votos.
A Itália, depois da Operação Mãos Limpas, passou por uma reforma política - como a que alguns prescrevem para o Brasil - que mudou o sistema proporcional, numa tentativa de permitir a renovação. Enfraqueceu-se a Democracia Cristã, que era o objetivo, mas o melhor fruto dessa "renovação" é o grotesco Silvio Berlusconi, que volta a ter poder. O movimento "ocupe", a adesão de 1,5 milhão de assinaturas a um protesto online contra o presidente do Senado brasileiro, Renan Calheiros, e outras surpresas espontâneas que têm acontecido em diversos países deveriam alertar os políticos que a crise não é só econômica.
A eleição foi uma clara rejeição à proposta de Mário Monti, que só teve 10% dos votos, mas não se pode dizer qual escolha o eleitor fez. O Senado fica com a coalizão de centro-direita, de Berlusconi; a Câmara Baixa, com a centro-esquerda, de Pier Luigi Bersani; e o voto de repúdio, do comediante Beppe Grillo, teve um quarto de todos os votos.
Se as duas Casas não estiverem de acordo, não se governa o país. Um governo instável não seguirá adiante no processo de reformas adotado por Mario Monti, que é o que tem o apoio dos líderes da Europa.
A dívida pública é crescente, subiu de 120% para 127% do PIB entre o terceiro trimestre de 2011 e o terceiro de 2012, último dado divulgado pela Eurostat. Isso quer dizer que o país precisa pedir dinheiro emprestado aos bancos para fechar as contas e ninguém confia em país com tal grau de fragmentação política.
A diferença entre a crise política atual na Itália e de outras vividas na zona do euro é que agora o mercado financeiro está ainda sob o calmante administrado pelo Banco Central Europeu, de Mario Draghi. Apesar disso, as bolsas despencaram, a de Milão, 5%. Os bancos italianos perderam mais. Draghi se comprometeu, no ano passado, a comprar títulos públicos de países que enfrentassem desconfiança dos investidores. Os italianos têm esse paraquedas monetário, que pode atenuar a elevação do custo da dívida. Os títulos com vencimento de 10 anos subiram muito nos últimos dias, mas de acordo com a consultoria inglesa Capital Economics, a intervenção do BCE deve impedir que os juros cheguem a 7%, uma taxa que praticamente inviabilizaria captações. Hoje, elas estão na casa de 4,9%.
Para a região, no entanto, a falta de definição na Itália complica bastante o cenário. A Itália é a terceira maior economia da zona do euro, atrás apenas de Alemanha e França. Tem um PIB de US$ 2 trilhões. E há, nos próximos meses, muitas definições a serem feiras na região, como a união bancária.
O mau humor dos eleitores com o primeiro-ministro, Mario Monti, é fácil de ser explicado pela economia: seis trimestres consecutivos de retração econômica. No quarto trimestre de 2012, o PIB encolheu 0,9% sobre o terceiro, e estava 2,7% menor que o do mesmo período de 2011. O desemprego ao longo do ano subiu de 9,5% para 11,2%. Entre jovens com menos de 25 anos, a taxa chega a 36%, a quarta maior da zona do euro.
Para a economia mundial, a volta da incerteza na zona do euro é ruim. O ano de 2013 vinha sendo marcado, até aqui, pela ausência de más notícias da Europa. Pior do que as bolsas caírem é aumentar a desconfiança dos empresários e dos consumidores.
Mario Monti está no poder desde 2011. Desde então, realizou uma série de cortes de gastos e aumento de impostos para tentar reorganizar as finanças públicas. Essas reformas, ao lado da disposição do BCE de comprar títulos públicos, é que servirão de escudo para a Itália enfrentar o período de turbulência até a formação de um novo governo estável.
Mas, além da economia, o que vale refletir é o que os italianos disseram com esta eleição. Estão aparecendo em vários países do mundo sinais de fadiga com a forma tradicional de representação política. É por isso que um movimento como o de Beppe Grillo, criado para contestar os políticos tradicionais, vira um fenômeno que chega a 25% dos votos.
A Itália, depois da Operação Mãos Limpas, passou por uma reforma política - como a que alguns prescrevem para o Brasil - que mudou o sistema proporcional, numa tentativa de permitir a renovação. Enfraqueceu-se a Democracia Cristã, que era o objetivo, mas o melhor fruto dessa "renovação" é o grotesco Silvio Berlusconi, que volta a ter poder. O movimento "ocupe", a adesão de 1,5 milhão de assinaturas a um protesto online contra o presidente do Senado brasileiro, Renan Calheiros, e outras surpresas espontâneas que têm acontecido em diversos países deveriam alertar os políticos que a crise não é só econômica.
A força do emprego - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 27/02
A tabela que está no Confira mostra que o Brasil ostenta hoje condições privilegiadas no seu mercado de trabalho. Um desemprego que atinge apenas 54 pessoas em cada mil que compõem a força de trabalho é fator positivo. Cobra lá seu preço, que é o custo crescente da mão de obra na economia. Mas é melhor enfrentar esse problema de custos com alto nível de emprego do que contar com mão de obra barata e, ao mesmo tempo, amargar filas intermináveis de procura por trabalho.
O nível de desemprego de 5,4% registrado em janeiro é o mais baixo para o mês desde 2002, quando o IBGE passou a fazer o levantamento das condições do emprego com a metodologia usada hoje - compatível com a usada internacionalmente.
Quem se lembra da desocupação de dezembro, de meros 4,6% da força de trabalho, pode ter ficado com a impressão de que, no mês seguinte, pioraram as condições do mercado de trabalho. Mas não dá para comparar os dois números por causa das diferenças sazonais. Dezembro é mês atípico, quando o comércio e o sistema de distribuição contratam funcionários temporários para dar conta das vendas de fim de ano. Descontado esse fator, vamos ver que a desocupação em janeiro é quase a mesma do mês anterior.
Os especialistas advertem: o mercado de trabalho passa por mudança estrutural que tem importantes bases demográficas. De uns anos para cá, mais gente leva mais tempo para entrar no mercado de trabalho, porque tem de estudar e se preparar; e mais pessoas trabalham como autônomas, especialmente no setor de serviços - ou seja, mantêm uma ocupação sem vínculo empregatício. Essa é uma das razões pelas quais o emprego com carteira de trabalho assinada está crescendo menos. Outro indicador importante é o nível de ocupação da população em idade de trabalhar, hoje de 54,4%, muito próximo do recorde histórico.
Essas transformações apontam para situação que beira o pleno emprego, que se caracteriza por relativa escassez de oferta de mão de obra. Essa condição não deixa de ser uma anomalia quando comparada ao baixo avanço do PIB do Brasil pelo segundo ano consecutivo.
O alto nível do emprego, principal objetivo da política econômica dos governos nos três últimos séculos, é obviamente um marco expressivo na ficha econômica do Brasil. No entanto, produz consequências negativas que precisam ser neutralizadas.
A falta de mão de obra gera a elevação dos custos de produção que, conjugada aos demais custos da economia no Brasil, tende a tirar competitividade do setor produtivo ante a concorrência externa. Outro impacto do pleno emprego - já apontado em outras edições desta Coluna - deverá vir quando houver expansão mais forte do PIB. Serão as pressões inevitáveis sobre os custos do trabalho, algo que preocupa o Banco Central.
Um dos modos de assegurar preços melhores ao produto brasileiro é incrementar a produção com o mesmo emprego de mão de obra (aumento da produtividade do trabalho), o que se consegue com maiores investimentos em educação e treinamento de pessoal. E esse é um dos grandes gargalos do setor produtivo do Brasil.
A tabela que está no Confira mostra que o Brasil ostenta hoje condições privilegiadas no seu mercado de trabalho. Um desemprego que atinge apenas 54 pessoas em cada mil que compõem a força de trabalho é fator positivo. Cobra lá seu preço, que é o custo crescente da mão de obra na economia. Mas é melhor enfrentar esse problema de custos com alto nível de emprego do que contar com mão de obra barata e, ao mesmo tempo, amargar filas intermináveis de procura por trabalho.
O nível de desemprego de 5,4% registrado em janeiro é o mais baixo para o mês desde 2002, quando o IBGE passou a fazer o levantamento das condições do emprego com a metodologia usada hoje - compatível com a usada internacionalmente.
Quem se lembra da desocupação de dezembro, de meros 4,6% da força de trabalho, pode ter ficado com a impressão de que, no mês seguinte, pioraram as condições do mercado de trabalho. Mas não dá para comparar os dois números por causa das diferenças sazonais. Dezembro é mês atípico, quando o comércio e o sistema de distribuição contratam funcionários temporários para dar conta das vendas de fim de ano. Descontado esse fator, vamos ver que a desocupação em janeiro é quase a mesma do mês anterior.
Os especialistas advertem: o mercado de trabalho passa por mudança estrutural que tem importantes bases demográficas. De uns anos para cá, mais gente leva mais tempo para entrar no mercado de trabalho, porque tem de estudar e se preparar; e mais pessoas trabalham como autônomas, especialmente no setor de serviços - ou seja, mantêm uma ocupação sem vínculo empregatício. Essa é uma das razões pelas quais o emprego com carteira de trabalho assinada está crescendo menos. Outro indicador importante é o nível de ocupação da população em idade de trabalhar, hoje de 54,4%, muito próximo do recorde histórico.
Essas transformações apontam para situação que beira o pleno emprego, que se caracteriza por relativa escassez de oferta de mão de obra. Essa condição não deixa de ser uma anomalia quando comparada ao baixo avanço do PIB do Brasil pelo segundo ano consecutivo.
O alto nível do emprego, principal objetivo da política econômica dos governos nos três últimos séculos, é obviamente um marco expressivo na ficha econômica do Brasil. No entanto, produz consequências negativas que precisam ser neutralizadas.
A falta de mão de obra gera a elevação dos custos de produção que, conjugada aos demais custos da economia no Brasil, tende a tirar competitividade do setor produtivo ante a concorrência externa. Outro impacto do pleno emprego - já apontado em outras edições desta Coluna - deverá vir quando houver expansão mais forte do PIB. Serão as pressões inevitáveis sobre os custos do trabalho, algo que preocupa o Banco Central.
Um dos modos de assegurar preços melhores ao produto brasileiro é incrementar a produção com o mesmo emprego de mão de obra (aumento da produtividade do trabalho), o que se consegue com maiores investimentos em educação e treinamento de pessoal. E esse é um dos grandes gargalos do setor produtivo do Brasil.
Receita - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 27/02
O problema da inflação no Brasil é, em parte, resultado do comportamento ex-travagante do próprio governo, que:
1º) Por um lado, com a mão da política social, estimula aumentos importantes do salário mínimo acima da produtividade média do trabalho (usando o PIB total, e não o per capita somado à inflação passada) e outras formas de transferências à custa do investimento público. Isso diminui a eficiência da economia. Mas, ao mesmo tempo, contribui para a desejada e necessária inclusão social;
2º) Por outro lado, com a mão da política econômica, tenta corrigir tais efeitos inflacionários com medidas monetárias, sem atacar com rigor problemas estruturais e institucionais como a indexação. Trata-se de um combate socialmente custoso e de resultado lento.
A questão se complica quando se generaliza a crença de que os economistas possuem "receita" que torna fá-cil o seu controle. Basta aceitar, como alguns deles fazem pouco criticamente, que os agentes econômicos são otimizadores racionais e estender tal crença à macroeconomia, para construir um "modelo" (um mundo imaginado) no qual uma adequada combinação de políticas fiscal e monetária contracionista faz o seguinte:
1º) A taxa de inflação convergir para qualquer "meta" na velocidade desejada;
2º) Num prazo mais longo, a atividade econômica convergir para o "PIB potencial";
3º) A taxa de desemprego convergir para o nível que mantém estável a meta estabelecida de inflação.
Nada de complicação! Esqueçam os choques de oferta agrícolas, os aumentos de impostos, os movimentos da conjuntura mundial, o desequilíbrio estrutural do mercado de trabalho, o descompasso entre a política social e a econômica etc.
Se a inflação está acima da meta, mesmo com um pífio crescimento, Selic nela! Já tende à esquizofrenia. Reze, acredite, sente e espere. Num prazo indeterminado, o resultado virá como sugerido acima.
Não se está recomendando transigir com a inflação, mas apenas sugerindo que o seu controle não cabe somente à política monetária. Exige uma coordenação com a política fiscal e medidas estruturais adequadas.
Já nos idos de 1948, na velha FEA-USP, o professor de teoria da moeda, Dorival Teixeira Vieira, insistia que "o processo inflacionário é semelhante ao creme dental: quando escapa do tubo, não é tarefa trivial recolocá-lo".
A razão disso é a sua forma insidiosa. Ele depende não apenas das causas físicas visíveis, mas da insondável "expectativa" que os agentes formam sobre ela.
O problema da inflação no Brasil é, em parte, resultado do comportamento ex-travagante do próprio governo, que:
1º) Por um lado, com a mão da política social, estimula aumentos importantes do salário mínimo acima da produtividade média do trabalho (usando o PIB total, e não o per capita somado à inflação passada) e outras formas de transferências à custa do investimento público. Isso diminui a eficiência da economia. Mas, ao mesmo tempo, contribui para a desejada e necessária inclusão social;
2º) Por outro lado, com a mão da política econômica, tenta corrigir tais efeitos inflacionários com medidas monetárias, sem atacar com rigor problemas estruturais e institucionais como a indexação. Trata-se de um combate socialmente custoso e de resultado lento.
A questão se complica quando se generaliza a crença de que os economistas possuem "receita" que torna fá-cil o seu controle. Basta aceitar, como alguns deles fazem pouco criticamente, que os agentes econômicos são otimizadores racionais e estender tal crença à macroeconomia, para construir um "modelo" (um mundo imaginado) no qual uma adequada combinação de políticas fiscal e monetária contracionista faz o seguinte:
1º) A taxa de inflação convergir para qualquer "meta" na velocidade desejada;
2º) Num prazo mais longo, a atividade econômica convergir para o "PIB potencial";
3º) A taxa de desemprego convergir para o nível que mantém estável a meta estabelecida de inflação.
Nada de complicação! Esqueçam os choques de oferta agrícolas, os aumentos de impostos, os movimentos da conjuntura mundial, o desequilíbrio estrutural do mercado de trabalho, o descompasso entre a política social e a econômica etc.
Se a inflação está acima da meta, mesmo com um pífio crescimento, Selic nela! Já tende à esquizofrenia. Reze, acredite, sente e espere. Num prazo indeterminado, o resultado virá como sugerido acima.
Não se está recomendando transigir com a inflação, mas apenas sugerindo que o seu controle não cabe somente à política monetária. Exige uma coordenação com a política fiscal e medidas estruturais adequadas.
Já nos idos de 1948, na velha FEA-USP, o professor de teoria da moeda, Dorival Teixeira Vieira, insistia que "o processo inflacionário é semelhante ao creme dental: quando escapa do tubo, não é tarefa trivial recolocá-lo".
A razão disso é a sua forma insidiosa. Ele depende não apenas das causas físicas visíveis, mas da insondável "expectativa" que os agentes formam sobre ela.
Maus tempos no BNDES - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 27/02
O resultado brilhante do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2012, com redução do lucro e desembolsos menores que os de 2009 e 2010, em termos reais, tem pouca relação com a crise internacional. Reflete essencialmente os equívocos da política econômica e os critérios impostos à instituição, incluído o apoio preferencial a grandes grupos e a "campeões nacionais". O lucro líquido, de R$ 8,2 bilhões, foi 9,5% menor que o do exercício anterior, em termos nominais, mas os números teriam sido piores sem uma ajuda especial de última hora. A queda teria sido maior, se o banco tivesse registrado a desvalorização de ações transferidas pela União, mantidas em caixa, classificadas como disponíveis e consideradas investimentos de longo prazo. Esse registro foi dispensado por decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) tomada em 27 de dezembro. Sem isso, teriam sido retirados mais R$ 2,38 bilhões do lucro líquido. Com isso, a redução de um ano para outro teria sido de 35,9%. Pode-se discutir se foi mais um caso de maquiagem, mas esse é provavelmente o ponto menos importante.
As perdas mais visíveis ocorreram nas operações do BNDESPar, a subsidiária responsável pelas participações em empresas. O lucro caiu de R$ 4,31 bilhões em 2011 para R$ 298 milhões no ano passado - uma redução de 93,1%. O valor da carteira de ações diminuiu de R$ 89,7 bilhões para R$ 78,2 bilhões. As principais fontes de dividendos - Vale, Eletrobrás e Petrobrás - reduziram seus pagamentos. Foi necessário registrar perdas importantes, algumas conhecidas há algum tempo. Provisões para perdas praticamente certas chegaram a R$ 3,32 bilhões.
Esse valor incluiu R$ 865 milhões aplicados na LBR-Lácteos, um grande grupo constituído com apoio do banco (participação de 30,28%) e atualmente em recuperação judicial. Houve outras apostas erradas, com perdas consideráveis, na formação de megaempreendimentos.
Como acionista e como financiador, o BNDES tem-se notabilizado pela seleção de maus negócios ou, simplesmente, pela escolha de prioridades com escasso ou nenhum significado estratégico para o desenvolvimento econômico e social do País. Algumas de suas operações mais estranhas ocorreram no ramo de frigoríficos, mas a lista de iniciativas discutíveis é ampla. Dentre as mais notáveis, será difícil de esquecer a quase participação do BNDES na associação, afinal frustrada, do Grupo Pão de Açúcar com o ramo brasileiro do Carrefour. Antes do recuo do banco, a imprensa apontou o equívoco e os perigos do envolvimento naquela operação.
A política de formação de campeões nacionais é apenas uma das distorções do BNDES. Algumas dessas operações tem resultado em perdas financeiras, mas também esse é só um dos pontos negativos. O BNDES claramente perdeu o rumo e se afastou de suas tradicionais funções estratégicas. O apoio preferencial a grandes grupos - alguns estatais, como a Petrobrás - é parte dessa grande distorção. As empresas maiores absorveram em 2012 dois terços dos recursos liberados pelo banco.
O total dos desembolsos, de R$ 156 bilhões, foi maior que o do ano anterior, mas inferior, em termos reais, aos volumes liberados em 2009 e 2010, segundo relatório divulgado recentemente pela presidência do BNDES. As medidas oficiais de estímulo ao investimento têm sido insuficientes, portanto, para entusiasmar o empresariado. Há alguma demanda de recursos, mas em volume insuficiente para as mudanças necessárias no sistema produtivo.
Em conjunto, as ações da política econômica têm sido muito mais favoráveis à elevação do consumo do que ao crescimento da produção e do potencial produtivo. Parte do fiasco da política oficial é explicável, sem dúvida, pelo desastrado intervencionismo do governo. A desvalorização dos papéis da Petrobrás e da Eletrobrás e o enfraquecimento financeiro das duas empresas são conseqüências dessa orientação. Também esses erros se refletem nos resultados do BNDESPar e do BNDES, afetados pela desvalorização dos papéis e pela menor lucratividade das duas grandes estatais.
A miséria para além do marketing - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 27/02
A presidente Dilma Rousseff anunciou, na terça-feira da semana passada, a ampliação de benefícios do Bolsa Família para retirar 2,5 milhões de pessoas cadastradas no programa da linha abaixo da renda per-capita de R$ 70 mensais.
No dia seguinte, não por acaso, Dilma, ao lado de Lula, da cúpula do PT, parlamentares do partido, aliados e militância participaram de uma festa pelos dez anos de poder petista e 33 de existência da legenda. Foi uma moldura adequada para o lançamento prematuro da candidatura da presidente à reeleição.
A solenidade do anúncio da extensão do BF abriu a programação político-eleitoral destes dias e teve um tom indisfarçável de campanha. O mote, afinal, é irresistível para qualquer candidato: “O fim da miséria”. Partido muito competente em propaganda e marketing, o PT saberá o que fazer com esta bandeira. Não se deve, mesmo, desprezar a ajuda do Bolsa Família na redução da pobreza. O governo estima que, desde a chegada do PT ao Planalto, 36 milhões foram resgatados do pauperismo, um processo que só tem sido possível porque houve a estabilização da economia, com o lançamento do Plano Real em 1994, por Itamar Franco e Fernando Henrique. E tão importante, ou mais, que a renda em si são a exigência da frequência escolar dos filhos dos beneficiários do programa e consultas médicas periódicas, contrapartidas já exigidas na Era FH.
A esperteza política na ampliação do BF para retirar pessoas abaixo da renda de mensal de R$ 70 é que esta é a fronteira que estatisticamente define a pobreza absoluta — quem recebe R$ 71 não é considerado um “miserável”. Um ou dois reais catapultam o pobre para outra categoria social. Mas daí a alardear que “a miséria acabou”, vai grande distância.
Em artigo publicado na “Folha de S.Paulo” de segunda feira, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, e Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirmam que não desaparecerá a pobreza extrema, mas no âmbito do Bolsa Família e no conceito de renda.
O esclarecimento não deve contentar os marqueteiros petistas, sempre afiados para anunciar conquistas nunca antes realizadas. De fato, não é apenas a renda que define o estágio social de um país, por exemplo, como já ensinou o economista indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel, idealizador do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), consagrado pela ONU como mensurador de desenvolvimento. E há carências enormes no Brasil que impedem o anúncio do “fim da miséria”. Vale lembrar: a média nacional de residências com tratamento de esgoto é de apenas 38%; só 7% das 5.568 prefeituras têm projetos de saneamento básico para suas populações; há índices deploráveis na Educação etc.
Existem inúmeras estatísticas desse tipo. Espera-se que sejam lembradas em meio ao barulho da propaganda política.
A presidente Dilma Rousseff anunciou, na terça-feira da semana passada, a ampliação de benefícios do Bolsa Família para retirar 2,5 milhões de pessoas cadastradas no programa da linha abaixo da renda per-capita de R$ 70 mensais.
No dia seguinte, não por acaso, Dilma, ao lado de Lula, da cúpula do PT, parlamentares do partido, aliados e militância participaram de uma festa pelos dez anos de poder petista e 33 de existência da legenda. Foi uma moldura adequada para o lançamento prematuro da candidatura da presidente à reeleição.
A solenidade do anúncio da extensão do BF abriu a programação político-eleitoral destes dias e teve um tom indisfarçável de campanha. O mote, afinal, é irresistível para qualquer candidato: “O fim da miséria”. Partido muito competente em propaganda e marketing, o PT saberá o que fazer com esta bandeira. Não se deve, mesmo, desprezar a ajuda do Bolsa Família na redução da pobreza. O governo estima que, desde a chegada do PT ao Planalto, 36 milhões foram resgatados do pauperismo, um processo que só tem sido possível porque houve a estabilização da economia, com o lançamento do Plano Real em 1994, por Itamar Franco e Fernando Henrique. E tão importante, ou mais, que a renda em si são a exigência da frequência escolar dos filhos dos beneficiários do programa e consultas médicas periódicas, contrapartidas já exigidas na Era FH.
A esperteza política na ampliação do BF para retirar pessoas abaixo da renda de mensal de R$ 70 é que esta é a fronteira que estatisticamente define a pobreza absoluta — quem recebe R$ 71 não é considerado um “miserável”. Um ou dois reais catapultam o pobre para outra categoria social. Mas daí a alardear que “a miséria acabou”, vai grande distância.
Em artigo publicado na “Folha de S.Paulo” de segunda feira, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, e Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirmam que não desaparecerá a pobreza extrema, mas no âmbito do Bolsa Família e no conceito de renda.
O esclarecimento não deve contentar os marqueteiros petistas, sempre afiados para anunciar conquistas nunca antes realizadas. De fato, não é apenas a renda que define o estágio social de um país, por exemplo, como já ensinou o economista indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel, idealizador do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), consagrado pela ONU como mensurador de desenvolvimento. E há carências enormes no Brasil que impedem o anúncio do “fim da miséria”. Vale lembrar: a média nacional de residências com tratamento de esgoto é de apenas 38%; só 7% das 5.568 prefeituras têm projetos de saneamento básico para suas populações; há índices deploráveis na Educação etc.
Existem inúmeras estatísticas desse tipo. Espera-se que sejam lembradas em meio ao barulho da propaganda política.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“É uma vergonha nacional, indefensável e inexplicável”
Carlos Sampaio (SP), líder do PSDB, sobre os 14º e 15º salários de parlamentares
ACUSADO DE ESTELIONATO INSPIRA DECISÃO DO TCU
Representação de uma empresa de consultoria “GF”, de Paulo Godoy, de São Paulo, fez o ministro Walton Rodrigues, do Tribunal de Contas da União, conceder cautela contra a estatal de ferrovias Valec, suspendendo duas licitações, uma delas já concluída, no valor de R$ 800 milhões, para a compra de trilhos de 2 mil km das ferrovias Norte-Sul e Leste-Oeste. Godoy é acusado em 72 processos, de estelionato a contrabando e descaminho, e de chantagear a vencedora da licitação.
LEILÃO INTERNACIONAL
A estatal Valec convidou empresas nacionais e internacionais ao leilão de menor preço para fornecer trilhos, vencido pela brasileira PNG.
CHANTAGEM
Sócios da PNG, vencedora do leilão, dizem que Godoy os chantageou, exigindo parte do negócio. Do contrário, “melaria” a licitação no TCU.
A CONTA É NOSSA
Sem trilhos, as obras das ferrovias serão paralisadas, cancelando 30 mil empregos e provocando prejuízo mensal de R$ 50 milhões à Valec.
FAZ UM X
Com o arranha-céu de Eike Batista, a Marina da Glória, maravilha tombada pelo Patrimônio no Rio, passará a ser chamada de Ex-Marina.
DILMA IGNORA CONGRESSO E LIDERA ‘FÁBRICA DE VETOS’
Considerada campeã de vetos no Congresso, a presidente Dilma descartou mais de 70 itens aprovados pelos parlamentares desde que a Suprema Corte obrigou o Congresso a votar os três mil vetos presidenciais acumulados ao longo dos últimos dez anos. Segundo levantamento do PDT, a maioria dos vetos – publicados entre 15 de dezembro de 2012 e primeiro de fevereiro deste ano – é parcial.
PROBLEMA DELES
Dilma também vetou na íntegra matérias aprovadas por unanimidade no Congresso, como a que dá autonomia a defensorias públicas.
MEDO DA RASTEIRA
Para o presidente do Senado, Renan Calheiros, o jeito é esperar nova decisão do STF: “O governo tem grande preocupação com os vetos”.
CARNAVALESCA
Voltou à moda a marchinha da “cidade que seduz”. No Rio falta água, porque de noite faltou luz, desligando o abastecimento da cidade.
TELHADO DE VIDRO
Uma jovem do movimento de mulheres do PDT foi agredida, segunda (25), numa manifestação diante da Fundação Alberto Pasqualini-Leonel Brizola, em Brasília, onde despacha o mandachuva Carlos Lupi.
ESPERANÇA
Advogado de Henrique Pizzolato, Marthius Lobato vai analisar com lupa possíveis “omissões e contradições” nos autos, com a publicação do acórdão do julgamento do mensalão, que condenou seu cliente, ex-diretor do Banco do Brasil, a doze anos e sete meses de prisão.
HORTA GARANTIDA
O presidente do Senegal, Macky Sall, anunciou eufórico nas TVs locais a ajuda de US$ 200 milhões para a agricultura, prometida por Dilma no encontro África-América do Sul na Guiné Equatorial, semana passada.
BYE, BYE, EXCELÊNCIA
Agora aos 70, completados ontem, o embaixador Ruy Nogueira deixa a secretaria-geral do Itamaraty. Membro da turma do nanoministro Celso Amorim, Nogueira desfrutou da sombra do então poderoso Delfim Netto. A aposentadoria dará chance ao dinamismo e oxigenará a Casa.
NO MUNDO DA LUA
O líder do PR, Anthony Garotinho (RJ), pede votos em seu blog para mandar, literalmente, o filho Anthony Matheus para o espaço. O garoto, estudante de Engenharia, participa de seleção para astronauta.
INÓCUA
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) critica ação questionando a vinculação da classificação indicativa ao horário de transmissão do conteúdo na televisão: “Se derrubarem, a classificação ficará inócua”.
AMEAÇA
Do deputado mineiro Dr. Grilo (PSL) sobre possível candidatura do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) ao governo de Minas em 2014: “O difícil é ele ter apoio, já que mal atende a bancada”.
PORTA DO XADREZ
Curiosa a defesa do “dimenor” que a torcida organizada do Corinthians arranjou, como nas gangues, para assumir o assassinato do jovem torcedor boliviano. O advogado disse que vai provar a culpa do cliente.
PENSANDO BEM...
...enquanto dezenas de repórteres perseguem o “guri sinaleiro” do Corinthians, a “Rose Fandangueira” do Lula não pode ser perturbada.
PODER SEM PUDOR
O RONCO DE CHATÔ
Certa noite, a 10 mil pés de altitude, a bordo de um velho e ronceiro "Constellation" da Panair, entre Roma e Recife, Assis Chateaubriand, numa cadeira ao lado, confidenciou ao jornalista Murilo Mello Filho:
- Com essas frequentes viagens e os seus diferentes fusos horários, já perdi até a noção de dormir. De noite, em casa, fico de olho aberto. De dia, em público, estou dormindo muito. E o pior é que ronco bastante.
Carlos Sampaio (SP), líder do PSDB, sobre os 14º e 15º salários de parlamentares
ACUSADO DE ESTELIONATO INSPIRA DECISÃO DO TCU
Representação de uma empresa de consultoria “GF”, de Paulo Godoy, de São Paulo, fez o ministro Walton Rodrigues, do Tribunal de Contas da União, conceder cautela contra a estatal de ferrovias Valec, suspendendo duas licitações, uma delas já concluída, no valor de R$ 800 milhões, para a compra de trilhos de 2 mil km das ferrovias Norte-Sul e Leste-Oeste. Godoy é acusado em 72 processos, de estelionato a contrabando e descaminho, e de chantagear a vencedora da licitação.
LEILÃO INTERNACIONAL
A estatal Valec convidou empresas nacionais e internacionais ao leilão de menor preço para fornecer trilhos, vencido pela brasileira PNG.
CHANTAGEM
Sócios da PNG, vencedora do leilão, dizem que Godoy os chantageou, exigindo parte do negócio. Do contrário, “melaria” a licitação no TCU.
A CONTA É NOSSA
Sem trilhos, as obras das ferrovias serão paralisadas, cancelando 30 mil empregos e provocando prejuízo mensal de R$ 50 milhões à Valec.
FAZ UM X
Com o arranha-céu de Eike Batista, a Marina da Glória, maravilha tombada pelo Patrimônio no Rio, passará a ser chamada de Ex-Marina.
DILMA IGNORA CONGRESSO E LIDERA ‘FÁBRICA DE VETOS’
Considerada campeã de vetos no Congresso, a presidente Dilma descartou mais de 70 itens aprovados pelos parlamentares desde que a Suprema Corte obrigou o Congresso a votar os três mil vetos presidenciais acumulados ao longo dos últimos dez anos. Segundo levantamento do PDT, a maioria dos vetos – publicados entre 15 de dezembro de 2012 e primeiro de fevereiro deste ano – é parcial.
PROBLEMA DELES
Dilma também vetou na íntegra matérias aprovadas por unanimidade no Congresso, como a que dá autonomia a defensorias públicas.
MEDO DA RASTEIRA
Para o presidente do Senado, Renan Calheiros, o jeito é esperar nova decisão do STF: “O governo tem grande preocupação com os vetos”.
CARNAVALESCA
Voltou à moda a marchinha da “cidade que seduz”. No Rio falta água, porque de noite faltou luz, desligando o abastecimento da cidade.
TELHADO DE VIDRO
Uma jovem do movimento de mulheres do PDT foi agredida, segunda (25), numa manifestação diante da Fundação Alberto Pasqualini-Leonel Brizola, em Brasília, onde despacha o mandachuva Carlos Lupi.
ESPERANÇA
Advogado de Henrique Pizzolato, Marthius Lobato vai analisar com lupa possíveis “omissões e contradições” nos autos, com a publicação do acórdão do julgamento do mensalão, que condenou seu cliente, ex-diretor do Banco do Brasil, a doze anos e sete meses de prisão.
HORTA GARANTIDA
O presidente do Senegal, Macky Sall, anunciou eufórico nas TVs locais a ajuda de US$ 200 milhões para a agricultura, prometida por Dilma no encontro África-América do Sul na Guiné Equatorial, semana passada.
BYE, BYE, EXCELÊNCIA
Agora aos 70, completados ontem, o embaixador Ruy Nogueira deixa a secretaria-geral do Itamaraty. Membro da turma do nanoministro Celso Amorim, Nogueira desfrutou da sombra do então poderoso Delfim Netto. A aposentadoria dará chance ao dinamismo e oxigenará a Casa.
NO MUNDO DA LUA
O líder do PR, Anthony Garotinho (RJ), pede votos em seu blog para mandar, literalmente, o filho Anthony Matheus para o espaço. O garoto, estudante de Engenharia, participa de seleção para astronauta.
INÓCUA
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) critica ação questionando a vinculação da classificação indicativa ao horário de transmissão do conteúdo na televisão: “Se derrubarem, a classificação ficará inócua”.
AMEAÇA
Do deputado mineiro Dr. Grilo (PSL) sobre possível candidatura do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) ao governo de Minas em 2014: “O difícil é ele ter apoio, já que mal atende a bancada”.
PORTA DO XADREZ
Curiosa a defesa do “dimenor” que a torcida organizada do Corinthians arranjou, como nas gangues, para assumir o assassinato do jovem torcedor boliviano. O advogado disse que vai provar a culpa do cliente.
PENSANDO BEM...
...enquanto dezenas de repórteres perseguem o “guri sinaleiro” do Corinthians, a “Rose Fandangueira” do Lula não pode ser perturbada.
PODER SEM PUDOR
O RONCO DE CHATÔ
Certa noite, a 10 mil pés de altitude, a bordo de um velho e ronceiro "Constellation" da Panair, entre Roma e Recife, Assis Chateaubriand, numa cadeira ao lado, confidenciou ao jornalista Murilo Mello Filho:
- Com essas frequentes viagens e os seus diferentes fusos horários, já perdi até a noção de dormir. De noite, em casa, fico de olho aberto. De dia, em público, estou dormindo muito. E o pior é que ronco bastante.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Novo retrato do Brasil – Salário de domésticas é o que mais sobe no país
- Folha: Auditoria aponta falas e má gestão nos portos
- Estadão: Tesouro deve injetar até R$ 8 bilhões no BNDES
- Correio: Justiça barra supersalários. Agora é a vez do 14º e do 15º
- Estado de Minas: Caso Bruno – Mais um policial sob investigação
- Jornal do Commercio: Seca mais perto do Recife
- Zero Hora: Santa Maria, 27/01/2013
terça-feira, fevereiro 26, 2013
A arte de ser "ex" - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
A renúncia de Bento XVI trará a novidade da figura de um ex-papa em nosso mundo. Até a expressão soa estranha. Fazem parte da vida contemporânea ex-presidentes, ex-primeiros-ministros e até ex-reis (como tantos destronados ao redor do planeta ou como Edward VIII, que abdicou do trono britânico para se casar com a plebeia Wallis Simpson). A partir de 30 de abril, data para a qual a rainha Beatrix da Holanda programou sua abdicação em favor do filho, teremos mais um caso. Para encontrar um ex-papa, no entanto, só retrocedendo aos confins da Antiguidade ou da Idade Média. Ex-papas não fazem parte do repertório dos nascidos nos últimos muitos séculos.
Perguntas que se impõem: que faz um ex-papa? Conseguirá ele "desencarnar" do cargo? Sentirá saudade do tempo em que reinou? Quererá influenciar o governo do sucessor? Abrigará o secreto (ou nem tão secreto) desejo de voltar ao posto?
Bento XVI de início se encaminhará, como prometeu, a uma vida de recolhimento. Os "ex", mesmo os mais poderosos, sempre começam a nova etapa com a determinação de afastar-se o mais possível dos encargos, pompas e atributos da antiga função. Imaginemos, no entanto, como exercício de ficção, que, não tarde muito, ele se entedie da nova vida. Resolve então fundar um instituto. Dá-lhe o nome de Instituto Bento XVI e nele montará um escritório, no qual se ocupará de uma densa agenda: audiências a bispos e cardeais, bem como a leigos de diversa extração (até mesmo chefes de estado); publicação de folhetos sobre as excelências de sua administração; organização de seminários sobre os rumos da Igreja e a sorte dos povos.
As audiências por vezes serão a pessoas com interesses em favores da burocracia vaticana, o que alimentará o rumor de que o "ex" continua a exercer direta influência nos rumos da instituição. Outras vezes, serão a ocupantes de altas funções no novo pontificado, os equivalentes a ministros num governo nacional, e aí será pior: dará a impressão de que a fidelidade professada por tais auxiliares ao "ex" é maior do que a devida ao atual ocupante do cargo. Bento XVI não se abalará. Suas atividades tomarão ritmo cada vez mais intenso, e às audiências ele acrescentará as conferências, as aparições públicas, o comparecimento a cerimônias oficiais. Situação mais equívoca ocorrerá se o conclave consagrar um candidato de currículo pobre e pouco peso político, eleito graças ao aberto empenho do antecessor. Dirão que Bento XVI foi capaz de eleger "um poste", o que não desagradará ao renunciante — muito pelo contrário — e aumentará seu prestígio sobre uma cada vez mais extensa base aliada de cardeais, bispos e párocos.
A certa altura o ex-papa sentirá saudade das viagens do período do pontificado, e quererá realizar "caravanas" ao redor do mundo para manter a chama de seu legado e a continuidade da luta em favor da Igreja e da felicidade dos povos. Percorrerá então as diversas dioceses, da Europa à Oceania, da Ásia às Américas, reunindo-se nas diferentes escalas com autoridades religiosas e civis e, em cada local, rezando missas campais e falando à massa de povo. Mais do que nunca, vai-se falar de governo paralelo. O sucessor se sentirá secretamente constrangido, mas afinal é o poste, e jurará sempre que Bento XVI só ajuda, com sua experiência e sua sabedoria.
Estará sempre na pauta a possibilidade de o ex-papa voltar ao cargo. Não se trata de especulação sem sentido, dada a desenvoltura com que se lança, seja a negociações de bastidores, seja a atividades públicas. Pode um renunciante aspirar a uma reeleição? Os doutos escarafuncham o direito canônico e concluem que nada o impede. Bento XVI insiste e repete que seu exclusivo propósito é garantir um bom governo ao sucessor, isso e nada mais, mas nunca afasta com todas as letras a possibilidade de voltar. Ela fica no ar, o que muito o satisfaz; é um modo de conservá-lo no jogo, e conservar-se no jogo é o objetivo que a cada dia, desde a primeira missa, na madrugada, até a última oração da noite, dá sentido e alento a seus dias.
O leitor sabe que a ficção aqui apresentada não tem nada a ver com o que se conhece e o que se espera de Bento XVI. Ele se retirará do mundo e será um ex-papa tão inativo quanto um papa morto. Mas tem tudo a ver com a arte de ser "ex". Alguns conseguem, outros não.
A renúncia de Bento XVI trará a novidade da figura de um ex-papa em nosso mundo. Até a expressão soa estranha. Fazem parte da vida contemporânea ex-presidentes, ex-primeiros-ministros e até ex-reis (como tantos destronados ao redor do planeta ou como Edward VIII, que abdicou do trono britânico para se casar com a plebeia Wallis Simpson). A partir de 30 de abril, data para a qual a rainha Beatrix da Holanda programou sua abdicação em favor do filho, teremos mais um caso. Para encontrar um ex-papa, no entanto, só retrocedendo aos confins da Antiguidade ou da Idade Média. Ex-papas não fazem parte do repertório dos nascidos nos últimos muitos séculos.
Perguntas que se impõem: que faz um ex-papa? Conseguirá ele "desencarnar" do cargo? Sentirá saudade do tempo em que reinou? Quererá influenciar o governo do sucessor? Abrigará o secreto (ou nem tão secreto) desejo de voltar ao posto?
Bento XVI de início se encaminhará, como prometeu, a uma vida de recolhimento. Os "ex", mesmo os mais poderosos, sempre começam a nova etapa com a determinação de afastar-se o mais possível dos encargos, pompas e atributos da antiga função. Imaginemos, no entanto, como exercício de ficção, que, não tarde muito, ele se entedie da nova vida. Resolve então fundar um instituto. Dá-lhe o nome de Instituto Bento XVI e nele montará um escritório, no qual se ocupará de uma densa agenda: audiências a bispos e cardeais, bem como a leigos de diversa extração (até mesmo chefes de estado); publicação de folhetos sobre as excelências de sua administração; organização de seminários sobre os rumos da Igreja e a sorte dos povos.
As audiências por vezes serão a pessoas com interesses em favores da burocracia vaticana, o que alimentará o rumor de que o "ex" continua a exercer direta influência nos rumos da instituição. Outras vezes, serão a ocupantes de altas funções no novo pontificado, os equivalentes a ministros num governo nacional, e aí será pior: dará a impressão de que a fidelidade professada por tais auxiliares ao "ex" é maior do que a devida ao atual ocupante do cargo. Bento XVI não se abalará. Suas atividades tomarão ritmo cada vez mais intenso, e às audiências ele acrescentará as conferências, as aparições públicas, o comparecimento a cerimônias oficiais. Situação mais equívoca ocorrerá se o conclave consagrar um candidato de currículo pobre e pouco peso político, eleito graças ao aberto empenho do antecessor. Dirão que Bento XVI foi capaz de eleger "um poste", o que não desagradará ao renunciante — muito pelo contrário — e aumentará seu prestígio sobre uma cada vez mais extensa base aliada de cardeais, bispos e párocos.
A certa altura o ex-papa sentirá saudade das viagens do período do pontificado, e quererá realizar "caravanas" ao redor do mundo para manter a chama de seu legado e a continuidade da luta em favor da Igreja e da felicidade dos povos. Percorrerá então as diversas dioceses, da Europa à Oceania, da Ásia às Américas, reunindo-se nas diferentes escalas com autoridades religiosas e civis e, em cada local, rezando missas campais e falando à massa de povo. Mais do que nunca, vai-se falar de governo paralelo. O sucessor se sentirá secretamente constrangido, mas afinal é o poste, e jurará sempre que Bento XVI só ajuda, com sua experiência e sua sabedoria.
Estará sempre na pauta a possibilidade de o ex-papa voltar ao cargo. Não se trata de especulação sem sentido, dada a desenvoltura com que se lança, seja a negociações de bastidores, seja a atividades públicas. Pode um renunciante aspirar a uma reeleição? Os doutos escarafuncham o direito canônico e concluem que nada o impede. Bento XVI insiste e repete que seu exclusivo propósito é garantir um bom governo ao sucessor, isso e nada mais, mas nunca afasta com todas as letras a possibilidade de voltar. Ela fica no ar, o que muito o satisfaz; é um modo de conservá-lo no jogo, e conservar-se no jogo é o objetivo que a cada dia, desde a primeira missa, na madrugada, até a última oração da noite, dá sentido e alento a seus dias.
O leitor sabe que a ficção aqui apresentada não tem nada a ver com o que se conhece e o que se espera de Bento XVI. Ele se retirará do mundo e será um ex-papa tão inativo quanto um papa morto. Mas tem tudo a ver com a arte de ser "ex". Alguns conseguem, outros não.
O futuro traidor - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 26/02
Economicamente, Cuba falhou como falharam todas as experiências coletivistas da história
ANOS ATRÁS, quando Ingrid Betancourt foi resgatada da selva colombiana, o Partido Comunista Português recusou-se a saudar o feito. Motivo?
A sra. Betancourt tinha sido salva pelo presidente Álvaro Uribe das mãos das FARC. E entre Uribe e o "comandante" Enrique, os comunistas lusos não escondiam as suas simpatias.
Na altura, no jornal "Expresso", ainda perguntei aos camaradas se a sra. Betancourt deveria ser jogada de volta à selva. Sobretudo se se provasse que o resgate tinha sido feito com o intolerável apoio americano. O PCP, essa deliciosa relíquia stalinista que persiste na Europa Ocidental, não chegou a responder.
Felizmente, vejo com bons olhos que Portugal não é caso único em matéria de atraso político e até intelectual. Era Eça de Queirós quem dizia, com piada, que os brasileiros eram portugueses inchados pelo calor. O que significa que os vícios portugueses, no Brasil, também incham com a temperatura.
Assim foi com a blogueira cubana que, em visita ao Brasil, foi acusada de mil torpezas por uma parte da esquerda local. Mas, entre todos os insultos, um deles dominou a minha atenção: a sra. Yoani Sánchez denuncia os abusos da ditadura castrista porque existe dinheiro americano por detrás. Ela é, resumindo, uma traidora do seu próprio país.
A acusação é interessante porque existem vários equívocos nela.
A primeira, evidente, é imaginar o que diria essa esquerda fanática e pró-castrista se a sra. Yoani Sánchez, sem dinheiro americano (como, aliás, parece ser o caso), continuasse as suas críticas ao regime de Havana. Será que assim, descontaminada de qualquer corrupção "imperialista", os críticos que a insultaram perdoariam a traição à pátria?
Obviamente que não. E "obviamente" porque existe um segundo equívoco na acusação, próprio do pensamento totalitário: a ideia funesta de que um país se confunde com um regime que fala em nome do povo.
Da União Soviética comunista à Alemanha nazista, sem esquecer as atrocidades cometidas por Mao (na China) ou pelo pequeno Fidel (em Cuba), não houve ditador que não tenha cometido esse abuso, digamos, epistemológico: "O Estado sou eu", para citar a famosa frase do absolutista Luís 14. Ou, em alternativa, Cuba são os Castro.
Acontece que não são. Cuba pertence aos cubanos, atraiçoados por Fidel em 1959. E o mais irônico é que as promessas do ditador eram outras: acabar com o "bordel" de Fulgencio Batista, realizar eleições livres no curto prazo e até, pasme-se, abrir a ilha ao mundo.
Todos sabemos o resto da história, feito de fuzilamentos no "paredón", presos políticos, restrição das mais básicas liberdades (como a de sair do país) e uma miséria material que os turistas ocidentais, em viagens quase zoológicas, tomam por exótica. De fato, não há nada mais exótico do que visitar seres humanos em cativeiro.
E quem acredita que essa miséria material se explica com o "embargo americano", das duas, uma: ou é ignorante, ou é simplesmente um fanático. O "embargo americano" existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo (como a própria blogueira o faz). Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano.
Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe. Economicamente, Cuba falhou como falharam todas as experiências coletivistas da história. Com ou sem embargos.
Yoani Sánchez é uma traidora dos fabulosos irmãos Castro? Brindo a ela. Como brindo a todos os traidores que lutaram contra todas as ditaduras. E aqui incluo o velhinho PC português, que lutou (e bem) contra a ditadura de Salazar. Mesmo que o tenha feito em nome de uma ditadura moscovita de sentido inverso.
Porque este é o ponto: no dia em que o meu país for tomado de assalto por um torcionário qualquer, seja ele de esquerda ou de direita, e a democracia deixar de existir em Portugal, agradeço antecipadamente todo o apoio estrangeiro para derrubar esse regime.
E publicamente declaro: aceito dinheiro brasileiro, armas americanas e até espionagem israelense.
Nesse dia, eu serei um "traidor da pátria". E com todo o prazer.
Economicamente, Cuba falhou como falharam todas as experiências coletivistas da história
ANOS ATRÁS, quando Ingrid Betancourt foi resgatada da selva colombiana, o Partido Comunista Português recusou-se a saudar o feito. Motivo?
A sra. Betancourt tinha sido salva pelo presidente Álvaro Uribe das mãos das FARC. E entre Uribe e o "comandante" Enrique, os comunistas lusos não escondiam as suas simpatias.
Na altura, no jornal "Expresso", ainda perguntei aos camaradas se a sra. Betancourt deveria ser jogada de volta à selva. Sobretudo se se provasse que o resgate tinha sido feito com o intolerável apoio americano. O PCP, essa deliciosa relíquia stalinista que persiste na Europa Ocidental, não chegou a responder.
Felizmente, vejo com bons olhos que Portugal não é caso único em matéria de atraso político e até intelectual. Era Eça de Queirós quem dizia, com piada, que os brasileiros eram portugueses inchados pelo calor. O que significa que os vícios portugueses, no Brasil, também incham com a temperatura.
Assim foi com a blogueira cubana que, em visita ao Brasil, foi acusada de mil torpezas por uma parte da esquerda local. Mas, entre todos os insultos, um deles dominou a minha atenção: a sra. Yoani Sánchez denuncia os abusos da ditadura castrista porque existe dinheiro americano por detrás. Ela é, resumindo, uma traidora do seu próprio país.
A acusação é interessante porque existem vários equívocos nela.
A primeira, evidente, é imaginar o que diria essa esquerda fanática e pró-castrista se a sra. Yoani Sánchez, sem dinheiro americano (como, aliás, parece ser o caso), continuasse as suas críticas ao regime de Havana. Será que assim, descontaminada de qualquer corrupção "imperialista", os críticos que a insultaram perdoariam a traição à pátria?
Obviamente que não. E "obviamente" porque existe um segundo equívoco na acusação, próprio do pensamento totalitário: a ideia funesta de que um país se confunde com um regime que fala em nome do povo.
Da União Soviética comunista à Alemanha nazista, sem esquecer as atrocidades cometidas por Mao (na China) ou pelo pequeno Fidel (em Cuba), não houve ditador que não tenha cometido esse abuso, digamos, epistemológico: "O Estado sou eu", para citar a famosa frase do absolutista Luís 14. Ou, em alternativa, Cuba são os Castro.
Acontece que não são. Cuba pertence aos cubanos, atraiçoados por Fidel em 1959. E o mais irônico é que as promessas do ditador eram outras: acabar com o "bordel" de Fulgencio Batista, realizar eleições livres no curto prazo e até, pasme-se, abrir a ilha ao mundo.
Todos sabemos o resto da história, feito de fuzilamentos no "paredón", presos políticos, restrição das mais básicas liberdades (como a de sair do país) e uma miséria material que os turistas ocidentais, em viagens quase zoológicas, tomam por exótica. De fato, não há nada mais exótico do que visitar seres humanos em cativeiro.
E quem acredita que essa miséria material se explica com o "embargo americano", das duas, uma: ou é ignorante, ou é simplesmente um fanático. O "embargo americano" existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo (como a própria blogueira o faz). Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano.
Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe. Economicamente, Cuba falhou como falharam todas as experiências coletivistas da história. Com ou sem embargos.
Yoani Sánchez é uma traidora dos fabulosos irmãos Castro? Brindo a ela. Como brindo a todos os traidores que lutaram contra todas as ditaduras. E aqui incluo o velhinho PC português, que lutou (e bem) contra a ditadura de Salazar. Mesmo que o tenha feito em nome de uma ditadura moscovita de sentido inverso.
Porque este é o ponto: no dia em que o meu país for tomado de assalto por um torcionário qualquer, seja ele de esquerda ou de direita, e a democracia deixar de existir em Portugal, agradeço antecipadamente todo o apoio estrangeiro para derrubar esse regime.
E publicamente declaro: aceito dinheiro brasileiro, armas americanas e até espionagem israelense.
Nesse dia, eu serei um "traidor da pátria". E com todo o prazer.
A magia do futebol - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 26/02
SÃO PAULO - O futebol é mágico. Tem o dom de fazer pessoas inteligentes defenderem posições que, dificilmente, sustentariam em outros campos de atividade. Refiro-me à decisão da Conmebol de punir o Corinthians, excluindo sua torcida de todas as partidas da Libertadores.
À primeira leitura, essa pode parecer uma sanção razoável, diante da enormidade que foi a morte do garoto boliviano atingido por um sinalizador disparado pelas hostes corintianas na última quarta-feira, em Oruro. A esmagadora maioria dos comentaristas que li aprovou a medida.
Pessoalmente, tenho medo da lógica que sustenta o código de punições da Conmebol e de outras confederações -que se apoiam numa ética puramente consequencialista, na qual só o que importa são os resultados das ações. Tudo o que produza mais bem do que mal fica inapelavelmente autorizado. Para evitar novas mortes e disciplinar o mau comportamento das torcidas organizadas, torna-se lícito fechar os portões do estádio para corintianos, mesmo que isso prejudique os jogadores e milhares de simpatizantes do time, que não fizeram nada de errado.
Não sou um inimigo do consequencialismo. Ao contrário, tenho grande simpatia por ele, notadamente na bioética. Mas não podemos perder de vista que, em estado puro, ele leva a paradoxos. Numa visão estritamente consequencialista, o Estado pode deter um criminoso, ameaçando matar sua família, e o médico pode sacrificar um paciente saudável para, com seus órgãos, salvar a vida de cinco pessoas na fila do transplante.
Para não se divorciar inteiramente de nossas intuições de justiça, o consequencialismo precisa ser temperado por princípios deontológicos ou regras que preservem garantias individuais. É nisso que fracassam os novos códigos futebolísticos.
Para muitos, o esporte deve servir de exemplo. A pergunta é: exemplo de quê? De como agir com justiça ou de como resolver problemas?
SÃO PAULO - O futebol é mágico. Tem o dom de fazer pessoas inteligentes defenderem posições que, dificilmente, sustentariam em outros campos de atividade. Refiro-me à decisão da Conmebol de punir o Corinthians, excluindo sua torcida de todas as partidas da Libertadores.
À primeira leitura, essa pode parecer uma sanção razoável, diante da enormidade que foi a morte do garoto boliviano atingido por um sinalizador disparado pelas hostes corintianas na última quarta-feira, em Oruro. A esmagadora maioria dos comentaristas que li aprovou a medida.
Pessoalmente, tenho medo da lógica que sustenta o código de punições da Conmebol e de outras confederações -que se apoiam numa ética puramente consequencialista, na qual só o que importa são os resultados das ações. Tudo o que produza mais bem do que mal fica inapelavelmente autorizado. Para evitar novas mortes e disciplinar o mau comportamento das torcidas organizadas, torna-se lícito fechar os portões do estádio para corintianos, mesmo que isso prejudique os jogadores e milhares de simpatizantes do time, que não fizeram nada de errado.
Não sou um inimigo do consequencialismo. Ao contrário, tenho grande simpatia por ele, notadamente na bioética. Mas não podemos perder de vista que, em estado puro, ele leva a paradoxos. Numa visão estritamente consequencialista, o Estado pode deter um criminoso, ameaçando matar sua família, e o médico pode sacrificar um paciente saudável para, com seus órgãos, salvar a vida de cinco pessoas na fila do transplante.
Para não se divorciar inteiramente de nossas intuições de justiça, o consequencialismo precisa ser temperado por princípios deontológicos ou regras que preservem garantias individuais. É nisso que fracassam os novos códigos futebolísticos.
Para muitos, o esporte deve servir de exemplo. A pergunta é: exemplo de quê? De como agir com justiça ou de como resolver problemas?
Sobre as chuvas que caíram na Serra do Mar - RICARDO GALUPPO
BRASIL ECONÔMICO - 26/02
É impressionante como, no Brasil, os responsáveis pela explicação de problemas apelam para argumentos incapazes de convencer a sociedade de que estão certos.
Um dos casos mais recentes é o dos dirigentes da Ecovias, empresa que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, o caminho mais curto entre a cidade de São Paulo e o litoral.
Apenas para efeito de registro, ali se cobra o pedágio mais caro do país: RS 21,20. Na noite da última sexta-feira, a Rodovia dos Imigrantes, um conjunto de pontes e viadutos que não oferece um caminho alternativo para o usuário que desce ou sobe a Serra do Mar, foi inundada por um lamaçal que invadiu o asfalto e paralisou o trânsito.
Tragédias acontecem e ninguém pode responsabilizar a Ecovias pela tromba d'água. O problema, no entanto, é que não havia nenhum plano de emergência traçado para enfrentar uma situação daquela natureza.
E a partir do momento em que as chuvas desabaram e a estrada ficou intransitável, os usuários foram abandonados ao deus-dará - sem que aparecesse um funcionário da Ecovias para prestar socorro ou oferecer esclarecimentos.
A explicação oficial é que a empresa foi pega de surpresa. Em apenas duas horas choveu o previsto para um dia inteiro - e isso gerou uma situação de anormalidade completamente fora do padrão.
Por causa dos 150 mm³ de chuvas, um grande deslizamento teve início a mais de meio quilômetro da pista e causou todo o transtorno. Por mais razoável que tenha sido isso mesmo que aconteceu, nada justifica o fato de nenhum plano de emergência ter sido posto em prática. Esse é o problema.
Como o próprio nome indica, planos de emergência existem para lidar com situações inesperadas. Se for para trabalhar dentro dos níveis de normalidade, não é necessário plano algum.
A conclusão que se pode tirar diante das cenas tenebrosas assistidas na Serra do Mar e da morte de pelo menos uma pessoa é que, apesar de ser exigido em contrato, a rodovia mais cara do país simplesmente não tem um plano de emergência. Ou, se tem, não se mostrou competente para colocá-lo em prática diante da necessidade.
O mais absurdo de tudo é alguém ainda dizer que chuvas em excesso nesta época do ano é um fenômeno anormal na região da Serra do Mar. Ninguém no Brasil desconhece o fato de que os litorais dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre novembro e março, sempre estão sujeitos a tempestades - e que, de tanto haver situações anormais, elas acabaram se tornando mais do que esperadas.
Mesmo assim, embora aconteçam todo ano, as tragédias na região sempre pegam de surpresa as pessoas que têm a obrigação de lidar com elas. O Brasil precisa se acostumar à ideia de que nem só de terremotos, vulcões e tsunamis são feitas as catástrofes naturais e que as chuvas de verão também causam tragédias para as quais é sempre preciso estar preparado.
É impressionante como, no Brasil, os responsáveis pela explicação de problemas apelam para argumentos incapazes de convencer a sociedade de que estão certos.
Um dos casos mais recentes é o dos dirigentes da Ecovias, empresa que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, o caminho mais curto entre a cidade de São Paulo e o litoral.
Apenas para efeito de registro, ali se cobra o pedágio mais caro do país: RS 21,20. Na noite da última sexta-feira, a Rodovia dos Imigrantes, um conjunto de pontes e viadutos que não oferece um caminho alternativo para o usuário que desce ou sobe a Serra do Mar, foi inundada por um lamaçal que invadiu o asfalto e paralisou o trânsito.
Tragédias acontecem e ninguém pode responsabilizar a Ecovias pela tromba d'água. O problema, no entanto, é que não havia nenhum plano de emergência traçado para enfrentar uma situação daquela natureza.
E a partir do momento em que as chuvas desabaram e a estrada ficou intransitável, os usuários foram abandonados ao deus-dará - sem que aparecesse um funcionário da Ecovias para prestar socorro ou oferecer esclarecimentos.
A explicação oficial é que a empresa foi pega de surpresa. Em apenas duas horas choveu o previsto para um dia inteiro - e isso gerou uma situação de anormalidade completamente fora do padrão.
Por causa dos 150 mm³ de chuvas, um grande deslizamento teve início a mais de meio quilômetro da pista e causou todo o transtorno. Por mais razoável que tenha sido isso mesmo que aconteceu, nada justifica o fato de nenhum plano de emergência ter sido posto em prática. Esse é o problema.
Como o próprio nome indica, planos de emergência existem para lidar com situações inesperadas. Se for para trabalhar dentro dos níveis de normalidade, não é necessário plano algum.
A conclusão que se pode tirar diante das cenas tenebrosas assistidas na Serra do Mar e da morte de pelo menos uma pessoa é que, apesar de ser exigido em contrato, a rodovia mais cara do país simplesmente não tem um plano de emergência. Ou, se tem, não se mostrou competente para colocá-lo em prática diante da necessidade.
O mais absurdo de tudo é alguém ainda dizer que chuvas em excesso nesta época do ano é um fenômeno anormal na região da Serra do Mar. Ninguém no Brasil desconhece o fato de que os litorais dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre novembro e março, sempre estão sujeitos a tempestades - e que, de tanto haver situações anormais, elas acabaram se tornando mais do que esperadas.
Mesmo assim, embora aconteçam todo ano, as tragédias na região sempre pegam de surpresa as pessoas que têm a obrigação de lidar com elas. O Brasil precisa se acostumar à ideia de que nem só de terremotos, vulcões e tsunamis são feitas as catástrofes naturais e que as chuvas de verão também causam tragédias para as quais é sempre preciso estar preparado.
Brasil sem bloco: falta empenho nos acordos comerciais - MARCOS TROYJO
BRASIL ECONÔMICO - 26/02
No momento em que dezenas de chefes de Estado da União Europeia e da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reuniam em Santiago em janeiro último, também voltavam os olhos para a capital chilena os estrategistas de Washington.
Dali a poucas semanas o Presidente Barack Obama revelaria, em seu discurso ‘State of the Union', que os EUA e a Europa estão em conversações para constituírem uma área de livre comércio até 2015.
Para os EUA, interessa a consolidação da UE como bloco. Washington atribui grande importância à manutenção da configuração comunitária - incluindo o Reino Unido.
Um eventual desmantelamento precipitado pela crise de dívidas soberanas nos países na franja mediterrânea como Grécia e Portugal atrapalha seus objetivos geoestratégicos, sobretudo neste instante em que sua economia parece recuperar-se e a área de livre comércio em que estão inseridos, a NAFTA, é dos poucos arranjos regionais que opera sem problemas.
Os EUA acompanham de perto a movimentação da América Latina como "Comunidade", já que seus membros encontram-se em diferentes velocidades - Colômbia, Peru, Chile e México decolam e se reorganizam em nova área de livre comércio entre si, com diálogo aberto com os EUA. Argentina, Brasil e Venezuela se isolam e patinam.
O Brasil tem dedicado pouco empenho a acordos comerciais bilaterais, e na geometria bloco-a-bloco, é igualmente difícil ressuscitar o diálogo concreto UE-Mercosul.
De um lado, temos a União Europeia ainda atolada em sua própria areia movediça fiscal e o crescimento estagnado. De outro, hoje o Mercosul está mais mais para um "clube de empatias ideológicas" do que um bloco que se movimenta de acordo com objetivos pragmáticos de comércio e investimento.
É claro também que no comércio agrícola, onde os europeus continuam campeões mundiais de protecionismo, mais acesso a mercados seria bem-vindo. No entanto, com a voracidade da demanda chinesa por exportações latino-americanas de commodities agrícolas e minerais, este tema não tem a mesma premência de 10 anos atrás.
Hoje, num nível mais amplo há uma "deseuropeização" dos focos prioritários da América Latina. A boa saúde recente dos fundamentos econômicos latino-americanos e o magnetismo exercido pela China têm contribuído a essa fase mais deseuropeizada.
Da ótica específica do Brasil, temos a maior economia da região, mas isso não se deve por sermos um paradigma de competitividade. Praticamos elevadas barreiras tarifárias a importações, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva.
Temos recebido fluxos volumosos de IEDs sobretudo porque o mercado brasileiro, bastante protegido, acena a empresas globais com margens de retorno muito superiores à média dos mercados da OCDE.
Se o Brasil flexibilizasse suas exigências de conteúdo local, sobretudo em áreas relacionadas a infraestrutura, transportes e logística, inauguraria uma fase "qualitativamente nova" como destino de investimentos europeus - e esta poderia ser a plataforma para um novo diálogo comercial com Europa e também EUA.
No momento em que dezenas de chefes de Estado da União Europeia e da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reuniam em Santiago em janeiro último, também voltavam os olhos para a capital chilena os estrategistas de Washington.
Dali a poucas semanas o Presidente Barack Obama revelaria, em seu discurso ‘State of the Union', que os EUA e a Europa estão em conversações para constituírem uma área de livre comércio até 2015.
Para os EUA, interessa a consolidação da UE como bloco. Washington atribui grande importância à manutenção da configuração comunitária - incluindo o Reino Unido.
Um eventual desmantelamento precipitado pela crise de dívidas soberanas nos países na franja mediterrânea como Grécia e Portugal atrapalha seus objetivos geoestratégicos, sobretudo neste instante em que sua economia parece recuperar-se e a área de livre comércio em que estão inseridos, a NAFTA, é dos poucos arranjos regionais que opera sem problemas.
Os EUA acompanham de perto a movimentação da América Latina como "Comunidade", já que seus membros encontram-se em diferentes velocidades - Colômbia, Peru, Chile e México decolam e se reorganizam em nova área de livre comércio entre si, com diálogo aberto com os EUA. Argentina, Brasil e Venezuela se isolam e patinam.
O Brasil tem dedicado pouco empenho a acordos comerciais bilaterais, e na geometria bloco-a-bloco, é igualmente difícil ressuscitar o diálogo concreto UE-Mercosul.
De um lado, temos a União Europeia ainda atolada em sua própria areia movediça fiscal e o crescimento estagnado. De outro, hoje o Mercosul está mais mais para um "clube de empatias ideológicas" do que um bloco que se movimenta de acordo com objetivos pragmáticos de comércio e investimento.
É claro também que no comércio agrícola, onde os europeus continuam campeões mundiais de protecionismo, mais acesso a mercados seria bem-vindo. No entanto, com a voracidade da demanda chinesa por exportações latino-americanas de commodities agrícolas e minerais, este tema não tem a mesma premência de 10 anos atrás.
Hoje, num nível mais amplo há uma "deseuropeização" dos focos prioritários da América Latina. A boa saúde recente dos fundamentos econômicos latino-americanos e o magnetismo exercido pela China têm contribuído a essa fase mais deseuropeizada.
Da ótica específica do Brasil, temos a maior economia da região, mas isso não se deve por sermos um paradigma de competitividade. Praticamos elevadas barreiras tarifárias a importações, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva.
Temos recebido fluxos volumosos de IEDs sobretudo porque o mercado brasileiro, bastante protegido, acena a empresas globais com margens de retorno muito superiores à média dos mercados da OCDE.
Se o Brasil flexibilizasse suas exigências de conteúdo local, sobretudo em áreas relacionadas a infraestrutura, transportes e logística, inauguraria uma fase "qualitativamente nova" como destino de investimentos europeus - e esta poderia ser a plataforma para um novo diálogo comercial com Europa e também EUA.
Hasta la vista - SONIA RACY
O ESTADÃO - 26/02
Hasta 2
Liderança no ranking da corrupção? China, que apresentou evasão, em dez anos, de US$ 2,7 trilhões, seguida pelo México, com US$ 476 bilhões. Em terceiro lugar… a pequena Malásia (US$ 284 bilhões).
A Rússia, sem esforços, está listada em quinto lugar (US$ 152 bilhões). A Índia vem em oitavo (US$ 123 bilhões). O Brasil? Na 21ª posição, com US$ 35 bilhões.
E a Argentina, tradicional “exportadora” ? Em 36º lugar. Deve ter faltado dinheiro…
Vem coisa aí
O governo Dilma está de olho no comportamento de alguns preços que tiveram aumento do imposto de importação por causa da resolução 39/11, da Camex.
Na mira, uma lista com cerca de cem produtos.
Hora certa
Aécio negocia nova data para participar do Congresso do PSDB de SP. Está praticamente certo que o mineiro falará no dia 12 de março. Só depende da agenda de FHC.
A presença de seu principal cabo eleitoral é imprescindível para o senador.
Menu tucano
Depois de o PT promover, ontem, jantar com convites a R$ 10 mil, o PSDB paulista organiza evento de arrecadação.
Com convites a R$ 1 mil, celebrará os 25 anos do partido. Dia 22 de abril, no Buffet Baiuca.
Escapamento
Argumento central de Kassab à Justiça, no caso Controlar: a anulação do contrato de inspeção veicular seria ilegal – o que daria à empresa direito a pedir indenização.
A defesa foi encaminhada à 7ª Vara Criminal de São Paulo – que decidirá sobre a continuidade do processo.
Na rede
Arnaldo Antunes entrou no hall de artistas que apoiam o novo partido de Marina Silva.
O músico gravou vídeo em que convoca as pessoas a assinarem fichas de apoio à criação da legenda. Entra no ar hoje.
Direto do Oscar
Comemorando seus 86 anos, completados no domingo, a atriz francesa Emmanuelle Riva, do filme Amor, foi à festa pós-premiação da Academia.
Quem conversou durante a noitada com ela notou zero de deslumbre. “Na minha idade, o que me interessa é a surpresa.”
Direto do Oscar 2
Já Jennifer Lawrence foi surpreendida por Jack Nicholson. “Adorei seu tombo e sua rápida recuperação”, brincou ele. Jennifer tropeçou na escada quando subia para receber sua estatueta de Melhor Atriz.
A atriz, aliás, declarou que adorou a canção entoada por Seth MacFarlane sobre os peitos exibidos pelas atrizes em vários filmes: “Foi sensacional”.
Direto do Oscar 3
Enquanto isso, sem parecer que tem apenas 9 anos, a pequena Quvenzhane Wallis arrasava na pista de dança do festão.
Causando muita inveja.
Sem pressa
Revisor do mensalão, Ricardo Lewandowski parece não ter se sentido nem um pouco pressionado pelo relator, Joaquim Barbosa– que anunciou ter finalizado sua parte para a publicação do acórdão do caso.
“Vou usar rigorosamente o prazo regimental, de 60 dias”, disse o ministro à coluna.
Profissional
Em ritmo de implantação de novo modelo de gestão e governança esportiva – que pode se tornar vitrine para outras entidades –, a Confederação Brasileira de Rugby anuncia novidades.
Na presidência, Eduardo Mufarej. No conselho de administração estão Jean-Marc Etlin, do Itaú BBA, Luis Terepins, da Bienal, e a eterna Magic Paula.
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