O ESTADÃO - 02/01
De vez em quando a inflação preocupa, disse muito singelamente o ministro Guido Mantega, num aparente surto de veracidade. Disse bem: de vez em quando. Se fosse uma preocupação mais constante, a inflação estaria muito mais próxima da meta, ou, melhor ainda, a meta seria muito mais baixa e mais parecida com a de países governados mais seriamente. Estaria na faixa de uns 2% a 3%. Mas surtos como esse são raros. O governo continua brincando com os preços, mas o ministro fala durante a maior parte do tempo como se estivesse em outro mundo, num exercício parecido com o duplipensar ou com o uso da novilíngua, Não se combate inflação com o câmbio, disse Mantega, enquanto o Banco Central (BC) jogava dólares no mercado e derrubava a cotação para pouco menos de R$ 2,00. Só os juros e outros instrumentos típicos da política monetária servem para conter a alta de preços, garantiu o ministro, em Brasília, discursando para prefeitos. O prefeito paulistano, Fernando Haddad, confirmava a decisão de manter as tarifas de ônibus até junho, para atenuar o impacto do aumento dos combustíveis. Durante anos, o governo freou os preços da gasolina e do diesel para limitar a inflação e assim prejudicou a Petrobrás. Agora depende de prefeitos e governadores para limitar o efeito de um ajuste atrasado e insuficiente. Mas algum incômodo será causado ao consumidor, porque "acabou a Cide", a contribuição cobrada sobre os combustíveis, admitiu o ministro, Não dá mais - esse o recado ministerial - para compensar com a redução da Cide o encarecimento da gasolina e do diesel. Mas desde quando esse tributo faz parte do arsenal da política monetária?
Ao mesmo tempo, o BC mantém a taxa básica de juros em 7,25%. Afinal, essa é a decisão da presidente da República, embora os instrumentos monetários, segundo o ministro da Fazenda, sejam os únicos adequados - ou os mais apropriados - para o combate à inflação. Poderia também ter mencionado a moderação fiscal, mas quanto a isso ele se mostra muito tranquilo. A política fiscal brasileira, garantiu, é das mais transparentes do mundo, tudo sai no Diário Oficial, e o uso do Fundo Soberano para o reforço das contas foi perfeitamente legítimo. Transparente, nesse caso, é parte da novilíngua. Escrachada e escandalosa seriam palavras mais adequadas para qualificar a maquiagem, denunciada até por gente habituada a apoiar esse governo.
Quanto ao Fundo Soberano, é uma evidente ficção: de onde vêm seus recursos, se as contas públicas nominais são normalmente deficitárias? Fundos dignos desse nome são constituídos com excedentes, em geral acumulados em períodos de prosperidade. O ministro descreve a ação do governo como política contracíclica. Nada mais falso. Políticas desse tipo - atenção à partícula "contra" - consistem basicamente em formar reservas nas boas fases para gastar em tempos difíceis. Na área fiscal, nunca foi seguido esse tipo de estratégia. A ação do governo brasileiro tem sido consistentemente procíclica - farra fiscal quando a receita cresce mais do que o produto interno bruto (PIB) e incentivos quando a economia fraqueja e a arrecadação é afetada.
O ministro continua atribuindo à crise global o fracasso econômico do Brasil no ano passado. Mas o mercado externo deve melhorar e isso favorecerá o País. A explicação combina muito mal com os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os últimos dados sobre o comércio varejista são de novembro, mas servem muito bem para uma avaliação do ano. Nos 12 meses até novembro, o volume de vendas do varejo ampliado, isto é, com inclusão de veículos, componentes e material de construção, foi 8% maior que nos 12 meses anteriores. O volume vendido pelo varejo restrito foi 8,6% superior ao do período encerrado em novembro de 2011.
Essas vendas foram possibilitadas pelos níveis de ocupação e de renda, pelo volume de crédito e pelos cortes de impostos sobre bens de consumo. Em dezembro, o desemprego nas seis áreas metropolitanas cobertas pela pesquisa do IBGE ficou em 4,6%, a menor taxa mensal desde março de 2002, início da série, A média anual, 5,5%, também foi a menor. De janeiro a dezembro, a média da massa de rendimento real habitual foi 6,2% maior que a de 2011.
Ao contrário do observado nos países mais afetados pela crise, o emprego manteve-se alto e o consumo cresceu. As condições de emprego foram favoráveis, em parte, por causa das contratações no setor de serviços, mas em parte, também, pela estratégia dos empresários industriais. Eles preferiram evitar o custo das demissões e as dificuldades para recompor os quadros em caso de reativação. Afinal, falta mão de obra adequada às necessidades da indústria. Parte da força de trabalho disponível nem mesmo atende às condições mínimas para treinamento nas fábricas - uma das consequências do erro na escolha das prioridades, nos últimos dez anos.
Apesar do consumo elevado, a produção industrial em 2012 foi 2,7% inferior à de 2011, segundo o IBGE. A fabricação de bens de consumo diminuiu 1%, porque parte da demanda foi suprida por importações (o baixo poder de competição da indústria brasileira é bem conhecido). Mas o pior resultado foi, de longe, o do setor de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos para reposição, ampliação e modernização da capacidade produtiva. A produção desses bens encolheu 11,8%.
O total do investimento - público e privado - ainda é desconhecido, mas o número final deve ser muito ruim. O governo precisará de muito mais que a conversa habitual para garantir o crescimento. Detalhe relevante: se continuar descuidando da inflação, nem o poder de compra das famílias vai durar. Mas o ministro Mantega dá sinais de pensar sobre isso: se for preciso, a taxa básica de juros, a Selic, poderá subir, sem provocar uma "sangria desatada" (expressão dele). Será uma autorização para o BC fazer o seu trabalho?
sábado, fevereiro 02, 2013
A nova realidade trabalhista - SÉRGIO AMAD COSTA
O ESTADÃO - 02/02
Vivemos um momento em que as mudanças nas formas de produção e prestação de serviços ocorrem com uma velocidade muito grande. O ordenamento jurídico trabalhista precisa ser reformado para acompanhar e se adaptar a esses novos tempos, mas tal necessidade é vista por muitos como um retrocesso e perda de conquistas dos trabalhadores.
Tivemos, no século passado, várias alterações nas formas de trabalho. Mas elas, diferentemente das de agora, foram sendo feitas de forma lenta e gradual. Vale recordar as principais.
Em 1910, o americano Frederick Taylor (1856-1915) introduz o conceito de divisão de tarefas nas fábricas. Visava a evitar o desperdício de tempo e aumentar a produtividade. Surge a era da função repetitiva, que desumaniza os trabalhadores. Henry Ford (1863-1947), também no início do século passado, funda a Ford e cria a linha de produção em massa, sustentada pela padronização dos processos.
No início da década de 1930, o sociólogo australiano Elton Mayo (1880-1949) realiza um importante estudo na Western Electric Company, nos EUA. Inicia-se, nas empresas de ponta, sob a influência desse estudo, uma tímida valorização do ser humano no trabalho. Em 1937, Kiichiro Toyoda (1894-1952) funda a Toyota, criando o sistema de produção enxuta, sustentado pelo conceito "just-in-time": a peça necessária, na quantidade necessária, no momento necessário. Operários passam a ganhar mais autonomia com essa forma de produção.
Em 1954, o austríaco Peter Drucker (1909-2005) publica A Prática da Administração, lançando as bases da gestão moderna. Com suas teses, as relações trabalhistas passam a ser mais valorizadas. Nos anos 70, começam a surgir novas ferramentas para as mesas de trabalho: microcomputadores e softwares. Finalmente, o século 20 se encerra com uma geração que trabalha na internet, criando uma cultura profissional baseada na liberdade e na criatividade.
Aquelas transformações foram, aos poucos, acontecendo durante o decorrer de um século e sendo incorporadas pelas empresas. Entretanto, o que vivemos hoje não é só uma transformação. Assiste-se, agora, a uma verdadeira revolução impulsionada pela tecnologia, pela velocidade da comunicação e pela globalização da economia, gerando mudanças radicais no trabalho. Porém o Brasil não está fazendo nada, em relação à nossa tão ultrapassada e engessada legislação trabalhista, para conseguir participar deste novo processo.
Vários exemplos podem ser citados para mostrar o descaso diante dessa questão. Apresento dois.
Um diz respeito à terceirização. Não tenho dúvida sobre a importância dela nesta nova era. Com o avanço da tecnologia, é muito mais fácil terceirizar, criteriosamente, uma atividade produtiva ou parte de uma prestação de serviço. Num futuro breve, será inevitável a intensificação desse recurso. Mas, por incrível que pareça, esse processo ainda é normatizado juridicamente por uma súmula do Tribunal Superior do Trabalho, a n.º 331. Essa é a única orientação de que dispomos sobre o assunto.
O outro exemplo está na tendência irreversível do trabalho em casa (home office) ou a distância. A Lei n.º 12.551/2011, que disciplina o teletrabalho, segue estritamente a lógica de quem presta serviço dentro dos muros da empresa. Portanto, ela já tem gerado confusão e riscos para os empregadores no que tange às horas extras, às jornadas de trabalho e à própria utilização das ferramentas de tecnologia pelos profissionais.
Cumpre pensar nas atuais relações trabalhistas para elaborar uma legislação flexível, adequada às mudanças que agora ocorrem. De nada adianta criar leis, visando a atender a esse novo momento, se forem meros complementos para a nossa ultrapassada e engessada Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A reforma trabalhista não é retrocesso. Pelo contrário, é a chance de novas conquistas sustentáveis, tanto para os empregados quanto para os empregadores, diante desta nova realidade tecnológica e globalizada.
Vivemos um momento em que as mudanças nas formas de produção e prestação de serviços ocorrem com uma velocidade muito grande. O ordenamento jurídico trabalhista precisa ser reformado para acompanhar e se adaptar a esses novos tempos, mas tal necessidade é vista por muitos como um retrocesso e perda de conquistas dos trabalhadores.
Tivemos, no século passado, várias alterações nas formas de trabalho. Mas elas, diferentemente das de agora, foram sendo feitas de forma lenta e gradual. Vale recordar as principais.
Em 1910, o americano Frederick Taylor (1856-1915) introduz o conceito de divisão de tarefas nas fábricas. Visava a evitar o desperdício de tempo e aumentar a produtividade. Surge a era da função repetitiva, que desumaniza os trabalhadores. Henry Ford (1863-1947), também no início do século passado, funda a Ford e cria a linha de produção em massa, sustentada pela padronização dos processos.
No início da década de 1930, o sociólogo australiano Elton Mayo (1880-1949) realiza um importante estudo na Western Electric Company, nos EUA. Inicia-se, nas empresas de ponta, sob a influência desse estudo, uma tímida valorização do ser humano no trabalho. Em 1937, Kiichiro Toyoda (1894-1952) funda a Toyota, criando o sistema de produção enxuta, sustentado pelo conceito "just-in-time": a peça necessária, na quantidade necessária, no momento necessário. Operários passam a ganhar mais autonomia com essa forma de produção.
Em 1954, o austríaco Peter Drucker (1909-2005) publica A Prática da Administração, lançando as bases da gestão moderna. Com suas teses, as relações trabalhistas passam a ser mais valorizadas. Nos anos 70, começam a surgir novas ferramentas para as mesas de trabalho: microcomputadores e softwares. Finalmente, o século 20 se encerra com uma geração que trabalha na internet, criando uma cultura profissional baseada na liberdade e na criatividade.
Aquelas transformações foram, aos poucos, acontecendo durante o decorrer de um século e sendo incorporadas pelas empresas. Entretanto, o que vivemos hoje não é só uma transformação. Assiste-se, agora, a uma verdadeira revolução impulsionada pela tecnologia, pela velocidade da comunicação e pela globalização da economia, gerando mudanças radicais no trabalho. Porém o Brasil não está fazendo nada, em relação à nossa tão ultrapassada e engessada legislação trabalhista, para conseguir participar deste novo processo.
Vários exemplos podem ser citados para mostrar o descaso diante dessa questão. Apresento dois.
Um diz respeito à terceirização. Não tenho dúvida sobre a importância dela nesta nova era. Com o avanço da tecnologia, é muito mais fácil terceirizar, criteriosamente, uma atividade produtiva ou parte de uma prestação de serviço. Num futuro breve, será inevitável a intensificação desse recurso. Mas, por incrível que pareça, esse processo ainda é normatizado juridicamente por uma súmula do Tribunal Superior do Trabalho, a n.º 331. Essa é a única orientação de que dispomos sobre o assunto.
O outro exemplo está na tendência irreversível do trabalho em casa (home office) ou a distância. A Lei n.º 12.551/2011, que disciplina o teletrabalho, segue estritamente a lógica de quem presta serviço dentro dos muros da empresa. Portanto, ela já tem gerado confusão e riscos para os empregadores no que tange às horas extras, às jornadas de trabalho e à própria utilização das ferramentas de tecnologia pelos profissionais.
Cumpre pensar nas atuais relações trabalhistas para elaborar uma legislação flexível, adequada às mudanças que agora ocorrem. De nada adianta criar leis, visando a atender a esse novo momento, se forem meros complementos para a nossa ultrapassada e engessada Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A reforma trabalhista não é retrocesso. Pelo contrário, é a chance de novas conquistas sustentáveis, tanto para os empregados quanto para os empregadores, diante desta nova realidade tecnológica e globalizada.
Copa para inglês ver - ROMÁRIO
FOLHA DE SP - 02/02
O sucesso de uma Copa do Mundo de futebol vai muito além do que se vê. Arenas lotadas e jogos televisionados para o mundo todo representam apenas 10% desse grande espetáculo, que une povos e faz o planeta vibrar em torno de uma paixão.
Para um país, sediar uma Copa é uma oportunidade rara -a última no Brasil ocorreu há mais de 60 anos- de estimular a economia, alavancar o turismo, melhorar a formação das pessoas, expandir e aperfeiçoar a infraestrutura, elevando-a a um novo patamar de acessibilidade.
Analisando esse conjunto de ações, é fácil chegar a uma conclusão: não, o Brasil não aproveitará todo o potencial da Copa.
Seria ingênuo imaginar que uma Copa resolveria todos os problemas de uma nação, mas também não é confortável constatar que o evento poderá aprofundar alguns deles. Assistimos na televisão a um comercial de cerveja que transforma esse sentimento de frustração do brasileiro em pessimismo. Mas não é pessimismo gratuito, é puro realismo de quem vive o dia a dia das grandes cidades. Sim, imaginem, durante a Copa, todos os nossos problemas estruturais agravados pelo fluxo de milhões de pessoas!
O pessimismo do brasileiro é calcado em fatos: a incapacidade dos gestores de planejar atrasou inúmeras obras e, por tabela, encareceu em alguns bilhões o custo do Mundial -R$ 3,5 bilhões, para ser mais preciso-, segundo o último levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU). Para se ter uma ideia do que se poderia fazer com esses bilhões excedentes, vamos fazer uma projeção.
Em 2010, o então presidente Lula anunciou a construção de 141 novas escolas federais de educação profissional ao custo total de R$ 1,1 bilhão. Os R$ 3,5 bilhões acrescidos ao valor total da Copa dariam, portanto, para construir quase 500 novas escolas técnicas no Brasil.
O excesso de gastos, no entanto, não é o pior dos cenários. O tão falado legado social para a população parece ter ficado só no papel. Quase todas as obras de transporte estão atrasadas, a inauguração de algumas, inclusive, já foi remarcada para somente depois do Mundial e outras foram canceladas.
Salvador foi a primeira cidade-sede a cancelar uma obra de mobilidade. A construção de um corredor de ônibus Bus Rapid Transport (BRT) foi riscada da lista de obras para 2014. Em seguida, Brasília cancelou a construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Há ainda os problemas de pouca visibilidade, mas grande impacto social, como as remoções involuntárias. O tema foi destaque no jornal "The New York Times", em março passado. O diário informou que 170 mil pessoas devem ser despejadas até a Copa do Mundo e a Olimpíada, para dar lugar a intervenções urbanas para os eventos. O problema é que as indenizações estão bem abaixo do valor de mercado e, quando são oferecidas moradias, as casas ficam a até 60 km de distância do local de origem.
Vale lembrar, ainda, a naturalidade com que os projetos das arenas desrespeitam a lei que exige 4% dos assentos para deficientes físicos e pessoas com mobilidade reduzida. Nos casos em que os projetos preveem reserva de vagas, elas se limitam à margem de 1%, mínimo exigido pela Fifa. Como se as decisões da Fifa fossem mais importantes que a legislação do país.
Depois de ter rodado o mundo inteiro e participado, in loco, de tantos mundiais, posso afirmar, com convicção, que um país só é bom para os turistas se, antes, for bom para o seu próprio povo.
Hoje, não consigo presumir nenhum problema que inviabilize o evento, mas tenho certeza de que os brasileiros ficarão decepcionados ao ver perdida mais uma ótima oportunidade de tornar este país um lugar melhor para se viver.
O sucesso de uma Copa do Mundo de futebol vai muito além do que se vê. Arenas lotadas e jogos televisionados para o mundo todo representam apenas 10% desse grande espetáculo, que une povos e faz o planeta vibrar em torno de uma paixão.
Para um país, sediar uma Copa é uma oportunidade rara -a última no Brasil ocorreu há mais de 60 anos- de estimular a economia, alavancar o turismo, melhorar a formação das pessoas, expandir e aperfeiçoar a infraestrutura, elevando-a a um novo patamar de acessibilidade.
Analisando esse conjunto de ações, é fácil chegar a uma conclusão: não, o Brasil não aproveitará todo o potencial da Copa.
Seria ingênuo imaginar que uma Copa resolveria todos os problemas de uma nação, mas também não é confortável constatar que o evento poderá aprofundar alguns deles. Assistimos na televisão a um comercial de cerveja que transforma esse sentimento de frustração do brasileiro em pessimismo. Mas não é pessimismo gratuito, é puro realismo de quem vive o dia a dia das grandes cidades. Sim, imaginem, durante a Copa, todos os nossos problemas estruturais agravados pelo fluxo de milhões de pessoas!
O pessimismo do brasileiro é calcado em fatos: a incapacidade dos gestores de planejar atrasou inúmeras obras e, por tabela, encareceu em alguns bilhões o custo do Mundial -R$ 3,5 bilhões, para ser mais preciso-, segundo o último levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU). Para se ter uma ideia do que se poderia fazer com esses bilhões excedentes, vamos fazer uma projeção.
Em 2010, o então presidente Lula anunciou a construção de 141 novas escolas federais de educação profissional ao custo total de R$ 1,1 bilhão. Os R$ 3,5 bilhões acrescidos ao valor total da Copa dariam, portanto, para construir quase 500 novas escolas técnicas no Brasil.
O excesso de gastos, no entanto, não é o pior dos cenários. O tão falado legado social para a população parece ter ficado só no papel. Quase todas as obras de transporte estão atrasadas, a inauguração de algumas, inclusive, já foi remarcada para somente depois do Mundial e outras foram canceladas.
Salvador foi a primeira cidade-sede a cancelar uma obra de mobilidade. A construção de um corredor de ônibus Bus Rapid Transport (BRT) foi riscada da lista de obras para 2014. Em seguida, Brasília cancelou a construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Há ainda os problemas de pouca visibilidade, mas grande impacto social, como as remoções involuntárias. O tema foi destaque no jornal "The New York Times", em março passado. O diário informou que 170 mil pessoas devem ser despejadas até a Copa do Mundo e a Olimpíada, para dar lugar a intervenções urbanas para os eventos. O problema é que as indenizações estão bem abaixo do valor de mercado e, quando são oferecidas moradias, as casas ficam a até 60 km de distância do local de origem.
Vale lembrar, ainda, a naturalidade com que os projetos das arenas desrespeitam a lei que exige 4% dos assentos para deficientes físicos e pessoas com mobilidade reduzida. Nos casos em que os projetos preveem reserva de vagas, elas se limitam à margem de 1%, mínimo exigido pela Fifa. Como se as decisões da Fifa fossem mais importantes que a legislação do país.
Depois de ter rodado o mundo inteiro e participado, in loco, de tantos mundiais, posso afirmar, com convicção, que um país só é bom para os turistas se, antes, for bom para o seu próprio povo.
Hoje, não consigo presumir nenhum problema que inviabilize o evento, mas tenho certeza de que os brasileiros ficarão decepcionados ao ver perdida mais uma ótima oportunidade de tornar este país um lugar melhor para se viver.
Apesar de tudo - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 02/02
Como a vitória do senador Renan Calheiros era tida como inevitável, o importante é entender por que uma candidatura tão polêmica, para dizer o mínimo, que pode levar o Congresso a um enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal, teve passagem tão fácil entre seus pares. A primeira constatação é que a oposição ao que ele representa ficou abaixo do prometido aos organizadores da anticandidatura de Pedro Taques, do PDT.
Ele recebeu 18 votos quando estava apoiado, teoricamente, pelos votos da oposição (11 do PSDB e 4 do DEM) e mais o dissidente PDT (5 votos), o PSB (4 votos), um do PSOL e pelo menos dois votos dissidentes do PMDB, de Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos. Se contarmos os dois votos em branco e os dois nulos como expressões contrárias à candidatura oficial, teríamos um total de 22 votos, quando deveria haver no mínimo 27. Os votos em branco e nulos, aliás, são expressão concreta de como o corporativismo controla a Casa, pois, mesmo no voto secreto, esses quatro senadores não tiveram a coragem de votar no opositor. Pode ser até que tenham combinado com Renan Calheiros votar dessa maneira para deixar claro que não votariam contra ele.
Outra questão a ser analisada é como os senadores não têm qualquer tipo de preocupação com as manifestações da opinião pública. Uma das explicações possíveis é que, dos eleitores de ontem, nada menos que 21 eram suplentes sem voto, isto é, sem nenhuma ligação direta com o eleitorado.
O senador Lobão Filho, por exemplo, suplente do pai, o ministro Edison Lobão, fez uma defesa da candidatura de Renan Calheiros que, se ocorresse diante de um plenário sério, teria sido um desastre. Lembrou que a última vestal do Senado fora o ex-senador Demóstenes Torres, tragado pelas denúncias de corrupção. Com isso, Lobão queria defender Renan, mas só fez chamar a atenção para o que meu amigo Márcio Moreira Alves, meu antecessor neste espaço, chamava de "moral homogênea" do PMDB, mote que foi usado pelo deputado Chico Alencar, do PSOL, para criticar a outra candidatura do partido à presidência da Câmara.
Como se sabe, também o deputado Henrique Alves está sendo alvo de diversas denúncias e nem por isso deixará de ser eleito. Um abaixo-assinado na internet, de movimentos da sociedade civil, arregimentou mais de 300 mil assinaturas contra a indicação de Renan Calheiros, mas não houve repercussão interna.
Vários manifestantes apareceram em Brasília, mas também não mexeram com a tendência dos senadores-eleitores, motivados por interesses outros que não os da sociedade. As candidaturas do PMDB acabaram se transformando em motivos de luta política para a base governista, especialmente para o PT, que passou a tratá-las como fundamentais para o projeto governista,
Não houve dissidências no PT, que assumiu Renan como um companheiro que está sendo atacado por uma "ofensiva midiática" como definiu o ex-ministro José Dirceu, condenado por corrupção passiva e formação de quadrilha pelo STF. Renan foi elevado à condição de grande personagem da História brasileira, que estaria sendo atacado por ser da base da presidente Dilma. As denúncias do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra ele passaram a ser tratadas como parte do mesmo complô moralista que estaria sendo montado contra o governo popular petista. O verdadeiro samba do crioulo doido leva a que certas confusões sejam feitas.
Dirceu disse, por exemplo, que os movimentos que levaram Jânio Quadros, os militares e Fernando Collor ao poder tinham a mesma base pseudomoralista que agora se volta contra Renan Calheiros e o governo Dilma. Mas, na mesma votação, ontem, o antigo "caçador de marajás’,’ o hoje senador Fernando Collor, estava do lado do governo, criticando o procurador-geral e defendendo seu companheiro Calheiros.
O fato é que o senador Renan Calheiros foi denunciado por peculato e falsidade ideológica, e pode vir a se tornar réu de um processo no Supremo Tribunal Federal. A manutenção de sua candidatura nessas condições é uma clara confrontação com o Supremo, que pode gerar uma crise política perfeitamente evitável se o PMDB tivesse apresentado outro nome para representá-lo na presidência do Senado, como sugeriu o senador Aécio Neves, ao mesmo tempo garantindo o apoio do PSDB ao critério da proporcionalidade, mas assumindo uma posição claramente contrária à candidatura de Renan.
Como a vitória do senador Renan Calheiros era tida como inevitável, o importante é entender por que uma candidatura tão polêmica, para dizer o mínimo, que pode levar o Congresso a um enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal, teve passagem tão fácil entre seus pares. A primeira constatação é que a oposição ao que ele representa ficou abaixo do prometido aos organizadores da anticandidatura de Pedro Taques, do PDT.
Ele recebeu 18 votos quando estava apoiado, teoricamente, pelos votos da oposição (11 do PSDB e 4 do DEM) e mais o dissidente PDT (5 votos), o PSB (4 votos), um do PSOL e pelo menos dois votos dissidentes do PMDB, de Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos. Se contarmos os dois votos em branco e os dois nulos como expressões contrárias à candidatura oficial, teríamos um total de 22 votos, quando deveria haver no mínimo 27. Os votos em branco e nulos, aliás, são expressão concreta de como o corporativismo controla a Casa, pois, mesmo no voto secreto, esses quatro senadores não tiveram a coragem de votar no opositor. Pode ser até que tenham combinado com Renan Calheiros votar dessa maneira para deixar claro que não votariam contra ele.
Outra questão a ser analisada é como os senadores não têm qualquer tipo de preocupação com as manifestações da opinião pública. Uma das explicações possíveis é que, dos eleitores de ontem, nada menos que 21 eram suplentes sem voto, isto é, sem nenhuma ligação direta com o eleitorado.
O senador Lobão Filho, por exemplo, suplente do pai, o ministro Edison Lobão, fez uma defesa da candidatura de Renan Calheiros que, se ocorresse diante de um plenário sério, teria sido um desastre. Lembrou que a última vestal do Senado fora o ex-senador Demóstenes Torres, tragado pelas denúncias de corrupção. Com isso, Lobão queria defender Renan, mas só fez chamar a atenção para o que meu amigo Márcio Moreira Alves, meu antecessor neste espaço, chamava de "moral homogênea" do PMDB, mote que foi usado pelo deputado Chico Alencar, do PSOL, para criticar a outra candidatura do partido à presidência da Câmara.
Como se sabe, também o deputado Henrique Alves está sendo alvo de diversas denúncias e nem por isso deixará de ser eleito. Um abaixo-assinado na internet, de movimentos da sociedade civil, arregimentou mais de 300 mil assinaturas contra a indicação de Renan Calheiros, mas não houve repercussão interna.
Vários manifestantes apareceram em Brasília, mas também não mexeram com a tendência dos senadores-eleitores, motivados por interesses outros que não os da sociedade. As candidaturas do PMDB acabaram se transformando em motivos de luta política para a base governista, especialmente para o PT, que passou a tratá-las como fundamentais para o projeto governista,
Não houve dissidências no PT, que assumiu Renan como um companheiro que está sendo atacado por uma "ofensiva midiática" como definiu o ex-ministro José Dirceu, condenado por corrupção passiva e formação de quadrilha pelo STF. Renan foi elevado à condição de grande personagem da História brasileira, que estaria sendo atacado por ser da base da presidente Dilma. As denúncias do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra ele passaram a ser tratadas como parte do mesmo complô moralista que estaria sendo montado contra o governo popular petista. O verdadeiro samba do crioulo doido leva a que certas confusões sejam feitas.
Dirceu disse, por exemplo, que os movimentos que levaram Jânio Quadros, os militares e Fernando Collor ao poder tinham a mesma base pseudomoralista que agora se volta contra Renan Calheiros e o governo Dilma. Mas, na mesma votação, ontem, o antigo "caçador de marajás’,’ o hoje senador Fernando Collor, estava do lado do governo, criticando o procurador-geral e defendendo seu companheiro Calheiros.
O fato é que o senador Renan Calheiros foi denunciado por peculato e falsidade ideológica, e pode vir a se tornar réu de um processo no Supremo Tribunal Federal. A manutenção de sua candidatura nessas condições é uma clara confrontação com o Supremo, que pode gerar uma crise política perfeitamente evitável se o PMDB tivesse apresentado outro nome para representá-lo na presidência do Senado, como sugeriu o senador Aécio Neves, ao mesmo tempo garantindo o apoio do PSDB ao critério da proporcionalidade, mas assumindo uma posição claramente contrária à candidatura de Renan.
O dilema do parlamentar - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 02/02
SÃO PAULO - A escolha de figuras, digamos, controversas para comandar o Legislativo configura um curioso caso de dilema social, que são aquelas situações em que há um descompasso entre os interesses coletivos ou de longo prazo do grupo e os interesses individuais ou de curto prazo de seus membros.
Também entram nessa categoria de problemas, que vem recebendo crescente atenção de matemáticos, biólogos, economistas e sociólogos, questões como o controle da poluição e a conservação de recursos naturais (tragédia dos comuns).
Em princípio, é ruim para os próprios parlamentares eleger líderes que maculem a imagem do Congresso. Podendo, todo mundo prefere fazer parte do clube cujos sócios sejam vistos como homens probos e virtuosos, não como larápios e corruptos.
Numa visão mais imediatista, porém, não é absurdo trocar os difusos ganhos de imagem por vantagens concretas como a defesa de interesses corporativistas e o histórico de confiabilidade (no jogo político, é claro) dos candidatos polêmicos. Isso é especialmente verdade num sistema no qual cada senador ou deputado não incorre em nenhum ônus pessoal ao eleger gente de má reputação aos olhos da sociedade.
Soluções para dilemas sociais passam por estimular a cooperação e a visão de longo prazo dos envolvidos, bem como torná-los individualmente responsáveis por suas ações e os resultados que elas engendram.
No caso dos nossos congressistas, a medida mais óbvia é acabar com o voto secreto para a presidência das duas Casas, impedindo que o legislador se esconda sob o manto do anonimato. A pressão da opinião pública também é um elemento importante, ainda que insuficiente, como sugerem os muitos discursos de senadores em defesa de Renan Calheiros.
Dilemas, por definição, não comportam soluções plenamente satisfatórias. Mas isso não é motivo para não tentar melhorar o que é possível.
SÃO PAULO - A escolha de figuras, digamos, controversas para comandar o Legislativo configura um curioso caso de dilema social, que são aquelas situações em que há um descompasso entre os interesses coletivos ou de longo prazo do grupo e os interesses individuais ou de curto prazo de seus membros.
Também entram nessa categoria de problemas, que vem recebendo crescente atenção de matemáticos, biólogos, economistas e sociólogos, questões como o controle da poluição e a conservação de recursos naturais (tragédia dos comuns).
Em princípio, é ruim para os próprios parlamentares eleger líderes que maculem a imagem do Congresso. Podendo, todo mundo prefere fazer parte do clube cujos sócios sejam vistos como homens probos e virtuosos, não como larápios e corruptos.
Numa visão mais imediatista, porém, não é absurdo trocar os difusos ganhos de imagem por vantagens concretas como a defesa de interesses corporativistas e o histórico de confiabilidade (no jogo político, é claro) dos candidatos polêmicos. Isso é especialmente verdade num sistema no qual cada senador ou deputado não incorre em nenhum ônus pessoal ao eleger gente de má reputação aos olhos da sociedade.
Soluções para dilemas sociais passam por estimular a cooperação e a visão de longo prazo dos envolvidos, bem como torná-los individualmente responsáveis por suas ações e os resultados que elas engendram.
No caso dos nossos congressistas, a medida mais óbvia é acabar com o voto secreto para a presidência das duas Casas, impedindo que o legislador se esconda sob o manto do anonimato. A pressão da opinião pública também é um elemento importante, ainda que insuficiente, como sugerem os muitos discursos de senadores em defesa de Renan Calheiros.
Dilemas, por definição, não comportam soluções plenamente satisfatórias. Mas isso não é motivo para não tentar melhorar o que é possível.
Indignação postiça - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 02/02
BRASÍLIA - Por volta das 13h de ontem, enquanto Renan Calheiros fazia seu discurso como candidato a presidente do Senado, um site completou a coleta de mais de 300 mil assinaturas eletrônicas contra o peemedebista de Alagoas.
O protesto digital resultou inócuo. Pouco depois, Renan Calheiros foi eleito com 56 votos. O candidato de oposição, Pedro Taques, do PDT de Mato Grosso, recebeu 18 votos.
A derrota de Pedro Taques era mais do que esperada. Ainda assim, escancara três aspectos relevantes do atual estágio da democracia brasileira. Primeiro, que gritaria na internet tem efeito limitadíssimo por aqui. Segundo, a quase inexistência de conexão entre opinião pública e ações dos congressistas. Terceiro, que a oposição no Congresso só joga para a plateia -por cinismo, inépcia ou as duas coisas juntas.
Pedro Taques tinha um potencial teórico para receber 30 votos. Eram 5 de dissidentes entre os senadores governistas. E outros 25 de partidos que referendaram sua candidatura de maneira oficial: PDT, PSDB, DEM, PSB e PSOL. No final, foram apenas 18 votos. Ou seja, 12 votos evaporaram entre o discurso e a prática.
O que isso significa? Que a oposição no Brasil sucumbe ao voto secreto, traindo a si própria. Em público, esfalfa-se num discurso de indignação postiça. Segue a máxima de Lampedusa, simulando mudanças para manter tudo como está.
Em meio ao desfecho previsível de ontem, chamou a atenção a atitude ladina do PSDB. O seu principal líder, Aécio Neves, senador por Minas Gerais, ficou mudo durante o processo de escolha de Renan Calheiros. No momento da contagem dos votos, posicionou-se ao lado de Pedro Taques para que as câmeras registrassem. Como ele votou, ninguém sabe.
E os eleitores? Mais de 320 mil já haviam clicado o seu protesto na internet no final do dia. Devem achar que só isso basta.
BRASÍLIA - Por volta das 13h de ontem, enquanto Renan Calheiros fazia seu discurso como candidato a presidente do Senado, um site completou a coleta de mais de 300 mil assinaturas eletrônicas contra o peemedebista de Alagoas.
O protesto digital resultou inócuo. Pouco depois, Renan Calheiros foi eleito com 56 votos. O candidato de oposição, Pedro Taques, do PDT de Mato Grosso, recebeu 18 votos.
A derrota de Pedro Taques era mais do que esperada. Ainda assim, escancara três aspectos relevantes do atual estágio da democracia brasileira. Primeiro, que gritaria na internet tem efeito limitadíssimo por aqui. Segundo, a quase inexistência de conexão entre opinião pública e ações dos congressistas. Terceiro, que a oposição no Congresso só joga para a plateia -por cinismo, inépcia ou as duas coisas juntas.
Pedro Taques tinha um potencial teórico para receber 30 votos. Eram 5 de dissidentes entre os senadores governistas. E outros 25 de partidos que referendaram sua candidatura de maneira oficial: PDT, PSDB, DEM, PSB e PSOL. No final, foram apenas 18 votos. Ou seja, 12 votos evaporaram entre o discurso e a prática.
O que isso significa? Que a oposição no Brasil sucumbe ao voto secreto, traindo a si própria. Em público, esfalfa-se num discurso de indignação postiça. Segue a máxima de Lampedusa, simulando mudanças para manter tudo como está.
Em meio ao desfecho previsível de ontem, chamou a atenção a atitude ladina do PSDB. O seu principal líder, Aécio Neves, senador por Minas Gerais, ficou mudo durante o processo de escolha de Renan Calheiros. No momento da contagem dos votos, posicionou-se ao lado de Pedro Taques para que as câmeras registrassem. Como ele votou, ninguém sabe.
E os eleitores? Mais de 320 mil já haviam clicado o seu protesto na internet no final do dia. Devem achar que só isso basta.
Atraso na entrega de imóvel - ALEXANDRE PAOLUCCI MEIRELES
ESTADO DE MINAS - 02/02
Especialista em direito tributário pela PUC Minas, MBA em direito empresarial pela Fundação Getulio Vargas, advogado, sócio do escritório Nogueira & Paolucci Sociedade de Advogados
A compra de imóveis na planta para moradia própria ou como forma de investimento passou a ser algo cada vez mais comum entre os brasileiros. No entanto, também é cada vez mais comum o atraso na entrega dos imóveis por parte das construtoras e das incorporadoras. A causa desses constantes atrasos se deve, principalmente, aos problemas vividos pelo setor da construção civil, referentes à escassez de mão de obra, equipamentos e materiais de construção. Trata-se, no entanto, de risco inerente à atividade e de responsabilidade exclusiva das empresas que atu-am no setor. Sendo assim, os compradores dos imóveis, que nada mais são que consumidores (amparados pelo Código de Defesa do Consumidor), têm o direito de ser indenizados pelos danos sofridos em decorrência do atraso na entrega de seus imóveis.
Quem compra um imóvel na planta tem a expectativa de que o prazo contratual previsto para a entrega das chaves seja cumprido. Em muitos casos, os compradores moram em imóveis alugados enquanto seu imóvel próprio está sendo construído. Em decorrência do atraso na entrega de seu imóvel, continuam a pagar aluguel quando já poderiam estar em seu próprio imóvel. Também sofre dano aquele que compra o imóvel como forma de investimento. Uma vez entregues as chaves, ele poderia alugá-lo. Ocorrendo o atraso, fica impossibilitado de fazê-lo, sofrendo o que chamamos de lucros cessantes.
Os tribunais brasileiros já têm entendimento pacificado no sentido de indenizar o consumidor nesses casos. O valor da indenização pode variar, mas em geral tem-se tomado como base o valor de mercado de aluguel do imóvel. Além disso, os tribunais têm decidido que o atraso injustificado na entrega de imóveis gera o dever de indenizar não apenas os danos materiais sofridos, mas também os danos morais suportados pelo consumidor. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais já decidiu que, não se tratando de mero descumprimento contratual, será devida a indenização por danos morais.
Cientes da certa repercussão litigiosa que os atrasos lhes acarretam, as empresas do setor criaram a chamada cláusula de tolerância, que as isenta de responsabilidade no caso de atraso na entrega do imóvel. Essa cláusula contratual estipula, em média, um prazo de 180 dias de tolerância para o atraso e, infelizmente, é aceita como válida por vários tribunais brasileiros. Entretanto, à luz do Código de Defesa do Consumidor, trata-se de cláusula abusiva, que gera um desequilíbrio no contrato, uma vez que garante ao fornecedor uma vantagem sem que haja contrapartida ao consumidor. Afinal, caso ele atrase suas obrigações, por qualquer motivo, estará sujeito a penalidades como multa e juros. Infelizmente, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais tem decidido no sentido da validade de tal cláusula, desde que "em prazo razoável".
Vale dizer que está em trâmite um projeto de lei no Senado com o intuito de trazer inovações ao Código de Defesa do Consumidor e regulamentar o assunto. Pelo projeto, as construtoras e incorporadoras que atrasarem a entrega de imóveis devem indenizar os compradores em 2% do valor contratado, além da incidência de uma multa moratória mensal equivalente a 0,5% do valor total do imóvel, devidamente atualizado. O projeto regulamenta também a já mencionada cláusula de tolerância, que não poderá ultrapassar seis meses. A proposta diz ainda que o valor proveniente da multa poderá ser compensado nas parcelas que vencerem após o prazo previsto para entrega do imóvel ou devolvido ao consumidor, no prazo de 90 dias após a entrega das chaves ou a assinatura da escritura definitiva. O Senado, dessa forma, vem apenas confirmar o que já vem sendo decidido pelos tribunais do país.
A compra de imóveis na planta para moradia própria ou como forma de investimento passou a ser algo cada vez mais comum entre os brasileiros. No entanto, também é cada vez mais comum o atraso na entrega dos imóveis por parte das construtoras e das incorporadoras. A causa desses constantes atrasos se deve, principalmente, aos problemas vividos pelo setor da construção civil, referentes à escassez de mão de obra, equipamentos e materiais de construção. Trata-se, no entanto, de risco inerente à atividade e de responsabilidade exclusiva das empresas que atu-am no setor. Sendo assim, os compradores dos imóveis, que nada mais são que consumidores (amparados pelo Código de Defesa do Consumidor), têm o direito de ser indenizados pelos danos sofridos em decorrência do atraso na entrega de seus imóveis.
Quem compra um imóvel na planta tem a expectativa de que o prazo contratual previsto para a entrega das chaves seja cumprido. Em muitos casos, os compradores moram em imóveis alugados enquanto seu imóvel próprio está sendo construído. Em decorrência do atraso na entrega de seu imóvel, continuam a pagar aluguel quando já poderiam estar em seu próprio imóvel. Também sofre dano aquele que compra o imóvel como forma de investimento. Uma vez entregues as chaves, ele poderia alugá-lo. Ocorrendo o atraso, fica impossibilitado de fazê-lo, sofrendo o que chamamos de lucros cessantes.
Os tribunais brasileiros já têm entendimento pacificado no sentido de indenizar o consumidor nesses casos. O valor da indenização pode variar, mas em geral tem-se tomado como base o valor de mercado de aluguel do imóvel. Além disso, os tribunais têm decidido que o atraso injustificado na entrega de imóveis gera o dever de indenizar não apenas os danos materiais sofridos, mas também os danos morais suportados pelo consumidor. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais já decidiu que, não se tratando de mero descumprimento contratual, será devida a indenização por danos morais.
Cientes da certa repercussão litigiosa que os atrasos lhes acarretam, as empresas do setor criaram a chamada cláusula de tolerância, que as isenta de responsabilidade no caso de atraso na entrega do imóvel. Essa cláusula contratual estipula, em média, um prazo de 180 dias de tolerância para o atraso e, infelizmente, é aceita como válida por vários tribunais brasileiros. Entretanto, à luz do Código de Defesa do Consumidor, trata-se de cláusula abusiva, que gera um desequilíbrio no contrato, uma vez que garante ao fornecedor uma vantagem sem que haja contrapartida ao consumidor. Afinal, caso ele atrase suas obrigações, por qualquer motivo, estará sujeito a penalidades como multa e juros. Infelizmente, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais tem decidido no sentido da validade de tal cláusula, desde que "em prazo razoável".
Vale dizer que está em trâmite um projeto de lei no Senado com o intuito de trazer inovações ao Código de Defesa do Consumidor e regulamentar o assunto. Pelo projeto, as construtoras e incorporadoras que atrasarem a entrega de imóveis devem indenizar os compradores em 2% do valor contratado, além da incidência de uma multa moratória mensal equivalente a 0,5% do valor total do imóvel, devidamente atualizado. O projeto regulamenta também a já mencionada cláusula de tolerância, que não poderá ultrapassar seis meses. A proposta diz ainda que o valor proveniente da multa poderá ser compensado nas parcelas que vencerem após o prazo previsto para entrega do imóvel ou devolvido ao consumidor, no prazo de 90 dias após a entrega das chaves ou a assinatura da escritura definitiva. O Senado, dessa forma, vem apenas confirmar o que já vem sendo decidido pelos tribunais do país.
A fumaça da negligência - ALBERTO DINES
GAZETA DO POVO - PR - 02/02
A tragédia de Santa Maria ofereceu à presidente Dilma Rousseff a oportunidade de reinventar-se: deixaria de ser a gerentona para assumir o papel de xerifona. Com emoção e firmeza, já no dia seguinte se dirigiu aos novos prefeitos prometendo que o luto não se repetirá e os responsáveis serão punidos. Imediatamente, pelo país afora, as autoridades iniciaram uma inédita cruzada para verificar a segurança das casas noturnas e de espetáculos.
Na sexta-feira, menos de uma semana depois, com olhos ainda marejados, almas feridas e dominada pela perplexidade, a sociedade assistiu à coroação do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) para reocupar o cargo de chefe do Poder Legislativo ao qual renunciara há seis anos para não ser cassado por falta de decoro e imoralidade.
Enquanto a polícia gaúcha começa a desmontar a engrenagem de irresponsabilidades, imprevidências e fraudes que tirou a vida de 236 jovens e mantém outras 126 em risco, assistimos na Câmara Alta da República à consagração de outra engrenagem, aparentemente inofensiva, mas crucial para alimentar e perenizar a bandalheira e a incúria. Em algum momento elas se articulam em novas catástrofes e desgraças.
O governo federal não pode nem deve interferir no Congresso, mas o PMDB, partido ao qual pertencem tanto o novo vice-rei como seu antecessor, José Sarney, é o seu principal parceiro, beneficiário e sustentáculo. Depois da manifestação de solidariedade do ex-deputado e ex-ministro José Dirceu em favor de Renan Calheiros, considerando-o também uma vítima da perseguição da imprensa e do Ministério Público, selou-se uma irmandade embaraçosa.
Embaraçosa, sobretudo, para a presidente Dilma no momento em que se formaliza a decisão de reconduzi-la à presidência em 2014. Os dois anos iniciais do seu mandato foram concebidos para exibir seus atributos como executiva mandona e competente. Começaram bem, terminaram mal. O fim do biênio, numa conjuntura internacional ainda mais desfavorável, prenuncia precariedades e desacertos volumosos demais para serem mantidos sob o tapete.
Os fantasmas da inflação, do apagão elétrico, da desindustrialização, dos transportes e, principalmente, da inconfiabilidade estatística estão saindo dos armários sem a menor cerimônia e não por culpa da presidente, mas dos acertos políticos que herdou, mantém e dificilmente poderá desativar.
Nesse cenário, a formidável popularidade de Dilma Rousseff como gerente e dona desta casa chamada Brasil reclama um suporte adicional: o papel de xerife. A insegurança federalizou-se, a corrupção alcança esferas inimagináveis e as cidades que funcionavam como santuários do bem-estar perverteram sua função.
Em algum momento, a santa classe C, devidamente empregada e saciada em matéria de consumo, começará a chiar. Envergonhada com a proliferação dos Renans e/ou acionada pela lembrança dos jovens intoxicados pela fumaça do desleixo e da negligência.
A tragédia de Santa Maria ofereceu à presidente Dilma Rousseff a oportunidade de reinventar-se: deixaria de ser a gerentona para assumir o papel de xerifona. Com emoção e firmeza, já no dia seguinte se dirigiu aos novos prefeitos prometendo que o luto não se repetirá e os responsáveis serão punidos. Imediatamente, pelo país afora, as autoridades iniciaram uma inédita cruzada para verificar a segurança das casas noturnas e de espetáculos.
Na sexta-feira, menos de uma semana depois, com olhos ainda marejados, almas feridas e dominada pela perplexidade, a sociedade assistiu à coroação do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) para reocupar o cargo de chefe do Poder Legislativo ao qual renunciara há seis anos para não ser cassado por falta de decoro e imoralidade.
Enquanto a polícia gaúcha começa a desmontar a engrenagem de irresponsabilidades, imprevidências e fraudes que tirou a vida de 236 jovens e mantém outras 126 em risco, assistimos na Câmara Alta da República à consagração de outra engrenagem, aparentemente inofensiva, mas crucial para alimentar e perenizar a bandalheira e a incúria. Em algum momento elas se articulam em novas catástrofes e desgraças.
O governo federal não pode nem deve interferir no Congresso, mas o PMDB, partido ao qual pertencem tanto o novo vice-rei como seu antecessor, José Sarney, é o seu principal parceiro, beneficiário e sustentáculo. Depois da manifestação de solidariedade do ex-deputado e ex-ministro José Dirceu em favor de Renan Calheiros, considerando-o também uma vítima da perseguição da imprensa e do Ministério Público, selou-se uma irmandade embaraçosa.
Embaraçosa, sobretudo, para a presidente Dilma no momento em que se formaliza a decisão de reconduzi-la à presidência em 2014. Os dois anos iniciais do seu mandato foram concebidos para exibir seus atributos como executiva mandona e competente. Começaram bem, terminaram mal. O fim do biênio, numa conjuntura internacional ainda mais desfavorável, prenuncia precariedades e desacertos volumosos demais para serem mantidos sob o tapete.
Os fantasmas da inflação, do apagão elétrico, da desindustrialização, dos transportes e, principalmente, da inconfiabilidade estatística estão saindo dos armários sem a menor cerimônia e não por culpa da presidente, mas dos acertos políticos que herdou, mantém e dificilmente poderá desativar.
Nesse cenário, a formidável popularidade de Dilma Rousseff como gerente e dona desta casa chamada Brasil reclama um suporte adicional: o papel de xerife. A insegurança federalizou-se, a corrupção alcança esferas inimagináveis e as cidades que funcionavam como santuários do bem-estar perverteram sua função.
Em algum momento, a santa classe C, devidamente empregada e saciada em matéria de consumo, começará a chiar. Envergonhada com a proliferação dos Renans e/ou acionada pela lembrança dos jovens intoxicados pela fumaça do desleixo e da negligência.
Trapaça tarifária-eleitoral - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 02/02
Mais do que simplesmente usar outra vez de maneira inescrupulosa os mecanismos da contabilidade criativa - de que vem lançando mão com frequência cada vez maior para tentar encobrir sua inapetência política para limitar seus gastos às receitas que legitimamente tem auferido -, o que o governo do PT fez para anunciar a redução das tarifas de energia elétrica foi enganar o consumidor e comprometer programas de administrações futuras.
Por meio de complexa manobra contábil-financeira, legal, mas ardilosa, o subsídio implícito na redução tarifária - estimado em R$ 8,46 bilhões em 2013 e em valor semelhante em 2014 - não será fornecido diretamente pelo Tesouro Nacional, o que deixa a impressão enganosa de que não terá custos fiscais, mas implicará o comprometimento antecipado de receitas futuras. Os benefícios que a presidente Dilma Rousseff oferece no presente, para alcançar popularidade que lhe assegure boa posição na disputa eleitoral de 2014, somente serão pagos depois que ela deixar o poder - mesmo que seja reeleita.
Ninguém é contra a redução das tarifas de energia elétrica. Mas, para alcançar esse objetivo, o governo agiu atabalhoadamente e impôs ao setor um programa de renovação de concessões que implicou a redução compulsória das tarifas. Dadas as exigência econômico-financeiras implícitas nas regras para renovar suas concessões, que vencem a partir de 2015, empresas controladas por governos estaduais desistiram da renovação.
Sem a participação dessas empresas, não seria alcançada a redução tarifária média de 16,2% para consumidores residenciais e de até 28% para a indústria nas condições anunciadas pela presidente em setembro do ano passado, quando se conheceram as normas para a renovação das concessões que vencem nos próximos anos. Com as empresas estaduais, a parte da redução tarifária que caberia ao Tesouro foi estimada em R$ 3,3 bilhões.
A política energética do governo vem sendo severamente criticada, por causa da frequência dos apagões. O atraso na definição de grandes obras de geração hidrelétrica, o descompasso entre essas obras, quando executadas, e as de transmissão de energia - que gera situações absurdas como a de uma usina entrar em operação e não poder despachar a energia gerada porque as obras dos linhões estão atrasadas - e, em consequência, o maior uso da geração termoelétrica para compensar a perda de capacidade das hidrelétricas em razão do baixo nível de suas represas igualmente alimentaram as críticas.
Trata-se de um setor pelo qual a presidente tem interesse especial, pois, antes de chefiar a Casa Civil, foi ministra de Minas e Energia na gestão Lula.
Em resposta às críticas cada vez mais fortes, e estimuladas pela redução da capacidade das hidrelétricas em razão da estiagem do ano passado e pelas dificuldades para o cumprimento da promessa de redução de tarifas, a presidente anunciou, num rompante característico de seu modo de agir quando irritada, redução ainda maior do que a prometida, mesmo em condições mais difíceis. A queda será de 18% para as residências e de até 32% para as indústrias.
Como tem feito com o superávit primário, também neste caso o governo Dilma utilizou manobras contábeis. A Itaipu Binacional tem uma dívida com a União, contraída para a construção da usina. Essa dívida vem sendo paga em parcelas anuais, de cerca de R$ 4 bilhões, e vence em 2023. O que o governo fez foi antecipar o pagamento de parcelas, por meio da venda desses créditos ao BNDES. O dinheiro recebido é transferido para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que subsidia a tarifa.
Trata-se de uma antecipação de receitas. Na década de 1990, esse tipo de operação levou à quebra dos bancos estaduais, entre os quais o Banespa, e à desorganização das finanças dos Estados, só recompostas por meio de ampla renegociação de suas dívidas e, posteriormente, pela edição da Lei de Responsabilidade Fiscal. Imaginava-se que essa prática não mais fizesse parte do arsenal de espertezas dos gestores de dinheiro público.
Mais do que simplesmente usar outra vez de maneira inescrupulosa os mecanismos da contabilidade criativa - de que vem lançando mão com frequência cada vez maior para tentar encobrir sua inapetência política para limitar seus gastos às receitas que legitimamente tem auferido -, o que o governo do PT fez para anunciar a redução das tarifas de energia elétrica foi enganar o consumidor e comprometer programas de administrações futuras.
Por meio de complexa manobra contábil-financeira, legal, mas ardilosa, o subsídio implícito na redução tarifária - estimado em R$ 8,46 bilhões em 2013 e em valor semelhante em 2014 - não será fornecido diretamente pelo Tesouro Nacional, o que deixa a impressão enganosa de que não terá custos fiscais, mas implicará o comprometimento antecipado de receitas futuras. Os benefícios que a presidente Dilma Rousseff oferece no presente, para alcançar popularidade que lhe assegure boa posição na disputa eleitoral de 2014, somente serão pagos depois que ela deixar o poder - mesmo que seja reeleita.
Ninguém é contra a redução das tarifas de energia elétrica. Mas, para alcançar esse objetivo, o governo agiu atabalhoadamente e impôs ao setor um programa de renovação de concessões que implicou a redução compulsória das tarifas. Dadas as exigência econômico-financeiras implícitas nas regras para renovar suas concessões, que vencem a partir de 2015, empresas controladas por governos estaduais desistiram da renovação.
Sem a participação dessas empresas, não seria alcançada a redução tarifária média de 16,2% para consumidores residenciais e de até 28% para a indústria nas condições anunciadas pela presidente em setembro do ano passado, quando se conheceram as normas para a renovação das concessões que vencem nos próximos anos. Com as empresas estaduais, a parte da redução tarifária que caberia ao Tesouro foi estimada em R$ 3,3 bilhões.
A política energética do governo vem sendo severamente criticada, por causa da frequência dos apagões. O atraso na definição de grandes obras de geração hidrelétrica, o descompasso entre essas obras, quando executadas, e as de transmissão de energia - que gera situações absurdas como a de uma usina entrar em operação e não poder despachar a energia gerada porque as obras dos linhões estão atrasadas - e, em consequência, o maior uso da geração termoelétrica para compensar a perda de capacidade das hidrelétricas em razão do baixo nível de suas represas igualmente alimentaram as críticas.
Trata-se de um setor pelo qual a presidente tem interesse especial, pois, antes de chefiar a Casa Civil, foi ministra de Minas e Energia na gestão Lula.
Em resposta às críticas cada vez mais fortes, e estimuladas pela redução da capacidade das hidrelétricas em razão da estiagem do ano passado e pelas dificuldades para o cumprimento da promessa de redução de tarifas, a presidente anunciou, num rompante característico de seu modo de agir quando irritada, redução ainda maior do que a prometida, mesmo em condições mais difíceis. A queda será de 18% para as residências e de até 32% para as indústrias.
Como tem feito com o superávit primário, também neste caso o governo Dilma utilizou manobras contábeis. A Itaipu Binacional tem uma dívida com a União, contraída para a construção da usina. Essa dívida vem sendo paga em parcelas anuais, de cerca de R$ 4 bilhões, e vence em 2023. O que o governo fez foi antecipar o pagamento de parcelas, por meio da venda desses créditos ao BNDES. O dinheiro recebido é transferido para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que subsidia a tarifa.
Trata-se de uma antecipação de receitas. Na década de 1990, esse tipo de operação levou à quebra dos bancos estaduais, entre os quais o Banespa, e à desorganização das finanças dos Estados, só recompostas por meio de ampla renegociação de suas dívidas e, posteriormente, pela edição da Lei de Responsabilidade Fiscal. Imaginava-se que essa prática não mais fizesse parte do arsenal de espertezas dos gestores de dinheiro público.
Muito além do alvará - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 02/02
Tragédia de Santa Maria pôs a nu a complexa e inoperante burocracia contra incêndios, cuja prevenção daria um salto com a ajuda de seguradoras
Tragédias como a da boate Kiss, em Santa Maria (RS), nunca se podem atribuir a uma causa única. Natural, portanto, que as acusações apontem para vários lados, o que não torna menos importante a responsabilização final de todos quantos forem os envolvidos. Há fortes indícios, por exemplo, de que houve superlotação. Noticia-se que a banda encarregada do show havia comprado fogos de artifício impróprios para ambientes fechados. O revestimento antirruído da casa de espetáculos, indicado por "técnicos" não identificados, era inflamável e fora instalado pouco depois da última vistoria.
Por outro lado, alega-se que o Corpo de Bombeiros se omitiu de realizar as fiscalizações necessárias; que a autorização de funcionamento do local, embora vencida, já chancelara algumas das irregularidades apontadas agora.
O destaque inicial à questão do alvará chama a atenção para o quanto se tornou "mera questão documental", como disse o advogado de um dos donos da boate, a emissão desse tipo de autorizações. Os paulistanos, por exemplo, tomam conhecimento de que 600 boates da cidade estão à espera de alvará. Mesmo assim, funcionam.
O mesmo deve valer para hotéis, cinemas, teatros, restaurantes. O prefeito Fernando Haddad (PT) mostrou bastante senso de oportunidade ao convocar proprietários de casas noturnas para um debate. As soluções que prometeu apresentar esbarram, entretanto, na lentidão e na falta de confiabilidade crônica da máquina pública.
É óbvio que nenhum empresário do setor de divertimentos deseja que ocorra uma tragédia; entende-se, por outro lado, que pondere a seu modo os custos da prevenção. O papel de uma entidade externa, capaz de fiscalizar com rigor as consequências coletivas desse tipo de "cálculo racional" do agente privado, cabe tradicionalmente ao poder governamental, falível e corrupto no Brasil.
Não são apenas, nem principalmente, os supostos vícios culturais brasileiros -descuido, otimismo, protelação- que servem para explicar uma situação em que o Estado não dá conta de suas atribuições nem as divide racionalmente.
É de se perguntar se, além de uma legislação federal enxuta, capaz de eliminar a complicação e a ambiguidade presentes nas atuais normas de prevenção, não caberia a agentes privados -como as empresas de seguros- papel mais ativo na função fiscalizadora.
Com a atribuição de um preço ao risco oferecido por tais locais de reunião, segurados e seguradores passam a ter um interesse comum na redução de um e de outro. Tal estímulo econômico para a adoção de procedimentos de segurança pode ser uma poderosa força suplementar à indispensável, mas tantas vezes precária, ação do poder público nessa área.
Tragédia de Santa Maria pôs a nu a complexa e inoperante burocracia contra incêndios, cuja prevenção daria um salto com a ajuda de seguradoras
Tragédias como a da boate Kiss, em Santa Maria (RS), nunca se podem atribuir a uma causa única. Natural, portanto, que as acusações apontem para vários lados, o que não torna menos importante a responsabilização final de todos quantos forem os envolvidos. Há fortes indícios, por exemplo, de que houve superlotação. Noticia-se que a banda encarregada do show havia comprado fogos de artifício impróprios para ambientes fechados. O revestimento antirruído da casa de espetáculos, indicado por "técnicos" não identificados, era inflamável e fora instalado pouco depois da última vistoria.
Por outro lado, alega-se que o Corpo de Bombeiros se omitiu de realizar as fiscalizações necessárias; que a autorização de funcionamento do local, embora vencida, já chancelara algumas das irregularidades apontadas agora.
O destaque inicial à questão do alvará chama a atenção para o quanto se tornou "mera questão documental", como disse o advogado de um dos donos da boate, a emissão desse tipo de autorizações. Os paulistanos, por exemplo, tomam conhecimento de que 600 boates da cidade estão à espera de alvará. Mesmo assim, funcionam.
O mesmo deve valer para hotéis, cinemas, teatros, restaurantes. O prefeito Fernando Haddad (PT) mostrou bastante senso de oportunidade ao convocar proprietários de casas noturnas para um debate. As soluções que prometeu apresentar esbarram, entretanto, na lentidão e na falta de confiabilidade crônica da máquina pública.
É óbvio que nenhum empresário do setor de divertimentos deseja que ocorra uma tragédia; entende-se, por outro lado, que pondere a seu modo os custos da prevenção. O papel de uma entidade externa, capaz de fiscalizar com rigor as consequências coletivas desse tipo de "cálculo racional" do agente privado, cabe tradicionalmente ao poder governamental, falível e corrupto no Brasil.
Não são apenas, nem principalmente, os supostos vícios culturais brasileiros -descuido, otimismo, protelação- que servem para explicar uma situação em que o Estado não dá conta de suas atribuições nem as divide racionalmente.
É de se perguntar se, além de uma legislação federal enxuta, capaz de eliminar a complicação e a ambiguidade presentes nas atuais normas de prevenção, não caberia a agentes privados -como as empresas de seguros- papel mais ativo na função fiscalizadora.
Com a atribuição de um preço ao risco oferecido por tais locais de reunião, segurados e seguradores passam a ter um interesse comum na redução de um e de outro. Tal estímulo econômico para a adoção de procedimentos de segurança pode ser uma poderosa força suplementar à indispensável, mas tantas vezes precária, ação do poder público nessa área.
Intervenção demagógica nos combustíveis perdura - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 02/02
O governo interveio de maneira equivocada na política de preços para os combustíveis, e os reflexos negativos dessa intervenção vão perdurar ainda algum tempo sobre esse setor vital para a economia. Com o crescimento da frota de veículos, era de se esperar que houvesse uma expansão considerável no consumo dos combustíveis. Mas, para angariar dividendos eleitoreiros, o governo resolver segurar os preços domésticos dos principais derivados (óleo diesel e gasolina), ignorando a lei de oferta e procura. Ao desatrelar os preços domésticos das cotações internacionais, o governo eliminou a única referência que poderia ter um mercado que ainda prevalece um monopólio de fato, em razão de a Petrobras deter o controle de todas as refinarias existentes no país.
Os preços da gasolina, do óleo diesel e do GLP são bem visíveis para a a maioria das pessoas. Já os dos demais derivados, não. A alta do querosene de aviação pesou nos custos das companhias aéreas, e uma parte acabou repassada ao valor cobrado pelas passagens. O encarecimento da nafta pesou na cadeia de produtos petroquímicos, plásticos e até farmacêuticos. O combustível usado nos navios pesou sobre os fretes marítimos. Então, é evidente que a contenção dos preços mais visíveis dos combustíveis teve mais propósito demagógico do que efetivamente uma preocupação econômica. Ajuda a segurar a inflação, mas a estatal subsidia a manobra.
As consequências são sentidas no salto do consumo de gasolina, o que obrigou a Petrobras a importar enormes volumes do produto, em condições que lhe são financeiramente desvantajosas. A empresa tem acumulado receitas aquém do que obteria se não houvesse essa intervenção demagógica. São recursos que estão fazendo falta nos pesados investimentos que a empresa realiza para aumentar sua produção, inclusive de derivados que hoje importa. E esse enfraquecimento ficou claro para os mercados. No dia seguinte ao anúncio do reajuste de 6,6% dos preços da gasolina e do diesel as ações da empresa caíram fortemente (5%) nas bolsas. Por essa reação, constata-se que os mercados financeiros não acreditam que a companhia entrará em uma trajetória de balanços bem mais saudáveis. E segunda-feira, a companhia deve divulgar seu resultado de 2012, um dos piores dos últimos tempos.
Mais cedo ou mais tarde o governo terá de desfazer essa política míope, não apenas para não continuar prejudicando a Petrobras, mas também porque indiretamente tem afetado outros segmentos importantes, como o etanol. Uma parte do explosivo aumento do consumo de gasolina (suprido consideravelmente por importações) decorreu da escassez de álcool hidratado no mercado interno.
O intervencionismo governamental quase sempre é maléfico, exatamente por estar sujeito a influências político-eleitorais. Mesmo sendo uma companhia de capital aberto, a Petrobras não ficou imune a esses efeitos nocivos.
O governo interveio de maneira equivocada na política de preços para os combustíveis, e os reflexos negativos dessa intervenção vão perdurar ainda algum tempo sobre esse setor vital para a economia. Com o crescimento da frota de veículos, era de se esperar que houvesse uma expansão considerável no consumo dos combustíveis. Mas, para angariar dividendos eleitoreiros, o governo resolver segurar os preços domésticos dos principais derivados (óleo diesel e gasolina), ignorando a lei de oferta e procura. Ao desatrelar os preços domésticos das cotações internacionais, o governo eliminou a única referência que poderia ter um mercado que ainda prevalece um monopólio de fato, em razão de a Petrobras deter o controle de todas as refinarias existentes no país.
Os preços da gasolina, do óleo diesel e do GLP são bem visíveis para a a maioria das pessoas. Já os dos demais derivados, não. A alta do querosene de aviação pesou nos custos das companhias aéreas, e uma parte acabou repassada ao valor cobrado pelas passagens. O encarecimento da nafta pesou na cadeia de produtos petroquímicos, plásticos e até farmacêuticos. O combustível usado nos navios pesou sobre os fretes marítimos. Então, é evidente que a contenção dos preços mais visíveis dos combustíveis teve mais propósito demagógico do que efetivamente uma preocupação econômica. Ajuda a segurar a inflação, mas a estatal subsidia a manobra.
As consequências são sentidas no salto do consumo de gasolina, o que obrigou a Petrobras a importar enormes volumes do produto, em condições que lhe são financeiramente desvantajosas. A empresa tem acumulado receitas aquém do que obteria se não houvesse essa intervenção demagógica. São recursos que estão fazendo falta nos pesados investimentos que a empresa realiza para aumentar sua produção, inclusive de derivados que hoje importa. E esse enfraquecimento ficou claro para os mercados. No dia seguinte ao anúncio do reajuste de 6,6% dos preços da gasolina e do diesel as ações da empresa caíram fortemente (5%) nas bolsas. Por essa reação, constata-se que os mercados financeiros não acreditam que a companhia entrará em uma trajetória de balanços bem mais saudáveis. E segunda-feira, a companhia deve divulgar seu resultado de 2012, um dos piores dos últimos tempos.
Mais cedo ou mais tarde o governo terá de desfazer essa política míope, não apenas para não continuar prejudicando a Petrobras, mas também porque indiretamente tem afetado outros segmentos importantes, como o etanol. Uma parte do explosivo aumento do consumo de gasolina (suprido consideravelmente por importações) decorreu da escassez de álcool hidratado no mercado interno.
O intervencionismo governamental quase sempre é maléfico, exatamente por estar sujeito a influências político-eleitorais. Mesmo sendo uma companhia de capital aberto, a Petrobras não ficou imune a esses efeitos nocivos.
PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV - 02/02
7h - Torneio de Pattaya, tênis fem., Bandsports
10h - Juventus x Velo Clube, Paulista (série A2), RedeTV
10h45 - Queens Park Rangers x Norwich, Inglês, ESPN
11h - Americana x Maranhão, Liga de basquete feminino, SporTV 2
11h30 - País de Gales x Irlanda, rúgbi, ESPN +
12h - Torneio de Paris, tênis fem., Bandsports
12h30 - Mainz x Bayern, Alemão, ESPN Brasil
13h - Newcastle x Chelsea, Inglês, ESPN
13h - Arsenal x Stoke City, Inglês, Fox Sports
13h - Gana x Cabo Verde, Copa Africana de Nações, SporTV
14h - Inglaterra x Escócia, rúgbi, ESPN +
14h30 - São Bernardo x Cruzeiro, Superliga masc. de vôlei, Esporte Interativo e SporTV 2
15h - Torino x Sampdoria, Italiano, Fox Sports
15h30 - Fulham x Manchester United, Inglês, ESPN
15h30 - Hamburgo x Frankfurt, Alemão, ESPN Brasil
16h - Joinville x Paulistano, NBB, SporTV 3
16h30 - África do Sul x Mali, Copa Africana de Nações, SporTV
17h - B. Bryan/M. Bryan (EUA) x M. Melo/B. Soares (BRA), Copa Davis (tênis),
SporTV 2
17h - Santa Cruz x Campinense, Copa do Nordeste, Esporte Interativo
17h30 - Conegliano x Bologna, Italiano fem. de vôlei, Bandsports
17h45 - Napoli x Catania, Italiano, Fox Sports
17h45 - PSV x ADO, Holandês, ESPN e ESPN +
18h30 - V. Guimarães x Porto, Português, SporTV 3
19h - Granada x Real Madrid, Espanhol, ESPN Brasil
19h30 - Quissamã x Fluminense, Estadual do Rio, SporTV
19h30 - América-RN x ASA, Copa do Nordeste, Esporte Interativo
21h30 - Rio de Janeiro x Campinas, Superliga masc. de vôlei, SporTV 2
22h - Estrellas Orientales-VEN x Lánus-ARG, Liga das Américas de basquete, Fox Sports
24h - Michigan x Indiana, basquete universitário, ESPN +
0h15 - Pinheiros x Guadalajara-MEX, Liga das Américas de basquete, Fox Sports
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Nada me impediria de perder a despedida de José”
Dona Marly, esposa de José Sarney, assistindo à última sessão presidida pelo marido
DILMA FAZ AFAGO EM RENAN APÓS VITÓRIA NO SENADO
A presidente Dilma mal esperou o resultado da votação ontem que elegeu o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) presidente do Senado para parabenizá-lo pela vitória e reforçar o projeto PT-PMDB. Apesar das movimentações do PSB – que opera para lançar voo solo ou desbancar o PMDB da vice – Dilma garante a caciques peemedebistas que reeditará a dobradinha com o partido para a sua reeleição em 2014.
BOLA PRA FRENTE
O Planalto viu no discurso de Renan Calheiros, baseado em propostas para sua gestão, a tentativa de começar uma nova fase na política.
ESTAMOS JUNTOS
O vice-presidente Michel Temer também telefonou, minutos após a vitória do correligionário, para desejar sucesso em sua gestão.
VITÓRIA ESPERADA
Em conversa na quinta à noite, Dilma e Michel Temer concluíram que as articulações do PSB não significavam nenhuma ameaça a Renan.
SÓ PENSA NISSO
Em plena articulação para 2014, Aécio Neves (PSDB-MG) não parou ontem no Plenário. Puxou vários colegas para falar ao pé do ouvido.
UMBANDA TAMBÉM QUER PASSAPORTE DIPLOMÁTICO
Servidores de representações brasileiras no exterior e membros de federações espíritas e de umbanda e candomblé, reconhecidas como religiões oficiais, também querem direito a passaporte diplomático, como líderes evangélicos até com passagens na polícia. A concessão dos passaportes foi um dos derradeiros atos do secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Rui Nogueira, que se aposenta.
DE VOLTA
Defenestrado dos Transportes após denúncias de corrupção, o senador Alfredo Nascimento (AM) será o novo líder do PR no Senado.
BOLA DO DF
O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) foi escolhido para suceder a colega Lídice da Mata (BA) na liderança do PSB no Senado.
MINHA VEZ
Já a senadora Vanessa Graziottin (AM) ainda vai propor ao colega Inácio Arruda (CE) revezamento na liderança do PCdoB.
OLHO EM 2014
Cotado para disputar o governo de Mato Grosso em 2014, o senador Blairo Maggi (PR) deu carona em seu jatinho a jornalistas dos sites e principais jornais de seu Estado para cobrir a eleição de Renan em Brasília.
ÚLTIMOS RETOQUES
Uma hora antes da eleição ao comando do Senado, Pedro Taques (PDT-MT) se reuniu com os independentes Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Pedro Simon (PMDB-RS).
ARTICULAÇÃO
Os candidatos à Câmara, Henrique Alves (RN), e à liderança do PMDB Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS) aproveitaram presença maciça de peemedebistas ontem no Senado para barganhar os últimos votos.
PESO DA IDADE
Chamou atenção a dificuldade do mais idoso do Congresso, Garibaldi Alves (PMDB-RN), pai do ministro da Previdência, para votar ontem. Aos 90 anos, ele não saiu da cadeira e precisou de ajuda de assessores.
TAL PAI, TAL FILHO
O deputado Renan Filho (PMDB-AL) fez questão de chegar cedo ao Senado para acompanhar, do começo ao fim, a eleição do pai, Renan, à presidência do Senado.
PIMENTEL FICA
A presidente Dilma comunicou ao senador José Pimentel (PT-CE) que ele permanecerá na liderança do governo no Congresso. A decisão foi levada essa semana pelo líder Wellington Dias (PI) à bancada do PT.
PAZ E AMOR
O senador José Sarney (PMDB-AP) reconheceu João Capiberibe (AP) como quarto membro da bancada do PSB: “Não quero sair do comando do Senado brigado com o PSB”, justificou à líder, Lídice da Mata (BA).
LAVAGEM CEREBRAL
Empregados da Infraero se dizem constrangidos com a ação realizada pela empresa. Enquanto faz demissões voluntárias, pede a todos que vistam camiseta com a frase: “Sou movido a desafios”, e distribuam cartões postais com frases inspiradoras do presidente Gustavo do Vale.
PAPELÃO
Pergunta sensata no Twitter: por que 130 milhões de brasileiros votam em urnas eletrônicas e 81 senadores votam em cédulas de papel?
PODER SEM PUDOR
CONSIDERAÇÃO DE CABARÉ
Muito jovem, Osvaldo Aranha foi prefeito de Alegrete (RS) e decidiu acabar uma curiosa tradição: a briga diária, todas as noites, no cabaré da cidade, "Lulu dos Caçadores". Tudo corria bem e animado até o relógio bater 2h da madrugada, e o pau cantava. Uma noite, ele visitou a boate. Bebeu, dançou, foi embora às 3h, nada de briga. Voltou no dia seguinte, e novamente os valentões não apareceram. No quinto dia, já freguês, encontrou um vistoso aviso na parede: "Dr. Osvaldo Aranha, acabaram-se as considerações".
Naquela madrugada, pontualmente às 2h, o pau cantou de novo.
Dona Marly, esposa de José Sarney, assistindo à última sessão presidida pelo marido
DILMA FAZ AFAGO EM RENAN APÓS VITÓRIA NO SENADO
A presidente Dilma mal esperou o resultado da votação ontem que elegeu o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) presidente do Senado para parabenizá-lo pela vitória e reforçar o projeto PT-PMDB. Apesar das movimentações do PSB – que opera para lançar voo solo ou desbancar o PMDB da vice – Dilma garante a caciques peemedebistas que reeditará a dobradinha com o partido para a sua reeleição em 2014.
BOLA PRA FRENTE
O Planalto viu no discurso de Renan Calheiros, baseado em propostas para sua gestão, a tentativa de começar uma nova fase na política.
ESTAMOS JUNTOS
O vice-presidente Michel Temer também telefonou, minutos após a vitória do correligionário, para desejar sucesso em sua gestão.
VITÓRIA ESPERADA
Em conversa na quinta à noite, Dilma e Michel Temer concluíram que as articulações do PSB não significavam nenhuma ameaça a Renan.
SÓ PENSA NISSO
Em plena articulação para 2014, Aécio Neves (PSDB-MG) não parou ontem no Plenário. Puxou vários colegas para falar ao pé do ouvido.
UMBANDA TAMBÉM QUER PASSAPORTE DIPLOMÁTICO
Servidores de representações brasileiras no exterior e membros de federações espíritas e de umbanda e candomblé, reconhecidas como religiões oficiais, também querem direito a passaporte diplomático, como líderes evangélicos até com passagens na polícia. A concessão dos passaportes foi um dos derradeiros atos do secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Rui Nogueira, que se aposenta.
DE VOLTA
Defenestrado dos Transportes após denúncias de corrupção, o senador Alfredo Nascimento (AM) será o novo líder do PR no Senado.
BOLA DO DF
O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) foi escolhido para suceder a colega Lídice da Mata (BA) na liderança do PSB no Senado.
MINHA VEZ
Já a senadora Vanessa Graziottin (AM) ainda vai propor ao colega Inácio Arruda (CE) revezamento na liderança do PCdoB.
OLHO EM 2014
Cotado para disputar o governo de Mato Grosso em 2014, o senador Blairo Maggi (PR) deu carona em seu jatinho a jornalistas dos sites e principais jornais de seu Estado para cobrir a eleição de Renan em Brasília.
ÚLTIMOS RETOQUES
Uma hora antes da eleição ao comando do Senado, Pedro Taques (PDT-MT) se reuniu com os independentes Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Pedro Simon (PMDB-RS).
ARTICULAÇÃO
Os candidatos à Câmara, Henrique Alves (RN), e à liderança do PMDB Sandro Mabel (GO) e Osmar Terra (RS) aproveitaram presença maciça de peemedebistas ontem no Senado para barganhar os últimos votos.
PESO DA IDADE
Chamou atenção a dificuldade do mais idoso do Congresso, Garibaldi Alves (PMDB-RN), pai do ministro da Previdência, para votar ontem. Aos 90 anos, ele não saiu da cadeira e precisou de ajuda de assessores.
TAL PAI, TAL FILHO
O deputado Renan Filho (PMDB-AL) fez questão de chegar cedo ao Senado para acompanhar, do começo ao fim, a eleição do pai, Renan, à presidência do Senado.
PIMENTEL FICA
A presidente Dilma comunicou ao senador José Pimentel (PT-CE) que ele permanecerá na liderança do governo no Congresso. A decisão foi levada essa semana pelo líder Wellington Dias (PI) à bancada do PT.
PAZ E AMOR
O senador José Sarney (PMDB-AP) reconheceu João Capiberibe (AP) como quarto membro da bancada do PSB: “Não quero sair do comando do Senado brigado com o PSB”, justificou à líder, Lídice da Mata (BA).
LAVAGEM CEREBRAL
Empregados da Infraero se dizem constrangidos com a ação realizada pela empresa. Enquanto faz demissões voluntárias, pede a todos que vistam camiseta com a frase: “Sou movido a desafios”, e distribuam cartões postais com frases inspiradoras do presidente Gustavo do Vale.
PAPELÃO
Pergunta sensata no Twitter: por que 130 milhões de brasileiros votam em urnas eletrônicas e 81 senadores votam em cédulas de papel?
PODER SEM PUDOR
CONSIDERAÇÃO DE CABARÉ
Muito jovem, Osvaldo Aranha foi prefeito de Alegrete (RS) e decidiu acabar uma curiosa tradição: a briga diária, todas as noites, no cabaré da cidade, "Lulu dos Caçadores". Tudo corria bem e animado até o relógio bater 2h da madrugada, e o pau cantava. Uma noite, ele visitou a boate. Bebeu, dançou, foi embora às 3h, nada de briga. Voltou no dia seguinte, e novamente os valentões não apareceram. No quinto dia, já freguês, encontrou um vistoso aviso na parede: "Dr. Osvaldo Aranha, acabaram-se as considerações".
Naquela madrugada, pontualmente às 2h, o pau cantou de novo.
SÁBADO NOS JORNAIS
- Globo: Vale a pena ver de novo? Com apoio até de tucanos, Renan está de volta
- Folha: Prefeitura de SP vai interditar 26 locais irregulares
- Estadão: Senado ignora acusações e Renan é eleito com 56 votos
- Correio: Renan vence e diz: “Ética não é fim”
- Estado de Minas: BH tem 1ª boate interditada
- Zero Hora: Ela é a causa, mas quem são os culpados?
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
O novo mercado sexual - NELSON MOTTA
O GLOBO - 01/02
Elas mandam recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo ‘Vai ao barzinho hoje? Se for, vou sem calcinha’
O jogo virou, de antigas oprimidas dos anos 60, chamadas por John Lennon de “o crioulo do mundo” em “Woman is the Nigger of the World”, as mulheres avançaram pelas trilhas abertas pelo feminismo e hoje são presidentes, secretárias de Estado, ministras, comandantes de jatos, de batalhões militares e de grandes grupos econômicos, jogando futebol, dirigindo filmes e dando aulas de todos os assuntos, elas estão em toda parte, até na frente de combate. Mas continuam reclamando.
Pesquisas recentes mostram que nos Estados Unidos, onde elas têm mais poder, dinheiro, independência e liberdade do que nunca, as mulheres estão mais insatisfeitas agora do que nos anos 60, porque, com tantas opções, escolher ficou muito mais difícil. E, como Freud já sabia, nunca se sabe o que quer uma mulher.
Até o sonho da maternidade balança, algumas já admitem que seria melhor não ter tido filhos, ou que foram eles que destruíram a sua felicidade.
São muitas as Marias hoje em dia, da clássica “Maria-Gasolina”, com sua atração irresistível por carros, à moderna “Maria-Chuteira”, que acompanhou a evolução sociopatrimonial dos jogadores de futebol.
Agora a antropóloga Miriam Goldenberg fala do florescimento nos meios universitários da “Maria-Apostila”, que manda recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo “Vai ao barzinho hoje? Se for, vou sem calcinha”. Competindo para ver quem pega mais professores, as “Maria-Lattes”, como a famosa plataforma de currículos acadêmicos, valorizam tanto a quantidade quanto a qualidade.
As mulheres passivas, à espera do chamado dos homens, estão saindo de cena. Estamos na era das periguetes, das roupas curtas e justas em corpos sarados, partindo para o ataque e invertendo os papéis de gênero, intimidando e provocando desconforto nos homens. Embora ainda continuem esperando um telefonema no dia seguinte.
Nas pesquisas de Miriam ficou claro que, com essa troca de papéis, os homens estão apavorados. E as mulheres, desesperadas.
Assim como na economia, a lei da oferta e da procura vale para o mercado sexual: quando a oferta cresce, a procura amolece.
Elas mandam recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo ‘Vai ao barzinho hoje? Se for, vou sem calcinha’
O jogo virou, de antigas oprimidas dos anos 60, chamadas por John Lennon de “o crioulo do mundo” em “Woman is the Nigger of the World”, as mulheres avançaram pelas trilhas abertas pelo feminismo e hoje são presidentes, secretárias de Estado, ministras, comandantes de jatos, de batalhões militares e de grandes grupos econômicos, jogando futebol, dirigindo filmes e dando aulas de todos os assuntos, elas estão em toda parte, até na frente de combate. Mas continuam reclamando.
Pesquisas recentes mostram que nos Estados Unidos, onde elas têm mais poder, dinheiro, independência e liberdade do que nunca, as mulheres estão mais insatisfeitas agora do que nos anos 60, porque, com tantas opções, escolher ficou muito mais difícil. E, como Freud já sabia, nunca se sabe o que quer uma mulher.
Até o sonho da maternidade balança, algumas já admitem que seria melhor não ter tido filhos, ou que foram eles que destruíram a sua felicidade.
São muitas as Marias hoje em dia, da clássica “Maria-Gasolina”, com sua atração irresistível por carros, à moderna “Maria-Chuteira”, que acompanhou a evolução sociopatrimonial dos jogadores de futebol.
Agora a antropóloga Miriam Goldenberg fala do florescimento nos meios universitários da “Maria-Apostila”, que manda recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo “Vai ao barzinho hoje? Se for, vou sem calcinha”. Competindo para ver quem pega mais professores, as “Maria-Lattes”, como a famosa plataforma de currículos acadêmicos, valorizam tanto a quantidade quanto a qualidade.
As mulheres passivas, à espera do chamado dos homens, estão saindo de cena. Estamos na era das periguetes, das roupas curtas e justas em corpos sarados, partindo para o ataque e invertendo os papéis de gênero, intimidando e provocando desconforto nos homens. Embora ainda continuem esperando um telefonema no dia seguinte.
Nas pesquisas de Miriam ficou claro que, com essa troca de papéis, os homens estão apavorados. E as mulheres, desesperadas.
Assim como na economia, a lei da oferta e da procura vale para o mercado sexual: quando a oferta cresce, a procura amolece.
Os miseráveis - CORA RÓNAI
O GLOBO - 01/01
Dos comentários lamentáveis sobre a tragédia de Santa Maria à contundência e às críticas de ‘Os miseráveis’
Não aguento mais a estupidez e a ignorância dos fundamentalistas religiosos — de qualquer credo. Sou de um tempo em que religião era questão de foro íntimo: quem tinha tinha, mas não ficava exibindo em público, como medalha por bom comportamento.
Não suporto mais ler caixas de comentários que, por qualquer motivo, viram latrinas imundas, cheias de brados louvaminheiros e palavras de acusação, transbordando um orgulho podre. Sim, porque é disso, afinal, que se trata: todos os que brandem a religião como se fosse a bandeira de um time se julgam superiores aos demais.
Tenho horror dos que, em nome do “amor” entre aspas, semeiam o ódio mais visceral; me repugnam os que falam em nome de Deus — qualquer que seja ele — como se fossem seus legítimos porta-vozes.
As notícias na internet sobre a tragédia de Santa Maria estão cheias de comentários absurdos, que condenam os jovens por se divertirem e lhes negam o Reino dos Céus.
Que pessoas horrendas são essas que têm coragem de culpar as vítimas?!
Que talibãs cristãos, que escória, que sarandalha desprezível.
_________
Pronto. Agora que desabafei, podemos ir em frente.
_________
Quando cheguei do cinema, corri para o computador e escrevi isso:
“‘Os miseráveis’ não é só o melhor musical que jamais vi nas telas; é o melhor filme que vejo em muito, muito tempo. Tudo perfeito. Cenários fantásticos, direção impecável, atores maravilhosos — sendo que Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen roubam todas as cenas em que aparecem. Preciso que entre logo em cartaz para ver de novo.”
Hoje, depois de uma noite, um dia e entrando por outra noite, eu mudaria um pouco o texto. Não afirmaria tão categoricamente que “Os miseráveis” é “o melhor musical que jamais vi nas telas” porque, afinal, assisti a filmes deliciosos, como “My Fair Lady” e “A noviça rebelde”. Diria, em vez disso, “um dos melhores musicais que jamais vi nas telas”. Mas é que eu estava sob o impacto do filme. Ainda estou.
Não fui a única. Claudio Botelho — sim, ele mesmo, o dos musicais — também correu para o Facebook:
“O filme ‘Os miseráveis’ é o musical mais espetacular e emocionante que apareceu no cinema desde sei lá quando... Não tem tamanho o sentimento que o filme desperta. Acabo de sair do cinema e não sei quando vou superar. Superar pra quê, né?”
Estávamos na mesma sessão, mas não nos vimos. Ainda bem. Caso contrário, corríamos o risco de ainda estar lá de pé, no estacionamento, conversando arrebatados sobre o que assistimos. “Os miseráveis” é esse tipo de filme. Ou eu achava que era, até acordar na terça-feira e ir para a internet, para ler a seu respeito.
Os críticos da revista “The New Yorker”, que eu tanto amo — e quase todos os críticos de cinema das outras grandes publicações norte-americanas — esquartejaram “Os miseráveis”. Tudo aquilo que tinha me dado tanto prazer não valia nada, era raso, ruim, equivocado. Onde eu vi beleza e emoção, eles viram cafonice e sentimentalismo barato.
Foi uma acachapante lição de humildade. A mensagem das críticas era muito clara: só pessoas manipuláveis e destituídas de senso estético gostavam daquela bobagem tonitruante. Baixei as orelhas. Meu amor-próprio teria ficado seriamente ferido se, logo depois, eu não tivesse lido a crítica inglesa, que nunca viu nada semelhante.
Ufa.
__________
“Os miseráveis” é o primeiro grande musical a ser filmado com som direto. Isso significa que, em cada cena que se vê, cada canção que se escuta foi gravada ao vivo. Zero dublagem. Não dá para superestimar o valor que a decisão do diretor Tom Hooper trouxe para o resultado final em termos emotivos. Quem é de chorar em cinema vai chorar muito com a intensidade dos sentimentos desencapados, à flor da pele.
Anne Hathaway, candidata ao Oscar por sua atuação, aparece pouco, mas em compensação canta a música mais conhecida, “I dreamed a dream”, que mesmo quem nunca assistiu ao musical já ouviu. Está absolutamente perfeita. Já Hugh Jackman, igualmente brilhante como Jean Valjean, quase não sai de cena: o papel é de tal intensidade que a MSN Movies sugeriu que ele ganhasse um Prêmio Nobel pelo trabalho. Eu apoio. Gostei muito de Daniel Day-Lewis em “Lincoln”, mas se o Oscar fosse atribuído por voto direto, Jackman seria o meu candidato.
Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen estão ótimos como os Thénardier, a dupla cômica da história; a Eponine da inglesinha Samantha Barks, que aos 22 anos já tem uma sólida experiência de palco, é encantadora. Chega a ser injustiça destacar esse ou aquele ator num elenco tão (literalmente!) afinado. Até Russell Crowe, que não está bom, está bom. Ele faz Javert, o policial obcecado com Jean Valjean.
__________
Com “I dreamed a dream” na cabeça, acabei me lembrando de Susan Boyle, que ganhou o “Britain’s got talent” de 2009. Que fim teria levado? A rede informa que ela vai muito bem, obrigado. Lançou seu quinto CD em novembro, cantou para a Rainha no Jubileu e, embora tenha hoje uma fortuna estimada em US$ 33 milhões, continua andando de ônibus e de sapato sem salto, morando na casa onde sempre viveu e fazendo compras em lojas onde tudo custa uma libra: figura.
Dos comentários lamentáveis sobre a tragédia de Santa Maria à contundência e às críticas de ‘Os miseráveis’
Não aguento mais a estupidez e a ignorância dos fundamentalistas religiosos — de qualquer credo. Sou de um tempo em que religião era questão de foro íntimo: quem tinha tinha, mas não ficava exibindo em público, como medalha por bom comportamento.
Não suporto mais ler caixas de comentários que, por qualquer motivo, viram latrinas imundas, cheias de brados louvaminheiros e palavras de acusação, transbordando um orgulho podre. Sim, porque é disso, afinal, que se trata: todos os que brandem a religião como se fosse a bandeira de um time se julgam superiores aos demais.
Tenho horror dos que, em nome do “amor” entre aspas, semeiam o ódio mais visceral; me repugnam os que falam em nome de Deus — qualquer que seja ele — como se fossem seus legítimos porta-vozes.
As notícias na internet sobre a tragédia de Santa Maria estão cheias de comentários absurdos, que condenam os jovens por se divertirem e lhes negam o Reino dos Céus.
Que pessoas horrendas são essas que têm coragem de culpar as vítimas?!
Que talibãs cristãos, que escória, que sarandalha desprezível.
_________
Pronto. Agora que desabafei, podemos ir em frente.
_________
Quando cheguei do cinema, corri para o computador e escrevi isso:
“‘Os miseráveis’ não é só o melhor musical que jamais vi nas telas; é o melhor filme que vejo em muito, muito tempo. Tudo perfeito. Cenários fantásticos, direção impecável, atores maravilhosos — sendo que Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen roubam todas as cenas em que aparecem. Preciso que entre logo em cartaz para ver de novo.”
Hoje, depois de uma noite, um dia e entrando por outra noite, eu mudaria um pouco o texto. Não afirmaria tão categoricamente que “Os miseráveis” é “o melhor musical que jamais vi nas telas” porque, afinal, assisti a filmes deliciosos, como “My Fair Lady” e “A noviça rebelde”. Diria, em vez disso, “um dos melhores musicais que jamais vi nas telas”. Mas é que eu estava sob o impacto do filme. Ainda estou.
Não fui a única. Claudio Botelho — sim, ele mesmo, o dos musicais — também correu para o Facebook:
“O filme ‘Os miseráveis’ é o musical mais espetacular e emocionante que apareceu no cinema desde sei lá quando... Não tem tamanho o sentimento que o filme desperta. Acabo de sair do cinema e não sei quando vou superar. Superar pra quê, né?”
Estávamos na mesma sessão, mas não nos vimos. Ainda bem. Caso contrário, corríamos o risco de ainda estar lá de pé, no estacionamento, conversando arrebatados sobre o que assistimos. “Os miseráveis” é esse tipo de filme. Ou eu achava que era, até acordar na terça-feira e ir para a internet, para ler a seu respeito.
Os críticos da revista “The New Yorker”, que eu tanto amo — e quase todos os críticos de cinema das outras grandes publicações norte-americanas — esquartejaram “Os miseráveis”. Tudo aquilo que tinha me dado tanto prazer não valia nada, era raso, ruim, equivocado. Onde eu vi beleza e emoção, eles viram cafonice e sentimentalismo barato.
Foi uma acachapante lição de humildade. A mensagem das críticas era muito clara: só pessoas manipuláveis e destituídas de senso estético gostavam daquela bobagem tonitruante. Baixei as orelhas. Meu amor-próprio teria ficado seriamente ferido se, logo depois, eu não tivesse lido a crítica inglesa, que nunca viu nada semelhante.
Ufa.
__________
“Os miseráveis” é o primeiro grande musical a ser filmado com som direto. Isso significa que, em cada cena que se vê, cada canção que se escuta foi gravada ao vivo. Zero dublagem. Não dá para superestimar o valor que a decisão do diretor Tom Hooper trouxe para o resultado final em termos emotivos. Quem é de chorar em cinema vai chorar muito com a intensidade dos sentimentos desencapados, à flor da pele.
Anne Hathaway, candidata ao Oscar por sua atuação, aparece pouco, mas em compensação canta a música mais conhecida, “I dreamed a dream”, que mesmo quem nunca assistiu ao musical já ouviu. Está absolutamente perfeita. Já Hugh Jackman, igualmente brilhante como Jean Valjean, quase não sai de cena: o papel é de tal intensidade que a MSN Movies sugeriu que ele ganhasse um Prêmio Nobel pelo trabalho. Eu apoio. Gostei muito de Daniel Day-Lewis em “Lincoln”, mas se o Oscar fosse atribuído por voto direto, Jackman seria o meu candidato.
Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen estão ótimos como os Thénardier, a dupla cômica da história; a Eponine da inglesinha Samantha Barks, que aos 22 anos já tem uma sólida experiência de palco, é encantadora. Chega a ser injustiça destacar esse ou aquele ator num elenco tão (literalmente!) afinado. Até Russell Crowe, que não está bom, está bom. Ele faz Javert, o policial obcecado com Jean Valjean.
__________
Com “I dreamed a dream” na cabeça, acabei me lembrando de Susan Boyle, que ganhou o “Britain’s got talent” de 2009. Que fim teria levado? A rede informa que ela vai muito bem, obrigado. Lançou seu quinto CD em novembro, cantou para a Rainha no Jubileu e, embora tenha hoje uma fortuna estimada em US$ 33 milhões, continua andando de ônibus e de sapato sem salto, morando na casa onde sempre viveu e fazendo compras em lojas onde tudo custa uma libra: figura.
Existe amor no FB - MICHEL LAUB
FOLHA DE SP - 01/02
Difícil passar dez minutos lendo posts sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero
Num dos textos mais bonitos da língua portuguesa, o "Sermão do Mandato", padre Antonio Vieira comenta as ignorâncias que impedem o amor de florescer no vale de lágrimas onde vivemos: não conhecer a si mesmo, não entender o amor, não saber onde o amor vai dar, não enxergar a natureza do objeto amado.
Não sei se Jonathan Franzen leu o padre Vieira, mas num ensaio curto, na verdade o discurso de formatura que abre a coletânea "Como Ficar Sozinho" (Companhia das Letras), de certo modo aderiu a um esporte comum quando o assunto são as redes sociais: atualizar os quatro preceitos, definindo o que seriam as relações sentimentais verdadeiras.
Franzen tem uma posição clara, referindo-se ao Facebook: "Se uma pessoa (...) dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é (...). A perspectiva da dor (...), da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir".
A tendência de quem lê esse tipo de artigo é simpatizar. Afinal, difícil passar dez minutos lendo posts de conhecidos sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero existencial travestido de alegria, sem falar naqueles vídeos de publicidade e humor. Mas dá para perguntar, também, se não há idealização em ver uma essência humana perdida a cada vez que acessamos o mundo virtual.
Melhor dizendo, não haveria uma crença exagerada na autonomia desse mundo? Como se gastar horas por dia em frente ao computador equivalesse a um "sonho anestesiado de autossuficiência", na definição de Franzen. "Passar pela vida e não sofrer é não viver", completa o escritor americano, e fico pensando se ele acredita mesmo que alguém escape de pagar contas, se explicar para o cônjuge furioso ou fazer tratamento de ciático apenas por causa de Mark Zuckerberg.
Talvez o engano se deva à pouca familiaridade com uma tecnologia que pode ser fim ou instrumento, dependendo de como é usada. Qualquer um que tenha trocado mensagens eletrônicas não profissionais sabe que, numa adaptação inevitável aos códigos de uma escrita que imita a fala, inclusive com suas modulações de sentido (ironia, ênfase, hipérbole) e expressão afetiva (doçura, raiva, choro), é possível que daí nasçam amizade, inveja, desprezo e até amor.
O que não significa, óbvio, a substituição da presença física. Nem a supervalorização dessa presença. Quando Franzen encerra o discurso com a expressão "seres reais", não sei a que ponto elevado da alma se refere. Mesmo no mundo pré-digital, um flerte começava na superfície -gostos, aparência física, maneira como se fala. Tudo isso é possível no Facebook, e quanta chateação é poupada quando uma pretendente nota que seu pretendido é analfabeto funcional. Ou quando espia suas fotos e percebe que jamais se sentirá atraída por ele.
Se não quisermos julgar o mérito de tais ações, fiquemos com o critério estatístico, as possibilidades que a tecnologia acabou trazendo para quem a utiliza. Digamos que o candidato seja um viúvo de 75 anos, cujo destino uns anos atrás era passar o resto das tardes sozinho, numa padaria triste, tomando Underberg em copo de requeijão e olhando para o vazio. O que há de errado em ele fazer contato com outra viúva que se arrasta pelo éter virtual? E que esse contato seja inicialmente frívolo, até ridículo?
Ou esperavam que o viúvo se apresentasse falando do enterro da mulher, do reumatismo, dos filhos que não o visitam há décadas -em resumo, do seu verdadeiro eu? Caso a investida dê certo, e aí será no mundo concreto, como etapa seguinte ao prólogo virtual, isso tudo virá à tona. Ou não. Viver no engano pode ser bom ou ruim -cabe aos envolvidos, e não a nós, imersos nessa nova forma de moralismo, decidir o quanto de intimidade se quer revelar e conhecer.
No "Sermão do Mandato", padre Vieira usa um exemplo de indivíduo que, do início ao fim, foi consciente e praticante das quatro condições do amor: Jesus Cristo. Mas talvez não seja um bom exemplo, vide a maneira como seu "affair" terminou. Então, perdoemos o resto da humanidade, que é filha de Deus, mas não tanto, por usar os atalhos disponíveis -incluindo o Facebook, por que não?- para chegar lá.
Difícil passar dez minutos lendo posts sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero
Num dos textos mais bonitos da língua portuguesa, o "Sermão do Mandato", padre Antonio Vieira comenta as ignorâncias que impedem o amor de florescer no vale de lágrimas onde vivemos: não conhecer a si mesmo, não entender o amor, não saber onde o amor vai dar, não enxergar a natureza do objeto amado.
Não sei se Jonathan Franzen leu o padre Vieira, mas num ensaio curto, na verdade o discurso de formatura que abre a coletânea "Como Ficar Sozinho" (Companhia das Letras), de certo modo aderiu a um esporte comum quando o assunto são as redes sociais: atualizar os quatro preceitos, definindo o que seriam as relações sentimentais verdadeiras.
Franzen tem uma posição clara, referindo-se ao Facebook: "Se uma pessoa (...) dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é (...). A perspectiva da dor (...), da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir".
A tendência de quem lê esse tipo de artigo é simpatizar. Afinal, difícil passar dez minutos lendo posts de conhecidos sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero existencial travestido de alegria, sem falar naqueles vídeos de publicidade e humor. Mas dá para perguntar, também, se não há idealização em ver uma essência humana perdida a cada vez que acessamos o mundo virtual.
Melhor dizendo, não haveria uma crença exagerada na autonomia desse mundo? Como se gastar horas por dia em frente ao computador equivalesse a um "sonho anestesiado de autossuficiência", na definição de Franzen. "Passar pela vida e não sofrer é não viver", completa o escritor americano, e fico pensando se ele acredita mesmo que alguém escape de pagar contas, se explicar para o cônjuge furioso ou fazer tratamento de ciático apenas por causa de Mark Zuckerberg.
Talvez o engano se deva à pouca familiaridade com uma tecnologia que pode ser fim ou instrumento, dependendo de como é usada. Qualquer um que tenha trocado mensagens eletrônicas não profissionais sabe que, numa adaptação inevitável aos códigos de uma escrita que imita a fala, inclusive com suas modulações de sentido (ironia, ênfase, hipérbole) e expressão afetiva (doçura, raiva, choro), é possível que daí nasçam amizade, inveja, desprezo e até amor.
O que não significa, óbvio, a substituição da presença física. Nem a supervalorização dessa presença. Quando Franzen encerra o discurso com a expressão "seres reais", não sei a que ponto elevado da alma se refere. Mesmo no mundo pré-digital, um flerte começava na superfície -gostos, aparência física, maneira como se fala. Tudo isso é possível no Facebook, e quanta chateação é poupada quando uma pretendente nota que seu pretendido é analfabeto funcional. Ou quando espia suas fotos e percebe que jamais se sentirá atraída por ele.
Se não quisermos julgar o mérito de tais ações, fiquemos com o critério estatístico, as possibilidades que a tecnologia acabou trazendo para quem a utiliza. Digamos que o candidato seja um viúvo de 75 anos, cujo destino uns anos atrás era passar o resto das tardes sozinho, numa padaria triste, tomando Underberg em copo de requeijão e olhando para o vazio. O que há de errado em ele fazer contato com outra viúva que se arrasta pelo éter virtual? E que esse contato seja inicialmente frívolo, até ridículo?
Ou esperavam que o viúvo se apresentasse falando do enterro da mulher, do reumatismo, dos filhos que não o visitam há décadas -em resumo, do seu verdadeiro eu? Caso a investida dê certo, e aí será no mundo concreto, como etapa seguinte ao prólogo virtual, isso tudo virá à tona. Ou não. Viver no engano pode ser bom ou ruim -cabe aos envolvidos, e não a nós, imersos nessa nova forma de moralismo, decidir o quanto de intimidade se quer revelar e conhecer.
No "Sermão do Mandato", padre Vieira usa um exemplo de indivíduo que, do início ao fim, foi consciente e praticante das quatro condições do amor: Jesus Cristo. Mas talvez não seja um bom exemplo, vide a maneira como seu "affair" terminou. Então, perdoemos o resto da humanidade, que é filha de Deus, mas não tanto, por usar os atalhos disponíveis -incluindo o Facebook, por que não?- para chegar lá.
Admirável mundo novo, uai? - BARBARA GANCIA
FOLHA DE SP - 01/02
Quem passou por uma depressão, ainda que leve, pode contar os benefícios da compensação química
Assim que a minha companheira de horário começou a ler a notícia na Bandnews FM, eu comecei a soltar faísca: "Brasileiros usam mais tranquilizantes do que europeus, aponta pesquisa da Proteste". Veja se eu posso: "O resultado de pesquisa conduzida em cinco países verificou que brasileiros demonstraram uso crônico significativamente mais alto principalmente de antidepressivos".
E daí? Quem disse que a frase "Os brasileiros demonstraram uso crônico significativamente mais alto principalmente de antidepressivos" tem necessariamente uma conotação negativa?
E se a gente olhasse por outro prisma e visse que somos mais abertos às novidades da ciência do que os arremedos de ostrogodos, capadócios e etruscos que ora habitam o continente europeu?
A tal pesquisa alerta para o fato de que 47% dos brasileiros chegam a fazer uso de ansiolíticos e antidepressivos. Meu Deus, mas isso só pode ser uma notícia maravilhosa!
Veja: 40 milhões de tapuias não têm acesso a água potável e 75 milhões não têm esgotos coletados. Se metade da população agora pode comprar medicamentos para tratar da psique, isso quer dizer que estamos ricos, não? Ora, não tenho culpa se os europeus preferem passar sem dormir. Minha situação já resolvi, pois meu sono me faz mais falta que os males que o remédio pode causar. Mesmo se de manhã eu não lembre meu nome ou onde estou e se agora tenha perdido o fio da sequência de pensamento que ia encadear a seguir.
Ah, sim, lembrei! Ia pinçar aqui mais uma frase contida na brilhante e abrangente reportagem sobre a pesquisa da Proteste e suas conclusões que, obviamente, não caminham no mesmo sentido de nenhum grupo ou sindicato do desimportante mundo da indústria que lida com fármacos e os agentes que gravitam ao seu redor não só no Brasil como no mundo.
A ela: "O uso destes medicamentos está associado a indivíduos com estilo de vida pouco saudável, que sofrem de insônia, são fumantes, sedentários, estressados, portadores de ansiedade ou depressão". É para bater palmas agora ou só depois de tomar meu ansiolítico?
Ainda bem que os brasileiros sedentários, estressados e que não conseguem levar uma vida saudável encontraram um meio para não se jogar do viaduto do Chá, não é mesmo? Graças a Deus que a evolução da ciência hoje oferece a essas pessoas que se sentem deslocadas (ou seja, quase todos nós que sofremos da angústia de ter nascido) maneiras de sobreviver ao dia, dormir e chegar ao dia seguinte. Isso deveria ser considerado um verdadeiro milagre. Quem passou por uma depressão, ainda que leve, pode dizer os benefícios da compensação química.
Mas por que colocar os europeus como paradigma? Se eu for imitar europeu, vou passar a semana sem tomar banho. Já viu como o garçom reage quando você pede um refrigerante light na Itália ou na França? Camarada tem ataque de riso na sua cara. Tente pedir um café com adoçante na Alemanha. Você terá de ir buscar o aspartame no supermercado da esquina.
Podendo, europeu não consome "industrializados" e não gosta de ir ao médico. É um asceta. Não é o consumista descarado, modelo Orlando feito a gente, que está indo na onda de ver até sem-teto fazer check-up no Fleury -mais um índice no IDH que sobe. Chupa David Cameron!
É evidente que uso indiscriminado e dependência são indesejáveis.
Mas algum Taleban, naturalista, militante do oxigênio puro, antitransgênico, ciclista radical vai vir me ensinar a viver a vida? Vai?
Quem passou por uma depressão, ainda que leve, pode contar os benefícios da compensação química
Assim que a minha companheira de horário começou a ler a notícia na Bandnews FM, eu comecei a soltar faísca: "Brasileiros usam mais tranquilizantes do que europeus, aponta pesquisa da Proteste". Veja se eu posso: "O resultado de pesquisa conduzida em cinco países verificou que brasileiros demonstraram uso crônico significativamente mais alto principalmente de antidepressivos".
E daí? Quem disse que a frase "Os brasileiros demonstraram uso crônico significativamente mais alto principalmente de antidepressivos" tem necessariamente uma conotação negativa?
E se a gente olhasse por outro prisma e visse que somos mais abertos às novidades da ciência do que os arremedos de ostrogodos, capadócios e etruscos que ora habitam o continente europeu?
A tal pesquisa alerta para o fato de que 47% dos brasileiros chegam a fazer uso de ansiolíticos e antidepressivos. Meu Deus, mas isso só pode ser uma notícia maravilhosa!
Veja: 40 milhões de tapuias não têm acesso a água potável e 75 milhões não têm esgotos coletados. Se metade da população agora pode comprar medicamentos para tratar da psique, isso quer dizer que estamos ricos, não? Ora, não tenho culpa se os europeus preferem passar sem dormir. Minha situação já resolvi, pois meu sono me faz mais falta que os males que o remédio pode causar. Mesmo se de manhã eu não lembre meu nome ou onde estou e se agora tenha perdido o fio da sequência de pensamento que ia encadear a seguir.
Ah, sim, lembrei! Ia pinçar aqui mais uma frase contida na brilhante e abrangente reportagem sobre a pesquisa da Proteste e suas conclusões que, obviamente, não caminham no mesmo sentido de nenhum grupo ou sindicato do desimportante mundo da indústria que lida com fármacos e os agentes que gravitam ao seu redor não só no Brasil como no mundo.
A ela: "O uso destes medicamentos está associado a indivíduos com estilo de vida pouco saudável, que sofrem de insônia, são fumantes, sedentários, estressados, portadores de ansiedade ou depressão". É para bater palmas agora ou só depois de tomar meu ansiolítico?
Ainda bem que os brasileiros sedentários, estressados e que não conseguem levar uma vida saudável encontraram um meio para não se jogar do viaduto do Chá, não é mesmo? Graças a Deus que a evolução da ciência hoje oferece a essas pessoas que se sentem deslocadas (ou seja, quase todos nós que sofremos da angústia de ter nascido) maneiras de sobreviver ao dia, dormir e chegar ao dia seguinte. Isso deveria ser considerado um verdadeiro milagre. Quem passou por uma depressão, ainda que leve, pode dizer os benefícios da compensação química.
Mas por que colocar os europeus como paradigma? Se eu for imitar europeu, vou passar a semana sem tomar banho. Já viu como o garçom reage quando você pede um refrigerante light na Itália ou na França? Camarada tem ataque de riso na sua cara. Tente pedir um café com adoçante na Alemanha. Você terá de ir buscar o aspartame no supermercado da esquina.
Podendo, europeu não consome "industrializados" e não gosta de ir ao médico. É um asceta. Não é o consumista descarado, modelo Orlando feito a gente, que está indo na onda de ver até sem-teto fazer check-up no Fleury -mais um índice no IDH que sobe. Chupa David Cameron!
É evidente que uso indiscriminado e dependência são indesejáveis.
Mas algum Taleban, naturalista, militante do oxigênio puro, antitransgênico, ciclista radical vai vir me ensinar a viver a vida? Vai?
Os corvos e a nossa língua - MILTON HATOUM
O Estado de S.Paulo -01/02
Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro, ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?
Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.
Por isso é melhor apagar nomes e números de telefone. Felizmente usei muito pouco a borracha: a imensa maioria dos amigos ainda está neste mundo. Alguns são tão jovens que parecem viver em outra era. Ou talvez seja o contrário: eu mesmo pertenço a um outro tempo.
Nas conversas com dois desses jovens, surgem estranhas expressões em inglês sobre jogos eletrônicos e complicadas redes virtuais; essas expressões se repetem até a saturação e não me dizem nada. Diante de tantas palavras desconhecidas, que aludem a um mundo virtual que também desconheço, só me resta o silêncio, nossa voz essencial, talvez a mais verdadeira. De qualquer modo, somos amigos, e quando lhes mostro um poema de Wallace Stevens, eles o leem com enfado, depois me olham com desconfiança, como se eu fosse um lunático. E enquanto eles se entusiasmam com redes virtuais e joguinhos barulhentos, eu continuo a conversar com um homem silencioso. Assim permanecemos amigos em nossos mundos cindidos, e vamos vivendo.
Na outra extremidade da ponte, os amigos longevos tampouco me abandonaram. Refiro-me a duas senhoras quase centenárias. A primeira, é a mulher que me alfabetizou e merece uma crônica à parte. A outra, Ludmila, foi minha professora no curso ginasial, e sua lucidez espantosa me surpreende e me humilha. Até hoje, examina meus escritos com lupa, e quando descobre um erro ou uma distração, me telefona a qualquer hora do dia ou da noite para dizer, com uma voz do além, que eu devia consultar um livro do gramático Said Ali antes de escrever barbaridades.
Ludmila nasceu antes de 1922. Nunca aceitou o tom coloquial dos escritores modernistas e condena o uso inadequado da próclise e de qualquer pronome oblíquo átono. Agora está enfezada com "esses conterrâneos que usam a segunda pessoa do singular com o verbo na terceira".
Disse-lhe que esses erros de concordância já foram incorporados à fala popular, por isso são toleráveis, e até aceitos. Além disso, acrescentei, Machado de Assis já não escrevia como Camilo Castelo Branco nem como Eça de Queirós.
"Tu leste A Doida do Candal no meu colo, mas nenhum português diz 'tu vai, tu fica, tu viu", protestou Ludmila, com a mesma voz ríspida de 1965 ou 1964. "Essa forma bizarra dói-me os ouvidos. Daqui a pouco vão dizer que os cavalos cacarejam, as galinhas relincham, as onças crocitam e os corvos esturram."
Disse que isso era possível na literatura, e também no sonho, que é a forma mais civilizada e mais livre de contar uma história sem escrever palavras. Depois perguntei, com ironia, se havia corvos em Manaus, nossa cidade amada.
"Há muitos", ela respondeu. "Corvos que não crocitam nem esturram, mas roubam e mentem desde que eu nasci."
Grande Ludmila: quase um século de vida e não perdeu a verve da revolta.
Nos últimos dias de janeiro, apaguei, com pesar, o nome e o número de telefone de amigos e conhecidos que passaram para o outro lado do espelho. Não foi um ato de morbidez. Fiz isso porque sou distraído, tão distraído que, certa vez, liguei para um amigo e, quando a mulher dele atendeu, começou a chorar. E antes de lhe perguntar a razão do choro, ela me disse: você foi ao enterro dele, não se lembra?
Só então me lembrei daquela triste tarde de junho; pedi desculpa pela gafe e disse que a memória é um mistério, às vezes as lembranças aparecem com nitidez, outras vezes ficam guardadas, teimosamente escondidas, ou em estado de latência.
Por isso é melhor apagar nomes e números de telefone. Felizmente usei muito pouco a borracha: a imensa maioria dos amigos ainda está neste mundo. Alguns são tão jovens que parecem viver em outra era. Ou talvez seja o contrário: eu mesmo pertenço a um outro tempo.
Nas conversas com dois desses jovens, surgem estranhas expressões em inglês sobre jogos eletrônicos e complicadas redes virtuais; essas expressões se repetem até a saturação e não me dizem nada. Diante de tantas palavras desconhecidas, que aludem a um mundo virtual que também desconheço, só me resta o silêncio, nossa voz essencial, talvez a mais verdadeira. De qualquer modo, somos amigos, e quando lhes mostro um poema de Wallace Stevens, eles o leem com enfado, depois me olham com desconfiança, como se eu fosse um lunático. E enquanto eles se entusiasmam com redes virtuais e joguinhos barulhentos, eu continuo a conversar com um homem silencioso. Assim permanecemos amigos em nossos mundos cindidos, e vamos vivendo.
Na outra extremidade da ponte, os amigos longevos tampouco me abandonaram. Refiro-me a duas senhoras quase centenárias. A primeira, é a mulher que me alfabetizou e merece uma crônica à parte. A outra, Ludmila, foi minha professora no curso ginasial, e sua lucidez espantosa me surpreende e me humilha. Até hoje, examina meus escritos com lupa, e quando descobre um erro ou uma distração, me telefona a qualquer hora do dia ou da noite para dizer, com uma voz do além, que eu devia consultar um livro do gramático Said Ali antes de escrever barbaridades.
Ludmila nasceu antes de 1922. Nunca aceitou o tom coloquial dos escritores modernistas e condena o uso inadequado da próclise e de qualquer pronome oblíquo átono. Agora está enfezada com "esses conterrâneos que usam a segunda pessoa do singular com o verbo na terceira".
Disse-lhe que esses erros de concordância já foram incorporados à fala popular, por isso são toleráveis, e até aceitos. Além disso, acrescentei, Machado de Assis já não escrevia como Camilo Castelo Branco nem como Eça de Queirós.
"Tu leste A Doida do Candal no meu colo, mas nenhum português diz 'tu vai, tu fica, tu viu", protestou Ludmila, com a mesma voz ríspida de 1965 ou 1964. "Essa forma bizarra dói-me os ouvidos. Daqui a pouco vão dizer que os cavalos cacarejam, as galinhas relincham, as onças crocitam e os corvos esturram."
Disse que isso era possível na literatura, e também no sonho, que é a forma mais civilizada e mais livre de contar uma história sem escrever palavras. Depois perguntei, com ironia, se havia corvos em Manaus, nossa cidade amada.
"Há muitos", ela respondeu. "Corvos que não crocitam nem esturram, mas roubam e mentem desde que eu nasci."
Grande Ludmila: quase um século de vida e não perdeu a verve da revolta.
Ueba! Adriano joga em Viracopos! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 01/02
Sabe por que o Adriano quer assinar com o Guarani de Campinas? Porque o aeroporto lá é Viracopos!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Socorro! Todos para o abrigo! Me mate um bode! Salve-se quem puder!
O Michel Temer, além de mordomo de filme de terror, agora é poeta! E ler o livro de poesias do Michel Temer é uma TEMERIDADE!
Título da ameaça nuclear: "Anônima Intimidade". Ah, intimidade anônima? Tédio! Detesto intimidade anônima. Eu quero saber quem comeu quem. Tipo "TV Fama"!
E como disse um amigo meu: "Antes eu gostava de Vinicius, T.S. Eliot e W.H. Auden, agora não abro mão das poesias do Michel Temer". Rarará! Vai fazer dobradinha com o Sarney!
E o Adriano Imperador? Sabe por que o Adriano quer assinar com o Guarani de Campinas? Porque o aeroporto lá é Viracopos! Então ele vai morar no aeroporto. Vai morar, se concentrar e jogar em Viracopos! Adriano fecha contrato com o Viracopos!
E o São Paulo? Conseguiu a façanha de perder pro Bolívar. Em La Paz! De virada! Sabe o que é isso? Salto alto mais altitude! Saltitude! É isso que dá levar droga pra Bolívia! Fizeram o caminho inverso!
E diz que jogar em La Paz é a mesma coisa que subir ladeira fumando! E frango naquela altitude não é frango, é urubu! Rarará! E se o Ceni já é ranzinza ao nível do mar, imagine na altitude de La Paz! Chaltitude! Rarará!
E o goleiro do Barcelona é um trocadilho ambulante: Pinto! Aí os comentaristas sérios da ESPN: "O Pinto tá caído, o Pinto pulou, o Pinto esticou, o Pinto agarrou a bola"!
Pior, o Pinto levou um carrinho de um companheiro. E adivinha onde foram parar as travas da chuteira? No pinto do Pinto, claro! O Pinto levou um carrinho no pinto! Só que esse é um Pinto português. Pinto conterrâneo do Cristiano Ronaldo! Que usa aquele shortinho batendo na testa! Rarará!
E como disse um amigo: "O Barça joga com o Carvalho e o Barcelona com o Pinto, Carvalho Pinto, o clássico das rodovias". É mole? É mole, mas sobe!
O Brasileiro é Cordial! Olha a placa num portão aqui em São Paulo: "Já disse que não conserto carro de ninguém! Cai fora, jumento". E essa placa numa escola maternal, jardim de infância: "Não vale atirar pedra nos colegas". Medo! Pânico! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Sabe por que o Adriano quer assinar com o Guarani de Campinas? Porque o aeroporto lá é Viracopos!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Socorro! Todos para o abrigo! Me mate um bode! Salve-se quem puder!
O Michel Temer, além de mordomo de filme de terror, agora é poeta! E ler o livro de poesias do Michel Temer é uma TEMERIDADE!
Título da ameaça nuclear: "Anônima Intimidade". Ah, intimidade anônima? Tédio! Detesto intimidade anônima. Eu quero saber quem comeu quem. Tipo "TV Fama"!
E como disse um amigo meu: "Antes eu gostava de Vinicius, T.S. Eliot e W.H. Auden, agora não abro mão das poesias do Michel Temer". Rarará! Vai fazer dobradinha com o Sarney!
E o Adriano Imperador? Sabe por que o Adriano quer assinar com o Guarani de Campinas? Porque o aeroporto lá é Viracopos! Então ele vai morar no aeroporto. Vai morar, se concentrar e jogar em Viracopos! Adriano fecha contrato com o Viracopos!
E o São Paulo? Conseguiu a façanha de perder pro Bolívar. Em La Paz! De virada! Sabe o que é isso? Salto alto mais altitude! Saltitude! É isso que dá levar droga pra Bolívia! Fizeram o caminho inverso!
E diz que jogar em La Paz é a mesma coisa que subir ladeira fumando! E frango naquela altitude não é frango, é urubu! Rarará! E se o Ceni já é ranzinza ao nível do mar, imagine na altitude de La Paz! Chaltitude! Rarará!
E o goleiro do Barcelona é um trocadilho ambulante: Pinto! Aí os comentaristas sérios da ESPN: "O Pinto tá caído, o Pinto pulou, o Pinto esticou, o Pinto agarrou a bola"!
Pior, o Pinto levou um carrinho de um companheiro. E adivinha onde foram parar as travas da chuteira? No pinto do Pinto, claro! O Pinto levou um carrinho no pinto! Só que esse é um Pinto português. Pinto conterrâneo do Cristiano Ronaldo! Que usa aquele shortinho batendo na testa! Rarará!
E como disse um amigo: "O Barça joga com o Carvalho e o Barcelona com o Pinto, Carvalho Pinto, o clássico das rodovias". É mole? É mole, mas sobe!
O Brasileiro é Cordial! Olha a placa num portão aqui em São Paulo: "Já disse que não conserto carro de ninguém! Cai fora, jumento". E essa placa numa escola maternal, jardim de infância: "Não vale atirar pedra nos colegas". Medo! Pânico! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
DÁ MINHA MERCEDES - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 01/02
BARRACO NO VALET
O imbróglio foi em frente ao valet numa quadra de restaurantes badalados. O manobrista entregou, por engano, ao irmão de Kakay a Mercedes de Calmon. Por volta das 3h da madrugada, Marcos voltou, com a sobrinha Tainá, para trocar os carros. Segundo Kakay, ela foi chamada de "ladra e prostituta" e levou um murro de Michelle. Calmon diz que não houve agressão física e que Tainá chegou rindo e xingou sua mulher de "piranha".
NA DELEGACIA
Tainá registrou a ocorrência na 1ª DP. "Além da injúria, partiram para as vias de fato. Foi baixo nível", diz Kakay. "Somos vítimas de um bando de loucos", rebate Calmon, que fez uma queixa-crime na delegacia do Lago Sul. "Vejo meu carro chegando em alta velocidade. A moça ao volante rindo e o Marcos, completamente embriagado." A audiência de conciliação será no dia 18.
NA GARAGEM
A Mercedes de Marcos é 2003. A de Calmon, 2008, "top de linha". Ambas pretas.
CLUBE DOS CINCO
O prefeito Fernando Haddad privilegiou seu "núcleo duro" à mesa no primeiro mês de gestão. Almoçou 16 vezes com os mesmos secretários: Antonio Donato (Governo), Leda Paulani (Planejamento), Fernando de Mello Franco (Desenvolvimento Urbano), Marcos Cruz (Finanças) e Luís Massonetto (Negócios Jurídicos).
NA DIANTEIRA
O recordista Massonetto esteve com o chefe uma 17ª vez, numa das duas ocasiões em que a primeira-dama Ana Estela se juntou ao marido, segundo a agenda oficial do prefeito. Ela também foi no almoço com secretários da "cota PMDB": Luciana Temer (Assistência Social), Mariane Pinotti (Pessoa com Deficiência) e Roberto Porto (Segurança), além do deputado federal Gabriel Chalita.
FESTA SEM FIM
A Abrafesta disponibilizou em seu site e nos escritórios do Procon um "Manual de Boas Práticas", que instrui o cliente a fazer perguntas para checar a segurança de bufês ou salões de eventos.
"Na maioria das vezes, quem faz uma festa nem sabe que precauções se deve ter", diz Vera Simão, presidente da entidade.
NOVO EM FOLHINHA
A modelo Andressa Torres, 18, estampa um dos meses do calendário da agência Way, em que figuram apenas manequins em início de carreira
É PISTA OU TABLADO?
Os atores Martha Nowill, Michelle Ferreira e Milhem Cortaz foram à festa Soul Kitchen, no Teatro e Bar Cemitério de Automóveis. A cineasta Sabrina Greve também passou pelo espaço, na Bela Vista, na terça.
A BOLSA ESTÁ EM ALTA
Roberta Noschese e a empresária Cris Lotaif foram recebidas por Milene Pulice na abertura da segunda loja da grife italiana Miu Miu, no shopping Cidade Jardim.
OS ZÉS E O LULA
O ator José de Abreu, 68, saiu do armário político: depois de anos defendendo o PT em público, resolveu se filiar ao partido. Foi pedir conselhos ao ex-presidente Lula e ao amigo José Dirceu sobre uma possível candidatura para deputado federal em 2014.
Ele conta que Lula achou a "ideia sensacional". O ator agora o espera no Rio, para uma sessão da peça "Bonifácio Bilhões" ("que inclusive discute ética"), na qual atua. "Lula abonaria minha ficha e lançaria uma campanha maciça de filiação ao PT do Rio."
Jantou com José Dirceu, condenado pelo mensalão, nesta semana. O ator Paulo Betti também foi. Segundo Zé, o Abreu, conversaram sobre sua candidatura. Evanise Santos, mulher de Dirceu, tirava fotos no celular.
Abreu sairá em caravana com o senador Lindberg Farias (PT) pelo interior do Rio. Preocupa-se com o contrato na Globo, que vai até 2014, caso dispute a eleição. "Ganho muito mais na Globo. Como deputado, terei que baixar meu padrão de vida."
O casamento gay é uma bandeira. Sobre ter se declarado bissexual no Twitter, explica: "Nunca tive caso homossexual. Não posso dizer que sou preto nem índio nem mulher nem pobre. Assumi posição de minoria. Quero ser vítima de preconceito".
SÃO PAULO S.A
O ator Irandhir Santos está em SP participando das filmagens de "Obra", primeiro longa de Gregório Graziosi. O pernambucano vive um arquiteto que encontra um cemitério clandestino no projeto que começa a executar. As filmagens acontecem no Copan, na Estação Pinacoteca e na Igreja da Consolação.
MEIA-NOITE EM PARIS
O estilista Karl Lagerlfeld, da Chanel, fotografou anteontem de madrugada, em Paris, com a top britânica Cara Delevingne, campanha para a brasileira Melissa.
O alemão assina uma linha de calçados de plástico para a marca. As fotos foram feitas na livraria de Lagerfeld, a 7 L.
CURTO-CIRCUITO
Alessandra Negrini é a rainha da bateria do Acadêmicos do Baixo Augusta, que desfila no domingo. O cargo estava vago desde a saída de Marisa Orth.
Roberta Sá faz show no HSBC Brasil hoje, no Baile do Movimento.
A Loja do Elogio abre hoje na rua Oscar Freire.
O camarote Expresso 2222, de Flora Gil, do Carnaval de Salvador, fechou parceria com a Net.
O vereador Andrea Matarazzo protocolou ontem a criação de uma frente parlamentar para discutir drogas e doenças mentais.
O File, festival de arte e de tecnologia, recebe até o dia 9 inscrições para sua edição em SP, em julho.
Burocracia ineficaz mata - CLÁUDIO GONÇALVES COUTO
Valor Econômico - 01/02
A tragédia da boate em Santa Maria alertou autoridades e empresários do ramo quanto à necessidade de maior atenção à segurança dos estabelecimentos. Em consequência disso, ocorreram blitze país afora, locais irregulares foram fechados e a Câmara dos Deputados montou comissão para formular uma legislação nacional sobre condições de segurança de casas noturnas e de espetáculos. Apenas em Manaus, 52 casas foram fechadas, mais da metade das existentes na cidade. No Rio de Janeiro, noticiava-se o fechamento de 11 estabelecimentos; em Maceió, outros 3. Em São Paulo, algumas casas suspenderam as atividades voluntariamente, com o declarado intento de ajustar suas condições para melhor atender ao público.
Em suma, alastrou-se pelo país uma onda de preocupação em relação a um problema que, a rigor, deveria merecer atenção corriqueira. O despertar para essa situação foi reconhecido pelo secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, Sérgio Sá Leitão, que tem sob sua jurisdição dez teatros, dos quais (pasmem) nove funcionando sem autorização, como noticiou "O Globo".
O tema da existência ou não de alvarás de funcionamento emergiu da tragédia gaúcha, já que a boate de Santa Maria estava com o seu vencido. Nisso, contudo, ela de forma alguma era peculiar. Só a cidade de São Paulo possui cerca de 600 estabelecimentos cujo alvará não foi expedido pela Prefeitura, como noticiou o Estadão. Tal situação gera insegurança para o público e inconformismo no empresariado do setor, que aguarda até quatro anos por um documento que, de acordo com a lei, deveria ser expedido em 30 dias.
Ineficácia de nossa burocracia causa perdas diversas
Decerto, diante de tal acúmulo de atrasos, torna-se impossível fechar os estabelecimentos que não dispõem de autorização - algo reconhecido pelo próprio prefeito, Fernando Haddad. Afinal, isso, além de economicamente desastroso, seria injusto, já que puniria empresários que não têm culpa pela lentidão da burocracia municipal. Aliás, mais do que injusto, um tal fechamento geraria situações kafkianas, já que muitos dos que não dispõem do documento apenas vivem tal situação por não se vergarem ao achaque de máfias instaladas na burocracia pública, como observado por Leonardo Sakamoto em seu blog.
Tendo isso em vista, uma medida anunciada pelo prefeito paulistano pode ser providencial, desde que implementada dando transparência aos dois lados do balcão. Após reunir-se com o empresariado do setor de restaurantes e casas de espetáculo, o prefeito anunciou que as datas de expedição dos alvarás de casas noturnas da capital paulista ficarão disponíveis na internet. A ideia será excelente se, além das informações relativas aos estabelecimentos, aparecerem aquelas relativas à parte da Prefeitura. Em que data foi dada entrada na documentação? Quanto tempo a prefeitura já levou na apreciação do pedido, sem que tenha ainda emitido o alvará? Até a emissão, quanto tempo levou?
A divulgação de dados como esses colocaria sob pressão não apenas os empresários da noite, mas a própria administração pública e, particularmente, os funcionários responsáveis pela expedição dos documentos. Poder-se-ia constatar, por exemplo, que um determinado estabelecimento obteve seu alvará em apenas 30 dias, enquanto outro já aguarda há 3 anos, apesar de ambos terem igualmente dado entrada em todos os documentos exigidos (um check list disso também poderia constar do site). O que explicaria a disparidade? Será que alguém tem amigos na máquina, ou cedeu ao achaque, enquanto o outro resistiu a ele, ou não é tão bem relacionado?
Investigações sobre casos como o de Santa Maria podem revelar que, ao longo do processo, uma autorização indevida de funcionamento (ou a demora para a expedição dela) pode ser a causa última de tragédias. Situações desse tipo tornam evidente que a corrupção, a prevaricação, a omissão ou a incompetência não prejudicam apenas os negócios, mas podem ser letais. Por isso, a transparência necessária não diz respeito apenas à situação dos regulados, mas também à conduta dos reguladores. Claro que se enfrentarão resistências de interesses entrincheirados, nada voltados ao atendimento do público, mas tal enfrentamento faz a diferença no sucesso dos governantes e em sua capacidade de inovar.
Há alguns anos, a Secretaria de Estado da Saúde paulista tentou implantar ponto eletrônico para médicos. Enfrentou forte reação e sabotagem: equipamentos de ponto danificados e acobertamento. Episódios recentes de esquemas de faltas de médicos que recebiam sem trabalhar geraram escândalos e permitiram um enrijecimento do controle sobre o comparecimento ao trabalho. O caso recente, do médico indiciado por omissão de socorro em decorrência ter faltado quando uma criança baleada precisou de seus serviços, mostra que certas situações - antes naturalizadas por setores do funcionalismo público) - já não encontram a mesma tolerância. Isto abriu espaço para que o prefeito Eduardo Paes anunciasse há poucos dias a implantação do ponto eletrônico na rede municipal de saúde.
Em todos esses casos, a informatização é uma ferramenta importante para aprimorar o controle, conferir transparência e subsidiar a ação de governantes, atores do sistema de justiça, a mídia e o público. Contudo, ela é apenas uma peça num sistema mais complexo de medidas, que requer mudanças legais e de postura de todos esses atores. Eventos dramáticos, como a morte da menina pela falta do médico, ou a catástrofe de Santa Maria, criam conjunturas críticas para as mudanças, mas isso requer celeridade dos governantes e perseverança da mídia na cobertura das providências. Sem isto, logo os episódios se tornam apenas dolorosas lembranças, sem capacidade de mobilizar apoios e vencer resistências.
A maior dessas resistências está na burocracia governamental, habitat propício à corrupção e à ineficiência, alimentando oportunismo e vencendo por cansaço o empreendedorismo e os sentimentos republicanos. Não raro, isso termina em tragédia. Está na hora da desburocratização e a eficácia da gestão ganharem centralidade na agenda dos governantes.
A tragédia da boate em Santa Maria alertou autoridades e empresários do ramo quanto à necessidade de maior atenção à segurança dos estabelecimentos. Em consequência disso, ocorreram blitze país afora, locais irregulares foram fechados e a Câmara dos Deputados montou comissão para formular uma legislação nacional sobre condições de segurança de casas noturnas e de espetáculos. Apenas em Manaus, 52 casas foram fechadas, mais da metade das existentes na cidade. No Rio de Janeiro, noticiava-se o fechamento de 11 estabelecimentos; em Maceió, outros 3. Em São Paulo, algumas casas suspenderam as atividades voluntariamente, com o declarado intento de ajustar suas condições para melhor atender ao público.
Em suma, alastrou-se pelo país uma onda de preocupação em relação a um problema que, a rigor, deveria merecer atenção corriqueira. O despertar para essa situação foi reconhecido pelo secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, Sérgio Sá Leitão, que tem sob sua jurisdição dez teatros, dos quais (pasmem) nove funcionando sem autorização, como noticiou "O Globo".
O tema da existência ou não de alvarás de funcionamento emergiu da tragédia gaúcha, já que a boate de Santa Maria estava com o seu vencido. Nisso, contudo, ela de forma alguma era peculiar. Só a cidade de São Paulo possui cerca de 600 estabelecimentos cujo alvará não foi expedido pela Prefeitura, como noticiou o Estadão. Tal situação gera insegurança para o público e inconformismo no empresariado do setor, que aguarda até quatro anos por um documento que, de acordo com a lei, deveria ser expedido em 30 dias.
Ineficácia de nossa burocracia causa perdas diversas
Decerto, diante de tal acúmulo de atrasos, torna-se impossível fechar os estabelecimentos que não dispõem de autorização - algo reconhecido pelo próprio prefeito, Fernando Haddad. Afinal, isso, além de economicamente desastroso, seria injusto, já que puniria empresários que não têm culpa pela lentidão da burocracia municipal. Aliás, mais do que injusto, um tal fechamento geraria situações kafkianas, já que muitos dos que não dispõem do documento apenas vivem tal situação por não se vergarem ao achaque de máfias instaladas na burocracia pública, como observado por Leonardo Sakamoto em seu blog.
Tendo isso em vista, uma medida anunciada pelo prefeito paulistano pode ser providencial, desde que implementada dando transparência aos dois lados do balcão. Após reunir-se com o empresariado do setor de restaurantes e casas de espetáculo, o prefeito anunciou que as datas de expedição dos alvarás de casas noturnas da capital paulista ficarão disponíveis na internet. A ideia será excelente se, além das informações relativas aos estabelecimentos, aparecerem aquelas relativas à parte da Prefeitura. Em que data foi dada entrada na documentação? Quanto tempo a prefeitura já levou na apreciação do pedido, sem que tenha ainda emitido o alvará? Até a emissão, quanto tempo levou?
A divulgação de dados como esses colocaria sob pressão não apenas os empresários da noite, mas a própria administração pública e, particularmente, os funcionários responsáveis pela expedição dos documentos. Poder-se-ia constatar, por exemplo, que um determinado estabelecimento obteve seu alvará em apenas 30 dias, enquanto outro já aguarda há 3 anos, apesar de ambos terem igualmente dado entrada em todos os documentos exigidos (um check list disso também poderia constar do site). O que explicaria a disparidade? Será que alguém tem amigos na máquina, ou cedeu ao achaque, enquanto o outro resistiu a ele, ou não é tão bem relacionado?
Investigações sobre casos como o de Santa Maria podem revelar que, ao longo do processo, uma autorização indevida de funcionamento (ou a demora para a expedição dela) pode ser a causa última de tragédias. Situações desse tipo tornam evidente que a corrupção, a prevaricação, a omissão ou a incompetência não prejudicam apenas os negócios, mas podem ser letais. Por isso, a transparência necessária não diz respeito apenas à situação dos regulados, mas também à conduta dos reguladores. Claro que se enfrentarão resistências de interesses entrincheirados, nada voltados ao atendimento do público, mas tal enfrentamento faz a diferença no sucesso dos governantes e em sua capacidade de inovar.
Há alguns anos, a Secretaria de Estado da Saúde paulista tentou implantar ponto eletrônico para médicos. Enfrentou forte reação e sabotagem: equipamentos de ponto danificados e acobertamento. Episódios recentes de esquemas de faltas de médicos que recebiam sem trabalhar geraram escândalos e permitiram um enrijecimento do controle sobre o comparecimento ao trabalho. O caso recente, do médico indiciado por omissão de socorro em decorrência ter faltado quando uma criança baleada precisou de seus serviços, mostra que certas situações - antes naturalizadas por setores do funcionalismo público) - já não encontram a mesma tolerância. Isto abriu espaço para que o prefeito Eduardo Paes anunciasse há poucos dias a implantação do ponto eletrônico na rede municipal de saúde.
Em todos esses casos, a informatização é uma ferramenta importante para aprimorar o controle, conferir transparência e subsidiar a ação de governantes, atores do sistema de justiça, a mídia e o público. Contudo, ela é apenas uma peça num sistema mais complexo de medidas, que requer mudanças legais e de postura de todos esses atores. Eventos dramáticos, como a morte da menina pela falta do médico, ou a catástrofe de Santa Maria, criam conjunturas críticas para as mudanças, mas isso requer celeridade dos governantes e perseverança da mídia na cobertura das providências. Sem isto, logo os episódios se tornam apenas dolorosas lembranças, sem capacidade de mobilizar apoios e vencer resistências.
A maior dessas resistências está na burocracia governamental, habitat propício à corrupção e à ineficiência, alimentando oportunismo e vencendo por cansaço o empreendedorismo e os sentimentos republicanos. Não raro, isso termina em tragédia. Está na hora da desburocratização e a eficácia da gestão ganharem centralidade na agenda dos governantes.
Campeões nacionais - ARMANDO CASTELAR PINHEIRO
Valor Econômico - 01/02
Nas duas últimas semanas várias notícias foram veiculadas com foco em dois "campeões nacionais", grandes grupos com controle acionário brasileiro, que são apoiados com empréstimos subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em geral para a compra de outras empresas do mesmo setor.
A primeira notícia referia-se à venda das participações na Oi da Andrade Gutierrez e do Grupo Jereissati (La Fonte) para a Portugal Telecom, que passaria a deter a maioria das ações ordinárias da empresa (50,77%) e a controlá-la sozinha.
Nunca é demais lembrar que a classificação da Oi como campeã nacional surgiu em 2008, quando a então Telemar comprou, com recursos do BNDES, a BR Telecom, passando a dominar o mercado brasileiro de telefonia fixa, exceto São Paulo. A justificativa à época é que isso daria ao país uma empresa de telecomunicações que brigaria de igual pelo mercado internacional, levantando alto a bandeira brasileira em outros países. Como se sabe, isso não aconteceu: a Oi opera só no Brasil. O que, sim, ocorreu foi uma grande concentração de mercado, que só não prejudicou mais o consumidor devido à forte competição vinda dos celulares e da internet.
Qual o histórico de resultados dessas privilegiadas empresas nacionais já bancadas pelo dinheiro público?
Como alertei na ocasião, a operação era inconsistente com os mandatos do BNDES - expandir o investimento e o emprego além do que ocorreria se as empresas continuassem separadas, o que não se obteria com a operação -, do Cade e da Anatel, que deveriam defender o consumidor, que nada ganhava com a redução da concorrência no setor.
O primeiro caso em que o argumento de campeão nacional foi usado para justificar a aprovação oficial de uma operação que era contrária ao interesse do consumidor foi o da fusão entre a Brahma (dona da Skol) e a Antártica (que não teve, porém, apoio do BNDES). A Ambev passou a deter 72% do mercado de cervejas, participação que em algumas regiões - o mercado de cervejas é local - superava 90%. Em troca desse enorme poder de mercado, a empresa prometia transformar o guaraná brasileiro em produto de consumo internacional, rivalizando globalmente com a Coca Cola. Não se tem notícia, mais de uma década depois, que isso tenha ocorrido.
A bem-sucedida estratégia de comunicação da Ambev foi depois copiada por outras empresas que buscavam subsídios do BNDES para comprar concorrentes, algumas com sucesso, outras não. A Perdigão comprou a Sadia dessa forma; a VCP, a Aracruz. No setor de frigoríficos, o banco aportou tantos recursos que precisou abrir mão de um lucro de mais de R$ 1 bilhão para não virar controlador de um frigorífico. Por outro lado, o bom senso político e a reação do grupo Casino impediram o empréstimo de R$ 4 bilhões com que se pretendia transformar a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour no campeão nacional dos supermercados.
O surgimento desses campeões nacionais foi claramente um sucesso para seus acionistas controladores. A Ambev, por exemplo, tornou-se a maior empresa brasileira em valor de mercado. Mas, e o consumidor e, em especial, o contribuinte brasileiro, que arca com os subsídios que bancam essas operações, o que eles ganharam com isso?
A segunda notícia nos jornais desta semana é a de que a CSN pretende comprar a CSA, com R$ 4 bilhões a serem aportados pelo BNDES. Não é pouco dinheiro.
Essa é uma boa oportunidade para que essa estratégia seja mais bem explicada - com fundamentos econômicos, e não apelos nacionalistas - a quem arca com o seu custo. Sem querer desmerecer a qualidade da gestão das empresas aqui citadas, em geral muito boa, há pelo menos cinco perguntas que deveriam ser respondidas.
Primeiro, o que o país ganha com isso, além de beneficiar a família brasileira controladora? As perdas são conhecidas: mais poder de mercado prejudica o consumidor, desestimula investimentos e a inovação; o dinheiro do BNDES vem do Tesouro Nacional, que precisa emitir mais dívida, sobre a qual paga juros mais altos do que recebe do BNDES, donde precisa arrecadar impostos - nossos impostos - para cobrir a diferença.
Segundo, qual o histórico de resultados dos campeões nacionais já bancados pelo dinheiro público? Quanto o consumidor e o contribuinte brasileiro ganharam - ou perderam - com isso?
Terceiro, como incentivar a empresa a cumprir a meta que justificou o apoio estatal? Por exemplo, por que não impor uma penalidade se a empresa não conquistar a parcela do mercado global a que se propõe? Talvez com uma multa que eleve o custo de capital para o que seria sem o apoio estatal?
Quarto, se o objetivo é que a empresa tenha controle nacional, por que não exigir a devolução dos subsídios e outros benefícios se a empresa for depois vendida a um controlador estrangeiro, como pode vir a ocorrer com a Oi?
Quinto, por que não nacionalizar a empresa de forma que os subsídios beneficiem um maior número de brasileiros? Por exemplo, o BNDES pode aportar capital apenas sob a forma de participação acionária e depois vender as ações de forma pulverizada para correntistas do FGTS, como ocorreu com a Petrobras e a Vale.
Nas duas últimas semanas várias notícias foram veiculadas com foco em dois "campeões nacionais", grandes grupos com controle acionário brasileiro, que são apoiados com empréstimos subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em geral para a compra de outras empresas do mesmo setor.
A primeira notícia referia-se à venda das participações na Oi da Andrade Gutierrez e do Grupo Jereissati (La Fonte) para a Portugal Telecom, que passaria a deter a maioria das ações ordinárias da empresa (50,77%) e a controlá-la sozinha.
Nunca é demais lembrar que a classificação da Oi como campeã nacional surgiu em 2008, quando a então Telemar comprou, com recursos do BNDES, a BR Telecom, passando a dominar o mercado brasileiro de telefonia fixa, exceto São Paulo. A justificativa à época é que isso daria ao país uma empresa de telecomunicações que brigaria de igual pelo mercado internacional, levantando alto a bandeira brasileira em outros países. Como se sabe, isso não aconteceu: a Oi opera só no Brasil. O que, sim, ocorreu foi uma grande concentração de mercado, que só não prejudicou mais o consumidor devido à forte competição vinda dos celulares e da internet.
Qual o histórico de resultados dessas privilegiadas empresas nacionais já bancadas pelo dinheiro público?
Como alertei na ocasião, a operação era inconsistente com os mandatos do BNDES - expandir o investimento e o emprego além do que ocorreria se as empresas continuassem separadas, o que não se obteria com a operação -, do Cade e da Anatel, que deveriam defender o consumidor, que nada ganhava com a redução da concorrência no setor.
O primeiro caso em que o argumento de campeão nacional foi usado para justificar a aprovação oficial de uma operação que era contrária ao interesse do consumidor foi o da fusão entre a Brahma (dona da Skol) e a Antártica (que não teve, porém, apoio do BNDES). A Ambev passou a deter 72% do mercado de cervejas, participação que em algumas regiões - o mercado de cervejas é local - superava 90%. Em troca desse enorme poder de mercado, a empresa prometia transformar o guaraná brasileiro em produto de consumo internacional, rivalizando globalmente com a Coca Cola. Não se tem notícia, mais de uma década depois, que isso tenha ocorrido.
A bem-sucedida estratégia de comunicação da Ambev foi depois copiada por outras empresas que buscavam subsídios do BNDES para comprar concorrentes, algumas com sucesso, outras não. A Perdigão comprou a Sadia dessa forma; a VCP, a Aracruz. No setor de frigoríficos, o banco aportou tantos recursos que precisou abrir mão de um lucro de mais de R$ 1 bilhão para não virar controlador de um frigorífico. Por outro lado, o bom senso político e a reação do grupo Casino impediram o empréstimo de R$ 4 bilhões com que se pretendia transformar a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour no campeão nacional dos supermercados.
O surgimento desses campeões nacionais foi claramente um sucesso para seus acionistas controladores. A Ambev, por exemplo, tornou-se a maior empresa brasileira em valor de mercado. Mas, e o consumidor e, em especial, o contribuinte brasileiro, que arca com os subsídios que bancam essas operações, o que eles ganharam com isso?
A segunda notícia nos jornais desta semana é a de que a CSN pretende comprar a CSA, com R$ 4 bilhões a serem aportados pelo BNDES. Não é pouco dinheiro.
Essa é uma boa oportunidade para que essa estratégia seja mais bem explicada - com fundamentos econômicos, e não apelos nacionalistas - a quem arca com o seu custo. Sem querer desmerecer a qualidade da gestão das empresas aqui citadas, em geral muito boa, há pelo menos cinco perguntas que deveriam ser respondidas.
Primeiro, o que o país ganha com isso, além de beneficiar a família brasileira controladora? As perdas são conhecidas: mais poder de mercado prejudica o consumidor, desestimula investimentos e a inovação; o dinheiro do BNDES vem do Tesouro Nacional, que precisa emitir mais dívida, sobre a qual paga juros mais altos do que recebe do BNDES, donde precisa arrecadar impostos - nossos impostos - para cobrir a diferença.
Segundo, qual o histórico de resultados dos campeões nacionais já bancados pelo dinheiro público? Quanto o consumidor e o contribuinte brasileiro ganharam - ou perderam - com isso?
Terceiro, como incentivar a empresa a cumprir a meta que justificou o apoio estatal? Por exemplo, por que não impor uma penalidade se a empresa não conquistar a parcela do mercado global a que se propõe? Talvez com uma multa que eleve o custo de capital para o que seria sem o apoio estatal?
Quarto, se o objetivo é que a empresa tenha controle nacional, por que não exigir a devolução dos subsídios e outros benefícios se a empresa for depois vendida a um controlador estrangeiro, como pode vir a ocorrer com a Oi?
Quinto, por que não nacionalizar a empresa de forma que os subsídios beneficiem um maior número de brasileiros? Por exemplo, o BNDES pode aportar capital apenas sob a forma de participação acionária e depois vender as ações de forma pulverizada para correntistas do FGTS, como ocorreu com a Petrobras e a Vale.
Assinar:
Postagens (Atom)