quarta-feira, janeiro 09, 2013

Tateando no escuro - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 09/01


O PT tanto politizou o racionamento de energia ocorrido no Brasil em 2001 que passou a não ter direito de adotá-lo em caso de necessidade, como parece pode vir a ser o caso proximamente. O problema é que a presidente Dilma, quando ministra, garantiu que o que não ocorrerá mais no Brasil é racionamento de energia, chamando o episódio de "barbeiragem". "Racionamento de oito meses implica que eu, com cinco anos de antecedência, não soube a quantidade de energia que tinha de entrar para abastecer o país."

Pois Dilma Rousseff deixou de ser ministra para assumir a Presidência da República, e a situação só fez agravar-se desde que, em 2008, começaram a acontecer os primeiros apagões de energia no país, e ela, primeiro como porta-voz do governo Lula no setor, e agora como responsável máxima pelas ações do governo, só faz garantir que não existe perigo de racionamento.

O fato é que, dez anos à frente do setor elétrico de maneira direta, como ministra das Minas e Energia, ou indireta, como chefe da Casa Civil, nada foi feito por Dilma para melhorar o sistema energético brasileiro, que volta a ter os mesmos problemas que teve em 2001.

Já estaríamos em pleno racionamento oficial se as termelétricas projetadas no tempo dos governos FH justamente em decorrência do racionamento não estivessem em funcionamento. Mas os governos petistas tiveram tempo suficiente para aperfeiçoar esse sistema de emergência utilizado quando a falta de chuvas afeta o nível se segurança das barragens das hidrelétricas, e nada foi feito.

A "sorte" do governo é que o país cresceu por volta de apenas 1% no ano passado, o que evitou um apagão mais permanente. Mesmo assim, os apagões foram frequentes e continuam acontecendo. Ao contrário, se este ano a economia conseguir mesmo crescer cerca de 3%, aumentarão os nossos problemas com o fornecimento de energia.

Quer dizer, estamos na esdrúxula situação de torcer para que o país cresça pouco para não corrermos o risco de um racionamento, mas o governo precisa fazer crer que a economia crescerá muito (a presidente pede um "pibão" para este ano) e ao mesmo tempo garantir que haverá energia suficiente para que o "instinto animal" do empresariado ressurja.

Mas como compatibilizar esse projeto com a decisão unilateral de reduzir a conta de energia na casa dos eleitores, num momento em que as companhias de energia mais necessitam de investimentos? "Estamos na antessala do racionamento", define Adriano Pires, especialista de energia do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). O nível dos reservatórios das hidrelétricas está abaixo do patamar de segurança para evitar o racionamento, e continua caindo.

Não há o que fazer: ou rezar para que chova ou organizar uma racionalização do uso de energia. Já há indicações de que um "racionamento branco" está sendo utilizado pelas empresas, e há regiões no país em que a falta de luz praticamente diária já se transformou em um fato previsível.

A crise em que se meteu a Venezuela tem uma explicação que pode ser simples: a disputa de poder entre os grupos chavistas impede que se adote uma decisão de acordo com a Constituição. Se a falta de Hugo Chávez for considerada não permanente, o presidente da Câmara, Diosdado Cabello, poderia presidir o país por 90 dias, prazo prorrogável por mais 90. Poderia ficar, portanto, 180 dias no poder, fortalecendo-se, enquanto o vice presumível, Nicolas Maduro, (que não foi nomeado por Chávez para outro mandato), deixaria de ser o representante de Chávez no poder.

Se a falta for permanente, Cabello tem que convocar eleições em 30 dias, e Maduro será o candidato a presidente. Ficando tudo como está, os dois dividem o comando, mas a figura de Chávez continua pairando sobre todos.

Cabia impeachment, mas... - SEBASTIÃO VENTURA P. DA PAIXÃO JR.


O Estado de S.Paulo - 09/01


Após muitas dúvidas e pressões de toda ordem, a colenda Suprema Corte foi modelar no julgamento da Ação Penal 470, o famigerado mensalão. Aos olhos de todos e sem rebuços, os fatos foram postos e as provas, analisadas com rigor técnico, o devido processo legal foi respeitado para todos os litigantes, vindo, ao final, o veredicto com o saber inerente das decisões colegiadas. Se a Corte acertou ou errou, os eventuais prejudicados poderão fazer uso da ampla defesa e utilizar os recursos potencialmente cabíveis com vista a reformar o que mal está. Naturalmente, os magistrados supremos não são deuses e, como homens e mulheres que são, estão sujeitos à falibilidade humana. Além disso, compete à crítica jurídica fazer a sua parte, apontando eventuais equívocos e realçando a higidez técnica das posições vencedoras. Enfim, o histórico processo seguirá seu trâmite normal, trazendo consigo a certeza de que o Brasil está melhor. E está melhor porque não existe democracia digna sem responsabilidade política. O Supremo, assim, cumprindo o seu dever constitucional, deu importante passo para o aprimoramento institucional brasileiro.

Apesar de julgado, o mensalão, na crueza dos seus tristes fatos, revela uma certeza preocupante: a democracia brasileira foi posta em xeque e correu o risco de ter virado pó. Não se trata de um juízo meramente subjetivo nem despido de razões substanciais. Afinal, os fatos, antes questionáveis, com o julgamento ganharam foro de indiscutibilidade. Em outras palavras, a partir da pontual e objetiva peça de acusação, a abalizada maioria da Suprema Corte reconheceu a existência de uma estrutura criminosa, arquitetada nas entranhas do poder, cujo objetivo - mediante compra ilícita e corrupta de apoio congressual - era subjugar o Legislativo aos desideratos imperiais de determinado grupelho político. Se vingasse o plano delituoso, as eleições presidenciais virariam um jogo de cartas marcadas em favor de tiranos fantasiados de democratas populares. Passou perto. Com a graça dos céus, foi-se. Agora, será que pode voltar? A pergunta, por inquietante e imprevisível, merece profunda reflexão.

Pois bem, nos límpidos termos da Lei Fundamental da República, o mensalão foi um caso acadêmico de impeachment. Objetivamente, além de um atentado contra a própria Constituição federal, a conduta criminosa violou o livre exercício do Poder Legislativo, agrediu o desempenho soberano dos direitos políticos e violentou explicitamente a probidade na administração pública, ou seja, o mensalão está capitulado no artigo 85, caput, incisos II, III e V da Carta de 88. Por assim o ser, nos termos do artigo 86 da Lei Constitucional, o processo deveria ter sido instaurado perante a Câmara e, uma vez admitida a acusação pelo quórum especial de dois terços, o feito teria de ter sido encaminhado ao Senado para o consequente julgamento dos possíveis crimes de responsabilidade. Por motivos ignorados, a regra constitucional não teve o prestígio merecido.

Acontece que o impeachment é um processo anacrônico, lerdo e solene, contrário à dinâmica dos fatos políticos e à própria velocidade natural dos acontecimentos. Logo, o trâmite processual, em vez de paz social, pode causar traumatismos ainda maiores, sendo cogente, portanto, uma conjunção especial de fatores a legitimar o início do procedimento de responsabilização pública. Aqui, aliás, estamos diante de uma das principais deficiências do sistema presidencial: o vagaroso processo de responsabilização do governo. Aquilo que, no sistema parlamentar, é resolvido em questão de horas com a moção de desconfiança e queda do Gabinete constituído, no presidencialismo gera um processo político moroso que, em certas circunstâncias, pode levar o país a um perigoso brete institucional. É certo que no caso Collor - ainda no amanhecer da democracia brasileira e no fulgor do desejo de livre e direta participação política - condições especialíssimas se verificaram a autorizar um canônico desenrolar processual. Todavia, na generalidade das hipóteses de infração político-administrativa do presidente da República, serve a nobre advertência de Raul Pilla de que o processo por crime de responsabilidade é "um canhão de museu, que existe para ser visto, e não para ser utilizado".

Embora fosse um exército de um homem só pela ideal parlamentarista, o catecismo de Pilla encontrou eco e voz em outra proeminência inigualável da vida política e jurídica brasileira. Com a agudeza encantadora dos espíritos superiores, Paulo Brossard, em conhecida e insuperável monografia sobre o tema do impeachment, escreveu como se enxergasse o futuro: "Suponha-se um presidente desabusado, violento, agressivo, inescrupuloso, corruptor, que recorra aos imensos poderes e recursos sobre os quais o governo tem mão, e com eles desencadeie luta contra o Congresso". E concluiu com a precisão habitual: "Antes que o processo chegasse em meio, teria ele levado o país à desordem, à violência, à convulsão, ao caos, ao pânico". A análise do eminente jurista gaúcho é absolutamente irretocável, expondo com nitidez e clareza uma das mais graves deficiências do sistema presidencial: o processo de responsabilização do governante é um convite à irresponsabilidade política. E democracia sem responsabilidade é como um casamento sem amor: enquanto os interesses coincidirem, vive-se uma infindável felicidade de aparências. Depois, as máscaras caem e, aí, salve-se quem puder.

Apesar de todos os usos e abusos do mensalão, a democracia brasileira sobrevive e, a partir do firme e seguro desempenho do Supremo Tribunal, sai do episódio com força para não mais tolerar a impunidade reinante. Mas é bom que fique registrado que não se deve brincar com certos perigos políticos, pois o arbítrio é um convidado indigesto que não pede para entrar e faz de tudo para ficar. Agrava a situação este presidencialismo de partidos tíbios que enfraquece o papel político do Parlamento e faz pensar que o ocupante do Palácio do Planalto é rei.

Enfim, cabia impeachment, mas ele não viu e não sabia de nada. Aliás, será que um dia ele falará o que sabe e bem viu? Ou será que a língua o gato comeu?

Diplomacia desmascarada - ELIO GASPARI

O GLOBO - 09/01


Em junho passado, a diplomacia do comissariado meteu-se numa estudantada expulsando o Paraguai do Mercosul porque seu Congresso removera o companheiro Fernando Lugo da presidência do país. Tudo sob a liderança de Hugo Chávez e em nome da defesa do que seria uma "claúsula democrática" da instituição. O impedimento de Lugo deu-se dentro de um quadro de respeito à Constituição do país. Um respeito meio girafa, pois ele foi submetido a um rito legal, porém sumário. Ao contrário do que sucedeu em 2009 em Honduras, quando o presidente Manuel Zelaya foi mandado à força para o exílio, Lugo continuou morando na mesma casa. Desde então o Paraguai vai bem, obrigado.

Agora, com a incerteza sobre o estado do presidente Chávez, os constitucionalistas da diplomacia brasileira aceitaram a interpretação dos seguidores do "Comandante" de que uma nova eleição pode ser realizada em até 180 dias. Tudo bem, mas muitos venezuelanos acreditam que, segundo a Constituição, o novo pleito deveria ocorrer em trinta dias. Por que o Brasil tinha que se meter nesse barraco?

O vice-presidente Nicolás Maduro diz que a presença de Chávez em Caracas é apenas uma formalidade. Há quatro anos o presidente da Corte Suprema americana embaralhou as palavras do juramento do companheiro Obama na sua posse e, no dia seguinte, foi à Casa Branca para refazer a cena. Admita-se que se tratava de uma firula. Se Chávez estivesse gripado, o vice-presidente teria toda razão. Se passasse por uma complicação resultante de uma extração da vesícula, teria alguma. Chavez luta desde 2011 contra um câncer e já passou por quatro cirurgias. Desde que chegou a Havana os venezuelanos não veem sua imagem ou ouvem sua voz.

Os brasileiros têm uma vaga lembrança do que é isso. Em 1969, o marechal Costa e Silva teve uma isquemia cerebral e os generais declararam a incapacidade do vice-presidente Pedro Aleixo, que estava bem de saúde. Assumiu uma junta militar, "os três patetas", segundo Ulysses Guimarães. Durante algumas semanas propagaram que o inválido, com um lado do corpo paralisado e sem voz, estava melhorando. Na segunda metade do século passado essas coisas eram possíveis nas ditaduras. Num prognóstico otimista Chávez poderia estar no caso do vice-presidente José Alencar, que lutou durante 13 anos e 17 cirurgias, mas nunca se escondeu. Não se sabe qual é o estado de saúde de Chávez, sabe-se apenas que amanhã ele não estará em Caracas para assumir o cargo para o qual foi reeleito.

Se não houver chavismo sem Chávez, o problema será outro, mais grave e insolúvel sem a legitimação do voto. A ideia segundo a qual a Venezuela pode ter um presidente num hospital de Havana é uma extravagância muito maior que o rito sumário do impedimento de Lugo. O endosso imediato do ritual chavista assemelha-se ao reconhecimento do novo governo brasileiro em 1964, quando João Goulart ainda estava no país. Chávez não está na Venezuela e ganha uma viagem de ida a Damasco quem tiver a coragem de dizer quando sairá do hospital.

Esse tipo de diplomacia leva os companheiros a replicar a parolagem dos generais brasileiros de 1969. Os "três patetas" também diziam que escolheriam o novo presidente para defender a democracia. Como fariam isso, nem eles sabiam.


As nuvens de 2014 - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 09/01


BRASÍLIA - Ao entrar em seu último ano de mandato com alguma chance de mostrar serviço, dado que 2014 é perdido para a eleição, Dilma Rousseff deveria estar a comemorar. Aprovação alta apesar da gestão opaca, oposição abúlica a despeito do impacto do mensalão e do "Rosegate" no PT e em Lula.

Até aqui, a jabuticaba "pibinho com inflação" não foi capaz de assustar o eleitorado, por intangível no curto prazo e anulada pela combinação emprego-renda. Destruição de fundamentos macroeconômicos, ineficácia gerencial e intervencionismo? Isso não tira voto de ninguém antes de os efeitos serem sentidos.

Mas as nuvens ausentes sobre os reservatórios brasileiros insinuam um mau agouro daqueles. A histeria oficial ao negar os problemas do setor elétrico é indicativo do medo do risco de apagões para um governo que elegeu reduzir a conta de luz como uma de suas bandeiras.

Os sinais estão aí. Empresas falando em "racionamento branco", falta de gás para termelétricas, reuniões e cobranças. Tudo pode ser resolvido com a ajuda, literalmente, dos céus, mas a mera sensação de que o Brasil pode virar uma Brasília, capital que experimenta apagões quase diários (por motivos diversos, não é o ponto), já causa arrepios na Esplanada.

A memória do racionamento de 2001, que, em certa medida, ajudou a eleger Lula, é fresca. Para piorar, Dilma crê ser a dona da bola no assunto; a soberba, afinal, é um dos pecados prediletos do Tinhoso.

A oposição nominal espera. Não pode torcer pelo pior em público, seja no caso de apagões ou no de mais problemas econômicos, porque pegaria mal. Porém sabe bem o quão poderosa é a combinação entre problemas reais e a insatisfação dos que mandam (e financiam campanhas) com os rumos da economia.

O time a pensar a campanha de Aécio Neves tem DNA econômico. Se ele será candidato, é outra história, mas não se trata de coincidência.

A era do deboche - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 09/01


Mais uma vez as chuvas do verão destroem, desalojam e matam, de modo tão previsível quanto as bandalheiras orçamentárias, mas o governo federal só gastou no ano passado cerca de um terço - 32,2% - das verbas previstas para prevenção, enfrentamento de desastres e reconstrução. O Tesouro pagou R$ 1,85 bilhão dos R$ 5,75 bilhões autorizados, segundo números oficiais tabulados pela respeitada organização Contas Abertas. Nada espantoso, nada anormal. A normalidade inclui, segundo altos funcionários da Fazenda, malabarismos contábeis para a encenação do cumprimento da meta fiscal. Foi tudo legal, tudo certinho, segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustin. Não seria mais fácil, mais claro e mais decente reconhecer o mau resultado e tentar, se fosse o caso, justificá-lo? Em outros tempos, com certeza. Na era do deboche, é igualmente normal deixar a aprovação do Orçamento para depois, porque o Executivo dará um jeito de garantir as despesas, dentro ou fora dos padrões constitucionais.

Neste tempo bandalho, o poder público tem prioridades muito mais interessantes que administrar a vida coletiva e servir aos interesses da sociedade. É preciso aproveitar o tempo e o dinheiro dos contribuintes para financiar empresas selecionadas, proteger setores amigos, oferecer contratos a grupos felizardos e pôr as estatais a serviço de projetos políticos pessoais e partidários. Também natural - como consequência - foi a deterioração da Petrobrás, depois de anos de submissão a decisões centralizadas no Palácio do Planalto. Com persistência, a nova presidente, Graça Foster, talvez consiga arrumar a empresa, se ficar no posto por tempo suficiente. Tem mostrado disposição para o trabalho sério, mas sua figura contrasta, perigosamente, com a maior parte do cenário.

Na era do deboche, os padrões políticos e gerenciais se degradam em quase todos os cantos e todos os níveis do sistema de poder. Um bonde sai dos trilhos, por falta de manutenção, e passageiros morrem. A primeira reação das autoridades é lançar suspeitas sobre o motorneiro, também morto no acidente. Uma criança baleada fica oito horas sem atendimento, embora levada a um hospital. Resposta oficial: o médico faltou. Faltou, sim, mas essa é a resposta errada. Pode ter sido irresponsável, mas também poderia ter sido atropelado ou atingido por um raio. Em qualquer cidade gerida com um mínimo de competência e seriedade, os serviços públicos essenciais funcionam como um sistema. Não havia outros médicos disponíveis? Não se podia mobilizar uma ambulância para levar a vítima a um lugar onde recebesse assistência? Na segunda maior cidade de uma das dez maiores economias do mundo, a falta de um único funcionário pode comprometer o socorro de emergência a uma pessoa ferida ou doente.

Mas o padrão se repete. Na capital federal, crianças ficaram sem atendimento porque plantonistas faltaram para prestar exames de residentes. Nenhum administrador sabia? Afinal, quem aplicou o exame? Novamente: que porcaria de sistema administrativo deixa a segurança dos pacientes na dependência de jovens profissionais? Sistemas organizados para funcionar de verdade têm mecanismos de segurança. São impessoais. Nenhum dirigente de nível superior tem o direito de renegar a própria responsabilidade para transferi-la aos subordinados na ponta da linha.

Na era bandalha, quem se importa com a escala das responsabilidades e com a qualidade gerencial do setor público? O governo brasileiro comprometeu-se em 2007 a hospedar a Copa do Mundo de 2014. Em 2011, quando o novo governo se instalou, nada, ou quase nada, havia sido feito para preparar o País. Havia atraso nas obras de aeroportos, estádios, estradas e sistemas urbanos de transporte. Os atrasos continuam, mas os custos subiram, muito dinheiro foi desperdiçado e mais ainda será perdido.

Nesta fase debochada, os apagões se multiplicam e chegam a atingir vários Estados, às vezes por várias horas. Os altos funcionários do sistema falam em raios, depois em falhas humanas. A chefe de todos recomenda aos jornalistas uma gargalhada, se alguém mencionar novamente a queda de um raio. Mas quem tem autoridade para pôr ordem na casa e cobrar seriedade na gestão do sistema?

Em tempos bandalhos, o presidente da Câmara dos Deputados promete asilo a condenados num processo penal - criminosos, portanto -, se a Justiça ordenar sua prisão. Qual o próximo passo: votar a revogação das penas? Combinaria bem com os padrões atuais de normalidade. Quando o Congresso adia a votação do Orçamento, crianças ficam sem assistência médica porque o serviço hospitalar é um desastre, a economia emperra porque a infraestrutura se esboroa e a diplomacia, outrora competente e respeitada, se torna subserviente à senhora Cristina Kirchner, a piada final é atribuir os males do País ao câmbio valorizado e aos juros. Abaixo o real, e tudo será resolvido.

Quadro energético - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 09/01

O governo deve deixar de lado a atitude de negação e encarar de frente os riscos que existem na área do suprimento de energia. Essa é a única forma de reduzir os perigos de o Brasil ter uma crise nesse fornecimento. Há semelhanças e diferenças em relação a 2001, mas ainda há tempo de se evitar o pior cenário, desde que a preocupação principal deixe de ser negar o risco de apagão.

Em 2001, houve falta de planejamento, crescimento forte no ano anterior, nenhum sistema de contingência para a queda de água nos reservatórios e uma seca terrível. Agora, houve seca forte e faltou planejamento. Nisso, é parecido com 2001. Mas, desta vez, o país não cresceu no ano passado e está funcionando a contingência, que foi montada para sair do apagão de 2001.

Muita coisa poderia ter sido feita nesse período entre o governo Fernando Henrique e o atual. Uma delas seria ter aperfeiçoado o seguro anticrise com mais geração de energia limpa. Hoje, o Brasil está usando energia gerada por térmicas a carvão e óleo combustível, que são sujas e caras. As usinas que usam gás natural ajudam a compor esse suprimento extra, mas criam outro problema que é a falta de gás para uso industrial.

O setor elétrico tem diagnósticos diferentes. O presidente da Associação dos Produtores Independentes de energia elétrica (Apine), Luiz Fernando Vianna, acha que o governo deveria ter apostado ainda mais em energia fóssil.

- O principal fornecedor de gás, que é a Petrobras, está tendo problemas de oferta. Deveríamos ter tido mais licitações de térmicas de todos os tipos, inclusive a carvão. A geração de energia não é a principal causa do Efeito Estufa, mas o governo deveria ter combatido mais as queimadas, para que se pudesse ter mais térmicas e um sistema mais seguro - disse.

Combater queimadas está certo, mas aumentar energia fóssil vai na contramão do que o mundo tem feito, que é apostar nas novas energias renováveis. Mas ele tem razão em outro ponto. Acha que houve descasamento de alguns projetos, porque usinas de geração de energia ficaram prontas antes das linhas de transmissão. Também houve anos com pouca oferta para projetos de linhas de transmissão, segundo Vianna.

As ações das empresas estão caindo, como explica o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, porque a baixa dos reservatórios coloca mais pressão sobre o caixa das hidrelétricas e das distribuidoras.

- As hidrelétricas terão que comprar energia no mercado livre acima de R$ 500 e revender a um preço bem mais baixo, na casa de R$ 100. Elas precisam entregar energia porque têm contratos firmados, independente de ter água ou não. Já as geradoras vão pagar à vista pela energia das térmicas e só vão ser ressarcidas pelos consumidores de forma parcelada em 12 meses. Há uma pressão adicional sobre corpos frágeis, as empresas já perderam muito com a MP 579 - disse Sales.

Para o presidente da Abiape (Associação dos Investidores em Autoprodução de Energia), Mário Menel, o que preocupa é o uso das térmicas ao longo do ano, para evitar o racionamento. Isso significaria consumo maior de energia mais cara:

- Há um cenário pessimista, mas com probabilidade grande, que é o de ter as térmicas acionadas por bastante tempo. Isso pode acontecer se as chuvas não vierem a ponto de encher os reservatórios e a economia crescer forte. Teremos energia mais cara para as indústrias e para os consumidores.

O governo poderia ter evitado que se chegasse nessa situação se tivesse admitido mais cedo o problema. Mas a preocupação principal das autoridades têm sido a de negar a existência de risco, para não parecer que repete o mesmo erro do governo tucano, em vez de agir para atenuar o problema.

O Brasil tem um sistema muito dependente de fonte hídrica em tempo de mudanças climáticas, em que se prevê muito estresse hídrico. Novos eventos de secas fortes vão ocorrer com mais frequência. Por isso, é fundamental apostar nas novas energias renováveis para complementar a matriz. Tomara que a reunião de hoje não seja mais uma em que o governo tentará tapar o sol com a peneira. A melhor forma de evitar uma crise é admitir o risco para evitar que ele ocorra.

Ameaça de racionamento - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 09/01


Talvez seja ainda cedo para iniciar um programa de racionamento de energia elétrica, mas não para planejar e colocar em prática medidas preventivas.

Em plena temporada de chuvas na maior parte do País, o nível dos reservatórios está baixo demais - especialmente no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que já beira o nível de emergência (veja o gráfico ao lado).

Nada menos do que 75% da matriz energética brasileira é de fonte hídrica. Se, de um lado, isso garante insumo a baixo custo (água que cai do céu), de outro, deixa todo o sistema vulnerável a estiagens ou a chuvas insuficientes.

Primeiras análises alertam para a elevação inevitável dos custos de produção suplementar de energia, se for preciso acionar usinas termoelétricas, quase todas dependentes da queima de derivados de petróleo ou de gás natural.

Por isso, os preços no mercado livre, onde é negociada a energia excedente, dispararam mais de 4 mil por cento em 12 meses (veja o Confira). Mas a questão mais importante não é de aumento de custo; é de garantia de suprimento.

O nível dos reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste já é inferior ao nível médio que colocou em marcha cinco meses depois o racionamento de 2001. Só não dá para dizer que o racionamento será inevitável porque pode chover o suficiente para recompor os reservatórios.

As autoridades da área negam a iminência da medida. Mas essa não é uma decisão que depende só da vontade de quem estiver no comando. Se as chuvas vierem muito fracas, não haverá outra saída.

E, se um regime qualquer de racionamento ou alguma forma de melhor aproveitamento de energia se confirmar, a pergunta certa a fazer não é quanto o crescimento econômico será prejudicado em 2013, mas, sim, que crescimento econômico e que nível de consumo agregado o Brasil deverá ter para enfrentar um período de escassez de energia.

Um avanço econômico mais baixo do que o esperado implicaria, por sua vez, arrecadação também reduzida e, com ela, a necessidade de ajuste mais estreito das contas públicas nos três níveis de governo - federal, estadual e municipal.

Se jogava na retranca, diante de novas incertezas o empresário brasileiro tenderá a reforçar suas defesas. Motivado por novas razões, poderá manter na gaveta investimentos que já vinham sendo adiados. Seria inevitável, ainda, certa desaceleração na criação de postos de trabalho e algum impacto sobre o nível de desemprego, hoje dos mais baixos da história.

Difícil saber quais os desdobramentos políticos do problema. O racionamento de 2001 saiu caro para o então presidente Fernando Henrique e facilitou a condução de Lula ao governo. Em todo o caso, racionar energia tem custo político substancialmente mais baixo do que graves quebras no fornecimento.

Comida estragando na geladeira; a velhinha obrigada a subir degrau por degrau os 12 andares de seu prédio ou a não sair de casa, por falta de elevador; trânsito transformado em caos, por apagamento de semáforos ou circulação irregular do metrô; redução da segurança nas ruas por deficiência de iluminação pública... Esses fatores podem ter alto custo político, dependendo de como forem trabalhados pelo governo ou pela oposição.

Operação Chacrinha - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 09/01


Não sei a quem o governo quer enganar; qualquer analista experiente consegue identificar a macumba fiscal


É chato, eu sei, e já me desculpo aos 18 leitores por voltar ao tema, mas, como o governo insiste em repetir os mesmos erros, tenho que comentá-los. Em nome dos 18, aproveito para deixar meu apelo por erros novos, por favor.

Feito o pedido, ao trabalho. Soubemos na semana passada, mesmo antes da divulgação oficial dos números de dezembro, que naquele mês o governo lançou mão não de uma, mas de várias manobras contábeis para garantir, formalmente, o cumprimento da meta fiscal, cerca de R$ 140 bilhões (3,1% do PIB), definida pelo próprio Executivo.

Pelo que foi noticiado, a Caixa Econômica Federal e o BNDES anteciparam dividendos para o Tesouro, num valor próximo de R$ 7 bilhões (devidamente financiados... pelo Tesouro!).

Além disso, o governo teria sacado também cerca de R$ 12 bilhões do Fundo Soberano (parte em ações da Petrobras, vendidas... ao BNDES!).

Caso o raro leitor tenha ficado confuso, não se apoquente: isso foi feito para confundir (não para explicar) e, no final das contas, não faz a menor diferença, pois são todas transações entre os diversos bolsos de um mesmo governo, com o intuito de obscurecer o óbvio, a saber, que, apesar das promessas, o governo ficou muito longe da meta.

Há duas ordens de consequências. A mais óbvia é que, apesar da Operação Chacrinha, não há como fugir do fato de que a política fiscal foi bem mais expansionista do que normalmente presumido, em particular pelo Banco Central, que, ainda em dezembro, baseava suas projeções na suposição de que o superavit primário atingiria "em torno de 3,1% do PIB".

Talvez ainda haja alguém no governo que vá defender essa posição como uma estratégia anticíclica, isto é, uma política mais expansiva em anos de baixo crescimento, a ser compensada por uma política mais restritiva em anos de crescimento mais forte.

Exceto, é claro, que tal compensação nunca ocorre, senão como explicar o crescimento persistente das despesas federais, de 14% do PIB em 1997 para mais de 18% do PIB ano passado?

No curto prazo, isso significa inflação mais alta, ainda mais dado o descaso do Banco Central. Não é por acidente, portanto, que a inflação permaneça teimosamente há três anos acima da meta e deva continuar assim até onde a vista alcança.

A médio e longo prazo, porém, além da questão inflacionária, também o crescimento é afetado. O gasto adicional não foi direcionado ao investimento, que continua insuficiente, mas à despesa corrente.

Além de tal gasto tipicamente não se traduzir em elevação do potencial de crescimento do país, ele sofre o inconveniente de ser praticamente impossível de ser reduzido, sugerindo que, para fazer espaço no Orçamento dos próximos anos, o investimento federal se tornará ainda mais escasso.

Por fim, a contrapartida do gasto mais alto são tributos mais pesados, cujo impacto sobre o crescimento não é apenas óbvio mas principalmente negativo.

Já a segunda ordem de consequências é mais sutil, embora não menos importante. Ao longo dos últimos anos, o governo tem abusado de manobras contábeis como as empregadas no fim do ano passado, de dividendos extraordinários de empresas estatais à aquisição das reservas de petróleo pela Petrobras (em troca de ações, não de dinheiro), passando pelas operações com o BNDES e outras feitiçarias.

Não sei, sinceramente, a quem o governo quer enganar. Talvez a si próprio, pois qualquer analista com um tanto de experiência consegue identificar a macumba fiscal, ainda que alguns, talvez por dever de ofício, omitam-se valentemente da tarefa de denunciá-la.

De qualquer forma, isso só serve para acrescer à perda de credibilidade das instituições. Não bastasse o Banco Central fazer letra morta do regime de metas para a inflação, temos agora o Tesouro cuidadosamente rasgando a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Estamos, é verdade, ainda longe do ponto em que isso se tornará um problema patológico, mas já na estrada que leva para lá.

Política externa é a do partido - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 09/01


A aceitação brasileira da interpretação chavista dada à Constituição, sobre a posse de Chávez na quinta, marca a volta da diplomacia companheira



Antes de tomar posse, a presidente eleita Dilma Rousseff concedeu a famosa entrevista ao “Washington Post” em que marcou um distanciamento do seu governo em relação à teocracia iraniana dos aiatolás e de Ahmadinejad, tratado pelo ainda presidente Lula como aliado de primeiro grandeza, dentro da estratégia companheira de praticar uma diplomacia terceiro-mundista à la década de 60. A indicação de Dilma foi dada no contexto da ameaça do regime persa à viúva Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, devido a um suposto adultério, pena criticada, corretamente, pela presidente eleita. Seguiu-se àquela sinalização positiva uma outra, no início do governo, quando o Brasil votou a favor de o Conselho de Direitos Humanos da ONU investigar o Irã.

Foi só. A esperada mudança na diplomacia companheira, para o Itamaraty retomar a linha histórica de posicionamento externo independente do Brasil, não ocorreu, e hoje isto é claro com a posição assumida pelo governo, segundo declarações do assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia, de sancionar qualquer interpretação da Constituição venezuelana que deem os chavistas. No caso, prorrogar o mandato de Chavez para além de amanhã, quando deveria tomar posse para mais um mandato. Sintomático que a anúncio da decisão do governo tenha sido feito por Garcia, líder do PT atuante na política externa, e não pelo ministro Antonio Patriota.

Assim como Lula adotou a diplomacia companheira para aquietar alas à esquerda do PT desgostosas com a manutenção da política econômica da Era FH, Dilma pode fazer o mesmo como forma de compensar atitudes que desagradem a comissários. Por exemplo, não intervir no julgamento do mensalão. E o país pagará um preço. Como pagou pelo fato de Lula abraçar um terceiro-mundismo esclerosado: em nome dele, o Brasil embarcou, sem “plano B”, na Rodada de Doha, de abertura do comércio mundial, e, por isso, recusou-se a negociar a Alca com os americanos.

Doha naufragou e o país ficou engessado no Mercosul, enquanto perde o bonde histórico dos acordos bilaterais. Se americanos e europeus chegarem a um acerto entre eles de liberalização comercial, o Brasil terá muito poucas alternativas de parceria de peso. E para piorar o cenário, o Mercosul, depois da expulsão extemporânea do Paraguai, para viabilizar a entrada da Venezuela chavista, começa a ser absorvido pela Alba, símbolo do atraso (além de venezuelanos, congregam-se na associação cubanos, nicaraguenses, etc). Enquanto isso, desponta na região a Aliança do Pacífico (México, Peru, Chile e Colômbia), parceira mais amigável e estável para o mundo do comércio e negócios.

O preço da volta da diplomacia companheira pode ser a definitiva subordinação do Brasil aos desígnios chineses. Seremos exportadores eternos de matérias-primas e compradores perenes de manufaturados. Ironia, pois esta dependência era denunciada pelas esquerdas no século passado.

O Brasil no jogo chavista - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 09/01


A presidente Dilma Rousseff interrompeu as férias que o seu assessor internacional Marco Aurélio Garcia passava no México e o despachou no fim do ano a Cuba para se inteirar do quadro clínico do caudilho Hugo Chávez e ajudá-la a avaliar a instável situação política venezuelana, diante das crescentes dúvidas sobre a sua recuperação depois da quarta tentativa de extirpar o câncer na região pélvica que o acometeu há um ano e meio.

Garcia esteve com os seus bons amigos Raúl e Fidel Castro, além de se reunir com o vice chavista Nicolás Maduro, príncipe regente e herdeiro designado da autocracia bolivariana. Decerto também deve ter transmitido aos interlocutores a garantia da presidente de que apoiará seja lá o que os chavistas e os seus mentores cubanos decidirem - ainda que atropelando a Constituição criada pelo próprio regime -, a se consumar a hipótese altamente provável de que o Jefe não tornará a pôr os pés no Palácio Miraflores. Afinal, sob Dilma, o alinhamento automático de Brasília com Caracas continua o mesmo dos anos Lula, apenas com menos gritaria.

Não se sabe em que medida o homem da presidente em Havana conseguiu desincumbir-se da missão. Especialistas em segredo e jogo duplo, os líderes castristas e os seus pupilos venezuelanos não devem ter corrido a abrir os corações (muito menos os relatórios dos seus serviços secretos) ao enviado brasileiro, conquanto dispense comprovação adicional a sua fidelidade ao socialismo autoritário. Mas o fato é que, mistificado pela própria ideologia - para ressuscitar uma expressão dos velhos tempos marxistas -, Garcia saiu falando pelos cotovelos, como é de seu feitio. E se pôs a dizer o que as autoridades venezuelanas deveriam ou poderiam fazer, além de pontificar sobre o que a oposição há de considerar conveniente ou não para seus interesses na pantanosa conjuntura do vizinho país. Ora deu a entender que endossa o autogolpe chavista de estender por tempo indeterminado o mandato do líder ausente, que termina oficialmente amanhã, quando deveria tomar posse para o novo período a que foi eleito em novembro último; ora mencionou que existe "cobertura constitucional" para adiá-la por até meio ano.

Ora ecoou o pretexto dos lugares-tenentes de Chávez para a manobra que reduz a posse na data prevista a uma "formalidade dispensável", ao afirmar que "Chávez sucede a si próprio, não é que um novo presidente foi eleito"; ora invocou o artigo 234 da Constituição venezuelana, segundo o qual a Assembleia Nacional pode declarar a ausência temporária do presidente por 90 dias, prorrogáveis por outro tanto, e só então, se for o caso, considerá-lo permanentemente incapacitado, com o aval de uma junta médica, o que abriria caminho para novas eleições em 30 dias.

O problema é que a letra do texto deixa claro que a norma se aplica apenas a presidentes já no exercício de suas funções - tanto que prevê, na referida circunstância, a interinidade do vice, que obviamente terá sido empossado juntamente com o titular. De todo modo, a impropriedade do assessor internacional do Planalto está muito menos no seu ensaio de exegese da Constituição de outro país do que em ele não ter se lembrado da famosa interpelação do rei espanhol Juan Carlos ao próprio Chávez: "¿Por que no te callas?".

O governo brasileiro não tem que se manifestar sobre assuntos internos alheios. Se tivesse, em situações-limite, seria apenas para expressar a certeza de que o país em questão saberá resolver seus problemas no marco da ordem democrática. Ocorre que, no plano externo, o apreço da presidente Dilma pela democracia é seletivo. Ano passado, excluiu o Paraguai do Mercosul porque o colega Fernando Lugo foi destituído pelo Congresso, com endosso da Justiça, em menos de 48 horas. O Planalto entendeu que ele não teve suficiente direito de defesa e invocou a Carta Democrática Interamericana da OEA. Fizera o mesmo quando a Justiça hondurenha removeu o presidente Manuel Zelaya, em 2009.

Mas, na Venezuela, o chavismo fará o que bem entender com a Constituição, investirá contra a oposição - acusando-a cinicamente de golpista - e não será Dilma quem objetará.

Impasse na Venezuela - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 09/01


Adiamento da posse de Chávez gera tensão e requer interpretação da Constituição, inconclusiva sobre o caminho a seguir


O agravamento do quadro de saúde do presidente Hugo Chávez, que o levou a deixar a Venezuela para se submeter a tratamento em Cuba, criou um impasse institucional. Reeleito em outubro para exercer seu quarto mandato, o líder bolivariano, que sofre de câncer, não reúne condições de retornar a Caracas a tempo de prestar juramento e tomar posse amanhã, data estipulada pela Constituição.

Opositores e defensores do governo divergem sobre que caminho seguir. A Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão oposicionista, enviou carta à Organização dos Estados Americanos reafirmando sua interpretação de que, na ausência de Chávez, o chefe da Assembleia Nacional deve assumir a Presidência temporariamente e convocar novas eleições.

Segundo a MUD, se isso não ocorrer, será um desrespeito à Constituição do país e uma grave ameaça à ordem democrática.

O entendimento dos chavistas é diverso. A cerimônia de posse de Chávez, que foi reconduzido ao cargo pelo voto popular, seria mera formalidade que pode esperar pela definição do estado de saúde do presidente. Enquanto isso, o atual vice, Nicolás Maduro, permaneceria no comando do país.

O episódio reveste-se de características inéditas, e o texto constitucional não responde de maneira inequívoca às dúvidas suscitadas.

A Carta determina que, se o presidente eleito sofrer afastamento permanente (por morte ou renúncia, por exemplo) antes da posse, haverá nova eleição no prazo de 30 dias. Nesse período, o país será governado interinamente pelo presidente da Assembleia Nacional.

Em caso de ausência temporária do presidente da República, a Constituição estabelece a interinidade do vice por um prazo de até 180 dias, desde que com a anuência do Poder Legislativo.

Não está claro no texto constitucional, todavia, o que ocorre quando há um impedimento temporário na data da posse -daí o imbróglio, pois os chavistas apostam, ou fingem que apostam, nesse cenário.

A situação é mais complicada porque, na Venezuela, o vice-presidente não é eleito, mas indicado pelo chefe do Executivo. A rigor, a partir de amanhã, Maduro perderia os poderes de que foi investido.

A complexidade é tamanha que o principal nome da oposição, Henrique Capriles, declarou que caberia ao Tribunal Supremo de Justiça oferecer uma clara interpretação da norma constitucional.

Essa é, sem dúvida, a melhor solução. O impasse venezuelano é um assunto interno do país e deve ser resolvido por suas instituições. Não há razão, até aqui, para apontar um "golpe" em curso na Venezuela, assim como foram precipitadas e infelizes as declarações, por parte do governo brasileiro, de apoio à visão chavista.

No cerne da dificuldade está a falta de transparência sobre a saúde de Chávez. Como de hábito, os representantes do chavismo agem de modo autocrático, mostrando-se intransigentes no diálogo com as demais forças políticas do país.

Penumbras na Venezuela - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 09/01


A desinformação sobre Hugo Chávez e as manobras para a perpetuação governista reafirmam a lamentável situação de um país que não consegue viver plenamente a democracia.



Na véspera da posse do presidente reeleito que luta pela vida num leito de hospital, a Venezuela vive, simbólica e politicamente, o mesmo quadro de insuficiência respiratória de seu polêmico líder e deixa o continente também com a respiração suspensa em relação à preservação da ordem democrática. Enquanto Hugo Chávez enfrenta a batalha contra o câncer em Cuba, situação e oposição divergem nas interpretações da carta constitucional, e a população do país se angustia com a falta de informações. Há uma evidente ausência de transparência, o que não surpreende no caso da Venezuela, cujo poder é exercido por uma forma de aberração política já definida como uma democracia deformada por um populismo centralizador e autoritário.
A doença de Chávez e suas implicações são uma sequência de omissões e de ocultação de informações, coerentes com as práticas da autoproclamada revolução bolivariana. O que se assiste, desde muito antes da atual internação, não é, decididamente, um exemplo a ser imitado de abordagem de uma grave questão pública. As circunstâncias enfrentadas pelo presidente são do interesse dos cidadãos venezuelanos e dos países com os quais a Venezuela mantém relações. Mas pouco se sabe sobre a real situação de Chávez, que começou a sonegar informações sobre seu estado de saúde antes mesmo de ser reeleito, em outubro último.
É improvável que, após longo tratamento contra a doença e depois de se submeter a três cirurgias, o presidente tenha sido surpreendido pela recidiva. São muitos os indícios de que Chávez não informou tudo o que deveria quando identificou o câncer em seu início e, no ano passado, quando pode ter sonegado dos seus cidadãos a informação de que voltara a adoecer. Situações semelhantes, que envolvem ocupantes de cargos públicos, em especial os presidentes, devem ser compartilhadas com o país, pois são decisivas para a manutenção das atividades de governo e para a normalidade das instituições.
Esta é uma questão elementar das democracias. A Venezuela, no entanto, não convive plenamente com práticas democráticas, ou as informações sobre a saúde do presidente seriam menos nebulosas. A falta de transparência reforça o hábito bolivariano de conspirar contra tudo que diga respeito à produção e à divulgação de conteúdos esclarecedores e que já provocou inúmeras ações hostis contra empresas de comunicação. Em meio a tanta obscuridade, prospera ainda a controvérsia em torno das interpretações que situacionistas e oposicionistas fazem da Constituição.
Há uma óbvia manobra governista no sentido de evitar, caso o presidente não consiga retomar o governo pela quarta vez, que os chavistas, sem seu líder, sejam testados nas urnas em nova eleição. A Constituição é clara ao determinar que, no caso de incapacitação permanente, um novo pleito deve ser convocado. Os venezuelanos têm o direito de decidir, se confirmada a ausência do presidente eleito, se querem continuar sob o poder absoluto do chavismo ou finalmente buscar novos rumos para o país.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ele está em liberdade e, no território nacional, pode viajar”
Nabor Bulhões, Advogado de Carlos Cachoeira, sobre lua de mel do bicheiro na Bahia


SENADORES PASSEIAM NA SUÍÇA POR NOSSA CONTA

De repente, a Suíça adquiriu importância relevantíssima para o Senado Federal. Três senadores – Paulo Bauer (PMDB-SC), Luiz Henrique (PMDB-SC) e Inácio Arruda (PCdoB-CE) – vão gazetear o trabalho nos primeiros onze dias de março em uma “missão oficial” organizada pela Embaixada da Suíça e o Grupo Parlamentar Suíça América-Latina. O turismo parlamentar será pago, claro, pelos otários de sempre: nós.

EMBROMAÇÃO

Quem conhece, sabe que programas de grupos parlamentares (que nem existem na estrutura do Senado ou da Câmara) são pura cascata.

SESSÃO ESPÍRITA

Galhofa, ontem, no Twitter com a zorra constitucional: “campanha de Chávez na Venezuela lança novo slogan: o presidente que vai além”.

PAPAGAIO DE LUXO

O assessor Marco Aurélio Top Top Garcia nem esconde que foi à toa a Cuba: não pôde visitar Hugo Chávez por determinação dos médicos.

BAHIA: MARINHA SE ENROLA COM LANCHA DE DILMA

Pegou mal nos meios militares a informação de que a lancha usada por Dilma no passeio de férias na Bahia, domingo (6), era a “Amazônia Azul”, da Marinha. Com ela, estavam os governadores Jaques Wagner (PT-BA) e Eduardo Campos (PSB-PE). Fontes da Marinha estranham que o Comando tenha lanchas luxuosas como a Intermarine Azimuth, que custa R$ 6 milhões. A “Amazônia Azul” estava descaracterizada.

SEM DONO

A assessoria de comunicação pediu “tempo para averiguar com outras organizações militares” a quem, afinal, pertence o luxuoso mimo.

BARCAROLA

Faltou assessoria: ministra chefe da Casa Civil, em 2006 ela passeou “sem saber” numa lancha do enrolado empresário Zuleido Veras.

MÃOS AO ALTO!

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) reclama do oportunismo sobre o desastre das chuvas no Rio: “estabelecimentos inflacionam os preços”.

LÍNGUA QUEIMADA

Em campanha à Presidência em 2010, a então chefe da Casa Civil Dilma Rousseff acusou “falta de planejamento” no apagão do governo Fernando Henrique: “Ele acontece porque você não planeja”.

CORRE-CORRE

Após fechar o apoio da bancada no Paraná e Espírito Santo na disputa pela liderança do PMDB, o deputado Sandro Mabel (GO) visitou, ontem, o vice Michel Temer. Ele espera sair na frente de Eduardo Cunha (RJ).

PRODUTIVIDADE EM ALTA

Só em dezembro do ano passado, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, proferiu 452 decisões finais, em meio às intermináveis sessões do julgamento do mensalão.

ALGEMAS DE OURO

O prêmio Algemas de Ouro, promovido pelo Movimento 31 de Julho, traz disputa acirrada entre os mais corruptos de 2012. O ex-presidente Lula está em primeiro, na frente do ex-senador Demóstenes Torres.

SEM DESCANSO

O presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal, Marcos Gutemberg, precisou interromper suas férias para defender a categoria, que passa por crise após falta de médicos no último fim de semana.

ALÔ, ANS

Clientes da Unimed Brasília sofrem com o péssimo atendimento. Quando o telefone para marcação de consulta não está ocupado, a ligação cai antes de completar a solicitação. Nem a ouvidoria funciona.

ABAIXO AS LOROTAS

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) entra, hoje, com representação pedindo a convocação de Guido Mantega (Fazenda) para explicar as manobras contábeis que “colocam em risco a credibilidade do País”.

APAGADO

O deputado e ex-ministro Ricardo Berzoni (PT-SP) se antecipou: seu avatar no Twitter agora é um vira-latas no lugar do poste iluminado, mas esqueceu de tirar o “de poste em poste, vamos iluminar o Brasil”.

NADA CRIATIVO

O presidente do PT, Rui Falcão, repete o mantra petista para rebater as críticas ao ex-presidente Lula: “Mexeu com ele, mexeu comigo”.

SIMPLES ASSIM

O governo vai reduzir a conta de luz porque... faltará luz.


PODER SEM PUDOR

CAMPOS NO CERRADO

Hoje, Brasília é cosmopolita, com todos os encantos de uma grande capital. Mas, nos primeiros tempos, era uma cidade árida, um canteiro de obras com pouca diversão, poucas crianças e poucos velhos. Muitos se queixavam da falta de mar (e de ar, nos períodos de baixa umidade), de montanhas e de esquinas, de solidão e de tédio. Um dia, perguntaram ao senador mineiro Milton Campos o que ele achava de Brasília.

- É um bocejo de 180 graus.

Ele não viveu para constatar a extraordinária transformação de Brasília.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Mais da metade das obras está atrasada
Folha: Posse de Chávez é adiada por tempo indeterminado
Estadão: MPF decide investigar Lula
Correio: Manobra adia a posse e segura Chávez no poder
Valor: Obras em descompasso dão prejuízo de R$ 2 bi à União
Estado de Minas: De bolsos cheios
Zero Hora: Presos do semiaberto vão usar tornozeleira eletrônica

terça-feira, janeiro 08, 2013

Conflitos morais na 'nova Índia' - MIRANDA KENNEDY

O Estado de S.Paulo - 08/01


Choque entre uma Nova Délhi moderna e global e a cultura tradicional indiana está colocando as mulheres em perigo


Há duas décadas o Ocidente elogia a ascensão da Índia, mas essas mudanças políticas e econômicas têm causado novos conflitos culturais - dinâmica que ficou muito clara depois do brutal estupro de uma jovem num ônibus de Nova Délhi, no mês passado. É fácil culpar uma "cultura retrógrada" hostil às mulheres. No entanto, as rápidas transformações pelas quais passaram os indianos também entram nessa história.

Entusiasmados com essa "nova Índia", muitos cidadãos deixaram a vida tradicional nos vilarejos sem se deparar com um conjunto definido de regras morais nas áreas urbanas. Como resultado, a violência sexual vem florescendo.

Sou daquelas ocidentais fascinadas pelo rápido crescimento e pela expansão da mobilidade social indiana. Vivi em Nova Délhi, onde escrevia matérias sobre o país e o restante do Sul da Ásia, entre 2002 e 2007. Naquele período houve centenas de incidentes documentados de violência sexual na capital. Um quarto de todos os estupros registrados na Índia em 2011 ocorreu em Nova Délhi, de acordo com o National Crime Records Bureau. No período em que morei na Índia, as mulheres indianas regularmente insistiam para eu me mudar para outro lugar, qualquer lugar, chamando Nova Délhi de "capital do estupro" e relatando histórias aterrorizadoras para mostrar o quão insegura era a cidade.

Naturalmente, muitos moradores da capital não têm possibilidade de mudar, ou não o querem fazer. A população da cidade inchou nas duas últimas décadas com a migração dos habitantes das zonas rurais pobres. Para eles, Nova Délhi é a terra das oportunidades. Cerca de 350 milhões de indianos vivem hoje nas cidades e mais 250 milhões deverão se mudar para áreas urbanas nas duas próximas décadas.

Os pais da vítima do estupro, que morreu há uma semana, mudaram-se com a família para um bairro de classe média da capital, vindos de um vilarejo de Uttar Pradesh, um dos Estados mais pobres da Índia. Os call centers e o setor hoteleiro criaram empregos mesmo para pessoas com menos estudo, tornando o sonho da classe média mais possível do que nunca.

Mas, com frequência, os migrantes não encontram as oportunidades de ensino e trabalho que esperam. A pobreza, a condição de casta inferior e de gênero ainda impedem muitos de progredir. Em Uttar Pradesh e outros Estados de língua hindi, por exemplo, os índices de alfabetização das meninas são de 33% a 50%, de acordo com as Nações Unidas. No caso dos meninos, são de 75%.

A família da jovem colocava suas esperanças na filha, vendeu suas terras para enviá-la a uma faculdade. De acordo com entrevistas com os pais da menina, ela insistia que seus irmãos mais jovens a acompanhassem no caminho do ensino superior. Tendo recentemente sido aprovada como psicoterapeuta trainee num hospital particular em Nova Délhi, ela havia vencido os obstáculos e conseguido um emprego de classe média.

Faz sentido que esse ataque tenha ocorrido em Nova Délhi, uma das cidades que mais cresce no mundo, que acolhe mulheres modernas, universitárias e trabalhadoras. Mas não é uma capital tão aberta como diz a propaganda. Como está repleta de migrantes que falam dezenas de línguas e representam todas as castas e religiões - pessoas que estão unidas somente por um histórico de vida tradicional no campo -, a cidade parece estar submetida a um conflito permanente para definir o que é moralmente aceitável.

Por exemplo, muitas mulheres pegam riquixás, táxis e ônibus à noite, mas é comum que os motoristas, vendedores de lojas - ou qualquer pessoa que se depare com elas - questionem por que estão fora de casa depois do anoitecer. E embora a cidade não tenha templos ou restaurantes que proíbam abertamente a entrada de hindus de casta inferior ou muçulmanos, há muitos lugares em que eles não são bem-vindos.

Novas regras. À medida que os indianos deixam seus povoados, eles perdem a proteção e o dever de prestar contas que prevalece nas pequenas comunidades. Mesmo se os migrantes vivem num bairro da capital com seus parentes e outras pessoas dos seus vilarejos de origem, como era o caso de pelo menos quatro dos estupradores da jovem, seus laços com a comunidade na verdade se romperam. Existem mais anônimos do que num povoado, algo que os liberta da expectativa de uma repressão, mas pode também significar que eles perdem seu orgulho e o sentimento de pertencer a uma comunidade.

Os estupradores eram migrantes. Dois eram irmãos que viviam numa favela em Nova Délhi, que vieram de uma aldeia do Estado do Rajastão logo depois de a Índia abrir o mercado nos anos 90. Ambos abandonaram a escola ainda jovens para trabalhar como diaristas e ajudar os pais. Adultos, eram conhecidos na favela como beberrões.

O ímpeto para o estupro e o roubo outrora podia ser mais controlado diante das expectativas da comunidade em termos de decência, como também em razão das consequências que eram muito claras. Como punição, um estuprador num vilarejo podia ser impedido de se casar, como também suas irmãs e primos. Em dezembro, a Câmara Municipal de uma pequena cidade no Estado de Haryana anunciou que puniria os homens acusados de ataque sexual expulsando-o e à sua família.

As expectativas sociais do povoado não são substituídas por valores cívicos nas grandes cidades. As condenações por estupro em toda a Índia diminuíram de 44% em 1973 para 26,5% em 2010.

A entrada da Índia no cenário mundial provocou uma confusão em relação à sexualidade, moralidade e tradição. As regras mudam e ninguém sabe ao certo o que é aceitável. A série Sex and the City é exibida repetidamente num canal de TV, enquanto num outro divas de Bollywood aparecem de calças compridas diante das câmeras e, em um terceiro, um swami reza fervorosamente uma oração hindu. Nenhuma dessas influências culturais estava à disposição há uma geração. Até 1991, os únicos canais de TV existentes eram estatais. Poucos indianos viajavam ao exterior ou se relacionavam com não indianos.

Mesmo o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, reconheceu esse conflito entre a rápida globalização da Índia e sua cultura que muda lentamente, dizendo na semana passada que "a emergência das mulheres nos espaços públicos, que é uma parte totalmente essencial da emancipação social, é acompanhada por ameaças crescentes à sua segurança e proteção". Ele prometeu ver os protestos de rua desde o ataque à estudante como prova de que "uma jovem Índia deseja autenticamente mudanças".

E, de fato, ela parece estar ocorrendo. Os acusados pelo estupro serão julgados por um tribunal de rito sumário criado para tratar de crimes contra as mulheres. Esperemos que outras mudanças ocorram rapidamente sem que para isso seja necessário o sacrifício de mais uma "filha da Índia", como a vítima da gangue do estupro será para sempre conhecida. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Apagão do gás - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 08/01


A usina termelétrica Eletrobolt, no Rio, que era para gerar energia a partir do gás natural, está usando óleo diesel, mais caro e mais poluente. É uma forma de a Petrobras racionar o consumo de gás.

Ódio aos gays
Acredite. Ano passado mais de 300 homossexuais e transexuais foram assassinados no Brasil. Em 2011, foram 266.
O número oficial será divulgado ainda esta semana pelo Grupo Gay da Bahia, que faz este acompanhamento há 32 anos.

Segue...
Segundo o antropólogo Luiz Mott, o país continua campeão mundial de crimes homofóbicos, com mais da metade dos homicídios no mundo. O Nordeste é, relativamente, a região mais homofóbica do Brasil.

Rádio Petróleo
O que se diz no setor é que a alta das ações da HRT nos últimos dias teria feito os empresários Rodolfo Landim e Julio Bozano desistirem da proposta de compra da petroleira.

Amor de carnaval
Thierry Henry, o atacante francês autor do gol que eliminou o Brasil na Copa de 2006, estava sábado no ensaio da Unidos da Tijuca. Curtiu o samba da campeã do carnaval de um camarote, discreto, acompanhado de um amigo.

Faz sentido
Em Minas Gerais, um deputado estadual do Rio puxou conversa com um taxista sobre a corrupção no Brasil. Papo vai, papo vem, e o do volante defendeu a ética na política:

— Eu, veja, sou 70% honesto. Se nós tivéssemos políticos com uns 70% de honestidade, teríamos outro país.

Cá e lá
Não é só “Ai, se eu te pego”, de Michel Teló, que faz sucesso lá fora. Dia destes, uma carioca estava num bar em Siem Reap, no Camboja, e, acredite, começou a tocar “Rap das armas”, o funk que fez parte da trilha do filme “Tropa de elite”.

Segue...
É aquele que diz: “Parapapapapapa parapapa/parapapaparapapa/tibum.” Poesia pura.

Boletim médico
Condenado pelo STF no caso do mensalão, Roberto Jefferson está com o tumor no pâncreas controlado. O médico José de Ribamar Saboia de Azevedo diz que não há evidências de que a doença possa voltar. Jefferson já fe nove sessões de quimioterapia.

‘Fractured Times’
Sai em março, na Inglaterra, o livro “Fractured Times”, que o historiador marxista Eric Hobsbawn, falecido em outubro, aos 95 anos, deixou pronto. Tem artigos e ensaios inéditos misturados a outros publicados esparsamente em revistas e jornais culturais.
O espetáculo “A febre do samba” retorna ao Teatro Sesi (Centro), hoje. Fica até dia 31.

Perigo das chuvas
Estas chuvas aumentam o perigo da dengue, logo agora, que o ministro Alexandre Padilha comemora a redução de 77% (entre 2011 e 2012) dos casos graves da doença no Rio. As mortes por dengue caíram de 134, em 2011, para 40, no ano passado, em todo o estado.

Diário de Justiça
A violência dentro dos estádios custa caro. A 9ª Câmara Cível do Rio condenou a Suderj e o Flamengo a indenizarem em R$ 11.700 um torcedor. É que ele, ainda dentro do Maracanã, foi agredido e assaltado após um jogo.

Chegou o carnaval
Selminha Sorriso, a porta-bandeira da Beija-Flor, aceitou o convite e será a musa do Cordão da Bola Preta.

Consumidor ganha
Cabral sancionou lei que cria, sem aumento de despesa, sete novas câmaras no Tribunal de Justiça do Rio. Cinco delas serão especializadas em direito do consumidor. Com isso, haverá maior rapidez nos julgamentos.

Última forma
A EBC diz que não vai ceder à Rádio Nacional a faixa FM usada pela Rádio MEC, ao contrário do que saiu aqui. A empresa espera conseguir junto ao Ministério das Comunicações um canal FM para a Nacional.

A Portela ferve
Baluarte da Portela, Dodô, 90 anos, que lá desfila desde 1935, quando a azul e branca ganhou seu primeiro campeonato, declarou guerra ao presidente Nilo Figueiredo. Sábado, recusou a homenagem que receberia na feijoada e, a uma interlocutora, arrematou:
— Se eu morrer com esse cara ainda no poder, não deixem que eu seja velada na quadra.

Ponto Final
Será que o FMI vai censurar o governo brasileiro, por maquiar as cantas fiscais, assim como fez com o da Argentina, por mentir sabre a inflação? Com todo o respeito.

A decadência da França - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 08/01


Gostaria de ter mais França nas estantes de minha casa. Isso só não é possível porque o declínio é real.


Gérard Depardieu já é cidadão russo. Foi recebido pelo próprio Vladimir Putin, depois de polêmica feia com o governo de François Hollande.

Eis a questão: Depardieu está cansado de pagar impostos. Durante a sua longa carreira, já pagou mais de € 145 milhões (cerca de R$ 384 milhões). Chega. Sobretudo quando o governo de Hollande promete taxar com redobrada dureza os mais ricos do país.

Comento essa história com alguns amigos progressistas que não se conformam: se o Estado francês deseja aumentar para 75% o Imposto de Renda de quem ganha mais de € 1 milhão (R$ 2,6 milhões), como é possível que Depardieu se recuse a contribuir?

Claro que o verbo, na minha opinião, não é "contribuir". É "permitir". No caso, "permitir" ser roubado pelo Estado. Mas o problema, no fundo, é outro: quando Depardieu diz adeus à França e aceita um passaporte de Putin, talvez seja a França, e não Depardieu, que esteja com problemas sérios.

Aliás, bastaria perguntar aos meus amigos progressistas quando estiveram eles em Paris pela última vez. O silêncio seria geral. Paris é uma cidade que já não existe no radar deles.

Sem falar do óbvio: qual foi o último romancista francês que eles leram em 2012? Qual foi o filme a que assistiram? Que exposição os motivou ou encantou?

E, filosoficamente falando, quem é o grande pensador francês da atualidade? Melhor ainda: seriam eles capazes de ler esse pensador na língua original?

"É a economia, estúpido!", dizia um conhecido marqueteiro americano nas eleições presidenciais de 1992 entre Clinton e Bush (pai). No caso da França, a economia é apenas o começo do problema.

E esse começo é o mesmo dos países do sul da Europa: o euro, uma quase imposição gaulesa para que a União Europeia engolisse a temível reunificação da Alemanha, permitiu à França uma década de endividamento e gastos públicos como se não existisse amanhã.

Os resultados, que a revista "The Economist" resumiu recentemente, arrepiam qualquer cristão: o Estado consome 57% do PIB (a maior fatia de toda a zona do euro). A dívida pública saltou dos 22% do PIB (em 1981) para os 90% (em 2012). O desemprego atinge 25% da população jovem.

Perante tudo isso, a solução de François Hollande é taxar tudo que se mexe: trabalho, capitais, patrimônio. E depois? Quando não existir mais nada nem ninguém para "contribuir"?

Depois, a França chegará a duas conclusões dolorosas.

A primeira é que, ao adiar as reformas necessárias para que a sua economia seja minimamente competitiva, Paris capitulou perante a Alemanha: Angela Merkel é hoje a líder informal da Europa, não François Hollande.

E, segunda, que há um cheiro de declínio no território preferencial dos franceses: o da cultura.

Anos atrás, a revista "Time" provocou polêmica ao cartografar esse declínio com números. Na França, publica-se muito -mas os livros não sobrevivem fora das fronteiras francesas. Na França, filma-se muito -mas os filmes também não sobrevivem fora do país.

O mais celebrado artista plástico francês -Robert Combas- é personagem secundário nos circuitos artísticos internacionais (que estão em Londres, Nova York e até Berlim). A cultura pop francesa é uma piada (ou, no limite, uma imitação grotesca dos rappers americanos).

Se não fossem moda e gastronomia, que só com muita benevolência podem ser consideradas "alta cultura", o que seria da França, hoje?

Formulo essa questão e o leitor, conhecendo a minha costela anglófila, imagina um riso perverso.

Imagina mal. Em 2012, o melhor livro que li foi francês ("O Mapa e o Território", de Michel Houellebecq). Em 2012, o melhor filme a que assisti foi uma produção parcialmente francesa ("Amour", de Michael Haneke). E, para ficar na filosofia, o melhor tratado de política que li no ano findo também foi francês (uma história do liberalismo de Pierre Manent).

Só que tudo isso são exceções que só confirmam o meu desgosto: eu gostaria de ter mais França, e não menos, nas estantes de minha casa. Isso só não é possível porque o declínio é real.

Sem enfrentar esse declínio, os meus amigos progressistas podem encontrar em Gérard Depardieu o bode expiatório. Infelizmente, não será o bode a ressuscitar o rebanho.

Vasto tempo - FRANCISCO DAUDT

FOLHA DE SP - 08/01


'As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão'


Einstein submetia-se por sua fama a situações constrangedoras. Ocasião de gala. Sentado junto à socialite, ouviu dela uma dessas perguntas feitas para preencher o silêncio: "Professor, poderia me explicar o conceito de tempo na sua teoria da relatividade?" Conformado, respondeu: "Imagine-se por duas semanas junto a quem mais ama. Agora se imagine por trinta segundos sentada sobre uma chapa em brasa. O que demorou mais a passar?"

O escritor Carlos Sussekind me apresenta sua intriga: "Agora me dizem que é preciso viver o presente. Não entendo isso. Minha mente transita sem parar entre o passado e o futuro, qualquer que seja o estímulo atual".

Consolo-o: todos nós somos assim. Só quem vive apenas o presente é quem tem Alzheimer. Se o leitor vivesse isto, essas manchas de tinta que vê não teriam sentido algum. Sem perceber, seu curso de alfabetização é presente.

A principal característica que nos diferencia de outros animais é quantitativa, e nosso bê-a-bá dá a dimensão dos bilhões de terabites contidos no nosso cérebro.

É um erro comum pensar que o inconsciente freudiano é inalcançável por conta da repressão. Não é. O tamanho de informação inconsciente que carregamos é infinitamente maior do que o reprimido, apesar de um contaminar o outro.

Mas está inconsciente por quê? Pela mesma razão que as fundações do prédio onde você mora nunca mais serão vistas: elas são básicas, mas são passado enterrado. Tanto quanto nossa incapacidade de reconstruir nossa alfabetização (que, aliás, continua em processo: pense em excitação; hesitação; exceção; estender; extenso; tenho "uma dó" ou tenho um dó? Você não hesita antes de escrevê-las?). É passado e presente ao mesmo tempo, já que nosso inconsciente é atemporal.

Quem não teve dor de barriga em janeiro, pensando no vestibular em dezembro?

Lá vêm os gregos de novo em nosso socorro. Foi ontem mesmo (há 2.400 anos) que eles pensaram na ideia de kairós, o tempo oportuno, ou o momento em que as coisas se encaixam. Ele é intensivo, em contraste com cronos, o tempo medido, extensivo, o que se estende.

Escrevo no 31 de dezembro. Um dia perdido no cronos, mas não no kairós. Temos uma impressão, ancorada no inconsciente, de que ele tem algo de especial, um poder mágico de virada, hora de olhar o ano que passou, planejar o que vai começar, dimensionar a velhice.

Andei pensando nesses conceitos de tempo ainda outro dia, e resolvi escrever sobre eles, mas só hoje me dei conta de que escrevo num caderno chamado "Cotidiano", e de que é Réveillon: vai ser kairós assim no Hades...

Drummond escreveu uma crônica num dia de apagão, descrevendo sua casa vista à luz de um foco de lanterna, e de como cada fragmento iluminado ganhava um mundo de memórias que, se visto em conjunto, não seriam despertadas. Para cair no esquecimento do inconsciente assim que o foco se movia.

É dele também este primor da atemporalidade da mente: "...as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão".

O generoso - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 08/01

Graças à costura feita pelo líder do PMDB, Henrique Alves (RN), para ser presidente da Câmara, o PSD de Gilberto Kassab, a quarta bancada, fará o presidente da segunda comissão mais importante: a de Finanças e Tributação. Ela será presidida pelo atual líder, Guilherme Campos (PSD-SP). A presidência desta comissão seria ocupada pelo PMDB, segunda maior bancada.

Os movimentos do DEM
Os tucanos não estão muito preocupados com os acenos de independência do seu principal aliado, o DEM. Um de seus dirigentes diz que basta "o PSDB mostrar que tem perspectiva de poder, para que os democratas voltem ao ninho dos tucanos". Relatam que esta não seria a primeira vez em que o DEM, ou parcela do partido, afasta-se do projeto tucano. Lembram da cisma que ocorreu nas eleições presidenciais de 2002, quando parcela do DEM não apoiou o tucano José Serra. E acrescentam que o DEM só voltou a apoiar um candidato tucano nas eleições presidenciais de 2006, quando o candidato do PSDB foi o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

“O Marcelo Freixo (PSOL) seria uma boa candidatura a governador do Rio. O PSDB deveria debater esta alternativa”
Otavio Leite Deputado federal (PSDB-RJ)

Abobrinhas
O almoço da presidente Dilma com o governador Eduardo Campos (PSB-PE), no sábado, na Base de Aratu (BA), foi social. A presidente ficou de marcar com o governador uma nova conversa, ainda neste mês, desta vez para tratar de política.

Banheira!!!!
Ciro Gomes foi contratado, a peso de ouro, pela rádio Verdes Mares, de Fortaleza, do grupo Edson Queiroz. Ele vai ser comentarista esportivo. Seu foco será acompanhar a preparação da Seleção Brasileira para a Copa de 2014 e os jogos da Copa das Confederações. O político, que no passado já exerceu a função na rádio Educadora (Sobral), está afinando a verve.

Antecedentes
A presidente Dilma e o governador Eduardo Campos trocaram um "Feliz 2013", por telefone, em 31 de dezembro. Na sexta-feira, Dilma ligou para convidá-lo para o almoço do dia seguinte, com direito a um passeio pela Base de Aratu.

Cai, cai balão...
O projeto Jurong, que o governador Agnelo Queiroz (PT-DF) encomendou em Cingapura para planejar os próximos 50 anos de Brasília, deixou Maria Elisa Costa, filha do urbanista Lúcio Costa, que projetou a cidade com Oscar Niemeyer, fula da vida. Elisa diz que esta é atribuição do próprio governador. "Se não se sente capaz de fazê-lo, melhor seria tirar o time."

O equilibrista
Enquanto o PSOL pede a Júlio Delgado (PSB-MG) que se comprometa a votar o fim do voto secreto e dos 14º e 15º salários para ganhar seu apoio a presidente da Câmara, deputados de outros partidos pedem que os temas sumam da pauta.

O Rio só usou R$ 15 milhões
O secretário de Obras do Rio, Hudson Braga, liga para dizer que "é normal" prorrogar convênio com o governo federal, para promover novas licitações (R$ 33 milhões) com o objetivo de construir 42 novas pontes na Serra Fluminense.

O PSDB já decidiu que o deputado Márcio Bittar (AC) será o primeiro secretário da Câmara na vaga que disputa, e deve ganhar, com o PSD.

De mudança - SONIA RACY

O ESTADÃO - 08/01


Há quase um mês no condomínio do Fasano, em Punta del Este, Gilberto Miranda adotou discurso parecido com o de altos dirigentes do PT condenados pelo mensalão. A pelo menos um interlocutor, se disse perseguido nos esforços por criação de riquezas para o País.
E, desiludido, tem perguntado como é morar em… Londres.

Tête-à-têteNa conversa de Alckmin com Aécio, no fim do mês, em São Paulo, o governador dirá que o PSDB paulista está animado com sua pré-candidatura à Presidência. Mas ressaltará: espera que o senador mineiro dedique parte de sua agenda aos eventos que o partido organizará em todo o Estado.
A sucessão ao comando nacional da legenda também entrará em pauta. Os tucanos paulistas esperam ocupar a secretaria-geral. Eleição? Em maio.

ApagãoTeve advogado dando meia-volta ao tentar protocolar petições ou retirar certidões, ontem, no Fórum João Mendes. Motivo? A longa fila.
A assessoria do TJ informou: a demora ocorreu por causa da demanda pós-recesso.

Casa novaGilmar Tadeu, comandante da extinta Secretaria da Copa de SP, assumiu o comando da pasta de Esporte em São Caetano do Sul, no ABC.

Pibão?O Brasil está atrás de China e Índia, entre os Brics, no interesse de empresários estrangeiros. Cerca de 21% dos entrevistados pela Grant Thornton admitem investir no País em 2013 - principalmente espanhóis, norte-americanos e argentinos.A pesquisa ouviu 3.200 executivos.

To DilmaBarulho à vista. Importadores de todo o País se reúnem em SP, hoje, para discutir ações “contra o pacote de medidas protecionistas do governo”.
Vão elaborar documento, que será enviado a Dilma.

Tá seguro!Em ritmo de Copa, a Mongeral Aegon bateu o martelo: a seguradora aproveita amistoso entre Vasco e Ajax, amanhã no Rio, para anunciar investimento de R$ 2 milhões, até 2014, em marketing esportivo.

Quem vemCorre que Cristiano Ronaldo deve desembarcar no Brasil ainda neste semestre.

RepetecoJennifer Lopez faz escola. Megan Fox, estrela do camarote da Brahma, também ensaiou passos de samba no set de filmagem do comercial da cerveja - semana passada, nos EUA.
A atriz virá ao Brasil com o filho de 3 meses, Noah Shannon.

Repeteco 2Desta vez, não foi um brasileiro que dirigiu a musa, mas um argentino: Maxi Blanco, da Landia.

CarnívoraAlexandre Pato levou a namorada, Barbara Berlusconi, para conhecer o Rodeio na véspera de assinar com o Corinthians.
E a moça mostrou que é boa de garfo. Devorou picanha fatiada, acompanhada de arroz e palmito.

Ovo de patoO Timão quer transformar Pato em uma espécie de Neymar do Parque São Jorge. E já conversa com Ronaldo, para que a 9ine venda a imagem do craque.

Sem palestraAnteontem, depois de fracassarem as negociações para manter Marcos Assunção, conselheiros anti-Arnaldo Tirone iniciaram campanha contra a contratação de Riquelme pelo Palmeiras.
Afinal, a diretoria garantiu que o motivo para descartar o ídolo Assunção foi… dinheiro.

Na frenteStephen Daldry, diretor de Billy Elliot e As Horas, fez rasante pela O2, em dezembro. Negocia uma coprodução para este ano.

O espetáculo infantil A História do Incrível Peixe-Orelha volta a cartaz dia 19. No Teatro das Artes.

É quinta o Baile do Buchecha. Na Outlaws.

Pedro Altério e Bruno Piazza apresentam show, sábado, no Tom Jazz.

A crise é moral - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 08/01


O Estado de bem-estar social criou uma bomba-relógio, mas ninguém quer pagar a fatura



O Japão está em crise há décadas. A Europa está em grave crise. Os Estados Unidos cada vez se parecem mais com a Europa. Não seria exagero falar em uma grande crise das democracias modernas. O que pode explicar tal fenômeno?

A esquerda vai apontar para os bodes expiatórios de sempre: o capitalismo, o liberalismo, o individualismo. E a esquerda vai errar o alvo, como sempre. Foi o capitalismo liberal com foco no indivíduo que tirou milhões da miséria e permitiu uma vida mais confortável a essa multidão. Quem está mais longe desse sistema está em situação muito pior.

O que explica as crises atuais então? Claro que um fenômeno complexo tem mais de uma causa. Mas eu arriscaria uma resposta por meio de um antigo provérbio conhecido: avô rico, filho nobre, neto pobre. Isso quer dizer, basicamente, que o próprio sucesso planta as sementes do fracasso, só que de outra geração.

Somos os herdeiros de uma geração mimada, que colheu os frutos do árduo trabalho de seus pais, acostumados com vidas mais duras, com guerras, com diversas restrições. Essa geração, principalmente na década de 1960 e 70, pensou que bastava demandar, e todos os seus desejos seriam atendidos, sabe-se lá por quem.

Acostumados com o conforto ocidental, essas pessoas passaram a crer que a opulência era o estado natural da humanidade, e não a miséria. Em vez de pesquisar as causas da riqueza das nações, como fez Adam Smith, eles acharam que bastava distribuir direitos e jogar a conta para o governo.

O Estado se tornou, nas palavras de Bastiat, “a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos”. O conceito de escassez foi ignorado, e muitos passaram a acreditar na ilusão de que basta um decreto estatal para se obter crescimento e progresso. Vários olharam para esse deus da modernidade em busca de milagres.

Foi assim que a impressão de moeda por bancos centrais passou a ser confundida com criação de riqueza. Ou que gastos públicos passaram a ser sinônimo de estímulo ao PIB, colocando o termo “austeridade” na lista dos inimigos mortais. O crédito sem lastro para consumo passou a ser visto como altamente desejável, e a poupança individual como algo prejudicial ao crescimento econômico.

Toda uma geração acreditou que era possível ter e comer o bolo ao mesmo tempo, esquecendo o alerta de Milton Friedman, de que não existe almoço grátis. Esmolas estatais foram distribuídas a vários grupos organizados, privilégios foram criados para várias “minorias” e o endividamento público explodiu.

O Estado de bem-estar social criou uma bomba-relógio, mas ninguém quer pagar a fatura. Acredita-se que é possível jogá-la indefinidamente para frente. Os banqueiros centrais vão criar mais moeda ainda, os governos vão gastar mais e assumir novas dívidas, as famílias vão manter o patamar de consumo e tomar mais crédito, e todos serão felizes. E ai de quem alertar que isso não é possível: será um ultraconservador reacionário e radical.

A postura infantil se alastrou para outras áreas além da econômica. Os adultos agem como adolescentes e delegam ao governo a função de cuidar de seus filhos e de si próprios. O paternalismo estatal assume que indivíduos não são responsáveis, mas sim mentecaptos indefesos que necessitam de tutela.

Intelectuais de esquerda conseguiram convencer inúmeras pessoas de que elas não são responsáveis por suas vidas, e sim marionetes sob o controle de forças maiores e determinísticas. Roubou alguém? É vítima da sociedade desigual. É vagabundo? Culpa do sistema. Matou uma pessoa? A arma é a culpada, e a solução é desarmar os inocentes.

Notem que o mundo atual exime o indivíduo de responsabilidade por quase todas as atrocidades por ele cometidas. Sob a ditadura velada do politicamente correto, ninguém mais pode dar nome aos bois e colocar os pingos nos is. Os eufemismos são a regra, e a linguagem perdeu seu sentido. O criminoso vagabundo é a vítima, e sua vítima é o verdadeiro culpado: quem mandou ter mais bens?

Portanto, engana-se quem pensa que para sair dessa crise precisamos de mais do mesmo: mais crédito, mais dívida pública, mais gastos de governo, mais impostos sobre os ricos e mais impressão de moeda. Não! A receita proposta por Obama e companhia é o caminho da desgraça. Ela representa estender artificialmente a “dolce vita” dos filhos nobres (e mimados), como se o dia do pagamento nunca fosse chegar. Ele chega, inexoravelmente.

Os netos pobres seremos nós, ou nossos filhos, se essa trajetória não mudar logo. A crise não é apenas econômica; ela é moral.