quinta-feira, dezembro 13, 2012
O Brasil para franceses - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 13/12
Talvez por efeito do belo outono parisiense, os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, mostraram-se especialmente inspirados em seus pronunciamentos na capital francesa, onde participaram do Fórum pelo Progresso Social e de contatos com empresários locais. Segundo Mantega, a crise externa retardou a recuperação da economia brasileira e impediu a indústria de aumentar suas exportações, apesar do câmbio mais favorável do que era há um ano. Pimentel foi além e classificou como bom, diante do cenário internacional, um crescimento econômico de 1%. E acrescentou uma ressalva: esse número, apesar de bom, é inferior ao desejado. Deve ter sido um esclarecimento tranquilizador para quem pensa em investir no Brasil. No próximo ano, prometeram os ministros, o resultado será bem melhor, com expansão na faixa de 4% a 4,5%. Podem ter entusiasmado algum ouvinte menos familiarizado com os latino-americanos e outros países em desenvolvimento.
Aqueles mais informados sobre o outro lado do Atlântico devem ter-se perguntado por que o Brasil cresce menos que os demais países sul-americanos, exceto o Paraguai, prejudicado por grave seca. Terão esses países conseguido, por algum milagre, isolar-se do conturbado mercado internacional? Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela cresceram em 2011 a taxas entre 4,2% e 7,8%, enquanto o Brasil só avançou 2,7%. O desempenho desse grupo é menos brilhante, em 2012, mas os resultados ainda ficam na faixa de 3,5% a 6% ou pouco mais, e as perspectivas de quase todos para 2013 são melhores que as do Brasil. Até em zonas mais próximas do núcleo da crise há países, como Estônia, Letônia e Turquia, com desempenho médio superior ao brasileiro.
A comparação com os demais emergentes é muito útil para a avaliação da política adotada no Brasil, dos resultados e das possibilidades de expansão econômica a médio e a longo prazos. Todos estão expostos às condições do mercado internacional - redução da demanda nas economias mais avançadas, desaceleração na China e em outros grandes emergentes, política monetária expansionista nos EUA e na Europa e concorrência mais dura no comércio global.
Muitas economias emergentes e em desenvolvimento, no entanto, têm mantido um crescimento médio superior ao do Brasil, mais regular e com inflação menor. Surtos inflacionários ocasionais têm sido controlados, na maior parte dos casos, com razoável rapidez.
É difícil, portanto, levar a sério os ministros brasileiros, quando atribuem o desempenho medíocre do País principalmente às condições do mercado externo. Quase sempre evitando detalhes, admitem alguns problemas internos, mas prometem para breve o resultado das reformas iniciadas nos últimos tempos (em alguns casos, mais prometidas do que iniciadas). "As medidas estão surtindo efeito", disse o ministro da Fazenda, embora mais lentamente, ressalvou, do que o governo desejava. O quarto trimestre, segundo ele, está sendo melhor que o terceiro e o País entrará em 2013 com a economia em aceleração.
O ouvinte mais atento deve ter percebido mais um detalhe inquietante: o ministro da Fazenda, assim como seus colegas, em geral se abstém de discriminar as medidas conjunturais e as políticas de maior alcance. Deixa pouco claras, portanto, as possibilidades de crescimento duradouro. O País pode crescer 4% ou mais em 2013. E depois?
A presidente Dilma Rousseff também andou inspirada. Depois de mais uma vez ensinar aos europeus como vencer a crise, reafirmou sua confiança no futuro da economia brasileira. O País, garantiu, será mais que um exportador de commodities, embora deva manter-se como potência alimentar e mineral. Mas o Brasil, antes das escolhas estratégicas do petismo, faturava bem mais com a exportação de manufaturados do que com a venda de primários. A diplomacia comercial adotada a partir de 2003 e o desprezo às condições de competição mudaram esse quadro. A presidente, em seu arroubo parisiense, parece ter esquecido essa história.
A conta sempre chega - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 13/12
Diariamente, há notícias estranhas. Todas somadas, são assustadoras. A Caixa comprou debêntures de frigorífico, o BNDES perdeu R$ 1 bilhão por não converter seus papéis em ações de outro frigorífico. O Tesouro emitiu mais R$ 20 bilhões para o BNDES. Diretores de agências reguladoras são apanhados em escândalos. Surgiu dúvida nova sobre um braço já extinto do Banco do Brasil.
Só nesses casos acima há vários absurdos com os quais os brasileiros têm se acostumado. As agências reguladoras deveriam ser independentes e ter quadros com capacidade técnica. São fundamentais para que haja um ambiente confiável e estável para os investimentos. Quando o PT assumiu, em 2003, as agências foram criticadas por representarem a "terceirização" de funções governamentais. Agora se vê que a verdadeira "terceirização" foi a entrega de cargos fundamentais, como diretorias, para a Rose e seus Vieiras.
É estapafúrdio que a Caixa Econômica Federal vire sócia de frigorífico. Não faz sentido. Ela está a um passo disso: comprou integralmente as debêntures da holding do JBS, o J&F, o mesmo grupo que foi beneficiado por compras de debêntures pelo BNDES, em operação semelhante. A empresa fez, anos atrás, emissão de papéis que foram totalmente comprados pelo banco público e depois convertidos em ação. Hoje, o BNDES tem 40% do capital do frigorífico. Além disso, o mesmo grupo recebeu empréstimos subsidiados em volume exorbitante. No caso da Marfrig, foi pior. O BNDES decidiu perder R$ 1 bilhão porque se fosse exercer seu direito contratual viraria dono da empresa. Os benefícios concedidos por este governo ao setor de carne são inexplicáveis. Agora, passou a ajudá-los através da Caixa Econômica Federal.
O Banco do Brasil criou, em dezembro de 2003, uma subsidiária cuja função supostamente seria emprestar para a população de baixa renda. O infeliz Banco Popular do Brasil (BPB) existiu por pouco tempo e enquanto durou fez a alegria de Marcos Valério, dono da conta publicitária. No primeiro ano de existência, o BPB gastou com publicidade um valor superior às operações de crédito que havia concedido. Segundo o jornal "Estado de S.Paulo", no depoimento que o publicitário - condenado por corrupção a mais de 40 anos de cadeia - concedeu ao Ministério Público, ele contou que tinha que pagar mesada ao PT por algumas contas de publicidade que recebeu. Uma delas, a do finado Banco Popular do Brasil. Detalhe é que não houve uma licitação específica do Banco Popular. O então presidente da instituição, Ivan Guimarães, disse que era normal gastar bastante com publicidade no início, porque depois os gastos cairiam. O problema é que não houve o depois. Permanentes são apenas os ecos daquela estranha operação bancária nunca devidamente explicada.
Cada um desses eventos acontece separadamente. Se fossem casos únicos já seriam preocupantes, mas, somados, mostram a cara de um país que está cometendo erros demais. Um deles o de colocar em aventuras os bancos públicos para beneficiar as empresas privadas favoritas. Outro, o de desmoralizar a função de órgãos que foram criados para regular áreas estratégicas.
O Brasil este ano está com um desempenho econômico pífio. O PIB está estagnado e a inflação está alta. Mas essa conjuntura pode ser revertida no ano que vem. O problema é que os erros que vêm sendo cometidos deixam herança. Como o Brasil aprendeu dolorosamente no passado, não se brinca com a saúde financeira dos bancos públicos porque eles têm um dono: o Tesouro. Sobre as costas dos contribuintes é que cairá a conta quando ela chegar. Na economia, a conta sempre chega.
Diariamente, há notícias estranhas. Todas somadas, são assustadoras. A Caixa comprou debêntures de frigorífico, o BNDES perdeu R$ 1 bilhão por não converter seus papéis em ações de outro frigorífico. O Tesouro emitiu mais R$ 20 bilhões para o BNDES. Diretores de agências reguladoras são apanhados em escândalos. Surgiu dúvida nova sobre um braço já extinto do Banco do Brasil.
Só nesses casos acima há vários absurdos com os quais os brasileiros têm se acostumado. As agências reguladoras deveriam ser independentes e ter quadros com capacidade técnica. São fundamentais para que haja um ambiente confiável e estável para os investimentos. Quando o PT assumiu, em 2003, as agências foram criticadas por representarem a "terceirização" de funções governamentais. Agora se vê que a verdadeira "terceirização" foi a entrega de cargos fundamentais, como diretorias, para a Rose e seus Vieiras.
É estapafúrdio que a Caixa Econômica Federal vire sócia de frigorífico. Não faz sentido. Ela está a um passo disso: comprou integralmente as debêntures da holding do JBS, o J&F, o mesmo grupo que foi beneficiado por compras de debêntures pelo BNDES, em operação semelhante. A empresa fez, anos atrás, emissão de papéis que foram totalmente comprados pelo banco público e depois convertidos em ação. Hoje, o BNDES tem 40% do capital do frigorífico. Além disso, o mesmo grupo recebeu empréstimos subsidiados em volume exorbitante. No caso da Marfrig, foi pior. O BNDES decidiu perder R$ 1 bilhão porque se fosse exercer seu direito contratual viraria dono da empresa. Os benefícios concedidos por este governo ao setor de carne são inexplicáveis. Agora, passou a ajudá-los através da Caixa Econômica Federal.
O Banco do Brasil criou, em dezembro de 2003, uma subsidiária cuja função supostamente seria emprestar para a população de baixa renda. O infeliz Banco Popular do Brasil (BPB) existiu por pouco tempo e enquanto durou fez a alegria de Marcos Valério, dono da conta publicitária. No primeiro ano de existência, o BPB gastou com publicidade um valor superior às operações de crédito que havia concedido. Segundo o jornal "Estado de S.Paulo", no depoimento que o publicitário - condenado por corrupção a mais de 40 anos de cadeia - concedeu ao Ministério Público, ele contou que tinha que pagar mesada ao PT por algumas contas de publicidade que recebeu. Uma delas, a do finado Banco Popular do Brasil. Detalhe é que não houve uma licitação específica do Banco Popular. O então presidente da instituição, Ivan Guimarães, disse que era normal gastar bastante com publicidade no início, porque depois os gastos cairiam. O problema é que não houve o depois. Permanentes são apenas os ecos daquela estranha operação bancária nunca devidamente explicada.
Cada um desses eventos acontece separadamente. Se fossem casos únicos já seriam preocupantes, mas, somados, mostram a cara de um país que está cometendo erros demais. Um deles o de colocar em aventuras os bancos públicos para beneficiar as empresas privadas favoritas. Outro, o de desmoralizar a função de órgãos que foram criados para regular áreas estratégicas.
O Brasil este ano está com um desempenho econômico pífio. O PIB está estagnado e a inflação está alta. Mas essa conjuntura pode ser revertida no ano que vem. O problema é que os erros que vêm sendo cometidos deixam herança. Como o Brasil aprendeu dolorosamente no passado, não se brinca com a saúde financeira dos bancos públicos porque eles têm um dono: o Tesouro. Sobre as costas dos contribuintes é que cairá a conta quando ela chegar. Na economia, a conta sempre chega.
Primeira classe - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 13/12
Recém-eleita presidente, em 2010, Dilma Rousseff viajou ao lado de Rosemary Noronha no voo na volta do G-20, em Seul, na Coreia do Sul. O então presidente Lula chamou a ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo para a área reservada, onde estavam ele, Dilma, um governador e o assessor especial Marco Aurélio Garcia. Rose apelou para que Lula recebesse José Dirceu. "Ela repetia: 'Receba o Zé'. Ficou claro que ela fazia um meio de campo", relata membro da comitiva.
GPS Quem conhece o Palácio de Planalto usa um detalhe do depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público para por em xeque suas acusações contra Lula. O publicitário diz que "subiu" com Dirceu para o gabinete do Lula, mas a sala do ex-ministro ficava um andar acima da do ex-presidente.
Timão Segundo assessores, Lula ficou abatido com as acusações desde terça-feira e não queria falar com ninguém. "Mas aí o Corinthians ganhou e ele voltou ao normal'', diz um auxiliar.
Backup A defesa de Rosemary pediu à Justiça Federal o "espelhamento" (cópia) de todos os computadores e mídias apreendidos com ela e a filha Milene, para assegurar o direito de defesa de ambas.
Subiu A fatia da Operação Porto Seguro envolvendo autoridades com foro privilegiado está prevista para chegar ao Supremo Tribunal Federal e ao STJ em até dez dias, depois de atrasos de tramitação. Essa parte deve ser mantida sob segredo de Justiça.
Bonde Advogados sondados para defender políticos citados no Rosegate dizem que passam de dez as autoridades listadas no pedido de mais investigações.
Drama Num dos emails para o ex-adjunto da AGU José Weber, em outubro, o ex-diretor da ANA Paulo Vieira se queixa: "Me relegou ao castigo do esquecimento?".
Toma lá... Petistas fizeram um acordo com o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL) para que ele viabilizasse a aprovação ontem do convite ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para falar sobre a chamada lista de Furnas.
... dá cá Collor facilitou a aprovação do convite para ouvir FHC, e, em troca, conseguiu convencer o PT a colocar na pauta extra da comissão que controla atividades de inteligência convite para ouvir o procurador-geral da República, Roberto Gurgel.
PS No acordo, os petistas pediram ainda a Collor garantia de que não seriam aprovados requerimentos da oposição para convidar a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Rosemary Noronha.
Banco... O Conselho Nacional de Justiça começa hoje mapeamento dos processos contra autoridades com foro privilegiado em tribunais.
... de dados O ministro Francisco Falcão enviará ofícios aos 27 tribunais de Justiça solicitando informações sobre o andamentos dessas ações. Os órgãos terão até 30 dias para responder.
Cada um... Candidato à sucessão de Henrique Eduardo Alves, o deputado Eduardo Cunha (RJ) acusa o atual líder do PMDB na Câmara de fazer campanha nos bastidores por Sandro Mabel (GO).
... na sua Cunha dispara: "Henrique pode estar comprando uma crise para a sua candidatura à presidência, já que o combinado era que ele ficaria isento".
Visita à Folha João Rodarte, presidente da CDN Comunicação Corporativa, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Andrew Greenlees, vice-presidente.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Com Rosemary e Marcos Valério, Lula vive um momento de inferno astral que nem Freud, o ex-assessor e faz-tudo, explica."
DO LÍDER DO PPS NA CÂMARA, RUBENS BUENO (PR), sobre as acusações contra o ex-presidente e a investigação sobre a assessora nomeada por ele.
contraponto
Brimos
Em visita à Federação do Comérico, na segunda, Fernando Haddad prometeu desburocratizar a aprovação de projetos imobiliários, que entrou em crise desde que Hussain Aref Saab, ex-diretor responsável pela área, adquiriu 106 imóveis no período em que esteve no cargo.
-Estamos há oito meses sem aprovar projetos. Desde a crise com o cidadão lá, que eu nem falo o nome.
Abram Sjazman, presidente da Fecomercio, interveio:
-É patrício, hein?
Haddad e Aref são de origem árabe.
-Nem fala nisso! -, desconversou o prefeito eleito.
Tiro ao Lula - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 13/12
A batalha de 2013
Além de desconstruir a imagem do ex-presidente Lula, a principal tarefa da oposição no ano que vem é “desmontar a tese que a presidente Dilma é uma gerentona”. Ela avalia que a crise econômica pode ajudar a amarrar a execução de obras, projetos e programas. Por sua vez, a grande preocupação no Planalto é fazer o governo deslanchar e entregar algumas obras importantes, entre eles algumas iniciadas no governo Lula, como a Transposição do São Francisco. Seus estrategistas também pretendem criar uma marca para a presidente que, a partir de programas como o Brasil Carinhoso, poderia ser traduzido pelo slogan “a Dilma cuida das pessoas”
“Quando Lula está no meio, a oposição não pode entrar chutando o balde. Temos que ficar um tom abaixo. Ele é mestre em se vitimizar e virar o jogo”
José Agripino Presidente do DEM e senador (RN)
Bola nas costas
As bancadas do Rio e do Espírito Santo estão possessas com a deputada Rose de Freitas (PMDB-ES), que presidiu a sessão que votou a urgência para o veto dos royalties. O senador Magno Malta (PR-ES) berrou: “Fomos vendidos”
Vale Campeão
Os ministros Aldo Rebelo (Esportes), na foto, e Garibaldi Alves (Previdência) anunciam no dia 20 a portaria que regulamenta o pagamento de pensões para os jogadores de futebol que foram campeões pelo Brasil nas Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970. No dia seguinte, os que fizerem o pedido passam a ter direito a receber.
Apostando no Brasil
Por três vezes, o presidente francês François Hollande abordou a questão da venda dos caças na reunião com a presidente Dilma. Em todas elas, abriu com a frase: “Eu sei que a senhora vai decidir isto depois, então vou falar só essa vez...”.
À procura de uma grife
Reunido com os prefeitos de dez grandes cidades brasileiras, na segunda-feira, o candidato do PSDB ao Planalto, senador Aécio Neves (MG), defendeu que o partido criasse uma “marca comum” para seus programas, sobretudo os sociais. O objetivo, segundo Aécio, “é criar vitrines das administrações do PSDB para combater a deficiência da gestão dos petistas”.
Os tucanos não gostaram
Na reunião da comissão mista, que aprovou convite para o ex-presidente FH falar sobre a “Lista de Furnas”, o senador Jayme Campos (DEM-MT) saiu. Mesmo sem maioria para barrar, os tucanos queriam que ele fosse solidário.
E a vida continua...
O governador Marcelo Déda (SE) temia pelo fim do mundo. Ontem, às 13h, respirou aliviado: “E o mundo não acabou. Nem no horário de Deus nem no de verão. A vida continua e o que ela nos pede, como dizia Guimarães Rosa, é coragem”.
COSTURA FEITA. A Comissão Política do PCdoB definiu que a deputada Manuela D’Ávila (RS) será a líder do partido na Câmara no ano que vem.
O furo - EUGÊNIO BUCCI
O ESTADÃO - 13/12
Mensalão pagou despesa pessoal de Lula, diz Valério. Foi como a ventania radiativa de uma bomba atômica que a manchete de terça-feira do Estado varreu as melhores redações do País. A notícia de que Marcos Valério, em depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República em setembro, acusa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ter se beneficiado pessoalmente dos recursos ilícitos arrecadados pelo esquema do mensalão obrigou os principais veículos jornalísticos do Brasil a reconhecer o furo espetacular dos repórteres deste jornal Felipe Recondo, Alana Rizzo e Fausto Macedo. Imediatamente a pauta da imprensa brasileira virou caudatária da manchete do Estadão.
Não sem motivo. Embora não fosse inédita a informação de que Marcos Valério, depois de condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), vinha procurando as autoridades para, com base num regime de delação premiada, conseguir reduzir seu período de cadeia, ainda faltavam as provas de que ele realmente tinha disparado sua metralhadora giratória. Até aqui ninguém tinha visto o documento oficial com suas acusações. Pois foi isso que Felipe Recondo, Alana Rizzo e Fausto Macedo trouxeram a público. A partir de agora não há mais espaço para que um ou outro se esquive do mal-estar, alegando que esse ou aquele órgão de imprensa inventa frases que Valério nunca teria pronunciado. Ele as pronunciou todas - e mais algumas outras. A prova de que falou o que falou, irrefutável, se encontra impressa em folhas de papel timbrado do Ministério Público e acaba de ser revelada pela reportagem do Estadão. Ponto final. Ninguém mais pode dizer que é boato, que é invencionice. É preto no branco: o operador do mensalão acusa o ex-presidente da República de ter levado dinheiro.
Temos, então, uma certeza e uma dúvida. A certeza é de que é verdade que Marcos Valério falou o que falou. Quanto à dúvida, essencial, esta se resume no seguinte: será verdade tudo o que ele falou?
Tanto pela certeza quanto pela dúvida, o quadro político alterou-se completamente. Não que se vá tomar como fato o que afirma um agente criminoso condenado a cumprir pena atrás das grades. Ele não tem credibilidade - ao menos, não a de antemão. Suas afirmações só podem ser recebidas com desconfiança, para dizer o mínimo. "Delação premiada para salvar o próprio couro é coisa de canalha", disse Roberto Jefferson, o delator inaugural do mensalão. Ninguém há de dar crédito fácil e rápido ao arquiteto financeiro-publicitário do maior escândalo do governo Lula. A propósito, a notícia do Estadão de terça-feira não estimula a confiança ingênua e desavisada, apenas demonstra que as acusações do condenado não são produto de inferências especulativas irresponsáveis de jornalistas de oposição, mas são falas reais, que de fato existem. Eis o que altera por inteiro o quadro político.
Nesse ponto, o depoimento de Valério abre uma fissura de morte entre os condenados do mensalão: uns insultam os outros, as versões se contradizem, a coisa ali está muito malparada. Existe algo de mais podre ainda dentro de que já existia de muito podre na Esplanada dos Ministérios.
Daqui por diante a indiferença deixa de ser uma tática segura. Os que preferiam o silêncio não têm mais margem para calar. O próprio Lula esboçou uma primeira reação: "Não posso acreditar em mentira. Não posso responder mentira". A presidente da República, Dilma Rousseff, que observava um distanciamento de estadista em relação aos rancores e rumores emanados do submundo do crime, tachou de "lamentável" o que, segundo ela, constitui uma "tentativa de destituir (o ex-presidente) da imensa carga de respeito que o povo brasileiro lhe tem". Num comentário breve, telegráfico, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, indagado se o ex-presidente deveria ser investigado, limitou-se a uma frase: "Creio que sim". Opositores de plantão começam a considerar chamar mais gente para depor.
Se fosse só isso, já seria muito. Mas há mais. Marcos Valério afirma que recebeu uma ameaça de morte do hoje presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que também revidou: "Eu ameacei ele de morte? Por que vou ameaçar ele de morte? Está nos autos que eu ameacei ele de morte? Duvido! Duvido que ele tenha dito isso". Conforme o próprio Estado informou em sua edição de ontem, em reportagem de Andrei Netto e Fernando Nakagawa, da Agência Estado, Okamotto disse não ter lido a reportagem de terça passada. Afirmou também que "Lula não lê o Estadão". Sobre as denúncias de que o ex-presidente teria participado de uma reunião para autorizar os empréstimos fraudulentos que viabilizaram o mensalão, orientou os repórteres: "Meu nome não é Lula. Se teve esse negócio, eu não estava nessa reunião. Tem que perguntar ao Lula um negócio desses".
Uma observação: na fala de Paulo Okamotto podemos compreender um pouco melhor os efeitos que a manchete de terça-feira provoca na cena política. "Tem que perguntar ao Lula." De fato, é a ele que certas perguntas devem ser dirigidas. Por mais doloroso e indigesto que seja - a presidente Dilma tem razão em apontar o desgaste que essa investida de Marcos Valério impõe ao seu antecessor -, Lula precisará pensar numa estratégia de comunicação menos lacônica.
E há mais ainda. Ontem, outra revelação complicada foi manchete no Estado: BB cobrava 'pedágio' de agências para o PT, afirma Valério. Será verdade? Só um trabalho investigativo nas documentações do próprio Banco do Brasil e em outras frentes poderá responder.
O furo de terça-feira vai trazer mais desdobramentos nos próximos dias. Para a imprensa o trajeto que se abre é delicado: sem dar crédito a quem não merece e sem macular a honra de quem pode estar sendo acusado injustamente, terá de remexer o lixo, que contém material explosivo, e puxar, de lá de dentro, o fio da meada da verdade.
O Brasil é um êxito, não foi? - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 13/12
Está ocorrendo um fenômeno viral para dizer que o país, agora, está longe de ser a bola da vez
Sinal inequívoco da incrível aceleração dos tempos que caracteriza a contemporaneidade: em apenas três anos, o Brasil passou de foguete que disparava rumo ao infinito a economia "moribunda", tudo nas páginas de uma mesma revista, a "Economist".
Convém lembrar que a reportagem da "Economist" foi apenas a mais recente de uma série de análises em que o brilho da estrela Brasil aparece apagado ou se apagando. Quase dá para dizer que o país está sendo vítima de um "meme" (ou "mimi", em português), palavra que significa um fenômeno, sensação, rumor ou esquisitice que é passada adiante rapidamente.
É natural, nessa situação, que no Ministério da Fazenda se culpe a "turma da bufunfa" pela disseminação do "meme". É uma expressão criada por Paulo Nogueira Batista Júnior, representante do Brasil e de oito países latino-americanos no FMI, para designar o pessoal que vive de aplicações financeiras, os rentistas, em português mais castiço e menos fiel à realidade.
O economista Yoshiaki Nakano, que não é ligado ao governo, até deu números para a suspeita, em artigo para o "Valor Econômico": a taxa de juros caiu 5,25 pontos percentuais nos últimos 15 meses, o que significa que os rentistas deixaram de ganhar nessa proporção.
Como sou o inimigo número 1 das teorias conspiratórias, prefiro pensar em outras explicações.
A mais simples: houve exagero duplo da revista. Nem o Brasil era um foguete imparável em 2009 nem sua economia está morrendo agora.
Se fosse um foguete, não teria desacelerado no biênio 2011/12. Se estivesse à morte agora, não continuaria gerando emprego e renda, que, enfim, é o que importa para a maioria da população.
Além disso, uma economia de fato moribunda levaria a popularidade do governante de turno ao rés do chão, o oposto do que está ocorrendo com Dilma Rousseff.
Não quer dizer, como é óbvio, que a economia brasileira seja uma maravilha. Longe disso. Exceto em 2010, o crescimento tem sido "medíocre" nos últimos 20 anos, como lembrou ontem o professor Delfim Netto, em sua coluna para a Folha.
Para Delfim, o baixo crescimento "tem mais a ver com uma redução dos investimentos gerada por uma desconfiança exagerada entre o setor privado e o governo".
Só faltou Delfim explicitar as razões para a desconfiança. Afinal, o setor privado foi tão bem tratado desde pelo menos o governo Lula que o então presidente usava seu folclórico bordão para dizer que "nunca antes o empresariado lucrara tanto" como o fazia com ele.
Tão bem tratado que o presidente da CUT, Vagner Freitas, reclama isonomia, ao dizer que "a classe trabalhadora não recebe do governo o mesmo tratamento dado aos empresários". Freitas lembra que a pauta dos assalariados "ainda não foi levada em consideração pelo governo", mas, do outro lado, 41 setores da economia foram beneficiados com medidas de estímulo desde o início da crise internacional.
Será essa desconfiança, que não se explica pelos fatos, a responsável pela derrubada da estrela Brasil?
Está ocorrendo um fenômeno viral para dizer que o país, agora, está longe de ser a bola da vez
Sinal inequívoco da incrível aceleração dos tempos que caracteriza a contemporaneidade: em apenas três anos, o Brasil passou de foguete que disparava rumo ao infinito a economia "moribunda", tudo nas páginas de uma mesma revista, a "Economist".
Convém lembrar que a reportagem da "Economist" foi apenas a mais recente de uma série de análises em que o brilho da estrela Brasil aparece apagado ou se apagando. Quase dá para dizer que o país está sendo vítima de um "meme" (ou "mimi", em português), palavra que significa um fenômeno, sensação, rumor ou esquisitice que é passada adiante rapidamente.
É natural, nessa situação, que no Ministério da Fazenda se culpe a "turma da bufunfa" pela disseminação do "meme". É uma expressão criada por Paulo Nogueira Batista Júnior, representante do Brasil e de oito países latino-americanos no FMI, para designar o pessoal que vive de aplicações financeiras, os rentistas, em português mais castiço e menos fiel à realidade.
O economista Yoshiaki Nakano, que não é ligado ao governo, até deu números para a suspeita, em artigo para o "Valor Econômico": a taxa de juros caiu 5,25 pontos percentuais nos últimos 15 meses, o que significa que os rentistas deixaram de ganhar nessa proporção.
Como sou o inimigo número 1 das teorias conspiratórias, prefiro pensar em outras explicações.
A mais simples: houve exagero duplo da revista. Nem o Brasil era um foguete imparável em 2009 nem sua economia está morrendo agora.
Se fosse um foguete, não teria desacelerado no biênio 2011/12. Se estivesse à morte agora, não continuaria gerando emprego e renda, que, enfim, é o que importa para a maioria da população.
Além disso, uma economia de fato moribunda levaria a popularidade do governante de turno ao rés do chão, o oposto do que está ocorrendo com Dilma Rousseff.
Não quer dizer, como é óbvio, que a economia brasileira seja uma maravilha. Longe disso. Exceto em 2010, o crescimento tem sido "medíocre" nos últimos 20 anos, como lembrou ontem o professor Delfim Netto, em sua coluna para a Folha.
Para Delfim, o baixo crescimento "tem mais a ver com uma redução dos investimentos gerada por uma desconfiança exagerada entre o setor privado e o governo".
Só faltou Delfim explicitar as razões para a desconfiança. Afinal, o setor privado foi tão bem tratado desde pelo menos o governo Lula que o então presidente usava seu folclórico bordão para dizer que "nunca antes o empresariado lucrara tanto" como o fazia com ele.
Tão bem tratado que o presidente da CUT, Vagner Freitas, reclama isonomia, ao dizer que "a classe trabalhadora não recebe do governo o mesmo tratamento dado aos empresários". Freitas lembra que a pauta dos assalariados "ainda não foi levada em consideração pelo governo", mas, do outro lado, 41 setores da economia foram beneficiados com medidas de estímulo desde o início da crise internacional.
Será essa desconfiança, que não se explica pelos fatos, a responsável pela derrubada da estrela Brasil?
Foco no mensalão - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 13/12
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, já tratou do caso do novo depoimento de Marcos Valério com o atual presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, e com o anterior, Ayres Britto, mas não quer tomar decisão antes do término do julgamento da Ação Penal 470. Ele não pretende perder o foco de um processo “amplamente vitorioso'; e abrir novos questionamentos sobre um caso que está prestes e se encerrar.
A primeira comunicação chegada ao STF foi um fax curto de poucas linhas em que o réu Marcos Valério e seu advogado citavam a delação premiada, e ele se dispunha a dar novo depoimento sobre o mensalão. O fax foi enviado por Ayres Britto para o relator Joaquim Barbosa “apartado dos autos'? e por ele encaminhado ao Ministério Público.
O depoimento tomado por procuradores só será avaliado oficialmente pelo procurador-geral da República após o fim dos trabalhos do processo em curso, e ele pretende tomar uma decisão que não seja “nem irresponsável” para não auxiliar uma eventual jogada de Marcos Valério, nem “leniente ou omisso'! Ele sabe que se decidir arquivar as novas denúncias, terá que fazê-lo com bases técnicas irrefutáveis, para não dar a impressão à opinião pública de que está protegendo o ex-presidente Lula.
Se se decidir a investigar novas linhas de acusações, o procurador pode abrir novo inquérito, ou pode juntar o depoimento a inquéritos já em andamento, como o que investiga possíveis vantagens fornecidas ao banco BMG no crédito consignado. Tudo, inclusive os benefícios da delação premiada em futuros processos, dependerá das provas que o lobista fornecer ao Ministério Público Federal. A impressão geral é de que um novo inquérito é inescapável.
A gripe do ministro Celso de Mello, que adiou para hoje — caso ele tenha se recuperado até a hora da sessão do STF — a decisão sobre a perda dos mandatos dos parlamentares condenados no processo do mensalão, gerou uma série de especulações ontem, já que o voto do decano será decisivo, pois a votação está empatada em 4 a 4.
Primeiro, especulou-se que tanto a gripe do decano quanto a do presidente Joaquim Barbosa, que suspendeu repentinamente a votação na segunda-feira quando Celso de Mello estava pronto para dar seu voto, haviam sido subterfúgios do STF para ganhar tempo e negociar nos bastidores uma saída para a crise com a Câmara, cujo presidente, deputado petista Marco Maia, insiste em que poderá desobedecer ao Supremo caso a decisão final sobre os mandatos não fique com o Legislativo.
É possível mesmo que esses dois dias tenham dado tempo para conversas reservadas em busca de uma solução para o impasse.
Outras especulações indicavam que o ministro Celso de Mello estaria tendendo a recuar na sua disposição de votar a favor da perda dos direitos políticos, diante do que seria uma incoerência de sua parte devido a outro voto dado em 1995.
Mas tudo indica que não haverá mudança com relação ao voto do ministro Celso de Mello, que já deu indicações suficientes de que apoiará a decisão de cassar direitos políticos dos parlamentares condenados no mensalão. O caso do vereador tratado pelo STF, em 1995, porque fora condenado, com trânsito em julgado, por crime eleitoral, em que o hoje decano do STF votou a favor de que somente o Legislativo poderia cassar o mandato, não é semelhante ao que julgado hoje, alegam os ministros que já votaram a favor da perda dos direitos políticos.
Ali, tratava-se de crime eleitoral contra a honra, e agora o Supremo está cuidando de crimes graves contra a administração pública, como peculato e corrupção passiva. E a questão também está colocada de outra maneira. A decisão do Supremo não será a de cassar o mandato dos parlamentares, mas cassar os seus direitos políticos, o que impedirá como consequência que exerçam o mandato. Como disse Celso de Mello, "a condenação gera um efeito genérico: a privação dos direitos políticos que se aplica a qualquer réu, independentemente do quadro que represente e sem a posse plena da cidadania, sem a posse plena dos direitos políticos, ninguém pode permanecer na investidura de um cargo público’!
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, já tratou do caso do novo depoimento de Marcos Valério com o atual presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, e com o anterior, Ayres Britto, mas não quer tomar decisão antes do término do julgamento da Ação Penal 470. Ele não pretende perder o foco de um processo “amplamente vitorioso'; e abrir novos questionamentos sobre um caso que está prestes e se encerrar.
A primeira comunicação chegada ao STF foi um fax curto de poucas linhas em que o réu Marcos Valério e seu advogado citavam a delação premiada, e ele se dispunha a dar novo depoimento sobre o mensalão. O fax foi enviado por Ayres Britto para o relator Joaquim Barbosa “apartado dos autos'? e por ele encaminhado ao Ministério Público.
O depoimento tomado por procuradores só será avaliado oficialmente pelo procurador-geral da República após o fim dos trabalhos do processo em curso, e ele pretende tomar uma decisão que não seja “nem irresponsável” para não auxiliar uma eventual jogada de Marcos Valério, nem “leniente ou omisso'! Ele sabe que se decidir arquivar as novas denúncias, terá que fazê-lo com bases técnicas irrefutáveis, para não dar a impressão à opinião pública de que está protegendo o ex-presidente Lula.
Se se decidir a investigar novas linhas de acusações, o procurador pode abrir novo inquérito, ou pode juntar o depoimento a inquéritos já em andamento, como o que investiga possíveis vantagens fornecidas ao banco BMG no crédito consignado. Tudo, inclusive os benefícios da delação premiada em futuros processos, dependerá das provas que o lobista fornecer ao Ministério Público Federal. A impressão geral é de que um novo inquérito é inescapável.
A gripe do ministro Celso de Mello, que adiou para hoje — caso ele tenha se recuperado até a hora da sessão do STF — a decisão sobre a perda dos mandatos dos parlamentares condenados no processo do mensalão, gerou uma série de especulações ontem, já que o voto do decano será decisivo, pois a votação está empatada em 4 a 4.
Primeiro, especulou-se que tanto a gripe do decano quanto a do presidente Joaquim Barbosa, que suspendeu repentinamente a votação na segunda-feira quando Celso de Mello estava pronto para dar seu voto, haviam sido subterfúgios do STF para ganhar tempo e negociar nos bastidores uma saída para a crise com a Câmara, cujo presidente, deputado petista Marco Maia, insiste em que poderá desobedecer ao Supremo caso a decisão final sobre os mandatos não fique com o Legislativo.
É possível mesmo que esses dois dias tenham dado tempo para conversas reservadas em busca de uma solução para o impasse.
Outras especulações indicavam que o ministro Celso de Mello estaria tendendo a recuar na sua disposição de votar a favor da perda dos direitos políticos, diante do que seria uma incoerência de sua parte devido a outro voto dado em 1995.
Mas tudo indica que não haverá mudança com relação ao voto do ministro Celso de Mello, que já deu indicações suficientes de que apoiará a decisão de cassar direitos políticos dos parlamentares condenados no mensalão. O caso do vereador tratado pelo STF, em 1995, porque fora condenado, com trânsito em julgado, por crime eleitoral, em que o hoje decano do STF votou a favor de que somente o Legislativo poderia cassar o mandato, não é semelhante ao que julgado hoje, alegam os ministros que já votaram a favor da perda dos direitos políticos.
Ali, tratava-se de crime eleitoral contra a honra, e agora o Supremo está cuidando de crimes graves contra a administração pública, como peculato e corrupção passiva. E a questão também está colocada de outra maneira. A decisão do Supremo não será a de cassar o mandato dos parlamentares, mas cassar os seus direitos políticos, o que impedirá como consequência que exerçam o mandato. Como disse Celso de Mello, "a condenação gera um efeito genérico: a privação dos direitos políticos que se aplica a qualquer réu, independentemente do quadro que represente e sem a posse plena da cidadania, sem a posse plena dos direitos políticos, ninguém pode permanecer na investidura de um cargo público’!
Redoma de aço - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 13/12
Das sandices decorrentes da arrogância aliada ao culto à personalidade, essa de considerar que o cidadão Luiz Inácio da Silva não deve satisfação a ninguém é, como diriam os mais antigos, de cabo de esquadra.
Julga-se "falta de respeito" pedir que o ex-presidente esclareça alguns fatos. Não corriqueiros, casos envolvendo suspeitas de ilícitos cometidos por gente muito próxima a ele.
De Rosemary a Freud, passando pelo "capitão do time" vencedor em 2002 e agora condenado à prisão, o entorno de Lula acumula um passivo cuja conta mais cedo ou mais tarde será cobrada. Quanto mais o tempo passa somam-se a ela juros e correção monetária.
Ligar o nome dele ao mensalão, diz o ministro Gilberto Carvalho, é uma "indignidade". Lula, segundo ele, está "muito indignado" com o que disse Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República sobre o aval que teria dado à arrecadação ilícita de dinheiro para distribuição a partidos e políticos.
Eloquente no ataque, na defesa Lula se esconde atrás de porta-vozes. Por que ele mesmo não fala? Tanto resguardo faz supor que necessite mesmo de proteção. Quem o faz inimputável, autoriza a suposição de seja também indefensável.
A presidente Dilma Rousseff agora resolveu se associar à tese de que cobrança de explicações significa "desrespeito" e "tentativa de desgastar a imagem" de alguém que tanto fez pelo Brasil.
Nada desgasta mais a imagem de Lula que a recusa de se dirigir com clareza ao Brasil que depositou nele tanta confiança.
Sem contar que atinge a própria presidente. Dilma vinha conseguindo ficar na posição de magistrada, sem se envolver diretamente na temática dos escândalos.
Limitava-se a demitir os envolvidos e a colher os aplausos pela "faxina". Quando em Paris desqualificou as denúncias por antecipação, a presidente saiu da tribuna de honra e foi se juntar ao restante do time no meio do campo. Resultado: volta de viagem de braço dado com o problema.
Um passo arriscado. O caso Rosemary não terminou, renderá processo e mais tarde julgamento. Nesse meio tempo muita coisa pode acontecer.
Marcos Valério, por menos crédito que mereça, falou em depoimento ao Ministério Público. Isso gera automaticamente algum procedimento: investigação ou arquivamento. Na primeira hipótese, ficará demonstrado se mentiu ou disse a verdade.
E se houver fundamento, como fica a posição da presidente que assumiu um lado antes de conferida a veracidade do relato?
Desacreditada na pretendida condição de fiadora da imparcialidade e rigorosa sacerdotisa da ética. Isso na versão mais otimista. Na mais realista, terá dito ao País que a Lula não se aplica o artigo 5.º da Constituição - "todos os homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações".
Não se trata de dizer que o ex-presidente não possa contar com os aliados nas horas difíceis. Para isso são aliados. Apenas soa esquisito o excesso, a redoma de aço que se levanta a cada vez que nas proximidades dele surge um ato ou um personagem suspeito.
O amparo extremo não o protege. Antes o fragiliza, pois é como se, questionado, fosse necessariamente desmontar.
Lula é forte para suplantar obstáculos e ganhar eleições a despeito da pior adversidade. Levanta postes, remove montanhas. Deveria ser forte também para dirimir as dúvidas quanto à própria conduta.
De grão em grão. Primeiro o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, confronta o PT em eleições municipais. Depois, rivaliza com o tucano Aécio Neves nas críticas de gestão ao governo federal.
Agora, finge que não vê um deputado do partido que preside alimentar a cizânia na base governista na disputa pela presidência da Câmara e, ao mesmo tempo, o PSB rompe com o governo petista do Distrito Federal rumo a voo solo em 2014.
A isso se dá o nome de passo a passo.
A contusão do reserva de luxo - VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 13/12
BRASÍLIA - Até pouco tempo, petistas gabavam-se de desfrutar de posição privilegiada para a eleição presidencial de 2014. Alegavam ter dois fortes candidatos: um, Dilma, está em campo; o outro, Lula, reserva de luxo para ser acionado na hipótese de sua sucessora chegar ao final do mandato contundida.
As últimas notícias político-policiais, contudo, indicam que o chamado "Plano B" petista corre o risco de se tornar inviável. Lula pode ser obrigado a desistir de entrar em campo diante da fase negativa.
Primeiro estourou o Rosegate, o indiciamento pela PF de Rosemary Noronha, ex-assessora de sua confiança e relação pessoal, suspeita de integrar esquema de venda de pareceres fraudulentos.
Depois, a revelação do depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público. Nele, o operador do mensalão diz ter pago gastos pessoais de Lula, que teria dado OK aos empréstimos ilegais que abasteceram o caixa dois do PT e de aliados.
Até agora, Lula está acuado e na defensiva como há muito não se via. Sobre o Rosegate, ficou recluso e não deu explicação pública. Sobre Marcos Valério, limitou-se a classificar suas declarações de mentirosas.
Por justiça, é bom destacar que o operador do mensalão tem baixa credibilidade. Abriu a boca só agora, depois de condenado a mais de 40 anos de prisão. O que não significa que os fatos levantados por ele não devam ser investigados.
Se forem, e se mostrarem verídicos mesmo que em parte, o "Plano B" faz água e o PT terá de torcer para que Dilma chegue em 2014 forte na economia. Se for provado que tudo não passava de chantagem, Lula volta à condição de reserva de luxo.
Revelador é descobrir que petistas, no governo Dilma, já falam num "Plano C". Abrir mão da cabeça de chapa em 2018 em favor do líder do PSB, Eduardo Campos, tendo em troca seu apoio à reeleição de Dilma Rousseff. Nada mais sintomático da fragilidade atual de Lula.
BRASÍLIA - Até pouco tempo, petistas gabavam-se de desfrutar de posição privilegiada para a eleição presidencial de 2014. Alegavam ter dois fortes candidatos: um, Dilma, está em campo; o outro, Lula, reserva de luxo para ser acionado na hipótese de sua sucessora chegar ao final do mandato contundida.
As últimas notícias político-policiais, contudo, indicam que o chamado "Plano B" petista corre o risco de se tornar inviável. Lula pode ser obrigado a desistir de entrar em campo diante da fase negativa.
Primeiro estourou o Rosegate, o indiciamento pela PF de Rosemary Noronha, ex-assessora de sua confiança e relação pessoal, suspeita de integrar esquema de venda de pareceres fraudulentos.
Depois, a revelação do depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público. Nele, o operador do mensalão diz ter pago gastos pessoais de Lula, que teria dado OK aos empréstimos ilegais que abasteceram o caixa dois do PT e de aliados.
Até agora, Lula está acuado e na defensiva como há muito não se via. Sobre o Rosegate, ficou recluso e não deu explicação pública. Sobre Marcos Valério, limitou-se a classificar suas declarações de mentirosas.
Por justiça, é bom destacar que o operador do mensalão tem baixa credibilidade. Abriu a boca só agora, depois de condenado a mais de 40 anos de prisão. O que não significa que os fatos levantados por ele não devam ser investigados.
Se forem, e se mostrarem verídicos mesmo que em parte, o "Plano B" faz água e o PT terá de torcer para que Dilma chegue em 2014 forte na economia. Se for provado que tudo não passava de chantagem, Lula volta à condição de reserva de luxo.
Revelador é descobrir que petistas, no governo Dilma, já falam num "Plano C". Abrir mão da cabeça de chapa em 2018 em favor do líder do PSB, Eduardo Campos, tendo em troca seu apoio à reeleição de Dilma Rousseff. Nada mais sintomático da fragilidade atual de Lula.
A apuração se impõe - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 13/12
Embora nada contenham de realmente novo, são graves demais para não serem rigorosamente investigadas as denúncias do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza sobre o envolvimento pessoal do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o mensalão. Como revelou anteontem este jornal, em 24 de setembro passado o operador do esquema, condenado na antevéspera pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas antes de ser apenado a 40 anos de prisão, procurou a Procuradoria-Geral da República para acusar Lula de praticamente tudo de que ele já foi acusado desde que o ex-guerrilheiro e fundador do PT Paulo de Tarso Venceslau foi expulso do partido por ter revelado, de público, o método petista de governar visando, a qualquer preço, à maior permanência possível no poder e à ampliação máxima da esfera do governo. De novo, realmente, apenas as despesas pessoais de Lula bancadas por dinheiro sujo do PT.
Além disso, no depoimento que se estende por 13 páginas, Valério fez ainda diversas outras afirmações, entre elas a de que Paulo Okamotto, amigo próximo de Lula e atual diretor do instituto que leva o seu nome, o teria ameaçado de morte se não se "comportasse". Em Paris, onde foi colhido pela notícia, Lula se limitou a dizer que é tudo "mentira". Para a presidente Dilma Rousseff, trata-se de uma "lamentável" tentativa de destituir o antecessor da "imensa carga de respeito" do povo brasileiro por ele. O presidente petista, Rui Falcão, declarou que "a mídia e o Ministério Público não deveriam dar crédito a alguém que, condenado, tenta reduzir suas penas caluniando o PT". Aqui e ali, talvez para fomentar uma conveniente confusão, se disse que o Estado "denunciou" Lula. O que o jornal fez foi apenas noticiar com apropriado destaque as denúncias de Valério.
A desqualificação do denunciante, por sua vez, visa claramente a impedir que as suas imputações sejam apuradas. O que conta, como também é óbvio, não são os motivos que o levaram a falar aos procuradores, mas o que possa haver de verdadeiro nas suas palavras. A título algum, portanto, podem ser descartadas de antemão, por ser o que é quem as proferiu. Assim se manifestaram o presidente do STF, Joaquim Barbosa (que teve acesso "oficiosamente" ao texto), e dois de seus pares, os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, ao defender que Lula seja investigado. A decisão cabe ao procurador-geral Roberto Gurgel. Ele vai esperar o término do julgamento do mensalão, na próxima semana, para resolver se tomará a si a incumbência ou se a encaminhará a uma instância inferior do organismo, dado que Lula, ex-presidente, não goza de foro privilegiado. Estará decepcionando quem passou a admirá-lo pela atuação que teve no caso do mensalão, se decidir pelo arquivamento das denúncias. Pressões nesse sentido não faltarão.
No julgamento do mensalão, Dilma instruiu a sua equipe a não se manifestar - o assunto, argumentou, não envolvia o seu governo. Desta vez, porém, fez saber que o Planalto se engajará na blindagem de Lula, desacreditando aquele que, pela primeira vez - e com presumível conhecimento de causa - apontou o dedo para o antecessor. A base aliada não perdeu tempo em fazer a sua parte, a começar do titular do Senado, José Sarney. Quando esteve no pelourinho por irregularidades na Casa, anos atrás, Lula disse que ele não poderia ser tratado como "uma pessoa comum". Sarney acaba de retribuir a barretada, alçando Lula à condição de "patrimônio do País". Bons democratas que são, cada qual, portanto, considera o outro invulnerável por definição. A rigor, foi o que o ex-presidente vinha conseguindo, ao se manter no vestíbulo dos escândalos que inundavam a copa e a cozinha de seu governo e as dependências em geral de seu partido.
A mágica, ao que tudo indica, parou de funcionar. Algo realmente novo e mais grave do que tudo que se sabia ate agora surgiu há cerca de três semanas, quando a Polícia Federal expôs os malfeitos da namorada de Lula, Rosemary Noronha, na chefia do escritório da Presidência da República em São Paulo, em que ele a colocou. Agora vem Marcos Valério pôr em xeque mais uma vez o alegado alheamento de Lula das enormidades que os seus principais companheiros cometiam em benefício do governo petista. Essa história está apenas começando.
Quem era o chefe? - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 13/12
SÃO PAULO - O PT começou a entregar seus anéis a fim de preservar Lula. Após passar anos dizendo que o caso do mensalão era uma farsa, um simples episódio de recursos de campanha não contabilizados, um ato de golpismo, o partido finalmente admitiu que houve um crime.
Ao saber que Marcos Valério abriu o bico e acusou Lula de ser o verdadeiro chefe da quadrilha, o partido passou a dizer, de forma orquestrada, que o publicitário é um criminoso, e que, por isso, suas declarações não deveriam ser levadas em conta.
"Não vou falar sobre um delinquente", afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Dilma. Líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto usou o mesmo termo e acrescentou que Valério deveria, na verdade, estar preocupado com as condições das prisões. Marco Maia, presidente da Câmara, foi além, dizendo que o caso "não merece ser investigado", uma vez que "dar ouvido a esse cidadão é dar ouvido a um criminoso".
Pois é, não há criminoso sem crime. Valério participou de um esquema que desviou dinheiro público para comprar apoio político no Congresso. Assim como Delúbio, Genoino e Dirceu. Todos eles são delinquentes, conclusão que, pelo jeito, por paralelismo, os próprios petistas alcançaram. Afinal, Valério não poderia nem teria motivos para praticar esses crimes sozinho, certo?
A questão então, agora, é outra. Lula era o chefe da quadrilha? Sabia do mensalão? Realmente, é estranho que Valério tenha resolvido falar somente após ter sido condenado à cadeia. Estamos diante de uma mentira inventada por alguém que busca minimizar sua pena? Pode ser que sim, pode ser que não.
Diante da importância do acusado, um dos presidentes mais importantes da história, é necessário que se faça o quanto antes uma apuração rigorosa. O país não pode ficar na dúvida. O próprio benefício da delação premiada deve ser oferecido. Mas, para isso, o operador do mensalão tem de provar o que diz.
SÃO PAULO - O PT começou a entregar seus anéis a fim de preservar Lula. Após passar anos dizendo que o caso do mensalão era uma farsa, um simples episódio de recursos de campanha não contabilizados, um ato de golpismo, o partido finalmente admitiu que houve um crime.
Ao saber que Marcos Valério abriu o bico e acusou Lula de ser o verdadeiro chefe da quadrilha, o partido passou a dizer, de forma orquestrada, que o publicitário é um criminoso, e que, por isso, suas declarações não deveriam ser levadas em conta.
"Não vou falar sobre um delinquente", afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Dilma. Líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto usou o mesmo termo e acrescentou que Valério deveria, na verdade, estar preocupado com as condições das prisões. Marco Maia, presidente da Câmara, foi além, dizendo que o caso "não merece ser investigado", uma vez que "dar ouvido a esse cidadão é dar ouvido a um criminoso".
Pois é, não há criminoso sem crime. Valério participou de um esquema que desviou dinheiro público para comprar apoio político no Congresso. Assim como Delúbio, Genoino e Dirceu. Todos eles são delinquentes, conclusão que, pelo jeito, por paralelismo, os próprios petistas alcançaram. Afinal, Valério não poderia nem teria motivos para praticar esses crimes sozinho, certo?
A questão então, agora, é outra. Lula era o chefe da quadrilha? Sabia do mensalão? Realmente, é estranho que Valério tenha resolvido falar somente após ter sido condenado à cadeia. Estamos diante de uma mentira inventada por alguém que busca minimizar sua pena? Pode ser que sim, pode ser que não.
Diante da importância do acusado, um dos presidentes mais importantes da história, é necessário que se faça o quanto antes uma apuração rigorosa. O país não pode ficar na dúvida. O próprio benefício da delação premiada deve ser oferecido. Mas, para isso, o operador do mensalão tem de provar o que diz.
Rejeição ao corporativismo - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 13/12
Ao mesmo tempo em que defende suas prerrogativas, a Câmara precisa dar mostras da disposição de reduzir as margens para impunidade no caso de deputados flagrados por corrupção, desfazendo a ideia de que políticos eleitos são intocáveis.
Mesmo entre quem reconhece o direito constitucional da Câmara Federal de decidir sobre a cassação dos deputados condenados no processo do mensalão, amplia-se o temor de que o histórico posicionamento corporativista dos parlamentares acabe prevalecendo mais uma vez, reforçando a impunidade. Por isso, independentemente do desfecho do impasse _ a polêmica votação foi adiada ontem pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devido a problemas de saúde do ministro Celso de Mello _, percebe-se uma rejeição popular significativa ao compadrio político e partidário da maioria dos parlamentares. A consequência natural é que a sociedade, embora reconhecendo a prerrogativa dos deputados, não acredita na capacidade de punição a colegas, mesmo nos casos de confronto comprovado com a ética.
Qualquer retrospecto sobre a atuação da Câmara, remoto ou mais recente, é suficiente para comprovar que o Legislativo tem como rotina arquivar muito e punir pouco. De 111 processos instaurados nos últimos oito anos pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, apenas quatro culminaram com a perda do mandato. Entre 1949 e 2011, 179 deputados federais foram cassados _ 150, portanto a maior parte, durante o regime militar. Desde 2005, quando o escândalo do mensalão se tornou público, 11 parlamentares perderam o mandato, sete dos quais por decisões judiciais. Mas foi em 2011que ocorreram alguns dos casos mais deploráveis de impunidade na política. Num deles, a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), mesmo flagrada embolsando dinheiro vivo no caso do mensalão do DEM, foi simplesmente absolvida. A desculpa foi de que a parlamentar não poderia ser punida por um ato cometido antes de assumir o mandato.
A alegação, na época, foi usada como medida preventiva, para evitar que outros parlamentares acabassem prejudicados por fatos de sua vida pregressa. Na prática, o episódio serviu para reforçar a impressão, predominante entre os eleitores, de que muitos políticos se valem do voto popular para acobertar malfeitos com um mandato eletivo. E, apesar da indignação popular causada pela absolvição, os parlamentares não acenaram com qualquer perspectiva de menos condescendência para colegas às voltas com quebra de decoro. Menos de um mês depois da absolvição da parlamentar do Distrito Federal, o Conselho de Ética da Câmara simplesmente arquivou pedido de abertura de processo disciplinar contra o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), sem ao menos abrir investigação, num ato que até hoje gera inconformismo.
Ao mesmo tempo em que defende suas prerrogativas, a Câmara precisa dar mostras da disposição de reduzir as margens para impunidade no caso de deputados flagrados por corrupção, desfazendo a ideia de que políticos eleitos são intocáveis. A sociedade não pode consentir com o corporativismo, que acaba sendo acobertado pela insistência dos parlamentares em defender o voto secreto em plenário, impedindo qualquer transparência de suas decisões perante os eleitores.
Ao mesmo tempo em que defende suas prerrogativas, a Câmara precisa dar mostras da disposição de reduzir as margens para impunidade no caso de deputados flagrados por corrupção, desfazendo a ideia de que políticos eleitos são intocáveis.
Mesmo entre quem reconhece o direito constitucional da Câmara Federal de decidir sobre a cassação dos deputados condenados no processo do mensalão, amplia-se o temor de que o histórico posicionamento corporativista dos parlamentares acabe prevalecendo mais uma vez, reforçando a impunidade. Por isso, independentemente do desfecho do impasse _ a polêmica votação foi adiada ontem pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devido a problemas de saúde do ministro Celso de Mello _, percebe-se uma rejeição popular significativa ao compadrio político e partidário da maioria dos parlamentares. A consequência natural é que a sociedade, embora reconhecendo a prerrogativa dos deputados, não acredita na capacidade de punição a colegas, mesmo nos casos de confronto comprovado com a ética.
Qualquer retrospecto sobre a atuação da Câmara, remoto ou mais recente, é suficiente para comprovar que o Legislativo tem como rotina arquivar muito e punir pouco. De 111 processos instaurados nos últimos oito anos pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, apenas quatro culminaram com a perda do mandato. Entre 1949 e 2011, 179 deputados federais foram cassados _ 150, portanto a maior parte, durante o regime militar. Desde 2005, quando o escândalo do mensalão se tornou público, 11 parlamentares perderam o mandato, sete dos quais por decisões judiciais. Mas foi em 2011que ocorreram alguns dos casos mais deploráveis de impunidade na política. Num deles, a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), mesmo flagrada embolsando dinheiro vivo no caso do mensalão do DEM, foi simplesmente absolvida. A desculpa foi de que a parlamentar não poderia ser punida por um ato cometido antes de assumir o mandato.
A alegação, na época, foi usada como medida preventiva, para evitar que outros parlamentares acabassem prejudicados por fatos de sua vida pregressa. Na prática, o episódio serviu para reforçar a impressão, predominante entre os eleitores, de que muitos políticos se valem do voto popular para acobertar malfeitos com um mandato eletivo. E, apesar da indignação popular causada pela absolvição, os parlamentares não acenaram com qualquer perspectiva de menos condescendência para colegas às voltas com quebra de decoro. Menos de um mês depois da absolvição da parlamentar do Distrito Federal, o Conselho de Ética da Câmara simplesmente arquivou pedido de abertura de processo disciplinar contra o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), sem ao menos abrir investigação, num ato que até hoje gera inconformismo.
Ao mesmo tempo em que defende suas prerrogativas, a Câmara precisa dar mostras da disposição de reduzir as margens para impunidade no caso de deputados flagrados por corrupção, desfazendo a ideia de que políticos eleitos são intocáveis. A sociedade não pode consentir com o corporativismo, que acaba sendo acobertado pela insistência dos parlamentares em defender o voto secreto em plenário, impedindo qualquer transparência de suas decisões perante os eleitores.
Remédio amargo - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 13/12
Ações na Justiça para obrigar governo a custear tratamentos exorbitantes tiram verbas do atendimento a quem depende só do SUS
Não para de crescer a conta do que se convencionou chamar de judicialização da saúde, a iniciativa de pacientes de acionar o poder público para obter tratamentos que não fazem parte do rol do SUS.
De janeiro a outubro deste ano, o governo federal gastou R$ 339,7 milhões em remédios, equipamentos e insumos para cumprir essas decisões judiciais. Esse valor daria para construir pelo menos dois hospitais de 80 leitos cada um e equivale a 7,5% de tudo que a cidade de São Paulo aplicou em saúde no ano de 2011 (R$ 4,5 bilhões).
Isso representa 28% mais do que o total despendido com as ações na Justiça em todo o ano de 2011. E essa é só a parte da União.
O montante aumentaria significativamente se fossem computados também os valores desembolsados por Estados e municípios. A situação é tão caótica que o valor total não é sequer conhecido.
Não se discute o direito de cidadãos recorrerem à Justiça sempre que acharem necessário. O problema é que o acúmulo de liminares -70% das decisões são desfavoráveis ao governo- acaba retirando do administrador público a capacidade de definir prioridades e decidir a melhor alocação para um volume limitado de recursos.
O pecado original, aqui, nasce com o artigo 196 da Constituição, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado. Em vez de interpretar a passagem -justificativa de todas as ações- como mero princípio programático, magistrados lhe têm dado força de norma a cumprir, custe o que custar.
É uma visão míope. Orçamentos públicos são finitos, sabem todos, mas as possibilidades de gastar mais com a saúde não conhecem limites: sempre é possível importar uma droga experimental, ou testar uma nova terapia, a preços muitas vezes exorbitantes.
Vale observar que há uma importante assimetria na repartição de tais recursos. Com a judicialização da saúde, tendem a ser beneficiados pacientes que tipicamente necessitam de drogas caras e têm acesso a informação qualificada e a advogados particulares. Perdem, em contrapartida, os doentes pobres que dependem unicamente do SUS.
Por outro lado, não é aconselhável pender para o extremo oposto e confiar exclusivamente às autoridades sanitárias a tarefa de decidir quais tratamentos serão cobertos e quais ficarão de fora. Burocracias são, por natureza, lentas e preferem resolver seus problemas de caixa evitando novos custos.
É preciso criar formas rápidas, de preferência na esfera administrativa, e não na judicial, com controle externo da classe médica, para garantir que novas terapias sejam incorporadas ao SUS tão logo se revelem eficazes e economicamente razoáveis. Embora certa leitura da Constituição insinue o contrário, não existe tratamento grátis.
Ações na Justiça para obrigar governo a custear tratamentos exorbitantes tiram verbas do atendimento a quem depende só do SUS
Não para de crescer a conta do que se convencionou chamar de judicialização da saúde, a iniciativa de pacientes de acionar o poder público para obter tratamentos que não fazem parte do rol do SUS.
De janeiro a outubro deste ano, o governo federal gastou R$ 339,7 milhões em remédios, equipamentos e insumos para cumprir essas decisões judiciais. Esse valor daria para construir pelo menos dois hospitais de 80 leitos cada um e equivale a 7,5% de tudo que a cidade de São Paulo aplicou em saúde no ano de 2011 (R$ 4,5 bilhões).
Isso representa 28% mais do que o total despendido com as ações na Justiça em todo o ano de 2011. E essa é só a parte da União.
O montante aumentaria significativamente se fossem computados também os valores desembolsados por Estados e municípios. A situação é tão caótica que o valor total não é sequer conhecido.
Não se discute o direito de cidadãos recorrerem à Justiça sempre que acharem necessário. O problema é que o acúmulo de liminares -70% das decisões são desfavoráveis ao governo- acaba retirando do administrador público a capacidade de definir prioridades e decidir a melhor alocação para um volume limitado de recursos.
O pecado original, aqui, nasce com o artigo 196 da Constituição, que define a saúde como direito de todos e dever do Estado. Em vez de interpretar a passagem -justificativa de todas as ações- como mero princípio programático, magistrados lhe têm dado força de norma a cumprir, custe o que custar.
É uma visão míope. Orçamentos públicos são finitos, sabem todos, mas as possibilidades de gastar mais com a saúde não conhecem limites: sempre é possível importar uma droga experimental, ou testar uma nova terapia, a preços muitas vezes exorbitantes.
Vale observar que há uma importante assimetria na repartição de tais recursos. Com a judicialização da saúde, tendem a ser beneficiados pacientes que tipicamente necessitam de drogas caras e têm acesso a informação qualificada e a advogados particulares. Perdem, em contrapartida, os doentes pobres que dependem unicamente do SUS.
Por outro lado, não é aconselhável pender para o extremo oposto e confiar exclusivamente às autoridades sanitárias a tarefa de decidir quais tratamentos serão cobertos e quais ficarão de fora. Burocracias são, por natureza, lentas e preferem resolver seus problemas de caixa evitando novos custos.
É preciso criar formas rápidas, de preferência na esfera administrativa, e não na judicial, com controle externo da classe médica, para garantir que novas terapias sejam incorporadas ao SUS tão logo se revelem eficazes e economicamente razoáveis. Embora certa leitura da Constituição insinue o contrário, não existe tratamento grátis.
Mercosul rumo ao engessamento - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 13/12
Depois da Venezuela, bloco pode abrir as portas a Bolívia e Equador, ou seja, absorver parte da Alba, palco de Chávez. Será impossível fechar amplos acordos de comércio
O noticiário argentino sobre a contagem regressiva para o governo de Cristina Kirchner fechar definitivamente o cerco em torno do Grupo Clarín terminou, em certa medida, deixando em segundo plano, no noticiário sobre a América Latina, o encontro de cúpula do Mercosul em Brasília, semana passada, com a presença da presidente argentina. Também a ausência do caudilho venezuelano Hugo Chávez, prestes a se submeter em Cuba à quarta operação contra um câncer, reduziu o interesse em torno da reunião — a presença de Chávez é sempre garantia de algo bizarro.
E como a própria agenda da cúpula não ajudou, a reunião foi uma das menos interessantes dos últimos tempos. Mas não de todo, porque se voltou a tratar da entrada de Bolívia e Equador como sócios plenos do bloco. Assim, o Mercosul, depois de permitir o ingresso da Venezuela de Chávez, numa manobra oportunista de Brasil e Argentina, prepara-se para absorver outra parte da Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas, palco armado pelo próprio Chávez para nele desfilar com seu proselitismo contra o “imperialismo”. Neste ritmo, o próximo passo para o Mercosul será absorver Cuba, Nicarágua, assim por diante.
Se o objetivo for apenas político, de formar uma anacrônica trincheira contra os “ricos”, tudo certo. Mas se visar ao desenvolvimento pela rota segura do comércio exterior, nada feito. O Mercosul caminha para o engessamento nas negociações multilaterais e para a insignificância.
Submeter o Mercosul à Alba — impensável tempos atrás — é uma decorrência até lógica da manobra golpista de Brasil e Argentina de aproveitar o afastamento de Lugo da presidência do Paraguai pelo Congresso, tachar o fato (polêmico), sem maiores discussões, de um atentado contra a democracia, e afastar o país do bloco, contrabandear Chávez para dentro do Mercosul e torná-lo fato consumado.
Como o Congresso paraguaio se recusava a votar o salvo-conduto para a Venezuela ser convertida em membro titular do Mercosul, a punição ao país resolveu o problema. O Paraguai, porém, deverá retornar ao bloco depois das eleições de abril. Contratou-se uma provável crise para o primeiro semestre.
Enquanto isso, acordos bilaterais continuam a ser feitos no mundo e se forma outra união comercial no continente (Chile, Colômbia e México, a Aliança do Pacífico), com mais flexibilidade do que este Mercosul bolivariano.
Se é difícil imaginar algum acordo com países importantes do ponto de vista comercial com Chávez à mesa — ou um fiel seguidor de sua corrente ideológica —, o que dizer de Evo Morales e Rafael Correa, da Bolívia e Equador?
No final de janeiro, missão da União Europeia terá reunião de cúpula no Brasil e depois se encontrará com a bancada do Mercosul. Será um teste para o bloco já sob influência chavista. Vide os rumos do governo de Cristina K. Não se pode ser otimista.
Depois da Venezuela, bloco pode abrir as portas a Bolívia e Equador, ou seja, absorver parte da Alba, palco de Chávez. Será impossível fechar amplos acordos de comércio
O noticiário argentino sobre a contagem regressiva para o governo de Cristina Kirchner fechar definitivamente o cerco em torno do Grupo Clarín terminou, em certa medida, deixando em segundo plano, no noticiário sobre a América Latina, o encontro de cúpula do Mercosul em Brasília, semana passada, com a presença da presidente argentina. Também a ausência do caudilho venezuelano Hugo Chávez, prestes a se submeter em Cuba à quarta operação contra um câncer, reduziu o interesse em torno da reunião — a presença de Chávez é sempre garantia de algo bizarro.
E como a própria agenda da cúpula não ajudou, a reunião foi uma das menos interessantes dos últimos tempos. Mas não de todo, porque se voltou a tratar da entrada de Bolívia e Equador como sócios plenos do bloco. Assim, o Mercosul, depois de permitir o ingresso da Venezuela de Chávez, numa manobra oportunista de Brasil e Argentina, prepara-se para absorver outra parte da Alba, a Aliança Bolivariana para as Américas, palco armado pelo próprio Chávez para nele desfilar com seu proselitismo contra o “imperialismo”. Neste ritmo, o próximo passo para o Mercosul será absorver Cuba, Nicarágua, assim por diante.
Se o objetivo for apenas político, de formar uma anacrônica trincheira contra os “ricos”, tudo certo. Mas se visar ao desenvolvimento pela rota segura do comércio exterior, nada feito. O Mercosul caminha para o engessamento nas negociações multilaterais e para a insignificância.
Submeter o Mercosul à Alba — impensável tempos atrás — é uma decorrência até lógica da manobra golpista de Brasil e Argentina de aproveitar o afastamento de Lugo da presidência do Paraguai pelo Congresso, tachar o fato (polêmico), sem maiores discussões, de um atentado contra a democracia, e afastar o país do bloco, contrabandear Chávez para dentro do Mercosul e torná-lo fato consumado.
Como o Congresso paraguaio se recusava a votar o salvo-conduto para a Venezuela ser convertida em membro titular do Mercosul, a punição ao país resolveu o problema. O Paraguai, porém, deverá retornar ao bloco depois das eleições de abril. Contratou-se uma provável crise para o primeiro semestre.
Enquanto isso, acordos bilaterais continuam a ser feitos no mundo e se forma outra união comercial no continente (Chile, Colômbia e México, a Aliança do Pacífico), com mais flexibilidade do que este Mercosul bolivariano.
Se é difícil imaginar algum acordo com países importantes do ponto de vista comercial com Chávez à mesa — ou um fiel seguidor de sua corrente ideológica —, o que dizer de Evo Morales e Rafael Correa, da Bolívia e Equador?
No final de janeiro, missão da União Europeia terá reunião de cúpula no Brasil e depois se encontrará com a bancada do Mercosul. Será um teste para o bloco já sob influência chavista. Vide os rumos do governo de Cristina K. Não se pode ser otimista.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Todo mundo pensa como saída a morte”
Deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado no STF, que teria cogitado o suicídio
EX-MINISTRO NA PRÁTICA, MANTEGA JÁ NÃO DECIDE
Ministro da Fazenda desde o governo Lula, Guido Mantega se mantém no cargo porque aceita se submeter a decisões das quais nem sequer participa. A condução da política econômica é obra de um “triunvirato” formado pelo seu secretário executivo, Nelson Barbosa, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, e a própria presidente Dilma, que a respeitada revista britânica The Economist classificou de “chefe intrometida”.
SÓ UM PORTA-VOZ
Guido Mantega apenas é comunicado das decisões do “triunvirato” das quais aceita ser porta-voz. Dilma não o demitiu ainda a pedido de Lula.
MÃE DINAH
Desconectado das deliberações do “triunvirato”, Mantega tem arriscado “previsões” sempre desmentidas pelos fatos, lamentam os assessores.
FOGUEIRA DAS VAIDADES
Mantega se submeteria às humilhações do “triunvirato”, dizem amigos, só para virar em abril o ministro da Fazenda mais longevo da História.
MEDIOCRIDADE
O “triunvirato” não é exatamente brilhante. O currículo de Arno Agustin, por exemplo, o qualifica mais como militante de uma facção do PT-RS.
CHEFE DA ECT FOI PEDIR SOCORRO A LULA... EM PARIS
Enquanto os Correios atrasam a entrega de Sedex, que já foi referência de rapidez e eficiência, o presidente da estatal, Wagner Pinheiro, flana em Paris com o ex-presidente Lula e seu tesoureiro Paulo Okamotto, personagens de revelações de Marcos Valério, office-boy do mensalão. Oficialmente, Pinheiro foi assinar “memorando de entendimento” com a congênere francesa – algo que poderia ter sido feito por e-mail.
MEU CARGO, MEU AMOR
Prestes a ser substituído por Carlos Eduardo Gabas, Wagner Pinheiro teria ido a Paris pedir socorro a Lula para manter o emprego.
PERGUNTA NA PAPUDA
Deputado preso em regime semiaberto, mas não cassado, vai poder ir de carro oficial para a Câmara e voltar para dormir no xilindró?
MORTO-VIVO
Ex-guarda-costas do “chefe”, Freud Godoy mostra incompetência, no mínimo: não viu Lula ser “apunhalado” pelas costas várias vezes.
HORTA PORTUGUESA
O ex-presidente da Portugal Telecom Miguel Horta disse na imprensa portuguesa que as novas denúncias de Marcos Valério envolvendo Lula e a PT são “questão interna do Brasil”. Confirmou ter se reunido com o ex-publicitário em Lisboa, mas para “outros assuntos”.
CIDADE (SEM) LUZ
Porto Alegre ficou 30 horas às escuras anteontem, enquanto o governador Tarso Genro (PT) estava em Paris com Dilma. Até a filha, Luciana, ex-deputada do PSOL, reclamou no Twitter, “sem privilégios”.
BOCA LIVRE NO PSD
O PSD obrigou funcionários do gabinete da liderança a desembolsar, cada um, R$ 100 para bancar o jantar de fim de ano dos deputados do partido, que não precisaram tirar um tostão do bolso. A festa aconteceu ontem, em Brasília. Os servidores silenciam com medo de represálias.
ORGULHO DOS PAMPAS
Os gaúchos batem no peito, com razão: inaugurado esta semana, sem dinheiro público, o espetacular e completo estádio do Grêmio custou R$ 600 milhões. Mixaria, diante de R$ 1 bi só da reforma do Maracanã.
PIADA PRONTA
O próprio ministro Edison Lobão (Minas e Energia) afirmou que a CEB, de Brasília, é a pior empresa de energia do País, mas a estatal é uma das três finalistas do Prêmio Aneel de Satisfação do Consumidor. As outras duas, Cemat (MT) e Enersul (MS), estão sob intervenção.
CHORORÔ
“Estados produtores” sofreram derrota acachapante na “urgência” para votar os vetos à lei que redistribui os royalties de petróleo, e culparam a deputada que presidiu a sessão, Rose de Freitas (PMDB-ES). Mas “culpa”, na verdade, foi da avalanche de votos.
SE A MODA PEGA...
O governo venezuelano suspendeu todas as festas pré-natalinas, convocando o povo para uma “vígilia de
orações” em Caracas pela saúde do presidente fanfarrão Hugo Chávez, operado em Cuba.
VETERANO EM SEU LABIRINTO
Inocêncio de Oliveira (PR-PE) reclama do assédio de prefeitos do seu Estado, de pires na mão, mendigando emendas no Orçamento. Já os prefeitos reclamam que não são recebidos pelo veterano deputado.
PENSANDO BEM…
…tem até “Garganta Profunda” no escândalos do PT. Só faltam Bob Woodward, Carl Bernstein e Washington Post destrinchando o rolo.
PODER SEM PUDOR
O DESABAFO DE GETÚLIO
A poucos dias de "deixar a vida para entrar na História", Getúlio Vargas desabafou com o seu ministro da Viação, José Américo de Almeida:
- Impossível governar este País. Os homens de verdadeiro espírito público vão escasseando cada vez mais...
- E o que o senhor acha dos homens de seu governo?
- Metade não é capaz de nada, e a outra metade é capaz de tudo...
Deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado no STF, que teria cogitado o suicídio
EX-MINISTRO NA PRÁTICA, MANTEGA JÁ NÃO DECIDE
Ministro da Fazenda desde o governo Lula, Guido Mantega se mantém no cargo porque aceita se submeter a decisões das quais nem sequer participa. A condução da política econômica é obra de um “triunvirato” formado pelo seu secretário executivo, Nelson Barbosa, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, e a própria presidente Dilma, que a respeitada revista britânica The Economist classificou de “chefe intrometida”.
SÓ UM PORTA-VOZ
Guido Mantega apenas é comunicado das decisões do “triunvirato” das quais aceita ser porta-voz. Dilma não o demitiu ainda a pedido de Lula.
MÃE DINAH
Desconectado das deliberações do “triunvirato”, Mantega tem arriscado “previsões” sempre desmentidas pelos fatos, lamentam os assessores.
FOGUEIRA DAS VAIDADES
Mantega se submeteria às humilhações do “triunvirato”, dizem amigos, só para virar em abril o ministro da Fazenda mais longevo da História.
MEDIOCRIDADE
O “triunvirato” não é exatamente brilhante. O currículo de Arno Agustin, por exemplo, o qualifica mais como militante de uma facção do PT-RS.
CHEFE DA ECT FOI PEDIR SOCORRO A LULA... EM PARIS
Enquanto os Correios atrasam a entrega de Sedex, que já foi referência de rapidez e eficiência, o presidente da estatal, Wagner Pinheiro, flana em Paris com o ex-presidente Lula e seu tesoureiro Paulo Okamotto, personagens de revelações de Marcos Valério, office-boy do mensalão. Oficialmente, Pinheiro foi assinar “memorando de entendimento” com a congênere francesa – algo que poderia ter sido feito por e-mail.
MEU CARGO, MEU AMOR
Prestes a ser substituído por Carlos Eduardo Gabas, Wagner Pinheiro teria ido a Paris pedir socorro a Lula para manter o emprego.
PERGUNTA NA PAPUDA
Deputado preso em regime semiaberto, mas não cassado, vai poder ir de carro oficial para a Câmara e voltar para dormir no xilindró?
MORTO-VIVO
Ex-guarda-costas do “chefe”, Freud Godoy mostra incompetência, no mínimo: não viu Lula ser “apunhalado” pelas costas várias vezes.
HORTA PORTUGUESA
O ex-presidente da Portugal Telecom Miguel Horta disse na imprensa portuguesa que as novas denúncias de Marcos Valério envolvendo Lula e a PT são “questão interna do Brasil”. Confirmou ter se reunido com o ex-publicitário em Lisboa, mas para “outros assuntos”.
CIDADE (SEM) LUZ
Porto Alegre ficou 30 horas às escuras anteontem, enquanto o governador Tarso Genro (PT) estava em Paris com Dilma. Até a filha, Luciana, ex-deputada do PSOL, reclamou no Twitter, “sem privilégios”.
BOCA LIVRE NO PSD
O PSD obrigou funcionários do gabinete da liderança a desembolsar, cada um, R$ 100 para bancar o jantar de fim de ano dos deputados do partido, que não precisaram tirar um tostão do bolso. A festa aconteceu ontem, em Brasília. Os servidores silenciam com medo de represálias.
ORGULHO DOS PAMPAS
Os gaúchos batem no peito, com razão: inaugurado esta semana, sem dinheiro público, o espetacular e completo estádio do Grêmio custou R$ 600 milhões. Mixaria, diante de R$ 1 bi só da reforma do Maracanã.
PIADA PRONTA
O próprio ministro Edison Lobão (Minas e Energia) afirmou que a CEB, de Brasília, é a pior empresa de energia do País, mas a estatal é uma das três finalistas do Prêmio Aneel de Satisfação do Consumidor. As outras duas, Cemat (MT) e Enersul (MS), estão sob intervenção.
CHORORÔ
“Estados produtores” sofreram derrota acachapante na “urgência” para votar os vetos à lei que redistribui os royalties de petróleo, e culparam a deputada que presidiu a sessão, Rose de Freitas (PMDB-ES). Mas “culpa”, na verdade, foi da avalanche de votos.
SE A MODA PEGA...
O governo venezuelano suspendeu todas as festas pré-natalinas, convocando o povo para uma “vígilia de
orações” em Caracas pela saúde do presidente fanfarrão Hugo Chávez, operado em Cuba.
VETERANO EM SEU LABIRINTO
Inocêncio de Oliveira (PR-PE) reclama do assédio de prefeitos do seu Estado, de pires na mão, mendigando emendas no Orçamento. Já os prefeitos reclamam que não são recebidos pelo veterano deputado.
PENSANDO BEM…
…tem até “Garganta Profunda” no escândalos do PT. Só faltam Bob Woodward, Carl Bernstein e Washington Post destrinchando o rolo.
PODER SEM PUDOR
O DESABAFO DE GETÚLIO
A poucos dias de "deixar a vida para entrar na História", Getúlio Vargas desabafou com o seu ministro da Viação, José Américo de Almeida:
- Impossível governar este País. Os homens de verdadeiro espírito público vão escasseando cada vez mais...
- E o que o senhor acha dos homens de seu governo?
- Metade não é capaz de nada, e a outra metade é capaz de tudo...
QUINTA NOS JORNAIS
- O Globo: Guerra dos royalties - Dilma é derrotada e Rio recorre ao Supremo
- Folha: Após acusação de Valério, Lula fala em candidatura
- Estadão: Dilma manda ministros defenderem Lula de denúncias
- Correio: Luiz Estevão é dono de 10% das terras privadas do DF
- Valor: Oferta maior e preços em queda revigoram TV paga
- Estado de Minas: Mineiro come mal e não se cuida
- Zero Hora: Operação para blindar Lula
quarta-feira, dezembro 12, 2012
Lotação esgotada - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 12/12
É que é dia 12/12/2012, e muitas mães acreditam que a coincidência dos números pode trazer boa sorte para seus bebês. Uma das cesarianas foi marcada para 12h. Mas segundo a astróloga Leiloca, a coincidência dos números quer dizer... nada.
Mamãe Maria Rita
Segunda, Maria Rita deu à luz uma menina na Perinatal de Laranjeiras.
Questão de ética
Juliana Paes quer processar o Sérgio Franco. Desconfia que o laboratório divulgou seu exame de gravidez.
Depois das filas
O ortopedista carioca Geraldo Motta Filho não é mais diretor-geral do Into.
Jeito Dilma de ser
Em Paris, Dilma foi almoçar com ministros e assessores. Na hora da conta, cada um pagou sua parte.
Calma, monsieur...
Aliás, o esquema de segurança francês engarrafou três quarteirões da Rue du Fauburg Saint Honoré, do famoso Hotel Bristol, onde está Dilma.
Dilma no balé...
Em Moscou, amanhã, Dilma vai ao Bolshoi, assistir ao “Lago dos cisnes”.
No mais
É a segunda vez que o mensalão pega Lula em Paris. Foi lá, em 2005, que ele disse: “O que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil.”
Agora, de novo na França, nega as acusações de Marcos Valério.
O amor de Alves
Do deputado Henrique Eduardo Alves, possivelmente próximo presidente da Câmara, a Ivan Lins, ontem, em Brasília, durante visita de um grupo de artistas que foi falar sobre o PL 129/2012, que altera a gestão de direitos autorais.
— Já namorei muito com as suas músicas...
Aliás...
Na sala da liderança do PTB no Senado, a pedidos, nosso Ivan cantou “Madalena”.
A vida não é justa
O livro “A vida não é justa”, da juíza Andréa Pachá, vai virar minissérie de TV. A adaptação é de Susanna Lira e Malu De Martino.
Sinal de alerta
A ideia entre lideranças de aeronautas e aeroviários, ontem, era parar, simultaneamente, amanhã, os aeroportos do Rio, de São Paulo, Brasília, Salvador e Porto Alegre.
Um emissário do Planalto ligou, preocupado, e pediu calma aos sindicalistas.
Zona Franca
Sexta, o IAB homenageará seu associado mais antigo, Oscar Niemeyer, com uma placa que nomeará sua sede, no Flamengo, como Casa do Arquiteto Oscar Niemeyer.
Maria Isabel Iorio lança “Nuvem opaca”, amanhã, às 19h, na Argumento do Leblon.
Marleuza Cunha ganha hoje, no Itanhangá Golf Club, o prêmio de Melhor Golfista do estado.
O Fifa Master, coordenado pelo advogado brasileiro Pedro Trengrouse, foi avaliado como o melhor mestrado de esporte da Europa. Paulo Francisco Paes lança CD amanhã, no Espaço Tom Jobim, com Paulo Sérgio Santos.
Hoje, na galeria de Silvia Cintra, será lançado o livro “Nelson Leirner: a arte do avesso”.
A Atlântica Editora lança hoje “Jardins do Brasil” e “Jardins do Rio”, no Palácio Gustavo Capanema. A violinista Carol Machado toca Beethoven no Concerto de Natal da Uppes, amanhã.
Prisioneiros da moda
As madames que frequentam o Copacabana Palace vão ver hoje, na inauguração de butiques de luxo no hotel, a coleção de verão da grife Doiselles, feita por prisioneiros mineiros.
Veja que legal. Eles tricotam e fazem crochê. Eu apoio.
Calma, gente
O Instituto de Advocacia Racial registra hoje um boletim de ocorrência contra o ator Luís Salem.
O artista é acusado de “racismo” por um grupo de negros. É que domingo, eles conversavam no Sambódromo quando o ator teria se aproximado e perguntado: “isso aqui é um quilombo?” A conferir.
Museu do solo
O Jardim Botânico do Rio vai ganhar o Museu Interativo de Solos.
Os recursos do projeto, tocado pela Embrapa, virão do Orçamento da União, garantidos por emenda do deputado Edson Santos.
Zambujo e Andrucha
Andrucha Waddington, o cineasta, vai dirigir um DVD de António Zambujo, fadista português da moda.
O cantor vai fazer um show de lançamento do seu novo CD, “Quinto”, amanhã, no Studio RJ.
Dois partidos alto
De um gaiato após comentar que, ontem, Noel Rosa, falecido em 1937, teria completado 102 anos.
— Aliás, o Poeta da Vila nasceu três anos antes do... Niemeyer.
A culpa e a vergonha - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 12/12
Algo que me cansaria é desconfiar de todo mundo – despende uma energia que não tenho pra gastar à toa. Portanto, costumo confiar. Se não faço mal a ninguém, se não minto a torto e a direito, se não desejo que os outros se ferrem, qual a razão de imaginar que agiriam assim comigo? Me parece lógico: nossa abertura ou retranca social reflete como agimos com quem nos cerca. Se caçoamos, temos medo de ser caçoados. Se traímos, temos medo de ser traídos. Somos nossa própria referência.
Logo, se eu não apronto, não temo que aprontem comigo. O que nem sempre funciona, claro. Já me aprontaram ao menos duas vezes. Caí num golpe telefônico (um pedido falso de doação) e outra vez ao vivo, um teatrinho bem feito no meio da rua. O prejuízo: alguns trocados perdidos, nada demais. Me senti trouxa por 10 minutos e depois a vida seguiu seu curso.
Por isso, fiquei impressionada pelo fato de a enfermeira que cuidava de Kate Middleton ter se suicidado. Ora, ela pode ter sido ingênua ao não perceber o trote dos radialistas australianos, mas não é pecado cair numa armação que, no caso, não teve consequência nefasta alguma. Ela não entregou segredos de Estado, não provocou uma guerra entre nações, não colocou a monarquia em risco.
Ela simplesmente transferiu uma ligação falsa e permitiu, assim, que a duquesa tivesse seu quadro clínico desvendado – aliás, nada que todos já não soubessem: enjoos, anemia, coisas típicas de uma gestante nos primeiros meses de gravidez. A enfermeira, ao não perceber que não era a rainha da Inglaterra do outro lado da linha, demonstrou apenas sua total ausência de maldade – o que, nos dias atuais, deveria até ser comemorado.
Mas vá saber como ela lidava com a culpa.
Pra quem carrega o mundo nas costas, qualquer errinho vira motivo para autoflagelo. Essa moça indiana, Jacintha Saldanha, devia ser do tipo que pedia desculpas por ter nascido. Que tinha um excessivo pudor em relação às suas fraquezas. Que se martirizava a cada pequena desatenção de sua parte. Ao ser designada para tomar conta de uma integrante da família real, viu-se no auge da sua responsabilidade, e não aguentou a chacota justo quando nada podia falhar. Mas as coisas falham, à nossa revelia.
Trote, quando prejudica os outros (caso de quem inventa falsos acidentes para a polícia, os bombeiros etc.) é uma leviandade que pode se tornar criminosa. Nos casos menos graves, é uma criancice. Nunca é um exemplo a seguir, mas os radialistas não me pareceram ter agido de má-fé, eles apenas não dimensionaram o tamanho da encrenca que viria.
Pessoas são sensíveis. Pessoas são frágeis. Como essa enfermeira que se penalizou de uma forma drástica e desproporcional ao fato. Ou, vai ver, sou eu que, vivendo no Brasil das mil e uma bandalheiras, do Brasil onde todos tiram o corpo fora, me desacostumei com a existência de um ser humano que ainda se envergonha.
Algo que me cansaria é desconfiar de todo mundo – despende uma energia que não tenho pra gastar à toa. Portanto, costumo confiar. Se não faço mal a ninguém, se não minto a torto e a direito, se não desejo que os outros se ferrem, qual a razão de imaginar que agiriam assim comigo? Me parece lógico: nossa abertura ou retranca social reflete como agimos com quem nos cerca. Se caçoamos, temos medo de ser caçoados. Se traímos, temos medo de ser traídos. Somos nossa própria referência.
Logo, se eu não apronto, não temo que aprontem comigo. O que nem sempre funciona, claro. Já me aprontaram ao menos duas vezes. Caí num golpe telefônico (um pedido falso de doação) e outra vez ao vivo, um teatrinho bem feito no meio da rua. O prejuízo: alguns trocados perdidos, nada demais. Me senti trouxa por 10 minutos e depois a vida seguiu seu curso.
Por isso, fiquei impressionada pelo fato de a enfermeira que cuidava de Kate Middleton ter se suicidado. Ora, ela pode ter sido ingênua ao não perceber o trote dos radialistas australianos, mas não é pecado cair numa armação que, no caso, não teve consequência nefasta alguma. Ela não entregou segredos de Estado, não provocou uma guerra entre nações, não colocou a monarquia em risco.
Ela simplesmente transferiu uma ligação falsa e permitiu, assim, que a duquesa tivesse seu quadro clínico desvendado – aliás, nada que todos já não soubessem: enjoos, anemia, coisas típicas de uma gestante nos primeiros meses de gravidez. A enfermeira, ao não perceber que não era a rainha da Inglaterra do outro lado da linha, demonstrou apenas sua total ausência de maldade – o que, nos dias atuais, deveria até ser comemorado.
Mas vá saber como ela lidava com a culpa.
Pra quem carrega o mundo nas costas, qualquer errinho vira motivo para autoflagelo. Essa moça indiana, Jacintha Saldanha, devia ser do tipo que pedia desculpas por ter nascido. Que tinha um excessivo pudor em relação às suas fraquezas. Que se martirizava a cada pequena desatenção de sua parte. Ao ser designada para tomar conta de uma integrante da família real, viu-se no auge da sua responsabilidade, e não aguentou a chacota justo quando nada podia falhar. Mas as coisas falham, à nossa revelia.
Trote, quando prejudica os outros (caso de quem inventa falsos acidentes para a polícia, os bombeiros etc.) é uma leviandade que pode se tornar criminosa. Nos casos menos graves, é uma criancice. Nunca é um exemplo a seguir, mas os radialistas não me pareceram ter agido de má-fé, eles apenas não dimensionaram o tamanho da encrenca que viria.
Pessoas são sensíveis. Pessoas são frágeis. Como essa enfermeira que se penalizou de uma forma drástica e desproporcional ao fato. Ou, vai ver, sou eu que, vivendo no Brasil das mil e uma bandalheiras, do Brasil onde todos tiram o corpo fora, me desacostumei com a existência de um ser humano que ainda se envergonha.
KKK! - ANTONIO PRATA
FOLHA DE SP - 12/12
Quando rimos de nossas fraquezas, admitimos defeitos que seríamos incapazes de encarar
ONTEM ASSISTI ao documentário "O Riso dos Outros" (migre.me/cdrYR), de Pedro Arantes, para o qual dei um depoimento. Se o menciono aqui não é para puxar brasa para a minha sardinha (até porque a televisão não é brasa mais propícia à minha desengonçada sardinha), mas pela qualidade do filme e por seu tema, tão pertinente: as intrincadas relações entre humor, liberdade e preconceito.
O documentário mostra desde defensores de minorias até comediantes abertamente racistas. Após ouvir alguns do segundo time, me convenci de que o grande problema do "politicamente correto" não é a suposta ameaça à liberdade de expressão, mas o fato de que aqueles que até ontem eram tidos apenas como grosseiros ou ignorantes agora ostentarem o "label cool" de "politicamente incorretos".
O humor é um brinquedo ambíguo. Quando rimos de nossas fraquezas, admitimos defeitos que, sem essa bem-vinda anestesia, seríamos incapazes de encarar. Desarmando-nos, o riso nos irmana com o próximo -afinal, somos todos companheiros nesta barca furada.
Rir do mais fraco é o contrário. Nesse caso, o riso serve para camuflar nossas fraquezas, apontando-as (ou inventando-as) nos outros. É como dizer: sou tão inseguro da minha masculinidade que ataco as mulheres e os gays. Temo tanto meus defeitos que crio monstros feitos só deles: os negros, os nordestinos, os árabes, os judeus etc.
Não é que haja assuntos proibidos para o humor: pode-se fazer piada com religião, cor, gênero. A questão, como diz Hugo Possolo no filme, é de que lado da piada você se coloca.
Woody Allen, num stand up do início da carreira, dizia que a vida de seus avós na Polônia era tão horrorosa que, quando Hitler invadiu o país, eles pensaram: "Bom, quem sabe agora as coisas não vão melhorar um pouquinho?". Woody Allen estava rindo do sofrimento? Sim, mas não dos sofredores. A tirada aponta para os opressores, os antissemitas.
Exemplo análogo é um esquete do Porta dos Fundos (migre.me/c7m1U) sobre a primeira reunião da Ku Klux Klan. O organizador (Fábio Porchat) descobre, logo no início, que todos os presentes embaixo das batas e dos chapéus são negros. Reclama com seu assistente (Gregório Duvivier), que afirma ter chamado o pessoal que trabalha em sua casa. Apavorado, Porchat diz que a reunião na verdade é para formar uma banda de blues e puxa um coro de "Oh, Happy Day", sem nenhum sucesso.
O esquete (muito mais engraçado do que essa esquemática descrição) tira sarro dos negros? Não, ri dos organizadores da KKK, a quem pinta como dois playboys sem noção, ri do preconceito racial, das desigualdades sociais que ele cria e de seus estereótipos.
Às vezes, vendo os arautos da ignorância se arvorando a paladinos da liberdade, fico pessimista. Mas ao assistir aos vídeos de novos humoristas como Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Marcelo Adnet e ao ouvir, no documentário, os depoimentos de Laerte, Hugo Possolo, Marianna Armellini, Arnaldo Branco, Fernando Caruso, André Dahmer, Lola Aronovich e Jean Wyllys, me volta a esperança: ao que parece, tem muita gente talentosa que acha mais legal esculhambar o racista embaixo do lençol do que o enforcado balançando na árvore.
Quando rimos de nossas fraquezas, admitimos defeitos que seríamos incapazes de encarar
ONTEM ASSISTI ao documentário "O Riso dos Outros" (migre.me/cdrYR), de Pedro Arantes, para o qual dei um depoimento. Se o menciono aqui não é para puxar brasa para a minha sardinha (até porque a televisão não é brasa mais propícia à minha desengonçada sardinha), mas pela qualidade do filme e por seu tema, tão pertinente: as intrincadas relações entre humor, liberdade e preconceito.
O documentário mostra desde defensores de minorias até comediantes abertamente racistas. Após ouvir alguns do segundo time, me convenci de que o grande problema do "politicamente correto" não é a suposta ameaça à liberdade de expressão, mas o fato de que aqueles que até ontem eram tidos apenas como grosseiros ou ignorantes agora ostentarem o "label cool" de "politicamente incorretos".
O humor é um brinquedo ambíguo. Quando rimos de nossas fraquezas, admitimos defeitos que, sem essa bem-vinda anestesia, seríamos incapazes de encarar. Desarmando-nos, o riso nos irmana com o próximo -afinal, somos todos companheiros nesta barca furada.
Rir do mais fraco é o contrário. Nesse caso, o riso serve para camuflar nossas fraquezas, apontando-as (ou inventando-as) nos outros. É como dizer: sou tão inseguro da minha masculinidade que ataco as mulheres e os gays. Temo tanto meus defeitos que crio monstros feitos só deles: os negros, os nordestinos, os árabes, os judeus etc.
Não é que haja assuntos proibidos para o humor: pode-se fazer piada com religião, cor, gênero. A questão, como diz Hugo Possolo no filme, é de que lado da piada você se coloca.
Woody Allen, num stand up do início da carreira, dizia que a vida de seus avós na Polônia era tão horrorosa que, quando Hitler invadiu o país, eles pensaram: "Bom, quem sabe agora as coisas não vão melhorar um pouquinho?". Woody Allen estava rindo do sofrimento? Sim, mas não dos sofredores. A tirada aponta para os opressores, os antissemitas.
Exemplo análogo é um esquete do Porta dos Fundos (migre.me/c7m1U) sobre a primeira reunião da Ku Klux Klan. O organizador (Fábio Porchat) descobre, logo no início, que todos os presentes embaixo das batas e dos chapéus são negros. Reclama com seu assistente (Gregório Duvivier), que afirma ter chamado o pessoal que trabalha em sua casa. Apavorado, Porchat diz que a reunião na verdade é para formar uma banda de blues e puxa um coro de "Oh, Happy Day", sem nenhum sucesso.
O esquete (muito mais engraçado do que essa esquemática descrição) tira sarro dos negros? Não, ri dos organizadores da KKK, a quem pinta como dois playboys sem noção, ri do preconceito racial, das desigualdades sociais que ele cria e de seus estereótipos.
Às vezes, vendo os arautos da ignorância se arvorando a paladinos da liberdade, fico pessimista. Mas ao assistir aos vídeos de novos humoristas como Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Marcelo Adnet e ao ouvir, no documentário, os depoimentos de Laerte, Hugo Possolo, Marianna Armellini, Arnaldo Branco, Fernando Caruso, André Dahmer, Lola Aronovich e Jean Wyllys, me volta a esperança: ao que parece, tem muita gente talentosa que acha mais legal esculhambar o racista embaixo do lençol do que o enforcado balançando na árvore.
De São Paulo ao Japão - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 12/12
O São Paulo, em casa, contra o Tigre, é mais favorito do que o Corinthians contra o Al Ahli
Em uma grande cobertura, como a do Corinthians no Japão, muitos fatos e lugares-comuns, que não têm nenhuma importância no resultado, passam a ser supervalorizados. Também ouço demais a expressão "escola brasileira". Qual é essa escola, a de outros tempos, mais leve e com muita troca de passes, ou a mais pesada e atual, de muita correria, jogadas aéreas, chutões e lançamentos longos?
Corinthians e Chelsea têm mais chance de fazer a final, mas não será zebra se um ou os dois perderem. Quem levantar a taça será o legítimo campeão do mundo, mas não será o melhor time do mundo.
Se Corinthians e Chelsea fizerem a final, haverá uma tendência ao equilíbrio, por causa do ótimo planejamento do Corinthians, por ser o time sul-americano mais europeu e mais organizado taticamente e porque o Chelsea não está hoje entre os melhores do mundo. Os ingleses levam a vantagem de ter melhores jogadores.
Diferentemente do Corinthians, quase todas as outras equipes brasileiras estão desatualizadas na maneira de jogar. Apenas os treinadores, por corporativismo, e os admiradores e seguidores dos técnicos não reconhecem o óbvio.
O Corinthians deve marcar por pressão no início do jogo. O Al Ahly fez o mesmo contra o Hiroshima. O Corinthians tem mais força física para fazer isso melhor e por mais tempo.
O Al Ahly é, coletivamente, uma boa equipe, compacta, que troca muitos passes e que defende e ataca com muitos jogadores. Como a defesa se adianta, deixa muitos espaços nas costas. Os japoneses entraram várias vezes livres, diante do goleiro. Para jogar dessa forma, é preciso ter zagueiros bons e velozes, o que o time egípcio não tem.
Hoje é dia também de decisão na Copa Sul-Americana. Acho o São Paulo mais favorito, em casa, contra o Tigre, do que o Corinthians contra o Al Ahly. A equipe argentina retrata bem a média das equipes sul-americanas. Corre muito, marca muito, faz muitas faltas, dá muitos pontapés, chutões, prioriza as jogadas aéreas, mas tem pouquíssima qualidade técnica.
O São Paulo não terá Luis Fabiano, mas possui vários jogadores, como Rogério Ceni, Rhodolfo, Cortez, Wellington, Denilson, Jadson e Lucas, que estão no nível de vários atletas de suas posições que têm sido chamados para a seleção. Cortês aprendeu com Ney Franco a se posicionar defensivamente e a avançar no momento certo.
Termino com Messi. Ele está cada dia mais exuberante e mais simples, mais conciso e mais preciso. Em vez de recuar demais para receber a bola, com os volantes e zagueiros à sua frente, ele a tem recebido entre os dois setores. Toca menos na bola, mas, quando toca, tem mais facilidade para driblar e finalizar. Como diz o chavão do futebol, Messi aperfeiçoou os atalhos para o gol.
O São Paulo, em casa, contra o Tigre, é mais favorito do que o Corinthians contra o Al Ahli
Em uma grande cobertura, como a do Corinthians no Japão, muitos fatos e lugares-comuns, que não têm nenhuma importância no resultado, passam a ser supervalorizados. Também ouço demais a expressão "escola brasileira". Qual é essa escola, a de outros tempos, mais leve e com muita troca de passes, ou a mais pesada e atual, de muita correria, jogadas aéreas, chutões e lançamentos longos?
Corinthians e Chelsea têm mais chance de fazer a final, mas não será zebra se um ou os dois perderem. Quem levantar a taça será o legítimo campeão do mundo, mas não será o melhor time do mundo.
Se Corinthians e Chelsea fizerem a final, haverá uma tendência ao equilíbrio, por causa do ótimo planejamento do Corinthians, por ser o time sul-americano mais europeu e mais organizado taticamente e porque o Chelsea não está hoje entre os melhores do mundo. Os ingleses levam a vantagem de ter melhores jogadores.
Diferentemente do Corinthians, quase todas as outras equipes brasileiras estão desatualizadas na maneira de jogar. Apenas os treinadores, por corporativismo, e os admiradores e seguidores dos técnicos não reconhecem o óbvio.
O Corinthians deve marcar por pressão no início do jogo. O Al Ahly fez o mesmo contra o Hiroshima. O Corinthians tem mais força física para fazer isso melhor e por mais tempo.
O Al Ahly é, coletivamente, uma boa equipe, compacta, que troca muitos passes e que defende e ataca com muitos jogadores. Como a defesa se adianta, deixa muitos espaços nas costas. Os japoneses entraram várias vezes livres, diante do goleiro. Para jogar dessa forma, é preciso ter zagueiros bons e velozes, o que o time egípcio não tem.
Hoje é dia também de decisão na Copa Sul-Americana. Acho o São Paulo mais favorito, em casa, contra o Tigre, do que o Corinthians contra o Al Ahly. A equipe argentina retrata bem a média das equipes sul-americanas. Corre muito, marca muito, faz muitas faltas, dá muitos pontapés, chutões, prioriza as jogadas aéreas, mas tem pouquíssima qualidade técnica.
O São Paulo não terá Luis Fabiano, mas possui vários jogadores, como Rogério Ceni, Rhodolfo, Cortez, Wellington, Denilson, Jadson e Lucas, que estão no nível de vários atletas de suas posições que têm sido chamados para a seleção. Cortês aprendeu com Ney Franco a se posicionar defensivamente e a avançar no momento certo.
Termino com Messi. Ele está cada dia mais exuberante e mais simples, mais conciso e mais preciso. Em vez de recuar demais para receber a bola, com os volantes e zagueiros à sua frente, ele a tem recebido entre os dois setores. Toca menos na bola, mas, quando toca, tem mais facilidade para driblar e finalizar. Como diz o chavão do futebol, Messi aperfeiçoou os atalhos para o gol.
O povo gosta de luxo - REGIS FICHTNER
O GLOBO - 12/12
O Maracanã é o maior palco do futebol mundial. Ninguém poderia imaginar que se pudesse realizar uma copa do mundo no Brasil sem ele. Adaptá-lo para que atenda aos padrões da FIFA era uma imposição histórica. Com isso, uniremos o útil ao agradável, transformando o templo do futebol em um estádio com todo o conforto e comodidade que o público merece.
Os estádios de futebol concorrem com tecnologias de transmissão e recepção de imagem cada vez mais sofisticadas. Para atrair a família ao estádio, ele tem que oferecer um conceito de conforto e entretenimento que vai muito além do jogo em si. É o que faremos com o complexo do Maracanã, que vai ter acesso metroviário e ferroviário melhor, estacionamento, restaurantes, museu interativo, lojas.
A reforma física do Maracanã tem que vir acompanhada por uma mudança de conceito de gestão, que o Estado não tem como oferecer. Não há outra opção que a sua concessão à iniciativa privada.
São incompreensíveis as manifestações de que o Governo quer acabar com uma escola municipal porque vai transferi-la para outro local a uma distância de 500 metros. Os professores, alunos, diretor e proposta pedagógica serão os mesmos, em instalações melhores. Será que a escola Friedenreich é boa porque está dentro do Maracanã?
O mesmo se diga em relação ao Célio de Barros e ao Julio de Lamare, que serão reconstruídos com um padrão muito melhor que o de hoje. Já o prédio em ruínas que durante um período na década de 70 sediou o Museu do Índio, esse não pode ser mantido, sob pena de se dificultar o fluxo de pessoas, sendo lógico que não faz sentido se manter índios morando ali.
Quem defende que se deva manter o Maracanã sujo, com público em pé, assentos sem boa visibilidade e sem serviços de qualidade, não sabe identificar a alma do povo, pois ele merece o que há de melhor e como nos ensinou o mestre Joãosinho Trinta, "o povo gosta de luxo e não de lixo".
O Maracanã é o maior palco do futebol mundial. Ninguém poderia imaginar que se pudesse realizar uma copa do mundo no Brasil sem ele. Adaptá-lo para que atenda aos padrões da FIFA era uma imposição histórica. Com isso, uniremos o útil ao agradável, transformando o templo do futebol em um estádio com todo o conforto e comodidade que o público merece.
Os estádios de futebol concorrem com tecnologias de transmissão e recepção de imagem cada vez mais sofisticadas. Para atrair a família ao estádio, ele tem que oferecer um conceito de conforto e entretenimento que vai muito além do jogo em si. É o que faremos com o complexo do Maracanã, que vai ter acesso metroviário e ferroviário melhor, estacionamento, restaurantes, museu interativo, lojas.
A reforma física do Maracanã tem que vir acompanhada por uma mudança de conceito de gestão, que o Estado não tem como oferecer. Não há outra opção que a sua concessão à iniciativa privada.
São incompreensíveis as manifestações de que o Governo quer acabar com uma escola municipal porque vai transferi-la para outro local a uma distância de 500 metros. Os professores, alunos, diretor e proposta pedagógica serão os mesmos, em instalações melhores. Será que a escola Friedenreich é boa porque está dentro do Maracanã?
O mesmo se diga em relação ao Célio de Barros e ao Julio de Lamare, que serão reconstruídos com um padrão muito melhor que o de hoje. Já o prédio em ruínas que durante um período na década de 70 sediou o Museu do Índio, esse não pode ser mantido, sob pena de se dificultar o fluxo de pessoas, sendo lógico que não faz sentido se manter índios morando ali.
Quem defende que se deva manter o Maracanã sujo, com público em pé, assentos sem boa visibilidade e sem serviços de qualidade, não sabe identificar a alma do povo, pois ele merece o que há de melhor e como nos ensinou o mestre Joãosinho Trinta, "o povo gosta de luxo e não de lixo".
O deputado-detento - PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 12/12
Esta hipótese concreta que vou levantar é sensacional.
Acontece que está empatada em votos no Supremo Tribunal Federal a seguinte decisão: se alguns deputados federais, por terem sido condenados no mensalão a penas de prisão, automaticamente perderão seus mandatos ou será a Câmara dos Deputados que terá de cassá-los.
Ocorre que a norma infraconstitucional manda que a Câmara dos Deputados decida em votação secreta se perderão os mandatos os deputados condenados.
Imaginem agora o seguinte, o que é muito provável: a Câmara, em votação secreta, decide que não cassará os mandatos dos deputados condenados, ainda mais que o governo tem maioria na Câmara e todos os deputados condenados votam a favor do governo, tanto que foram condenados porque ganhavam dinheiro para votar a favor do governo.
Pois bem, estará criado assim o impasse-escândalo: deputados condenados continuarão exercendo seus mandatos.
Mas a hipótese que levanto é espetacular: digamos que um ou mais dos deputados condenados criminalmente sejam designados na sentença a cumprir a prisão em regime semiaberto.
Teremos, então, o excêntrico espetáculo de o deputado, de manhã e à tarde, cumprir o seu mandato e à noite ser recolhido à prisão.
Mas isso não é um absurdo?
Evidentemente que uma condenação criminal por crime grave, caso dessas condenações do mensalão, implica perda automática dos direitos políticos. Em consequência, perda dos mandatos.
Não adianta nem discutir. Mas houve quatro ministros do Supremo que votaram pelo contrário: acham que a Câmara é que tem de cassar os mandatos dos parlamentares condenados.
Está em quatro a quatro a votação e se decide com o voto do ministro que falta se pronunciar.
Acho que não vai acontecer, mas um voto apenas pode criar um fato inédito: o deputado-detento, aquele que é parlamentar mas também é preso comum, um despautério monumental.
Pode acontecer ainda nesta legislatura que deputados subam à tribuna usando tornozeleiras.
O ministro Joaquim Barbosa montou num porco quando seus quatro colegas votaram por não cassar o mandato dos deputados condenados.
Ele fica a ouvir com dores nos quadris os votos demorados dos outros ministros. E de repente ele irrompe com sua retórica demolidora a contrariá-los.
Eu sou a pessoa que mais assistiu no Brasil pela televisão ao julgamento do mensalão. Estou quase doutor em Direito Criminal.
Sempre fui, desde a faculdade, interessado por Direito Penal. Não ia ser agora, que se realiza o mais célebre julgamento penal da história brasileira que eu iria deixar de ver os debates.
Aprendi muito sobre pena, aprendi muito sobre continuidade delitiva, aprendi muito sobre dosimetria, mas sobretudo aprendi muito que, mesmo no Supremo, há votos marcados pela parcialidade e por compromissos assumidos fora do plenário.
Vivendo e aprendendo.
Esta hipótese concreta que vou levantar é sensacional.
Acontece que está empatada em votos no Supremo Tribunal Federal a seguinte decisão: se alguns deputados federais, por terem sido condenados no mensalão a penas de prisão, automaticamente perderão seus mandatos ou será a Câmara dos Deputados que terá de cassá-los.
Ocorre que a norma infraconstitucional manda que a Câmara dos Deputados decida em votação secreta se perderão os mandatos os deputados condenados.
Imaginem agora o seguinte, o que é muito provável: a Câmara, em votação secreta, decide que não cassará os mandatos dos deputados condenados, ainda mais que o governo tem maioria na Câmara e todos os deputados condenados votam a favor do governo, tanto que foram condenados porque ganhavam dinheiro para votar a favor do governo.
Pois bem, estará criado assim o impasse-escândalo: deputados condenados continuarão exercendo seus mandatos.
Mas a hipótese que levanto é espetacular: digamos que um ou mais dos deputados condenados criminalmente sejam designados na sentença a cumprir a prisão em regime semiaberto.
Teremos, então, o excêntrico espetáculo de o deputado, de manhã e à tarde, cumprir o seu mandato e à noite ser recolhido à prisão.
Mas isso não é um absurdo?
Evidentemente que uma condenação criminal por crime grave, caso dessas condenações do mensalão, implica perda automática dos direitos políticos. Em consequência, perda dos mandatos.
Não adianta nem discutir. Mas houve quatro ministros do Supremo que votaram pelo contrário: acham que a Câmara é que tem de cassar os mandatos dos parlamentares condenados.
Está em quatro a quatro a votação e se decide com o voto do ministro que falta se pronunciar.
Acho que não vai acontecer, mas um voto apenas pode criar um fato inédito: o deputado-detento, aquele que é parlamentar mas também é preso comum, um despautério monumental.
Pode acontecer ainda nesta legislatura que deputados subam à tribuna usando tornozeleiras.
O ministro Joaquim Barbosa montou num porco quando seus quatro colegas votaram por não cassar o mandato dos deputados condenados.
Ele fica a ouvir com dores nos quadris os votos demorados dos outros ministros. E de repente ele irrompe com sua retórica demolidora a contrariá-los.
Eu sou a pessoa que mais assistiu no Brasil pela televisão ao julgamento do mensalão. Estou quase doutor em Direito Criminal.
Sempre fui, desde a faculdade, interessado por Direito Penal. Não ia ser agora, que se realiza o mais célebre julgamento penal da história brasileira que eu iria deixar de ver os debates.
Aprendi muito sobre pena, aprendi muito sobre continuidade delitiva, aprendi muito sobre dosimetria, mas sobretudo aprendi muito que, mesmo no Supremo, há votos marcados pela parcialidade e por compromissos assumidos fora do plenário.
Vivendo e aprendendo.
O Fortão da Paulista - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 12/12
Não é acaso que tantos ataques a homossexuais tenham acontecido várias vezes na avenida Paulista
O trânsito ali sempre é complicado, mas à noite, com as decorações natalinas, fico pensando se não seria o caso de interditar a avenida Paulista de uma vez.
Estando todos avisados que depois de certo horário só a circulação de pedestres é permitida, pelo menos diminuirá o número dos desesperados que, dentro do carro, esperavam chegar em tempo a seu destino, sem saber que a rua se tornou mais uma atração turística do que um meio racional de circulação.
O passeio pode ser simpático. Puseram árvores de luzinhas que fogem ao esquema habitual. Em vez de troncos com as lâmpadas chinesas enroladas em volta, surgiram espetos de tamanho médio, que durante o dia não se percebem muito, mas à noite se ganham o aspecto de magra e invernal vegetação iluminada.
Crianças pequenas tiram fotos com os pais, passadas as 23h. Adultos descansam sentados em parapeitos, a meio do longo trajeto. Andando por ali, tive sentimentos contraditórios.
Nunca passei o Natal fora do país, mas aquilo podia até ser parecido com Nova York, ou quem sabe Milwaukee. Estava tudo bem até eu ver três garotões de preto, cheios de tachinhas e pulseiras, sem o menor ar de admiração pelos trenós e presépios em volta.
Sosseguei ao ver que havia um carro de polícia estacionado logo ali. Pensei melhor, identificando os garotos mais com alguma vertente punk do que com neonazistas ou assassinos de homossexuais.
Bem à minha frente, dois jovens japoneses pareciam tomar conhecimento com a Paulista pela primeira vez, e temi pelo que pudesse acontecer com eles.
Algo está certamente errado com um lugar onde, ao mesmo tempo, crianças pequenas apontam para imagens de Papai Noel e homossexuais podem ser espancados e mortos à vista de todo mundo -das crianças inclusive.
Certamente, ataques aos gays existem em qualquer parte da cidade, mas não é casual que episódios desse tipo tenham acontecido várias vezes na avenida Paulista.
Provavelmente, o homofóbico faz questão de tornar especialmente pública a sua ação. Viu que na Paulista, na passeata do orgulho gay, existem muito mais membros dessa tribo do que ele próprio pensava.
O poder de centenas de milhares de gays o intimida. Se existem tantos, que será de mim? É claro que, lá no fundo, ele pensa: "quando chegará a minha vez?".
Pois bem, passado o trauma da multidão, ele gostaria que a avenida voltasse ao normal. Um dia de tolerância aos gays não quer dizer que no resto do tempo a homossexualidade esteja permitida.
É como o machão que, certa vez na infância, no campinho de futebol, bem, você sabe... Mas ele é totalmente heterossexual, claro.
Dizem os alemães que uma vez é igual a vez nenhuma: "einmal ist keinmal". Certo, um dia por ano admite-se a festa do orgulho gay. Cabe ao homofóbico destruir, então, qualquer vestígio do que aconteceu.
Não inovo ao dizer que o fortão da avenida Paulista quer destruir, acima de tudo, o seu próprio medo de ter desejos homossexuais. Procura ingerir a heterossexualidade junto com os anabolizantes.
Deveria pensar que a heterossexualidade, como a dimensão dos músculos, é uma questão de grau.
Um dos sujeitos mais heterossexuais que conheci considerava que, depois dos 40 anos, ter barriga é desejável. Mais do que isso, a ausência de barriga chegava a lhe parecer um bocado suspeita.
Há quem vá além. Soube de um cidadão que, mesmo nos transes da adolescência, nunca teve interesse em se masturbar. "Meu negócio é mulher", dizia ele. E o onanismo, pensando bem, não deixa de ser uma forma de obter prazer com alguém do mesmo sexo.
Que dizer, ademais, de um homem que faz questão de sair com mulheres bonitas? É o que quer a maioria; enquanto isso, muitas mulheres não ligam para a feiura dos companheiros.
Concluo que as mulheres, provavelmente, são mais heterossexuais do que os homens -tão ligados, afinal, em frescuras estéticas, enjoamentos, exigências e minúcias.
Como é que aquele gay, pensa o homofóbico da Paulista, pode ser mais bonito do que eu? Surge o impulso agressivo. Ele volta, depois, à academia de ginástica. O espelho, ali, reflete a sua imagem. Ele é a madrasta de Branca de Neve. Que as luzes do Natal não iluminem seu desfile pela Paulista.
Não é acaso que tantos ataques a homossexuais tenham acontecido várias vezes na avenida Paulista
O trânsito ali sempre é complicado, mas à noite, com as decorações natalinas, fico pensando se não seria o caso de interditar a avenida Paulista de uma vez.
Estando todos avisados que depois de certo horário só a circulação de pedestres é permitida, pelo menos diminuirá o número dos desesperados que, dentro do carro, esperavam chegar em tempo a seu destino, sem saber que a rua se tornou mais uma atração turística do que um meio racional de circulação.
O passeio pode ser simpático. Puseram árvores de luzinhas que fogem ao esquema habitual. Em vez de troncos com as lâmpadas chinesas enroladas em volta, surgiram espetos de tamanho médio, que durante o dia não se percebem muito, mas à noite se ganham o aspecto de magra e invernal vegetação iluminada.
Crianças pequenas tiram fotos com os pais, passadas as 23h. Adultos descansam sentados em parapeitos, a meio do longo trajeto. Andando por ali, tive sentimentos contraditórios.
Nunca passei o Natal fora do país, mas aquilo podia até ser parecido com Nova York, ou quem sabe Milwaukee. Estava tudo bem até eu ver três garotões de preto, cheios de tachinhas e pulseiras, sem o menor ar de admiração pelos trenós e presépios em volta.
Sosseguei ao ver que havia um carro de polícia estacionado logo ali. Pensei melhor, identificando os garotos mais com alguma vertente punk do que com neonazistas ou assassinos de homossexuais.
Bem à minha frente, dois jovens japoneses pareciam tomar conhecimento com a Paulista pela primeira vez, e temi pelo que pudesse acontecer com eles.
Algo está certamente errado com um lugar onde, ao mesmo tempo, crianças pequenas apontam para imagens de Papai Noel e homossexuais podem ser espancados e mortos à vista de todo mundo -das crianças inclusive.
Certamente, ataques aos gays existem em qualquer parte da cidade, mas não é casual que episódios desse tipo tenham acontecido várias vezes na avenida Paulista.
Provavelmente, o homofóbico faz questão de tornar especialmente pública a sua ação. Viu que na Paulista, na passeata do orgulho gay, existem muito mais membros dessa tribo do que ele próprio pensava.
O poder de centenas de milhares de gays o intimida. Se existem tantos, que será de mim? É claro que, lá no fundo, ele pensa: "quando chegará a minha vez?".
Pois bem, passado o trauma da multidão, ele gostaria que a avenida voltasse ao normal. Um dia de tolerância aos gays não quer dizer que no resto do tempo a homossexualidade esteja permitida.
É como o machão que, certa vez na infância, no campinho de futebol, bem, você sabe... Mas ele é totalmente heterossexual, claro.
Dizem os alemães que uma vez é igual a vez nenhuma: "einmal ist keinmal". Certo, um dia por ano admite-se a festa do orgulho gay. Cabe ao homofóbico destruir, então, qualquer vestígio do que aconteceu.
Não inovo ao dizer que o fortão da avenida Paulista quer destruir, acima de tudo, o seu próprio medo de ter desejos homossexuais. Procura ingerir a heterossexualidade junto com os anabolizantes.
Deveria pensar que a heterossexualidade, como a dimensão dos músculos, é uma questão de grau.
Um dos sujeitos mais heterossexuais que conheci considerava que, depois dos 40 anos, ter barriga é desejável. Mais do que isso, a ausência de barriga chegava a lhe parecer um bocado suspeita.
Há quem vá além. Soube de um cidadão que, mesmo nos transes da adolescência, nunca teve interesse em se masturbar. "Meu negócio é mulher", dizia ele. E o onanismo, pensando bem, não deixa de ser uma forma de obter prazer com alguém do mesmo sexo.
Que dizer, ademais, de um homem que faz questão de sair com mulheres bonitas? É o que quer a maioria; enquanto isso, muitas mulheres não ligam para a feiura dos companheiros.
Concluo que as mulheres, provavelmente, são mais heterossexuais do que os homens -tão ligados, afinal, em frescuras estéticas, enjoamentos, exigências e minúcias.
Como é que aquele gay, pensa o homofóbico da Paulista, pode ser mais bonito do que eu? Surge o impulso agressivo. Ele volta, depois, à academia de ginástica. O espelho, ali, reflete a sua imagem. Ele é a madrasta de Branca de Neve. Que as luzes do Natal não iluminem seu desfile pela Paulista.
Transições - ROBERTO DAMATTA
O GLOBO - 12/12
O acontecimento da semana foi o trânsito para a eternidade de dois grandes artistas: Oscar Niemeyer, um raríssimo arquiteto; e David “Dave” Brubeck, um extraordinário músico.
Convivi com ambos espiritualmente na minha primeira e mais sonhadora juventude, na lírica fosforescência dos meus 14 aos 18 anos, quando pensei em ser desenhista e arquiteto, tocado por uma imensa admiração por Oscar Niemeyer, cuja obra eu acompanhava, tendo visitado — quando ginasiano do Colégio São José, em Juiz de Fora — o famoso mas ainda desconhecido Colégio de Cataguases, em Minas Gerais. Lá eu vi o mural “Tiradentes” de Portinari, fui envolvido pelos jardins de Burle Marx, fiquei impressionado com as rampas do edifício encomendado, já na década de 40, pela família Peixoto a Niemeyer; e tive um alumbramento no melhor estilo de Manuel Bandeira, ao ouvir Frank Sinatra cantando “Stormy Weather” num enorme e pesado disco de 78 rpm.
Meu laço com a música é igualmente profundo. Nasci ouvindo o piano de minha mãe a tocar todo tipo de composição, sem erro ou embaraço — essa marca dos grandes artistas. Mas conheci o jazz, indo além de Louis Armstrong, por meio da liderança dos Sílvios Lago — o pai — e, sobretudo, o filho, que me fez ouvir o “Dave Brubeck Quartet” e outros e outros monstros do jazz (Oscar Peterson, Bill Evans e o meu favorito, o virtualmente cego Art Tatum) que comparávamos em discussões tão veementes quanto despropositadas, com os grandes clássicos da música europeia — esses sim, músicos de verdade! Graças ao Silvinho, ao Moliterno, ao Paulo, ao Geraldo, entre tantos outros, fui instantânea e permanentemente — esse milagre da música — usurpado pelo “Blue Rondo à la Turk” e pelo “Take Five”.
Vale notar que minha introdução ao jazz, à arquitetura e ao “modernismo” em geral foi paralela à minha descoberta e imediata conversão ao comunismo na sua versão nacional: vitoriana, positivista e milenarista, fundada num esquemático evolucionismo linear que critiquei num dos meus livros mais lidos: “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, muitos anos depois. Mas isso é uma outra história.
Naquele momento, no final da adolescência e tendo as primeiras experiências de homem, eu me deliciava ouvindo música e descobrindo a política da história e, muito mais importante, a história como política. Mas onde eu me concentrava mesmo era na prancheta de desenho, situada debaixo da janela do quarto que servia a mim e aos meus quatro irmãos. Um quarto com camas beliche que mais parecia um alojamento de submarino dos filmes da Segunda Guerra Mundial do que um lugar para dormir. Ali, eu estudava e vivia o gênio do Oscar Niemeyer desenhando tudo: casas, cidades, discos voadores, foguetes interplanetários, paisagens do planeta Mongo governado pelo despótico Imperador Ming que, se a memória não me falha, era tão apaixonado quanto eu pela lindíssima Dale Arden, cujo amor por Flash era, contudo, indiscutível.
A triste passagem de um arquiteto e de um músico mexeram com esse passado de afinidades apenas desenhadas. E dão muito o que pensar. Pois o arquiteto transforma a casa, a repartição pública ou o palácio dos poderosos, essas coisas edificadas com base instrumental e dentro da irredutível lei da gravidade que prende, em desvios que libertam. Tal como no caso de Frank Lloyd Wright, outro gênio da arquitetura que eu também admirava, pois também desenhei o meu prédio de uma milha de altura sem saber que, como ensina Schopenhauer, o centro da experiência estética na arquitetura é a luta permanente entre o curvo e o reto, entre o que puxa para baixo, e a imaginação do artista que leva propositadamente para o alto em retas ou curvas.
Justo o que Oscar Niemeyer demarcou pela oposição entre o encurvado e o espiralado, típicos de sua obra, e o retilíneo — o reto humano — esse reto inexistente e talvez contrário à natureza, mas fundamental na cultura. Já na música, trabalha-se com gradações e os sons, como ensina novamente Schopenhauer, o filósofo das artes, essas continuidades rompidas ou reforçadas pelo ritmo nos penetram de modo profundo e enigmático, mesmo quando não queremos, pois, se o laço entre o mundo e a arquitetura é óbvio e racional, tal não ocorre com a música — exceto nos seus níveis mais grosseiros. De fato, sabemos que os despotismos adoram rimas e rodas, marchas e desfiles para os poderosos. Como aprendi com Milan Kundera, essas rimas são uma clara expressão da coerção e da força bruta emanada de quem gosta do poder total. Mas nesse caso a música é devorada pela política. Ademais, a música é fugaz e, sendo temporal, depende de um executor e, como os livros, tem um início, um meio e um final, demandando paciência e cumplicidade. Pois só o cantor por ela imbuído dá-lhe vida. Já na arquitetura, muda-se e constrange-se a paisagem humana de modo permanente e os poderosos sempre souberam disso desde os tempos das cavernas. Essas cavernas que se transformaram em palácios-templos monumentais dos deuses-reis e faraós.
Termino com outro artista. Ao ser perguntado por que não tirava férias e, aos oitenta e poucos anos, continuava cantando, Tony Bennett que me fez descobrir que como sempre fui um estranho no paraíso, respondeu: mas eu nunca trabalhei, por que tiraria férias?
Assim foi com o Oscar e o Brubeck: amavam o que faziam. Viveram a arte pela arte na plena certeza de que obramos todos com amor, mesmo sabendo da gratuidade imensa da vida.
O acontecimento da semana foi o trânsito para a eternidade de dois grandes artistas: Oscar Niemeyer, um raríssimo arquiteto; e David “Dave” Brubeck, um extraordinário músico.
Convivi com ambos espiritualmente na minha primeira e mais sonhadora juventude, na lírica fosforescência dos meus 14 aos 18 anos, quando pensei em ser desenhista e arquiteto, tocado por uma imensa admiração por Oscar Niemeyer, cuja obra eu acompanhava, tendo visitado — quando ginasiano do Colégio São José, em Juiz de Fora — o famoso mas ainda desconhecido Colégio de Cataguases, em Minas Gerais. Lá eu vi o mural “Tiradentes” de Portinari, fui envolvido pelos jardins de Burle Marx, fiquei impressionado com as rampas do edifício encomendado, já na década de 40, pela família Peixoto a Niemeyer; e tive um alumbramento no melhor estilo de Manuel Bandeira, ao ouvir Frank Sinatra cantando “Stormy Weather” num enorme e pesado disco de 78 rpm.
Meu laço com a música é igualmente profundo. Nasci ouvindo o piano de minha mãe a tocar todo tipo de composição, sem erro ou embaraço — essa marca dos grandes artistas. Mas conheci o jazz, indo além de Louis Armstrong, por meio da liderança dos Sílvios Lago — o pai — e, sobretudo, o filho, que me fez ouvir o “Dave Brubeck Quartet” e outros e outros monstros do jazz (Oscar Peterson, Bill Evans e o meu favorito, o virtualmente cego Art Tatum) que comparávamos em discussões tão veementes quanto despropositadas, com os grandes clássicos da música europeia — esses sim, músicos de verdade! Graças ao Silvinho, ao Moliterno, ao Paulo, ao Geraldo, entre tantos outros, fui instantânea e permanentemente — esse milagre da música — usurpado pelo “Blue Rondo à la Turk” e pelo “Take Five”.
Vale notar que minha introdução ao jazz, à arquitetura e ao “modernismo” em geral foi paralela à minha descoberta e imediata conversão ao comunismo na sua versão nacional: vitoriana, positivista e milenarista, fundada num esquemático evolucionismo linear que critiquei num dos meus livros mais lidos: “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, muitos anos depois. Mas isso é uma outra história.
Naquele momento, no final da adolescência e tendo as primeiras experiências de homem, eu me deliciava ouvindo música e descobrindo a política da história e, muito mais importante, a história como política. Mas onde eu me concentrava mesmo era na prancheta de desenho, situada debaixo da janela do quarto que servia a mim e aos meus quatro irmãos. Um quarto com camas beliche que mais parecia um alojamento de submarino dos filmes da Segunda Guerra Mundial do que um lugar para dormir. Ali, eu estudava e vivia o gênio do Oscar Niemeyer desenhando tudo: casas, cidades, discos voadores, foguetes interplanetários, paisagens do planeta Mongo governado pelo despótico Imperador Ming que, se a memória não me falha, era tão apaixonado quanto eu pela lindíssima Dale Arden, cujo amor por Flash era, contudo, indiscutível.
A triste passagem de um arquiteto e de um músico mexeram com esse passado de afinidades apenas desenhadas. E dão muito o que pensar. Pois o arquiteto transforma a casa, a repartição pública ou o palácio dos poderosos, essas coisas edificadas com base instrumental e dentro da irredutível lei da gravidade que prende, em desvios que libertam. Tal como no caso de Frank Lloyd Wright, outro gênio da arquitetura que eu também admirava, pois também desenhei o meu prédio de uma milha de altura sem saber que, como ensina Schopenhauer, o centro da experiência estética na arquitetura é a luta permanente entre o curvo e o reto, entre o que puxa para baixo, e a imaginação do artista que leva propositadamente para o alto em retas ou curvas.
Justo o que Oscar Niemeyer demarcou pela oposição entre o encurvado e o espiralado, típicos de sua obra, e o retilíneo — o reto humano — esse reto inexistente e talvez contrário à natureza, mas fundamental na cultura. Já na música, trabalha-se com gradações e os sons, como ensina novamente Schopenhauer, o filósofo das artes, essas continuidades rompidas ou reforçadas pelo ritmo nos penetram de modo profundo e enigmático, mesmo quando não queremos, pois, se o laço entre o mundo e a arquitetura é óbvio e racional, tal não ocorre com a música — exceto nos seus níveis mais grosseiros. De fato, sabemos que os despotismos adoram rimas e rodas, marchas e desfiles para os poderosos. Como aprendi com Milan Kundera, essas rimas são uma clara expressão da coerção e da força bruta emanada de quem gosta do poder total. Mas nesse caso a música é devorada pela política. Ademais, a música é fugaz e, sendo temporal, depende de um executor e, como os livros, tem um início, um meio e um final, demandando paciência e cumplicidade. Pois só o cantor por ela imbuído dá-lhe vida. Já na arquitetura, muda-se e constrange-se a paisagem humana de modo permanente e os poderosos sempre souberam disso desde os tempos das cavernas. Essas cavernas que se transformaram em palácios-templos monumentais dos deuses-reis e faraós.
Termino com outro artista. Ao ser perguntado por que não tirava férias e, aos oitenta e poucos anos, continuava cantando, Tony Bennett que me fez descobrir que como sempre fui um estranho no paraíso, respondeu: mas eu nunca trabalhei, por que tiraria férias?
Assim foi com o Oscar e o Brubeck: amavam o que faziam. Viveram a arte pela arte na plena certeza de que obramos todos com amor, mesmo sabendo da gratuidade imensa da vida.
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